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M I S T I C I S M O l C I Ê N C I A l A R T E l C U L T U R A

PRIMAVERA 2018
Nº 306 – R$ 10,00

ISSN 2318-7107

São Columbano, os primórdios do


desenvolvimento da Europa

Criatividade e proteção
do planeta

Conto de Natal – Por que


repicavam os sinos?

La Vie – A Alegoria
do Amor de Picasso

A educação
espiritual

A disciplina pessoal
no Misticismo

A Rosa e a Cruz

A Verdadeira
Imaginação
na Alquimia

O Fazer Artístico
em Projeção no
Mundo Objetivo

Edição comemorativa de
N o dia 02 de agosto de 2018, Ano R+C 3371, a Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa veio a público para colo-
car em ação um conjunto de práticas de natureza metafísica, mas também de natureza física e operacional, de valoriza-
ção da vida, instando a busca por um mundo melhor e em prol de uma efetiva cultura de paz, em espírito de fraternidade. O
dia 02 de agosto foi escolhido por ser o Dia Nacional dos Rosacruzes no Brasil e, anualmente, terá atividades especiais que
pautarão o compromisso da AMORC em atuar em favor da Paz e da Fraternidade entre os povos. Atividades relacionadas a
este movimento estão sendo desenvolvidas e serão realizadas nos Organismos Afiliados da AMORC.

Você está convidado, como rosacruz, a atuar proativamente para o objetivo do movimento:
Ÿ Enviando vibrações de Paz para a Humanidade durante as atividades no seu Sanctum privado;
Ÿ Disseminando a cultura de Paz e Fraternidade em suas redes sociais, sejam elas físicas ou virtuais;
Ÿ Participando da atividade Luz, Vida e Amor no seu Organismo Afiliado;
Ÿ Colaborando e participando das iniciativas e atividades relacionadas ao tema nos Organismos Afiliados;
Ÿ Atuando com tolerância na expressão de seus pensamentos, palavras e ações.
n MENSAGEM

Prezados Fratres e Sorores


© AMORC

Saudações Rosacruzes!

Artigos filosóficos, místicos, científicos e artísticos têm sido a


tônica desta revista que completa 60 anos nesta edição. Repro-
duzimos a capa de “O Rosacruz” de verão de 1958 e é nesse
espírito de alegria que prefacio mais esta edição.
A revista “O Rosacruz” é um periódico dinâmico porque traz
artigos selecionados do Rosicrucian Digest, de revistas O Rosa-
cruz de outras Jurisdições, pensamentos mais recentes recebidos de várias Grandes Lojas
do mundo e do Imperator, Frater Christian Bernard como representante de maior autori-
dade da Suprema Grande Loja.
Leiam com atenção a revista e observem este permanente esforço por atender os gostos dos
que buscam conhecimento nas áreas de interesse do estudante rosacruz.
Estamos dando seguimento ao Movimento Rosacruz em prol da Paz e da Fraternidade,
através da publicação de um opúsculo que faz referência ao assunto e às fases durante o
ano desta campanha que visa contribuir para um mundo mais pacífico e fraternal.
Lembro a todos os rosacruzes que possuem condições para tal, que não deixem de conhecer
o Egito com a nossa Ordem – berço de uma das mais importantes partes de nossa Tradi-
ção. Teremos a XxII Viagem Místico-Iniciática Rosacruz ao Egito, de 27 de fevereiro a 19 de
março de 2019. Será em um período tranquilo para conciliar com férias.
Destaco também a Convenção Mundial em Roma, de 14 a 18 de agosto de 2019, com a insta-
lação do nosso novo Imperator, Frater Claudio Mazzucco, Grande Mestre de Língua Italiana.
Despeço-me desejando um Natal preenchido pelo Amor fraternal e um Ano Novo repleto
de realizações!

Sincera e Fraternalmente
AMORC-GLP

Hélio de Moraes e Marques


Grande Mestre

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


1
n SUMÁRIO

04 São Columbano, os primórdios do


desenvolvimento da Europa
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC 04
10 Criatividade e proteção do planeta
Por DANIEL PIERRE, FRC

14 Conto de Natal – Por que repicavam os sinos?


Por RAYMOND M. ALDEN, FRC

18 La Vie – A Alegoria do Amor de Picasso

18
Por RICK COBBAN, FRC

28 A educação espiritual
Por SERGE TOUSSAINT, FRC

32 A disciplina pessoal no Misticismo


Por RALPH M. LEWIS, FRC

36 A Rosa e a Cruz
Por ARTHUR C. PIEPENBRINK, FRC

28
39 Reunião anual da SGL
AMORC NO MUNDO

40 A Verdadeira Imaginação na Alquimia


Por DENNIS HAUCK, FRC

44 O Fazer Artístico em Projeção no Mundo Objetivo


Por JULIO MUNHOZ

48 Sanctum Celestial
“FAÇAMOS COM QUE O NATAL SE TORNE VERDADEIRO” por H. SPENCER LEWIS, FRC

52 Ecos do passado
UMA HOMENAGEM À HISTÓRIA DA AMORC NO MUNDO
32
2 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018
O
s textos dessa publicação não representam a palavra oficial da
AMORC, salvo quando indicado neste sentido. O conteúdo dos
artigos representa a palavra e o pensa­mento dos próprios autores
Publicação trimestral da e são de sua inteira respon­sabilidade os aspectos legais e jurídicos que
Ordem Rosacruz, AMORC
possam estar inter-relacionados com sua publicação.
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Bosque Rosacruz – Curitiba – Paraná Esta publicação foi compilada, redigida, composta e impressa na Ordem
Rosacruz, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Todos os direitos de publicação e repro­dução são reservados à Antiga
e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de
Língua Portu­guesa. Proibida a reprodução parcial ou total por qualquer meio.
As demais juris­dições da Ordem Rosa­cruz também editam uma revista
do mes­mo gênero que a nossa: El Rosacruz, em espanhol; Rosicru­cian
Digest e Rosicrucian Beacon, em inglês; Rose+Croix, em francês; Crux
Rosae, em alemão; De Rooz, em holandês; Ricerca Rosacroce, em italiano;
Barajuji, em japonês e Rosenkorset, em línguas nórdicas.
CIRCULAÇÃO MUNDIAL

Propósito da expediente
Coordenação e Supervisão: Hélio de Moraes e Marques, FRC
Ordem Rosacruz n

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma orga- n Editor: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
nização interna­cio­nal de caráter templário,
místico, cul­tural e fraternal, de homens e
n Colaboração: Estudantes Rosacruzes e Amigos da AMORC
mulheres dedicados ao estudo e aplicação

como colaborar
prática das leis naturais que regem o uni-
verso e a vida.
Seu objetivo é promover a evolução da
huma­nidade através do desenvolvimento
das potencia­lidades de cada indivíduo e
n Todas as colaborações devem estar acom­panhadas pela declaração do
propiciar ao seu estudante uma vida har- autor cedendo os direitos ou autori­zando a publicação.
moniosa que lhe permita alcançar saúde,
felicidade e paz.
n A GLP se reserva o direito de não publicar artigos que não se encaixem
Neste mister, a Ordem Rosacruz ofe- nas normas estabelecidas ou que não esti­verem em concor­dância com a
rece um sistema eficaz e comprovado de pauta da revista.
instrução e orientação para um profundo
auto­c onheci­mento e compreensão dos n Enviar apenas cópias digitadas, por e-mail, CD ou DVD. Originais não
processos que conduzem à Iluminação. serão devolvidos.
Essa antiga e especial sabedoria foi cui-
dadosamente preservada desde o seu n No caso de fotografias ou ilustrações, o autor do artigo deverá providenciar
desenvolvimento pelas Escolas de Misté- a autorização dos autores, necessária para publicação.
rios Esoté­ricos e possui, além do aspecto
filosófico e metafísico, um caráter prático. n Os temas dos artigos devem estar relacionados com os estudos e práticas
A aplicação destes ensinamentos está ao rosacruzes, misti­cismo, arte, ciências e cultura geral.
alcance de toda pessoa sincera, disposta a

nossa capa
aprender, de mente aberta e motivação
positiva e construtiva.

A capa desta edição da revista O Rosacruz,


que comemora seu sexagésimo aniversário
de publicação ininterrupta na Grande Loja
da Jurisdição de Língua Portuguesa, traz
uma reprodução de sua primeira edição
no Brasil, publicada no ano de 1958. A
Rua Nicarágua 2620 – Bacacheri ilustração que estampa a capa faz uma
82515-260 Curitiba, PR – Brasil
Tel (41) 3351-3000 / Fax (41) 3351-3065 alusão à Era Cósmica, com um retrato do
www.amorc.org.br físico teórico alemão Albert Einstein.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


3
n IMPERATOR

São Columbano
os primórdios do
desenvolvimento
da Europa
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC*

“Oh Deus, peço que me desperte da letargia da minha indolência, que


acenda o fogo do Amor Divino dentro de mim; que deixe a chama de
Seu Amor se elevar para além das estrelas, que o desejo de responder
à sua ternura infinita queime incessantemente em meu ser.”
– São Columbano, Século VI

N
a Antiga e Mística Ordem Rosae da origem deles. A Bíblia e outros textos sa-
Crucis fazemos referência a grados estão sempre à mão e nos deparamos
todas as religiões, uma vez que com os rostos e as vidas daqueles que são
elas são parte integral da história chamados de santos em locais e monumentos
do nosso mundo, sendo ela inseparável do que visitamos em qualquer lugar no mundo,
que, em termos gerais, é conhecido como “A disseminados pelos países que foram tocados
Tradição”, o que inclui o Rosacrucianismo. pelo Cristianismo. Embora não seja religiosa,
Estamos muitas vezes familiarizados com a AMORC está imbuída dessa cultura cris-
a história do Cristianismo e com os seus san- tã, assim como de outras: por exemplo, há
tos, mesmo que não estejamos trilhando esse referência à São João na Tradicional Ordem
caminho religioso específico. Ao longo dos Martinista. Portanto, por meio deste pequeno
séculos, essa história acabou tendo um pouco artigo, gostaria de familiarizá-lo com uma
mais a ver com cultura do que com assuntos figura que é menos conhecida que os santos
espirituais, e muitos provérbios e dizeres que que geralmente são mais mencionados, como
usamos na nossa linguagem cotidiana fazem São Pedro, São José, São João Batista. Essa
referência a isso, mesmo não nos lembrando figura é São Columbano.

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Nos últimos anos, quando estava na
Bretanha, no noroeste da França, tive
a oportunidade de dar uma volta pela
pequena e pitoresca aldeia chamada de
São Columbano (ou Saint-Colomban
em francês) bem próxima da pequena
cidade de Carnac que é famosa por
todo o mundo por seus alinhamentos
de megálitos. Naturalmente, refleti
sobre esse nome “Columbano”, que foi
de um monge irlandês que teve um
importante papel na evangelização de
vários países na Europa Ocidental, e
também foi renomado pelos seus feitos
humanitários e a visão que tinha da
unidade entre os povos. Como eu não
sou teólogo e não tive uma educação
aprofundada na história do Cristia-
nismo, nunca me interessei por essa
figura religiosa e histórica – embora
ele não seja tão conhecido como mui-
tas figuras na igreja, como mencionei
antes – mas como resultado do que
pensou, disse e fez, ele não foi apenas
um dos pilares do Cristianismo, mas
também fez parte dos próprios funda-
mentos do pensamento europeu.
No momento em que o conceito
de Europa está em evidência
São Columbano – mais do que nunca, com alguns
Janela da cripta da
Abadia de Bobbio
países querendo deixar esta
união de nações enquanto ou-
tros desejam fazer parte dela,
vale a pena considerar este assunto
e abordá-lo, não em termos estra-
tégicos ou econômicos, mas de for-
ma a analisar uma de suas raízes.
Infelizmente, este grande e maravi-
lhoso princípio de unidade entre povos
é idealizado muitas vezes com um espí-
rito de conquista, e consequentemente
por meio de guerras: muitos já tenta-
ram, incluindo Júlio César, Carlos Mag-
no, o imperador Carlos V, Napoleão

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


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n IMPERATOR

anos após sua morte, fez assim uma enorme


contribuição para a construção da Europa.
Totalizando quase 750 milhões, nós, eu-
ropeus, estamos espalhados por cerca de 50
países em um continente cuja história passa-
da, e especialmente a recente, é bem aterrori-
zante, apontada como tendo conflitos abomi-
náveis que resultam em milhões de vítimas,
um território que está dividido por fronteiras
políticas erguidas e derrubadas pelas guerras
que ninguém desejava – exceto, claro, aqueles
que tinham em si um interesse adquirido, ao
invés do interesse dos povos da Europa.
E ainda assim, ao longo dos séculos, mui-
Retrato de
tos sinais de esperança têm surgido. Novas
Comenius feito ideologias têm se entremeado com as anti-
pelo pintor
eslovaco Karol gas, e pouco a pouco tem se construído essa
Miloslav Lehotský união de nações feita de rápidas mudanças,
mas ainda com divisões preocupantes.
Diz-se que “Roma não foi construída em um
e outros... Felizmente, esse conceito utópico dia”, então o que pode se dizer da Europa?
também foi mantido vivo até agora, por meio Uma longa estrada tem sido percorrida e
da espiritualidade e de uma junção de mentes. ainda falta um longo caminho pela frente,
Nessa conexão, estamos familiarizados com mas se olharmos para trás com uma nova
pensamentos e ações e com o papel dos filó- perspectiva podemos ver e apreciar o que
sofos – incluindo a parte desempenhada pelo São Columbano contribuiu para a nossa
Rosacruz, Comenius – que trabalharam por civilização e para esse projeto que não é ape-
um mundo melhor e mais humanista e que nas a Europa dos povos, mas a Europa das
“sonharam” com um mundo pacífico. mentes e espíritos – ou melhor, “do espírito”.
Uma dessas pessoas é o homem que, de Dezenas de locais por todo mundo, gran-
sua própria maneira, iniciou o desenvolvi- des e pequenos, levam o nome de São Co-
mento da Europa: Columbano (Columbanus lumbano. São notáveis as homenagens feitas
ou Columbatlus em Latim). Como um verda- a ele, não apenas na Europa, mas em outros
deiro “Mensageiro de Deus”, ele encorajou a países, incluindo EUA, Canadá, Austrália,
união dos povos durante toda sua vida. Nesse Peru, Chile, Japão, China, entre outros, uma
ponto inicial da Idade Média, muitas vezes vez que seu trabalho estava em consonância
considerada como a “Idade das Trevas”, suas com o dos missionários ao longo dos séculos.
ideias levaram a uma aproximação entre as Hoje em dia, sua mensagem ainda está sendo
várias tribos ocupando Gália na época, as disseminada por meio de várias missões e or-
antigas colônias romanas e os novos reinos ganizações, e dezenas de obras foram escritas
criados depois das invasões dos bárbaros, e sobre ele. Pessoalmente, eu não as li, mas sei
também reuniu a religião de Cristo com as que elas existem e se esse assunto lhe interessa
religiões pagãs que ainda eram bem ativas. e se deseja saber mais sobre sua história, você
Columbano, que foi canonizado cerca de 30 deve conseguir encontrar essas obras no idio-

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ma que desejar. Há um ponto que gostaria fiéis pagãos e ao apelo de uma nova religião
de enfatizar: como não recebi uma educação que surgia. O século no qual Columbano nas-
religiosa tradicional, não sou um especialista ceu testemunhava uma revolução radical em
sobre a vida de São Columbano, ou de qual- uma terra tida como primitiva e retrógrada.
quer outro santo, a propósito; como mencio- Naturalmente, a Irlanda sentiu a influência
nei antes, eu não li nenhuma de suas obras; de Roma, assim como de outras civilizações,
não sei tudo sobre a vida e a jornada dele ou o com descobertas recentes revelando que vín-
que ele fez, mas a princípio simplesmente fui culos foram forjados não apenas com a Gália,
atraído por seu nome e então pelo principal mas também com o continente africano.
ideal que dele irradia, ou seja, a união dos Conhecido por ser um homem bem afei-
povos na partilha cultural e na paz. çoado, Columbano, ainda bem jovem, dire-
E há 1.400 anos, um desses pensamentos cionou seus pensamentos para o misticismo
inovadores permeou as mentes das pessoas e e para a vida monástica; um excelente aluno
salvou uma Europa que estava em crise, por em numerosas áreas, seu brilhantismo na
meio de ações e do trabalho de um monge ir- ciência, literatura e geometria fizeram dele
landês. Acompanhado de seus 12 discípulos, um eminente estudioso. Ao mesmo tempo,
Columbano percorreu parte desse continente ele nutria sua espiritualidade que se destaca-
que estava sendo consumido pelos conflitos va por sua devoção e, sentindo uma profunda
tribais. No caos de uma Europa dividida, ele e genuína vocação, ele passou a usar a veste
era um raio de luz. Ele apresentou um con- de monge com cerca de 20 anos de idade. Sua
ceito que era moderno, prático e redentor: busca interior o levou a adentrar à Abadia em
o da unidade e do humanismo. Ele estava Bangor, próximo a Belfast, lugar no qual ele
convencido de que os seres humanos podiam levou uma vida austera e devota. Columbano
progredir juntos e, superando suas diferen- tinha uma mente talentosa e visionária e era
ças, viver em paz. Certamente ele evangelizou conhecido por sua inteligência. Ele gostava
pessoas, mas sem usar armas ou tortura, ele das regras monásticas rígidas de estilo militar
não tinha hesitações em contrariar e repreen- e não se assustava com a dureza dos regula-
der reis e bispos, e até mesmo os Papas com mentos – bem ao contrário. O encanto por
quem se encontrou ao longo de seu périplo. seu monastério era para ele, acima de tudo,
Columbano nasceu em uma família o ensinamento que ele conseguia obter dos
afortunada nos anos 543, na província de manuscritos em seu scriptorium.
Aileach no nordeste da Irlanda, uma terra
que já havia deixado de ser um lugar remoto,
fustigado pelo vento – bem ao contrário, era Abadia de Bangor
uma sociedade com uma rica cultura. Era um na Irlanda do Norte,
Reino Unido.
dos poucos países ocidentais que não foram
conquistados pelos romanos. Longe de tudo,
a Irlanda do século VI ainda transbordava
antigos costumes que geralmente eram seve-
ros e violentos. Os Druidas, que haviam sido
governantes absolutos até aquela época, gra-
dualmente deram espaço para o pensamento
cristão. Foi nesse ambiente de profunda mu-
dança que Columbano foi criado, em meio a

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n IMPERATOR

atravessou a Inglaterra, onde pregou sua dou-


trina por meio do trabalho que lá realizou.
Por volta de 585 ele desembarcou na costa
francesa, na Bretanha, e evangelizou a antiga
Gália com suas ideias particularmente re-
volucionárias e inovadoras e com uma força
espiritual incomum.
Em um exílio do qual ele nunca retornou,
por todo o ocidente da Europa ele viajou. Seu
pequeno grupo de monges também foi para
outros lugares como Reims, Ruão, Soissons
e outros lugares importantes. Ele foi bem re-
cebido e criou laços com o Rei dos Francos,
Clotário II. A reputação de Columbano era
tão grande que o Rei de Orleans e Borgonha,
assim como vários bispos, lhe pediram que
Abadia de São
construísse monastérios. Era sempre igual,
Columbano em onde quer que ele fosse. Ele fez um apelo para
Bobbio, Itália.
um comedimento dos reis e do clérigo e se
opôs abertamente aos bispos merovíngios.
Em certos momentos colocou sua vida em pe-
Todos notavam sua presença e gostavam rigo ao criticar aqueles no poder que fracas-
dele e foi com grande pesar que seus líderes saram em aderir às regras, o que geralmente
concordaram com seu pedido de viajar e levava a uma vida de violência e devassidão.
levar o pensamento cristão para além de seu Sua grande capacidade de persuasão lhe
próprio país, pois assim seriam privados de abriu fronteiras e portões de palácios e o que
sua presença e influência em tudo na comu- ele dizia tocava o coração daqueles que o ou-
nidade. Na tradição dos monges viajantes, viam. Depois da Rainha Brunilda ter ordena-
Columbano sentiu que tinha uma missão e do que deixasse suas terras em razão de uma
não teve medo de deixar seu monastério, seus diferença de opinião, Columbano recebeu a
colegas e seu país, a Irlanda. permissão de Quildeberto II, Rei da Austrá-
Foi neste ponto do período medieval, no sia, que era na época a parte oriental do reino
qual muitas terras viam o fim do império ro- dos Francos, para morar por um tempo em
mano e muitas pessoas ainda estavam imer- seu reino e foi mais longe que Vosges. Reali-
gidas nas antigas religiões ou em tradições zou vários bons trabalhos, abrindo uma área
primitivas e pagãs, que surgiu no coração na mata para construções, educando a po-
de Columbano uma outra visão do mundo, pulação local, tratando dos doentes e assim
outra fé, outros conceitos de nações. Ele sa- por diante. Em 587 Columbano fundou um
bia no fundo de seu ser que todas as pessoas monastério no antigo castelo no local sagra-
formam uma única unidade e que a união do de Annegray, construído no topo de um
dessas nações era possível. antigo templo romano localizado na base da
Portanto, com forte convicção, ele iniciou montanha Saint-Martin. Em 590 ele fundou
sua jornada em 580, acompanhado de seus um novo monastério em Luxeuil no lugar de
discípulos. Ele cruzou o Mar da Irlanda e uma igreja cristã erguida no século V, próxi-

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ma a águas termais terapêuticas que existem sidade, determinação e força de espírito desse
até hoje. Ele, então, construiu um terceiro viajante e incansável construtor.
monastério, seguido de vários outros por Em 1929 foi publicado na revista Rose-
toda a Europa, criando assim uma base mais Croix um artigo de François Jollivet-Castellot
consolidada. Ele viajou por vários países, intitulado “Os Estados Unidos da Europa”.
disseminando constantemente a ideia de paz Segue aqui um breve trecho:
entre os povos e unidade entre nações.
Na companhia de seus colegas, monges Os povos da Europa hoje não são tão
viajantes que, por seu exemplo, foram ins- diferentes a ponto de terem que eliminar
pirados a seguir o chamado, ele levou uma uns aos outros ou lutarem entre si. Bem
vida que era contemplativa, assim como ativa ao contrário, a essência de seus concei-
a serviço de outros e de sua fé. Com grande tos e de sua herança é compartilhada,
convicção continuou seu trabalho de evan- em razão da maneira com que as coisas
gelização por toda sua vida. Assim como era evoluíram em termos étnicos, econô-
em sua juventude na Irlanda, ele era admi- micos e até mesmo geográficos. Todos
rado por aqueles a seu redor que o ouviam e os interesses podem e devem então tra-
nele acreditavam ao ponto em que sua since- balhar juntos para definir uma Europa
ridade penetrava seus corações. que é unida e melhor, próspera e pacífi-
Suas virtudes eram contagiosas e a sua ca, na qual países e pessoas encontram
conduta, assim como a de seus companheiros, segurança em estabilidade e contenta-
inspirava devoção e todos desejavam seguir mento, ao menos relativamente, no tra-
seu exemplo. Com sua impressionante com- balho adotado no âmbito de formas de
preensão da alma humana, Columbano era governo verdadeiramente democráticas.
muito astuto politicamente e sabia como ter
uma influência positiva naqueles com quem Essa visão de futuro, inspirada pela
interagia: era por isso que reis e pessoas de grande tragédia da I Guerra Mundial (1914
poder o escutavam e seguiam seus conselhos. a 1918) pela qual a Europa havia passado,
Ele continuou seu trabalho, principalmente já existia nos séculos passados nas mentes
na Alemanha, Áustria, Suíça e Itália, até sua de muitos homens e mulheres, conhecidos
morte aos 72 anos de idade, que dizem ter e desconhecidos, em forma de esperanças,
acontecido no dia 21 de novembro de 615 em preces, uma atração instintiva e natural pelo
Bobbio, onde o rei de Lombardo havia lhe que é Bom. São Columbano foi uma dessas
concedido um pedaço de terra para que esta- “pessoas de boa vontade”, com um coração
belecesse um monastério. Esse foi, então, o seu repleto de sentimentos gentis e altruístas.
último trabalho e o último lugar onde viveu. Assim como São Columbano e os Ro-
Columbano deixou inúmeros escritos, sacruzes do passado, que nós, homens e
que devem ser abordados no contexto da mulheres do século XXI, também possamos
época, assim como de sua vocação religiosa. encontrar dentro de nós a inspiração, ener-
Pela sua visão de “universalidade” e seu espí- gia e determinação para criar um mundo
rito pacífico, algo raro na sua era, é que deve- mais feliz, justo e nobre. Que assim seja!
mos considerar o trabalho e o espírito desse
homem que deixou sua marca no seu tempo. Janeiro de 2018
Não tenho a coragem nem o desejo de viver Christian BERNARD
como São Columbano, mas admiro a genero- Imperator. 4

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9
n ECOLOGIA ESPIRITUAL

Criatividade
e proteção do planeta
Por DANIEL PIERRE, FRC

10 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


T
odos os aspectos de nossa criatividade serão solicitados
para responder aos problemas ambientais vividos por nosso
planeta há algumas décadas. A necessidade de proteção
do planeta é um apelo veemente e urgente que deve ser
ouvido e ao qual não estamos praticamente preparados.
Movimentos espiritualistas contemporâneos, e entre eles a Ordem
Rosacruz, reagiram fortemente a este novo dado e têm, de várias
maneiras e repetidas vezes, manifestado sua posição sobre este
tema. Faz-se necessário precisar, aliás, que a grande maioria dos
espiritualistas se sensibilizou ante a necessidade de ter uma outra
visão sobre o meio ambiente natural. Isto se explica pela estreita
ligação que existe entre a espiritualidade e educação ambien-
tal. Efetivamente, os seres humanos e a totalidade das formas de
vida estão em íntima interdependência de natureza espiritual.
Analisemos agora como a criatividade pode par-
ticipar nesta evolução vital para todos nós.
A amplitude e a dificuldade do problema poderão nos le-


var a decretar que não somos capazes de enfrentar o desa-
fio. Outros pensarão que são unicamente os dirigentes dos
diferentes países que estão em condição de encontrar as
…a
soluções adequadas. Essas declarações revelam uma falta criatividade é o
de confiança em si e uma recusa em assumir suas respon-
sabilidades. Em contrapartida, a posição mais razoável maior poder que
consiste em ver que cada um de nós, à sua medida e de
acordo com os seus talentos ou competências, deve assu-
o homem pode
mir a sua cota na progressiva resolução do problema.
À solução apropriada, não sendo ainda conhecida,
deveremos fazer tentativas. Tentativas são inerentes à
criatividade e não devem nos amedrontar. Para avançarmos,
manifestar.

uma introspecção pessoal pode ser feita, por exemplo, a partir
da lista dos seguintes pontos. Obviamente, esta lista é um esboço
a ser aprimorado de acordo com a disponibilidade de cada um:

Pôr em prática o aspecto “expressivo”


da criatividade pode ser:
n Expressar seu maravilhamento diante da Criação;
n Respeitar as áreas naturais;
n Mostrar prazer em contemplar belas paisagens;
n Exteriorizar seu interesse pela riqueza da biodiversidade;
n Manifestar consideração pela vida animal;
n Falar com entusiasmo das melhorias ambientais…

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


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n ECOLOGIA ESPIRITUAL

Recorrer ao aspecto “produtivo” da criatividade pode ser:


n Sensibilizar os outros para as questões ambientais;
n Organizar debates e participar de encontros;
n Preparar uma palestra e apresentá-la em público;
n Escrever artigos sobre o estado do planeta em diversas publicações;
n Criar um blog ou um site sobre o meio ambiente;
n Escrever ou compilar poemas sobre a natureza;
n Fotografar ou pintar paisagens;
n Manter um livro de registro sobre o meio ambiente a partir de observações;
n Elaborar uma agenda de notas e lembretes sobre a biodiversidade;
n Criar um jardim e dar-lhe visibilidade…

Aplicar a criatividade “inventiva” pode ser:


n Modificar e adequar seu estilo de vida em conformidade com as regras de uma vida sadia;
n Dar prioridade às tecnologias não poluentes;
n Apoiar novos experimentos;
n Reciclar objetos dando-lhes nova função;
n Inventar receitas culinárias visando evitar o desperdício de alimentos…

Desenvolver a criatividade “inovadora” pode ser:


n Introduzir novas práticas de jardinagem;
n Pensar em uma nova maneira de consumir;
n Procurar reduzir o impacto ambiental;
n Encontrar modos de educar no respeito à natureza…

Promover a manifestação da criatividade


“emergente” pode ser:
n Compreender e integrar o princípio de desenvolvimento sustentável;
n Definir regras comportamentais respeitosas;
n Privilegiar compras locais e de produtos da estação;
n Apoiar um comércio mais equitativo;
n Ser portador de uma grande utopia em relação ao futuro do mundo…

12 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


Estar aberto à criatividade
“imanente” pode ser:
n Ouvir e seguir os impulsos de sua alma;
n Meditar pelo futuro da Terra;
n Harmonizar-se com as vibrações da natureza;
n Perceber o divino em todo ser vivo;
n Discernir as ligações espirituais
que existem na Criação…

Ao final desta introspecção, verifica-se clara-


mente que a criatividade é o maior poder que
o homem pode manifestar. Neste sentido,
estudos efetuados internacionalmente desta-
caram a responsabilidade e a influência que
os espíritos criativos têm sobre a civilização.
Desses estudos resultou, a partir de uma lista de
perguntas elaboradas pelos pesquisadores, uma
espécie de relatório da manifestação da criativida-
de. Basicamente, um quarto da população dos países
ocidentais parece responder a um mínimo de critérios
permitindo classificar tais pessoas no grupo dos cria-
tivos. Além disso, a análise dos resultados da pesquisa
identifica um subgrupo formado por pessoas criativas
com orientação ambientalista. Ela também chega à se-
guinte conclusão: entre os criativos ambientalistas, en-
contramos os espiritualistas que, de alguma maneira,
representam o coração do grupo dos criativos. Esses
estudos foram feitos mais uma vez e mostraram
uma progressão do número de pessoas classifi-
cadas nestas “linhas de pensamento”, o que nos
permite imaginar que suas ações têm uma im-
portância cada vez mais forte para a mudança
cultural que deve operar-se em vários planos,
especialmente no que tange à proteção do pla-
neta. É preciso considerar que este fenômeno
vai se ampliar, já que as crianças, ao entrarem
no mundo adulto, vão dar prosseguimento ao
trabalho iniciado. A educação, por conseguinte,
tem papel fundamental em tudo isso… 4
* Excerto do livro “A criatividade no centro de
nossa vida”, publicado pela AMORC.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


13
n LITERATURA

Por que repicavam


os sinos?
Por RAYMOND M. ALDEN, FRC*

14 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


H
avia em determinada época, em Todas as pessoas, no entanto, sabiam
um país muito distante que poucas que no alto da torre havia um carrilhão de
pessoas conheciam, uma igreja Natal que fora instalado quando terminou a
maravilhosa. Estava situada em construção da igreja, e que era o mais lindo
uma alta colina no meio de uma grande ci- carrilhão do mundo. Alguns pensavam que
dade, e todos os domingos, assim como nos isto era devido ao fato de que um grande
dias santificados como o Natal, milhares músico havia fundido os sinos e planejado a
de pessoas subiam a colina em direção às sua colocação. Outros diziam que era devido
suas arcadas, parecendo fileiras de formigas à grande altura em que estavam os sinos,
que se movimentavam em sua direção. onde o ar era mais rarefeito e mais puro; fos-
Ao se chegar ao edifício em si, era pos- se como fosse, porém, ninguém que tivesse
sível notar colunas de pedra, passagens ouvido o som dos sinos poderia negar que
escuras, e um grande vestíbulo que leva à era o som mais doce do mundo. Algumas
nave principal da igreja. Esta nave era tão pessoas descreviam-no como semelhante à
comprida que uma pessoa que se situasse voz dos anjos; outras, como o som de ventos
na entrada dificilmente poderia ver a outra peculiares sibilando através das árvores.
extremidade onde o coro estava instalado Acontecia, porém, que ninguém havia
ao lado do altar de mármore. Na parte ouvido o repicar dos sinos há muitos anos.
mais distante, estava o órgão. Esse órgão Um ancião que vivia perto da igreja con-
emitia som tão forte que muitas vezes, ao tava que sua mãe havia mencionado tê-los
tocar, as pessoas a milhas de distância fe- ouvido quando ainda era moça, e era ele a
chavam as janelas e se preparavam como única pessoa que disso tinha certeza. Tra-
se um grande temporal fosse desabar. tava-se de um carrilhão de Natal e, assim,
Igreja semelhante a essa jamais havia sido os Sinos não deveriam ser repicados pelos
vista, especialmente quando estava ilumi- homens ou em dias comuns. Era costume na
nada para alguma festividade e repleta de véspera de Natal, todas as pessoas levarem
pessoas, moços e velhos. Todavia, a coisa à igreja suas oferendas ao Menino-Deus;
mais singular com respeito a todo o edifí- quando a melhor e mais nobre oferta era
cio era o maravilhoso repicar dos sinos. colocada sobre o altar, costumava-se ouvir,
Em uma das extremidades da igreja ha- misturado com a música do coro, o som do
via uma grande torre cinzenta, recoberta de carrilhão de Natal no alto da torre. Alguns
hera que sobre ela havia crescido até a altura diziam que era o vento que fazia com que
que se podia divisar. Digo até o pomo que se os sinos repicassem, e outros que eles esta-
podia divisar porque a torre era realmente vam tão altos que os anjos podiam fazê-los
muito alta para manter proporção com a badalar. Todavia, durante muitos anos o
imensa igreja, e se elevava tão alto no céu que seu som não havia sido ouvido. Dizia-se
somente em tempo muito bom é que alguém que as pessoas haviam se tornado cada vez
poderia afirmar ter podido ver a sua ponta. menos preocupadas com as oferendas para
Mesmo então, ninguém poderia estar segu- o Menino-Deus, e que nenhuma das ofer-
ro de que ela era visível. Mais e mais para o tas feitas era suficientemente importante
alto, as pedras e a hera se elevavam; e, como para provocar a música do carrilhão.
os homens que construíram a igreja tinham Toda véspera de Natal, as pessoas abas-
morrido há centenas de anos, todos tinham tadas ainda se amontoavam no altar, cada
se esquecido da altura que a torre devia ter. uma procurando fazer melhor oferta que

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


15
n LITERATURA

a outra sem se desfazer daquilo que real- fez de um monte uma espécie de travesseiro
mente queriam para si mesmas, e a igreja para ela, e cedo ela adormeceria profunda-
estava repleta de pessoas que pensavam mente no ar gelado e ninguém mais poderia
que talvez os maravilhosos sinos pudes- acordá-la. De tudo isto Pedro se apercebeu
sem, uma vez mais, ser ouvidos. Todavia, em um instante. Ajoelhou-se ao lado da
embora o serviço fosse esplêndido e inúme- mulher, procurou animá-la puxando um
ras as oferendas, apenas o sibilar de vento pouco seu braço, como se tentasse fazê-la
podia ser ouvido no alto do campanário. andar. Voltou o rosto da mulher em sua
A poucas milhas distante da cidade, em direção para poder retirar a neve que sobre
um pequeno povoado onde nada poderia ser ela caíra, e quando olhou fixamente para
visto da grande igreja exceto vislumbres da ela por um instante, ficou de pé e disse:
torre quando o tempo estava bom, vivia um
menino chamado Pedro, e seu irmãozinho. – Não adianta, irmãozinho, você terá de ir só.
Eles muito pouco sabiam a respeito do carri-
lhão de Natal, porém tinham conhecimento – Só? – Indagou o irmãozinho. – E
do serviço religioso da véspera de Natal, e você não vai assistir a festa de Natal?
conceberam um plano secreto que frequen-
temente haviam discutido quando a sós, – Não – Respondeu Pedro, sem poder con-
para ir assistir a deslumbrante celebração. trolar a emoção que lhe embargava a voz.
“Ninguém pode imaginar, irmãozinho”,
Pedro repetidas vezes dizia, “todas as coisas – Olhe para esta pobre mulher. Seu rosto
lindas que lá se pode ver e ouvir. Cheguei parece o da madona que está no vitrô da ca-
mesmo a saber que o Menino-Deus algu- pela, e ela morrerá de frio se ninguém dela
mas vezes desce para abençoar o serviço. cuidar. Neste momento, todos já devem
Que bom seria se pudéssemos vê-lo, não?” estar na igreja, porém quando você voltar
A véspera de Natal foi um dia de frio deverá trazer alguém para socorrê-la. Vou
rigoroso, com uns poucos flocos de neve friccioná-la para evitar que ela fique gelada,
isolados esvoaçando o ar e uma dura crosta e tentar fazê-la comer o doce de passas que
branca no chão. Cheios de determinação, tenho no bolso.
Pedro e o irmãozinho silenciosamente es-
capuliram nas primeiras horas da tarde; e, – Mas eu não posso me separar de você
embora a caminhada fosse penosa com o ar e ir sozinho! – disse o irmãozinho.
muito frio, antes do anoitecer haviam ca-
minhado tanto, de mãos dadas, que podiam – Não é necessário que nós dois dei-
ver as luzes da grande cidade à sua frente. xemos de assistir o serviço – retrucou
Estavam, na verdade, para cruzar um dos Pedro – e é melhor que fique eu do que
grandes portões da muralha que a circunda- você. Você facilmente chegará à igreja
va, quando viram algo escuro sobre a neve e deverá ver e ouvir tudo em dobro, ir-
a perto do caminho em que se achavam e mãozinho, uma vez por você e outra por
para lá encaminharam-se para ver o que era. mim. Estou certo de que o Menino-Deus
Encontraram, então, uma pobre mulher deve saber como me sentiria em ir com
que havia caído às portas da cidade, por de- você para adorá-lo, e, ouça, se tiver pos-
mais doente e cansada para que pudesse nela sibilidade, irmãozinho, dirija-se ao altar
penetrar e procurar abrigo. A neve macia sem ser visto e sobre ele coloque esta

16 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


pequena moeda de prata como minha agora o carrilhão, pois nenhuma oferen-
oferenda. Não se esqueça de onde estou da comparável a esta foi feita antes”.
e perdoe-me por não o acompanhar. Não obstante, somente o frio e costumei-
ro vento era ouvido na torre, e as pessoas
Com essas palavras, apressou o irmão- balançavam a cabeça; algumas delas
zinho para que se dirigisse à cidade diziam, como já tinham dito antes,
e piscou muitas vezes para con- que jamais realmente acredita-
ter as lágrimas ao ouvir cada ram na história do carrilhão,
vez mais fraco o ruído de e tinham dúvidas se os sinos
suas passadas na hora do jamais chegaram a repicar.
crepúsculo. Era muito do- A procissão terminou;
loroso perder a música e o e o coro deu início ao
esplendor das festividades hino de encerramento.
de Natal com que durante Subitamente, o organista
longo tempo havia sonha- parou de tocar, e todos
do, e passar o tempo naque- dirigiram o olhar para o
le local solitário, na neve. velho ministro que estava
A imensa igreja estava des- de pé ao lado do altar pedin-
lumbrante aquela noite. Todos do silêncio. Nenhum som podia
diziam que ela jamais havia parecido ser ouvido, partindo de qualquer das
tão esplendorosa e bela. Quando o órgão pessoas presentes, porém quando todos se
tocava e milhares de pessoas cantavam, concentraram como que para ouvir algo,
as paredes tremiam com a vibração, e o fez-se ouvir suave, porém distintamente,
pequeno Pedro, distante dos muros da ci- através do ar, o som do carrilhão da torre.
dade, sentiu a terra tremer ao seu redor. Tão distante e, não obstante, tão clara pare-
Ao término do serviço, começou a cia a música, tão mais doces eram a notas do
procissão com as oferendas a serem depo- que qualquer outra coisa que antes tivesse
sitadas no altar. Homens ricos e grandes sido ouvida, elevando-se e perdendo-se no
homens caminhavam imponentemente céu, que as pessoas permaneceram sentadas,
para oferecer seus presentes ao Menino- tão imobilizadas como se algo retivesse cada
Deus. Alguns traziam joias maravilhosas, uma delas pelos ombros. Em seguida, levan-
outros cestas de ouro tão pesadas que difi- taram-se todas ao mesmo tempo, e concen-
cilmente podiam carregar através da nave traram o olhar exclusivamente no altar para
da igreja. Um grande escritor depositou ver qual a importante oferenda que havia
o livro que estivera escrevendo durante despertado os sinos há muito silenciosos.
anos. E, finalmente, chegou a vez do rei do Todavia, tudo o que os que mais perto
país, que esperava, como todos os demais, se encontravam puderam ver foi o irmão-
provocar o repicar do carrilhão de Natal. zinho que, cautelosamente, caminhara
Um prolongado murmúrio fez-se ouvir na pela nave da igreja quando ninguém esta-
igreja quando as pessoas viram o rei tirar va olhando e havia depositado a pequena
da cabeça a coroa real, toda incrustada moeda de prata de Pedro sobre o altar. 4
com pedras preciosas, e colocá-la sobre o
altar como sua oferenda ao Menino-Deus. * Publicado originalmente na revista “O Rosacruz”,
“Certamente” diziam todos “iremos ouvir edição de junho de 1972.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


17
n PESQUISA

La Vie
A Alegoria do Amor
de Picasso
Por Rick cobban, frc

P
icasso foi emocionalmente devastado
pela morte de seu amigo e artista
Carlos Casagemas. Como jovens
artistas, Casagemas e Picasso eram
inseparáveis amigos da Catalunha, que ex-
ploravam todas as liberdades e novas ideias
que floresceram em Paris e que sua Espanha
nativa não oferecia. Profundamente afetado
pelo suicídio do seu amigo íntimo, Picasso
imediatamente começou a pintar retratos
fúnebres de Casagemas entre julho e no-
vembro de 1901. Essas obras cruas, como a
Morte de Casagemas, trazem as influências de
Lautrec e Van Gogh. Na pintura Evocação: o
funeral de Casagemas podem ser encontradas
as influências de El Greco e Odilon Redon.
Todos esses desenhos e pinturas culminaram
em maio de 1903, quando Picasso pintou La
Vie ou “Vida” em Barcelona. Muitos con-
sideram La Vie a primeira obra-prima de
Acima, retrato de Pablo
Picasso no ano de 1962 e à Picasso. É certamente uma das pinturas mais
direita, página seguinte, a obra
“La Vie” (A Vida em português)
abertas à interpretação criadas por qual-
concebida em 1903. quer grande artista durante o século XX.

18 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ
19
n PESQUISA

O contexto
histórico
da arte
de La Vie
A trágica história por trás
de La Vie é a história da
iniciação de Casagemas e
Picasso nas oportunida-
des e responsabilidades
da vida. O jovem Carlos
Casagemas se apaixona
obsessivamente por Ger-
maine Pichot, modelo de
artistas e lavadeira. Ela
então o rejeita por causa
do seu comportamento
possessivo e sua incapa-
cidade de satisfazê-la.
Picasso e Casagemas
retornam à Espanha, mas
Casagemas volta a Paris
antes de Picasso porque
este conseguiu um traba-
lho artístico em Barcelo-
na. Casagemas, depois de
ser rejeitado novamente,
oferece um jantar em
Montmartre, onde ele
está em uma mesa e atira
em Germaine com uma
“Evocação – O funeral pistola. Ele sente a falta
de Casagemas”, por
Pablo Picasso.
de Germaine e pensan-
do que ela está morta,
vira a pistola contra si
e dispara uma bala na
cabeça, suicidando-se. Germaine, sobrevivente e após o retorno de Picasso, inicia um relaciona-
mento com ele, o que teria um efeito a longo prazo sobre o artista, embora ele tenha negado isto.
Picasso foi profundamente influenciado pelas tragédias em sua vida: o suicídio de Casagemas, a
morte prematura de sua irmã, o suicídio de Vincent van Gogh em 1890 e o destino de Paul Gauguin
como artista boêmio alienado. Falando da inspiração de Picasso na época, Jaime Sabartés disse: “Pi-

20 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


casso acredita que a arte emana da tristeza e chamado “Período Azul”, de 1901 a 1904. Ele
da dor… que a tristeza se presta à meditação, e reinventaria sua linguagem visual muitas vezes
que a dor está nas profundezas da arte”. durante os períodos Rosa, Primitivo, Cubista,
Ingo Walther acredita que o “Período Neoclássico, Surrealista e posteriores de sua
Azul” de Picasso começou com a pintura longa e inovadora carreira durante o século
da Evocação: o funeral de Casagemas. Carl XX. De fato, se Picasso tivesse criado apenas o
Jung disse sobre esta pintura: “Assim, Picasso corpo de trabalho de suas pinturas do Período
começa com as imagens ainda objetivas do Azul, teria se tornado um dos grandes artistas
Período Azul – o azul da noite, do luar e da do século passado, mesmo que nunca tivesse
água, o azul tuat-blue do submundo egíp- produzido outra pintura durante a sua vida.
cio. Ele morre, e sua alma galopa a cavalo o Buchholz e Zimmermann dizem que La
além… onde ele, como uma alma falecida, Vie é “uma imagem da mais profunda me-
encontra outros de sua espécie”. Picasso afir- lancolia e da tragédia. La Vie não está aberta
mou: “Comecei a pintar em azul, quando a uma interpretação direta. Os referenciais
percebi que Casagemas havia morrido”. A cor biográficos são submersos em uma medita-
azul tem um significado poderoso e Picasso ção sombria sobre a vida, a morte, o amor e
se recusou firmemente a dar uma explicação a maternidade. Trabalho mais importante do
do significado de suas pinturas azuis. Período Azul, essa grande pintura é o epíteto
A especulação sobre o simbolismo da cor dessa fase no desenvolvimento de Picasso”.
azul existe há muito tempo na arte. O Rosa-
cruz Goethe, em 1810, escreveu que: “A expe-
riência nos ensina que cores particulares resul- La Vie – Uma
tam em humores particulares… Para experi-
mentar plenamente os efeitos individuais sig- alegoria do Amor
nificativos, é preciso inundar completamente o Alguns interpretaram La Vie como uma ale-
olho com uma cor, por exemplo, colocando-se goria do amor: o amor de Picasso à pintura,
em uma sala de uma cor, ou olhando através o amor do seu amigo perdido Casagemas,
de um vidro colorido… O vidro azul nos seu amor por Germaine e talvez, acima de
mostra objetos em uma luz triste”. Enquanto tudo, o amor pelo mistério da própria vida.
o psicanalista Carl Jung interpretou o azul de Foi interpretada como uma alegoria da
Picasso como uma expressão do inconsciente, escolha entre o amor sagrado e o profano.
“o azul da noite, da luz da lua e da água”. Picas- Em outro nível, as figuras da pintura são
so criou com sucesso uma linguagem estética símbolos que descrevem alguns dos sete ti-
com a melancolia azul romântica das trágicas pos de amor originalmente descritos pelos
figuras transcendentes em suas pinturas do sábios do antigo Egito, Grécia e Roma.

“ Picasso sucessivamente transformou La Vie de um


retrato sobre a vida de estúdio do artista boêmio em
uma alegoria de amor, vida, morte e transcendência.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ
21
n PESQUISA

n Eros: amor apaixonado. Este é o tipo mais próximo de nossa


construção moderna do amor romântico. No mito grego, é uma
forma de loucura provocada por uma das flechas de Cupido. A
flecha nos atravessa e nós “caímos” em amor, como Casagemas por
Germaine, levando ao trágico suicídio de Casagemas e os conflitos
internos de Picasso por causa de seu relacionamento com ela, que
o artista tenta exorcizar no processo de pintar La Vie. Os dois
amantes do lado esquerdo de La Vie simbolizam eros.

n Ludus: é o amor brincalhão! Ludus é o amor brincalhão ou


descomprometido! Pode envolver atividades como provocar e
dançar, ou flertar mais abertamente. Esta expressão de amor está
ausente em La Vie.

n Pragma: é um tipo de amor prático, maduro e duradouro,


fundado na razão ou no dever e em interesses de longo prazo. A
atração sexual fica em segundo plano em favor de qualidades e
compatibilidades pessoais, compartilha objetivos e faz com que o
relacionamento funcione. Na situação de casamentos arranjados,
pragma deve ter sido muito comum. Muitos relacionamentos
começam com eros ou ludus, e evoluem para várias combinações de
storge e pragma. Os dois amantes à esquerda de La Vie representam
tanto pragma quanto eros?

n Philia: A marca registrada de philia ou amizade é a boa vontade


compartilhada. Aristóteles acreditava que uma pessoa pode ter boa
vontade com outras por uma das três razões – porque elas são úteis;
porque elas são agradáveis; e, acima de tudo, porque elas são boas, isto
é, racionais e virtuosas. A amizade fundada no bem está associada não
apenas ao benefício mútuo, mas também ao companheirismo, segu-
rança e confiança. Para Platão, o melhor tipo de amizade é aquele que
os amantes têm um pelo outro. É uma philia nascida de eros, e que
por sua vez alimenta o eros para fortalecê-lo e desenvolvê-lo, transfor-
mando-o de um desejo por possessão em um desejo compartilhado
por um nível mais elevado de compreensão do self, do outro e do
mundo, isto é, em essência, transmutado em um impulso maior para a
filosofia espiritual. As duas figuras que se abraçam na pintura superior,
atrás das figuras principais de La Vie, consolam-se uma à outra na
fraternidade da philia. Era essa a compaixão reconfortante da amizade
que Picasso precisava para resolver a perda do amigo próximo e a cul-
pa que ainda sentia pelo seu relacionamento com Germaine?

n Storge: Outro tipo de philia, às vezes chamado de storge, in-

corporava o amor entre pais e filhos. Isso também é chamado de

22 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


amor familiar. Storge (“store-gae”), ou amor familiar, é uma espé-
cie de philia relativa ao amor entre pais e filhos. Difere da maioria
das philia porque tende, especialmente em crianças mais novas,
a ser unilateral ou assimétrica. Mais amplamente, storge é o afeto
nascido da familiaridade ou dependência e, ao contrário de eros
ou philia, não depende de nossas qualidades pessoais. As pessoas,
nos estágios iniciais de um relacionamento romântico, geralmente
esperam um storge incondicional, mas só encontram eros e, se ti-
verem sorte, philia. Com o passar do tempo, eros frequentemente
se transforma em storge e, se tivermos sorte, também haverá lu-
dus, philia e pragma. A mãe e a criança à direita de La Vie repre-
sentam certamente o amor familiar ou storge, neste caso o amor
materno de uma mãe para seu filho. Também pode descrever três
gerações de amor familiar, se a mulher que segura a criança, for a
mãe da mulher que se encosta no homem à esquerda de La Vie.

n Philautia: é amor próprio, que pode ser saudável ou doentio.


O amor próprio insalubre é semelhante à arrogância. Na Gré-
cia antiga, uma pessoa poderia ser acusada de arrogância se se
colocasse acima dos deuses ou, como certos políticos moder-
nos, acima do bem maior. Muitos acreditavam que a arrogância
levava à destruição ou ao nemesis. Hoje, a arrogância passou a
significar um senso inflado do status, das habilidades ou das
realizações de alguém, especialmente quando acompanha-
da de orgulho ou ego inflado. Como desconsidera a verdade,
a arrogância promove a injustiça, o conflito e a inimizade. A
figura desalentada e trágica encolhida na pintura inferior, situ-
ada entre os protagonistas de La Vie, parece certamente repre-
sentar os aspectos negativos do amor-próprio da philautia.

O amor-próprio saudável está relacionado à autoestima, que é nossa


avaliação cognitiva e, sobretudo, emocional de nosso próprio valor.
Mais do que isso, é a matriz através da qual pensamos, sentimos e
agimos, e refletimos e determinamos nossa relação com nós mesmos,
com os outros e com o mundo. Devido à sua resiliência, os indivíduos
com philautia saudável estão abertos a experiências e relacionamentos
de crescimento, tolerantes ao risco, rápidos em experimentar alegria e
prazer, aceitando e perdoando a si mesmos e aos outros.

n Ágape: é amor universal, como o amor por estranhos, natureza


ou Deus. Ao contrário de storge, não depende de filiação ou fami-
liaridade. O ágape de Picasso engloba o altruísmo, a preocupação
altruísta, engendrada no espectador pelas figuras trágicas de La
Vie e outras pinturas do Período Azul, como The Tragedy (1903).

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


23
n PESQUISA

Interpretações
biográficas estéticas,
esotéricas e pessoais
William H. Robinson escreve: “Embora La Vie tenha
sido interpretada de várias formas como representa-
ção simbolista do ciclo da vida, uma alegoria do amor
sagrado e profano, e um comentário político sobre
os perigos da vida enfrentados pelo casal da classe
trabalhadora à esquerda, os esboços de Picasso para
a composição indicam claramente que sua intenção
original era se retratar como um artista no estúdio”.
Vários esboços para La Vie mostram Picasso sendo
abraçado por uma modelo no lado esquerdo do cava-
“Sketch for La Vie”, lete de um artista, com um homem mais velho (um
por Pablo Picasso
artista – seu pai?) à direita do cavalete. Este conceito foi
provavelmente inspirado na pintura realista de Gustave
Courbet, The Artist’s Studio: A Real Allegory (1854-55).
Picasso estava familiarizado com escritores simbolistas que frequentemente comparavam artistas
e poetas com Deus por causa de suas habilidades criativas. Charles Baudelaire declarou: “A ima-
ginação é uma faculdade quase divina que percebe imediatamente, sem recorrer a métodos filo-

“The Artist’s Studio:


A Real Allegory”, por
Gustave Courbet

24 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


sóficos, às conexões secretas entre as coisas”.
Enquanto o romancista simbolista, poeta e
rosacruz Joséphin Péladan escreveu: “Artista,
você é um sacerdote: a arte é o grande mis-
tério e, como resultado de nossos esforços
criativos para criar uma obra-prima, um
raio de divindade desce como em um altar”.
Uma interpretação desses esboços pare-
ce indicar que Picasso estava fazendo uma
declaração sobre a incapacidade de muitos
de seus amigos artistas espanhóis de com-
preender seus novos trabalhos criativos.
O próprio Picasso disse sobre seu estúdio:
“Meu estúdio é uma espécie de laborató-
rio… de vez em quando minhas pinturas
têm beleza – pelo menos as pessoas veem
isso nelas. Tanto melhor. Mas o que importa
é como elas são criadas – cada linha que é
acrescentada, a transição de um estágio para
outro. É isso que a pintura é, parte poesia,
parte filosofia”. Picasso sucessivamente trans-
formou La Vie de um retrato sobre a vida de “A Criação de Adão”,
por Michelangelo
estúdio do artista boêmio em uma alegoria
de amor, vida, morte e transcendência.
Picasso desenvolveu um interesse pelo
tarô e pela quiromancia depois de rece- (1903), Picasso se refere claramente à carta de
ber um pacote de cartas de tarô de seu tarô “O mago, mágico ou malabarista” com
amigo, o poeta e estudioso de ocultismo, seu autorretrato, com a mão direita apontan-
Guillaume Apollinaire. Isso foi ainda mais do para o céu e a mão esquerda apontando
encorajado quando, em desesperada po- para a pintura no cavalete. Isso se refere ao
breza, ele dividiu uma pequena sala com axioma hermético “Assim como é acima, é
outro amigo poeta, Max Jacob, que lia abaixo” – “Tudo o que está abaixo é como
tarô e mãos. Picasso adotou o simbolismo o que está acima, assim com todas as coisas
e os gestos das figuras de tarô em muitos são feitas de uma” – assim como o “mágico”
desenhos e pinturas durante esse perío- poder divino criativo do artista para extrair
do, até mesmo em seu Período Rosa. a inspiração para criar arte na Terra. Picasso
Por exemplo, Picasso coloca o homem, se identificou prontamente com as qualida-
em La Vie, entre uma mulher jovem e ou- des atribuídas à carta de tarô “mago”: força
tra idosa, como mostra a carta de tarô “Os de vontade, habilidade, originalidade, cria-
Amantes”, que simboliza a antiga alegoria da tividade e astúcia. A pesquisa mostra que o
escolha entre o sagrado e o profano. Esote- gesto real da mão de Casagemas apontando
ricamente, esta é a escolha da submissão às para a mãe e a criança foi adotado a partir
paixões ou a conquista dela, para assim, al- do gesto com a mão de Deus na Criação de
cançar a transcendência. Em Sketch for La Vie Adão de Michelangelo da Capela Sistina; e

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


25
n PESQUISA

“Noli me Tangere”,
por Antonio Correggio

Radiografia
de “La Vie”

um gesto similar de Cristo de Noli me Tan- “apoteose” de seu amigo Casagemas. Em La


gere de Antonio Correggio. Esse gesto sim- Vie, são dadas a Casagemas as coisas que
boliza tanto o poder criador divino quanto lhe foram negadas na vida: o amor de Ger-
sua separação do mundo profano. Picasso maine, uma criança e a vida de um artista.
está dizendo que artistas de todos os tipos Em um sentido muito real, La Vie é um
canalizam esse poder criativo para o mundo. exorcismo do que Picasso não pôde fazer
Esse gesto também sugere que Picasso estava pelo amigo e o que aconteceu com Casage-
indicando em La Vie, com Casagemas apon- mas. É comovente que as radiografias de La
tando para a mãe e a criança, o que significa Vie mostraram que, por causa da pobreza
que Casagemas havia criado uma nova vida inicial de Picasso, La Vie foi pintada sobre
com Germaine, como homem e artista. uma obra anterior, Last Moments, outra
No trabalho finalizado, Picasso substitui- pintura sobre a morte. La Vie é uma verda-
-se por Casagemas com um retrato de Ger- deira meditação de Picasso sobre a vida, a
maine gentilmente encostada nele. Como mortalidade e a redenção. Há tanta coisa que
Picasso substituiu deliberadamente o retrato La Vie mostra à contemplação do especta-
de Casagemas pelo seu próprio, como se vê dor, que um artigo deste tamanho não pode
nos muitos esboços de La Vie, foi proposto esperar cobrir, mas espero sinceramente
por vários iconógrafos que a pintura é, num que os leitores sejam encorajados a explo-
sentido muito real, uma “ressurreição” ou rar os mistérios de La Vie por si mesmos.

26 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


Um mistério
poético em
andamento
William H. Robinson, autor do estudo mais
exaustivo de La Vie até hoje em Picasso e os
Mistérios da Vida: La Vie, escreve: “Na ver-
dade, La Vie pode ser plausivelmente lido
como uma fusão de muitos temas diversos: o
ciclo de vida, uma alegoria do amor sagrado
e profano secularizado ou blasfemo, um co-
mentário sobre os perigos da vida da classe
“Les Demoiselles
baixa, uma especulação sobre a predestina- d’Avignon”, por
ção influenciada pelo tarô e quiromancia, Pablo Picasso

e uma alegoria sobre o destino do artista


boêmio moderno”. Ele afirma ainda: “Picasso
aparentemente continuou mudando os ele- circulares. Nesse sentido… a arte deveria ser
mentos da pintura até que eles levantaram sugestiva ou “poética”, seu significado aberto
mais questões do que responderam, uma a múltiplas interpretações… Picasso abra-
abordagem seria mais tarde retomada em çou a noção de que, como um talismã reve-
Les Demoiselles d’Avignon e Guernica… este lador das verdades secretas da vida, a arte
processo criativo se assemelha à leitura de deveria funcionar como um catalisador…
cartas de tarô organizando-os em um círculo O valor último da pintura pode ser que ela
para permitir afinidades ocultas e miste- estabeleceu o princípio definidor da abor-
riosas – juntamente com associações sub- dagem de Picasso ao processo criativo”. 4
conscientes e imprevisíveis. Os significados
nunca são fixos, mas permanecem fluidos e * Publicado originalmente no The Rosicrucian, nº 73, agosto 2018.

“Guernica”,
por Pablo
Picasso

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


27
n ORIENTAÇÃO

Por SERGE TOUSSAINT, FRC*

28 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


V
ejamos agora um aspecto diverso de”. Trata-se antes de inculcar-lhes a ideia
da educação. Penso efetivamente de que possuem uma alma e que o objetivo
que o ser humano possui uma da vida é aperfeiçoar essa alma, não apenas
alma e que sua vida não se limita em seu próprio interesse, mas também no de
ao interlúdio compreendido entre o nasci- seus próximos e da sociedade em geral. Agin-
mento e a morte. Penso também que, se vi- do assim, contribuímos necessariamente para
vemos nessa Terra, é para evoluir espiritual- cultivar nelas o desejo de se aprimorar e, por
mente até atingirmos o estado de Sabedoria. essa própria razão, o desejo de se comportar
Uma vez que tal estado não pode ser alcança- o mais dignamente possível.
do numa única vida, devemos para tanto nos Como você sabe, existem em nossos dias
reencarnar tantas vezes quantas forem neces- várias grandes religiões (Judaísmo, Cris-
sárias. Assim, de vida em vida, nos aproxima- tianismo, Islamismo, Budismo etc.), assim
mos gradativamente desse estado, até o ex- como diversas correntes religiosas que a elas
primirmos através de nosso comportamento. estão associadas direta ou indiretamente. Em
Então, não estaremos mais obrigados a nos linhas gerais, elas têm em comum o fato de
reencarnar e permaneceremos definitiva- terem sido fundadas sobre dogmas, ou seja,
mente no plano espiritual, em plena consci- crenças às quais se deve aderir por princípio,
ência e com perfeito conhecimento de causa. sem tentar questioná-las. A espiritualidade,
O que devemos entender por “estado de por sua vez, é antes um estado de espírito,
Sabedoria”? Do ponto de vista rosacruz, é o no sentido de que se baseia sobre uma busca
estado de consciência manifestado por toda de conhecimento e de sabedoria. Ela não é,
pessoa que despertou o conjunto das virtudes portanto, dogmática e se apoia sobre o desejo
que se atribui à alma humana naquilo que profundo de melhor conhecer a si mesmo, de
ela tem de mais nobre: a paciência, a ho- compreender o sentido profundo da existên-
nestidade, a humildade, a coragem etc. Essa cia e de melhor dominar a própria vida.
definição não deixa de evocar o que dissemos Naturalmente, eu respeito as religiões, na-
anteriormente sobre os valores éticos que os quilo que elas oferecem de melhor aos seus fi-
pais devem transmitir a seus filhos. Vista por éis para que vivam sua fé no cotidiano. Assim,
este ângulo, a educação tem uma dimensão compreendo perfeitamente que os pais que
espiritual, pois ela beneficia sua alma e con- seguem uma religião desejem que seus filhos
tribui com a sua evolução. É isso que levou façam o mesmo. Tal procedimento de parte
Comenius, célebre rosacruz do século XVII deles é absolutamente respeitável. No entanto,
e considerado em nossos dias como o pai da neste caso, parece-me essencial que eles lhes
UNESCO, a dizer: “É a alma humana que é inculquem a tolerância religiosa. Como? Não
preciso educar, e não apenas o indivíduo que deixando que eles pressuponham que a religião
vemos passar da infância à idade adulta”. deles é a detentora única da verdade, mas até
Você há de notar que a educação espiri- mesmo estimulando as crianças a demonstra-
tual, tal como acabo de definir, não tem ne- rem interesse pelas outras crenças. E, ademais,
nhum caráter religioso. Em outras palavras, quando a atualidade estiver marcada por uma
ela não consiste em converter as crianças a ação integralista ou fanática, condenando irre-
uma determinada religião e a proceder de futavelmente os seus autores, de qualquer reli-
modo que elas se conformem à sua doutrina gião que sejam. Quer sejamos, judeus, cristãos,
e à sua moral. Nesse particular, não se deve muçulmanos, budistas ou de qualquer outra fé,
confundir “religiosidade” com “espiritualida- esse é o melhor exemplo que podemos dar.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


29
n ORIENTAÇÃO

É possível ir ainda mais além na educação negativo que criamos para nós mesmos pela
espiritual e explicar às crianças que Deus não aplicação – tanto positiva quanto negati-
é um super-homem que se encontra nalguma va – de nosso livre arbítrio condicionam o
parte do céu e que decide pessoalmente a sorte nosso porvir a curto, médio e longo prazo.
dos seres humanos, inclusive a hora e as cir- Isso quer dizer que aquilo que nos aguarda
cunstâncias de sua morte, mas sim uma Inte- no pós-vida será a continuidade daquilo
ligência absoluta e impessoal que se manifesta que tivermos feito neste plano. Isso também
através de leis ditas ‘divinas’, no sentido de leis significa que é aqui e agora que estabele-
naturais (sucessão das estações, alternância cemos as bases daquilo que será a nossa
das marés etc.), universais (gravitação, propa- próxima encarnação. Você não acha que é
gação da luz etc.) e espirituais (carma, reen- do interesse de nossos filhos saber isso?
carnação etc.). Tenhamos consciência disso ou A partir de uma determinada idade (cerca
não, nosso bem-estar e nossa felicidade de- de 5 anos), as crianças passam a se interrogar
pendem de nossa aptidão para respeitar essas sobre a morte e questionam seus pais a res-
leis e viver em harmonia com elas. Isto pres- peito: “Eu vou morrer um dia?”; “Vocês vão
supõe estudá-las – e é a isso que se dedicam os morrer também?”; “O que acontece quando a
rosacruzes através de seus ensinamentos. gente morre?”; “O que existe depois da morte?”
Dentre as leis espirituais que é preciso co- etc. São questões que não devem ser esqui-
nhecer, e como indicado anteriormente, está o vadas, pois a morte é uma realidade com a
carma, a que se chama também de “lei de com- qual todos se confrontam cedo ou tarde. Os
pensação”. Na aplicação dessa lei, que todos os pais que se esforçam para responder essas
sábios do passado ensinaram, cada qual colhe questões o fazem em função de suas crenças
cedo ou tarde aquilo que semeou, tanto em e de suas convicções. Aqueles que seguem
coisas positivas quanto negativas. Nas crian- uma religião tendem a dizer que todos temos
ças, ela opera com mais flexibilidade do que uma alma e que esta, após a morte, vai para o
nos adultos, pois a experiência que elas têm da céu, onde continua a viver em companhia de
vida é mais limitada, assim como o seu livre outras almas, não sem deixar de acrescentar
arbítrio. Entretanto, é importante explicar- que aqueles que se amam acabam sempre por
-lhes esse princípio de causa e efeito, a fim de lá se reencontrar. No melhor dos casos, ela
que sejam responsáveis e se sensibilizem ao presumivelmente vai para o paraíso e se be-
fato que sempre chega um momento em que neficia de um pós-vida dos mais felizes.
devemos assumir as consequências dos nossos Os ateus ficam mais embaraçados do que
atos. Certamente, é possível negar a existência aqueles que creem para responder as questões
do carma, mas isso não impede de forma algu- que seus filhos acabam por lhes fazer um dia
ma que ele se aplique em nossa existência. a respeito da morte, pois, mesmo que não
Se você admitir a ideia da reencarnação, creiam no além, sentem dificuldades para lhes
tal como a evoquei anteriormente, há de dizer que a morte leva ao nada e que não há
compreender que a lei cármica não se aplica portanto nenhuma esperança de reencontro
unicamente em nossa vida atual. Dado que após esta vida presente. É por essa razão que a
essa lei é o fundamento de nossa evolução maioria deles se esquiva do assunto e faz dele
espiritual e que esta por sua vez prossegue um tabu. Ora, se é verdade que não se pode
por numerosas vidas, os carmas positivo e provar a existência da alma, tampouco se pode

30 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


provar que ela não existe. Parece-me, portanto, a escutá-la e seguirem-na redunda em iniciá-
preferível deixar às crianças o benefício da dú- -las não apenas àquilo que há de melhor em
vida e sugerir-lhes a ideia de que existe (talvez) nós, mas também a essa faculdade que per-
uma vida após a morte. É fato que “a esperança mite que todo ser humano aja por si mesmo
faz viver”. Não ajudaria também a morrer, sobre o seu destino: o livre-arbítrio.
quando fosse chegado o momento? Em nome Parece-me evidente que a sociedade se
de que se deveria destruir essa esperança? tornou demasiado materialista, no sentido de
Por sua vez, e como eu já disse, a maioria que se busca cada vez mais a felicidade nas
dos pais rosacruzes admite como uma evidên- possessões materiais e a satisfação dos desejos
cia o princípio da reencarnação. Eles pensam físicos, por vezes chegando-se ao paroxismo.
não apenas que a morte se limita a uma passa- De diversas maneiras, deixa-se que os jovens
gem – uma transição entre o mundo terrestre acreditem que o objetivo da vida é se tornar
e o além –, mas também que voltamos à Terra rico e famoso, se possível de maneira rápida e
para prosseguir nossa evolução espiritual. fácil. O dinheiro foi alçado ao status de divin-
Entre duas encarnações sucessivas, a alma dade laica e todos os meios para conquistá-lo
permanece naquilo a que eles chamam o “Cós- passaram a ser viáveis, mesmo os mais deso-
mico”. Sem tentar convencer seus filhos que nestos e discutíveis. A insolência, a imperti-
as coisas são assim e não de outro jeito, agem nência e a desfaçatez são consideradas virtu-
de modo a não transformar a morte num tabu des. Você realmente acredita que tal desvio
e tentam positivá-la, ao passo que os educam seja salutar para as crianças e que deixa pres-
segundo a ideia de que a vida é o bem mais sentir um belo futuro para a humanidade?
precioso que existe. A experiência prova que Essas poucas explicações sobre a educação
tal abordagem das coisas contribui para des- espiritual levam-me a evocar brevemente o
dramatizar a morte e para que se conserve a assunto da laicidade. Penso que ela é uma
esperança de que ela não põe fim à nossa exis- necessidade para se evitar qualquer desvio
tência e nem à dos seres que nos são caros. teocrático da sociedade, que traz o risco de
Creiamos ou não, temos em comum o que esta ou aquela religião influa sobre as
fato de ter um guia pessoal: a voz de nossa instituições ou, pior ainda, se substitua a elas.
consciência. Podemos não a escutar ou não Espero, contudo, que chegue o dia em que a
a levar em consideração; ela, porém, nos fala grande maioria dos cidadãos do mundo será
quase permanentemente. Você já se pergun- espiritualista e admitirá como uma evidência
tou de onde provém essa voz que nos deixa a existência da alma. Melhor ainda, espero que
de “consciência leve” ou de “consciência pesa- eles passem a considerar que o objetivo funda-
da” de acordo com o que pensamos, dizemos mental da vida é efetivamente aprimorar essa
ou fazemos? Um ateu ou um materialista res- alma, ou seja, evoluir espiritualmente. Logo,
ponderá que ela vem do cérebro e que é um os professores e os educadores verão em cada
processo mental dentre outros. No entanto, aluno uma criança que é preciso, além de cer-
ela é infinitamente mais rápida, mais justa e tamente instruir, também guiar na senda da
mais implacável do que qualquer raciocínio. sabedoria. Este é precisamente o objetivo da
Do ponto de vista espiritualista, ela emana educação em sua dimensão mais holística. 4
diretamente de nossa alma, o que explica por *Excerto do livro “A Educação – Salvaguarda da Humanidade”,
que ela está sempre certa. Ensinar as crianças publicado pela GLP.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


31
n ROSACRUCIANISMO

A disciplina
pessoal no
Misticismo
Por RALPH M. LEWIS, FRC

32 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


“ O verdadeiro místico que transcende
o ascetismo não ignora seu corpo físico
e nem sua existência temporal.

A
disciplina consiste em exercer e separado de Deus ou das forças cósmicas.
estabelecer certos controles sob Por analogia, um indivíduo pode fazer parte
a conduta pessoal. Como nossa de qualquer coisa, e, no entanto, não estar
conduta resulta em grande parte consciente dessa relação: ele pode morar
de nossos pensamentos, de nossas noções numa residência e não conhecer sua história.
e ideias, este controle se aplica também aos O aspirante místico concebe, então, que seu
nossos estados mentais. A disciplina, quando ser e sua consciência fazem parte do decurso
a ligamos ao misticismo, é então a obrigação da Inteligência divina e da Força criadora
que impomos a nós mesmos de certas res- nelas existente. O ego, o eu, não faz parte, no
trições em nossas ações físicas e mentais. A entanto, desse decurso divino, dessa fonte,
disciplina que nos impomos é principalmente até que o indivíduo tome consciência dele.
determinada, em primeiro lugar, pelo objetivo O eu é um estado de consciência. A me-
que queremos alcançar na área do misticis- nos que não seja realidade na natureza da
mo e, em seguida, por aquilo que pensamos consciência, não existe consciência; em ou-
poder fazer para contribuir para esta aquisi- tras palavras, não podemos ser conscientes
ção, bem como aquilo que pode interferir. sem sermos conscientes de alguma coisa. No
Geralmente o misticismo, seja ele ju- que concerne, então, a nossa consciência pes-
deu, islâmico, cristão ou de origem oriental, soal, não fazemos parte de Deus ou do Cós-
contém certos elementos fundamentais. É mico, enquanto não vivemos a experiência
através destes elementos que ele se distingue de tal união. Pode-se dizer que esse é o lado
das outras concepções filosóficas ou religio- pragmático do misticismo, tão incongruente
sas. Podemos resumir esses elementos em quanto possa parecer tal termo. O místico é
duas definições gerais: primeiramente, o um realista, no sentido em que ele considera
misticismo é a união do eu individual com que aquilo que nele é seu eu, não faz parte de
Deus; em seguida, a união mística é uma Deus tanto quanto ele não está consciente-
experiência íntima adquirida pessoalmente. mente unido com o Divino. Para o místico,
Quando analisamos estes dois elementos, todas as outras coisas são somente sonho e
certas implicações surgem imediatamente. aspiração. Somente a experiência pode for-
Consideremos o primeiro desses dois ele- necer a consciência mística. A verdadeira
mentos. Ele implica no fato da consciência união demanda uma realização no sentido
pessoal, o “eu”, ou o ego, não ter comumente de que o eu seja somente um com o Divino.
essa realização de Deus, desta unidade que O segundo elemento do misticismo é
constitui a união. Evidentemente, se este es- aquele que confia somente nos próprios es-
tado existisse enquanto estado normal, não forços do indivíduo. A união mística é uma
precisaria ser aguardado. A aspiração a esta experiência íntima. O místico é o sujeito; a
união não implica que o ser humano esteja união ou o estado de unidade com Deus ou

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


33
n ROSACRUCIANISMO

“ O indivíduo impaciente é aquele


que só pensa em considerar o
último fim, sem considerar as
consequências da sua realização.
com o Cósmico constitui o objeto. Não exis-

possui suas satisfações respectivas. Existem
tem intermediários como um padre, um pre- satisfações sensuais como a realização dos
lado, um mestre ou um filósofo. Todos estes apetites, e existe ainda um sentimento de
intermediários não podem criar o estado satisfação na realização criadora, este prazer
místico no qual o indivíduo é lançado. Assim sutil e profundo que provamos quando co-
como os rituais, as liturgias e os ritos, eles adunamos com aquilo chamamos de nossa
constituem somente em meios preparatórios. motivação espiritual ou nossa consciência.
A transição que se produz na consciência, Cada um desses aspectos do eu possui
e através da qual o eu conhece esta experi- também seus ideais, que são, na verdade, as
ência, é o resultado de um esforço pessoal qualidades que oferecem as maiores satisfa-
e deve ser íntima. As preces, a chama das ções aos diferentes aspectos do eu. O indiví-
velas, a recitação de rosários, a realização de duo que possui inclinações espirituais, o de-
sacrifícios, não substituem a elevação pes- voto, o místico, o idealista moral, concebem
soal da própria consciência do indivíduo. Deus e o Cósmico, qualquer que seja o termo
Sob um ponto de vista psicológico, tudo preferido, como sendo a perfeição absoluta.
isso só ajuda a trazer este estado de espírito Para eles, Ele é a justiça final e a perfeição
chamado “experiência mística” ou extáti- absoluta. Para eles, igualmente, não existe
ca. Quando não conseguimos alcançar este prazer nem êxtase que iguale essa integração
estado, então simplesmente fracassamos. do eu com o Grande e Único. Todas as outras
Voltamos a repetir: não existe estado místico satisfações, mesmo as consideradas valoro-
de substituição. O verdadeiro estado místico sas, vêm muito depois deste summum bonun.
não pode ser alcançado independentemente O místico, por conseguinte, quer captar,
do indivíduo, ou estabelecido por outro. realizar esse prazer supremo aqui na Terra.
Por que esse estado místico? Qual é a O místico se distingue da maior parte das
vantagem dessa união com Deus, nesta vida pessoas religiosas justamente nesse ponto
aqui embaixo? Todas as coisas que os homens em que as vantagens que ele procura através
fazem são destinadas a satisfazer certos as- dessa união devem ser obtidas ainda nesta
pectos do eu. O fenômeno que é nosso ser vida. Ela não é necessariamente uma prepa-
pode ser dividido em categorias que revezam ração para outra existência, em outro mun-
entre o espiritual ou psíquico, o eu, o físico e do. O verdadeiro místico que transcende o
o mental. Existem, naturalmente, diferentes ascetismo não ignora seu corpo físico e nem
tipos de realidades que são experimentadas sua existência temporal. Se o eu pode reali-
em relação com nosso ser. Nossos pensa- zar algo de absoluto e se isto supera todas as
mentos pertencem ao eu, assim como nossos outras satisfações, então por que não viver
corpos e nossas inclinações morais. Cada um essa grande experiência durante a existência

34 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


mortal? Por que esperar outra vida e menos- bases funcionais e os objetivos a que eles ser-
prezar as possibilidades desta existência? vem. Cada um deve obter satisfação somente
O verdadeiro místico não tenta escapar até certa medida. Nós não coçamos uma feri-
da realidade desta vida. Ele tenta, sobretudo, da pelo prazer que isto nos traz, mas para ali-
exaltá-la, transmutá-la numa série de experi- viar uma irritação. O místico não permitirá
ências transcendentais. Para o místico, o céu que nenhum tipo de desejo domine sua cons-
não é um lugar distante. É principalmente ciência a ponto de excluir todas as outras.
um estado de espírito que pode ser alcançado Ele organizará e controlará seus desejos, sem
aqui embaixo através da elevação da consci- suprimi-los, de tal forma que seu ser possa
ência mortal até um plano de unidade com o se exprimir por inteiro. O indivíduo que vive
Absoluto. Se existem experiências, realidades uma vida sensual ou intelectual, excluindo
que podem ser concluídas, e que superam em todas as expressões de inclinações morais que
grandeza e satisfação pessoal àquelas do cor- ele possa ter, não vive normalmente. Ele só
po e do intelecto, elas deveriam ser realizadas manifesta a metade, ou talvez até menos, das
durante este possibilidades
tempo de vida. de seu ser.
Ao menos, O místico
podemos su- deve exercer a
por que é isso disciplina pes-
que o místico soal com rela-
considerava ção a todos os
como sendo as estudos e exer-
vantagens de cícios místi-
seus métodos cos. O fanático
e de sua ma- em esoterismo
neira de viver. é o indivíduo
A disci- que domina
plina pessoal, os princípios
então, se com- básicos da
põe dessas disciplina
leis de pensa- pessoal. A
mento e de ação que possuem por objetivo impaciência é um excesso de desejo. É uma
permitir a realização de tais fins pelo místi- submissão aos desejos como tais, sem nenhu-
co. Ele quer, por exemplo, manter todos os ma qualificação. O indivíduo impaciente é
seus desejos em certos limites. Ele não quer aquele que só pensa em considerar o último
suprimir seus desejos porque ele sabe que fim, sem considerar as consequências da
possui inclinações e tendências que emergem sua realização. Resulta que ele pode colo-
de seu eu físico e mental. Um desejo é um car em movimento uma série de eventos
impulso para satisfazer alguma necessidade, que o impedirão de realizar seu fim ou
quer seja de alimentação, uma necessidade que atenuarão o prazer da antecipação que
sexual, ou a necessidade de preservar o ego. ele traz. É então essencial, para o sucesso
O primeiro passo dessa disciplina pesso- em todos os estudos místicos, como para
al consiste em enfrentar nossos desejos de quase todos os outros na vida, disciplinar
forma realista. É necessário determinar suas ou controlar o desejo da impaciência. 4

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


35
n SIMBOLOGIA

Por ARTHUR C. PIEPENBRINK, FRC*

36 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


O
símbolo usado pela Ordem Natureza, agimos ou nos comportamos
Rosacruz conta toda a his- em conformidade com isto, e fazemos
tória das nossas provas e muitas coisas de um modo diferente de
tribulações, bem como das como as faríamos se acreditássemos que
nossas alegrias e realizações. Nesta oca- houvesse essa justiça. Esta premissa,
sião, vamos mostrar-lhes como a Rosa- natu­ralmente, não é verdadeira, como
Cruz se faz evidente em todas as fases da a com­preendemos. Portanto, se acredi-
nossa vida. Ela é um lem­brete constante tássemos nela e nos comportássemos
da dualidade do Cósmico; do princípio de em conformi­dade com isto, com fre-
que nossas consecuções só vêm com tra- quência estaríamos fazendo uma coisa
balho e esforço; de que não podemos ter errada e nos metendo em dificuldades.
a rosa sem a cruz, nem a cruz sem a rosa. Essa premissa nos levaria a pensar que
A Rosa-Cruz não simboliza apenas poderíamos fazer qualquer coisa impu-
o caminho da realização pessoal, mas, nemente. Ela nos poderia tornar impru-
uma mensagem ainda mais profunda e dentes e desrespeitosos. Teríamos então
importante é a de que ela é eterna. Não mais inimigos do que amigos, porque
é difícil as pessoas aceitarem a ideia de não trataríamos os outros como gosta-
que temos de trabalhar pelo que dese- ríamos que eles nos tratassem. A Regra
jamos conseguir, mas quase ninguém de Ouro não faria sentido. Nossa vida
anseia por fazer isto para sempre. Quase estaria se precipitando na direção errada.
todo mundo anseia pelo dia do repou- Por experiência e observação, consta­
so, pelo dia em que tenha atingido sua tamos que a premissa de justiça é corre-
meta e nunca mais tenha de trabalhar. ta. Quando a seguimos, temos cuidado
Este sentimento vem da nossa tendên- com o que dizemos e fazemos. Somos
cia de seguir a linha de menor resistên- sensíveis quanto ao que os nossos atos
cia, nossa velha adversária no esquema podem provo­car para nós mesmos.
da lei Cósmica. É por isto que muitas Estamos conscientes da lei natural de
pessoas anseiam pela aposentadoria, ou causa e efeito; de que para toda ação há
pela morte - como uma transição de um uma reação. Usamos a Regra de Ouro
mundo de preocupações para um mun- como guia na vida. Temos certeza de
do de bem-aventurança eterna, em que que há uma compensação para todos
todos os cuidados tenham desapare­cido. os nossos atos, e de que a justiça é parte
Esta condição é muito forte no mundo, forte da natureza do Cósmico. Em con-
e é regularmente apoiada e encorajada, sequência, sentimo-nos em harmonia
principalmente por doutrinas religiosas. com a vida. Boas coisas nos acontecem.
Esta é uma das situações contra as quais Sabemos o que precisamos fazer para
somos advertidos nas lições Rosacruzes. nos mantermos em harmonia com a
Se uma premissa básica está errada, vida. Estamos então no caminho certo.
o erro do caminho que decidimos seguir Quando consideramos a própria
na vida fica assim determinado. Quanto vida, estabelecemos a maior de todas as
mais errada é a premissa, mais crítico é premissas e, se estamos errados a este
o caminho que seguimos. Por exemplo, respeito, toda a nossa vida é afetada. Ora,
se temos uma premissa básica sobre a quando nos perguntamos por que há tan-
vida segundo a qual não há justiça na to infortúnio no mundo, por que tantas

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


37
n SIMBOLOGIA

“ A Rosa
representa
mérito e
luz. A Cruz
representa
trabalho e
esforço.

pessoas são infelizes, e por que as pessoas ser sempre cuidados e vigiados, para que
não conseguem se ajustar à vida que as não os percamos.
cerca, vemos que é principalmente por- A Rosa representa mérito e luz. A
que elas estão encarando a vida de modo Cruz representa trabalho e esforço. A rosa
errado, e que é por isto que não conhe- é apenas parcialmente aberta, simboli-
cem a verdadeira natureza do SER, como zando o fato de que estamos sempre cres-
nós conhecemos. Não sabem ao certo se cendo ou evoluindo, sem jamais alcan-
haverá sempre uma reação a tudo o que çarmos um ponto em que não tenhamos
façam, porque não conhecem o eletro­ mais para onde ir, ou nada mais a atingir.
magnetismo, com sua polaridade dual, e Em muitos casos, a cruz é entendida
sua tendência de sempre voltar ao estado no sentido de nossas provas e tribulações,
de equilíbrio. Não sabem ao certo qual mas seu primeiro significado é de trabalho
é o sentido da vida, nem por que afinal e esforço. Trabalho e esforço constituem
estão vivendo, visto que não conhecem a a nossa primeira opção, e podemos sa-
natureza do SER. Não sabem nada a res- tisfazer os requisitos da cruz mantendo a
peito da unidade, porque não conseguem nossa vida em ordem antes que aconteça
ver todas as coisas diferentes da sua vida alguma coisa. Quando negligenciamos a
como partes de UM SÓ e vasto Ser. Por nossa vigilân­cia; quando nos tornamos
isto fazem suposi­ções, e logo todo mundo preguiçosos; quando deixamos cessar
acaba com uma ideia ligeiramente dife- aquilo que se faz necessário para nos
rente sobre a vida. É de admirar então mantermos sadios e produtivos, é então
que as pessoas tenham tanta dificuldade que deixamos a luz se extinguir. É então
para se unir em qualquer coisa? que nos vemos tropeçan­do nas trevas,
Isto nos traz de volta à Rosa-Cruz. Os forçados a trabalhar duas vezes mais para
Rosacruzes partem da premissa de que restaurar essa luz. E é então que a cruz se
somos responsáveis pelos nossos atos. torna uma prova e uma tribulação. Mas
Acreditamos que o mérito e a luz não vêm ela nunca tem de ser isto, nunca! 4
a nós sem trabalho e esforço, nunca; e * Mensagem do Supremo Secretário, Arthur C. Piepenbrink,
acredi­tamos que o mérito e a luz têm de proferida por ocasião da IX Convenção Nacional da GLP.

38 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


n AMORC NO MUNDO

Reunião anual da Suprema Grande Loja


Como acontece todos os anos, os dirigentes da AMORC se reuniram em Lachute, Québec,
no Canadá, de 01 a 04 de outubro de 2018. Nessa reunião são tomadas importantes decisões
sobre o destino da AMORC, bem como são feitos os planejamentos, sempre sob a orientação
do Imperator, Frater Christian Bernard. A maioria dos dignitários esteve presente.

Primeira linha ao fundo, da esquerda para a direita:


Frater Hugo Casas Irigoyen – Grande Mestre de Língua Espanhola para Europa, África e Australásia
Frater José Botello – Grande Mestre de Língua Hispana para as Américas
Frater Sven Johansson – Grande Mestre de Língua Inglesa para Europa e África
Frater Hélio de Moraes e Marques – Grande Mestre de Língua Portuguesa
Soror Live Söderlund – Grande Mestre de Língua Escandinava
Segunda linha ao fundo, da esquerda para a direita:
Soror Julie Scott – Grande Mestre de Língua Inglesa para as Américas
Frater Kenneth Idiodi – Grande Administrador para a Nigéria
Frater Claudio Mazzucco – Grande Mestre de Língua Italiana
Frater Serge Toussaint – Grande Mestre de Língua Francesa
Frater Christian Bernard – Imperator da AMORC
Frater Maximilian Neff – Grande Mestre de Língua Alemã e Diretor-Tesoureiro da Suprema Grande Loja
Terceira linha à frente, da esquerda para a direita:
Frater Zaven Paul Panikian – Grande Mestre de Língua Inglesa para Austrália, Ásia e Nova Zelândia
Frater Atsushi Honjo – Grande Mestre de Língua Japonesa
Frater Michal Eben – Grande Mestre de Línguas Tcheca e Eslovaca
Frater Michiel Schillhorn van Veen – Grande Mestre de Língua Holandesa

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


39
n ALQUIMIA

Por DENNIS HAUCK, FRC, PhD*

40 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


“ É um tipo especial de imagética mental
ou visualização que está diretamente
conectada ao fundamento da realidade.

E
xiste um enigma da Idade Média em toda parte, que é uma pedra e nenhuma
que descreve a verdadeira natu- pedra, desprezível, ainda que preciosa, ocul-
reza da Primeira Matéria – uma ta, e ao mesmo tempo conhecida de todos.
substância misteriosa e etérica É uma coisa mais forte e mais sublime que
que é a fonte de toda transformação: todas as outras coisas”.
“É familiar para todos os homens, jovens
A chave para a vida e a morte está em e velhos”, explica o autor de Gloria Mundi
toda parte para ser encontrada, mas se (Glória de Todos os Mundos – 1620). “É
você não a encontrar em sua própria casa, encontrado no país, na aldeia, na cidade,
você não a encontrará em lugar nenhum. em todas as coisas criadas por Deus; ainda é
No entanto, está diante dos olhos de to- desprezado por todos. Ninguém o valoriza,
dos; ninguém vive sem isso; todo mundo porém, ao lado da alma humana, é a coisa
já usou. Os pobres geralmente possuem mais linda e preciosa da Terra e tem o poder
mais do que os ricos; as crianças brincam de derrubar reis e príncipes”. Como você res-
com ela nas ruas. Os humildes e incultos ponde ao enigma tem muito a ver com o seu
estimam muito, mas os privilegiados e conceito da realidade. Onde você desenha a
instruídos muitas vezes jogam fora. É linha do que é real? Suas fantasias? Seus so-
a única coisa da qual a Pedra Filosofal nhos? Seus pensamentos? Sua alma? Importa
pode ser preparada e, sem ela, nenhum – isso é real? De acordo com a filosofia her-
metal nobre jamais poderá ser criado. mética, tudo é real. Tudo o que percebemos é
parte da mesma Coisa Única, e o espectro da
O enigma nos diz que esse poder secreto nossa consciência é determinado pela luz da
é comumente usado e está à vista de todos. Mente Única. Essa luz primordial é refletida
Mas é mais óbvio onde nós vivemos (em na consciência de cada pessoa à luz da imagi-
nossas próprias mentes?). As crianças brin- nação, que é a resposta para o nosso enigma.
cam com ele e humildes pessoas pobres o Meu sobrinho de dez anos de idade uma
usam mais do que pessoas ricas e esnobes. A vez descreveu a imaginação como “passear
classe baixa não instruída o valoriza, mas a dentro de sua mente”. Para os alquimistas, era
classe superior instruída acredita que é uma um mundo privado de infinitas possibilida-
perda de tempo ociosa. No entanto, essa des onde acontecia grande parte da Grande
capacidade oculta – que tantos condenam e Obra. Para diferenciá-la da fantasia ociosa e
recebem ou garantem – é o único caminho do sonhar acordado, eles a chamavam de “A
para a verdadeira sabedoria e a única manei- verdadeira imaginação”. É um tipo especial
ra de aperfeiçoar qualquer coisa. de imagética mental ou visualização que
Um dos autores do Turba Philosophorum está diretamente conectada ao fundamento
(Uma Assembleia de Filósofos), do século da realidade. Em nossa cultura, somos en-
XII, descreve-o como “uma coisa encontrada sinados a rejeitar a verdadeira imaginação e

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


41
n ALQUIMIA


Os alquimistas acreditavam que
a imaginação é um pedaço do céu
escondido dentro de nós, uma conexão
divina com a Mente Única cósmica.
cortar nossos laços com a realidade oculta

reza, através de quem os corpos se regeneram
enquanto ainda somos crianças. Famílias, es- nas entranhas da terra. E imagine isso com
colas, igrejas – autoridades de todos os tipos verdade e não com imaginação fantástica”.
– negam nossa conexão inata com a mente A Verdadeira Imaginação prevê os pro-
divina e a substituem por seu próprio dogma. cessos sutis da natureza e os conecta com
“Há uma pedra secreta”, explica um seus arquétipos divinos. Ela tenta capturar
alquimista do século XIV, “escondida em a “Semente do Mundo” como a mente di-
um poço profundo, sem valor e rejeita- vina sonha. Portanto, quando os escritores
da”. “Nossa pedra mais preciosa”, lamenta herméticos falam de “ver com os olhos do
outro, “lançada sobre o monturo, sendo espírito”, eles estão descrevendo um processo
muito querida, é feita o mais vil do vil”. que penetra na gênese mais profunda das
Segundo Paracelso, “a Verdadeira Ima- coisas além de suas aparências externas.
ginação leva a vida de volta à sua realidade Os alquimistas acreditavam que a ima-
espiritual, e então assume o nome de medi- ginação é um pedaço do céu escondido
tação”. O que ele queria dizer era que a Ver- dentro de nós, uma conexão divina com
dadeira Imaginação vislumbra a fonte divina a Mente Única cósmica. Se você procurar
de qualquer coisa, que pode então ser explo- a definição de “imaginação” no Lexicon
rada e compreendida através da meditação. of Alchemy (1612), de Martin Rulandus, a
Os métodos meditativos usados pelos encontrará definida como “a Estrela no Ho-
alquimistas consistiam em invocação pro- mem, um corpo celestial ou supercelestial”.
longada e silenciosa de poderes divinos. “O conceito de Imaginatio dos alquimis-
Às vezes, o “anjo interior” de uma pessoa tas”, explica Carl Jung (1875-1961), “é a chave
ou “eu superior” era invocado. Em suas mais importante para entender o Opus. Nós
meditações, eles procuravam o “raio an- temos que conceber esses processos ima-
gélico” que une o mundo das formas com ginários não como os fantasmas imateriais
os ideais divinos que são a fonte de tudo. que prontamente levamos como quadros de
O autor do Rosarium (1550) descreve esse fantasia, mas como algo corpóreo, um corpo
tipo especial de meditação alquímica: “Tome sutil. O ato de imaginar era como uma ati-
cuidado para que sua porta esteja bem e fir- vidade física que poderia ser encaixada no
memente fechada, para que aquele que está ciclo de mudanças materiais que as provo-
dentro não possa escapar, e, se Deus quiser, cavam e, por sua vez, eram provocadas por
você alcançará o objetivo. A natureza reali- elas. O alquimista relacionou-se não apenas
za suas operações gradualmente; e, de fato, com o inconsciente, mas diretamente com
gostaria que você fizesse o mesmo: deixe sua a substância que ele esperava transformar
imaginação ser guiada totalmente pela natu- através do poder da imaginação. O ato de

42 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


imaginar é, portanto, um extrato
concentrado de forças vitais, um
híbrido do físico e do psíquico”.
De seu longo estudo de alqui-
mia, Jung desenvolveu a nova dis-
ciplina da psicologia transpessoal
e um método terapêutico que ele
chamou de “imaginação ativa” que
usa a imaginação como “um órgão
de compreensão”. A técnica per-
mite que questões inconscientes e
sentimentos mais profundos atuem
em visualizações que muitas vezes
envolvem conversas com figuras
imaginárias, como um dos “guias”
de Philon de Jung (figura ao lado).
A imaginação ativa também
pode ser praticada por escrita auto-
mática ou atividades artísticas como
pintura, escultura, música e dança.
O método abre um canal de comu-
nicação entre partes conscientes e inconscien- Albert Einstein (1879-1955) usou a Ver-
tes da psique de uma pessoa e também entre o dadeira Imaginação para ver a si mesmo
nível pessoal e o inconsciente coletivo. cavalgando em um feixe de luz através do
A imaginação ativa demonstra a realidade cosmos, e retornou de sua jornada com a
das imagens preexistentes na psique humana, teoria da relatividade. Como os alquimistas,
correspondentes a eventos e objetos externos. ele prestou homenagem ao poder desse dom
Surpreendentemente, este conceito é um prin- divino: “A imaginação é mais importante
cípio básico na filosofia da ciência. Galileu, que o conhecimento. Pois o conhecimen-
Francis Bacon, Giordano Bruno, Johannes to é limitado a tudo que conhecemos e
Kepler, Isaac Newton e Gottlieb Leibniz fala- compreendemos, enquanto a imaginação
vam de imagens primordiais que são preexis- abraça todo o universo e tudo o que sempre
tentes na alma humana e podem ser percebi- haverá para conhecer e compreender”. 4
das através do “instinto inato” da imaginação.
O físico quântico Wolfgang Pauli (1900-
1958) explicou como essas imagens são a fonte * Dennis William Hauck, FRC, PhD, é o curador do novo
Museu da Alquimia no Rosicrucian Park e foi o curador
da percepção científica: “Quando alguém da Exposição de Alquimia Rosacruz, exibida no Museu
analisa os passos pré-conscientes dos conceitos Egípcio Rosacruz. Frater Hauck é um líder reconhecido no
emergente campo dos estudos da consciência e contribuiu
verdadeiros, sempre encontra ideias que con- para vários campos relacionados, incluindo a história
sistem em imagens simbólicas. Essas imagens da ciência, a lógica matemática, a psicologia e o estudo
científico das experiências místicas. Ele é um autor popular
internas são produzidas por um “instinto para e palestrante que trabalha para facilitar as transições
imaginar” e são compartilhadas por indivíduos pessoais, culturais e globais através dos antigos princípios
diferentes de forma independente. Dessas ima- da alquimia. Frater Hauck escreveu vários livros e muitos
artigos, incluindo vários que foram publicados em edições
gens arcaicas crescem conceitos racionais”. recentes do Rosicrucian Digest e do Rose+Croix Journal.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


43
n ARTE

Fazer
Artístico
em Projeção
no Mundo
Objetivo
Por JULIO MUNHOZ

www.juliomunhoz.com

44 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


R
ecentemente um amigo me per- tico com o processo comunicacional e
guntou, de um modo muito linguístico humano, o que nos remete à
sincero, o que define um gran- fórmula básica envolvendo os conceitos
de diretor de cinema, talvez de meio e mensagem: “desenvolvimento
motivado por meu histórico na área, ou da mensagem pelo emissor” – “definição
mesmo por saber de meu interesse cons- de meio e forma escolhida para trans-
tante pelas várias disciplinas das artes. mitir a mensagem” – “captação e deco-
Em resposta, disse que poderíamos definir dificação da mensagem pelo receptor”.
um grande diretor pelo conjunto de seu co- Deste modo, aceitando o raciocínio acima
nhecimento técnico e artístico, sua capacidade como válido, o artista opera verdadeiramente
de fazer convergir as contribuições dos vários como um comunicador quando cria e exibe
artistas que trabalham na obra cinematográ- sua obra para audiências diversas. E este fato
fica, por sua habilidade em liderar talentos nos traz uma pergunta evidente: então, o
gentilmente estimulando-os em seus processos que diferencia uma obra com valor artístico?
criativos, e também por sua determinação em Afinal, o que é arte, e qual a sua função?
seguir o plano de produção atendendo a limites Creio que as respostas para tais pergun-
de prazo e orçamento, entre outros atributos. tas fundamentais respondem à inquietação
Porém, uma vez colocados os parâmetros de meu amigo procurando saber o que não
acima, creio que há ainda de se considerar apenas define um genuíno diretor de cinema,
o doce e preciso mistério da sensibilidade mas também um escultor, um músico, um
artística, a definição e escolha da forma por escritor, um pintor, e tantos outros artistas
parte do artista criador, e sua consequente sensíveis, essenciais e especiais para cada um
aplicação e projeção no mundo objetivo. de nós e para a sociedade como um todo.
Assim, no momento em que a obra artística Assim, segundo esta linha de raciocínio,
passa a existir na concretude do mundo, o e tendo por referência acadêmica a teoria da
público, entrando em contato com a mesma, comunicação, poderíamos afirmar que os
potencialmente se beneficia dela, retornando processos de comunicação lineares, diacrô-
individualmente para os seus mundos sub- nicos, pressupõem um emissor ativo e um
jetivos motivados por este encontro mágico, receptor passivo, o qual necessariamente
recriando significados e reinventando a tem de prestar atenção e ordenar os trechos
dimensão da própria obra. de mensagens que vão chegando e sendo
Então, de um certo modo, denota-se decodificadas por ele para que este receptor
aqui uma certa relação do fazer artís- entenda o que o emissor quer dizer.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


45
n ARTE

Há aqui uma certa relação de poder favo- forma para conter e transmitir a mensagem
recendo aquele que emite a mensagem, pois poética” – “captação e decodificação da men-
a comunicação linear implica um significado sagem pelo receptor segundo seu repertório
prévio formulado pelo emissor, sendo que o de vida e sensibilidade criativa” – “recria-
receptor tem de se esforçar por decodificar ção e nova potencialização da mensagem
esta mensagem e interpretá-la, para só depois original da obra por parte do receptor”.
da mensagem estar decodificada e entendida “Eureka!” – na arte, o receptor (a au-
conforme foi concebida pelo emissor, poder diência) é convidado a se tornar proativo no
reagir a ela, concordando, discordando, ou processo da decodificação da mensagem,
mesmo ignorando-a. com liberdade para também criar e sobre-
Curiosamente, grande parte dos pro- por sentidos em seu contato com a obra.
cessos de comunicação humana viajam na Isto talvez explique o porquê das audiên-
vertente linear: as notícias, o entretenimento, cias saírem de sessões de filmes artísticos
as conversas, o rádio… e também quase tudo com diferentes interpretações daquilo que
que nos chega via indústria cultural de mas- assistiram, motivando boas conversas com
sas – conteúdos estes por vezes chamados de amigos e provavelmente estimulando outras
obras de arte, embora quase nunca o sejam. futuras assistências ao mesmo filme (e a cada
assistência descobrindo outros elementos que
Mas então, ainda não haviam percebido – ou imaginado
– anteriormente).
novamente, onde Neste sentido, a arte potencializa o indiví-
duo e o fortalece em sua projeção individual
é que fica a arte? no mundo.
A arte navega na vertente revolucionária Eis a vertente revolucionária e libertadora
dos processos de comunicação não-lineares, da arte!
sincrônicos, poéticos, no sentido em que con- Talvez este fato explique a dificuldade
vida e potencializa os seus receptores (todos histórica que regimes totalitários tiveram
nós, os apreciadores das artes) a também se com seus artistas, quase sempre impondo
tornarem ativos no processo de comunicação. perseguições e banimentos, dado que regi-
Na arte, a fórmula básica do processo co- mes repressores querem controlar, e a arte
municacional talvez possa ser escrita assim: pressupõe a libertação.
“desenvolvimento da mensagem artística O código genuíno artístico é fortíssimo,
pelo criador” – “definição da linguagem e e talvez por isso mesmo tem sido exausti-

46 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


vamente estudado pela publicidade em seus
esforços de convencimento de consumo, e
também, não surpreendentemente, por co-
municadores operando propaganda a serviço
de estados totalitários em suas intenções vãs
de utilizar ferramentas de comunicação artís-
ticas às avessas, objetivando doutrinar em vez
de libertar, por vezes incluindo processos co-
municativos subliminares em seu desespero
de dominação e controle (em comunicação,
mensagens subliminares são aquelas perce-
bidas pelo inconsciente, mas não necessa-
riamente pelo consciente do indivíduo).
Como deveria ser, e para alívio geral, tais
tentativas nunca se mostraram duradouras,
além de serem modernamente proibidas em
quase todo o mundo.
Então, levando em conta os assuntos dis-
cutidos acima, creio que é interessante notar
que o artista, mesmo que não saiba ou tenha
consciência plena disso, tem grande ligação ao seu centro motivador principal, que é o
com o mundo objetivo em seu entorno, pois próprio ser humano.
sua obra traz em si a potencialidade poéti- Portanto, ampliando o escopo da pergunta
ca da ação, da transformação, e do sonho, de meu amigo, descrita no primeiro parágrafo
projetando assim novos paradigmas sociais, deste texto, acredito que o que define um gran-
morais, estéticos e éticos, estimulando a cri- de artista é a sua capacidade de entender o seu
ticidade e o olhar criativo de suas audiências. papel social e espiritual no mundo em que vive,
Esta característica particular da obra e o qual é muito maior do que o âmbito de seu
do ressonar artístico religa e potencializa os ego e a pequenez de seus problemas pessoais e,
indivíduos em suas relações sociais e com constantemente, sinceramente e humildemente,
a natureza e, fundamentalmente, consigo esforçar-se por acertar e servir aos outros atra-
mesmos, de certa forma a consagrar a função vés de sua obra, independentemente de ter ou
também holística da obra de arte em relação não o reconhecimento do grande público. 4

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


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Façamos com que
o Natal se torne
verdadeiro
Por H. SPENCER LEWIS, FRC
ex-Imperator da AMORC

E
stamos nos aproxi- Natal, há a comemoração do judeus, gentios e muitos ou-
mando do tempo Ano Novo, que é amplamen- tros povos que pertencem a
de flexibilidade em te reconhecido e festejado na outras religiões aceitam esse
que a maioria das pesso- maioria dos países do mun- dia como o que marca um
as do mundo ocidental do ocidental. É por isto que, tempo de boa vontade para
dá livre curso a todas as entre 25 de novembro e 2 de todos os seres. Vinte e cinco
suas emoções reprimidas janeiro, nossa vida, nossos de dezembro, como já disse-
relativamente às festas afazeres sociais, nossos inte- mos em outra oportunidade,
e às relações fraternais, resses pessoais, nossos negó- era uma época de boa von-
humanas e religiosas. cios e muitas outras coisas, tade, de troca de presentes e
O fato de sermos ou não são grandemente afetados de alegria para a consciência
cristãos absolutamente não pelo espírito quase univer- humana bem antes que Je-
afeta nossa apreciação do sal de festa, de boa vontade sus, o Cristo, tivesse nascido.
espírito do Natal. Natural- e de regozijo humano. Dentre os numerosos
mente, um mês antes das Possamos ou não, segun- dias de festa dos pagãos e
férias de Natal há a come- do o espírito cristão, aceitar os numerosos dias de folga
moração popular de Ação de o 25º dia de dezembro como dos povos religiosos e não
Graças nos Estados Unidos o aniversário de Jesus, o religiosos que precederam
e, imediatamente após o Cristo, persiste o fato de que a era cristã, 25 de dezem-

48 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


bro foi o mais eminente e o A civilização moderna zar nós mesmos as nossas
mais importante de todos. está muito acostumada a férias e os nossos períodos
Há muitas coisas que indi- sistematizar suas emoções de descanso. De comum
cam que, quando os Pais e a organizar suas mani- acordo escolhemos junho,
da Igreja Cristã ficaram festações humanas. Há julho e agosto, como os
embaraçados para decidir milhões de pessoas que tra- meses em que recuperamos
a data precisa do nasci- balham durante todo o ano a vitalidade da mente e do
mento de Jesus, eles foram e que precisam de férias corpo. A ideia de pôr mais
influenciados pelo fato de periódicas para descansar tarde um dia de folga no
que 25 de dezembro tinha e se recuperar. Muitas des- outono, para agradecer a
sempre sido um dia festivo tas pessoas merecem esse Deus e às hostes celestes
típico do espírito cristão e repouso e essas férias não por todos os benefícios, é
que seria então apropriado. importa em que período do apenas uma outra prova
O espírito dessa antiga ano, mas retardam as férias do nosso formalismo ri-
comemoração se reflete em necessárias até os meses tualístico em coisas que
cada aspecto da nossa época de verão, somente porque deveriam ser inteiramente
de Natal atual. Nos anos pré- temos o hábito de organi- desprovidas de ritualismo.
-cristãos, prisioneiros então
detidos eram postos em li-
berdade na véspera de 25 de
dezembro. Durante esse dia
as pessoas trocavam presen-
tes, mensagens, e os símbolos
e sinais de boa vontade eram
expressos. Hoje, o espírito do
Natal é algo que está sempre
à parte e é sempre distinto
da celebração sagrada do
nascimento do Grande Sal-
vador. Como já dissemos,
mesmo as pessoas cujas
crenças religiosas não lhes
permitem admitir o caráter
sagrado deste dia, nele têm
uma oportunidade para a
expressão do espírito de boa
vontade e de confraternidade
humana, que é muito e quase
unicamente a verdadeira ex-
pressão do espírito do Cristo.

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


49
que estão cósmica e espiritu-
almente adormecidos, espe-
ramos o Natal para fazer estas
coisas que poderiam ser feitas
em qualquer dia do ano.
Talvez haja alguns be-
nefícios práticos e úteis a
colhermos do trabalho e da
sistematização das nossas
emoções e da expressão dos
nossos desejos. Talvez, con-
centrando essas expressões
num breve período do ano,
ou em dois ou três dias, se-
jamos mais eficazes e mais
precisos no que fazemos.
Talvez o fato de que 25
de dezembro é tão univer-
salmente tido como um
momento de boa vontade
nos induza a expressar mais
cabalmente a bondade do
nosso coração, e com maior
O Novo Ano como a época conveniente
para a festa do começo de
significado do que se o fizés-
semos em outras circunstân-
Sem nenhuma razão válida um novo ano. Não se trata cias. Se isto é um argumento
e judiciosa, 1º de janeiro somente do começo de uma em favor da expressão
foi escolhido como início nova estação, mas do começo emocional ritualística e or-
do ano. Na realidade, ele de uma nova vida após o lon- ganizada, então deveríamos
não é nem o começo nem o go sono e a morte aparente ser lógicos o bastante para
fim de um ano ou de uma da natureza durante o inver- prová-lo e fazê-lo. É por isto
estação. É o meio de uma no. Assim, ele é o começo do que eu digo àqueles que se
estação, o meio do inverno espírito de boa vontade e de recusam a dar aos outros
na maioria das regiões do confraternidade. Em lugar de durante o ano a boa vontade
hemisfério Norte, e do ve- expressarmos essa boa von- que deveriam manifestar e
rão no hemisfério Sul, bem tade a todos os seres durante àqueles que reprimem seus
afastado do renascimento do o ano e procurarmos toda impulsos generosos de da-
ano e do renascimento da oportunidade de fazermos rem e compartilharem com
vida na natureza tal como doações a todos aqueles que os outros, que no dia de
ela se manifesta por volta do têm necessidades, e de levar- Natal ou na semana de festa
equinócio da primavera, em mos felicidade e alegria aos que se segue, eles deveriam
março no hemisfério Norte. outros, àqueles que estão so- fazer todo empenho em libe-
Em muitas regiões da frendo, e de entoarmos o cân- rarem essas expressões inibi-
Ásia, o mês de março é tido tico da vida eterna àqueles das e retidas durante o ano.

50 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


Depositários carência e de arrependimen-
to. Sem deixarmos nossa
ao seu redor. Como, então,
não importa quem dentre
do Cósmico vizinhança imediata, ou
talvez mesmo atravessando
nós tem o menor grau de
Consciência do Cristo em
Sem dúvida nenhuma, cada a rua, podemos encontrar si e ao mesmo tempo seja
um de nós tem algo que alguém cuja imagem da insensível às aflições dos
pode dar a outrem e, sem vida nesse dia seja oposta à outros no mundo e se recuse
dúvida nenhuma, cada um nossa. Como não importa a compartilhar sua felici-
de nós goza de benefícios quem dentre nós possa sen- dade e seus benefícios com
e bênçãos que pode e deve tir a plenitude da alegria do aqueles que não os tenham?
compartilhar com os outros. Natal e estar tão feliz quanto Se quiséssemos obter o
A Lei Cósmica da Compen- possa, enquanto no outro máximo possível do espírito
sação e a Lei Universal da lado da rua, ou na esquina, do Natal, neste ano ou em
Oferta e Procura requerem, haja alguém que esteja em qualquer outro ano, e se
não somente que agrade- necessidade e tristeza, em quiséssemos levar uma vida
çamos pelo que temos, mas aflição e dor, aí está algo que que fosse um exemplo da
que consideremos que so- eu não posso compreender. Consciência do Cristo em
mos os depositários da con- Dizemos que desejamos nós, deveríamos procurar,
cessão cósmica de bênçãos. ver a Consciência Cósmi- como procurava o Cristo, o
Deus e toda a natureza pre- ca se desenvolver em nós. ideal do Cristo em nós, de-
cisam dos canais humanos Mesmo aqueles que não veríamos procurar, encon-
para que o grande trabalho são essencialmente cristãos trar a oportunidade, a oca-
das bênçãos universais pos- admitem que a presença da sião e os meios de levarmos
sa ser efetuado. Cada um Consciência do Cristo não felicidade e alegria, de ali-
de nós é um canal para a deveria ser somente dese- viarmos, de disseminarmos
disseminação daquilo que jável, mas que deveria ser a brilhante luz da esperança
Deus se propõe a nos dar. o máximo de seus desejos e do júbilo na vida daque-
Certamente, a alegria e a terrenos. Todavia, se houve les que não a têm, seja na
felicidade são as coisas mais alguma grande emoção que época do Natal ou em qual-
essenciais da vida; muitos se manifestou com o Cristo quer outra época do ano.
as têm em abundância, mas vivo na Terra, foi a consci- É por isto que você deve
elas faltam na vida de mui- ência da aflição do mundo. fazer do Natal um dia santo
tos outros ainda. Eu não Ele expressou constante- no verdadeiro espírito cris-
estou bancando o profeta mente o pensamento de que tão, compartilhando com os
nem fazendo predição ao era extremamente sensível outros, pelo menos a algum
dizer que no próximo Natal à aflição, à dor, à amargura pequeno grau, aquilo que
haverá milhões de pessoas que existiam no coração você tem em abundância.
no nosso ambiente e perto daqueles que viviam pelo Desta maneira faça com
de cada um de nós que vão mundo afora. Ele era o que o Natal se torne verda-
ver que esse dia não é mais homem das aflições, não deiro, independentemente
do que um dia de experi- devido a suas experiências do seu significado religioso,
ências comuns, cheio de pessoais, mas à sua cons- mas única e inteiramen-
solidão, de desespero, de ciência das experiências de te pelo espírito do ideal
melancolia, de aflição, de milhões de seres humanos que ele representa. 4

PRIMAVERA 2018 · O ROSACRUZ


51
Nesta seção sempre
homenagearemos a história
de nossa Ordem no mundo
e na língua portuguesa,
lembrando por meio de
imagens os pioneiros que
.com

labutaram pelo Ideal Rosacruz


© thinkstock

e plantaram as sementes cujos


frutos hoje desfrutamos. A
todos eles, a nossa reverência.

Primeira edição da revista “O Rosacruz”


Em outubro de 1958 a Grande Loja do Brasil lançava a primeira edição de uma revista que perdura
até os dias de hoje, a revista O Rosacruz.
Lançada com o intuito de apresentar artigos sobre misticismo, arte e ciência, ela se compa-
rava a duas publicações que já existiam na AMORC: o Rosicrucian Digest que era produzido
em inglês e a revista El Rosacruz uma
publicação em língua espanhola.
Ela seria um importante componente
de estudos para aqueles que desejavam
adquirir mais conhecimento na senda mís-
tica. Sendo assim, extraímos um pequeno
texto da página 5 da primeira edição de O
Rosacruz que traz a seguinte mensagem:

“Agora, O ROSACRUZ será uma publi-


cação análoga a esses dois periódicos.
Conterá não apenas os mesmos artigos
inspirados e úteis e fotografias raras, de
importância histórica, como também,
esposará os mesmos ideais. Seu conteúdo
trará mais luz à humanidade através das
investigações das leis Cósmicas que se
manifestam no Homem e na Natureza.
Temos aspirações. Gostaríamos que
O ROSACRUZ se tornasse o mais im-
portante periódico místico do Brasil.”

Este ano a revista O Rosacruz completou


60 anos de publicação ininterrupta e é,
sem dúvida, uma revista importante no
segmento, fonte de inspiração e infor-
mação para rosacruzes e assinantes.

52 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2018


Tradicional Ordem M artinista
Silêncio, Serviço, Serenidade…
SILÊNCIO – Como estudantes Rosacruzes/Martinistas, sabemos o valor das virtudes do silêncio,
serviço e serenidade na vida prática de todo místico. O silêncio, em seus diversos componentes
exteriores e interiores, desempenha seu papel na vida mística. Tudo se passa como se o silêncio se
abrisse à vacuidade, e esta permitisse a recepção de energias e vibrações desconhecidas do homem
preso ao ruído de seus pensamentos e desejos. Podemos dizer que, em alguns instantes especiais
da meditação, o silêncio torna-se revelação de certos mistérios, pois a quietude tem a função de
despertar energias sutis, forças inconscientes. A exterioridade se ameniza, a interioridade toma o
seu devido lugar, e o verdadeiro silêncio interior nos faz presentes no aqui e agora, sem medo ou
culpa em relação ao passado, sem receio do futuro. Silêncio não é solidão. Muitas vezes, contudo,
é na solitude que floresce a rosa da alma, é na solitude que o Eu Divino consegue falar.

SERVIÇO – O serviço se mantém como um dos pilares fundamentais da Iniciação. Devemos


servir onde nos encontramos profissional, afetiva ou misticamente. Todo o serviço é importante,
não há grandes ou pequenos serviços, todos são necessários e importantes. Nas ordens iniciáticas
todos podem servir, pois há lugar para todos; também na vida diária todos devem servir. Só é pre-
ciso ser humilde e impessoal no serviço. Lembremos sempre da mensagem deixada pelo Mestre
excelso: “ninguém vive unicamente para si mesmo”.

SERENIDADE – É verdade também que todo ser na senda aspira à serenidade. Esta pode surgir
ao cumprirmos certas tarefas, mas será acima de tudo aquele estado durável, fruto do trabalho
sobre nós mesmos, aquela calma profunda, isenta de problemas emocionais, calma que seria a
marca do real equilíbrio, propiciando ao homem enfrentar as situações mais diversas a aceitar quais-
quer mudanças sem ansiedade e com aquiescência.

Vemos, portanto, que o silêncio, o serviço, a serenidade, são três pontos importantes de nossa
existência, sobre os quais é recomendável meditarmos. Muitas coisas poderiam ser ditas sobre isto,
mas cabe a cada um de nós, no respeito à tradição Rosacruz/Martinista, refletir sobre esses pontos
e deles absorver ensinamentos úteis, na paz do coração.

Texto inspirado em O Pantáculo nº 2 – 1994 – Silêncio, Serviço, Serenidade.

S.I.
A
humanidade recebe de tempos em tempos personalidades-
-alma que são “divisoras de águas”, ou seja, o mundo é um
antes delas e outro após elas.
Como verdadeiros mensageiros de Luz a serviço da
humanidade, esses seres receberam do Cósmico a missão de causar
uma forte influência na sociedade em que estavam inseridos,
recebendo postumamente o reconhecimento pela visão, liderança
e iluminação que abrangeram todo o nosso mundo. Vieram
para mudar, romper paradigmas e deixar os seus pensamentos,
palavras e ações como exemplos de seres humanos especiais.
Esta capa da revista “O Rosacruz” é dedicada a esses seres
de luz que, como Mestres, nos ensinaram o sentido da vida.

Irmã Dulce – Maria Rita de Souza Brito Lopes


Pontes, também conhecida como Irmã Dulce, nasceu em
26 de maio de 1914 em Salvador, Bahia e devotou sua vida à
religiosidade fazendo muitas ações de caridade e prestando
assistência aos pobres e necessitados. Começou a trilhar seu caminho em benefício aos menos
favorecidos ainda jovem, quando acolhia na casa de seus pais pessoas doentes.
Tornou-se freira e teve como propósito ensinar em um colégio mantido pela sua congregação. Porém, o
que tocava mesmo seu coração era ajudar as pessoas que mais precisavam e não tinham nenhum recurso.
E essa atitude rendeu frutos! Em 1949 ela improvisou no local onde era um galinheiro no Convento Santo
Antônio, em Salvador, um abrigo para acolher algumas pessoas enfermas que viviam nas ruas. De alber-
gue a uma casa de saúde, assim, décadas depois, surgia um complexo hospitalar que integrava áreas social
e educacional, o Hospital Santo Antônio – HSA, referência nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.
O amor ao próximo tornou Irmã Dulce conhecida no mundo todo, sendo considerada uma das mulheres
mais influentes e notória ativista humanitária no século XX. Em 1998, o então presidente da República
no Brasil, José Sarney, indicou Irmã Dulce ao Prêmio Nobel da Paz, mas ela não conquistou aquele título.
Entretanto a Revista Isto É elegeu-a, em 2001, como “a religiosa do século XX”. Foi beatificada por Dom
Geraldo Majella Agnelo em 2011, sob o pontificado do Papa Bento XVI e no ano seguinte, em uma pesquisa
realizada pela emissora de televisão brasileira SBT, que tinha como intuito eleger a personalidade que mais
contribuiu para o país, Irmã Dulce ficou entre as 12 maiores personalidades brasileiras de todos os tempos.
Seu trabalho durou mais de 50 anos com entrega total à filantropia. Carinhosamente chamada como “anjo
bom da Bahia”, Irmã Dulce seguiu seu coração levando amor, dignidade e esperança para milhares de bra-
sileiros. Faleceu de causas naturais aos 76 anos.

“Tudo o que acontece no universo tem uma razão de ser; um objetivo. Nós, como
seres humanos, temos uma só lição na vida: seguir em frente e ter a certeza de
que apesar de às vezes estar no escuro, o sol vai voltar a brilhar.”
– Irmã Dulce