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COMENTÁRIO BÍBLICO

EXPOSITIVO

Novo Testamento
Volume I

WARREN W. WIERSBE
COMENTÁRIO BÍBLICO
EXPOSITIVO

Novo Testamento
V o l u m e I

WARREN W. WIERSBE

TRADUZIDO POR
S U S A N A E . KLASSEN

I Edição
a
Comentário Bíblico Expositivo
Categoria: Teologia / Referência
Copyright ® 2001 por Warren W. Wiersbe
Publicado originalmente pela Cook Communications Ministries,
Colorado, EUA.
Título Original em Inglês: The Bible Exposition Commentary - New
Testament: Vol. I
Preparação: Liege Maria de S. Marucci
Revisão: Theófilo Vieira
Capa: Cláudio Souto
Diagramação: Viviane R. Fernandes Costa
Impressão e Acabamento: Geográfica Editora
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida
Revista e Atualizada, 2 edição (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indi-
a

cação específica.
A 1 edição brasileira foi publicada em maio de 2006.
a

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Wiersbe, Warren W.
Comentário Bíblico Expositivo : Novo Testamento : volume I / Warren
W. Wiersbe ; traduzido por Susana E. Klassen. - Santo André, SP :
Geográfica editora, 2006.
Título original: The Bible Exposition Commentary -

New Testament: Vol. I


ISBN 85-89956-54-7
1. Bíblia A.T. - Comentários I. Título.
06-3696 CDD-225.7
índice para catálogo sistemático:
1. Comentários : Novo Testamento : Bíblia 225.7
2. Novo Testamento : Bíblia : Comentários 225.7
Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela:
Geo-Gráfica e editora ltda.
Av. Presidente Costa e Silva, 2151 - Pq. Capuava - Santo André - SP - Brasil
Site: www.geograficaeditora.com. br
SUMÁRIO

MATEUS 07

MARCOS 142

LUCAS 218

JOÃO 364

ATOS 518

ROMANOS 667

1 CORÍNTIOS 741

2 CORÍNTIOS 820

GÁLATAS 891
MATEUS

E S B O Ç O IV. A REJEIÇÃO DO REI -


Tema-chave: O Rei e seu reino C A P Í T U L O S 21 - 27
Versículos-chave: M a t e u s 2:2; 4:17 ( " O reino de D e u s vos será tirado"; 21:43.)
A. Sua apresentação pública c o m o Rei -
I. A R E V E L A Ç Ã O DO REI - 21:1-16
CAPÍTULOS 1 - 1 0 B. S e u conflito c o m os líderes - 2 1 : 1 7 - 2 3 : 3 9
A. Sua pessoa - 1 - 4 C. Sua mensagem profética - 24 - 25
B . Seus princípios - 5 - 7 D . S e u sofrimento e morte - 2 6 - 2 7
C . S e u poder - 8 - 1 0 '
( O b s e r v a ç ã o : A m e n s a g e m nesse p e r í o d o V. A RESSURREIÇÃO DO REI -
de seu ministério foi: "O reino dos céus está CAPÍTULO 28
próximo" [3:2; 4:17; 10:7].)
C O N T E Ú D O
II. A REBELIÃO CONTRA O REI - 1. Boas-Novas! 09
CAPÍTULOS 1 1 - 1 3 2. O nascimento do Rei
A. S e u mensageiro é rejeitado - 11:1-19 (Mt 1 -2) 13
B. Suas obras são negadas - 11:20-30 3. As credenciais do Rei
C. Seus princípios são recusados - 12:1-21 ( M t 3 - 4) 18
D. Sua pessoa é atacada - 12:22-50 4. Os princípios do Rei: a verdadeira
E. Resultado: " o s mistérios do reino" - 13 justiça ( M t 5) 23
5. Os princípios do Rei: a verdadeira
III. O AFASTAMENTO DO REI - adoração ( M t 6) 29
CAPÍTULOS 1 4 - 2 0 6. Os princípios do Rei: o verdadeiro
(Jesus procura deixar as multidões para ficar julgamento ( M t 7) 34
a sós c o m seus discípulos.) 7. O poder do Rei
A. Antes da confissão de Pedro - 14:1 - ( M t 8 - 9) 39
16:12 8. Os embaixadores do Rei
B. A confissão de Pedro - 16:13-28 ( M t 10) 45
(A cruz é m e n c i o n a d a pela primeira v e z - 9. O s conflitos d o Rei
16:21) ( M t 1 1 - 12) 50
C. D e p o i s da confissão de Pedro - 17:1 - 10. Os segredos do Rei
20:34 ( M t 13) 56
(A cruz é mencionada pela segunda v e z - 11. O afastamento do Rei
17:22) ( M t 14) 62
(A cruz é m e n c i o n a d a pela terceira v e z - 12. As p r e o c u p a ç õ e s do Rei
20:17-19) ( M t 15) 68
8 MATEUS 8-9

13. A surpresa do Rei 20. A acusação do Rei


{Mt 16) 72 (Mt23) 108
14. A glória do Rei 21. A volta do Rei - Parte 1
(Mt 17) 78 (Mt 24:1-44) 113
15. A repreensão do Rei 22. A volta do Rei - Parte 2
(Mt 18) 83 (Mt 24:45- 25:46) 118
16. As instruções do Rei 23. A preparação do Rei
(Mt 19:1-15) 89 (Mt 26:1-56) 123
1 7. As exigências do Rei 24. O julgamento do Rei
(Mt 19:16-20:34) 94 (Mt 26:57- 27:26) 128
18. Os juízos do Rei 25. O sofrimento e morte do Rei
(Mt 21:1 -22:14) 99 (Mt 27:27-66) 133
19. A defesa do Rei 26. A vitória do Rei
(Mt 22:15-46) 104 (Mt28) 137
e estes se mostraram tão pecadores quanto
seus pais. N ã o importa c o m o lemos o Anti-
go Testamento, sempre encontramos peca-
dos e pecadores.
BOAS-NOVAS! O N o v o Testamento, porém, é o "Livro
da genealogia de Jesus Cristo" ( M t 1:1). Je-
sus é o último A d ã o (1 Co 1 5:45), e ele v e i o
ao m u n d o para salvar as "gerações de A d ã o "
(da qual, a propósito, fazemos parte). Ape-
sar de n ã o ser uma escolha nossa, nasce-
m o s na geração de A d ã o , e isso nos torna
p e c a d o r e s . M a s , p o r u m a e s c o l h a d e fé,

C erca de vinte a trinta anos depois de


Jesus ter voltado para o céu, um discí-
pulo j u d e u c h a m a d o M a t e u s foi inspirado
p o d e m o s nascer na geração de Jesus Cristo
e nos tornar filhos de Deus!
Q u a n d o lemos a genealogia em G ê n e s i s
pelo Espírito Santo a escrever um livro. Dis- 5, a repetição da expressão e ele morreu soa
so resultou o q u e c o n h e c e m o s hoje c o m o c o m o o badalar fúnebre de um sino. O An-
o "Evangelho S e g u n d o M a t e u s " . tigo Testamento mostra q u e "o salário do
N e n h u m d o s quatro Evangelhos regis- p e c a d o é a morte" ( R m 6:23). M a s q u a n d o
tra qualquer palavra proferida por Mateus. passamos ao N o v o Testamento, sua primei-
A i n d a assim, e m seu E v a n g e l h o , e l e n o s ra genealogia enfatiza o nascimento, não a
apresenta as palavras e os atos de Jesus Cris- morte! A m e n s a g e m do N o v o Testamento
to, o "filho de Davi, filho de A b r a ã o " ( M t diz q u e "o d o m gratuito de D e u s é a vida
1:1). A p e s a r de M a t e u s n ã o ter escrito para eterna em Cristo Jesus, nosso S e n h o r " ( R m
falar de si m e s m o , c o n v é m nos familiari- 6:23).
z a r m o s c o m o apóstolo e c o m o livro q u e O A n t i g o T e s t a m e n t o é um livro de
escreveu. Assim, p o d e r e m o s descobrir tudo promessas; o N o v o Testamento, por sua vez,
o q u e ele desejava q u e s o u b é s s e m o s so- é um livro de c u m p r i m e n t o (por certo, há
bre Jesus Cristo. inúmeras promessas preciosas no N o v o
O Espírito Santo usou M a t e u s para reali- Testamento, mas me refiro, aqui, à ênfase
zar três tarefas importantes ao escrever este principal de c a d a parte da Bíblia). D e u s pro-
Evangelho. meteu um Redentor em Gênesis 3:15, e Je-
sus Cristo cumpriu essa promessa. Cumprir
1. O C O N S T R U T O R DE PONTES: é uma das palavras-chave do Evangelho de
APRESENTOU U M N O V O LIVRO Mateus, usada cerca de vinte vezes.
Esse novo livro é o N o v o Testamento. Se um Um dos propósitos deste Evangelho é
leitor da Bíblia pulasse de M a l a q u i a s para mostrar q u e Jesus Cristo cumpriu as promes-
Marcos, Atos ou Romanos, ficaria totalmen- sas do A n t i g o T e s t a m e n t o a r e s p e i t o do
te c o n f u s o . O E v a n g e l h o de M a t e u s é a Messias. S e u nascimento e m B e l é m cumpriu
ponte de transição entre o Antigo Testamen- Isaías 7:14 ( M t 1:22, 23). Foi levado ao Egi-
to e o N o v o Testamento. to, o n d e ficaria mais seguro e, desse m o d o ,
O tema do Antigo Testamento é apre- cumpriu Oséias 11:1 ( M t 2:14, 15). Quan-
sentado em G ê n e s i s 5:1: "Este é o livro da do J o s é e sua família decidiram se estabele-
genealogia de A d ã o " . O Antigo Testamento cer em Nazaré, cumpriram várias profecias
mostra a história, e x t r e m a m e n t e triste, da do Antigo Testamento ( M t 2:22, 23). Em seu
família de A d ã o . D e u s criou o h o m e m a sua Evangelho, M a t e u s apresenta p e l o m e n o s
imagem, mas o h o m e m p e c o u e, desse 129 citações ou alusões ao Antigo Testamen-
m o d o , distorceu sua i m a g e m original. De- to. Escreveu principalmente a leitores judeus
pois disso, o h o m e m gerou filhos "à sua se- para mostrar-lhes q u e Jesus Cristo era, de
melhança, conforme a sua imagem" ( G n 5:3), fato, o Messias prometido.
10 MATEUS 8-9

2 . 0 BIÓGRAFO: APRESENTOU U M NOVO R E I no monte das Oliveiras (caps. 24 - 25). Pelo


A julgar pela definição moderna, nenhum menos 6 0 % do livro é dedicado aos ensi-
dos quatro Evangelhos pode ser considera- namentos de Jesus.
do uma biografia. Aliás, o apóstolo J o ã o Ê importante lembrar que Mateus con-
duvidou de que fosse possível escrever uma centra-se no reino. No Antigo Testamento, a
biografia completa de Jesus (Jo 21:25). Os nação de Israel era o reino de Deus na Ter-
Evangelhos deixam de fora uma série de ra: " V ó s me sereis reino de sacerdotes e
detalhes sobre a vida de Jesus aqui na Terra. nação santa" (Êx 19:6). Muitos, nos dias de
Cada um dos quatro Evangelhos tem uma Jesus, esperavam pelo libertador enviado por
ênfase particular. O Livro de Mateus é cha- Deus, que os libertaria da escravidão romana
mado de o "Evangelho do Rei" e foi escrito e restabeleceria o reino glorioso de Israel.
principalmente para leitores judeus. O Livro A mensagem do reino dos céus foi pre-
de Marcos, o "Evangelho do Servo", foi es- gada inicialmente por João Batista (Mt 3:1,
crito para instruir os leitores romanos. Lucas 2). Jesus também pregou essa mensagem no
escreveu principalmente para os gregos e começo de seu ministério ( M t 4:23) e en-
apresentou Cristo como o "perfeito Filho do viou os doze apóstolos com a mesma pro-
homem". João é de interesse universal, e sua clamação (Mt 10:1-7).
mensagem é "Este é o Filho de Deus". Ne- Porém, as boas novas do reino exigiam
nhum dos Evangelhos é suficiente para con- do povo uma resposta moral e espiritual, não
tar toda a história da forma que Deus quer apenas a aceitação de um conjunto de re-
que a vejamos. Porém, quando juntamos os gras. J o ã o Batista pedia arrependimento.
quatro relatos, vemos uma imagem mais Semelhantemente, Jesus deixou bem claro
complexa da Pessoa e obra de nosso Senhor. que não tinha vindo para conquistar Roma,
Uma vez que estava acostumado a man- mas para transformar o coração e a vida
ter registros sistemáticos, Mateus apresenta daqueles que cressem nele. Antes de entrar
um relato extremamente organizado da vida na glória do reino, Jesus suportou o sofri-
e ministério de nosso Senhor. O livro pode mento da cruz.
ser dividido em dez seções, que alternam o Podemos observar, ainda, que Mateus
"fazer" e o "ensinar". Cada seção de ensina- organizou seus textos de acordo com tópi-
mentos termina com a frase: "Quando Jesus cos, não em seqüência cronológica. Agru-
terminou estas palavras" ou uma declaração pou dez milagres nos capítulos 8 - 9 e m
semelhante de transição. Os capítulos po- vez de colocá-los dentro de sua seqüência
dem ser divididos da seguinte maneira: histórica ao longo da narrativa do Evange-
lho. Sem dúvida, vários outros acontecimen-
Narrativa Ensinamentos Transição tos foram totalmente omitidos. Ao conside-
1 -4 5 - 7 7:28 rar a harmonia existente entre os Evangelhos,
8:1 - 9:34 9:35 - 10:42 11:1 vemos que Mateus segue um padrão pró-
11:2 -12:50 13:1-52 13:53 prio sem, no entanto, contradizer os outros
13:53 - 17:27 18:1-35 19:1 evangelistas.
19:1 -23:39 24:1 -25:46 26:1 Além de ser responsável pela transição
26:1 - 28:20 (a narrativa da Paixão) do Antigo para o N o v o Testamento e de
apresentar a biografia de um novo Rei, Je-
Mateus descreve Jesus como um Homem sus Cristo, Mateus também cumpriu um ter-
de ação e um Mestre, registrando pelo me- ceiro propósito ao escrever seu livro.
nos vinte milagres específicos e seis mensa-
gens principais: o Sermão do Monte (caps. 3. O H O M E M DE FÉ: APRESENTOU UM
5 - 7), a comissão dos apóstolos (cap. 10), NOVO POVO
as parábolas do reino (cap. 13), as lições so- Esse novo povo era, evidentemente, a Igre-
bre o perdão (cap. 18), as acusações contra ja. Mateus é o único escritor a usar a pa-
os fariseus (cap. 23), e o discurso profético lavra igreja em seu texto (Mt 16:18; 18:17).
MATEUS1-2 11

O termo grego traduzido por "igreja" signifi- forma de exclusão racial ou social. Pela fé
ca " u m a assembléia c h a m a d a para fora". No em Jesus Cristo, os cristãos são "todos u m "
N o v o Testamento, esse termo refere-se, em no c o r p o de Cristo, a Igreja.
geral, à congregação local dos cristãos. No A própria experiência de M a t e u s c o m o
Antigo Testamento, Israel era escolhido por Senhor, relatada em M a t e u s 9:9-1 7, é um
Deus, c o m e ç a n d o com o chamado de belo exemplo da graça de Deus. S e u antigo
A b r a ã o ( G n 12:1ss; Dt 7:6-8). Aliás, Estêvão n o m e era Levi, o filho de Alfeu ( M c 2:14).
c h a m a a n a ç ã o de Israel de "a congregação " M a t e u s " significa " o d o m d e D e u s " . A o q u e
[igreja] no deserto" (At 7:38), pois era o povo parece, esse n o m e lhe foi d a d o para come-
de D e u s c h a m a d o para fora. morar sua conversão e seu c h a m a d o para
Porém, a Igreja do N o v o Testamento é ser discípulo.
formada por um povo diferente, pois é cons- E importante lembrar q u e os coletores
tituída tanto de judeus quanto de gentios. de impostos faziam parte de uma das clas-
Nessa Igreja, não há qualquer distinção racial ses mais odiadas da sociedade judaica. Para
( G l 3:28). Apesar de ter escrito principalmen- começar, eram traidores da própria nação,
te para judeus, ainda assim o Evangelho de pois ganhavam o sustento "vendendo-se" aos
M a t e u s possui um elemento "universal" q u e romanos ao trabalhar para o governo. C a d a
inclui os gentios. Por exemplo, líderes gen- coletor adquiria de R o m a o direito de reco-
tios v ã o adorar o menino Jesus ( M t 2:1-12). lher impostos; quanto mais recolhia, mais
Jesus realiza milagres para os gentios e até conseguia guardar para si. Os coletores eram
os elogia por sua fé ( M t 8:5-1 3; 1 5:21-28). A considerados ladrões e traidores, e seus con-
rainha de Sabá é louvada por se mostrar dis- tatos c o m os gentios t a m b é m os c o l o c a v a m
posta a fazer uma longa jornada a fim de à margem da religião, a ponto de serem ti-
ouvir a sabedoria de S a l o m ã o ( M t 12:42). dos c o m o impuros. Jesus refletiu a opinião
N u m m o m e n t o de crise em seu ministério, popular acerca dos publicanos ao classificá-
Jesus fala de uma profecia sobre os gentios los junto a prostitutas e a outros pecadores
( M t 12:14-21). M e s m o nas parábolas, Jesus ( M t 5:46, 47; 18:17), mas deixou claro q u e
indica q u e as b ê n ç ã o s q u e Israel recusou era "amigo de publicanos e pecadores" ( M t
seriam compartilhadas c o m os gentios ( M t 11:19; 21:31, 32).
22:8-10; 21:40-46). De acordo c o m o discur- M a t e u s abriu seu c o r a ç ã o para J e s u s
so no m o n t e das Oliveiras, a mensagem se- Cristo e se tornou uma nova pessoa. N ã o
ria levada "a todas as n a ç õ e s " ( M t 24:14); e foi uma decisão fácil para ele. Era de Cafar-
a comissão do Senhor envolveria todas a na- naum, cidade q u e havia rejeitado o Senhor
ç õ e s ( M t 28:19, 20). ( M t 11:23). T a m b é m era um negociante co-
Na Igreja primitiva, havia apenas cristãos n h e c i d o na c i d a d e e, p r o v a v e l m e n t e , foi
j u d e u s e prosélitos (At 2 - 7). Q u a n d o o perseguido pelos amigos de outros tempos.
evangelho chegou a Samaria (At 8), o povo S e m dúvida, perdeu muito dinheiro q u a n d o
mestiço de judeus e gentios passou a fazer deixou tudo para seguir a Cristo.
parte da Igreja. D e p o i s q u e Pedro foi à casa M a t e u s n ã o apenas abriu seu coração,
de Cornélio (At 10), os gentios t a m b é m co- mas t a m b é m abriu sua casa. Sabia q u e mui-
m e ç a r a m a participar da Igreja. A assembléia tos de seus velhos amigos, senão todos, o
de Jerusalém (At 1 5) determinou q u e os gen- abandonariam q u a n d o c o m e ç a s s e a seguir
tios não precisavam tornar-se judeus antes Jesus Cristo. Por isso, aproveitou a situação
de se tornar cristãos. e os c o n v i d o u para c o n h e c e r Jesus. D e u uma
M a t e u s apresenta toda essa questão de grande festa e c o n v i d o u todos os coletores
antemão, e q u a n d o seu livro foi lido pelos de impostos (é possível q u e alguns deles fos-
m e m b r o s judeus e gentios da Igreja primiti- sem gentios) e judeus q u e não guardavam a
va, ajudou a resolver diferenças e a promover lei ("pecadores").
a unidade. M a t e u s deixa claro que esse novo Evidentemente, os fariseus criticaram Je-
povo, a Igreja, n ã o deveria apoiar qualquer sus por assentar-se à mesma mesa q u e toda
12 MATEUS 8-9

essa gente impura e até tentaram instigar os escrever! Mal sabia ele, na época, que um
discípulos de João Batista a criar uma desa- dia seria usado pelo Espírito para escrever
vença (Lc 5:33). No entanto, Jesus explicou o primeiro dos quatro Evangelhos do Novo
por que estava andando com "publicanos e Testamento!
pecadores": eram espiritualmente enfermos Diz a tradição que Mateus ministrou na
e precisavam de um médico. O Senhor não Palestina durante vários anos, depois que
veio chamar os justos, pois não havia justos. Jesus voltou para o céu, e que fez viagens
Veio chamar pecadores, e isso incluía os missionárias para levar o evangelho aos ju-
fariseus. Por certo, seus críticos não se con- deus dispersos entre os gentios. Seu traba-
sideravam "enfermos espirituais", mas isso lho é relacionado à Pérsia, Etiópia e Síria, e
não muda o fato de que eram isso mesmo. algumas tradições incluem ainda a Grécia.
Mateus não apenas abriu seu coração O Novo Testamento não diz coisa alguma
e sua casa como também abriu suas mãos sobre sua vida, mas podemos afirmar com
e trabalhou para Cristo. Alexander W h i t e certeza que, por onde quer que as Escritu-
de Edimburgo disse, certa vez, que, quan- ras passem neste mundo, o Evangelho escri-
do Mateus deixou seu emprego para se- to por Mateus continua a ministrar ao cora-
guir a Cristo, levou consigo sua pena de ção de seus leitores.
Essa genealogia também ilustra a maravi-
lhosa graça de Deus. É muito raro encontrar
nomes de mulheres em genealogias judaicas,
pois os nomes e heranças eram passados
O N A S C I M E N T O DO REI para os homens. No entanto, encontramos
nessa lista referências a quatro mulheres do
MATEUS 1 - 2 Antigo Testamento: Tamar ( M t 1:3), Raabe e
Rute ( M t 1:5), e Bate-Seba, "a que fora mu-
lher de Urias" ( M t 1:6).
Fica claro que Mateus deixa alguns no-
mes de fora dessa genealogia. É provável que
tenha feito isso a fim de apresentar um

S e um homem aparece de repente dizen-


do ser rei, a primeira coisa que as pes-
soas querem ver são as provas. De onde
sumário sistemático de três períodos na
história de Israel, cada um com catorze ge-
rações. O valor numérico das letras em
vem? Q u e m são seus súditos? Quais são suas hebraico para " D a v i " é igual a catorze. Tal-
credenciais? Prevendo essas perguntas im- vez Mateus tenha usado essa abordagem a
portantes, Mateus começa seu livro com um fim de ajudar seus leitores a memorizar essa
relato detalhado do nascimento de Jesus lista complicada.
Cristo e dos acontecimentos subseqüentes. Muitos judeus eram descendentes do rei
Ele apresenta quatro fatos sobre o Rei. Davi. Seria preciso mais do que um certi-
ficado de linhagem para provar que Jesus
1. A LINHAGEM DO R E I ( M T 1 : 1 - 2 5 ) Cristo era "filho de Davi" e herdeiro do tro-
U m a vez que a realeza depende da linha- no de Davi. Daí a grande importância de
gem, era importante determinar o direito de sua linhagem divina.
Jesus ao trono de Davi. Mateus apresenta a A linhagem divina (vv. 18-25). Mateus
linhagem humana de Jesus ( M t 1:1-17) bem 1:16 e 18 deixam claro que o nascimento
c o m o a divina ( M t 1:18-25). de Jesus Cristo foi diferente daquele de qual-
A linhagem humana (w. 1-17). Os ju- quer outro menino judeu mencionado na
deus davam grande importância às genea- genealogia. Mateus ressalta que José não
logias, pois, sem elas, não podiam provar que "gerou" Jesus Cristo. Antes, José foi "marido
faziam parte de determinada tribo nem quem de Maria, da qual nasceu Jesus, que se cha-
possuía direito de herança. Qualquer um que ma o Cristo". Jesus nasceu de uma m ã e
afirmasse ser "filho de D a v i " deveria ser terrena, sem a necessidade de um pai ter-
capaz de provar tal asserção. Costuma-se reno. Esse fato é chamado de doutrina do
concluir que Mateus apresenta a genealo- nascimento virginal.
gia de Jesus pelo seu padrasto, José, enquan- Cada criança que nasce é uma criatura
to Lucas fornece a linhagem de Maria (Lc totalmente nova. M a s Jesus Cristo, sendo o
3:23ss). Deus eterno (Jo 1:1, 14), existia antes de
Muitos leitores pulam essa lista de nomes Maria, de José ou de qualquer outro de seus
antigos (e, em alguns casos, impronunciá- antepassados. Se Jesus Cristo tivesse sido
veis). M a s essa "lista de nome" é essencial concebido da mesma forma que qualquer
para o registro do Evangelho, pois mostra outra criança, não poderia ser Deus. Era
que Jesus Cristo faz parte da história. Mos- necessário que viesse ao mundo por meio
tra também que toda a história de Israel pre- de uma mãe terrena, mas sem ser gerado
parou o cenário para seu nascimento. Em por um pai terreno. Assim, por um milagre
sua providência, Deus governou e prevale- do Espírito Santo, Jesus foi concebido no
ceu sobre os acontecimentos históricos, a ventre de Maria, uma virgem (Lc 1:26-38).
fim de realizar seu grande propósito de tra- Há quem questione se, de fato, Maria
zer seu Filho ao mundo. era v i r g e m , d i z e n d o q u e " v i r g e m " , e m
MATEUS 1 - 2

Mateus 1:23, deve ser traduzido por "moça". reconheceu sua realeza? Sim, os magos que
Porém, a palavra traduzida por virgem nesse vieram do Oriente e o adoraram.
versículo tem sempre esse significado e não
permite qualquer outra tradução, nem mes- 2 . A REVERÊNCIA A O R E I ( M T 2 : 1 - 1 2 )
mo "moça". Devemos reconhecer que sabemos muito
Tanto Maria quanto José pertenciam à p o u c o s o b r e esses h o m e n s . A palavra
casa de Davi. As profecias do Antigo Testa- traduzida por "magos" refere-se a eruditos
mento afirmavam que o Messias nasceria de que estudavam as estrelas. O título dá a im-
uma mulher (Gn 3:15), da descendência de pressão de que eram mágicos, mas é pro-
Abraão (Gn 22:18), pela tribo de Judá (Gn vável que fossem apenas astrólogos. No
49:10) e da família de Davi (2 Sm 7:12, 13). entanto, sua presença no relato bíblico não
A genealogia de Mateus acompanha a linha- deve ser interpretada como corroboração
gem através de Salomão, enquanto Lucas divina para a prática da astrologia.
acompanha sua linhagem através de Natã, Deus lhes deu um sinal especial, uma
outro filho de Davi. É interessante observar estrela miraculosa que anunciou o nascimen-
que Jesus Cristo é o único judeu vivo que to do Rei. A estrela guiou-os a Jerusalém; lá,
pode provar seu direito ao trono de Davi! os profetas de Deus lhes disseram que o Rei
Todos os outros registros foram destruídos nasceria em Belém. Assim, os magos foram
quando os Romanos tomaram Jerusalém em a Belém e, quando chegaram lá, adoraram
70 d.C. o menino Jesus.
Para o povo judeu daquela época, o Não sabemos quantos magos havia. Por
noivado eqüivalia ao casamento - exceto causa dos três presentes relacionados em
pelo fato de que o homem e a mulher não Mateus 2:11, costuma-se supor que os ma-
coabitavam. Os noivos eram chamados de gos também eram três, mas não sabemos
"marido e esposa", e, ao fim do período de ao certo. De qualquer modo, quando a ca-
noivado, o casamento era consumado. Se ravana chegou a Jerusalém, trouxe consigo
uma mulher que estava noiva ficava grávida, gente suficiente para causar tumulto em toda
isso era considerado adultério (ver Dt 22:13- a cidade.
21). Porém, José não pediu nenhuma puni- E preciso lembrar que esses homens eram
ção nem o divórcio quando descobriu que gentios. Desde o começo, Jesus veio para
Maria estava grávida, pois o Senhor havia ser "o Salvador do mundo" (Jo 4:42). Além
lhe revelado a verdade. Todas essas coisas de ricos, esses homens eram estudiosos -
cumpriram Isaías 7:14. poderiam ser considerados os cientistas da
Antes de terminar nosso estudo desta época. Nenhuma pessoa culta que siga a
seção importante, devemos considerar três luz que Deus lhe mostra pode deixar de
nomes dados ao Filho de Deus. O nome adorar aos pés de Jesus. Em Cristo, "todos
Jesus significa "Salvador" e vem do hebraico os tesouros da sabedoria e do conhecimen-
Josué ( " J e o v á é salvação"). Havia muitos to estão ocultos" (Cl 2:3). Nele habita "cor-
meninos judeus chamados Josué (ou, no poralmente, toda a plenitude da Divindade"
grego, Jesus), mas o filho de Maria chama- (Cl 2:9).
va-se "Jesus o Cristo". O termo Cristo quer Os magos estavam à procura do Rei, mas
dizer "ungido" e é o equivalente grego da Herodes temia esse Rei e desejava destruí-
designação Messias. Ele é "Jesus o Messias". lo. Trata-se, aqui, de Herodes, o Grande,
Jesus é o seu nome humano; Cristo (Mes- chamado de rei pelo senado romano por
sias) é o seu título oficial; e Emanuel descre- causa da influência de Marco Antônio. He-
ve quem ele é - " D e u s conosco". Jesus rodes era um homem cruel e astucioso que
Cristo é Deus! Encontramos a designação não permitia a ninguém, nem mesmo aos
"Emanuel" em Isaías 7:14 e 8:8. membros da própria família, qualquer inter-
Assim, o Rei era um homem judeu e tam- ferência em seu governo nem que se impe-
bém o Filho de Deus. Mas será que alguém disse a satisfação de seus desejos perversos.
MATEUS1-2 15

Assassino implacável, o r d e n o u a morte da H e r o d e s fingia querer adorar o Rei recém-


própria esposa e dos dois irmãos dela por nascido ( M t 2:8), q u a n d o na v e r d a d e queria
suspeitar de traição. Casou-se pelo m e n o s matá-lo. D e u s m a n d o u a J o s é pegar a crian-
n o v e vezes, a fim de satisfazer sua luxúria e ça e M a r i a e fugir para o Egito, pois era per-
de fortalecer alianças políticas. to e havia muitos judeus naquela região. Os
N ã o é de se admirar q u e H e r o d e s tenha tesouros recebidos dos magos seriam mais
tentado matar Jesus. Afinal, desejava ser o do q u e suficientes para pagar as despesas
único a usar o título de " R e i d o s J u d e u s " . da viagem e de estadia nessa terra estran-
No entanto, havia outra razão para desejar geira. A l é m do mais, havia outra profecia a
se ver livre de Jesus. H e r o d e s não era j u d e u ser cumprida, O s é i a s 11:1: " d o Egito c h a m e i
puro, m a s i d u m e u , d e s c e n d e n t e d e Esaú. o m e u filho".
V e m o s aqui um retrato do conflito antiqüís- A fúria de Herodes mostra seu orgulho;
simo entre Esaú e Jacó, q u e teve início an- n ã o permitiria q u e n i n g u é m o enganasse,
tes m e s m o d e o s m e n i n o s n a s c e r e m ( G n especialmente um bando de estudiosos gen-
25:19-34). É o espiritual contra o carnal, o tios! Assim, decretou a morte de todos os
piedoso contra o impiedoso. meninos c o m até 2 anos de idade que ainda
Os magos procuravam o Rei; H e r o d e s permaneciam em Belém. N ã o devemos ima-
opunha-se a ele e os sacerdotes j u d e u s o ginar aqui c e n t e n a s d e garotinhos s e n d o
ignoravam. Os sacerdotes c o n h e c i a m as Es- mortos, pois não havia tantos meninos dessa
crituras e mostravam o Salvador a outros, idade em B e l é m naquela época. M e s m o hoje,
mas eles mesmos se recusaram a adorá-lo! a população em Belém é de cerca de vinte
Citaram M i q u é i a s 5:2, mas não o b e d e c e r a m mil habitantes. É b e m provável q u e n ã o te-
à Palavra. Estavam a m e n o s de 10 quilô- nha havido mais de vinte execuções. M a s é
metros do Filho de D e u s e, no entanto, não claro q u e uma só morte já teria sido demais!
foram vê-lo! Os gentios o buscaram e en- M a t e u s introduz aqui o tema da hostili-
contraram, mas os judeus não. dade, do qual trata ao longo de todo o livro.
De a c o r d o c o m M a t e u s 2:9, a estrela q u e Satanás é mentiroso e assassino ( J o 8:44), e
guiava os magos não ficava sempre visível. o rei H e r o d e s n ã o era diferente. M e n t i u para
Dirigindo-se a Belém, eles a viram novamen- os magos e m a n d o u matar os meninos. M a s ,
te, e ela os conduziu à casa o n d e Jesus esta- até m e s m o esse c r i m e h e d i o n d o foi o cum-
va. A essa altura, J o s é e Maria haviam saído primento da profecia em J e r e m i a s 31:15. A
do local temporário o n d e Jesus havia nas- fim de e n t e n d e r m o s esse c u m p r i m e n t o ,
cido (Lc 2:7). Os presépios tradicionais que c o n v é m fazer u m a recapitulação da histó-
r e ú n e m pastores e sábios n ã o são fiéis às ria judaica.
Escrituras, pois o s m a g o s c h e g a r a m b e m B e l é m é m e n c i o n a d a pela primeira v e z
depois. nas Escrituras c o m referência à m o r t e de
M a t e u s cita outra profecia q u e se cum- Raquel, a esposa predileta de J a c ó ( G n 35:16-
priu para provar q u e Jesus Cristo é o Rei ( M t 20). Raquel morreu ao dar à luz um filho ao
2:5). Sua maneira de nascer cumpriu uma qual c h a m o u Benoni, q u e significa "filho do
profecia, e o lugar o n d e n a s c e u c u m p r i u meu sofrimento". J a c ó mudou o n o m e do me-
outra. B e l é m significa "casa do p ã o " e foi nino para Benjamim, "filho da minha destra".
onde o "pão da vida" veio ao mundo (Jo Os dois n o m e s são relacionados a Jesus Cris-
6:48ss). No Antigo Testamento, B e l é m é as- to, pois eie foi um " h o m e m de dores e q u e
sociada a Davi, um tipo de Jesus Cristo em sabe o q u e é p a d e c e r " (Is 53:3), e agora é o
seu sofrimento e glória. Filho de Deus, sentado a sua destra (At 5:31;
H b 1:3). J a c ó l e v a n t o u u m a c o l u n a para
3. A H O S T I L I D A D E C O N T R A O R E I marcar o lugar da sepultura de Raquel nas
( M T 2:13-18) cercanias de Belém.
Identifica-se a l g u é m n ã o a p e n a s por seus A profecia de Jeremias foi proferida cer-
a m i g o s , m a s t a m b é m p o r seus inimigos. ca de seiscentos anos antes do nascimento
16 MATEUS 1 - 2

de Cristo, no contexto da captura de Jerusa- entanto, os judeus descobriram que, apesar


lém em cativeiro. Alguns dos cativos foram de suas promessas de bondade, Arquelau
levados a Ramá, em Benjamim, perto de Je- era tão perverso quanto o pai. Assim, os ju-
rusalém, episódio que lembrou Jeremias do deus enviaram uma delegação a Roma para
sofrimento de Jacó quando Raquel morreu. protestar contra sua coroação. César Augus-
No entanto, na passagem de Jeremias é Ra- to concordou com os judeus e o rebaixou a
quel quem chora, representando as mães de etnarca, c o m autoridade somente sobre
Israel chorando ao ver seus filhos sendo le- metade do reino de seu pai (talvez, Jesus
vados para o cativeiro. Era como se Raquel estivesse pensando nesse fato histórico quan-
dissesse: "Entreguei minha vida para dar à do contou a parábola das dez minas em Lc
luz um filho, e agora seus descendentes es- 19:11-27).
tão sendo destruídos". Esse episódio todo é um bom exemplo
Jacó viu Belém como um lugar de mor- de como Deus conduz seus filhos. José sa-
te, mas o nascimento de Jesus transformou- bia que, sob o governo de Arquelau, ele e
o num lugar de vida! A vinda do Messias sua família não estariam mais seguros do
traria libertação espiritual a Israel e, no futu- que estavam sob o governo de Herodes, o
ro, o estabelecimento do trono e do reino Grande. É provável que estivessem indo
de Davi. Um dia, Israel - "o filho do meu para B e l é m q u a n d o d e s c o b r i r a m q u e
sofrimento" - seria chamado de "o filho da Arquelau estava no trono. Sem dúvida, José
minha destra". Jeremias deu à nação a pro- e Maria oraram, esperaram e buscaram a
messa de que seriam restaurados a sua terra vontade de Deus. O bom senso lhes reco-
(Jr 31:16, 1 7), e a promessa foi cumprida. mendou cautela, e a fé pediu que esperas-
Porém, prometeu-lhes algo ainda maior: al- sem. No tempo apropriado, Deus falou a
gum dia, a nação seria reunida e o reino José em sonho, depois do qual ele levou
seria estabelecido (Jr 31:27ss). Essa profecia sua família para Nazaré, onde haviam vivi-
também se cumprirá. do antes ( M t 2:19, 20).
Hoje em dia, poucos identificam Belém Até essa mudança cumpriu uma pro-
como um lugar de sepultamento. Para mui- fecia! Mais uma vez, Mateus ressalta que
tos, é o lugar onde Jesus Cristo nasceu. Por cada detalhe da vida de Jesus foi profetiza-
ter morrido por nós e ter ressuscitado, te- do nas Escrituras. É importante observar que
mos um futuro promissor. Viveremos com Mateus não se refere a um único profeta
ele para sempre na cidade gloriosa, onde em Mateus 2:23; antes afirma que tudo ocor-
não haverá mais morte nem lágrimas. reu "para que se cumprisse o que fora dito
por intermédio dos profetas" (plural).
4 . A HUMILDADE D O R E I ( M T 2 : 1 9 - 2 3 ) Jesus não é chamado de "nazareno" em
Herodes morreu em 4 a.C., o que significa n e n h u m a profecia específica. O termo
que Jesus nasceu entre os anos 6 e 5 a.C. É nazareno costumava ser usado em tom de
impossível não ver o paralelo entre Mateus reprovação: " D e Nazaré pode sair alguma
2:20 e Êxodo 4:19, o chamado de Moisés. coisa boa?" (Jo 1:46). Várias profecias do
C o m o Filho de Deus, Jesus estava no Egito Antigo Testamento mencionam a rejeição do
e foi chamado para ir para Israel. Moisés es- Messias em sua infância, e talvez seja a elas
tava fora do Egito, escondendo-se para não que Mateus esteja se referindo (ver SI 22; Is
ser morto, e foi chamado para voltar ao Egi- 53:2, 3, 8). O termo "nazareno" passou a
to. M a s os dois faziam parte do plano de ser usado tanto para Jesus quanto para seus
Deus para a redenção da humanidade. José seguidores (At 24:5). Em diversas ocasiões,
e sua família precisaram de coragem para o Mestre é chamado de "Jesus de Nazaré"
deixar o Egito, a mesma coragem que Moisés (Mt 21:11; Mc 14:67; Jo 18:5, 7).
precisou ter ao voltar para o Egito. No entanto, é possível que, guiado pelo
Arquelau era um dos filhos de Herodes, Espírito, Mateus tenha observado uma liga-
escolhido pelo pai para ser seu sucessor. No ção espiritual entre o nome "nazareno" e a
MATEUS 1 - 2 17

palavra hebraica rtetzer, q u e significa " u m U m a pesquisa d o s registros do t e m p l o te-


r a m o ou renovo". Vários profetas deram esse ria lhes revelado q u e ele havia nascido em
título a Jesus (ver Is 4:2; 11:1; Jr 23:5; 33:15; Belém.
Z c 3:8; 6:12, 13). O n d e já se viu um rei nascer n u m vilarejo
Jesus c r e s c e u em N a z a r é e foi associa- e crescer n u m a c i d a d e desprezada? A hu-
do a essa c i d a d e . De fato, seus inimigos mildade do Rei é, s e m dúvida alguma, digna
p e n s a v a m q u e ele havia nascido lá, pois di- de nossa a d m i r a ç ã o e um e x e m p l o a ser
z i a m q u e e l e era da Galiléia ( J o 7:50-52). seguido (Fp 2:1-13).
se julgava tão virtuosa (Mt 12:34; 23:33; Jo
8:44).
Os fariseus eram os tradicionalistas de
seu tempo, enquanto os saduceus eram mais
A s CREDENCIAIS D O REI liberais (ver At 23:6-9). Os saduceus abasta-
dos controlavam os "negócios do templo",
MATEUS 3 - 4 o comércio que Jesus removeu daquele lugar
de oração. Os fariseus e saduceus disputa-
vam entre si o controle de Israel, mas uni-
ram forças para se oporem a Jesus Cristo.
João proclamava uma mensagem de jul-
gamento. Israel havia pecado e precisava

E ntre os capítulos 2 e 3 de Mateus, passa-


ram-se cerca de trinta anos, durante os
quais Jesus viveu em Nazaré e trabalhou
arrepender-se, e cabia aos líderes religiosos
dar o exemplo ao restante do povo. O ma-
chado estava posto à raiz da árvore, e se
como carpinteiro (Mt 13:55; Mc 6:3). Che- esta (Israel) não desse bons frutos, seria cor-
gou, enfim, o dia de começar o ministério tada (ver Lc 13:6-10). Se a nação se arrepen-
público que culminaria na cruz. Suas qualifi- desse, o caminho estaria preparado para a
cações para ser Rei ainda eram válidas? Ha- vinda do Messias.
via ocorrido algo nesse tempo que pudesse Sua autoridade (w. 3, 4). João cumpriu
desqualificá-io? Nos capítulos 2 e 3, Mateus a profecia dada em Isaías 40:3. Em termos
reúne os depoimentos de cinco testemunhas espirituais, João foi o "espírito e poder de
quanto à pessoa de Jesus Cristo, afirmando Elias" (Lc 1:16,17). Até se vestia como Elias
que ele é o Filho de Deus e o Rei. e pregava a mesma mensagem de julgamen-
to (2 Rs 1:8). João foi o último dos profetas
1 . J O Ã O BATISTA ( M T 3 : 1 - 1 5 ) do Antigo Testamento (Lc 16:16) e o maior
A nação havia passado mais de quatrocen- de todos (Mt 11:7-15; ver 1 7:9-13).
tos anos sem ouvir a voz de um profeta. Seu batismo (vv. 5, 6, 11, 12). Os ju-
Então, aparece João, iniciando um grande deus batizavam gentios convertidos, mas
reavivamento. Consideremos quatro fatos João estava batizando judeus! O batismo
sobre João Batista. não era algo que João havia inventado ou
Sua mensagem (vv. 1, 2, 7-10). A pre- tomado emprestado de alguma outra reli-
gação de J o ã o concentrava-se no arre- gião, antes, era realizado com autoridade
pendimento e no reino dos céus. A paíavra do céu (Mt 21:23-27). Era um batismo de
arrepender significa "mudar a forma de pen- arrependimento, que antevia a chegada do
sar e agir de acordo com essa mudança". Messias (At 19:1-7) e que cumpriu dois pro-
João não se contentava com remorso ou pósitos: preparou a nação para Cristo e apre-
pesar. Desejava ver "frutos dignos de arre- sentou Cristo à nação (Jo 1:31).
pendimento" (Mt 3:8). Era preciso provas de Mas João mencionou outros dois batis-
que a vida e a forma de pensar do indivíduo mos: um batismo do Espírito e um batismo
haviam sido transformadas. de fogo (Mt 3:11). O batismo do Espírito veio
Gente de todo tipo ia ouvir João pregar em Pentecostes (At 1:5; observar também
e vê-lo realizar os batismos. Muitos publica- que Jesus não fala nada sobre fogo). Hoje,
nos e pecadores o procuraram com sincera sempre que um pecador crê em Cristo, é
humildade (Mt 21:31, 32), mas os líderes nascido de novo e batizado no mesmo ins-
religiosos recusaram sujeitar-se a sua pre- tante pelo Espírito Santo, passando a fazer
gação. Consideravam-se bons o bastante parte do corpo de Cristo, a Igreja (1 Co
para agradar a Deus. No entanto, João os 12:12, 13). O batismo de fogo, por outro
chamava de "raça de víboras". Jesus usou a lado, refere-se ao julgamento futuro, como
mesma linguagem ao tratar dessa gente que Mateus explica (Mt 3:12).
MATEUS 1 -2 19

Sua obediência (w. 13-15). jesus não foi ( M t 17:3) e p o u c o antes de Cristo ser cruci-
batizado por ser um pecador arrependido. ficado (Jo 12:27-30). N a q u e l e tempo, D e u s
A t é m e s m o J o ã o tentou detê-lo, mas Jesus falou a seu Filho; hoje, ele fala por meio de
sabia q u e essa era a vontade do Pai. Por que seu Filho ( H b 1:1, 2).
Jesus foi batizado? Em primeiro lugar, seu A declaração do Pai vinda do c é u pare-
batismo foi uma forma de aprovar o ministé- ce repetir o Salmo 2:7: "Tu és m e u Filho, eu,
rio de João. Em segundo lugar, mediante o hoje, te gerei". De a c o r d o c o m Atos 13:33,
batismo, Cristo identificou-se c o m os publi- esse ato de "gerar" refere-se à ressurreição
canos e pecadores, as pessoas q u e veio salvar. de Cristo dentre os mortos, não a seu nasci-
Mas, acima de tudo, foi um retrato do futuro mento em Belém. Essa declaração encaixa-
batismo na cruz ( M t 20:22; Lc 12:50) no qual se perfeitamente c o m a experiência de ba-
seria coberto por todas as "ondas e vagas" tismo de Jesus em sua morte, sepultamento
do julgamento de Deus (SI 42:7; Jn 2:3). e ressurreição.
Assim, J o ã o Batista testemunhou q u e Je- M a s a declaração do Pai t a m b é m asso-
sus Cristo é o Filho de D e u s e, também, o cia Jesus Cristo c o m o " S e r v o Sofredor" pro-
Cordeiro de D e u s (Jo 1:29), e seu testemu- fetizado em Isaías 40 a 53. Em Mateus 12:18,
nho levou muitos pecadores a crer em Jesus M a t e u s cita Isaías 42:1-3, em q u e o S e r v o
Cristo (Jo 10:39-42). Messias é c h a m a d o de " m e u escolhido, em
q u e m a minha alma se compraz". O Servo
2. O ESPÍRITO S A N T O ( M T 3 : 1 6 ) descrito em Isaías é humilde, rejeitado, desti-
A v i n d a d o Espírito S a n t o e m f o r m a d e nado a sofrer e morrer, mas é retratado c o m o
p o m b a foi um m o d o de identificar Jesus para aquele q u e virá em vitória. A p e s a r de ser
J o ã o ( J o 1:31-34); t a m b é m serviu para ga- possível detectar uma imagem vaga de Israel
rantir a Jesus, naquele m o m e n t o em q u e ini- c o m o nação em alguns desses "cânticos do
ciava seu ministério, q u e o Espírito estaria servo", a revelação mais clara dessas passa-
sempre c o m ele ( J o 3:34). A p o m b a é um gens diz respeito ao Messias, Jesus Cristo.
símbolo muito bonito do Espírito de D e u s Mais uma vez, v e m o s a associação c o m Cristo
em sua pureza e seu ministério de paz. Essa em sua morte, sepultamento e ressurreição.
ave aparece nas Escrituras pela primeira vez Por fim, a declaração do Pai deixou pa-
em G ê n e s i s 8:6-11. N o é soltou dois pássa- tente sua a p r o v a ç ã o de t u d o o q u e Jesus
ros, um c o r v o e uma pomba, mas apenas a havia feito até a q u e l e m o m e n t o . O s anos
p o m b a voltou. O c o r v o representa a carne, q u e Jesus passou " e s c o n d i d o " e m N a z a r é
e não teve dificuldade em encontrar alimen- alegraram muito o Pai. S e m dúvida, esse elo-
to fora da arca. M a s a p o m b a não se conta- gio foi um grande estímulo para o Filho ao
minaria c o m c a r c a ç a s e , portanto, voltou c o m e ç a r seu ministério.
para a arca. Da segunda v e z q u e foi solta, a
p o m b a voltou trazendo no bico o ramo de 4 . SATANÁS ( M T 4 : 1 - 1 1 )
uma oliveira, um símbolo da paz. Da tercei- Da experiência sagrada e sublime das bên-
ra v e z q u e foi solta, não voltou. çãos no Jordão, Jesus foi c o n d u z i d o ao de-
P o d e m o s ver mais um significado nessa serto para ser testado. Jesus não foi tentado
imagem. O n o m e Jonas significa " p o m b a " , para q u e o Pai p u d e s s e aprender alguma
e ele t a m b é m passou por um batismo! Jesus coisa sobre seu Filho, pois o Pai já havia lhe
usou J o n a s c o m o um tipo do próprio Messias dado sua aprovação divina. Jesus foi tenta-
em sua morte, sepultamento e ressurreição do para q u e toda criatura, no céu, na terra
( M t 12:38-40). J o n a s foi enviado aos gentios, ou abaixo dela, soubesse q u e Jesus Cristo é
e Jesus t a m b é m ministraria aos gentios. o Conquistador. Desmascarou Satanás e suas
táticas e o derrotou; por causa de sua vitó-
3. O PAI ( M T 3 : 1 7 ) ria, hoje p o d e m o s v e n c e r a tentação.
O Pai falou dos céus em três ocasiões espe- Assim c o m o o primeiro A d ã o encontrou
20 MATEUS 1 - 2

seu inimigo (1 Co 15:45). Adão se deparou Para derrotar Satanás, Jesus cita Deute-
com Satanás num belo jardim, mas Jesus o ronômio 8:3. Alimentar-se da Palavra de
enfrentou no deserto. Adão tinha tudo o que Deus é mais importante do que consumir
necessitava, mas Jesus estava com fome de- alimento físico. Na verdade, a Palavra é nos-
pois de quarenta dias jejuando. Adão per- so alimento (Jo 4:32-34).
deu a batalha e mergulhou a humanidade A segunda tentação (vv. 5-7). A segun-
no pecado e na morte. Mas Jesus venceu da tentação é bem mais sutil. Dessa vez,
aquela batalha e continuou derrotando Sa- Satanás também usa a Palavra de Deus.
tanás em outras batalhas, culminando com "Quer dizer que você pretende viver pelas
sua vitória final na cruz (Jo 12:31; Cl 2:15). Escrituras?", insinua. "Então, permita-me ci-
Essa experiência de tentação preparou tar um versículo da Palavra para ver se você
Jesus para ser nosso Sumo Sacerdote (Hb lhe obedece!" Assim, Satanás o colocou no
2:16-18; 4:15,16). É importante observar que pináculo do templo, cerca de cento e cin-
Jesus enfrentou o inimigo como homem, não qüenta metros acima do vale de Cedrom, e
como Filho de Deus. Suas primeiras palavras citou o Salmo 91:11,12, em que Deus pro-
foram: "não só de pão viverá o homem" (Mt mete cuidar dos seus. "Se crê nas Escrituras,
4:4; it. do autor). Não devemos imaginar que pule! Vamos ver se o Pai está mesmo cui-
Jesus usou seus poderes divinos para derro- dando de sua vida!"
tar o inimigo, pois era justamente isso o que É importante observar com atenção a
Satanás queria que ele fizesse. Jesus usou resposta de Jesus: " T A M B É M está escrito"
os mesmos recursos espirituais à disposição (Mt 4:7, ênfase do autor). Nunca devemos
de todos nós hoje: o poder do Espírito San- separar uma passagem do resto das Escritu-
to (Mt 4:1) e o poder da Palavra de Deus ras; antes, é preciso sempre "[conferir] coi-
("está escrito"). Não havia coisa na nature- sas espirituais com espirituais" (1 Co 2:13).
za de Jesus que servisse de ponto de apoio Podemos usar a Bíblia para provar pratica-
para Satanás (Jo 14:30), mas, ainda assim, mente qualquer coisa, se isolarmos os tex-
suas tentações foram reais. A tentação en- tos de seu contexto, transformando-os em
volve a vontade, e Jesus veio para fazer a pretextos. Ao citar o Salmo 91, Satanás ha-
vontade do Pai (Hb 10:1-9). via omitido astutamente as palavras "em to-
A primeira tentação (vv. 1-4). Diz res- dos os teus caminhos". O filho de Deus, que
peito ao amor e à vontade de Deus. "Uma está dentro da vontade de Deus, desfruta a
vez que você é o Filho amado de Deus, por proteção do Pai. Ele cuida daqueles que es-
que seu Pai não o alimenta? Por que colo- tão andando nos "[seus] caminhos".
cou você neste deserto terrível?" Essa tenta- Jesus refuta o inimigo com Deuteronô-
ção não é muito diferente das palavras de mio 6:16: "Não tentarás o Senhor, teu Deus".
Satanás a Eva em Gênesis 3: uma insinua- Tentamos o Senhor quando nos colocamos
ção sutil de que o Pai não nos ama. em situações que o obrigam a intervir de
Mas o inimigo faz ainda outra suges- modo miraculoso em nosso favor. O diabé-
tão: "Use seus poderes divinos para suprir tico que se recusa a tomar insulina e diz que
suas próprias necessidades". Quando co- Jesus cuidará dele está tentando o Senhor.
locamos nossas necessidades físicas acima Tentamos Deus quando procuramos fazê-lo
das espirituais, caímos em pecado. Quan- cair em contradição com sua Palavra. É es-
do permitimos que as situações controlem sencial que cada cristão leia todas as Escri-
nossas ações, em vez de seguir a vontade turas e estude tudo o que Deus tem a dizer,
de Deus, também caímos em pecado. Je- pois tudo o que se encontra na Bíblia é pro-
sus poderia ter transformado as pedras em veitoso para nossa vida (2 Tm 3:16, 17).
pães, mas com isso teria usado seus pode- A terceira tentação (w. 8-11). Nessa ten-
res independentemente do Pai, e o Filho tação, Satanás oferece a Jesus um atalho para
veio justamente para obedecer ao Pai (Jo seu reino. Jesus sabia que teria de sofrer e de
5:30; 6:38). morrer antes de entrar em sua glória (Lc 24:26;
MATEUS 1 -2 21

1 Pe 1:11; 5:1). Se tivesse se prostrado e D e p o i s de derrotar Satanás, Jesus estava


a d o r a d o Satanás apenas uma vez (essa é a pronto para iniciar seu ministério. N e n h u m
ênfase do v e r b o grego), teria desfrutado toda h o m e m t e m o direito de c h a m a r outros a
a glória s e m qualquer sofrimento. Satanás o b e d e c e r e n q u a n t o ele p r ó p r i o n ã o tiver
sempre quis receber adoração, pois sempre o b e d e c i d o . Cristo provou ser o Rei perfeito
quis ser D e u s (is 14:12-14). Adorar a criatu- cuja soberania é digna de nosso respeito e
ra em lugar do Criador é a mentira q u e go- obediência. M a s fiel a seu propósito, M a t e u s
v e r n a nosso m u n d o nos dias d e hoje ( R m t e m mais u m a testemunha para d e p o r em
1:24, 25). favor da realeza de Jesus Cristo.
N ã o existem atalhos para a v o n t a d e de
D e u s . S e d e s e j a m o s participar d a glória, 5. O MINISTÉRIO DE PODER DE C R I S T O
d e v e m o s participar antes do sofrimento (1 Pe (MT 4:12-25)
5:10). C o m o príncipe deste mundo, Satanás M a t e u s já mostrou q u e todos os detalhes
tinha autoridade para oferecer esses reinos da vida de Jesus foram governados pela Pa-
para Cristo ( J o 12:31; 14:30), mas Jesus não lavra de Deus. D e v e m o s lembrar que, entre
aceitou a oferta. O Pai já havia prometido o o final das tentações e a declaração de Ma-
reino a seu Filho! "Pede-me, e eu te darei as teus 4:12, temos o ministério descrito em
n a ç õ e s por h e r a n ç a " (SI 2:8). Encontramos J o ã o 1:19 - 3:36. N ã o d e v e m o s imaginar
a m e s m a promessa no S a l m o 22:22-31, o q u e J o ã o Batista foi preso logo d e p o i s da
salmo da cruz. tentação de Jesus. O Evangelho de M a t e u s
Jesus o refuta c o m D e u t e r o n ô m i o 6:13: é organizado por tópicos, não em seqüên-
" O S E N H O R , teu Deus, temerás, a ele servi- cia cronológica. Para o estudo mais detalha-
rás". Satanás não havia dito nada sobre pres- do da seqüência dos acontecimentos, reco-
tar culto, mas Jesus sabia q u e toda adora- m e n d o o uso d e u m a b o a h a r m o n i a d o s
ç ã o implica servidão. A d o r a ç ã o e s e r v i ç o Evangelhos.
a n d a m juntos. Em M a t e u s 4:16, M a t e u s cita Isaías (ver
Derrotado, Satanás saiu de fininho, mas Is 9:1, 2). O profeta escreveu sobre pessoas
n ã o deixou de tentar Jesus, c o m o Lucas 4:13 q u e " a n d a v a m " na escuridão, mas no tem-
deixa claro: "Passadas q u e foram as tenta- po de M a t e u s a situação era tão desanima-
ç õ e s de toda sorte, apartou-se dele o diabo, dora q u e o p o v o "jazia" na escuridão! Jesus
até m o m e n t o oportuno". Satanás usou Pedro Cristo lhes trouxe a luz. M o n t o u seu "centro
para tentar Jesus a a b a n d o n a r a c r u z ( M t d e o p e r a ç õ e s " e m Cafarnaum, n a "Galiléia
16:21-23); por m e i o da multidão q u e havia dos gentios" - outra referência ao alcance
sido alimentada, tentou Jesus a estabelecer universal do evangelho. A Galiléia possuía
seu reino da maneira mais fácil ( J o 6:15). u m a p o p u l a ç ã o mestiça desprezada pelos
U m a vitória n ã o garante jamais a liberdade cidadãos " p u r o s " da Judéia.
de futuras tentações. Antes, c a d a experiên- D e q u e maneira Jesus trouxe essa luz
cia de vitória serve apenas para incentivar para a Galiléia? De a c o r d o c o m M a t e u s 4:23,
Satanás a tentar c o m mais afinco. e l e o fez por m e i o de suas p r e g a ç õ e s ,
C o n v é m observar q u e o relato de Lucas ensinamentos e curas. Essa ênfase p o d e ser
inverte a o r d e m das duas últimas tentações e n c o n t r a d a c o m freqüência n o E v a n g e l h o
c o n f o r m e se e n c o n t r a m registradas em Ma- de M a t e u s : ver 9:35; 11:4, 5; 12:15; 14:34-
teus. A palavra " e n t ã o " em M a t e u s 4:5 pare- 36; 15:30; 19:2. O evangelista deixa claro
ce indicar s e q ü ê n c i a . Lucas a p e n a s usa a q u e Jesus c u r o u "toda sorte de d o e n ç a s e
c o n j u n ç ã o simples " e " , sem afirmar q u e está d e enfermidades" ( M t 4:23). N ã o havia c a s o
seguindo uma seqüência. A injunção de Je- algum difícil demais para Jesus!
sus no final da terceira tentação ("Retira-te, Em decorrência desses grandes milagres,
Satanás") c o m p r o v a q u e M a t e u s segue a se- Jesus tornou-se extremamente c o n h e c i d o e
qüência histórica. N ã o há contradição, pois passou a ser a c o m p a n h a d o por uma multi-
22 MATEUS 8-9

indica o versículo 15. A expressão "além do homens que já haviam se encontrado com
Jordão" refere-se à Peréia, a região a leste Jesus e crido nele {Jo 1:29-42). Voltaram para
do Jordão. As notícias correram, e os que seu negócio de pesca, mas Jesus os chamou
tinham amigos ou familiares enfermos os tra- para deixar tudo e segui-lo. Os detalhes des-
ziam para ser curados por Jesus. se chamado podem ser encontrados em
Mateus apresenta uma relação de alguns Marcos 1:16-20 e Lucas 5:1-11.
desses "casos" em Mateus 4:24. "Enfermida- A expressão "pescadores de homens"
des e tormentos" abrangem quase todos os não era nova. Há séculos, filósofos gregos e
tipos de doenças. Sem dúvida, Jesus também romanos usavam-na para descrever o traba-
expulsou vários demônios. O termo "lunáti- lho daqueles que procuravam ensinar e per-
cos" não se refere a pessoas com doenças suadir outros. "Pescar homens" é apenas
mentais, mas sim aos que sofriam de epilep- uma dentre muitas imagens que retratam o
sia {ver Mt 1 7:15). As curas foram apenas uma evangelismo na Bíblia, e não devemos nos
parte do ministério de Cristo por toda a limitar a ela. Jesus também falou do pastor à
Galiléia, pois ele também ensinou e pregou procura de ovelhas perdidas (Lc 15:1-7) e de
a Palavra. A "luz" prometida por Isaías foi a trabalhadores na época da colheita (Jo 4:34-
Luz da Palavra de Deus, bem como a Luz da 38). Uma vez que esses quatro homens tra-
vida perfeita e do ministério compassivo de balhavam com a pesca, nada mais lógico que
Cristo. A palavra "pregar", em Mateus 4:1 7 e Jesus usar essa abordagem.
23, significa "anunciar como arauto". Jesus Quatro (ou talvez até sete) dos doze dis-
proclamou com autoridade as boas-novas de cípulos de Jesus eram pescadores (ver Jo
que o reino dos céus estava próximo. 21:1-3). Por que Jesus chamou tantos pesca-
A expressão reino dos céus é encontra- dores? Em primeiro lugar, eles eram homens
da 32 vezes no Evangelho de Mateus, en- ativos; não costumavam passar o dia inteiro
quanto a expressão reino de Deus é usada ociosos. Q u a n d o não estavam no barco,
apenas 5 vezes ( M t 6:33; 12:28; 19:24; passavam boa parte do tempo selecionan-
21:31, 43). Por uma questão de reverência do o que haviam pescado, preparando-se
ao nome santo do Senhor, os judeus não para a pescaria seguinte ou fazendo a ma-
pronunciavam o nome "Deus", substituindo- nutenção de seu equipamento. O Senhor
o por "céus". O filho pródigo confessou ha- precisava de pessoas ativas, que não tives-
ver pecado "contra o céu", referindo-se, sem medo de trabalhar.
obviamente, a Deus. Em várias passagens em Os pecadores tinham de ser corajosos e
que Mateus usa reino dos céus, os textos pacientes. Sem dúvida, é necessário paciên-
paralelos em Marcos e Lucas usam reino cia e coragem para levar pessoas a Cristo.
de Deus. Era preciso ser habilidosos e aprender com
No Novo Testamento, a palavra reino sig- outros os melhores lugares para encontrar
nifica "autoridade, governo", não um lugar peixes e a melhor maneira de pescá-los. A
ou território específico. A expressão "reino pesca de almas requer habilidade. Os pes-
dos céus" refere-se ao governo de Deus. Os cadores precisam trabalhar em equipe, e o
líderes judeus queriam um líder político que trabalho do Senhor também requer coope-
os livrasse de Roma, mas Jesus veio exercer ração. Acima de tudo, porém, a pescaria
soberania espiritual sobre o coração do povo. requer fé: os pescadores não conseguem ver
No entanto, como vimos anteriormente, isso os peixes, portanto não sabem ao certo o
não nega a realidade do reino vindouro. que pegarão em suas redes. A fim de ser
Jesus não apenas proclamou as boas-no- bem-sucedida, a pesca de almas também
vas e ensinou ao povo a verdade de Deus, exige fé e vigilância.
mas também escolheu para si alguns discí- Mateus apresentou-nos o Rei, e, no capí-
pulos que pudesse treinar para o serviço do tulo que acabamos de estudar, vimos todas
reino. Em Mateus 4:18-22, lemos sobre o as testemunhas declararem: "Este é o Filho
chamado de Pedro, André, Tiago e João, de Deus, este é o Rei!"
Neste capítulo, jesus dá três explicações
sobre a verdadeira justiça espiritual.

1. A NATUREZA DA JUSTIÇA V E R D A D E I R A
Os PRINCÍPIOS DO REI: (Mt 5:1-16)
Como Mestre exemplar que foi, Jesus não
A V E R D A D E I R A JUSTIÇA
começa este sermão tão importante com
uma crítica negativa aos escribas e fariseus.
MATEUS 5
Antes, inicia seu discurso com uma ênfase
positiva sobre o caráter idôneo e as bênçãos
que dele decorrem para o cristão. Os fariseus
ensinavam que a justiça era algo exterior,

O sermão do monte é de todas as mensa-


gens de Jesus a mais mal interpretada.
Uns dizem que é o plano de salvação de
uma questão de obedecer a determinadas
regras e preceitos. Poderia ser medida por
orações, ofertas, jejuns etc. Jesus, nas bem-
Deus e que, se desejamos ir para o céu um aventuranças e nas descrições do indivíduo
dia, devemos obedecer a suas regras. Ou- temente a Deus, apresenta um caráter cris-
tros o chamam de "tratado em prol da paz tão que flui do ser interior.
mundial" e instam as nações da Terra a acei- Podemos imaginar como a atenção da
tá-lo como tal. Outros, ainda, dizem que o multidão se aguçou quando jesus proferiu
sermão do monte não se aplica aos dias de as primeiras palavras: "bem-aventurados" (em
hoje, mas que valerá para um tempo futuro, latim, beatus, de onde vem o termo bea-
talvez durante a tribulaçao ou no reino títude). Essa palavra tinha significado muito
milenar. forte para os que ouviam Jesus naquele dia,
A meu ver, a chave para esse sermão é pois expressava a idéia de "alegria divina e
Mateus 5:20: "Porque vos digo que, se a perfeita". Não era um termo usado para os
vossa justiça não exceder em muito a dos seres humanos, pois descrevia o tipo de ale-
escribas e fariseus, jamais entrareis no reino gria experimentado apenas por deuses ou
dos céus". O tema central desse texto é a por mortos. Essa "bem-aventu rança" suge-
verdadeira justiça. Os líderes religiosos pos- ria satisfação e suficiência interiores que não
suíam uma justiça artificial e exterior com dependiam das circunstâncias externas para
base apenas na lei. A justiça que Jesus des- ter alegria. É isso que o Senhor oferece aos
creve, porém, é verdadeira e essencial, co- que confiam nele!
meça no interior, no coração. Os fariseus As bem-aventu ranças descrevem as atitu-
preocupavam-se com os mínimos detalhes des que devem estar presentes em nossa vida
da conduta, mas deixavam de cuidar do mais hoje. Vemos aqui quatro dessas atitudes.
importante, o caráter. A conduta é decor- Atitude em relação a si mesmo (v. 3).
rente do caráter. Ser humilde significa ter uma opinião corre-
Quaisquer que sejam as possíveis aplica- ta de si mesmo (Rm 12:3). Não quer dizer
ções do sermão do monte para os proble- ser "pobre de espírito" e fraco! A humilda-
mas mundiais ou os acontecimentos futuros, de é o oposto das atitudes atuais de auto-
sem dúvida ele se aplica de maneira bem de- afirmação e de exaltação. Também não é
finida a nós hoje. Jesus transmitiu essa men- uma falsa humildade, como aquela que diz:
sagem aos cristãos como indivíduos, não ao " N ã o tenho valor algum, não sou capaz de
mundo incrédulo em geral. Os ensinamentos fazer nada", mas sim uma atitude de ho-
do sermão do monte são repetidos para a nestidade em relação a si mesmo: conhe-
Igreja de hoje nas epístolas do Novo Tes- cer-se, aceitar-se e tentar ser autêntico para
tamento. A princípio, Jesus proferiu essas pa- a glória de Deus.
lavras para seus discípulos (Mt 5:1), e mais Atitude em relação ao pecado (w. 4-6).
24 MATEUS 8-9

pecado e o rejeitamos. Vemos o pecado co- na multidão disseram: "É impossível cultivar
mo Deus o vê e procuramos tratá-lo como um caráter como esse. Como ser justos as-
Deus o trata. Aqueles que encobrem ou sim? De onde vem essa justiça?" Para eles,
defendem o pecado estão, sem dúvida algu- era difícil entender de que maneira esses
ma, indo pelo caminho errado. Não deve- ensinamentos se relacionavam àquilo que
mos apenas nos entristecer com o pecado, haviam aprendido desde a infância. E quan-
mas também nos sujeitar a Deus com man- to a Moisés e à lei?
sidão (ver Lc 18:9-14; Fp 3:1-14). Na lei de Moisés, Deus certamente reve-
Mansidão não é o mesmo que fraque- lou seus padrões para uma vida de santidade.
za, pois tanto Moisés quanto Jesus foram Os fariseus defendiam a lei e procuravam
homens mansos (Nm 12:3; Mt 11:29). O lhe obedecer. Mas Jesus afirmou que a ver-
adjetivo "manso" era usado pelos gregos dadeira justiça agradável a Deus deve exce-
para descrever um cavalo domado e se refe- der aquela dos escribas e fariseus - e, para
re ao poder sob controle. o povo em geral, os escribas e fariseus eram
Atitude em relação a Deus (vv. 7-9). as pessoas mais santas da comunidade! Se
Experimentamos a misericórdia de Deus eles não haviam conseguido encontrar essa
quando cremos em Cristo (Ef 2:4-7), e ele justiça, que esperança haveria para o restan-
nos dá um coração puro (At 15:9) e paz in- te do povo?
terior (Rm 5:1). Mas, depois de receber sua Jesus explica a própria atitude com res-
misericórdia, nós a compartilhamos com peito à lei descrevendo três relacionamen-
outros. Esforçamo-nos por manter o coração tos possíveis.
puro a fim de buscar a Deus. Tornamo-nos É possível procurar destruir a lei (v. 17a).
pacificadores em um mundo perturbado e Para os fariseus, era justamente isso o que
canais para a paz, a pureza e a misericórdia Jesus fazia. Em primeiro lugar, a autoridade
de Deus. de Jesus não era proveniente de nenhum
Atitude em relação ao mundo (vv. 10- líder ou escola rabínica conhecida. Em vez
16). Não é fácil ser um cristão consagrado. de ensinar os preceitos das autoridades no
Nossa sociedade não tem amizade c o m assunto, como os escribas e fariseus, Jesus
Deus nem com o povo de Deus. Quer gos- ensinava com autoridade.
temos quer não, estamos em conflito com o Jesus parecia desafiar a lei não apenas
mundo, pois somos diferentes e temos atitu- com sua autoridade, mas também com suas
des diferentes. ações. Curava pessoas no sábado e não fazia
Ao ler as bem-aventuranças, observamos caso das tradições dos fariseus. Seus relacio-
que mostram uma perspectiva radicalmente namentos também pareciam opor-se à lei, pois
diferente daquela do mundo a nosso redor. era amigo de publicanos e de pecadores.
O mundo estimula o orgulho e não a humil- No entanto, eram os fariseus que des-
dade. O mundo incentiva o pecado, espe- truíam a lei! Por meio de suas tradições, pri-
cialmente se for possível escapar impunes. vavam as pessoas da Palavra de Deus, e por
O mundo está em guerra com Deus, enquan- meio de uma vida hipócrita, desobedeciam
to Deus deseja se reconciliar com seus ini- às leis que afirmavam proteger. Os fariseus
migos e recebê-los como filhos. Q u e m vive pensavam estar guardando a Palavra de
de maneira agradável a Deus deve esperar Deus, quando, na verdade, reprimiam a Pala-
perseguições. Mas é importante certificar- vra de Deus, sufocando-a com seus preceitos
se de que o sofrimento não é resultante da humanos e acabando com sua vitalidade!
própria insensatez ou desobediência. O fato de terem rejeitado Cristo quando veio
à Terra comprovou que a verdade interior
2. O CAMINHO PARA A JUSTIÇA da lei não havia penetrado o coração des-
VERDADEIRA ( M T 5 : 1 7 - 2 0 ) ses homens.
Depois de ouvir a descrição do tipo de ca- Jesus deixou claro que veio para honrar
ráter que Deus abençoa, sem dúvida alguns a lei e ajudar o povo de Deus a amá-la, apren-
MATEUS1-2 25

der dela e colocá-la em prática. Recusou a ( H b 10:19). Derrubou o muro de separação


justiça artificial dos líderes religiosos, q u e não entre judeus e gentios (Ef 2:11-13). U m a v e z
passava de uma farsa. Para eles, a religião que a lei foi cumprida em Jesus, não preci-
era um ritual morto, não um relacionamen- samos mais de templos construídos por mãos
to vivo. U m a v e z q u e era falsa, n ã o se repro- humanas (At 7;48ss) n e m de rituais religio-
duzia em outros de maneira viva e eficaz. sos (Cl 2:10-13).
Promovia apenas o orgulho, não a humilda- C o m o é possível cumprir a lei? Entregan-
de; conduzia à escravidão, n ã o à liberdade. do-nos ao Espírito S a n t o e d e i x a n d o q u e
Podemos procurar cumprir a lei (v. opere em nossa vida ( R m 8:1-3). O Espírito
17b). Jesus Cristo cumpriu a lei de D e u s em Santo permite q u e experimentemos "a justi-
todos os aspectos de sua vida. Cumpriu-a ça da lei" em nossa vida diária. Isso não sig-
em seu nascimento, pois foi "nascido sob a nifica que temos u m a vida perfeita e sem
lei" (Gl 4:4). Seus pais realizaram todos os pecado, mas sim q u e Cristo vive em nós pelo
rituais prescritos para um menino judeu. Por poder do Espírito Santo (GF2-.20).
certo, t a m b é m cumpriu a lei em sua vida, Q u e m lê as bem-aventuranças, vê ali re-
pois ninguém nunca foi c a p a z de acusá-lo tratado o caráter perfeito de Jesus Cristo.
de qualquer p e c a d o . Jesus o b e d e c e u a to- Apesar de nunca ter se entristecido c o m seu
dos os mandamentos de D e u s na lei sem, pecado, pois jamais pecou, ainda assim foi
no entanto, se sujeitar às tradições dos escri- um " h o m e m de dores e q u e sabe o q u e é
bas e fariseus. O Pai expressou sua aprova- p a d e c e r " (Is 53:3). N u n c a precisou sentir
ç ã o declarando: "Este é o m e u Filho amado, f o m e n e m sede de justiça, pois era o santo
em q u e m me c o m p r a z o " ( M t 3:1 7; 1 7:5). Filho de Deus, mas se agradou da v o n t a d e
Jesus t a m b é m c u m p r i u a lei em seus do Pai e e n c o n t r o u s a c i e d a d e nessa obe-
ensinamentos, e foi isso o q u e o levou a en- diência (Jo 4:34). A única forma de experi-
trar em conflito c o m os líderes religiosos. mentar a justiça das bem-aventuranças é por
Q u a n d o c o m e ç o u seu ministério, encontrou meio do poder de Cristo.
a Palavra viva de D e u s recoberta de tradi- Podemos procurar cumprir e ensinar a
ç õ e s e de i n t e r p r e t a ç õ e s h u m a n a s . J e s u s lei (v. 19). Isso n ã o significa voltar toda a
r o m p e u essa "casca de religiosidade" e guiou atenção para o Antigo Testamento e esque-
o p o v o de volta à Palavra de Deus. Em se- cer o N o v o ! 2 Coríntios 3 deixa b e m claro
guida, revelou-a c o m o nova forma de viver q u e nosso ministério refere-se à nova alian-
para uma gente acostumada c o m a "letra" ça. Existe, porém, um ministério da lei (1 Tm
da lei, não c o m a "essência" da vida. 1:9ss) q u e não é contrário à mensagem glo-
Foi, porém, em sua morte e ressurreição riosa da graça de Deus. Jesus deseja q u e
q u e Jesus cumpriu a lei de maneira espe- cresçamos em c o n h e c i m e n t o acerca da jus-
cial, pois levou sobre si a maldição da lei ( G l tiça de Deus, a fim de q u e sejamos capazes
3:13). Ele cumpriu os tipos e as cerimônias de lhe o b e d e c e r e de compartilhá-la c o m
do Antigo Testamento para q u e não fossem outros. A lei moral de D e u s n ã o m u d o u .
mais necessários a o povo d e D e u s (ver H b N o v e dos d e z mandamentos são repetidos
9 - 10). C o l o c o u de lado a antiga aliança e nas epístolas do N o v o Testamento, e os cris-
firmou uma nova aliança. tãos são c h a m a d o s a o b e d e c e r a eles. (A
A fim de destruir a lei, Jesus não lutou única e x c e ç ã o é o m a n d a m e n t o s o b r e o
contra ela; ele a cumpriu! Talvez possamos sábado, d a d o c o m o um sinal para Israel. V e r
esclarecer esse fato c o m uma ilustração. Há N e 9:14.)
d u a s maneiras d e destruir u m a s e m e n t e : N ã o o b e d e c e m o s a uma lei exterior por
esmagando-a e m p e d a ç o s o u plantando-a medo. Antes, c o m o cristãos nos dias de hoje,
para q u e cumpra seu propósito e se trans- o b e d e c e m o s a uma lei interior e vivemos por
forme n u m a árvore. causa do amor. O Espírito Santo nos ensina
Q u a n d o Jesus morreu, rasgou o v é u do a Palavra e nos capacita a o b e d e c e r a ela.
templo e abriu o c a m i n h o para a santidade Pecado continua sendo pecado, e Deus
26 MATEUS 8-9

continua a castigá-lo. Na realidade, os cris- Isso não significa que devemos matar
tãos de hoje têm ainda mais responsabilida- alguém de fato, uma vez que já o fizemos
de, pois temos mais conhecimento! intimamente. Por certo, os sentimentos pe-
caminosos não servem de desculpa para
3. A JUSTIÇA EM AÇÃO NA VIDA DIÁRIA ações pecaminosas. A ira pecaminosa rom-
( M T 5:21-48) pe nossa comunhão com Deus e com os
Jesus selecionou seis leis importantes do irmãos, mas não faz com que sejamos pre-
Antigo Testamento e as interpretou para o sos como assassinos. No entanto, não fo-
povo à luz da vida nova que veio oferecer. ram poucos os que se tornaram homicidas
Fez uma alteração fundamental sem, no por não conseguir controlar seu furor.
entanto, mudar o padrão de Deus: tratou A ira deve ser encarada honestamente e
das atitudes e intenções do coração, não confessada diante de Deus como pecado.
apenas das ações aparentes. Os fariseus di- Devemos procurar a pessoa ofendida e colo-
ziam que a justiça consistia em realizar de- car as coisas em ordem sem demora. Quanto
terminadas ações. Jesus diz que o cerne da mais esperarmos, pior se torna a escravidão!
justiça são as atitudes do coração. Q u a n d o recusamos a reconciliação, con-
O mesmo se aplica ao pecado: os fa- denamo-nos a uma terrível prisão. (Para mais
riseus tinham uma lista de ações exteriores conselhos a esse respeito, ver Mt 18:15-20.)
consideradas pecado, mas Jesus explicou Alguém disse bem que a pessoa que se re-
que o pecado provém das atitudes do cora- cusa a perdoar seu irmão está destruindo a
ção. A ira sem motivo é homicídio no co- mesma ponte sobre a qual precisa andar.
ração; a lascívia é adultério no coração. A Adultério (vv. 27-30; Êx 20:14). Jesus
pessoa que afirma "viver segundo o sermão assevera a pureza da lei de Deus e, em
do monte" talvez não perceba que é mais seguida, explica que a intenção dessa lei é
difícil seguir esses preceitos do que os Dez revelar a santidade do sexo e a pecami-
Mandamentos! nosidade do coração humano. Deus criou
Homicídio (vv. 21-26; Êx 20:13). Segun- o sexo e protege essa criação. Tem autori-
do uma estatística que li, em Chicago, uma dade para determinar como deve ser usado
em cada trinta e cinco mortes é por assassi- e para punir os que se rebelam contra suas
nato, a maior parte delas é "crimes passio- leis. Deus não estabeleceu regras para o sexo
nais" causados pela ira descontrolada entre porque deseja nos controlar, mas sim por-
amigos e parentes. Jesus não diz que a ira que deseja nos abençoar. Deus sempre diz
conduz ao homicídio, mas sim que a ira é "não" para poder dizer "sim".
uma forma de homicídio. A impureza sexual nasce dos desejos do
Existe uma ira santa contra o pecado coração. Mais uma vez, Jesus não está dizen-
(Ef 4:26), mas Jesus refere-se aqui a uma ira do que desejos lascivos são a mesma coisa
pecaminosa contra as pessoas. A palavra que práticas lascivas e, portanto, que a pes-
que usa em Mateus 5:22 significa "ira cul- soa pode aproveitar e cometer adultério de
tivada, malignidade alimentada no ser in- fato, uma vez que já o fez em pensamento.
terior". Jesus descreve uma experiência O desejo e a prática não são idênticos, mas,
pecaminosa constituída de vários estágios. em termos espirituais, são equivalentes. O
Primeiro, a manifestação de uma ira sem "olhar" que Jesus menciona não é apenas
motivo. Depois, a explosão dessa ira em casual e de relance; antes, é um olhar fixo e
palavras, que põe mais lenha na fogueira e, demorado com propósitos lascivos. É possí-
por fim, leva à condenação: "Seu tolo, seu vel um homem olhar de relance para uma
rebelde obstinado!" mulher, constatar que ela é linda, mas não
A ira pecaminosa é insensata, pois nos ter pensamentos lascivos depois disso. O
faz destruir em vez de edificar. Tira nossa li- homem que Jesus descreve olha para a mulher
berdade e nos faz prisioneiros. Odiar alguém com o propósito de alimentar seus apetites
é cometer homicídio no coração (1 Jo 3:15). sexuais interiores, como um substituto para
MATEUS1-2 27

o ato sexual em si. N ã o é uma situação aci- a sofrer a perda, em v e z de causar sofrimen-
dental, mas um ato planejado. to a outros. É evidente q u e ele aplica esse
C o m o v e n c e r essas tentações? Pela pu- princípio a ofensas pessoais, n ã o em nível
rificação dos desejos do c o r a ç ã o (o apetite coletivo ou nacional. A pessoa q u e busca a
c o n d u z à a ç ã o ) e pela disciplina das ações vingança causa apenas mais sofrimento a si
do corpo. Claro q u e Jesus não está falando m e s m a e ao transgressor, e o resultado é
literalmente de realizar uma cirurgia, pois isso guerra, n ã o paz.
não resolveria o problema do coração. Em A fim de "dar a outra f a c e " , d e v e m o s
se tratando dos p e c a d o s sexuais, os olhos e permanecer o n d e estamos e não fugir, uma
as m ã o s são geralmente os dois grandes "cul- atitude q u e requer fé e amor. T a m b é m quer
p a d o s " ; portanto, são eles q u e d e v e m ser dizer q u e nós p o d e m o s ser feridos, mas é
disciplinados. Jesus diz: "trate o p e c a d o de melhor ser ferido por fora do q u e danificado
maneira imediata e decisiva! N ã o pense n u m por dentro. Significa, ainda, q u e devemos
tratamento gradual. A r e m o ç ã o d e v e ser ra- procurar ajudar o pecador. Estamos vulnerá-
dical!" A cirurgia espiritual é mais importan- veis, pois ele p o d e nos atacar novamente,
te do q u e a cirurgia física, pois os p e c a d o s mas s o m o s vitoriosos, pois J e s u s está do
do c o r p o p o d e m levar ao julgamento eterno. nosso lado, ajudando-nos a construir nosso
C o n v é m refletir sobre passagens c o m o Co- caráter. De a c o r d o c o m os psicólogos, a vio-
lossenses 3:5 e Romanos 6:13; 12:1, 2; 13:14. lência nasce da fraqueza, n ã o da força. O
Divórcio (w. 31, 32). Jesus trata do di- h o m e m forte é c a p a z de amar e de sofrer,
v ó r c i o mais d e t a l h a d a m e n t e e m M a t e u s enquanto o fraco pensa apenas em si mes-
19:1-12; falaremos mais sobre o assunto nos mo e fere os outros para se defender. De-
comentários referentes a essa passagem. pois, foge para se proteger.
Juramentos (vv. 33-37; Lv 19:12; Dt O amor pelos inimigos (vv. 43-48; Lv
23:23). Trata-se do p e c a d o de usar juramen- 19:17, 18). Em m o m e n t o algum a lei ensina
tos para reforçar a veracidade de uma de- a odiar os inimigos. Passagens c o m o Êxodo
claração. Os fariseus usavam vários tipos de 23:4, 5 indicam exatamente o contrário! Para
artifício para esquivar-se da verdade, e o ju- Jesus, nossos inimigos são aqueles q u e nos
ramento era um deles. Evitavam usar o n o m e a m a l d i ç o a m , nos o d e i a m e nos exploram.
santo de Deus, mas e m p r e g a v a m aproxima- U m a vez q u e o a m o r cristão é um ato de
ç õ e s c o m o a cidade de Jerusalém, céu, ter- nossa v o l i ç ã o , n ã o a p e n a s u m a e m o ç ã o ,
ra, ou alguma parte do corpo. D e u s p o d e o r d e n a r q u e a m e m o s nossos
Jesus ensina q u e nossas conversas de- inimigos. Afinal, ele nos a m o u quando éra-
v e m ser tão honestas e nosso caráter tão mos seus inimigos ( R m 5:10). P o d e m o s de-
v e r d a d e i r o q u e n ã o haja n e c e s s i d a d e d e monstrar esse amor a b e n ç o a n d o os q u e nos
usar qualquer outro recurso para fazer as amaldiçoam, fazendo o b e m a eles e orando
pessoas a c r e d i t a r e m e m nós. A s palavras por eles. Q u a n d o oramos por nossos inimi-
d e p e n d e m do caráter, e juramentos n ã o são gos, a c h a m o s mais fácil amá-los, pois a ora-
c a p a z e s de c o m p e n s a r a falta de caráter. ç ã o remove o " v e n e n o " de nossas atitudes.
" N o muito falar n ã o falta transgressão, mas Jesus apresenta vários motivos para essa
o q u e m o d e r a os lábios é p r u d e n t e " ( P v admoestação: (1) Tal amor é sinal de matu-
10:19). Q u a n t o mais palavras a l g u é m usa ridade e prova q u e somos filhos do Pai, e
para nos c o n v e n c e r , mais d e s c o n f i a d o s não apenas criancinhas. (2) É divino, pois o
d e v e m o s ficar. Pai compartilha as coisas boas c o m aqueles
Vingança (vv. 38-42; Lv 24:19-22). A lei q u e se o p õ e m a ele. M a t e u s 5:45 sugere
original era justa, pois impedia q u e as pes- q u e nosso amor cria um clima de b ê n ç ã o s
soas obrigassem o transgressor a pagar um q u e torna mais fácil ganhar nossos inimigos
preço maior do q u e o merecido por sua ofen- e transformá-los em amigos. O a m o r é c o m o
sa e t a m b é m evitava a retaliação. Jesus subs- o brilho do Sol e a chuva q u e o Pai, em sua
28 MATEUS 8-9

para os outros. " Q u e fazem vocês mais do O termo perfeito em Mateus 5:48 não
que os outros?". Essa é uma boa pergunta. significa impecavelmente perfeito, pois isso
Deus espera que vivamos neste mundo num é impossível nesta vida (apesar de ser um
nível bem mais elevado que o dos não cris- excelente alvo para nossos esforços); antes,
tãos, que retribuem o bem com bem e o refere-se a nossa integridade e maturidade
mal com mal. Como cristãos, devemos retri- como filhos de Deus. O Pai ama seus inimi-
buir o mal com o bem, considerando isso gos e procura transformá-los em filhos, e de-
um investimento de amor. vemos auxiliá-lo nessa tarefa!
de Deus (Ef 2:8, 9). Além disso, é tolice viver
em função do reconhecimento humano, pois
a glória do homem não dura muito tempo
(1 Pe 1:24). O que importa é a glória e o
Os PRINCÍPIOS DO REI: A louvor de Deus!
Nossa natureza pecaminosa é tão sutil
VERDADEIRA ADORAÇÃO
que pode corromper até mesmo algo bom,
como ajudar os pobres. Se nossa motivação
MATEUS 6
é receber o reconhecimento humano, en-
tão, como os fariseus, chamaremos a aten-
ção para o que estamos fazendo. Se nosso
motivo é servir a Deus e lhe agradar em

A verdadeira justiça do reino deve ser apli-


cada às atividades da vida diária. Essa
é a ênfase do restante do sermão do monte.
amor, realizaremos nossas contribuições sem
chamar a atenção e, assim, cresceremos es-
piritualmente, Deus será glorificado e outros
Jesus associa esse princípio a nossa relação serão ajudados. Mas se ofertarmos por moti-
com Deus na adoração (Mt 6:1-18), com as vos errados, privamo-nos das bênçãos e das
coisas materiais (Mt 6:19-34) e com as ou- recompensas e roubamos a glória de Deus,
tras pessoas (Mt 7:1-20). mesmo que dinheiro ofertado ajude uma
Jesus também adverte quanto ao perigo pessoa necessitada.
da hipocrisia (Mt 6:2, 5, 16), o pecado de Isso significa que é errado ofertar aber-
usar a religião para esconder nossas trans- tamente? Todas as ofertas devem ser anôni-
gressões. Hipócrita não é quem fica aquém mas? Não necessariamente, pois os cristãos
de seus aítos ideais nem quem peca ocasio- da Igreja primitiva sabiam que Barnabé ha-
nalmente, pois todos sofremos tais fracassos. via doado o valor recebido da venda de suas
Hipócrita é alguém que usa a religião delibe- terras (At 4:34-37). Quando os membros da
radamente para esconder seus pecados e igreja colocavam seu dinheiro aos pés dos
promover o benefício próprio. O termo gre- apóstolos, não o faziam em segredo. É evi-
go traduzido por hipócrita significa original- dente que a diferença está na motivação
mente "um ator que usa máscaras". interior, não no modo como a oferta era
A justiça dos fariseus era insincera e de- realizada. Vemos um contraste no caso de
sonesta. Praticavam sua religião visando ao Ananias e Safira (At 5:1-11), que tentaram
louvor dos homens e não à recompensa de usar sua oferta para mostrar aos outros uma
Deus. A verdadeira justiça deve vir do inte- espiritualidade que, na verdade, nenhum dos
rior. Cabe a cada um avaliar a sinceridade e dois possuía.
a honestidade de seu compromisso cristão.
Neste capítulo, Jesus aplica essa avaliação a 2 . N O S S A S ORAÇÕES ( M T 6 : 5 - 1 5 )
quatro áreas distintas da vida. Jesus apresenta quatro instruções para orien-
tar nossa oração.
1 . N O S S A S CONTRIBUIÇÕES ( M T 6 : 1 - 4 ) Devemos orar em particular antes de
Dar esmolas aos pobres, orar e jejuar eram orar em público (v. 6). Não é errado orar
disciplinas importantes na religião dos fari- em público na congregação (1 Tm 2:1 ss),
seus. Jesus não condenou essas práticas, mas ao agradecer o alimento (Jo 6:11) ou, ainda,
advertiu que era preciso ter uma atitude ao buscar auxílio de Deus (Jo 11:41, 42, At
interior correta ao realizá-las. Os fariseus 27:35). Mas é errado orar em público se não
usavam as esmolas como forma de obter o temos o hábito de orar em particular. Aque-
favor de Deus e a atenção dos homens - les que estão nos observando podem pensar
duas motivações erradas. Não há oferta, por que praticamos a oração em nossa vida par-
mais generosa que seja, capaz de comprar ticular. Assim, a oração pública que não tem
30 MATEUS 8-9

não passa de hipocrisia. A palavra quarto de pedir a Deus qualquer coisa que deson-
também pode ser traduzida por "câmara re o nome dele, que impeça o avanço de
particular" e se referir à despensa da casa. seu reino, ou que seja um empecilho a sua
O relato bíblico mostra Jesus ( M c 1:35), vontade na Terra.
Eliseu (2 Rs 4:32ss) e Daniel (Dn 6:1 Oss) oran- É interessante observar que todos os
do em particular. pronomes da oração estão no plural, não no
Devemos orar com sinceridade (vv. 7, singular ("Pai nosso"). Ao orar, é preciso lem-
8). O fato de repetir um pedido não o torna brar que somos parte da família de Deus,
uma "vã repetição", pois tanto Jesus quanto constituída de cristãos de todo o mundo.
Paulo repetiram suas petições (Mt 26:36-46; Não temos o direito de pedir qualquer coi-
2 Co 12:7, 8). Um pedido torna-se "vã repe- sa que prejudique outro membro desta
tição" quando as palavras não refletem um família. Se estivermos orando segundo a von-
desejo sincero de buscar a vontade de Deus. tade de Deus, de uma forma ou de outra, a
A prática de recitar orações memorizadas resposta abençoará todo o povo de Deus.
pode se transformar em vã repetição. Os Se colocarmos os interesses de Deus em
gentios usavam orações em suas cerimônias primeiro lugar, poderemos apresentar nos-
pagãs (ver 1 Rs 18:26). sas necessidades pessoais. Deus se preocupa
Meu amigo Dr. Robert A. Cook costu- com nossas necessidades e as conhece an-
mava dizer que: "Todos nós temos uma ora- tes mesmo de nós as levarmos a eie (Mt 6:8).
ção rotineira à qual sempre voltamos; só Se ele já sabe, então por que orar? Porque a
quando nos livramos dela é que podemos oração é o caminho que Deus determinou
começar a orar de fato!" Vejo isso não ape- para suprir essas necessidades (ver Tg 4:1-3).
nas em minhas orações particulares, mas A oração nos prepara para usar corretamen-
também ao realizar reuniões de oração. Para te a resposta. Quando conhecemos nossa
alguns, orar é como colocar um CD no apa- necessidade e a expressamos a Deus, con-
relho de som e deixar tocando enquanto vão fiando que ele a proverá, faremos melhor
fazer outra coisa. Deus não responde a ora- uso da resposta do que se Deus a impuses-
ções insinceras. se sobre nós sem que a tivéssemos pedido.
Devemos orar de acordo com a von- E correto orar pelas necessidades diárias,
tade de Deus (w. 9-13). Essa oração, mais por perdão e por orientação e proteção con-
conhecida como "Pai nosso", poderia ser tra o mal. "E não nos deixes cair em tenta-
chamada mais apropriadamente de "oração ção" não significa que Deus tenta seus filhos
dos discípulos". Jesus não deu essa oração (Tg 1:13-17). Com essas palavras, estamos
para ser memorizada e recitada determina- pedindo a Deus para nos guiar de modo a
do número de vezes. Pelo contrário, deu essa não nos desviarmos de sua vontade nem nos
oração para evitar que usássemos de vãs envolvermos em situações de tentação (1 Jo
repetições. Jesus não disse: "orem com es- 5:18), ou mesmo em situações em que ten-
tas palavras", mas sim: "orem desta forma", taremos a Deus, levando-o a nos resgatar
ou seja, "usem esta oração como um mode- miraculosamente (Mt 4:5-7).
lo, não como um substituto". Devemos orar com espírito de perdão
O propósito da oração é glorificar o (vv. 14, 15). Neste "apêndice" da oração,
nome de Deus e pedir ajuda para realizar Jesus expande a última frase de Mateus 6:12:
sua vontade na Terra. Essa oração não co- "assim como nós temos perdoado aos nos-
meça com nossos interesses pessoais, mas sos devedores", uma lição que repete a seus
sim com os interesses de Deus: o nome de discípulos posteriormente ( M c 11:19-26). Je-
Deus, seu reino e sua vontade. Nas palavras sus não está ensinando que os cristãos só
de Robert Law: "A oração é um instrumento merecem o perdão de Deus se perdoarem
poderoso não para realizar a vontade do os outros, pois isso seria contrário a sua gra-
homem no céu, mas para realizar a vonta- ça e misericórdia. No entanto, se experimen-
de de Deus na Terra". Não temos o direito tamos, verdadeiramente, o perdão de Deus,
MATEUS1-2 31

teremos a disposição de perdoar aos outros (Lc 21:34) e a manter nossas prioridades
(Ef 4:32; Cl 3:13). Jesus ilustra esse princípio espirituais em ordem. No entanto, essa práti-
na parábola do Servo Incompassivo ( M t ca não d e v e jamais se tomar uma oportuni-
18:21-35). dade para a tentação (1 Co 7:7). A privação
V i m o s q u e a v e r d a d e i r a o r a ç ã o é um de um benefício natural ( c o m o o alimento e
assunto de família ("Pai nosso"). Se não há o sono) não constitui, em si mesma, um je-
entendimento entre os m e m b r o s da família, jum. É necessário q u e nos c o n s a g r e m o s a
c o m o p o d e m querer ter u m b o m relacio- D e u s e m adoração. S e n ã o houver d e v o ç ã o
n a m e n t o c o m o Pai? 1 J o ã o 4 enfatiza q u e sincera (ver Zc 7), não haverá qualquer be-
mostramos nosso amor a D e u s ao amar nefício espiritual duradouro.
nossos irmãos. Q u a n d o p e r d o a m o s uns aos Assim c o m o as ofertas e a oração, o ver-
outros, n ã o estamos adquirindo o direito de dadeiro jejum d e v e ser feito em particular,
orar, pois o privilégio de orar faz parte da apenas entre o cristão e Deus. A q u e l e q u e
nossa filiação ( R m 8:15, 16). O perdão diz "[desfigura] o rosto" (apresenta uma expres-
respeito à comunhão: se n ã o estou em co- são abatida, a f i m de suscitar p i e d a d e e
m u n h ã o c o m Deus, não posso orar efetiva- receber elogios) contraria o propósito do je-
mente. M a s minha c o m u n h ã o c o m D e u s é jum. Aqui, Jesus apresenta um princípio fun-
influenciada pela c o m u n h ã o c o m m e u ir- damental da vida espiritual: tudo o q u e é
m ã o ; conseqüentemente, o perdão é parte verdadeiramente espiritual nunca viola aquilo
importante da oração. q u e D e u s nos d e u n a natureza. D e u s n ã o
U m a v e z q u e a o r a ç ã o e n v o l v e a glorifi- destrói uma coisa b o a para construir outra.
c a ç ã o do n o m e de Deus, apressando a vin- Se alguém precisa parecer miserável para ser
da do reino de D e u s (2 Pe 3:12), e ajuda a c o n s i d e r a d o espiritual, há algo de e r r a d o
realizar a v o n t a d e de D e u s na Terra, aque- c o m seu conceito de espiritualidade.
l e q u e ora n ã o p o d e ter p e c a d o e m seu É importante lembrar q u e a hipocrisia nos
c o r a ç ã o . Se D e u s respondesse à o r a ç ã o de priva da realidade na vida cristã. C o l o c a m o s
um cristão c o m um espírito rancoroso, es- a reputação no lugar do caráter, as palavras
taria d e s o n r a n d o seu n o m e . D e q u e ma- vazias no lugar da o r a ç ã o e o dinheiro no
neira D e u s usaria tal pessoa para realizar lugar da d e v o ç ã o sincera. N ã o é de se ad-
sua v o n t a d e n a Terra? S e a t e n d e s s e a o s mirar q u e Jesus tenha c o m p a r a d o os fariseus
pedidos dela, D e u s estaria e n c o r a j a n d o o a sepulturas limpas por fora, mas imundas
p e c a d o ! O mais importante n u m a o r a ç ã o por dentro! ( M t 23:27, 28).
n ã o é s i m p l e s m e n t e o b t e r u m a resposta, A hipocrisia n ã o n o s priva a p e n a s de
mas ser o tipo de pessoa a quem Deus pode nosso caráter, mas t a m b é m de nossas recom-
confiar uma resposta. pensas espirituais. Em v e z da a p r o v a ç ã o eter-
na de Deus, r e c e b e m o s o louvor superficial
3. Nosso JEJUM ( M T 6 : 1 6 - 1 8 ) dos homens. O r a m o s , mas não o b t e m o s res-
O único jejum q u e D e u s exigia do povo ju- posta. J e j u a m o s , mas o ser interior n ã o é
d e u era aquele da celebração anual do Dia aperfeiçoado. A vida espiritual torna-se va-
da Expiação (Lv 23:27). Os fariseus jejuavam zia e inerte. P e r d e m o s as b ê n ç ã o s aqui e
todas as segundas e quintas-feiras (Lc 18:12) agora, b e m c o m o a s recompensas d e D e u s
e o faziam de m o d o visível para todos. S e m q u a n d o Cristo voltar.
dúvida, seu objetivo era r e c e b e r o louvor O u t r a coisa q u e perdemos c o m a hipo-
dos homens, e, c o m isso, perderam as bên- crisia é nossa influência espiritual. Os fariseus
çãos de Deus. eram uma influência negativa, corrompen-
N ã o é errado jejuar, se o fizermos da do e destruindo t u d o o q u e t o c a v a m . As
forma correta e pelos motivos certos. Jesus pessoas q u e os admiravam e o b e d e c i a m a
jejuava ( M t 4:3), e t a m b é m os m e m b r o s da suas palavras pensavam q u e estavam rece-
Igreja primitiva praticavam o jejum (At 13:2). b e n d o ajuda, q u a n d o na realidade estavam
32 MATEUS 8-9

O primeiro passo para superar a hipo- 6:24). Podemos nos tornar prisioneiros de
crisia é ser honesto com Deus em nossa coisas materiais, mas devemos ser libertos e
vida particular. N ã o devemos jamais orar controlados pelo Espírito de Deus.
sem sinceridade, pois, se o fizermos, nossas Se o coração ama as coisas materiais e
orações não passarão de palavras vazias. coloca o lucro nesta Terra acima dos investi-
Nossa motivação deve ser agradar somen- mentos no céu, o único resultado possível é
te a Deus, sem nos importar com o que os um trágico prejuízo. Os tesouros da Terra
outros dizem ou fazem. Devemos cultivar podem ser usados para Deus, mas se ajun-
nosso coração em segredo. Alguém disse tarmos riquezas para nós mesmos, perdere-
bem que: "A parte mais importante da vida mos esses bens - e, junto com eles, o nosso
cristã é aquela que somente D e u s v ê " . coração. Em vez de enriquecimento espiri-
Quando a reputação torna-se mais impor- tual, experimentaremos empobrecimento.
tante do que o caráter, transformamo-nos O que significa acumular tesouros no
em hipócritas. céu? Quer dizer usar tudo o que temos para
a glória de Deus, desapego às coisas mate-
4. O USO DAS RIQUEZAS MATERIAIS riais da vida. Também significa medir a vida
( M T 6:19-34) pelas verdadeiras riquezas do reino e não pe-
Estamos acostumados a dividir nossa vida las falsas riquezas deste mundo.
em "espiritual" e "material", mas Jesus não A riqueza não escraviza apenas o cora-
faz essa divisão. Em várias de suas parábo- ção, mas também a mente (Mt 6:22, 23). A
las, deixa claro que uma atitude correta em Palavra de Deus usa a imagem do olho com
relação à riqueza é a marca da verdadeira freqüência para representar as atitudes da
espiritualidade (ver Lc 12:13ss; 16:1-31). Os mente. Se os olhos estão d e v i d a m e n t e
fariseus eram cobiçosos (Lc 16:14) e usavam focados na luz, o corpo pode realizar seus
a religião para ganhar dinheiro. Se temos a movimentos de maneira correta. M a s a vi-
verdadeira justiça de Cristo em nossa vida, são desfocada e dupla resulta em movimen-
também teremos uma atitude correta em tos confusos. É extremamente difícil avançar
relação aos bens materiais. enquanto tentamos olhar em duas direções
Em momento algum Jesus exagera a po- ao mesmo tempo.
breza ou critica o enriquecimento legítimo. Se nosso objetivo de vida é o enriqueci-
Deus fez todas as coisas, inclusive a comi- mento material, experimentaremos escuri-
da, roupas e metais preciosos, e declarou dão interior. Mas se nosso alvo é servir a
que todas as coisas que fez são boas (Gn Deus e glorificá-lo, haverá luz interior. Quan-
1:31). Deus sabe que precisamos de certas do há escuridão onde deveria haver luz,
coisas para viver (Mt 6:32). De fato, é Deus estamos sendo controlados pelas trevas, pois
quem "tudo nos proporciona ricamente para as perspectivas determinam os resultados.
nosso aprazimento" (1 Tm 6:17). Não é er- Por fim, o materialismo pode escravizar
rado possuir coisas, mas é errado permitir nossa vontade ( M t 6:24). Não podemos ser-
que as coisas nos possuam. O pecado da vir a dois senhores ao mesmo tempo - ou
idolatria é tão perigoso quanto o da hipocri- Jesus Cristo é nosso Senhor, ou o dinheiro.
sia! Encontramos várias advertências contra Trata-se de uma questão de volição. "Ora,
a cobiça ao longo Bíblia (Êx 20:1 7; SI 119:36; os que querem ficar ricos caem em tenta-
Mc 7:22; Lc 12:15ss; Ef 5:5; Cl 3:5). ção, e cilada" (1 Tm 6:9). Se Deus concede
Jesus adverte sobre o pecado de viver riquezas, e as usamos para a glória dele,
em função dos bens materiais e chama a então as riquezas são bênção. M a s se dese-
atenção para as tristes conseqüências da jamos enriquecer e vivemos de acordo com
cobiça e da idolatria. essa perspectiva, pagaremos um alto preço
Tornamo-nos escravos (vv. 19-24). O pelas riquezas que buscarmos.
materialismo escraviza o coração (Mt 6:19- Vivemos ansiosos (vv. 25-30). A cobiça
21), a mente (Mt 6:22, 23) e a volição (Mt não apenas desvaloriza nossa riqueza, como
MATEUS1-2 33

também nos deprecia como pessoas! En- Perdemos nosso testemunho (w. 31-33).
chemo-nos de preocupações e somos toma- A preocupação com as coisas materiais nos
dos de ansiedade anormal, não espiritual. faz viver como pagãos! Quando colocamos
Quem busca riquezas pensa que o dinheiro a vontade e a justiça de Deus em primeiro
resolverá todos os problemas, quando, na plano em nossa vida, ele cuida de todo o
realidade, trará ainda mais problemas! As ri- resto. É triste quando não praticamos essa
quezas materiais criam uma sensação falsa verdade. Mas o cristão que decide viver de
e perigosa de segurança, a qual termina em acordo com Mateus 6:33 dá um testemu-
tragédia. Os pássaros e os lírios não se preo- nho maravilhoso para o mundo!
cupam nem se inquietam e, ainda assim, Perdemos a alegria com o dia de hoje
têm uma riqueza de Deus que o ser huma- (v. 34). A preocupação com o amanhã não
no não consegue reproduzir. A natureza ajuda nem o dia de hoje nem o dia de ama-
toda depende de Deus, e ele nunca falha. nhã. Antes nos priva de nosso vigor no dia
Só o homem mortal depende do dinheiro, e de hoje - o que significa que teremos ainda
o dinheiro sempre falha. menos energia no dia de amanhã. Alguém
Jesus afirma que a preocupação é pe- disse que a maior parte das pessoas cruci-
cado. Podemos dar nomes mais bonitos à fica-se entre dois ladrões: os remorsos de
preocupação, chamando-a de aflição, far- ontem e as preocupações de amanhã. É cor-
do, cruz a ser carregada, mas os resultados reto planejar e até mesmo economizar para
são os mesmos. Em vez de nos ajudar a vi- o futuro (2 Co 12:14; 1 Tm 5:8), mas é peca-
ver mais, a ansiedade apenas encurta a vida do preocupar-se com o futuro e permitir que
(Mt 6:27). No grego, "andar ansioso" signi- o amanhã nos prive das bênçãos de hoje.
fica ''ser atraído para direções diferentes". Nesta seção, encontramos três palavras
A ansiedade causa desintegração interior. que mostram o caminho para a vitória sobre
Quando o ser humano não interfere, a natu- a ansiedade: (1) fé (Mt 6:30) - a confiança
reza trabalha de maneira plenamente inte- de que Deus suprirá nossas necessidades;
grada, pois toda a natureza confia em Deus. (2) o Pai (Mt 6:32) - saber que ele se preo-
O ser humano, por sua vez, tenta viver na cupa com seus filhos, e (3) primeiro (Mt 6:33)
dependência das riquezas materiais e aca- - colocar a vontade de Deus em primeiro
ba se desintegrando. lugar em nossa vida a fim de glorificá-lo. Se
Deus alimenta os pássaros e veste os tivermos fé em nosso Pai e o colocarmos
lírios, e fará o mesmo por nós. E nossa "pe- em primeiro plano, ele suprirá nossas ne-
quena fé" que impede Deus de trabalhar da cessidades.
forma como gostaria. Se nos sujeitarmos a Hipocrisia e ansiedade são pecados. Se
Deus e vivermos para as riquezas eternas, praticarmos a verdadeira justiça do reino,
ele revelará as grandes bênçãos que estão evitaremos esses pecados e viveremos para
reservadas para nós. a glória de Deus.
Devemos ver claramente para ajudar os
outros (vv. 3-5). O objetivo de julgar-se a si
mesmo é preparar-se para servir aos outros.
A ajuda mútua para o crescimento na graça
O s PRINCÍPIOS D O REI: O é uma das obrigações dos cristãos. Quando

VERDADEIRO JULGAMENTO não praticamos o julgamento próprio, pre-


judicamos a nós mesmos e aqueles a quem
poderíamos ministrar. Os fariseus julgavam
MATEUS 7
e criticavam os outros para exaltar a si mes-
mos (Lc 18:9-14), mas os cristãos devem julgar
a si mesmos para ajudar a exaltar os outros.
U m a diferença e tanto!

O s escribas e fariseus julgavam falsamen-


te a si mesmos, as outras pessoas e
até mesmo a Jesus. Esse julgamento falso era
Vejamos como Jesus esclarece essa ques-
tão. Ele escolhe o olho como ilustração, pois
é uma das partes mais sensíveis do corpo
alimentado por sua falsa justiça. Isso explica humano. A cena de um homem com uma
por que Jesus conclui este sermão tão impor- trave no olho tentando remover um cisco
tante com uma discussão sobre o ato de jul- do olho de outro homem é, de fato, ridícula!
gar, tratando de três julgamentos diferentes. Q u e m não encara os próprios pecados com
honestidade e não os confessa, torna-se cego
1. O PRÓPRIO JULGAMENTO e não pode ver claramente para ajudar seus
( M t 7:1-5) semelhantes. Os fariseus viam os pecados
O primeiro princípio do julgamento é que dos outros, mas não conseguiam enxergar
se deve começar por si mesmo. Jesus não as próprias transgressões.
proibiu de julgar os outros, pois o discerni- Em Mateus 6:22, 23, Jesus usou o olho
mento zeloso é um elemento da vida cristã. c o m o ilustração para nos ensinar a ter uma
O amor cristão não é cego (Fp 1:9, 10), e a perspectiva espiritual da vida. Não devemos
pessoa que acredita em tudo o que ouve e julgar as motivações dos outros. Podemos
aceita todos os que se dizem espirituais so- examinar suas ações e atitudes, mas não
frerá grandes perdas. Porém, antes de julgar julgar suas motivações, pois somente Deus
os outros, devemos julgar a nós mesmos, conhece o coração de cada um. É possível
por vários motivos. fazer uma boa ação por motivos errados.
Seremos julgados (v. 1). O tempo do ver- Também é possível falhar numa tarefa e ain-
bo julgar expressa julgamento definitivo. Se, da assim ter motivações sinceras. Q u a n d o
primeiro, julgarmos a nós mesmos, estare- estivermos perante o tribunal de Cristo, ele
mos preparados para o julgamento final, examinará os segredos de nosso coração e
quando nos encontraremos com Deus. Os nos recompensará de acordo (Rm 2:16; Cl
fariseus faziam o papel de Deus ao condenar 3:22-25).
os outros, mas não levavam em considera- A ilustração do olho ensina ainda outra
ção que, um dia, eles próprios seriam julga- verdade: deve-se usar de grande amor e cui-
dos por Deus. dado ao procurar ajudar os outros (Ef 4:15).
Estamos sendo julgados (v. 2). A passa- Certa vez, tive de fazer um exame oftalmo-
gem paralela em Lucas 6:37, 38 é bastante lógico e uma cirurgia para remover uma par-
útil. Devemos lembrar que não apenas sere- tícula de metal da vista e apreciei muito o
mos julgados por Deus no final, mas tam- c u i d a d o dos médicos que me trataram.
bém estamos sendo julgados pelos outros C o m o os oftalmologistas, deveríamos minis-
no presente; e recebemos deles exatamen- trar com amor às pessoas a quem desejamos
te aquilo que lhes damos. Somos julgados ajudar. Abordar os outros com impaciência
da forma e pela medida com que julgamos, e insensibilidade pode causar mais estrago
pois ceifamos o que semeamos. do que um grão de areia no olho.
MATEUS1-2 35

Em se tratando de introspecção espiritual, vulgarizar o e v a n g e l h o ministrando-o sem


há dois extremos q u e d e v e m ser evitados. discernimento. A t é m e s m o Jesus se recusou
O primeiro é o engano de um e x a m e super- a falar c o m H e r o d e s (Lc 23:9), e Paulo se
ficial. Às vezes, estamos tão seguros de nós recusou a argumentar c o m as pessoas q u e
mesmos que não examinamos o coração resistiam à Palavra (At 13:44-49).
c o m honestidade e profundidade. " D a r u m a Assim, o julgamento não d e v e ser moti-
espiada" no espelho da Palavra nunca é su- v a d o por um desejo de c o n d e n a r os outros,
ficiente para revelar a verdadeira situação mas sim voltado à ministração das pessoas.
do c o r a ç ã o (Tg 1:22-25). O b s e r v e q u e Jesus sempre tratou as pessoas
O segundo extremo é o q u e c h a m o de de a c o r d o c o m as necessidades e c o n d i ç õ e s
"autópsia perpétua". Às vezes, há tanta con- espirituais de c a d a um. N ã o tinha um dis-
c e n t r a ç ã o no auto-exame q u e se p e r d e o curso p a d r o n i z a d o q u e usava c o m todos.
equilíbrio. N ã o se d e v e olhar apenas para si Tratou d o n o v o nascimento c o m N i c o d e m o s ,
m e s m o , pois v e m o desânimo e a sensação mas falou da água viva c o m a mulher sama-
de derrota. Deve-se olhar c o m fé para Jesus ritana. Q u a n d o os líderes religiosos tentaram
Cristo e receber dele o perdão e a restaura- armar uma cilada, recusou-se a responder à
ção. Satanás é o acusador ( A p 12:10), e ele sua pergunta ( M t 21:23-27). A primeira coisa
gosta q u a n d o a c u s a m o s e c o n d e n a m o s a q u e o cristão sábio faz é avaliar as condi-
nós mesmos! ç õ e s do c o r a ç ã o da pessoa antes de com-
D e p o i s de fazer um julgamento c o m partilhar c o m ela as pérolas preciosas da
honestidade diante de D e u s e de remover v e r d a d e d e Deus.
aquilo q u e nos cegava, estaremos aptos para Os recursos dados por Deus (w. 7-11).
ajudar os outros e para julgar suas a ç õ e s cor- Por q u e Jesus fala sobre a o r a ç ã o neste pon-
retamente. M a s , se sabemos q u e há p e c a d o to de sua mensagem? Estes versículos d ã o a
em nossa vida e tentamos ajudar os outros, falsa i m p r e s s ã o d e ser u m a i n t e r r u p ç ã o .
não passamos de hipócritas. É possível usar Todos s o m o s humanos e falíveis; todos co-
o ministério c o m o artifício para e n c o b r i r m e t e m o s erros. A p e n a s D e u s j u l g a c o m
p e c a d o s ! Era isso o q u e os fariseus estavam perfeição. Portanto, é preciso orar e buscar
fazendo, e foi por isso q u e Jesus os conde- a sabedoria e orientação de Deus. " S e , po-
nou. rém, algum de v ó s necessita de sabedoria,
peça-a a D e u s " (Tg 1:5).
2. O JULGAMENTO SOBRE OS OUTROS O j o v e m rei S a l o m ã o sabia q u e não pos-
(MT 7:6-20) suía a sabedoria necessária para julgar Israel,
O s cristãos d e v e m exercer discernimento, de m o d o q u e o r o u a Deus, e o Senhor, em
pois n e m todos são ovelhas. Alguns são cães sua graça, r e s p o n d e u à sua o r a ç ã o (1 Rs
ou porcos, outros são lobos vestidos de ove- 3:3ss). Se q u e r e m o s discernimento espiritual,
lhas! S o m o s ovelhas do Senhor, mas isso n ã o d e v e m o s sempre pedir a Deus, buscar sua
significa q u e d e v e m o s nos deixar ser tos- v o n t a d e e bater à porta q u e c o n d u z a minis-
quiados por qualquer u m ! térios mais elevados. D e u s supre a necessi-
Razões pelas quais devemos julgar (v. d a d e de seus filhos.
6). C o m o povo de Deus, temos o privilégio O princípio norteador (v. 12). É a famo-
de lidar c o m as "coisas santas" do Senhor. sa "Regra de O u r o " , u m a das d e c l a r a ç õ e s
Ele nos confia as verdades preciosas da Pa- bíblicas mais mal-interpretadas. N ã o se trata
lavra de D e u s (2 Co 4:7), e d e v e m o s cuidar d e u m r e s u m o d e t o d a a v e r d a d e cristã,
delas c o m t o d o zelo. N e n h u m sacerdote de- t a m p o u c o do plano redentor de Deus. As-
dicado lançaria carne do altar a um c ã o imun- sim c o m o não é possível desenvolver t o d o
do, e s o m e n t e um tolo daria pérolas a o s o estudo da astronomia c o m base na can-
porcos. Apesar de ser v e r d a d e q u e precisa- ç ã o infantil "Brilha, Brilha Estrelinha", t a m b é m
mos levar o evangelho "a toda criatura" ( M c não p o d e m o s construir nossa teologia c o m
36 MATEUS 8-9

Essa grande verdade é um princípio que de desejos mundanos. Mas, se tomarmos o


deve governar nossas atitudes para com os caminho estreito, teremos de abrir mão de
outros. Aplica-se somente aos cristãos e deve todas essas coisas.
ser praticada em todas as áreas da vida. A Eis, portanto, o primeiro teste: nossa pro-
pessoa que pratica a regra de ouro recusa-se fissão de fé em Cristo custou alguma coisa?
a dizer ou a fazer qualquer coisa que preju- Caso a resposta seja negativa, não foi uma
dique a si mesma ou os outros. Nosso jul- profissão verdadeira. Muitas pessoas que
gamento em relação aos outros deve ser "crêem" em Jesus Cristo nunca deixam o
governado por esse princípio, pois, do con- caminho largo e tudo o que ele oferece. Têm
trário, tornamo-nos orgulhosos e críticos, e uma vida cristã fácil que não exige coisa al-
nosso caráter espiritual se degenera. guma. Jesus diz que o caminho estreito é
A prática da regra de ouro libera o amor difícil. Não se pode escolher duas estradas
de Deus em nossa vida e nos capacita a aju- e tomar dois rumos diferentes ao mesmo
dar os outros, mesmo os que querem nos tempo.
prejudicar. As duas árvores (w. 15-20). Esta ilustra-
No entanto, é importante lembrar que a ção mostra que a verdadeira fé em Cristo
prática dessa regra tem um preço. Se dese- transforma a vida e produz frutos para a gló-
jamos o melhor de Deus para nós e para os ria de Deus. Tudo na natureza se reproduz
outros, mas os outros resistem à vontade de segundo sua espécie, e o mesmo princípio
Deus, sem dúvida sofreremos oposição. So- também vale para o reino espiritual. O bom
mos o saí que queima a ferida aberta, e a fruto vem de uma boa árvore, enquanto o
luz que mostra a sujeira. fruto ruim vem de uma árvore ruim. A árvo-
A base para o julgamento (vv. 13-20). re que produz frutos podres será cortada e
Uma vez que existem falsos profetas pelo lançada no fogo. "Assim, pois, pelos seus fru-
mundo afora, devemos ter cuidado para não tos os conhecereis" (Mt 7:20).
ser enganados. O maior perigo, porém, é Eis o segundo teste: Minha decisão por
enganar a si mesmos. Os escribas e fariseus Cristo mudou minha vida? Os falsos profetas
haviam se convencido de que eram justos e que ensinam doutrinas falsas só podem pro-
de que os outros eram pecadores. É possí- duzir falsa justiça (ver At 20:29). Seus frutos
vel conhecer a linguagem correta, acreditar (o resultado de seu ministério) são falsos e
intelectualmente nas doutrinas, obedecer às não duram. Eles mesmos são falsos; quanto
regras e, ainda assim, não ter a salvação. Je- mais perto chegamos, mais vemos a falsida-
sus emprega duas ilustrações para nos aju- de de sua vida e de suas doutrinas. Exaltam
dar a julgar a nós mesmos e aos outros. a si mesmos, não a Jesus Cristo, e em vez
As duas portas e os dois caminhos (vv. de edificar as pessoas, procuram explorá-las.
13, 14). Trata-se, evidentemente, do cami- O que acredita em falsas doutrinas ou se-
nho para o céu e do caminho para o inferno. gue um falso profeta nunca experimentará
Todos gostam da porta larga e do caminho mudança de vida. Infelizmente, alguns só
espaçoso. No entanto, a fé não pode ser percebem isso quando é tarde demais.
julgada por estatísticas, pois nem sempre a
maioria tem razão. Só porque "todos fazem" 3. O JULGAMENTO DE D E U S SOBRE NÓS
alguma coisa, não quer dizer que estão fa- (MT 7:21-29)
zendo o que é certo. Depois da ilustração dos dois caminhos e
Na verdade, é justamente o contrário: o das duas árvores, Jesus encerra sua mensa-
povo de Deus sempre foi um remanescen- gem descrevendo dois construtores e duas
te, uma minoria neste mundo, e não é difícil casas. Os dois caminhos ilustram o começo
descobrir por quê: a porta que conduz à da vida de fé, e as duas árvores ilustram o
vida é estreita, e o caminho é solitário e pe- crescimento e os resultados dessa vida de fé
noso. É possível andar no caminho espaço- aqui e agora. As duas casas, por sua vez,
so e levar conosco "bagagens" de pecado e ilustram o fim dessa vida de fé, quando Deus
MATEUS1-2 37

julgará todas as coisas. Há falsos profetas veio o julgamento (a tempestade), uma de-
junto à porta que c o n d u z para a estrada es- las caiu. Q u a l era a diferença? Por certo, n ã o
paçosa, facilitando a entrada de todos. M a s , era a aparência exterior. A diferença estava
no final desse c a m i n h o , há destruição. O no alicerce: o construtor bem-sucedido "ca-
teste final não é o que pensamos de nós mes- vou, abriu profunda vala" (Lc 6:48) e
mos, ou o q u e os outros pensam de nós, alicerçou sua casa numa fundação sólida.
mas sim: o que Deus dirá? U m a falsa profissão de fé só dura até o
C o m o se preparar para esse julgamen- julgamento. Algumas vezes, esse julgamen-
to? Fazendo a vontade de Deus. A obediên- to manifesta-se nas provações da vida. C o m o
cia a sua v o n t a d e é a prova da verdadeira fé é o caso da pessoa q u e r e c e b e u a semente
em Cristo. Tal prova não consiste em pala- da Palavra de D e u s num c o r a ç ã o sem pro-
vras, não é dizer: "Senhor, S e n h o r " e não fundidade ( M t 13:4-9) e, q u a n d o vieram as
o b e d e c e r a suas ordens. C o m o é fácil apren- p r o v a ç õ e s , f a l h o u e m seu c o m p r o m i s s o .
der um vocabulário religioso, até memori- Muitos q u e declaram sua fé em Cristo aca-
zar versículos bíblicos e canções, e ainda b a m por negá-la, q u a n d o a vida torna-se es-
assim n ã o o b e d e c e r à v o n t a d e de D e u s . piritualmente difícil e custosa.
Q u e m é, verdadeiramente, nascido de novo M a s o julgamento ilustrado nessa passa-
tem o Espírito de D e u s habitando dentro de gem provavelmente se refere ao juízo final
si ( R m 8:9), e o Espírito permite q u e conhe- de Deus. N ã o se deve tentar encontrar nes-
ça a v o n t a d e do Pai. O amor de D e u s em sa parábola toda a doutrina ensinada nas
seu c o r a ç ã o ( R m 5:5) motiva-o a o b e d e c e r epístolas, pois Jesus estava apenas ilustran-
a D e u s e a servir aos outros. do um ponto principal: a declaração de fé
N e m palavras n e m atividades religiosas será testada de uma vez por todas diante de
substituem a obediência. A pregação, a ex- Deus. Os q u e creram em Cristo e provaram
pulsão de demônios e a o p e r a ç ã o de mila- sua fé pela obediência não terão coisa algu-
gres p o d e m ter inspiração divina, mas não ma a temer, pois sua casa está alicerçada na
garantem a salvação. É b e m possível q u e até rocha e resistirá. M a s os que dizem crer em
m e s m o Judas tenha participado de algumas Cristo e não o b e d e c e m à v o n t a d e de D e u s
ou talvez de todas essas atividades, mas, serão condenados.
m e s m o assim, não era um cristão verdadeiro. C o m o testar a profissão de fé? N ã o é
N o s últimos dias, Satanás usará "prodígios pela popularidade, pois o caminho espaço-
da mentira" para enganar as pessoas (2 Ts so q u e c o n d u z à destruição está cheio de
2:7-12). gente. T a m b é m há muitos q u e dizem: "Se-
É preciso ouvir a Palavra de Deus e praticá- nhor, Senhor", mas isso não lhes garante a
la (ver Tg 1:22-25). N ã o se deve apenas ouvir salvação. N e m m e s m o a participação e m
(ou estudar) o que está escrito. O ouvir deve atividades religiosas numa igreja é garantia
redundar em ações. É isso o q u e significa de salvação. C o m o , então, julgar a si mes-
construir a casa na rocha. N ã o se deve con- mo e a outros que professam crer em Cristo
fundir esse símbolo c o m a " r o c h a " de 1 Corín- c o m o Salvador?
tios 3:9ss. Ao pregar o evangelho e ganhar Os dois caminhos indicam q u e devemos
almas para Cristo, Paulo fundamentou a igre- examinar o q u e a profissão custou. Foi pago
ja local de Corinto em Jesus Cristo, pois ele é algum preço ao professar a fé em Cristo? As
o único alicerce verdadeiro da igreja local. duas árvores indicam q u e d e v e m o s investi-
O alicerce da parábola em questão é a gar se a vida de fato mudou. Estão sendo
obediência à Palavra de Deus - obediência produzidos frutos de piedade? E as duas ca-
q u e c o m p r o v a a fé verdadeira (Tg 2:14ss). sas lembram q u e a verdadeira fé em Cristo
Os dois h o m e n s da história tinham vários resistirá não apenas às tempestades da vida,
aspectos em comum. A m b o s desejavam mas t a m b é m ao julgamento final.
construir uma casa e a m b o s a fizeram de O sermão deixou o p o v o maravilhado,
forma a parecer bela e forte. Porém, quando pois Jesus falou c o m autoridade divina. Os
38 MATEUS 8-9

escribas e fariseus falavam "em nome das É preciso levar esse sermão a sério, pois
autoridades", citando sempre vários rabinos foi Deus quem o deu! Também é importante
e mestres da Lei. Jesus não menciona mes- curvar-se perante o Senhor, submetendo-se
tres humanos para dar autoridade a suas pa- a sua autoridade, pois, do contrário, haverá
lavras, pois falava como Filho de Deus. condenação.
A l é m da c o m p a i x ã o e das credencias,
havia um terceiro motivo para os milagres: a
p r e o c u p a ç ã o de Jesus em revelar às pessoas
a verdade salvadora. Os milagres eram "ser-
m õ e s práticos". A t é N i c o d e m o s ficou impres-
sionado c o m eles ( J o 3:1, 2). É importante
observar q u e c i n c o desses milagres foram
realizados em Cafarnaum, mas ainda assim
o povo dessa cidade rejeitou Jesus ( M t 11:21-
23). A t é m e s m o a r e j e i ç ã o p e l o p o v o d e
Israel cumpriu as profecias do Antigo Testa-
mento (ver Jo 12:37-41). C o m o os julgamen-

F o m o s apresentados à pessoa do Rei ( M t

1 - 4) e aos princípios do Rei ( M t 5 - 7 ),


tos contra o Egito nos dias de M o i s é s , os
milagres do Senhor foram julgamentos con-
tra Israel, pois o p o v o teve de encarar fatos
e agora estamos prontos para o p o d e r do incontestáveis e de tomar decisões. Os líde-
Rei. Afinal, se um rei não t e m poder para res religiosos decidiram q u e Jesus trabalha-
realizar coisa alguma, d e q u e v a l e m suas va para Satanás ( M t 9:31-34; 12:24).
credencias e seus princípios? N o s capítulos U m a coisa é certa: Jesus n ã o realizou
8 e 9, M a t e u s relata d e z milagres. Exceto milagres para "atrair multidões". Na verda-
pelos quatro últimos, não se encontram em de, procurou evitá-las. Instruiu os q u e e r a m
o r d e m cronológica, pois M a t e u s segue abor- curados a não falar do assunto ( M t 8:4, 18;
d a g e m própria para o agrupamento de men- 9:30; Lc 8:56). N ã o desejava q u e as pessoas
sagens ou acontecimentos. c r e s s e m n e l e s i m p l e s m e n t e por c a u s a d e
A n t e s de estudar esses milagres, porém, seus feitos miraculosos (ver Jo 4:46-54), pois
é b o m fazer uma pausa para responder à a fé d e v e ser embasada em sua Palavra ( R m
p e r g u n t a a x i o m á t i c a : por q u e J e s u s reali- 10:17).
z o u milagres? S e m dúvida, desejava suprir Os milagres registrados nestes capítulos
as necessidades humanas. Deus não se encontram-se reunidos em três grupos, se-
p r e o c u p a a p e n a s c o m nossa alegria eter- parados por acontecimentos relacionados ao
na, m a s t a m b é m c o m nosso bem-estar tem- discipulado. M a t e u s não explica a seus lei-
p o r á r i o . É e r r a d o s e p a r a r o ministério à tores o q u e o levou a organizar o texto des-
a l m a do ministério ao c o r p o , pois é preci- sa maneira, mas isso n ã o i m p e d e q u e se use
so ministrar à pessoa c o m o um t o d o (ver essa estrutura. Para melhor c o m p r e e n s ã o de
M t 4:23-25). algumas das lições espirituais dessas seções,
Por certo, os milagres de nosso S e n h o r c a d a u m a delas é apresentada de a c o r d o
foram credenciais adicionais para corrobo- c o m uma ênfase específica.
rar suas asserções c o m o o Messias de Is-
rael. " P o r q u e [...] os j u d e u s p e d e m sinais" 1 . G R A Ç A PARA O S REJEITADOS
(1 Co 1:22). Apesar de os milagres, por si ( M T 8:1-22)
mesmos, n ã o provarem q u e alguém foi en- M u i t o s judeus, e s p e c i a l m e n t e os fariseus,
v i a d o por D e u s (até m e s m o Satanás p o d e consideravam os leprosos, os gentios e as
realizar milagres [2 Ts 2:9]), eles d ã o peso a mulheres párias da sociedade, e vários fari-
suas afirmações, especialmente se seu cará- seus c o s t u m a v a m dizer e m suas o r a ç õ e s
ter e conduta são piedosos. No caso de Je- matinais: " A g r a d e ç o por ser um h o m e m e
sus Cristo, seus milagres t a m b é m cumpriram não uma mulher, um j u d e u e não um gen-
profecias do Antigo Testamento (ver Is 29:18, tio, e um h o m e m livre e não um escravo".
19; 35:4-6). M a t e u s 8:1 7 nos remete a Isaías A purificação do leproso (vv. 1-4). A
53:4, e em M a t e u s 11:1-5, Jesus p e d e a J o ã o Bíblia caracteriza diversas aflições c o m o le-
Batista q u e volte às promessas do A n t i g o pra. Essa infecção terrível obrigava a vítima
Testamento ( M t 10:8; Hb 2:1-4).
40 MATEUS 8 - 9

a viver separada dos outros e a gritar: "Imun- A cura do criado do centuríão (w. 5-
do! Imundo!", quando alguém se aproxima- 13). Centurião era um oficial romano que
va, para que não fosse contaminado. O fato liderava cem soldados do exército. Todos os
de o leproso correr para Jesus e quebrar essa centuriões mencionados nos Evangelhos e
regra mostra quanto ele tinha fé que Jesus no Livro de Atos eram homens de caráter
poderia curá-lo. e de grande senso de dever. Vemos que esse
A lepra é uma ilustração do pecado (Is homem não era exceção, pois se mostrou
1:5, 6). As instruções dadas aos sacerdotes preocupado com um servo humilde.
em Levítico 13 ajudam a entender a nature- Pela lógica, o centurião tinha motivos de
za do pecado: não é um mal superficial (Lv sobra para não procurar Jesus. Era um solda-
13:3), espalha-se (Lv 13:8), contamina e iso- do profissional; Jesus era um homem de paz.
la (Lv 13:45, 46) e serve apenas para ser Era um gentio; Jesus era judeu. No entanto,
destruído pelo fogo (Lv 13:52, 57). era um homem de muita fé e sabia que, assim
Quando Jesus tocou o leproso, contraiu como ele, Jesus estava sujeito a uma autori-
a contaminação dele, mas também transmi- dade. Tudo o que precisava fazer era dar
tiu sua saúde! Não foi exatamente isso o que uma ordem e a doença lhe obedeceria, assim
fez por nós na cruz, quando se fez pecado c o m o o soldado obedece a seu superior.
por nós? (2 Co 5:21). O leproso não ques- Apenas aqueles que se encontram sob auto-
tionou se Jesus era capaz de curá-lo, mas ridade têm o direito de exercer autoridade.
apenas perguntou se ele estava disposto a Os Evangelhos registram duas ocasiões
fazê-lo. Claro que Deus está disposto a sal- em que Jesus maravilhou-se: aqui, diante
var! Ele é nosso "Deus, nosso Salvador, o da fé do centurião gentio, e em Marcos 6:6,
qual deseja que todos os homens sejam sal- diante da incredulidade dos judeus. Mateus
vos" (1 Tm 2:3, 4). Deus "não [quer] que relata dois milagres "gentios": este e o da cura
nenhum pereça" (2 Pe 3:9). da menina siro-fenícia ( M t 15:21-28). Em
Jesus pediu ao homem que não contasse ambos os casos, o Senhor ficou impressiona-
a ninguém, mas que procurasse os sacerdo- do com a grande fé dos gentios. Vemos aqui
tes a fim de que o declarassem restaurado e um dos primeiros indícios de que, ao contrá-
pronto a ser reintegrado na sociedade. Essa rio dos gentios, os judeus se recusariam a
cerimônia, descrita em Levítico 14, é outra crer no Messias. Além disso, nesses dois mi-
bela representação da obra de Cristo pelos lagres o Senhor curou â distância, lembrando
pecadores. O pássaro sacrificado represen- que, do ponto de vista espiritual, os gentios
ta a morte de Cristo, e o pássaro solto repre- encontravam-se "separados" (Ef 2:12).
senta sua ressurreição. O pássaro colocado A cura da sogra de Pedro (vv. 14-17).
no jarro representa a encarnação, quando Q u a n d o voltaram do culto na sinagoga,
Cristo assumiu um corpo humano para que Pedro e André contaram a Jesus que a so-
pudesse morrer por nós. A aplicação do san- gra de Pedro estava de cama com febre ( M c
gue na orelha, no polegar e no dedão do pé 1:21). As mulheres não desfrutavam uma
ilustra a necessidade de uma fé pessoal em posição muito elevada na sociedade, e é de
sua morte. O óleo no sangue lembra o Espí- se duvidar que um fariseu tivesse se interes-
rito de Deus, que vem habitar naquele que sado pelo que estava acontecendo na casa
crê no Salvador. de Pedro. Jesus, porém, a curou com ape-
O homem não obedeceu à ordem de nas um toque. Ela se levantou e serviu ao
Jesus; antes, contou a todos o que o Senhor Senhor e aos outros homens ali presentes.
havia feito! (Jesus diz para contar as boas A princípio, essa cura pareceu um "mila-
novas a todo mundo, e nos calamos!) Mar- gre secundário", mas, na verdade, teve con-
cos 1:45 diz que, por causa do testemunho seqüências importantes, pois, logo após o
do leproso curado, Jesus não pôde entrar pôr-do-sol (quando terminou o sábado), a ci-
na cidade. No entanto, as multidões foram dade toda se reuniu à porta da casa de Pedro
até ele. para que Jesus atendesse a seus pedidos ( M c
MATEUS 1 -2 41

1:32-34). As b ê n ç ã o s no lar d e v e m redundar Paz na tempestade (w. 23-27). O mar


em b ê n ç ã o s na comunidade. G r a ç a s à mu- da Galiléia tem cerca de 21 quilômetros de
dança na vida de uma mulher, muitas outras comprimento por 13 de largura, e é c o m u m
pessoas puderam experimentar milagres. tempestades violentas se formarem de repen-
M a t e u s vê nesse fato um cumprimento te sobre suas águas. S e m dúvida, Jesus sa-
de Isaías 53:4. É importante observar q u e bia q u e a tempestade estava a c a m i n h o e,
Jesus cumpriu essa profecia em vida, não na por certo, poderia tê-la impedido. No entan-
cruz. Carregou sobre si os pecados e as en- to, permitiu q u e a tempestade viesse, a fim
fermidades durante seu ministério na Terra. de ensinar algumas lições a seus discípulos.
A idéia de q u e há "cura na expiação" e de Ao contrário do caso de Jonas, a tem-
q u e todo cristão tem o "direito de apropriar- pestade veio porque obedeceram ao Senhor.
se" dessa cura é resultante de uma interpre- Jesus dormia, pois d e s c a n s a v a seguro na
tação totalmente equivocada das Escrituras. vontade do Pai, e os discípulos deveriam ter
1 Pedro 2:24 aplica essa mesma verdade ao feito o mesmo. Em v e z disso, porém, fica-
perdão de nossos pecados, os quais Jesus ram todos amedrontados e acusaram Jesus
levou sobre si na cruz. O p e c a d o e a enfer- de não se importar c o m eles! M a t e u s dese-
midade a n d a m juntos (ver SI 103:3), pois a java q u e seus leitores vissem o contraste gri-
enfermidade é conseqüência do p e c a d o de tante entre a " p e q u e n a f é " dos discípulos e
A d ã o e t a m b é m uma ilustração do pecado. a "grande fé" do centurião gentio.
No entanto, D e u s não tem obrigação algu- Paz numa comunidade (w. 28-34). Esse
ma de curar todas as doenças. Antes, sua e p i s ó d i o d r a m á t i c o é bastante revelador.
grande p r e o c u p a ç ã o é salvar todos os peca- M o s t r a o q u e Satanás faz c o m o h o m e m
dores que o invocam. necessitado: tira d e l e sua sanidade e domí-
O primeiro interlúdio sobre o disci- nio próprio, enche-o de m e d o , priva-o das
pulado (vv. 18-22). Tendo em vista as gran- alegrias de um lar e das amizades e (se pos-
d e s multidões que seguiam Jesus e o fato sível) condena-o ao julgamento eterno. Tam-
de a oposição ainda n ã o haver se iniciado, b é m revela o q u e a sociedade faz c o m o
não faltavam candidatos a discípulo, ansio- h o m e m necessitado: reprime, isola e amea-
sos p a r a seguir o M e s t r e . M u i t o s deles, ça o indivíduo, mas n ã o é c a p a z de mudá-
porém, não desejavam pagar o preço do dis- lo. Vemos, em seguida, o q u e Jesus Cristo
cipulado. Essa é a primeira v e z q u e M a t e u s p o d e fazer por um h o m e m cuja vida - inte-
usa a designação "Filho do h o m e m " em seu rior e exterior - é de escravidão e de guerra.
Evangelho para se referir a Jesus. Trata-se de Tudo o q u e Cristo fez por esses dois ende-
um n o m e encontrado em Daniel 7:13 e, sem m o n i n h a d o s t a m b é m p o d e fazer por todos
dúvida alguma, de um título messiânico e os necessitados q u e b u s c a m seu socorro.
uma declaração da realeza do Messias. Cristo foi até eles, enfrentando uma tem-
M a t e u s 8:22 p o d e ser expresso da seguinte pestade para chegar até lá. Assim é a graça
forma: " D e i x e m q u e os espiritualmente mor- de Deus! Libertou-os pelo poder de sua Pa-
tos enterrem os fisicamente mortos". Jesus lavra e restaurou sua sanidade, seu convívio
n ã o estava pedindo ao h o m e m q u e desres- social e seu serviço. O relato em M a r c o s
peitasse seu pai (que ainda estava vivo), mas 5:1-21 mostra q u e um dos h o m e n s pediu
sim que colocasse em o r d e m suas priorida- para se tornar discípulo do Senhor. M a s , em
des. É melhor pregar o evangelho e dar vida v e z de atender a seu pedido, Jesus o enviou
aos mortos espirituais do q u e esperar pela de volta para casa para testemunhar a seu
morte do pai só para sepultá-lo. povo. O serviço cristão d e v e c o m e ç a r em
casa.
2 . P A Z AOS ATRIBULADOS ( M T 8 : 2 3 - 9 : 1 7 ) Encontramos três o r a ç õ e s nesse episó-
T o d a s as p e s s o a s e n v o l v i d a s nesses três dio: (1) os d e m ô n i o s rogaram a Jesus q u e
milagres c a r e c i a m de paz, e Jesus proveu os mandasse para os porcos; (2) os cidadãos
42 MATEUS 8 - 9

um dos homens implorou para se tornar um Cabe aqui comentar apenas quatro imagens
de seus seguidores (ver Mc 5:18-20). Jesus de seu ministério que Jesus apresenta nes-
atendeu ao pedido dos demônios e do povo, ta mensagem. Como médico, veio para dar
mas não atendeu ao pedido do homem saúde espiritual a pecadores enfermos.
curado! Como noivo, veio para dar alegria espiri-
Podemos elaborar uma "declaração de tual. A vida cristã é uma festa, não um fune-
fé" a partir da palavra dos demônios (os de- ral. A ilustração do pano lembra que Jesus
mônios têm fé; ver Tg 2:19). Crêem na exis- veio oferecer plenitude espiritual, não ape-
tência de Deus e na divindade de Cristo, nas "remendar" a vida e depois deixar que
bem como na realidade do futuro julgamen- se desintegre. A ilustração dos odres de vi-
to. Também crêem na oração e sabiam que nho mostra que Jesus trouxe abundância
Jesus tinha poder para mandá-los entrar nos espiritual. A religião judaica era como um
porcos. odre velho que se romperia, caso fosse
O fato de os demônios terem destruído cheio com o vinho novo do evangelho. Je-
dois mil porcos não é nada comparado ao sus não veio para renovar Moisés nem para
fato de que Jesus libertou dois homens das misturar a lei com a graça. Veio para dar
garras de Satanás. Todas as coisas perten- vida nova!
cem a Deus (SI 50:10, 11), e ele pode fazer
com elas o que bem entender. Jesus dá mais 3. RESTAURAÇÃO PARA OS DEVASTADOS
valor aos homens do que a porcos ou a ove- ( M T 9:18-38)
lhas (Mt 12:12). Trouxe paz a esses homens Nesta seção, Mateus registra quatro milagres
e à comunidade, na qual os dois haviam envolvendo cinco pessoas.
causado problemas durante tanto tempo. Um lar devastado (vv. 18, 19, 23-26).
Paz de consciência (vv. 1-8). Jesus ha- Deve ter sido difícil para Jairo procurar Je-
via demonstrado seu poder sobre as doen- sus, pois era um judeu devoto e chefe da
ças e as tempestades, mas o que poderia sinagoga. Mas o amor de Jairo por sua filha
fazer com respeito ao pecado? O homem à beira da morte o compeliu a buscar o so-
no leito não conseguia locomover-se sozi- corro de Jesus, mesmo considerando a oposi-
nho, mas felizmente recebeu a ajuda de ção dos líderes religiosos a Cristo. Quando
quatro amigos com amor, fé e esperança. Jairo se encontrou com Jesus, sua filha es-
Eles o levaram a Jesus e não permitiram que tava prestes a morrer. O atraso causado pela
coisa alguma os detivesse. Não sabemos se cura da mulher deu ao "último inimigo" a
a condição física desse homem era resulta- oportunidade de fazer seu trabalho. Os ami-
do de seus pecados, mas sabemos que Je- gos de Jairo chegaram em seguida e avisa-
sus tratou do pecado primeiro, pois essa é ram que sua filha havia falecido.
sempre a maior necessidade. No mesmo instante, Jesus tranqüilizou
Não devemos concluir desse milagre que Jairo e o acompanhou. Na verdade, a demo-
toda doença é causada pelo pecado, nem ra deveria ter ajudado a fortalecer a fé de
que receber o perdão implica automati- Jairo, pois ele viu o que a pequena fé da-
camente receber cura física. Conheço um quela mulher havia realizado na vida dela.
pastor que sempre diz: "Deus pode curar Devemos aprender a confiar em Cristo e em
qualquer doença exceto a última". Mais im- suas promessas a despeito de nossos senti-
portante do que a cura física desse homem mentos, daquilo que os outros dizem e da
era a purificação de seu coração. Voltou para forma como a situação se apresenta. Jairo
casa com o corpo curado e o coração em deve ter se assustado diante da cena com a
paz com Deus. "Para os perversos, diz o meu qual se deparou ao chegar em casa. Ainda
Deus, não há paz" (Is 57:21). assim, Jesus assumiu o controle e ressusci-
Segundo interlúdio sobre o discipulado tou a menina.
(w. 9-17). Falamos sobre o chamado de Uma esperança desfeita (vv. 20-22).
Mateus no primeiro capítulo deste estudo. Marcos 5:26 diz que esta mulher havia
MATEUS 1 - 2 43

c o n s u l t a d o muitos m é d i c o s , m a s n e n h u m O u t r o s tocaram na orla das vestes Cristo e


deles havia c o n s e g u i d o ajudá-la. P o d e m o s foram curados ( M t 14:34-36).
imaginar seu desespero e seu desânimo. Q u a n d o Sir James Simpson, inventor do
Suas esperanças foram d e s p e d a ç a d a s . Por clorofórmio, estava à beira da morte, um
causa da hemorragia, a mulher permanecia amigo lhe disse: " L o g o estarás descansando
cerimonialmente impura (Lv 15:25ss), o q u e junto ao peito do Senhor", ao q u e o cientista
a p e n a s fazia aumentar sua angústia. A "orla" respondeu: " N ã o sei c o m o vou fazer isso, mas
se refere às borlas ou franjas q u e os judeus creio que estou segurando a orla de sua ves-
usavam em suas vestes para lembrá-los de te". N ã o é a força de nossa fé q u e nos salva,
q u e e r a m o p o v o de D e u s ( N m 15:37-41; mas sim nossa fé em um Salvador forte.
D t 22:12). Corpos devastados (vv. 27-34). O texto
É interessante o b s e r v a r q u e Jairo e a não diz por q u e esses h o m e n s e r a m cegos.
mulher - duas pessoas diametralmente opos- A cegueira era um problema sério no Orien-
tas - encontraram-se aos pés de Jesus. Jairo te naquele tempo. De a c o r d o c o m os relatos
era um j u d e u importante, e n q u a n t o a mu- dos Evangelhos, Jesus curou pelo m e n o s seis
lher era u m a a n ô n i m a sem prestígio n e m cegos e realizou c a d a milagre de maneira
recursos. Ele era um líder na sinagoga, en- diferente. Esses dois c e g o s r e c o n h e c e r a m
quanto a aflição dela a impedia de adorar. q u e Cristo era o Filho de D a v i (ver Mt 1:1),
Jairo foi suplicar por sua filha, e a mulher foi persistindo em segui-lo até dentro da casa
p r o c u r a r a j u d a para si m e s m a . A m e n i n a (sem dúvida, tinham alguém para guiá-los).
havia desfrutado b o a s a ú d e durante d o z e Jesus honrou sua fé. A resposta afirmativa
anos e, então, havia morrido; a mulher ha- d o s dois ("Sim, S e n h o r ! " ) foi a confissão de
via sofrido durante d o z e anos e, agora, es- fé q u e liberou o poder para a cura e para a
tava curada. A necessidade de Jairo era de restauração de sua visão.
c o n h e c i m e n t o geral; a necessidade da mu- A cegueira é uma das ilustrações usadas
lher era secreta - somente Jesus sabia. Tanto para a ignorância espiritual e a incredulidade
Jairo quanto a mulher creram em Cristo, e (ls 6:10; Mt 15:14; Rm 11:25). O p e c a d o r
ele supriu suas necessidades. só p o d e nascer de n o v o depois de enxergar
Talvez Jairo tenha se ressentido c o m a as coisas de D e u s ( J o 3:3). O cristão d e v e se
mulher, pois ela atrasou Jesus, impedindo-o dedicar a crescer espiritualmente, pois de
de chegar antes de a menina morrer. M a s outro m o d o sua visão espiritual vai se dete-
seu verdadeiro problema não era a mulher, riorar (2 Pe 1:5-9).
mas sim e/e próprio: precisava ter fé em Cris- O último milagre dessa s e ç ã o é relacio-
to. Jesus c o m p e l i u a mulher a dar seu teste- n a d o a um d e m ô n i o ( M t 9:32-34). A p e s a r
m u n h o (ver o relato em M a r c o s ) , tanto para de enfermidades e possessões d e m o n í a c a s
o benefício dela própria quanto de Jairo. O s e r e m duas coisas distintas ( M t 10:8), o s
socorro de D e u s na vida de outras pessoas d e m ô n i o s t ê m p o d e r de causar aflição físi-
d e v e ser um estímulo para confiarmos nele ca. N e s s e caso, o d e m ô n i o privou o h o m e m
ainda mais. N ã o d e v e m o s ser tão egoístas da fala. Jesus libertou o h o m e m , e o p o v o
em nossas orações a ponto de n ã o mais es- r e c o n h e c e u q u e algo n o v o estava aconte-
perar no Senhor. S a b e m o s q u e ele nunca se c e n d o em Israel.
atrasa. M a s os líderes religiosos recusaram-se a
A fé dessa mulher era quase supersticio- r e c o n h e c e r q u e Jesus era o Messias. Então,
sa, e, ainda assim, Jesus a honrou e curou. c o m o explicavam seus milagres? Só lhes res-
A s pessoas precisam "tocar e m Cristo" o n d e tou afirmar q u e Cristo operava milagres em
são c a p a z e s de alcançá-lo, m e s m o q u e te- n o m e do "maioral d o s demônios". Em oca-
n h a m de c o m e ç a r pelas franjas de suas ves- sião posterior, os fariseus voltam a fazer essa
tes. Os fariseus a l o n g a v a m as franjas das acusação, e Jesus a refuta ( M t 12:22ss). Em
vestes para aparentar mais espiritualidade, sua incredulidade, os fariseus faziam exata-
44 MATEUS 8-9

O terceiro interlúdio sobre o discipu- participassem dos ministérios de pregação,


lado (w. 35-38). Jesus não se ateve a curar; de ensino e de curas (ver Mt 10). Do mes-
também ensinou e pregou. No entanto, não mo modo, quando orarmos conforme Cristo
podia fazer todo o trabalho sozinho; preci- nos ordenou, veremos o que ele viu, senti-
sava de outros para ajudá-lo. Pediu aos dis- remos o que sentiu e faremos o que fez.
cípulos que orassem pedindo a Deus que Deus multiplicará nossa vida ao participar-
enviasse "trabalhadores para a sua seara". mos da grande seara pronta para a ceifa
Não tardou para que os discípulos também (Jo 4:34-38).
Era preciso possuir determinadas qualifi-
cações para ser um apóstolo de jesus Cris-
to. O apóstolo deveria ter visto o Cristo
ressurreto (1 Co 9:1) e ter tido comunhão
Os EMBAIXADORES com ele (At 1:21, 22). Também deveria ter
sido escolhido pelo Senhor (Ef 4:11). Os
D O REI
apóstolos lançaram os alicerces da Igreja (Ef
2:20) e, depois, saíram de cena. Enquanto
MATEUS 10
todos os cristãos são enviados para repre-
sentar o Rei (Jo 17:18; 20:21), nenhum cris-
tão nos dias de hoje pode se considerar, de
fato, um apóstolo, pois nenhum de nós viu

A obra da salvação só seria realizada por


Jesus Cristo, e ele o fez sozinho. Mas o
testemunho dessa salvação só poderia ser
o Cristo ressurreto (1 Pe 1:8).
Os apóstolos receberam poderes espe-
ciais e a autoridade de Cristo para realizar
dado por seu povo, pelos que creram nele e milagres. Tais milagres faziam parte de suas
foram salvos. O Rei precisava de embaixa- "credenciais" (At 2:43; 5:12; 2 Co 12:12;
dores para levar a mensagem - e contínua Hb 2:1-4). Curaram enfermos (é importan-
precisando deles. "A quem enviarei, e quem te observar que isso incluía todo tipo de
há de ir por nós?" {Is 6:8). Não basta orar doença), purificaram leprosos, expulsaram
por trabalhadores (Mt 9:36-38). Devemos demônios e até mesmo ressuscitaram mor-
também nos colocar à disposição para ser- tos. Esses quatro ministérios são paralelos
vir ao Senhor. aos milagres realizados por Jesus em
Antes de Jesus enviar seus embaixado- Mateus 8 e 9. Sem dúvida alguma, os após-
res para ministrar, pregou um "sermão de tolos representaram o Rei e ampliaram sua
ordenação" para encorajá-los e prepará-los. obra.
Neste sermão, o Rei incluiu algo a todos os A comissão dada por Cristo a esses doze
seus servos - passados, presentes e futuros. homens não é a mesma que temos hoje. Ele
Se não levarmos esse fato em consideração, os enviou apenas ao povo de Israel. O
a mensagem deste capítulo parecerá terri- padrão histórico era levar o evangelho "pri-
velmente confusa. meiro ao judeu", pois "a salvação vem dos
judeus" (Jo 4:22). Esses doze embaixadores
1. INSTRUÇÕES PARA OS APÓSTOLOS DO anunciaram a vinda do reino como João
PASSADO ( M T 1 0 : 1 - 5 ) Batista (Mt 3:2) e Jesus (Mt 4:17) haviam
Um "discípulo" é um aprendiz, alguém que feito. Infelizmente, a nação rejeitou tanto
segue um mestre e aprende de sua sabe- Cristo quanto seus embaixadores, e o reino
doria. Jesus tinha muitos discípulos; alguns lhes foi tirado (Mt 21:43).
deles eram apenas "espectadores", mas Ao viajar de cidade em cidade, os após-
outros eram verdadeiramente convertidos tolos dependiam da hospitalidade alheia.
(Jo 6:66). Dentre esses seguidores autênti- Naquele tempo, era considerado extre-
cos, Jesus selecionou um grupo pequeno mamente indelicado uma cidade recusar
de doze homens que passaram a ser cha- abrigo a um hóspede. No entanto, os embai-
mados de "apóstolos" - do termo grego xadores deveriam ficar apenas com aqueles
apostello, que significa "ser enviado numa que se mostrassem "dignos", os que cres-
comissão". Os gregos usavam essa desig- sem em Jesus Cristo e recebessem sua men-
nação para representantes pessoais do rei, sagem de paz e de perdão. Os apóstolos
embaixadores que atuavam com a autori- não deviam fazer concessões. Se uma cida-
dade do rei. Quem fazia pouco caso dos de rejeitasse suas palavras, deveriam advertir
enviados do rei corria o risco de ser julga- o povo e partir. Sacudir o pó era um ato de
46 MATEUS 8-9

Não sabemos quanto tempo essa "cam- ministério em Atos não se restringiu às "ci-
panha evangelística" durou. Jesus também dades de Israel" ( M t 10:23). Ao que parece,
saiu para pregar {ver Mt 11:1), e, posterior- o período descrito nessa seção é paralelo
mente, os apóstolos voltaram e relataram ao tempo da tribulação descrito por Jesus
tudo o que havia acontecido (Lc 9:10). Mar- em seu "sermão profético" no monte das
cos 6:7 diz que Jesus os enviou em pares, o Oliveiras ( M t 24 - 25). A declaração: "Aque-
que explica o fato de seus nomes aparece- le, porém, que perseverar até ao fim, esse
rem relacionados em pares em Mateus 10:2- será salvo" ( M t 10:22) é, sem dúvida algu-
4. De acordo c o m Apocalipse 21:14, os ma, parte do discurso profético de nosso Se-
nomes dos apóstolos estarão inscritos nos nhor ( M t 24:13; Mc 13:13). Não se refere a
alicerces das muralhas no céu. O nome de alguém se esforçando para não perder a sal-
Judas será, obviamente, substituído pelo vação, mas sim a uma pessoa passando por
nome de Matias (At 1:26). perseguições e se mantendo fiel.
Apesar de ser possível aprender princí- Se, de fato, essas instruções aplicam-se
pios espirituais com esse parágrafo, não de- à tribulação vindoura, não é difícil entender
vemos aplicar essas instruções a nossa vida. por que Jesus falou tanto sobre ódio e per-
A comissão que recebemos do Senhor in- seguições. O período da tribulação será um
clui "todo o mundo" ( M t 28:19, 20), não tempo de oposição. Os servos de Deus se-
apenas a nação de Israel. Pregamos o evan- rão como ovelhas no meio dos lobos. Terão
gelho da graça de Deus (At 20:24). Nossa de ser "prudentes c o m o as serpentes e
mensagem é: "Cristo morreu por nossos símplices como as pombas". Essa oposição
pecados" e não: "O reino dos céus está pró- virá de organizações religiosas ( M t 10:17),
ximo". O Rei já veio, sofreu, morreu e res- do governo ( M t 10:18) e até mesmo da fa-
suscitou dentre os mortos. Agora, oferece mília ( M t 10:21).
salvação a todos os que crerem nele. Apesar de os cristãos de certas regiões
do mundo estarem passando por algumas
2. INSTRUÇÕES PARA OS FUTUROS dessas provações hoje, o texto indica que a
DISCÍPULOS ( M T 1 0 : 1 6 - 2 3 ) oposição em questão será mundial. A "re-
Esta seção tem um "tom" diferente daquele ligião" sempre perseguiu os cristãos ver-
da anterior. Jesus fala de perseguição, mas dadeiros. Até o apóstolo Paulo perseguiu
não temos registro de que os doze apósto- a Igreja antes de se converter, quando era
los tenham sido perseguidos durante essa Saulo de Tarso. A história da Igreja revela
viagem evangelística. Jesus também faz re- que a "religião instituída", desprovida do
ferência a um ministério aos gentios ( M t evangelho, tem se oposto continuamente a
10:18). O Espírito Santo ainda não havia sido homens e mulheres que ousam testemunhar
dado, mas Jesus menciona o Espírito falan- de Cristo.
do dentro deles ( M t 10:20). Mateus 10:22 Mateus 10:18 afirma que o governo tam-
parece indicar uma perseguição mundial; bém participará dessa perseguição. As Es-
nessa ocasião, porém, os apóstolos limita- crituras proféticas ensinam que, nos últimos
ram-se a ministrar em sua própria terra. Por dias, governo e religião se unirão para con-
fim, Mateus 10:23 fala sobre a volta de Cris- trolar o mundo. Apocalipse 1 3 descreve um
to, o que certamente transporta tudo o que tempo durante o período da tribulação quan-
foi citado acima para um tempo futuro. É do um governante mundial (o anticristo)
difícil não concluir que essas instruções se obrigará o mundo a adorá-lo e a prestar cul-
a p l i c a m às testemunhas de uma é p o c a to a sua imagem. Esse líder controlará a reli-
vindoura. gião mundial, a economia e o governo e
M a s a qual época se referem? Até certo usará tudo isso para perseguir os que per-
ponto, alguns desses acontecimentos ocor- manecerem fiéis a Cristo.
reram no Livro de Atos; no entanto, Jesus Haverá também um declínio no amor e
não voltou naquela época. Além disso, o na lealdade dentro das famílias. A falta de
MATEUS11-12 47

"afeição natural" (2 Tm 3:3) é u m a das ca- crer q u e o Espírito de D e u s nos ajudará a


racterísticas dos últimos tempos, jesus cita lembrar daquilo q u e o S e n h o r nos ensinou
M i q u é i a s 7:6 p a r a p r o v a r e s s e f a t o { M t ( J o 14:26). Em v e z de fugir e de procurar
10:21). As três instituições q u e D e u s esta- u m a vida mais fácil, p o d e m o s "perseverar
b e l e c e u neste m u n d o são o lar, o governo e até ao fim", sabendo q u e D e u s nos ajudará
a Igreja. N o s últimos dias, em v e z de pro- e acompanhará até o fim.
mover a verdade, essas três instituições se-
rão contrárias a ela. 3. INSTRUÇÕES AOS DISCÍPULOS DO
Todavia, a tribulação t a m b é m será um PRESENTE ( M T 1 0 : 2 4 - 4 2 )
t e m p o de oportunidade. Os cristãos pode- Apesar de as verdades contidas nesta seção
rão testemunhar a governadores e reis ( M t se aplicarem aos servos de D e u s em qual-
10:18). Os inimigos tentarão fazer os fiéis quer período da história bíblica, essas pa-
tropeçar, mas o Espírito de D e u s os instruirá lavras p a r e c e m particularmente relevantes
e m seu testemunho. O s cristãos d e hoje não para a Igreja de hoje. A ênfase é sobre a
d e v e m usar M a t e u s 10:19, 20 c o m o descul- injunção: " N ã o temais!" ( M t 10:26, 28, 31).
pa para não estudar a Palavra ao se prepara- Esse m e d o específico ao qual Cristo se re-
r e m para testemunhar, ensinar ou pregar. fere é e x p l i c a d o em M a t e u s 10:32, 33 e
Esses versículos descrevem a urgência da si- consiste no m e d o de confessar Cristo aber-
t u a ç ã o e n ã o d e v e m servir de p a r â m e t r o tamente diante dos homens. D e u s n ã o tem
divino para o ministério nos dias de hoje. um " s e r v i ç o secreto". A confissão pública
No t e m p o dos apóstolos, era o Espírito q u e m de fé em Cristo é uma evidência da verdadei-
lhes dava a mensagem, q u a n d o se encon- ra salvação ( R m 10:9, 10). N ã o precisamos
travam diante d o s inimigos ( A t 4:8). Esse ter m e d o de confessar a Jesus abertamente,
ministério extraordinário do Espírito voltará e M a t e u s 10 apresenta vários motivos para
a se manifestar durante a tribulação. sermos ousados em nosso testemunho.
A tribulação será um t e m p o de oposi- O sofrimento é algo esperado (vv. 24,
ç ã o e de oportunidade, mas t a m b é m um 25). Jesus Cristo foi perseguido q u a n d o es-
t e m p o d e compromisso. O s embaixadores tava ministrando aqui na Terra, então por q u e
do Rei d e v e m "perseverar até ao f i m " e rea- deveríamos esperar algo diferente? S o m o s
lizar seu ministério fielmente, m e s m o q u e seus discípulos, e os discípulos n ã o são maio-
lhes custe a vida. A p e s a r d o s flagelos, da res q u e o Mestre. Jesus foi a c u s a d o de estar
rejeição pela família, das perseguições nas e m conluio c o m Satanás ( B e l z e b u : senhor
cidades e das acusações perante líderes, os do estrume, senhor da casa), e dirão a mes-
servos d e v e m p e r m a n e c e r fiéis a seu Senhor. m a coisa d e seus seguidores. N o entanto,
S e u testemunho será usado por D e u s para d e v e m o s considerar um privilégio sofrer por
ganhar outras pessoas. Apocalipse 7:1-8 in- Cristo e com ele ( A t 5:41; Fp 3:10).
dica q u e 144 mil judeus levarão a Palavra Deus revelará todas as coisas (w. 26j,
de D e u s pelo m u n d o afora durante a tribu- 27). Os inimigos de Cristo usam de meios
lação, e cujo testemunho redundará na sal- ocultos e dissimulados para opor-se ao evan-
v a ç ã o de grandes multidões para Cristo ( A p gelho, mas os verdadeiros cristãos são aber-
7:9ss). tos e corajosos em sua vida e testemunho.
Por certo, as palavras de M a t e u s 10 se- N ã o temos coisa alguma a esconder. Jesus
rão extremamente preciosas e significativas " n a d a disse em oculto" ( J o 18:20). Falsas tes-
para as testemunhas desse período. M e s m o temunhas mentiram sobre Jesus durante seu
q u e a interpretação e a aplicação básicas se j u l g a m e n t o , m a s D e u s p r o v i d e n c i o u para
refiram a o s servos do futuro, ainda assim q u e a verdade fosse revelada. N ã o precisa-
p o d e m o s aprender c o m essas palavras hoje. mos temer coisa alguma, pois um dia D e u s
Por mais difíceis q u e sejam nossas circuns- revelará todos os segredos do c o r a ç ã o do ho-
tâncias, p o d e m o s transformar a oposição em m e m ( R m 2:16) e os julgará. Nossa tarefa não
48 MATEUS 8-9

mensagem de Deus. O julgamento dos ho- Cristo é o Senhor", outra bem diferente é
mens no presente não nos assusta, pois vi- render-se a ele e obedecer à sua vontade.
vemos em função do julgamento vindouro O discurso e a prática devem andar juntos.
de Deus. Jesus tem dois ministérios específicos no
Tememos somente a Deus (v. 28). O céu. Como nosso Sumo Sacerdote, ele nos
homem só pode matar o corpo, e, se o fi- dá graça para que não pequemos. Como
zer, a alma do cristão vai para seu lar junto nosso advogado, ele nos perdoa e restaura
do Senhor. No entanto, Deus é capaz de quando pecamos (1 Jo 2:1, 2). Os méritos
destruir não apenas o corpo, mas também a de sua obra celestial intercessora não depen-
alma no inferno! Por certo, Deus jamais con- dem de nossa fidelidade, pois ele é fiel mes-
denará um dos seus filhos (Jo 5:24; Rm 8:1). mo quando nós não somos (2 Tm 2:12, 13).
Martinho Lutero captou muito bem essa Mas os benefícios de seu ministério celestial
verdade ao escrever: são para os que são fiéis a ele. Quando Cris-
to nos confessa diante do Pai, garante-nos
Que dos bens e familiares, possamos os benefícios de sua obra sacrificial na cruz.
abdicar, Quando nos nega diante do Pai, não pode
Também desta vida que desvanece, compartilhar tais graças conosco, não por
E do corpo que os homens podem matar. omissão sua, mas por culpa nossa.
A verdade de Deus permanece, Há, no entanto, outro elemento a ser
Seu reino é eterno e sem par. considerado. Um dia, estaremos diante do
trono do julgamento, em que as recompen-
A pessoa que teme a Deus não tem mais sas serão distribuídas (2 Co 5:10; Rm 14:10).
nada a temer. O temor do Senhor anula to- Se negarmos o Senhor aqui na Terra, perde-
dos os medos. remos essas recompensas e não teremos a
Deus cuida dos seus (vv. 29-31). Não alegria de ouvi-lo dizer: "Muito bem, servo
custava caro comprar pardais no mercado. bom e fiel". Sem dúvida, qualquer um que
Ao compararmos esses versículos com Lucas negar Jesus aqui na Terra pode ser perdoa-
12:6, vemos que os pardais eram tão bara- do. Pedro o negou três vezes e foi perdoado
tos que, na compra de quatro, o vendedor e restaurado.
dava mais um de graça! No entanto, o Pai Não podemos escapar do conflito (vv.
sabe quando um pardal cai em terra; e e/e 34-39). Uma vez que nos identificamos com
está presente quando isso acontece! Se Deus Jesus Cristo e que o confessamos, passamos
cuida até dos pardais de forma tão maravi- a fazer parte de uma guerra. Não fomos nós
lhosa, acaso não cuidará também de seus que começamos esse conflito; foi Deus
servos? Sem dúvida! Somos muito mais va- quem declarou guerra contra Satanás (Gn
liosos para Deus do que muitos pardais. 3:15). Na noite em que nosso Senhor nas-
Deus se preocupa com todos os detalhes ceu, os anjos proclamaram "paz na terra"
de nossa vida, até mesmo nossos cabelos (Lc 2:14). Mas Jesus parece negar essa ver-
estão contados - não de modo geral, mas dade. " N ã o penseis que vim trazer paz à
individualmente! Deus vê quando um pardal terra; não vim trazer paz, mas espada" (Mt
cai no chão e sabe quando um dos cabelos 10:34). Se Israel tivesse aceitado seu Mes-
de seus filhos cai. Deus protege seus filhos sias, ele teria lhe dado a paz. Mas seu povo
até o último fio de cabelo (Lc 21:18). Saben- o rejeitou, e o resultado foi a "espada". Em
do desse cuidado maravilhoso de Deus para vez de haver "paz na terra", há "paz no céu"
conosco, não temos motivo para temer. (Lc 19:38). Ele fez a paz por meio de seu
Cristo honra aqueles que o confessam sangue na cruz (Cl 1:20), para que os ho-
(w. 32, 33). Confessar ao Senhor não é ape- mens pudessem ser reconciliados com Deus
nas declarar seu nome com os lábios. A ver- e consigo mesmos.
dadeira confissão é corroborada por nosso A única forma de um cristão escapar do
modo de viver. Uma coisa é dizer: "Jesus conflito é negar a Cristo e fazer concessões
MATEUS 10 49

em seu testemunho, o que seria pecado. Podemos ser uma bênção para outros
Então, o cristão estaria em guerra com Deus (w. 4042). Nem todos rejeitarão nosso tes-
e consigo mesmo. Seremos mal interpreta- temunho. Alguns o receberão de braços
dos e perseguidos até pelos mais próximos abertos e serão abençoados. Afinal, somos
de nós, mas, mesmo assim, não devemos embaixadores do Rei! Nosso Rei providencia-
deixar que isso afete nosso testemunho. O rá para que essas pessoas sejam recompen-
importante é sofrer por amor a Cristo e à sadas pelo que fizerem. Quando as pessoas
justiça, não por ser pessoas difíceis de con- nos recebem, estão recebendo o Rei, pois
viver. Há uma diferença entre "o escândalo somos seus representantes. Em 2 Samuel 10
da cruz" (Gl 5:11) e cristãos escandalosos. encontramos um exemplo do que acontece
Todo cristão deve decidir de uma vez quando alguém maltrata um enviado do Rei.
por todas amar a Cristo, tomar sua cruz e No entanto, as bênçãos não são automá-
segui-lo. O amor em Mateus 10:37 é o mo- ticas. Tudo depende da atitude do anfitrião.
tivo para a cruz em Mateus 10:38: "Tomar a Se receber o embaixador como um profeta
sua cruz" não significa usar um broche na (um porta-voz de Deus), terá uma recom-
lapela nem colocar um adesivo no carro. pensa, e se o receber somente como um
Significa confessar a Cristo e lhe obedecer a homem justo, terá outra, Mas mesmo um
despeito da vergonha e do sofrimento. Sig- copo de água fria, oferecido com o espírito
nifica morrer para si mesmo diariamente. Se correto, é devidamente recompensado.
Cristo foi para a cruz por nossa causa, o Convém lembrar que o tema desta últi-
mínimo que podemos fazer é carregar uma ma seção é discipulado, não filiação. Tor-
cruz por ele. namo-nos filhos de Deus pela fé em Cristo,
Mateus 10:39 apresenta apenas duas e nos tornamos discípulos ao segui-lo fiel-
alternativas: salvar nossa vida ou sacrificá-la. mente e obedecer à sua vontade. A filiação
Não há meio-termo. Se protegermos nossos permanece inalterada, mas o discipulado
interesses pessoais, seremos perdedores. Se muda à medida que andamos com Cristo.
morrermos para nós mesmos e vivermos para Há grande necessidade hoje de discípulos
os interesses de Deus, seremos vencedores. fiéis, de cristãos que aprenderão de Cristo e
Uma vez que o conflito espiritual é inevitá- que viverão para ele.
vel neste mundo, por que não morrer para Com isso, encerramos a primeira seção
nós mesmos e deixar Cristo vencer a bata- principal de Mateus, A Revelação do Rei.
lha por nós e em nós? Afinal, a verdadeira Vimos sua pessoa (Mt 1 - 4), seus princí-
guerra é interior - é o conflito entre o egoís- pios (Mt 5 - 7) e seu poder (Mt 8 -10). Como
mo e o sacrifício. a nação responderá a essa revelação?
havia vindo no espírito e poder de Elias (Lc
1:1 7), e até mesmo Elias teve dias de desâni-
mo! Jesus garante a João que o Filho está
cumprindo a vontade do Pai.
Depois de responder à pergunta de João,
Jesus o elogia. João não era um "pregador
popular" que encantava as multidões, tam-
pouco era como um caniço ao vento que
muda de direção a todo instante. Antes, era
um homem de convicções e de coragem, o
maior de todos os profetas. Essa posição ele-
vada era decorrente de seu privilégio de

T odas as evidências haviam sido expos-


tas. João Batista apresentara o Rei à na-
ção, e Jesus havia revelado sua pessoa, seus
anunciar o Messias. Seu ministério foi o pon-
to culminante da Lei e dos Profetas.
Em que sentido J o ã o foi o "Elias, que
princípios e seu poder. Cabia aos líderes do estava para vir"? ( M t 11:14). Ele veio no espí-
país tomar uma decisão. Em lugar de re- rito e poder de Elias (Lc 1:1 7), e até mesmo
ceberem seu Rei, rebelaram-se contra ele. se vestia como Elias (2 Rs 1:7, 8; Mt 3:4).
Esses dois capítulos apresentam quatro as- Assim como Elias, João tinha uma mensa-
pectos dessa rebelião. gem de julgamento para a nação apóstata
de Israel. Seu ministério foi profetizado (Is
1. REBELIÃO CONTRA SEU PROFETA 40:3), e ele o cumpriu. Mas, segundo a pro-
(MT 11:1-30) fecia de Malaquias 4:5, Elias apareceria "an-
Exposição (w. 1-15). João Batista estava na tes que [viesse] o grande e terrível Dia do
prisão da fortaleza de Maquero, pois havia S E N H O R " . Esse "Dia do S E N H O R " é o período
denunciado corajosamente o casamento da tribulação que virá sobre toda a Terra (ver
adúltero de Herodes Antipas com Herodias Mt 24:1 5). No entanto, o ministério de João
(Lc 3:19, 20). Seria de se esperar que os lí- Batista não foi seguido de julgamento. Por
deres religiosos se opusessem a Herodes e quê?
procurassem libertar João, mas em vez disso, O ministério de J o ã o era preparar a
ficaram de braços cruzados. A atitude deles nação para a chegada de Jesus e apresentá-
com relação a João refletia seus sentimen- lo para a nação (Lc 1:15-1 7; Jo 1:29-34). Se
tos contra Jesus, pois João o havia apresenta- o povo tivesse recebido o testemunho de
do e honrado. João e aceitado o Messias, João teria cum-
Não é difícil entender como João estava prido as profecias literalmente. Em vez dis-
sofrendo na prisão. Era um homem do de- so, tais profecias cumpriram-se num sentido
serto confinado a uma cela. Era um homem espiritual na vida daqueles que confiaram
ativo que recebera de Deus a ordem de pre- em Cristo. Jesus deixa isso claro em Mateus
gar e fora silenciado. Havia anunciado um 17:10-13. Muitos estudiosos da Bíblia acre-
julgamento que estava demorando a chegar ditam que Malaquias 4:5 se cumprirá literal-
( M t 3:7-12). Recebia apenas relatórios par- mente quando Elias vier como uma das "duas
ciais do ministério de Jesus e não tinha como testemunhas" registradas em Apocalipse 11.
visualizar tudo o que estava acontecendo. O povo em geral tinha João em alta con-
Em sua resposta a João, Jesus demonstra sideração (Mt 21:26), e muitos se arrepen-
cautela e ternura. Primeiro, o lembra das pro- deram e foram batizados por ele. M a s os
fecias do Antigo Testamento sobre a obra líderes recusaram-se a reconhecê-lo, indican-
do Messias (Is 29:18, 19; 35:4-6). Os discí- do, assim, sua incredulidade e dureza de
pulos de João já lhe haviam contado o que coração. Em vez de se tornarem como crian-
Jesus estava fazendo (Lc 7:18), mas Jesus lhes ças e se humilharem, os líderes adotaram uma
pede que "digam a João novamente". João atitude infantil e obstinada, como garotinhos
MATEUS 11-12 51

emburrados por não p o d e r e m fazer as coi- profundo da entrega e da o b e d i ê n c i a . No


sas a seu jeito. A parábola em M a t e u s 11:16- primeiro caso, temos " p a z c o m D e u s " ( R m
19 mostra a c o n d i ç ã o espiritual dos líderes 5:1), n o s e g u n d o , r e c e b e m o s " a p a z d e
e t a m b é m revela o c o r a ç ã o dos incrédulos D e u s " (Fp 4:6-8). N a q u e l e tempo, a expres-
nos dias de hoje. são tomar o " j u g o " significava tornar-se um
Condenação (vv. 16-24). É muito raro discípulo. Q u a n d o nos entregamos a Cristo,
ver Jesus usar a palavra a/! Esse termo impli- somos conduzidos por ele. A palavra "sua-
ca julgamento, mas t a m b é m inclui compai- v e " significa " d o t a m a n h o certo", pois seu
xão e sofrimento. Infelizmente, o povo dessas jugo é feito sob medida para nossa vida e
cidades desprezou as oportunidades de ver nossas necessidades, e não é pesado reali-
e ouvir o Cristo de D e u s e de ser salvo! As zar sua v o n t a d e (1 Jo 5:3).
cidades gentias de Tiro e S i d o m b e m c o m o "Aprendei". As duas primeiras injunções
as cidades pagas de S o d o m a e G o m o r r a te- representam um m o m e n t o crítico, no qual
riam se arrependido, se tivessem presencia- nos aproximamos de Cristo e nos entrega-
do os milagres q u e Jesus e seus discípulos mos a ele, mas esse passo é o c o m e ç o de
realizaram. C a f a r n a u m teria sido "exaltada um processo. À m e d i d a q u e a p r e n d e m o s
aos c é u s " pela honra de ter o Messias mo- mais dele, encontramos uma p a z mais pro-
r a n d o ali. M a s o s g r a n d e s privilégios d e funda, pois confiamos nele cada v e z mais.
Cafarnaum só lhe trouxeram maior respon- A vida é simplificada e unificada em torno
sabilidade e maior julgamento. C i n c o d o s da pessoa de Cristo. O convite não é ape-
d e z milagres registrados em M a t e u s 8 a 9 nas para o p o v o de Israel, mas para " t o d o s "
foram realizados em Cafarnaum. ( M t 10:5, 6).
Convite (w. 25-30). Por q u e os líderes
religiosos rebelaram-se contra J o ã o e contra 2 . R E B E L I Ã O C O N T R A SEUS P R I N C Í P I O S
Jesus? P o r q u e eram intelectual e espiritual- (MT 12:1-21)
mente arrogantes e se recusaram a agir c o m Jesus violou as tradições do sábado delibera-
a humildade e honestidade de uma criança. d a m e n t e em várias ocasiões. Havia ensina-
Há grande diferença entre as crianças mima- do ao p o v o q u e a lei exterior, por si mesma,
das da parábola ( M t 11:16-19) e os peque- jamais poderia salvá-los ou purificá-los, pois
ninos submissos dessa palavra de louvor. O a verdadeira justiça tem de vir do coração.
Pai se revela ao Filho, e o Filho revela a si A palavra hebraica shabbath significa "re-
m e s m o e o Pai àqueles q u e b u s c a m Jesus pouso ou descanso", o q u e explica por q u e
c o m fé. Esses versículos indicam a sobera- M a t e u s apresenta o s conflitos d o s á b a d o
nia do Pai e t a m b é m a responsabilidade do nesse ponto. Jesus o f e r e c e descanso a to-
pecador. O convite p o d e ser resumido em dos os q u e se a c h e g a m a ele, e n q u a n t o a
três palavras. observância religiosa n ã o proporciona des-
"Vinde". Os fariseus diziam " F a ç a m ! " e canso algum.
tentavam obrigar o p o v o a seguir M o i s é s e A lei permitia saciar a f o m e p e g a n d o ali-
as tradições. M a s a verdadeira salvação só mentos do c a m p o do vizinho ( D t 23:24, 25),
p o d e ser e n c o n t r a d a n u m a Pessoa: Jesus mas fazer isso no sábado era u m a transgres-
Cristo. Aceitar esse convite significa crer nele. são da lei, segundo as tradições dos escribas
É um convite aberto a todos os q u e estão e fariseus, pois significava realizar trabalho.
cansados e sobrecarregados, exatamente Jesus respondeu a seus acusadores de três
c o m o o p o v o se sentia sob o jugo do legalis- formas.
mo fariseu ( M t 23:4; At 1 5:10). Apelou para um rei (vv. 3, 4). O pão
"Tomai." Trata-se de u m a e x p e r i ê n c i a consagrado devia ser c o n s u m i d o s o m e n t e
mais profunda. Q u a n d o nos a p r o x i m a m o s pelos sacerdotes, mas Davi e seus soldados
de C r i s t o p e l a fé, e/e nos dá d e s c a n s o . o c o m e r a m . Por certo, o Filho de D e u s ti-
Q u a n d o c o l o c a m o s seu j u g o e a p r e n d e m o s nha o direito de c o m e r os cereais de seu Pai
52 MATEUS 1 1 - 1 2

foi condenado, é evidente que Jesus pode- que, se uma pessoa poderia cuidar de seus
ria quebrar as tradições dos homens sem animais no sábado, o que nos impede de
culpa alguma (ver 1 Sm 21:1 ss). cuidar do homem, criado à imagem de
Apelou para os sacerdotes (vv. 56). Os Deus?
sacerdotes deveriam oferecer certo número Em reação a esse desacato deliberado
de sacrifícios no sábado (Nm 28:9, 10) e, de jesus, os líderes religiosos começaram a
ainda assim, não eram dignos de condena- tramar para matá-lo. Acusaram-no de blasfê-
ção. Na verdade, ao trabalharem no shabbath, mia, quando curou um paralítico (Mt 9:1-8),
estavam obedecendo à lei de Deus. Isso indi- e de falta de separação dos pecadores, quan-
ca que as tradições humanas com respeito do comeu com os amigos de Mateus (Mt
ao sábado estavam erradas, pois contraria- 9:11-13). O caso do shabbath, porém, era
vam a própria lei de Deus. muito pior, pois jesus havia transgredido in-
Apelou para um profeta (v. 7). A cita- tencionalmente a lei de Deus, ao trabalhar
ção é de Oséias 6:6, passagem que Jesus já no dia de sábado apanhando cereais no
havia mencionado anteriormente (Mt 9:13). campo e curando um homem.
A lei do sábado foi dada a Israel como um Jesus respondeu a esse ódio retirando-se.
sinal de seu relacionamento com Deus (Êx Não lutou abertamente com seus inimigos,
20:9-11; 31:13-1 7; Ne 9:12-15). Mas também mas cumpriu a profecia em Isaías 42:1-4.
constituía um ato de misericórdia para os Seus inimigos eram como canas quebradas
seres humanos e os animais, proporcionan- e pavio queimado. Convém observar que
do-lhes o descanso semanal necessário. os gentios são mencionados duas vezes, e,
Devemos considerar suspeita qualquer lei com isso, Mateus dá a entender novamen-
religiosa contrária à misericórdia e ao cuida- te que Israel rejeitaria seu Rei e que o reino
do com a natureza. Deus quer misericórdia, se estenderia aos gentios.
não sacrifícios religiosos; quer amor, não A saída de Jesus naquele momento
legalismo. Os fariseus que se esforçavam mostra, de antemão, sua atitude de "afasta-
para obedecer às leis do sábado pensavam mento" em Mateus 14 - 20. Durante esse
estar servindo a Deus. Ao acusarem Jesus e período, Jesus evitou o conflito direto com
seus discípulos, pensavam estar defenden- seus inimigos para que pudesse permane-
do Deus, exatamente como os legalistas re- cer dentro do "cronograma divino" e ser
ligiosos de hoje! crucificado na hora certa. Também usou esse
É importante observar que Jesus apelou tempo para ensinar seus discípulos e prepará-
para um rei, um sacerdote e um profeta, pois los para a crucificação do seu Mestre.
ele é Rei, Sacerdote e Profeta; também afir-
mou ser "maior" em três aspectos: como 3. REBELIÃO CONTRA SEU PODER
sacerdote, ele é "maior do que o templo" ( M T 12:22-37)
(Mt 12:6); como profeta, ele é "maior do A acusação (w. 22-24). O homem que foi
que Jonas" (Mt 12:41); e como rei, ele é levado a Jesus estava, sem dúvida alguma,
"maior do que Salomão" (Mt 12:42). num estado lastimável; não podia enxergar,
Ao se declarar "Senhor do sábado", Jesus era incapaz de falar e estava possuído por
estava na verdade afirmando que era igual a um demônio. Os fariseus não foram capazes
Deus, pois foi Deus quem estabeleceu o de ajudá-lo, mas Jesus o libertou. Os fariseus
sábado (Gn 2:1-3). Em seguida, provou sua acusaram Jesus de operar pelo poder de
asserção curando o homem da mão resse- Satanás, não pelo poder de Deus. Sua opi-
quida. É triste ver que os líderes religiosos nião sobre os milagres de Jesus era bastante
usaram esse homem como uma arma con- diferente da opinião de Nicodemos (Jo 3:2).
tra Jesus. Mas o Senhor não se intimidou A resposta (vv. 25-30). Jesus mostrou
com as ameaças deles. Deixar de fazer o como a declaração deles era ilógica e impra-
bem no sábado (ou em qualquer outro dia) ticável. Q u e razão Satanás teria para lutar
é o mesmo que fazer o mal. Jesus argumenta contra si mesmo? Jesus afirmou que Satanás
MATEUS 11-12 53

t e m um reino, pois é o deus desta era ( M t Santo. C o m o é possível D e u s perdoar pa-


4:8, 9 ; J o 1 2 : 3 1 ) ; t a m b é m a f i r m o u q u e lavras proferidas contra seu Filho, mas n ã o
Satanás tem u m a " c a s a " , referindo-se, possi- perdoar as ofensas contra o Espírito?
velmente, a o c o r p o d o h o m e m q u e estava Ao q u e parece, trata-se de uma situação
p o s s u í d o ( M t 12:43, 44). S e S a t a n á s expul- específica, correspondente apenas ao perío-
sa os próprios colaboradores demoníacos, do em que Cristo ministrou aqui na Terra.
está se o p o n d o a si mesmo, dividindo seu Jesus não parecia diferente de qualquer ou-
reino e destruindo sua casa. tro h o m e m j u d e u (Is 53:2). M a l d i z e r Cristo
O s fariseus n ã o p e r c e b e r a m q u e sua era uma ofensa perdoável enquanto ele es-
a c u s a ç ã o t a m b é m era ilógica d o p r ó p r i o tava na aqui na Terra. M a s q u a n d o o Espírito
p o n t o de vista deles. Eram exorcistas judeus d e D e u s v e i o n o Pentecostes, comprovan-
(ver At 19:13-16) aparentemente bem-suce- do q u e Jesus era o Cristo e estava vivo, a
didos. C o m q u e poder e/es expulsavam de- rejeição do testemunho do Espírito passou
mônios? Se o faziam pelo p o d e r de Satanás, a ser terminante. Logo, a única conseqüên-
eram aliados c o m o diabo! É claro q u e ne- cia possível era o julgamento.
n h u m fariseu estava disposto a chegar a tal A o r e j e i t a r e m J o ã o Batista, o s líderes
conclusão. estavam rejeitando o Pai q u e o enviou. Ao
Jesus era c a p a z de expulsar os demônios, rejeitarem Jesus, estavam rejeitando o Filho.
pois já havia derrotado Satanás, o príncipe M a s ao rejeitarem o ministério dos apósto-
dos demônios. Jesus entrou no reino de Sa- los, estavam rejeitando o Espírito Santo - e
tanás, sobrepujou seu poder e t o m o u para essa era a rejeição final. O Espírito é a últi-
si os seus espólios. A vitória de Cristo deu- ma testemunha, e tal rejeição n ã o p o d e ser
s e p e l o Espírito d e D e u s ( " p e l o d e d o d e perdoada.
D e u s " , Lc 11:20), n ã o pelo poder do mal. A expressão "palavra frívola", em M a t e u s
Isso significa q u e D e u s é vitorioso s o b r e 12:36, significa "palavra sem valor". Se D e u s
Satanás e q u e os h o m e n s d e v e m decidir de julgará nossas " c o n v e r s a s fiadas", q u a n t o
q u e lado ficarão. N ã o h á meio-termo: o u mais, então, julgará palavras ditas delibera-
estamos c o m D e u s o u estamos contra ele. damente? É nas palavras impensadas q u e re-
A advertência (vv. 31-37). Jesus os ad- velamos nosso verdadeiro caráter.
vertiu de q u e suas palavras m o s t r a v a m a É possível c o m e t e r o " p e c a d o imperdoá-
m a l d a d e de seu coração. O p e c a d o contra v e l " nos dias de hoje? Sim. N o s dias de hoje,
o Espírito Santo n ã o é uma questão de pala- esse p e c a d o consiste na rejeição categóri-
vras, pois as palavras são apenas "frutos" de ca e definitiva de J e s u s Cristo. Ele d e i x o u
um c o r a ç ã o pecaminoso. Se o c o r a ç ã o está b e m claro q u e todos os p e c a d o s p o d e m ser
c h e i o de bondade, transbordará pelos lábios perdoados ( M t 12:31). Adultério, assassina-
e beneficiará a outros. M a s se está cheio de to, blasfêmia e outros p e c a d o s do gênero,
maldade, t a m b é m transbordará pelos lábios todos p o d e m ser perdoados. M a s D e u s n ã o
e prejudicará tanto aquele q u e fala quanto p o d e perdoar aquele q u e rejeita seu Filho,
os q u e estão a seu redor. pois é o Espírito q u e m dá testemunho de
M a s o q u e v e m a ser essa terrível "blas- Cristo ( J o 15:26) e q u e m c o n v e n c e o peca-
f ê m i a c o n t r a o Espírito S a n t o " ? P o d e ser dor perdido ( J o 16:7-11).
cometida nos dias de hoje e, em caso afir-
mativo, de q u e maneira? Jesus afirmou q u e 4 . R E B E L I Ã O CONTRA SUA PESSOA
D e u s perdoará o q u e blasfemar contra o Fi- (MT 12:38-50)
lho, mas n ã o contra o Espírito. Isso significa " O s j u d e u s p e d e m u m sinal" ( 1 C o 1:22).
q u e o Espírito Santo é mais importante do Esse pedido demonstra incredulidade: que-
q u e Jesus Cristo, o Filho de Deus? Claro q u e riam q u e Jesus provasse q u e era o Messias.
não. É c o m u m ouvir as pessoas blasfema- Perguntamo-nos q u e outras provas Jesus po-
rem do n o m e de D e u s e de Jesus Cristo, mas deria ter lhes d a d o ! Se houvessem procurado
54 MATEUS 1 1 - 1 2

sinceridade, teriam concluído: "Este é o Fi- proclamou uma mensagem de graça e salva-
lho de Deus!" Mas teria sido errado Jesus ção. Quando cremos em Cristo, não apenas
lhes dar um sinal, pois estaria alimentando somos salvos do julgamento, como também
sua incredulidade e, desse modo, permitin- recebemos vida eterna e abundante.
do que determinassem os parâmetros para Jesus também é maior do que Salomão
a fé. Qualquer milagre que Jesus operasse em sua sabedoria, riqueza e realizações. A
não seria suficiente para lhes agradar. rainha de Sabá maravilhou-se com o que
Jesus respondeu ao desafio desses líde- viu no reino de Salomão, mas aquilo que te-
res de três maneiras. mos no reino de Deus por meio de Cristo
Fez uma recapitulação de sua história sobrepuja em muito as glórias de Salomão.
(w. 39-42). O profeta Jonas era judeu e foi Sentar-se à mesa com Cristo, ouvir suas pa-
enviado aos gentios; a rainha de Sabá era lavras e compartilhar suas bênçãos é muito
gentia e visitou Salomão, o rei de Israel (2 Cr mais gratificante do que visitar e admirar os
9:1-12). Considerando-se a amargura que reinos mais espetaculares da Terra, até mes-
havia entre judeus e gentios, essa referência mo o reino de Salomão.
aos gentios deve ter exasperado os fariseus. O objetivo principal dessa história é mos-
No entanto, não é a primeira vez neste Evan- trar que o povo de Nínive dará testemunho
gelho que Jesus ou Mateus faz menção dos contra os líderes de Israel, pois os ninivitas
gentios. se arrependeram ao ouvir a pregação de
Jonas foi um sinal para povo de Nínive, Jonas. A rainha de Sabá também dará tes-
pois, dentro do grande peixe, passou pela temunho contra eles, pois veio de muito
"morte", sepultamento e ressurreição. O úni- longe para ouvir a sabedoria de Salomão,
co sinal que Jesus daria à nação de Israel se- enquanto os líderes judeus rejeitaram a sa-
ria sua morte, sepultamento e ressurreição. A bedoria de Cristo que estava vivendo entre
mensagem dos sete primeiros capítulos do eles! Quanto maior a oportunidade, maior
Livro de Atos concentra-se na ressurreição de o julgamento. E triste ver como, ao longo de
Cristo, não em sua morte na cruz. Os judeus sua história, a nação de Israel rejeitou ini-
daquele tempo acreditavam que ele tinha cialmente seus libertadores e posteriormen-
morrido, pois esse era o assunto do momen- te os aceitou. Foi o que aconteceu com José,
to (Lc 24:18). No entanto, não acreditavam Moisés, Davi, os profetas (Mt 23:29) e com
que estava vivo (Mt 28:11-15). Em Atos 2 - 7 , Jesus Cristo.
o Espírito Santo testemunhou profusamente Revelou seu coração (vv. 43-45). De-
à nação de Israel que Jesus estava vivo. Esse vemos associar esses versículos a Mateus
era o único sinal de que precisavam. 12:24-29. A "casa" de Satanás é o corpo do
Jesus é maior que Jonas em vários senti- indivíduo possuído pelo demônio. A impres-
dos. Primeiro, é maior quanto a sua pessoa, são é que os demônios são irrequietos e estão
pois Jonas era apenas um homem. Também sempre à procura de um corpo para habitar
é maior em sua obediência, pois Jonas de- (Mt 8:28-31). Quando o demônio saiu, a vida
sobedeceu a Deus e foi disciplinado. Jesus desse homem mudou para melhor, mas con-
morreu literalmente, enquanto Jonas foi "se- tinuou vazia. Quando o demônio retornou,
pultado" figurativamente na barriga do trouxe consigo outros demônios, e a vida do
peixe. Jesus ressuscitou dentre os mortos homem terminou em tragédia.
pelo seu próprio poder. Jonas ministrou a A aplicação principal diz respeito ao
apenas uma cidade, enquanto Jesus entre- povo de Israel, especialmente à geração do
gou sua vida pelo mundo todo. Por certo, tempo em que Jesus ministrou na Terra. A
Jesus é maior em seu amor, pois Jonas não nação havia sido expurgada do demônio da
amava o povo de Nínive; antes, desejava idolatria, o grande mal recorrente em Israel
que morressem. A mensagem de Jonas ao longo de todo o Antigo Testamento. No
salvou a cidade de Nínive do julgamento; entanto, essa reforma não foi suficiente, pois
foi um mensageiro da ira de Deus. Jesus purificou a nação, mas não a preencheu. O
MATEUS 11-12 55

povo de Israel precisava receber o Salvador capaz de compreender plenamente sua vida
e ser preenchido com vida espiritual. Em vez e seu ministério (Jo 7:1-5). Alguns de seus
disso, os judeus rejeitaram seu Messias e amigos pensavam que ele era louco (Mc
foram destruídos, 3:21), Mas Jesus não estava preocupado em
Essa passagem também tem uma aplica- ser honrado pelos homens, Em momento al-
ção pessoal. Não basta limpar a casa; tam- gum desrespeitou sua família humana, mas
bém devemos convidar o inquilino certo para sempre enfatizou a família de Deus,
ocupá-la, Os fariseus orgulhavam-se de sua É importante observar a maneira de Je-
"casa limpa", mas seu coração permanecia sus usar a palavra "qualquer" (Mt 12:50),
vazio! Ninguém é salvo pela religião ou por Trata-se de um paralelo com o convite mara-
reformas em sua vida. É preciso haver rege- vilhoso em Mateus 11:28-30, em que Jesus
neração e receber Cristo no coração (ver encoraja todos a crerem nele, Se a nação
Ap 3:20), Em se tratando de Jesus Cristo, nin- não estava disposta a recebê-lo, pelo menos
guém pode ser neutro. alguns de seus indivíduos - e até mesmo
Rejeitou m horn (vv, 46-50), Nem alguns gentios - poderiam crer nele. Mas o
mesmo a famlia de Jesus aqui na Terra foi que seria feito do reino prometido?
céus" é uma mistura de verdadeiro e falso,
de bondade e maldade, assim como repre-
sentado nessas parábolas. É uma "cristanda-
de" que se diz fiel ao Rei, mas, ao mesmo
O s SEGREDOS D O REI tempo, é repleta de elementos contrários aos
princípios do Rei.
MATEUS 13 Por que Jesus ensinou por parábolas? O
texto bíblico apresenta dois motivos: a pre-
guiça das pessoas (Mt 13:10-17) e a profe-
cia do Salmo 78:2 (Mt 13:34, 35). Jesus não
pregou em parábolas para confundir nem
para condenar as pessoas. Pelo contrário,

E ste capítulo relata os acontecimentos

ocorridos num dia de crise no ministério


procurou despertar seu interesse e estimular
sua curiosidade. Essas parábolas serviriam
de esclarecimento para os que cressem e
de Jesus Cristo. Jesus sabia que a oposição estivessem buscando a verdade de coração.
crescente dos líderes religiosos acabaria re- Mas trariam escuridão para os desinteressa-
sultando em sua crucificação. Era necessá- dos e impenitentes.
rio explicar isso aos discípulos e responder As sete parábolas descrevem o avanço
à pergunta lógica que certamente levan- espiritual do "reino do céu" nesta era. Ne-
tariam: "O que será feito do reino sobre o las, vemos três estágios do desenvolvimen-
qual temos pregado?" A resposta encontra- to espiritual.
se nesta série de parábolas. Assim, primei-
ro Jesus explica a verdade com respeito ao 1. O COMEÇO DO REINO
reino, depois explica fatos referentes a sua (Mt 13:1-9,18-23)
crucificação. A parábola do semeador não começa com
Os discípulos ficaram confusos, pois o "o reino dos céus é semelhante...", pois des-
Mestre lhes falou em parábolas. Jesus já ha- creve como o reino começa: com a prega-
via usado algumas parábolas em seus ensi- ção da Palavra, o plantio de uma semente
namentos, mas naquele dia ele apresentou no coração das pessoas. A expressão: "vou
uma série de sete parábolas inter-relaciona- semear essa idéia" ilustra o que esta pará-
das e encerrou com uma oitava ilustração. bola quer dizer. A semente é a Palavra de
O termo parábola significa "colocar ao lado". Deus; os vários tipos de solo representam
Trata-se de uma história ou comparação co- os diferentes tipos de coração; e os resulta-
locada lado a lado com algum outro concei- dos diversos refletem respostas diferentes à
to, a fim de esclarecer uma lição. O que Palavra de Deus. Jesus explicou esta pará-
vemos aqui, porém, não são parábolas co- bola para que não houvesse qualquer dúvi-
muns; Jesus as chama de "mistérios do reino da quanto a seu significado.
dos céus" (Mt 13:11). No Novo Testamen- Por que comparar a Palavra de Deus a
to, um "mistério" é uma verdade espiritual sementes? Porque a Palavra é "viva e eficaz"
entendida apenas por meio da revelação (Hb 4:12). Ao contrário das palavras dos
divina. É um "segredo santo" conhecido homens, a Palavra de Deus tem vida que
apenas pelos "mais íntimos", que aprendem pode ser concedida àqueles que crêem. A
do Senhor e lhe obedecem. verdade de Deus deve se arraigar no cora-
Nesta série de parábolas, Jesus explica o ção, ser cultivada e estimulada a produzir
avanço do evangelho pelo mundo afora. Se frutos. Uma realidade surpreendente é que
Israel o tivesse recebido como um Rei, as três quartos das sementes não produzem
bênçãos teriam fluído de Jerusalém para os frutos. Jesus não descreveu uma era de gran-
confins da Terra. Mas a nação o rejeitou, e des colheitas, mas sim um tempo em que
Deus teve de colocar outro plano em ação. a Palavra seria rejeitada. O Mestre não se
Na era em que vivemos hoje, "o reino dos
MATEUS11-12 57

deixou impressionar pelas " g r a n d e s multi- coração humano, mas o mundo. Cristo está
d õ e s " q u e o seguiam, pois sabia q u e a maio- semeando cristãos verdadeiros por toda a par-
ria das pessoas n ã o receberia a Palavra no te, a fim de q u e d ê e m frutos (Jo 12:23-26).
c o r a ç ã o e não produziria frutos. M a s , o n d e quer q u e Cristo semeie um cris-
O fruto é a prova da verdadeira salvação tão verdadeiro, Satanás semeia um impostor.
( M t 7:16) e inclui santidade ( R m 6:22), cará- D e v e m o s ter c u i d a d o c o m as falsifica-
ter cristão ( G l 5:22, 23), prática de boas obras ç õ e s de Satanás; ele possui cristãos falsos
(Cl 1:10), testemunho cristão ( R m 1:13), dis- (2 Co 11:26) q u e acreditam n u m evangelho
posição de compartilhar os bens ( R m 15:25- falso ( G l 1:6-9). Estimula uma falsa justificação
28) e louvor a D e u s ( H b 13:15). A fim de ( R m 10:1-3) e t e m até m e s m o u m a igreja
produzir frutos, uma planta d e v e estar arrai- falsa ( A p 2:9). No final dos tempos, chegará
gada no solo e exposta à luz do Sol. ao c ú m u l o de produzir um falso Cristo (2 Ts
Nesta parábola, o sol representa a perse- 2:1-12).
guição decorrente da pregação da Palavra. T a m b é m d e v e m o s p e r m a n e c e r alertas
A perseguição ajuda os cristãos a crescer, mas para q u e o s ministros d e S a t a n á s n ã o s e
a luz do Sol faz secar a planta q u e não tem infiltrem e c a u s e m estragos na c o n g r e g a ç ã o
raízes. Isso explica por q u e alguns "cristãos" dos cristãos verdadeiros (2 Pe 2; 1 Jo 4:1-6).
não perseveram: sua fé é fraca, seu entendi- Q u a n d o o p o v o de D e u s cochila, Satanás
m e n t o é insuficiente e sua decisão não foi põe-se a trabalhar. Nossa tarefa não é arran-
sincera. N ã o é possível "crer" e não ser sal- car os falsos, mas sim plantar os verdadeiros
vo ( J o 2:23-25). Se n ã o há frutos na vida, ( u m princípio q u e n ã o se refere à disciplina
n ã o há fé salvadora no coração. dentro da igreja local). N ã o somos detetives,
O v e r b o ouvir (e seus correlatas) é usa- mas sim, evangelistas! D e v e m o s nos o p o r a
do 19 vezes em M a t e u s 13. A parábola do Satanás e expor suas mentiras, mas t a m b é m
semeador é relatada nos três primeiros Evan- d e v e m o s semear a Palavra e produzir frutos
gelhos, e em cada um a a d m o e s t a ç ã o final o n d e D e u s nos plantou.
é diferente. É importante ouvir a Palavra de O q u e será feito das espigas de j o i o ?
Deus, pois "a fé v e m pela pregação, e a pre- D e u s as ajuntará e as lançará no fogo. É inte-
gação, pela palavra de Cristo" ( R m 10:17). ressante observar q u e alguns desses "feixes"
Jesus disse: " Q u e m t e m ouvidos [para ou- já estão s e n d o juntados, e n q u a n t o vários
vir], o u ç a " ( M t 13:9), "Atentai no q u e ouvis" grupos religiosos se u n e m e se esforçam para
( M c 4:24) e " V e d e , pois, c o m o ouvis" (Lc trabalhar e m conjunto. U n i d a d e espiritual
8:18). entre cristãos verdadeiros é uma coisa, mas
uniformidade religiosa entre os q u e simples-
2 . O P O S I Ç Ã O A O REINO m e n t e se dizem cristãos é outra b e m dife-
(MT 13:24-43) rente. H o j e em dia, n ã o é fácil distinguir os
Satanás opõe-se ao reino t e n t a n d o tirar a verdadeiros dos falsos, mas no fim dos tem-
Palavra do c o r a ç ã o ( M t 13:4, 19). Q u a n d o pos, os anjos os separarão.
isso falha, o inimigo t e m outros meios de A parábola do grão de mostarda - cres-
atacar a obra de Deus. Essas três parábolas cimento falso (vv. 31, 32). No O r i e n t e , a
revelam q u e Satanás n ã o passa de um imita- semente de mostarda simboliza algo peque-
dor: planta falsos cristãos, encoraja um falso no e insignificante. Produz uma planta gran-
crescimento e introduz falsas doutrinas. de, mas n ã o uma " á r v o r e " , n o verdadeiro
A parábola do joio - cristãos falsos (w. sentido da palavra. Ainda assim, a planta é
24-30, 36-43). U m a v e z q u e n ã o consegue grande o bastante para q u e os pássaros pou-
desarraigar os verdadeiros cristãos, Satanás sem em seus galhos.
planta impostores no meio deles. Nesta pará- U m a v e z q u e Jesus n ã o explicou essa
bola, a b o a semente n ã o representa a Palavra parábola, d e v e m o s usar as explicações q u e
d e D e u s , m a s sim pessoas q u e s e conver- o Mestre d e u para outras parábolas a fim de
58 MATEUS 8-9

parábola do semeador representavam Sata- falso no ministério da Palavra de Deus. Des-


nás (Mt 13:19). Passagens como Daniel 4:12 de os primórdios da Igreja, os cristãos verda-
e Ezequiel 17:23 indicam que a árvore é um deiros vêm combatendo as falsas doutrinas
símbolo de poder no mundo. Esses fatos e a hipocrisia. Como é triste ver algumas igre-
sugerem que a parábola ensina um cresci- jas e escolas, outrora fiéis à Palavra, se des-
mento anormal do reino dos céus, uma viarem da verdade! "Julgai todas as coisas,
expansão que Satanás poderá usar em seu retende o que é bom" (1 Ts 5:21).
favor. Sem dúvida, a "cristandade" tornou- O reino dos céus começa com a semea-
se uma potência mundial com uma organi- dura da Palavra de Deus no coração dos
zação complexa e ramificada. Um grupo que homens. A maioria dessas sementes não
começou de forma humilde, hoje é uma ins- produz frutos, mas algumas se desenvolvem
tituição de grande patrimônio e influência e frutificam. Satanás faz frente ao trabalho
política. de Deus semeando cristãos falsos, estimu-
Para alguns, esta parábola refere-se ao lando um crescimento falso e introduzindo
sucesso mundial do evangelho. Tal idéia, po- uma falsa doutrina. Podemos ter a impres-
rém, constitui uma contradição daquilo que são de que Satanás está vencendo, mas no
Jesus ensinou na primeira parábola. Na rea- fim dos tempos tudo será testado.
lidade, o Novo Testamento ensina que, ao
nos aproximarmos do fim dos tempos, a pro- 3. O RESULTADO DO REINO
clamação do evangelho entrará em declínio. ( M T 13:44-50)
A parábola do fermento - doutrinas fal- Ao final desta era, Deus terá três povos: os
sas (v. 33). A semente de mostarda ilustra a judeus (o tesouro escondido), a Igreja (a pé-
falsa expansão exterior do reino, enquanto rola) e as nações gentias salvas, que entra-
o fermento ilustra o desenvolvimento interior rão no reino dos céus (a rede).
das doutrinas falsas e da vida de hipocrisia. A parábola do tesouro escondido (v.
Ao longo de toda a Bíblia, o fermento é usa- 44). De acordo com a interpretação mais
do para simbolizar o mal e deveria ser remo- comum desta parábola, o pecador encontra
vido das casas de Israel durante a Páscoa a Cristo e abre mão de tudo o que possui
(Êx 12:15-19; 13:7). Não fazia parte dos sa- para ficar com o Senhor e ser salvo. No en-
crifícios (Êx 34:25), sendo usado apenas nos tanto, essa interpretação apresenta vários
pães da Festa de Pentecostes (Lv 23:15-21), problemas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo
que simbolizava os judeus e gentios da Igre- não é um tesouro escondido. Antes, é pro-
ja, na qual também está presente o pecado. vavelmente a pessoa mais conhecida da his-
Jesus usou o fermento para representar tória. Em segundo lugar, o pecador não pode
a hipocrisia (Lc 12:1), os falsos ensinamentos "encontrar a Cristo", pois é cego e obstina-
(Mt 16:6-12) e a condescendência com as do (Rm 3:1 Oss). É o Salvador que encontra
coisas do mundo (Mt 22:16-21). Paulo usou o pecador (Lc 19:10), e nenhum pecador
o fermento para falar da carnalidade dentro poderia comprar a salvação! É importante
da igreja (1 Co 5:6-8) e também das falsas observar que o homem da parábola não
doutrinas (Gl 5:9). O pecado é como o fer- comprou o tesouro, mas comprou o campo
mento: cresce sem que ninguém veja, cor- todo. "O campo é o mundo" ( M t 13:38). O
rompe e então "incha" (1 Co 4:18, 19; 5:2; pecador precisa comprar o mundo inteiro
8:1). A meu ver, usar o crescimento promo- para ganhar a Cristo? E depois disso, ele o
vido pelo fermento para representar a ex- esconde novamente?
pansão do evangelho ao redor do mundo Mais uma vez, podemos nos valer do
vai contra o significado intrínseco desse sím- simbolismo do Antigo Testamento para nos
bolo tão importante e também provoca uma ajudar em nossa interpretação. O tesouro é
contradição com outras parábolas. a nação de Israel (Êx 19:5; SI 135:4), que
Satanás tem trabalhado intensivamente foi posta no mundo para glorificar a Deus;
para introduzir doutrinas e um modo de vida mas falhou em sua missão e se tornou uma
MATEUS11-12 59

n a ç ã o escondida, um tesouro não investido Assim, apesar da o p e r a ç ã o ardilosa de


a fim de produzir d i v i d e n d o s para D e u s . Satanás neste m u n d o , Cristo c o n t i n u a for-
Jesus Cristo d e u t u d o o q u e possuía para m a n d o sua Igreja. O S a l v a d o r abriu m ã o
c o m p r a r o m u n d o t o d o e salvar a n a ç ã o ( J o de t u d o o q u e possuía para adquirir sua
11:51). Na cruz, Jesus morreu pelo m u n d o Igreja, e n a d a do q u e Satanás tente fazer
em geral, mas t a m b é m se entregou de m o d o p o d e r á derrotá-lo. A p e s a r de haver várias
e s p e c i a l por Israel (Is 53:8). A n a ç ã o foi igrejas locais, há a p e n a s u m a Igreja, u m a
j u l g a d a e, a p a r e n t e m e n t e , destruída, mas, pérola d e grande valor. N e m t o d o s o s q u e
aos olhos de Deus, está " e s c o n d i d a " e será são m e m b r o s de u m a igreja local perten-
revelada n o v a m e n t e em glória. c e m a o c o r p o d e Cristo. S o m e n t e pelo arre-
Existe, portanto, um futuro para Israel. Em pendimento e pela fé em Cristo tornamo-nos
termos políticos, a nação renasceu em 14 de parte dessa Igreja. Por certo, todos os ver-
maio de 1948, mas ainda está longe, muito dadeiros cristãos d e v e m identificar-se c o m
longe, do que deveria ser em termos espiri- u m a c o n g r e g a ç ã o local o n d e possam ado-
tuais. D e u s vê Israel c o m o seu tesouro e, um rar e servir.
dia, irá estabelecê-la no seu reino glorioso. A parábola da rede (w. 47-50). A prega-
A parábola da pérola (w. 45, 46). U m a ç ã o d o evangelho n o m u n d o n ã o c o n v e r t e
c a n ç ã o evangélica bastante c o n h e c i d a refor- o m u n d o . Antes, é c o m o u m a e n o r m e r e d e
ça a idéia de q u e essa pérola é Jesus Cristo q u e p e g a peixes de t o d o tipo, alguns bons
e sua salvação. No entanto, as mesmas obje- e outros maus. A Igreja professa d o s dias
ç õ e s anteriores aplicam-se a esta parábola. de hoje é constituída tanto de verdadeiros
O p e c a d o r não encontra Cristo; é o Salva- q u a n t o d e falsos cristãos ( a p a r á b o l a d o
dor q u e m o encontra. A i n d a q u e v e n d a tudo joio), d e b o n s c o m o d e m a u s e l e m e n t o s .
o q u e possui, n e n h u m p e c a d o r é c a p a z de No fim dos tempos, D e u s separará os cris-
comprar sua salvação. tãos autênticos dos falsos e os bons dos maus.
A pérola representa a Igreja. A Bíblia faz Q u a n d o Jesus Cristo voltar à Terra para lutar
u m a distinção entre judeus, gentios e a Igreja na batalha do A r m a g e d o m ( A p 19:11 ss), se-
(1 Co 10:32). Hoje, a Igreja - o corpo de Cris- parará os cristãos d o s incrédulos aqui na
to - é constituída de cristãos judeus e gen- Terra. Trata-se de pessoas vivas q u e n ã o fa-
tios (Ef 2:1 Iss). Ao contrário de outras pe- z e m parte da Igreja (a essa altura d o s acon-
dras preciosas, a pérola é u m a unidade - tecimentos, já levadas para o c é u ) n e m de
n ã o p o d e ser lapidada c o m o u m diamante Israel. Esses gentios serão tratados c o m jus-
ou u m a esmeralda. M e s m o estando dividi- tiça: os salvos entrarão no reino, p o r é m os
da aqui na Terra c o m o instituição, a Igreja é n ã o salvos serão l a n ç a d o s na fornalha de
uma unidade (Ef 4:4-6). Assim c o m o a péro- fogo. P o d e m o s encontrar essa m e s m a idéia
la, a Igreja é produto de sofrimento. Cristo na parábola d o s " c a b r i t o s e o v e l h a s " ( M t
morreu pela Igreja (Ef 5:25), e foi seu sofri- 25:31 ss).
m e n t o na cruz q u e possibilitou o nascimen- Em duas ocasiões nesta série de parábo-
to dela. las, Jesus usa a expressão " c o n s u m a ç ã o do
Da m e s m a forma q u e a pérola, a Igreja século" ( M t 13:39, 49). N ã o está se referindo
cresce gradualmente, à medida q u e o Espíri- ao final desta "era da Igreja", pois a v e r d a d e
to c o n v e n c e e converte os pecadores. O pro- a c e r c a da Igreja só foi compartilhada c o m
cesso de f o r m a ç ã o da pérola não é visível, os discípulos posteriormente ( M t 16:18). A
pois ocorre dentro da c o n c h a da ostra, no " e r a " em q u e s t ã o é o t e m p o d o s j u d e u s ,
fundo do mar. O crescimento da Igreja de perto da grande tribulação descrita em Ma-
Cristo no m u n d o t a m b é m não é visível. H o j e , teus 24:1-31 e em A p o c a l i p s e 6 a 19. Deve-
a Igreja está no m e i o das n a ç õ e s (na Bíblia, mos ter c u i d a d o para não encontrar nessas
as águas representam as nações; Dn 7:1-3; passagens d e M a t e u s certas v e r d a d e s q u e
Ap 13:1; 17:15) e, um dia, será revelada em só foram dadas mais adiante, por m e i o do
60 MATEUS 8-9

Quando Jesus completou essa série de escriba deve ser um discípulo, e todo discí-
parábolas, perguntou a seus discípulos se pulo deve ser um escriba.
haviam entendido. Ao que eles responderam: Despenseiros que administram a ver-
"sim", com toda convicção. O entendimen- dade. Os escribas preservavam a lei, mas
to implica responsabilidade, e para ilustrar não a investiam na vida das pessoas. O te-
esse fato e lembrá-los disso, Jesus contou souro da lei havia sido encoberto pelas tra-
uma última parábola (Mt 13:51, 52). dições humanas. A semente não havia sido
Escribas que descobrem a verdade. Os plantada de modo a produzir frutos; não
escribas começaram, sob a liderança de haviam sido investidos "ouro e prata espiri-
Esdras, como um grupo repleto de ideais tuais", a fim de gerarem dividendos. C o m o
elevados. O grande objetivo dos escribas cristãos, devemos ser conservadores, mas
era preservar a lei, estudá-la e aplicar suas não inflexíveis.
verdades à vida diária. C o m o passar do O despenseiro guarda o tesouro, mas
tempo, sua causa tão nobre se degenerou também o emprega conforme a necessida-
e se transformou numa série de tarefas roti- de. Lança mão de coisas novas e velhas.
neiras visando preservar apenas as tradições Novos princípios e insights têm como base
e interpretações humanas, acrescentando, verdades mais antigas. O novo não pode
com isso, mais fardos à vida das pessoas contradizer o velho, pois provém dele (Lv
(Lc 11:46-52). Estavam tão envolvidos com 26:10). Sem o velho, o novo é apenas uma
o passado que ignoravam o presente! Em inovação temporária, e o velho não produz
vez de compartilhar a verdade viva da Pala- nada de bom, a menos que seja usado para
vra de Deus, promoviam doutrinas mortas novas aplicações na vida hoje. Precisamos
e tradições "fossilizadas" incapazes de aju- de ambos.
dar o povo. Quando jesus terminou essas parábolas,
C o m o cristãos, não procuramos a ver- atravessou o mar numa tempestade e liber-
dade, pois já a temos no Filho de Deus (Jo tou os endemoninhados gadarenos, fatos
14:6) e na Palavra de Deus (Jo 17:17). So- que se encontram registrados em Mateus
mos ensinados pelo Espírito da Verdade (Jo 8:28-34. Foi depois disso que Jesus se diri-
16:13) e que é a verdade (1 Jo 5:6). Assim, giu a Nazaré, conforme vemos no relato de
examinamos a verdade a fim de descobrir Mateus 13:53-58.
dentro dela mais outras verdades. Somos O povo de Nazaré maravilhou-se com
escribas - estudiosos - que se assentam aos duas coisas: as palavras do Senhor e suas
pés de Jesus para ouvir suas palavras. Uma obras. No entanto, os nazarenos não cre-
das alegrias da vida cristã é o privilégio de ram no Messias e, desse modo, limitaram
aprender as verdades de Deus por meio da seu ministério. O que levou essas pesspas a
Palavra de Deus. Mas não devemos nos ater duvidar dele? Talvez o fato de estarem fami-
apenas a esse aprendizado. liarizadas demais com Jesus, humanamente
Discípulos que aplicam a verdade. Uma falando, uma vez que o Senhor havia cresci-
tradução mais exata para Mateus 13:52 seria: do no meio delas. Os nazarenos conheciam
"Por isso, todo escriba que se torna discípulo Jesus apenas na carne (ver 2 Co 5:16), mas
no reino dos céus". O escriba enfatiza o não possuíam o discernimento espiritual que
aprendizado, enquanto o discípulo enfatiza Deus concede àqueles que se entregam a
a vivência. Discípulos são praticantes da Pa- ele ( M t 11:25-30). Em vez de andarem pela
lavra (Tg 1:22ss); seu aprendizado dá-se pela fé, viviam pelas aparências.
prática. Mas, se a própria família e os amigos de
É difícil levar uma vida equilibrada. Mui- Jesus não creram nele, que esperança have-
tas vezes, enfoca-se o aprendizado à custa ria de que a nação cresse nele? Em ocasião
da vivência. Ou, talvez, as pessoas ficam tão anterior de seu ministério, Jesus havia pre-
ocupadas servindo ao Senhor que não se- gado em Nazaré (Lc 4:16-31) e havia sido
param tempo para ouvir sua Palavra. Todo rejeitado. Nesta passagem, vemos o Senhor
1 . S E U S INIMIGOS: CAUTELA ( M T 1 4 : 1 - 1 3 )
A família de Herodes aparece com freqüên-
cia nos quatro Evangelhos e no Livro de Atos,
sendo fácil confundir os vários governantes.
O AFASTAMENTO DO REI Herodes, o Grande fundou a dinastia e
governou de 37 a.C. até 4 a.C. Não era ju-
MATEUS 14 deu, mas sim, edomita, um descendente de
Esaú. "Dedicava-se a práticas pagãs e pos-
suía o caráter de um monstro" ( U n g e r ' s
Bible Dictionary). Teve nove esposas (alguns
acreditam que foram dez) e não hesitou em
assassinar os próprios filhos e esposas quan-

C hamei os capítulos 14 a 20 de "O


afastamento do Rei". Durante o perío-
do registrado por Mateus nestes capítulos,
do estes se colocaram em seu caminho. Foi
ele quem mandou assassinar as crianças em
Belém (Mt 2:13-18).
Jesus afastou-se das multidões com freqüên- Herodes Antipas é o Herodes deste capí-
cia e passou mais tempo sozinho com seus tulo e filho de Herodes, o Grande. Recebeu
discípulos (ver Mt 14:13; 15:21, 29; 16:13; o título de "tetrarca", que significa "gover-
17:1-8). nante sobre uma quarta parte do reino".
Havia diversos motivos para ele se re- Governou de 4 a.C. a 39 d.C., um governo
tirar: a hostilidade crescente de seus inimi- marcado pelo egoísmo e a dissimulação.
gos, a necessidade de descanso físico e a Amava a vida de luxo e tinha ambições de
necessidade de preparar seus discípulos se tornar um grande governante.
para a futura morte do seu Mestre na cruz. Herodes Agripa foi o Herodes que man-
Infelizmente, em várias ocasiões, os discí- dou prender Pedro e matar Tiago (At 12).
pulos deixaram-se levar pelo entusiasmo das Era neto de Herodes, o Grande.
multidões que desejavam proclamar Jesus Herodes Agripa II foi o Herodes que jul-
seu Rei (ver Jo 6:15). gou Paulo (At 25:13ss). Era filho de Agripa I.
Contudo, não devemos imaginar que Todos os Herodes tinham sangue edo-
esses retiros, ou fases de afastamento das mita e eram descendentes de Esaú; todos
multidões, fossem períodos de inatividade. trataram os judeus com extrema hostilidade
Muitas vezes, as multidões seguiram Jesus, (Gn 25:19ss). Praticavam a religião judaica
e ele não conseguiu ficar sozinho. Apesar quando lhes era conveniente e quando con-
de sua necessidade pessoal de descanso tribuía para seus planos de obter mais po-
e de solitude, ministrava ao povo com o der e riquezas.
mais absoluto desprendimento. Em Mateus Herodes Antipas era culpado de inces-
14 a 20, podemos ver três grupos de pes- to, pois se casou com Herodias, esposa de
soas: os inimigos de Cristo, as multidões seu meio-irmão Filipe I, divorciou-se da es-
necessitadas e os discípulos. À medida que posa e a mandou de volta para o pai, o rei
a história caminha para seu clímax, temos de Petra (Lv 18:16; 20:21). Herodes deu
a falsa impressão de que os inimigos saí- ouvidos à voz da tentação e se entregou
ram vitoriosos. ao pecado.
No capítulo de encerramento, Mateus M a s Deus enviou outras vozes para
descreve a ascensão do Rei e a comissão advertir Herodes.
de seus discípulos, pela qual são enviados A voz do profeta (vv. 3-5). Com toda
a todo o mundo para compartilhar as boas- ousadia, João Batista advertiu Herodes e
novas com as multidões! pediu que se arrependesse. João sabia que
Neste capítulo, encontramos os mesmos o pecado do governante só serviria para
três grupos e a resposta de Cristo a cada corromper a terra e incentivar o pecado de
um deles. outros, e que Deus julgaria os pecadores
63MATEUS22:15-46

( M l 3:5). É louvável a c o r a g e m de J o ã o ao A voz da história. H e r o d e s deveria ter


expor o p e c a d o e condená-lo. Israel era a imaginado q u e n ã o permaneceria impune.
n a ç ã o da aliança de Deus, e os pecados d o s D e a c o r d o c o m o s registros históricos,
governantes (ainda q u e fossem incrédulos) H e r o d e s perdeu seu prestígio e poder. Seus
trariam sobre o p o v o a disciplina de Deus. exércitos foram derrotados pelos árabes, e
Em lugar de ouvir o servo de D e u s e de seus pedidos (sob pressão da esposa) para
o b e d e c e r à Palavra de Deus, H e r o d e s man- ser c o r o a d o rei foram negados p e l o impe-
d o u prender J o ã o na fortaleza de M a q u e r o , rador Calígula. H e r o d e s foi b a n i d o para a
localizada cerca de sete quilômetros a leste Gália (França) e depois para a Espanha, o n d e
d o mar M o r t o e c e r c a d e u m quilômetro morreu.
a c i m a do nível do mar, no alto de um preci- H e r o d e s é l e m b r a d o c o m o um gover-
pício acessível apenas por um lado. nante fraco, q u e se p r e o c u p a v a apenas c o m
Herodias, a esposa de Herodes, ofendeu- seu prazer e posição. Em v e z de servir ao
s e c o m a a d m o e s t a ç ã o d e J o ã o (ver M c 6:19) povo, buscou somente os próprios interes-
e influenciou o marido. Elaborou um plano ses. S e u único "feito m e m o r á v e l " foi man-
no qual sua filha adolescente faria uma dan- dar executar o maior profeta já e n v i a d o para
ça sensual para H e r o d e s durante sua festa proclamar a Palavra de Deus.
de aniversário. Herodias sabia q u e seu mari- Q u a l foi a reação de Jesus à notícia do
do sucumbiria aos encantos da m o ç a e lhe assassinato de João? Cautela. Retirou-se dis-
faria alguma promessa impulsiva. T a m b é m cretamente para um "lugar deserto". Vivia de
sabia q u e H e r o d e s manteria sua palavra para acordo c o m o "cronograma divino" (ver Jo
n ã o m a n c h a r a r e p u t a ç ã o diante de seus 2:4; 7:6, 30; 8:20; 12:23, 27; 13:1; 17:1) e
amigos e oficiais. O plano funcionou, e J o ã o não desejava provocar deliberadamente
foi executado. n e n h u m incidente c o m Herodes. U m a v e z
A voz da consciência (vv. 1, 2). Quan- que havia agentes de H e r o d e s por toda parte,
do H e r o d e s ficou sabendo dos prodígios q u e Jesus teve de usar de sabedoria e prudência.
Jesus estava operando, teve certeza de q u e S e m d ú v i d a , J e s u s entristeceu-se pro-
era J o ã o q u e havia ressuscitado dos mortos. fundamente q u a n d o soube d a morte d e J o ã o
S u a consciência o i n c o m o d a v a de tal m o d o Batista. Os líderes j u d e u s permitiram q u e
q u e n e m sua e s p o s a , n e m s e u s a m i g o s J o ã o fosse executado, pois n ã o fizeram coi-
c o n s e g u i a m consolá-lo. A v o z da consciên- sa alguma para ajudá-lo. Esses m e s m o s lí-
cia é poderosa e p o d e ser a v o z de D e u s deres pediriam q u e Jesus fosse morto! Jesus
para os q u e lhe derem ouvidos. não permitiria q u e os líderes j u d e u s se es-
Em v e z de atentar para sua consciência, quecessem do testemunho de João ( M t
H e r o d e s resolveu matar Jesus, d a m e s m a 21:23ss). Pelo fato de terem rejeitado o tes-
f o r m a q u e h a v i a feito c o m J o ã o . A l g u n s t e m u n h o d e J o ã o , t a m b é m rejeitaram seu
fariseus ( p r o v a v e l m e n t e p a r t i c i p a n t e s d a próprio Messias e Rei.
conspiração) advertiram Jesus de que
H e r o d e s pretendia matá-lo (Lc 13:31, 32), 2 . A s MULTIDÕES: COMPAIXÃO
m a s Jesus n ã o se p e r t u r b o u c o m o aviso. (MT 14:14-21)
No original, o termo traduzido por "raposa", Jesus e seus discípulos necessitavam enca-
em Lucas 13:32, é usado especificamente recidamente d e descanso ( M c 6:31), mas,
para a fêmea. Estaria Jesus se referindo a He- ainda assim, o c o r a ç ã o do S e n h o r encheu-
rodias, o verdadeiro poder por trás do trono? se de compaixão petas multidões. A palavra
A voz de Jesus (Lc 23:6-11). Q u a n d o fi- traduzida p o r " c o m p a d e c e u - s e " significa,
nalmente Jesus e H e r o d e s se encontram, o literalmente, "condoeu-se por d e n t r o " e é
Filho d e D e u s p e r m a n e c e u calado! H e r o d e s muito mais forte do q u e a p e n a s solidarie-
havia silenciado a v o z de D e u s ! " H o j e , se dade. Trata-se de um termo usado seis v e z e s
ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso nos Evangelhos; em c i n c o dessas ocasiões,
64 MATEUS 8-9

Jesus "compadeceu-se" quando viu a cinco pães e dois peixes) e do pouco di-
necessidade das multidões (Mt 9:36). Eram nheiro que tinham em mãos. Quando con-
como ovelhas tosquiadas sem qualquer cui- sideraram a hora (já estava escurecendo) e
dado: estavam exaustas, feridas e andando o lugar (desolado), chegaram à conclusão
sem rumo. Em duas ocasiões, o Senhor com- de que não poderiam fazer coisa alguma
padeceu-se ao ver multidões famintas (Mt para resolver o problema. Seu conselho para
14:14; 15:32). Os dois homens cegos (Mt o Senhor: "Mande todos embora".
20:34) e o leproso (Mc 1:41) também des- Nada diferente da atitude de muitos do
pertaram a compaixão de Jesus; ele também povo de Deus hoje. Por algum motivo, para
se apiedou do sofrimento da viúva em Naim esses, nunca é a hora nem o lugar apropria-
(Lc 7:13). do para Deus agir. Jesus ficou observando
Jesus empregou esse termo em três de enquanto seus discípulos, frustrados, ten-
suas parábolas. O rei teve compaixão de seu tavam resolver o problema, mas "ele bem
servo falido e perdoou suas dívidas, portan- sabia o que estava para fazer" (Jo 6:6). De-
to, devemos perdoar uns aos outros (Mt sejava que aprendessem uma lição de fé e
18:21-35). O samaritano teve compaixão do de entrega. Com base nesse milagre, é pos-
judeu à beira da estrada e cuidou dele com sível definir alguns princípios para solucio-
amor (Lc 10:25-37). O pai teve compaixão nar problemas.
do filho desobediente e correu para saudá- Começar com o que temos. André en-
lo quando voltou (Lc 15:20). Uma vez que controu um rapaz disposto a dividir seu lan-
nosso Pai celeste tem tamanha compaixão che e o levou até Jesus. Deus parte de onde
para conosco, acaso não devemos também estamos e usa o que temos no momento.
nos compadecer dos outros? Entregar tudo o que temos ao Senhor.
A provisão de alimentos para as cinco Jesus pegou o lanche, o abençoou e repar-
mil pessoas encontra-se registrada nos qua- tiu. O milagre da multiplicação deu-se em
tro Evangelhos (Mt 14:13-21; Mc 6:35-44; suas mãos! "Se Deus está presente, o pou-
Lc 9:12-17; Jo 6:4-13) e foi, sem dúvida al- co transforma-se em muito." Jesus partiu o
guma, um feito miraculoso. Os que ensinam pão e deu os pedaços para os discípulos,
que Jesus apenas incentivou o povo a comer que, por sua vez, alimentaram a multidão.
e a compartilhar os alimentos que haviam Obedecer às ordens de Jesus. Os discí-
escondido desconsideram a declaração pulos pediram que a multidão se assentasse,
inequívoca da Palavra de Deus. João 6:14 conforme Jesus havia ordenado. Em seguida,
afirma, categoricamente, que esse acon- pegaram os pedaços de pão, distribuíram ao
tecimento foi um "sinal" ou "milagre". Que povo e descobriram que havia o suficiente
motivo a multidão teria para desejar pro- para todos. Como servos de Cristo, somos
clamar Jesus seu Rei se ele apenas tivesse "distribuidores", não "produtores". Se lhe en-
usado de algum artifício para levá-los a com- tregarmos o que temos, ele abençoará e nos
partilhar os alimentos que alguns estavam dará de volta, a fim de usarmos para ajudar
escondendo? (Jo 6:14, 15). Provavelmente a outros.
nenhum! Conservar os resultados. Depois de o
Não é preciso muita imaginação para povo ter comido e se fartado, ainda havia
visualizar a situação embaraçosa dos discí- doze cestos cheios de pedaços de pão e
pulos. Diante deles, uma multidão de mais peixe. Os restos foram recolhidos, e nada
de cinco mil pessoas famintas sem coisa al- foi desperdiçado ( M c 6:43; Jo 6:12). Fico
guma para comer! Por certo, os discípulos imaginando os pedaços de pão que o rapaz
sabiam que Jesus era poderoso o suficiente levou para casa consigo e o espanto da mãe
para suprir as necessidades de todos, mas, quando o garoto lhe contou a história!
ainda assim, não buscaram sua ajuda. Em O apóstolo João registra o sermão sobre
vez disso, fizeram um levantamento da o "pão da vida" que Jesus pregou no dia
comida disponível (um jovem havia trazido seguinte na sinagoga em Cafarnaum (Jo
65MATEUS22:15-46

6:22ss). O povo estava disposto a receber o estava prestes a vir, por q u e os m a n d o u de-
p ã o físico, mas não queria saber do P ã o vivo liberadamente para o m e i o dela? Porque os
- o Filho de D e u s q u e veio dos céus. O mi- discípulos estariam mais seguros no m e i o
lagre da multiplicação dos pães foi, na ver- da tempestade e dentro da vontade de D e u s
dade, um sermão prático. Jesus é o p ã o da do q u e em terra c o m as multidões e fora
vida, e somente ele p o d e saciar a fome espi- da vontade divina. N ã o d e v e m o s jamais jul-
ritual do coração humano. Infelizmente, po- gar nossa segurança apenas c o m base nas
rém, desde aquele t e m p o até os dias de hoje, circunstâncias.
o ser humano continua desperdiçando seu Ao ler a Bíblia, descobrimos q u e há dois
t e m p o e dinheiro "naquilo q u e não é p ã o " tipos de tempestades: as q u e v ê m para a
(Is 55:1-7). correção, q u a n d o D e u s nos disciplina, e as
Jesus ainda se c o m p a d e c e das multidões que v ê m para o aperfeiçoamento, q u a n d o
famintas e continua a dizer a sua Igreja: "dai- D e u s nos ajuda a crescer. J o n a s enfrentou
Ihes de c o m e r " . C o m o é fácil mandar as uma tempestade porque havia desobedeci-
pessoas necessitadas e m b o r a . Inventamos do a D e u s e, portanto, deveria ser corrigido.
desculpas e alegamos falta de recursos. Je- Os discípulos enfrentaram uma tempestade
sus p e d e para dar a ele tudo o que temos e p o r q u e haviam o b e d e c i d o a Cristo e pre-
deixá-lo usar c o m o lhe aprouver. O mundo cisavam ser aperfeiçoados. Jesus os havia
faminto alimenta-se de substitutos vazios, testado n u m a t e m p e s t a d e anteriormente,
enquanto o privamos do verdadeiro P ã o da q u a n d o estava no barco c o m eles ( M t 8:23-
vida. Q u a n d o entregamos a Cristo tudo o 27). M a s agora ele os testou permanecendo
q u e temos, nunca saímos perdendo. Sem- fora do barco.
pre a c a b a m o s r e c e b e n d o mais b ê n ç ã o s do Muitos cristãos têm a idéia equivocada
que tínhamos antes. de que, ao o b e d e c e r à v o n t a d e de Deus, só
navegarão por águas tranqüilas. Jesus prome-
3 . O s DISCÍPULOS: CUIDADOS E teu: " N o m u n d o tereis aflições" (Jo 16:33).
P R E O C U P A Ç Õ E S ( M T 14:22-36) Q u a n d o nos encontramos n u m a tempesta-
J o ã o explica a pressa de Jesus em despedir de por causa de nossa o b e d i ê n c i a ao Se-
a multidão e em mandar seus discípulos de nhor, d e v e m o s lembrar q u e ele nos trouxe
volta para o barco: a multidão desejava co- até aqui e cuidará de nós.
roar Jesus c o m o seu Rei (Jo 6:14, 15). O Se- "Ele está orando por nós." Essa c e n a
nhor sabia que os motivos deles não eram retrata, de maneira muito vivida, a Igreja e o
espirituais e q u e essas intenções não esta- Senhor nos dias de hoje. O povo de D e u s
v a m de acordo c o m a vontade de Deus. Se está no mar, em m e i o a uma tempestade, e
os discípulos n ã o houvessem partido, certa- Jesus Cristo está no c é u e " i n t e r c e d e por
m e n t e teriam a p o i a d o os planos da multi- nós" ( R m 8:34). O Mestre estava v e n d o os
dão, pois ainda não entendiam plenamente discípulos e sabia da situação deles ( M c 6:48),
os planos de Cristo. De tempos em tempos, assim c o m o nos vê hoje e sabe de nossas
discutiam sobre " q u e m era o maior dentre necessidades. Ele sente o fardo q u e carrega-
e l e s " e c e r t a m e n t e teriam a p r o v a d o u m a mos e sabe pelo q u e estamos passando ( H b
revolta popular. 4:14-16). Jesus orou por seus discípulos para
A experiência dos discípulos na tempes- que sua fé não falhasse.
tade p o d e ser um estímulo para nós quan- Se soubéssemos q u e Jesus está na sala
do atravessarmos as tempestades da vida. ao lado orando por nós, certamente senti-
M e s m o e m m e i o à s tributações, p o d e m o s ríamos mais coragem para enfrentar a tem-
contar c o m várias certezas. pestade e fazer a v o n t a d e dele. Ele não está
"Ele nos trouxe aqui " A tempestade veio na sala ao lado, mas está no c é u interceden-
porque estavam dentro da vontade de D e u s do por nós, v e n d o todas as nossas necessi-
e não (como Jonas) fora da vontade dele. U m a dades, ciente de todos os nossos medos e
v e z q u e Jesus sabia q u e uma tempestade no controle da situação.
66 MATEUS 8-9

"Ele virá até nós." Muitas vezes, temos corajosa de fé, pois ele ousou ser diferente.
a impressão de que Jesus nos abandonou Qualquer um é capaz de ficar sentado num
justamente no momento mais difícil de nos- barco e observar, mas é preciso uma pes-
sa vida. Em vários salmos, encontramos Davi soa de fé para sair do barco e andar sobre
queixando-se de que Deus parece distante as águas.
e indiferente. Ainda assim, o saimista sabia Pedro afundou porque sua fé vacilou; ele
que, a seu tempo, Deus o resgataria. Até tirou os olhos do Senhor e olhou para as
mesmo o grande apóstolo Paulo viu-se numa circunstâncias a seu redor. "Por que du-
situação tão difícil que "foi acima das nos- vidaste?" (Mt 14:31), perguntou-lhe Jesus.
sas forças, a ponto de desesperarmos até da Nesse caso, o termo duvidar tem o sentido
própria vida" (2 Co 1:8). de "mostrar-se incerto ao ter de escolher
Jesus sempre vem a nosso encontro du- entre dois caminhos". Pedro começou com
rante as tempestades da vida. "Quando pas- fé, mas terminou afundando, pois viu dois
sares pelas águas, eu serei contigo" (Is 43:2). caminhos em vez de um.
Talvez não chegue no momento que dese- Devemos dar crédito a Pedro por perce-
jamos, pois sabe qual é o momento que mais ber que estava afundando e pedir socorro
precisamos dele. O Mestre esperou até o ao Senhor. Clamou quando estava "come-
barco estar o mais distante possível da terra, çando a afundar", não quando já estava se
até não haver mais nenhuma esperança do afogando. É possível que Pedro tenha se re-
ponto de vista humano. A fim de testar a fé cordado desse incidente quando escreveu
dos discípulos, teve de remover qualquer re- em sua primeira epístola: "Porque os olhos
curso humano que os fizesse sentir seguros. do Senhor repousam sobre os justos, e os
Por que Jesus andou sobre as águas? Para seus ouvidos estão abertos às suas súplicas"
mostrar a seus discípulos que a coisa que (1 Pe 3:12).
mais temiam (o mar) era apenas um cami- Foi uma experiência difícil para Pedro,
nho para que se aproximasse deles. Com fre- mas o ajudou a conhecer melhor a si mes-
qüência, tememos as experiências difíceis mo e ao Senhor. As tempestades da vida não
da vida (como uma cirurgia ou a perda de são fáceis, mas são necessárias. Elas nos
alguém querido), mas acabamos descobrin- ensinam a confiar somente em Jesus Cristo
do que elas servem para nos aproximar de e a obedecer à sua Palavra, quaisquer que
Jesus Cristo. sejam as circunstâncias. Alguém disse bem:
Por que os discípulos não reconheceram "Fé não é crer apesar das evidências, mas
Jesus? Porque não estavam procurando por sim obedecer apesar das conseqüências".
ele. Se estivessem esperando com fé, teriam ME!e nos ajudará até o fim." Se Jesus

reconhecido seu Mestre de imediato. Em vez diz "Vem", essa palavra cumprirá o propósi-
disso, concluíram que era um fantasma. O to segundo o qual foi proferida. Uma vez
medo e a fé não podem conviver no mes- que ele é o "autor e consumador da nossa
mo coração, pois o medo sempre nos impe- fé" (Hb 12:2), completará toda obra que
de de ver a presença de Deus. começar em nós. Podemos falhar ao longo
"Ele nos ajudará a crescer." Esse era o do caminho, mas, no final, Deus será bem-
propósito da tempestade: ajudar os discípu- sucedido. Jesus e Pedro andaram sobre as
los a crescer em sua fé. Um dia, Jesus teria águas juntos e entraram no barco.
de deixá-los, e eles enfrentariam muitas tem- A experiência de Pedro foi uma bênção
pestades em seus ministérios. Tinham de não apenas para ele próprio, mas também
aprender a confiar no Senhor, mesmo que para os demais discípulos. Ao verem o po-
não estivesse presente e que parecesse não der de Jesus Cristo dominando e acalman-
se importar. do a tempestade, não lhes restou outra coi-
Devemos agora voltar nossa atenção para sa a fazer senão se prostrar diante dele e
Pedro. Antes de criticá-lo por afundar, deve- adorá-lo. Depois que Jesus acalmou a primei-
mos lhe dar crédito por sua demonstração ra tempestade (Mt 8:23-27), os discípulos
MATEUS 14 67

disseram; "Quem é este que até os ventos e usa uma palavra grega que significa "a ordem
o mar lhe obedecem?" Mas aqui seu teste- de um rei", Pedro sabia que Jesus Cristo era
munho foi: "Verdadeiramente és Filho de Rei sobre toda a natureza, inclusive do ven-
Deus!" to e das águas, A palavra de Jesus é lei, e os
Os discípulos haviam ajudado a alimen- elementos devem obedecer,
tar cinco mil pessoas, Mais tarde, Deus per- O barco chegou a Genesaré, perto de
mitiu que enfrentassem uma tempestade, Cafarnaum e Betsaida, e ali Jesus curou mui-
No Livro de Atos, logo depois que os dis- tas pessoas, Será que as pessoas sabiam que
cípulos ganharam cinco mil pessoas para havia enfrentado uma tempestade para che-
Cristo (At 4:4), teve início a tempestade da gar até elas e suprir suas necessidades! Será
perseguição, Por certo, Pedro e os discípu- que é nos lembramos de que Jesus enfren-
los lembraram-se da experiência que tive- tou uma tempestade de juízo para salvar
ram com o Senhor e encontraram coragem nossa alma (SI 42:7) e para que jamais pre-
para prosseguir, cisássemos enfrentar o juízo de Deus? De-
Esse milagre engrandece a realeza de Je- vemos imitar os discípulos, prostrando-nos
sus Cristo, De fato, quando Mateus relata o aos pés de Jesus e reconhecendo que ele é
pedido de Pedro, "manda-me ir ter contigo", o Rei dos reis e Senhor dos senhores!
que (de acordo com os rabinos) Moisés ha-
via dado aos anciãos, e estes transmitiram à
nação. Por fim, a lei oral foi escrita e se for-
mou a Mishná, que, infelizmente, se tornou
As PREOCUPAÇÕES mais importante e peremptória do que a lei
de Moisés.
DO REI
A resposta de Jesus a essa acusação co-
meça com outra acusação (Mt 15:3). Eram
MATEUS 15
e/es que estavam quebrando a Lei de Deus
ao praticar suas tradições! Jesus prossegue
com uma ilustração (Mt 15:4-6), a prática
do "Corbã" (ver Mc 7:11), palavra hebraica

C omo no capítulo anterior, vemos Jesus


em conflito com seus inimigos (Mt 15:1-
11), ensinando seus discípulos (Mt 15:12-20)
que significa "um presente". Se um judeu
queria fugir de alguma responsabilidade fi-
nanceira, declarava que seus bens eram
e ministrando às multidões necessitadas (Mt "Corbã - um presente para Deus". Com isso,
15:21-31). Esse é o padrão durante o perío- se livrava de outras obrigações como, por
do em que se mantinha afastado. exemplo, cuidar dos pais idosos. Mas ao usar
As grandes preocupações de Cristo são desse artifício, a pessoa perdia o poder da
a verdade e o amor. Ensinava a verdade aos Palavra de Deus em sua vida, desse modo
líderes judeus, revelando a hipocrisia deles, prejudicando seu caráter e perdendo as bên-
e mostrava às multidões gentias o amor su- çãos de Deus.
prindo suas necessidades. O estudo dessas Jesus conclui sua resposta com uma apli-
duas preocupações permitirá entender a cação (Mt 15:7-11), citando Isaías 29:13, e
mensagem deste capítulo. deixando bem claro que a obediência às
tradições levava as pessoas a desobedecer
1. VERDADE: ELE REJEITOU AS TRADIÇÕES à Palavra de Deus, provando dessa forma
JUDAICAS ( M T 1 5 : 1 - 2 0 ) que a tradição era falsa. Êxodo 20:12 ensi-
Este acontecimento dramático envolveu três na que é necessário "honrar" pai e mãe. Mas
pedidos e três respostas. a regra do "Corbã" fazia a pessoa desonrar
Os escribas e fariseus (vv. 1-11). O fato seus pais e, ao mesmo tempo, desobede-
de escribas e fariseus se unirem neste ata- cer a Deus.
que e virem de Jerusalém para falar com Je- A tradição é exterior, enquanto a verda-
sus mostra a seriedade do propósito deles. É de de Deus é interior, do coração. Há quem
provável que essa comissão representasse os obedeça às tradições para obter status e a
líderes do Sinédrio em Jerusalém. aprovação dos homens (Gl 1:14), mas nós
As acusações sobre "lavar as mãos" não obedecemos à Palavra para agradar a Deus.
tinham qualquer relação com a higiene. Re- Tradições referem-se a rituais, enquanto a
feriam-se às lavagens cerimoniais praticadas verdade de Deus refere-se à realidade. Tra-
pelos judeus mais ortodoxos (ver Mc 7:1-4). dições colocam nos lábios palavras vazias,
Como se não bastasse Jesus e seus discípu- enquanto a verdade penetra o coração e
los se misturarem aos rejeitados, nem sequer transforma a vida. Na verdade, a tradição priva
procuravam purificar-se! É evidente que, ao as pessoas do poder da Palavra de Deus.
fazer essa acusação, obrigavam Jesus a tra- Infelizmente, há muitas "tradições evan-
tar dos fundamentos da fé religiosa. Se Jesus gélicas" nas igrejas de hoje, ensinamentos
rejeitasse as tradições sagradas do povo, se- humanos considerados tão investidos de
ria passível de julgamento! autoridade quanto a Palavra de Deus - ain-
Qual era a origem dessas tradições? Fo- da que constituam contradições da Palavra.
ram transmitidas pelos mestres de gerações Ao obedecer a essas tradições, os cristãos
passadas. A princípio, constituíam a "lei oral" privam-se do poder da Palavra de Deus.
MATEUS 1 5 69

D e u s quer q u e lhe entreguemos nosso a pessoa. Claro q u e as ações t a m b é m estão


coração, não apenas louvores da boca para incluídas nas palavras, pois, c o m freqüência,
fora. É de coração que devemos crer ( R m 10:9, os gestos falam mais alto do q u e as palavras.
10), amar ( M t 22:37), cantar (Cl 3:16), obede- O S e n h o r t e v e d e r e p e t i r essa l i ç ã o
cer ( R m 6:1 7; Ef 6:6) e ofertar (2 Co 9:7). N ã o sobre alimentos para P e d r o alguns anos de-
é de admirar q u e Davi orou: "Cria em mim, ó pois, p o u c o antes de chamá-lo para pregar
Deus, um coração puro" (SI 51:10). a o s gentios (At 10). Paulo trata dessa ques-
N u m a declaração ousada, Jesus ensinou tão em 1 T i m ó t e o 4:3-6 e em R o m a n o s 14
às multidões q u e o p e c a d o p r o v é m do cora- e 15.
ção, n ã o da alimentação. O q u e c o r r o m p e
é aquilo q u e sai da boca, não o q u e entra. 2. C O M P A I X Ã O : ELE SUPRIU AS
Os discípulos (vv. 12-14). Os discípulos NECESSIDADES D O S G E N T I O S
estavam pasmos c o m aquilo q u e Jesus esta- (MT 15:21-39)
va ensinando acerca dos alimentos. Afinal, Jesus não apenas ensinou q u e toda c o m i d a
t a m b é m haviam recebido a e d u c a ç ã o tradi- era pura, mas praticou esse ensinamento ao
cional para ser judeus zelosos (ver o teste- visitar regiões gentias. D e i x o u Israel e se re-
m u n h o de Pedro em At 10:14) e sabiam a tirou novamente, dessa v e z para a região de
diferença entre alimentos "limpos" e "imun- Tiro e Sidom. Para os judeus, os gentios eram
dos" (Lv 11). considerados tão " i m u n d o s " que, por vezes,
A l é m disso, estavam apreensivos, porque e r a m c h a m a d o s d e " c ã e s " . M e s m o consi-
esse ensinamento havia ofendido os fariseus d e r a n d o q u e seu ministério aqui na Terra
e, por certo, criaria uma série de problemas. tenha se concentrado no povo de Israel ( M t
M a s Jesus não estava p r e o c u p a d o c o m o s 10:5, 6), não causa espanto ver Jesus minis-
fariseus. N e m eles n e m seus ensinamentos trando aos gentios ( M t 12:17-21).
haviam sido plantados por D e u s e, portanto, A endemoninhada (vv. 21-28). Jesus ten-
não durariam. Embora ainda existam grupos tava p e r m a n e c e r escondido ( M c 7:24), mas,
isolados q u e buscam manter as tradições, em de algum m o d o , essa mulher cananéia des-
sua maior parte o farisaísmo desapareceu. cobriu o n d e ele estava e foi pedir sua ajuda.
Porém, o espírito do farisaísmo (tradições, D e v e m o s lembrar q u e a forma de Jesus tratar
legalismo, hipocrisia, aparências) continua pre- essa mulher não tinha por objetivo destruir
sente e constitui aquilo cjue Jesus c h a m o u sua fé, mas sim a fortalecer. Suas respostas
de "fermento dos fariseus" ( M t 16:6). mostraram q u e ela crescia na fé e não esta-
Jesus t a m b é m afirmou q u e os fariseus va disposta a deixar Jesus partir s e m u m a
estavam cegos e só eram capazes de con- definição. S a m u e l Rutherford expressou esse
duzir seus seguidores para o barranco. Em princípio perfeitamente: " C a b e à fé extrair e
M a t e u s 23:16, ele os c h a m a de "guias ce- se apropriar da b o n d a d e presente até mes-
gos" - u m a descrição bastante vivida. Por mo nos golpes mais duros de D e u s " .
q u e ter m e d o de plantas sem raízes q u e es- A o abordar Jesus c o m o "Filho d e Davi",
tão m o r r e n d o o u d e guias cegos q u e n ã o essa mulher agia segundo os costumes ju-
v ê e m para o n d e estão indo? daicos, o q u e n ã o poderia fazer, uma v e z
Pedro (vv. 15-20). Pedro não se d e u por q u e era gentia. S e m dúvida, o uso dessa
satisfeito e n q u a n t o Jesus não lhe explicou designação revelou sua fé em Jesus c o m o o
n o v a m e n t e , c o m toda a paciência, a lição Messias de Deus, pois esse era um d o s títu-
q u e havia ensinado a c e r c a d o s alimentos. los do Messias ( M t 22:42). Assim, Jesus per-
Para nós, o sentido parece óbvio, mas para m a n e c e u calado. Claro q u e ele c o n h e c i a o
um j u d e u ortodoxo era uma novidade extra- c o r a ç ã o dela, até m e s m o o silêncio foi um
ordinária. Tudo o q u e entra pela b o c a passa incentivo para q u e ela prosseguisse.
pelo estômago e é expelido. A c o m i d a nunca I m p a c i e n t e s c o m sua persistência e m
toca o coração. M a s o q u e sai da b o c a co- segui-los e gritar, os discípulos disseram:
70 MATEUS 22:1 5-46

se com isso estavam dizendo: "atenda ao os rabinos judeus não davam atenção às
seu pedido e depois a despeça" ou simples- mulheres. Ao que parece, até os discípulos
mente "livre-se dela". Em todo o caso, não estavam contra eia, e mesmo as palavras de
estavam demonstrando compaixão pela Cristo dão uma impressão desfavorável. To-
mulher nem por sua filha endemoninhada. dos esses obstáculos serviram apenas para
A resposta de Jesus em Mateus 15:24 indi- levá-la a persistir.
ca que, provavelmente, eles queriam que Os enfermos e aleijados (vv. 29-31). Je-
Jesus atendesse ao pedido da mulher. sus deixou Tiro e Sidom e se dirigiu à região
Não podemos deixar de admirar a per- de Decápolis - dez cidades predominan-
sistência e paciência dessa mulher gentia. temente gentias que constituíam uma confe-
"Senhor, socorre-me!", foi sua próxima sú- deração com autorização dos romanos para
plica, e dessa vez, evitou usar qualquer títu- cunhar suas próprias moedas, presidir os
lo messiânico. Ela se aproximou como uma próprios tribunais e até mesmo comandar o
pecadora necessitando de ajuda e não ofe- próprio exército.
receu nenhum argumento. Em sua resposta, Jesus curou um homem surdo e mudo
Jesus não a trata com desprezo, como seria ( M c 7:31-37). Desobedecendo ao que Je-
o costume dos fariseus ao chamarem os sus lhe havia ordenado, o homem e seus
gentios de "cães"; antes, o termo que usa amigos relataram a todos o que Jesus havia
no original se refere a um "cachorrinho de feito. Ao que parece, a notícia espalhou-se
estimação", não aos vira-latas que corriam e uma grande multidão se reuniu - inclusive
pelas ruas e reviravam o lixo. Os "filhos" são, aleijados, cegos e coxos. Jesus curou a to-
evidentemente, o povo de Israel. dos e os gentios "glorificavam ao Deus de
Jesus não estava fazendo um jogo nem Israel" (Mt 15:31).
tentando dificultar a situação da mulher. Es- É impressionante ver o contraste entre
tava extraindo dela uma resposta de fé cada os gentios e os líderes judeus que conhe-
vez maior. Mais que depressa, ela se apro- ciam as Escrituras do Antigo Testamento. Os
priou da ilustração dele sobre o pão das gentios glorificaram ao Deus de Israel, mas
crianças - exatamente como Jesus queria que os líderes judeus disseram que Jesus estava
ela fizesse. Podemos parafrasear a resposta operando em conjunto com Satanás (Mt
dela da seguinte maneira: "É verdade que 12:22-24). Os milagres de Jesus não levaram
os gentios não se assentam à mesa como as cidades de Israel ao arrependimento (Mt
filhos nem comem o pão. Mas até mesmo 11:20ss), mas os gentios creram nele. Os
os cachorrinhos de estimação sob a mesa milagres de Jesus deveriam ter convencido
conseguem comer algumas migalhas!" Q u e os judeus de que ele era o Messias (Is 29:18,
testemunho extraordinário de fé! 19; 35:4-6; Mt 11:1-6). Ele se admirou com
Jesus reconheceu essa fé e, no mesmo a fé do soldado gentio e da mulher cananéia,
instante, curou a filha da mulher. É interes- e também se espantou com a incredulidade
sante observar que as duas pessoas de mais do seu próprio povo (Mc 6:6).
fé que aparecem no Evangelho de Mateus Fome (vv. 32-39). Alguns críticos acusam
eram gentias: essa cananéia e o centurião os escritores do Evangelho de falsificar
romano (Mt 8:5-13). Nos dois casos, Jesus deliberadamente os registros de modo a
curou â distância. Em termos espirituais, os provar que Jesus realizou mais milagres.
gentios estavam "distantes"; isso mudou no Afirmam que o relato da alimentação das
Calvário, quando Jesus Cristo morreu tanto quatro mil pessoas é apenas uma adapta-
pelos judeus quanto pelos gentios e possibi- ção do milagre anterior, quando Jesus ali-
litou a reconciliação (Ef 2:11ss). mentou cinco mil pessoas. No entanto, uma
A fé dessa mulher era grande, pois per- investigação cuidadosa dos registros mostra
sistiu quando tudo parecia estar contra ela. que tal acusação é falsa e que os críticos
Sua etnicidade era desfavorável, pois era estão errados. O quadro abaixo mostra as
gentia, e até seu sexo era desfavorável, pois diferenças entre os dois acontecimentos:
MATEUS 1 5 71

Alimentação dos Alimentação dos A palavra t r a d u z i d a p o r " c e s t o s " e m


cinco mil quatro mil M a t e u s 15:37 refere-se a cestos grandes,
Principalmente judeus Principalmente gentios c o m o aquele usado para descer Paulo pela
Galiléia, perto de Decápolis muralha de D a m a s c o (At 9:25). A palavra
Betsaida "cesto", em M a t e u s 14:20, representa o ces-
5 pães e 2 peixes 7 pães e alguns peixes to comum, de tamanho pequeno, que as
12 cestos de restos 7 cestos de restos pessoas usavam para transportar c o m i d a ou
A multidão passou A multidão passou três outras coisas menores. O uso de duas pala-
um dia c o m Jesus dias com Jesus vras diferentes no original t a m b é m compro-
Primavera (relva) Verão va q u e se tratam de dois milagres distintos.
Tentaram aclamá-lo N ã o houve qualquer A o contrário d o q u e fez e m Cafarnaum,
Rei reação popular depois de alimentar os c i n c o mil judeus, Je-
sus não pregou um sermão sobre o " p ã o da
D e p o i s de passar três dias c o m o Mestre, os v i d a " para essa m u l t i d ã o ( J o 6:22ss). O s
quatro mil ouvintes já haviam esgotado o gentios não c o n h e c i a m o m a n á do Antigo
suprimento de c o m i d a q u e tinham trazido Testamento, e a idéia de " p ã o da v i d a " lhes
de casa. A c o m p a i x ã o de nosso Senhor não seria estranha. Jesus sempre a d e q u o u seus
lhe permitiria mandar toda essa gente em- sermões às necessidades e c o n h e c i m e n t o s
bora c o m fome, pois p o d e r i a m desfalecer das pessoas a q u e m estava ministrando.
pelo caminho. O primeiro motivo para esse Antes de encerrar nosso estudo de
milagre foi simplesmente o suprimento da M a t e u s 15, c o n v é m rever algumas de suas
necessidade humana. O p o v o já havia visto lições espirituais.
outros milagres de Jesus e glorificado a Deus, (1) Os inimigos da verdade normalmen-
de m o d o q u e esse milagre não tinha c o m o te são pessoas religiosas v i v e n d o de a c o r d o
propósito servir de base para um sermão ou c o m a s tradições humanas. C o m freqüên-
corroborar o ministério de Cristo. cia, Satanás usa a "religião" a fim de cegar a
No entanto, tinha um propósito especial m e n t e dos pecadores para as verdades sim-
para seus discípulos. É impressionante ver q u e ples da Palavra de Deus.
eles já haviam esquecido o milagre anterior (2) D e v e m o s tomar c u i d a d o c o m qual-
da alimentação dos cinco mil (ler c o m aten- quer sistema religioso q u e apresente justifi-
ç ã o M t 16:6-12). O s d o z e estavam perplexos cativas para o p e c a d o e q u e d e s o b e d e ç a à
quando, na verdade, deveriam estar dizen- Palavra de Deus.
do, "Jesus é c a p a z de multiplicar pães e pei- (3) D e v e m o s , t a m b é m , ter c u i d a d o c o m
xes, então não precisamos nos preocupar!" a a d o r a ç ã o proveniente apenas d o s lábios,
É possível q u e tivessem pensado q u e Jesus não d o coração.
não realizaria esse tipo de milagre em territó- (4) Se nos concentrarmos no ser interior,
rio gentio. O u , q u e m sabe, imaginaram q u e o h o m e m exterior se transformará naquilo
o fato de a multidão anterior ter t e n t a d o q u e D e u s deseja. A v e r d a d e i r a santidade
proclamá-lo Rei talvez tivesse levado Jesus a p r o v é m do interior.
pensar duas vezes antes de repetir o milagre. (5) É difícil nos libertarmos das tradições.
C o m o na alimentação dos cinco mil, esse H á algo e m nós q u e nos prende a o passado
milagre t a m b é m ocorreu nas mãos do Senhor. e q u e resiste a mudanças. A t é m e s m o Pedro
Os pães se multiplicaram, enquanto Jesus os teve de aprender a m e s m a lição duas vezes.
repartia e entregava aos discípulos. Todos (6) N ã o d e v e m o s limitar Cristo a qual-
c o m e r a m e se fartaram. Mais uma vez, Jesus quer povo ou nação. O evangelho foi pro-
ordenou q u e os restos fossem recolhidos para clamado primeiramente aos judeus ( R m
q u e nada fosse desperdiçado. A capacidade 1:16), mas hoje é para todos os h o m e n s e
de realizar milagres não dá autoridade para todas as nações. " T o d o aquele q u e invocar
Milagres apenas servem de confirmação
onde há fé, mas não onde há incredulidade
deliberada.
Por que Jesus falou sobre o tempo? Para
A SURPRESA DO REI revelar a seus inimigos a desonestidade e a
cegueira obstinada deles. Eram capazes de
MATEUS 16 examinar as evidências na criação de Deus
e de tirar conclusões válidas, mas recusavam
as evidências que Jesus havia lhes apre-
sentado. Os seus inimigos não queriam
acreditar e, assim, não poderiam acreditar
(Jo 12:37ss). O que faltava aos fariseus e

O s a c o n t e c i m e n t o s registrados em
Mateus 16 constituem um ponto críti-
co no ministério de Jesus. Ele menciona a
saduceus não eram provas, mas sim hones-
tidade e humildade.
A exigência de um sinal revelou a triste
Igreja pela primeira vez ( M t 16:18) e fala condição de seus corações: eram maus e
abertamente de sua morte na cruz ( M t adúlteros. Jesus não os acusa de adultério
16:21). Começa a preparar seus discípulos físico, mas de adultério espiritual (Is 57; Tg
para sua prisão, crucificação e ressurreição. 4:4). Estavam adorando o falso deus que eles
Porém, como veremos, os discípulos demo- próprios haviam criado, e isso era adultério
ram a aprender as lições. espiritual. Se estivessem adorando o Deus
A fé é o tema em comum em todos os verdadeiro, teriam reconhecido seu Filho
acontecimentos deste capítulo. Neles, vemos quando ele veio.
quatro níveis diferentes de fé e como eles Jesus havia mencionado o sinal de Jonas
se relacionam com Cristo. anteriormente (ver Mt 12:38-45). Era um si-
nal de morte, sepultamento e ressurreição.
1. N E N H U M A FÉ - C R I S T O É POSTO À A crucificação, sepultamento e ressurreição
PROVA ( M T 1 6 : 1 - 4 ) de Cristo foram, de fato, um sinal para Is-
O desejo de calar Jesus havia levado dois rael de que ele era o Messias. Foi sobre
partidos religiosos opostos a se unir num esse sinal que Pedro pregou em Pentecos-
esforço conjunto. Esperavam por Jesus quan- tes (At 2:22ss).
do voltou para a Galiléia. Os fariseus eram, De acordo com Mateus 16:4, o Senhor
evidentemente, os tradicionalistas de seu partiu pela terceira vez da Galiléia. Já havia
tempo; os saduceus, por sua vez, eram bas- deixado essa região para evitar Herodes (Mt
tante liberais (ver At 23:6-10). O que esses 14:13) e os fariseus (Mt 15:21). Sua partida
os dois grupos de líderes queriam de Jesus? foi, sem dúvida alguma, um ato de julgamen-
"Mostre-nos um sinal do céu e então acredi- to contra os incrédulos.
taremos que você é o Cristo."
A palavra traduzida por sinal significa 2. U M A FÉ PÉQUENA - C R I S T O É MAL
muito mais do que um simples milagre ou COMPREENDIDO ( M T 1 6 : 5 - 1 2 )
d e m o n s t r a ç ã o d e poder. Significa " u m Os discípulos tinham com eles apenas um
prodígio por meio da qual alguém pode pão ( M c 8:14). O texto não diz o que foi
reconhecer uma pessoa ou confirmar sua feito dos vários cestos de sobras da alimen-
identidade". tação dos quatro mil ocorrida pouco antes
Era a quarta vez que os líderes religiosos dessa ocasião. É possível que os discípulos
pediam um sinal ( M t 12:38ss; Jo 2:12; 6:30), tenham distribuído o que sobrara do mila-
e ainda repetiriam seu pedido (Lc 11:14ss). gre. Jesus usa esse acontecimento um tanto
M a s milagres não convencem as pessoas do embaraçoso para ensinar uma lição espiri-
pecado nem criam um desejo de salvação tual importante: c u i d a d o c o m os falsos
(Lc 16:27-31; Jo 12:10, 11; At 14:8-20). ensinamentos de fariseus e saduceus.
73MATEUS8-9

Os discípulos n ã o e n t e n d e r a m e pen- 3 . U M A F É SALVADORA - C R I S T O


saram q u e Jesus estava falando literalmente OUVE A CONFISSÃO DOS DISCÍPULOS
sobre o fermento do pão. N ã o foram pou- (MT 16:13-20)
cas as vezes, ao longo do ministério de Jesus, Jesus levou seus discípulos para território
q u e as pessoas interpretaram equivoca- gentio, na região de Cesaréia de Filipe. Es-
d a m e n t e suas palavras, entendendo-as de tavam na região norte da Palestina, a c e r c a
f o r m a literal e n ã o espiritual. N i c o d e m o s de 190 quilômetros de Jerusalém. Era u m a
p e n s o u q u e Jesus estava falando sobre um região sob forte influência de v á r i a s reli-
n a s c i m e n t o físico ( J o 3:4), e a mulher sa- giões: havia sido o centro do culto a Baal;
maritana pensou q u e estava se referindo à possuía templos do d e u s grego Pan; e Hero-
água do p o ç o ( J o 4:11). A multidão na si- des, o G r a n d e , havia construído ali um tem-
nagoga a c h o u q u e Jesus estava falando de plo em h o m e n a g e m a C é s a r Augusto. É em
c o m e r c a r n e e b e b e r sangue de v e r d a d e m e i o a essas superstições pagãs q u e P e d r o
( J o 6:52ss), q u a n d o , na realidade, o M e s t r e confessa q u e J e s u s é o Filho de D e u s . É
d e s c r e v i a u m a e x p e r i ê n c i a espiritual ( J o b e m possível q u e estivessem nas cercanias
6:63). do templo de César, q u a n d o Jesus fez u m a
C o n f o r m e observamos em nosso estudo d e c l a r a ç ã o s u r p r e e n d e n t e : ainda n ã o era
de M a t e u s 13, o fermento era um símbolo t e m p o de estabelecer seu reino, m a s esta-
do mal para os judeus. Tanto fariseus quanto va prestes a instituir sua Igreja.
saduceus haviam contaminado as convicções Q u a l q u e r outra pessoa q u e perguntas-
religiosas de Israel c o m falsas doutrinas. Os se: " Q u e m o s h o m e n s p e n s a m q u e e u s o u ? "
fariseus eram legalistas q u e ensinavam que seria considerada louca o u arrogante. N o
s o m e n t e a o b e d i ê n c i a à lei e às tradições caso de Jesus, porém, é fundamental para
poderia agradar a D e u s e estabelecer seu a salvação confessar o q u e c r e m o s a res-
reino em Israel. Os saduceus eram liberais peito dele ( R m 10:9, 10; 1 Jo 2:18-23; 4:1-
em seu m o d o de pensar e negavam q u e o 3). Sua pessoa e sua obra a n d a m juntas e
reino s e q u e r seria e s t a b e l e c i d o na Terra. n u n c a d e v e m ser separadas. É e s p a n t o s o
N e g a v a m até a v e r d a d e da ressurreição e a v e r q u a n t o o p o v o estava c o n f u s o s o b r e
existência d o s anjos. Jesus ( J o 10:19-21). Talvez, c o m o H e r o d e s ,
O q u e l e v o u os discípulos a l e m b r a r os j u d e u s pensassem q u e Jesus era J o ã o ,
q u e não tinham pão q u a n d o Jesus falou q u e havia ressuscitado dos mortos.
do fermento? É possível q u e estivessem pla- H a v i a sido profetizado q u e Elias volta-
n e j a n d o c o m p r a r algum p ã o n o o u t r o lado ria ( M l 4:5), e alguns pensaram q u e tal pro-
do mar, e p e n s a r a m q u e Jesus estava ad- fecia foi cumprida e m Cristo. N o entanto,
vertindo para que não comprassem p ã o Jesus não ministrou c o m o Elias; antes, foi
impuro, d o tipo q u e o s j u d e u s não pode- J o ã o Batista q u e m v e i o " n o espírito e po-
riam c o m e r . Se tivessem se r e c o r d a d o da der de Elias" (Lc 1:13-17). J e r e m i a s foi o
m a n e i r a c o m o Jesus havia multiplicado os profeta chorão, cujo c o r a ç ã o terno quebran-
pães em duas ocasiões, certamente não tou-se diante da c o r r u p ç ã o de seu p o v o .
teriam se p r e o c u p a d o . A " p e q u e n a f é " os S e m dúvida, p o d e m o s observar essa mes-
i m p e d i u de e n t e n d e r essa lição e de de- ma atitude em Jesus, o H o m e m de dores.
p e n d e r do p o d e r de Jesus para suprir suas U m a coisa é certa: não é possível posi-
necessidades. cionar-se em relação a Jesus Cristo f a z e n d o
Em mais de u m a ocasião, Jesus c h a m o u u m a pesquisa de o p i n i ã o pública (apesar
seus discípulos d e " h o m e n s d e p e q u e n a f é " de alguns usarem esse m é t o d o para obter
( M t 6:30; 8:26; 14:31). Por certo, ter uma " c o n h e c i m e n t o espiritual"!). A coisa mais
" p e q u e n a f é " é melhor do q u e n ã o ter fé importante não é o q u e os outros dizem, mas
alguma. A n t e s de receber seu diploma de sim o q u e eu digo segundo aquilo q u e creio.
" g r a n d e fé", os discípulos ainda precisavam As decisões da multidão (certas ou erradas)
74 MATEUS 8-9

Pedro respondeu corretamente: "Tu és Examinemos mais detalhadamente a pa-


o Cristo [o Messias], o Filho do Deus vivo". lavra grega que o Espírito Santo inspirou
Essa confissão foi a resposta de Pedro à re- Mateus a usar. "Tu és Pedro [petros - uma
velação que havia recebido de Deus Pai, uma pedra], e sobre esta pedra [petra - uma gran-
experiência que o próprio Jesus explica em de rocha] edificarei a minha igreja". Jesus
Mateus 11:25-27. Pedro não buscou ativa- havia dado a Simão o nome de Pedro (Jo
mente essa revelação; antes, ela lhe foi con- 1:42), que significa "pedra". O termo ara-
cedida pela graça. Deus havia escondido maico é Cefas, que também significa "pe-
essas coisas dos fariseus e saduceus orgu- dra". Todos os que crêem em Jesus Cristo e
lhosos, mas as revelou a seus "pequeninos", que o confessam como Filho de Deus e Sal-
seus humildes discípulos. vador são "pedras que vivem" (1 Pe 2:5).
Devemos observar que essa não foi a Jesus Cristo é a pedra fundamental so-
primeira confissão de fé. Natanael havia bre a qual a Igreja é edificada, conforme de-
confessado que Cristo era o Filho de Deus clararam os profetas do Antigo Testamento
(Jo 1:49), e os discípulos também haviam (SI 118:22; Is 28:16), o próprio Jesus ( M t
declarado que ele era o Filho de Deus de- 21:42), Pedro e os outros apóstolos (At 4:10-
pois que acalmou a tempestade (Mt 14:33). 12). Paulo também afirma que a fundação
Pedro havia feito uma confissão de fé, da Igreja é jesus Cristo (1 Co 3:11). Essa fun-
quando as multidões deixaram Jesus de- dação foi assentada pelos apóstolos e pro-
pois do sermão sobre o "pão da vida" (Jo fetas ao pregarem o evangelho de Cristo aos
6:68, 69). Q u a n d o André apresentou seu perdidos (1 Co 2:1, 2; 3:11; Ef 2:20).
irmão Simão a Jesus, ele o fez com base na Em outras palavras, ao examinar as evi-
convicção de que Jesus era o Messias (Jo dências, vê-se que, segundo todos os ensina-
1:41). mentos das Escrituras, a Igreja, o templo de
Em que sentido, então, essa confissão foi Deus (Ef 2:19-22), é edificada sobre Jesus
diferente das anteriores? Em primeiro lugar, Cristo, não sobre Pedro. Como Deus pode-
Jesus pediu explicitamente essa confissão. ria edificar sua Igreja sobre um homem falí-
Não foi uma reação emocional de pessoas vel como Pedro? Posteriormente, o mesmo
que testemunharam algum milagre, mas uma Pedro que confessou a Cristo também se
afirmação refletida e sincera de um homem tornou um adversário e permitiu que pensa-
instruído por Deus. mentos de Satanás entrassem em sua men-
Em segundo lugar, Jesus aceitou essa con- te (Mt 16:22ss). "Mas isso foi antes de Pedro
fissão e a usou para apresentar uma nova ter recebido o Espírito", diriam alguns. Con-
verdade. O Senhor deve ter se alegrado sideremos, então, as doutrinas errôneas de
imensamente ao ouvir as palavras de Pedro. Pedro registradas no capítulo 2 da Epístola
Sabia que Pedro poderia, a partir de então, aos Gálatas, que o apóstolo Paulo teve de
ser conduzido a uma verdade e a um ser- corrigir. O episódio relatado em Gálatas
viço mais profundo. O ministério todo de ocorreu depois que Pedro recebeu o Espírito.
Jesus a seus discípulos havia preparado o A igreja. É a primeira ocorrência dessa
caminho para essa experiência. C o n v é m palavra tão importante no Novo Testamen-
estudar essas palavras e conceitos extraordi- to. Trata-se do termo grego ekklesia, que dá
nários separadamente. origem a nossa palavra "eclesiástico", ou
A rocha. Para esses judeus imbuídos das seja, tudo aquilo que se refere à Igreja. O
Escrituras do Antigo Testamento, não foi di- significado literal é "uma assembléia con-
fícil reconhecer a rocha como um símbolo vocada". A palavra é usada mais de c e m
de Deus. "Eis a Rocha! Suas obras são per- vezes no Novo Testamento e, em pelo me-
feitas" (Dt 32:4). " O SENHOR é a minha ro- nos noventa dessas ocasiões, diz respeito à
cha, a minha cidadela" (SI 18:2). "Pois quem igreja (congregação) local. No entanto, esse
é Deus, senão o SENHOR? E quem é rochedo, primeiro uso de ekklesia indica que Jesus
senão o nosso Deus?" (SI 18:31). tinha em mente a Igreja como um todo. Não
MATEUS 1 5 75

estava construindo apenas uma assembléia T o m a n d o Lucas 16:19-31 c o m o base, há


local, mas uma Igreja universal composta de q u e m a c r e d i t e q u e todos o s m o r t o s i a m
todos aqueles q u e confessam a m e s m a fé para o H a d e s antes da morte e ressurreição
declarada por Pedro. de Cristo: os cristãos para a parte correspon-
A palavra ekklesia não era nova para os dente ao paraíso, e os incrédulos para a parte
discípulos. Costumava ser usada para a as- correspondente a o castigo. S a b e m o s , c o m
sembléia popular de c i d a d ã o s gregos q u e certeza, que, ao morrer, os cristãos de h o j e
ajudava a governar u m a determinada cida- v ã o imediatamente para a presença de Cris-
de ou distrito (At 19:32, 39, 41). A l é m disso, to (2 Co 5:6-8; Fp 1:23).
a tradução grega do Antigo Testamento (a Na Bíblia, as "portas" representam auto-
Septuaginta) usa ekklesia para descrever a ridade e poder. Em Israel, a porta da c i d a d e
c o n g r e g a ç ã o de Israel, q u a n d o o p o v o se correspondia à prefeitura do m u n d o ociden-
reunia para suas a t i v i d a d e s religiosas ( D t tal. Era junto à porta q u e se realizavam os
31:30; Jz 20:2). Todavia, isso não significa n e g ó c i o s importantes ( D t 16:18; 17:8; Rt
q u e a c o n g r e g a ç ã o de Israel no Antigo Testa- 4:11). Assim, "as portas do [ H a d e s ] " simbo-
m e n t o era uma "igreja" no m e s m o sentido lizam o p o d e r o r g a n i z a d o da m o r t e e de
q u e as igrejas do N o v o Testamento. Antes, Satanás. Por m e i o de sua morte e ressurrei-
Jesus estava apresentando aos seus discípu- ção, Cristo conquistaria a morte, e esta n ã o
los algo inteiramente novo. mais poderia aprisionar seu povo. Cristo der-
Jesus usa a d e s i g n a ç ã o " m i n h a igreja" rubaria as portas e libertaria os cativos! S e m
em contraste c o m essas outras assembléias. dúvida, tal d e c l a r a ç ã o p o d e ser verificada
Trata-se de algo inédito e diferente, pois em em 1 Coríntios 15:50ss; H e b r e u s 2:14, 15 e
sua Igreja, Jesus Cristo reuniria os cristãos em outras passagens.
j u d e u s e gentios e formaria um n o v o tem- As chaves do reino. A c h a v e é um em-
plo, um n o v o c o r p o (Ef 2:11 - 3:12). Em sua blema de autoridade (Is 22:1 5, 22; Lc 11:52).
Igreja, as distinções naturais não seriam im- "O reino dos c é u s " n ã o é o céu, pois ne-
portantes ( G l 3:28). Jesus Cristo seria o cons- n h u m h o m e m na Terra carrega as chaves do
trutor dessa Igreja e seu C a b e ç a (Ef 1:22; Cl c é u ! (As piadas sobre " S ã o Pedro à porta do
1:18). c é u " são decorrentes da interpretação equi-
C a d a cristão dessa Igreja é uma "pedra v o c a d a dessa passagem e são antibíblicas e
q u e v i v e " (1 Pe 2:5). Os cristãos se reuni- de mau gosto.) As chaves são usadas para
riam em congregações para adorar e servir abrir portas, e Pedro teve o privilégio de abrir
a Cristo, mas t a m b é m fariam parte de uma "a porta da f é " para os j u d e u s em Pente-
Igreja universal, um templo edificado con- costes (At 2) e, posteriormente, para os sa-
t i n u a m e n t e p o r Cristo. O p o v o d e D e u s maritanos (At 8:14ss) e os gentios (At 10).
possui uma unidade (Ef 4:1-6) q u e d e v e ser M a s os outros apóstolos t a m b é m comparti-
revelada ao m u n d o m e d i a n t e o a m o r e a lhavam dessa autoridade ( M t 18:18). Paulo
harmonia ( J o 1 7:20-26). teve o privilégio de abrir "a porta da f é " para
As portas do inferno. U m a tradução me- os gentios de fora da Palestina (At 14:27).
lhor para essa expressão seria " p o r t a s do Em n e n h u m lugar dessa passagem, n e m
Hades". O inferno é o destino final das pes- no restante do N o v o Testamento, o texto
soas não salvas depois do julgamento diante bíblico afirma q u e P e d r o ou seus sucesso-
do grande trono branco (Ap 20:11-15). Hades res possuíam q u a l q u e r p o s i ç ã o e s p e c i a l o u
é simplesmente "o reino dos mortos". Abriga privilégio na Igreja. P e d r o afirma claramen-
os espíritos dos mortos não salvos até o dia te em suas d u a s epístolas q u e n ã o passa-
da ressurreição ( A p 20:13, em que o " a l é m " va de um apóstolo (1 Pe 1:1), um presbítero
d e v e ser entendido c o m o o " H a d e s " ) . D e (1 Pe 5:1) e um servo de Jesus Cristo (2 Pe
acordo c o m Jesus, o H a d e s encontra-se num 1:1).
plano inferior ( M t 11:23) e é uma prisão para Ligar e desligar. Trata-se de u m a expres-
a qual só ele tem as chaves (Ap 1:18). são bastante c o n h e c i d a para os judeus, pois
76 MATEUS 1 5 76

seus rabinos falavam c o m freqüência de O erro de Pedro foi pensar como ho-
"ligar e desligar", ou seja, de proibir e permi- mem, pois a maioria dos seres humanos
tir. A afirmação de Jesus em Mateus 16:19 deseja escapar do sofrimento e da morte.
refere-se a Pedro, mas sua declaração pos- Não teve os pensamentos de Deus quanto
terior em Mateus 18:18 inclui todos os após- ao que estava para acontecer. E onde en-
tolos. C o m o representantes do Senhor, os contramos o que Deus pensa? Na Palavra
apóstolos iriam exercer autoridade de acor- de Deus. Pedro teve fé suficiente para con-
do com sua Palavra. fessar que Jesus é o Filho de Deus, mas não
Os verbos gregos em Mateus 16:19 são para crer que era certo Jesus sofrer e mor-
extremamente importantes. Jesus não disse rer. É evidente que Satanás concordava com
que Deus obedeceria a tudo o que fizes- as palavras de Pedro, pois havia usado a
sem na Terra, mas sim que deveriam fazer mesma abordagem para tentar Jesus no de-
na Terra tudo o que Deus já havia determi- serto (Mt 4:8-10).
nado. A Igreja não impõe a vontade dos ho- Hoje, a cruz simboliza o amor e o sa-
mens no céu, ela obedece à vontade de crifício. Mas, naquele tempo, era uma das
Deus na Terra. formas mais horríveis de castigo. Não era
Os apóstolos só deveriam falar dessas educado falar sobre a crucificação nos cír-
verdades sobre Jesus ser o Filho de Deus culos sociais romanos mais refinados. Na ver-
com as outras pessoas depois da ressurrei- dade, nenhum cidadão romano poderia ser
ção e ascensão de Cristo. Então, o "sinal de crucificado, pois essa morte terrível era re-
Jonas" seria concluído, o Espírito seria en- servada para os inimigos de Roma. Jesus ain-
viado, e a mensagem seria proclamada. A da não havia dito especificamente que seria
nação em geral, e por certo seus líderes reli- crucificado (faz essa declaração em Mt
giosos em especial, não estavam preparados 20:17-19), mas as palavras a seguir enfati-
para essa mensagem. Ao ler o sermão de zavam a cruz.
Pedro em Pentecostes, é possível vê-lo pro- Jesus apresenta aos seus discípulos duas
clamar Jesus como o Cristo (At 2). formas de encarar a vida:

4. U M A FÉ PRESTATIVA - CRISTO E SEUS


SEGUIDORES ( M T 1 6 : 2 1 - 2 8 ) Negar-se a si mesmo Viver para si mesmo
Depois de declarar sua identidade, Jesus Tomar a sua cruz Ignorar a cruz
declara suas obras, pois as duas coisas de- Seguir a Cristo Seguir o mundo
vem andar juntas. Ele iria para Jerusalém, Perder a vida Salvar a vida por
sofreria, morreria e seria ressuscitado den- por ele si mesmo
tre os mortos. Essa é a primeira afirmação Abandonar o mundo Ganhar o mundo
explícita que faz de sua morte, apesar de Manter sua alma Perder sua alma
tê-la mencionado anteriormente (Mt 12:39, Participar das Perder as recompensas
40; 16:4; Jo 2:19; 3:14; 6:51). "E isto ele recompensas e glória e glória
expunha claramente" ( M c 8:32).
A resposta de Pedro a essa asserção cho- Negar-se a si mesmo não significa negar
cante sem dúvida representa os sentimen- coisas materiais, mas sim se entregar intei-
tos de todo o grupo: "Tem compaixão de ramente a Cristo e compartilhar de sua hu-
ti, Senhor; isso de modo algum te aconte- milhação e morte. Paulo descreve esse
cerá". Nesse momento, Jesus se volta para processo em Romanos 12:1,2, em Filipenses
Pedro e exclama: "Arreda, Satanás! Tu és 3:7-10 e em Gálatas 2:20. Tomar a cruz não
para mim pedra de tropeço". Pedro, a "pe- significa carregar fardos ou ter problemas
dra" que havia acabado de ser abençoada (certa vez, uma senhora me disse que sua
( M t 16:18), transforma-se em Pedro, a cruz era a asma!). Tomar a cruz significa iden-
"pedra de tropeço" que não era uma bên- tificar-se com Cristo em sua rejeição, vergo-
ção para Jesus! nha, sofrimento e morte.
MATEUS19:1-15 77

Porém, o sofrimento sempre conduz à gló- ( M t 16:28). Essa declaração se cumpriria em


ria. E por isso que Jesus encerra esse sermão uma semana no m o n t e da Transfiguração,
curto c o m uma referência a seu reino glorioso conforme descrito no capítulo seguinte.
lagarta constrói um casulo e depois sai de
dentro dele na forma de uma borboleta, deu-
se um processo de metamorfose. A glória
de nosso Senhor não refletiu algo exterior,
A GLÓRIA DO REI mas sim, irradiou algo interior. Houve uma
mudança exterior que veio de dentro de Je-
MATEUS 1 7 sus e fez com que sua glória essencial res-
plandecesse (Hb 1:3).
Por certo, esse acontecimento serviria
para fortalecer a fé dos discípulos, especial-
mente de Pedro, o qual havia confessado
pouco tempo antes que Jesus era o Filho de

E ste capítulo começa c o m uma cena glo-


riosa no alto de um monte e termina c o m
Pedro pegando um peixe para pagar seus
Deus. Sua confissão de fé não teria sido tão
significativa se ele a tivesse feito depois da
transfiguração. Pedro creu, confessou sua fé
impostos. Q u e contraste! No entanto, Jesus e recebeu confirmação (ver Jo 11:40; Hb
Cristo, o Rei, é o tema do capítulo todo. Os 11:6).
três acontecimentos deste capítulo ofere- Muitos anos depois, João relembrou este
c e m três imagens do Rei. acontecimento quando o Espírito o inspirou
a escrever: "E o Verbo se fez carne e habi-
1. O R E I EM SUA GLÓRIA tou entre nós, cheio de graça e de verdade,
(MT 17:1-13) e vimos a sua glória, glória c o m o do unigê-
De acordo c o m Mateus e Marcos, a transfi- nito do Pai" (Jo 1:14). Em seu Evangelho, João
guração aconteceu "seis dias depois", en- enfatiza a divindade de Cristo e a glória de
quanto Lucas diz "cerca de oito dias depois" sua pessoa (Jo2:11; 7:39; 11:4; 12:23; 13:31,
(Lc 9:28). N ã o há contradição, uma vez que 32; 20:31).
o relato de Lucas é o equivalente judeu a Q u a n d o veio à Terra, Jesus Cristo dei-
"cerca de uma semana depois". Durante essa xou de lado sua glória (Jo 1 7:5). Por causa
semana, os discípulos devem ter discutido o de sua obra consumada na cruz, recebeu
significado das declarações de Jesus sobre de volta sua glória, que hoje compartilha
sua morte e ressurreição. Por certo, também conosco (Jo 1 7:22, 24). No entanto, não pre-
estavam se perguntando o que aconteceria cisamos esperar pelo c é u para participar
c o m as profecias do Antigo Testamento a dessa "glória da transfiguração". Q u a n d o nos
respeito do reino. Se Jesus pretendia cons- entregamos a Deus, ele "transfigura" nossa
truir uma Igreja, o que aconteceria com o mente (Rm 12:1, 2). Ao nos sujeitarmos ao
reino prometido? Espírito de Deus, ele nos transforma (trans-
O texto não diz o nome do lugar em figura) "de glória em glória" (2 Co 3:18). Ao
que esse milagre ocorreu, mas é provável examinarmos a Palavra de Deus, vemos o Fi-
que tenha sido no monte Hermom, perto lho de Deus e somos transfigurados pelo
de Cesaréia de Filipe. Espírito de Deus na glória de Deus.
A transfiguração revelou quatro aspec- A glória de seu reino. No encerramento
tos da glória de Jesus Cristo o Rei. de seu sermão sobre tomar a cruz, Jesus pro-
A glória de sua Pessoa. Tanto quanto meteu que alguns de seus discípulos veriam
sabemos pelos relatos bíblicos, essa foi a "o Filho do H o m e m no seu reino" ( M t 16:28).
única vez que Jesus revelou sua glória de tal Selecionou Pedro, Tiago e João para testemu-
forma durante seu ministério aqui na Terra. nhar esse acontecimento. Esses três amigos
A palavra traduzida por transfiguração dá e sócios (Lc 5:10) haviam a c o m p a n h a d o
origem a nosso termo "metamorfose", que Jesus à casa de Jairo (Lc 8:51) e, posterior-
significa uma mudança exterior provinda de mente, estariam c o m ele no jardim do Getsê-
uma transformação interior. Q u a n d o uma mani, antes da crucificação (ver Mt 26:37).
MATEUS21:1-22:14 79

G. C a m p b e l l M o r g a n c h a m a a atenção S e u sofrimento e morte não seriam um aci-


para o fato de que, nessas três ocasiões, o dente, mas uma conquista. P e d r o usa a pala-
assunto principal foi a morte. Jesus estava vra partida ao descrever sua morte iminente
ensinando a estes três h o m e n s q u e ele é vi- (2 Pe 1:15). Para o cristão, a morte não é
torioso sobre a morte (ressuscitou a filha de uma estrada de m ã o única para o esqueci-
Jairo) e se entregou à morte (no jardim). A mento. Antes, é u m a partida, um êxodo, a
transfiguração ensinou q u e ele foi glorifica- libertação da escravidão desta vida para a
do na morte. gloriosa liberdade da vida no céu.
A presença de M o i s é s e de Elias foi sig- Pelo fato de Cristo ter morrido e pago o
nificativa, pois M o i s é s representava a Lei e preço, p u d e m o s ser redimidos: c o m p r a d o s
Elias os Profetas. Toda a Lei e os Profetas e libertados. Os dois discípulos de E m a ú s
a p o n t a m para Cristo e se c u m p r e m em Cris- esperavam q u e Jesus libertasse a n a ç ã o da
to (Lc 24:27; Hb 1:1). N e n h u m a palavra do e s c r a v i d ã o r o m a n a ( L c 24:21). J e s u s n ã o
A n t i g o Testamento deixará de ser cumpri- morreu para oferecer liberdade política, mas
da. O reino prometido será estabelecido (Lc sim para c o n c e d e r liberdade espiritual: fo-
1:32, 33, 68-77). Assim c o m o esses três dis- mos libertos do sistema do m u n d o ( G l 1:4),
cípulos viram Jesus glorificado na Terra, tam- de uma vida fútil e sem propósito (1 Pe 1:18)
b é m o p o v o de D e u s o veria em seu reino e da iniqüidade (Tt 2:14). N o s s a r e d e n ç ã o
glorioso na Terra ( A p 19:11 - 20:6). em Cristo é decisiva e definitiva.
P e d r o aprendeu essa lição e nunca mais A glória de sua submissão. P e d r o n ã o
a esqueceu. " N ó s m e s m o s f o m o s testemu- conseguia entender por q u e o Filho de D e u s
nhas oculares da sua majestade [...] Temos, se sujeitaria a h o m e n s perversos e sofreria
assim, tanto mais confirmada a palavra pro- voluntariamente. D e u s usou a transfiguração
fética" (ver 2 Pe 1:12ss). A experiência de para ensinar a P e d r o q u e Jesus é glorificado
P e d r o no m o n t e a p e n a s fortaleceu sua fé q u a n d o n e g a m o s a nós mesmos, t o m a m o s
nas profecias do Antigo Testamento. O mais nossa cruz e o seguimos. A filosofia do mun-
importante n ã o é testemunhar grandes fei- do é: "salve sua vida!", m a s a filosofia cristã
tos e prodígios, mas ouvir a Palavra de Deus. é: "entregue sua vida a D e u s ! " Ao se colo-
"Este é o m e u Filho a m a d o , em q u e m me car diante deles em glória, Jesus provou aos
c o m p r a z o ; a ele o u v i " ( M t 17:5). três discípulos q u e a entrega sempre con-
Todos os q u e são nascidos de n o v o per- duz à glória. Primeiro o sofrimento, depois
t e n c e m ao reino de D e u s ( J o 3:3-5). Trata-se a glória; primeiro a cruz, depois a coroa.
de um reino espiritual, separado das coisas C a d a um dos três discípulos viveria essa
materiais deste m u n d o ( R m 14:1 7). M a s um importante verdade. Tiago seria o primeiro
dia, q u a n d o Jesus voltar, haverá um reino dos discípulos a morrer (At 12:1, 2). J o ã o
glorioso por mil anos ( A p 20:1-7), c o m Jesus seria o último, mas enfrentaria perseguições
Cristo g o v e r n a n d o c o m o Rei. O s q u e cre- intensas na ilha de Patmos ( A p 1:9). Pedro
rem nele reinarão c o m ele na Terra ( A p 5:10). passaria por muitas aflições e, no final, daria
A glória de sua cruz. Os discípulos preci- sua vida por Cristo ( J o 21:15-19; 2 Pe 1:12).
savam aprender q u e o sofrimento e a glória Pedro opôs-se à cruz q u a n d o Jesus men-
a n d a m juntos. Pedro não queria q u e Jesus c i o n o u sua m o r t e pela primeira v e z ( M t
fosse a Jerusalém para morrer, de m o d o q u e 16:22ss). No jardim, usou sua espada para
Jesus teve de ensinar-lhe que, sem seu sofri- defender o M e s t r e ( J o 18:10). A t é m e s m o
m e n t o e morte, não haveria glória. S e m dú- no m o n t e da transfiguração, P e d r o tentou
vida, P e d r o a p r e n d e u a lição, pois em sua dizer a Jesus o q u e fazer, pois queria cons-
primeira epístola enfatiza repetidamente o truir ali três tendas, uma para Jesus, outra
sofrimento e a glória (1 Pe 1:6-8,11; 4:12 - para M o i s é s e outra para Elias, para q u e
5:11). todos p e r m a n e c e s s e m ali e desfrutassem a
M o i s é s e Elias c o n v e r s a r a m c o m Jesus glória! M a s o Pai interrompeu a P e d r o e d e u
80 M A T E U S 1 5 80

permite que seu Filho amado seja colocado no chão com freqüência, espumando e ran-
no mesmo nível que Moisés e Elias. "A nin- gendo os dentes, depois ficando com o cor-
guém [...] senão Jesus", esse é o padrão de po todo rígido. Lucas diz que o menino era
Deus (Mt 1 7:8). filho único e que gritava ao entrar em con-
Enquanto descia o monte com seus três vulsões. Apesar de alguns desses sintomas
discípulos, Jesus advertiu-os a não revelar poderem ter causas naturais, o menino esta-
o que haviam visto, nem mesmo aos ou- va à mercê de um demônio. U m a vez que
tros discípulos. M a s os três homens ainda os discípulos não conseguiram fazer coisa
estavam perplexos. Haviam aprendido que alguma, não é de se admirar que o pai te-
Elias viria primeiro em preparação para a nha se ajoelhado aos pés de Jesus.
fundação do reino. A presença de Elias no A primeira reação de Jesus foi uma triste-
monte seria o cumprimento dessa profecia? za profunda. Ao olhar para seus discípulos
( M l 4:5, 6). envergonhados, para os escribas argumen-
Jesus responde a essa pergunta de duas tando e para o pai necessitado e seu filho, o
maneiras. Sim, Elias viria conforme profeti- Mestre gemeu em seu íntimo e disse: "Até
zado em Malaquias 4:5, 6, mas, em termos quando estarei convosco e vos sofrerei?" (Lc
espirituais, Elias já havia vindo na pessoa de 9:41). A incredulidade e a perversidade es-
João Batista (ver Mt 11:10-15; Lc 1:17). A piritual deles era um peso para Jesus. Fico
nação permitiu que João fosse executado e imaginando como Jesus se sente ao olhar
pediria que Jesus fosse morto. Apesar de para os cristãos fracos de hoje...
tudo o que os líderes perversos fariam, Deus Jesus libertou o menino e ordenou que
realizaria seu plano. o demônio nunca mais retornasse àquele
Q u a n d o se dará a vinda de Elias para corpo ( M c 9:25). O demônio tentou ainda
restaurar todas as coisas? Alguns acreditam uma "última cartada" (como disse Spurgeon)
que Elias virá como uma das "duas testemu- para que a multidão pensasse que o menino
nhas", cujo ministério é descrito em Apo- estava morto ( M c 9:26). M a s Jesus levantou
calipse 11. Outros acreditam que a profecia o menino e o entregou a seu pai, enquanto
foi cumprida no ministério de João Batista a multidão, maravilhada, dava glórias a Deus
e, dessa forma, Elias não virá outra vez. (Lc 9:43).
Os nove discípulos deveriam ter sido
2 . O R E I E SEU PODER ( M T 1 7 : 1 4 - 2 1 ) capazes de expulsar o demônio. Jesus lhes
Passamos da montanha da glória para o vale dera poder e autoridade ( M t 10:1, 8), mas,
da necessidade. A aparição repentina de de alguma forma, haviam perdido esse po-
Jesus e de seus três discípulos surpreendeu der! Quando perguntaram a Jesus qual ha-
a multidão ( M c 9:15). Um pai havia levado via sido a causa dessa derrota vergonhosa,
o filho endemoninhado aos nove discípulos, ele respondeu: falta de fé (Mt 17:20), falta
implorando que o curassem, mas eles não de oração ( M c 9:29) e falta de disciplina (Mt
puderam. Os escribas viram o que aconte- 17:21, apesar de esse versículo não ser en-
ceu e estavam usando o insucesso dos dis- contrado em vários manuscritos).
cípulos para discutir com eles. Enquanto os Talvez os nove discípulos estivessem com
escribas faziam acusações e os discípulos ciúme por não terem sido chamados para
se defendiam, o demônio estava quase ma- subir ao monte com Jesus. É possível que,
tando o menino indefeso. durante a ausência de Jesus, tenham se aco-
Q u a n d o comparamos os relatos dos modado e deixado de orar, enfraquecendo,
Evangelhos dessa cena dramática, descobri- desse modo, sua fé, ficando despreparados
mos que esse filho único estava de fato em para a crise que surgiu. Como Sansão, saí-
grande perigo. De acordo com Mateus, o ram para a batalha sem perceber que não
menino enfermo era epilético e suicida, ati- tinham forças (Jz 16:20). Seu exemplo mos-
rando-se repetidamente no fogo ou na água. tra como precisamos estar sempre espiri-
Marcos o descreve como um mudo, que caía tualmente saudáveis.
81MATEUS24:1-44

A expresse " f é c o m o um grão de mos- Pedro não era c a p a z de controlar o peixe


tarda" sugere não apenas o tamanho ( D e u s n e m de encontrar o dinheiro. Jesus Cristo
honrará até m e s m o uma p e q u e n a fé), mas exerceu domínio n ã o apenas sobre peixes,
t a m b é m vida e crescimento. Ter fé c o m o uma mas t a m b é m sobre os animais terrestres ( M t
semente de mostarda é ter uma fé viva ali- 21:1-7) e sobre os pássaros ( M t 26:34, 74,
mentada para crescer. A fé d e v e ser cultiva- 75). Jesus Cristo recuperou c o m sua obediên-
da a fim de q u e cresça e realize feitos ainda cia aquilo q u e A d ã o p e r d e u por causa d e
mais poderosos para D e u s (1 Ts 3:10; 2 Ts sua desobediência ( H b 2:6).
1:3). Se os n o v e tivessem se mantido firmes O s cristãos d e hoje não possuem domí-
na oração, na disciplina pessoal e na medi- nio total sobre a natureza, mas, um dia, reina-
t a ç ã o na Palavra, teriam sido c a p a z e s de remos c o m Cristo e d o m i n a r e m o s c o m ele.
expulsar o d e m ô n i o e de salvar o menino. Enquanto isso, D e u s cuida de seus filhos e
Toda essa c e n a ilustra o q u e Jesus fará providencia para q u e a natureza trabalhe em
q u a n d o deixar a glória do c é u e vier para a favor dos q u e confiam e o b e d e c e m .
Terra. Derrotará Satanás e o manterá cativo É o único milagre que Jesus realizou
por mil anos ( A p 20:1-6). para suprir as próprias necessidades. Sata-
nás havia tentado Cristo a usar seus pode-
3. O R E I EM SUA HUMILDADE res divinos para si m e s m o ( M t 4:3, 4), mas
(MT 17:22-27) Jesus havia recusado. N e s s e caso, p o r é m ,
Pela segunda vez, Jesus fala de sua morte e não usou seus poderes só em benefício pró-
ressurreição. Os discípulos estavam profun- prio, pois havia outras pessoas envolvidas
d a m e n t e angustiados e c o m m e d o de lhe no milagre. Jesus explica q u e o milagre foi
pedir mais detalhes sobre o assunto. Quan- realizado "Para q u e n ã o os escandalizemos".
do Jesus voltou à vida no terceiro dia, os N ã o queria q u e as pessoas se ofendessem
discípulos n ã o acreditaram nos relatos da v e n d o um j u d e u deixar de contribuir para o
ressurreição, pois se e s q u e c e r a m das pro- ministério no templo. É v e r d a d e q u e Jesus
messas d e seu M e s t r e ( M c 16:14). M a s o s não hesitou em quebrar as tradições huma-
inimigos de Jesus se lembraram daquilo q u e nas dos fariseus, mas teve o c u i d a d o de obe-
ele havia dito ( J o 2:19) e agiram de a c o r d o decer à lei de Deus.
( M t 27:62-66). C o m o cristãos, não d e v e m o s usar nossa
Q u e paradoxo: u m Rei tão p o b r e q u e liberdade em Cristo para fazer mal a outros
não tinha duas dracmas para pagar o impos- n e m para destruí-los. T e o r i c a m e n t e , J e s u s
t o anual d o t e m p l o ! C o n v é m o b s e r v a r a s n ã o precisava pagar o imposto, mas, p o r
características singulares desse milagre. motivos práticos, pagou assim m e s m o . Tam-
É registrado apenas por Mateus. O ex- b é m incluiu o imposto de Pedro para q u e o
c o l e t o r de impostos, M a t e u s , e s c r e v e u o testemunho deles n ã o fosse prejudicado.
Evangelho do Rei, e esse milagre confirma a É o único milagre envolvendo dinhei-
realeza de nosso Senhor. Os reis humanos ro. U m a v e z q u e M a t e u s havia sido coletor
n ã o c o b r a m tributos de seus filhos. Jesus afir- de impostos, n ã o é de surpreender q u e te-
m o u estar livre do imposto, pois era o Filho nha d e m o n s t r a d o interesse particular p o r
do Rei, o Filho de Deus. C o m o Filho de Deus, esse milagre. O imposto em questão havia
era p o b r e d e m a i s para pagar até m e s m o sido instituído n o t e m p o d e M o i s é s (Êx
duas dracmas, e seus discípulos t a m b é m não 30:11ss). O dinheiro da primeira coleta foi
tinham recursos. Assim, Jesus exercitou sua u s a d o para fazer as bases de prata o n d e
soberania sobre a natureza para suprir essa eram encaixadas as colunas do tabernáculo
necessidade. (Êx 38:25-27). Posteriormente, o imposto arre-
D e u s d e u a A d ã o e Eva domínio sobre a c a d a d o passou a ser u s a d o para a manu-
natureza, inclusive sobre os peixes do mar t e n ç ã o do t a b e r n á c u l o e do templo. Esse
( G n 1:26; SI 8:6-8). O h o m e m perdeu esse dinheiro deveria ajudar os judeus a lembram
82 M A T E U S 1 5 82

egípcia. Os cristãos foram remidos pelo san- Jesus conhecia as necessidades de Pedro
gue precioso de Cristo (1 Pe 1:18, 19). e supriu todas elas. Ao entrar em casa, Pedro
É o único milagre em que Jesus usou estava certo de que seu problema seria re-
apenas um peixe. Jesus havia multiplicado solvido, mas antes que pudesse dizer a seu
os peixes para Pedro (Lc 5:1-11) e voltaria a Mestre o que fazer, Jesus o instruiu como
fazê-lo em ocasião posterior (Jo 21:1 ss). proceder! Deus, o Pai, havia interrompido
Nesse caso, porém, usou apenas um peixe. Pedro no monte (Mt 1 7:5), e aqui Deus, o
A complexidade desse milagre é impres- Filho, interrompeu-o em casa. Se deixarmos
sionante. Primeiro, alguém teve de perder Jesus nos instruir, ele suprirá nossas necessi-
uma moeda na água. Depois, o peixe teve dades para sua glória.
de pegar aquela moeda e de retê-la em sua É o único milagre cujo resultado não
boca. Na seqüência, mesmo levando uma se encontra registrado. Seria de se esperar
moeda na boca, esse mesmo peixe teve de que o texto continuasse o relato, dizendo
morder o anzol que Pedro jogou na água e algo como: "E Pedro foi ao mar, jogou o
teve de ser fisgado. A complexidade dessa anzol e fisgou o peixe; depois abriu a boca
série de acontecimentos não permite que do peixe e encontrou lá uma moeda, a qual
sejam atribuídos ao acaso. usou para pagar o imposto dele e de Je-
É um dentre vários milagres realizados sus...". No entanto, Mateus 1 7:28 não exis-
em favor de Pedro. N ã o sabemos como os te. C o m o sabemos, então, que o milagre
outros discípulos pagaram o imposto. Esse realmente aconteceu? Porque Jesus afirmou
foi um dos vários milagres que Jesus reali- que aconteceria! " N e m uma só palavra falhou
zou por Pedro. O Senhor curou a sogra do de todas as suas boas promessas" (1 Rs
apóstolo ( M c 1:29-34), ajudou-o em sua 8:56).
pescaria (Lc 5:1-11), permitiu que andasse A fé de Pedro nessa situação é louvável.
sobre as águas (Mt 14:22-33), curou a ore- Q u e m vivia à beira-mar estava acostumado
lha de Malco ( M t 26:47-56; Lc 22:50, 51) e a vê-lo com uma rede nas mãos, não com
livrou Pedro da prisão (At 12:1ss). Não é de um anzol. M a s Pedro creu na Palavra de
se admirar que Pedro tenha escrito: "Lan- Deus, e Deus honrou sua fé. Se confiarmos
çando sobre ele as vossas ansiedades, por- no Rei, ele suprirá nossas necessidades ao
que ele tem cuidado de vós" (1 Pe 5:7). obedecermos à sua Palavra.
c o m o Senhor e até m e s m o recebera o di-
nheiro para pagar seus impostos por m e i o
de um milagre.
O fato de Jesus haver compartilhado c o m
A REPREENSÃO DO REI seus discípulos a c e r c a de seu futuro sofri-
m e n t o e morte n ã o c a u s a r a o d e v i d o im-
MATEUS 18 p a c t o s o b r e a v i d a deles. C o n t i n u a v a m
pensando apenas em si mesmos e nos car-
gos q u e o c u p a r i a m no reino. Estavam tão
absortos c o m essa questão q u e chegaram a
discutir entre si! (Lc 29:46).
O e g o í s m o e a d e s u n i ã o do p o v o de

P or q u e alguns filhos de D e u s t ê m tan-


ta d i f i c u l d a d e em se e n t e n d e r ? Li um
p o e m a q u e expressa p e r f e i t a m e n t e esse
D e u s são um escândalo para a fé cristã. A
causa principal desses problemas é o orgu-
lho: alguém se julgar mais importante do q u e
problema: realmente é. Foi o orgulho q u e conduziu o
h o m e m a o p e c a d o logo n o princípio ( G n
Viver no céu, com os santos que amamos, 3:5). Q u a n d o cristãos v i v e m para si mesmos
Certamente será uma glória. e não para os outros, é inevitável q u e haja
Viver na Terra, com os santos que conhe- conflitos e divisões (Fp 2:1 ss).
cemos, O exemplo de humildade (w. 2-6, 10-
Isso é outra história! 14). Os discípulos aguardaram c o m ansie-
dade q u e Jesus dissesse q u e m era o maior
D i a n t e de tanta divisão e dissensão entre entre eles. M a s Jesus ignorou-os completa-
cristãos professos hoje, precisamos encare- m e n t e e c h a m o u u m a criança para perto
cidamente daquilo q u e M a t e u s 18 tem a nos deles. Essa criança era o exemplo da verda-
ensinar. Jesus repreendeu seus discípulos por deira grandeza.
seu orgulho e desejo de grandeza aqui na H u m i l d a d e sincera envolve c o n h e c e r a
Terra e lhes falou de três elementos essen- si mesmo, aceitar a si m e s m o e ser autên-
ciais para a harmonia e unidade entre o povo tico, d a n d o o melhor de si m e s m o para a
d e Deus. glória de Deus. Significa evitar dois extre-
mos: pensar menos de si m e s m o ( c o m o fez
1. HUMILDADE ( M T 18:1-14) M o i s é s q u a n d o D e u s o c h a m o u , Êx 3:11 ss)
A l g u é m definiu humildade muito apropria- ou pensar mais de si m e s m o ( R m 12:3). A
d a m e n t e c o m o " a graça que, q u a n d o v o c ê pessoa verdadeiramente humilde não nega
sabe q u e a possui, a c a b o u de perdê-la!". os dons q u e D e u s lhe deu, mas os e m p r e g a
T a m b é m afirmou corretamente: "A verdadei- para a glória do Senhor.
ra humildade n ã o é pensar em si m e s m o de Q u a n d o não é mimada, uma criança
m o d o depreciativo; antes, é simplesmente possui as características q u e constituem a
n e m pensar em si m e s m o " . verdadeira humildade: c o n f i a n ç a ( M t 18:6),
A necessidade de humildade (v. 1). d e p e n d ê n c i a , desejo de fazer os outros fe-
" Q u e m é, porventura, o maior no reino dos lizes, ausência de arrogância e de desejos
céus?" - trata-se de um assunto q u e sempre egoístas de ser maior do q u e os outros. Por
voltava à baila nas conversas entre os discí- natureza, todos s o m o s rebeldes e q u e r e m o s
pulos, s e n d o m e n c i o n a d o várias v e z e s ao ser c e l e b r i d a d e s em v e z de servos. As li-
longo dos Evangelhos. É b e m provável q u e ções da humildade requerem um longo
os últimos acontecimentos t e n h a m agrava- aprendizado.
do esse problema, especialmente c o m refe- O s discípulos d e s e j a v a m s a b e r q u e m
rência a Pedro. Afinal, ele andara sobre as era o maior no reino, mas Jesus advertiu-os
84 M A T E U S 1 5 84

entrar no reinol Teriam, antes, de se conver- deve ser removida de minha vida, pois do
ter - mudar sua forma de pensar - ou nem contrário farei outros tropeçarem. Jesus ha-
chegariam às portas do céu. via proferido palavras semelhantes no Ser-
Tudo indica que, nestes versículos, Jesus mão do Monte (Mt 5:29, 30). Paulo usa o
está combinando dois conceitos: uma crian- olho, a mão e o pé para ilustrar a dependên-
ça humana como um exemplo de humildade cia mútua dos membros do corpo do Cristo
e um filho de Deus, qualquer que seja a sua (1 Co 12:14-1 7).
idade. C o m o cristãos, devemos não apenas A humildade começa com a introspec-
aceitar os pequeninos por causa de Jesus, ção e continua com a abnegação. Jesus não
mas também receber todos os filhos de Deus está sugerindo que mutilemos nosso corpo,
e procurar lhes ministrar (Rm 14:1ss). Levar pois ferir o corpo físico não muda a condi-
uma criança a pecar ou desviá-la do cami- ção espiritual de nosso coração. Antes, está
nho é algo muito sério. E igualmente sério nos instruindo a fazer uma "cirurgia espiri-
fazer com que outro cristão tropece por cau- tual", removendo tudo o que seja um tro-
sa de nosso mau testemunho (Rm 14:13ss; peço para nós e para os outros. A pessoa
1 Co 8:9ss). A pessoa verdadeiramente hu- humilde vive primeiramente para Jesus e de-
milde pensa sempre nos outros, e nunca em pois para os outros, colocando-se sempre
si mesma. em último lugar. Fica contente em ser capaz
Jesus explica que podemos ter quatro de abdicar de coisas boas para fazer o ou-
atitudes diferentes em relação às crianças e, tro feliz. Talvez o melhor comentário sobre
conseqüentemente, em relação à verdadei- isso se encontre em Filipenses 2:1-18.
ra humildade. Podemos nos esforçar para nos
tornarmos como crianças ( M t 18:3, 4) em 2 . HONESTIDADE ( M T 1 8 : 1 5 - 2 0 )
humildade, como para o Senhor. Podemos N e m sempre praticamos a humildade. Há
apenas recebê-las (Mt 18:5), porque Jesus consciência de que, deliberada ou incons-
nos ordenou que assim fizéssemos. Se não cientemente, ofendemos e prejudicamos os
tivermos cuidado, também podemos fazer outros. Até mesmo a Lei do Antigo Testamen-
com que tropecem (Mt 18:6) e, por fim, po- to reconhece os "pecados por ignorância"
demos acabar desprezando-as (Mt 18:10). ( N m 15:22), e Davi orou para ser liberto das
É perigoso desprezar as crianças, pois "faltas ocultas" (SI 19:12), ou seja, das "faltas
Deus as tem em alta consideração. Quando que estão ocultas até dos próprios olhos".
nos tornamos como crianças (ou seja, cris- O que devemos fazer quando outro cristão
tãos verdadeiros), recebemos a Cristo (Mt peca contra nós ou nos faz tropeçar? Jesus
18:5). O Pai cuida delas e os anjos zelam dá várias instruções.
por elas (Mt 18:10). Assim como o bom pas- Manter a questão no âmbito particular.
tor, Deus busca os perdidos e os salva, e Devemos abordar a pessoa que pecou e
não devemos impedi-los. Um pastor que vai conversar com ela a sós. E possível que essa
atrás de uma ovelha adulta se preocupará pessoa nem tenha consciência daquilo que
ainda mais com um carneirinho! fez. O u , ainda que tenha agido delibera-
Nestes dias de negligência e de abuso damente, nossa atitude de submissão e de
de crianças, devemos levar a sério essa ad- amor pode ajudá-la a se arrepender e a pe-
vertência de Jesus. É melhor afogar-se no mar dir perdão. Acima de tudo, devemos pro-
com uma pedra amarrada ao pescoço do curar a pessoa com o objetivo de ganhar
que abusar de uma criança e encarar o juízo nosso irmão, não de ganhar uma discussão.
de Deus (Mt 18:6). Não é difícil ganhar uma discussão e perder
O custo t/a humildade (vv. 7-9). A pes- um irmão.
soa verdadeiramente humilde ajuda a edificar Ao procurar restaurar um irmão ou irmã,
os outros, não a derrubá-los. É uma pedra é necessário ter um espírito manso e gentil
de apoio, não uma pedra de tropeço. Sendo (Gl 6:1). Não se deve condenar quem nos
assim, qualquer coisa que me faz tropeçar ofendeu nem fazer fofocas a seu respeito,
85MATEUS8-9

mas sim tentar ajudá-lo c o m todo amor, da de D e u s precisam de disciplina na igreja. Se


mesma forma c o m o gostaríamos que alguém a ofensa chegar ao c o n h e c i m e n t o de toda a
nos ajudasse se tivéssemos errado. A pala- igreja e, m e s m o assim, o ofensor não mu-
vra corrigir, usada em Gálatas 6:1, é um ter- dar de idéia n e m se arrepender, deverá ser
mo m é d i c o grego q u e significa "reparar um disciplinado. N ã o p o d e ser tratado c o m o um
o s s o fraturado", p r o c e d i m e n t o q u e exige irmão espiritual, pois ele abriu m ã o dessa
paciência e grande cuidado. posição. Só p o d e ser tratado c o m o alguém
Pedir ajuda a outros. Se o ofensor re- de fora, sem ser odiado, mas t a m b é m s e m
cusar-se a proceder corretamente, estamos c o m u n h ã o c o m os outros.
liberados para compartilhar o fardo c o m um Manter o caráter espiritual da igreja
ou dois irmãos. D e v e m o s compartilhar os local (w. 18-20). A n t e s de disciplinar um
fatos de a c o r d o c o m nosso ponto de vista e membro, a c o n g r e g a ç ã o local d e v e estar na
pedir o conselho desses irmãos tementes a melhor c o n d i ç ã o espiritual possível. Quan-
D e u s . Afinal, t a m b é m é possível q u e nós do uma igreja disciplina um m e m b r o , está,
estejamos errados. Se os irmãos verificarem na verdade, examinando e disciplinando a
q u e estamos corretos, então, juntos, pode- si m e s m a . Por isso Jesus acrescenta estas
mos procurar o ofensor e tentar mais uma palavras sobre autoridade, oração e comu-
v e z ganhá-lo c o m o irmão. Esses irmãos não nhão. N i n g u é m p o d e disciplinar os outros
a p e n a s p o d e m nos ajudar c o m o r a ç õ e s e se n ã o se disciplinar a si mesmo. Tudo o q u e
persuasão c o m o t a m b é m p o d e m servir d e ligamos (permitimos) na congregação deve,
testemunhas para a igreja acerca da veraci- antes, ser permitido por D e u s (ver os co-
d a d e dessa conversa ( D t 19:15; 2 Co 13:1). mentários e m M t 16:19).
O p e c a d o q u e n ã o é tratado c o m ho- A igreja d e v e estar sob a autoridade da
nestidade sempre se espalha. Aquilo q u e era Palavra de Deus. Os cristãos não d e v e m dis-
u m a questão entre duas pessoas passará a ciplinar os irmãos c o m a atitude de policiais
envolver quatro ou cinco. N ã o é de se ad- intimidando criminosos. Pelo contrário: pela
mirar q u e Jesus e Paulo tenham c o m p a r a d o disciplina, v e m o s D e u s exercer sua autorida-
0 p e c a d o ao fermento, pois cresce rapida- de dentro da igreja local e, por m e i o desta,
mente. restaurar um de seus filhos em p e c a d o .
Pedir a ajuda da igreja. D e v e m o s nos C o m a autoridade da Palavra, t a m b é m
lembrar de q u e o objetivo não é ganhar a d e v e h a v e r o r a ç ã o ( M t 18:19). A palavra
discussão, mas sim ganhar um irmão. A pa- concordar, no grego, c o r r e s p o n d e ao ter-
lavra ganhar, em M a t e u s 18:15, é usada em mo "sinfonia". A igreja d e v e c o n c o r d a r em
1 Coríntios 9:19-22 c o m referência a ganhar o r a ç ã o a o buscar disciplinar u m m e m b r o
os p e c a d o r e s , m a s t a m b é m é i m p o r t a n t e ofensor. É através da o r a ç ã o e da Palavra
ganhar os salvos. É a segunda v e z q u e Jesus q u e d e s c o b r i m o s a v o n t a d e do Pai sobre a
m e n c i o n a a igreja (ver Mt 16:18), e, nesse questão.
caso, a designação refere-se à congregação P o r fim, d e v e h a v e r c o m u n h ã o ( M t
local de cristãos. U m a vez q u e os discípulos 18:20). A igreja local d e v e ser uma comu-
de nosso Senhor foram criados na sinagoga nidade de a d o r a ç ã o q u e r e c o n h e c e a pre-
judaica, estavam familiarizados c o m a disci- sença do S e n h o r em seu meio. O Espírito
plina congregacional. Santo d e D e u s p o d e c o n v e n c e r d o p e c a d o
O que c o m e ç o u c o m o um problema tanto o ofensor quanto a igreja, e p o d e até
particular entre duas pessoas é, agora, aber- m e s m o julgar o p e c a d o no m e i o da congre-
to para a igreja toda. A disciplina na igreja é g a ç ã o (At 5).
u m ministério n e g l i g e n c i a d o n o s dias d e Há u m a necessidade p r e m e n t e de ho-
hoje. No entanto, é e n s i n a d o a q u i e nas nestidade na Igreja de hoje. "Falar a verda-
epístolas (ver 1 Co 5; 2 Ts 3:6-16; 2 Tm 2:23- de em a m o r " (Ef 4:1 5) é o padrão de Deus.
26; Tt 3:10). Assim c o m o as crianças preci- O a m o r sem v e r d a d e é hipocrisia, enquanto
sam de disciplina em casa, t a m b é m os filhos a v e r d a d e s e m a m o r é brutalidade. J e s u s
86 MATEUS 1 5 86

sempre ensinou a verdade em amor. Se a perdoar pelo menos sete vezes. Afinal, os
verdade dói, é porque: "Leais são as feridas rabinos ensinavam que era suficiente per-
feitas pelo que ama" (Pv 27:6). doar apenas três vezes.
No entanto, não devemos nos esquecer A resposta de Jesus: "até setenta vezes
de que a humildade deve vir antes da ho- sete" (490 vezes) deve ter espantado Pedro.
nestidade. Um cristão orgulhoso não será Quem poderia manter um registro de tantas
capaz de falar a verdade em amor, pois usará ofensas? Mas era justamente isso o que Je-
o erro de um irmão como arma de comba- sus desejava lhe mostrar: o amor "não se
te, não como instrumento de edificação. O ressente do mal" (1 Co 13:5). Quando tiver-
resultado será apenas desarmonia e discór- mos perdoado um irmão tantas vezes, tere-
dia ainda maiores. mos formado o hábito de perdoar.
O primeiro problema interno a surgir na Porém, Jesus não estava aconselhando
Igreja do Novo Testamento foi a desones- um perdão indiferente ou superficial. O amor
tidade (At 5). Ananias e Safira tentaram fa- cristão não é cego (Fp 1:9, 10), e o perdão
zer os membros da igreja acreditarem que que Cristo requer faz parte do fundamento
eles eram mais espirituais do que de fato das instruções que o Mestre ensinou em
eram. Mentiram a si mesmos ao pensar que Mateus 18:15-20. Se um irmão é culpado
poderiam ficar impunes depois de sua farsa; de um pecado repetidas vezes, sem dúvida
mentiram aos irmãos em Cristo e aos líderes encontrará a força e o poder de que precisa
da igreja; e tentaram mentir para o Espírito para vencer esse pecado se receber estímu-
Santo. O resultado foi julgamento e morte. lo de irmãos amorosos e clementes. Ao con-
Deus pode não dar cabo de todos os hipócri- denar um irmão, só o incentivamos a mostrar
tas da Igreja hoje, mas, sem dúvida alguma, o que tem de pior. Mas, ao criar um ambiente
a hipocrisia contribui para a desintegração de amor e de perdão, podemos ajudar Deus
da Igreja. a revelar o que há de melhor nesse irmão.
O segundo problema interno (At 6) dizia A parábola ilustra o poder do perdão. É
respeito à negligência. Os membros e líde- importante observar que essa parábola não
res enfrentaram esse problema com sinceri- é sobre a salvação, pois a salvação é total-
dade e amor, e o resultado foi uma bênção. mente incondicional e gratuita. Transformar
O amor e a verdade são essenciais, mas o perdão de Deus em algo temporário é vio-
ambos devem ser usados com humildade. lar a própria verdade das Escrituras (Rm 5:8;
Ef 2:8, 9; Tt 3:3-7). A parábola trata do per-
3 . PERDÃO ( M T 1 8 : 2 1 - 3 5 ) dão entre irmãos, não entre os pecadores e
Quando começamos a viver num ambiente Deus. A ênfase deste capítulo é sobre irmãos
de humildade e de honestidade, devemos perdoando irmãos (Mt 18:15, 21).
esperar alguns riscos e perigos. Se a humil- Era um devedor (vv. 23-27). O homem
dade e a honestidade não resultarem em da parábola estava roubando do rei e, de-
perdão, os relacionamentos não podem ser pois de uma auditoria contábil, seu crime
reparados e fortalecidos. Pedro reconheceu foi descoberto. A arrecadação total dos im-
os riscos envolvidos e perguntou a Jesus postos na Palestina daquele tempo era de
como poderia lidar com eles no futuro. oitocentos talentos anuais, de modo que
Sua pergunta, porém, revelou alguns podemos ter uma idéia da desonestidade
erros graves. Para começar, faltou-lhe humil- desse homem. Se atualizado, esse valor pro-
dade. Estava certo de que seu irmão pecaria vavelmente eqüivaleria a mais de dez milhões
contra ele novamente, mas achou que ele de dólares.
não ofenderia seu irmão! O segundo erro Porém, o homem pensou ser possível li-
de Pedro foi pedir limites e medidas. Onde vrar-se dessa dívida e disse ao rei que seria
há amor, não há limites nem dimensões (Ef capaz de saldá-la, caso tivesse mais tempo.
3:17-19). Pedro pensou estar demonstran- Vemos aqui dois pecados: orgulho e falta
do grande fé e amor ao se oferecer para de arrependimento sincero. O homem não
MATEUS 1 8 87

estava c o m vergonha por ter roubado o di- c o n d e n a d a . Afinal, foi o pai q u e m abusou
nheiro, mas sim por ter sido d e s c o b e r t o . do outro servo e ignorou a b o n d a d e do rei.)
A l é m disso, se considerava poderoso o su- A pior prisão do m u n d o é a prisão de
ficiente para ganhar o dinheiro q u e havia um c o r a ç ã o rancoroso. Se nos recusarmos
r o u b a d o . C o n v é m lembrar q u e , n a q u e l e a p e r d o a r os outros, tornamo-nos nossos
tempo, um h o m e m do p o v o precisava tra- próprios carcereiros e a causa dos tormen-
balhar vinte anos para receber um talento. tos q u e sofremos. Algumas das pessoas mais
S e u caso não tinha solução, exceto por infelizes c o m as quais me d e p a r o no minis-
um detalhe: o rei era um h o m e m compassi- tério são indivíduos incapazes de perdoar
vo. A c e i t o u o prejuízo e p e r d o o u o servo. os outros. V i v e m para imaginar formas de
Assim, o h o m e m ficou livre, e ele e sua famí- castigar os q u e os feriram. Na verdade, po-
lia não seriam j o g a d o s na prisão. O servo rém, estão apenas prejudicando a si mesmos.
não merecia ser perdoado; o perdão foi um Q u a l era o problema desse h o m e m ? O
ato do mais puro amor e misericórdia por m e s m o de muitos cristãos professos: pessoas
parte de seu senhor. desse tipo receberam o perdão, mas n ã o
Era um credor (vv. 28-30). O servo dei- experimentaram esse p e r d ã o no mais pro-
xou a p r e s e n ç a do rei e, posteriormente, fundo do coração. Assim, são incapazes de
e n c o n t r o u outro servo q u e lhe devia c e m compartilhar o perdão c o m aqueles q u e os
denários. U m trabalhador c o m u m ganhava ofendem. Q u a n d o v i v e m o s apenas de acor-
cerca de cinco centavos por dia, de m o d o do c o m a justiça, sempre buscando o q u e
q u e essa quantia era insignificante, se com- nos é de direito, c o n d e n a m o - n o s a v i v e r
parada à q u e o primeiro servo havia rouba- n u m a prisão. M a s s e v i v e r m o s d e a c o r d o
do de seu senhor. Em vez de compartilhar c o m o perdão, compartilhando c o m os ou-
c o m esse amigo a alegria do p e r d ã o q u e tros aquilo q u e D e u s nos c o n c e d e u , des-
havia recebido, o servo p e r d o a d o maltratou- frutaremos de alegria e de liberdade. Pedro
o e exigiu q u e pagasse a dívida. O segundo pediu uma medida justa, e Jesus lhe disse
servo usou o m e s m o argumento q u e o pri- para praticar o perdão e esquecer a medida.
meiro havia usado c o m o rei: "Tenha paciên- A admoestação de Jesus é extremamen-
cia comigo, e eu lhe pagarei o q u e d e v o ! " te séria. Ele não disse q u e D e u s salva apenas
M a s o servo injusto não estava disposto a os q u e p e r d o a m os outros. O t e m a desta
c o n c e d e r a outros aquilo q u e desejava q u e parábola não é a salvação dos pecadores,
lhe c o n c e d e s s e m . mas sim o perdão entre irmãos. Jesus adver-
Talvez tivesse o direito legal de jogar esse te q u e D e u s não p o d e nos perdoar se não
h o m e m na prisão, mas não tinha o direito tivermos um coração humilde e contrito. É
moral. U m a v e z q u e havia sido perdoado, pela forma de tratar os outros q u e revela-
não deveria t a m b é m perdoar seu próximo? mos a verdadeira c o n d i ç ã o de nosso cora-
S u a família e ele haviam sido poupados da ç ã o . Q u a n d o nosso c o r a ç ã o é h u m i l d e e
vergonha e do sofrimento da prisão. A c a s o contrito, p e r d o a m o s n o s s o s i r m ã o s c o m
não deveria t a m b é m poupar o outro servo prazer. M a s o n d e há orgulho e desejo de
e sua família? vingança n ã o p o d e haver verdadeiro arre-
Tornou-se um prisioneiro (w. 31-34). O pendimento, o q u e significa, também, q u e
rei o havia livrado da prisão, mas o servo D e u s não p o d e nos perdoar.
c o n d e n o u a si mesmo, exercendo justiça e Em outras palavras, n ã o basta receber o
j o g a n d o o a m i g o na prisão. " V o c ê deseja perdão de D e u s ou m e s m o o p e r d ã o dos
viver segundo a justiça?", perguntou o rei. outros. D e v e m o s experimentar esse perdão
" E n t ã o v a m o s fazer justiça! J o g u e m este no coração, de m o d o a nos tornarmos humil-
h o m e m perverso na prisão e torturem-no! des, mansos e clementes para c o m os outros.
Farei c o m ele o m e s m o q u e ele fez c o m os O servo desta parábola não experimentou
outros!" (O texto n ã o dá qualquer indica- o perdão e a humildade de maneira mais
ç ã o de q u e a família t a m b é m tenha sido profunda; simplesmente ficou feliz por ter
88 MATEUS 8-9

escapado de uma grande enrascada. Nunca perdoou" (Ef 4:32). "Suportai-vos uns aos ou-
chegou a se arrepender de fato. tros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém
"Antes, sede uns para com os outros be- tenha motivo de queixa contra outrem. As-
nignos, compassivos, perdoando-vos uns aos sim como o Senhor vos perdoou, assim tam-
outros, como também Deus, em Cristo, vos bém perdoai vós" (Cl 3:13).
companheira q u e fosse sua igual e c o m a
qual pudesse experimentar a plenitude.
O casamento permite a perpetuação da
raça humana. " S e d e fecundos, multiplicai-
v o s " ( G n 1:28) foi o m a n d a m e n t o de D e u s
ao primeiro casal. D e s d e o c o m e ç o , D e u s
o r d e n o u q u e o sexo fosse praticado dentro
da relação comprometida do casamento.
Fora do c a s a m e n t o , o sexo torna-se u m a
força destrutiva, mas dentro do compromis-
so amoroso do matrimônio, p o d e ser criati-
vo e construtivo.

O período de "afastamento" do Rei es-


tava prestes a terminar. Os ataques de
seus inimigos se tornariam mais intenso, cul-
O casamento é uma das formas de evi-
tar pecados sexuais (1 Co 7:1-6). É evidente
q u e um h o m e m não d e v e se casar apenas
minando c o m sua prisão e crucificação. Os para legalizar sua c o n c u p i s c ê n c i a ! A q u e l e
líderes religiosos já haviam tentado, sem su- q u e se entrega aos desejos lascivos antes
cesso, pegá-lo em suas armadilhas, usando do casamento, certamente, continuará a fa-
perguntas sobre o sábado e sobre sinais. Ten- zer o m e s m o depois. Esse tipo de pessoa
taram n o v a m e n t e , dessa v e z c o m o t e m a n ã o d e v e ter a ilusão de q u e o casamento
extremamente polêmico do divórcio. resolverá todos os seus problemas pessoais
Trata-se d e u m a q u e s t ã o i g u a l m e n t e c o m a lascívia. No entanto, o casamento é
importante e controversa nos dias de hoje. a forma q u e D e u s criou para o h o m e m e a
O n ú m e r o de divórcios continua a crescer mulher desfrutarem, em conjunto, os praze-
(quando da publicação desta obra, a estatís- res físicos do sexo.
tica nos Estados U n i d o s era de 1 divórcio Paulo usa o casamento c o m o ilustração
para c a d a 1,8), e o divórcio infiltrou-se até da relação íntima entre Cristo e a Igreja (Ef
nos lares de líderes cristãos. A l g u é m comen- 5:22, 23). Assim c o m o Eva saiu da costela
tou q u e os casais "se casam para o q u e der de A d ã o ( G n 2:21), t a m b é m a Igreja nasceu
e vier, mas nunca para sempre". D e v e m o s do sofrimento e m o r t e de Cristo na cruz.
e x a m i n a r n o v a m e n t e o q u e Jesus ensina Cristo a m a sua Igreja; ele a purifica, cuida
sobre esse assunto. O Mestre explica qua- dela e a nutre c o m sua Palavra. A relação de
tro leis c o m respeito ao c a s a m e n t o e ao Cristo c o m sua Igreja é o exemplo a ser se-
divórcio. guido por todos os maridos.
As características do casamento. Ao
1. A LEI O R I G I N A L DA C R I A Ç Ã O retornar à lei original do Éden, Jesus lembra
( M t 19:3-6) seus ouvintes das verdadeiras características
Em v e z de voltar a Deuteronômio, Jesus vol- do casamento. Se mantivermos vivas na
tou a Gênesis. Aquilo q u e D e u s fez q u a n d o m e m ó r i a essas características, s a b e r e m o s
instituiu o primeiro c a s a m e n t o ensina, por c o m o construir um casamento mais feliz e
afirmação, o q u e ele imaginava para um ho- duradouro.
m e m e u m a mulher. Ao construir um casa- É uma união instituída por Deus. D e u s
mento segundo o padrão ideal de Deus, não instituiu o c a s a m e n t o , assim s o m e n t e ele
é preciso preocupar-se c o m o divórcio. p o d e controlar seu caráter e suas leis. N ã o
Os motivos para o casamento. A única há legislação ou tribunal c a p a z de anular
coisa q u e n ã o foi considerada " b o a " na cria- aquilo q u e D e u s instituiu.
ç ã o foi o fato de o h o m e m estar sozinho É uma união física. O h o m e m e a mulher
( G n 2:18). A mulher foi criada para suprir tornam-se " u m a só carne". Apesar de ser im-
essa necessidade. A d ã o não poderia ter co- portante que o marido e a esposa tenham uma
m u n h ã o c o m os animais. Precisava de uma só mente e coração, a união fundamental
90 M A T E U S 1 9:1 -1 5

do casamento é física. Se um homem e uma ao povo de Israel e não se aplica à Igreja de


mulher se tornassem " u m só espírito" no hoje). Não se deve imaginar que, por viver-
casamento, a morte não poderia dissolver o mos "sob a graça", poderemos fazer pouco
casamento, pois o espírito nunca morre. da lei de Deus e escapar impunes. "Deus
Mesmo se um homem e uma mulher discor- julgará os impuros e adúlteros" (Hb 13:4).
dam, são "incompatíveis" e não conseguem No entanto, em sua discussão sobre o
entender-se, continuam sendo casados, pois adultério, Jesus tocou um nível muito mais
a união é física. profundo. Mostrou que pode ser um peca-
Ê uma união permanente. A intenção ori- do tanto do coração quanto do corpo. Não
ginal de Deus era que um homem e uma basta simplesmente controlar o corpo; de-
mulher passassem a vida juntos. A idéia de vemos também controlar os pensamentos e
"morar juntos para ver se dá certo" não faz desejos interiores. Olhar para uma mulher
parte da lei original de Deus, pois ele exige com desejos lascivos é cometer adultério no
que o marido e a esposa comprometam-se coração. Isso não significa que não pode-
irrestritamente com a união do casamento. mos admirar a beleza de uma pessoa ou de
É uma união entre um homem e uma uma fotografia, pois é possível fazer isso sem
mulher. Deus não criou dois homens e duas pecar. É quando olhamos com a intenção
mulheres, ou duas mulheres e um homem, de satisfazer desejos lascivos que comete-
somente dois homens ou somente duas mos adultério no coração.
mulheres. Não importa o que psicólogos e Uma vida sexual santificada começa com
juristas digam, a poligamia, a união entre gays os desejos mais íntimos. Jesus escolhe como
e outras variações são contrárias à vontade exemplos o olho e a mão, pois ver e sentir
de Deus. são geralmente os primeiros passos em dire-
ção ao pecado sexual. É evidente que não
2. O SÉTIMO MANDAMENTO ( M T 5 : 2 7 - 3 0 ) ordenou que fizéssemos uma cirurgia física,
Apesar de Jesus não se referir ao sétimo pois estava tratando claramente dos dese-
mandamento nessa discussão, ele é citado jos interiores. Antes, ordenou que tomemos
no Sermão do Monte (Mt 5:27-32). Vamos medidas drásticas para tratar do pecado, a
examinar o que disse. fim de remover de nossa vida qualquer coi-
Tanto Jesus quanto os autores do Novo sa que alimente nossos desejos impuros.
Testamento asseveram a autoridade da Devemos "ter fome e sede de retidão".
injunção: "Não adulterarás" (Êx 20:14). O ter- Jesus não alterou a lei do Éden com re-
mo impureza e seus correlatos referem-se a lação ao casamento nem anulou o sétimo
vários tipos de atividades sexuais (ver Mc mandamento. O que ensinou encontrava-se
7:21; Rm 1:29; 1 Co 6:13), mas o adultério solidamente fundamentado na criação de
diz respeito somente a indivíduos casados. Deus e na lei moral divina.
Quando uma pessoa casada tem relações
sexuais com outra pessoa que não seja seu 3. A LEI MOSAICA ACERCA DO DIVÓRCIO
cônjuge, isso é adultério, e Deus declarou ( M T 19:7, 8)
que é errado e pecaminoso. O Novo Testa- Como tantas pessoas que gostam de "dis-
mento traz inúmeras advertências sobre os cutir religião", os fariseus não estavam in-
pecados sexuais, inclusive o adultério (At teressados em descobrir a verdade, mas
15:20; 1 Co 6:15-18; Gl 5:19ss; Ef 4:1 7ss; apenas em defender a si mesmos e suas con-
5:3-12; Cl 3:5; 1 Ts 4:3-7; Hb 13:4). vicções. Foi esse desejo que os levou a
Esse mandamento assevera a santida- perguntar sobre a lei judaica do divórcio
de do sexo. Deus criou o casamento, o pro- registrada em Deuteronômio 24:1-4.
tege e castiga quando sua lei é violada. Nove Algumas versões da Bíblia deixam claro
dos dez mandamentos são repetidos no An- que Moisés deu apenas um mandamento: a
tigo Testamento, e devemos atentar para eles esposa divorciada não poderia voltar para o
(o mandamento do sábado foi dado somente primeiro marido, caso fosse rejeitada pelo
M A T E U S 19:1-15 91

segundo marido. Moisés não ordenou o di- descritos em N ú m e r o s 5:1 Iss. N ã o se p o d e


vórcio; apenas o permitiu. O r d e n o u que o mais seguir esses procedimentos (que, sem
marido desse à ex-esposa uma carta de di- dúvida, incluíam elementos de julgamento
vórcio; mas, caso a esposa se casasse e se divino), pois não há mais sacerdócio n e m
divorciasse novamente, não poderia voltar tabernáculo.
ao primeiro marido. É importante lembrar q u e a lei de M o i s é s
Trata-se de uma lei extremamente sábia, determinava a pena de morte para os q u e
pois, para começar, o marido pensaria duas cometessem adultério (Lv 20:10; Dt 22:22).
vezes antes de se livrar apressadamente de O s inimigos d e Jesus lançaram m ã o dessa
sua esposa, uma v e z q u e não poderia tê-la lei q u a n d o tentaram armar uma cilada para
de volta. A l é m disso, levaria tempo para achar ele ( J o 8:1). E m b o r a n ã o haja registro no
um escriba ( n e m todos podiam redigir do- Antigo Testamento de q u e alguém tenha sido
cumentos legais) e, durante esse período, o apedrejado por cometer adultério, essa era
casal s e p a r a d o poderia s e reconciliar. O s a lei divina. A experiência de José ( M t 1:18-
f a r i s e u s e s t a v a m i n t e r p r e t a n d o a lei de 25) indica que, ao tratarem de esposas adúl-
M o i s é s c o m o se fosse um mandamento. Je- teras, os judeus usavam o divórcio em v e z
sus deixa claro q u e M o i s é s estava a p e n a s do apedrejamento.
d a n d o permissão para o divórcio. Por q u e D e u s o r d e n o u q u e a pessoa
M a s a q u e M o i s é s se referia c o m as pa- adúltera fosse morta por apedrejamento? Por
lavras "ter ele a c h a d o coisa indecente nela"? certo, para servir de exemplo e para advertir
No hebraico, isso quer dizer "alguma ques- as pessoas, pois o adultério c o r r o m p e a es-
tão de nudez", mas não se refere a p e c a d o trutura da sociedade e da família. A fim de
sexual. Trata-se de um equivalente a "algo haver estabilidade na sociedade e na igreja,
vergonhoso" (ver Gn 2:25; 3:7, 10). A inter- é preciso haver compromisso no casamen-
pretação dessa frase foi a causa da divisão to e fidelidade do marido para c o m a espo-
q u e d e u origem às escolas do rabino Hillel sa b e m c o m o do casal para c o m o Senhor.
e do rabino S h a m m a i , estudiosos j u d e u s Era necessário q u e D e u s preservasse Israel,
conceituados do primeiro século. Hillel se- pois o Salvador prometido descenderia dessa
guiu uma linha bastante liberal e afirmou q u e nação. D e u s opôs-se ao divórcio em Israel,
o marido poderia divorciar-se da esposa por pois enfraquecia a nação e representava uma
quase qualquer razão, e n q u a n t o S h a m m a i a m e a ç a para o nascimento do Messias (ver
seguiu uma linha mais rigorosa, afirmando Ml 2:10-16).
q u e M o i s é s estava falando somente de pe- No entanto, havia outro motivo para a
c a d o sexual. Q u a l q u e r lado q u e Jesus esco- pena capital: deixava o cônjuge fiel livre para
lhesse tomar partido seria motivo de ofensa se casar novamente. A morte rompe os la-
para alguém. ços do casamento, pois o casamento é uma
Os judeus possuíam várias leis referen- união física ( R m 7:1-3). Era importante q u e
tes ao casamento e d e v e m o s examiná-las, a as famílias tivessem continuidade em Israel,
fim de ter uma melhor perspectiva. Se, por a fim de que pudessem proteger sua heran-
exemplo, um h o m e m se casasse e desco- ça ( N m 36).
brisse q u e sua esposa n ã o era virgem, podia Antes de passar para a seção seguinte,
tornar público o p e c a d o da mulher e pro- c o n v é m o b s e r v a r um fato i m p o r t a n t e : o
v i d e n c i a r para q u e fosse a p e d r e j a d a ( D t divórcio que M o i s é s autoriza em Deutero-
22:13-21). É evidente q u e deveria ter pro- nômio 24, na verdade, representa um rompi-
vas disso, pois, do contrário, teria de pagar mento da relação matrimonial original. D e u s
uma multa e não poderia jamais se divorciar permitia q u e a mulher se casasse novamente,
da esposa. Essa lei protegia tanto o h o m e m e esse segundo casamento n ã o era conside-
quanto a mulher. rado uma forma de adultério. S e u segundo
Se um h o m e m suspeitasse de infidelidade companheiro era c h a m a d o de "marido", não
da esposa, deveria seguir os procedimentos de adúltero. Isso explica c o m o foi possível a
92 M A T E U S 1 9:1-1 5

mulher samaritana ter tido cinco maridos e, O casamento é uma união física perma-
ainda assim, estar vivendo com um homem nente que só pode ser rompida por uma
que não era seu marido (Jo 4:16-18). Ao que causa física: morte ou pecado sexual (a meu
parece, os cinco casamentos anteriores ha- ver, o homossexualismo e a bestialidade tam-
viam sido legais e de acordo com as Escrituras. bém se aplicam). Os seres humanos não
Isso significa que o divórcio legal rompe podem romper a união, mas Deus pode. Sob
o relacionamento matrimonial. O homem a lei do Antigo Testamento, o pecador era
não pode romper esse relacionamento com apedrejado até a morte. Mas a igreja de hoje
suas próprias leis, mas Deus pode. O mes- não empunha a espada (Rm 13:1-4). Acaso
mo Deus que dá as leis para unir as pessoas o adultério e a impureza sexual eram mais
também pode dar leis para separá-las. Trata- sérios sob a lei do que o são hoje? Claro que
se de algo que só pode ser feito por Deus, não! Hoje, tais pecados são ainda piores,
nunca pelos homens. quando consideramos a revelação comple-
Por fim, Jesus deixa claro que a lei ta da graça e santidade de Deus que temos
mosaica do divórcio era uma concessão da agora em Jesus Cristo.
parte de Deus. A lei original de Deus quan- Ao que parece, podemos concluir que
to ao casamento não deixava espaço para o o divórcio no Novo Testamento é o equiva-
divórcio, mas essa lei começou a vigorar lente à morte no Antigo Testamento: libera
antes de o homem pecar. Em lugar de ter o cônjuge inocente para se casar novamente.
duas pessoas vivendo juntas em conflito É importante observar que a nova lei de
constante, com um dos cônjuges ou ambos casamento e divórcio instituída pelo Senhor
procurando satisfação fora do casamento, tem como fundamento três leis anteriores.
Deus preferiu permitir o divórcio. Esse divór- Da lei do Éden, Jesus pegou o princípio de
cio incluía o direito de se casar novamente. que o casamento é uma união física que
Os fariseus não perguntaram sobre a possi- somente pode ser rompida por uma causa
bilidade de casar novamente, pois esse não física e que apenas Deus tem poder de per-
era o problema. Aceitavam o fato de que as mitir o rompimento da união. Do sétimo
duas partes divorciadas procurariam outros mandamento, pegou o princípio de que o
cônjuges e de que isso era permitido por pecado sexual rompe, de fato, a união do
Moisés. casamento. E da lei mosaica do divórcio,
pegou o princípio de que Deus pode orde-
4. A LEI DO S E N H O R ACERCA DO nar o divórcio e romper a união, e a parte
CASAMENTO ( M T 1 9 : 9 - 1 2 ; 5 : 3 1 , 3 2 ) livre pode casar-se novamente sem ser cul-
C o m as palavras: "Eu, porém, vos digo", Je- pada de adultério.
sus está afirmando ser Deus, pois somente Assim, Jesus ensina que há somente
Deus pode instituir ou alterar as leis do ca- uma base legal para o divórcio: as relações
samento. Declara que o casamento é uma sexuais ilícitas. Se duas pessoas se divor-
união permanente que só pode ser rompi- ciarem sob qualquer outro pretexto e se
da por causa de pecado sexual. A palavra casarem com outra pessoa, estarão come-
impureza, no Novo Testamento, abrange tendo adultério.
vários tipos de pecados sexuais, e sua defi- Jesus não ensinou que o cônjuge ofendi-
nição como fornicação ou "pecado sexual do deve se divorciar. Sem dúvida, há espaço
entre duas pessoas não casadas" não se para o perdão, para a cura e para a restaura-
aplica a esse caso, pois Jesus está se refe- ção do relacionamento rompido. Essa deve
rindo a pessoas casadas. Devemos imagi- ser a abordagem cristã da questão. Infe-
nar que os 23 mil homens que se entrega- lizmente, porém, por causa da dureza do
ram à lascívia em Baal-Peor (Nm 25) eram coração humano, há ocasiões em que se
todos solteiros? E a admoestação de Atos torna impossível curar as feridas e salvar o
15:20, 29 refere-se apenas aos membros casamento. O divórcio é o último recurso,
solteiros da igreja? não a primeira opção.
9 3 M A T E U S 2 41-44
:

C a s a m e n t o s felizes n ã o são acidentes, de seus pais idosos p o d e ser um exemplo


mas sim resultado de compromisso, amor, dessa categoria. Outros, c o m o o apóstolo
c o m p r e e n s ã o mútua, sacrifício e trabalho Paulo, p e r m a n e c e m solteiros para m e l h o r
duro. Se um m a r i d o e u m a esposa estão servir ao Senhor (1 Co 7:7).
cumprindo os votos de seu casamento, des- É bastante a p r o p r i a d o q u e os ensina-
frutarão d e u m r e l a c i o n a m e n t o c a d a v e z mentos de Jesus acerca do c a s a m e n t o se-
mais profundo q u e os satisfará e os manterá j a m seguidos da b ê n ç ã o às crianças, pois as
fiéis um ao outro. Exceto pela possibilidade crianças são a herança maravilhosa dos q u e
de uma tentação repentina, n e n h u m marido se casam. Jesus não considerou as crianças
ou esposa cogitaria ter um relacionamento uma maldição o u u m fardo. " D e m o d o q u e
extraconjugal, visto q u e seu relacionamen- já não são mais dois, p o r é m uma só c a r n e "
to em casa é c a d a vez melhor e satisfatório. - esse c o n c e i t o se c u m p r e na geração de
E o a m o r puro do marido e da esposa é uma filhos, e o a m o r dos pais aprofunda-se e ama-
excelente proteção até m e s m o contra ten- durece ao ser compartilhado c o m os outros
t a ç õ e s repentinas. membros da família.
A reação dos discípulos aos ensinamen- Os pais levaram as crianças a Jesus para
tos de Cristo mostrou q u e não c o n c o r d a v a m q u e fossem abençoadas. Essa passagem n ã o
c o m ele. " S e não há n e n h u m jeito de pular se refere, de maneira alguma, ao batismo
fora de um casamento horrível, então é me- n e m m e s m o à salvação, pois as crianças q u e
lhor p e r m a n e c e r solteiro!", argumentaram. ainda não são capazes de prestar contas de
Jesus não queria q u e eles considerassem o seus atos (Is 7:16) sem dúvida alguma são
divórcio uma " s o l u ç ã o " , pois, se o fizessem, salvas pela morte de Cristo ( R m 5:1 7-21). As
n ã o tratariam o c a s a m e n t o c o m a devida crianças n a s c e m p e c a d o r a s (SI 51:5), m a s
seriedade. se morrem antes de poder prestar contas de
Em M a t e u s 19:12, Jesus deixa claro q u e seus atos, são regeneradas e levadas para o
cada h o m e m (e mulher) d e v e considerar a c é u (2 Sm 12:23; SI 23:6).
v o n t a d e d e D e u s c o m respeito a o casamen- Essas crianças q u e Jesus pegou no colo
to. Algumas pessoas não d e v e m se casar por e pelas quais orou certamente foram privi-
causa de problemas físicos ou emocionais legiadas. O costume atual de consagrar nos-
congênitos. O u t r o s não d e v e m se casar por sos filhos ao S e n h o r p r o c u r a seguir esse
causa de suas responsabilidades para c o m exemplo. C o m o são felizes as crianças cujos
a s o c i e d a d e - aqueles que foram feitos pais estão casados na v o n t a d e de Deus, pro-
" e u n u c o s pelos h o m e n s " ( M t 19:12). U m a curam o b e d e c e r ao Senhor e as levam até
filha ou filho único q u e d e v e tomar conta Jesus para serem abençoadas.
líderes religiosos na história, então suas pa-
lavras não têm mais peso do que qualquer
outro líder religioso. Mas se Jesus é bom,
então ele é Deus, e devemos atentar para o
que ele diz.
Por que Jesus trouxe à baila a questão
dos mandamentos? Acaso ensinou que as
pessoas recebem a vida eterna ao obede-
cer à lei de Deus? Se alguém fosse capaz de
guardar os mandamentos, certamente rece-
beria a vida eterna. Acontece, porém, que
ninguém consegue guardar a lei de Deus

N ão podemos seguir o Rei sem pagar


um preço. Afinal, ele morreu na cruz
por nós! Temos, por acaso, o direito de es-
perfeitamente, "visto que ninguém será
justificado diante dele por obras da lei, em
razão de que pela lei vem o pleno conhe-
capar do sacrifício e do sofrimento? Nesta cimento do pecado" {Rm 3:20). Jesus não
seção, Jesus explica aquilo que exige introduziu o assunto da lei para mostrar ao
justificadamente dos que desejam crer nele jovem como ser salvo, mas para mostrar-lhe
e ser seus discípulos. que precisava ser salvo. A lei é um espelho
que revela quem somos (Tg 1:22ss).
1. D E V E M O S AMAR A CRISTO ACIMA DE "Quais [mandamentos]?" (vv. 18, 19).
TODAS AS COISAS ( M T 1 9 : 1 6 - 2 6 ) Será que o jovem estava sendo evasivo?
Este acontecimento é relatado nos três pri- Creio que não, mas estava cometendo um
meiros Evangelhos. Quando combinamos os erro, pois uma parte da lei de Deus não pode
fatos, vemos que o homem era rico, jovem ser separada da outra. Classificar a lei de
e ocupava uma posição de liderança - pro- Deus em "menor" ou "maior" é interpretar
vavelmente era o chefe da sinagoga. Pode- incorretamente todo o propósito da lei. "Pois
mos, sem dúvida alguma, elogiá-lo por ter qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça
procurado Cristo publicamente para pergun- em um só ponto, se torna culpado de to-
tar sobre questões exteriores. Ao que pare- dos" (Tg 2:10). A lei representa a autoridade
ce, não tinha segundas intenções e estava de Deus, e desobedecer ao que pensamos
disposto a ouvir e a aprender. Infelizmente, ser uma lei menor é, ainda assim, rebelar-se
porém, tomou a decisão errada. contra a autoridade do Senhor.
"Mestre, que farei eu de bom, para al- Por certo, o jovem estava pensando so-
cançar a vida eternat" ( w . 16, 17). Apesar mente na obediência exterior, pois se esque-
de sua abordagem à salvação ter por base ceu das atitudes do coração. Jesus havia
as obras, não a fé, fica claro que o jovem ensinado no Sermão do Monte que odiar
estava sendo sincero. Sua maneira de enca- era o equivalente moral de cometer assassi-
rar a salvação não era diferente daquela de nato, e que a lascívia correspondia moral-
outros judeus de seu tempo. No entanto, mente ao adultério. Era muito bom o jovem
apesar de sua posição na sociedade, sua ter bons costumes e uma moral elevada, mas,
moralidade e sua religião, ele sentia clara infelizmente, não percebeu seu pecado nem
necessidade de algo mais. se arrependeu e creu em Cristo.
A resposta de Jesus, porém, não se con- Jesus não citou o mandamento que se
centrou na salvação, mas levou o jovem a aplicava especificamente ao jovem: " N ã o
pensar seriamente sobre o significado da pa- cobiçarás" (Êx 20:17). O rapaz deveria ter
lavra "bom" que havia usado ao se dirigir a refletido a respeito de todos os mandamen-
Jesus. "Bom só existe um", disse Jesus. "Você tos e não apenas daqueles que Jesus citou.
crê que eu sou bom e, portanto, que sou Será que estava procurando um discipulado
Deus?" Se Jesus é apenas mais um dos muitos fácil? Ou talvez sendo desonesto consigo
M A T E U S 19:16 - 2 0 : 3 4 95

mesmo? Acredito que, a seu próprio ver, seu pensa n e m no m e d o do castigo; antes, é
testemunho foi sincero. No entanto, ele não m o t i v a d o p e l o amor. Em sua v i d a e seus
permitiu q u e a iuz da Palavra penetrasse mais ensinamentos, Jesus p r o c u r o u mostrar às
a fundo. Jesus sentiu um amor repentino pelo pessoas q u e as b ê n ç ã o s espirituais interio-
j o v e m ( M c 10:21), d e m o d o q u e continuou res são muito mais importantes do q u e o
tentando ajudá-lo. lucro material. D e u s vê o c o r a ç ã o e quer
"Que me falta aindai" ( w . 20-22). Em construir o caráter. A salvação é uma dádiva
parte alguma da Bíblia somos ensinados q u e de D e u s em resposta à fé do ser humano.
um p e c a d o r é salvo ao vender seus bens e As riquezas materiais não são garantia de
doá-los a o s p o b r e s . J e s u s n u n c a disse a q u e D e u s se agrada de alguém.
N i c o d e m o s para fazer isso, n e m a qualquer U m a v e z q u e eram judeus zelosos, o s
outro p e c a d o r cuja história se encontre re- discípulos ficaram espantados c o m as decla-
gistrada nos Evangelhos. Jesus sabia q u e o rações de Jesus quanto às riquezas. A per-
rapaz era cobiçoso e amava as riquezas. Ao gunta q u e fazem reflete sua teologia: " S e
lhe pedir q u e desse tudo aos pobres, Jesus um h o m e m rico não p o d e ser salvo, então
o obrigou a examinar seu c o r a ç ã o e estabe- q u e esperança há para nós?" É evidente q u e
lecer suas prioridades. M e s m o c o m todas Jesus não disse q u e possuir bens materiais
as suas qualidades tão louváveis, o j o v e m constitui um i m p e d i m e n t o para entrar no
continuava n ã o a m a n d o a D e u s de todo o reino. Alguns manuscritos de M a r c o s 10:24
coração. Os bens eram seu deus, e foi inca- dizem " q u ã o difícil é para os que confiam
paz de o b e d e c e r à o r d e m : "vai, v e n d e ... nas riquezas entrar no reino de D e u s ! " Esse
v e m e segue-me". é, sem dúvida, o sentido dos ensinamentos
O j o v e m saiu muito angustiado, mas po- de Jesus. A b r a ã o era um h o m e m extrema-
deria ter saído alegre e em paz. É impossível mente rico e, ainda assim, foi um h o m e m
amar e servir a dois mestres ao m e s m o tem- de grande fé. É b o m possuir coisas mate-
po ( M t 6:24ss). P o d e m o s estar certos de que, riais, desde que as riquezas n ã o e x e r ç a m
longe de Cristo, até as possessões materiais domínio sobre nós.
da vida não proporcionam alegria e prazer N ã o p o d e m o s seguir o Rei e viver para
permanentes. É b o m ter coisas q u e o dinhei- as riquezas do mundo. N ã o p o d e m o s servir
ro p o d e comprar, desde que não percamos a D e u s e ao dinheiro. O amor ao dinheiro é
de vista aquilo q u e não p o d e ser comprado. a raiz de todos os males (1 Tm 6:6-10). Jesus
A menos q u e aquele líder abastado tenha, Cristo requer de todos os q u e desejam se-
posteriormente, se voltado para Cristo, mor- gui-lo um a m o r supremo.
reu s e m salvação e passou a ser um dos
h o m e n s mais "ricos" do cemitério. 2 . D E V E M O S O B E D E C E R A ELE S E M
"Quem pode ser salvoi" ( w . 23-26). O RESERVAS ( M T 1 9 : 2 7 - 2 0 : 1 6 )
povo j u d e u daqueles dias acreditava q u e a Pedro não tardou em perceber o contraste
riqueza era uma evidência das b ê n ç ã o s de entre o j o v e m rico e os discípulos pobres:
Deus. Para isso, tomavam por base as pro- "Eis q u e nós tudo deixamos e te seguimos;
messas dadas por D e u s à nação judaica no q u e será, pois, de nós?" ( M t 19:27). Jesus
c o m e ç o de sua história. Por certo, D e u s pro- lhes dá uma promessa maravilhosa de recom-
m e t e u b ê n ç ã o s materiais, c a s o seu p o v o pensas tanto nesta vida quanto na próxima.
fosse obediente, e t a m b é m perda material, Os discípulos teriam até m e s m o tronos no
caso d e s o b e d e c e s s e (ver Dt 26 - 28). No estabelecimento do reino de Cristo. Seriam
c o m e ç o da existência de seu povo, a única recompensados c e m vezes mais c o m tudo
forma eficaz de fazê-los o b e d e c e r era atra- de b o m q u e tivessem renunciado por amor
v é s de recompensas e castigos. É assim q u e a ele. Em outras palavras, n ã o estavam fazen-
ensinamos as crianças pequenas. do um sacrifício, mas sim um investimento.
No entanto, o grau mais elevado de obe- Entretanto, n e m todos os dividendos seriam
diência não se baseia no desejo de recom- recebidos nesta vida.
96 MATEUS 19:1 6 - 20:34

Jesus, porém, sentiu que havia na per- seu salário: quatro denários pelo dia de tra-
gunta de Pedro a possibilidade de uma balho. Quando os homens contratados ao
motivação errada para servir. Por isso, acres- meio-dia também receberam um denário,
centou a advertência de que alguém que se isso cortou o salário deles pela metade, ape-
considerasse o primeiro a seus próprios olhos nas dois denários.
seria o último no juízo final, enquanto os Mas, então, o dono da vinha pagou ape-
últimos seriam os primeiros. Essa verdade é nas um denário a cada um. E evidente que
exemplificada na parábola dos trabalhado- reclamaram! Mas não tinham como argu-
res na vinha. mentar, pois haviam concordado em tra-
Essa parábola não tem relação alguma balhar por um denário e receberam o que
com a salvação. O denário (um dia de tra- pediram. Se tivessem confiado na bondade
balho naquele tempo) não representa a sal- do proprietário, poderiam ter recebido um
vação, pois ninguém é capaz de trabalhar salário muito maior, mas insistiram num
para merecer sua salvação. Também não contrato.
trata de recompensas, pois não vamos re- A lição para os discípulos de Cristo fica
ceber todos a mesma recompensa. "Cada clara. N ã o devemos servi-lo por esperar
um receberá o seu galardão, segundo o seu recompensas nem insistir em saber o que
próprio trabalho" (1 Co 3:8). receberemos. Deus é infinitamente genero-
Antes, a parábola enfatiza a atitude cor- so e bondoso e sempre nos dará mais do
reta no serviço. É importante observar que que merecemos.
dois tipos diferentes de trabalhadores foram Agora podemos entender os perigos
chamados a trabalhar naquele dia: aqueles ocultos na pergunta de Pedro em Mateus
que fizeram um contrato com o emprega- 19:27. Em primeiro lugar, não devemos "su-
dor e concordaram em trabalhar por um por" (Mt 20:10) que receberemos mais quan-
denário ao dia e os que não fizeram contra- do, na verdade, não merecemos. É possível
to algum e concordaram em receber o que fazer o trabalho do Pai e, ainda assim, não
o proprietário achasse justo pagar. Os pri- fazer a vontade dele de coração (Ef 6:6).
meiros trabalhadores insistiram em fazer um Servi-lo apenas em função de benefícios
contrato. (temporais e eternos) é perder as melhores
Isso se explica porque o dono da casa bênçãos que ele tem para nós. Devemos
pagou os trabalhadores dos últimos para os confiar no Senhor sem reservas e crer que
primeiros: desejava que os chamados primei- sempre nos dará o melhor.
ro (que insistiram em ser contratados) vis- Há, ainda, o perigo do orgulho, " Q u e
sem quanto havia pago aos trabalhadores será, pois, de nós?", perguntou Pedro. Essa
chamados por último. Foi uma forma de parábola serviu para adverti-lo com a per-
mostrar aos primeiros quão generoso ele era. gunta: " C o m o v o c ê sabe que receberá
Podemos nos colocar no lugar dos tra- alguma coisa?" Em se tratando das recom-
balhadores chamados primeiro que só foram pensas de Deus, é melhor não ser excessi-
pagos por último. Todos esperavam receber vamente confiantes, pois aqueles que, a seus
um denário, pois era o que haviam concor- olhos (e aos olhos dos outros), estão em pri-
dado em aceitar. Imaginemos, então, a sur- meiro lugar podem terminar em último!
presa deles quando viram os trabalhadores Semelhantemente, não devemos desanimar,
que foram chamados por último receber tam- pois os que se consideram "servos inúteis"
bém um denário cada! Isso significava que podem terminar em primeiro lugar.
o salário dos primeiros deveria ser de pelos Devemos ter cuidado ao observar outros
menos doze denários cada! trabalhadores e comparar resultados. "Nada
Mas os trabalhadores das três da tarde julgueis antes do tempo"; essa é a advertên-
também receberam um denário - por apenas cia de Paulo em 1 Coríntios 4:5. Vemos ape-
três horas de trabalho. O homem que esta- nas o trabalho e o trabalhador, mas Deus vê
va por último na fila recalculou rapidamente o coração.
M A T E U S 1 9:1 6 - 20:34 97

Por fim, deve-se ter o c u i d a d o de não sabeis o que pedis", respondeu Jesus. Salomé
criticar a D e u s n e m de sentir-se prejudica- não sabia q u e o c a m i n h o até o trono era
do. Se os primeiros trabalhadores da ma- difícil. Tiago foi o primeiro dos discípulos a
drugada tivessem confiado no proprietário ser martirizado, e J o ã o teve de suportar um
e n ã o tivessem exigido um contrato, o d o n o exílio penoso na ilha de Patmos. Esses três
lhes teria d a d o muito mais. Era generoso, cristãos desejavam q u e se fizesse a vontade
mas n ã o confiaram nele. N ã o se alegraram deles, não a de Deus, e q u e tudo ocorresse
c o m os outros q u e r e c e b e r a m mais; pelo â maneira deles.
contrário, ficaram c o m inveja e reclamaram. O u t r o elemento que p o d e m o s observar
A b o n d a d e do d o n o não os levou ao arre- é a falta de visão celestial, pois estavam pen-
p e n d i m e n t o ( R m 2:4), mas revelou o verda- sando em termos mundanos: Tiago e J o ã o
deiro caráter d o c o r a ç ã o deles: egoísmo! desejavam "reinar" sobre os outros discípulos
S e m p r e q u e e n c o n t r a m o s um servo quei- da mesma forma que os gentios não salvos
xoso, significa q u e n ã o está inteiramente reinavam sobre seus subalternos. S e u pedi-
sujeito à v o n t a d e do mestre. do foi carnal e egoísta, pois estavam pedindo
glória para si mesmos, não para o Senhor.
3 . D E V E M O S CLORIFICÁ-LO S e m dúvida, ficaram contentes por terem
COMPLETAMENTE ( M T 2 0 : 1 7 - 3 4 ) conseguido apresentar seu pedido a Jesus
Pela terceira vez, Jesus anuncia sua prisão, antes q u e Pedro tivesse a oportunidade de
crucificação e ressurreição (ver Mt 16:21; fazê-lo!
1 7:22). Na d e c l a r a ç ã o anterior, não havia Por fim, o pedido não foi apenas mun-
especificado c o m o morreria. Mas, agora, fala d a n o e carnal, mas t a m b é m diabólico, pois
explicitamente da cruz. T a m b é m deixa cla- foi motivado pelo orgulho. Satanás almejou
ro q u e ressuscitaria, mas essa mensagem não um trono (Is 14:12-15) e foi expulso, e ofe-
penetra o c o r a ç ã o dos discípulos. receu a Jesus um trono q u e foi recusado ( M t
Em contraste a esse anúncio de sofrimen- 4:8-11). Satanás destaca o fim (um trono),
to e de morte, v e m o s o pedido de Tiago e mas não os meios para alcançá-lo. Jesus ad-
de J o ã o e da mãe deles, Salomé. Jesus falou vertiu S a l o m é e seus filhos de q u e os tronos
sobre uma cruz, mas eles estavam mais inte- especiais seriam c o n c e d i d o s s o m e n t e aos
ressados n u m a coroa. D e s e j a v a m reservar q u e fossem dignos deles. N ã o há atalhos no
para si tronos especiais! Temos a impressão reino de Deus.
de que era S a l o m é q u e m estava interessada O resultado desse pedido foi a "indigna-
em promover os filhos. ç ã o " da parte dos outros d e z discípulos -
A n t e s de criticar essa atitude, c o n v é m provavelmente porque não haviam pensado
o b s e r v a r m o s alguns e l e m e n t o s l o u v á v e i s nisso antes! A sabedoria celestial s e m p r e
q u e surgem nesse episódio. D e n t r e outras conduz à paz, e a sabedoria deste m u n d o
coisas, v e m o s q u e os discípulos acredita- conduz à guerra (Tg 3:13 - 4:3). O egoísmo
v a m na o r a ç ã o e tiveram c o r a g e m de crer p r o m o v e a dissensão e a divisão.
na promessa q u e Jesus havia d a d o sobre Esse d e s a c o r d o d e u a Jesus a oportu-
assentarem-se no trono ( M t 1 9:28). A pala- nidade de ensinar uma lição prática de li-
vra " r e g e n e r a ç ã o " , nesse versículo, signifi- derança. Em seu reino, não se d e v e seguir
ca " n o v o nascimento" e se refere ao n o v o os exemplos do mundo. Nosso exemplo é
m u n d o sobre o qual Jesus e seus seguido- Jesus, não algum diretor de empresa ou ce-
res reinarão q u a n d o ele voltar à Terra. Foi lebridade. Jesus veio c o m o servo, e assim
preciso fé para crer q u e Jesus estabeleceria devemos servir uns aos outros. V e i o para dar
esses tronos, pois seu M e s t r e havia acaba- sua vida, e d e v e m o s dedicar a nossa para
do de dizer q u e morreria. servir ao Senhor e aos outros.
No entanto, o pedido t a m b é m se mos- A palavra servo em M a t e u s 20:27 signifi-
tra equivocado em vários aspectos. Em pri- ca " u m escravo" e dá origem a nosso termo
m e i r o lugar, n a s c e u d a ignorância. " N ã o diácono. N e m todo servo é escravo, mas
98 MATEUS 1 9 :1 6 - 20:34

todo escravo é servo. É triste ver na igreja 19:25: "E junto à cruz estavam a mãe de
hoje muitas celebridades, mas poucos servos. Jesus, e a irmã dela"), participando da dor e
Há muitos querendo "exercer autoridade" (Mt sofrimentos dele. Ela não viu Jesus ladeado
20:25), mas poucos dispostos a pegar a ba- de tronos, mas sim de dois ladrões em suas
cia e a toalha para lavar os pés dos outros. cruzes. Ouviu Jesus dar João, o filho dela, a
A chave para a grandeza não está na Maria, a mãe dele. O egoísmo de Salomé
posição ou no poder, mas no caráter. Não foi censurado, e ela aceitou humildemente
recebemos um trono apenas orando com a correção.
os lábios, mas sim pagando com a vida. De- O acontecimento final de Mateus 20 é
vemos nos identificar com Jesus Cristo em a cura de Bartimeu e de seu amigo, ambos
seu serviço e sofrimento, pois nem mesmo cegos (ver Mc 10:46-52). Aqui, Jesus coloca
ele pôde alcançar o trono sem antes passar em prática aquilo que havia acabado de
pela cruz. O melhor comentário sobre isso ensinar a seus discípulos e se torna um ser-
pode ser encontrado em Filipenses 2:1-18. vo desses dois mendigos cegos. A multidão
A fim de aprimorar a oração, é preciso ao redor de Jesus tentou fazer os dois ho-
aperfeiçoar o serviço. Ao servir a Jesus e aos mens se calarem. Afinal, que direito tinham
outros, nossas orações não são egoístas. de se dirigir ao grande Mestre? Mas Jesus
Quem diz com sinceridade: "Fala, Senhor, teve compaixão deles e os curou. Serviu até
porque teu servo ouve", então ele diz: "Fala, mesmo os mendigos.
servo, pois teu Senhor te escuta". Se nossas Este capítulo apresenta preceitos difíceis
orações não nos aperfeiçoam no serviço ao de entender e de colocar em prática. Quem
Senhor, então há algo de errado com elas. ama as coisas do mundo não pode amar a
Nossas orações nos tornam mais tratá- Deus completamente. Q u e m não se sujei-
veis? Os dois discípulos oraram com egoís- tar a sua vontade não é capaz de obedecer
mo e criaram um grande alvoroço! Nossas a ele sem reservas. Q u e m busca glória pa-
orações nos tornam mais semelhantes a Je- ra si ou se comparar com outros não pode
sus Cristo? Elas nos custam algo? Orar segun- glorificá-lo.
do a vontade de Deus não significa fuga, E impossível reconhecer Jesus como Rei
mas envolvimento. Se nossas orações não se não o amarmos acima de tudo, se não
nos aproximam da cruz, estão fora da von- obedecermos a ele sem reservas e se não o
tade de Deus. glorificarmos completamente. Se fizermos
Salomé aprendeu a lição. Quando Jesus tudo isso, compartilharemos de sua vida e
foi crucificado, estava perto da cruz (Jo alegria e, um dia, reinaremos com ele!
M a t e u s t a m b é m omite "justo e salvador".
A visita de Jesus a Jerusalém foi um ato de
misericórdia e de graça, n ã o de justiça e
juízo. Ele ofereceu a salvação, mas o povo
se recusou a aceitá-la ( J o 1:11). Da próxima
v e z q u e J e r u s a l é m vir o Rei, ele c h e g a r á
cavalgando c o m grande poder e glória (Ap
19:11 ss)!
Esse jumentinho nunca havia sido mon-
tado ( M c 11:2), m e s m o assim aceitou hu-
mildemente carregar seu fardo. S e m dúvida,
a presença da m ã e ajudou, mas não pode-

E ntramos agora na quarta seção principal

d o Evangelho d e M a t e u s , " A Rejeição


mos esquecer q u e Jesus é o Rei q u e t e m
"domínio sobre [...] ovelhas e bois, todos, e
t a m b é m os animais do c a m p o " (SI 8:6, 7).
do Rei." Nesta seção ( M t 21:1 - 22:14), o O fato de Jesus ter montando nesse animal
Senhor Jesus revela os pecados de Israel e e de tê-lo mantido sob controle é outra evi-
explica por q u e os líderes religiosos o rejei- dência de sua realeza.
taram e a sua mensagem. Essa apresentação pública cumpriu ou-
1 . C E G U E I R A ESPIRITUAL ( M T 2 1 : 1 - 1 1 ) tro propósito: forçou os líderes judeus a agir.
U m a v e z q u e era a Páscoa dos judeus, ha- Q u a n d o viram a manifestação espontânea
via provavelmente cerca de dois milhões de do povo, concluíram que Jesus deveria ser
pessoas dentro de Jerusalém e nas cerca- destruído (ver Jo 12:19). A fim de que as pro-
nias da cidade. Essa foi a única ocasião em fecias das Escrituras se cumprissem, o Cor-
seu ministério q u e Jesus planejou e promo- deiro de D e u s deveria ser crucificado na
v e u uma manifestação pública. A t é então, Páscoa. Essa demonstração da popularida-
advertia as pessoas a não dizer q u e m ele de de Cristo incitou os governantes a tomar
era e deliberadamente evitava situações do uma providência.
tipo q u e v e m o s nesta passagem. O povo aclamou Jesus seu Rei tanto em
Por q u e Jesus planejou essa manifesta- palavras c o m o em atos. Gritaram Hosana,
ção? Em primeiro lugar, estava o b e d e c e n d o que significa "salve agora!", e citaram Salmos
à Palavra e cumprindo a profecia registrada 118:25, 26, um salmo inequivocamente de
em Zacarias 9:9. Essa profecia só poderia se caráter messiânico. M a i s tarde naquela se-
aplicar a Jesus Cristo, pois ele é o Ú n i c o q u e mana, Jesus faria referência a esse salmo e
t e m c r e d e n c i a i s c o m p r o v a n d o sua identi- o aplicaria a si m e s m o (SI 118:22, 23; Mt
d a d e c o m o Rei de Israel. N ã o costumamos 21:42).
associar o jumento à realeza, mas era o ani- É importante lembrar q u e essa multidão
mal u s a d o p e l o s m o n a r c a s j u d e u s ( 1 R s da Páscoa era constituída de pelo m e n o s
2:32ss). Na verdade, havia dois animais, a três grupos: os judeus q u e viviam em Jeru-
m ã e e o filhote. Jesus montou no filhote, e a salém, as multidões q u e vinham da Galiléia
m ã e a c o m p a n h o u ao lado. e o povo q u e viu Jesus ressuscitar Lázaro ( J o
Ao c o m p a r a r m o s a citação de M a t e u s 12:17, 18). As notícias desse milagre, s e m
c o m a profecia original em Zacarias, desco- dúvida, ajudaram a atrair uma multidão tão
brimos alguns fatos interessantes. A profe- grande. O povo desejava ver c o m os pró-
cia d e Z a c a r i a s c o m e ç a c o m : "Alegra-te prios olhos o h o m e m que fazia milagres.
muito", mas M a t e u s omite essa expressão. M a s os judeus não reconheceram Jesus
Q u a n d o Jesus se aproximou da cidade, ele c o m o Rei. O q u e causou a cegueira espi-
chorou! C o m o poderia ele (ou o povo) ale- ritual de Israel? Dentre outras coisas, seus
grar-se, uma v e z q u e o julgamento estava a líderes religiosos haviam privado o povo da
caminho? verdade de sua Palavra, c o l o c a n d o em seu
100 MATEUS 21:1 - 22:1 4

lugar as tradições humanas (Lc 11:52). Os de "minha Casa de Oração", estava citando
líderes não estavam interessados na verdade, Isaías 56:7. O capítulo 56 de Isaías é uma
mas apenas em proteger os próprios inte- denúncia contra os líderes infiéis de Israel.
resses (Jo 11:47-53). "Não temos rei, senão A frase "covil de ladrões" vem de Jeremias
César!", era a confissão que faziam cega- 7:11 e é parte de um longo sermão que
mente. Nem mesmo os milagres de Jesus os Jeremias pregou junto aos portões do tem-
convenceram, e, quanto mais resistiam à ver- plo, repreendendo o povo pelos mesmos
dade, mais cegos se tornavam (Jo 12:35ss). pecados que Jesus viu e julgou em seus dias.
Por que Jesus chamou o templo de "co-
2 . HIPOCRISIA ( M T 2 1 : 1 2 - 2 2 ) vil de salteadores"? Porque o covil é o lugar
Jesus realizou dois atos de julgamento: puri- onde os salteadores se escondem. Os líderes
ficou o templo e amaldiçoou uma figueira. religiosos e alguns do povo estavam usando
Ambos foram contrários a sua forma habi- o templo e a religião judaica para encobrir
tual de ministério, pois ele não veio à Terra seus pecados.
para julgar, mas para salvar (Jo 3:1 7). Ambos O que Deus quer em sua casa? Quer
revelaram a hipocrisia de Israel: o templo era oração no meio do povo (1 Tm 2:1 ss), pois
um covil de salteadores, e a nação (simboli- a verdadeira oração é evidência de nossa
zada pela figueira) não produzia frutos. A dependência de Deus e de nossa fé em sua
corrupção interior e a ausência de frutos ex- Palavra. Também deseja que as pessoas se-
teriores eram evidências da hipocrisia do jam ajudadas (Mt 21:14). Os necessitados
povo. deveriam sentir-se acolhidos e encontrar a
A purificação do templo (vv. 12-16). ajuda de que precisavam. Deveria haver
Jesus havia começado seu ministério com poder na casa de Deus, o poder de Deus
um ato semelhante (Jo 2:13-25). Agora, três trabalhando para transformar as pessoas.
anos depois, o templo estava sendo profa- Outro elemento que deve estar presente na
nado novamente pelos "negócios religiosos" casa de Deus é o louvor (Mt 21:15,16). Aqui,
dos líderes. Haviam transformado o pátio dos Jesus cita o Salmo 8:2.
gentios num lugar onde judeus vindos de A maldição da árvore (vv. 17-22). Pode
outros lugares poderiam trocar dinheiro e nos causar certa surpresa ver Jesus amaldi-
comprar sacrifícios. O que começou como çoando uma árvore. O mesmo poder que
um serviço de conveniência para os visitan- matou a árvore também poderia ter lhe dado
tes de outras regiões logo se transformou nova vida e frutos. Por certo, Jesus não res-
num negócio lucrativo. Os negociantes co- ponsabilizaria uma árvore moralmente pela
bravam valores exorbitantes, e ninguém ausência de frutos.
podia competir com eles nem se opor a eles. É possível entender melhor esse aconte-
De acordo com os historiadores, esses ne- cimento quando levamos em consideração
gócios eram administrados por Anás, o anti- o tempo e o local em que ocorreu. Jesus
go sumo sacerdote, e seus filhos. estava próximo de Jerusalém na última se-
O pátio dos gentios no templo tinha co- mana de seu ministério público ao povo. A
mo propósito oferecer aos "rejeitados" uma figueira simbolizava a nação de Israel (Jr 8:13;
oportunidade de entrar no templo e de Os 9:10, 16; Lc 13:6-9). Assim como a árvo-
aprender sobre o verdadeiro Deus de Israel. re que possuía folhas mas não frutos, tam-
Mas a presença desse "mercado religioso" bém Israel tinha vida religiosa mas não pos-
levou muitos gentios mais escrupulosos a suía experiência prática de fé que resultasse
rejeitar o testemunho de Israel. Em vez de num viver piedoso. Jesus não se irou com a
ser usado para trabalhos missionários, o pá- árvore. Antes a usou para ensinar várias li-
tio dos gentios estava sendo empregado para ções a seus discípulos.
negócios mercenários. Deus deseja produzir frutos na vida de seu
Ao chamar o templo de "minha casa", Je- povo. O fruto é o produto da vida. A presen-
sus estava declarando ser Deus. Ao chamá-lo ça de folhas geralmente indica a presença
M A T E U S 2 1 : 1 - 22:14 101

de frutos, mas esse n ã o era o caso nessa coisas novas se d e s o b e d e c e r m o s àquilo q u e


árvore. Na parábola da figueira (Lc 13:6-9), D e u s já nos ensinou. " S e alguém quiser fa-
foi c o n c e d i d o ao jardineiro mais t e m p o para zer a vontade dele, conhecerá a respeito da
cuidar da árvore; mas agora, o tempo havia se doutrina, se ela é de D e u s ou se eu falo por
esgotado, e a árvore estava apenas ocupan- mim m e s m o " (Jo 7:1 7). Os líderes religiosos
do espaço. haviam rejeitado a verdade pregada por J o ã o
Embora possamos fazer uma aplicação e, portanto, Jesus não poderia lhes ensinar
pessoal desse acontecimento, a interpreta- novas verdades. J o ã o e Jesus estavam sob a
ç ã o principal diz respeito a Israel. O t e m p o mesma autoridade.
do juízo havia chegado. A sentença foi pro- Rejeitaram Deus, o Pai (21:23-32). A vi-
nunciada pelo juiz, mas só seria executada nha, obviamente, refere-se ao povo de Israel
mais de quarenta anos depois. Então, R o m a (SI 80:8-16; Is 5). Os dois filhos representam
viria e destruiria a cidade e o templo, espa- as duas classes de pessoas em Israel: os reli-
lhando o povo. giosos hipócritas e os publicanos e peca-
J e s u s u s o u esse a c o n t e c i m e n t o para dores. Q u a n d o J o ã o ministrou, as multidões
ensinar a seus discípulos uma lição prática religiosas mostraram grande interesse em seu
sobre fé e oração. O templo deveria ser uma trabalho, mas se recusaram a arrepender-se,
"casa de oração", e a nação deveria depo- humilhar-se e ser batizados ( M t 3:7-12; Jo
sitar sua fé no Senhor. M a s esses dois in- 1:19-28). Os q u e não eram religiosos, no en-
gredientes essenciais estavam faltando. N ó s tanto, confessaram seus pecados, obedece-
t a m b é m d e v e m o s estar alertas para os peri- ram às palavras de J o ã o e foram batizados.
gos da ausência de frutos. Os líderes cometeram dois pecados: não
creram na mensagem de J o ã o e não se arre-
3. DESOBEDIÊNCIA à PALAVRA penderam de seus pecados. É evidente q u e
(MT 21:23 - 22:14) os líderes não julgavam necessário se arre-
Esta série de três parábolas decorre da exi- pender (Lc 18:9-14). M a s q u a n d o viram o
gência dos principais sacerdotes e dos efeito do arrependimento na vida dos pe-
anciãos para q u e Jesus explicasse c o m que cadores e publicanos, deveriam ter se con-
autoridade havia purificado o templo. U m a v e n c i d o de q u e a m e n s a g e m de J o ã o era
v e z q u e e r a m encarregados de zelar pela v e r d a d e i r a e a s a l v a ç ã o era real. Repeti-
vida espiritual de Israel, tinham o direito de damente, os líderes religiosos rejeitaram as
fazer essa pergunta. No entanto, a ignorân- provas inequívocas q u e D e u s lhes deu.
cia desses líderes é espantosa, pois Jesus A rejeição a J o ã o foi, na verdade, uma
havia ministrado durante três anos, e eles rejeição ao Pai que o havia enviado. Em sua
continuavam se recusando a encarar os fa- bondade, porém, em vez de enviar julgamen-
tos. D e p o i s de tudo o q u e Jesus havia feito, to, D e u s m a n d o u seu Filho, o q u e nos leva
ainda queriam mais provas. à próxima parábola.
Ao levá-los de volta para o ministério de Rejeitaram Deus, o Filho (21:33-46).
João, Jesus não está sendo evasivo. J o ã o ha- S e m sair do cenário da vinha, essa parábola
via preparado o caminho para Jesus. Se os toma por base Isaías 5:1-7. Nela, Jesus lem-
líderes tivessem aceito o ministério de João, bra os judeus da b o n d a d e de D e u s para c o m
t a m b é m teriam aceito o ministério de Jesus. Israel c o m o nação. D e u s tirou seu povo do
Em vez disso, porém, os líderes permitiram Egito e o conduziu a uma terra rica, abun-
q u e H e r o d e s prendesse J o ã o e depois o exe- dante em leite e mel. C o n c e d e u a seu povo
cutasse. U m a v e z que não haviam aceito a bênçãos materiais e espirituais e pediu ape-
autoridade d e J o ã o , t a m b é m n ã o estavam nas q u e dessem frutos para a glória do Se-
dispostos a aceitar a autoridade de Jesus, nhor. De tempos em tempos, D e u s enviou
pois ambos haviam sido enviados por Deus. seus servos (profetas) ao povo para colher
Há um princípio fundamental da vida cris- os frutos. M a s o povo maltratou os servos, e
tã segundo o qual n ã o p o d e m o s aprender até matou alguns deles.
102 MATEUS 2 1 : 1 - 22:14

O que restava ao proprietário fazer? Po- e o Filho; apesar do que os lavradores ha-
deria ter enviado seus exércitos para des- viam feito, o Filho está vivo e tem uma espo-
truí-los, mas, em vez disso, enviou seu filho. sa. Ao que parece, trata-se de um retrato de
Trata-se, evidentemente, de uma referência Jesus e sua Igreja (Ef 5:22, 23). O período
a Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é o "her- descrito nesta parábola deve ser aquele
deiro" (Hb 1:2). Em vez de recebê-lo e honrá- posterior à ressurreição e ascensão de Cris-
lo, os homens o colocaram para fora da vinha to e à vinda do Espírito Santo.
e o mataram. Jesus foi crucificado "fora da Mesmo depois do que fizeram com seu
porta" (Hb 13:12, 13), rejeitado por sua pró- Filho, o Pai continua a convidar o povo de
pria nação. Israel. Ao estudar os primeiros sete capítu-
As pessoas que estavam ouvindo essa los de Atos, vemos que a mensagem está
parábola envolveram-se de tal modo com a sendo proclamada apenas aos judeus (At 2:5,
situação dramática que não perceberam que 10, 14, 22, 36; 3:25; 6:7). "Primeiro ao ju-
elas mesmas estavam sendo julgadas. Jesus deu" - esse era o plano de Deus (At 3:26;
citou Salmos 118:22, 23 para explicar que Rm 1:16). Qual foi a reação dos líderes de
ele era o Filho e os líderes religiosos eram Israel ao ministério do Espírito Santo por
os lavradores (Mt 21:45). As multidões ha- meio dos apóstolos? Rejeitaram a Palavra e
viam usado Salmos 118:26, quando rece- perseguiram a Igreja. Os mesmos gover-
beram Jesus na cidade, de modo que essa nantes que permitiram a execução de João
passagem ainda devia estar na mente dos e que pediram a crucificação de Jesus ma-
líderes. taram Estêvão com as próprias mãos! Poste-
No Antigo Testamento, Deus é chama- riormente, Herodes mandou matar Tiago (At
do com freqüência de rocha ou de pedra 12:1 ss).
(Dt 32:4, 18, 30, 31; SI 18:2, 31, 46). A De que maneira o rei da parábola rea-
pedra também é um título messiânico. Para giu à forma como o povo tratou seu servo?
Israel, Jesus foi uma pedra de tropeço (Is Ficou furioso e enviou seu exército para
8:14, 15; Rm 9:32, 33; 1 Co 1:23). Israel re- matar todos e destruir suas cidades. Depois,
jeitou o Messias, mas, com sua morte e res- mandou convidar outras pessoas para a fes-
surreição, Jesus criou a Igreja. Para a Igreja, ta. Trata-se de uma representação da manei-
Jesus é a pedra fundamental, a pedra angu- ra de Deus tratar com Israel. Rejeitaram o
lar (Ef 2:20-22; 1 Pe 2:4, 5). No fim dos tem- Pai quando se recusaram a obedecer à pre-
pos, Jesus virá como uma pedra de aflição gação de João Batista. Rejeitaram o Filho
(Dn 2:34), destruirá os reinos gentios e esta- quando o prenderam e crucificaram. Em sua
belecerá seu reino glorioso. graça e paciência, Deus enviou outras teste-
Por certo, os líderes judeus conheciam munhas. O Espírito Santo veio aos primeiros
esse significado messiânico das Escrituras cristãos, que testemunharam com grande
citadas por Jesus. Eram os construtores que poder que Jesus estava vivo e que a nação
haviam rejeitado a pedra (At 4:11). Quais poderia ser salva (At 2:32-36; 3:19-26). Os
seriam as conseqüências? Dentre outras milagres que fizeram eram prova de que
coisas, o reino seria tirado de Israel e entre- Deus trabalhava neles e por meio deles.
gue a outra nação, a Igreja (1 Pe 2:9, ver M a s Israel também rejeitou o Espírito
também o contexto, 1 Pe 2:6-10). Os que Santo! Essa foi a acusação de Estêvão con-
atacassem essa pedra seriam "pulveriza- tra a nação: "Vós sempre resistis ao Espírito
dos"; aqueles a quem Cristo julgar serão Santo" (At 7:51). Com o apedrejamento de
esmigalhados. Estêvão, a paciência de Deus com Israel co-
Rejeitaram o Espírito Santo (22:1-14). meçou a se esgotar, apesar de ter adiado o
Esta parábola não deve ser confundida com julgamento por quase quarenta anos. Em
a parábola do banquete (Lc 14:16-24), ape- Atos 8,vemos que a mensagem foi levada
sar de ambas apresentarem vários elemen- aos samaritanos, e em Atos 10, verificamos
tos em comum. Mais uma vez, vemos o Pai que foi pregada até mesmo aos gentios.
M A T E U S 21:1 - 22:1 4 103

A m e u ver, essa rejeição final é a terrí- m u n d o do p e c a d o ( J o 16:7-11). O Espírito


v e l " b l a s f ê m i a contra o Espírito S a n t o " à p o d e encontrar resistência nos incrédulos
qual Jesus se refere em M a t e u s 12:22-32. (At 7:51), mas n i n g u é m sabe e x a t a m e n t e
Foi um p e c a d o n a c i o n a l c o m e t i d o por Is- qual é o m o m e n t o crítico (se é que ele exis-
rael. Q u a n d o rejeitaram J o ã o , rejeitaram te) em q u e o Espírito pára de falar a um pe-
o Pai q u e o havia e n v i a d o , mas havia ain- cador perdido.
da o ministério do Filho. Q u a n d o rejeita- M a t e u s 22:11-14 dá a impressão de ser
ram o Filho, foram perdoados por c a u s a apenas um a p ê n d i c e dessa parábola, mas
de sua ignorância (Lc 22:34; At 3:17). sua importância é vital. A roupa de casamen-
N e n h u m p e c a d o r hoje p o d e ser perdoa- to foi providenciada pelo anfitrião para q u e
do por rejeitar a Cristo, pois é essa rejei- todos estivessem vestidos adequadamente,
ç ã o q u e c o n d e n a a alma ( J o 3:16-22). e para q u e os pobres não se sentissem des-
No entanto, ainda restava o ministério locados. A salvação é pessoal e individual.
do Espírito Santo. O Espírito veio sobre a D e v e m o s aceitar o q u e D e u s nos dá - a
Igreja em Pentecostes, e os apóstolos reali- justificação de Cristo - e n ã o tentar confec-
zaram grandes sinais e prodígios (At 2:43; cionar uma roupa para nós mesmos. U m a
Hb 2:1-4). Os governantes rejeitaram o tes- v e z que essas parábolas possuem, sem dú-
temunho do Espírito e, com isso, fizeram so- vida alguma, ênfase nacional, a ênfase pes-
brevir o julgamento final. H a v i a m rejeitado o soal no final é extremamente importante.
Pai, o Filho e o Espírito, e não restavam mais Os líderes do país eram c u l p a d o s de ce-
oportunidades. gueira espiritual, hipocrisia e desobediên-
Esse " p e c a d o contra o Espírito" não p o d e cia deliberada à Palavra. Em lugar de aceitar
ser c o m e t i d o hoje da mesma forma que foi a a c u s a ç ã o de Jesus e se arrepender, deci-
por Israel, pois a situação é diferente. O diram atacá-lo e discutir c o m ele. Essa de-
Espírito d e D e u s está d a n d o t e s t e m u n h o cisão resultou em julgamento. D e v e m o s ter
da pessoa e obra de Jesus Cristo por meio o c u i d a d o de não seguir seu e x e m p l o de
da Palavra. Ê o Espírito q u e m c o n v e n c e o desobediência.
em comum. Os fariseus tinham vários moti-
vos para se opor aos impostos cobrados por
Roma: (1) não desejavam sujeitar-se a um
poder gentio; (2) César era reverenciado
como deus; e (3) tinham melhor uso para o
dinheiro do que dá-lo a Roma. Uma vez que
os herodianos constituíam o partido que
apoiava Herodes, eram favoráveis à cobran-
ça de impostos. Afinal, Herodes recebeu sua
autoridade de César, e teria sido extrema-
mente difícil permanecer no poder sem o
apoio de Roma.

N a quinta-feira da semana de Páscoa, os


inimigos de Jesus tentaram armar uma
cilada usando uma série de perguntas cap-
A Palestina era uma nação ocupada, e
os judeus não morriam de amores por seus
conquistadores. Todo imposto que o povo
ciosas. Ainda estavam ressentidos com a oprimido era obrigado a pagar servia para
forma de Jesus tê-los tratado em sua série lembrar que não eram livres. Os zelotes, uma
de parábolas. O Mestre havia exposto suas organização "secreta" de judeus fanáticos,
intenções perversas e os advertira de que costumavam organizar protestos contra
estavam apenas atraindo julgamento sobre Roma e se opunham a qualquer imposto
si. Os líderes religiosos ofenderam-se por ter romano.
sido humilhados diante da multidão. Assu- É fácil entender por que os fariseus e os
miram o firme propósito de destruir Jesus, herodianos escolheram a questão dos im-
procurando, para isso, levá-lo a dizer algo postos como chamariz para a armadilha. A
que servisse como desculpa para prendê-lo. seu ver, qualquer resposta que Jesus desse
Mas havia outro motivo para as pergun- criaria problemas para ele e para seu minis-
tas, que seus inimigos ignoravam. Jesus es- tério. Caso se opusesse ao imposto, criaria
tava para morrer como Cordeiro de Deus, e um conflito com Roma. Se o aprovasse, te-
era preciso que o cordeiro fosse examinado ria problemas com os judeus.
antes da Páscoa (Êx 12:3-6). Se algum defeito Jesus percebeu imediatamente o ardil
fosse encontrado, ele não poderia ser sacri- do inimigo. Sabia que o verdadeiro objetivo
ficado. Jesus foi examinado publicamente não era obter uma resposta, mas sim colo-
por seus inimigos, e eles não conseguiram cá-lo em dificuldades. Na verdade, aqueles
encontrar defeito algum. homens tão zelosos estavam apenas fazen-
Por certo, esse diálogo pessoal entre Je- do uma encenação, portanto não passavam
sus e os líderes religiosos também serviu de hipócritas. Esse fato, por si só, teria sido
como uma oportunidade para que cressem motivo suficiente para Jesus se recusar a res-
e fossem salvos. De fato, um dos fariseus ponder à questão, mas o Mestre sabia que
chegou muito perto do reino ( M c 12:32-34). as pessoas a seu redor não entenderiam.
Até mesmo no último minuto, há esperança Tinha diante de si uma oportunidade de ca-
para o pecador perdido, caso aceite a ver- lar os inimigos e, ao mesmo tempo, de ensi-
dade, se arrependa e creia. nar ao povo uma verdade espiritual muito
Essa discussão pública envolve quatro importante.
verdades, três delas provenientes dos inimi- Cada governante cunhava as próprias
gos e uma de Jesus. moedas e nelas colocava sua imagem. O
denário trazia a imagem de César, portanto,
1. U M A PERGUNTA POLÍTICA SOBRE pertencia a César. "Dai, pois, a César o que é
IMPOSTOS ( M T 2 2 : 1 5 - 2 2 ) de César", respondeu Jesus, "e a Deus o que
Fariseus e herodianos eram inimigos, mas nes- é de Deus." Nessa resposta simples, porém
sa ocasião se uniram contra um adversário profunda, Jesus ensinou várias verdades.
M A T E U S 21:1 - 22:14 105

Os cristãos devem honrar os governan- preservar o n o m e de um h o m e m que mor-


tes e lhes obedecer. Trata-se de uma verda- resse s e m deixar h e r d e i r o . N u m a n a ç ã o
de ensinada em outras passagens do N o v o c o m o Israel, em que a questão da herança
T e s t a m e n t o ( R m 13; 1 Pe 2:13-17; 1 Tm familiar era crítica, c a d a família deveria ter
2:1 ss). Os cristãos t ê m uma cidadania du- um herdeiro. Era considerado u m a desgraça
pla, no c é u (Fp 3:20) e na Terra. D e v e m o s um h o m e m recusar constituir família para o
respeitar nossos governantes (ou líderes elei- irmão morto.
tos) aqui na Terra, o b e d e c e r à lei, pagar nos- O s saduceus baseavam sua descrença
sos impostos e orar por todas as autoridades. na ressurreição no fato de q u e n e n h u m a
Os cristãos devem honrar a Deus e lhe mulher poderia ter sete maridos na vida fu-
obedecer. C é s a r n ã o era Deus. Os gover- tura. C o m o muita gente hoje, c o n c e b i a m a
nantes não p o d e m impor a religião (At 5:29) vida futura c o m o uma extensão do presen-
e t a m b é m não d e v e m restringir a liberdade te, porém numa versão melhorada.
de culto. Os melhores cidadãos honram seu M a s Jesus lhes disse q u e eram ignoran-
país porque a d o r a m a Deus. tes. N ã o c o n h e c i a m as Escrituras t a m p o u c o
O homem foi criado à imagem de Deus o poder de Deus, portanto, na verdade, n ã o
e deve tudo a seu Criador. A m o e d a trazia c o n h e c i a m a Deus. Na próxima vida, n ã o
a imagem de César, enquanto o ser huma- haverá morte, portanto não haverá necessi-
no traz a imagem de D e u s ( G n 1:26, 27). O dade de casamento n e m de gerar novos se-
p e c a d o desfigurou essa imagem, mas, por res humanos para substituir os que morrem.
meio de Jesus Cristo, ela p o d e ser restaura- Jesus não disse q u e seríamos anjos quan-
da (Ef 4:24; Cl 3:10). do fôssemos glorificados no céu. Disse q u e
A r e l a ç ã o entre religião e g o v e r n o é seríamos " c o m o os anjos", ou seja, assexua-
pessoal e individual. É correto o p o v o de dos, sem nos casarmos n e m nos darmos em
D e u s servir no governo (ver os exemplos casamento. As histórias tolas q u e ouvimos e
de Daniel e José), mas é errado o governo sobre as quais lemos nas tirinhas de jornais
controlar a Igreja, ou m e s m o a Igreja con- falando de pessoas q u e m o r r e m e q u e se
trolar o governo. tornam anjos não são bíblicas.
Jesus n ã o se contentou em refutar ape-
2 . U M A PERGUNTA D O U T R I N Á R I A S O B R E A nas os c o n c e i t o s absurdos d o s s a d u c e u s
RESSURREIÇÃO ( M T 2 2 : 2 3 - 3 3 ) a c e r c a da v i d a futura, m a s t a m b é m res-
Apesar de fariseus e herodianos terem sido p o n d e u à questão da ressurreição e, para
derrotados, os saduceus entraram no cam- isso, recorreu a Moisés! Sabia q u e M o i s é s
po de batalha para tentar seu ataque. É im- era a única autoridade q u e aceitariam e cha-
portante lembrar q u e esse grupo aceitava m o u a atenção deles para Êxodo 3:6, em
a p e n a s a a u t o r i d a d e d o s c i n c o livros de q u e D e u s disse a Moisés: " E u sou o D e u s
M o i s é s (o Pentateuco) e não acreditava num de teu pai, o D e u s de A b r a ã o , o D e u s de
m u n d o espiritual n e m na doutrina da res- Isaque e o D e u s de J a c ó " . N ã o disse, " E u
surreição (At 23:8). Em várias ocasiões, de- era o D e u s de A b r a ã o " , pois significaria q u e
safiaram os fariseus a provar a doutrina da A b r a ã o não existia mais. Ao dizer: " E u sou",
ressurreição por m e i o de Moisés, mas os fari- o S e n h o r deixou claro q u e esses três ho-
seus não conseguiram apresentar argumen- mens de fé estavam vivos naquele momento.
tos convincentes. Ao repetir "o D e u s d e " , o S e n h o r mostrou
A ilustração hipotética q u e os saduceus q u e os c o n h e c i a e q u e os a m a v a pessoal
apresentaram foi baseada na lei judaica do individualmente.
" c a s a m e n t o de levirato" descrita em Deu- É perigoso especular c o m relação à vida
t e r o n ô m i o 25:5-10 (a palavra levirato v e m futura. D e v e m o s tomar por base a autori-
do latim levir, q u e significa "o irmão do ma- d a d e da Palavra de Deus, pois s o m e n t e ne-
rido", e não t e m relação alguma c o m a tribo la e n c o n t r a m o s a v e r d a d e sobre o futuro.
de Levi). Esse c o s t u m e tinha por objetivo A Bíblia n ã o revela tudo sobre a vida futura,
106 MATEUS 22:1 5-46

mas nos encoraja e nos esclarece. Jesus res- no mesmo nível do Shema. Toda a Lei e os
pondeu aos saduceus insensatos de manei- Profetas baseiam-se nesses dois mandamen-
ra tão detalhada que os fez calar (Mt 22:34). tos. Podemos dizer, ainda, que os ensina-
Até mesmo as multidões se maravilharam mentos das epístolas no Novo Testamento
com a resposta. concordam com essa afirmação. Se um ho-
mem ama a Deus de fato, também deve amar
3. U M A PERGUNTA ÉTÍCA SOBRE A LEI a seu irmão e a seu próximo (1 Jo 3:10-18;
( M T 22:34-40) 4:7-21).
É provável que os fariseus tenham gostado Se cultivarmos um relacionamento cor-
de ver seus inimigos, os saduceus, naquela reto com Deus, não teremos problemas com
situação embaraçosa. Um deles mostrou seus mandamentos. O amor é a base para a
respeito para com Jesus e a resposta que obediência. Na verdade, a Lei como um todo
ele havia dado ( M c 12:28) e fez sua própria se resume no amor (Rm 13:8-10). Se amar-
pergunta: "Mestre, qual é o grande manda- mos a Deus, amaremos nosso próximo; e
mento na Lei?" (Mt 22:36). Tudo indica que se amarmos nosso próximo, não faremos
ele fez essa pergunta com uma atitude sin- nada para prejudicá-lo.
cera e humilde. Mas Jesus tem um significado mais pro-
Não se tratava de alguma novidade, pois fundo a transmitir com essa resposta extra-
os escribas vinham debatendo essa questão ordinária. Os judeus temiam a idolatria e,
havia séculos. Registraram 613 mandamen- quando Jesus afirmou ser Deus, opuseram-
tos da Lei, 248 positivos e 365 negativos. Nin- se a ele, pois não conseguiam acreditar que
guém jamais seria capaz de conhecer e de era correto adorar uma criatura. Jesus rece-
obedecer a todos eles. Assim, para facilitar, beu adoração e não reprovou os que o re-
os mestres dividiram os mandamentos em verenciaram. Acaso foi idolatria? Não, pois
"pesados" (importantes) e "leves" (não impor- ele é Deus! Se a Lei ordena amar a Deus e
tantes), permitindo, então, que as pessoas se ao próximo, então não era errado os judeus
concentrassem nos mandamentos mais "pe- amarem Jesus. Em vez disso, porém, estavam
sados" sem se preocupar com os triviais. planejando matá-lo. Jesus já lhes havia dito:
A falácia por trás dessa abordagem é "Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamen-
evidente: só é preciso quebrar um man- te, me havíeis de amar" (Jo 8:42). Aceitaram
damento, pesado ou leve, para se tornar cul- a autoridade da Lei, mas se recusaram a obe-
pado diante de Deus. "Pois qualquer que decer a ela em sua vida.
guarda toda a lei, mas tropeça em um só O escriba que havia feito a pergunta a
ponto, se torna culpado de todos" (Tg 2:10). Jesus parecia ser um homem sincero e
Jesus cita o Shema" (Dt 6:4), uma con- honesto. Nem todos os fariseus eram hipó-
fissão de fé recitada diariamente por todo critas, e ele concordou publicamente com
judeu ortodoxo (a palavra Shema vem do Jesus ( M c 12:32, 33). Sua reação deve ter
termo hebraico que significa "ouvir", pois a assustado seus colegas fariseus. Jesus dis-
confissão de fé começa com "Ouve, Israel"). cerniu que o coração daquele homem era
O maior mandamento é amar a Deus com sincero e o elogiou por sua inteligência e
todo nosso ser e com tudo o que possuí- honestidade. Será que esse homem conse-
mos - coração, alma, espírito, força, bens, guiu entrar no reino, uma vez que chegou
serviço. Amar a Deus não é "ter bons pen- tão perto? Esperamos que sim.
samentos sobre ele", pois o verdadeiro amor Jesus havia acabado de responder a três
envolve não apenas o coração, mas também perguntas extremamente difíceis. Havia fa-
a volição. Onde há amor, haverá serviço e lado da relação entre religião e governo,
obediência. entre esta vida e a próxima e entre Deus e o
Mas o amor a Deus não pode ser desas- próximo. Trata-se de uma série de relacio-
sociado do amor ao próximo, de modo que namentos fundamentais, e não podemos
Jesus também cita Levítico 19:18 e o coloca ignorar os ensinamentos de nosso Senhor a
M A T E U S 2 2 : 1 5-46 107

esse respeito. M a s a pergunta q u e Jesus faz 20:30, 31; 21:9, 15). Os líderes ouviram as
a seus inimigos é ainda mais fundamental. multidões o p r o c l a m a r e m c o m o "Filho de
Davi" quando entrou em Jerusalém. O fato
4 . U M A PERGUNTA PESSOAL S O B R E O de ter aceito esse título é evidência de q u e
MESSIAS ( M T 2 2 : 4 1 - 4 6 ) Jesus sabia que era o próprio Messias, o Fi-
Jesus não formulou essa pergunta da mes- lho d e Deus. C o m o Deus, era S e n h o r d e
ma forma c o m o havia feito a seus discípu- Davi, mas c o m o h o m e m , era Filho de Davi,
los: "E q u e m dizeis vós q u e eu s o u ? " ( M t pois nasceu na família de Davi ( M t 1:1, 20).
16:15). Os homens q u e estavam discutindo O s estudiosos d a q u e l e t e m p o mostra-
c o m Jesus n ã o entendiam sua causa n e m vam-se confusos c o m relação ao Messias.
e s t a v a m dispostos a avaliar c o m honesti- V i a m duas representações do Messias no
d a d e as credenciais q u e ele lhes oferecia. Antigo Testamento e não conseguiam con-
Cristo teve de usar uma abordagem indireta ciliá-las. U m a mostrava um S e r v o Sofredor,
c o m seus inimigos, Apesar de parecer uma a outra um Rei Conquistador. Haveria dois
questão teológica, na realidade tratava-se da Messias? C o m o seria possível ao servo de
questão pessoal mais crítica de todas. D e u s sofrer e morrer? (ver 1 Pe 1:10-12).
" D e q u e m o Messias é Filho?", pergun- Se tivessem prestado atenção nas pala-
tou. C o m o mestres instruídos na Lei, sabiam vras de Jesus, teriam aprendido q u e havia
a resposta: "É filho de Davi". Se necessário, apenas um Messias, mas q u e este seria tanto
poderiam ter feito referência a várias passa- h u m a n o quanto divino. Sofreria e morreria
gens do Antigo Testamento, inclusive 2 Sa- c o m o sacrifício pelos pecados. Em seguida,
muel 7:12, 13, Salmos 78:68-72 e Miquéias ressuscitaria dos mortos triunfante e, um dia,
5:2. D e p o i s dessa resposta, Jesus p r o p õ e voltaria para derrotar seus inimigos. No en-
outra questão, dessa v e z c i t a n d o S a l m o s tanto, esses líderes religiosos tinham suas
110:1 - " D i s s e o S e n h o r [ J e o v á ] ao m e u próprias idéias e não estavam dispostos a
Senhor [do hebraico 'Adonai']: 'Assenta-te à mudá-las. Se houvessem aceitado esse ensi-
minha direita, até que eu ponha os teus ini- namento, t a m b é m seriam obrigados a aceitar
migos debaixo dos teus pés.'" Jesus c o m o o Messias, algo q u e não deseja-
T o d o estudioso judeu ortodoxo interpre- v a m fazer.
tava essa passagem c o m o uma referência O resultado desse dia de conversações
ao Messias. S o m e n t e o Messias poderia as- foi o silêncio por parte dos inimigos. N ã o se
sentar-se à direita do D e u s Jeová. Jesus acre- atreveram a perguntar mais nada a Jesus, não
ditava na inspiração e exatidão das Escritu- porque creram na verdade, mas porque ti-
ras do Antigo Testamento, pois afirmou q u e veram m e d o de encará-la. " D a l i por diante,
Davi havia proferido tais palavras " p e l o Espí- não ousaram mais interrogá-lo" (Lc 20:40).
rito" ( M t 22:43). N i n g u é m se atreveu a ques- Também não tiveram coragem de encarar a
tionar a exatidão ou a autoridade do texto. verdade e de agir em função dela.
" S e o Messias é Filho de Davi", pergun- Tomar uma decisão sobre Jesus Cristo é
tou Jesus, "então c o m o o Messias t a m b é m uma questão de vida ou morte. As evidências
p o d e ser c h a m a d o d e Senhor d e Davi?" H á estão à disposição para serem examinadas
a p e n a s u m a resposta para esta q u e s t ã o . por todos. P o d e m o s sondá-las defensivamen-
C o m o Deus, o Messias é o Senhor de Davi; te e deixar escapar a verdade, ou p o d e m o s
mas c o m o homem, ele é o Filho de Davi. Ele analisá-las c o m honestidade e humildade e
é a "Raiz e a G e r a ç ã o de D a v i " ( A p 22:16). descobrir a verdade, crer e receber a salva-
Salmos 110:1 mostra a divindade e a huma- ção. Os líderes religiosos estavam tão cegos
nidade do Messias. Ele é Senhor de Davi e pela tradição, posição social, orgulho e egoís-
t a m b é m Filho de Davi. mo que n ã o conseguiam - e não queriam -
Enquanto ministrava aqui na Terra, Jesus ver a verdade e aceitá-la.
aceitou, c o m freqüência, o título messiânico N ã o devemos, de maneira alguma, co-
"Filho de D a v i " (ver Mt 9:27; 12:23; 15:22; meter o m e s m o erro hoje.
Tinham um falso conceito de justiça (vv.
2, 3). Em primeiro lugar, haviam tomado so-
bre si uma autoridade que não lhes era devi-
da, como fica evidente na declaração: " N a
A ACUSAÇÃO DO REI cadeira de Moisés, se assentaram os escribas
e fariseus". Não há registro nas Escrituras de
MATEUS 23 que Deus tenha dado qualquer autoridade
a esse grupo. Sendo assim, o povo deveria
obedecer ao que os fariseus ensinavam pela
Palavra, mas não cabia ao povo obedecer
às tradições e regras criadas pelos fariseus.
Para os fariseus, a justiça significava a

T rata-se da última mensagem pública de

Jesus - uma acusação severa sobre a falsa


conformidade exterior com a Lei de Deus,
ignorando a condição interior do coração.
A religião consistia em obedecer a inúme-
religião ostentada como verdade. Por certo, ras regras que regiam todos os aspectos da
alguns do povo se espantaram com essas vida, inclusive o que faziam c o m os tem-
palavras, pois consideravam os fariseus exem- peros ( M t 23:23, 24). Os fariseus eram
plos de retidão. extremamente zelosos em dizer as palavras
C o n v é m lembrar que nem todos os certas e em seguir os rituais corretos, mas
fariseus eram hipócritas. Havia cerca de seis não obedeciam à lei interiormente. Deus de-
mil fariseus naquele tempo, sendo que mui- sejava a verdade no coração (SI 51:6). Pre-
tos eram apenas "seguidores", não membros gar uma coisa e praticar outra não passa de
ativos do grupo. A maioria dos fariseus era hipocrisia.
constituída de negociantes de classe média, Tinham um falso conceito de ministé-
sem dúvida pessoas sinceras em busca da rio (v. 4). Para eles, o ministério significava
verdade e da santidade. O nome "fariseu" dar leis ao povo e acrescentar ainda mais
vem de um termo que significa "separar". peso a seus fardos. Em outras palavras, os fa-
Os fariseus eram separados dos gentios, dos riseus eram mais severos com os outros do
judeus "impuros" que não praticavam a Lei que com eles mesmos. Jesus veio para aliviar
("publicanos e pecadores", Lc 15:1, 2) e de o fardo ( M t 11:28-30), mas uma religião
qualquer um que se opusesse às tradições legalista procura sempre tornar o fardo ain-
que regiam sua vida. da mais pesado. Jesus nunca pediu para fa-
Dentre os fariseus, havia um pequeno zermos algo que ele próprio já não tenha
grupo que buscava a verdadeira religião es- feito. Os fariseus ordenavam, mas não parti-
piritual. Eram indivíduos como Nicodemos cipavam. Eram ditadores religiosos hipócri-
(Jo 3; 7:50-53), José de Arimatéia (Jo 19:38ss) tas, não líderes espirituais.
e o outro homem anônimo mencionado em Tinham um falso conceito de grandeza
Marcos 12:32-34. Até mesmo Gamaliel de- (w. 5-12). Para eles, sucesso significava re-
monstrou certa tolerância com relação à igre- conhecimento e louvores dos homens. Não
ja recém-formada (At 5:34ss). Em sua maior estavam preocupados com a aprovação de
parte, porém, os fariseus usavam a religião Deus. Usavam a religião para atrair a aten-
para se promover e obter benefícios mate- ção para si mesmos, não para glorificar a
riais. Não é de se admirar que Jesus tenha Deus (Mt 5:16). Assim, lançavam mão até
condenado suas práticas. Sua mensagem de ornamentos religiosos para demonstrar
pode ser dividida em três partes. piedade. Os "filactérios" eram pequenas
1. A EXPLICAÇÃO PARA A MULTIDÃO caixas de couro em que os fariseus guarda-
( M t 23:1-12) vam as Escrituras. Usavam essas caixinhas
Nesta seção, Jesus explica as falhas básicas amarradas na testa e no braço, em obediên-
da religião farisaica. cia literal a Deuteronômio 6:8 e 11:8. Além
109MATEUS8-9

disso, a u m e n t a v a m o tamanho das "franjas" mas se nos humilharmos, no t e m p o certo,


das orlas de suas vestes ( N m 15:38; ver Mt D e u s nos exaltará (1 Pe 5:6).
9:20).
O s fariseus t a m b é m p e n s a v a m q u e o 2 . A C O N D E N A Ç Ã O A O S FARISEUS
status social era sinal de grandeza, de m o d o ( M T 23:13-36)
q u e buscavam os melhores lugares na sina- N ã o d e v e m o s ler esta série de a c u s a ç õ e s
goga e nos jantares públicos. O lugar o n d e c o m a idéia de q u e Jesus perdeu a calma e
um h o m e m se assenta n ã o mostra, verda- se enfureceu. S e m dúvida, estava irado c o m
deiramente, q u e m ele é. Albert Einstein es- os p e c a d o s dos fariseus e c o m o efeito des-
creveu: " P r o c u r e não se tornar um h o m e m ses p e c a d o s sobre o povo. No entanto, sua
de sucesso, mas sim um h o m e m de valor". atitude é de profunda tristeza ao perceber
A c r e d i t a v a m , ainda, q u e o s títulos d e q u e os fariseus não enxergavam a v e r d a d e
honra e r a m sinais de grandeza. O título "ra- de D e u s n e m os próprios pecados.
bino" significa " m e u magnífico" e era cobi- Talvez a melhor forma de tratar esses oito
ç a d o pelos líderes religiosos (hoje em dia, " a i s " seja contrastá-los c o m as oito bem-
os líderes religiosos c o b i ç a m títulos de dou- aventuranças encontradas em M a t e u s 5:1-
tor honorífico). Jesus proibiu seus discípulos 12. No S e r m ã o do M o n t e , Jesus descreveu
de usar o título rabino, pois todos eram ir- a verdadeira retidão, enquanto aqui descre-
mãos, s o m e n t e Jesus era seu M e s t r e ( M t ve a falsa retidão.
23:8). Os filhos de D e u s encontram-se numa Aqueles que entram no reino - aqueles
situação de e q ü i d a d e sob a liderança de Je- que fecham as portas do reino (v. 13; 5:3).
sus Cristo. O pobre de espírito entra no reino, mas o
Jesus t a m b é m os proibiu de usar o título orgulhoso de espírito fica do lado de fora e
de pai c o m referência às coisas espirituais. ainda impede outros de entrarem. O verbo
Certamente, não é errado usar essa desig- grego indica pessoas q u e tentam entrar, mas
n a ç ã o para o genitor biológico, mas n ã o não conseguem. C o m o se não bastasse fi-
c o n v é m empregá-la a um líder espiritual. car de fora do reino, essas pessoas ainda
Paulo referia-se a si m e s m o c o m o "pai espi- ficam no caminho dos q u e desejam entrar.
ritual", pois havia " g e r a d o " cristãos por meio Ao ensinar tradições humanas em lugar da
d o evangelho ( 1 C o 4:15). N o entanto, não verdade divina, tiram do povo a chave do co-
pediu q u e esses cristãos o chamassem por nhecimento ("tomastes a chave da ciência",
esse n o m e . Lc 11:52) e fecham a porta da salvação.
Um terceiro título proibido é guia ( M t Os que choram são consolados - os que
23:10), q u e significa "instrutor, líder". N ã o destroem são condenados (v. 14; 5:4). Ape-
se trata do m e s m o termo traduzido por mes- sar de esse versículo não aparecer em alguns
tre em M a t e u s 23:8. Talvez um equivalente manuscritos de Mateus, p o d e ser encontra-
m o d e r n o mais apropriado seja "autoridade". do em M a r c o s 12:40 e Lucas 20:47. Em v e z
D e u s c o l o c a líderes espirituais na igreja, mas de chorar por seus p e c a d o s e de lamentar
estes n ã o d e v e m tomar o lugar do Senhor pelas necessidades das viúvas, os fariseus se
em nossa vida. Um verdadeiro líder espiri- aproveitavam das pessoas e as roubavam.
tual c o n d u z as pessoas à liberdade e a um U s a v a m a religião c o m "intuitos ganancio-
r e l a c i o n a m e n t o mais próximo c o m Cristo, sos" (1 Ts 2:5).
não à escravidão de suas próprias idéias e O humilde herda a terra - o orgulho-
crenças. so, o inferno (v. 15; 5:5). Um prosélito é
A verdadeira grandeza encontra-se em alguém q u e se c o n v e r t e a u m a causa. Os
servir aos outros, n ã o em forçar os outros a fariseus saíam em busca de novos m e m b r o s
nos servir (Jo 3:30; 13:12-17). A verdadeira para seu sistema legalista, mas não conse-
grandeza n ã o p o d e ser criada; antes, pro- guiam apresentar essas pessoas a o D e u s
v é m de Deus, à medida q u e lhe obedece- vivo. Em v e z de salvar as almas, os fariseus
mos. Se nos exaltarmos, D e u s nos humilhará, as c o n d e n a v a m !
110 M A T E U S 23

Um "filho do inferno" é o equivalente a Não há dúvida de que a Lei do Antigo


"um filho do demônio", e era essa a desig- Testamento exigia o pagamento do dízimo
nação que Jesus usava para os fariseus (Mt (Lv 27:30; Dt 14:22ss). Abraão havia pra-
12:34; 23:33; Jo 8:44). Um "filho do demô- ticado o dízimo muito antes de a Lei ser da-
nio" é uma pessoa que rejeitou a salvação da (Gn 14:20), e Jacó seguiu o exemplo do
de Deus (a justificação por meio da fé em avô ( G n 28:20-22). Os princípios da oferta
Cristo). Essa pessoa alardeia a própria reti- cristã no contexto da graça são apresenta-
dão por meio do sistema religioso do qual dos em 2 Coríntios 8 e 9. N ã o nos con-
participa, seja ele qual for. O convertido tentamos em dar apenas o dízimo ( 1 0 % ) ,
geralmente mostra mais zelo do que o líder, mas também desejamos trazer ofertas ao
e essa "dupla devoção" produz apenas du- Senhor com nosso coração cheio de amor.
pla condenação. Como é triste as pessoas Justiça, misericórdia e fidelidade são qua-
pensarem que estão indo para o céu quan- lidades importantes que Deus procura e que
do, na verdade, estão indo para o inferno! não podem ser substituídas pela obediência
Fome de justiça - ganância de bens (vv. a regras. Apesar de ser importante prestar
16-22; 5:6). "Guias cegos" é uma descrição atenção aos detalhes, nunca devemos per-
perfeita e que deve ter feito os ouvintes sor- der nosso senso de prioridade quanto às
rirem. Jesus já havia usado essa expressão questões espirituais. Jesus não condenou
anteriormente (Mt 15:14). Os fariseus esta- a prática do dízimo, mas sim aqueles que
vam cegos para os verdadeiros valores da deixaram que seus escrúpulos legalistas os
vida. Suas prioridades não estavam em or- impedissem de desenvolver o verdadeiro
dem: juravam em nome de algum objeto caráter cristão.
sagrado, como o ouro do templo, por exem- Coração puro - coração corrupto (vv.
plo, ou a oferta do altar. Mas não juravam 25-28; 5:8). Jesus usa duas ilustrações: o
pelo templo ou pelo altar em si, uma vez copo e o prato e o sepulcro. Ambas mostram
que era o templo que santificava o ouro, e o a mesma verdade: é possível estar limpo
altar que santificava a oferta. Estavam dei- por fora e, ao mesmo tempo, contaminado
xando Deus de fora de suas prioridades. por dentro. Imagine usar pratos e copos su-
Jesus sabia que os fariseus desejavam jos! Tudo o que for colocado no prato ou
tanto o ouro quanto a oferta do altar. Por no copo também ficará sujo. Os fariseus
isso, praticavam o "Corbã", pois qualquer tomavam o cuidado de se manter limpos
coisa consagrada a Deus não poderia ser exteriormente, pois era sua parte visível aos
usada para outros ( M t 15:1-9; Mc 7:10-13). homens. No entanto, Deus vê o coração
Não buscavam a justiça de Deus; só deseja- (1 Sm 16:7); e, quando olhou para dentro
vam conquistar benefícios para si mesmos. deles, viu apenas "rapina e intemperança"
Criaram um "sistema religioso" que lhes per- ( M t 23:25).
mitia roubar a Deus e aos outros e, ainda O povo judeu cuidava para não tocar
assim, manter uma boa reputação. cadáveres ou qualquer coisa relacionada
Obter a misericórdia - rejeitar a mise- c o m a morte, pois isso os tornava cerimo-
ricórdia (w. 23, 24; 5:7). A especialidade nialmente impuros ( N m 19:11 ss). Espe-
dos fariseus era se preocupar c o m coisas cialmente na época da Páscoa, passavam
secundárias. Ao mesmo tempo que tinham cal na parte de fora dos túmulos para que
regras para todos os aspectos da vida, dei- ninguém se contaminasse acidentalmente.
xavam passar as coisas mais importantes. Os Trata-se de uma representação vivida dos hi-
legalistas costumam ser assim: atentos para pócritas: brancos por fora, mas cheios de
os detalhes, mas cegos para os grandes corrupção e de morte por dentro!
princípios. Não se incomodaram de conde- "Bem-aventurados os limpos de co-
nar um homem inocente, mas se recusaram ração", é a promessa de Jesus. "Sobre tudo
a entrar no palácio de Pilatos, a fim de não o que se deve guardar, guarda o coração,
se contaminar (Jo 18:28). porque dele procedem as fontes da vida"
M A T E U S 23 m

( P v 4:23). D. L. M o o d y costumava dizer: " S e leis exteriores. Jesus ensinava a humildade e


eu cuidar de m e u caráter, minha reputação o serviço sacrificai, mas os fariseus eram or-
cuidará de si m e s m a " . Os fariseus viviam em gulhosos e usavam o povo para cumprir seus
função da reputação, não do caráter. propósitos. A vida santa de Jesus expôs a
Pacificadores e perseguidos são filhos piedade artificial e a religião superficial de-
de Deus - perseguidores são filhos do dia- les. Em v e z de saírem das trevas, os fariseus
bo (w. 29-33; 5:9-12). Ao chamar os fariseus tentaram destruir a luz e fracassaram.
d e " S e r p e n t e s , raça d e víboras", J e s u s o s
identifica c o m Satanás, a serpente ( G n 3:1 ss). 3. LAMENTAÇÃO SOBRE JERUSALÉM
Em sua parábola do joio, deixa claro q u e ( M T 23:37-39)
Satanás tem uma família ( M t 13:38). Satanás Jesus proferiu essas palavras de lamentação
é homicida e mentiroso ( J o 8:44), e seus fi- c o m o uma expressão sincera de seu a m o r
lhos seguem seu exemplo. Os fariseus eram por J e r u s a l é m e de sua tristeza diante de
mentirosos ( M t 23:30) e homicidas ( M t tantas oportunidades de salvação q u e o povo
23:34). havia desperdiçado. " J e r u s a l é m " refere-se a
Fazia parte da tradição farisaica construir, toda a n a ç ã o de Israel. Os líderes do país
fazer melhorias e acrescentar adornos aos eram culpados de uma série de crimes con-
túmulos d o s mártires. M a s foram os "pais tra os mensageiros de D e u s e até m e s m o
deles" q u e m mataram os mártires! N ã o seus da morte de alguns deles. M a s , em sua gra-
pais biológicos, é claro, mas seus "pais espi- ça, Jesus veio para reunir o povo e salvá-los.
rituais" - os hipócritas de outrora. A declaração: " Q u i s eu [...] e v ó s n ã o o
S e m p r e existiram servos falsos de D e u s quisestes" resume a tragédia da rejeição final
n o mundo, c o m e ç a n d o c o m C a i m ( G n 4:1- à verdade. N ã o se trata de u m a discussão
15; 1 Jo 3:10-15). Os fariseus e outros de sobre a soberania divina e a responsabilida-
seu tipo são culpados de todo o sangue jus- d e h u m a n a , pois a m b a s estão presentes.
to derramado em n o m e da "religião". O D e u s n ã o poderia impor a salvação a seu
primeiro mártir registrado no Antigo Testa- povo, t a m p o u c o m u d a r as c o n s e q ü ê n c i a s
m e n t o foi A b e l ( G n 4), e o último, o profeta de sua rejeição obstinada. " C o n t u d o , n ã o
Zacarias (2 Cr 24:20-22 - a Bíblia hebraica quereis vir a mim para terdes v i d a " (Jo 5:40).
termina c o m 2 Crônicas, não c o m Malaquias). A imagem da m ã e pássaro ajuntando os
Q u a l será o resultado dessa longa his- pintinhos sob suas asas é bastante familiar.
tória de assassinatos? J u l g a m e n t o terrível! M o i s é s usou-a em seu sermão de despedi-
"Esta geração" (a "raça de víboras", Mt da ( D t 32:11). E uma imagem de amor, de
23:33) provaria o gosto da ira de D e u s quan- c u i d a d o terno e de disposição de morrer
do o cálice da iniqüidade estivesse cheio ( G n para proteger a outros. Jesus morreu pelos
15:16; Mt 23:32). Alguns destes julgamen- p e c a d o s do mundo, inclusive os de Israel,
tos vieram q u a n d o Jerusalém foi destruída, " M a s os seus n ã o o r e c e b e r a m " ( J o 1:11).
e o restante do c á l i c e será distribuído na " V o s s a c a s a " p r o v a v e l m e n t e significa
eternidade. tanto o templo quanto a cidade, e a m b o s
Ao recapitular esses a/s trágicos proferi- seriam destruídos em 70 d.C. na invasão do
dos por Jesus, e n t e n d e m o s por q u e os exército r o m a n o . O templo, c h a m a d o de
fariseus eram seus inimigos. Jesus enfatizava "minha casa" em M a t e u s 21:13, havia sido
o ser interior, e n q u a n t o eles se preocupa- a b a n d o n a d o e deixado vazio. Jesus deixou
v a m apenas c o m o exterior. O Senhor ensina- o templo e a cidade e foi para o m o n t e das
va o desenvolvimento de uma vida espiritual Oliveiras ( M t 24:1-3).
c o m base em princípios, enquanto eles se No entanto, Jesus deixou sua n a ç ã o c o m
c o n c e n t r a v a m em regras e normas. Jesus uma promessa: um dia voltaria, Israel o ve-
media a espiritualidade em termos de caráter, ria e diria: " B e n d i t o o q u e v e m em n o m e do
enquanto os fariseus a m e d i a m em termos Senhor!" Trata-se de uma citação do Salmo
de atividades religiosas e de o b e d i ê n c i a a 118:26, o grande salmo messiânico citado
112 MATEUS 23

tantas vezes em sua última semana de mi- Não podemos ler essa acusação tão se-
nistério. As multidões haviam usado essas vera sem nos admirar com a paciência e a
mesmas palavras no Domingo de Ramos (Mt bondade do Senhor. Nenhuma nação foi tão
21:9). abençoada quanto Israel, no entanto, nenhu-
Quando essa profecia se cumprirá? No ma nação pecou contra a bondade de Deus
fim dos tempos, quando Jesus Cristo voltar à tanto quanto os israelitas. Foram o canal das
Terra para livrar Israel e derrotar seus inimi- bênçãos de Deus para o mundo, "porque a
gos (Zc 12; Rm 11:25-27). O fato de Israel ter salvação vem dos judeus" (Jo 4:22). Mesmo
rejeitado o Rei não seria um empecilho para assim, ao longo dos séculos, o povo de Is-
os grandes planos da redenção divina. Em rael tem passado por grandes tribulações.
lugar de estabelecer seu glorioso reino na Jesus nasceu judeu e amou sua nação.
Terra, Jesus constituiria sua Igreja (Mt 16:18; Nós, gentios, devemos agradecer a Deus
Ef 2:11-22). Quando esse trabalho estiver ter- pelos judeus, pois eles nos deram testemu-
minado, ele voltará e levará a Igreja para o nho do Deus verdadeiro; também deles pro-
céu (1 Ts 4:13-18). Em seguida, haverá um vém a Bíblia e Jesus Cristo, o Salvador. Como
período de julgamento na Terra ("o Dia do Jesus, devemos amar os judeus, procurar
Senhor", "tempo de angústia para Jacó"), ao ganhá-los, orar pela paz de Jerusalém e
final do qual Jesus voltará para livrar Israel. encorajá-los de todas as formas possíveis.
1. O COMEÇO DA TRIBULAÇÃO
( M T 24:4-14)
O s a c o n t e c i m e n t o s descritos nesta s e ç ã o
são "o princípio das dores" ( M t 24:8). A ima-
A VOLTA DO REI - gem da mulher em dores de parto é u m a

PARTE 1 representação do período de Tribulação (Is


13:6-11; 1 Ts 5:5). V e j a m o s alguns dos acon-
tecimentos mais importantes q u e ocorrerão
MATEUS 24:1-44
no início desse tempo.
ilusão religiosa (w. 4, 5). Em várias oca-
siões, os judeus já foram desviados do cami-
nho da verdade por falsos profetas e falsos

O sermão no monte das Oliveiras nas-


c e u de perguntas dos discípulos, quan-
do Jesus lhes disse que, um dia, o templo
cristos. O cavaleiro no c a v a l o b r a n c o em
Apocalipse 6:1, 2 é o anticristo, o último di-
tador mundial q u e conduzirá as n a ç õ e s à
seria destruído. Primeiro, q u i s e r a m saber perdição. C o m e ç a r á sua carreira c o m o um
quando. A resposta a essa pergunta não se pacificador, assinando uma aliança c o m Is-
e n c o n t r a registrada e m M a t e u s , m a s e m rael para protegê-lo de seus inimigos ( D n
Lucas 21:20-24. Segundo, perguntaram so- 9:27). Israel o aceitará c o m o seu g r a n d e
bre os sinais da volta de Cristo. Essa respos- benfeitor ( J o 5:43).
ta encontra-se em M a t e u s 24:29-44. Sua úl- Guerras (v. 6). C o n v é m observar q u e as
tima pergunta foi sobre os sinais do fim dos guerras n ã o são um sinal do fim. S e m p r e
tempos. A resposta de Cristo está em M a t e u s houve guerras no mundo, e continuará ha-
24:4-8. v e n d o até o final. As guerras, por si mes-
D e v e m o s ter em m e n t e q u e esse discur- mas, n ã o anunciam o fim dos tempos n e m
so foi feito n u m contexto judaico. Jesus fa- a vinda do Senhor.
lou sobre a Judéia ( M t 24:16), o sábado ( M t Fome (v. 7a). G u e r r a e f o m e geralmente
24:20) e as profecias de Daniel quanto ao a n d a m juntas. Apocalipse 6:6 dá a entender
p o v o j u d e u ( M t 24:1 5). A verdade completa q u e os preços dos alimentos básicos serão
sobre o arrebatamento da Igreja (1 Co 15:51 ss; absurdamente altos, pois um denário era o
1 Ts 4:13-18) ainda n ã o havia sido revelada, pagamento de um dia de trabalho.
pois era um mistério (Ef 3:1-12). Morte (w. 7by 8). Terremotos t a m b é m
M a t e u s 24:1-44 dá a entender q u e Jesus contribuem para a escassez de alimentos, e
está discutindo a c o n t e c i m e n t o s q u e ocor- a m b o s servem para espalhar epidemias q u e
rerão na Terra durante o t e m p o da tribula- causam inúmeras mortes.
ç ã o (ver Mt 24:8, em q u e o "princípio das Mártires (v. 9). Os cristãos s e m p r e fo-
dores [de parto]" simboliza a Tribulação; ver ram odiados pelo mundo, mas aqui v e m o s
t a m b é m Mt 24:21, 29). D e p o i s q u e a Igre- a intensificação de perseguições e de exe-
ja for arrebatada do mundo, haverá um pe- c u ç õ e s envolvendo n a ç õ e s de todo o mun-
r í o d o de " p a z e s e g u r a n ç a " (1 Ts 5:1-4), do. C o m certeza, não foi o q u e a c o n t e c e u
seguido de um período de sofrimento terrí- na história da Igreja primitiva.
vel que, d e a c o r d o c o m vários estudiosos Caos mundial (vv. 10-13). Os q u e antes
da Bíblia, durará sete anos ( D n 9:24-27). É eram fiéis uns aos outros agora se trairão. Su-
esse período de "Tribulação" q u e Jesus des- gere-se, c o m isso, q u e casamentos, famílias
c r e v e n o S e r m ã o d o M o n t e das Oliveiras. e nações serão destruídos pela deslealdade.
Ao final desse tempo, Cristo voltará à Terra, N ã o haverá mais leis ( M t 24:12), pois n e m
derrotará seus inimigos e estabelecerá o rei- m e s m o as autoridades encarregadas de fa-
no prometido. zer cumprir as leis conseguirão manter a paz.
Na s e ç ã o a seguir, J e s u s explica três M a t e u s 24:13 n ã o t e m relação alguma
m o m e n t o s diferentes da Tribulação. c o m a salvação pessoal nesta era da graça
114 MATEUS 24:1-44

em que vivemos. "Até o fim" não significa passaram exatamente 482 anos proféticos
até o fim da vida, mas sim até o fim dos tem- (de 360 dias cada) entre a publicação do
pos (Mt 24:14). Os que crerem durante esse decreto e o dia em que Jesus entrou em Je-
período terrível e que perseverarem em sua rusalém como Rei.
fé serão salvos, quando o Senhor vier no Mas devemos justificar a "semana" de
fim dos tempos e livrá-los. sete anos que sobrou. Onde se encaixa? É
Pregação mundial (v. 14). De acordo importante observar que a mesma cidade
com Apocalipse 7:1-8, Deus separará e colo- que foi reconstruída será destruída pelo
cará seu selo sobre 144 mil judeus evange- "povo de um príncipe que há de vir" (Dn
listas, os quais levarão a mensagem do reino 9:26), ou seja, os romanos ("príncipe que
a todos os cantos da Terra. Esse versículo há de vir" é um nome para o anticristo). Esse
não ensina que Jesus só voltará para buscar acontecimento deu-se em 70 d.C, mas a
sua Igreja depois que o evangelho da graça nação de Israel seria poupada e a cidade
de Deus tiver sido levado a todas as nações. restaurada. Numa data futura, o príncipe que
Trata-se de uma declaração com respeito à há de vir (anticristo) fará uma aliança com
volta de Cristo no fim dos tempos. os judeus por sete anos. É nesse ponto que
se encaixa a semana que sobrou. Ele con-
2. O MEIO DA TRIBULAÇÃO cordará em proteger Israel de seus inimigos
( M T 24:15-22) e permitirá que reconstruam seu templo (Dn
O ponto central do período de tribulação é 9:27 fala sobre a restauração dos sacrifícios,
o mais importante, pois nessa ocasião se uma prática que requer a existência do
dará o acontecimento profetizado séculos templo).
atrás por Daniel (Dn 9:24-27). É importante O lugar mais lógico para esse período
observar que essa profecia refere-se somen- de sete anos é depois do arrebatamento da
te aos judeus e à cidade de Jerusalém ("teu Igreja. "O tempo de angústia de Jacó", o
povo e [...] a tua santa cidade", Dn 9:24). período da Tribulação, será de sete anos.
Aplicá-la à Igreja ou a qualquer outra pes- 2 Ts 2:1-12 indica que o anticristo não po-
soa é interpretar indevidamente a Palavra de derá ser revelado até que se remova "aque-
Deus. le que agora o detém", ou seja, o Espírito
A profecia fala de setenta semanas, e a Santo na Igreja. Uma vez que a Igreja for
palavra hebraica para "semana" significa retirada do mundo, então Satanás poderá
"uma semana de anos", ou seja, sete anos. produzir sua obra-prima, o anticristo.
Setenta semanas, portanto, eqüivalem a qua- Ele fará um acordo por sete anos, mas,
trocentos e noventa anos, e esse período é depois de três anos e meio ("na metade da
dividido em três partes: semana"), romperá o acordo, se mudará para
(1) Durante 7 semanas (49 anos), a ci- o templo dos judeus e se proclamará Deus
dade de Jerusalém seria reconstruída e a (2 Ts 2:3, 4; Ap 13).
adoração reinstituída. O anticristo colocará no templo uma
(2) Depois de 63 semanas (434 anos), o estátua de si mesmo e de seu colaborador
Messias viria a Jerusalém e morreria pelos (o falso profeta, Ap 20:10) e fará a Terra toda
pecados do mundo. o adorar. Satanás sempre quis a adoração
(3) O príncipe fará um acordo com os do mundo, e no meio da Tribulação come-
judeus por uma semana (7 anos), compro- çará a recebê-la (Mt 4:8-11). Jesus chama
metendo-se a protegê-los de seus inimigos. essa estátua de "abominável da desolação"
A reconstrução de Jerusalém foi decre- (Dn 9:27; Mt 24:15).
tada em 445 a.C. por Ciro (2 Cr 36:22, 23; Encontramos um parêntese interessante
Ed 1). A cidade foi reconstruída em tempos no final de Mateus 24:15 - "quem lê enten-
conturbados. Em sua obra clássica The da". Trata-se de uma expressão indicando
Corning Prince [O Príncipe Vindouro] (Kregel, que os ensinamentos de Jesus serão extre-
1975), Sir Robert Anderson mostrou que se mamente importantes para aqueles que
M A T E U S 21:1 - 22:14 115

lerem o Evangelho de Mateus em tempos vin- Durante esse período, D e u s cuidará de


douros. Ao ler os escritos do profeta Daniel seus "escolhidos" ( M t 24:22), uma referên-
e as palavras de Jesus, esses crentes enten- cia aos judeus e gentios q u e creram e se
derão os acontecimentos descritos e sabe- converteram. Esses escolhidos n ã o são os
rão o q u e fazer. Essa é outra evidência de membros da Igreja, uma v e z q u e esta terá
q u e as palavras do monte das Oliveiras apli- sido a r r e b a t a d a p e l o m e n o s três a n o s e
cam-se às pessoas do período da Tribulação. m e i o antes.
Estudiosos das profecias especulam so-
bre o q u e levará o anticristo a romper sua 3. O FIM DA T R I B U L A Ç Ã O
aliança c o m os judeus depois de três anos e ( M T 24:23-44)
meio. A l g u é m sugeriu que, nessa ocasião, A situação mundial será tão terrível q u e as
Israel será invadida pela Rússia, conforme a pessoas se perguntarão se haverá alívio, uma
profecia em Ezequiel 38 e 39. S e m dúvida, dúvida q u e dará aos falsos cristos a opor-
Israel se verá n u m a situação confortável e tunidade de enganar a muitos. Satanás é ca-
se sentirá seguro, contando c o m a proteção paz de realizar "prodígios da mentira" (2 Ts
do anticristo (Ez 38:11). N e s s e tempo, ele 2:9-12; Ap 13:13, 14). O fato de os líderes
será o líder de u m a coligação de dez paí- religiosos realizarem milagres não é garan-
ses: " O s Estados U n i d o s d a E u r o p a " ( A p tia de q u e tenham sido enviados por Deus.
1 7:12, 1 3). A U n i ã o Soviética será totalmen- Muitos judeus serão iludidos, pois " o s judeus
te derrotada, não por Israel, mas pelo D e u s p e d e m sinais" (1 Co 1:22). Jesus realizou
Todo-Poderoso. Q u a n d o o anticristo perce- sinais verdadeiros em n o m e do Pai, e a na-
ber a derrota da U n i ã o Soviética, sua grande ç ã o o rejeitou ( J o 12:37ss). No entanto, o
inimiga, vai se aproveitar dessa oportunida- p o v o aceitará os milagres de Satanás.
de e se mudar para Israel, rompendo a alian- M a t e u s 24:27 mostra q u e a volta de Cris-
ça e invadindo o templo. to será repentina, c o m o um relâmpago. O
Os leitores dessa profecia, nos últimos acontecimento q u e p r e c e d e seu retorno é
dias, saberão o q u e fazer: fugir da Judéia! o ajuntamento das nações gentias no Arma-
E n c o n t r a m o s aqui instruções semelhantes g e d o m ( A p 16:13-16; 19:11ss). As águias
àquelas dadas em Lucas 21:20ss, mas q u e v o a n d o sobre os cadáveres representam
se referem a um período diferente. As ins- uma terrível carnificina, resultante de u m a
t r u ç õ e s d e Lucas aplicam-se a o c e r c o d e grande batalha ( A p 19:1 7-19). As m u d a n ç a s
Jerusalém em 70 d.C., e o "sinal" é o ajunta- c ó s m i c a s m e n c i o n a d a s e m M a t e u s 24:29
mento dos exércitos ao redor da cidade. As p r e c e d e m a volta de Cristo à Terra.
instruções de M a t e u s aplicam-se aos cren- N ã o sabemos qual será "o sinal do Filho
tes judeus em meio à Tribulação, e o "sinal" do H o m e m [no céu]", mas o povo da Terra,
é a profanação do templo pela estátua do nesse tempo, o reconhecerá. Q u a n d o Jesus
anticristo. A q u e l e s q u e confundiram esses buscar a Igreja, virá nos ares, o n d e seu povo
dois "sinais" c o n c l u í r a m q u e Jesus Cristo se encontrará c o m ele (1 Ts 4:17). M a s a
voltou em 70 d . C ! segunda vinda de nosso Senhor no final da
O parágrafo inteiro diz respeito apenas tribulação será um grande a c o n t e c i m e n t o
a o s judeus, pois n e n h u m cristão se preo- público, e todos o verão ( A p 1:7).
cuparia c o m a lei do sábado. Esse aconte- Esse acontecimento terá um significado
cimento conduz à "grande tribulação", a especial para Israel. Jesus voltará no momen-
última metade da sétima semana de Daniel, t o e m q u e Israel estiver s e n d o d e r r o t a d o
q u a n d o D e u s lançará seu julgamento sobre pelos exércitos gentios ( Z c 12). Resgatará
a Terra. Durante a primeira metade (três anos seu povo, e eles o v e r ã o e o r e c o n h e c e r ã o
e meio) da Tribulação, os julgamentos serão c o m o seu Messias ( Z c 12:9-14). A n a ç ã o
naturais: guerras, fome, terremotos etc. Na experimentará o arrependimento, a purifi-
última metade, porém, serão sobrenaturais c a ç ã o e a restauração sob a liderança bon-
e devastadores. dosa do Messias.
116 MATEUS 24:1-44

Não devemos confundir a trombeta de três admoestações práticas, usando três ilus-
Mateus 24:31 com a "trombeta de Deus" trações: a figueira, Noé e o ladrão que vem
mencionada em 1 Tessalonicenses 4:16. no meio da noite. Mateus 24:36 deixa claro
"Seus escolhidos" em Mateus 24:31 são as que ninguém sabe o dia nem a hora da vin-
pessoas na Terra, judeus e gentios, que da do Senhor. No entanto, podemos estar
creram em Cristo e foram salvas. No Antigo atentos para seus movimentos, a fim de não
Testamento, a movimentação de Israel era sermos pegos de surpresa.
anunciada por um sinal de trombeta (Nm A figueira (w. 32-35). Lucas 21:29 diz:
10; Jl 2:1 ss). Há séculos, Israel encontra-se "Vede a figueira e todas as árvores". Na Bí-
disperso. Os anjos ajuntarão o povo de Is- blia, a figueira costuma ser uma represen-
rael com trombetas, como faziam os sacer- tação de Israel (Os 9:10; Lc 13:6-10), e as
dotes no Antigo Testamento (Lv 23:23-25). outras árvores, nesse caso, representam as
Os estudiosos das profecias não apresen- nações do mundo. É possível que Jesus esti-
tam um consenso quanto a todos os detalhes vesse sugerindo que o nacionalismo crescen-
dos acontecimentos futuros. Mas o resumo te fosse um dos sinais do fim dos tempos.
a seguir representa adequadamente a se- Sem dúvida, os acontecimentos futuros lan-
qüência de acontecimentos visualizada por çam sombras diante de si. A oração: "Ora,
muitos desses estudiosos: ao começarem estas coisas a suceder" (Lc
21:28, grifo nosso) sugere que um sinal não
1. O arrebatamento da Igreja (1 Co precisa completar-se, a fim de ser relevante
15:51-58; 1 Ts 4:13-18). Pode ocorrer para o povo de Deus.
a qualquer momento. Os brotos que surgem nas árvores indi-
2. O líder das dez nações européias faz cam que o verão está próximo. O começo
um acordo de sete anos com Israel desses sinais indica que a vinda do Senhor
(Dn 9:26, 27). está próxima. A geração que estiver presen-
3. Depois de três anos e meio, rompe te nesse período verá esses acontecimentos
o acordo (Dn 9:27). se desenrolando. Nossa geração testemunha
4. Muda-se para Jerusalém e coloca o prenuncio de tais eventos. Não procura-
sua imagem no templo (2 Ts 2:3, 4; mos sinais, mas sim o Salvador (Fp 3:20).
Ap 13). Jesus pode vir buscar sua Igreja a qualquer
5. O anticristo começa a controlar o momento.
mundo e exige a adoração e obediên- Os dias de Noé (vv. 36-42). Aqui a ênfa-
cia de todos. Nesse período, Deus se é sobre o fato de que o povo não sabia o
envia uma grande tribulação sobre dia em que viria o julgamento. N o é e sua
a Terra (Mt 24:21). família na arca ilustram o milagre de Deus
6. As nações ajuntam-se no Armage- em preservar Israel durante esse tempo
dom para lutar contra o anticristo e terrível de tribulação (Enoque representa o
Israel, mas vêem o sinal da vinda arrebatamento antes da tribulação - Gn 5:21-
de Cristo e se unem para lutar con- 24; Hb 11:5; 1 Ts 1:10; 5:1-10).
tra ele ( Z c 12; Ap 13:13, 14; O que impediu as pessoas de ouvir a
19:11 ss). mensagem de Noé e obedecer? Os interes-
7. Jesus volta à Terra, derrota seus ini- ses comuns da vida: comer, beber, casar e
migos, é recebido pelos judeus e dar-se em casamento. Ao viver em função
estabelece seu reino na Terra (Ap das coisas boas da vida, perderam o melhor.
19:11ss;Zc 12:7- 13:1). Reina sobre É perigoso tornar-se tão absortos com as
a Terra por mil anos (Ap 20:1-5). coisas da vida a ponto de esquecer que Je-
sus está voltando.
As profecias não têm por objetivo entreter O verbo "tomado", em Mateus 24:39-41,
os curiosos, mas encorajar os consagrados. significa "levado a julgamento". Não devemos
Jesus encerra esta seção de seu discurso com aplicar esses versículos ao arrebatamento da
M A T E U S 2 4 : 4 5 - 25:46 119

( M t 13:52). Em sua busca por novidades e c o m o noiva prematuramente, pois a maior


idéias interessantes, alguns mestres da Bíblia parte desse conceito só foi revelada duran-
e s q u e c e m os nutrientes de verdades antigas te o ministério de Paulo (Ef 5:22ss).
da Palavra. O u t r o s ministros, por sua vez, A Igreja sabe, há dois mil anos, q u e Je-
estão tão presos a coisas antigas q u e não sus voltará, m e s m o assim, muitos cristãos
c o n s e g u e m enxergar novos insights e novas continuam letárgicos e sonolentos. N ã o es-
a p l i c a ç õ e s para as v e r d a d e s mais antigas. tão mais e m p o l g a d o s c o m a vinda iminen-
O velho dá origem ao novo, e o novo torna o t e d o Senhor. C o m o resultado, d ã o p o u c o
velho mais significativo. t e s t e m u n h o eficaz de q u e o S e n h o r está
Se o líder espiritual estiver trabalhando voltando.
em obediência q u a n d o o Senhor voltar, será O óleo usado para combustível lembra
r e c o m p e n s a d o . M a s , se n ã o estiver fazen- o ó l e o especial usado nos cultos do taber-
do seu trabalho q u a n d o o Senhor voltar, será náculo (Êx 27:20, 21). O óleo costuma sim-
tratado c o m severidade ( M t 24:51), c o m o bolizar o Espírito de Deus, mas, a m e u ver,
indica a i m a g e m da dor e da perda. Isso não esse ó l e o em particular t a m b é m p a r e c e sim-
significa q u e serão distribuídos castigos di- bolizar a Palavra de Deus. A Igreja deveria
ante do trono de Cristo, pois teremos um estar "preservando a Palavra da v i d a " neste
c o r p o glorificado. No entanto, sugere a per- m u n d o cruel e tenebroso (Fp 2:12-16). C a b e
da de recompensas e de oportunidades. a nós manter a palavra da perseverança ( A p
Jesus não explica tal v e r d a d e nesta pas- 3:10) e continuar t e s t e m u n h a n d o sobre a
sagem, mas, a partir de outros trechos das volta de Jesus Cristo.
Escrituras, v e m o s q u e uma das recompen- Q u a n d o o noivo e a noiva apareceram,
sas por um serviço obediente será ministrar metade das damas de honra não p ô d e acen-
no reino estabelecido na Terra (Lc 19:11ss). der suas lâmpadas, porque não tinha óleo.
A recompensa de um serviço obediente é a " N o s s a s lâmpadas estão se apagando!" dis-
c a p a c i d a d e de servir ainda mais. Para mim, seram. M a s as damas de honra q u e tinham
n ã o ter um lugar para ministrar no reino de ó l e o conseguiram acender suas lâmpadas e
D e u s seria uma perda tremenda. mantê-las resplandecentes. Foram elas q u e
O q u e c a u s o u a q u e d a d e s s e servo? entraram na festa de casamento, não as in-
Havia algo de errado em seu coração: ele sensatas q u e ficaram sem óleo. Essa imagem
p a r o u d e esperar a v i n d a d o S e n h o r ( M t p a r e c e indicar q u e n e m todos os cristãos
2 4 : 4 8 ) . V i v e u c o m o s e fosse a l g u é m d o professos entrarão no céu, pois alguns n ã o
m u n d o e maltratou seus colegas de serviço. c r e r a m d e t o d o c o r a ç ã o n o S e n h o r Jesus
Q u a n d o o s servos d e D e u s não c o n s e g u e m Cristo. S e m o Espírito de D e u s e sem a Pala-
trabalhar juntos, geralmente é p o r q u e al- vra de Deus, não há salvação verdadeira.
g u é m está e s q u e c e n d o q u e o S e n h o r vol- Jesus termina essa parábola c o m u m a
tará. Esperar e amar a volta de Cristo deve advertência q u e havia dado anteriormente:
servir de m o t i v a ç ã o para q u e permaneça- "Vigiai" ( M t 24:42; 25:13). Isso n ã o signifi-
mos fiéis e para que sejamos amorosos (1 Ts ca ficar em pé no alto de u m a m o n t a n h a
2:19, 20; 1 Jo 2:28). olhando para o c é u (At 1:9-11), mas sim estar
Testemunhas sábias e testemunhas insen- desperto e atento ( M t 26:38-41).
satas (w. 1-13). N a q u e l e tempo, o casamen- Servos úteis e servos inúteis (vv. 14-30).
to era realizado em duas etapas. Primeiro, o Esta parábola não deve ser confundida c o m
noivo e seus amigos iriam até à casa da noiva a parábola das d e z minas (Lc 19:11-27), ape-
buscá-la. Em seguida, noiva e noivo volta- sar de as duas apresentarem semelhanças. É
v a m para a casa do noivo o n d e era realizada importante observar q u e c a d a servo dessa
a festa de casamento. O texto aqui sugere parábola recebeu certa quantia em dinheiro
q u e o noivo já havia buscado sua esposa e ( u m talento correspondia a cerca de vinte
estava voltando para sua casa. No entanto, anos de salário) de a c o r d o c o m sua capaci-
M A T E U S 24:45 - 25:46 120

cinco talentos; ao com capacidade razoável ao qual já havia confiado a quantia mais ele-
foram dados dois talentos e ao com menos vada de talentos.
capacidade, apenas um. Alguns acreditam que esse servo inútil
Os talentos representam oportunidades não era, de fato, temente a Deus. Ao que
de usar suas capacidades. Se cinco talentos parece, porém, era servo sincero, mesmo
fossem dados a uma pessoa c o m pouca tendo se mostrado inútil. "As trevas", em
competência, esse indivíduo seria destruído Mateus 25:30, não se referem necessaria-
pelo peso da responsabilidade. Porém, se mente ao inferno, mesmo quando consi-
apenas um talento fosse dado ao mais com- deramos que esse costuma ser o caso nos
petente, ele seria rebaixado e desonrado. Evangelhos (Mt 8:12; 22:13). É arriscado de-
Deus nos dá tarefas e oportunidades de acor- senvolver uma teologia c o m base em pa-
do c o m nossas capacidades. Vivemos numa rábolas, pois o propósito delas é ilustrar
era entre Mateus 25:18 e 19. Recebemos verdades c o m mais clareza. O servo foi
nossas incumbências ministeriais de acordo tratado c o m severidade por seu senhor,
com as capacidades e dons que Deus nos perdeu a oportunidade de servir e não rece-
deu. É nosso privilégio servir ao Senhor e beu recompensa alguma. Para mim, é isso o
multiplicar os talentos. que as trevas exteriores representam.
Os três servos são divididos em duas É possível que o homem que recebeu
categorias: os fiéis e os infiéis. Os servos fiéis menos achasse que esse único talento não
colocaram os talentos a serviço de seu se- era muito importante. N ã o tinha cinco ta-
nhor. O servo infiel escondeu seu talento lentos, nem mesmo dois, então por que se
na terra. Em vez de usar a oportunidade, ele preocupar c o m um? Porque foi designado
a enterrou! Não fez o mal propositadamen- pelo Senhor para ser mordomo desse talen-
te, mas ao deixar de investir seu talento, to. Se não fosse pelas pessoas de um só ta-
pecou e privou seu senhor dos serviços e lento em nosso mundo, muito pouco teria
rendimentos que lhe eram devidos. sido realizado. Seu único talento poderia
Os dois homens que investiram o di- ter sido dobrado e, com isso, teria trazido
nheiro r e c e b e r a m o m e s m o elogio ( M t glória para seu senhor.
25:21, 23). O que fez a diferença não foi a Essas três parábolas incentivam a amar a
porção, mas sim a proporção. Começaram volta de Jesus, a esperar por ela com ansie-
como servos, mas o senhor promoveu-os a dade e, enquanto isso, a trabalhar fielmen-
governantes. Foram fiéis no pouco, por isso te. Devemos vigiar, testemunhar e trabalhar.
o senhor lhes confiou muito mais. Haviam Talvez não tenhamos sucesso aos olhos dos
trabalhado arduamente e puderam desfru- homens, nem sejamos populares, mas quem
tar os resultados. Sua fidelidade deu-lhes uma for fiel e útil receberá a recompensa.
capacidade ainda maior de servir e de rece-
ber responsabilidades. 2. A VINDA DE C R I S T O E AS NAÇÕES
O terceiro servo foi infiel e, portanto, GENTIAS ( M T 2 5 : 3 1 - 4 6 )
não foi recompensado. Seu medo de falhar Esta seção explica como Jesus Cristo julgará
impediu-o de tentar acertar. Teve medo da as nações gentias. A palavra nações, em
vida e das responsabilidades. C o m isso, fi- Mateus 25:32, significa "gentios" e, no gre-
cou paralisado de ansiedade e enterrou o go, é um substantivo neutro, ou seja, nem
talento para protegê-lo. Poderia, no míni- masculino nem feminino. A palavra outros,
mo, ter colocado o dinheiro no banco e no mesmo versículo, se encontra no gênero
recebido alguns juros sem correr qualquer masculino. Isso significa que as nações se-
risco real. rão reunidas diante de Jesus Cristo, mas ele
Corremos sempre o risco de perder aqui- as julgará individualmente. N ã o será um jul-
lo que não usamos para o Senhor. O senhor gamento de grupos étnicos (Alemanha, Itá-
repreendeu o servo mau e infiel e lhe tirou lia, Japão etc.), mas de indivíduos dentro
o talento que havia dado, dando ao homem dessas nações.
M A T E U S 2 4 : 4 5 - 25:46 121

N ã o se d e v e confundir esse julgamento O mais interessante sobre esse julgamen-


c o m o julgamento do grande trono branco to é q u e os indivíduos c h a m a d o s de ovelhas
descrito em A p o c a l i p s e 20:11-15. Alguns surpreendem-se c o m o q u e ouvem. N ã o se
estudiosos juntam as duas passagens e cha- lembrarão de terem visto o S e n h o r Jesus
m a m isso de "julgamento geral". A Bíblia não Cristo n e m de tê-lo ajudado em suas neces-
diz coisa alguma sobre um julgamento ge- sidades. M a s ao ministrar aos crentes judeus,
rai. O julgamento descrito nessa passagem t a m b é m ministrarão a Cristo. N ã o o farão
ocorrerá na Terra logo depois da batalha do visando qualquer recompensa, mas sim por
A r m a g e d o m . O julgamento do trono bran- amor sacrificial. Ao receber os judeus neces-
co ocorrerá em algum outro lugar do espa- sitados e cuidar deles, esses gentios estarão
ço ("fugiram a terra e o céu", Ap 20:11). O c o l o c a n d o em risco a própria vida. " Q u e m
julgamento em M a t e u s 25 ocorre antes do vos recebe a mim me r e c e b e " ( M t 10:40),
estabelecimento do reino na Terra, pois aos disse Jesus a seus discípulos, e isso certa-
salvos é dito: "Entrai na posse do reino" ( M t mente se aplicará t a m b é m a seus irmãos.
25:34). O julgamento do trono branco ocor- Os indivíduos c h a m a d o s de cabritos se-
rerá depois dos mil anos do reinado de Cris- rão julgados por não crer em Jesus Cristo
to ( A p 20:7ss). n e m dar qualquer mostra de fé cuidando de
Há outro erro a evitar. N ã o se d e v e for- seus irmãos. Ao q u e parece, r e c e b e r ã o a
çar essa passagem de m o d o a encontrar a marca da besta e cuidarão de si mesmos a
idéia de salvação por boas obras. U m a leitu- seu modo, mas n ã o terão t e m p o de ministrar
ra superficial p o d e dar a impressão de que ao remanescente judeu q u e estiver sofren-
ajudar ao próximo é suficiente para mere- do aqui na Terra ( A p 12:17). Há p e c a d o s de
cer a salvação e ir para o céu. No entanto, omissão e pecados de comissão (Tg 4:1 7).
não é essa a mensagem do texto. Ninguém, Em termos morais, deixar de fazer o b e m é
em m o m e n t o algum da história, foi salvo por o m e s m o que fazer o mal.
realizar boas obras. Q u a n d o c o m p a r a m o s as duas sentenças
Os santos do Antigo Testamento foram judiciais ( M t 25:34, 41), descobrimos algu-
salvos pela fé ( H b 11), e os santos do N o v o mas verdades interessantes. Em primeiro lu-
Testamento foram salvos pela fé em Jesus gar, as ovelhas serão a b e n ç o a d a s pelo Pai.
Cristo (Ef 2:8-10). Hoje, as pessoas t a m b é m No entanto, o texto não diz q u e os cabritos
são salvas pela fé em Cristo. O evangelho serão "amaldiçoados pelo Pai". As ovelhas
das " b o a s obras" não é uma mensagem bí- herdarão o reino, e sua herança terá por base
blica. É correto os cristãos realizarem boas seu nascimento. Herdarão o reino, pois te-
obras ( G l 6:10; Hb 13:16), mas não é esse o rão nascido de novo pela fé.
m o d o pelo qual os não cristãos p o d e m ser O reino será preparado para esses indiví-
salvos. duos salvos, mas M a t e u s 25:41 não afirma
Se nos lembrarmos dos três grupos rela- q u e fogo eterno será preparado para os ca-
tados, p o d e r e m o s solucionar c o m mais fa- britos. Antes, será preparado para o diabo e
cilidade o problema: havia ovelhas, cabras e seus anjos ( A p 20:10). D e u s jamais prepa-
irmãos. Q u e m são essas pessoas que o Rei rou o inferno para as pessoas. N ã o há evi-
ousa chamar de " m e u s irmãos"? É provável dência alguma nas Escrituras de q u e D e u s
q u e sejam os judeus do período da tribula- tenha predestinado pessoas para o inferno.
ção, as pessoas q u e ouviram a mensagem Se os pecadores o u v e m Satanás e seguem
dos 144 mil e creram em Jesus Cristo. U m a seus caminhos, terminam no m e s m o lugar
v e z q u e esses crentes judeus n ã o recebe- que ele: no tormento do inferno. Há somente
rão a " m a r c a da besta" ( A p 13:16, 17), não dois destinos eternos: castigo eterno para os
poderão comprar n e m vender. Então, c o m o q u e rejeitarem a Cristo e vida eterna para
conseguirão sobreviver? Por meio da ajuda os que crerem nele.
dos gentios que creram em Cristo e q u e cui- As ovelhas entrarão no reino e compar-
122 MATEUS 24:45 - 25:46 122

com Cristo, e Israel se regozijará com o quietos, pois o pecado do homem já foi jul-
cumprimento das promessas feitas pelos gado na cruz. Deus falou de uma vez por
profetas. Toda a criação compartilhará da todas por meio de seu Filho e só voltará a
gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm falar quando enviar o julgamento durante
8:19-21). Jesus Cristo governará do trono a tribulação.
de Davi em Jerusalém (Lc 1:30-33), e a paz Em quarto lugar, como cristãos e mem-
reinará por mil anos (Is 11). bros da Igreja de Cristo, não estamos pro-
Ao refletir sobre as palavras proferidas curando sinais. " O s judeus pedem sinais"
no monte das Oliveiras, convém recapitular (1 Co 1:22). Não haverá sinais antes da vol-
alguns fatos. Em primeiro lugar, Deus ainda ta repentina de Cristo nos ares para buscar
não terminou sua obra com o povo de Is- sua Igreja. No entanto, quando virmos o
rael. Jesus deixa claro em seu sermão que início de alguns dos sinais da tribulação
Israel será purificado e conduzido à fé no ("ao começarem estas coisas a suceder", Lc
Messias. Deus não lançou seu povo fora (Rm 21:28), saberemos que o fim não está muito
11:1 ss). distante. Nossa impressão é que as tensões
Em segundo lugar, as promessas do reino internacionais e os problemas mundiais es-
apresentadas no Antigo Testamento se cum- tão aumentando e chegarão a um ponto em
prirão. O período da tribulação será extre- que o mundo pedirá um ditador. Nessa oca-
mamente difícil para as pessoas na Terra, mas sião, Satanás terá pronto seu candidato.
será um "trabalho de parto" em preparação Por fim, não importa qual venha a ser
para o nascimento do reino. O sofrimento nossa opinião acerca das profecias, sabemos
conduzirá à glória. que Jesus está voltando. Como cristãos, de-
Em terceiro lugar, Deus julgará este mun- vemos estar alertas e preparados. Não deve-
do. Não envia julgamentos cósmicos hoje, mos desperdiçar oportunidades. Talvez não
porque ainda estamos vivendo no tempo da tenhamos muitas capacidades ou dons, mas
graça, e a mensagem é: "Vos reconcilieis podemos continuar sendo fiéis ao chama-
com Deus" (2 Co 5:14ss). Os céus estão do que recebemos do Senhor.
Jesus. Assentou-se a seus pés e ouviu a Pa-
lavra ( L c 10:38-42), atirou-se a seus p é s
entristecida c o m a morte de Lázaro ( J o 11:28-
32) e a d o r o u a seus pés q u a n d o ungiu o
Senhor c o m bálsamo ( J o 12:1ss). M a r i a era
u m a mulher p r o f u n d a m e n t e espiritual. En-
controu sua b ê n ç ã o aos pés de Jesus, colo-
c o u aos pés dele seus fardos e t a m b é m foi a
seus pés q u e ofereceu o q u e tinha de mais
precioso.
Q u a n d o c o m b i n a m o s o s relatos d o s
Evangelhos, v e m o s q u e M a r i a ungiu os pés

O s a c o n t e c i m e n t o s aproximam-se de
seu ponto culminante. O Rei estava se
preparando para sofrer e morrer. Essa pre-
e a c a b e ç a do Senhor c o m perfume e enxu-
gou os pés dele c o m seus cabelos. Os cabe-
los d e u m a m u l h e r s ã o sua glória ( 1 Co
p a r a ç ã o o c o r r e em três estágios e lugares 11:15). M a r i a entregou sua glória ao Senhor
diferentes. Ao examinar esses estágios, é e o adorou c o m a dádiva preciosa q u e lhe
possível observar o conflito crescente entre ofereceu. Foi um ato de a m o r e de devo-
Cristo e seu inimigo. ção, q u e espalhou sua fragrância por toda
a casa.
1. EM B E T Â N I A : O CONTRASTE ENTRE U m a v e z q u e havia prestado atenção às
A D O R A Ç Ã O E DESPERDÍCIO ( M T 2 6 : 1 - 1 6 ) palavras de Jesus, M a r i a sabia q u e em breve
M a t e u s não oferece um relato cronológico ele seria morto e sepultado. T a m b é m sabia
dos acontecimentos da última semana. Nes- q u e seu c o r p o n ã o precisaria do tradicional
se ponto, insere um flashback para descre- c u i d a d o dispensado a o s mortos, pois n ã o
v e r um b a n q u e t e em B e t â n i a e o gesto veria corrupção (SI 16:10; At 2:22-28). Em
belíssimo de Maria. Enquanto os líderes reli- v e z de ungir o c o r p o de seu Senhor depois
giosos se reuniam para tramar contra Jesus, de sua morte, ela o fez antes. Foi um ato de
os amigos de Cristo reuniam-se para mostrar fé e amor.
seu amor e d e v o ç ã o a ele. Ao juntar esses Judas (vv. 9, 9). Os discípulos não co-
dois relatos, M a t e u s t a m b é m mostra a rela- n h e c i a m o verdadeiro caráter de Judas. A
ç ã o entre a adoração de Maria e a traição crítica q u e fez à atitude de Maria pareceu
de Judas. D e p o i s do banquete em Betânia, tão "espiritual" q u e os outros discípulos se
Judas procurou os sacerdotes e se ofereceu juntaram a ele no ataque. S a b e m o s a ver-
para ajudá-los ( M c 14:10, 11), possivelmen- dadeira razão de Judas querer vender o bál-
te n u m a reação à repreensão de Jesus. samo: o dinheiro seria c o l o c a d o no caixa, e
O b a n q u e t e em Betânia o c o r r e u "seis ele poderia usá-lo para seus próprios inte-
dias antes da P á s c o a " ( J o 12:1), na casa de resses ( J o 12:6).
Simão, o leproso, q u e aparentemente fora Judas é uma figura trágica. Foi c h a m a d o
curado pelo Senhor Jesus. Havia pelo menos para ser um d o s discípulos de Cristo e es-
dezessete pessoas no jantar: Simão, Maria, colhido c o m o apóstolo c o m o s outros ( M c
M a r t a , Lázaro, Jesus e os d o z e apóstolos. 3:13-19). R e c e b e u poder para curar ( M t 10:1-
Fiel a sua personalidade ativa e o c u p a d a , 4) e, p r o v a v e l m e n t e , u s o u esse poder. A
M a r t a c u i d o u de servir a todos (Lc 10:38- salvação não é c o m p r o v a d a pelo poder de
42). As três pessoas-chave desse aconteci- realizar milagres ( M t 7:21-29), mas sim pela
m e n t o são Maria, Judas e Jesus. obediência à Palavra de Deus.
Maria (v. 7). S o m e n t e J o ã o identifica essa A p e s a r de ser um d o s discípulos e de
mulher c o m o Maria, irmã de M a r t a e Lázaro. estar tão próximo de Cristo, Judas n ã o era
Ela é citada somente três vezes no evange- um cristão verdadeiro. Q u a n d o Jesus lavou
124 MATEUS 26:1-56

deles (Judas) não fora purificado (Jo 13:10, Judas quando viu o bálsamo caríssimo sen-
11). Como muitos cristãos professos de hoje, do derramado sobre os pés de Jesus. No
Judas freqüentava o grupo de cristãos, mas entanto, foi Judas quem desperdiçou suas
não era um deles. oportunidades, sua vida e sua alma! Jesus o
É interessante observar que, toda vez chamou de filho da perdição (Jo 17:12), lite-
que Maria procurou fazer algo para Jesus, ralmente, "filho do desperdício".
foi mal compreendida. Sua irmã, Marta, não Jesus (w. 10-16). Defendeu Maria ime-
entendeu a atitude de Maria, quando ela se diatamente, pois sempre protege os seus.
assentou aos pés de Jesus para ouvi-lo. Judas Repreendeu Judas e os outros discípulos e
e os outros discípulos não entenderam quan- elogiou Maria por seu gesto amoroso de
do ela ungiu Jesus, e seus amigos e vizinhos devoção. Nada do que é dado a Jesus com
não entenderam quando ela saiu da casa amor é desperdiçado. Esse ato de adoração
para se encontrar com Jesus depois do sepul- não apenas trouxe alegria ao coração de
tamento de Lázaro (Jo 11:28-31). Quando Jesus e perfumou a casa como também
damos a Jesus Cristo o primeiro lugar em abençoou o mundo inteiro. A devoção de
nossa vida, podemos esperar ser mal com- Maria estimula-nos a amar e a servir a Cristo
preendidos e criticados por aqueles que com o que temos de melhor. Tal serviço traz
dizem segui-lo. aos outros bênçãos das quais talvez só te-
Por que Judas seguiu Jesus por três anos, nhamos notícia quando encontrarmos Jesus
ouviu suas palavras, participou de seu mi- no céu.
nistério e depois se tornou um traidor? Uma Jesus não criticou os discípulos porque
coisa é certa: Judas não foi vítima das cir- se importaram com os pobres. Preocupa-
cunstâncias, tampouco um instrumento pas- va-se com os pobres também, e devemos
sivo da providência divina. De acordo com fazer o mesmo. Antes os advertiu a que não
as profecias, um dos membros do círculo desperdiçassem a oportunidade de adorá-
íntimo de Jesus o trairia (Sl 41:9; 55:12-14), lo. Teriam inúmeras oportunidades de aju-
mas esse fato não redime Judas da respon- dar os pobres, mas nem sempre de adorar
sabilidade pelo que fez. N ã o devemos aos pés de Jesus e de prepará-lo para seu
transformá-lo num mártir só porque cumpriu sepultamento.
a profecia.
Jamais conseguiremos compreender de 2. No CENÁCULO: O CONTRASTE ENTRE
todo a mente e o coração de Judas, mas FIDELIDADE E TRAIÇÃO ( M T 2 6 : 1 7 - 3 0 )
sabemos que ele teve inúmeras oportuni- Os preparativos para a Páscoa (vv. 17-19).
dades de ser salvo. Foi advertido com fre- Era necessário comprar e preparar os ele-
qüência por Jesus e, no cenáculo, o Mestre mentos do jantar de Páscoa. Também era
chegou a lavar seus pés. É provável que Judas preciso encontrar um lugar na cidade abar-
tenha visto em Jesus a esperança da liberda- rotada de Jerusalém em que pudessem rea-
de política de Israel. Se Jesus estabelecesse lizar a comemoração. Jesus enviou Pedro
o reino, Judas, como tesoureiro, teria uma e J o ã o para cuidar dos preparativos (Lc
posição importante. Quando Jesus recusou 22:8). Deveriam seguir um homem que
tornar-se um Messias político, Judas voltou- estivesse carregando um cântaro de água
se contra ele. Satanás encontrou uma oportu- e que lhes mostraria um cenáculo espaço-
nidade em Judas e colocou em sua cabeça so. Não era comum um homem carregar
idéias (Jo 13:2), que o levaram a entregar água, pois essa tarefa normalmente cabia
Jesus aos inimigos (Jo 13:27). às mulheres.
A vida de Judas é um aviso aos que fin- Pedro e João tiveram de providenciar
gem servir a Cristo, mas cujo coração está pães, ervas amargas e vinho para a festa.
distante de Deus. Também é um aviso aos Também tiveram de encontrar um cordeiro
que desperdiçam oportunidades na vida. perfeito e de sacrificá-lo no pátio do templo,
"Para que este desperdício?", perguntou colocando o sangue no altar. O cordeiro
M A T E U S 21:1 - 22:14 125

deveria ser assado inteiro, e e n t ã o a festa I os outros discípulos perceberam o q u e Judas


estaria pronta. estava fazendo. " S a i u logo. E era noite" ( J o
O anúncio da traição (vv. 20-25). A t é o 13:30). Para Judas, ainda é noite.
final, o s d i s c í p u l o s n ã o p e r c e b e r a m q u e A instituição da Ceia do Senhor (vv. 26-
Judas, um d e n t r e eles, era o traidor. N ã o 30). D e p o i s q u e Judas deixou o salão, Jesus
notaram qualquer diferença de atitude na instituiu algo novo, a C e i a do Senhor (1 Co
forma de Jesus tratar Judas, o q u e mostra 11:23-34). T o m o u dois elementos do jantar
claramente a paciência e o amor de nosso de Páscoa, o p ã o asmo e o cálice c o m vinho,
Senhor. Foi durante o jantar de Páscoa, quan- e os usou para representar sua morte. O p ã o
do já estavam c o m e n d o , q u e Jesus anunciou repartido representa seu corpo, entregue pe-
a presença do traidor. Os discípulos entreo- los p e c a d o s do mundo. O "fruto da v i d e "
Iharam-se, tentando imaginar q u e m seria o ( M t 26:29) representa seu sangue, derrama-
traidor. Em seguida, perguntaram a Jesus: do para a remissão d o s pecados. O texto
" S e r á q u e sou eu, S e n h o r ? " A construção não indica que algo especial ou misterioso
da frase indica que esperavam uma respos- o c o r r e u c o m esses dois elementos. Conti-
ta negativa. nuaram sendo pão e "fruto da vide", transmi-
Judas estava reclinado à esquerda de Je- tindo, porém, um significado mais profundo:
sus, o c u p a n d o o lugar de honra do banque- o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
te. ( P o d e ser que isso explique por q u e os A Ceia do Senhor lembra q u e devemos
discípulos voltaram a discutir sobre q u e m era esperar a volta de Cristo. Realizaremos essa
o maior. V e r Lc 22:24-30.) J o ã o estava recli- ceia até que ele volte (1 Co 11:26). A Pás-
n a d o à direita do Senhor e, portanto, podia c o a apontava para o Cordeiro de Deus, q u e
descansar a c a b e ç a no peito de Cristo (Jo tiraria o p e c a d o do m u n d o ( J o 1:29). A C e i a
13:23). O ato de c o m e r p ã o juntos, especial- do Senhor anuncia q u e essa obra momen-
mente o p ã o q u e havia sido mergulhado no tosa foi realizada.
prato de ervas amargas, era um gesto de Em M a t e u s 26:29, Jesus acrescenta um
amizade. T a m b é m era u m a honra receber c o m e n t á r i o q u a n t o à glória do reino vin-
um p e d a ç o de p ã o das mãos do anfitrião. douro. Jesus c o m e u pão, peixe e m e l de-
Jesus deu o p ã o a judas (SI 41:9), e Judas o pois de sua ressurreição ( L c 24:41-43; Jo
aceitou, sabendo que trairia o Senhor. Para 21:9-15). M a s n ã o há registro de q u e tenha
Jesus, dar o p ã o foi um ato gentil de hospita- b e b i d o d o fruto d a vide. M e s m o e n q u a n t o
lidade; para Judas, aceitar o p ã o foi um ato enfrentava a rejeição de sua n a ç ã o e o so-
vil de traição. frimento da cruz, Jesus c o n t i n u o u o l h a n d o
M a t e u s 26:24 apresenta tanto o aspec- para o reino v i n d o u r o q u e seria estabeleci-
to divino quanto o h u m a n o desse aconte- d o por causa d e seu sacrifício. D e a c o r d o
cimento. Do ponto de vista divino, a traição c o m a tradição, no b a n q u e t e de P á s c o a ,
de Judas foi prenunciada nas Escrituras e fa- deveriam ser servidos quatro cálices de vi-
zia parte do plano de Deus. Do ponto de nho, cada um deles relacionado a u m a das
vista humano, porém, Judas foi culpado de quatro promessas em Ê x o d o 6:6, 7. Jesus
um crime e absolutamente responsável pelo instituiu a C e i a do S e n h o r entre o terceiro
q u e fez. N ã o há conflito entre a soberania e o quarto cálice.
divina e a responsabilidade humana, mes- O hino q u e Jesus e seus discípulos can-
m o que não possamos c o m p r e e n d e r c o m o taram antes de deixar o salão era parte do
trabalham juntas para cumprir a vontade de Hallel tradicional encontrado nos Salmos 116
Deus. a 118. Ao ler esses salmos à luz da morte e
D e p o i s q u e J u d a s t o m o u o p e d a ç o de ressurreição de Cristo, p o d e m o s ver c o m o
pão, Satanás entrou nele (Jo 13:27). Em se- adquirem um novo significado. Q u e extraor-
guida, o traidor saiu para cumprir a promes- dinário ver Jesus cantando louvores a D e u s
sa q u e havia feito aos líderes religiosos de quando estava prestes a enfrentar a rejeição,
126 M A T E U S 26:1-56

3. G E T S Ê M A N I : O CONTRASTE ENTRE N ã o devemos imaginar que foi o medo


A S U B M I S S Ã O E A RESISTÊNCIA da morte que fez nosso Senhor agonizar no
( M T 26:31-56) jardim. N ã o temeu a morte, antes a enfren-
O monte das Oliveiras era um jardim parti- tou c o m coragem e paz. Estava para beber
cular para o qual Jesus se retirava c o m o "cálice" que o Pai havia preparado, e isso
freqüência ( J o 18:2), G e t s ê m a n i significa significava tomar sobre si os pecados do
"prensa de azeite", um nome significativo, mundo inteiro (Jo 18:11; 1 Pe 2:24). Muitas
tendo em vista a agonia de nosso Senhor pessoas piedosas têm sido presas, espanca-
naquele jardim. das e assassinadas por causa da fé, mas so-
Jesus anuncia o fracasso dos discípulos mente Jesus foi feito pecado e maldição por
(vv. 31-35). É provável que essa declaração amor à humanidade (2 Co 5:21; Gl 3:13). O
tenha sido feita enquanto se encaminhavam Pai jamais deixou seus filhos, no entanto,
para o jardim. Costumamos apontar para abandonou seu Filho ( M t 27:46). Foi esse o
Pedro c o m o aquele que falhou com o Se- cálice do qual Jesus bebeu voluntariamente
nhor, mas todos os discípulos estavam en- por nós.
volvidos. Ao advertir os discípulos, Jesus faz jesus não estava resistindo nem lutando
referência a Zacarias 13:7, mas também acres- contra a vontade de Deus. Sujeitou-se a ela.
centa uma palavra de promessa: ressuscitaria C o m o homem perfeito, sentiu o terrível pe-
e se dirigiria para a Galiléia, a fim de se en- so do pecado e experimentou em sua alma
contrar com eles. Infelizmente, os discípulos santa verdadeira repulsa por esse pecado.
não deram atenção à promessa da ressurrei- M e s m o assim, c o m o Filho de Deus, sabia
ção. No dia da ressurreição, os anjos os lem- que essa era sua missão no mundo. O mis-
braram do encontro na Galiléia ( M t 28:7,10). tério de sua humanidade e divindade é re-
Q u a n d o Pedro discordou do Senhor, deu presentado nitidamente nessa cena.
0 primeiro passo em seu pecado de negar a Pedro e seus companheiros prometeram
Cristo. Pedro não estava disposto a aplicar a ser fiéis até a morte e, no entanto> caíram no
palavra "todos" a si mesmo. Em lugar de tran- sono! Precisavam orar por eles mesmos, pois
qüilizar Pedro, o Senhor lhe deu uma adver- o perigo estava próximo. Q u ã o importante
tência pessoal: negaria Cristo três vezes! teria sido para o Mestre vê-los vigiando e
Pedro pensava que era melhor do que os orando com ele! Os discípulos falharam, mas
outros, e Jesus lhe disse que seria mais co- o Senhor foi bem-sucedido.
varde do que todos. Jesus é preso (vv. 47-56). Sabendo que
A reação de Pedro foi negar as palavras Judas e os soldados se aproximavam, Jesus
de Cristo ainda mais fervorosamente, e os acordou os discípulos e os preparou para o
outros discípulos juntaram-se a ele nesse pro- que estava prestes a acontecer. O fato de os
testo. Se Pedro tivesse ouvido a palavra e soldados e os guardas do templo carrega-
obedecido, não teria negado seu Senhor três rem armas e lanternas mostra que Judas não
vezes. havia entendido Jesus. Pensou que teriam
Jesus entrega-se à vontade do Pai (w. 36- de vasculhar o jardim para encontrá-lo e de-
46). Jesus deixou oito de seus discípulos na pois lutar contra os discípulos para pren-
entrada do jardim e chamou Pedro, Tiago e dê-lo. M a s Jesus foi até eles e se rendeu
João para acompanhá-lo até um lugar mais tranqüilamente. Na verdade, Judas não pre-
adiante. Essa é terceira vez que o Mestre leva cisaria ter traído Jesus c o m um beijo, pois
esses três homens consigo. Eles o acompa- Cristo disse aos soldados quem ele era.
nharam no m o n t e da transfiguração ( M t É triste ver c o m o Judas degradava tudo
1 7:1 ss) e na casa de Jairo, onde ressuscitou a o que tocava. Seu nome significa louvor ( G n
filha dele (Lc 8:49ss). jesus desejava que oras- 29:35), mas quem pensaria em dar a seu
sem e vigiassem com ele, pois estava entran- filho o nome de Judas hoje em dia? Usou o
do num período difícil, e a presença de seus beijo como arma, não como sinal de afeição.
discípulos lhe serviria de encorajamento. Naquele tempo, era costume os discípulos
MATEUS 26:1-56 127

beijarem seu mestre. Nesse caso, porém, não vivendo de acordo com um cronograma di-
foi um gesto de submissão nem de respeito. vino e que esses acontecimentos não foram
Os verbos em grego indicam que Judas o acidentes, mas sim compromissos agenda-
beijou repetidamente. dos. Tudo fazia parte do plano de Deus, mas,
A essa altura, alguns dos outros discí- mesmo assim, cada indivíduo é responsável
pulos perguntaram: "Devemos usar nossas pela própria perversidade. "Sendo este entre-
espadas?". Quando estava com eles no gue pelo determinado desígnio e presciên-
cenáculo, Jesus explicou sobre as espadas cia de Deus, vós o matastes, crucificando-o
(Lc 22:31-38), preparando-os para uma vida por mãos de iníquos" (At 2:23).
diferente. Teriam de usar os meios que Je- É evidente que não tinham o direito de
sus provesse para cuidar do sustento e da prender Jesus, pois ele não havia transgredi-
segurança deles. Estariam num mundo hos- do lei alguma nem cometido crime algum.
til, e Jesus nem sempre realizaria milagres Estavam tratando o Mestre como um ladrão
para ajudá-los. qualquer, quando, na verdade, Judas era o
Infelizmente, os discípulos não entende- criminoso! Os discípulos, que prometeram
ram o que ele estava ensinando. Como sem- com tanta valentia permanecer a seu lado,
pre, compreenderam as palavras de modo o desertaram no momento crítico. "Eis que
literal. "Senhor, eis aqui duas espadas!", e vem a hora e já é chegada, em que sereis
Jesus lhes disse: "Basta!" (Lc 22:38). Pedro dispersos, cada um para sua casa, e me dei-
havia discutido com a Palavra, negado a Pa- xareis só; contudo, não estou só, porque o
lavra e desobedecido à Palavra (ao dormir Pai está comigo" (Jo 16:32). Mais tarde, até
no jardim). Aqui, o vemos correndo para de- mesmo o Pai o deixaria!
fender a Palavra. Em seu zelo de ajudar Je- Cada um de nós deve decidir: toma-
sus, Pedro usou sua espada para cortar a remos a espada ou beberemos do cálice?
orelha de Malco. Não esperou Jesus lhe di- Resistiremos à vontade de Deus ou nos su-
zer o que fazer; em vez disso (como Moisés jeitaremos a ela? O cálice geralmente en-
no Egito, Êx 2:11-15), Pedro precipitou-se e volve sofrimento, mas é esse sofrimento que
confiou no poder da carne. Se Jesus não nos conduz à glória. Não precisamos te-
tivesse curado a orelha ferida, provavelmen- mer o cálice, pois foi preparado pelo Pai
te haveria quatro cruzes no Calvário! especialmente para nós. Ele sabe quanto
O fato de os guardas não terem prendi- podemos suportar, e o prepara com sabe-
do Jesus no templo mostra que ele estava doria e amor.
ocasiões durante seu ministério. É evidente
que esses líderes ficaram felizes de poder
pôr as mãos em seu inimigo. Caifás já havia
deixado bem claro que pretendia sacrificar
Jesus a fim de salvar a nação (Jo 11:47-54).
O sumo sacerdote organizou, às pres-
sas, uma assembléia no sinédrio, um conse-
lho formado pelos principais sacerdotes,
pelos anciãos e pelos escribas ( M c 14:53).
Enquanto os homens se reuniam, Caifás e
seus assistentes saíram à procura de teste-
munhas que depusessem contra o prisionei-

D epois de sua prisão, Jesus foi levado


para a casa de Anãs, antigo sumo sa-
cerdote, sogro de Caifás, sumo sacerdote
ro. Já haviam determinado que Jesus era
culpado, mas queriam que tudo tivesse a
aparência de um julgamento legal.
oficial na época (Jo 18:13ss). Político astuto, Uma vez que foi impossível encontrar
Anãs também era uma espécie de "padri- uma testemunha honesta (fato que, por si
nho" do templo. Em seguida, Jesus foi leva- mesmo, prova a inocência de Jesus), os líde-
do a Caifás e, pela manhã, à reunião do res arranjaram algumas falsas testemunhas.
sinédrio. Os líderes judeus o entregaram a A lei de Moisés advertia contra o uso de
Pilatos que, por sua vez, tentou colocá-lo sob falsas testemunhas (Dt 19:15-21), mas eles
a jurisdição de H e r o d e s ( L c 23:6-12). distorceram a Palavra de Deus para realizar
Herodes, porém, o mandou de volta para seus propósitos egoístas. Cumpriram a letra
Pilatos. da lei ao apresentar duas testemunhas, mas
Mateus concentra a atenção em quatro transgrediram tanto a letra quanto o espírito
pessoas envolvidas no julgamento e sofri- da lei quando ambas deram depoimentos
mento do Senhor. falsos. Essas testemunhas citaram uma de-
claração que Jesus havia feito em seu minis-
1 . CAIFÁS ( M T 2 6 : 5 7 - 6 8 ) tério: "Destruí este santuário, e em três dias
De acordo com a lei do Antigo Testamento, o reconstruirei" (Jo 2:19). Era algo muito sé-
o sumo sacerdote deveria servir nessa fun- rio falar contra o templo, e posteriormente
ção até a morte. No entanto, quando os foi essa mesma acusação que levou à morte
romanos assumiram o controle de Israel, de Estêvão (At 6:12-14; 7:45-50).
transformaram o sumo sacerdócio num car- Ao ser confrontado com tal acusação,
go para o qual poderiam nomear pessoas e, Jesus permaneceu calado, cumprindo assim
desse modo, estar certos de que sempre te- a profecia de Isaías 53:7. Jesus não poderia
riam um líder religioso cooperativo com a negar que havia proferido aquelas palavras
política romana. Anás serviu como sumo e, no entanto, também não poderia explicar
sacerdote de 6 a 15 d.C., e cinco de seus seu significado espiritual para aquele grupo
filhos, bem como Caifás, seu genro, foram de homens mundanos. A atitude de Jesus
seus sucessores. Caifás foi sumo sacerdote com seus inimigos é um exemplo a ser se-
entre 18 e 36 d.C., mas Anás continuou exer- guido (1 Pe 2:18-23).
cendo grande influência (Lc 3:2). Quando Caifás viu que as acusações fal-
Tanto Anás quanto Caifás eram saduceus, sas não estavam incriminando Jesus, resolveu
o que significa que não acreditavam na res- mudar de rumo: colocou Jesus sob juramen-
surreição, no mundo espiritual nem em qual- to. Em tempos de perjúrio e de negligência
quer autoridade do Antigo Testamento além com a verdade como os dias de hoje, não
dos cinco livros de Moisés. Era a família do somos capazes de entender inteiramente a
sumo sacerdote que gerenciava os "negó- importância solene que os judeus atribuíam
cios do templo" fechados por Jesus em duas ao juramento segundo sua lei (Êx 20:7; Lv
M A T E U S 26:57 - 27:26 129

19:12; Nm 30:2). Caifás sabia q u e Jesus afir- O fato de Pedro aproximar-se da foguei-
mava ser o Filho de D e u s (Jo 10:30-33), de ra do inimigo para se a q u e c e r indica q u ã o
m o d o q u e o c o l o c o u sob juramento para fa- derrotado estava. A n e g a ç ã o foi ainda mais
zer tal declaração. O sacerdote astuto sabia humilhante p o r q u e as duas perguntas foram
que Jesus n ã o poderia negar-se a responder. feitas por mulheres. A terceira veio de um
J e s u s afirmou q u e era o Filho de D e u s h o m e m q u e estava por perto, mas Pedro fa-
e aplicou a si m e s m o S a l m o s 110:1 e Da- lhou novamente. O h o m e m era um parente
niel 7:13 - d u a s p a s s a g e n s m e s s i â n i c a s . de M a l c o , o h o m e m a q u e m P e d r o havia
Em a m b a s as citações, Jesus p r e n u n c i o u sua ferido ( J o 18:26). M e s m o d e p o i s d e Jesus
ressurreição, a s c e n s ã o e sua volta em gló- ter reparado o dano, Pedro teve de lidar c o m
ria. Isso representaria salvação para os q u e as conseqüências de seu ato impulsivo.
c o n f i a m nele, m a s para Caifás, significaria De a c o r d o c o m o relato de M a r c o s , o
condenação. galo deveria cantar duas vezes ( M c 14:30).
M e s m o s e m considerar a s evidências, Q u a n d o P e d r o n e g o u J e s u s pela terceira
Caifás d e u a sentença. A forma de Jesus ser vez, o galo c a n t o u pela segunda v e z ( M c
tratado depois de anunciado o veredicto foi, 14:72). Isso significa q u e o primeiro canto
s e m dúvida alguma, ilegal e desumana. Cla- do galo foi um aviso a Pedro, diante do qual
ro q u e tudo isso serviu apenas para revelar ele deveria ter deixado a q u e l e local imedia-
a m a l d a d e do c o r a ç ã o do sacerdote e, ao tamente. A terceira n e g a ç ã o e o s e g u n d o
m e s m o tempo, cumprir as profecias messiâ- canto do galo foram o ápice do teste, e Pe-
nicas (Is 50:6). dro falhou.
O c a n t o do galo trouxe à m e m ó r i a as
2 . PEDRO ( M T 2 6 : 6 9 - 7 5 ) palavras d e Jesus. S e tivesse s e l e m b r a d o
Há q u e m critique Pedro por ter seguido " d e antes e o b e d e c i d o , jamais teria n e g a d o ao
longe" ( M t 26:58), mas esse n ã o foi o proble- Senhor. Foi nesse m o m e n t o q u e Jesus se vi-
ma. S e u erro foi ter seguido Jesus quando, rou e olhou para Pedro (Lc 22:61), e o olhar
na verdade, deveria ter fugido! Jesus havia de a m o r do M e s t r e quebrantou o c o r a ç ã o
a d v e r t i d o q u e P e d r o o negaria e t a m b é m do apóstolo. P e d r o foi e m b o r a e c h o r o u
citara Zacarias 13:7: "as ovelhas ficarão dis- amargamente.
persas". Por fim, Jesus o r d e n a r a expressa- D e p o i s de sua ressurreição, Jesus encon-
m e n t e aos discípulos q u e não o seguissem: trou-se em particular c o m Pedro e o restau-
"deixai ir estes" ( J o 18:8, 9). Se Pedro tivesse rou ao discipulado ( M c 16:7; 1 Co 15:5).
o u v i d o a palavra e o b e d e c i d o , não teria fal- T a m b é m o restaurou publicamente (Jo 21:15-
tado c o m o S e n h o r de forma tão humilhante. 19). P e d r o a p r e n d e u a l g u m a s l i ç õ e s im-
O apóstolo J o ã o também participou portantes durante essa difícil experiência.
desse fiasco, pois a c o m p a n h o u Pedro até a A p r e n d e u a prestar atenção à Palavra, vigiar,
entrada da casa do sumo sacerdote (Jo orar e n ã o confiar em suas próprias forças.
18:15, 16). Jesus os advertira a vigiar e orar
( M t 26:41), mas eles dormiram, entraram em 3 . JUDAS ( M T 2 7 : 1 - 1 0 )
tentação, e Pedro caiu. O conselho dos líderes judeus reuniu-se pela
A n e g a ç ã o de P e d r o a Cristo é o ponto m a n h ã e d e u o veredicto oficial contra Jesus.
culminante de uma série de fracassos. Quan- Desse m o d o , evitaram q u e o p o v o dissesse,
do Jesus advertiu Pedro de q u e seria testado posteriormente, q u e a reunião realizada às
por Satanás, P e d r o reafirmou sua fé e sua pressas na noite anterior havia sido ilegal.
c a p a c i d a d e d e p e r m a n e c e r fiel a o Senhor. N e m todos estavam presentes na reunião
Orgulhoso, o apóstolo discutiu c o m a Pala- da manhã. E provável q u e N i c o d e m o s e J o s é
vra de D e u s ! Teve a ousadia de comparar-se d e Arimatéia n ã o tivessem c o m p a r e c i d o o u
c o m os outros discípulos e de afirmar que, tivessem se abstido de votar ( J o 19:38-42).
m e s m o q u e eles faltassem c o m seu Senhor, Porém, u m a vez q u e os judeus n ã o tinham
130 MATEUS 26:57 - 27:26

18:31), o prisioneiro foi levado até Pilatos, o M a s então por que Mateus relaciona
procurador romano. Somente ele poderia esse acontecimento a uma profecia de
condenar um prisioneiro à morte, Jeremias, quando, na verdade, diz respeito
É nesse ponto que Judas volta à cena, a uma profecia encontrada em Zacarias
presenciando como testemunha ocular o 11:12, 13? Uma possibilidade é que a profe-
julgamento e a sentença oficial de Jesus e cia de Jeremias tenha sido proferida por ele
vendo que Cristo havia sido condenado à (ver Mt 27:9) e se tornado parte da tradição
morte. A reação de Judas foi de remorso e oral judaica, sendo registrada por escrito
desgosto. A palavra grega traduzida por "to- posteriormente pelo profeta Zacarias. O pro-
cado de remorso", em Mateus 27:3, não feta Jeremias teve parte na compra de um
indica arrependimento pelo pecado que leva campo (Jr 32:6ss), esteve na casa de um olei-
à mudança de atitude, mas sim desgosto por ro (Jr 18:1ss) e também num cemitério (Jr
ter sido pego em flagrante - o tipo de re- 19:1-12). É possível que Mateus tenha se
morso que causa desespero. Pedro arrepen- referido a esses fatos em geral como con-
deu-se sinceramente e Jesus o restaurou. texto para a profecia específica escrita por
Judas não se arrependeu e, por isso, come- Zacarias.
teu suicídio.
Judas havia vendido Jesus pelo preço de 4 . PILATOS ( M T 2 7 : 1 1 - 2 6 )
um escravo (Êx 21:32). Em desespero, jogou Pôncio Pilatos foi o sexto governador ro-
as moedas no chão do templo e saiu. De mano a servir na Judéia. Não era estimado
acordo com a lei, esse dinheiro sujo não po- pelos judeus, porque, em várias ocasiões,
deria ser usado no templo (Dt 23:18). Os transgrediu deliberadamente a lei judaica e
líderes atentavam para a lei até mesmo quan- provocou o povo. Também se mostrou dis-
do eram culpados de transgredi-la. Usaram posto a matar, caso isso se fizesse necessá-
o dinheiro para comprar um lugar chamado rio para alcançar seus objetivos (Lc 13:1).
de "campo do oleiro" e para designá-lo lo- Tendo em vista o péssimo relacionamento
cal de sepultamento para forasteiros. do governador com Israel e também as mu-
Atos 1:18,19 ajuda a esclarecer esses danças na política de Roma com respeito
acontecimentos. Judas afastou-se sozinho, aos judeus, a posição de Pilatos era um tan-
lamentando profundamente seu crime e, por to precária.
fim, enforcou-se. Ao que parece, o corpo só Os líderes judeus acusaram Jesus de três
foi descoberto alguns dias depois, pois foi crimes. Afirmaram que era culpado de en-
encontrado inchado e com as entranhas ex- ganar a nação, de proibir o pagamento dos
postas, possivelmente porque o galho da impostos e de se dizer rei (Lc 23:2). Eram,
árvore onde o suicida havia se amarrado ti- sem dúvida, acusações políticas, do tipo que
nha quebrado, e a queda tinha ocasionado um governador romano poderia resolver.
a ruptura do cadáver. Pilatos concentrou-se na terceira acusação
Atos 1:18 não diz que Judas cometeu - de que Jesus afirmava ser um rei -, pois se
suicídio no mesmo campo que os sacerdo- tratava de uma ameaça a Roma. Se con-
tes compraram com o dinheiro, pois isso teria seguisse tratar desse "revolucionário" da
tornado o campo cerimonialmente impuro, maneira correta, Pilatos poderia agradar os
e os sacerdotes não o teriam adquirido. Ma- judeus e, ao mesmo tempo, impressionar o
teus 27:7 afirma que os sacerdotes compra- Imperador.
ram um campo, e Atos 1:18 afirma que o "És tu o rei dos judeus?", perguntou Pi-
dinheiro de Judas foi usado para isso. Era latos. Jesus lhe respondeu claramente: "Tu
impossível que Judas tivesse comprado o o dizes". No entanto, logo em seguida, Je-
campo, pois devolveu o dinheiro aos sacer- sus interrogou Pilatos sobre sua pergunta (Jo
dotes. Os sacerdotes chamaram o cemité- 18:34-37). O governador tinha em mente a
rio de "Campo de Sangue", pois havia sido "realeza" no sentido romano? Nesse caso,
comprado com "dinheiro pago por sangue". Jesus não se considerava rei. Explicou ao
M A T E U S 2 6 : 5 7 - 27:26 131

g o v e r n a d o r q u e seu reino n ã o era deste M a s Pilatos enganou-se, pois apesar de


m u n d o , q u e n ã o possuía exércitos e q u e Jesus ter curado os enfermos e ressuscitado
seus seguidores n ã o lutavam. Antes, era o os mortos, o povo o rejeitou e pediu a liber-
reino da verdade. tação do assassino. Pilatos percebeu q u e es-
Esse diálogo c o n v e n c e u Pilatos de q u e tava se formando uma revolta, algo q u e n ã o
Jesus n ã o era um revolucionário perigoso. poderia permitir q u e acontecesse. A fim de
" N ã o vejo neste h o m e m crime algum." Po- forçar Pilatos a tomar uma atitude, os líde-
rém, os líderes judeus insistiram q u e Pilatos res c o m e ç a r a m a instigar justamente aquilo
o c o n d e n a s s e . Repetiram as a c u s a ç õ e s e, q u e todas as autoridades mais desejavam
ao exagerá-las, mencionaram q u e Jesus era evitar: uma revolta na é p o c a de Páscoa ( M t
da Galiléia. Q u a n d o Pilatos ouviu isso, en- 26:5). Assim, o governador resolveu o dile-
c o n t r o u u m a saída para o dilema, pois a ma, não por u m a questão de integridade,
Galiléia estava sob a jurisdição de Herodes. mas sim de conveniência. Libertou um cri-
É possível que H e r o d e s estivesse desconten- minoso e c o n d e n o u um inocente, e o ino-
te por Pilatos ter assassinado alguns de seu cente era o Filho de Deus.
p o v o ( L c 13:1), e essa p o d e r i a ser u m a Na tentativa de se exonerar, Pilatos to-
excelente oportunidade de Pilatos reconci- m o u três providências. Em primeiro lugar,
liar-se c o m Herodes. lavou as m ã o s e declarou que era inocente
M a t e u s não registra o julgamento reali- de qualquer culpa. Em segundo lugar, decla-
z a d o perante Herodes Antipas (Lc 23:6-12). rou categoricamente q u e Jesus era uma pes-
H e r o d e s foi o governante q u e m a n d o u exe- soa justa, ou seja, q u e não merecia morrer.
cutar J o ã o Batista e q u e a m e a ç o u matar Jesus Em terceiro lugar, ofereceu castigar Jesus e
( L c 13:31, 32). Jesus p e r m a n e c e u calado, depois libertá-lo, mas os líderes judeus n ã o
pois H e r o d e s havia silenciado a v o z de Deus. aceitaram essa oferta diplomática. Por fim,
S ó restou a o rei e s c a r n e c e r d e J e s u s e as autoridades religiosas usaram u m a arma
mandá-lo de volta para Pilatos. Se o gover- da qual Pilatos não poderia se defender: " S e
nador r o m a n o esperava livrar-se do proble- soltas a este, não és amigo de César! Todo
ma, ficou d e c e p c i o n a d o . No entanto, essa aquele q u e se faz rei é contra César!" ( J o
manobra a c a b o u promovendo a conciliação 19:12). Diante disso, Pilatos desistiu, man-
entre os dois governantes. d o u açoitar a Jesus e o entregou para ser
Pilatos d e s e j a v a resolver o p r o b l e m a crucificado.
s e m tomar qualquer decisão c o m respeito U m a v e z q u e o s judeus não poderiam
a Jesus. C o m o governador romano, havia executar criminosos, era necessário q u e fos-
j u r a d o c u m p r i r a lei, m a s c o m o político, sem assistidos por oficiais romanos, e Pilatos
sabia q u e d e v e r i a agradar o p o v o . C a d a d e u sua permissão. É e v i d e n t e q u e todas
decisão q u e t o m a v a abria para ele um novo essas coisas cumpriram as profecias. Os ju-
leque de escolhas, até q u e se viu prisionei- deus não executavam seus criminosos por
ro de suas próprias medidas evasivas. Con- crucificação, mas sim por apedrejamento. O
tinuou a interrogar Jesus, mas este não lhe Salmo 22, escrito por um judeu, apresenta
respondeu. uma descrição vivida de uma crucificação.
Ainda restava a Pilatos um último subter- "Traspassaram-me as m ã o s e os p é s " (SI
fúgio: seguir a tradição de libertar um prisio- 22:16). Jesus se fez maldição por nós, pois
neiro. Em v e z de escolher um prisioneiro "o que for pendurado no madeiro é maldi-
qualquer, Pilatos c h a m o u Barrabás, o mais to" (Dt 21:23; Gl 3:13). Deus, porém, ainda
c o n h e c i d o de todos e um ladrão (Jo 18:40) estava operando para cumprir seus propósi-
e assassino ( M c 15:7). Pilatos imaginou q u e tos divinos.
a multidão rejeitaria Barrabás e pediria q u e Pilatos sabia o q u e era correto, mas se
libertassem Jesus, pois, afinal, q u e m gosta- recusou a agir de acordo. S e u desejo era
ria de ter um ladrão e assassino c o n d e n a d o "contentar a multidão" ( M c 15:15). Judas
132 MATEUS 26:57 - 27:26

pecado (Jo 13:2, 27); Pedro cedeu à carne Pilatos procurou o caminho fácil, não o ca-
quando negou ao Senhor; Pilatos, por sua minho correto. Assim, entrou para a história
vez, cedeu ao mundo e ouviu a multidão. como o homem que condenou Jesus.
25 dos judeus!", s e m perceber q u e estavam, de
fato, z o m b a n d o do Rei d o s reis e S e n h o r
dos senhores.
Depois, fizeram algo q u e súdito algum
O SOFRIMENTO E M O R T E jamais faria a seu rei: cuspiram nele e o es-
p a n c a r a m c o m o caniço. E n q u a n t o alguns
D O REI
soldados se c u r v a v a m perante ele, outros o
a c e r t a v a m n a c a b e ç a o u c u s p i a m nele (Is
MATEUS 2 7 : 2 7 - 6 6
50:6). Jesus r e c e b e u toda essa humilhação
e dor s e m falar n e m lutar (1 Pe 2:18ss). S u a
submissão n ã o foi um sinal de fraqueza, mas
sim de força.
Mateus e os outros autores dos Evange-
lhos registraram os fatos históricos re- 2 . A CRUCIFICAÇÃO ( M T 2 7 : 3 1 - 3 8 )
ferentes ao sofrimento e à morte de nosso A crucificação era a forma mais vergonhosa
Senhor. C o u b e aos escritores das epístolas e dolorosa de executar um criminoso. Jesus
do N o v o Testamento o trabalho de explicar n ã o apenas morreu, m a s teve u m a " m o r t e
o significado teológico desse acontecimen- de cruz" (Fp 2:8). N ã o se costumava crucifi-
to. A história afirma q u e "Cristo morreu", mas car cidadãos romanos. Aliás, a crucificação
a teologia explica q u e "Cristo morreu pelos era uma pena tão degradante q u e sequer era
nossos p e c a d o s " (1 Co 15:3). V e j a m o s os m e n c i o n a d a nas altas rodas da sociedade.
vários tipos de sofrimento q u e Jesus supor- Jesus foi c o n d u z i d o para fora da c i d a d e
tou ao longo daquele dia. até o local da e x e c u ç ã o ( H b 13:12, 13). Exi-
gia-se q u e o prisioneiro carregasse a própria
1. O ESCÁRNIO DOS SOLDADOS cruz (ou pelo m e n o s a trave principal), e q u e
(MT 27:27-30) levasse p e n d u r a d a a o p e s c o ç o u m a placa
A a c u s a ç ã o formal contra Jesus era a de q u e declarando seu crime. Essa placa era, então,
ele afirmava ser Rei dos judeus ( M t 27:37). afixada sobre sua c a b e ç a na cruz, para q u e
Os soldados aproveitaram-se disso e mostra- todos pudessem ver o q u e dizia.
ram sua "reverência" pelo rei. Foi u m a forma A p e s a r de o registro bíblico n ã o dizer
cruel de tratar um inocente q u e já havia sido isso expressamente, ao q u e p a r e c e , J e s u s
açoitado, mas Pilatos não fez coisa alguma n ã o conseguiu carregar a cruz e, c o m isso,
para impedi-los. Estava aliviado por se livrar estava atrasando o grupo. Q u a n d o nos lem-
do prisioneiro. b r a m o s de q u e ele havia passado a noite
Primeiro, os soldados o despiram e colo- toda a c o r d a d o e de q u e havia sido açoitado
c a r a m sobre ele o m a n t o de um soldado. e torturado pelos soldados, p o d e m o s con-
Vestiram o Príncipe da Paz (Is 9:6) c o m um cluir q u e estava exausto. Jesus c o m e ç o u car-
uniforme militar velho! M a t e u s descreve o regando sua cruz ( J o 19:17). M a r c o s 15:22
manto como sendo escarlate, e n q u a n t o diz: "E levaram Jesus para o G ó l g o t a " (tradu-
M a r c o s usa a palavra púrpura. N ã o há con- ç ã o literal). Isso sugere q u e os soldados tive-
tradição, pois "púrpura-avermelhado" descre- ram de ajudar Jesus durante a procissão, pois
ve b e m a c o r de um manto usado e desbo- a palavra " l e v a r a m " tem o sentido de "carre-
tado. S ó p o d e m o s imaginar c o m o Jesus s e gar, sustentar".
sentiu q u a n d o esse manto foi j o g a d o sobre N ã o p o d e r i a haver atrasos nessa exe-
suas costas feridas. c u ç ã o . A P á s c o a estava para ser celebrada,
U m rei precisa d e uma coroa, d e m o d o e os líderes judeus não queriam que seu dia
q u e c o n f e c c i o n a r a m u m a coroa d e espinhos santo fosse profanado por cadáveres de cri-
e a c o l o c a r a m na c a b e ç a dele. Em seguida, minosos (Jo 19:31). A fim de apressar a procis-
lhe d e r a m um c a n i ç o c o m o cetro, e fizeram são, os soldados recrutaram Simão, o cireneu,
134 M A T E U S 2 7:27-66

celebrar a Páscoa. De repente, o visitante 3. O ESCÁRNIO D O S J U D E U S


viu-se humilhado, obrigado a carregar a cruz ( M T 27:39-44)
de um criminoso desconhecido! C o n v é m Jesus não foi executado num lugar tranqüi-
lembrar que os soldados romanos tinham lo, longe do barulho da cidade. Antes, sua
autoridade para recrutar cidadãos ( M t 5:41) e x e c u ç ã o foi realizada numa via pública,
a realizar diversas tarefas. num dia em que provavelmente havia milha-
A maneira de Marcos referir-se a Simão res de pessoas passando por ali. O fato de
dá a entender que os leitores deste Evange- sua acusação ter sido escrita em três línguas
lho sabiam quem ele era: "pai de Alexandre - grego, hebraico e latim - indica que uma
e de Rufo" ( M c 15:21). Ao que parece, esses multidão cosmopolita passava diante do
dois filhos eram membros bem conhecidos Gólgota, "o lugar da caveira". Esse fato, por
da igreja. É possível que essa experiência si mesmo, era extremamente humilhante,
humilhante tenha resultado na conversão pois os transeuntes podiam gritar impropé-
de Simão, bem como de sua família. Simão rios às vítimas. A zombaria da multidão tam-
foi a Jerusalém para sacrificar seu cordeiro bém cumpriu palavras proféticas (SI 22:6-8).
pascal e acabou se encontrando c o m o Cor- N ã o foi só o povo que zombou, mas tam-
deiro de Deus, sacrificado por ele. bém os líderes judeus, lembrando Jesus de
Era costume dar alguma bebida narcóti- suas promessas de reconstruir o templo em
ca para os que estavam prestes a serem cruci- três dias ( M t 26:61; Jo 2:19). " S e v o c ê pode
ficados, pois ajudava a amortecer os sentidos mesmo fazer isso, então desça da cruz e
e a amenizar a dor. Jesus recusou-se a bebê- prove para nós que é mesmo o Filho de
la, pois desejava fazer a vontade de Deus Deus!" Na realidade, ao permanecer na cruz,
em pleno controle de suas faculdades. Tam- Jesus provou sua filiação divina.
bém esse ato cumpriu Salmos 69:21. Os líderes judeus zombaram dele por
Os soldados também repartiam os bens afirmar ser o Salvador. "Salvou os outros, a
pessoais da pessoa executada, e, no caso si mesmo não pode salvar-se" ( M t 27:42).
de Jesus, cumpriram as palavras de Salmos Havia salvado a outros, mas se salvasse a si
22:18. Depois de lançar sortes sobre as rou- mesmo, ninguém mais seria salvo! Jesus não
pas de Jesus (Jo 19:23-25), assentaram-se por v e i o para salvar sua vida, mas sim para
perto e "o guardavam" ( M t 27:36). Afinal, entregá-la c o m o resgate pelos pecadores.
se dizia que Jesus era capaz de realizar mi-
lagres. Ninguém sabia quantos seguidores 4. A REJEIÇÃO PELO P A I
possuía, e talvez estivessem se preparando ( M T 27:45-56)
para resgatá-lo. Um de seus discípulos era Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã e
um zelote ( M t 10:4 - " S i m ã o o Zelote"), ficou pendurado na cruz das 9 ao meio-dia,
membro de um movimento de fanáticos que quando trevas sobrenaturais cobriram toda
fariam qualquer coisa para se opor às auto- a Terra. N ã o foi uma tempestade de areia
ridades romanas. n e m um eclipse, como sugerem alguns es-
Ao combinar os relatos dos Evangelhos, tudiosos liberais. Antes, foi uma escuridão
temos a acusação total escrita na placa so- vinda do céu que durou três horas, c o m o se
bre sua cabeça: "Este é Jesus de Nazaré, o toda a criação se condoesse c o m o Criador.
Rei dos Judeus". Os governantes judeus não Antes da primeira Páscoa no Egito, houve
aprovaram a inscrição de Pilatos, mas, des- três dias de trevas (Êx 10:21-23), e antes de
sa vez, o governador não cedeu (Jo 19:21, o Cordeiro de Deus morrer pelos pecados
22). Em certo sentido, esse título foi o pri- do mundo, houve três horas de escuridão.
meiro "folheto evangelístico" escrito, anun- Jesus falou pelo menos três vezes antes
ciando a um dos ladrões crucificados que de sobrevirem as trevas. Enquanto o esta-
Jesus era Salvador e Rei. O ladrão ousou vam crucificando, orou repetidamente: "Pai,
crer nessa mensagem e pediu a Jesus que perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"
o salvasse! (Lc 23:34). Falou ao ladrão arrependido e
M A T E U S 2 7:27-66 135

lhe garantiu um lugar no paraíso (Lc 23:39- O terremoto nos traz à memória o q u e
43). T a m b é m e n t r e g o u sua m ã e a o s cui- a c o n t e c e u n o m o n t e Sinai, q u a n d o D e u s
d a d o s d e J o ã o , s e u discípulo a m a d o ( J o deu a Lei a M o i s é s (Êx 19:16ss). O terremo-
19:18-27). M a s , q u a n d o veio a escuridão, to no Calvário significa q u e os preceitos da
Jesus calou-se por três horas. Lei foram cumpridos, e a maldição da Lei foi
Passadas essas horas, as trevas se dissi- abolida para sempre ( H b 12:18-24). O v é u
p a r a m e Jesus c l a m o u : " D e u s meu, D e u s rasgado indica que Jesus conquistou o peca-
meu, por q u e me desamparaste?", uma cita- do; o terremoto sugere q u e ele conquistou
ç ã o direta de S a l m o s 22:1. Foi durante a a Lei e a cumpriu, enquanto a ressurreição
escuridão que Jesus se tornou p e c a d o por prova q u e ele derrotou a morte.
nós ( 2 C o 5:21). H a v i a sido a b a n d o n a d o O texto não diz o número de santos q u e
pelo Pai! As trevas simbolizaram o julgamen- ressuscitaram. Eram simplesmente crentes
to pelo qual Jesus teve de passar ao ser "fei- q u e h a v i a m morrido. A l g u m a s versões da
to maldição" por nós ( G l 3:13). Salmos 22:2 Bíblia dão a entender q u e saíram dos túmulos
sugere um período de luz e outro de escuri- somente depois da ressurreição de Jesus. É
dão, e Salmos 22:3 enfatiza a santidade de difícil crer q u e t e n h a m sido restaurados à
Deus. C o m o poderia um Deus santo olhar vida na sexta-feira à tarde e p e r m a n e c i d o
c o m favor para seu Filho, o qual havia se nos túmulos até domingo. O u t r a s versões
tornado pecado? sugerem que esses santos ressuscitaram e
Jesus proferiu essas palavras em hebraico, saíram imediatamente dos túmulos, mas que
e os presentes não o entenderam. Pensaram só entraram em Jerusalém depois que Jesus
q u e estivesse c h a m a n d o Elias para ajudá-lo. ressuscitou. É p o u c o provável q u e houvesse
Se houvessem lhe d a d o atenção e consulta- um grande número de judeus no cemitério
do o S a l m o 22 em sua totalidade, teriam durante a Páscoa, pois era um local o n d e
c o m p r e e n d i d o a verdade. corriam o risco de se contaminar cerimo-
Em seguida, o Senhor falou três vezes, nialmente por causa dos mortos. Essas res-
numa rápida sucessão de frase. Disse: "Te- s u r r e i ç õ e s p o d e m ter o c o r r i d o s e m q u e
nho s e d e " ( J o 19:28), cumprindo, assim, Sal- ninguém as percebesse de imediato.
m o s 69:21. A l g u é m t e v e p i e d a d e d e l e e O resultado de tudo isso foi o testemu-
u m e d e c e u seus l á b i o s c o m v i n a g r e . O s nho do centurião e daqueles que observa-
outros ficaram esperando para ver se Elias v a m . " V e r d a d e i r a m e n t e este era Filho d e
viria salvá-lo. Deus." Será que a declaração indica uma fé
Então, Jesus clamou: "Está consumado. salvadora? N ã o necessariamente, mas, sem
Pai, em tuas mãos entrego o m e u espírito". dúvida, mostra que havia c o r a ç õ e s abertos
O fato de ter c l a m a d o em alta v o z indica para a verdade.
q u e estava no c o m p l e t o controle de suas D o s discípulos, somente J o ã o estava pre-
faculdades. Depois, entregou voluntariamen- sente quando Jesus morreu (Jo 19:35), mas
te seu espírito e morreu. muitas mulheres observaram à distância; sem
A p e s a r d e ter s i d o " c r u c i f i c a d o e m dúvida, eram as seguidoras de Cristo q u e o
f r a q u e z a " (2 Co 13:4), exerceu p o d e r ex- auxiliaram em seu ministério (Lc 8:2). M a t e u s
traordinário q u a n d o morreu. Três milagres cita o n o m e de três delas: Maria M a d a l e n a ,
ocorreram simultaneamente: o v é u do tem- q u e havia sido liberta da possessão de sete
plo se rasgou de alto a baixo, um terremoto demônios (Lc 8:2); Maria, m ã e de Tiago e
abriu vários t ú m u l o s e alguns santos res- de J o s é , a q u a l t a m b é m estava j u n t o ao
suscitaram. O v é u rasgado simboliza u m a túmulo na manhã da ressurreição ( M t 28:1;
verdade maravilhosa: o c a m i n h o para D e u s Mc 16:1); e Salomé, m ã e de Tiago e de João.
estava aberto ( H b 10:14-26). N ã o haveria S a l o m é havia pedido a Jesus tronos espe-
mais n e c e s s i d a d e de templos, sacerdotes, ciais para seus filhos. Ficamos imaginando
altares n e m sacrifícios. Jesus havia consuma- c o m o deve ter se sentido ao vê-lo pendura-
136 MATEUS 2 7:27-66

5. O TÚMULO SOB VIGILÂNCIA Nicodemos estivessem no jardim esperan-


( M T 27:57-66) do pela morte de Jesus. Quando o tiraram
Se não fosse pela intervenção de José de da cruz, contaminaram-se e não puderem
Arimatéia e de Nicodemos (Jo 19:38), o participar da Páscoa, um detalhe irrelevante,
corpo de Jesus talvez não tivesse recebi- uma vez que haviam encontrado o Cordei-
do um sepultamento apropriado. Mesmo ro de Deus!
não testemunhando abertamente da sua fé, Em contraste com o cuidado dos ami-
José e Nicodemos creram em Jesus. Uma gos de Jesus, podemos observar as intri-
vez que José era um homem rico e tinha gas e maquinações dos líderes judeus. Os
preparado um túmulo novo, contribuiu para discípulos esqueceram que Jesus havia pro-
cumprir a profecia de Isaías 53:9: "Desig- metido ressuscitar no terceiro dia, mas seus
naram-lhe a sepultura com os perversos, inimigos lembraram-se da promessa. Pilatos
mas com o rico esteve na sua morte". permitiu que os líderes colocassem guar-
É pouco provável que José tenha pre- das para vigiar o sepulcro e um selo oficial
parado o túmulo para si mesmo. Era um romano na pedra para garantir que o túmu-
homem rico e certamente não pretendia lo não seria violado. Em tudo isso, vemos
ser sepultado tão próximo a um local de D e u s operando, tornando impossível a
execuções. Preparou o túmulo para Jesus, qualquer um - amigo ou inimigo - roubar
escolhendo um lugar perto do Gólgota o corpo. Sem perceber, os líderes judeus
para que ele e Nicodemos sepultassem o e o governo romano aliaram-se para pro-
corpo de Jesus rapidamente. Talvez José e var a ressurreição de Jesus Cristo.
Confirma nossa ressurreição futura.
Pelo fato de Jesus haver morrido e ressusci-
tado, um dia também seremos ressuscitados
para ser c o m o ele (1 Ts 4:13-18). Toda a es-
A V I T Ó R I A DO REI trutura da fé crista baseia-se no alicerce da
ressurreição. Se desconsiderarmos sua res-
MATEUS 28 surreição, não teremos esperança.
É prova do juízo vindouro. "Porquanto
estabeleceu um dia em q u e há de julgar o
mundo c o m justiça, por meio de um varão
que destinou e acreditou diante de todos,
ressuscitando-o dentre os mortos" (At 17:31).

S e existe algo que comprova a realeza de

Jesus Cristo é sua ressurreição dentre os


É a base do sacerdócio celestial de
Cristo. Porque ele vive pelo poder da vida
eterna, é capaz de nos "salvar totalmente"
mortos. O capítulo final do Evangelho de ( H b 7:23-28). Ele vive para interceder por
M a t e u s é um relato de vitória, e é maravi- nós.
lhoso saber q u e os cristãos de hoje partici- Dá poder à vida cristã. Não podemos
p a m dessa vitória. viver para Deus por nossas próprias forças.
Vejamos os estágios da experiência dos É somente pelo poder da ressurreição dele
cristãos c o m respeito à ressurreição de Jesus. trabalhando em e por meio de nós que so-
1. P E N S A R A M QUE ELE ESTAVA MORTO mos capacitados a realizar sua vontade e a
(MT 28:1) glorificar seu n o m e ( R m 6:4).
As mulheres que haviam estado na crucifi- Confirma nossa herança futura. Por ter
c a ç ã o foram logo c e d o ao túmulo, levando uma esperança viva, somos capazes de tam-
consigo especiarias para ungir o corpo. Pen- bém experimentar uma vida de esperança.
saram que seu Mestre estava morto e fica- A esperança morta enfraquece e desapare-
ram imaginando c o m o poderiam mover a ce, mas porque Jesus Cristo está vivo, temos
pedra enorme da entrada do sepulcro ( M c um futuro glorioso (ver 1 Pe 1:3-5).
16:3). É espantoso que, apesar de tudo o O n d e quer que o povo de D e u s se reú-
q u e Jesus havia ensinado tantas vezes so- na no domingo, testemunha que Jesus está
bre sua ressurreição, não acreditavam que vivo, e que a igreja está recebendo bênçãos
ela ocorreria ( M t 16:21; 17:23; 20:19; 26:32). espirituais. Q u a n d o os seguidores do Senhor
N ã o devemos jamais subestimar a impor- reuniram-se naquele primeiro domingo, sen-
tância da ressurreição de Jesus Cristo. O tiam-se desencorajados e derrotados.
mundo acredita que Jesus morreu, mas não
crê que ele tenha ressuscitado dos mortos. 2. D E S C O B R I R A M QUE ELE ESTAVA VIVO
A mensagem de Pedro em Pentecostes en- (MT 28:2-8)
fatizou a ressurreição, ênfase presente ao "E eis que houve um grande terremoto" ( M t
longo de todo o Livro de Atos. Q u a l é o sig- 28:2). Dois anjos haviam aparecido (Lc 24:4),
nificado da ressurreição? e um deles havia movido a pedra, abrindo o
Prova que Jesus é o Filho de Deus. Je- sepulcro. É evidente que os soldados que
sus afirmou ter autoridade para sacrificar sua vigiavam ficaram apavorados por essa de-
vida e tomá-la de volta (Jo 10:17, 18). monstração súbita de força. A pedra não foi
Comprova a verdade das Escrituras. movida para permitir que Jesus saísse, pois
Tanto no A n t i g o Testamento q u a n t o nos ele já havia deixado o túmulo. Foi movida
ensinamentos de Jesus, sua ressurreição é para q u e as pessoas pudessem ver por si
ensinada claramente (ver SI 16:10; 110:1). mesmas q u e o sepulcro estava vazio.
Se Jesus não tivesse saído do túmulo, as Es- Um dos anjos falou às mulheres e as tran-
138 M A T E U S 28

onde ele jazia." É importante lembrar que, Jesus está morto, o Novo Testamento é uma
assim c o m o os discípulos, essas mulheres mentira, pois tudo o que contém aponta
não esperavam encontrar Jesus vivo. para o Cristo ressurreto.
O que viram no sepulcro? A mortalha É evidente que os cristãos experimen-
que estava sobre a plataforma de pedra, tam o poder da ressurreição de Cristo em
ainda enrolada no formato de um corpo sua própria vida. Apesar de se tratar de uma
(Jo 20:5-7). Jesus saiu da mortalha e a dei- experiência subjetiva e interior que não pode
xou intacta como evidência de que estava provar isoladamente a ressurreição histórica
vivo. Ninguém havia mexido nos lençóis e de nosso Senhor, quando combinada com
não havia qualquer sinal de luta. Até mes- outras evidências, dá grande peso à argu-
mo o lenço que cobria a cabeça de Jesus mentação. M e s m o assim, ainda é possível
estava dobrado cuidadosamente num lugar às pessoas se enganarem. " C r e n t e s " de
à parte. qualquer tipo de seita podem alegar que
N ã o podemos examinar essas provas da possuem a verdade, usando para isso suas
mesma forma que os cristãos fizeram naque- experiências pessoais. No entanto, os cris-
le primeiro domingo de Páscoa, mas temos tãos têm o peso da história da Igreja, das
c o m o evidência a Palavra de Deus. Jesus não Escrituras e de testemunhos confiáveis para
ficou preso aos grilhões da morte (At 2:24). apoiar suas experiências de fé.
Prometeu ressuscitar dos mortos e cumpriu A injunção: "venham ver" foi seguida de
sua Palavra. " v ã o e digam". N ã o devemos guardar a no-
A mudança extraordinária que ocorreu tícia da ressurreição para nós mesmos. Os
nos primeiros cristãos é outra prova de sua anjos enviaram as mulheres (justamente
ressurreição. N u m dia estavam desanimados, elas!) para contar as boas novas aos dis-
escondendo-se c o m o derrotados. No dia cípulos de Cristo. Deveria ser uma notícia
seguinte, proclamavam a ressurreição de esperada, mas, em vez disso, questionaram
Jesus e andavam alegremente pela cidade, o que ouviram.
dispostos até a morrer pela v e r d a d e da
ressurreição. U m a história inventada jamais 3 . ENCONTRARAM-SE PESSOALMENTE C O M
teria transformado a vida deles nem os ca- o C R I S T O VIVO ( M T 2 8 : 9 - 1 5 )
pacitado a se sacrificar como mártires. Q u a n d o obedecemos à Palavra de Deus, ele
Mais de quinhentas pessoas viram Cris- vem até nós. Jesus já havia aparecido a Maria
to vivo de uma só vez (1 Co 1 5:3-8). A na- Madalena no jardim (Jo 20:11-18; Mc 16:9).
tureza dessas aparições do Cristo ressurreto É importante observar que as duas primei-
não permite que sejam explicadas como alu- ras aparições do Cristo ressurreto aconte-
cinações ou auto-sugestão. As pessoas que ceram a mulheres cristãs. Essas mulheres
o viram ficaram espantadas. Seria impossí- fiéis não foram apenas as últimas a deixar o
vel mais de quinhentas pessoas sofrerem Calvário, mas também as primeiras a se di-
uma a l u c i n a ç ã o coletiva. A t é m e s m o o rigir ao sepulcro. Sua devoção a Jesus foi
apóstolo Paulo, que em outros tempos ha- recompensada.
via sido inimigo da Igreja, viu o Cristo res- A expressão "Salve" pode ser traduzida
surreto, e essa experiência transformou sua por graça. Q u e saudação maravilhosa para
vida (At 9). o dia da ressurreição! As mulheres prostra-
A existência da Igreja, o Novo Testamen- ram-se aos pés do Senhor e o adoraram. É
to e o dia do Senhor também comprovam possível que estivessem apreensivas, pois,
que Jesus está vivo. Israel havia sido o povo mais que depressa, ele as tranqüilizou c o m
de Deus durante séculos e guardara o sétimo suas palavras tão típicas: " N ã o temais!"
dia, o shabbath. Então, algo mudou: judeus Foram instruídas não apenas pelo anjo,
e gentios uniram-se na Igreja, tornaram-se o mas também pelo próprio Senhor a espalhar
povo de Deus e passaram a se reunir no as boas novas. A expressão "meus irmãos"
primeiro dia da semana, o dia do Senhor. Se revela o relacionamento íntimo de Cristo c o m
M A T E U S 28 139

seus seguidores. Jesus havia falado palavras grande soma em dinheiro, pois era sua vida
s e m e l h a n t e s a M a r i a M a d a l e n a anterior- q u e estava em jogo. C a s o seus superiores
mente naquela manhã (Jo 20:17), reforçando soubessem q u e haviam falhado, poderiam
as instruções do anjo para q u e os discípulos ser executados. M e s m o q u e essa história
se encontrassem c o m o Mestre na Galiléia chegasse aos ouvidos de Pilatos, dificilmen-
(ver Mt 28:7). No jardim, Jesus havia dito a te o governador tomaria alguma providên-
seus discípulos q u e ressuscitaria dentre os cia, pois estava certo de q u e Jesus havia
mortos e se encontraria c o m eles na Galiléia, morrido ( M c 15:43-45) e, para ele, era só o
mas eles se esqueceram ( M t 26:31, 32). q u e importava. O desaparecimento do cor-
Enquanto os crentes estavam adorando po de Jesus não criou problema algum para
o Cristo v i v o , os i n c r é d u l o s p l a n e j a v a m Pilatos.
destruir as testemunhas da ressurreição de M a r k Twain escreveu certa v e z que uma
Jesus Cristo. A essa altura, alguns dos solda- mentira p o d e dar a volta ao m u n d o enquanto
dos haviam percebido que se encontravam a v e r d a d e ainda está c a l ç a n d o os sapatos.
numa situação bastante complicada. O selo Há algo na natureza humana q u e predispõe
romano havia sido quebrado, a pedra que as pessoas a acreditar em mentiras. Foi ape-
fechava o sepulcro havia sido movida e o nas c o m a vinda do Espírito em Pentecostes,
c o r p o não estava mais lá. Falhar no cumpri- c o m o testemunho poderoso dos apóstolos,
mento do dever era uma transgressão passí- q u e os judeus em Jerusalém descobriram a
vel de morte para um soldado romano (At v e r d a d e : Jesus Cristo está v i v o ! Q u a l q u e r
12:19; 16:27, 28). M a s os soldados foram pessoa sincera q u e estudar as evidências
astutos: não se reportaram a Pilatos n e m a c o m o coração aberto concluirá q u e a res-
seus oficiais superiores, mas aos líderes reli- surreição de Jesus Cristo é um fato histórico
giosos judeus. S a b i a m que, tanto q u a n t o irrefutável.
eles, os judeus estavam ansiosos por enco- Naquele mesmo dia, Jesus apareceu aos
brir esse milagre! Juntos, os principais sacer- dois discípulos de Emaús (Lc 24:13-32) e tam-
dotes, os anciãos e os soldados elaboraram b é m a o s d e z discípulos n o c e n á c u l o e m
u m a história q u e explicaria o sepulcro va- Jerusalém ( J o 20:19-25). U m a s e m a n a de-
zio: o c o r p o havia sido roubado. pois, apareceu aos onze discípulos e tratou
Ao examinar essa história, observamos da incredulidade de Tomé ( J o 20:19-25). Na-
que, na verdade, ela prova a ressurreição de quele primeiro domingo de Páscoa, Jesus
Jesus Cristo. Se o c o r p o de Jesus foi rouba- t a m b é m teve u m encontro particular c o m
do, ou foi levado por seus amigos ou por Pedro (Lc 24:33-35; 1 Co 15:5).
seus inimigos. Seus amigos não poderiam O dia c o m e ç o u c o m os discípulos e as
ter feito isso, pois não tinham dúvidas de mulheres pensando q u e Jesus estava morto.
q u e Jesus estava morto. Seus inimigos não Em seguida, receberam a notícia de que ele
roubariam o corpo, p o r q u e estavam justa- estava vivo e, depois disso, se encontraram
mente tentando evitar a crença na ressurrei- pessoalmente c o m ele. Restava ainda um
ção. Remover o corpo seria contrário a seus estágio em sua experiência.
interesses. C a s o o tivessem levado, por que
não o mostraram aos cristãos da Igreja pri- 4 . C O M P A R T I L H A R A M A S BOAS-NOVAS
mitiva, calando o testemunho deles? C O M O S OUTROS ( M T 2 8 : 1 6 - 2 0 )
Q u a l q u e r um que tivesse roubado o cor- Alguns estudiosos bíblicos acreditam q u e
po o teria levado c o m a mortalha, p o r é m esse "encontro no m o n t e " na Galiléia foi a
esta foi deixada intacta no sepulcro, algo ocasião em que Jesus apareceu a "mais de
impossível no caso de um roubo. quinhentos irmãos d e uma s ó v e z " ( 1 C o
Os líderes religiosos haviam pago Judas 15:6). O fato de alguns dos seguidores de
para trair Jesus e pagaram os soldados para Cristo duvidarem de sua ressurreição suge-
dizer que o c o r p o havia sido roubado. Os re q u e havia mais pessoas presentes além
140 MATEUS 28

agora cristãos confirmados. A ascensão de "fazei discípulos" ("de todas as nações").


Jesus ocorreu somente mais tarde, depois Jesus disse: "Enquanto estiverem indo, façam
que havia ministrado a seus discípulos em discípulos em todas as nações". Não impor-
Jerusalém (Lc 24:44-53). ta onde estamos, devemos testemunhar
O texto de Mateus 28:18-20 costuma ser sobre Jesus Cristo e procurar ganhar outros
chamado de "Grande Comissão", apesar de para ele (At 11:19-21).
essa injunção do Senhor não ser mais im- O termo "discípulos" era o nome mais
portante do que qualquer outra presente nos comum para os cristãos primitivos. Ser um
Evangelhos e também de não ser a última discípulo significa mais do que ser um con-
declaração feita por Jesus antes de voltar ao vertido ou um membro da igreja. Aprendiz
céu. No entanto, é uma declaração que se talvez seja um bom termo equivalente. Um
aplica a nós, cristãos, de modo que deve- discípulo apega-se a seu mestre, identifica-
mos entender os elementos envolvidos. se com ele, aprende e vive com ele. Aprende
Autoridade (v. 18). Neste versículo, a não apenas ouvindo, mas também pratican-
palavra "autoridade" significa "direito de usar do. Jesus chamou doze discípulos e os en-
o poder". O Evangelho de Mateus, em sua sinou de modo que fossem capazes de
totalidade, enfatiza a autoridade de Jesus ensinar a outros ( M c 3:13ss).
Cristo. Havia autoridade em seus ensina- Assim, um discípulo é alguém que crê
mentos (Mt 7:29), exerceu autoridade para em Jesus Cristo, expressa essa fé ao ser bati-
curar (Mt 8:1-13) e até mesmo para perdoar zado e permanece em comunhão com os
pecados (Mt 9:6). Tinha autoridade sobre irmãos a fim de aprender as verdades da fé
Satanás e delegou autoridade a seus após- (At 2:41-47) e então ser capaz de ir e ensi-
tolos (Mt 10:1). Ao final de seu Evangelho, nar a outros. Esse era o padrão da Igreja do
Mateus deixa claro que Jesus tem T O D A a Novo Testamento (2 Tm 2:1, 2).
autoridade. Em vários aspectos, desviamo-nos desse
Uma vez que Jesus Cristo tem toda a padrão. Na maioria das igrejas, a congre-
autoridade, podemos obedecer a ele sem gação paga o pastor para pregar, ganhar o
medo. Não importa por onde ele nos con- perdido e ajudar o salvo, enquanto os mem-
duz nem as circunstâncias que enfrentamos, bros da igreja atuam apenas como torcedo-
Jesus está no controle. Por sua morte e res- res (se estiverem animados), ou então, como
surreição, Jesus derrotou todos os inimigos meros espectadores. Os "convertidos" são
e conquistou para si toda a autoridade. ganhos, batizados e aceitos como membros,
O cristianismo é uma fé missionária. A para depois se juntarem aos espectadores.
própria natureza de Deus exige isso, pois Nossas igrejas cresceriam muito mais rapi-
Deus é amor e Deus não quer que ninguém damente, e os cristãos seriam muito mais
pereça (2 Pe 3:9). Jesus morreu na cruz pe- fortes e felizes, se discipulassem uns aos
lo mundo todo. Quem é filho de Deus e outros. A única forma de uma igreja local
compartilha de sua natureza levará as boas- "crescer e se multiplicar" (em vez de cres-
novas ao mundo todo. cer por "acréscimo") é por meio de um pro-
Quando lemos o Livro de Atos, vemos grama sistemático de discipulado. Trata-se de
que a Igreja primitiva operava com base na uma responsabilidade de todo cristão, não
autoridade soberana do Senhor, ministran- apenas de um pequeno grupo "chamado
do em seu nome, dependendo de seu poder para ir".
e orientação. Não enfrentaram o mundo per- Jesus abriu a mente de seus discípulos
dido firmando-se em sua autoridade, mas sim para que entendessem as Escrituras (Lc
na autoridade de Jesus Cristo. 24:44, 45). Descobriram o que Jesus deseja-
Atividade (w. 19, 20a). O verbo grego va que ensinassem aos convertidos. N ã o
traduzido por ide na verdade não é uma basta ganhar pessoas para o Senhor. Tam-
ordem, mas sim um gerúndio (indo). O único bém é preciso ensinar a Palavra de Deus a
mandamento de toda a grande comissão é elas, pois isso faz parte da grande comissão.
MATEUS 28 141

Capacidade (v, 20b). Jesus não está pre- Não há requisitos a preencher para en-
sente apenas quando seu povo se reúne (Mt contrar as pessoas ou para haver conversões,
18:20), mas também quando seus seguido- pois Jesus Cristo está conosco. Paulo desco-
res estão espalhados pelo mundo dando seu briu essa verdade quando tentava fundar
testemunho, Se houvesse permanecido aqui uma igreja na difícil cidade de Corinto. Obe-
na Terra, Jesus não poderia ter cumprido essa decendo a essa comissão, Paulo foi até a
promessa. Com a vinda do Espírito, Jesus cidade (At 18:1), ganhou pessoas para Cris-
pode estar com seu povo em qualquer lugar, to e as batizou (At 18:8), ensinando-lhes a
C, Campbell Morgan contou, certa vez, Palavra (At 18:11). Quando a situação com-
uma experiência envolvendo essa declara- plicou-se, Paulo recebeu um visita especial
ção, Quando era recém-convertido, Morgan do Senhor: "Não temas [...] porquanto eu
costumava visitar várias senhoras de idade, estou contigo" (At 18:9,10).
uma vez por semana, a fim de ler a Bíblia A frase "até a consumação do século"
para elas, Ao chegar no final do Evangelho indica que nosso Senhor tem um plano, pois
de Mateus, Morgan leu: "E eis que estou ele é Senhor da história. Ao seguir e obe-
convosco todos os dias até a consumação decer a direção de seu Cabeça, a Igreja cum-
do século", e depois perguntou: "Não é uma pre o propósito de Deus no mundo. Um dia,
promessa maravilhosa?" Uma das senhoras chegaremos ao ponto culminante desse
respondeu sem hesitar: "Meu jovem, isso plano. Enquanto esse dia não vem, devemos
não é uma promessa, é um fato!" permanecer fiéis.
MARCOS

ESBOÇO CONTEÚDO
Tema-chave: Jesus Cristo o servo 1. O Servo de Deus está aqui!
Versículo-chave: Marcos 10:45 ( M c 1) 143
2. O que o Servo nos oferece
I. A A P R E S E N T A Ç Ã O DO S E R V O - ( M c 2:1 -3:12) 149
1:1-13 3. O Servo, as multidões e o reino
( M c 3:13-4:34) 155
I!. O MINISTÉRIO DO SERVO NA 4. As conquistas do Servo
GALILÉIA-1:14-9:50 ( M c 4:3 5 - 5:43) 161
A. Período de popularidade - 1:14 - 6:29 5. A fé no Servo
B. Período de afastamento - 6:30 - 9:32 ( M c 6:1-56) 167
C. Período de conclusão - 9:33-50 6. O Servo e Mestre
( M c 7:1 - 8:26) 173
III. A J O R N A D A D O SERVO A 7. Os segredos do Servo
J E R U S A L É M - C A P Í T U L O 10 ( M c 8:27-9:50) 179
8. Os paradoxos do Servo
IV. O MINISTÉRIO DO SERVO EM ( M c 10) 186
JERUSALÉM - CAPÍTULOS 11-16 9. O Servo em Jerusalém
A. Ensino em público e controvérsias - ( M c 11:1 - 12:44) 192
11:1 - 12:44 10. O Servo revela o futuro
B. Ensino em particular e ministério - ( M c 13) 199
13:1 - 14:31 11. O sofrimento do Servo
C. Prisão, julgamento e crucificação - ( M c 14:1 - 15:20) 205
14:32 - 15:47 12. O Servo consuma sua obra
D. Ressurreição e ascensão - 16 ( M c 15:21 -16:20) 212
lugar para outro e suprindo n e c e s s i d a d e s
físicas e espirituais de gente de todo tipo.
U m a das expressões prediletas de M a r c o s é
imediatamente. No original, ele a emprega
O S E R V O DE D E U S mais de quarenta vezes. M a r c o s não regis-

ESTÁ A Q U I ! tra vários sermões de Jesus, pois sua ênfase


é sobre o q u e Jesus fez, n ã o sobre o q u e
disse. O evangelista revela J e s u s c o m o o
MARCOS 1
S e r v o de Deus, e n v i a d o para ministrar a um
povo sofrido e para morrer pelos p e c a d o s
do mundo. M a r c o s n ã o relata coisa alguma
a respeito do nascimento de Cristo n e m apre-
// evangelho n ã o é uma argumenta- senta sua genealogia, pois, em se tratando
v a , / ç ã o n e m u m debate", disse Paul S . de um servo, isso era desnecessário.
Rees. " É u m a p r o c l a m a ç ã o ! " Neste capítulo de abertura, M a r c o s fala
S e m rodeios, M a r c o s põe-se a proclamar de três fatos importantes sobre o S e r v o de
a m e n s a g e m nas primeiras palavras de seu Deus.
livro. Mateus, q u e escreveu principalmente
a judeus, c o m e ç a seu Evangelho c o m u m a 1. A IDENTIDADE DO S E R V O
genealogia. Afinal, precisava provar a seus ( M c 1:1-11)
leitores q u e Jesus Cristo é, de fato, o herdei- De q u e maneira M a r c o s identifica o Servo?
r o legítimo d o trono d e Davi. U m a v e z q u e O evangelista registra o testemunho de vá-
Lucas concentra-se principalmente no minis- rias fontes fidedignas para garantir q u e Jesus
tério do Filho do h o m e m , dedica os primeiros é tudo o q u e dizia ser.
capítulos de seu livro ao relato do nascimen- A primeira testemunha do livro é seu
to do Salvador. Lucas enfatiza a humanida- autor, João Marcos (v. 1). C o m toda ousa-
de de Cristo por saber q u e os leitores gregos dia, declara q u e Jesus Cristo é o Filho de
se identificariam c o m um B e b ê perfeito nas- Deus. É provável q u e M a r c o s tenha sido u m a
cido para se tornar um H o m e m perfeito. testemunha ocular de alguns dos aconteci-
O Evangelho d e J o ã o c o m e ç a c o m u m a mentos sobre os quais escreve. Vivia em Je-
declaração sobre a eternidade! Isso p o r q u e rusalém c o m a mãe, Maria, e sua casa era
J o ã o escreveu c o m o intento de provar ao um ponto de encontro para os cristãos da
m u n d o inteiro q u e Jesus Cristo de N a z a r é é c i d a d e (At 12:1-19). Muitos estudiosos acre-
o Filho de D e u s ( J o 20:31). O tema do Evan- ditam q u e M a r c o s seja o j o v e m descrito em
gelho de J o ã o é a divindade de Cristo, mas M a r c o s 14:51, 52. U m a v e z q u e Pedro cha-
o objetivo do seu Evangelho é encorajar seus m a M a r c o s d e " m e u filho" ( 1 P e 5:13), p o d e
leitores a crer no Salvador e a receber a dá- ser q u e tenha levado M a r c o s a crer em Je-
diva da vida eterna. sus Cristo. De a c o r d o c o m as tradições da
E o Evangelho de M a r c o s ? M a r c o s es- Igreja, M a r c o s era o "intérprete de Pedro",
c r e v e u para os romanos, e seu t e m a é Jesus de m o d o q u e o Evangelho de M a r c o s refle-
Cristo, o Servo, Se tivéssemos de escolher te as experiências pessoais e o testemunho
um "versículo-chave" para este Evangelho, d e S i m ã o Pedro.
seria M a r c o s 10:45: " P o i s o próprio Filho A palavra evangelho significa, simples-
d o H o m e m n ã o v e i o para ser servido, mas mente, " b o a s novas". Para os romanos, o pú-
para servir e dar a sua v i d a em resgate por blico-alvo de M a r c o s , evangelho significava
muitos." "notícias alegres sobre o i m p e r a d o r " . O
O fato de M a r c o s ter escrito p e n s a n d o "Evangelho de Jesus Cristo" é a b o a nova de
nos r o m a n o s ajuda a entender seu estilo e q u e o Filho de D e u s v e i o ao m u n d o para
abordagem. A ênfase de seu Evangelho é na morrer por nossos pecados. É a b o a nova de
144 MARCOS 1

de que podemos pertencer à família de Messias, Jesus Cristo, e crer nele. Os apósto-
Deus e, um dia, viver no céu com Deus. É a los de Jesus foram, sem dúvida alguma, bati-
proclamação da vitória sobre o pecado, a zados por João (ver Jo 4:1, 2 e At 1:21-26).
morte e o inferno (1 Co 15:1-8, 51, 52; Gl O Pai e o Espírito Santo são as últimas
1:1-9). testemunhas a identificar o Servo de Deus
O segundo testemunho vem dos pro- (vv. 9-11). Quando Jesus foi batizado, o Es-
fetas (vv. 2, 3). Marcos cita dois profetas do pírito veio sobre ele em forma de pomba, e
Antigo Testamento: Malaquias 3:1 e Isaías o Pai falou dos céus e identificou seu Filho
40:3 (ver também Êx 23:20). As palavras amado. Com exceção de Jesus e de João,
mensageiro e voz referem-se a João Batista, os que estavam presentes não ouviram a voz
o profeta de Deus enviado a fim de prepa- nem viram a pomba (ver Jo 1:29-34). A pala-
rar o caminho para o Filho de Deus (Mt 3; vra amado não apenas declara afeição, mas
Lc 3:1-18; Jo 1:19-34). Na Antigüidade, an- também significa "o único". A declaração
tes de um rei ir visitar alguma parte de seu do Pai vinda dos céus nos traz à memória o
reino, era costume enviar adiante dele um Salmo 2:7 e Isaías 42:1.
mensageiro para preparar o caminho. O tra- Pode ser interessante tomar nota das
balho do mensageiro era providenciar para seguintes referências no Evangelho de Mar-
que as estradas fossem reparadas e também cos que mostram Jesus Cristo como o Filho
preparar as pessoas. Ao chamar a nação ao de Deus: Marcos 1:1,11; 3:11; 5:7; 9:7; 12:1-
arrependimento, João Batista preparou o 11; 13:32; 14:61, 62 e 15:39. Marcos não
caminho para o Senhor Jesus Cristo. Isaías e escreveu apenas sobre um servo judeu, mas
Malaquias declaram, a uma só voz, que Je- sobre o Filho de Deus que veio dos céus
sus Cristo é o Senhor, Deus Jeová. para morrer pelos pecados do mundo.
A terceira testemunha é João Batista (vv. Por certo, Jesus é Servo, porém um Ser-
4-8). Jesus chamou João Batista de o maior vo diferente. Afinal, normalmente é o servo
dos profetas (Mt 11:1-15). Em seu modo de quem prepara o caminho para os outros e
vestir e de viver e em sua mensagem de arre- anuncia a chegada deles. No entanto, outros
pendimento, João identificou-se com Elias prepararam o caminho para Jesus e anun-
(2 Rs 1:8; Ml 4:5; Mt 1 7:10-13; e observe Lc ciaram sua vinda. Até mesmo os céus regis-
1:13-17). O "deserto" onde João ministrou traram! Esse Servo é o Filho de Deus.
é a região erma ao longo da costa oeste do
mar Morto. De maneira simbólica, João di- 2. A AUTORIDADE DO SERVO
zia às pessoas que a vida delas era como ( M C 1:12-28)
um "deserto espiritual", muito pior do que o Esperamos que um servo esteja sujeito a algu-
deserto físico no qual seus ancestrais vaga- ma autoridade e receba ordens, mas o Servo
ram durante quarenta anos. João conclamou de Deus exerce autoridade e dá ordens -
o povo a deixar o deserto espiritual, a crer até mesmo aos demônios -, e suas ordens
em seu "Josué" (Jesus) e a tomar posse de são obedecidas. Nesta seção, Marcos des-
sua herança. creve três cenas que revelam a autoridade
Fez questão de engrandecer a Cristo, de nosso Senhor como Servo de Deus.
não a si mesmo (ver Jo 3:25-30). Batizou com Primeira cena - sua tentação (vv. 12,
água, mas avisou que "aquele que viria após 13). Marcos não apresenta um relato tão ex-
ele" batizaria com o Espírito (At 1:4, 5). Isso tenso quanto o de Mateus (4:1-11) e o de
não significa que o batismo de João não era Lucas (4:1-13), mas acrescenta alguns deta-
autorizado (ver Mt 21:23-27), ou que, um lhes que os outros dois evangelistas deixam
dia, o batismo com água seria substituído de fora. O Espírito o "impeliu" para o deser-
pelo batismo do Espírito (ver Mt 28:19, 20). to. Trata-se de uma palavra forte, que Mar-
Antes, a mensagem e o batismo de João fo- cos usa onze vezes em seu texto original
ram uma preparação, a fim de que o povo para descrever a expulsão de demônios. O
estivesse pronto para se encontrar com o termo não sugere que Jesus estava relutante
MARCOS 1 145

ou temeroso de enfrentar Satanás. Pelo con- c o m o v e m o s em alguns textos. Por certo, a


trário, é a forma q u e M a r c o s emprega para maioria dos judeus percebia um t o m de "re-
expressar a intensidade da experiência. N ã o volução política" na expressão "reino de
gasta t e m p o falando da glória celeste da v o z D e u s " , mas não era isso o q u e Jesus tinha
ou da presença da pomba. O S e r v o t e m uma em mente. S e u reino dizia respeito a sua
tarefa a cumprir e se p õ e imediatamente a soberania na vida das pessoas; era um reino
realizar seu trabalho. espiritual, n ã o u m a organização política. A
De forma concisa, M a r c o s apresenta única forma de entrar no reino de D e u s é
duas imagens simbólicas. Os quarenta dias crer nas B o a s N o v a s e nascer de n o v o ( J o
d e nosso S e n h o r n o d e s e r t o l e m b r a m o s 3:1-7).
quarenta anos de Israel no deserto. Israel fra- O evangelho é c h a m a d o de "o evange-
cassou ao ser testado, mas Cristo foi vitorio- lho de D e u s " , p o r q u e v e m de D e u s e nos
so. T e n d o triunfado sobre o inimigo, Jesus c o n d u z a ele. É "o evangelho do reino", pois
p ô d e prosseguir e c h a m a r um n o v o p o v o a fé no Salvador nos leva a seu reino; é tam-
para entrar na herança espiritual. N ã o é difí- b é m o "evangelho de Jesus Cristo", p o r q u e
cil ver o paralelo, pois o n o m e jesus é a for- ele está no centro; s e m sua vida, morte e
m a grega d o n o m e " J o s u é " . ressurreição, não haveria boas novas. Paulo
A segunda imagem é a do "último A d ã o " o c h a m a de "evangelho da graça de D e u s "
(1 Co 15:45). O primeiro A d ã o foi testado (At 20:24), pois n ã o é possível haver salva-
n u m jardim maravilhoso e falhou, enquanto ç ã o sem a graça (Ef 2:8, 9). Há apenas um
Jesus foi tentado n u m deserto perigoso e evangelho ( G l 1:1-9), e seu c e r n e é a obra
conquistou a vitória. Por causa de seu peca- q u e Jesus Cristo c o n s u m o u por nós na cruz
do, A d ã o perdeu o " d o m í n i o " sobre a Cria- (1 Co 15:1-11).
ç ã o ( G n 1:28; S I 8), m a s e m Cristo, esse Jesus pregou q u e as pessoas d e v e r i a m
domínio foi restaurado para todo o q u e crê arrepender-se (mudar de idéia) e crer (ver At
no S e n h o r ( H b 2:6-8). Jesus estava junto de 20:21). Sozinho, o a r r e p e n d i m e n t o n ã o é
animais selvagens, mas não lhe fizeram mal. suficiente para nos salvar, apesar de D e u s
C o m isso, o S e n h o r demonstrou o dia vin- esperar q u e os cristãos d e i x e m seus peca-
d o u r o de paz e de retidão, em q u e voltará e dos para trás. T a m b é m é preciso crer em
estabelecerá seu reino (Is 11:9; 35:9). S e m Jesus Cristo e em sua promessa de salvação.
dúvida, ele é um S e r v o c o m autoridade! A r r e p e n d i m e n t o s e m fé p o d e transformar-
Segunda cena - sua pregação (Vv. 14- se em remorso, e o remorso destrói os q u e
22). Se há alguém q u e falou a v e r d a d e de carregam um fardo de culpa (ver Mt 27:3-5;
D e u s c o m autoridade, esse alguém foi Jesus 2 Co 7:8-10).
Cristo (ver Mt 7:28, 29). Costuma-se dizer U m a v e z q u e Jesus pregava c o m autori-
q u e os escribas falavam segundo as autorida- dade, p ô d e c h a m a r h o m e n s para deixar suas
des, e n q u a n t o Jesus falava com autoridade. o c u p a ç õ e s diárias e se tornar seus discípu-
M a r c o s n ã o registra aqui o início do minis- los. Q u e m mais interromperia quatro pesca-
tério de Cristo, pois o S e n h o r já havia mi- dores em seu trabalho a fim de os desafiar a
nistrado em outros lugares ( J o 1:35 - 4:4). a b a n d o n a r suas r e d e s e segui-lo? V á r i o s
Antes, nessa passagem, o evangelista mos- m e s e s antes, J e s u s j á s e e n c o n t r a r a c o m
tra o q u e levou Jesus a deixar a Judéia e a se Pedro, A n d r é , Tiago e J o ã o , e, nessa oca-
dirigir para a Galiléia: H e r o d e s prendeu J o ã o sião, os quatro h o m e n s creram no Salvador
Batista, e, por u m a questão de prudência, (ver Jo 1:35-49). Nessa passagem, n ã o ve-
convinha q u e Jesus saísse daquela região. A m o s o primeiro c h a m a d o à fé e à salvação,
propósito, foi durante essa viagem q u e Je- m a s sim o c h a m a d o ao discipulado. O fato
sus c o n v e r s o u c o m a mulher samaritana ( J o de Z e b e d e u ter e m p r e g a d o s contratados in-
4:1-45). dica q u e seu n e g ó c i o de pesca estava indo
A m e n s a g e m de Jesus era o evangelho b e m e q u e era um h o m e m de posses. Tam-
146 MARCOS 1

seu pai desamparado quando obedeceram e quando ensinou a Palavra, o povo ficou
ao chamado de Cristo. Zebedeu poderia maravilhado com sua autoridade.
continuar tocando seus negócios com a aju- Ao ler o Evangelho de Marcos, vê-se
da dos empregados. como o evangelista gosta de relatar as rea-
Jesus não inventou o termo "pescado- ções emocionais do povo. A congregação
res de homens". Naquele tempo, essa era da sinagoga ficou "admirada" com os ensi-
uma expressão comum, que descrevia filó- namentos do Mestre e com seu poder de
sofos e outros mestres que "cativavam a cura ( M c 1:27; ver também 2:12; 5:20, 42;
mente dos homens" pelo ensino e pela per- 6:2, 51; 7:37; 10:26; 11:18). Marcos registra
suasão. Jogavam as "iscas" com seus ensina- até a admiração de Jesus com a incredulida-
mentos e "fisgavam" discípulos. Ê provável de do povo de Nazaré ( M c 6:6), e, por cer-
que até sete dos discípulos do Senhor fos- to, sua narrativa nunca se torna monótona.
sem pescadores (Jo 21:1-3). Sem dúvida, as Terceira cena - suas ordens (w. 23-28).
qualidades dos pescadores bem-sucedidos Imagino de quantos cultos esse homem par-
também contribuiriam para o sucesso no ticipou na sinagoga sem revelar que estava
difícil ministério de resgatar almas perdidas: endemoninhado. Foi necessária a presença
coragem, capacidade de trabalhar em equi- do Filho de Deus para que se manifestasse
pe, paciência, energia, resistência, fé e tenaci- a presença do demônio, e Jesus não apenas
dade. Pescadores profissionais não podiam o expôs, mas também ordenou que perma-
se dar ao luxo de desistir e de murmurar! necesse calado quanto à identidade de Cris-
Jesus ministrou não apenas ao ar livre, to e que saísse do homem. O Salvador não
mas também nas sinagogas. As sinagogas queria, nem precisava, da ajuda de Satanás
judaicas surgiram durante o exílio do reino e seu exército para dizer às pessoas quem
de Judá, quando o povo se encontrava na ele era (ver At 16:16-24).
Babilônia depois da destruição do templo. O demônio sabia exatamente quem Je-
Onde quer que houvesse judeus acima dos sus era (ver At 19:13-17) e que não tinha
12 anos de idade, era possível organizar uma coisa alguma em comum com ele. O uso
sinagoga. Ao contrário do templo, a sinago- que o demônio faz de pronomes no plural
ga não era um lugar de sacrifício, mas sim indica quanto ele havia se identificado com
de leitura das Escrituras, oração e adoração o homem por meio do qual falava. O demô-
a Deus. Os cultos não eram realizados por nio deixa clara a humanidade de Cristo ("Je-
sacerdotes, e sim por leigos; e o ministério sus Nazareno"), bem como sua divindade
era supervisionado por um conselho de ("o Santo de Deus"). Também confessa pro-
anciãos presidido por um "chefe" ( M c 5:22). fundo temor de ser julgado e lançado fora
Era costume pedir a rabinos visitantes que por Jesus. Hoje, há muita gente parecida com
lessem as Escrituras e ensinassem, o que esse endemoninhado: freqüentam a igreja,
explica por que Jesus teve tanta liberdade são capazes de dizer quem é Jesus e até
de ministrar nas sinagogas. O apóstolo Pau- mesmo tremem de medo do julgamento,
lo também fez uso desse privilégio (At 13:14- mas ainda assim continuam perdidos (verTg
16; 14:1; 17:1-4). 2:19)!
Jesus montou seu "centro de operações" A ordem de Jesus ao demônio foi "Cala-
em Cafarnaum, possivelmente na casa de te" - uma injunção que voltaria a usar ("emu-
Pedro e de André ou nas imediações ( M c dece") contra a tempestade ( M c 4:39). O
1:29). Ao visitar a Terra Santa hoje, ainda demônio tentou reagir com um último ata-
podemos ver ruínas de uma sinagoga em que de convulsão, mas teve de se sujeitar à
Cafarnaum, mas não se trata do mesmo locai autoridade do Servo de Deus e sair do ho-
em que Jesus congregou. O povo se reunia mem. O povo da sinagoga ficou admirado e
para os cultos aos sábados e também às se- temeroso. Perceberam que algo novo esta-
gundas e quintas. Uma vez que era um judeu va acontecendo - viram uma nova doutrina
fiel, Jesus honrou o sábado ao ir à sinagoga, e um novo poder. As palavras e ações de
MARCOS 1 147

Jesus d e v e m sempre andar juntas ( J o 3:2). Pela fé, os h o m e n s falaram a Jesus da


O episódio na sinagoga transformou-se no mulher doente, esperando, s e m dúvida al-
assunto do dia, e a fama de Jesus c o m e ç o u guma, q u e ele a curasse. Foi exatamente isso
a espalhar-se. Jesus não incentivou esse tipo o q u e ele fez! A febre a d e i x o u imediata-
de entusiasmo público a fim de não criar mente, e ela p ô d e se levantar e ajudar a pre-
p r o b l e m a s n e m c o m j u d e u s n e m c o m ro- parar a refeição do sábado. Q u e m já teve
manos. Os judeus iriam querer segui-lo ape- febre alta alguma v e z sabe c o m o é doloro-
nas por causa de seu p o d e r de curar, e os so e desconfortável. T a m b é m sabe que,
r o m a n o s pensariam q u e Jesus era um revo- q u a n d o a febre passa, o c o r p o leva algum
lucionário j u d e u tentando depor o governo. t e m p o para se recuperar. M a s n ã o foi o q u e
Isso explica por q u e Jesus ordenava, c o m a c o n t e c e u aqui! A sogra de P e d r o sentiu-se
tanta freqüência, q u e as pessoas n ã o divul- disposta de imediato. Q u e maneira melhor
gassem o q u e ele havia feito ( M c 1:44; 3:12; existe de agradecer ao S e n h o r por t u d o o
5:43; 7:36, 37; 8:26, 30; 9:9). M a s muitos q u e ele fez por nós do q u e nos c o l o c a n d o a
não o b e d e c e r a m e c o l o c a r a m Jesus em si- seu serviço?
t u a ç õ e s difíceis. Em decorrência desse milagre, q u a n d o
o sábado terminou ao pôr-do-sol, a c i d a d e
3. A COMPAIXÃO DO SERVO toda a p a r e c e u à porta da casa de P e d r o !
(MC 1:29-45) Trouxeram seus doentes e aflitos, e o S e n h o r
Esta s e ç ã o d e s c r e v e dois milagres de cura, (que, por certo, estava cansado) curou a to-
e a m b o s revelam a c o m p a i x ã o do Salvador dos. O v e r b o grego indica q u e "continua-
pelos necessitados. S e u a m o r era tão gran- ram l e v a n d o " as pessoas até ele, de m o d o
de q u e o Salvador ministrava às multidões q u e Jesus d e v e ter ido dormir muito tarde.
m e s m o depois q u e o s á b a d o já havia ter- C o n v é m observar, em M a r c o s 1:32, a distin-
minado, horário e m que, d e a c o r d o c o m a ç ã o clara entre enfermos e endemoninhados.
lei, n ã o se p o d i a mais b u s c a r sua ajuda. É v e r d a d e q u e Satanás p o d e provocar afli-
V e m o s o S e r v o de D e u s à disposição de pes- ç õ e s físicas, mas n e m todas as d o e n ç a s são
soas de t o d o tipo, inclusive endemoninha- causadas por poderes demoníacos.
d o s e leprosos, ministrando a t o d o s c o m O fato de ir dormir tarde não impediu
amor. Jesus de manter seu c o m p r o m i s s o c o m o
Jesus e os quatro discípulos saíram da Pai b e m c e d o na m a n h ã seguinte. Em Isaías
sinagoga e foram para a casa de P e d r o e 50:4, existe uma descrição profética do Ser-
A n d r é para o jantar de sábado. Talvez Pedro vo justo de D e u s encontrando-se c o m o Pai
tenha explicado q u e a esposa estava cuidan- a cada manhã. Q u e exemplo para nós! Quan-
do da m ã e d o e n t e e n ã o poderia recebê-los d o c o n s i d e r a m o s q u e Jesus cultivava u m a
c o m toda hospitalidade costumeira. N ã o vida de o r a ç ã o tão disciplinada, n ã o é de
s a b e m o s se outros discípulos a l é m de Pedro admirar q u e tivesse t a m a n h a autoridade e
e r a m casados ( M c 1:30). poder (ver Mc 9:28, 29; 6:46; 14:32-38).
A l é m de convidar os amigos Tiago e J o ã o No entanto, as multidões desejavam ver
para sua casa, Pedro e A n d r é t a m b é m con- Jesus novamente n ã o para ouvir suas pala-
vidaram Jesus. Trata-se de um ótimo exem- vras, m a s para experimentar curas e vê-lo
plo para nós: não d e v e m o s deixar Jesus na realizar milagres. P e d r o f i c o u surpreso de
igreja, mas sim levá-lo para casa e permitir Jesus n ã o se apressar a ir encontrar a multi-
q u e ele participe de nossas b ê n ç ã o s e difi- d ã o e que, em v e z disso, tenha partido para
culdades. Q u e privilégio para P e d r o e sua outras c i d a d e s o n d e pudesse pregar o evan-
família ter o Filho de D e u s c o m o c o n v i d a d o gelho. P e d r o n ã o p e r c e b e u a superficia-
em sua casa humilde. L o g o o C o n v i d a d o lidade das multidões, sua i n c r e d u l i d a d e e
tornou-se o Anfitrião, da m e s m a forma que, falta de interesse pela Palavra de Deus. Jesus
um dia, o Passageiro do barco de P e d r o se a f i r m o u q u e era mais i m p o r t a n t e levar o
148 MARCOS 1

e curar os enfermos. N ã o permitiu que a acla- comunidade. M a s o homem não obedeceu


mação popular alterasse suas prioridades. à ordem de Jesus e contou para todo mun-
N ã o é difícil entender a preocupação de do que havia sido curado. Nós, por outro
Jesus em curar uma mulher c o m febre, mas lado, permanecemos calados quando Jesus
se encontrar c o m um leproso e tocá-lo é algo ordenou que contemos a todos o que ele
que vai além de nossa compreensão. Os fez! As multidões que foram buscar a ajuda
leprosos mantinham-se afastados e avisavam de Jesus criaram um problema sério para ele
a todos que estavam chegando, a fim de e, provavelmente, o impediram de ensinar a
evitar q u e outros se c o n t a m i n a s s e m (Lv Palavra da forma c o m o desejava ( M c 1:38).
13:45, 46). O homem sabia que Jesus era A cerimônia descrita em Levítico 14 é
capaz de curá-lo, mas não tinha certeza de uma imagem belíssima da obra da reden-
que o Mestre estivesse disposto a fazê-lo. ção. Os dois pássaros representam dois as-
Hoje, muitos pecadores perdidos também pectos diferentes do ministério de nosso
sofrem c o m essa mesma preocupação des- Senhor: sua encarnação e morte (o pássaro
necessária, pois Deus já deixou bem claro colocado no vaso de barro e depois sacri-
que não deseja que nenhum pecador pere- ficado) e sua ressurreição e ascensão (o pás-
ça (2 Pe 3:9) e que seu grande anseio é que saro manchado c o m o sangue e depois sol-
todos sejam salvos (1 Tm 2:4). to). O sangue era colocado na orelha direita
Q u a n d o lemos a respeito dos "testes" da pessoa (a Palavra de Deus), no polegar
para detectar a lepra, em Levítico 13, vemos direito (a obra de Deus) e no artelho direito
c o m o essa doença ilustra bem o pecado. (a jornada c o m Deus). Então, se colocava
C o m o o pecado, a lepra não se atém à su- óleo sobre o sangue, simbolizando o Espíri-
perfície (Lv 1 3:3); ela espalha-se (Lv 1 3:5-8), to Santo de Deus. O Espírito Santo só pode
contamina e isola (Lv 13:44-46), tornando habitar no ser humano depois que o sangue
as coisas a seu redor inúteis, próprias apenas de Cristo tiver realizado sua obra.
para ser queimadas (Lv 13:47-59). Os que Este capítulo ensina algumas lições espi-
ainda não creram no Salvador estão espiri- rituais importantes. Em primeiro lugar, se o
tualmente em estado mais lastimável do que Filho de Deus veio c o m o Servo, servir é uma
a condição física desse homem. vocação suprema. Q u a n d o servimos os ou-
Jesus teve compaixão do h o m e m (ob- tros, tornamo-nos mais semelhantes a Cris-
serve Mc 6:34; 8:2; 9:22) e o curou c o m to. Em segundo lugar, Deus compartilha sua
seu toque e sua palavra. S e m dúvida, foi o autoridade c o m seus servos. Somente os que
primeiro toque de carinho que o leproso estão sob alguma autoridade têm o direito
sentiu em muito tempo. C o m o a febre da de exercer autoridade. Por fim, se desejar-
sogra de Pedro, a lepra também desapare- mos ser servos, precisaremos, sem dúvida
ceu imediatamente! alguma, ter g r a n d e c o m p a i x ã o , pois as
Pelos motivos que explicamos anterior- pessoas virão até nós em busca de ajuda, e
mente, Jesus ordenou ao homem que não raramente perguntarão se o m o m e n t o é
contasse a ninguém o que havia aconteci- conveniente!
do. Deveria procurar o sacerdote e seguir No entanto, é um privilégio enorme se-
as i n s t r u ç õ e s de L e v í t i c o 14, para q u e guir os passos de Jesus Cristo e se tornar um
pudesse ser declarado puro e ser recebido servo compassivo de Deus, suprindo as ne-
de volta no convívio social e religioso da cessidades dos outros.
povo de Cafarnaum não esperou por um
convite; simplesmente foi chegando em gru-
pos. Isso significa que alguns dos mais ne-
cessitados não conseguiram aproximar-se o
O Q U E O SERVO NOS suficiente de Jesus para receber ajuda. No
entanto, quatro amigos de um paralítico
OFERECE decidiram abaixar seu amigo por um bura-
co no telhado, crendo que Jesus o curaria; e
MARCOS 2 : 1 - 3:12
foi exatamente o que aconteceu. Esse mila-
gre deu ao Mestre a oportunidade de ensi-
nar uma lição importante sobre o perdão.
Consideremos esta cena do ponto de

A notícia de que um Mestre que operava


milagres estava em Cafarnaum espa-
Ihou-se com rapidez assustadora, e aonde
vista de Jesus. Quando olhou para o alto,
viu quatro homens com o amigo paralítico.
As casas daquela região tinham telhado pla-
quer que Jesus fosse, as multidões se jun- no, ao qual normalmente se podia ter aces-
tavam. Desejavam vê-lo curar enfermos e so por fora mediante uma escada. Não seria
expulsar demônios. Se tivessem se mostra- difícil remover as telhas e ripas, a fim de abrir
do interessadas na mensagem do evangelho, uma passagem grande o suficiente para bai-
essas multidões teriam sido um estímulo para xar a maca com o amigo paralítico.
Jesus; porém, ele sabia que a maioria só tinha Encontramos nesses amigos uma série
idéias superficiais e se encontrava cega para de características admiráveis, qualidades
as próprias necessidades. Em várias ocasiões, que devem nos marcar como "pescadores
Jesus sentiu-se compelido a deixar uma ci- de homens". Em primeiro lugar, estavam pro-
dade e ir para o deserto orar (Lc 5:15, 16). fundamente preocupados com o amigo e
Todo servo de Deus deveria seguir seu exem- desejavam vê-lo curado. Criam que Jesus ti-
plo e separar um tempo longe das pessoas nha poder e estava disposto a suprir a ne-
para se encontrar com o Pai e se fortalecer cessidade deles. Não se ativeram a "orar
e revigorar em oração. sobre o assunto", mas também agiram, sem
Era chegada a hora de Jesus mostrar às desanimar com as circunstâncias. Trabalha-
multidões o verdadeiro caráter de seu minis- ram juntos, ousaram fazer algo diferente, e
tério. Afinal, viera à Terra para fazer muito Jesus recompensou seus esforços. Teria sido
mais do que simplesmente aliviar as aflições muito fácil se dissessem: "É impossível che-
dos enfermos e endemoninhados. Sem dú- gar perto de Cristo hoje... Quem sabe pode-
vida, esses milagres eram maravilhosos, mas mos voltar amanhã!"
havia algo muito maior a experimentar: as Quando Jesus olhou para baixo, viu o
pessoas poderiam entrar no reino de Deus! homem paralítico em seu leito e tratou do
Precisavam entender as lições espirituais por cerne do problema: o pecado. Nem toda
trás dos milagres que Jesus realizava. doença é causada pelo pecado (ver Jo 9:1-
Nesta seção, Jesus deixa claro que veio 3), mas fica claro que a enfermidade desse
oferecer a todos que crêem nele três dádivas homem foi resultado de sua desobediência
maravilhosas: perdão (Mc 2:1-12), satisfação a Deus. Antes de curar o corpo, Jesus trou-
(Mc 2:13-22) e liberdade (Mc 2:23 - 3:12). xe paz ao coração do homem e anunciou
que os pecados dele estavam perdoados! O
1. PERDÃO ( M C 2 : 1 - 1 2 ) perdão é o maior dos milagres realizados
Não sabemos ao certo se esse acontecimen- por Jesus. Supre a maior das necessidades,
to ocorreu na própria casa de Jesus ("ele custa o mais alto preço e traz a maior das
estava em casa") ou na casa de Pedro. Uma bênçãos e os resultados mais duradouros.
vez que a hospitalidade é uma das regras Em seguida, Jesus olhou ao redor e viu os
150 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

o que ele fazia (ver Lc 5:1 7). Tendo em vista o título de "Filho do H o m e m " . Trata-se de
que a vida religiosa de Israel estava sob seus uma designação usada catorze vezes em
cuidados, esses líderes tinham todo o direito Marcos, sendo que doze dessas referências
de investigar o ministério desse novo Mestre são encontradas depois de M a r c o s 8:29,
(Dt 13). No entanto, deveriam ter vindo c o m quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo
a mente e o coração abertos, buscando a de Deus ( M c 2:10, 28; 8:31, 38; 9:9, 12, 31;
verdade, em vez de chegar c o m críticas, à 10:33, 45; 13:26, 34; 14:21, 41, 62). É, sem
procura de heresias. Algumas das atitudes dúvida, um título messiânico (Dn 7:13, 14),
negativas presentes na Judéia (Jo 4:1-4) che- e os judeus devem tê-lo interpretado como
garam, assim, à Galiléia, dando início à opo- tal. Jesus usou esse título cerca de oitenta
sição oficial que culminou com a prisão e vezes nos Evangelhos.
morte de Jesus. A essa altura, a popularida- O que os líderes religiosos teriam apren-
de de Jesus era tanta que os líderes judeus dido se houvessem aberto o coração para a
não ousavam ignorá-lo. Aliás, é possível que verdade naquele dia? Em primeiro lugar, te-
tenham chegado mais cedo do que os ou- riam aprendido que o pecado é como uma
tros, pois estavam num lugar privilegiado! doença e que o perdão é como ter a saúde
O u , quem sabe, num gesto de bondade, restaurada. N ã o se tratava de uma verdade
Jesus deixou que se assentassem na primei- nova, pois o Antigo Testamento já dizia isso
ra fila. (SI 103:3; Is 1:5, 6, 16-20). A diferença era
Q u a n d o Jesus olhou para o interior de- que essa verdade havia sido demonstrada
les, viu o espírito crítico em seu coração e diante dos olhos deles. Também, poderiam
soube que o estavam acusando de blasfêmia. ter aprendido que Jesus Cristo de Nazaré é,
Afinal, somente Deus é capaz de perdoar de fato, o Salvador c o m autoridade para per-
pecados, e Jesus havia acabado de dizer que doar pecados - e os pecados dos líderes
os pecados do paralítico estavam perdoados. teriam sido perdoados também! Q u e opor-
Ou seja, Jesus estava dizendo que era Deus! tunidade perderam quando foram até aque-
Logo em seguida, porém, Jesus provou la reunião com um espírito crítico, não com
que era Deus ao ver o que havia no cora- um coração arrependido!
ção desses homens e lhes dizer o que esta-
vam pensando (ver Jó 2:25; Hb 3:13). U m a 2 . SATISFAÇÃO ( M C 2 : 1 3 - 2 2 )
vez que desejavam "arrazoar", Jesus lhes N ã o tardou a ficar claro que Jesus se rela-
propôs uma perguntar sobre a qual pode- cionava deliberadamente c o m os párias da
riam refletir: o que é mais fácil fazer, curar sociedade judaica. Chegou até a chamar um
um homem ou dizer que seus pecados es- coletor de impostos para ser um de seus dis-
tão perdoados? Obviamente, é mais fácil cípulos! N ã o sabemos se Levi era um ho-
dizer: "os teus pecados estão perdoados", m e m desonesto, apesar de a maioria dos
pois ninguém pode provar que o perdão de coletores de impostos ser corrupta, mas o
fato ocorreu. Então, para corroborar suas pa- simples fato de trabalhar para Herodes An-
lavras, Jesus curou o homem naquele mes- tipas e para os romanos já era suficiente para
mo instante e o mandou para casa. A cura acabar c o m a reputação dele entre os ju-
do corpo do homem foi uma ilustração e deus mais zelosos. No entanto, quando Jesus
demonstração da cura de sua alma (SI 103:3). o chamou, Levi não argumentou nem se
É evidente que os escribas e fariseus não demorou. Levantou e seguiu a Jesus, mesmo
tinham poder para curar aquele homem nem sabendo que Roma nunca mais lhe daria seu
para perdoar seus pecados, de modo que emprego de volta. Q u e i m o u suas pontes
foram pegos na própria armadilha e conde- ("Ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu";
nados pelos próprios pensamentos. Lc 5:28), recebeu um novo nome ("Mateus,
Jesus afirmou sua divindade não apenas o presente de Deus") e, c o m todo entusias-
ao perdoar os pecados do homem e curar mo, convidou alguns de seus amigos "peca-
seu corpo, mas também ao aplicar a si mesmo dores" a se encontrar com o Senhor Jesus.
151 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

Esses amigos e r a m j u d e u s que, c o m o ele, O noivo (w. 18-20). A primeira pergun-


não observavam a Lei n e m tinham grande ta referia-se às c o m p a n h i a s c o m as quais
interesse em coisas religiosas - exatamente Jesus andava, enquanto a segunda pergun-
o tipo de pessoa q u e Jesus desejava alcançar. ta dizia respeito ao motivo de Jesus alegrar-
É evidente q u e os críticos tinham de es- se c o m essas pessoas em seus banquetes.
tar presentes, mas Jesus usou seus questiona- A o s olhos d o s judeus mais piedosos, a con-
mentos para ensinar os c o n v i d a d o s sobre si duta de Jesus era inapropriada. J o ã o Batista
m e s m o e sobre a obra espiritual q u e tinha era um h o m e m austero e um tanto recluso;
vindo realizar. Explicou sua missão usando Jesus, porém, aceitava convites para banque-
três c o m p a r a ç õ e s interessantes. tes, brincava c o m as crianças e gostava de
O médico (vv. 16, 17). Apesar de terem reuniões sociais ( M t 11:16-19). S e m dúvida,
sido descartadas pelos líderes religiosos, Je- os discípulos de J o ã o d e v e m ter ficado um
sus n ã o considerou essas pessoas "rejeita- p o u c o escandalizados ao ver Jesus em fes-
das". Os amigos de M a t e u s eram pacientes tas, e os discípulos zelosos dos fariseus (ver
q u e precisavam de médico, e Jesus era esse Mt 23:15) não tardaram a expressar a mes-
M é d i c o . V i m o s anteriormente q u e o peca- ma perplexidade.
do p o d e ser c o m p a r a d o a u m a d o e n ç a , e Jesus já havia deixado claro q u e tinha
q u e o perdão é a restauração à saúde. Ve- vindo ao m u n d o para converter os pecado-
m o s agora q u e nosso Salvador p o d e ser com- res, não para elogiar os q u e se consideravam
parado a um m é d i c o : v e m até nós em nossa justos. Agora lhes dizia q u e viera para trazer
necessidade, faz um diagnóstico perfeito, dá alegria, n ã o tristeza. G r a ç a s a o legalismo
a cura verdadeira e definitiva e paga a con- imposto pelos escribas e fariseus, a religião
tai Um m é d i c o e tanto! judaica havia se tornado um fardo p e s a d o
Porém, há três tipos de "pacientes" q u e demais. O povo estava sobrecarregado c o m
Jesus n ã o p o d e curar da d o e n ç a do peca- tantas regras e normas impossíveis de obe-
do: (1) aqueles q u e n ã o o c o n h e c e m ; (2) d e c e r ( M t 23:4). " A vida n ã o d e v e ser u m
aqueles q u e o c o n h e c e m , mas se recusam funeral!", disse Jesus. " D e u s quer q u e a vida
a crer nele; e (3) aqueles q u e não admitem seja u m a festa de casamento! Eu sou o noi-
q u e precisam dele. Os escribas e fariseus se vo, e essas pessoas são meus convidados.
e n c a i x a v a m nessa última categoria, c o m o Acaso os convidados do casamento não
também todos os pecadores hoje que se d e v e m se alegrar e se divertir?"
consideram melhores do q u e as demais pes- Os judeus sabiam q u e o c a s a m e n t o era
soas. A m e n o s q u e r e c o n h e ç a m o s ser peca- uma das imagens do Antigo Testamento q u e
dores, n ã o p o d e r e m o s ser salvos, pois Jesus ajudava a retratar o r e l a c i o n a m e n t o de Is-
salva somente os p e c a d o r e s (Lc 19:10). rael c o m o Senhor. H a v i a m se " c a s a d o c o m
N o t e m p o d e Jesus, c o m o nos dias d o s J e o v á " e pertenciam somente a ele (Is 54:5;
profetas, havia os q u e afirmavam ser capa- Jr 31:32). Q u a n d o a n a ç ã o voltou-se para
zes de oferecer cura espiritual, mas seu tra- d e u s e s estrangeiros, c o m o fez e m tantas
t a m e n t o era ineficaz. Jeremias r e p r e e n d e u ocasiões, c o m e t e u "adultério espiritual".
os sacerdotes e falsos profetas de seus dias, Israel foi infiel a seu marido e teve de sofrer
pois eram médicos inúteis que ofereciam ape- disciplina. O tema principal de O s é i a s é o
nas falsas esperanças para a nação. " C u r a m a m o r de D e u s p o r sua e s p o s a a d ú l t e r a e
superficialmente a ferida do m e u povo, di- o desejo do S e n h o r de restaurar a nação.
z e n d o : Paz, paz; q u a n d o n ã o h á p a z " (Jr J o ã o Batista já havia a n u n c i a d o q u e Je-
6:14; 8:11). A p l i c a v a m seus remédios fracos sus era o noivo ( J o 3:29), e Jesus realizou
somente a sintomas superficiais, sem nunca seu primeiro milagre n u m a festa de casamen-
tratar mais profundamente o problema fun- to ( J o 2:1-11). Aqui, c o n v i d a as pessoas para
damental: o c o r a ç ã o p e c a d o r (Jr 17:9). De- virem ao casamento! Afinal, ser cristão n ã o
v e m o s ter cuidado c o m m é d i c o s desse tipo, é diferente de entrar n u m r e l a c i o n a m e n t o
152 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

outro"). Duas pessoas não se casam simples- tecido novo para depois costurá-lo num pano
mente porque se conhecem ou porque têm velho. O tecido ficaria inaproveitável depois
sentimentos profundos uma pela outra. A de cortado, e quando o tecido velho fosse
fim de se casar, devem assumir publicamen- lavado, os remendos novos encolheriam e
te um compromisso mútuo. Na maioria das estragariam a vestimenta (observe Lc 5:36-
sociedades, o homem e a mulher afirmam 39). Ou seria c o m o colocar vinho novo, não
esse compromisso publicamente quando fermentado, em odres velhos. Assim que o
dizem "Sim" na cerimônia de casamento. vinho começasse a fermentar e os gases se
A salvação dos pecados envolve mui- expandissem, os odres velhos não suporta-
to mais do que conhecer a Cristo ou mes- riam a pressão e se romperiam, perdendo-
mo "gostar" dele. O pecador é salvo quando se, assim, tanto o vinho quanto os odres.
assume um compromisso c o m Jesus Cristo Jesus veio para trazer algo novo, não
e diz "Sim". Assim, o cristão passa a experi- para remendar algo velho. A Lei mosaica
mentar imediatamente as alegrias de seu encontrava-se em d e c a d ê n c i a , estava se
casamento espiritual: leva o nome de Cris- deteriorando e prestes a desaparecer ( H b
to; compartilha de suas riquezas e poder; 8:13). Jesus estabeleceria uma nova aliança
alegra-se c o m seu amor e proteção e, um c o m seu sangue (Lc 22:19, 20). A partir de
dia, vai morar em seu lar glorioso no céu. então, a Lei não seria mais escrita em pe-
Q u a n d o estamos " c a s a d o s c o m Cristo", dras, mas sim no coração das pessoas (2 Co
mesmo c o m todas as suas tribulações e 3:1-3; Hb 10:15-18), e o Espírito Santo capa-
dificuldades, a vida se torna uma festa de citaria o povo de Deus a satisfazer a justiça
casamento. da Lei (Rm 8:1-4).
Marcos 2:20 faz alusão à morte, ressur- Ao usar essa ilustração, Jesus refutou, de
reição e ascensão de Jesus ao céu. É pouco uma vez por todas, a idéia popular de uma
provável que, a essa altura de seu aprendi- "religião mundial" conciliatória. Líderes bem-
zado com Cristo, os discípulos tenham com- intencionados, porém espiritualmente cegos,
preendido o que ele queria dizer. Contudo, costumam sugerir que devemos pegar "o
Jesus não estava sugerindo que sua ausên- que há de melhor" em cada religião, mistu-
cia da Terra significaria que seus seguidores rar c o m o "melhor" do cristianismo e, desse
teriam de substituir a festa por um funeral! modo, criar uma fé sintética que seja aceita
Apenas indicava que, num tempo futuro, um por todos. M a s a fé cristã possui caráter
jejum ocasional seria apropriado, mas que a exclusivista, pois não aceita nenhuma outra
alegria da celebração deveria continuar sen- fé c o m o sendo igual ou superior. "Porque
do a experiência normal dos cristãos. abaixo do c é u não existe nenhum outro
A vestimenta e os odres (vv. 21, 22). Je- nome, dado entre os homens, pelo qual im-
sus havia acabado de ensinar duas lições porta que sejamos salvos" (At 4:12).
importantes sobre seu ministério: (1) veio pa- A salvação não é um remendo parcial
ra salvar os pecadores, não para chamar os na vida de alguém, mas uma nova vestimenta
religiosos; e (2) veio para trazer alegria, não completa de justificação (Is 61:10; 2 Co
tristeza. A terceira lição é esta: veio para in- 5:21). A vida cristã não é uma mistura de
troduzir algo novo, não remendar algo velho. velho e de novo; pelo contrário, é o cumpri-
Os líderes religiosos ficaram impressiona- mento do velho no novo. Há duas maneiras
dos c o m o ensinamento de Jesus, e possivel- de dar cabo de alguma coisa: pode-se fazê-
mente teriam, de bom grado, incorporado la em pedaços ou deixar que siga seu curso
algumas dessas idéias a suas tradições religio- natural e cumpra seu propósito. É possível
sas. Esperavam encontrar um "meio-termo", esmagar uma semente c o m um martelo ou
agregando o melhor do judaísmo farisaico plantá-la de modo a cumprir seu propósito,
e o melhor do que Cristo tinha a oferecer. que é dar origem a uma árvore. N o s dois
M a s Jesus mostrou que se tratava de uma casos, a semente deixou de existir; mas no
idéia absurda, pois seria c o m o cortar um segundo, a semente cumpriu seu propósito.
M A R C O S 2:1 - 3:12 153

Jesus cumpriu as profecias, os tipos e os à lei do sábado foi andar pelo c a m p o e per-
preceitos da Lei de Moisés. A Lei terminou mitir q u e seus discípulos colhessem espigas
no Calvário, q u a n d o um sacrifício perfeito para comer. A Lei permitia q u e uma pessoa
foi oferecido pelos pecados do m u n d o de c o m f o m e apanhasse u m p o u c o d e cereal
u m a v e z por todas ( H b 8 - 10). Q u a n d o ou de frutas de seu vizinho, desde q u e n ã o
c r e m o s em Jesus Cristo, tornamo-nos parte enchesse um recipiente n e m usasse qualquer
de uma nova criação (2 Co 5:17) e expe- implemento agrícola ( D t 23:24, 25). M a s n ã o
r i m e n t a m o s s e m p r e de maneira nova sua foi isso o q u e exasperou os fariseus, mas sim,
graça e glória. C o m o é triste q u a n d o as pes- o fato de os discípulos estarem trabalhando
soas se agarram a tradições religiosas mortas, no dia de sábado!
q u a n d o poderiam abraçar uma verdade Q u a n d o lemos o relato de M a t e u s des-
espiritual viva. Por q u e se apegar a sombras se acontecimento, notamos q u e Jesus apre-
q u a n d o a realidade está presente? ( H b sentou três argumentos para defender seus
10:1ss). Em Jesus Cristo, há o cumprimento discípulos: o q u e Davi fez ( M t 12:3, 4), o q u e
de todas as promessas de D e u s (2 Co 1:20). os sacerdotes faziam ( M t 12:5, 6) e o q u e o
profeta O s é i a s disse ( M t 12:7, 8). Os leitores
3 . LIBERDADE ( M C 2 : 2 3 - 3 : 1 2 ) romanos de M a r c o s não se interessariam por
Os judeus consideravam o sábado uma ins- profetas n e m por sacerdotes de Israel, de
tituição sagrada. D e u s d e u esse dia ao povo m o d o q u e se concentrou em Davi, q u e os
de Israel depois q u e saíram do Egito (Êx 20:8- romanos consideravam um grande herói e
11; Ne 9:14), e ele era um sinal especial entre rei. O argumento é lógico: se um rei famin-
Israel e J e o v á (Êx 31:13-1 7). N ã o há registro to e seus homens receberam permissão de
nas Escrituras de q u e D e u s tenha d a d o o comer do pão sagrado do tabernáculo (1 Sm
sábado a qualquer outra nação. Assim, quan- 21:1-6), então t a m b é m era correto o Senhor
do Jesus c o m e ç o u a quebrar abertamente do sábado permitir q u e seus homens comes-
as tradições do sábado, foi c o m o declarar sem grãos de seu c a m p o . Davi transgrediu
guerra contra a religião d o s judeus. Jesus uma lei de Moisés, pois o p ã o da proposi-
c o m e ç o u sua c a m p a n h a c u r a n d o um ho- ç ã o só poderia ser c o n s u m i d o pelos sacer-
m e m q u e esteve d o e n t e por 38 anos (Jo 5) dotes (Lv 24:5-9). Os discípulos, no entanto,
e prosseguiu c o m os acontecimentos regis- haviam quebrado apenas uma tradição hu-
trados nesta seção. mana. Por certo, D e u s está mais preocupa-
De a c o r d o c o m a tradição judaica, havia do em suprir as necessidades das pessoas
39 atividades q u e n ã o p o d i a m ser realiza- do q u e em proteger tradições religiosas. As
das no sábado. M o i s é s proibira o trabalho prioridades d o s fariseus n ã o e s t a v a m e m
no sábado, mas não havia d a d o mais deta- ordem.
lhes específicos (Êx 20:10). N ã o era permiti- J e s u s enganou-se q u a n d o m e n c i o n o u
do acender uma fogueira para cozinhar (Êx Abiatar c o m o sumo sacerdote? D e a c o r d o
35:3), apanhar lenha ( N m 15:32ss), carregar c o m o relato de 1 S a m u e l 21, A b i m e l e q u e ,
fardos (Jr 17:21 ss) n e m realizar negócios ( N e o pai de Abiatar (1 Sm 22:20) era o sumo
10:31; 13:15, 19). Porém, a tradição judaica sacerdote. As palavras de Jesus parecem ser
desenvolveu os detalhes acerca da Lei, che- contraditórias ao Antigo Testamento, m a s
gando até a informar as distâncias exatas q u e não são. É possível q u e tanto o pai quanto o
poderiam ser percorridas no sábado (2 mil filho fossem c h a m a d o s por esses dois no-
côvados, c o n f o r m e Js 3:4, ou seja, cerca de mes (1 Cr 18:16 e 24:6; 1 Sm 22:20 e 2 Sm
1.320 metros). Em resumo, o sábado havia 8:17). T a m b é m é provável q u e Jesus tenha
se transformado n u m fardo impossível de usado a designação "Abiatar" para referir-se
carregar, símbolo da escravidão religiosa q u e à passagem Antigo Testamento sobre Abiatar,
prendia a nação. n ã o a o h o m e m e s p e c i f i c a m e n t e . Para o s
Depois de curar o h o m e m junto ao tan- judeus, essa era uma forma de identificar as
154 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

tinham capítulos nem versículos como temos com o rei Herodes e apoiava o governo. A
hoje em nossa Bíblia (ver Mc 12:26). maioria dos judeus desprezava Herodes e
Naquele mesmo sábado, Jesus foi à si- obedecia a ele com relutância, o que torna
nagoga para adorar e, enquanto estava lá, ainda mais surpreendente o fato de fariseus,
curou um homem. Por certo, poderia ter judeus sempre muito zelosos, unirem forças
esperado mais um dia; porém, quis desafiar com tais políticos desleais. Essa aliança, po-
novamente a tradição legalista farisaica. rém, só foi possível por causa de um inimi-
Dessa vez, os fariseus esperavam que reali- go em comum: Jesus.
zasse uma cura (Lc 6:7), de modo que fica- Em resposta à oposição unida, Jesus
ram observando. Os inimigos de Jesus não simplesmente se retirou, mas não conseguiu
responderam à sua pergunta em Marcos 3:4. evitar que as multidões o seguissem. Essas
Uma vez que o mal atua no mundo todos multidões representavam um risco para sua
os dias, inclusive aos sábados, então por que causa, pois não possuíam motivação espiri-
não se pode fazer também o bem nesse dia? tual, e as autoridades poderiam acusá-lo de
A morte está sempre trabalhando, mas isso organizar uma insurreição popular contra os
não deve nos impedir de procurar salvar romanos. Ainda assim, Jesus recebeu o povo,
vidas. curou os enfermos e libertou os endemoni-
Jesus poderia ver "o endurecimento do nhados. Mais uma vez, advertiu os demônios
coração" (tradução literal) desses líderes, e a não revelar quem ele era ( M c 1:23-26).
seus pecados acenderam a ira do Senhor. Aqui, Jesus chega a um ponto crítico
Jesus nunca se aborreceu com publicanos e de seu ministério. Multidões enormes o se-
pecadores, mas expressou sua ira contra os guiam, mas não estavam interessadas nas
fariseus moralistas (Mt 23). Preferiam pro- coisas espirituais. Os líderes religiosos de-
teger suas tradições a ver um homem ser sejavam destruí-lo, e até mesmo alguns dos
curado! É evidente que o homem não fazia amigos de Herodes começaram a envolver-
idéia desse conflito espiritual. Apenas obe- se. Os próximos passos de Jesus seriam pas-
deceu à ordem do Senhor, estendeu a mão sar a noite em oração (Lc 6:12), chamar
e foi curado. doze homens para auxiliá-lo como apósto-
Os fariseus enfureceram-se de tal modo los e pregar um sermão - o Sermão do
com o que Jesus havia feito que se uniram Monte -, explicando a base espiritual de
aos herodianos e começaram a tramar para seu reino.
prendê-lo e dar cabo de sua vida. Os hero- Jesus ofereceu-lhes perdão, satisfação e
dianos não eram um partido religioso, mas liberdade, mas os judeus recusaram a oferta.
sim um grupo de judeus que simpatizava Você já aceitou essa oferta?
de seu e x e m p l o pessoal e de seus ensina-
3 mentos; (2) enviá-los para pregar o evange-
lho; e (3) dar-lhes autoridade para curar e
expulsar d e m ô n i o s (ver M c 1:14, 15, 38,
O S E R V O , AS M U L T I D Õ E S 39; 6:7-13). Assim, q u a n d o Jesus voltasse

E o REINO para junto do Pai, esses d o z e h o m e n s esta-


riam preparados para prosseguir seu traba-
lho, a l é m de ser c a p a z e s de treinar outros
MARCOS 3:13 - 4:34
a dar c o n t i n u i d a d e ao ministério d e p o i s
deles (2 Tm 2:2).
Encontramos no N o v o Testamento três
listas c o m o s n o m e s d o s d o z e apóstolos:

A o n d e quer q u e fosse, o S e r v o de D e u s
era a p e r t a d o por multidões entusias-
m a d a s ( M c 3:7-9, 20, 32; 4:1). Se Jesus não
M a t e u s 10:2-4, Lucas 6:14-16 e Atos 1:13.
Lucas diz q u e Jesus lhes d e u o n o m e espe-
cial de "apóstolos". " D i s c í p u l o " é alguém q u e
fosse Servo, m a s sim uma "celebridade", te- aprende fazendo. N o s s o equivalente moder-
ria atendido aos apelos do p o v o e tentado no seria o aprendiz. " A p ó s t o l o " , p o r é m , é
agradar a todos (ver Mt 11:7-15). Em v e z alguém comissionado a realizar uma tarefa
disso, o M e s t r e retirou-se e c o m e ç o u a mi- oficial. Jesus teve muitos discípulos, p o r é m
nistrar especificamente aos discípulos. Jesus apenas d o z e apóstolos, seus "embaixadores"
sabia q u e a maioria das pessoas q u e o abor- especiais.
d a v a m e r a m superficiais e insinceras, mas Q u a n d o c o m p a r a m o s as três listas, te-
seus discípulos não tinham consciência dis- mos a impressão de q u e os n o m e s encon-
so. A fim de evitar q u e levassem esse "su- tram-se dispostos de dois em dois: P e d r o e
cesso" a sério, Jesus teve de ensinar aos d o z e A n d r é - Tiago e J o ã o - Felipe e B a r t o l o m e u
h o m e n s a v e r d a d e sobre as multidões e o (Natanael [Jo 1:45]) - T o m é e M a t e u s (Levi)
reino. Nesta seção, v e m o s três reações de - Tiago (filho de Alfeu) e Tadeu (Judas, filho
Jesus às pressões do povo. de Tiago, não o Iscariotes [ J o 14:22]) - Si-
m ã o o zelote e J u d a s Iscariotes. U m a v e z
1 . F U N D O U U M A NOVA N A Ç Ã O q u e Jesus e n v i o u seus apóstolos em pares,
( M c 3:13-19) essa p a r e c e ser a forma lógica de relacioná-
O n ú m e r o de discípulos é significativo, pois los ( M c 6:7)
havia d o z e tribos e m Israel. E m G ê n e s i s , O n o m e d e S i m ã o foi m u d a d o p a r a
D e u s c o m e ç o u c o m o s d o z e filhos d e J a c ó Pedro, "a r o c h a " ( J o 1:40-42), e o de Levi
e, em Êxodo, transformou-os n u m a pode- para Mateus, "o presente de D e u s " . Tiago e
rosa n a ç ã o . Israel foi escolhida para trazer J o ã o receberam o apelido de " B o a n e r g e s " ,
o M e s s i a s ao m u n d o , a fim de que, por m e i o q u e quer dizer: "filhos do trovão". Costuma-
dele, todas as n a ç õ e s da Terra fossem aben- mos nos lembrar de J o ã o c o m o o apóstolo
ç o a d a s ( G n 12:1-3). N o entanto, a n a ç ã o d o amor, mas, s e m dúvida, n ã o c o m e ç o u
d e Israel estava e s p i r i t u a l m e n t e d e c r é p i t a c o m essa reputação, t a m p o u c o Tiago, seu
e prestes a rejeitar o p r ó p r i o M e s s i a s . D e u s irmão ( M c 9:38-41; 10:35-39; Lc 9:54, 55). É
t e v e d e e s t a b e l e c e r u m a " n a ç ã o santa, animador ver o q u e Jesus p ô d e fazer c o m
p o v o [ c o m p r a d o ] d e p r o p r i e d a d e exclusi- um grupo tão diversificado de candidatos
v a " (1 Pe 2:9), e os d o z e apóstolos e r a m o nada promissores para o serviço cristão. Ain-
n ú c l e o dessa n o v a n a ç ã o "espiritual" ( M t da há esperança para nós!
21:43). M a r c o s define o termo hebraico Boaner-
J e s u s p a s s o u a noite t o d a em o r a ç ã o ges, pois escrevia a leitores romanos. Em seu
antes d e selecionar esses d o z e h o m e n s (Lc Evangelho, encontramos várias dessas "ob-
6:12); q u a n d o os escolheu, tinha em men- servações para os gentios" ( M c 5:41; 7:11,
156 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

refere-se a Simão, o zelote. Os zelotes eram Discorda e dirão que és perigoso,


um grupo de judeus extremistas organiza- E acabarás acorrentado.
dos com o objetivo de derrubar o governo (Tradução livre)
romano. Usavam qualquer meio disponível
para promover sua causa. O historiador Ao permanecer dentro da casa e não se
Josefo chama-os de "homens da adaga". Se- esforçar para ver seus familiares, Jesus não
ria interessante saber como Simão, o zelote, estava sendo indelicado com eles. Sabia que
reagiu ao ver Mateus, um ex-funcionário de a motivação deles era correta, mas seus pro-
Roma. pósitos eram, sem dúvida alguma, equivo-
Se observarmos com atenção a harmonia cados. Se Jesus tivesse se sujeitado a sua
dos Evangelhos, veremos que, entre Marcos família, teria feito exatamente o que seus
3:19 e 20, Jesus pregou o Sermão do Monte inimigos queriam, pois os líderes religiosos
(Mt 5 - 7) e participou dos acontecimentos diriam: "Estão vendo? Ele mesmo concordou
descritos em Lucas 7:1 - 8:3. O Evangelho com a família: precisa de ajuda! Não levem
de Marcos não inclui esse sermão tão co- Jesus de Nazaré tão a sério". Em vez de ce-
nhecido, pois sua ênfase é sobre o que Je- der, Jesus usou essa crise para ensinar uma
sus fez, não sobre o que disse. lição espiritual: sua "família" é constituída
de todos os que fazem a vontade de Deus.
2. Instituiu uma n o v a família Jesus sentia-se mais próximo de publicanos
( M c 3:20, 21, 31-35) e de pecadores que creram nele do que de
Os amigos de Jesus não tinham dúvidas de Tiago, José, Judas e Simão, seus meios-irmãos
que ele estava confuso, possivelmente lou- ainda não convertidos (Jo 7:1-5).
co! Quando viram as multidões que o se- Jesus não estava dizendo que os cristãos
guiam e ouviram as notícias extraordinárias devem ignorar ou abandonar a família a fim
a respeito dele, tiveram certeza de que Je- de servir a Deus, mas apenas que devem
sus precisava urgentemente de ajuda, pois colocar a vontade de Deus acima de tudo.
não levava uma vida normal. Assim, foram a Nosso amor por Deus deveria ser tão gran-
Cafarnaum para "tomar conta dele". Em se- de que, em comparação, o amor por nossas
guida, sua mãe e seus "irmãos" ( M c 6:3) famílias pareceria ódio (Lc 14:26). Por cer-
saíram de Nazaré e viajaram quase 50 qui- to, Deus deseja que cuidemos de nossa fa-
lômetros para implorar que Jesus voltasse mília suprindo suas necessidades (1 Tm 5:8),
com eles e descansasse, mas nem sequer mas não devemos permitir que qualquer um,
conseguiram chegar perto dele. Essa é a nem mesmo nossos entes mais queridos, nos
única ocasião em que Maria aparece no afaste da vontade de Deus. Ao considerar a
Evangelho de Marcos, e nesse episódio não importância da família na sociedade judai-
é bem-sucedida. ca, imaginamos como as palavras de Cristo
A história mostra que, muitas vezes, os devem ter parecido radicais para os que as
servos de Deus não são compreendidos por ouviram.
seus contemporâneos e familiares. D. L. Como é possível fazer parte da família
Moody era conhecido em Chicago como de Deus? Por meio de um novo nascimen-
" M o o d y Maluco", e até mesmo o grande to, um nascimento espiritual do alto (Jo 3:1-
apóstolo Paulo foi chamado de louco (At 7; 1 Pe 1 \22-25). Quando um pecador crê
26:24, 25). Emily Dickinson escreveu: em Jesus Cristo como Salvador, experimen-
ta esse novo nascimento e passa a fazer parte
Muita loucura é siso divino da família de Deus. Compartilha da natureza
Para o observador astucioso; divina de Deus (2 Pe 1:3, 4) e pode chamar
Muito siso é loucura plena. Deus de "Pai" (Rm 8:15, 16). Esse nascimen-
Como em tantos outros casos, to espiritual não se alcança por conta pró-
A maioria prevalece. pria nem é algo que outros possam fazer
Concorda e serás tido por sensato; por nós (Jo 1:11-13). Antes, é obra da graça
157 M A R C O S 3 : 1 3 - 4 : 3 4

de Deus, e tudo o q u e precisamos fazer é vida. As p a r á b o l a s s ã o t ã o p e n e t r a n t e s e


crer e aceitar (Ef 2:8, 9). pessoais que, depois de ouvir várias delas,
os líderes religiosos quiseram matar Jesus
3 . A N U N C I O U U M NOVO REINO (ver M t 21:45, 46)!
( M c 3:22-30; 4:1-34) U m a p a r á b o l a c o m e ç a d e f o r m a ino-
As multidões esperavam q u e Jesus libertas- cente, c o m o um retrato q u e c h a m a nossa
se a n a ç ã o e derrotasse Roma. Em v e z dis- atenção e suscita nosso interesse. M a s , ao
so, o M e s t r e c h a m o u d o z e h o m e n s c o m u n s estudar esse retrato, ele se transforma em
e f u n d o u uma " n o v a n a ç ã o " , uma n a ç ã o es- um espelho. Se continuamos o l h a n d o pela
piritual cujos cidadãos t ê m os nomes escritos fé, o espelho transforma-se em uma janela
no c é u (Lc 10:20; Fp 3:20). O p o v o deseja- por m e i o da qual v e m o s D e u s e sua verda-
v a q u e Jesus s e c o m p o r t a s s e c o m o j u d e u de. A forma de responder a essa v e r d a d e
d e v o t o e q u e honrasse sua família, mas Je- determinará q u e outras verdades D e u s nos
sus instituiu u m a " n o v a família", formada por ensinará.
todos os q u e c r ê e m nele e fazem a vontade Por q u e Jesus e n s i n o u por parábolas?
de Deus. T a m b é m esperavam q u e restauras- Seus discípulos lhe fizeram a m e s m a pergun-
se o reino e trouxesse de volta a glória de ta ( M c 4:10-12; e ver 13:10-17). Ao estudar
Israel, mas sua resposta foi anunciar um n o v o sua resposta c o m cuidado, v e m o s q u e Jesus
reino, um reino espiritual. usou as parábolas tanto para esconder quan-
" R e i n o " é a palavra-chave desta s e ç ã o to para revelar a verdade. A multidão n ã o
( M c 3:24; 4:11, 26, 30). J o ã o Batista havia julgava as parábolas; eram as parábolas q u e
a n u n c i a d o q u e o Rei c h e g a r i a e m breve, j u l g a v a m a m u l t i d ã o . O o u v i n t e desinte-
advertindo os judeus para q u e se preparas- ressado, certo de q u e sabia de tudo, ouviria
sem a fim de encontrá-lo ( M c 1:1-8). Jesus apenas uma história q u e não seria c a p a z de
expandiu a m e n s a g e m de J o ã o e pregou as entender, e o resultado em sua vida seria o
boas novas do reino, assim c o m o a neces- juízo (ver Mt 11:25-30). M a s o ouvinte sin-
s i d a d e d e q u e o s p e c a d o r e s s e arrepen- cero, c o m d e s e j o d e c o n h e c e r a v e r d a d e
dessem e cressem ( M c 1:14, 15). M a s c o m o de Deus, refletiria sobre a história, confessa-
é esse reino? Se não planejava restaurar o ria sua ignorância, se sujeitaria ao S e n h o r e,
reino político de Israel, que tipo de reino pre- em seguida, c o m e ç a r i a a entender as lições
tendia estabelecer? espirituais q u e Jesus desejava ensinar.
Aqui, M a r c o s insere no texto u m a pala- Jesus atribui grande importância a ouvir
vra nova: parábolas (ver Mc 3:23; 4:2, 10, da Palavra de Deus. O v e r b o ouvir e seus
11, 13, 33, 34). Jesus não explicou o reino correlates são usados pelo m e n o s treze ve-
utilizando u m a preleção teológica, mas sim zes em M a r c o s 4:1-34. É evidente q u e Jesus
ilustrando situações q u e cativavam a aten- não estava se referindo ao ato físico de ou-
ç ã o das pessoas e q u e as levavam a pensar vir, mas sim a ouvir c o m discernimento espi-
e a usar a imaginação. A palavra " p a r á b o l a " ritual. " O u v i r " a Palavra de D e u s significa
v e m do grego parabállo, q u e significa "lan- entendê-la e o b e d e c e r ao q u e diz (ver Tg
çar lado a l a d o " ( para = lado a lado; bállo = 1:22-25).
lançar). U m a p a r á b o l a é u m a história ou Jesus apresentou várias parábolas para
ilustração c o l o c a d a lado a lado c o m um en- ajudar as pessoas (inclusive seus discípulos)
sinamento para ajudar a entender seu signi- a entender a natureza de seu reino.
ficado. É muito mais do q u e uma "história A parábola sobre o valente (3:22-30).
terrena c o m significado celeste" e, por cer- Jesus curou um e n d e m o n i n h a d o cego e
to, n ã o é u m a "ilustração" do tipo q u e um m u d o ( M t 12:22-24), e os escribas e fariseus
pastor usaria n u m sermão. A verdadeira pa- usaram esse milagre c o m o uma oportunida-
rábola e n v o l v e o ouvinte em um nível mais de para atacá-lo. A multidão dizia: "Talvez
profundo e o c o m p e l e a tomar uma decisão esse h o m e m seja o Filho de Davi, o Mes-
158 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

ele está de conluio com Belzebu! Faz todas de Deus é menos importante do que o Es-
essas coisas pelo poder de Satanás, não pelo pírito Santo? Por que o pecado contra o
poder de Deus". Filho de Deus é perdoável e, ao mesmo
"Belzebu" é o nome do demônio e sig- tempo, o pecado contra o Espírito Santo é
nifica "senhor da casa". Jesus pegou esse imperdoável?
significado e contou uma parábola sobre um A resposta encontra-se na natureza de
homem valente guardando sua casa. Para Deus e em sua forma paciente de lidar com
roubar a casa, o ladrão deveria, antes, der- a nação de Israel. Deus o Pai enviou João
rotar o dono da casa. Batista a fim de preparar a nação para a vin-
Jesus expôs tanto a teologia incorreta da do Messias. Muitos do povo em geral
quanto a falta de lógica desses líderes reli- responderam ao chamado de J o ã o e se
giosos. Se era pelo poder de Satanás que arrependeram (Mt 21:32), mas os líderes re-
expulsava os demônios, então, na verdade, ligiosos permitiram que João fosse preso e
Satanás lutava contra si mesmo! Isso signifi- morto. Deus, o Filho, veio conforme prome-
ca que a casa e o reino de Satanás estavam tido e chamou a nação para crer nele, mas
divididos e, sendo assim, à beira de um co- os mesmos líderes religiosos pediram que
lapso. Satanás guardava aquele homem com Jesus fosse morto. Quando estava na cruz,
todo cuidado, pois não queria perder terri- Jesus orou: "Pai, perdoa-lhes, porque não
tório. O fato de Jesus ter libertado o homem sabem o que fazem" (Lc 23:34).
provava que era mais forte do que Satanás e O Espírito Santo veio em Pentecostes e
que o inimigo não poderia detê-lo. demonstrou o poder de Deus de várias ma-
Jesus não apenas respondeu às falsas neiras convincentes. Qual foi a reação des-
acusações contra ele, mas também explicou ses mesmos líderes religiosos? Prenderam os
a seriedade do que haviam proposto. Afinal, apóstolos, ordenaram que se calassem e
nossas palavras revelam o que se encontra depois mataram Estêvão com as próprias
oculto em nosso coração (Mt 12:35), e o mãos! Estêvão disse-lhes qual era o pecado
que está em nosso coração determina nos- deles: "vós sempre resistis ao Espírito San-
so caráter, conduta e destino. Por vezes, di- to" (At 7:51). Os líderes pecaram contra o
zemos: "É fácil falar!", mas, na realidade, o Pai e o Filho, mas, pela graça de Deus, fo-
que falamos tem muito valor. Jesus advertiu ram perdoados. Quando, porém, pecaram
os líderes religiosos judeus que eles corriam contra o Espírito Santo, chegaram ao "fim
o grande risco de cometer um pecado eter- da linha", onde não haveria mais perdão.
no e imperdoável (Mt 12:32). Nos dias de hoje, não é possível cometer
Q u a n d o perguntamos às pessoas: "O o "pecado imperdoável" da mesma forma
que é um pecado imperdoável?", sua res- que os líderes religiosos judeus o fizeram
posta geralmente é: "A blasfêmia contra o quando Jesus estava ministrando na Terra,
Espírito Santo" ou "O pecado de atribuir ao O único pecado que Deus não pode per-
demônio a obra do Espírito Santo". Em ter- doar em nosso tempo é a rejeição de seu
mos históricos, tais afirmações são verdadei- Filho (Jo 3:16-21, 31). Quando o Espírito de
ras, mas não respondem, de fato, à questão. Deus convence o pecador e revela o Salva-
De que maneira blasfemamos hoje contra o dor, o pecador pode resistir ao Espírito e
Espírito de Deus? Q u e milagres o Espírito rejeitar o testemunho da Palavra de Deus,
Santo realiza hoje que poderiam, por negli- mas isso não significa que tenha perdido
gência ou por deliberação, ser atribuídos a todas as oportunidades de ser salvo. Caso
Satanás? Será que só diante de um milagre se arrependa e creia, Deus ainda p o d e
é possível cometer esse pecado hediondo? perdoá-lo. Mesmo que o pecador endureça
Jesus deixou claro que Deus perdoaria o coração a ponto de se tornar aparente-
todos os pecados e toda blasfêmia, inclusive mente insensível aos apelos de Deus, en-
a blasfêmia contra o próprio Filho de Deus! quanto houver vida, ainda há esperança.
(Mt 12:32). Será que isso significa que o Filho Somente Deus sabe quando e se a pessoa
159 M A R C O S 3:1 3 - 4 : 3 4

c h e g o u ao "fim da linha". Portanto, n ã o de- m a s q u a n d o as p e r s e g u i ç õ e s e s i t u a ç õ e s


v e m o s jamais perder a s e s p e r a n ç a s sobre difíceis chegam, o entusiasmo esfria e a ale-
qualquer p e c a d o r (1 Tm 2:4; 2 Pe 3:9). gria desaparece. É muito fácil para a nature-
A parábola do semeador (4:1-20). Esta z a h u m a n a d e c a í d a simular " s e n t i m e n t o s
parábola a j u d o u os discípulos a e n t e n d e r religiosos" e encher alguém q u e se diz cris-
por q u e Jesus não estava impressionado c o m tão de falsa confiança.
a grande multidão q u e o seguia: sabia q u e a O coração abarrotado (w. 7, 18, 19) re-
maior parte dessas pessoas jamais produzi- presenta a pessoa q u e r e c e b e a Palavra, mas
ria os frutos de uma vida transformada, u m a não se arrepende verdadeiramente n e m re-
v e z q u e a Palavra q u e estava pregando era m o v e os "espinhos" do c o r a ç ã o . Esse ouvin-
c o m o uma s e m e n t e caindo em solo infértil. te t e m vários tipos diferentes de " s e m e n t e s "
A semente representa a Palavra de D e u s c o m p e t i n d o p o r s e u c o r a ç ã o - as preo-
(Lc 8:11), e o s e m e a d o r é o servo de D e u s c u p a ç õ e s do mundo, o desejo de riqueza e
q u e compartilha a Palavra c o m outros (ver as ambições -, e a b o a semente da Palavra
1 Co 3:5-9). O c o r a ç ã o h u m a n o é c o m o não encontra e s p a ç o para crescer. U s a n d o
o solo: d e v e ser preparado para receber a outra ilustração, essa pessoa quer andar pelo
semente de m o d o q u e esta crie raízes e pro- " c a m i n h o largo" e pelo " c a m i n h o estreito"
duza frutos. Assim c o m o a semente, a Palavra a o m e s m o t e m p o ( M t 7:13, 14), algo q u e
é viva e c a p a z de produzir fruto espiritual, não p o d e ser feito.
mas a semente d e v e ser plantada e cultiva- O coração frutífero (vv. 8, 20) é a repre-
da antes da vinda da colheita. sentação do cristão verdadeiro, pois o fruto
C o m o naqueles dias, hoje t a m b é m exis- - uma vida transformada - é evidência da
t e m quatro tipos d e c o r a ç ã o q u e reagem d e verdadeira salvação (2 Co 5:1 7; Gl 5:19-23).
quatro maneiras diferentes à m e n s a g e m U m a v e z q u e os outros três tipos de cora-
d e Deus. ç ã o não produziram frutos, c o n c l u í m o s q u e
O coração endurecido ( M c 4:4, 15) re- pertenciam a pessoas q u e n u n c a nasceram
siste à Palavra de D e u s e permite q u e Sata- d e n o v o . N e m t o d o s o s q u e c r ê e m ver-
nás (os pássaros) leve a s e m e n t e e m b o r a . d a d e i r a m e n t e p r o d u z e m frutos n a m e s m a
Da m e s m a forma c o m o a terra à beira da quantidade, m a s e m t o d o cristão legítimo
estrada é c o m p a c t a d a pela p a s s a g e m de haverá evidências de fruto espiritual.
muitos transeuntes, t a m b é m o s q u e a g e m C a d a um dos três tipos de c o r a ç ã o infru-
de m o d o d e s c u i d a d o e " a b r e m o c o r a ç ã o " tífero é influenciado por um inimigo dife-
a todo tipo de pessoa e influências correm rente: no c o r a ç ã o e n d u r e c i d o , o p r ó p r i o
o risco de se tornar e n d u r e c i d o s (ver Pv Satanás rouba a semente; no c o r a ç ã o super-
4:23). C o r a ç õ e s endurecidos d e v e m ser "ara- ficial, a carne simula sentimentos religiosos;
d o s " antes de receber a semente, experiên- e no c o r a ç ã o abarrotado, as coisas do mun-
cia q u e p o d e ser e x t r e m a m e n t e d o l o r o s a do s u f o c a m o c r e s c i m e n t o e i m p e d e m a
(Jr 4:3; O s 10:12). produção. Eis os três grandes inimigos do cris-
O coração superficial (Vv. 5, 6, 16, 17) é tão: o m u n d o , a carne e o diabo (Ef 2:1-3).
c o m o u m solo rochoso c o m u m a c a m a d a A parábola da candeia (w. 21-25). Nes-
fina de terra sobre as rochas, típico da Pales- t a parábola, Jesus usa u m o b j e t o c o m u m
tina. U m a v e z q u e esse solo não t e m pro- (uma candeia) n u m lugar familiar (o lar). A
fundidade, qualquer coisa plantada nele n ã o candeia era um vaso de barro c h e i o de ó l e o
dura muito tempo, pois não c o n s e g u e criar c o m um pavio. A fim de iluminar, a lamparina
raízes. Trata-se d e u m a r e p r e s e n t a ç ã o d o tinha de se " c o n s u m i r " e, portanto, deveria
" o u v i n t e e m o c i o n a l " , q u e aceita c o m toda ser reabastecida de t e m p o s em tempos. Se
alegria a Palavra de Deus, mas n ã o compre- a lamparina n ã o fosse acesa, ou se fosse co-
e n d e o p r e ç o q u e d e v e ser p a g o para se berta, n ã o serviria para coisa alguma.
tornar um cristão genuíno. P o d e haver gran- O s apóstolos e r a m c o m o a lamparina:
160 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

Deus e revelar sua verdade, mas não pode- tradicional das coisas minúsculas. Jesus co-
riam dar iuz sem ser abastecidos, daí, a ad- meçou com doze apóstolos, e logo já havia
moestação em Marcos 4:24, 25. Quanto mais de quinhentos cristãos (1 Co 15:6).
mais ouvimos a Palavra de Deus, mais capa- Pedro ganhou três mil pessoas em Pentecos-
zes seremos de compartilhá-la com outros. tes, e ao longo do Livro de Atos vemos esse
No momento em que pensarmos que sa- número crescer o tempo todo (At 4:4; 5:14;
bemos tudo, perderemos tudo. É preciso 6:1, 7). Apesar dos pecados e fraquezas da
cuidado com o que se ouve ( M c 4:24) e Igreja, a mensagem tem sido levada às ou-
também com a forma c o m o se ouve (Lc tras nações, e, um dia, santos de todas as
8:18). O ouvir espiritual determina quanto nações adorarão diante do trono do Senhor
temos para dar aos outros. Não há sentido (Ap 5:9).
em "acobertar" coisas, pois um dia Deus as M a s o crescimento da semente é ape-
revelará. nas parte da história, pois devemos também
A parábola da semente (vv. 23-34). A atentar para os pássaros nos ramos. Na pa-
primeira parábola lembra que não é possí- rábola do semeador, os pássaros represen-
vel fazer a semente crescer. Não dá sequer tam Satanás, que rouba as sementes ( M c
para explicar como cresce. O crescimento 4:15). A fim de fazer uma interpretação
da semente e o desenvolvimento do fruto coerente, devemos levar esse fato em consi-
são verdadeiros mistérios. Ser agricultor deração, pois ambas as parábolas foram en-
requer grande dose de fé, também uma sinadas no mesmo dia. O crescimento do
grande dose de paciência. Na parábola do reino não resultará na conversão do mun-
semeador, Jesus indicou que muitas das do. Na verdade, parte desse crescimento
sementes espalhadas cairiam em solo im- dará oportunidade para Satanás entrar e co-
produtivo. Esse fato desencorajaria os traba- meçar a operar! Foi o caso de Judas no meio
lhadores, de modo que nesta parábola ele dos discípulos e de Ananias e Safira na co-
lhes dá o estímulo necessário, "porque a munhão da igreja em Jerusalém (At 5:1-11).
seu tempo ceifaremos, se não desfalecer- Simão, o mago, fazia parte da igreja em
mos" (Gl 6:9). Samaria (At 8:1-24), e os ministros de Sata-
A segunda parábola serviu tanto de avi- nás invadiram com ousadia a igreja de Co-
so quanto de encorajamento para os dis- rinto (2 Co 11:13-1 5). Quanto maior a rede,
cípulos. O encorajamento foi que, a partir maior a possibilidade de pegar tanto peixes
de um pequeno começo, no devido tempo bons quanto ruins ( M t 13:47-50).
o reino cresceria em tamanho e em in- Pela fé em Jesus Cristo, tornamo-nos ci-
fluência. Apesar de a semente de mostarda dadãos de um país celestial, filhos na família
não ser a menor semente do mundo, era de Deus e súditos do Rei dos reis e Senhor
provavelmente a menor semente que os dos senhores. Q u e privilégio conhecer o
judeus plantavam nos jardins, um símbolo Senhor Jesus Cristo!
A localização geográfica do mar da
Galiléia é propícia ao aparecimento de tem-
pestades repentinas e violentas. Enquanto
cruzava esse mar numa tarde de verão, per-
As CONQUISTAS guntei a um guia turístico israelita se ele já
havia enfrentado alguma tempestade na
DO SERVO região.
MARCOS 4:35 - 5:43 - Com certeza! - respondeu ele balan-
çando a cabeça. - E não quero passar por
isso de novo!
A tempestade descrita aqui deve ter sido
particularmente violenta, uma vez que foi

J esus Cristo, o Servo de Deus, é Senhor


sobre qualquer situação e Conquistador
de qualquer inimigo. Se cremos nele e se-
capaz de deixar até pescadores experientes
como os discípulos em pânico. Havia pelo
menos três bons motivos para que nenhum
guimos suas ordens, não precisamos ter deles se sentisse perturbado, apesar de a si-
medo. A vitória é o tema principal desta lon- tuação parecer tão ameaçadora.
ga seção. Marcos registra quatro milagres Em primeiro lugar, tinham a promessa de
realizados por Jesus, e cada um deles anun- Jesus de que chegariam ao outro lado (Mc
cia, até mesmo para nós hoje, a derrota do 4:35). Sempre que o Senhor ordena que se
inimigo. faça algo, também capacita a obedecer, e
nada impede que cumpra seus planos. Não
1. V I T Ó R I A SOBRE O PERIGO prometeu uma viagem fácil, mas sim que
(Mc 4:35-41) chegariam à outra margem.
A expressão "Naquele dia" refere-se ao dia Em segundo lugar, Jesus estava com eles
em que Jesus proferiu as "parábolas do rei- em pessoa, então por que ter medo? Já ha-
no". Havia ensinado a Palavra a seus discí- viam visto seu poder demonstrado em vários
pulos, e agora lhes dá uma prova prática para milagres, de modo que deveriam confiar ple-
ver quanto aprenderam. Afinal, ouvir a Pala- namente que Jesus seria capaz de lidar com
vra de Deus deve produzir fé (Rm 10:17), e aquela situação. Por algum motivo, os discí-
a fé sempre deve ser testada. Não basta pulos ainda não haviam entendido que Jesus
aprender uma lição ou ser capaz de repetir era, de fato, o Senhor de todas as situações.
um ensinamento. Devemos também ser ca- Por fim, podiam ver que, mesmo em
pazes de praticar essa lição pela fé, e esse é meio à tormenta, Jesus estava absolutamen-
um dos motivos pelos quais Deus permite te tranqüilo. Esse fato, por si mesmo, deve-
situações difíceis em nossa vida. ria tê-los encorajado. Jesus fazia a vontade
Jesus sabia que uma tempestade se apro- do Pai e sabia que Deus estava cuidando
ximava? Com certeza, pois fazia parte da dele, então aproveitou para dormir. Jonas
programação de "aulas" daquele dia. Essa dormiu durante a tempestade por causa de
experiência ajudaria os discípulos a enten- uma falsa sensação de segurança, apesar de
der uma lição que nem sabiam que precisa- estar fugindo de Deus. Jesus dormiu na tem-
vam aprender: é possível confiar em Jesus pestade porque sentia-se, verdadeiramente,
durante as tempestades da vida. Muita gen- seguro na vontade de Deus. "Em paz me
te acredita que as tempestades só aparecem deito e logo pego no sono, porque, SENHOR,
quando desobedecemos a Deus, mas nem só tu me fazes repousar seguro" (SI 4:8).
sempre é o caso. Jonas viu-se em meio a Quantas vezes, durante as tributações
uma tempestade por causa de sua desobe- da vida, não nos vemos imitando os discí-
diência, mas os discípulos passaram pela pulos incrédulos e gritando: "Senhor, não te
tempestade por causa de sua obediência importas que pereçamos?" Claro que ele se
162 M A R C O S 4:35 - 5:43

tempestade e, imediatamente, houve gran- ver Ap 9:11). O texto não diz quantos de-
de calmaria. Mas o Senhor não se ateve a mônios controlavam esses dois homens, mas
acalmar os elementos naturais, pois o maior é possível que a possessão resultasse de te-
perigo não era o vento nem as ondas, mas rem se entregado ao pecado. Os demônios
sim a incredulidade do coração dos discí- são "espíritos imundos" que se apoderarm
pulos. Os maiores problemas humanos facilmente da vida de quem cultiva práticas
encontram-se dentro de cada um, não nas pecaminosas.
circunstâncias ao redor. Isso explica por que Uma vez que se entregaram a Satanás,
Jesus os repreendeu ternamente e os cha- o ladrão, esses homens perderam tudo: o
mou de "homens de pequena fé". Haviam lar e a comunhão com amigos e familiares;
visto Jesus ensinar a Palavra e até mesmo a decência, pois andavam nus pelo cemité-
realizar milagres, ainda assim, não tinham rio; o domínio próprio, pois viviam como
fé. Esse medo decorrente da incredulidade animais selvagens, gritando, autoflagelando-
levou-os a questionar se Jesus, de fato, se se e ameaçando as pessoas; a paz de espírito
importava. Devemos ter cuidado com o "per- e o propósito de viver. Se Jesus não tivesse
verso coração de incredulidade" (Hb 3:12). atravessado uma tempestade para resgatá-
Essa foi apenas uma das muitas lições los, teriam permanecido nessa situação
que Jesus ainda ensinaria a seus discípulos terrível.
nos arredores do mar da Galiléia, e cada li- Não devemos jamais subestimar o po-
ção revelaria uma verdade nova e maravi- der destrutivo de Satanás, pois ele é nosso
lhosa sobre o Senhor Jesus. Os discípulos já inimigo e, se pudesse, devastaria todos nós.
sabiam que ele tinha autoridade para per- Como um leão que ruge, procura nos devo-
doar pecados, expulsar demônios e realizar rar (1 Pe 5:8, 9). É Satanás quem trabalha na
curas. Com essa experiência, descobriram vida dos incrédulos, tornando-os "filhos da
que possuía autoridade até mesmo sobre o desobediência" (Ef 2:1-3). Os dois homens
vento e o mar. Assim, não tinham motivos no cemitério gadareno são, sem dúvida al-
para temer, pois o Senhor estava sempre no guma, exemplos extremos do que Satanás
controle de toda situação. pode fazer às pessoas, mas o que revelam é
suficiente para nos estimular a resistir a Sa-
2. VITÓRIA SOBRE DEMÔNIOS tanás e evitar absolutamente qualquer en-
(Mc 5:1-20) volvimento com ele.
Quando Jesus e os discípulos chegaram ao A segunda força operando nesses dois
outro lado, encontraram dois endemo- homens era a sociedade, mas esta não conse-
ninhados, sendo que um deles era bastante guiu muita coisa. Ao se ver diante de pessoas
articulado (ver Mt 8:28). Essa cena toda problemáticas, a sociedade não é capaz de
parece extremamente estranha para nós, fazer nada além de isolá-las, colocá-las sob
que vivemos na chamada "civilização moder- vigilância e, se necessário, prendê-las (Lc
na", mas não é tão extraordinária em vários 8:29). Esses homens foram presos em várias
campos missionários. Na verdade, alguns ocasiões, mas os demônios lhes davam for-
professores da Bíblia acreditam que a pos- ças para romper as cadeias. Até mesmo as
sessão demoníaca esteja se tornando cada tentativas de amansá-los haviam fracassado.
vez mais comum na "sociedade moderna". C o m todas as suas realizações científicas
Vemos nessa cena três forças diferentes tão impressionantes, a sociedade continua
em ação: Satanás, a sociedade e o Salvador. não sendo capaz de lidar com os proble-
Essas mesmas forças continuam operando mas causados por Satanás e pelo pecado.
em nosso mundo, tentando controlar a vida Mesmo sendo gratos a Deus pela proteção
das pessoas. e coibição limitadas que a sociedade ofere-
Primeiro, vemos o que Satanás pode fa- ce, devemos reconhecer que não tem solu-
zer às pessoas, pois ele é como um ladrão, ção permanente nem é capaz de libertar as
cujo maior propósito é destruir (Jo 10:10; e vítimas de Satanás.
163 M A R C O S 4 : 3 5 - 5:43

C h e g a m o s , assim, à terceira força: o Sal- na oração, pois imploraram a Jesus para q u e


vador. O q u e Jesus Cristo fez por aqueles não os mandasse para o abismo, o lugar de
homens? Em primeiro lugar, foi até eles c o m tormento ( M c 5:7; Lc 8:31). É animador no-
sua graça e amor, enfrentando até uma tem- tar q u e os d e m ô n i o s n ã o sabiam o q u e Jesus
pestade. H á q u e m creia q u e o s d e m ô n i o s planejava fazer, pois sugere q u e Satanás só
c a u s a r a m a tempestade, uma v e z que, ao c o n h e c e os planos de D e u s se o próprio
acalmar as águas, Jesus usou as mesmas pa- D e u s lhe revelar. Na verdade, não há qual-
lavras q u e havia e m p r e g a d o anteriormente quer evidência nas Escrituras de q u e Sata-
para r e p r e e n d e r d e m ô n i o s ( c o m p a r a r M c nás seja c a p a z de ler a m e n t e dos cristãos,
1:25 c o m 4:39). É possível q u e Satanás esti- muito m e n o s a m e n t e de Deus.
vesse tentando destruir Jesus, ou pelo me- M a r c o s 5 a p r e s e n t a três p e d i d o s : os
nos q u e r e n d o impedir q u e se aproximasse d e m ô n i o s pediram q u e Jesus os mandasse
daqueles necessitados. M a s nada impediria entrar nos p o r c o s ( M c 5:12); o s c i d a d ã o s
o Senhor de ir àquele cemitério e libertar os pediram q u e Jesus fosse embora ( M c 5:17);
dois homens. e um dos homens recém-libertos pediu q u e
J e s u s n ã o a p e n a s s e a p r o x i m o u deles Jesus o deixasse segui-lo ( M c 5:18). Jesus
c o m o t a m b é m lhes falou e permitiu q u e fa- atendeu os dois primeiros pedidos, mas n ã o
lassem c o m ele. Os moradores da região evi- o último.
tavam todo e qualquer contato c o m os dois Jesus teria o direito de destruir dois mil
endemoninhados, mas Jesus tratou-os c o m porcos, possivelmente levando os d o n o s de-
amor e respeito. Ele veio buscar e salvar os les à falência? Se os d o n o s dos porcos eram
q u e estavam perdidos (Lc 19:10). judeus, não deveriam estar criando e ven-
É interessante observar que, ao falar por d e n d o p o r c o s imundos. N o entanto, u m a
m e i o desse h o m e m , os d e m ô n i o s confessa- vez q u e se encontravam em território gen-
ram e m q u e criam d e fato. O s d e m ô n i o s t ê m tio, o mais provável é q u e os criadores de
fé e até t r e m e m por causa daquilo em q u e porcos não fossem judeus.
acreditam (Tg 2:19), mas n e m m e s m o essa Por certo, Jesus poderia mandar os de-
fé ou esse temor p o d e salvá-los. Os demô- mônios para o n d e b e m desejasse - para o
nios c r ê e m q u e Jesus é o Filho de D e u s e abismo, para os p o r c o s ou para qualquer
q u e t e m autoridade sobre eles; c r ê e m na outro lugar que escolhesse. Então, por q u e
realidade do julgamento e s a b e m q u e um permitiu q u e fossem para a m a n a d a de
dia serão lançados no inferno (ver Mt 8:29). porcos? Em primeiro lugar, c o m isso Jesus pro-
T ê m mais c o n v i c ç õ e s do q u e muitos religio- vou aos espectadores que o milagre da liber-
sos de hoje! tação havia realmente ocorrido. A destruição
A Bíblia não explica, em m o m e n t o algum, dos porcos também garantiu aos dois homens
a psicologia e a fisiologia da possessão de- q u e os espíritos imundos os haviam deixado.
m o n í a c a . O h o m e m q u e falou c o m Jesus M a i s importante do q u e isso, porém, o afo-
estava sob o controle de uma legião de de- g a m e n t o de dois mil porcos foi uma lição
mônios, e uma legião de soldados romanos prática muito vivida para essa multidão que
consistia de aproximadamente seis mil ho- rejeitava a Cristo, mostrando que, para Sata-
mens! É assustador pensar nos horrores q u e nás, um porco tem o m e s m o valor que um
a q u e l e h o m e m experimentava dia e noite, h o m e m ! N a v e r d a d e , S a t a n á s transforma
e n q u a n t o milhares de espíritos imundos o um h o m e m num porco! Jesus estava adver-
atormentavam. Por certo, o outro endemo- tindo os cidadãos contra o poder do p e c a d o
n i n h a d o t a m b é m s e e n c o n t r a v a extrema- e de Satanás. Foi um sermão dramático e ex-
mente agoniado. plícito: "O salário do p e c a d o é a morte!"
S a t a n á s tentou destruir esses h o m e n s , O s porqueiros n ã o q u e r i a m ser respon-
mas Jesus foi libertá-los. Pelo poder de sua sabilizados pela perda d o s porcos, de m o d o
Palavra, expulsou os d e m ô n i o s e livrou os q u e c o r r e r a m i m e d i a t a m e n t e para c o n t a r
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Q u a n d o os proprietários chegaram, assusta- extensão do amor e misericórdia de Cristo.


ram-se c o m a mudança que havia ocorrido Jairo era um líder importante da sinagoga,
nos dois homens. Em vez de correr nus, en- enquanto a mulher era uma anônima, uma
contravam-se vestidos, sentados e calmos. pessoa qualquer, mesmo assim Jesus rece-
Eram novas criaturas (2 Co 5:17)! beu e ajudou ambos. Jairo estava para per-
Por que os proprietários pediram que der uma filha que lhe dera doze anos de
Jesus partisse? Por que não pediram que fi- alegrias ( M c 5:42), e a mulher estava para
casse e realizasse curas semelhantes para se ver livre de uma aflição que a acometia
outros que também precisavam? O maior havia doze anos. U m a vez que ocupava um
interesse deles era outro - os negócios - e cargo importante na sinagoga, sem dúvida
temiam que, se Jesus ficasse, causaria ainda Jairo era um h o m e m de posses, mas essa
mais "prejuízo" à economia local! U m a vez riqueza não pôde salvar a vida de sua filha.
que Jesus só fica onde é desejado, atendeu A mulher estava falida, pois havia gasto to-
o pedido e partiu. Q u e oportunidade essas dos os seus bens, e, ainda assim, ninguém
pessoas perderam! achara uma cura para seu problema. Tanto
Por que Jesus não permitiu que o ho- Jairo quanto a mulher encontraram as res-
m e m o seguisse? S e m dúvida, seu pedido postas que buscavam aos pés de Jesus ( M c
foi motivado pelo amor que sentia pelo Se- 5:22 e 33).
nhor Jesus, e seu testemunho seria capaz A mulher sofria de uma hemorragia apa-
de causar grande impacto. Mas Jesus sabia rentemente incurável e que a destruía lenta-
que o lugar daquele homem era em sua casa, mente. Podemos imaginar a dor e a pressão
c o m seus entes queridos, onde testemunha- emocional q u e consumia suas forças dia
ria do Salvador. Afinal, a vida cristã deve após dia. Q u a n d o consideramos suas mui-
começar em casa, onde as pessoas nos co- tas decepções c o m os médicos e a pobreza
nhecem melhor. Se honrarmos a Deus em que lhe sobreveio, perguntamo-nos c o m o
nosso lar, poderemos pensar em nos ofe- pôde suportar tanto tempo. Havia, porém,
recer para servir em outros lugares. Esse ainda outro fardo sobre suas costas: de acor-
homem tornou-se um dos primeiros missio- do c o m a Lei, ela se encontrava cerimonial-
nários aos gentios. Jesus teve de se retirar, mente impura, o que limitava grandemente
mas aquele h o m e m p e r m a n e c e u em sua sua vida religiosa e social (Lv 15:19ss). Q u e
terra e deu testemunho fiel da graça e do peso enorme essa mulher carregava!
poder de Jesus Cristo. Podemos estar certos No entanto, não deixou que coisa algu-
de que muitos daqueles gentios creram no ma a impedisse de aproximar-se de Jesus.
Salvador por meio desse testemunho. Poderia ter usado várias desculpas para se
convencer de que era mais fácil ficar longe
3. V I T Ó R I A SOBRE A ENFERMIDADE dele. Poderia ter pensado: "não sou impor-
( M c 5:21-34) tante o suficiente para pedir ajuda a Jesus!",
Enquanto a multidão suspirava de alívio ao ou "ele está acompanhando Jairo, não vou
ver Jesus partir, outra multidão o esperava importuná-lo agora". Poderia ter argumenta-
de braços abertos em sua volta a Cafarnaum. do: "ninguém foi capaz de me ajudar, então
Nesse segundo grupo, havia duas pessoas por que continuar tentando?" Ou poderia
especialmente desejosas de ver o Mestre: ter concluído que não era correto procurar
Jairo, um homem cuja filha estava à beira da Jesus c o m o último recurso, depois de ter
morte, e uma mulher anônima que sofria de consultado tantos médicos. Porém, deixou
uma doença incurável. Jairo aproximou-se de lado todos os argumentos e desculpas e,
de Jesus primeiro, mas a mulher foi curada pela fé, se aproximou de Jesus.
primeiro, de m o d o que parece apropriado C o m o era essa fé? Fraca, tímida, talvez
começarmos por ela. até um tanto supersticiosa. Imaginava que
O contraste entre essas duas pessoas precisava tocar nas vestes de Jesus para po-
necessitadas é impressionante e revela a der ser curada (ver Mc 3:10; 6:56). Tinha
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o u v i d o falar de outras pessoas q u e haviam Por fim, Jesus tornou pública a cura des-
sido curadas por Jesus ( M c 5:27), de m o d o sa mulher para q u e ela tivesse a oportunida-
q u e resolveu tentar chegar até o Salvador. de de dar seu testemunho e de glorificar ao
Dessa vez, n ã o ficou d e c e p c i o n a d a : Jesus Senhor. "Digam-no os remidos d o SENHOR,
honrou sua fé, fraca c o m o era, e curou seu os q u e ele resgatou da m ã o do inimigo [...]
corpo. Enviou-lhes a sua palavra, e os sarou [...] Ren-
V e m o s aqui u m a lição importante. N e m d a m graças a o SENHOR por sua b o n d a d e e
todos t ê m o m e s m o nível de fé, mas Jesus por suas maravilhas para c o m os filhos d o s
r e s p o n d e à fé, p o r m a i s f r a c a q u e seja. h o m e n s ! " (SI 107:2, 20, 21). Por certo, al-
Q u a n d o c r e m o s , ele c o m p a r t i l h a seu po- guns da multidão o u v i r a m as palavras da
d e r c o n o s c o , e algo a c o n t e c e e m nossa mulher e creram no Salvador; q u a n d o ela
vida. H a v i a muitos outros naquela multidão chegou em casa, já sabia o q u e significava
q u e estavam perto de Jesus e q u e o compri- testemunhar de Cristo.
miam, mas q u e n ã o experimentaram mila-
gre algum, pois n ã o tinham fé. U m a coisa 4. V I T Ó R I A SOBRE A MORTE
é esbarrar em Jesus, outra b e m diferente é ( M c 5:35-43)
crer nele. N ã o foi fácil para Jairo pedir publicamente
A mulher planejava desaparecer no m e i o q u e Jesus o ajudasse. Os líderes religiosos
da multidão, mas Jesus virou-se e a deteve. q u e se o p u n h a m a Cristo c e r t a m e n t e n ã o
C o m todo carinho, extraiu dela um testemu- aprovariam essa atitude, n e m m e s m o os lí-
nho maravilhoso do q u e o S e n h o r havia fei- deres da sinagoga. Aquilo q u e Jesus havia
to. Por q u e Jesus tornou pública essa cura? feito e ensinado na sinagoga havia provoca-
Por q u e simplesmente n ã o permitiu q u e a do a ira d o s escribas e fariseus, alguns d o s
mulher permanecesse incógnita? quais provavelmente eram amigos de Jairo.
Em primeiro lugar, ele o fez para o b e m Porém, c o m o tantas outras pessoas q u e se
dela, pois desejava ser para ela algo mais do aproximam de Jesus, Jairo estava desespera-
q u e um "curandeiro": desejava ser t a m b é m do. Preferia perder os amigos a perder sua
s e u S a l v a d o r e a m i g o . Q u e r i a q u e con- filha.
templasse seu rosto, sentisse seu carinho e É interessante ver c o m o Jesus tratou
ouvisse suas palavras de incentivo. Q u a n d o c o m Jairo e o conduziu a u m a grande vitó-
Jesus terminou de falar, a mulher experimen- ria. Ao longo desse episódio, o b s e r v a m o s
tou algo maior do q u e a cura física. O Se- q u e foram as palavras do S e n h o r q u e fize-
nhor a c h a m o u de "filha" e a e n v i o u para ram a diferença. Consideremos, portanto, as
casa c o m u m a b ê n ç ã o de paz ( M c 5:34). A três declarações q u e Jesus fez.
injunção: " F i c a livre do teu mal" vai muito A palavra de fé (v. 36). Nesse ponto, Jairo
a l é m da restauração do c o r p o . Jesus tam- teve de escolher entre acreditar em seu ami-
b é m lhe d e u cura espiritual! go ou em Jesus. Por certo, t o d o seu ser en-
Tratou dessa mulher em público não ape- cheu-se de profunda tristeza q u a n d o ficou
nas para o b e m dela, mas t a m b é m pensan- sabendo que a filha havia morrido. M a s Je-
do em Jairo. A filha dele estava à beira da sus o tranqüilizou dizendo: " N ã o temas, crê
morte, e ele precisava de todo encorajamen- somente". Em outras palavras: " V o c ê possuía
to possível. C o m o se não bastasse a multidão alguma fé q u a n d o me procurou, e essa fé
impedindo sua passagem, ainda haviam sido foi estimulada q u a n d o viu o q u e fiz por aque-
detidos por aquela mulher! Q u a n d o um dos la mulher. N ã o desista! C o n t i n u e c r e n d o ! "
amigos de Jairo c h e g o u c o m a notícia de N ã o foi tão difícil para Jairo crer no Se-
q u e a m e n i n a havia morrido, s e m dúvida nhor e n q u a n t o sua filha ainda estava v i v a
J a i r o sentiu q u e t u d o estava p e r d i d o . A s e e n q u a n t o Jesus o a c o m p a n h a v a até sua
palavras de Jesus à mulher sobre fé e paz casa. M a s q u a n d o Jesus se deteve para curar
d e v e m ter servido de estímulo não só para a mulher e seus amigos c h e g a r a m c o m as
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devemos, porém, julgá-lo com severidade, eu), pois foi por sua autoridade que o espí-
pois é provável que também tenhamos dú- rito da menina voltou ao corpo (Lc 8:55).
vidas quando nos sentimos sobrepujados Essas palavras não são uma fórmula mágica
pelas circunstâncias e pelos sentimentos. para ressuscitar mortos.
Por vezes, Deus demora a intervir, e nos per- A menina não apenas voltou a viver, mas
guntamos o que o está detendo. É nesse também foi curada de sua doença, pois con-
momento que precisamos de uma "palavra seguiu sair da cama e andar. Como Médico
especial de fé" do Senhor, e recebemos essa amoroso, Jesus instruiu os pais a alimentar a
certeza quando dedicamos tempo à Palavra menina, a fim de fortalecê-la. Milagres divi-
de Deus. nos não são substitutos para o bom senso,
A palavra de esperança (v. 39). Quando pois quando ignoramos os cuidados huma-
chegaram à casa de Jairo, viram e ouviram nos, tentamos a Deus.
os pranteadores profissionais que sempre Como nos milagres anteriores, Jesus pe-
apareciam quando alguém morria. De acor- diu às testemunhas que não falassem sobre
do com a tradição judaica, deveriam clamar o assunto ( M c 1:44; 3:12). É possível que os
em alta voz, chorar e se lamentar com a famí- pranteadores tenham espalhado a notícia de
lia e os amigos. A presença dos pranteadores que a menina havia estado em "coma", não
na casa era prova de que a menina estava morta, portanto, que não havia ocorrido
morta, pois a família não os teria chamado, milagre algum! No entanto, o milagre foi
caso ainda houvesse qualquer esperança. operado na presença de algumas testemu-
"A criança não está morta, mas dorme", nhas. Segundo a Lei, eram necessárias ape-
foram as palavras de esperança do Senhor a nas duas ou três pessoas para corroborar um
Jairo e sua esposa. Para o cristão, a morte é fato (Dt 17:6; 19:15), mas, nesse caso, hou-
apenas um sono, pois o corpo descansa até ve cinco testemunhas! Temos motivos para
o momento da ressurreição (1 Ts 4:13-18). concluir que Jairo e sua esposa creram em
O espírito não dorme, pois quando o cris- Jesus Cristo, apesar de não voltarem a ser
tão morre, seu espírito deixa o corpo (Tg mencionados nos relatos dos Evangelhos. Ao
2:26) e vai para junto de Cristo (Fp 1:20-23). longo de toda a sua vida, essa menina foi
É o corpo que dorme, aguardando a volta uma testemunha do poder de Jesus Cristo.
do Senhor e a ressurreição (1 Co 15:51-58). Por certo, o Servo de Deus conquistou
Essa verdade é um grande encorajamento o perigo, os demônios, as enfermidades e a
para todos os que perdem amigos e entes morte. Essa série de milagres mostra como
queridos cristãos. É a palavra de esperança Jesus foi ao encontro de pessoas de todo
de Jesus para nós. tipo e as socorreu, desde seus próprios dis-
A palavra de amor e poder (v. 41). A cípulos até dois homens endemoninhados,
incredulidade zomba da Palavra de Deus, e garante que o Senhor também é capaz de
mas a fé apega-se a ela e experimenta o nos ajudar hoje.
poder de Deus. Jesus não realizou esse mi- Isso não significa que Deus sempre so-
lagre de maneira espalhafatosa, pois se sen- corre as pessoas em perigo (ver At 12) ou
sibilizou com a dor dos pais e se entristeceu que cura todas as aflições (ver 2 Co 12:1-
com a atitude desdenhosa dos pranteadores. 10), mas sim que tem a autoridade suprema
"Talitá cumi!" é a expressão aramaica para e que não precisamos temer. Em tudo so-
"Menina, levanta-te!", ao que Jesus acrescen- mos "mais que vencedores, por meio daque-
tou: "eu te mando" (com ênfase no pronome le que nos amou" (Rm 8:37).
Novamente, a reputação de Jesus o ha-
via precedido, e lhe foi permitido falar na
sinagoga. N ã o d e v e m o s esquecer q u e ele
ministrava a pessoas q u e o c o n h e c i a m bem,
A FÉ NO S E R V O pois havia crescido em Nazaré. Porém, era
gente s e m qualquer p e r c e p ç ã o espiritual.
MARCOS 6:1-56 Jesus os lembrou do q u e havia dito em sua
primeira visita: q u e um profeta não tem hon-
ra em sua própria terra e entre seu próprio
povo ( M c 6:4; Lc 4:24; Jo 4:44).
D u a s coisas causaram espanto a essas
pessoas: as palavras poderosas e a sabedo-

D e a c o r d o c o m Charles Darwin, a fé é
"a distinção mais c o m p l e t a entre o
h o m e m e os animais inferiores". C a s o essa
ria maravilhosa do Mestre. Jesus n ã o ope-
rou milagre algum e n q u a n t o estava lá, de
m o d o q u e o povo devia estar se referindo a
o b s e r v a ç ã o seja verdadeira, sugere q u e a relatos q u e havia o u v i d o acerca d o s gran-
falta de fé por parte do h o m e m coloca-o no des feitos e prodígios do S e n h o r (ver Mc
m e s m o nível dos animais! O orador agnós- 1:28, 45; 3:7, 8; 5:20, 21). Na verdade, foi a
tico C o r o n e l Robert Ingersoll sugeriu outro incredulidade deles q u e impediu Jesus de
p o n t o de vista, pois d e s c r e v e u o cristão realizar um grande ministério em seu meio.
c o m o " u m pássaro m u d o dentro d e u m a O q u e havia de errado c o m eles? Por
g a i o l a " . P r o v a v e l m e n t e , é mais fácil con- q u e não conseguiram crer no Senhor e ex-
cordar q u e as palavras dele descrevem, na perimentar seu p o d e r e sua graça, c o m o
verdade, um incréduloI outro experimentaram? Porque pensavam
Um dos temas centrais desta seção do que o conheciam. Afinal, Jesus havia sido vi-
Evangelho de M a r c o s é a incredulidade das zinho deles por cerca de trinta anos, e to-
pessoas q u e se aproximaram do S e r v o de dos o viram trabalhando c o m o carpinteiro,
Deus. Tinham motivos de sobra para acredi- de m o d o que, para eles, Jesus parecia ser
tar em Jesus Cristo, mas, ainda assim, todas apenas mais um nazareno. Era um "cidadão
essas pessoas, inclusive os próprios discípu- c o m u m " , e o povo não viu motivo para se
los, mostraram-se incrédulas! Ao estudar este sujeitar a ele!
capítulo, d e v e m o s ter sempre em mente a "Afamiliaridade nutre o desprezo", c o m o
admoestação solene de H e b r e u s 3:12: "Ten- disse Públio o Sírio, q u e v i v e u em 2 a.C.
de cuidado, irmãos, jamais a c o n t e ç a haver Esopo escreveu uma fábula para ilustrar essa
e m qualquer d e v ó s perverso c o r a ç ã o d e verdade, falando de u m a raposa q u e nunca
incredulidade q u e vos afaste do D e u s vivo". havia visto um leão. Q u a n d o se encontrou
D e u s leva a incredulidade a sério, de m o d o c o m o rei dos animais pela primeira vez, a
q u e d e v e m o s fazer o mesmo. raposa quase morreu de medo. N u m segun-
do encontro, não estava mais tão assustada;
1. A INCREDULIDADE DE SEUS na terceira vez já estava conversando c o m o
CONHECIDOS ( M c 6 : 1 - 6 ) leão. "É assim que acontece", concluiu Esopo,
Jesus retornou a N a z a r é onde, um a n o an- "a familiaridade faz c o m q u e até as coisas
tes, havia sido rejeitado pelo p o v o e expul- mais assustadoras pareçam inofensivas".
so da sinagoga (Lc 4:16-30). S e m dúvida, foi C o n v é m , n o entanto, considerar essa
u m a d e m o n s t r a ç ã o d e graça d a parte d o idéia c o m cautela. Podemos, por acaso, ima-
Senhor dar às pessoas uma nova oportuni- ginar marido e esposa desprezando-se só
d a d e de ouvir suas Palavras, crer e receber p o r q u e são íntimos? O u dois amigos q u e
a salvação. No entanto, o coração do p o v o c o m e c e m a se tratar c o m d e s d é m só por-
continuava endurecido. Dessa vez, n ã o ex- q u e sua amizade cresceu ao longo d o s anos?
168 M A R C O S 6:1-56

dizer: "A familiaridade nutre o desprezo so- 2. A INCREDULIDADE DE SEUS INIMIGOS


mente quando se tratam de coisas ou pes- ( M c 6:7-29)
soas desprezíveis". O desdém demonstrado Quando Jesus chamou os doze apóstolos,
pelos nazarenos não refletia coisa alguma seu propósito era ensiná-los e treiná-los para
do caráter de Jesus; antes, revelou muita que pudessem auxiliá-lo e, no tempo certo,
coisa sobre a natureza do próprio povo! tomar seu lugar quando voltasse para o Pai
Um turista, ansioso para ver tudo o que ( M c 3:13-15). Antes de enviá-los, reafirmou
há numa galeria de arte, passa rapidamen- a autoridade que havia lhes concedido para
te de um quadro a outro, mal notando o curar e expulsar demônios ( M c 6:7) e lhes
que há dentro das molduras. " N ã o vi nada deu algumas instruções (ver Mc 10 para um
de especial", diz a um dos guardas ao sair. relato mais detalhado deste sermão).
"Senhor", responde o guarda, "não são as O r d e n o u que levassem aquilo que já
pinturas que estão sendo avaliadas aqui, mas possuíam e que não comprassem qualquer
sim os visitantes". equipamento especial para a viagem. Não
Naquele tempo, o carpinteiro era um deveriam carregar qualquer bagagem des-
artesão respeitado, mas ninguém esperava necessária (a urgência dessa "comissão" é
q u e um carpinteiro fizesse milagres ou inequívoca). Jesus desejava que estivessem
ensinasse verdades espirituais na sinagoga. adequadamente supridos, mas não a ponto
De onde tirava todo aquele poder e sabe- de deixar de viver pela fé. A palavra "alforje"
doria? De Deus ou de Satanás? (ver Mc 3:22). refere-se à "sacola de um mendigo". De
Por que seus irmãos não tinham o mesmo maneira alguma, porém, deveriam mendigar
poder e sabedoria? E mais, por que nem mes- por alimento ou dinheiro.
mo eles acreditavam em Jesus? As pessoas Em seu ministério itinerante, encontra-
que chamavam Jesus de "filho de Maria" riam hospitalidade e hostilidade, amigos e
estavam, na verdade, tentando ofendê-lo, inimigos. Jesus advertiu-os a ficar apenas
pois, naquela época, um homem era identi- numa casa em cada comunidade e a não
ficado de acordo com o pai, não com a mãe. ser "enjoados" quanto à comida e às aco-
O povo de Nazaré se "escandalizava modações que lhes oferecessem. Afinal, es-
com ele". Literalmente, haviam "tropeçado tavam lá para ser servos úteis, não hóspedes
nele". O termo grego para "pedra de trope- mimados. Se uma casa ou vila não os rece-
ç o " dá origem à nossa palavra escândalo. besse, tinham permissão de declarar julga-
Em sua obra Wuest's Word Studies [Estudos mento divino sobre aquelas pessoas. Era
da Palavra de Wuest] (Eerdmans), Kenneth costume dos judeus sacudir as sandálias
Wuest diz: " U m a vez que não conseguiram quando deixavam um território gentio, mas
explicá-lo, optaram por rejeitá-lo". Sem dúvi- um judeu fazer isso em sua própria terra seria
da, Jesus foi "uma pedra de tropeço" para algo novo (Lc 10:10, 11; At 13:51).
essa gente por causa da incredulidade deles O termo grego traduzido por enviar, em
(Is 8:14; Rm 9:32, 33; 1 Pe 2:8). Marcos 6:7, é apostello, de onde vem a pa-
Em duas ocasiões, nos relatos dos Evan- lavra "apóstolo". Significa "enviar alguém
gelhos, se diz que Jesus admirou-se. Como com uma comissão especial a fim de repre-
essa passagem mostra, ele se espantou com sentar alguém e de realizar seu trabalho".
a incredulidade dos judeus e também com a Jesus concedeu a esses doze homens tanto
fé do centurião romano e gentio (Lc 7:9). autoridade apostólica quanto capacitação
Em vez de permanecer em Nazaré, Jesus divina para realizar o trabalho para o qual
partiu e percorreu, mais uma vez, diversas ele os havia comissionado. N ã o estariam
cidades e vilas na Galiléia. Seu coração se trabalhando "por conta própria", mas sim re-
entristeceu profundamente ao ver a situa- presentando Jesus em tudo o que fizessem
ção precária do povo (Mt 9:35-38), de modo e dissessem.
que decidiu enviar seus discípulos para mi- Conforme observamos anteriormente
nistrar com sua autoridade e poder. ( M c 3:16-19), ao comparar as listas de nomes
M A R C O S 6:1-56 169

dos apóstolos, v e m o s q u e foram apresenta- havia sido cruelmente preso e assassinado.


dos de dois em dois: Pedro e André, Tiago e M e s m o nessa b r e v e narrativa, p o d e m o s
J o ã o , Filipe e Bartolomeu etc. Jesus enviou- perceber a tensão no palácio, pois H e r o d e s
os em pares, pois é sempre mais fácil e mais temia J o ã o ; ouviu suas pregações em parti-
seguro os servos do Senhor viajarem e tra- cular e se viu t o m a d o de perplexidade quan-
balharem juntos. " M e l h o r é serem dois do to ao q u e deveria fazer. A "rainha" Herodias,
q u e u m " (Ec 4:9). C o m o t a m b é m já obser- no entanto, odiava J o ã o e, querendo matá-lo,
vamos, a Lei exigia que houvesse pelo menos e s p e r o u p a c i e n t e m e n t e por u m a oportu-
duas testemunhas para corroborar qualquer nidade. O caráter malicioso e os atos iníquos
questão ( D t 17:6; 19:15; 2 Co 13:1). N ã o desses dois nos trazem à memória A c a b e e
apenas ajudariam um ao outro, mas t a m b é m Jezabel (1 Rs 18 - 21).
aprenderiam um c o m o outro. Herodias finalmente encontrou um "mo-
Os h o m e n s partiram e fizeram c o m o Je- mento estratégico" ( M c 6:21) para colocar
sus havia dito. É impressionante q u e um seus planos em a ç ã o : a c o m e m o r a ç ã o de
grupo de h o m e n s c o m u n s fosse c a p a z de aniversário de Herodes. As festas reais eram
representar o D e u s Todo-Poderoso e de de- sempre extravagantes, tanto em sua osten-
monstrar sua autoridade realizando milagres. t a ç ã o quanto nos entretenimentos. O s
S e m p r e q u e D e u s ordena q u e se faça algu- judeus não permitiam q u e uma mulher dan-
ma coisa, t a m b é m dá c a p a c i d a d e para cum- çasse diante de um grupo de homens, e a
prir suas ordens (2 Co 3:5, 6). Os apóstolos maioria das mães gentias teria proibido uma
proclamaram as boas novas do reino, chama- filha de fazer o q u e a filha de Herodias fez
ram pecadores ao arrependimento e curaram (de a c o r d o c o m os relatos históricos, seu
muitos enfermos ( M c 6:12, 13; Lc 9:6). n o m e era Salomé). M a s a menina fazia par-
As notícias do ministério de Cristo e tam- te dos planos da mãe para se livrar de J o ã o
b é m de seus discípulos (Lc 9:7) chegaram Batista, e S a l o m é c u m p r i u seu papel c o m
até ao palácio de H e r o d e s Antipas. M a r c o s grande competência.
usa a designação "rei", q u e era c o m o He- Q u a n d o H e r o d e s ouviu o pedido terrí-
rodes desejava ser c h a m a d o , mas na reali- vel da menina, "Entristeceu-se profundamen-
dade o perverso rei H e r o d e s era apenas um te" (ver Mc 14:34, em q u e o m e s m o v e r b o
tetrarca, governador de uma quarta parte de é usado para Jesus), mas teve de cumprir
sua n a ç ã o . Q u a n d o H e r o d e s , o G r a n d e , sua promessa, pois, do contrário, sofreria um
morreu, os romanos dividiram seu território vexame na frente de um grupo de pessoas
entre seus três filhos, e Antipas foi n o m e a d o influentes. Na verdade, o termo "juramen-
tetrarca da Peréia e Galiléia. to", em M a r c o s 6:26, encontra-se no plural
H e r o d e s Antipas casou-se c o m a filha do - " p o r causa dos seus juramentos" -, pois
rei Aretas iv, depois se divorciou para poder H e r o d e s havia declarado repetidamente seu
se casar c o m H e r o d i a s , a esposa de seu desejo de r e c o m p e n s a r a menina por sua
meio-irmão, H e r o d e s Filipe. Foi uma aliança apresentação. Suas promessas eram um sub-
abjeta, contrária à Lei de M o i s é s (Lv 18:16; terfúgio para impressionar seus convidados,
20:21) e alvo da c o n d e n a ç ã o do corajoso mas a c a b o u sendo vítima do próprio plano.
profeta J o ã o Batista. Q u a n d o H e r o d e s ou- H e r o d e s não foi corajoso o suficiente para
viu sobre os grandes feitos de Jesus, teve o b e d e c e r à palavra de J o ã o , mas precisou
certeza de q u e era J o ã o Batista q u e havia o b e d e c e r à sua própria palavra! O resultado
voltado dos mortos para assombrá-lo e con- foi a morte de um h o m e m inocente.
dená-lo! Apesar de sua consciência incomo- É impressionante c o m o não há evidên-
dá-lo, H e r o d e s n ã o se mostrou disposto a cias de que os líderes judeus tenham toma-
encarar seus p e c a d o s c o m honestidade n e m do alguma atitude para salvar J o ã o Batista
de se arrepender. depois de sua prisão. O p o v o em geral con-
A essa altura do relato, M a r c o s usa um siderava J o ã o um profeta enviado por Deus,
170 M A R C O S 6:1-56

sua mensagem ( M c 11:27-33). A morte de Herodes foi evidência suficiente de que o


João foi a primeira de três mortes importan- "clima" estava mudando e de que Jesus e
tes na história de Israel. As outras duas foram seus discípulos deveriam usar de cautela. No
a crucificação de Cristo e o apedrejamento capítulo seguinte, veremos a hostilidade dos
de Estêvão (At 7). Estudamos o significado líderes religiosos e, também, o entusiasmo
desses acontecimentos nos comentários político das multidões, sempre um proble-
sobre Marcos 3:22-30. Herodes temia que ma sério (Jo 6:15ss). A melhor coisa a fazer
a mensagem de João começasse uma revol- era retirar-se.
ta popular, algo que o rei desejava evitar. No entanto, as multidões não deixaram
Além disso, queria agradar à esposa, mesmo Jesus em paz. Elas o seguiram até perto de
que, para isso, tivesse de matar um homem Betsaida na esperança de vê-lo realizar curas
piedoso. milagrosas (Lc 9:10, 11; Jo 6:1 ss). Apesar
Os discípulos de João tiveram permissão dessa interrupção em seus planos, Jesus re-
de levar o corpo de seu mestre e sepultá-lo. cebeu o povo, ensinou a Palavra e curou os
Em seguida, relatam a Jesus o que havia ocor- aflitos. Uma vez que também já experimen-
rido (Mt 14:12). Sem dúvida, a notícia da tei muitas interrupções em minha vida e
morte de João entristeceu Jesus profunda- ministério, sempre me admiro da paciência
mente, pois sabia que, um dia, ele próprio e graça de Jesus. Q u e exemplo para nós!
também teria de entregar sua vida. Marcos registra dois milagres realizados
Vemos Herodes Antipas em mais uma pelo Servo de Deus.
ocasião nos Evangelhos, quando provocou Jesus alimenta os cinco mil (vv. 33-44).
Jesus pedindo que realizasse um milagre (Lc Jesus enviou doze apóstolos para ministrar
23:6-12). Jesus não aceitou sequer falar com porque tinha compaixão dos necessitados
esse adúltero e assassino, quanto mais reali- ( M t 9:36-38). Dessa vez, porém, os necessi-
zar um milagre para entretê-lo! Chamou-o tados foram até eles, e os discípulos quise-
de "raposa" (Lc 13:31-35), uma descrição ram mandá-los embora! Ainda não haviam
bastante apropriada do rei astucioso. Em 39 aprendido a olhar a vida com os olhos de
d.C., Herodes Agripa (At 12:1), sobrinho de seu Mestre. Para eles, as multidões eram um
Herodes Antipas, entregou seu tio ao im- problema, talvez até mesmo uma inconve-
perador romano, e Antipas foi deposto e niência, mas para Jesus, eram como ovelhas
exilado. " Q u e aproveita ao homem ganhar sem pastor.
o mundo inteiro e perder a sua alma?" ( M c Quando D. L. Moody estava formando
8:36). sua grande Escola Bíblica Dominical em
Chicago, recebia crianças de vários lugares.
3. A INCREDULIDADE DE SEUS DISCÍPULOS C o m freqüência, os pequeninos deixavam
(Mc 6:30-56) de ir a outras igrejas ou Escolas Bíblicas Do-
Jesus foi com seus discípulos a um lugar iso- minicais mais próximas de sua casa apenas
lado, a fim de que pudessem descansar um para ir estudar a Palavra com o sr. Moody.
pouco de todos os seus trabalhos. Queria Q u a n d o alguém perguntou a um menino
conversar sobre o ministério deles e prepa- por que caminhava tamanha distância para
rá-los para a próxima missão. C o m o disse comparecer àquela Escola Bíblica Domini-
Vance Havner: " S e não nos retirarmos para cal, ele respondeu: "Porque lá eles amam as
descansar, acabaremos por nos desintegrar". pessoas!" As crianças sentiam a diferença.
Até mesmo o Servo de Deus precisou de Os discípulos ofereceram duas sugestões
um tempo para repousar, desfrutar da co- para resolver o problema: mandar as pes-
munhão com os amigos e ter suas forças soas procurarem a própria comida ou juntar
renovadas pelo Pai. dinheiro suficiente para comprar um peda-
Outro fator que o levou a retirar-se foi a ço pequeno de pão para cada um. Para os
oposição crescente dos líderes políticos e discípulos, eles estavam no lugar errado, na
religiosos. O assassinato de João Batista por hora errada, e nada havia que pudessem
M A R C O S 6:1-56 171

fazer! C o m essa atitude, p o d e r i a m muito /esus acalma a tempestade (vv. 45-56).


b e m ter f o r m a d o u m a comissão! A l g u é m Esse e p i s ó d i o e n v o l v e u v á r i o s milagres:
definiu uma comissão c o m o um grupo de Jesus andou sobre as águas, Pedro a n d o u
pessoas que, individualmente, não é capaz sobre as águas ( M a r c o s não registra esse
de fazer coisa alguma e, coletivamente, de- fato; ver Mt 14:28-32), Jesus a c a l m o u a tem-
cide que não há nada a fazer. pestade e, por fim, chegaram à outra mar-
Jesus não considerou aquela situação um g e m i m e d i a t a m e n t e d e p o i s d e J e s u s ter
problema, mas sim uma oportunidade de entrado no barco (Jo 6:21). S e m dúvida, foi
crer no Pai e de glorificar seu nome. Um u m a noite repleta de maravilhas para os
líder eficiente é alguém que vê potencial nos d o z e apóstolos!
problemas e que está disposto a tomar uma Por q u e Jesus o r d e n o u q u e seus discí-
atitude pela fé. Agindo c o m base na sabedo- pulos partissem? Porque a multidão estava
ria humana, os discípulos viram o problema, ficando agitada, e havia o perigo de come-
mas não o potencial. É tão c o m u m ouvir o ç a r e m u m a revolta popular para c o l o c a r
povo de D e u s queixar-se: " S e tivéssemos um Jesus c o m o rei (Jo 6:14, 15). Os d o z e após-
p o u c o mais de dinheiro, poderíamos fazer tolos não estavam preparados para esse tipo
alguma coisa!" D u z e n t o s denários corres- de teste, pois seu conceito do reino ainda
p o n d i a m ao salário anual de um trabalha- era excessivamente nacional e político.
dor c o m u m ! O primeiro passo é não medir A l é m disso, Jesus desejava lhes ensinar
nossos recursos, mas determinar a vonta- uma lição de fé a fim de prepará-los para o
de de D e u s e crer q u e ele suprirá nossas trabalho q u e teriam diante deles depois q u e
necessidades. ele partisse. Os discípulos tinham a c a b a d o
Foi A n d r é q u e m encontrou o rapaz c o m d e c o m p l e t a r u m a missão e x t r e m a m e n t e
a c o m i d a (Jo 6:8, 9). O Senhor orientou o bem-sucedida, curando doentes e pregan-
povo a assentar-se em grupos sobre a gra- do o evangelho. Haviam participado do mi-
ma (ver SI 23:2; 78:19) - um contraste e lagre da alimentação dos cinco mil. Estavam
tanto c o m a festa p o m p o s a e sensual de v i v e n d o no " á p i c e espiritual", e esse fato,
Herodes. Então, Jesus pegou o lanche, aben- por si só, era perigoso. É b o m estar no alto
ç o o u , partiu e deu a seus discípulos para da montanha, desde q u e n ã o nos descui-
q u e distribuíssem aos famintos. O milagre demos e acabemos caindo num precipício.
realizou-se nas m ã o s do Mestre, não dos As b ê n ç ã o s espirituais d e v e m ser con-
discípulos, pois Jesus p o d e a b e n ç o a r e trabalançadas c o m fardos e batalhas, do
multiplicar tudo o q u e c o l o c a m o s em suas contrário, corremos o risco de nos tornar
mãos. N ã o s o m o s produtores, mas apenas crianças mimadas, em vez de filhos e filhas
distribuidores. maduros. N u m a ocasião anterior, Jesus havia
J o ã o diz q u e Jesus usou esse milagre conduzido seus discípulos a uma tempesta-
c o m o ponto de partida para o sermão so- de no final de um dia repleto de ensinamen-
bre o " p ã o da vida" ( J o 6:22ss). Afinal, ape- tos ( M c 4:35-41). Agora, depois de realizar
sar de ser importante suprir as necessidades vários milagres, volta a conduzi-los a uma
humanas, esse não foi o único motivo pelo tempestade. É interessante observar que, no
qual Jesus realizou milagres. S e u desejo era Livro de Atos, a " t e m p e s t a d e " da perse-
que cada milagre revelasse algo sobre o Fi- guição oficial c o m e ç o u depois que os dis-
lho de D e u s e fosse um "sermão prático". A cípulos haviam ganho cinco mil pessoas para
maioria das pessoas maravilhou-se c o m os Cristo (At 4:1-4). É possível que, enquanto
milagres, sentiu-se grata pela ajuda que rece- estavam presos, os a p ó s t o l o s t e n h a m se
beu do Senhor, mas não foi capaz de enten- lembrado da tempestade q u e se seguiu à
der a mensagem espiritual (Jo 12:37). Essas alimentação dos c i n c o mil e q u e t e n h a m
pessoas queriam as dádivas, mas não o Doa- se encorajado mutuamente c o m a certeza
dor, a alegria das bênçãos físicas, mas não de q u e Jesus os socorreria e acompanharia
172 M A R C O S 6:1-56

Cada nova experiência de prova requer hesitado em incluir essa experiência, a fim
mais fé e coragem. Na primeira tempestade, de não dar às pessoas uma impressão erra-
Jesus estava no barco junto com os discípu- da. É fácil criticar Pedro por afundar, mas
los. Dessa vez, porém, permanecera no será que teríamos chegado a sair do barco?
monte orando por eles. O Mestre os ensi- Os discípulos foram reprovados nesse
nava a viver pela fé. (Cabe lembrar que, teste, pois lhes faltou discernimento espiri-
mesmo quando Jesus estava no barco, os tual e um coração receptivo. O milagre dos
discípulos tiveram medo!) Essa cena ilustra pães e peixes não havia causado impacto
a situação do povo de Deus hoje: estamos duradouro na vida deles. Afinal, se Jesus
no meio deste mundo tempestuoso, bata- era capaz de multiplicar a comida e de ali-
lhando e, ao que tudo indica, prontos para mentar milhares de pessoas, por certo tam-
afundar, mas Jesus está na glória, interceden- b é m podia protegê-los da tempestade.
do por nós. Quando o momento for mais Mesmo um discípulo de Jesus Cristo é capaz
sombrio, virá até nós - e chegaremos à praia! de desenvolver um coração endurecido, se
As ondas que atemorizaram os discípulos não responder às lições espirituais que pre-
(inclusive os pescadores do grupo) serviram cisam ser aprendidas ao longo da vida e
de degraus para conduzir o Senhor Jesus até do ministério.
eles. Esperou até a situação tornar-se de- Ao recapitular esses dois milagres, é
sesperadora a ponto de não poderem fazer possível ver que Jesus oferece provisão e
mais coisa alguma para se salvar. Mas por proteção. " O SENHOR é o meu pastor; nada
que pareceu que Jesus pretendia passar di- me faltará. [...] não temerei mal nenhum" (SI
reto por eles? Porque quis que o reconhe- 23:1, 4). Q u e m nele confia sempre terá
cessem, cressem nele e o convidassem a provisão e segurança, qualquer que seja a
entrar no barco. Em vez disso, os discípulos situação. O importante é confiar em Jesus.
gritaram de pavor, pois pensaram que fosse Marcos encerra esta seção em tom posi-
um fantasma! tivo ao descrever o povo que trouxe enfer-
Jesus tranqüilizou-os, dizendo: "Tende mos para Jesus curar: pessoas que creram e
bom ânimo! Sou eu. Não temais!" ( M c 6:50). cuja fé foi recompensada. Trata-se de um
Foi então que Pedro pediu a Jesus para se contraste nítido com Nazaré, onde poucos
encontrar com ele sobre as águas, porém foram curados, pois o povo não tinha fé.
Marcos omite esse detalhe. Diz a tradição "E esta é a vitória que vence o mundo: a
que Marcos escreveu como porta-voz de nossa fé" (1 Jo 5:4). Confie no Servo! Ele
Pedro, de modo que, talvez, Pedro tenha nunca falha.
autoridade! Os judeus chamavam a tradição
de "a cerca da Lei". N ã o era a Lei q u e pro-
tegia a tradição, mas sim a tradição q u e
protegia a Lei!
O SERVO E MESTRE Porém, havia algo ainda mais importante
em jogo. Sempre que os judeus praticavam
MARCOS 7:1 - 8:26 essas purificações declaravam q u e eram "es-
peciais" e que as outras pessoas eram "imun-
das"! Se um judeu fosse ao mercado comprar
comida, poderia ser " c o n t a m i n a d o " por um
gentio ou ( D e u s me livre!) por um samari-
tano. Essa tradição havia c o m e ç a d o séculos

A o longo de seu Evangelho, a ênfase de


M a r c o s é, principalmente, sobre o q u e
jesus fez. No entanto, nesta seção de nosso
antes para lembrar os judeus, o povo escolhi-
do de Deus, que deveriam manter-se separa-
dos. Porém, uma forma saudável de lembrar
estudo, há alguns relatos de ensinamentos havia gradualmente degenerado e se trans-
importantes do Senhor. M a r c o s t a m b é m f o r m a d o n u m ritual vazio, resultando em
descreve o ministério entre os gentios, as- orgulho e isolamento religioso.
sunto que certamente seria do interesse de Essas purificações não apenas indicavam
seus leitores romanos. V e m o s nesta seção u m a atitude e q u i v o c a d a c o m respeito à s
três ministérios de Jesus, o Servo e Mestre. pessoas, mas t a m b é m transmitiam uma idéia
errada da natureza do p e c a d o e da santida-
1 . O ENSINO AOS JUDEUS ( M c 7 : 1 - 2 3 ) d e pessoal. N o S e r m ã o d o M o n t e , Jesus
Este episódio p o d e ser divido em quatro es- deixou claro que a verdadeira santidade é
tágios. O primeiro é a acusação ( M c 7:1-5). uma questão de sentimentos e de atitudes
Os líderes religiosos haviam assumido uma interiores, não apenas ações e associações
postura explicitamente hostil quanto a Jesus exteriores. Os fariseus julgavam-se santos
e seu ministério. Seguiam-no de um lugar porque obedeciam à Lei e evitavam a con-
para outro c o m o propósito de procurar algo taminação exterior. Jesus ensinou que u m a
para criticar. Nesse caso, acusaram os discí- pessoa q u e o b e d e c e à Lei exteriormente
pulos de não realizar as cerimônias judaicas pode, ainda assim, transgredi-la em seu co-
de purificação c o m água. Essa purificação ração, e essa " c o n t a m i n a ç ã o " exterior não
n ã o tinha relação alguma c o m a higiene pes- tem praticamente qualquer relação c o m a
soal n e m era exigida pela Lei. Antes, fazia condição do ser interior.
parte da tradição que os escribas e fariseus Assim, o conflito não era apenas entre a
haviam d a d o ao povo, tornando seu fardo verdade de D e u s e a tradição humana, mas
ainda mais pesado ( M t 23:4). t a m b é m entre dois pontos de vista diver-
Jesus já havia transgredido as tradições gentes sobre o p e c a d o e a santidade. Esse
do shabbath ( M c 2:23 - 3:5), de m o d o que confronto não foi uma discussão trivial, pois
os j u d e u s estavam ansiosos por acusá-lo, t o c o u o c e r n e da fé religiosa. C a d a nova
quando viram os discípulos c o m e r " c o m as geração d e v e envolver-se n u m conflito se-
mãos impuras". Por que um assunto tão tri- melhante, pois a natureza humana tende a
vial exasperou de tal maneira esses líderes apegar-se a velhas tradições criadas por ho-
religiosos? Por q u e se sentiram obrigados a mens e a ignorar a Palavra viva de D e u s ou
d e f e n d e r suas c e r i m ô n i a s d e p u r i f i c a ç ã o lhe desobedecer. Por certo, algumas tradi-
c o m água? Em primeiro lugar, os líderes se ç õ e s ajudam a lembrar nossa rica herança e
ressentiram q u a n d o Jesus desafiou aberta- servem de "cimento" para unir as gerações,
mente sua autoridade. Afinal, essas práticas mas devemos estar sempre alertas para que
lhes haviam sido transmitidas por seus ante- a tradição não tome o lugar da verdade. É
174 M A R C O S 7:1 - 8:26

de nossa igreja à luz da Palavra de Deus e sobre as igrejas cristãs. Talvez também seja-
ter coragem suficiente para mudá-las. (Con- mos culpados de colocar tradições humanas
vém observar que a palavra tradições, em no lugar da verdade de Deus.
2 Ts 2:15, se refere ao conjunto de verdades Depois de expor a hipocrisia dos fariseus,
doutrinárias transmitido pelos apóstolos aos Jesus voltou-se para a Lei de Moisés e acusou
líderes da Igreja. Ver também 2 Tm 2:2.) os líderes de quebrar o quinto mandamen-
O próximo estágio pode ser chamado to. Tinham extraordinária habilidade de trans-
de condenação (Mc 7:6-13), uma vez que gredir a Lei sem sentir culpa. Em vez de usar
Jesus defendeu seus discípulos e expôs a o dinheiro para ajudar os pais, os fariseus
hipocrisia de seus acusadores. Primeiro, ci- dedicavam seus bens a Deus ( " C o r b ã " =
tou o profeta Isaías (Is 29:13) e, em seguida, "uma oferta, um presente"; ver Nm 30) e
falou da Lei de Moisés (Êx 20:12; 21:17; Lv afirmavam que seus bens só poderiam ser
20:9). C o m o poderiam os fariseus argumen- usados para "fins espirituais". No entanto,
tar contra a Lei e os Profetas? continuavam beneficiando-se dessa riqueza,
Ao defender suas tradições, os fariseus apesar de, tecnicamente, ela pertencer a
desgastavam tanto seu caráter quanto o da Deus. Diziam que amavam a Deus, mas não
Palavra de Deus. Eram hipócritas, "atores" tinham amor algum pelos pais!
cuja adoração religiosa era praticada em vão. O terceiro estágio é a declaração ( M c
A verdadeira adoração deve nascer do cora- 7:14-16). Jesus anunciou à multidão que a
ção e ser dirigida pela verdade de Deus, não vida de santidade vem do interior, não do
pelos conceitos pessoais de cada um. C o m o exterior. Na verdade, com isso declarava que
é triste quando os religiosos praticam rituais todo o sistema mosaico de alimentos "lim-
na ignorância e apenas deterioram o pró- pos e imundos" era nulo e vazio; nesse mo-
prio caráter ao fazê-lo! mento, porém, não explicou essa verdade
No caso dos fariseus, porém, não esta- radical à multidão. Mais tarde, esclareceu
vam apenas destruindo o próprio caráter, mas isso aos discípulos.
também a influência e autoridade da Palavra N ã o há dúvida de que os inimigos en-
de Deus que afirmavam defender. É interes- tenderam essa declaração. Sabiam que Jesus
sante observar a seqüência trágica: ensina- derrubara um dos "muros" que separavam
vam suas doutrinas como se fossem a Palavra os judeus dos gentios. Claro que a Lei pro-
de Deus ( M c 7:7); deixavam de lado a Pala- priamente dita só foi colocada de lado de-
vra de Deus ( M c 7:8); rejeitavam a Palavra de pois que Jesus morreu na cruz (Ef 2:14, 15;
D e u s ( M c 7:9); e finalmente, retiravam o Cl 2:14), mas o princípio que Jesus anun-
poder da Palavra de Deus ( M c 7:13). Q u e m ciou sempre havia sido válido. Em todos os
reverencia tradições humanas acima da Pala- períodos da história, a verdadeira santidade
vra de Deus acaba perdendo o poder dessa sempre foi uma questão do coração, de um
Palavra em sua vida. Por mais devoto que relacionamento correto com Deus pela fé.
pareça ser, seu coração está longe de Deus. A cerimônia de purificação era uma ques-
A história mostra que os líderes religio- tão de obediência exterior à Lei, que de-
sos honravam suas tradições muito acima monstrava essa fé (SI 51:6, 10, 16, 17).
da Palavra de Deus. Nas palavras do rabino Moisés deixou claro em Deuteronômio que
Eleazar: "Aquele que interpreta as Escrituras Deus desejava que o amor e a obediência
em oposição à tradição não tem parte no viessem do coração, não que fossem ape-
mundo vindouro". A Mishna, uma coleção nas uma obediência exterior a regras (ver
de tradições judaicas no Talmude, diz: "É Dt 6:4, 5; 10:12; 30:6, 20).
uma ofensa muito maior ensinar algo con- A explicação de Jesus ( M c 7:17-23) foi
trário à voz dos rabinos do que contradizer dada em particular aos discípulos, quando
as Escrituras em si". Porém, antes de criticar o "interrogaram acerca da parábola". Para
nossos amigos judeus, talvez devêssemos nós, seu esclarecimento é um tanto óbvio,
examinar a influência dos "pais da Igreja" mas d e v e m o s lembrar q u e os apóstolos
M A R C O S 7:1 - 8:26 175

haviam sido e d u c a d o s de a c o r d o c o m re- 2. A A J U D A AOS GENTIOS


gras alimentares extremamente rígidas, q u e ( M c 7:24 - 8:9)
categorizavam todo alimento c o m o " l i m p o " M a r c o s relata três milagres q u e Jesus rea-
ou " i m u n d o " (Lv 11). Atos 10:14 dá a enten- lizou q u a n d o ministrou aos gentios da re-
der q u e Pedro manteve a dieta kosher por gião de Tiro e Sidom. Essa é a única ocasião
vários anos, m e s m o depois de ter o u v i d o registrada em q u e Jesus deixa a Palestina,
essa verdade. N ã o é fácil mudar as tradições c o l o c a n d o em prática o q u e havia a c a b a d o
religiosas. de ensinar aos discípulos: não há distinção
O c o r a ç ã o h u m a n o é pecaminoso e dá entre judeus e gentios, pois todos são peca-
origem a desejos, pensamentos e atos per- dores e precisam do Salvador.
versos de toda espécie, desde o assassinato A expulsão de um demônio (Vv. 24-30).
até a c o b i ç a ( " u m olhar maldoso"). Ao con- D o s trinta e cinco milagres registrados nos
trário de alguns teólogos liberais e de pro- Evangelhos, quatro envolvem a participação
fessores humanistas de hoje, Jesus não tinha direta de mulheres: a cura da sogra de Pedro
ilusões sobre a natureza humana. Sabia q u e ( M c 1:30, 31); a ressurreição do filho da viú-
o h o m e m é pecador, incapaz de controlar va (Lc 7:11-17); a ressurreição de Lázaro (Jo
ou de mudar a própria natureza. Foi por isso 11); e a expulsão de um d e m ô n i o relatada
que veio ao mundo: para morrer pelos peca- nesta passagem.
dores perdidos. Jesus dirigiu-se a essa região (cerca de
As leis alimentares judaicas foram dadas 64 quilômetros de Cafarnaum) para ter um
por D e u s para ensinar o povo eleito a distin- p o u c o de privacidade, mas uma mulher afli-
guir entre o q u e era limpo e o q u e era imun- ta descobriu o n d e ele estava e buscou sua
do (sem dúvida, havia algumas implicações ajuda. Havia muitos obstáculos em seu ca-
práticas envolvidas, c o m o higiene e saúde). minho, mas ela venceu-os pela fé e r e c e b e u
A desobediência a essas leis causava impu- o q u e necessitava.
reza cerimonial, ou seja, exterior. A comida Em primeiro lugar, sua n a c i o n a l i d a d e
termina no estômago, mas o p e c a d o começa estava contra ela, pois era gentia, ao passo
no coração. Aquilo q u e ingerimos é digerido, q u e Jesus era judeu. Em segundo lugar, era
e os resíduos não aproveitados são elimina- uma mulher n u m a sociedade dominada por
dos, m a s o p e c a d o p e r m a n e c e e p r o d u z homens. Em terceiro lugar, Satanás estava
corrupção e morte. contra ela, pois um de seus demônios havia
Essa lição contrastando a verdade c o m assumido o controle da vida da filha dela.
a tradição causou ainda mais irritação nos Em quarto lugar, os discípulos estavam con-
líderes religiosos e aumentou seu desejo de tra ela, pois queriam q u e Jesus a mandasse
calar Jesus. A oposição crescente dos líde- embora, a fim de q u e lhes desse sossego.
res foi um d o s motivos q u e levou Jesus a A t é m e s m o Jesus parecia estar contra ela!
afastar-se das multidões e a levar seus discí- N ã o era u m a situação fácil, mas, m e s m o
pulos para território gentio. assim, a mulher triunfou por causa de sua
A n t e s de passar para a lição seguinte, grande fé.
p o d e ser proveitoso fazer um contraste entre Samuel Rutherford, pastor e s c o c ê s q u e
as tradições humanas e as verdades divinas. suportou muitos sofrimentos por Cristo, cer-
ta v e z escreveu a um amigo: " C a b e à fé ex-
Tradições humanas Verdades divinas trair a terna b o n d a d e de todos os golpes mais
Obediência exterior - Fé interior - liberdade duros de Deus". Foi exatamente isso o q u e
escravidão a mulher gentia fez, e hoje temos muito a
Regras superficiais Princípios fundamentais aprender c o m ela sobre a fé.
Piedade exterior Verdadeira santidade D a primeira v e z q u e a m u l h e r p e d i u
interior ajuda, Jesus n e m sequer lhe respondeu! In-
Negligência: a Palavra A Palavra de Deus é centivados pelo silêncio do Mestre, os discí-
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Quando Jesus falou, não foi à mulher, mas estímulo e de transformá-lo numa promessa
aos discípulos, e suas palavras pareciam cumprida. "Senhor, aumenta a nossa fé."
excluí-la completamente: "Não fui enviado A cura de um homem surdo (vv. 31-37).
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" A região de Decápolis ("dez cidades") tam-
(Mt 15:24). No entanto, nenhum desses bém era território gentio, mas quando Jesus
obstáculos impediu que ela insistisse em sua partiu dessa região, seu povo estava glorifi-
súplica. cando o Deus de Israel (Mt 15:30, 31). O
A mulher dirigiu-se a Jesus, inicialmente, homem levado até Jesus sofria de uma de-
como "Filho de Davi", um título judeu; da ficiência na audição e também na fala, e
segunda vez, porém, disse apenas: "Senhor, Jesus o curou. Esse milagre é registrado so-
socorre-me!" (Mt 15:25). Só então Jesus fa- mente em Marcos e deve ter sido apreciado
lou sobre alimentar em primeiro lugar os fi- de maneira especial por seus leitores roma-
lhos (Israel) e não jogar a comida deles para nos, pois a região das "dez cidades" tinha a
os "cachorrinhos". Jesus não estava chaman- mesma cultura e os mesmos costumes de
do os gentios de "cães", como faziam muitos Roma.
judeus orgulhosos. Antes, dava esperança a Jesus levou o homem para longe da
ela, e a suplicante gentia apegou-se a essas multidão para curá-lo em particular e para
palavras. que ele não se transformasse numa atração
A resposta da mulher revelou que a fé para o povo. Uma vez que era surdo, o ho-
havia triunfado. Não negou o lugar espe- mem não ouviu as palavras de Jesus, mas
cial dos "filhos" (judeus) no plano de Deus sentiu os dedos dele em seus ouvidos e o
nem mostrou qualquer pretensão de usur- toque em sua língua, estimulando, assim, a
pá-lo. Queria apenas algumas migalhas das sua fé. O "suspiro" foi um gemido interior,
bênçãos da mesa, pois, afinal, "a salvação a compaixão de Jesus diante da dor e so-
vem dos judeus" (Jo 4:22). O coração de frimento que o pecado havia trazido ao mun-
Jesus deve ter se enchido de alegria ao ouvi- do. Também foi uma oração ao Pai pelo
la usar palavras que ele havia proferido homem deficiente (a mesma palavra é usa-
como base para seu pedido! Ela aceitara da com respeito à oração em Rm 8:23, e o
seu lugar, crera na Palavra e persistira em substantivo em Rm 8:26).
sua súplica. Jesus não apenas supriu as ne- Efatá é uma palavra aramaica que signifi-
cessidades dela, como também a elogiou ca "abre-te, liberta-te". O homem não ouviu
por sua fé. Jesus falar, mas a criação ouviu a ordem do
É bastante significativo que, nas duas Criador, e o homem foi curado. Tanto a lín-
ocasiões nos registro dos Evangelhos que gua quanto os ouvidos voltaram a funcionar
Jesus elogiou uma "grande fé", ele o fez em normalmente. A maioria das pessoas a quem
resposta à fé de gentios, não de judeus: no Jesus ministrava não obedecia à sua instru-
caso dessa mulher siro-fenícia e no do ção clara para que se mantivesse calada
centurião romano (Mt 8:5-13). Também con- quanto ao milagre (ver Mc 1:34, 44; 3:12;
vém observar que, em ambas as situações, 5:43). Em decorrência disso, logo se juntava
Jesus curou à distância, sugerindo a distân- mais uma grande multidão com inúmeros
cia espiritual entre judeus e gentios naquele enfermos e deficientes. Apesar de estar
tempo (Ef 2:11, 12). Por fim, o povo de Tiro tentando descansar um pouco, Jesus curou
e de Sidom não era conhecido por sua fé todos, e, como resultado, os gentios "glorifi-
(Mt 11:21, 22), mas, mesmo assim, essa mu- cavam ao Deus de Israel" (Mt 15:31).
lher teve a coragem de crer que Jesus pode- A alimentação dos quatro mil (vv. 1-9).
ria libertar sua filha. Os críticos que procuram contradições na
Uma grande fé é aquela que crê na Pala- Bíblia geralmente confundem este milagre
vra de Deus e que não o deixa ir até que com aquele da alimentação dos cinco mil, re-
supra a necessidade. Uma grande fé é ca- gistrado nos quatro Evangelhos. Somente Ma-
paz de se apegar até mesmo ao mais ínfimo teus e Marcos relatam esse acontecimento,
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e não é difícil distingui-lo do outro milagre. religiosos do p o v o escolhido de D e u s tão


A primeira multiplicação ocorreu na Galiléia, endurecidos de c o r a ç ã o e espiritualmente
perto de Betsaida, e envolveu principalmen- cegos! O desejo de r e c e b e r um sinal do
te os judeus. Este milagre ocorreu perto de c é u não era apenas mais uma evidência da
Decãpolis e envolveu principalmente os gen- incredulidade deles, pois a fé n ã o p e d e si-
tios. No primeiro milagre, Jesus c o m e ç o u nais. A verdadeira fé c r ê na Palavra de D e u s
c o m cinco pães e dois peixes; aqui, temos e se contenta c o m o testemunho interior
sete pães e "alguns peixinhos". Os cinco mil do Espírito.
haviam passado um dia c o m o Mestre; aqui, U m a v e z q u e M a r c o s escrevia principal-
os quatro mil passaram três dias c o m ele. mente a leitores gentios, não incluiu as pala-
Na alimentação dos cinco mil, foram reco- vras de Jesus sobre o sinal do profeta Jonas
lhidos d o z e cestos de sobras; aqui, foram ( M t 16:4; e ver Mt 12:38-41). O que é "o
recolhidos apenas sete cestos depois q u e sinal de Jonas"? Morte, sepultamento e res-
quatro mil pessoas foram alimentadas. Até surreição. A prova de que Jesus é, verdadei-
m e s m o os cestos foram diferentes em cada ramente, q u e m diz ser é a realidade de sua
ocasião: para os cinco mil, foram usados ces- morte, sepultamento e ressurreição (At 2:22-
tos pequenos ( kophinos ); para os quatro mil, 36; 3:12-26).
foram usados cestos grandes, de tamanho Jesus deixou-os e passou para o lado les-
suficiente para colocar uma pessoa dentro te do mar da Galiléia. Durante a travessia,
{spuris, veja At 9:25). ensinou aos discípulos uma lição espiritual
M a i s uma vez, somos encorajados pela importante. Pareciam tão cegos quanto os
compaixão de Jesus e por seu controle ab- fariseus! Discutiam sobre quanta comida ti-
soluto sobre a situação. No entanto, somos nham c o m eles, pois alguém havia esqueci-
desencorajados pela cegueira e incredulida- do de comprar pão. Q u e m era o culpado?
de dos discípulos. A c a s o haviam se esqueci- Jesus deve ter se entristecido muito dian-
do do milagre anterior? Porém, não se d e v e te da falta de discernimento espiritual de
julgá-los c o m severidade, pois quantas ve- seus colaboradores. O fato de haver multi-
zes nós mesmos esquecemos as misericór- p l i c a d o pães em duas o c a s i õ e s e de ter
dias de Deus? É preciso lembrar q u e Jesus alimentado quase dez mil pessoas não havia
Cristo ainda é o m e s m o e q u e t e m a solu- causado qualquer impacto sobre eles! Por que
ç ã o para todos o