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1 Coríntios 14 - Simon Kistemaker - Comentário sobre O Silêncio das Mulheres na Igreja

14 1.Persigam o amor, esforcem-se ansiosamente pelos dons espirituais,


especialmente para que vocês possam profetizar. 2. Pois aquele que fala numa
língua não fala aos homens [e mulheres], e sim a Deus. Pois ninguém o entende,
mas no Espírito ele fala mistérios. 3. Mas aquele que profetiza fala a homens [e
mulheres] para sua edificação, encorajamento e consolação. 4. Aquele que fala
em uma língua edifica a si mesmo. Aquele que profetiza edifica a igreja. 5. Ora, eu
desejo que todos vocês falem em línguas, que especialmente vocês possam
profetizar. E maior é o que profetiza do que aquele que fala numa língua, a não
ser que ele a interprete, para que a igreja possa ser edificada.
6. Mas agora, irmãos, suponham que eu venha a vocês falando em línguas, que
lhes aproveita a não ser que eu fale a vocês por revelação ou por conhecimento ou
por profecia ou por ensino? 7. Do mesmo modo, coisas sem vida, quer flauta ou
harpa, fazem um som; se não produzem notas distintas, como alguém saberá o
que está sendo tocado na flauta ou na harpa? 8. Pois se a corneta produzir um
som indistinto, quem se preparará para a batalha? 9. Assim também vocês, se
não pronunciarem uma mensagem distinta com sua língua, como alguém saberá
o que está sendo dito? Pois estarão falando ao ar. 10. Existem, sem dúvida, tantas
e tantas línguas no mundo, e nem uma sem sentido. 11. Se eu, então, não
entender o sentido da língua, serei um estrangeiro para aquele que fala, e aquele
que falar na minha presença será um estrangeiro. 12. Assim também vocês, visto

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que estão ansiosos por dons espirituais, procurem sobressair naqueles que
edificam a igreja.
13. Portanto, que aquele que fala numa língua ore para que ele possa
interpretar. 14. Pois se eu oro numa língua, meu espírito ora, mas minha mente é
infrutífera. 15. Qual é, então, o resultado? Eu orarei com meu espírito, e orarei
também com minha mente. Cantarei com meu espirito e cantarei também com
minha mente. 16. Senão, se você abençoar [somente] com o espírito, como pode a
pessoa que preenche o lugar do desinformado dizer amém a suas ações de
graças? Porque o que você pronuncia ele não entende. 17. Pois você está dando
graças suficientemente bem; contudo, o outro homem não é edificado.
18. Eu dou graças a Deus que falo em línguas mais do que todos vocês.
19. Entretanto, na igreja eu prefiro falar cinco palavras com minha mente, para
que eu possa até ensinar outros, do que dez mil palavras numa língua.
20. Irmãos, não sejam crianças em seu pensar, mas sejam bebês com respeito
ao mal. Sejam maduros em seu pensar. 21. Na lei está escrito:
“Com línguas estranhas e com os lábios de estrangeiros
Falarei com este povo,
Nem mesmo assim eles me obedecerão, diz o Senhor”.
22. Portanto, línguas são um sinal não para os crentes, mas para os descrentes.
A profecia não é para os descrentes, e sim para os crentes. 23. Então, se a igreja
inteira se reunir num lugar e todos falarem em línguas, e os novatos ou
descrentes entrarem, não dirão eles que vocês enlouqueceram? 24. Mas se todos

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profetizarem e um certo descrente ou novato entrar, ele é convencido por todos e


julgado por todos. 25. As coisas ocultas de seu coração tornam-se evidentes, e
assim, caindo com o rosto em terra, ele adorará a Deus, declarando:
“Deus realmente está entre vocês”.1

6. Conduta ordeira
14.26–40

26. Qual é então o resultado, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um tem
um salmo, tem um ensino, tem uma revelação, tem uma língua, tem uma
interpretação. Que todas as coisas sejam para edificação. 27. Se alguém fala numa
língua, que seja por dois ou no máximo três, e cada um por sua vez, e que um
interprete. 28. Mas se não há intérprete, que ele fique em silêncio na igreja e que
fale consigo mesmo e com Deus.
29. E que dois ou três profetas falem e que os outros deem a avaliação. 30. Mas
se uma revelação vem a outro que está sentado, que o primeiro fique calado.
31. Pois todos vocês podem profetizar um por um, para que todos possam
aprender e todos serem incentivados. 32. E os espíritos de profetas são sujeitos
aos profetas. 33. Pois Deus é um Deus não de desordem, mas sim de paz.
Como em todas as igrejas dos santos, 34. que as mulheres guardem silêncio nas
igrejas. Pois não lhes é permitido falar, mas que sejam submissas, assim como a
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Kistemaker, S. (2014). 1 Coríntios. (H. H. G. Silva, Trans.) (2a edição, pp. 585–586). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

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Lei manda. 35. E se elas desejam aprender algo, que perguntem ao marido em
casa. Porque é vergonhoso para uma mulher falar na igreja.
36. Ou será que a palavra de Deus se originou com vocês ou veio a vocês
somente? 37. Se alguém se julga profeta ou espiritual, que ele saiba que as coisas
que eu lhes escrevo são um mandamento do Senhor. 38. Se alguém desconsidera
[isso], ele é desconsiderado [por Deus].
39. Então, meus irmãos, desejem ansiosamente profetizar e não proíbam falar
em línguas. 40. Mas que todas as coisas sejam feitas decentemente e em ordem.2

c. Ordem
14.33b–35
33b. Como em todas as igrejas dos santos, 34. que as mulheres
guardem silêncio nas igrejas. Pois não lhes é permitido falar, mas que
sejam submissas, assim como a Lei manda. 35. E se elas desejam
aprender algo, que perguntem ao marido em casa. Porque é
vergonhoso para uma mulher falar na igreja.
a. Problemas textuais. A maioria dos tradutores separa os versículos 33a e 33b
porque a primeira parte desse versículo (“Pois Deus é um Deus não de desordem,
mas sim de paz”) é uma declaração completa e acrescentar-lhe a segunda parte
(“como em todas as igrejas dos santos”) parece incongruente. Geralmente os

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Kistemaker, S. (2014). 1 Coríntios. (H. H. G. Silva, Trans.) (2a edição, pp. 621–622). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

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tradutores consideram o versículo 33b (“como em todas as igrejas dos santos”)


como sendo a parte introdutória da primeira sentença do versículo 34 (“que as
mulheres guardem silêncio nas igrejas”). Admitimos que a repetição da expressão
nas igrejas tira parte da elegância estilística do autor (v. 34). No entanto, a
expressão igrejas reflete nuanças: a primeira ocorrência (“como em todas as
igrejas dos santos”) é uma referência às igrejas em geral, e a segunda (“que as
mulheres guardem silêncio nas igrejas”), aos cultos. E, no sentido inverso, o
versículo 33b não é o único lugar em suas epístolas em que Paulo mostra uma
falta de estilo exemplar. Presumimos que ele está preocupado não com a
elegância, e sim com fornecer às igrejas regras para fortalecer a unidade e a
harmonia (comparar com 4.17; 7.17; 11.16) – preocupações a que vem dando
ênfase em toda a epístola.
Alguns estudiosos chamam esse segmento – uma instrução sobre a conduta
das mulheres no culto da igreja – uma glosa, embora não consigam encontrar
qualquer evidência nos manuscritos gregos para apoiar a afirmação sobre esses
versículos terem sido acrescentados ao texto.90 Por isso, algumas versões (por ex.,
NRSV) colocam os versículos 33b–36 entre parênteses. Uns poucos textos

90Por exemplo, Eduard Schweizer, “The Service of Worship: An Exposition of 1Corinthians 14”, Interp 13 (1959): 402–3; Fee, First
Corinthians, p. 699. Fee afirma que os versículos 34 e 35 “não eram parte do texto original, mas foram uma glosa marginal dos primeiros
tempos”.

NRSV New Revised Standard Version

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Ocidentais transpõem os versículos 34 e 35 para depois do versículo 40 (ver


Moffatt, que inclui também o versículo 36 na transposição).
Para resolver as dificuldades que há com esse texto, precisamos fazer como
fizemos com outras passagens: considerar a estrutura, o contexto mais amplo e,
antes de tudo, os temas ou princípios que Paulo explicou. No versículo 29 Paulo
aconselhou os coríntios a “deixarem que dois ou três profetas falem e que os
outros façam o julgamento” – usando assim o versículo como título para os
versículos 30–33a. Nesses versículos ele explica o versículo 29 e esboça regras de
conduta que promovem o culto ordeiro. Ele também especifica como as profecias
devem ser avaliadas.91
De forma paralela, e implicitamente sob o título do versículo 29b,92 Paulo
continua com regras de conduta, estas relacionadas especificamente às mulheres.
Como os versículos 30–33a afirmam que outros fazem julgamento das

Moffatt The Bible – A New Translation, James Moffatt

91 James B. Hurley, “Man and Woman in 1Corinthians”, dissertação de doutorado, Cambridge University, 1973, p. 71–75; Man and Woman
in Biblical Perspective (Grand Rapids: Zondervan, 1981), p. 188–91.

92Grudem, Prophecy in the New Testament, p. 220–25; D. A. Carson, “ ‘Silent in the Churches’: On the Role of Women in 1 Corinthians
14.33b–36”, in Recovering Biblical Manhood and Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, org. por John Piper e Wayne Grudem
(Westchester, Ill.: Crossway, 1991), p. 153.

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mensagens dos profetas, assim os versículos 33b–35 impedem as mulheres de


julgar os homens.93 Em razão disso, o apóstolo apela para a Lei.
b. Mandamento para ficarem caladas. “Como em todas as igrejas dos santos,
que as mulheres guardem silêncio nas igrejas.” A primeira ocorrência da palavra
igrejas se refere às congregações individuais, e a segunda às suas reuniões. A
ordem de Paulo para se manterem caladas não pode ser uma proibição total
sobre falar nas reuniões. Essa ordem iria contradizer sua declaração anterior
(11.5), em que ele fala sobre as mulheres orarem e profetizarem no culto. Além
disso, nós presumimos que com os homens, as mulheres também cantavam
salmos e hinos na igreja (14.26). Obviamente, Paulo não está impedindo as
mulheres de falar ao adorarem a Deus. Em vez Disso, ele está dizendo que elas
devem respeitar o marido de acordo com a Lei.
c. Ensino da Lei. “Pois não lhes é permitido falar, mas que sejam submissas,
assim como a Lei manda.” Observe que Paulo afirma a regra sobre o silêncio três
vezes: “Que as mulheres guardem silêncio nas igrejas” (v. 34a), “Não lhes é
permitido falar” (v. 34b) e “é vergonhoso para uma mulher falar na igreja” (v.
35b). Para apoiar essa questão sensível, ele apela para a Lei, isto é, a Escritura do
Antigo Testamento. Mas qual é esse ensino da Lei? Aqui Paulo usa o termo como
expressão genérica sem qualquer referência a uma passagem em particular da
Escritura.
93James B Hurley, “Did Paul Require Veils or the Silence of Women? A Consideration of 1Cor. 11.2–16 and 1Cor. 14.33b–36”, WTJ 35
(1973): 217.

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Antes, nesse mesmo capítulo, no entanto, Paulo havia se voltado para a Lei e
citado um dos profetas (Is 28.11–12 no v. 21). Agora ele tem em mente o relato de
Gênesis 2.18–24, que ensina a ordem da criação na qual Adão foi criado primeiro
e depois Eva como ajudadora de Adão. Desse relato, Paulo deduz o princípio de
que a esposa é sujeita ao marido como ajudadora dele e é responsável perante ele.
Paulo apela sempre ao relato de Gênesis 2, em toda essa epístola. Primeiro, em
sua discussão sobre a imoralidade sexual (6.16), Paulo cita Gênesis 2.24:
“Tornando-se os dois uma só carne”. Depois, ao delinear a criação e os papéis do
homem e da mulher (ver 11.8–9), Paulo se refere a Gênesis 2.18, 21–23. E, por
último, na presente passagem ele se refere ao papel que a esposa deve
desempenhar com respeito ao esposo, a saber, ser sua ajudadora. Especialmente
em assuntos espirituais, o marido no lar e na igreja tem a responsabilidade de dar
liderança; sua esposa tem a tarefa de assisti-lo.
Não é que as mulheres coríntias devam ficar caladas no culto com respeito a
orar, profetizar e cantar salmos e hinos. Contudo, são proibidas de falar quando
as profecias de seus respectivos maridos são discutidas (v. 29). Pede-se que elas
observem a ordem criacional registrada na Lei e honrem o marido. Ao dizer três
vezes às mulheres que se calem, Paulo as instrui a respeitar o marido no culto e
reservar as perguntas para a privacidade do lar.
d. Submissão. “E se elas desejam aprender algo, que perguntem ao marido em
casa.” Numa sentença condicional que expressa os costumes correntes das
mulheres coríntias, a ênfase está no verbo aprender. Paulo não está excluindo as

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mulheres do aprendizado de verdades espirituais. Ao contrário, Maria, a irmã de


Marta e Lázaro, sentou-se aos pés de Jesus e aprendeu dele os valores
permanentes (Lc 10.38–42). De modo semelhante, Priscila tinha adquirido
conhecimento espiritual de modo que ela e seu esposo Áquila conseguiram
explicar com maior precisão a verdade de Deus para Apolo (At 18:26). As
mulheres de Corinto foram instruídas agora a deixar seus líderes, a saber, seus
respectivos maridos, ensiná-las em casa.
e. Vergonha. “Porque é vergonhoso uma mulher falar na igreja.” Esse versículo
ensina a diferença entre a igreja e o lar. Na privacidade do lar, a esposa pode
aprender com o marido. Mas no culto, uma mulher que questiona seu marido
sobre verdades espirituais corre o risco de desonrá-lo na presença do restante da
congregação. Na verdade, o caso é que nenhum pastor deseja ser criticado
publicamente por sua esposa num culto; se ela faz isso, ela debilita seu ministério
e é uma vergonha para ele. Paulo quer que as mulheres honrem e respeitem o
marido em harmonia com as Escrituras.3

3 Kistemaker, S. (2014). 1 Coríntios. (H. H. G. Silva, Trans.) (2a edição, pp. 629–632). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.