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O Sono Peculiar dos Amados de Deus Sermão nº 12 Ministrado na manhã de domingo, 4 de março de 1855 Pelo Rev. Charles Haddon Spurgeon Em Exeter Hall, Strand, Londres, Inglaterra

poisassim dá ele aos seus amados o sonoSalmo 127.2 (Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

O sono do corpo é dom de Deus. Assim disse Homero, nos tempos antigos, quando

o descreveu como se descesse das nuvens e repousasse sobre as tendas dos guerreiros

ao redor da antiga Troia (Ilíada, Canto II). E Virgílio, em sua canção, quando falou de

Palinuro adormecido na proa do seu navio. O sono é dom de Deus. Nós achamos que, quando deitamos a cabeça no travesseiro e acomodamos nosso corpo numa posição confortável, o sono virá natural e necessariamente. Mas não é assim. O sono é dom de Deus; e ninguém consegue fechar os olhos para dormir se Deus não colocar os dedos em suas pálpebras; se o Todo-Poderoso não enviar Sua influência calma e reconfortante para

embalar e aquietar seus pensamentos, fazendo-o entrar naquele estado de felicidade a que chamamos de sono. É verdade que existem drogas e narcóticos que levam as pessoas a um estado quase de morte, ao qual chamam de sono; mas o sono saudável é dom de Deus.

É Ele quem o dá; é Ele quem embala o nosso berço todas as noites; é Ele quem fecha as

cortinas da escuridão; é Ele quem ordena ao sol que cerre os olhos flamejantes; e depois

vem e diz: “Dorme, meu filho, dorme, Eu te dou o sono”. Alguma vez você já foi para a cama

e não conseguiu pegar no sono? E, como se disse de Dario, poderia ser dito de você: “não

deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e fugiu dele o sono” (Daniel 6.18)? Você tenta, tenta, mas não consegue dormir; está além do seu poder ter um bom descanso. Você imagina que, se se concentrar em alguma coisa até que ela ocupe seu pensamento, você irá dormir; no entanto, até mesmo disso você é incapaz. Milhares de coisas se passam pela sua cabeça, como num turbilhão. Coisas passadas ficam dançando como loucas diante

dos seus olhos. Você os fecha, mas continua vendo; e há coisas também em seus ouvidos, na sua cabeça e no seu cérebro que não o deixam dormir. Somente Deus pode cerrar os olhos do jovem marinheiro no alto do mastro oscilante e dar descanso ao rei, pois este, mesmo com todos os seus recursos, não pode repousar sem o auxílio de Deus. Só Ele pode mergulhar a nossa mente no esquecimento e nos convidar a dormir, a fim de que nosso corpo se refaça e nos levantemos revigorados e fortalecidos para o trabalho do dia seguinte. Ah, meus queridos, como devemos ser gratos a Deus pelo sono! O sono é o melhor médico que conheço. O sono cura mais dores de ossos cansados do que os médicos mais famosos do mundo. O sono é o melhor remédio; é a melhor escolha na lista de medicamentos da farmácia. Não há nada como o sono! É é maravilhoso o sono pertencer a todo mundo! Deus não faz do sono uma bênção só para o rico; ele não o dá somente aos nobres ou aos poderosos, a fim de que possam mantê-lo como um luxo exclusivo para si; Deus concede o sono a todos. Mas, se há uma diferença, esta é que o sono do trabalhador é doce, quer ele coma pouco ou muito. Aquele cujo trabalho é árduo

tem um sono mais profundo. Enquanto as pessoas mais abastadas e delicadas não conseguem dormir, revirando-se na cama macia, aquele que trabalha duro, com seus membros fortes e vigorosos, cansado e exaurido, se atira no catre duro e dorme, e acorda, graças a Deus que o revigora. Vós sabeis, meus amigos, o quanto deveis a Deus por Ele vos dar o descanso noturno. Se tivésseis noites insones, daríeis valor a essa bênção. Se, por semanas a fio, não pudésseis dormir, revirando-vos de um lado para outro na cama, daríeis graças a Deus por Seu favor. No entanto, como o sono é um dom de Deus, um dom precioso que ninguém valoriza até ser tirado, nós não o apreciamos como devemos.

O salmista diz que algumas pessoas se recusam a dormir. Às vezes, por dinheiro ou

ambição, elas se levantam cedo e dormem tarde. Alguns de nós talvez tenhamos o mesmo problema. Quando queremos ler um bom livro para aumentar nosso conhecimento, nós levantamos bem cedinho e ficamos acordados até tarde, muitas vezes até o sol raiar, até que nossos olhos fiquem ardendo, nosso cérebro fique entorpecido e nosso coração fique palpitante. Ficamos cansados e esgotados; levantamos cedo e dormimos tarde e, por isso, acabamos comendo o pão que penosamente granjeamos. Muitos aqui são homens de negócio que trabalham dessa forma. Não os condenamos por isso; não os proibimos de levantar cedo e dormir tarde, mas gostaríamos que se lembrassem deste texto: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Salmo 127.2). É sobre esse sono, que Deus dá a Seus amados, que queremos falar nesta manhã o sono peculiar dos filhos de Deus um sono que Ele dá a “Seus amados”. Que Deus nos ajude.

O sono, na Palavra de Deus, algumas vezes é usado em sentido pejorativo para

designar a condição de homens lascivos e mundanos. Alguns têm o sono da preguiça e da lassidão: os filhos insensatos dos quais Salomão nos fala, que dormem na sega e causam vergonha (Provérbios 10.5); pois, quando a sega é consumida e acaba o verão, eles não são salvos. O sono quase sempre é exemplo da indolência, preguiça, indiferença, que caracteriza os ímpios, de acordo com as palavras: “já é hora de vos despertardes do sono” “Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios”. Muita gente dorme o sono do indolente, o qual repousa no leito da preguiça; no entanto, elas terão um despertar horrível ao descobrir que o tempo se foi; que as areias douradas da vida escorreram despercebidas na ampulheta; e que elas entraram naquele mundo onde não existe perdão, nem esperança, nem refúgio, nem salvação.

Em outros lugares, vemos o sono usado como figura de segurança pessoal. Vejam o caso de Saul, mergulhado no sono devido à segurança ao seu redor não como Davi, que disse: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só tu me fazes repousar seguro” (Salmo 4.8). Abner está ao lado de Saul, e suas tropas à sua volta, mas Abner pega no sono. Dorme, Saul, dorme. Só que tem um Abisai ao lado do teu travesseiro, com a lança em punho, dizendo: “deixa-me, pois, agora, encravá-lo com a lança, ao chão, de um só golpe; não será preciso segundo” (1 Samuel 26.8). E Saul continua dormindo; sem saber de nada. O mesmo acontece com muitos que estão aqui hoje, dormindo com a alma em risco; Satanás está pronto; a lei está a postos; a vingança está ansiosa, e todos dizem:

“Vamos encravá-lo? Vamos encravá-lo de uma vez e ele nunca mais acordará”. Mas Cristo diz: “Calma aí, vingança, calma aí”. Vejam, a lança agora treme “Calma aí, espere mais um ano, ele pode acordar de seu longo sono de pecado”. Eu te digo, pecador que, como

Sísera, estás dormindo na tenda do destruidor; talvez estejas comendo manteiga e mel em prato de ouro, mas estás dormindo na porta do inferno; agora mesmo o inimigo está com o martelo e a estaca prontos para cravar na tua têmpora e te pregar na terra, onde irás jazer para sempre na morte do tormento eterno se é que se pode chamar de morte.

Na Escritura também é mencionado o sono da luxúria, como o de Sansão quando perdeu suas tranças. Esse é o tipo de sono que muitos têm quando são indulgentes com o pecado e, ao acordar, descobrem que estão nus, perdidos e arruinados. E há também o sono da negligência, como o daquelas virgens, das quais está escrito: “foram todas tomadas de sono e adormeceram” (Mateus 25.5); e o sono da tristeza, que tomou conta de Pedro, Tiago e João. Mas nenhum deles é dom de Deus. Todos estão ligados à fragilidade da nossa natureza; eles nos sobrevêm porque somos falíveis; eles se apoderam lentamente de nós porque somos filhos de um ancestral arruinado e perdido. Esses tipos de sono não são bênçãos de Deus; e nem Ele concede aos Seus amados. Agora, então, vamos dizer quais são os tipos de sono que Ele concede.

1. Em primeiro lugar, havia um sono extraordinário que Deus muitas vezes dava a Seus amados, mas que agora não dá mais. Foi nesse tipo de sono miraculoso, ou melhor, nesse transe, que caiu Adão, quando adormeceu triste e sozinho e, ao acordar, já não estava só, pois Deus lhe dera o melhor presente que poderia dar ao homem. Também foi esse o sono de Abraão quando é dito que sobre ele caiu profundo sono, e ele se prostrou e viu diante de si um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo, enquanto uma voz lhe dizia:

“Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande” (Gênesis 15.1). Jacó também teve um sono semelhante ao tomar uma pedra como travesseiro e as sebes como cortinas, deitar-se e dormir. Em sonho, ele viu uma escada posta na terra cujo topo chegava ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela (Gênesis 28.12). O mesmo aconteceu com José, quando sonhou que os feixes dos outros faziam reverência para o seu (Gênesis 37.7), e que o sol, a lua e onze estrelas se inclinavam perante ele. Davi, de tempos em tempos, também tinha um bom repouso, quando o sono era doce para ele, conforme lemos no Salmo 4: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR,

só tu me fazes repousar seguro. Daniel também teve um sono extraordinário quando disse:

“caí sem sentidos, rosto em terra, e vi o Senhor que me disse: Levanta-te sobre os teus pés” (Daniel 10.9-11). O mesmo aconteceu com aquele que era considerado pai de nosso bendito Senhor, quando à noite, em uma visão, um anjo lhe disse: “José, dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece lá até que eu te avise; porque Herodes há de procurar o menino para o matar” (Mateus 2.13). Todos esses sonos são milagrosos.

O anjo de Deus toca em Seus servos com a varinha mágica do sono e eles dormem, não

como nós dormimos, mas com um sono incrível; eles caem nas profundezas do sono e mergulham num mar de descanso, onde veem o invisível, falam com o desconhecido e

ouvem sons místicos e maravilhosos; e, quando acordam, dizem: “Que sono! O meu sono

foi doce para mim” (Jeremias 31.26). “Assim dá ele aos seus amados o sono”.

No entanto, atualmente não existe mais esse tipo de sono. Muitas pessoas sonham com coisas maravilhosas, mas a maioria só sonha com coisas sem sentido. Alguns depositam sua fé em sonhos: e, com certeza Deus ainda nos adverte por meio de sonhos e visões. Tenho certeza de que Ele o faz. Não há ninguém que não possa mencionar um ou mais exemplos de advertência, ou favor, que tenha recebido em um sonho. Contudo, não

podemos confiar em sonhos. Lembro-me de que Rowland Hill (pregador inglês influenciado por George Whitefield) disse a uma senhora que ele sabia ser filha de Deus, a qual tivera um certo sonho: “Não se importe, madame, com aquilo que fez quando dormia, vejamos o que fará quando estiver acordada”. Esta é a minha opinião sobre sonhos. Nunca vou acreditar que alguém seja cristão simplesmente porque sonhou consigo mesmo; pois uma religião de sonhos fará com que a pessoa seja sonhadora pelo resto da vida e, no final, tais sonhadores terão um terrível despertar, se isso for tudo em que confiam.

2. Em segundo lugar, Deus dá a Seus amados o sono de uma consciência tranquila. Creio que a maioria de nós já viu aquele esplêndido quadro em exibição na Academia Real de Londres O Último Sono de Argyll Antes da Execução (1685, Edward Matthew Ward), no qual ele está dormindo tranquilamente momentos antes da sua execução. Na tela, vemos um nobre parado, olhando-o quase com remorso; e também o carcereiro, com suas chaves penduradas; no entanto, o homem está realmente dormindo, mesmo sabendo que na manhã seguinte sua cabeça estará totalmente separada do corpo, e alguém a pegará e dirá: “Eis a cabeça do traidor”. O homem estava dormindo porque tinha a consciência tranquila, por nada ter feito de errado. Agora, vejamos Pedro. Já repararam como é notável aquela passagem onde está escrito que Herodes pretendia apresentá-lo ao povo no dia seguinte, mas enquanto Pedro dormia entre dois soldados, um anjo o tocou? Dormindo entre dois soldados, quando na manhã seguinte ele deveria ser crucificado ou morto! Ele não se importava, pois seu coração estava limpo; ele nada tinha feito de errado. Ele podia dizer: “Julgai se é justo diante de Deus servir a vós outros do que a Deus” (Atos 4.19), e, por isso, ele se deitou e dormiu. Ah, senhores! Vocês sabem o que é o sono de uma consciência tranquila? Já tiveram de enfrentar calúnias, lançadas por todo tipo de gente? Já viraram objeto de escárnio, de riso, de canção de bêbados? Se já, conseguiram dormir depois disso, como se nada tivesse acontecido, porque seu coração estava limpo? Ah! Vós que estais em débito vós que sois desonestos vós que não amais a Deus, nem a Cristo fico me perguntando se conseguem dormir, pois o pecado coloca espinhos afiados no travesseiro. O pecado coloca um punhal na cama da pessoa, de forma que, para onde quer que ela se vire, leva uma cutucada. Uma consciência tranquila, no entanto, é a música mais doce para embalar a alma. O demônio do desassossego não chega na cama de quem tem uma consciência tranquila uma consciência que está em paz com Deus e que pode cantar:

Com o mundo, comigo e contigo Eu, ao dormir, em paz não litigo

“Assim dá ele aos seus amados o sono”.

Contudo, preciso dizer a vocês que não conhecem a sua eleição em Cristo Jesus, que não confiam no preço do sangue do Salvador não foram chamados pelo Espírito Santo não foram regenerados e não nasceram de novo deixe-me lhes dizer que vocês não conhecem tal descanso. Talvez sua consciência esteja em paz; talvez vocês digam que não fizeram mal a ninguém e acreditam que quando estiverem diante do tribunal de Deus terão poucas contas a prestar. No entanto, cavalheiros, vocês sabem que a alma que peca, mesmo que seja uma única vez, deve morrer. Se uma pintura tem uma única falha, ela não é perfeita. Se pecaram uma única vez, serão condenados por isso, a menos que tenham

alguma coisa para tirar esse pecado. Vós não conheceis o sono de uma consciência tranquila, mas o cristão conhece, pois todos os seus pecados foram computados na cabeça do antigo “bode emissário”. Cristo morreu por todos os pecados dos crentes, por maiores ou piores que tenham sido; e agora não há nada escrito contra eles no Livro de Deus. “Eu, eu mesmo”, diz Deus, “sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43.25). Agora, podeis dormir, pois “Assim dá ele aos seus amados o sono”.

Além disso, há o sono do contentamento que o crente desfruta. Pouquíssimas pessoas neste mundo estão satisfeitas. Ninguém deve recear oferecer uma recompensa a uma pessoa contente, pois se alguém viesse reclamar, é óbvio que estaria demonstrando seu descontentamento. Desconfio que, em certa medida, todos nós estejamos insatisfeitos com a nossa sorte; a grande maioria das pessoas está sempre voando de um lado para outro; nunca se estabelece; nunca pousa em alguma árvore para construir seu ninho; está sempre voando de uma para outra. Esta não está muito verde; esta outra não é muito alta; aquela ali não é muito frondosa; e aquela acolá não é muito viçosa; e assim, está sempre voando pra lá e pra cá, sem nunca construir um ninho calmo e tranquilo. O cristão, no entanto, constrói seu ninho e, como disse o nobre Lutero: “Como aquele passarinho na árvore, ele se alimenta esta noite sem saber onde estará seu café da manhã no dia seguinte. Ele fica ali quietinho enquanto a árvore é balançada pelo vento; ele fecha os olhinhos, põe a cabecinha debaixo da asa e dorme; e, quando acorda pela manhã, canta:

Os mortais cessam seu labor e tristeza Para amanhã, Deus proverá, com certeza”

Pouquíssimos são aqueles que possuem a bênção do contentamento que podem dizer:

“Nada mais quero; tenho tudo de que preciso nada mais desejo estou satisfeito estou contente”. Acabamos de cantar um belo hino, mas tenho a impressão de que muitos não tinham o direito de cantá-lo, pois não se sentem assim.

Em Tua vontade entrego a minha sorte Concede-me só mais um favor Que tanto na vida quanto na morte Eu prove sinais do Teu amor

Será que você poderia dizer que não quer mais nada neste mundo, a não ser Jesus? Poderia dizer que está totalmente satisfeito que tem o sono do contentamento? Ah! Não mesmo! Os aprendizes suspiram até se tornarem oficiais; os oficiais se esforçam para se tornarem chefes; os chefes anseiam pela aposentadoria, mas, quando se aposentam, almejam ver seus filhos estabelecidos. O homem está sempre olhando além; é um marinheiro que nunca alcança o porto; uma flecha que nunca atinge o alvo. O cristão, no entanto, tem este texto e medita nele: “assim dá ele aos seus amados o sono”. Certa vez, quando me encontrava meio adormecido, pareceu-me estar num castelo. Ao redor de suas muralhas havia um fosso profundo. Guardas marchavam sobre elas dia e noite. Era uma bela fortaleza antiga que desafiava o inimigo; mas eu não estava feliz ali. Pensei em me deitar, mas, mal fechei os olhos, soou uma trombeta: “Às armas! Às armas!”. Quando o perigo passou, deitei-me novamente. “Às armas! Às armas!”, ressoou mais uma vez, e mais uma vez coloquei-me de pé. Não conseguia descansar. Estava com minha armadura,

andando de um lado para o outro, sempre protegido pela cota de malha, voando para o topo do castelo a cada novo alarme. Às vezes o inimigo vinha do leste, outras do oeste. Acho que tinha algum tesouro escondido no castelo e era meu dever guardá-lo. Estava apavorado, temendo que alguém pudesse tomá-lo de mim. Então acordei e pensei que jamais viveria num lugar como aquele, por mais imponente que ele fosse. Aquele era o castelo do descontentamento, o castelo da ambição, onde nunca ninguém descansa. É sempre: “Às armas! Às armas!” O inimigo está por todo lado. O precioso tesouro precisa ser guardado. O sono nunca atravessa a ponte levadiça do castelo do descontentamento. Então, achei que poderia apagar essa imagem substituindo-a por um sonho muito melhor. Eu estava em um chalé. Era um daqueles lugares a que os poetas chamam de belo e agradável, mas isso não importava. Eu não tinha nada, só uma joia cintilante no peito; coloquei minha mão sobre ela e fui dormir, e só acordei na manhã do dia seguinte. Esse tesouro era uma consciência tranquila e o amor de Deus “a paz que excede todo o entendimento”. Eu dormi, porque dormi na casa do contentamento, satisfeito com aquilo que tinha. Vão, sovinas miseráveis! Vão, ávidos ambiciosos! Não invejo sua vida irrequieta. O sono dos políticos, com frequência, é quebrado; o sonho do avarento é sempre ruim; o sono do homem que ama o lucro nunca é saudável; contudo, Deus “dá”, pelo contentamento, “aos seus amados o sono”.

4. E ainda, Deus dá aos Seus amados o sono da quietude da alma em relação ao futuro. Ah, o futuro sombrio! O futuro! O presente pode ser bom; mas, e se a próxima ventania secar todas as flores, onde estarei? Tu, sovina, segura firme o teu ouro, pois “certamente, a riqueza fará para si asas, como a águia que voa pelos céus” (Provérbios 23.5). Mãe, aperta teu filho contra o peito, pois a horrível mão da morte pode roubá-lo de ti. Ó, homem cheio de ambição, olha a tua fama e te admires dela! Pois, apenas um ligeiro boato poderá acabar com a tua reputação e, pelas vozes da multidão, descerás da mesma forma que foste elevado. Ah, o futuro! Todos precisam temer o futuro, exceto o cristão. Deus dá a Seus amados o sono em relação aos acontecimentos do porvir.

Seja como for o futuro,

Bom ou mau, estou seguro; Meu coração no Senhor descansa,

O Seu desígnio sempre me alcança.

Se vou viver ou morrer, não me importa; se vou ser “escória de todos” ou “o homem a quem

o rei deseja honrar”, também não me importa. Tudo é igual, se vem do Pai. “Pois assim dá

ele aos seus amados o sono”. Quantos aqui já tiveram a felicidade de dizer que não desejam absolutamente mais nada? É bom ter pelo menos um único desejo; mas é ainda melhor não ter nenhum estar totalmente imerso no presente, regozijando-se em Cristo e na antevisão da Sua face. Ah, minh’alma! Como seria o futuro, se não tivesses a Cristo? Que importa um futuro amargo e sombrio, se Cristo, teu Senhor, o santificar, e o Espírito Santo te der coragem, energia e força? Grande bênção é poder dizer junto com Madame Guyon

Tudo é igual se ordenado pelo amor Vida ou morte, prazer ou sofrer Mal não vê minh’alma na dor

Nem bem real na saúde e prazer

Um único bem ambiciono Sem egoísmo, Tua vontade escolher Preferir uma choupana a um trono

E dor ao conforto, se for Teu querer

É Teu mandar minha cruz suportar

Morrer para o mundo e viver sem pecado Sob a mais rude mão com paciência penar Feliz em naufrágio ou em terra amparado

Quem alcança essa condição é feliz. “Pois assim dá ele aos seus amados o sono”. Ah! Se

você tem um desejo egoísta no coração, peça a Deus para removê-lo. Você é egocêntrico? Suplique ao Espírito Santo para mudar sua atitude; pois se sempre fizer as coisas conforme

a vontade de Deus, você será feliz. Uma vez ouvi falar de uma senhora que vivia numa

casinha muito humilde e que não tinha nada, a não ser um pedaço de pão e umas migalhas, mas que levantava as mãos para o alto, como que proferindo uma bênção, e dizia: “O quê? Tudo isso, além de Cristo?”. Sim, é “tudo isso”, se comparado ao que merecemos. Li também sobre um homem que estava às portas da morte, a quem perguntaram se preferia viver ou morrer, e ele respondeu: Não penso nisso. Mas, e se pudesse desejar uma coisa ou outra, o que escolheria? Não escolheria. Mas, e se Deus lhe pedisse para escolher? Eu pediria que Ele escolhesse por mim, pois não saberia o que fazer”. Isso é felicidade! Isso é felicidade! Ser totalmente aquiescente

Entregar-se passivamente em Suas mãos

E nada saber além da Sua vontade.

“Pois assim dá ele aos seus amados o sono”

5. Em quinto lugar: há também o sono da segurança. Salomão dormia com homens armados ao redor da sua cama, por isso, dormia em segurança; mas o pai de Salomão certa noite dormiu no chão duro não num palácio sem fosso ao redor do castelo no, entanto, dormiu com tanta segurança quanto seu filho, pois disse: “Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta” (Salmo 3.5). Ora, algumas pessoas nunca se sentem seguras, e eu me pergunto se metade de meus ouvintes também não se sentem assim. Suponha que, de repente, eu comece a cantar:

Até o fim vou suportar Com a segurança que me é dada Mais feliz, não mais segura deve estar Toda alma no céu glorificada

Você poderia me dizer que esta é uma doutrina muito elevada; e eu responderia que, para você, talvez seja, mas é uma verdade de Deus, e é preciosa para mim. Eu amo saber que, se sou predestinado segundo a presciência de Deus, devo ser salvo; se fui comprado pelo sangue do Filho, não posso ser perdido, pois seria impossível que Jesus perdesse qualquer um dos Seus redimidos, caso contrário Ele não Se satisfaria com a Sua obra. Sei que onde

Ele começou boa obra, Ele há de terminá-la. Nunca tive receio de me desviar ou de ser perdido; meu único temor seria se não tivesse sido justificado; mas já que fui, já que sou realmente filho de Deus, posso até acreditar que o sol poderia enlouquecer e cambalear pelo universo como um bêbado que as estrelas sairiam de seus cursos e, em vez de marchar a passos comedidos, como o fazem agora, iriam rodopiar pelo céu numa orgia desenfreada poderia até mesmo imaginar que todo este vasto universo poderia submergir em Deus, como “a espuma de um momento desaparece sob a onda que a

sustenta” (citação da obra A Life Drama and other poems,de Alexander Smith, cena II, p. 35, 1859, Boston: Ticknor and Fields). No entanto, nem razão, nem heresia, nem lógica, nem eloquência, nem um conclave de religiosos, me fará levar sequer em consideração a terrível sugestão de que um filho de Deus pode perecer. Portanto, posso trilhar meu caminho na terra com confiança. Ainda há pouco, discutindo com um arminiano, ele disse:

“Senhor, você deve ser um homem muito feliz, pois, se o que você diz é verdade, você

está tão seguro de ir para céu que é como se já estivesse lá”. “Sim, sei disso”, repliquei.

“Então, você deve viver acima das preocupações e tribulações, e deve cantar o dia

inteiro”. E eu lhe disse: “Assim devo ser e assim serei, com a ajuda de Deus”. Isso é segurança. “Dá ele aos seus amados o sono”. Saber que, quando morrer, vou para o céu ter tanta certeza, quanto tenho da minha própria existência, de que Deus, tendo me amado com amor eterno, e sendo Ele imutável, jamais me odiaria se um dia me amou saber que vou entrar no reino da Sua glória não será isso suficiente para aliviar todos os fardos e dar a meus pés a ligeireza da corça para que eu me firme nas alturas (Salmo 18.33)? Que segurança! “Pois assim dá ele aos seus amados o sono”.

E há um sono, meus amigos, de segurança, que é desfrutado aqui na terra mesmo em meio a grandes tribulações. Lembram-se daquela passagem do livro de Ezequiel em que está escrito: “seguras habitarão no deserto e dormirão nos bosques” (Ezequiel 34.25)”? Que lugar estranho para se dormir! “Nos bosques”. Ali tem lobo; tem tigre no meio do mato; tem águia rondando no céu; e um bando de ladrões vivendo na floresta. Mas o filho de Deus diz: “Não importa”.

Quem em Deus encontra guarida Tem morada segura e querida Sob Sua sombra de dia andará

E à noite em paz dormirá

Sempre admirei a postura de Martinho Lutero. Quando falavam mal dele, sabem o que ele dizia? “Lembro-me de um Salmo que diz: ‘Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares’ (Salmo 46.1-3)”. De modo bem menos incisivo, também tenho sido chamado a enfrentar problemas como os de Lutero e tenho sido alvo de

difamação e objeto de zombaria e escárnio; no entanto, isso não tem abatido meu espírito;

e nem abaterá, enquanto eu for capaz de desfrutar dessa calma interior: “assim dá ele aos

seus amados o sono”. Contudo, tomo a liberdade de dizer àqueles que preferem zombar e falar mal de mim, que fiquem à vontade e o façam até se cansar. Meu moto é cedo nulli não me rendo a ninguém. Nunca procurei a simpatia de quem quer que seja; nem pedi

1

1 não cedo nunca (tradução livre)

apoio para o meu ministério; prego o que quero, quando quero e como quero. Ah! Que felicidade! Ser ousado, apesar de abatido e magoado dobrar os joelhos e contar tudo ao Pai, e depois ir para os meus aposentos e dizer:

Se por Teu doce Nome Vergonha e rejeição eu passar Uma e outra são bem-vindas Pois de mim sei que vais Te lembrar

6. O último sono dado por Deus a Seus amados é o sono da alegre despedida. Já estive diante do túmulo de muitos servos do Senhor. Já enterrei algumas das melhores pessoas do mundo; e quando dou adeus a meus irmãos que estão sendo baixados à sepultura, costumo iniciar com estas palavras: “assim dá ele aos seus amados o sono”. Amados servos de Jesus! Eu os verei lá! O que mais posso dizer sobre eles, senão que “assim dá ele aos seus amados o sono”? Ah! Que sono feliz! Neste mundo há muita agitação, mas na sepultura eles descansam. Ali não há tristeza, suspiro ou gemido para se misturar com as canções que brotam das línguas imortais. Por isso, posso me dirigir ao morto e dizer: “Irmão, muitas vezes travaste as batalhas deste mundo; tiveste as tuas preocupações; mas agora já partiste não para mundos desconhecidos, mas para a pátria de luz e glória além. Descansa em paz, meu irmão! Tua alma não dorme, porque tu estás no céu; mas teu corpo repousa. A morte te colocou no teu último leito; talvez seja frio, mas é santificado; talvez seja úmido, mas é seguro; e na manhã da ressurreição, quando o arcanjo tocar a trombeta, tu ressuscitarás. “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13). Descansa no teu túmulo, meu irmão, pois ressuscitarás para a glória. “Assim dá ele aos seus amados o sono”.

Alguns aqui têm medo de morrer, e com boa razão, pois a morte para vocês seria o princípio das dores; e quando ela se aproximar, vós podereis ouvir o anjo do Apocalipse: “O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais” (Ap 9.12). Sim, cavalheiros, se morrerdes despreparados, sem conversão e sem salvação, a única coisa que vos resta é “certa expectação horrível de juízo e fogo vingador” (Hb 10.27). Não preciso falar como um Boanerges (Mc 3.17), pois esta é para vocês uma verdade bem conhecida, a de que, sem Deus, sem Cristo, “separados da comunidade de Israel” (Ef 2.12), sua porção deve ser entre os condenados ao inferno os demônios os torturados os espíritos horripilantes as almas errantes que não encontram descanso

Nas ondas do mar de enxofre lançado, Pra sempre, sim, pra sempre, perdido!

“A ira vindoura!” “A ira vindoura!” “A ira vindoura!”

Contudo, amado irmão em Cristo, por que temes morrer? Vem, deixa-me pegar tua

mão:

Para mim e para ti, a graça nos deu Conhecer o precioso nome do Salvador Em breve nos encontraremos no céu

Nosso fim e esperança, o eterno dulçor.

Sabe que o céu está logo ali, além do rio? Está com medo de mergulhar e atravessar? Tem medo de se afogar? Posso sentir o fundo é bom. Pensas que vais afundar? Ouve a voz do Espírito: “não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus: Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão” (Is 41.10; 43.2). A morte é o portão das alegrias sem fim, e tens medo de entrar por ele? O quê? Temes ficar livre da corrupção? Ah, não digas isso! Deita-te alegremente e dorme em Jesus, e sê abençoado.

Concluí minha exposição. Só quero lhes fazer mais uma pergunta antes de saírem por aquelas portas. Vocês têm certeza de que fazem parte dos “amados” aqui mencionados? Talvez eu esteja sendo um tanto impertinente; já fui acusado disso antes, mas nunca o neguei. Prefiro ser impertinente a não ser nada. No entanto, vou perguntar novamente, com toda seriedade: Vocês acham que estão entre os amados de Deus? Se quiserem de fato saber, permitam-me sugerir-lhes rapidamente três testes, e então encerro. Dizem que há três tipos de pregadores: os que falam sobre doutrina, os que falam sobre experiências e os que falam sobre prática. Da mesma forma, creio que há três coisas que fazem um cristão: doutrina genuína, experiência legítima e prática correta.

Primeiramente, quanto à sua doutrina. Em parte, você pode dizer que é um amado do Senhor por causa disso. Alguns acham que não importa em que se crê. Perdoem-me, mas a verdade é sempre preciosa e até o menor átomo de verdade deve ser buscado. Hoje em dia (século. XIX, época de Spurgeon), as seitas não são tão dissonantes quanto já foram. Talvez isso seja bom, mas, de certa forma, também é ruim. As pessoas não leem a Bíblia como antes. Elas acham que todos estão certos. Bem, creio que todos podem estar certos na essência, mas não nos pontos em que se contradizem, o que deveria fazer com que todos buscassem na Bíblia o que é certo. Não tenho medo de submeter meu calvinismo ou a doutrina do batismo dos crentes ao exame da Bíblia. Certa vez, um senhor muito culto, mas não crente, disse à George Whitefield: “Senhor, não sou crente, não acredito na Bíblia, mas se a Bíblia é verdadeira, o senhor está certo, e seus adversários arminianos, errados. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, as doutrinas da graça são verdadeiras”; acrescentado que, se alguém lhe provasse que a Bíblia é a verdade, ele o desafiaria a refutar o calvinismo. As doutrinas do pecado original, eleição, vocação eficaz, perseverança dos santos e todas as grandes verdades que são chamadas de calvinismo embora o próprio Calvino não tenha sido seu autor e sim um hábil escritor e pregador desses assuntos são, creio eu, as doutrinas essenciais do evangelho que está em Jesus Cristo. Ora, não estou perguntando se vocês creem nisso ou não, talvez não creiam, mas acredito que irão crer antes de entrar no céu. Estou certo de que, assim como Deus limpou seu coração, Ele também limpará seu cérebro antes que entrem no céu. Ele os fará aceitar Suas doutrinas. No entanto, preciso perguntar se vocês leem a Bíblia. Não estou criticando-os por discordarem de mim; posso estar errado; o que quero saber é se vocês já encontraram nas Escrituras qual é a verdade. E, se vocês não leem a Bíblia, se sua doutrina é de segunda mão, se vão à igreja e dizem:

“Não gosto disso”; não importa se gostam ou não, mas está na Bíblia? É verdade bíblica ou não? Se é a verdade de Deus, é digna de louvor. Talvez não seja do seu gosto, mas deixe-me lembrá-lo de que Jesus nunca foi agradável ao paladar de homens carnais, e creio que nunca será. A razão pela qual não gostam das doutrinas da graça é porque elas

acabam com seu orgulho; elas o humilham demais. Busquem a si mesmos, então, na doutrina.

A seguir, cuidem para se lembrar do teste da experiência. Receio que haja muito

pouca religião vivida entre nós; mas onde há doutrina genuína, deve sempre haver experiência legítima. Cavalheiros, provem a si mesmos com o teste da experiência. Já experimentaram sua própria corrupção, sua depravação, sua incapacidade, sua morte em pecado? Já sentiram vida em Cristo, a experiência da luz do semblante de Deus, da luta contra a corrupção? Já tiveram a graça concedida pelo Espírito Santo a experiência implantada da comunhão com Cristo? Se já, então vocês passaram no teste.

E, para concluir, cuidem do teste da prática. “A fé, se não tiver obras, por si só está

morta” (Tg 2.17). Aquele que anda em pecado é filho do diabo; e aquele que anda em retidão é filho da luz. Não pense que, por crer nas doutrinas certas, você é justo. Há muitos que creem da forma certa, vivem errado e morrem. “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6.7).

Terminei. Agora, permitam-me suplicar-lhes, pela fraqueza das suas próprias vidas

pela brevidade do tempo pelas temíveis realidades da eternidade pelos pecados

que têm cometido pelo perdão que necessitam pelo sangue e pelas chagas de Jesus

pela Sua segunda vinda para julgar o mundo em justiça pelas glórias do céu pelos

horrores do inferno pelo tempo pela eternidade por tudo o que é bom por tudo o que é sagrado permitam-me rogar-lhes: assim como amam a sua própria alma, busquem e descubram se estão entre os amados de Deus, a quem Ele concede o sono. Que o Senhor os abençoe.

Tradução e revisão: Mariza Regina de Souza