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SEU NOME É

MULHER
"Mulheres da Bíblia"

Livro I, 1974
Livro II, 1980

Editora Núcleo, Portugal

Gien Karssen
Categoria: Biografias Bíblicas

Digitalização: Carlos Biagini

Compilação: sssuca
SUMÁRIO

LIVRO 1
INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 6
PREFÁCIO......................................................................................................................................7
EVA................................................................................................................................................ 8
SARA ............................................................................................................................................ 14
REBECA ....................................................................................................................................... 21
ESPOSA DE POTIFAR ................................................................................................................. 31
MIRIÃ.......................................................................................................................................... 36
RAABE.......................................................................................................................................... 41
PENINA........................................................................................................................................45
ANA ............................................................................................................................................. 49
RAINHA DE SABÁ.......................................................................................................................55
VIÚVA DE SAREPTA.................................................................................................................. 60
SUNAMITA ................................................................................................................................. 64
SERVA JUDIA............................................................................................................................. 68
ESTER .......................................................................................................................................... 71
ESPOSA DE JÓ ............................................................................................................................77
MARIA......................................................................................................................................... 82
ISABEL .........................................................................................................................................91
ANA ............................................................................................................................................. 96
VIÚVA ....................................................................................................................................... 100
MARTA DE BETÂNIA ...............................................................................................................104
MARIA DE BETÂNIA ................................................................................................................109
SAMARITANA ........................................................................................................................... 114
DORCAS .....................................................................................................................................120
LÍDIA..........................................................................................................................................124
PRISCILA ...................................................................................................................................128

LIVRO 2
PREFÁCIO..................................................................................................................................134
AGAR..........................................................................................................................................136
MULHER DE LÓ........................................................................................................................143
RAQUEL.....................................................................................................................................149
LÉIA............................................................................................................................................ 156
DINÁ...........................................................................................................................................163
TAMAR.......................................................................................................................................168
JOQUEBEDE ............................................................................................................................. 176
DÉBORA.....................................................................................................................................183
DALILA ......................................................................................................................................190
NOEMI .......................................................................................................................................196
ORFA ......................................................................................................................................... 202
RUTE ......................................................................................................................................... 206
MICAL ........................................................................................................................................214
ABIGAIL .................................................................................................................................... 220
BATE-SEBA................................................................................................................................227
JEZABEL ................................................................................................................................... 233
HULDA...................................................................................................................................... 240
HERODIAS................................................................................................................................ 246
SALOMÉ.....................................................................................................................................253
MARIA MADALENA..................................................................................................................261
SAFIRA...................................................................................................................................... 269
MARIA DE JERUSALÉM ..........................................................................................................274
FEBE.......................................................................................................................................... 280
LÓIDE E EUNICE ..................................................................................................................... 285
LIVRO

1
INTRODUÇÃO

Gien Karssen é uma narradora de histórias. Embora haja muitos


estudos acerca das mulheres da Bíblia, nunca li nenhum mais prático do
que SEU NOME É MULHER. Gien dá realmente vida a estas mulheres
bélicas, enquanto vai observando as suas ações e os resultados das suas
vidas. Ela ajuda-o a extrair aplicações que são relevantes para os nossos
dias. Para aqueles que estão interessados em descobrir mais a respeito de
cada mulher, fornece perguntas para discussão no fim de cada capítulo.
Gien é uma das melhores professoras que eu conheço no
treinamento de jovens dirigentes de estudos bélicos. Ela leva a Palavra de
Deus a referir-se a situações do dia a dia.
A minha oração é que este livro atue como uma semente que
produz muito fruto.

Corrie ten Boom


PREFÁCIO

Eva. A primeira mulher. Igual ao homem; só diferia dele no que


toca ao sexo. Embora se tenha escrito muito sobre ela, o tema ainda não
se encontra esgotado. Ela é a mãe de todas as mulheres.
As mulheres deste livro não são fictícias. São reais. Viveram na
história e, nos seus desejos e problemas, nas suas esperanças e ambições,
vivem ainda hoje entre nós. Espero que enquanto lê a seu respeito, elas
não só o fascinem mas lhe sirvam também de advertência. Foi isso que
aconteceu comigo enquanto escrevia a respeito delas.
A grande diferença entre as mulheres deste livro não está na sua
categoria. Não importa se uma é rica como a Rainha de Sabá ou pobre
como a viúva do tempo de Jesus, se é líder como Miriã ou desprezada
como a mulher samaritana, se é solteira ou casada. Esses pormenores
não são importantes. A verdadeira diferença entre estas filhas de Eva está
em elas conhecerem a Deus ou não. A questão central ao estudar cada
uma delas é – Que lugar ocupou Deus na sua vida? A resposta a esta
pergunta é que decide quanto à felicidade e valor de cada uma delas. É
esta a motivação que a mantém em marcha.
As mulheres deste livro foram selecionadas nesta base. Irá
descobrir que, independentemente da idade, posição social ou ocupação,
há uma coisa que todas elas têm de enfrentar – a sua atitude para com
Deus.
Se Ele recebe o lugar correto na vida, então a pessoa torna-se
atraente dum modo especial e útil. Se Ele fica ausente ou se não Lhe é
dado o lugar próprio, então a vida não tem verdadeiro propósito – não
tem perspectiva.
Espero que descubra também que a Bíblia é um livro único e que,
ao se relacionar com esta mulheres, recomece com frescor e renovado
entusiasmo a estudar a Palavra de Deus.

Nota especial: Por favor, leia os textos bíblicos no princípio de


cada capítulo. Eles são necessários para a compreensão do mesmo.
Para aqueles que não desejam apenas ler a respeito destas
mulheres, mas querem também estudar as suas vidas, há perguntas para
estudo bíblico no fim de cada capítulo. A seção seguinte contém
sugestões sobre como usar este livro em estudo pessoal ou em grupo.
EVA,

A MÃE DE TODOS OS SERES HUMANOS

"A mulher foi feita duma costela tirada do lado de Adão: não da
cabeça para dominar sobre ele, nem dos pés para ser pisada por ele, mas
do lado para ser igual a ele, de debaixo do braço para ser protegida e de
junto do coração para ser amada''.
Matthew Henry*

Gênesis 1:27, 28
Gênesis 2:18
Gênesis 2:20-25
Gênesis 3:1-20

Ela estava encantada com tudo o que via – tudo à sua volta era
perfeito. A natureza que contemplava era nova e repousante. O ar que
respirava era puro e não poluído. A água que bebia era clara e cintilante.
Cada animal vivia harmoniosamente com todos os outros.
O casamento dela era perfeito – a sua comunhão com Deus e com o
mando constituíam um gozo diário. Eva possuía tudo o que alguém
poderia desejar.
Foi então que, um dia, uma voz vinda do jardim lhe perguntou: "É
assim, que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?"
Por que é que, perguntou ela a si mesma, nunca notei a beleza
especial da árvore que está no meio do jardim? E por que é que de
repente toda a minha felicidade parece depender de comer do seu fruto?
Comer algo tão desejável só pode ser bom.
O seu desejo foi despertado. Não notou que estava a ser enganada –
que a Palavra de Deus fora torcida – que o amor de Deus estava sendo
posto em dúvida.
Eva não sabia que quem lhe falava era Satanás disfarçado (Apoc.
20:2; 2 Cor. 11:14). Ele era e havia sido mentiroso e homicida desde o
princípio (João 8:44), querendo enganar as pessoas (1 Pe. 5:8). Não citou
Deus com exatidão, mas aplicou as suas próprias palavras (Gên. 2:16, 17).

*Henry, Mathew. A Commentary on the Whole Bible (Um Comentário Sobre Toda a Bíblia), Vol. 1,
Fleming H. Revell. Old Tappan, N. J.
O seu ataque à Palavra de Deus devia a tê-la prevenido para não lhe
dar ouvidos. Ela ainda podia ter escapado nesta fase da tentação (Tg.
4:7). Embora estivesse sobre terreno perigoso, havia sido criada com uma
vontade que era capaz de resistir ao tentador. Não precisava dar
oportunidade a Satanás para a enganar, prestando-lhe atenção. Podia
escolher. Mas, infelizmente, deu-lhe ouvidos. E o que é pior, respondeu-
lhe. Isto marcou o início da sua queda.
Como Satanás, Eva também torceu as palavras de Deus.
Acrescentou "nem nele tocareis..." ao que Deus havia dito, embora Deus
nada tivesse dita com respeito a tocar. Depois enfraqueceu a Sua ênfase
sobre a morte, substituindo "morrereis" por "para que não morrais".
A primeira investida de Satanás fora bem sucedida. Eva eslava
disposta a ouvi-lo e mesmo a demorar-se com ele. Isso aumentou a sua
ousadia. Com toda a arrogância, chamou a Deus mentiroso. Apresentou-
O como Alguém que queria subjugar o homem e limitar a sua felicidade,
uma vez que tinha poder para o fazer.
"Morrer?" desdenhou ele. "Não morrereis de modo nenhum. Sereis
mais felizes do que alguma vez sonhastes. Sereis como Deus". Continuou
a tentá-la, incitando-a à independência. O seu apelo à desobediência foi
fatal para Eva. A resistência dela tinha-se desfeito quando se dispôs a
argumentar com Satanás. Estendeu a mão e tomou do fruto que o seu
coração desejava.
Nessa altura, o mal já não podia ser evitado. Ela tinha-se
emaranhado tanto nas redes do enganador, que não seria capaz de
escapar. Comeu do fruto. Mas o problema não terminou aí. A mulher que
foi enganada tomou-se, por seu turno, enganadora. Eva enredou o
marido no seu pecado. Sem protestar, este aceitou o fruto e comeu-o.
Nesse momento, toda a vida dela se modificou.

A criação operada por Deus era ideal. Era tão perfeita que Ele
próprio ficou satisfeito com ela, e salientou esse fato após cada ato
criador.
Todavia, faltava alguma coisa. "Não é bom que o homem esteja só.
Far-lhe-ei uma auxiliadora", disse o Senhor Deus. Depois de o homem e a
mulher terem sido criados, a obra de Deus eslava completa e tudo era
"muito bom" (Gên. 1:31). Eva era uma criatura esculpida pela mão de
Deus. Foi criada igual ao marido. A única diferença entre eles era o sexo.
Ela era única.
Como ser humano, ela foi, do mesmo modo que Adão, dotada de
raciocínio e entendimento. Por conseguinte, era a companheira dele nas
conversas. E, como ele, tinha uma relação pessoal com o seu Criador, a
Quem devia obedecer. Juntamente com Adão, Deus tomou Eva
responsável pela execução das mesmas tarefas. À sua maneira própria e
específica ela devia ajudar a encher e a dominar a terra. Tinha uma
relação única com o marido. Partilhava a sua vida com ele. Completava-o.
A sua estrutura física tornava-a apropriada para ele, de modo que,
juntos, podiam cumprir o mandamento de Deus para se multiplicarem.
Embora feita depois de Adão, Eva não era certamente o resultado
dum "pensamento tardio". Era uma parte do plano original de Deus
como Adão. Não podia realizar-se sem ele, e ele não podia passar sem ela
(1 Cor. 11:11, 12). Dentro do casamento Eva estava sujeita a Adão (Efés.
5:22-24). Adão tinha sido indicado por Deus para exercer a liderança e
assim garantir a ordem social, pois Deus é um Deus de ordem.
Como marido e mulher, Adão e Eva formavam um novo núcleo: um
casal. Este casal caracterizava-se por uma personalidade própria. Não era
a soma de dois indivíduos; era ele próprio uma nova entidade. O plano de
Deus é que os cônjuges vivam juntos em perfeita harmonia – que se
sintam á vontade um com o outro, sendo um numa união mantida pelo
amor e respeito mútuos (Efés. 5:21).
Eva reconheceu quão rudemente havia sido enganada. Notou
primeiro isso na sua relação com Adão. Tinham-se sentido sempre à
vontade um com o outro, exatamente como Deus os criara. Mas agora
sentiam-se subitamente tímidos e indefesos. A proteção da sua inocência
desaparecera. Descobriram que não podiam ter uma relação livre e
natural. Começaram a esconder coisas um do outro. Verificaram que não
estavam apenas nus diante um do outro – estavam nus diante de Deus! A
pureza havia desaparecido. A sua natureza sem pecado fora destruída. A
sua íntima relação com Deus fora cortada. Em vez de se tomarem iguais a
Ele, como Satanás havia prometido, ficaram com medo e fugiram dEle.
Foi então que Deus entrou nesta desoladora situação. Ele tomou a
iniciativa de os procurar. Com quanta ternura os saudou. Começou com
uma pergunta, não com uma acusação. Deu-lhes a oportunidade de
reconhecerem o seu pecado, mas eles não a aproveitaram (Rm. 5:12,14).
Considerou Adão responsável, uma vez que era ele o cabeça da família.
Embora estivesse presente, Adão não impediu Eva de cometer o
pecado. Na realidade, juntou-se a ela. E culpou-a. "A mulher que me
deste é que fez isto". Adão falou como se estivesse acusando a Deus por
lhe ter dado Eva.
Eva passou também a responsabilidade para outro. Acusou a
serpente, embora, se fosse honesta consigo mesma, tivesse de admitir
que aceitara voluntariamente a sua proposta. Era verdade que a tinha
enganado, mas ela pecara por sua própria e livre vontade. Ficara
reprovada no teste a que foi submetida como ser humano para obedecer
voluntariamente a Deus, e em amor.
O juízo de Deus que se seguiu revelou-lhe o catastrófico impacto do
seu ato. Não só o belo jardim do Éden, mas todo o mundo foi
amaldiçoado. O solo, antes sem ervas daninhas, produziria agora
espinhos e cardos. Os animais foram malditos. A tranqüilidade do reino
animal sobre o qual Adão e Eva tinham dominado, desfigurou-se. O lobo
e o cordeiro nunca mais comeriam pacificamente juntos. O mais forte
dominaria o mais fraco. O belo paraíso em que poderiam ter vivido
felizes para sempre, tinha-se tornado de um só golpe num paraíso
perdido. Eles foram obrigados a sair rapidamente, para que não
comessem da árvore da vida e se vissem assim forçados a viver
eternamente como pecadores (Gên. 3:22,23).
Eva, que fora o término da criação de Deus – o último elo na cadeia
de felicidade sobre a terna – tinha jogado fora essa felicidade com a sua
desobediência.
A alegria da maternidade seria temperada com dor e dificuldades.
O aguilhão do domínio afetaria agora a sua relação com o marido. Ele
dominá-la-ia por causa do pecado.
E embora Adão e Eva não morressem instantaneamente após o seu
pecado no jardim, a instituição da morte foi um dos resultados. Num
segundo haviam-se tornado seres humanos mortais, sob o domínio da
morte.
Mas muito pior que a morte natural foi a morte espiritual, o vazio
da separação de Deus (Gên. 2:17; Efés. 2:1). Foi isso acima de tudo que
Eva experimentou dolorosamente no más íntimo do seu ser.

Eva estava só e passou um mau bocado durante o ato de dar à luz.


Sendo a primeira mulher sobre a terra, não tinha mãe, nem irmã, nem
amiga que pudesse partilhar dos seus sentimentos. Não havia ninguém a
quem pedir conselho, nenhuma outra mulher que pudesse ajudar no
parto. E, que estranha experiência tornar-se mãe, quando ela própria
nunca havia sido filha. O que é que se deve fazer com uma criança?
Nestas circunstancias difíceis, não admira que Eva se voltasse para Deus.
"Dei à luz um homem com a ajuda do Senhor", disse ela, e sorriu para o
bebê, Caim.
Adão e Eva não foram os únicos a serem punidos por pecarem
contra Deus. O castigo de Satanás foi muito maior. Ele foi informado da
sua destruição por Alguém cujo nome seria Emanuel, que nasceria da
descendência de Eva (Isa. 7:14). Teria ela a esperança e estaria na
expectativa de que a criança que tinha nos braços fosse o Messias
prometido?
Eva foi uma demonstração viva de fé – fé em que uma pessoa
nunca poderia mergulhar tão fundo que não pudesse voltar-se de novo
para Deus. E de esperança – esperança de que Deus ia dar novas
possibilidades, independentemente da grandeza do pecado.
Eva ficou arrasada quando Caim matou o segundo filho que ela
teve. Verificou que tinha trazido ao mundo um homem pecador. Ele era
um assassino. A terrível extensão do seu ato no jardim tornou-se ainda
mais evidente. Ela transmitira a morte espiritual e física a Adão, e este a
todas as pessoas nascidas (Rom. 3:10-12,23). Nenhum ser humano
voltaria jamais a viver em inocência como ela vivera. Cada pessoa que
nascesse pecada, não apenas por escolha, mas também devido a uma
pressão íntima. Todos travariam um combate interminável entre o bem e
o mal. Todos estariam separados de Deus pelo pecado. Não haveria
qualquer exceção.
Satanás apela constantemente aos desejos do homem, tentando
seduzi-lo. O pecado e a morte entram em cena cada vez que alguém cede
aos seus próprios desejos (Tg. 1:14,15). Em todas as gerações haverá
pessoas como Eva que são levadas pelo desejo de terem o que os olhos
cobiçam e de satisfazerem as inclinações da soberba (1 João 2:16).
Satanás lenta movimentar todas as pessoas contra Deus, exatamente
como fez com Eva. Excita a rebelião e a ingratidão para levar os homens a
cair como ele caiu – por soberba (Isa. 14:12-14).
Mesmo muitos, muitos anos depois do Éden, quando o homem é
remido por Jesus Cristo (1 João 2:2) e todo aquele que crê pessoalmente
nEle tem de novo acesso a Deus (João 1:12), os melhores homens terão
de reconhecer que, embora desejem fazer o bem, são arrastados para o
mal (Rom. 7:15-19). Só Jesus Cristo – Aquele que foi anunciado – provou
que o homem pode vencer a tentação, se se agarrar à Palavra de Deus e
viver de acordo com ela (Mat. 4:1-11).
Como conseqüência do pecado de Adão e Eva, as 1ágrimas, a
tristeza e a dor que as pessoas experimentam, agora, irão continuar até
ao estabelecimento do novo Reino (Apoc. 21:1,4). Até essa altura, todo o
ser humano será atormentado pelo pecado. Até lá, todos continuarão a
ser avisados para não seguirem o exemplo de Eva 2 Cor. 11:3). Pois Eva, a
mãe de todos os viventes, fornece um exemplo assustador. Ela é a mulher
que admitiu o pecado no mundo, quando permitiu que Satanás a fizesse
duvidar da Palavra de Deus e do Seu amor.

Eva, a mãe de todos os viventes

(Gênesis 1:27,28; 2:18,20-25; 3:1-20)


Perguntas:
1. Leia Gênesis 1 e 2. Como e por que foi criada Eva?
2. Quem era a serpente? (Apocalipse 20:2; João 8:44). Que
táctica aplicou quando enganou Eva?
3. De que forma o considera ainda a trabalhar, de acordo com
Mateus 4:1-11 e João 2:16?
4. Pode um ser humano resistir à tentação? Se sim, como?
5. Descreva a situação em que Eva vivia antes da queda.
6. Como se tornou a situação depois? Mencione todas as
mudanças que possa encontrar.
7. A seu ver, qual é o resultado de maior extensão do pecado
de Eva?
8. Em seu entender, qual é a advertência mais importante
desta história? Como é que ela afeta pessoalmente a sua
vida?
SARA,

A PRINCESA CUJO NOME ESTÁ REGISTRADO COM


HONRA

"Fé é confiança, segurança, crédito. É o sexto sentido que nos


habilita a apreender o campo espiritual invisível, mas real. No âmbito
deste reino os contatos são feitos diretamente com Deus."
J. Oswald Sanders*

Gênesis 18:1-15
Gênesis 21:1-13
Hebreus 11:11
1 Pedro 3:6

A cena passa-se em Hebrom, dois mil anos antes de Cristo. Sara ri-
se, mas não por ser feliz. Ri-se por causa do que ouviu – que ela, uma
mulher de 89 anos, daria à luz um filho! Impossível!
Ela e o marido são demasiado velhos para terem um bebê. É
biologicamente impossível que ela possa ter um filho, embota o tenham
esperado durante muitos anos. Tinham vivido na convicção de que o
próprio Deus lhes havia prometido um filho 25 anos antes, mas a
promessa não fora cumprida. Devem ter-se enganado. Sara refletia sobre
aqueles anos...
Tinham vivido em Ur, um centro de cultura e comércio, no sul da
Mesopotâmia. Embora Ur já não estivesse no auge da sua história, ainda
lhes tinha proporcionado uma existência florescente. Os seus artífices só
eram ultrapassados pelos do Egito. Os barcos que chegavam ao porto
traziam mercadorias do oriente para trocar por cereais do local. Muitos
cidadãos eram ricos e viviam em casas espaçosas.
Sara e Abraão tinham gostado do tempo que passaram lá, vivendo
entre parentes e amigos. Mas um dia, as suas vidas sofreram uma
mudança radical. Deus apareceu a Abraão (Gên. 11:31-12:5). A Sua
aparição foi tão gloriosa (Atos 7:23), que não admitira qualquer dúvida
sobre quem Ele era. Tratava-se do verdadeiro Deus, não de Sin, o deus da
lua, que os antepassados de Abraão tinham adorado (Jos. 24:2). Deus
ordenou a Abraão que deixasse a sua terra e parentes e fosse para um

* Sanders, J. Oswald, Mighty Faith (Fé Poderosa), 1971, Moody Press, Chicago, Illinois.
lugar que Ele lhe iria mostrar. A ordem ficou ligada a uma promessa: "E
far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome;
e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as
famílias da terra." (Gên. 12:2,3). Abraão obedeceu imediatamente. E Sara
adaptara-se à decisão. Tornaram-se de repente semi-nômades, em vez de
habitantes duma cidade rica e confortável.
Como acontece com a maior parte das mulheres, ela não achou fácil
deixar para trás o lar e os queridos, indo ao encontro dum futuro
desconhecido. Mas obedeceu ao marido e confiou no Deus que lhe falara.
Viajaram durante meses, movendo-se lentamente através da terra
por causa do seu gado. Finalmente chegaram a Haran, a cerca de 960
quilômetros para noroeste. Ficaram lá durante muito tempo, e a vida
tornou-se de novo um pouco mais confortável, embota não tão luxuosa
como havia sido em Ur. Todavia, era bastante melhor do que a sua
anterior existência errante.
Mas deu-se então outra mudança. Desta vez para sudoeste. Desfez-
se assim más um pouco da segurança de Sara. Tera, o pai deles, havia
morrido. Ela era mera irmã de Abraão. Mas não se tratava de algo
invulgar, uma vez que as oportunidades de casamento naqueles tempos
eram muito limitadas, e a pessoa tinha, multas vezes, de procurar uma
companheira dentro do círculo íntimo da família. Com a morte do pai e a
ausência dos parentes que ficaram em Haran (Gên. 24:4,10; 27:43), a
vida tornou-se ainda mais solitária. Apenas Ló, um primo, tinha seguido
com eles.
A despeito das suas perdas, duas coisas permaneceram inalteradas.
Primeiro, eles continuaram a crer nas promessas de Deus. Sentiam que
ainda teriam o filho, apesar de estarem a ficar velhos. Abraão já tinha 75,
e ela 65. Em segundo lugar, continuaram a experimentar um respeito e
amor duradoiros em relação um ao outro.
Nem tudo foi fácil. Como Abraão, ela possuía uma personalidade
forte, com um caráter bem desenvolvido. Esforçou-se ao máximo para se
ajustar e obedecer ao marido. Possuía, sem dúvida, uma mente própria,
todavia conseguiu dar-se a ele por causa duma liberdade interior.
Sim, continuava ela nas suas reflexões, a sua relação com o marido
era determinada pela relação que mantinha com Deus. A sua fé em Deus
fizera dela uma mulher fiel e forte, capacitando-a a permanecer na vida
intrépida e firme, vivendo harmoniosamente com o marido (1 Pe. 3:1-7).
Porque ela procurou obedecer-lhe e dar-lhe o primeiro lugar, ele,
por seu lado, respeitava-a, dava ouvidos aos seus conselhos e honrava-a
com o seu afeto. Estimavam-se tanto quanto se amavam, discutindo
juntos os assuntos de interesse mútuo e diário. Uma vez que estavam
abortos a Deus e um ao outro, o seu casamento e vida espiritual eram
fortes.
O tempo passou, e eles continuavam sem um filho. Entretanto,
haviam chegado a Siquem, onde Deus apareceu de novo e lhe disse: "À
tua semente darei esta terra" (Gên. 12:6,7).
Por fim, chegaram ao seu destino. E continuaram a esperar o filho
prometido. Em sinal de gratidão, Abraão edificou um altar a Deus. Mas,
porque uma grande fome vejo sobre a região, Abraão deslocou-se para o
sul a fim de conseguir alimentar a família e os animais. Fez isto por sua
decisão, sem pedir conselho a Deus. Foram para o Egito. Teriam ido
numa direção que não agradava a Deus? A vida no Egito não foi fácil. Em
virtude de Sara ser bela, Abraão temeu pela sua vida, pensando que os
egípcios o matariam para se apoderarem dela. Por isso, pediu-lhe: "Por
favor, diz-lhes que és minha irmã, para que não tentem matar-me" (Gên.
12:13). Ele refugiou-se na mentira por causa do medo, contudo era um
homem que tinha, implicitamente, confiado em Deus durante anos. E a
respeito do seu amor por mim? – perguntou ela a si mesma.
É verdade que no início das suas peregrinações tinham concordado
em usar essa táctica. Serenaram as consciências com o fato de que
realmente não se tratava duma mentira (Gên. 20:12,13). Na teoria isto
parecia aceitável, mas na prática Sara sentia-se traída.
Exatamente como Abraão suspeitara, a beleza dela foi notada, e
acabou no harém de Faraó. O medo que Abraão tivera de morrer não só
pôs em perigo a pureza de Sara, mas levara-a a sentir que ele agiu sem ter
em consideração a promessa de um filho.
Mas o Deus em que ela tinha confiado interveio. Por meio de
tormentos e grandes pragas, Deus esclareceu a situação diante do rei
pagão (Gên. 12:10-20). Como conseqüência de todo esse assunto, ela
perdeu alguma confiança no marido. Por momentos, ele deixou o seu
pedestal. Mais um pouco da segurança de Sara ficou destruída.
Voltaram então para a terra que Deus lhes havia prometido,
trazendo com eles uma jovem escrava egípcia, Agar. À medida que os
anos se passavam sem a vinda do filho prometido, Abraão começou a
interrogar-se sobre se a solução de Deus seria a de um filho adotivo.
Talvez esse filho fosse Eliezer, o homem mais importante da sua casa
(Gên. 15:1-4).
Mas não era esse o plano de Deus. Ele havia prometido que o
herdeiro seria um filho concebido por Sara. A promessa dum
descendente continuou inalterada e foi confirmada por juramento. (Gên.
15:5-21) Embora Deus repetisse as Suas promessas, demorava em
cumpri-las.
Ela sabia por experiência que para viver uma vida de fé, não só
precisava de se abster da segurança humana, mas também de ser
paciente. A fé e a paciência andavam juntas. Não podiam comprar-se
facilmente como qualquer mercadoria, tinham de ser aprendidas através
da dura escola da vida. Precisavam ser exercidas (Heb. 6:13-15) e eram
provadas por atos concretos. Tanto ela como Abraão foram obrigados a
aprender que a fé tem de estar ancorada sobre a sólida base das
promessas de Deus e não sobre a areia das possibilidades humanas.
Mas Sara tornou-se impaciente. Considerando que já haviam
passado os anos em que poderia gerar um filho, sugeriu a Abraão que
tomasse Agar, a serva egípcia, como concubina. (Gn. 16) Exteriormente,
ela tinha-se adaptado aos costumes do tempo. Afinal de contas, coisas
desse gênero ocorriam com freqüência. Provavelmente ela poderia
defender aquela sua ação na base da lei, referindo-se ao seu contrato de
casamento, em que prometera um filho ao marido. Mas o que fez estava
errado, porque revelava falta de fé.
O seu espírito de renúncia tinha-a levado a um grande sacrifício.
Podia ter apresentado a desculpa de que Deus não dissera que o filho
prometido seria mesmo dela. Mas será que tinha feito um sacrifício
desnecessário por querer a todo o custo ver a promessa de Deus
cumprida, fosse como fosse, e no tempo por ela escolhido? O longo
tempo de espera, nessa altura, dez anos, tornou-se quase insuportável.
Provavelmente, o seu problema real não consistiu no fato de a sua
paciência se ir esgotando, mas em ter procurado por ela mesma a
solução. Tomou nas mãos o seu destino e saiu-lhe bem caro.
O que é que teria levado Abraão a dar-lhe ouvidos? Isso ainda não
estava claro. Mas, como Adão antes dele, tinha colhido o fruto amargo de
atender a uma sugestão errada da esposa. (Gên. 3:17) Oh, por que é que
lhe dera ouvidos?
As conseqüências tornaram-se evidentes quase de imediato. O
pecado da descrença e da impaciência tinha começado a dar fruto pouco
depois de a criança estar no ventre de Agar. O lar patriarcal foi dilacerado
com o descontentamento e falta de paz. Agar havia revelado um
sentimento de superioridade.
Sara esqueceu-se de que fora ela quem tomara a iniciativa daquele
infeliz plano. Porque se tinha afastado de Deus, negligenciou examinar-
se a si mesma e arrepender-se. Pelo contrário, tinha culpado o marido.
Humilhou tão profundamente Agar, que, se Deus não interferisse, a
jovem teria provavelmente morrido. Sara degradara-se. Tinha descoberto
quão destruidores eram os poderes que uma pessoa pode manifestar
quando se afasta de Deus.
Tinha querido ganhar tempo. Ninguém podia saber, se, pelo
contrário, isso resultaria ou não em autêntica perda de tempo. Todavia,
ela sabia que se haviam passado 13 anos sem que Deus se tivesse
revelado a Abraão. Como é que ele se tinha sentido durante esse tempo?
Abraão estava ainda muito ocupado a servir os hóspedes que
tinham surgido de repente, sem saber donde, e se achavam diante dele.
Durante a visita, Sara ajudou a preparar a refeição. Quando chegou a
hora de os servir, ficou na retaguarda, como era costume no oriente, onde
o mundo era dominado pelos homens.
A sua atenção foi despertada quando ouviu um deles perguntar:
"Onde está Sara, tua mulher?" Isto fez com que ela começasse a imaginar,
enquanto se dirigia para a entrada da tenda. Quem são estes homens?
Como é que sabem o meu nome? Que mais saberão eles a meu respeito?
– perguntava ela a si mesma.
Abraão respondeu-lhes: "Está na tenda". Veio então aquela
afirmação surpreendente: "Tornarei a ti dentro dum ano; e eis que Sara,
tua mulher, terá um filho".
Os homens continuavam sentados, de costas para a tenda, e Sara
achou que não seria notada. Estava só com os seus pensamentos.
Intimamente ria-se destas palavras. Eles estavam realmente sendo muito
delicados. Eram cavalheiros. Demonstravam a sua gratidão pela
hospitalidade, prometendo gentilmente um filho ao hospedeiro.
Subitamente, ela deixou de imaginar voltando de modo abrupto à
realidade. Atônita, ouviu em palavras os pensamentos que não chegara a
pronunciar. O homem perguntou: "Por que riu Sara, dizendo: Na verdade
gerarei eu havendo já envelhecido?" E continuou logo com estas
impressionantes palavras: "Haveria coisa alguma difícil ao Senhor?"
O Senhor? O Senhor?
Então, ela reconheceu-O, como Abraão já o tinha reconhecido. Não
se tinha o marido dirigido às três pessoas no singular, com "Meu
Senhor"?
O próprio Senhor tinha descido do céu para falar com ela e
confirmar pessoalmente a promessa. "Ao tempo determinado tornarei a
ti, por este tempo, e Sara terá um filho". Profundamente perturbada, ela
negou a sua falta de fé e disse: "Eu não me ri". Sabia a resposta antes de
Ele a ter dado: "Riste-te, sim".
Por que é que o Senhor não Se dirigiu a mim diretamente? –
cismava ela. Porque é um hábito oriental falar à mulher por intermédio
do marido? Ou quereria Ele lembrar a Abraão que, como a esposa,
também ele tinha rido por descrer? Não tinha passado muito tempo
desde que Deus lhe repetira a promessa dum filho. Gên. 17. Pois Abraão
havia igualmente perdido a esperança de alguma vez chegar a ter um
filho de Sara. Estava satisfeito com Ismael e tinha suplicado que Deus o
aceitasse.
Pela primeira vez, Deus disse explicitamente que o filho da
promessa seria o filho de Sara. Como prova disso, tinha-lhes mudado os
nomes. Em vez de Abrão, "Pai da Altura'', dali em diante o nome dele
seria Abraão, "Pai duma multidão". Sarai passou para Sara, que
significava "Princesa". O Senhor não tinha considerado suficiente dizer
apenas a Abraão que o tempo de espera estava a chegar ao fim. Tinha
vindo também para o dizer pessoalmente a Sara.
No ano seguinte, no tempo indicado por Deus, nasceu-lhes um
filho. O nome que Deus lhe deu, Isaque, significa "Riso". Enquanto
vivessem, Isaque lembraria aos pais o fato de que, com incredulidade,
haviam posto um ponto de interrogação atrás do seu nome, o qual Deus
transformara em ponto de exclamação.
Os resultados do erro de Sara ao permitir que Agar se tornasse
concubina de Abraão continuaram a ser muito sérios. Uma vez que
Ismael tinha escarnecido de Isaque na festa em que este foi desmamado,
Sara insistiu em que Abraão mandasse embora Agar e Ismael. Houve
tristeza no coração de Abraão, pois ele também sofria pela participação
que tivera no pecado. Contudo, Deus disse-lhe que desse ouvidos a Sara.
Assim, mandou embota a egípcia e o seu filho. Deus amava-os também,
como a história tem provado, mas estabeleceu-se aí uma separação
distinta entre os descendentes de Isaque e os de Ismael. Sara só viveu
mais 37 anos depois do nascimento de Isaque, por isso não viu a miséria
e a tristeza desencadeadas pelos descendentes dos dois filhos de Abraão.
Os árabes, descendentes de Ismael, e os judeus descendentes de
Isaque, tornaram-se inimigos constantes. Mesmo passados tantos
séculos, os problemas do Médio Oriente ainda aguardam solução.
Qual não seria a tristeza de Sara se soubesse que o seu ato de
impaciência teve efeitos tão sérios, e que a sua memória ficou manchada
por ele. Mas a Bíblia não termina a sua história em escala menor.
A primeira mulher que aparece na galeria dos heróis da fé, em
Hebreus 11, é Sara. Ela ficou registrada com honra por causa da fé que
demonstrou, não por causa dos seus fracassos.
A sua fé majestosamente ilustrada no nascimento de Isaque cresceu
durante a sua longa existência. A vida tinha requerido de Sara muitos
sacrifícios. Ela privou-se de muitas coisas que amava e queria.
Experimentou durezas e desapontamentos – tudo sem murmurar. Era
flexível em situações mutáveis. Adaptou-se ao marido. Pela sua
obediência a Abraão permitiu-lhe a ele obedecer a Deus.
Os cientistas descobriram que as emoções más podem fazer
adoecer uma pessoa. Dizem também que as emoções saudáveis
governadas por um sentimento de felicidade, satisfação e fé
inquebrantável em Deus podem concorrer para a beleza física, boa saúde
e vida longa.
Teria sido esse o segredo da beleza e vitalidade exteriores de Sara?
Pedra louva-a pela beleza interior e desafia todas as mulheres a seguirem
o seu exemplo. Pois Sara é verdadeiramente uma princesa entre as
mulheres.

Sara, a princesa cujo nome está registrado com honra

(Gênesis 18:1-15; 21:1-3; Hebreus 11:1; 1 Pedro 3:6)

Perguntas:
1. Leia Hebreus 11:11 mais uma vez. Por que é que o nome de
Sara é mencionado entre os heróis da fé?
2. Compare 1 Pedro 3:6 com Efésios 5:22-33. O que é que o
impressiona na sua relação com o marido?
3. Quais as experiências da vida de Sara que, na sua opinião,
deram oportunidade de crescimento à sua fé? (Estude
também as referências citadas em Gênesis 11,12 e 20).
4. Qual lhe parece ser o maior desafio à fé dela?
5. Que prova existe de que a fé de Sara também experimentou
pontos baixos? Que características negativas vê então?
(Leia também Gênesis 16).
6. Quais os resultados que vê brotar da impaciência de Sara?
7. Ismael foi o pai dos árabes. Quais as conseqüências da vida
de Sara que se podem ver ainda no presente?
8. Que lições aprendeu da Sara? Escolha a mais importante e
decida como é que poderá aplicá-la na sua vida.
REBECA,

UMA MULHER COM GRANDE POTENCIAL, TODAVIA ...

"Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede o de


rubis."
Salomão (Prov. 31:10)

Gênesis 24:1-28
Provérbios 31:10

I. A Proposta de Casamento
Começou quase como um conto de fadas. Um rapaz solteiro muito
desejado, o único filho dum pai rico e herdeiro duma grande fortuna
(Gên. 24:34-36), andava à procura de esposa. Mesmo antes de nascer,
Deus tinha-lhe prometido que teria uma enorme descendência. Havia-lhe
dito também que faria com ele e com a sua descendência um concerto
eterno. Gên. 17:19; 12:2,3. Portanto, a mãe desses filhos e a avó dos filhos
deles tinha de ser escolhida com muito cuidado.
Isaque era esse jovem solteiro. O pai, Abraão, fez todos os
preparativos para o casamento – escolheu mesmo a noiva. Tinha enviado
um homem em que podia confiar, com tão delicada incumbência –
provavelmente Eliezer, mordomo da sua casa (Gên. 15:2-4) a Haran, na
Mesopotâmia, onde Abraão vivera anteriormente. Alguns dos seus
parentes ainda moravam lá. Parecia-lhe que alguém do seu círculo
familiar seria a melhor garantia para uma união matrimonial
harmoniosa. Eles teriam os mesmos princípios e mútua compreensão.
Embora vivendo em Canaã, Isaque não estava autorizado a casar
com uma mulher da região, porque os cananeus estavam sob a maldição
de Deus. Gên. 9:22-27. Eram pagãos, pois não adoravam o Deus de
Isaque, e o casamento com uma incrédula daria origem a um par desigual
aos olhos de Deus (2 Cor. 6:14).
Abraão, que desejava uma esposa escolhida por Deus para o seu
filho, estava convencido de que os casamentos deviam ser feitos no céu.
Acreditava que Deus estava pessoalmente interessado na união de duas
pessoas. Afinal de contas, não tinha Ele criado uma esposa especial para
Adão, alguém com quem o primeiro homem pudesse desfrutar uma
felicidade perfeita?
Acreditava que Deus havia também escolhido uma esposa para
Isaque. Na qualidade de pai, podia dar riquezas ao filho, mas só o Senhor
podia dar-lhe uma esposa compreensiva (Prov. 19:14) – uma boa esposa
é um dom e uma bênção do Senhor (Prov. 18:22). Abraão tinha a certeza
de que o próprio Deus Se encarregaria da viagem, se ele lhe pedisse.
Assim, encorajou o mordomo com a promessa de que o Senhor Deus
enviaria o Seu anjo diante dele para assegurar o contato com a mulher
adequada.
Após uma viagem de cerca de 880 quilômetros, Eliezer chegou a
Haran, onde vivia Naor, irmão de Abraão. Fez duas coisas logo que
chegou. Orou pedindo ajuda, e, depois, sendo um homem prático, foi
para o lugar mais natural de ajuntamento do povoado, o poço de água.
Entardecia. Em breve as mulheres viriam buscar água.
Como é que escolheria a esposa apropriada para Isaque, dentre as
muitas que viriam ao poço? Qual delas teria Deus destinado para mulher
do filho do seu Senhor? Tudo dependia da direção de Deus, por isso
Eliezer prosseguiu em oração. Pediu um sinal pelo qual a pudesse
reconhecer: "Que a jovem a quem eu pedir água e que ofereça também de
beber aos meus camelos seja a esposa que queres para Isaque". E,
sabendo que uma pessoa pode pedir tudo a Deus, suplicou êxito para
aquele mesmo dia.
Apesar de breve, esta oração revelava o grande discernimento do
mordomo. As mulheres orientais eram muito tímidas quando se
encontravam com homens estranhos. Portanto, se uma moça lhe
respondesse com tanto à vontade, ele poderia considerar isso como
orientação de Deus.
Mas teria ele consciência de que a resposta à sua oração mostraria
também outras qualidades na jovem? Não era coisa simples tirar água
para dez camelos. Seria necessário tirar e transportar 120 a 240 litros.
Isso exigia boa saúde e força física. A mulher que iria ser o próximo elo
na cadeia de muitos descendentes que Deus havia prometido a Abraão
precisaria de ser forte e saudável.
A ação revelaria também alguma coisa a respeito do seu caráter.
Simpatia e prontidão em servir deviam ser características da noiva de
Isaque. Eficiência e capacidade de fazer trabalho duro seriam benéficas
na existência nômade que teria de levar com o marido. Ser-lhe-ia útil
também mostrar iniciativa quando tinha idéias próprias.
Isaque, filho de pais idosos, permanecera solteiro até depois dos
40. Era muito ligado à mãe. Não era homem de grandes feitos. A esposa
precisaria de o complementar, revelando qualidades que ele não possuía.
O servo de Abraão tinha orado silenciosamente. Ninguém ouvira o
seu pedido, senão Deus. Mal tinha acabado de orar quando algo dentro
dele lhe disse que olhasse para cima. Ali na sua frente viu uma moça com
um cântaro ao ombro. Esbelta, jovem. À medida que ela se aproximava,
ele sentia uma convicção crescente de que essa era a resposta à sua
oração. Ali estava a noiva de Isaque!
O dia começara como qualquer outro para Rebeca. Não tinha
recebido qualquer indicação de que se trataria dum dia histórico. Não
tinha a menor idéia de que estava prestes a assumir o papel principal
numa história de amor que iria enternecer os corações durante milhares
de anos, no futuro. O passeio diário ao poço era prosaico, como o de
ontem e de anteontem – mas neste dia, ao chegar ao poço percebeu uma
certa tensão no estranho que observava a sua chegada. Isso não a
contrariou. Correspondeu alegremente quando ele lhe pediu água.
Por que é que o bater do meu coração é tão leve, tão feliz – como
se aguardasse alguma coisa? – perguntava a si mesma. Parecia que algo
do exterior lhe dava asas aos pés e força extra aos braços. Queria fazer
algo de especialmente amável a este simpático velho. Por isso, ofereceu-
se para dar também de beber aos camelos. Levou muito tempo até todos
os animais ficarem satisfeitos e, todavia, aquele sentimento leve e feliz
permanecia nela. Terminou eficientemente a árdua tarefa. Os olhos
atentos do estrangeiro não a tinham deixado um só instante. Examinava-
a em silêncio.
Quando acabou o trabalho, ele deu-lhe presentes de ouro.
Surpreendeu-a o fato de ele dar um presente tão rico pelo pequeno favor,
mas podia ver, pelas pessoas que estavam com ele, que se tratava dum
homem rico.
"Diz-me de quem és filha".
Ela notou a tensão reprimida na sua voz. Quando respondeu: "Sou
a filha de Betuel, filho de Milca e de Naor", ele inclinou a cabeça perante
Deus e louvou-O.
Quando ouviu mencionar o nome bem conhecido do seu tio
Abraão, durante a oração, e verificou que este piedoso homem tinha feito
aquela longa viagem com o principal objetivo de se encontrar com a sua
família, correu a casa a dizer-lhes.
Devido a toda aquela excitação, ninguém dormiu muito bem na
casa de Betuel naquela noite. Todos haviam chegado a uma conclusão
depois de ouvirem a história do homem – Deus estava a dirigir as coisas.
Tinham ouvido como a busca da esposa de Isaque se ancorava nas
promessas do Senhor. Como o nascimento e a vida de Isaque eram a
prova de que Deus cumpria o prometido (Rom. 4:18-21; Heb. 11:17-19),
assim deveria o seu casamento estar ligado às Suas promessas. A
confiança de Abraão nessas promessas foi a razão das suas ações. Ao
enviar Eliezer à procura da noiva. Abraão estava convicto de que fazia a
vontade de Deus, e tinha a certeza duma resposta às suas orações.
Abraão e Eliezer não ficaram desapontados. Deus tinha-lhes
mostrado claramente o caminho. A direção de Deus foi depois
confirmada pelo sentimento dos parentes. Na cultura de Rebeca, o
casamento não era algo a ser decidido só pelo par. Outros,
particularmente os pais, deviam dar o seu conselho.

Moisés escreveu mais tarde, como mandamento de Deus, que os


filhos devem obedecer aos pais (Dt. 5:16). Salomão sugeriu que e
buscasse conselho de outro antes de agir (Prov. 20:18). Se os pais e
conselheiros reagem positivamente à consideração de um casamento, e
se, desde os primeiros passos o casamento estiver baseado na Palavra de
Deus e na oração, então, como no caso de Rebeca e Isaque, pode-se
concluir que Deus está decididamente orientando as coisas.

Embora a família tivesse expressado a sua opinião, a última palavra


pertencia a Rebeca. Ele deu um "Sim" incondicional à pergunta: "Queres
ir com este homem?" A sua resposta constituiu um grande passo de fé. A
distância entre o seu futuro lar e a cidade dos pais, significava que
provavelmente jamais regressaria. Seria uma separação para toda a vida.
Rebeca, neta de Naor, demonstrou algo do mesmo tipo de fé de
Abraão, irmão de Naor. Quando soube a vontade de Deus, obedeceu sem
reservas, como Abraão havia feito. Estava pronta a ajustar a sua vida a
tudo o que o seu futuro marido exigisse dela.
Tiveram o seu primeiro encontro no campo. A pequenez da tenda
tinha sido demasiada para Isaque. Ele tinha saído para falar com Deus,
sabendo que a caravana poderia regressar qualquer dia.
Rebeca viu um homem que caminhava na direção da caravana.
Quando soube que era Isaque, cobriu o rosto com o véu, pois no oriente a
noiva nunca mostrava o rosto ao noivo, senão depois da cerimônia
matrimonial.

O casamento é um símbolo do concerto entre Deus e a nação


judaica (Osé. 2:18,19). No futuro, torna-se símbolo de Cristo e da sua
Igreja (Efés. 5:23,24).

A noiva de Isaque deve ter-lhe recordado a mãe. Como Sara,


Rebeca era inteligente, enérgica, de vontade firme e muito bela. Possuía
tudo o que ele poderia desejar numa mulher. Isaque amou-a, e ela amou-
o igualmente.
A história é muito mais interessante do que os contos de fadas,
porque as pessoas são de carne e osso, de emoções e de razão, de
esperança e de desespero. Rebeca, uma jovem desconhecida, tornou-se
participante da história de Abraão, o pai da fé judaica, o pai de todos os
crentes, o amigo de Deus. Entrou pelo limiar dum futuro cheio de
promessas. O que é que iria ela fazer dele?

II Rebeca Toma a Sorte Dela Nas Suas Próprias Mãos

"Toda a mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola derruba-a com
as suas próprias mãos."
Salomão, Prov. 14:1

Gênesis 27:1-30
Gênesis 27:41-46

Rebeca ficou desconfiada quando viu o filho mais velho, Esaú,


entrar na tenda de Isaque. De que é que estariam a falar? – perguntava a
si mesma. Levada pela curiosidade, pôs-se a espiar o homem que muitos
anos antes havia considerado como um dom de Deus. Incrível!
A comunicação entre Rebeca e Isaque tinha-se tornado muito fraca.
A unidade da família havia-se desfeito. Estava dividida em dois mini-
mundos. Um consistia de Jacó e ela própria, outro de Isaque e Esaú.
Parece que os filhos os tinham separado. Embora gêmeos, os rapazes
eram diferentes como o dia da noite.
O cabeludo Esaú era um homem rude, tanto fisicamente como no
seu caráter íntimo. Gostava de viver ao ar livre e tinha ganho a admiração
do pai, pois Isaque gostava da carne de caça que Esaú trazia para casa.
Jacó, o mais novo, era de constituição mais fraca e de caráter
astuto. Ficava em casa e era o preferido da mãe.
O fato de terem filhos devia concorrer para aproximar Isaque e
Rebeca um do outro, mas, infelizmente, parece que os afastou. O seu
casamento foi prejudicado pelo favoritismo.
O amor de Rebeca por Jacó baseava-se no que Deus havia dito
antes dos filhos nascerem. Mas naquele dia não tinha tempo para
contemplações. Não era ocasião para se distrair com o passado. Havia
outras coisas a considerar. O futuro do seu querido filho, Jacó, estava em
jogo.
Evidentemente não lhe passou pela cabeça que o futuro também
dizia respeito ao povo de Deus, que envolvia o marido e Esaú. Não teve o
cuidado de consultar a Deus em relação ao seu plano, não obstante Ele
haver feito predições definidas sobre o futuro.
Rebeca, agora com 80 anos, não tinha perdido a sua vivacidade
intelectual ou rapidez de ação. Pôs-se à escuta à porta do marido.
Isaque tinha mais de 100 anos e estava a preparar-se para a morte.
A bênção que Deus havia passado para ele através de Abraão, queria
agora transmiti-la – contra a palavra de Deus – ao filho mais velho. Um
ato tão solene entre pai e filho era sempre celebrado com uma refeição.
Rebeca ficou alarmada. Algo estava errado. Não tinha Deus afirmado
claramente antes dos filhos nascerem que o mais velho serviria o mais
novo? (Rom. 9:10-12) Esta promessa de Deus seria contrariada pelo que
Isaque planeava fazer. Tal não devia acontecer.
Rebeca compreendia porque é que Deus preferia Jacó. Esaú tinha
dado provas de que não tomava a sério os mandamentos de Deus. Tinha
vendido o direito que lhe pertencia como primogênito (Dt. 21:15-17) e
que é santo aos olhos de Deus (Êxo. 13:2; Heb. 12:16). Considerando-o
levianamente, tinha-o trocado por um prato de comida. Gên. 25:29-34.
Também se havia casado com mulheres pagãs. Tudo isso havia causado
muita tristeza aos pais. E embora Jacó não tivesse procedido bem
quando obteve pela astúcia o direito de primogênito, tinha pelo menos
mostrado que acreditava nele. A sua vida estava mais centralizada em
Deus do que a de Esaú.
No passado, tristezas a respeito dos filhos tinham levado os pais a
orar. Não tinha sido a gravidez de Rebeca um resultado da intercessão de
Isaque? E não havia Rebeca buscado a Deus quando verificou com
surpresa que duas crianças lutavam mutuamente mesmo durante a
gestação? (Gên 25:21-23).
É interessante notar que nestes dois casos de oração só é
mencionado um dos pais. Será isso devido à brevidade da história
bíblica? Ou estariam eles já a adquirir o hábito de não partilharem
mutuamente os seus pensamentos? Teria a hábil e inteligente Rebeca
chegado a gostar realmente de Isaque, que era muito mais velho? Ter-se-
ia alguma vez Isaque esforçado para conquistar o seu amor? Seria este
amor intenso que dedicavam aos filhos um escape com vista a substituir
a desunião dos seus próprios corações? Ou ter-se-iam eles separado por
atribuírem valor diferente à palavra de Deus?
Um casamento que Deus compara à união entre Cristo e a Sua
igreja só pode ser feliz se os cônjuges se entenderem bem. Embora o
homem e a mulher sejam iguais diante de Deus, cada um tem
responsabilidades diferentes dentro da união matrimonial. O homem é o
cabeça (1 Cor. 11:3,9). É responsável pela esposa. Deve amá-la e orientá-
la de acordo com a palavra de Deus (Efés. 5:21-23). Deve honrá-la porque
é a mais fraca dos dois (1 Pe. 3:7). A esposa tem de se ajustar ao marido.
Ela tem de lhe obedecer, seguir a sua liderança.
O segredo desta relação é Cristo. O casamento torna-se o que Deus
quer que seja, quando ambos os cônjuges se submetem um ao outro por
honrarem a Cristo. Nesses moldes, os cônjuges ajustam-se à ordem de
Deus para a criação e experimentam uma plena realização pessoal.
Quando ambos concordam com estas condições, o casamento decorre
como uma unidade feliz e construtiva. Depois proporciona um lar e
proteção reais para cada membro da família, e torna-se a pedra basilar
mais importante da sociedade.
A maior ambição duma mulher que possui esta perspectiva é
promover o bem estar do marido: "Ela lhe faz bem e não mal todos os
dias da sua vida." (Prov. 31:12). Se ela trata da família levada por esta
convicção, o marido e os filhos irão bendizê-la, e considerar-se-ão felizes
(Prov. 31:28).
Embora Rebeca não tivesse estes requisitos impressos em páginas,
devia tê-los conhecido como Sara (1 Pe. 3:6). Mas, infelizmente, não agiu
de acordo com eles. Isaque também não estava isento de culpas. Teria
ele, como marido, exercido uma correta liderança no sentido em que
Deus a esperava?
Infelizmente, Rebeca tomou a sorte dela nas suas próprias mãos.
Esta mulher que antes tivera a fé bastante para confiar em Deus quanto a
um futuro desconhecido, sentia agora que tinha de O ajudar um pouco.
Faltava-lhe a confiança em que o Deus eterno era suficientemente
poderoso para cumprir as Suas promessas a Jacó sem intervenção
humana. Ela não aproveitou esta oportunidade para discutir o assunto
com o marido. Uma oportunidade para se aproximarem, por
necessidade, foi desprezada. Decidiu, sem hesitar, enganar o marido, e
defraudar Esaú.
Jacó também não estava preocupado com esse ato enganador,
propriamente dito. A sua única preocupação era que pudesse ser
descoberto e acarretar sobre si uma maldição. Rebeca estava preparada
para fazer tudo em prol da sua causa. Será que o abismo entre ela e Deus
se tinha tornado tão grande que não temia a Sua maldição? Pareceu
atrevida quando disse: "Filho, sobre mim seja a tua maldição..."
A situação evoluiu rapidamente. Antes que Esaú entrasse na tenda
do pai com o guisado saboroso, Jacó roubou-lhe a bênção. Rebeca
pensou que tinha ganho, mas estava enganada. Havia perdido. A sua
astúcia causou grande tristeza a Isaque. O nome dele significava "Riso",
mas nunca mais teve muito motivo para se rir. E se Esaú alguma vez
tinha respeitado a mãe, nunca mais isso aconteceria.
Rebeca tinha também prejudicado Jacó, seu preferido. Com a sua
ajuda ele havia enganado o pai, mentindo. Tinha caluniado o nome de
Deus, quando disse ao pai que Deus lhe havia dado rápido êxito na caça.
Mas isso não era tudo. Jacó tinha-se tornado perito como enganador.
Conseguia ser tão astuto como a mãe. Que Deus o tivesse abençoado
apesar de tudo isso, só pela Sua graça, pois Jacó não tinha certamente
ganho a bênção.
Jacó iria aprender mais tarde, dolorosamente, que um enganador
virá a ser enganado. Primeiro seria enganado pelo sogro (Gên. 29:25),
depois pelos próprios filhos (Gên. 37:31-35). E também, quantas vezes
teria Jacó perguntado a si mesmo se era realmente um homem
abençoado por Deus, uma vez que a mãe não tinha permitido que Deus
lhe provasse isso? A bênção roubada constituía uma possessão duvidosa.
Foi igualmente por causa das ações de Rebeca que Esaú desejou
matar Jacó mais tarde. Isto, mais uma vez conduziu à decepção. Jacó
teve de fugir da casa dos pais. O irmão de Rebeca, Labão forneceu um
bom esconderijo em Haran.
Depois de ter tratado de tudo com respeito a Jacó, agora um
homem com mais de 40 anos, Rebeca foi ter com Isaque. Disse ao
marido: "Estas mulheres estrangeiras são um fardo. Preferia morrer a ver
Jacó casar-se com uma delas." O que ela disse era verdade. Isaque e
Rebeca tinham sofrido muito por causa dos casamentos de Esaú.
Contudo, ela não proferiu qualquer palavra de arrependimento por tudo
o que havia feito.
Ela deu valor demais a si própria e fez uma falsa promessa a Jacó,
dizendo-lhe que o chamaria de volta quando a ira de Esaú tivesse
desaparecido. Foi incapaz de cumprir essa promessa, porque não viveu
até ao regresso de Jacó. Viu pela última vez o seu filho querido, quando
este partiu em busca duma esposa. Quando voltou, 20 anos mais tarde, o
pai ainda estava vivo e Esaú reconciliou-se com ele, mas Rebeca já tinha
morrido.
Como Sara, Rebeca foi incapaz de prever todo o alcance dos efeitos
dos seus atos. O ódio despertado no coração de Esaú continuou pelas
gerações futuras (Ezeq. 25:12,13). Durante muitos séculos, os edomitas,
descendentes de Esaú, seriam inimigos de Israel. Herodes o Grande, o
homem que assassinou as crianças de Belém, e o seu filho Herodes
Antipas, o homem que ridicularizou Jesus durante o julgamento, eram
ambos edomitas, homens da Eduméia.
Rebeca, a mulher que tão cuidadosamente havia sido escolhida
para esposa de Isaque, uma mulher escolhida por Deus; não tinha
cumprido a sua promessa que dela se esperava. O seu princípio foi bom,
mas o fim trouxe desapontamento, porque não esperou em Deus (Sl.
27:14; 34:34). Tomou a sua sorte nas próprias mãos e não permitiu que
Deus lutasse por ela. Esquece de que aqueles que crêem não precisam se
precipitar. Não teve o cuidado de dar a Deus uma oportunidade para lhe
mostrar o que podia e queria fazer por aqueles que esperam nEle.

Rebeca, uma mulher com grande potencial, todavia...

I. A Proposta de Casamento

(Gênesis 24:1-28,58-67)

Perguntas:
1. Descreva em poucas palavras como se processou o
casamento de Isaque com Rebeca.
2. De que é símbolo o casamento? (Efésios 5:23,24,32). Que
conclusões pode tirar daí?
3. Compare Gên. 24:3 com 2 Cor. 6:14. Que pode concluir
disso?
4. Que lugar tem a oração nesta história?
5. O que é que o impressiona no que diz respeito à direção de
Deus? (Leia também o Salmo 32:8; 143:8).
6. De que maneira é que o princípio bíblico apresentado em
Provérbios 20:18 se aplica ao processo deste casamento?
7. O que é que podem aprender desta história os que andam à
procura de um companheiro para a vida?

II. Rebeca tomou a sorte dela nas suas próprias mãos

(Gênesis 27: 1-30,41-46).

Perguntas:
1. O que caracterizou a Rebeca do estudo anterior?
2. O que é que revela Gênesis 27 a respeito da sua fé?
3. Que atitude a caracterizou como mãe?
4. Que razões poderia ela ter tido para tomar o futuro de Esaú
e Jacó nas suas próprias mãos? (Romanos 9:10-12).
5. Foi bom para ela intervir como fez? Por quê ou porque
não?
6. Ao estudar Rebeca como esposa à luz de Efésios 5:21-33 e
Provérbios 31:12, que conclusões pode tirar?
7. Aprendeu certamente várias coisas diferentes com o
exemplo de Rebeca. Enumere-as pela ordem da sua
importância, e pergunte a si mesmo que benefício prático
poderão elas ter para si.
A ESPOSA DE POTIFAR,

UMA MULHER DOMINADA PELO SEXO

"De acordo com o pensamento bíblico, dois seres humanos que


tenham partilhado do ato sexual nunca mais serão os mesmos depois
disso. Já não podem agir em relação um ao outro coma se não
houvessem tido essa experiência. Isso faz do que se envolvem nele um
casal, ligados um ao outro. Isso cria o laço duma só carne, com todas as
suas implicações''.
Walter Trobisch*

Gênesis 39:1-20
1 Tessalonicenses 4:3-5

A mulher de Potifar tinha tudo. Tinha um marido que exercia uma


grande posição como oficial de Faraó. Vivia numa casa espaçosa e
luxuosamente mobiliada. Vivia mergulhada em riqueza, alimento e
vestuário. Dirigia o numeroso pessoal da sua casa, que lhe satisfazia os
mínimos desejos. Era uma mulher mimada.
Como egípcia, gozava também de uma liberdade maior do que a de
muitas outras mulheres do seu tempo. Podia-se concluir que ela se
sentisse muito feliz, mas tal conclusão provar-se-ia pouco perspicaz, pois
a situação era realmente muito diferente.
Tem-se dito que as situações não fazem a pessoa; revelam-na. Isso
é verdade no caso da esposa de Potifar.
Ela aparece na Escritura em relação com José, o homem
responsável pela casa do seu marido. José, filho de Jacó e de Raquel, era
um homem muito elegante quando chegou à casa de Potifar, depois de
haver sido vendido como escravo pelos seus irmãos.
Mas a vida interior de José era mais notável do que a sua boa
aparência, porque ele caminhava intimamente com Deus. Diversas vezes,
Deus tinha revelado a José o seu futuro, em sonhos. Essa fora uma das
razões por que os seus irmãos sentiram inveja dele. Haviam sentido que
ele os olhava com desdém. Quando mais tarde verificaram que o seu pai
favorecia José, a sua fúria atingiu o auge. Livraram-se dele, vendendo-o a
mercadores que passavam por ali.

* Trobisch, Walter A. I Married You. (Casei Contigo) 1971, Harper & Row, Editores, Nova Iorque, N. I.
Contudo, em breve se tornou muito claro que Deus estava com
José, pois para onde quer que ele fosse, a bênção de Deus o seguia.
Assim, a casa de Potifar foi abençoada – por causa de José. A relação de
apreciação e respeito mútuos cresceu entre José e o seu senhor.
Conseqüentemente, as responsabilidades de José aumentaram até que,
finalmente, ele tinha a seu cargo toda a casa.
A mulher de Potifar que, à primeira vista, parecia possuir tudo o
que uma mulher poderia desejar, sentia-se intimamente vazia, uma
mulher sem propósito. Tinha tempo demais à sua disposição. Estava
casada com um homem para quem o trabalho significava tudo. Embora a
Bíblia não mencione filhos, se tivesse havido algum, teriam sido, muito
provavelmente, tratados por uma ama.
Talvez os seus sentimentos estivessem feridos, porque o marido
não lhe dispensava atenção que ela desejava. Uma vida vazia procura
realização, e um coração vazio anseia por satisfação. Por fim, a mulher de
Potifar deu expressão aos desejos que havia no seu coração.
Não reconheceu ela que era o caráter intrínseco da beleza, retidão e
fidelidade de José que atraía, não precisamente a sua aparência física?
Não podia ela entender que o que havia de especial a respeito dele era o
fato de caminhar intimamente com Deus?
É evidente que não, pois ela humilhou-se a si própria e a José, não
uma vez, mas repetidamente. Ela impôs-se a si mesma e ao seu corpo a
ele. Esperava encontrar satisfação no sexo apenas. Não sabia que a
sensação que tanto desejava só produziria paixão, uma excitação
emocional que consumia a sua vida, se o ato não fosse fundamentado no
amor e na segurança do casamento.

Mais tarde, Paulo advertiu contra o fato de o pecado


controlar a vida da pessoa (Rom. 6:12). O corpo não é para
fornicação, mas para o Senhor (1 Cor. 6:13b). Deus espera que o
corpo humano funcione como templo Seu (1 Cor. 6:19).

Na criação, Deus disse: "Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua


mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gên. 2:24).
Portanto, a sexualidade foi incluída por Deus, para sempre, no calor, na
segurança e no amor do casamento. Isto é evidente pela Sua ordem – o
tornarem-se uma só carne devia ser um resultado do amor. A decisão de
deixarem os pais – darem início à sua própria família – providencia o
ambiente próprio para a culminação do amor sexual. Sem estes pré-
requisitos, o sexo é um desejo veemente que consome, que pode degradar
o ser humano a um baixo nível animal. Isto resulta em auto-acusação,
solidão e vergonha. Provoca uma solidão ainda maior, pois o anseio por
mais paixão sexual foi introduzido. Finalmente resulta em total
desolação. Toma-se um ciclo vicioso de miséria.
O problema que a mulher de Potifar tinha à sua frente não podia
ser menosprezado, e, certamente, ela não podia encontrar uma solução
para estes seus problemas no sexo. A sexualidade, usada desta maneira,
cria o seu próprio inferno.
José pôs imediatamente a tentação na sua perspectiva correta. Ele
não a minimizou, mas chamou-lhe o que ela era – pecado. Falou do
grande respeito que sentia para com o marido dela. Mas a sai grande
preocupação era Deus. "Como, pois, faria eu este tamanho mal e pecaria
contra Deus?'' perguntou ele. José tinha razão; a fornicação e o adultério
são pecados, aos olhos de Deus. Cada ato de intercurso sexual fora do
casamento é um pecado que Deus abomina.
Deus não quer negar o prazer ao homem; deseja-lhe a maior e a
melhor felicidade. Quer protegê-lo da destruição que sempre acompanha
a imoralidade. Deus não pode permitir que o maior dom terreno que Ele
deu ao homem seja degradado e desonrado.
A imortalidade é uma das armas mortais que vem diretamente do
inferno e destrói a pessoa que nela consente. José sabia isso bem, porque
andava com Deus. Sabia o que desagradava ao Criador.
"O que adultera com uma mulher está fora de si; só mesmo quem
quer arruinar-se é que pratica tal coisa. Achará açoites e infâmia, e o seu
opróbrio nunca se apagará" (Prov. 6:32,33). Embora Salomão escrevesse
estas palavras muitos anos mais tarde, José entendeu e aplicou este
princípio na situação com a mulher de Potifar.
O fato de a mulher de Potifar não conhecer o Deus de Israel, não
era desculpa. Como qualquer outro ser humano, ela era uma pessoa
moral inata. Estava transgredindo uma lei da vida que Deus dera à
humanidade na criação (Rom. 2:14,15). Provou isso quando torceu a
verdade, depois de José a ter rejeitado. Acusou-o da imoralidade que ela
própria tencionava cometer! A fuga precipitada de José, que deu prova
da sua pureza de caráter expô-la ainda mais e perverteu a sua mente.
Sendo-lhe superior, decidiu, sem quaisquer escrúpulos, arruinar a sua
carreira e manchar o seu bom nome.
Isto deu origem a um tempo difícil para José – uma estadia de
muitos anos na prisão. Sem dúvida, ele sentia-se ferido pelas acusações
desonestas. Provavelmente, sentiu-se também abandonado, uma vez que
Potifar, aparentemente, não investigou a situação. Todavia, é evidente
que Potifar não acreditou na sua mulher, pois nesse caso teria,
certamente, mandado matar José.
José não se queixou. Para sua alegria, descobriu que mesmo as
paredes da prisão não excluíam Deus. Deus continuava com ele, como o
havia feito na casa de Potifar. Uma vez mais, José tornou-se uma bênção
para aqueles que o rodeavam. Finalmente, foi recompensado pela sua
lealdade a Deus e ao seu senhor, e foi-lhe dado o governo sobre todo o
Egito. Era o primeiro abaixo de Faraó, o governador do Egito. Casou com
a filha de Faraó. Tomou-se Zafnath-Paneah, o protetor do povo. No
devido tempo foi capaz de salvar os irmãos que o haviam traído, quando
eles estavam ameaçados pela fome.
Não foi José quem saiu perdendo.
Foi a mulher de Potifar.
Nada mais se ouve a respeito dela – não por causa da enormidade
do seu pecado, mas porque ela não mostrou qualquer tristeza e não pediu
perdão. Não pareceu desejar qualquer conhecimento de Deus, embora
Ele desejasse tanto dar-lhe alegria e satisfação na vida, que a tinha
tocado através da pessoa de José.
Ela podia ter encontrado vitória sobre os seus desejos sexuais, se os
tivesse reconhecido como pecado, a tempo. Podia mesmo ter ganho de
novo o domínio da sua mente e do seu corpo, depois de José a ter
rejeitado a primeira vez. Podia ter interrogado José a respeito do Deus
que governava a sua vida.. Podia ter preenchido as suas horas de ócio de
um modo mais proveitoso.
A ociosidade tornou-se a mãe do seu vício, pois ela agiu
levianamente com um dos dons mais preciosos da vida – o tempo.
Gastou-o inutilmente. A ociosidade tornou-se o solo que nutriu os seus
pensamentos pecaminosos. Só depois de ter sucumbido a esses
pensamentos perversos, é que ela se defrontou com o desejo de pecar de
fato. Sim, os nossos atos são fruto dos nossos pensamentos; os seus
pensamentos foram a origem da sua ruína. A pessoa torna-se o que
pensa. A tentação da mulher de Potifar não era rara. Milhões de pessoas
hoje em dia estão sendo tentadas da mesma maneira, porque Satanás
anda continuadamente em derredor, bramando como o leão, buscando a
quem possa tragar 1 Ped. 5:8). Ele nunca mudará o seu caráter.
A esposa de Potifar permitiu que a tentação se convertesse em
pecado, porque não refreou os seus desejos, antes, pelo contrário,
consentiu que eles a seduzissem e atraíssem para o pecado real (Tg.
1:14,15). Não tinha qualquer desejo de se corrigir.
Tinha o tempo, a inteligência e o potencial para usar a sua vida
positivamente, mas falhou. Portanto, nada de bom se pode dizer acerca
dela. É trágico que tenha vivido, sem ter deixado atrás de si qualquer
impressão positiva.
A Esposa de Potifar, uma mulher dominada pelo sexo

(Gênesis 39:1-20; 1 Tessalonicenses 4:3-5)

Perguntas:
1. Em poucas frases, relate o que a Bíblia diz acerca da esposa
de Potifar.
2. Que palavras usou José para pôr a proposta imoral dela na
perspectiva correta?
3. Estude a lei de Moisés a respeito dos pensamentos de Deus
sobre as relações sexuais entre um homem e uma mulher que
não são casados. (Deut. 22:13,14,20-22). O que é que o
impressiona?
4. A esposa de Potifar não conhecia as leis de Deus. Por que é
que a sua ignorância não era desculpa? (Recorde Rom.
2:14,15).
5. Para quem foi criado o corpo humano, e porquê? (1 Cor.
6:13b,19,20).
6. Compare esta história com a advertência em 1
Tessalonicenses 4:3-5. Que atitude Deus quer ver nas
pessoas, em relação aos seus corpos?
MIRIÃ,

UMA LÍDER QUE EXAGEROU EM SEUS MÉRITOS

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração. Prova-me e


conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau,
e guia-me pelo caminho eterno''.
Salmo 139:23,24, A Bíblia Viva.

Êxodo 15:19.21
Números 12:1-15
Números 20:1

Miriã tinha sido uma criança inteligente. A mãe prontamente lhe


tinha confiado uma responsabilidade de tal importância, que a vida do
seu irmão mais novo dependia do seu sucesso. Ela completou a sua tarefa
com coragem e tato, pondo a sua mãe, uma mulher hebréia, e uma
princesa egípcia em contato mútuo. Assim, o irmão foi salvo,
beneficiando tanto a sua família como o povo de Deus. Êx. 2:1-10. A
criança era Moisés, mediador do velho concerto, o profeta que falou face
a face com Deus.
Como adulta, Miriã foi uma mulher de valor. O seu caráter tinha
sido formado no seio de uma família onde a fé era uma realidade diária.
Os seus pais haviam tido a coragem, o amor e a habilidade para
desafiarem as ordens dum rei tirano a fim de salvarem a vida do seu filho
mais novo. A família de Anrão e Joquebede foi a única na existência de
Israel, pois produziu três grandes líderes – Moisés, Arão e Miriã – que
serviram todos a nação, ao mesmo tempo.
"Certamente te fiz subir da terra do Egito, e da casa da servidão te
remi; e pus diante de ti a Moisés, a Arão e Miriã". Declarou Deus mais
tarde, através do profeta Miquéias (6:4). Quando Moisés conduziu o seu
povo impertinente do Egito para Canaã, foi auxiliado pelo seu irmão
Arão, o sumo sacerdote, e pela sua irmã Miriã, a profetisa.
Ela não era uma simples acompanhante. Era sua colaboradora, com
responsabilidades de liderança. Miriã, uma mulher solteira, foi chamada
por Deus para uma tarefa excepcional. Teve o privilégio de ser a primeira
mulher profeta – porta-voz de Deus.
Em atos e palavras ela proclamou a grandeza de Deus. A sua vida
estava toda concentrada em amar a Deus e ao Seu povo. Os seus dons e
interesses eram demasiado grandes para serem usados exclusivamente
no reduzido círculo familiar. Israel tinha muitas esposas e mães, mas
uma só Miriã. Deus confiou-lhe uma posição elevada. Uma nação inteira
estava dependente dela. Recebeu a suprema satisfação na vida, ao
dedicar-se integralmente à sua tarefa.
Estava perto dos cem anos quando o milagre do Mar Vermelho
assombrou as multidões. A água que trouxe salvação ao povo de Deus
confirmou a queda dos seus inimigos. "Cantarei ao Senhor, porque
sumamente se exaltou'', clamou Moisés depois; " lançou no mar o cavalo
e o seu cavaleiro" (Êx. 15:1). Depois de os homens terem começado o
cântico festivo, as mulheres continuaram. Desse dia em diante, Israel iria
continuar a cantar a respeito de vitórias excepcionais, por causa de Miriã.
Ela foi a primeira – de espírito enérgico e jovem, apesar da sua idade.
Com o tamboril na mão, continuou o cântico de Moisés. Encorajou as
mulheres a dançarem em honra de Deus, enquanto exultavam de alegria,
"... cantai ao Senhor, porque sumamente se exaltou".
Miriã nasceu líder. As mulheres seguiam-na prontamente. E
embora não pudessem prever o futuro, o seu cântico tornou-se uma fonte
inesgotável de apoio às mulheres durante a sua longa peregrinação pelo
deserto. Anda-se melhor enquanto se canta, e a pessoa preocupa-se
menos. Não havia meio de ela saber com que freqüência seria necessário
encorajarem-se umas às outras com a fidelidade de Deus. A viagem foi
longa por causa da desobediência do povo. Mas elas recobravam a
coragem enquanto cantavam, "ele lançou no mar o cavalo e o seu
cavaleiro''. Contudo, o amor próprio estava-se tornando fatal para Miriã.
Ela era uma mulher forte. A liderança vinha-lhe com facilidade. E,
como muitas vezes acontece, esta mesma força tornou-se a sua fraqueza.
Tem-se dito que as circunstâncias revelam o interior da pessoa. A
circunstância que revelou o caráter de Miriã foi o segundo casamento de
Moisés, desta vez com uma mulher etíope.
Compreende-se que Miriã achasse isto difícil. Era estranho que
Moisés, um homem de Deus, casasse outra vez com uma mulher de outra
nação. Ou estaria ela simplesmente a reagir contra a presença de outra
mulher na vida de Moisés, especialmente por ela própria ser solteira?
Estaria ela indignada porque ele se satisfazia com uma mulher
estrangeira, enquanto inúmeras outras mulheres israelitas seriam mais
adequadas? Estas perguntas não são respondidas nas Escrituras.
Moisés, o grande líder dos israelitas, era o irmão mais novo de
Miriã, e ela estava preocupada a seu respeito. Estava interessada em
saber em que medida os resultados deste casamento poderiam afetar o
povo. O casamento teve lugar num período da história em que os
parentes, geralmente, decidiam sobre os assuntos do casamento.
Considerando a sua preocupação deste ponto de vista, pareceria ser uma
reação espiritual correta da parte duma mulher amadurecida. Mas estava
longe disso.
Miriã, que tinha ascendido ao posto mais elevado até então
exercido por uma mulher, e foi nomeada por Deus na mesma ocasião,
juntamente com os dois líderes masculinos, tinha simplesmente
ultrapassado os limites. Ela exagerou os seus méritos. Considerou-se no
mesmo nível de Moisés, e no seu orgulho subverteu a autoridade dele.
"Era ele, de fato, o líder dos três?" perguntou ela. "Não eram ela e Arão
seus iguais?"
Miriã não era motivada por um real interesse no bem-estar do
povo, ou de Moisés, mas por ciúme. Arão, o mais brando dos três, não
pôde resistir à sua dominadora irmã, e, por isso, acompanhou-a. Juntos,
Miriã e Arão tentaram usurpar o lugar de Moisés. Agindo assim, puseram
em perigo a unidade e o futuro de toda a nação. Além disso, tentaram
impedir a revelação direta de Deus. Em lugar de pensarem no bem-estar
de todos os interessados, pensaram só egoisticamente. Filipenses 2:14.
Deus criou o homem para se dar a si mesmo aos outros. Quando
uma pessoa faz isso, experimenta a maior felicidade. Os seus horizontes
são enriquecidos e alargados. Mas a sua vida toma-se pobre e limitada
quando egoisticamente ele deseja simplesmente receber – quando ele
próprio é o centro do seu pensamento.
Moisés permaneceu calmo. Não mostrou qualquer desejo de se
defender. Houve, contudo, alguém que defendeu os interesses de Moisés,
e esta tornou-se uma experiência pavorosa para Miriã e Arão. Pois Deus
ouviu no céu, soube e viu o que estava acontecendo. Ele tomou
imediatamente medidas para acabar com a rebelião contra a liderança de
Moisés e castigar os culpados.
Quebrantados e de joelhos trementes, Arão e Miriã apareceram
diante de Deus. Ouviram como Ele julgou a situação. Moisés, escutaram
eles, não era apenas o líder indiscutível, fora também investido numa
posição mais alta do que todos os profetas.
Era evidente que Deus tinha escolhido Moisés para ser o mediador
entre Ele e o Seu povo. Ele respeitava de tal modo Moisés, que não falava
com ele através de enigmas vagos e sonhos obscuros. Pelo contrário,
falava-lhe como um homem fala com os seus amigos (Êx. 33:11),
abertamente, naturalmente.
Miriã e Arão haviam atacado um homem altamente respeitado por
Deus. Quando Ele na Sua divina justiça e autoridade os chamou a contas,
eles não se puderam desculpar. No fim de contas, não tinham
prejudicado Moisés, mas a si mesmos. Moisés, o mediador apontado por
Deus, era um tipo do Salvador que havia de vir. Rejeitar Moisés era, de
fato, rejeitar o Messias. Foi isto que tomou a situação tão séria. Quando
Deus os deixou na Sua ira, Miriã estava leprosa. Essa era a mais temível
das doenças, pois minava a força da pessoa que a tinha. Degradava-a com
uma morte lenta. Deus tinha-a marcado com a maldição da lepra.
A mulher que, durante anos, tinha ido à frente da multidão,
cantando; que tinha desafiado as outras mulheres a cantarem louvores a
Deus, fora expulsa da posição de liderança. A sua voz, que antes tão
harmoniosamente havia louvado a Deus, gritava agora um rouco
"impura", "impura", quando alguém ficava ao seu alcance. Os membros
do seu corpo tornar-se-iam gradualmente mais e mais repugnantes, até
que finalmente cairiam. Ela atravessaria a vida aleijada e só, até à morte.
Miriã tinha de experimentar muito claramente quão grande fora o
seu pecado aos olhos de Deus. A vergonha do seu ato podia comparar-se
à atitude de um pai que cuspia na face do filho, publicamente. Portanto,
ela tinha de sofrer o seu castigo também em público, de modo que toda a
gente pudesse ver como Deus castigava as pessoas que tinha tão alto
conceito de si próprias. Rom. 12:3. Miriã, a mulher valente e ativa, não
encontrou palavras para responder à sua maldição.
Arão recuperou primeiro a sua compostura e mostrou que tinha
aceito a correção. Ele disse a Moisés "Oh, meu Senhor'' – não lhe chamou
"irmão", mas "senhor", reconhecendo assim a liderança de Moisés. "Não
ponhas sobre nós este pecado que fizemos loucamente". Arão identificou-
se completamente com o pecado de Miriã. Depois, não foi ele, o sumo
sacerdote, mas Moisés que suplicou a Deus pela cura dela. Moisés não
mostrou ter aprovado o julgamento de Deus nem repreendeu Miriã e
Arão. Simplesmente orou a Deus e a sua oração reduziu a sentença de
Miriã de uma longa vida de sofrimento a sete dias apenas.
A atitude de Miriã havia prejudicado não só a sua própria pessoa,
mas também o seu povo. A sua viagem fora retardada por causa do seu
pecado. A nação inteira foi impedida de avançar até que Miriã estivesse
de novo com eles. Os sete dias que ela passou como um proscrito devem
ter dado a Miriã muito assunto para meditação. Teria ela compreendido
então que é o próprio Deus que elege os seus líderes? – que na Sua ordem
divina Ele confia a liderança àqueles que são suficientemente humildes
para desejarem servir? Luc. 22:24-27; 1 Ped. 5:5,6. Teria ela saído de lá
uma melhor pessoa? Teria ela sido purificada?
A Bíblia não registra qualquer rebelião posterior. Teria a
experiência destruído a força e a utilidade de Miriã? Teria ela perdido o
seu dom da profecia? A Bíblia não o diz, mas afirma que ela morreu antes
do povo ter entrado na terra prometida.
Miriã era uma mulher que desempenhava uma função principal na
sociedade. Constituía uma posição excepcional a comissão que lhe havia
sido dada por Deus. A história de Miriã ofereceu um maravilhoso desafio
enquanto usou a sua posição para honrar a Deus. Uma pessoa que faz isto,
dificilmente errará. Todavia, Miriã escapou-se gradualmente do controle de
Deus na sua vida, para assumir ela própria esse controlo. Isto aconteceu,
sem dúvida, de modo tão sutil, que ela não reconheceu que a mudança se
estava dando. Talvez se ela tivesse sondado o seu coração honestamente e a
tempo, pudesse ter evitado o juízo de Deus. Provavelmente, não teria então
ultrapassado os limites, exagerando o seu valor.

Miriã, uma líder que exagerou os seus méritos

(Êxodo 15:19-21; Números 12:1-15; 20:1)

Perguntas:
1. O que é que descobriu com respeito à personalidade e caráter
de Miriã?
2. Que lugar excepcional tinha ela entre o seu povo? (Miq. 6:4).
3. Como é que ela procedeu quando lhe foi dada autoridade, e
como é que provou que tinha um alto conceito de si mesma?
4. O que é que ensinam Filipenses 2:3,4 e Romanos 12:3 acerca
da crítica e da vanglória?
5. Quais foram os resultados do seu pecado, para com ela, e para
os outros?
6. Formule o que aprendeu do seu exemplo. Como é que isto
pode influenciar favoravelmente a sua própria vida?
RAABE,

UMA MERETRIZ NA GALERIA DOS HERÓIS DA FÉ

''Conta dum estalajadeiro do tempo dos romanos:


Vinho e pão, 1 asse
Refeição quente, 2 asses
Palha para a mula, 2 asses
Uma rapariga, 8 asses"
P. S. Não há preço em separado para a cama;
isso estava incluído no último item." *

Josué 2:1-21
Josué 6:22-25

A Bíblia é um livro honesto que afirma os fatos como eles são –


francamente. Raabe, diz a Bíblia, era uma prostituta, uma mulher que
vendia o seu corpo por dinheiro. As pessoas têm tentado encobrir este
fato triste, afirmando que ela era uma estalajadeira. Talvez isto fosse
verdade, mas permanece o fato de que se tratava de uma mulher de
moral corrupta.
Naquela época, os estalajadeiros eram mulheres, não homens. É
interessante notar que nas contas escritas dos tempos romanos,
posteriores, era anotada uma certa importância para a refeição e
rapariga, mas o custo da cama não era mencionado – aparentemente
estava incluído no preço da moça. Ela fazia "serviço extra", oferecendo o
seu corpo, e isto ficava incluído na conta.
Uma vez que Raabe estava numa posição de alojar hóspedes, era
natural que os espiões de Josué fossem à sua estalagem. Jericó era uma
cidade pequena, e a estalagem de Raabe era provavelmente o único lugar
para passar a noite.
Teria Raabe suspeitado que estes estrangeiros – homens decentes
sem motivos escondidos – eram israelitas? A Bíblia não o diz, mas
mostra que, imediatamente, entrou em campo a contra espionagem. O

* Aus dem Leben der Antike (Da Vida dos Antigos), Birt. Citado por D. J. Baarslag em Baals en
Burchten (Baals e Fortalezas). Bosch & Keuning, Baarn. Holanda.
rei ouviu que os espiões judeus estavam na cidade e pediu a sua imediata
captura.
Entretanto, Raabe tomou consciência da verdadeira identidade dos
seus hóspedes e tinha-os já escondido no telhado, debaixo de canas de
linho. Uma vez que era tempo de colheita e a cidade murada era pequena,
os habitantes das reduzidas casas das ruas estreitas, tinham de usar todo
o espaço para armazenagem. Um telhado aberto era o lugar menos
indicado para esconder pessoas, uma vez que, mesmo de longe, os outros
podiam ver tudo o que se passava. Mas a casa de Raabe era diferente.
Estava construída sobre o duplo muro da cidade e situada a nível mais
alto do que qualquer outra casa, de modo que nenhuns olhos curiosos
poderiam observar o que decorria lá. Os espiões estariam a salvo, mas
apenas por tempo limitado.
Raabe enganou os mensageiros do rei. Enquanto eles procuravam
cuidadosamente pelos campos à volta, ela falou com os espiões
escondidos. Disse-lhes que tinha consciência de que Deus lhes dera a
terra e de que os habitantes da sua nação estavam apavorados com eles,
por causa do milagre da passagem pelo Mar Vermelho. Estava bem
cônscia do que Deus fizera pelo povo. Disse-lhes ainda que os homens
perderam a coragem para enfrentar os israelitas, por causa do seu Deus.
Ela provou ser uma mulher sábia que agiu à luz de informação
correta. Usou discrição ao falar acerca deles e astúcia em escondê-los.
Sentiu que um ato de bondade merecia outro. "Agora pois, jurai-me,
peço-vos, pelo Senhor, pois que vos fiz beneficência, que vós também
fareis beneficência à casa de meu pai''.
Todavia, ela expressou, naturalmente, preocupação a seu respeito,
enquanto ao mesmo tempo, revelava fé no Deus de Israel. Acreditava que
Ele batalhava pelo Seu povo e que ia dar-lhes esta terra. Cria também
que, por causa deste poder de Deus, o seu próprio povo não tinha a
menor possibilidade de manter os israelitas fora dos muros da cidade.
Agiu apoiada nesta fé.
Raabe pediu um sinal de que eles a salvariam quando os seus
exércitos voltassem para tomar a cidade. Os homens disseram-lhe que
pusesse um cordão de fio de escarlata na janela e assim ninguém da sua
família sofreria.
Alguns comentaristas da Bíblia dizem que este fio de escarlata
representava a ocupação imoral de Raabe. Era a sua "luz vermelha" e,
portanto, não levantaria qualquer suspeita. Ninguém iria pensar que ele
constituía um sinal de espionagem. Isto pode ter sido ou não verdade,
mas era certamente uma indicação clara dum acordo entre dois lados.
Raabe não se demorou. Mal os homens partiram, foi pôr o cordão
vermelho na janela. Queria ficar absolutamente certa de que a sua casa se
distinguiria de todas as outras. Deus gosta que as pessoas – mesmo os
incrédulos – levem as coisas a sério. Jesus provou isso mais tarde,
quando disse aos discípulos que os filhos deste mundo são mais sábios na
sua geração do que os filhos da luz. Luc. 16:8b.
Uma semana mais tarde, o milagre do Mar Vermelho repetiu-se. De
novo as águas profundas se separaram. Os israelitas atravessaram a pé o
rio Jordão, que nessa altura transbordava pelas margens. Alguns dias
mais tarde Raabe viu uma multidão de israelitas andando à roda da
cidade em procissão silenciosa. Os portões da cidade estavam fechados.
Nenhum cananeu podia sair. Este estado de coisas continuou durante
seis dias.
De vez em quando ela se assegurava de que o fio vermelho seria
claramente visível, pois a sua vida em breve iria depender desse fato.
No sétimo dia, os israelitas caminhavam de novo em silêncio ao
redor da cidade. Os rostos deles eram solenes. A tensão dos dois lados do
muro tornava-se insuportável, Dentro, as pessoas olhavam o futuro com
horror e medo exceto numa casa. No lar de Raabe havia esperança e fé.
Ela havia feito um acordo com o povo de Deus e, portanto, com o próprio
Deus.
Então, sete sacerdotes com sete buzinas de carneiros, circundaram
a cidade tocando as buzinas, e o povo, sob o comando de Josué, começou
a gritar. Aconteceu então o inacreditável. A terra começou a tremer. Os
muros que haviam guardado a cidade durante anos, desmoronaram-se e
caíram, deixando a cidade desprotegida.
O escritor de Hebreus, mais tarde, disse que a fé tinha feito cair os
muros. Heb. 11:30,31. E essa mesma fé tinha feito com que uma parte do
muro permanecesse de pé - a parte do muro onde estava a casa de Raabe.
Ambas as partes tinham cumprido o seu acordo. Raabe tinha feito o
que prometera, e Deus recompensou a sua fé. A sua confiança na vitória
do Deus de Israel era tão forte, que ela conseguiu convencer os parentes a
virem e ficarem em sua casa. Todos eles foram poupados.

O retrato da vida de Raabe foi prejudicado por causa da desonrosa


mancha da imoralidade. Todavia, foi avivado com o exemplo duma fé
cintilante – a sua fé era suficientemente forte para levar a agir. Isto era
necessário, diz Tiago, que escreve também a respeito dela (Tg. 2:25), pois
se a fé não consegue agüentar o teste da aplicação, então é inútil – é
morta. A fé interior só pode ser reconhecida através de atos exteriores.
Uma definição de fé é que ela consiste numa confiança fixa e
profunda em Deus e na Sua Palavra. Raabe tinha este tipo de fé.
Portanto, Deus pegou no seu retrato manchado, limpou-o e pendurou-o
ao lado de Sara na galeria dos heróis da fé. Estas duas mulheres são as
únicas figuras femininas numa longa lista de homens.
Raabe, como Sara, uma heroína da fé? Sim, pois Deus não faz
acepção de pessoas. Para Ele não há casos impossíveis. Ele justifica o
ímpio. Mas a história de Raabe não termina aí. A conquista de Jericó só
marcou o início, pois ela havia agora encontrado Deus. A sua vida
começou a florescer. Nunca mais teve saudades da sua ocupação
anterior; pelo contrário, tornou-se uma esposa digna. Ela, uma mulher
pagã, viveu entre o povo de Deus, casou com o israelita Salmon, e teve
um filho. Se formos a avaliar a sua competência como mãe pelo seu
simpático e sábio filho Boaz, marido de Rute, então ela deve ter sido
realmente muito capaz, pois Rute toma-se a avó do rei David. Mat. 1:5.
Raabe tornou-se uma mulher na linhagem de Jesus Cristo, o Messias, um
privilégio que toda a mulher judia invejaria.
Pela fé –

Raabe, uma prostituta na galeria dos heróis da fé

(Josué 2:1-21; 6:22-25)

Perguntas:
1. Descreva brevemente o que aprendeu acerca de Raabe.
2. O que é que o impressiona no que toca ao seu conhecimento
do Deus de Israel?
3. Qual foi a atitude de Raabe como resultado do seu
conhecin1ento de Deus? (Ler também Tiago 2:25)
4. De acordo com Hebreus 11:31, por que é que ela não pereceu
com os que foram desobedientes? Mencione várias coisas que
deram prova da sua fé.
5. Que impacto teve a sua fé sobre os parentes e sobre ela
própria?
6. O que é que considera mais importante no que aprendeu a
respeito de Raabe? De que maneira vai aplicar isso na sua
vida?
PENINA,

UMA MULHER VENCIDA PELO CIÚME

"Abalizadas autoridades da saúde têm verificado que as causas


mais profundas de muita doença estão nas reações emocionais perante a
vida. Ódio prolongado e acerbo pode danificar o cérebro, e pode provocar
desordens no coração, tensão alta e indigestão aguda – todas
suficientemente graves para matarem uma pessoa".
Robert D. Foster *

1 Samuel 1:1-8
Provérbios 6:24 "Para te guardarem da má mulher e das lisonjas da
língua estranha"
Provérbios 14:30 "O coração com saúde é a vida da carne, mas a
inveja é a podridão dos ossos".
Provérbios 27:4 "Cruel é o furor e a impetuosa ira, mas quem
parará perante a inveja?"

Penina viveu num tempo de declínio. Israel havia chegado a um dos


pontos mais escuros da sua história. Depois de Moisés e Josué terem
governado a nação com tanta capacidade, chegara o tempo dos juízes.
O próprio Deus queria dirigir. Contudo, o povo estava pouco
interessado em Deus e voltava-se cada vez mais para o culto aos ídolos.
Assim, o governo teocrático falhou.
O declínio resultou em anarquia. As leis do governo já não eram
obedecidas. Cada homem fazia o que parecia reto aos seus olhos. Juí.
21:25. O cima espiritual não era melhor do que o político e social. A ira de
Deus estava-se a acumular sobre a cabeça de Eli, o principal sacerdote,
porque tolerava o mau procedimento dos seus filhos Hofni e Finéias.
Eli viu que eles comiam o melhor dos sacrifícios oferecidos a Deus
pelo povo. Sabiam que degradavam o tabernáculo, envolvendo-se em
atividades sexuais. Contudo, não os repreendeu. 1 Sam. 2:12-33. O juízo
de Deus estava às portas. A casa de Eli tinha perdido a sua influência e a
nação estava prestes a ser cercada pelo inimigo, os filisteus.

* Studies in Christian Living. (Estudos na Vida Cristã). Livro 4. "O Caráter do Cristão". 1964, The
Navigators, Colorado Springs, Colorado.
Mas ainda mais terrível do que isto, era que Deus mal falava
naqueles tempos. Havia pouca comunicação entre Ele e o Seu povo. 1
Sam. 3:1b. Penina viveu durante este período. Elcana, seu marido, tinha
duas mulheres. Deus determinara que cada homem tivesse uma só
mulher e cada mulher tivesse um só marido. Gên. 2:18; Mat. 19:4-6; 1
Cor. 7:2. Mas, uma vez que o povo se desviou do ideal de Deus, Ele
precaveu-Se destas exceções, principalmente para proteger o
primogênito. Deut. 21:15-17
Como Elcana viu por experiência, qualquer pessoa que se desvia
dos planos de Deus acarreta dificuldades sobre si mesma e sobre os
outros. A atmosfera no seu lar era insuportável. O fato de Penina ter
filhos, enquanto que a outra esposa, Ana, não tinha, agravava o conflito.
Pelo menos a forma de religião tinha o seu lugar próprio na família
de Elcana. Mas, embora todos os membros pagassem os seus tributos
religiosos, Deus não era real para Penina. Ela estava descontente. Não se
sentia grata ao Senhor pelos seus filhos e pelas outras coisas que possuía.
A sua vida estava paralisada pela falta de gratidão. Ela não se deve ter
apercebido de que Deus desejava outros tributos; por exemplo, amar as
outras pessoas. Ela tinha tudo o que uma mulher poderia desejar, pois
tinha muitos filhos. Esta era geralmente uma prova do favor de Deus. Ela
iria continuar a viver no futuro através da vida dos seus filhos, muito
para além da sua morte.
Por outro lado, a outra esposa de Elcana, sentia-se profundamente
oprimida por não ter filhos. Ana não foi afetada pelo espírito do tempo
em que viveu. Porque Deus ocupava o centro dos seus pensamentos, os
atos dela eram inspirados pela fé. Era atraente e indulgente. Elcana via
claramente a diferença entre as duas mulheres. Não podia deixar de
preferir Ana a Penina.
Mas Penina não se sentia inspirada pelo exemplo de Ana. De fato, a
sua reação foi exatamente ao contrário. Exaltava-se a si mesma acima de
Ana, porque tinha dado à luz filhos – muitos filhos. O fato de que fora
Deus quem lhe dera possibilidades de os ter não penetrava na sua mente.
Penina tinha ciúmes de Ana. Provocava-a incessantemente, e em
particular quando chegavam as festividades dos judeus. De qualquer
modo, estes dias causavam a Ana uma dor ainda maior, porque
constituíam celebrações da família, durante as quais a nação se movia,
por agregados familiares, até à casa de Deus em Silo. Parecia que Penina
ainda se tornava mais mordaz para com Ana durante essas ocasiões.
Penina tinha consentido que a amargura se enraizasse no seu
coração. Heb. 12:15. E, uma vez que não tinha guardado o coração (Prov.
4:23), a vida dela foi envenenada pela inveja. Esta inveja brotava da
rivalidade, do egoísmo e falta de humildade. A inveja só busca os seus
próprios interesses, não os dos outros. A Bíblia adverte-nos fortemente
contra ela. Filip. 2:3,4. A inveja não é uma daquelas pequenas fraquezas
de caráter que Deus poderia permitir na vida do homem. Ele coloca-a
numa lista de pecados que a sociedade considera muito graves: adultério,
idolatria, feitiçaria, etc. Gál. 5:19-21.
"O ciúme é o furor dum homem" escreveu Salomão. É como um
fogo. Se não for sufocado rapidamente, não se poderá deter, porque afeta
outras partes do corpo. Isto é especialmente verdade no que se refere à
língua. Rom. 3:14. Penina é um exemplo de como uma pessoa pode usar
a língua para descarregar a sua inveja. Sendo um dos membros do corpo
mais pequenos, a língua pode causar um incêndio capaz de destruir vidas
inteiras. Tg. 3:16. Não admira que em tal caso a Bíblia diga que a pessoa
que usa mal a língua é "inflamada pelo inferno". Tg. 3:2-8.
O ciúme devora a pessoa porque tem a sua raiz em Satanás. De fato,
ele destruiu o próprio Satanás. Este teve inveja de Deus. No seu orgulho,
quis ser igual a Ele, e isso causou a sua queda. Isa. 14:13-15. Portanto,
Satanás sente-se feliz todas as vezes que um ser humano cai nesta
armadilha que ele preparou. Muitas vezes, obtém grande êxito, pois as
pessoas são invejosas por natureza. É ridículo que os homens possam
permitir que um mesmo membro, a língua, que usam para falar com
Deus e para O honrarem, seja também inspirado por Satanás.
A inveja começa na mente. Se não é detectada a tempo, e levada a
Deus (2 Cor. 10:5), arruína toda a vida da pessoa e impede as relações entre
os indivíduos. Também é sutil. É um perigo muito maior para a pessoa que
a alberga, do que para aquela a quem é dirigida. Como um bumerangue,
volta pana o invejoso. Penina experimentou isso: não conseguiu resolver os
seus problemas, embora a solução estivesse ao seu alcance. Tudo o que
precisava fazer era observar e seguir o exemplo da fé de Ana.

Penina, uma mulher vencida pelo ciúme

(1 Samuel 1:1-8; Prov. 6:34; 14:30; 27:4)

Perguntas:
1. Que palavras importantes lê no relato do comportamento
de Penina em relação a Ana?
2. Sendo uma mulher judia com filhos, Penina era mais
privilegiada que a estéril Ana. Por que é que ela tratava
Ana daquele modo?
3. Como é que a inveja e os outros pecados mencionados em
Gálatas 5:19-21 são classificados? O que é que o
impressiona ao comparar este vício com os outros
mencionados ali?
4. Considere a vida de Penina à luz de Provérbios 4:23 e 2
Coríntios 10:5. Que conclusões tira daí?
5. Que é que pode aprender da vida dela, quando a vê à luz de
Tiago 3:2-8?
6. Há coisas na sua vida que gostaria de corrigir depois de ter
estudado Penina? Ore acerca disso, e depois resolva como
há de começar a fazê-lo.
ANA,

A MULHER QUE ACREDITAVA NA ORAÇÃO

"As pessoas importantes da terra, hoje em dia, são as que oram.


Não me refiro às que falam sobre a oração; nem às que podem explicar
algo sobre a oração; refiro-me, sim, às pessoas que dão tempo à oração.
Não têm tempo de sobra. É necessário tirá-lo a qualquer outra coisa.
Essa qualquer coisa é importante, muito importante, e urgente, mas,
mesmo assim, menos importante e menos urgente que a oração''.
S. D. Gordon *

1 Samuel 1:9-28

Seriam as dificuldades do seu casamento em parte causadas por


ela? Teria ela, como Sara, insistido com o marido para tomar uma
concubina quando ele descobriu que não teriam filhos? (Gênesis 16:1,2)
Ou teria ela sido incapaz de resistir ao amor de Elcana, tomando-se sua
segunda esposa depois de ele ter casado já com Penina?
Em qualquer caso, Ana não tinha certamente previsto o alcance dos
seus atos. O segundo casamento havia resultado em terrível mal-estar
para cada um dos três membros envolvidos.
Talvez Ana não tivesse culpa. Teria Elcana, aliás um homem
temente a Deus, chegado a ser bígamo por sua própria iniciativa?
Qualquer que fosse a causa, as experiências dela não eram por isso
menos dolorosas.
O Espírito Santo não achou que fosse necessário registrar todos
esses detalhes. Mas a Bíblia diz que Ana era uma mulher que tinha livre
acesso a Deus. O caminho para Ele estava-lhe aberto na base do perdão
dos pecados por meio dos sacrifícios que o marido, como cabeça da
família, fazia regularmente ao Senhor.
Por vezes, uma pessoa é provada até ao âmago do seu ser, e dá a
impressão de que algum poder invisível está em operação para extinguir
a sua vida. Ana deve-se ter sentido assim. Tinha derramado lágrimas sem
fim, porque se sentia abandonada por Deus, uma vez que não possuía

* Design for Discipleship (Modelo para Discipulado), Livro 2 "O Cristão cheio do Espírito": 1973, The
Navigators, Colorado Springs, Colorado.
filhos. A outra esposa do seu marido nunca deixava passar uma
oportunidade sem lhe recordar a sua esterilidade.
Elcana, desejando confortar Ana, havia-lhe dito que a amava mais
do que tudo. Não era o seu amor para ela mais do que dez filhos? Ela
sentira-se feliz com esta expressão do seu amor, mas essas palavras
tinham-lhe dado também motivo para reflexão, e ainda a fizeram sentir
mais solitária. Teria Elcana perdido a esperança de alguma vez vir a ter
um filho dela?
Abraão, recordava ela, havia contendido com Deus acerca dum
filho (Gênesis 15:2-6). Isaque, numa situação semelhante, orou a Deus
pela esposa (Gênesis 25:21). E as esposas deles tinham dado à luz,
mesmo tardiamente, filhos que tanto vieram a significar para o seu povo.
Esses filhos constituíam parte do plano de Deus para Israel.
Deus! Ele é o Único que me compreende, o Único que pode ajudar-
me, pensou ela. Voltou ao tabernáculo, só. Lá, derramou a sua alma
perante Deus. Com o coração despedaçado, sem palavras. Ao princípio,
ela nem era capaz de pronunciar alto os seus pensamentos. Então,
quando o seu coração se tinha, de algum modo, aliviado, os seus lábios
proferiram uma oração, embora continuasse silenciosa. "Ó Senhor dos
Exércitos...", começou ela. A maneira como se Lhe dirigia revelava a visão
que dEle tinha. Ele era o Senhor dos Exércitos do céu e da terra, de todas
as coisas que havia criado (Gênesis 2:1). Um imenso exército de anjos
estava à Sua disposição. Ele era o Senhor que tinha realizado muitos
milagres a favor de Israel como nação.
Estas quatro palavras, "Ó Senhor dos Exércitos'', expressavam a fé
que ela tinha na Sua grandeza e poder. (O comentarista Matthew Henry
diz que esta foi a primeira vez que uma pessoa se dirigiu a Deus dessa
maneira). À luz da Sua majestade eu não sou nada, pensou ela. Apenas
uma serva, uma criada. Repetiu este pensamento três vezes. As palavras
eram escolhidas cuidadosamente. Considerava-se uma insignificante
criatura à luz dum Deus Santo, todavia desejava servi-Lo. Esta era uma
ordem correta de valores, pois ela – embora um humilde ser humano –
podia servir a Deus.
Reconhecendo isto, Ana apresentou-se a Deus com um grande
pedido. Não O ofendeu pedindo-Lhe um pequeno favor. Não se pedem
algumas moedas a um milionário. De um Deus tão grande não podia
esperar menos que um milagre – um autêntico milagre.
Ana não orou duma maneira vaga. Fez um pedido específico. "Ó
Deus, eu quero ter um filho". A sua oração foi seguida por uma promessa,
"Então, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua
cabeça não passará navalha". O seu filho, se Deus lho concedesse, seria
um nazireu, um homem dedicado a Ele, que não beberia vinho e que
nunca cortaria o cabelo (Juí 12:3-5).
Estaria Ana realmente a dizer, "Ó Deus, Tu sabes que eu desejo ter
um filho, mas ainda mais do que pedi-lo para mim, eu peço isto para Ti"?
É possível.
A religião do seu povo, isto é, a religião dos sacerdotes, tinha
perdido o seu significado. Tinha-se corrompido. Todavia, Ana havia
preservado a fé, e conservou-a pura. Contudo, a sua influência era
limitada. O que o país necessitava era dum homem que pudesse tornar-se
um elo de ligação entre Deus e o Seu povo, que preenchesse a lacuna e
introduzisse um novo futuro.
Teria o coração de Ana chorado sói por si mesma, ou estaria ela
chorando também por Deus e pelo Seu povo? Seria por isso que a sua
oração teve um impacto tão grande'? Teria ela imaginado que parte podia
desempenhar numa solução espiritual para tal problema nacional? É
possível, embora o relato da Escritura seja demasiado breve para se
determinar isso.
A decaída do povo e do sacerdócio revelava-se também na maneira
como Eli a tratou. Ele mostrou pouca compreensão humana, pouca
compaixão. "Até quando estará embriagada?'', censurou-a ele. ''Aparta de
ti o teu vinho''. O sacerdote que não ousara tratar com rigor os seus
próprios filhos, não sentiu escrúpulos em tratar Ana desta maneira. O
velho homem revelou uma falta de discernimento e pouco autocontrole.
As suas palavras revelaram também que, naqueles tempos, bêbados
e prostitutas não eram invulgares na casa de Deus. Mesmo os próprios
filhos de Eli dormiam com mulheres que se juntavam à porta do
tabernáculo (1 Sam. 2:22).
Ana, porém, estava na presença de Deus e por isso não sentiu
qualquer desejo de se defender ou justificar. Não expressou qualquer
vergonha ou indignação, mas explicou a situação em poucas palavras. Eli,
tornou-se de repente o que deveria ter sido – o sacerdote de Deus. Como
representante de Deus, disse: "Vai em paz. O Deus de Israel conceder-te-
á a tua petição". Ele não sabia a natureza do pedido dela, mas como
instruído por Deus disse-lhe que fora ouvida.
Com estas palavras, a paz de Deus que acompanha toda a oração
fiel, entrou no seu coração (Filip. 4:6,7). Ela havia levado os seus
cuidados a Deus e deixou-os nas Suas mãos.
''Ora a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova
das coisas que não se vêem" (Heb. 11:1), escreveu, muitos séculos mais
tarde, o autor da Epístola aos Hebreus. Foi isso o que Ana experimentou.
A certeza de que a sua oração fora ouvida penetrou no seu coração.
Exteriormente a mudança foi notável – voltou-lhe o apetite, e o seu rosto
já não tinha qualquer traço de tristeza. Ela vivia a sua fé, confiando de tal
maneira em Deus, que as outras pessoas podiam notá-lo.
Samuel. que significa "ouvido de Deus", nasceu um ano mais tarde.
Então, o significado do próprio nome de Ana – "graciosa" ou "favor" –
começou a ter sentido. Em vez de se mostrar uma mulher negligente,
tornara-se extraordinariamente privilegiada, pois a sua oração havia
marcado um ponto decisivo na história.
Não demorou muito que a Palavra de Deus voltasse a ser ouvida em
todo o Israel (1 Sam. 4:1). O Senhor revelou-Se através de Samuel,
mesmo quando Samuel ainda era rapaz. De Dan, no extremo norte, a
Berseba, no extremo sul, as pessoas reconheciam que Samuel era um
profeta eleito pelo Senhor.
O povo voltou-se dos ídolos para servir a Deus. A arca do Senhor,
que fora tomada como despojo e desonrada pelos filisteus, voltou (1Sm.
6,7). Os filisteus fizeram a paz com Israel, pois a mão do Senhor esteve
contra eles todos os dias de Samuel. Foram reconquistadas cidades que
haviam sido perdidas em combate.
A fé de Ana viveu no seu filho. Séculos mais tarde, o nome dele
seria mencionado entre os heróis da fé (Heb. 11:32-33), pois ele foi um
dos homens que, através da fé, dominara reinos.
Samuel, que tinha nascido como resposta à oração, e cujo nome
constantemente lhe recordava isso, tornou-se, ele próprio, um homem de
oração. Achava que o fato de o povo não orar era pecado (1 Sm 12:23).
Esta atitude pode ter sido a chave para as muitas respostas que ele
recebeu.
Só a eternidade revelará o que é que Israel, a quem ele serviu como
profeta, sacerdote e juiz, e os muitos milhões que, desde então, têm
estudado a sua vida, devem à vida e ao ministério de Samuel.
Oh, Ana, não foste tu favorecida quando viste os resultados da
resposta à tua oração? E não foste tão privilegiada como Sara e Rebeca ao
veres o teu filho a desempenhar tal papel na história?
Maria, a mãe de Cristo, deve ter sido influenciada pela oração de
Ana e pelo seu comovente cântico de louvor, quando proferiu o
Magnificat (Luc. 1:46-55). Ana sentiu-se muito feliz durante o período
em que o seu filho se desenvolveu até ao ponto de andar. Todavia, isso
passou depressa. E, logo que Samuel foi desmamado, ela cumpriu a sua
promessa e devolveu-o a Deus, de quem o tinha recebido. Desde então, só
o via uma vez por ano, quando ela e seu marido ofereciam sacrifícios em
Silo (1 Sm. 2:19-21). A sua oração fora de natureza radical. Assim foi a
sua dedicação. Ela tinha de oferecer Samuel a Deus, diariamente,
confiando em que Ele protegeria a fé dele, no meio da corrupção que
presenciava em Eli e nos seus filhos.
Oração, fé e dedicação continuaram a caracterizar a vida dela, pois
Ana sabia que uma pessoa que desse tudo a Deus receberia mais em
troca. Deus nunca será o devedor de alguém. Ele deu-lhe mais cinco
filhos.
Por que é que Ana podia confiar na resposta à oração? Porque
soube preencher os pré-requisitos de Deus. Estes pré-requisitos não
estavam claramente coligidos numa única passagem da Escritura, mas
eram princípios que, no seu andar com Deus, ela sentia e conhecia. Eles
incluíam:

 Oração na base do pecado perdoado (Sal. 66:13-19).


 Súplica no nome de Deus, reconhecendo a Sua grandeza (João
16:24).
 Convicção profunda de que a pessoa nada vale (2 Sam 7:18-29).
 Formulação duma petição clara e bem definida (Mat. 7:7-11).
 Desejo de que a vontade de Deus seja feita e de que o Seu Reino
seja estendido (1 João 5:14,15).
 Oração de fé (Heb. 11:6; Mat. 21:22).

Ana, uma mulher que acreditava na oração

(1 Samuel 1:9-28. Ver também os versículos sobre Penina).

Perguntas:
1. Leia Juízes 21:25 e 1 Samuel 2:11-36. Qual era a situação do
povo, sob o ponto de vista nacional e espiritual?
2. Compare cuidadosamente a oração de Ana com o "Pai
Nosso" (Mateus 6:9-13). Que semelhanças nota?
3. Em que base é que pode concluir que Ana confiava na
resposta à oração?
4. O que é que mais o impressionou no que toca à dedicação
de Ana a Deus?
5. O cântico de louvor de Ana (1 Samuel 2:1-10) revela os seus
pensamentos mais profundos. O que é que ela pensa de
Deus?
6. O que é que Ana recebeu em troca do seu filho que dedicou
a Deus? ( l Samuel 2:21). O que é que isso prova'?
7. Que mudanças observa em Israel no ponto de vista
nacional e espiritual, depois do aparecimento de Samuel? (l
Sam. 3:19-4:1; cap. 6, 7).
8. Em que sentido é que o exemplo de Ana poderá influenciar
a sua vida de oração?
A RAINHA DE SABÁ,

UMA MULHER QUE DESEJOU SER MAIS SÁBIA

"Desde anteontem que fui chamada a uma tarefa tão pesada, que
ninguém, que mesmo por um momento considere o seu peso, a desejaria,
mas também tão maravilhosa que tudo o que posso dizer, é quem sou eu
para ter o privilégio de fazer isto".
Rainha Juliana da Holanda*

1 Reis 10:1-10, 13
Mateus 12:42

Lentamente, a longa caravana arrastava-se através da espada que


subia de Jericó para Jerusalém. Os camelos sobrecarregados
transportavam as suas cargas com as cabeças inclinadas. Os guias
puxavam-nos para a frente, sabendo que o fim da prolongada viagem
estava à vista.
A mulher que se encontrava no centro do grupo e que tinha
arranjado a viagem perguntava a si mesma se o esforço da fatigante
jornada seria recompensado. Levara semanas a percorrer mais de três
mil e duzentos quilômetros. As noites frias e os dias abrasadores tinham
parecido intermináveis. O campo havia sido escaldante e desagradável
como uma paisagem lunar. O pior de tudo eram as agrestes tempestades
de areia e os ventos veementes do deserto.
Mas bem no seu coração ela sabia que tinha de prosseguir. Na sua
pátria, no palácio real em Sabá, ouvira repetidamente a respeito de
Salomão, o rei de Israel, o homem que parecia ser imensamente rico e
inacreditavelmente sábio. A sua fama era conhecida através do oriente.
Toda a terra consultava Salomão, para ouvir a sabedoria que Deus havia
posto no seu coração (1 Rs 10:24). Muitos reis o visitavam e o
consultavam. Honravam-no com ricos presentes (2 Cr. 9:22-24). Ela
tinha muitas perguntas – acerca da vida pessoal dela, das obrigações
reais, e de Deus.
A coisa impressionante a respeito dos rumores que tinha ouvido
sobre Salomão era que eles estavam sempre relacionados com o nome do
Senhor. Jeová, o Deus de Israel, era mencionado como sendo a fonte da

* No seu discurso, por ocasião da sua subida ao trono, em 6 de setembro de 1948.


sua prosperidade. Ela própria conhecia muitos deuses – deuses do mar,
da terra, da guerra, do vinho, do dia e da noite, mas eles nunca haviam
dado uma solução a qualquer problema. Seria Este capaz de fazer isso?
A maneira como a rainha estabeleceu as suas prioridades prova que
era uma mulher sábia. Na sua sabedoria, aceitou as limitações do seu
próprio conhecimento e percepção. Queria saber mais e estava pronta a
fazer muitos sacrifícios com o fim de adquirir sabedoria. O seu tempo,
dinheiro e esforço eram gastos com o objetivo de conseguir este alvo.
A verdadeira sabedoria anda de mão dada com a humildade. A
rainha de Sabá era suficientemente humilde para dizer ao mundo que a
rodeava que buscava algo mais e que não estava satisfeita com o seu
estado. Qualquer pessoa que visse aquela caravana em marcha saberia
que a rainha de Sabá estava em viagem para Jerusalém, a fim de
consultar o sábio Salomão.
Quando dobrou a última curva da estrada, viu a cidade de
Jerusalém situada sobre as montanhas. Alguns dos edifícios dominantes
atraíram a sua atenção, particularmente o palácio do rei e o templo do
seu Deus. Atrás dela arrastavam-se pesadamente os camelos, curvados
sob os seus preciosos fardos de especiarias raras, ouro e pedras preciosas,
cujo valor nem mesmo podia ser imaginado. (Uma estimativa de cento e
vinte talentos de ouro corresponderia a cerca de ...)

Salomão, o décimo filho de David e o segundo da sua união com


Bate-Seba, foi o terceiro rei de Israel. foi também chamado pelo profeta
Natã, e de acordo com a vontade de Deus, Jedidias, que significa "amado
por Deus" (2 Sm. 12:24-25).
Depois de ter herdado o trono de seu pai, Deus apareceu-lhe uma
noite, em sonhos, e perguntou-lhe: "Que queres que te dê?" A resposta do
jovem revelou a sua humildade e dependência: "A teu servo, pois, dá um
coração entendido, para julgar o teu povo, para que prudentemente
discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão
grande povo?" (1 Rs. 3:5-14) A resposta foi de tal modo agradável aos
olhos de Deus, que Ele adicionou riquezas e honra a uma sabedoria tão
grande, que jamais seria igualada. Salomão levantou a cabeça e os
ombros acima de todos os reis. O seu povo experimentou uma época
áurea na sua história.
Nesta época, o Egito, a Assíria e a Babilônia eram fracos. Os
grandes dias da Grécia de Homero ainda estavam para vir. Israel era o
reino mais poderoso do mundo. Jerusalém era a cidade mais bela.
Nenhum edifício se poderia comparar, em beleza, com o templo. Nesses
tempos, um monarca ia visitar outro. Não se tratava duma visita oficial,
mas de caráter particular.
A conversa foi interessante. A rainha era suficientemente humilde
para revelar a sua fome de sabedoria. Fez muitas perguntas a Salomão.
Achava que Salomão era um homem aberto – uma pessoa com uma
compreensão que parecia sem limites. Como ela, também ele
desempenhava o elevado, mas solitário, cargo de governante duma
nação. Por conseguinte, ele era alguém que podia entendê-la
perfeitamente. Ele próprio se havia debatido com idênticos problemas.
Para espanto e admiração da rainha, não existia qualquer pergunta
demasiado profunda ou complexa para ele. Tinha sempre resposta para
tudo. Ela reconheceu que, na verdade, a bênção de Deus estava sobre ele.
Não possuía simplesmente sabedoria intelectual, mas senso comum que
se aplicava nas situações práticas e diárias. Ela verificou isso na maneira
como a sua casa havia sido construída, nos modos dos seus servos e
ministros, na qualidade das suas refeições e na variedade das bebidas.
Cada pormenor da sua vida estava permeado de sabedoria. A sua fé em
Deus afetava também todos os aspectos da sua existência. Era pura. Era
real. Era o centro da sua vida.
O rei Salomão não só a envolveu nos seus deveres quotidianos, mas
partilhou também com ela o modo como servia a Deus. E foi aí que ela
descobriu o verdadeiro segredo do seu êxito. Quando Salomão oferecia a
Deus as ofertas queimadas, identificava-se com o animal inocente que
estava a ser imolado em seu lugar, pelo seu pecado (Lv. 1:1-9; 9:7). Isto
revelava uma semente de verdade à Rainha de Sabá.
A vida de Salomão era livre, porque os seus pecados foram
perdoados; este fato baseava-se no meio apontado por Deus. O sangue
derramado duma criatura inocente garantia que ele – o culpado – podia
viver em plena liberdade (Lv. 17:11). A sua comunhão com Deus era a
fonte de toda a sua sabedoria, da sua compreensão (Pv. 2:6; 9:10) e da
sua prosperidade (Pv. 10:22).
O alvo de Salomão na vida, descobriu ela, não era aprender e
ensinar a sabedoria, mas temer a Deus. Salomão guardava os Seus
mandamentos e declarava firmemente que era isso o que Deus desejava
de todos os homens, incluindo os reis (Ecl. 12:9-13).
A rainha estava estupefata. Não conseguia falar. Todas as suas
expectativas haviam sido excedidas. "Eu não acreditava no que ouvia a
respeito da tua sabedoria'', disse ela. "Parecia demasiado poderosa. Mas
na verdade ultrapassou em muito todos os rumores. Eu nem tinha ouvido
metade".
A rainha invejava as pessoas que serviam este rei, os súbditos sobre
os quais ele tinha autoridade. Reconheceu que a sabedoria devia ser
preferida a tudo o mais (Pv. 8:11). O mais impressionante é que afirmou
que Salomão constituía uma amorosa dádiva de Deus ao Seu povo, a fim
de que eles pudessem ser bem governados.
Ela fora enriquecida, mental e materialmente, pelo seu encontro
com o rei Salomão. Este partilhou graciosamente com ela não só da sua
vasta compreensão, mas das riquezas que excederam os preciosos
presentes que ela lhe trouxera (2 Cr. 9:12). O valor do presente mais
sublime que ela recebeu não se pode definir em dinheiro. Pois foi o
conhecimento que adquiriu a respeito de Deus, que é a fonte da
verdadeira sabedoria (Ecl. 2:26).
A Rainha de Sabá foi uma mulher que fez história. Mesmo Jesus
Cristo a citou como exemplo. Louvou-a por não se ter poupado despesas
ou dificuldades para ouvir a sabedoria de Salomão. Com essa atitude ela
condenou os que não tomam a sério a sabedoria. Ela dá um esplêndido
exemplo da importância de submeter as coisas de Deus a uma
investigação mais cuidadosa. E deu prova do seu profundo discernimento
quando aceitou a oportunidade de aprender de alguém mais – alguém
que era mais sábio do que ela. Não se limitou a ouvir os rumores de que
Salomão era um homem sábio. Fez todo o possível para o encontrar, a
fim de descobrir a fonte da sua sabedoria (Pv. 2:1-6).
Mas seria o seu enriquecimento apenas intelectual? Seria essa a sua
única satisfação? Ou teria o seu coração buscado o próprio Deus, a Fonte
de Sabedoria (1 Cor. 1:30), o Deus com quem nem mesmo Salomão se
podia comparar? Pois a maior sabedoria vem, não da mente, mas do
coração. A esperança dum tal homem não será cortada (Pv. 24:14).

Tiago, o apóstolo prático, escreveu mil anos mais tarde


que um homem engana-se a si mesmo quando ouve quando
ouve uma mensagem e não a põe em prática. É como uma
pessoa que se vê num espelho, vê que seu aspecto precisa de
arranjo, mas não chega a fazer nada nesse sentido (Tiago 1:22-
24).

Seria a rainha verdadeiramente sábia? Teria ela compreendido


perfeitamente tudo o que Salomão lhe disse? Teria ela aplicado a
sabedoria que viu em Salomão? Teria o seu coração mudado? Teria ela
alcançado os objetivos do plano que se tinha proposto realizar? (2 Cor.
8:10,11) Completamente?
A sua busca foi um fracasso, se não chegou a encontrar Deus. Nesse
caso, ela seria uma figura trágica, em vez do exemplo perfeito que é. A
Bíblia não responde diretamente a estas perguntas. Mas talvez a resposta
se possa encontrar nas palavras de Jesus, quando a colocou acima dos
judeus, usando-a como exemplo para alguns fariseus e escribas do Seu
tempo. Não será esta uma prova de que ela aprendeu as lições?
A Rainha de Sabá foi uma mulher que não se poupou despesas e
dificuldades para se tomar mais sábia.

A Rainha de Sabe, uma mulher que desejou ser mais sábia

1 Reis 10:1-10, 13 ; Mateus 12:42

Perguntas:
1. Com que estava relacionada a fama de Salomão de que a
Rainha de Sabá ouviu falar?
2. De que modo é que ela mostrou o seu interesse sincero em
beneficiar da sabedoria dele?
3. Além disso, o que é que mostra a sua prontidão em
aprender? A que conclusão chegou ela depois de ter visto
com os seus próprios olhos?
4. Qual lhe parece ser a conclusão mais importante desta
Rainha pagã?
5. O Senhor Jesus louva-a pela seriedade com que buscou a
sabedoria de Salomão. Tem alguma razão para concluir que
esta visita a tenha levado a uma relação pessoal com Deus?
6. Considera-a um bom exemplo ou um aviso para si? O que é
que pode fazer com o que aprendeu a respeito dela?
A VIÚVA DE SAREPTA,

UMA MULHER QUE ACEITOU O DESAFIO DA FÉ

"A fé não é meramente um ato, mas uma série de atos. É uma


atitude constante do coração, uma obediência sem discussão. A fé tem de
ter uma garantia divina sobre a qual descansar, e encontra-a nas
promessas de Deus''.
J. Oswald Sanders*

1 Reis 17:7-24

Ela vivia na pequena cidade portuária de Sarepta, entre Tiro e


Sidon, na Fenícia. O marido havia morrido. Ela e o seu filhinho estavam
também prestes a morrer, pois havia uma terrível seca na terra. Não
tinha chovido durante muito tempo. Os depósitos de água estavam
esgotados e a terra incapaz de produzir quaisquer colheitas. As reservas
de alimento estavam a desaparecer e não podiam ser renovadas. As
dificuldades da vida diária avolumavam-se não só para esta viúva, mas
para qualquer outro habitante do país.
Restava-lhe um pouco de óleo e de farinha – exatamente o
necessário para preparar a refeição final para ela e para o filho. Depois de
a comerem, só podiam esperar a morte. Saiu para juntar lenha e fazer a
última comida. Quando chegou às portas da cidade, viu um homem com
uma longa túnica atada com um cinto de couro. Não o conhecia, pois
tratava-se dum estrangeiro. Era Elias, um profeta de Israel.
Ele chamou-a e pediu-lhe que lhe trouxesse um pouco de água num
vaso, para beber.
Ela reconheceu que ele era um santo homem. Podia verificar isso
pelas suas vestes. Embora não tivesse água para dispensar, ela sentiu que
não podia desapontá-lo. Tinha de fazer o que ele pedia. O Deus de Elias
não era o deus dela. Ela era uma pagã. Mas tinha ouvido o suficiente
acerca do Deus de Israel, para sentir um profundo respeito e temor por
Ele. Quando se voltou para ir a casa buscar água, ele disse: "Traze-me um
bocado de pão na tua mão".
Ela explicou-lhe a situação, dizendo: "Vive o Senhor teu Deus, que
nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa

* Sanders, J. Oswald. Mighty Faith (Fé Poderosa), 1971, Moody Press, Chicago, lllinois.
panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois
cavacos e vou prepara-los para mim e para o meu filho, para que o
comamos e morramos''. Esperava que a sua triste história o convencesse
de que, infelizmente, não podia atender o seu pedido. Mas não foi isso
que aconteceu, pois ele respondeu: "Não temas; vai, faze conforme a tua
palavra. Porém, faze disso primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-
mo para fora; depois farás para ti e para o teu filho. Porque assim diz o
Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da
botija não faltará, até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra''.
Ela nunca havia tido antes qualquer coisa que não pudesse acabar.
Pessoalmente, nunca tinha tido qualquer contato com o Deus de Israel.
Embora este homem falasse em nome de Deus, que garantia teria ela de
que era enviado por Ele? Por ela estava pronta a arriscar-se, mas
precisava de ter em consideração a vida do seu filho. O seu único filho.
Um grande ato de fé estava a ser exigido desta mulher pagã. Ela era
desafiada a crer na palavra dum homem, quando não tinha qualquer
prova de que fosse mesmo um servo de Deus. Como é que poderia confiar
nele?
Mas pressentiu uma autoridade na voz do homem. Decidiu correr o
risco. E depois de ter servido a refeição ao profeta, ainda havia farinha e
azeite que chegavam para ela e para o filho!

A fé não pode separar-se do objeto em que crê. Sem a


segurança do objeto, a fé pode tornar-se uma emoção
descontrolada ou uma presunção sem qualquer promessa a
sustentá-la. A fé não pode estar desligada da Palavra de Deus.

Este milagre repetiu-se por muitos dias. A experiência era


semelhante à contínua provisão de Deus do pão para os israelitas, no
deserto (Êx. 16). Continuou a ser um desafio diário à sua fé. A reserva era
sempre tão escassa que não podia pôr qualquer alimento de lado e
confiar nele. Só podia confiar na promessa de Deus.
Desse modo, todos os dias se requeria dela um ato de fé, fé na
palavra que era falada. E diariamente ela, o filho e Elias experimentavam
o milagre, pois em cada dia havia o suficiente para todos comerem.
Continuou assim durante muitos dias. A sua fé encorajou-se em Deus.
Então, algo ocorreu que ela não conseguia compreender. Elias tinha
vindo viver em sua casa, ocupando um quarto superior, vazio. O autor de
Hebreus afirma que uma pessoa que é hospitaleira pode alojar, sem o
saber, anjos (Heb. 13:2). Foi esta a sua experiência. O anjo da morte, a
trabalhar diligentemente durante um tempo de fome, não entrou a sua
porta, e ela não se tomou sua vítima.
Por conseguinte, parecia-lhe inconcebível que o seu filho adoecesse
de repente. Mesmo antes de ter tempo de falar com o profeta, o filho
morreu. Ela não podia compreender! Por que é que Deus tinha
conservado a criança viva durante o período da fome, para agora a deixar
morrer? A morte estava apanhando a presa dum ângulo inteiramente
diferente. Isto a deixava perplexa.
Com a presença do santo homem de Deus na sua casa, ela tinha
reconhecido que era pecadora. Seria esta a razão da morte do seu filho?
Seria que o pecado exigia um castigo? Ela defrontou o profeta com esta
pergunta. Estava desesperada.
"Dá-me o teu filho", disse Elias. Ele pegou no rapaz morto e levou-o
para o seu quarto, estendeu-o na sua própria cama. Lutou então com
Deus em oração pela criança. "Ó Senhor meu Deus, também até a esta
viúva, com quem eu moro, afligiste, matando-lhe o seu filho? Que torne a
alma deste menino a entrar nele", pediu ele, enquanto se media sobre a
criança três vezes. Parecia que queria transmitir a sua vida e o calor do
seu corpo à forma fria e imóvel do rapaz. Para sua grande alegria, Deus
atendeu a oração. Ele verificou que a vida voltava à criança. Devolveu o
rapaz vivo à mãe.
Entretanto, a viúva experimentava uma crise na sua fé. O milagre
da multiplicação do alimento tinha-lhe fortalecido a fé no mandato do
profeta. O ministério dele era autêntico. Ele falava a Palavra de Deus.
Podia-se confiar nele. Ela nunca havia expressado isto claramente em
palavras. Estava tão intimamente ligada com o drama presente, tão
surpreendida e tão chocada, que não era capaz de reconhecer que Deus
estava a fazer algo de maravilhoso por ela.
O sofrimento profundo deve estimular uma fé maior. Tal fé, todavia
tem de ser primeiro provada quanto à sua genuinidade. Deus quer saber
o seu valor e, portanto, permite o sofrimento. A fé que permanece depois
do teste do sofrimento, é pura (1 Pe 1:6,7; 4:12,13).
Mais tarde, quando a fome tivesse terminado, ela olharia para trás
e experimentaria uma dupla bênção, pois não vira apenas a sua vida
prolongada dia após dia, mas havia também experimentado a
ressurreição dos mortos. A ressurreição do seu filhinho constitui o
primeiro relato bíblico duma pessoa ressuscitada.
Como resultado de tudo isto, ela fez uma clara afirmação de fé:
"Nisto conheço agora que tu és homem de Deus e que a palavra do
Senhor na tua boca é verdade''. Nunca mais voltaria a duvidar da Palavra
de Deus. O segundo teste da fé era muito mais difícil do que o primeiro,
mas agüentou-o, amadureceu e foi enriquecida.
Estes milagres não aconteceram em Israel. Será que não se pôde
encontrar ninguém entre o próprio povo de Deus, entre aqueles que O
haviam rejeitado para servirem Baal, que ajudasse o profeta ameaçado?
Será que Deus foi forçado a procurar ajuda fora das fronteiras de Israel?
Neste período difícil da história do Seu povo, Deus conservou vivo o Seu
servo por meio de uma mulher pagã, uma mulher que aceitou o desafio
para ter fé na Palavra de Deus.
Esta mulher aprendeu que Deus recompensa grandemente a fé
(Heb. 11:6). Ela desenvolveu uma sensibilidade em relação ao invisível,
mas muito real, mundo da fé. O teste por que Deus a fez passar habilitou-
a a compreender a realidade, a segurança e a prova da Sua fidelidade.

A viúva de Sarepta, uma mulher que aceitou o desafio da fé

(1 Reis 17:7-24)

Perguntas:
1. Qual era a situação da viúva de Sarepta e do seu filho
quando Elias a encontrou?
2. Descreva o alcance do pedido de Elias. Que enorme desafio
de fé lhe oferecia ele com tal pedido?
3. Qual foi a reação dela? O que é que provou com essa
reação?
4. Durante muito tempo a família dependeu do milagre da
multiplicação feita por Deus. Qual lhe parece ser a
experiência mais importante para a viúva nessa situação?
(Compare com Êxodo 16 e Mateus 6:25-34).
5. 1 Pedro 1:6,7 requer que a fé seja provada quanto à sua
autenticidade. Leia de novo I Reis 17:7-24, especialmente o
último versículo. De que maneira é que a viúva
experimentou isso e como é que agüentou o teste?
6. O bom exemplo desta mulher oferece-lhe algum desafio?
Vê alguma maneira de praticar melhor a sua fé? Se sim,
como é que o vai fazer?
A SUNAMITA,

UMA MULHER DE PENSAMENTO E AÇÃO

"Eliseu – teria ele alguma vez olhado através da sua janela para os
28 séculos seguintes e contemplado a multiplicidade de conforto que,
durante todo esse tempo, adviria da sua cama, mesa, cadeira e candeeiro
primitivos para "profetas" ainda por nascer?"
Theron Brown*

2 Reis 4:8-22, 32-37

Com algumas linhas incisivas, a Bíblia desenha o seu retrato – uma


mulher importante, muito rica, casada com um homem idoso, sem filhos.
O seu nome não é mencionado. Foi chamada Sunamita por causa do
nome da sua cidade.
Sunem ficava situada um pouco ao norte de Jezreel, perto de Naim,
uma cidade que se tornou bem conhecida cerca de 900 anos mais tarde,
por causa de Jesus ter ressuscitado lá o filho duma viúva.
A Bíblia não deixa qualquer dúvida de que o marido era o cabeça da
família. Isso, todavia, não significa que a mulher fosse uma criada que só
pudesse dar o seu consentimento – uma pessoa que não revelasse
qualquer iniciativa pessoal. A Sunamita era a mais enérgica, uma vez que
era a mais nova do casal. Apresentava idéias, mas só as punha em ação
depois de as discutir com o marido. Partilhava os seus planos com ele, e a
decisão resultava dum esforço conjunto.
As pessoas amadurecidas não desejam dominar. Pelo contrário,
procuram trabalhar harmoniosamente uma com a outra, de tal modo que
o casamento pode desenrolar-se de acordo com a vontade de Deus. Isto
pode ser uma realidade, mesmo quando outros fatores, tais como uma
grande diferença de idade, não sejam particularmente favoráveis. Deus
cria cada ser humano com características únicas. Compete a cada
indivíduo – marido ou mulher – reconhecer quais são os dons dele ou
dela e usá-los em todo o seu potencial.
A Sunamita era extremamente rica e podia facilmente tornar-se
indisciplinada, desfrutando de todas as coisas que o dinheiro podia

* Lockyer, Herbert, R. S. L. The Women of The Bible (As Mulheres da Bíblia), 1967, Zondervan
Publishing House, Grand Rapids, Michigan, U.S.A.
comprar. Não tendo filhos, e com o marido idoso, era fácil levar uma vida
estéril, sem propósito, lamentando-se constantemente. Mas não o fez.
Esta mulher tinha uma riqueza de interesse no mundo que a
rodeava. Pensava primeiro nos outros, não em si própria. Observava
atentamente o ambiente, e tinha notado que entre muitos que passavam
diariamente pela sua casa havia um indivíduo excepcional. Como era
hospitaleira, convidou-o para uma refeição, pois reconheceu que se
tratava de fato de uma pessoa invulgar. Era o profeta Eliseu.
Enquanto ela, como dona de casa, cuidava das suas
responsabilidades diárias, fazia a si mesma esta pergunta: O que é que
poderei fazer por este servo de Deus? Teve uma idéia que, certamente,
no seu tempo, era uma idéia original – Vou fazer um quarto de hóspedes
para ele. Não provisório, do tipo duma tenda, mas algo que seja mais
sólido e durável. Com a ajuda do marido, construiu um quarto de
hóspedes para Eliseu, no andar superior da casa.
Ao desejar servir a Deus, a Sunamita recebeu uma idéia criativa.
Ela criou alguma coisa de novo, algo útil para o Seu serviço.
No quarto havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um
candeeiro. Era um quarto onde Eliseu podia trabalhar e dormir. Ela não
esqueceu nada.
Assim, Eliseu ficou com eles. Tudo havia sido arranjado para uso
prolongado e repetido. Sem dúvida, havia também lugar para o seu servo
Geazi. Ela tinha prazer em aplicar o seu dinheiro para sustentar o profeta
do Senhor. Em vez de o oferecer a Eliseu para que arranjasse alojamento
e comida para ele próprio, teve ela o trabalho de construir instalações
novas para ele. Ao partilhar os seus bens, estava-se a dar a si mesma.
Como resultado, Deus recompensou-a.
Eliseu havia-lhe perguntado através do seu servo Geazi: "Eis que tu
nos tens tratado com todo o desvelo; que se há de fazer por ti?''
A mulher agradecida respondera que não tinha qualquer pedido a
fazer pois possuía tudo de que necessitava. Mais tarde o observador
Geazi sugeriu ao seu senhor: "Ora ela não tem filho, e o seu marido é
velho".
Mas quando ela recebeu a promessa de que ia ter um filho, nem
ousava dormitar. "Não, meu senhor, homem de Deus, não mintas à tua
serva''. Mas não se tratara dum engano. Era real. Uma realidade divinal
Um ano mais tarde, ela deu à luz um filho.
Um dia, quando o rapazinho tinha cerca de três ou quatro anos,
acompanhou o pai aos campos. Lá, sentiu-se mal e morreu dentro de
algumas horas. A mãe pôs o cadáver sobre a cama do profeta no quarto
onde ele orava e meditava. Ela só viu uma solução possível – Deus!
Uma vez que Deus lhe tinha dado esse filho, Ele era o único que
podia ajudar. Correu ao Seu representante, Eliseu, que na altura se
encontrava no Carmelo. Teriam os seus pensamentos recuado para
aquele profeta, Elias, que havia também ressuscitado uma criança, o filho
da viúva de Sarepta?
Não era verdade que o seu espírito repousava sobre Eliseu?
Não havia tempo a perder. Embora informasse o marido de que ia
visitar o profeta, não perdeu tempo com mais explicações. Teria alguma
vez uma distância de 40 quilômetros parecido tão longa? Será sensato eu
fazer esta viagem, perguntava ela a si mesma, uma i,ez que n meu filho já
está morto?
Eliseu pôde verificar de longe que alguma coisa corria mal. Quis
mandar o seu servo Geazi com ela, para a ajudar. Mas a mulher não se
satisfez com isso. Disse a Eliseu que só voltaria para casa, se ele próprio
fosse com ela. Antes de ter o filho, estava satisfeita com a sua situação na
vida. Não havia pedido um filho a Eliseu, mas agora sentia
profundamente a falta da criança. Achava que o único que podia ajudá-la
era o homem que fora instrumento no sentido de Deus lhe dar o filho.
Uma vez que se tinha dedicado totalmente a satisfazer as necessidades de
Eliseu, esperava agora que ele fosse com ela. Eliseu ficou convencido e
acompanhou-a.
Quando chegaram a casa, Eliseu, tal como Elias havia feito antes
dele, estendeu-se sobre o pequenino cadáver e ressuscitou-o. A Sunamita
recebeu então o filho pela segunda vez. Primeiro, recebera-o no
nascimento, agora recebia-o dentre os mortos. Não precisou de fazer
preparações para o funeral, assim, preparou-se para uma festa!
Não foi esta a única bênção derramada sobre a Sunamita. Quando o
país foi ameaçado pela fome alguns anos mais tarde, ela foi avisada pelo
profeta a tempo de se mudar com a família e escapar à miséria. Só voltou
sete anos mais tarde ao seu país. Durante a sua ausência, tinha perdido a
casa e os campos. Pediu ao rei que lhos restituísse. Ele não fez apenas
isso, deu-lhe também todos os seus frutos (2 Rs 8:1-6).
Por quê? Porque ela era a mulher cujo filho fora ressuscitado por
Eliseu e por causa da sua contribuição a favor do profeta e do reino de
Deus.

A história da Sunamita é semelhante à do lar de Betânia,


onde Jesus e os Seus discípulos ficaram alojados, muitas vezes e
com prazer. Também aí foi ressuscitada uma pessoa – Lázaro
(Lucas 11:38-42; João 11:1-44; 12:1).
A Sunamita era simplesmente uma mulher. Mas uma mulher de
pensamento e ação. Uma mulher que, pela sua dedicação altruísta aos
outros, abriu torrenciais de bênçãos sobre si própria. A pessoa que dá
torna-se aquela que recebe. Isto é sempre verdade no caso de uma pessoa
que confia em Deus (Luc. 6:38).
Criatividade vem da palavra latina creatus e está relacionada com a
palavra "criador". A relação da Sunamita com Deus, o Criador, é que fazia
dela aquilo que era.
Andar verdadeiramente com Deus leva à criatividade. A pessoa que
pergunta como é que pode servir a Deus com o que tem, recebe idéias,
por assim dizer, diretamente do céu. Não se trata de idéias emocionais ou
presunçosas, mas práticas e úteis dentro dos moldes do potencial que
Deus dá a cada pessoa. O Santo Espírito de Deus inspira a criatividade.
No caso da Sunamita, isto não significou trabalhar diretamente
para o templo de Deus, como Bezaleel e Aoliabe, artífices do tabernáculo
(Êx. 31:1-11). Em vez disso, ela serviu a Deus dentro do próprio lar.
Agindo assim, acabou com a designação de "rotina" para a ocupação da
"dona de casa". Usou os seus bens materiais para o bem-estar dos outros.
Um estudo da sua vida revela que Deus recompensa isto.

A Sunamita, uma mulher de pensamento e ação

(2 Reis 4:8-22; 32-37).

Perguntas:
1. Descreva a situação e o caráter da Sunamita.
2. Porque que é que ela ofereceu alegremente hospitalidade a
Eliseu?
3. Que novas idéias utilizou ela para ajudar o profeta? O que é
que isto prova?
4. Que lições observa nesta história em relação com a
hospitalidade? (Ver também Lucas 6:38).
5. Que paralelo vê com qualquer lar hospitaleiro na Bíblia?
(Lucas 10:38-42; João 11:1-44; 12:1 ,2).
6. A Sunamita desenvolveu idéias criativas para o serviço do
Reino de Deus. Haverá maneiras de v. poder seguir o seu
exemplo? Descreva como.
A SERVA JUDIA,

UMA MENINA QUE FALOU DE DEUS

"A questão que cada homem deve pôr não é o que faria pelo
Senhor se tivesse mais dinheiro, tempo ou educação, mas o que fará com
as coisas que tem. O que imporia não é o que você é ou o que você tem –
mas se Cristo controla a sua vida''.
Autor desconhecido

2 Reis 5:1-5, 14, 15


Atos 1:8

850 A. C.. Oficialmente havia paz em Israel. Contudo, as tropas de


Ben-Hadade, rei da Síria, continuavam a fazer incursões a Israel para
levarem prisioneiros como despojo. Um dia capturaram uma menina
judia que não tinha mais de 15 anos. O nome dela não está registrado na
Bíblia. Talvez seja porque aquilo que se diz a seu respeito é tão
impressivo, que o nome é de secundária importância.
A moça tomou-se criada da esposa dum oficial de alta patente no
exército do rei. O oficial, Naamã, era competente e tinha muita
influência. Era grandemente honrado pelo rei devido ao seu valor em
combate. Seria o resultado das orações dos seus pais tementes a Deus, ou
a resposta ao grito do seu próprio coração a Deus, que levou esta pobre
menina, provavelmente através de um mercado de escravos, em
Damasco, para esta boa casa?
Na altura, Naamã estava profundamente preocupado. Uma sombra
caíra sobre a sua casa e não podia ser afastada. Havia verificado que
tinha lepra, a mais temível das doenças. Uma vez que a pessoa contraía a
lepra, era marginalizada para o resto da vida (Lev. 13:45,46). Tratava-se
duma doença horrível, e podia levar anos até que a morte libertasse a
vítima do seu isolamento.
Naamã era já um homem morto. A sua morte física poderia
demorar anos, mas na realidade, para a esposa, para o seu senhor, os
seus colegas, e para a menina, ele em breve já não existiria. Nenhum rei,
nenhum troféu de vitória poderia evitar a sua expulsão. Seria forçado a
vaguear fora dos muros da cidade como um pedinte. Cada pessoa que se
aproximasse dele seria avisada para se afastar.
Naamã e a sua esposa tinham tentado manter a doença em segredo,
mas em breve isso se tornaria impossível. O segredo havia-se tornado
conhecido – mesmo a criada estava consciente dessa situação chocante.
Ela não se enchera de amargura por causa do cativeiro. A sua fé em
Deus, aprendida no lar dos pais, tinha-a livrado disso. Sujeitava-se aos
seus superiores e era simpática para com eles. Reconhecendo isso, eles
confiavam nela.
Sim, os seus senhores tinham um problema. Mas não era verdade
que os problemas existiam para poderem ser levados a Deus? Não
sabiam estes sírios que Deus tinha um servo na terra – Eliseu? Ele era
uma figura muito honrada na terra dos seus pais. Assim, ela aproximou-
se da sua senhora, com uma proposta muito natural: "Oxalá que o meu
senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o restauraria
da sua lepra".
Algumas palavras apenas, mas que diferença fizeram. Em vez de
morte certa, havia uma possibilidade de vida! A senhora considerou
seriamente as suas palavras, e o senhor achou que eram suficientemente
importantes para as comunicar ao rei. Este ordenou ação imediata. Logo
que possível, Naamã estava a caminho, levando muitos presentes para
ver o profeta Eliseu em Samaria.
Quando Naamã voltou, não estava apenas curado da sua horrível
doença – a sua pele limpa e sem mancha, com o aspecto da pele saudável
dum jovem – mas o processo de cura havia sido muito mais profundo. O
seu coração fora tocado. Agora ele tinha confiança no Deus de Israel. E
disse: "Eis que tenho conhecido que em toda a terra não há Deus senão
em Israel''. Em vez de adorar ídolos, tornou-se adorador do Deus vivo.
Nada mais se diz acerca da menina cuja vida foi descrita em duas
frases. Todavia, alguns aspectos da sua vida são impressionantes.
Primeiro, ela deve ter sido uma serva excelente, que desempenhava bem
o seu trabalho. Alguém disse: "O que tu fazes fala tão alto, que não
consigo ouvir o que tu dizes". Ela viveu cedo demais na história para ter
lido as palavras de Tiago que diz que a fé da pessoa é provada pelas obras
(Tg. 2:14-26). Contudo, praticava o que Tiago pregou. As suas obras
haviam preparado uma oportunidade para as palavras. Ela foi ouvida
atentamente pelos senhores.
Segundo, ela não se manteve em silêncio, com timidez. Não pensou
que era demasiado nova para ter alguma coisa importante a dizer (1 Tim.
4:12). Não sentiu que a sua posição fosse demasiado baixa para poder ser
ouvida. Em vez disso, viu uma pessoa em necessidade e creu que o Deus
de Israel podia satisfazer essa necessidade. Confiou em que Ele curaria
Naamã da sua temível doença. Foi só isso que ela disse, umas simples
palavras, mas o resultado foi significativo. Um futuro completamente
novo se abriu para Naamã.
Umas simples palavras trouxeram nova vida a um homem,
esperança para a sua família e apoio para o seu rei. Umas simples
palavras chamaram a atenção e trouxeram honra para o Deus de Israel.
Esta menina continua a falar às pessoas, hoje, através das palavras que
ficaram registradas sob a direção do Espírito Santo, muito depois dela ter
morrido. A história jamais poderá apagar o que ela disse e fez.
Não disse muito, mas o que disse revelou a sua fé – uma fé que foi
provada pela realidade, uma fé que serviu o povo ao seu redor. Por causa
da sua fé uma vida foi transformada. Afinal, a insignificante criada não
era assim tão insignificante!
Cerca de 900 anos mais tarde, Jesus disse aos discípulos que eles
seriam Sua testemunhas. Testemunhar significa falar aos outros das
experiências pessoais do que a pessoa ouviu e viu (1 Jo. 1:2,3). Para fazer
isso, tem que começar em "Jerusalém" (Atos 1:8). Isto significa começar
no seu próprio ambiente. Se alguém deseja fazê-lo, então Deus usará as
palavras. Abençoa-as. Uma pessoa que está pronta a testemunhar dessa
maneira, receberá oportunidades com que nunca sonhara.

A Serva Judia, uma menina que falou de Deus

(2 Reis 5:1-5,14,15; Atos 1:8)

Perguntas:
1. O que é que a Bíblia diz a respeito desta menina? Como é
que ela chegou ao lar de Naamã?
2. O que é que a Bíblia conta acerca de Naamã e da sua
doença? Por que é que esta era tão temível? (Levítico
13:45,46).
3. O que é que conclui das palavras que a menina disse à
esposa de Naamã?
4. Quais as diferentes coisas que aconteceram como resultado
daquelas poucas palavras?
5. Qual lhe parece ser o resultado mais importante da sua
ousadia?
6. Compare o que a menina fez com a comissão que Jesus deu
em Atos 1:8. Que lições tirou, pessoalmente, da sua
ousadia? Como é que você vai aplicá-las?
ESTER,

UMA RAINHA QUE ARRISCOU A VIDA PELO SEU POVO

"Em 1959 o Xá da Pérsia, Mohammed Riza Pahlavi, casou com


Farah Diba, uma estudante moderna de 21 anos. Em 1967 coroou-a
imperatriz para expressar, de "modo invulgar'', a sua gratidão pela parte
que ela tivera no avanço social e econômico do país, durante esse
período de oito anos. A dedicação duma jovem mulher prova, mais uma
vez, ser de grande influência na Pérsia''.
A Autora

Ester 4:1,5-16
Ester 7:1-6
Ester 8:15-17

A história da rainha Ester é notável. Tem a atmosfera lendária das


1001 noites à mistura com o cheiro penetrante das câmaras de gás de
Hitler. E embora o nome de Deus não apareça uma só vez no livro de
Ester, a Sua presença é evidente em cada página.
Ester apareceu na cena, depois de outra mulher, a rainha Vasti, ter
desaparecido do cenário real. Ester era a esposa de Assuero, o
imensamente rico rei da Pérsia, que reinava sobre 127 províncias da
Índia à Etiópia em 475 A. C.. O seu palácio real de inverno era em Susã,
cerca de 320 quilômetros a leste da Babilônia. Possuía pavimentos e
pilares de mármore donde pendiam cortinas brancas, verdes e azuis, que
eram presas com cordões de linho fino. A família real e os seus hóspedes
reclinavam-se em canapés de ouro e prata. Durante as festas bebiam por
vasos de ouro, dos quais não havia dois iguais.
Ester, uma bela jovem com uma disposição a condizer, tinha
conquistado os corações da casa real. Não era persa, mas uma órfã judia
que havia sido criada pelo seu primo Mardoqueu, um exilado de
Jerusalém. Ele cuidou dela como se fosse seu pai, e ela obedecia-lhe
como filha, mesmo já sendo rainha.
Mardoqueu, que servia a corte real, era odiado pelo chanceler do
rei, Hamã, um amalequita. Hamã era brilhante, ambicioso e rude. Não
poupava ninguém. Contudo, o rei resPe'tava-° muito e ordenou a todos
os servos da corte real que se inclinassem diante dele. Mardoqueu foi a
única pessoa que recusou fazer isso. Porque era judeu, ele só se poderia
curvar diante de Deus. Hamã estava tão enraivecido com esta recusa, que
decidiu matar Mardoqueu e todos os outros judeus no grande império
persa.
Concebeu um plano tão sutil e seguro, que nenhum judeu
conseguiria escapar. Todos seriam apanhados na rede que ele estava a
lançar. A aniquilação total dos judeus – o povo de Deus – foi anunciada.
A assinatura do rei tornava possível a Hamã varrê-los do globo para
sempre. Os correios reais serviram-se dos animais mais rápidos e
correram por todos os cantos do império imenso a anunciar a iminente
calamidade. Os judeus ficaram abalados e aterrorizados.
Ester estava casada há cinco anos. A pedido de Mardoqueu, ela
tinha permanecido silenciosa quanto à sua origem judaica, mas ele
conservava-a diariamente informada a respeito da situação. Com o
horrível extermínio dos judeus à vista, Mardoqueu achou que a única
solução era a intervenção de Ester.
"Vai ter com o rei teu marido e pede-lhe a sua ajuda para salvar o
teu povo", ordenou ele a Ester. O teu povo! Isso significava que ela tinha
de revelar a sua origem judaica. Como é que iria reagir o rei? Acharia ele
que havia sido enganado? Odiaria a raça dela como Hamã e tantos outros
odiavam?
Existia outro obstáculo. Ninguém estava autorizado a apresentar-se
diante do rei sem ser chamado, nem mesmo a rainha. Fazer isso
significaria arriscar a sua vida. Ela não tinha qualquer garantia de que ele
ainda a amasse como antes. Talvez outra mulher tivesse tomado o seu
lugar.
Ela disse a Mardoqueu que não era chamada ao rei durante trinta
dias. Ele persistiu, dizendo que ninguém mais poderia intervir. "Não
imagines que escaparás à morte. Não interessa que sejas rainha. Todos os
judeus morrerão, jovens e velhos. Nenhuma mulher ou criança será
poupada'', disse ele. "Porque se de todo te calares agora, de outra parte se
levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai
perecereis; e quem sabe se para tal conjuntura como esta é que foste
elevada a rainha?"
"De outra parte..." Mardoqueu estava a pensar em Deus. Ele não
iria permitir este repugnante assassínio da nação judaica. Através dos
tempos Ele havia prometido que o Messias viria deste povo. Hamã não
poderia evitá-lo. Nem Satanás. Embora a necessidade de livramento
fosse imediata, a confiança de Mardoqueu em Deus era sólida.
A ofensiva de Deus estava pronta. Ele não a executou através duma
intervenção sobrenatural. Nenhum milagre da natureza, nenhum anjo,
salvaria o Seu povo. Em lugar disso, seria uma fraca mulher. O futuro do
povo de Deus raras vezes havia estado suspenso por um fio tão fino. Iria
este plano ser bem sucedido? Iria a rainha cooperar com o plano de Deus
ou não?
"Deus procura um instrumento, Ester, um ser humano. Você está
pronta a dar a sua vida? Ele colocou você numa posição estratégica muito
antes, porque sabia da catástrofe que se aproximava. A solução de Deus
és você". Ester não recebeu a mensagem de Deus por meio das palavras
autoritárias de um profeta estabelecido, que dissesse: "Assim diz o
Senhor". Não recebeu qualquer visão celestial. Foi orientada pelas
palavras de um parente. A direção de Deus não podia ter sido menos
propícia. Todavia, ela aceitou as palavras de Mardoqueu como palavras
de Deus.
A jovem Ester, que sempre havia revelado uns modos afáveis,
provara agora que era feita da fibra dos heróis. Esta situação de crise
revelou o poder da sua vida – Deus. Estava pronta a submeter a sua vida
aos Seus planos. Desejava fazer a vontade de Deus. "Vai, ajunta todos os
judeus que se acharem em Susã", disse ela, "e jejuai comigo e com as
minhas moças durante três dias e três noites''.
Ela estava agora a identificar-se publicamente com o seu povo. O
seu apelo ao jejum era uma chamada à oração. Reconheceu que não tinha
qualquer poder, que não poderia oferecer qualquer ajuda. O auxílio só
podia vir do Senhor, o Deus de Israel. Portanto, planejou assaltar o Seu
trono celestial com oração durante três dias e três noites. Ester estava
profundamente consciente de que precisava da orientação de Deus.
Queria estar segura de que a missão de que a haviam incumbido era
indicada por Ele. Sabia que Deus Se revelava na resposta à oração e
precisava de sabedoria e coragem para agir de modo adequado. A quem é
que pediria conselho senão Àquele que era a Fonte de toda a sabedoria e
que a distribuía em resposta à oração?
"E assim irei ter com o rei, ainda que não é segundo a lei; e,
perecendo, pereço". Ela havia queimado as pontes que ficavam na
retaguarda. Esta jovem mulher estava pronta a arriscar a sua posição, a
vida e futuro pelo seu povo.
Depois dos dias de oração, Ester enfeitou-se meticulosamente e foi
ao rei, que, aparentemente, estava ocupado com os assuntos do reino.
Quando ele a viu, o seu coração foi tocado. Estendeu o seu cetro de ouro
para ela, como prova de que a sua vida estava salva. E perguntou: "Qual é
o teu pedido, rainha Ester? E te será dado''.
A primeira parte da sua oração fora respondida. A sua vida fora
poupada. E Deus havia deixado entreaberta a porta da salvação para o
Seu povo. Ela não tinha orado em vão por sabedoria, apesar de tudo.
Sentiu que esta não era a ocasião nem o lugar próprio para o seu pedido
urgente. O seu discernimento quanto a esta situação revela que era uma
mulher sábia, com perfeito domínio das suas emoções, e uma pessoa que
não precisava fazer decisões apressadas. Era também uma mulher que
reconhecia muito naturalmente que o caminho para o coração do homem
passa muitas vezes pelo estômago. Convidou o rei para uma refeição,
juntamente com Hamã.
Durante a refeição, o rei perguntou-lhe outra vez: "Qual é a tua
petição? E te será dada''. Ester avançava cuidadosamente, passo a passo,
dependendo de Deus. Bem no seu coração, sentia que ainda precisava
ganhar tempo. Não tinha chegado ainda o tempo de Deus. "Voltem juntos
amanhã'', pediu ela. E isso provou que era Deus quem estava a orientá-la.
Nessa noite, o rei não conseguiu dormir. Um cortesão leu-lhe de
um livro de crônicas do seu povo. Fatos importantes que haviam
permanecido na sombra vieram à luz. Eles encaixavam-se no conjunto do
plano de Deus. Algum tempo antes, Mardoqueu havia revelado uma
conspiração contra o rei e, desse modo, salvara a vida do rei. Mas
Mardoqueu nunca tinha sido recompensado. Esta negligência tinha de
ser corrigida. Hamã, o homem que tinha levantado uma forca de 27
metros de altura, perto da sua casa com a intenção de enforcar
Mardoqueu, foi incumbido de lhe dar a recompensa.
No dia seguinte, durante a refeição, Ester revelou o seu pedido. De
modo comovente, suplicou ao rei pela vida do seu povo. E pela sua
própria vida: "Se ainda por servos e por servas nos vendessem, calar-me-
ia", disse ela.
Não eram simplesmente as vidas dos judeus que pendiam na
balança, estava também em jogo o bem-estar do rei. Uma conseqüência
muito pior do que perder os seus servos e muito pior do que a reação em
cadeia de ódio contra ele, iria verificar-se – ele estaria a agir contra Deus.
Deus tinha chamado a este povo a menina dos Seus olhos (Dt. 32:10), e
os protegeria e conservaria. Ninguém poderia atingir esta raça sem se
arriscar à Sua ira (Zac. 2:8,9). Nem mesmo um rei. Portanto, ela queria
protegê-lo. O seu discernimento e maneira de abordar o assunto mereceu
o respeito do rei. Conseguiu convencê-lo. "Quem é esse? e onde está esse,
cujo coração o instigou a fazer assim?", foi a resposta estupefata do rei.
O dedo de Ester apontou para Hamã, um dos seus hóspedes, e o
súdito mais importante: "Foi esse homem ímpio aí – Hamã", respondeu
ela.
Então tudo se tornou claro. A forca que havia sido levantada perto
da casa de Hamã esperava pela execução de Mardoqueu, mas o rei
mudou esse plano. "Enforcai Hamã" na forca que fora levantada para
Mardoqueu", ordenou o rei. E assim se fez.
A esposa de Hamã e os seus sensatos amigos tinham tido razão.
Haviam-lhe dito: "Se este Mardoqueu é um judeu, não prevalecerás
contra ele. Pelo contrário, irás certamente cair perante ele''. Teria sido
prudente se Hamã aprendesse com a história dos seus ancestrais, os
amalequitas. Deus fora contra eles, por eles serem contra o Seu povo (Êx.
17:8-16; Dt. 25:17-19). Hamã descobriu que o ódio é uma emoção muito
perigosa, que geralmente se vira contra a pessoa que o abriga.
Ester havia salvo não só a sua vida, mas também as vidas da sua
raça inteira. O Novo Testamento diz que os cristãos brilharão como luzes
neste mundo, como estrelas cintilantes na noite (Filip. 2:15). Ester foi
uma estrela assim, que é precisamente o significado do seu nome
"estrela".
As palavras do seu marido para a extinção dos judeus eram tão
poderosas que não podiam ser simplesmente retiradas. Era necessária
uma ordem oposta. "Escreve o que te parecer bem a respeito dos judeus",
disse-lhe o rei. "Eu assinarei e selá-lo-ei com o meu anel''.
A heroína que havia salvo os judeus, arriscando a sua própria vida,
recebeu o privilégio de lhes dar tão maravilhosas notícias! Em vez de ser
uma mulher atrás dos bastidores, havia-se tornado uma pessoa de
importância. As suas palavras pesariam muito dali em diante.
A boa nova chegou antes da data do assassínio em massa. Deus
tratou disso. O dia que Hamã tinha marcado no calendário para ser um
dia de tristeza, tornou-se num dia de alegria. Muitos não-judeus
tornaram-se judeus, porque estavam tão profundamente impressionados
com o que tinha acontecido. Queriam estar do lado do Senhor.
O dia de alegria tornou-se um dia de comemoração. A festa do
Purim foi instituída. Nesta festa, ainda hoje os judeus em todo o mundo
lembram o que a rainha Ester fez por eles. Todos os anos, quando o
Purim é celebrado, os judeus lêem o Livro de Ester. Ela é grandemente
honrada. O Talmude parece mesmo preferir este livro aos Salmos e aos
Profetas.
Trinta anos mais tarde, Neemias reedificaria os muros de
Jerusalém. Sem a rainha Ester, isso teria sido impossível. É difícil
imaginar o curso da história sem ela. Humanamente falando, se não
tivesse existido Ester não haveria nação judaica. E sem a nação, não teria
havido o Messias. E sem o Messias, o mundo estaria perdido.
Ester preparou o caminho, desconhecido para ela, para a vinda de
Cristo. Através dela, Deus mostrou também que a Sua direção está ao
dispor dos Seus seguidores para fazerem decisões. Estas decisões devem
ser baseadas na Palavra de Deus (Jo. 14:21), testadas pela oração (Tg. 1:5)
e pelo conselho dos outros (Prov. 15:22), dependendo duma certeza
íntima (1 Jo 3:21) e de portas abertas por Deus (Apoc. 3:7,8).

Ester, uma rainha que arriscou a vida pelo seu povo


(Ester 4:1 ,5-16; 7:1-6; 8:15-17)

Perguntas:
1. O que é que mais o impressionou a respeito do caráter e da
atitude de Ester perante a vida?
2. Repita nas suas próprias palavras o conteúdo de Ester 4:14.
3. Considere o seu apelo ao jejum à luz de Esdras 8:23 e
Daniel 9:3. Que é que pode aprender com isso?
4. Qual é a prova de que Ester arriscou expressamente a vida
pelo seu povo?
5. Descreva o que aconteceu ao povo como resultado da sua
intervenção.
6. Estude a dedicação de Ester à luz de Ezequiel 22:30. Quais
são as suas conclusões?
7. O que é que esta história lhe ensinou acerca da direção de
Deus?
A ESPOSA DE JÓ,

A MULHER QUE DISSE NÃO A DEUS

"A principal culpa de um homem não são os seus pecados. A


tentação é poderosa e a sua força é pouca. A principal culpa de um
homem é que ele pode voltar-se em qualquer momento para Deus e
negligencia fazê-lo".*

Jó 1:1-3, 6-12
Jó 2:1-10
Jó 42:10-13
Romanos 8:28

A esposa de Jó viveu na terra de Uz, na Arábia, provavelmente não


muito longe de Ur dos Caldeus, a cidade donde Deus chamou Abraão.
Poucas mulheres foram tão privilegiadas como ela. O marido era
imensamente rico. A sua casa real continha muitos servos. Ela tinha sete
filhos e três filhas. Todos eram saudáveis e tinham reuniões freqüentes e
agradáveis uns com os outros. Realizavam mesmo festas familiares
regularmente, para fortalecerem os seus laços mútuos. Mas a maior das
suas bênçãos era o marido, Jó.
Jó era um homem que amava a Deus. Tudo o que sabia acerca de
Deus era o que outros lhe haviam dito, mas isso fora suficiente para
mover Jó a servi-Lo com devoção. A profundidade da vida espiritual de
Jó, concorria para a acolhedora atmosfera do seu lar. A sua vida era tão
permeada pela devoção centralizada em Deus, que as pessoas à sua volta
tinham consciência disso. Diziam que Jó era um homem devoto e que
essa era a razão da sua prosperidade. O fundamento da vida da esposa de
Jó era a piedade e a prosperidade do marido e da sua casa.
Era esta a situação na terra.
Algo de importante teve lugar no céu nessa altura. Jó foi o motivo
de uma conversa entre Deus e Satanás. Deus estava contente porque Jó,
um homem da terra, O amava voluntariamente. Deus buscava pessoas
como Jó – ele estava a cumprir o propósito para que Deus o havia criado
– comunhão com Ele.

* Boenam, Rabi e Buber, Martin. Fountains of Jewish Wisdom (Fontes da Sabedoria Judaica), 1969,
Lenbneh hand lung (Leo Bookshop) Sanht Gallen, Suíça.
Satanás, o acusador dos crentes (Apoc. 12:10), não concordou com
a apreciação de Deus a respeito de Jó. Contradisse o que as pessoas da
terra afirmavam sobre ele. Achava que a razão de Jó ser devoto estava na
sua prosperidade e insinuou que se lhe fosse tirada essa prosperidade ele
se afastaria de Deus.
"Pois bem'', respondeu Deus. "Vamos pôr à prova a tua acusação,
Satanás. Tira-lhe os bens, mas não toques na sua vida''.
Satanás ficou diabolicamente feliz com este arranjo e derramou
calamidades sobre Jó como chuvas inesperadas em Março. Tragédia após
tragédia caiu sobre ele. A sua enorme reserva de gado ou foi roubada, ou
morta por faíscas. Assim, Jó perdeu toda a sua riqueza. Mas a maior
catástrofe de todas reservou-a Satanás para o fim – destruiu todos os
filhos de Jó.
Tudo o que Jó havia edificado ao longo de muitos anos tinha
desaparecido de repente. O homem mais rico de todo o oriente ficara
subitamente sem nada e sem filhos. E tudo o que lhe ficou, além da casa,
foram quatro servos – e a esposa.
Satanás concluíra o seu trabalho, mas ainda não havia conseguido o
seu propósito. Embora Jó, como homem do oriente, rasgasse o seu
manto, a sua fé em Deus permaneceu firme. "Nu saí do ventre de minha
mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito
seja o nome do Senhor", disse Jó (1:21).
Satanás e Deus falaram mais uma vez a respeito de Jó. Deus
salientou que a lealdade de Jó continuava. Satanás reagiu dizendo que Jó
não tinha sido atingido pessoalmente. Só os seus bens e pessoas externas
haviam sido afetadas. Tocasse ele o seu corpo, e então veria se a fé de Jó
persistia.
Deus permitiu então a Satanás que fizesse o que desejava, com a
única restrição de que não lhe tirasse a vida. Satanás enviou uma doença
tão temível que podia realmente levar um homem à loucura. Jó ficou
coberto desde a sola dos pés até ao alto da cabeça com chagas ardentes.
A ciência médica concorda que o sofrimento de tal doente devia ser
insuportável – para além da nossa imaginação. A repugnante doença
levou-o para a fossa do lixo, onde os cães procuravam cadáveres de
animais, e onde os seres humanos mais pobres tentavam apanhar o que
os outros haviam deitado fora. Aí se sentou ele e raspou as chagas com
um pedaço de telha...
Mas veio então o maior de todos os golpes. A esposa voltou-se
contra ele. A mulher que Deus havia destinado para apoiar Jó, fossem
melhores ou piores as circunstâncias, a mulher de que ele necessitava
agora mais do que nunca, já não lhe dava apoio. Por meio dela Satanás
jogou a última cartada. "Ainda reténs a tua sinceridade?'' perguntou ela
com azedume. "Amaldiçoa a Deus e morre!"
Ela estava tão dominada pela tristeza, que só era capaz de ver uma
saída – renunciar à fé em Deus e cometer suicídio. A sua reação foi
exatamente o oposto da do marido.
A fé de Jó agüentou mesmo esta crise. A situação real pode ter sido
escondida dele, mas não duvidou de Deus. Deus era ainda uma realidade
para ele. Portanto, foi capaz de aceitar tanto o bem como o mal vindos
dEle. A sua vida estava edificada sobre urna rocha, e embora as
tempestades batessem contra ela incessantemente, não cairia. Tratava-se
de um fundamento resistente.
Como as raízes de uma árvore são testadas quanto à sua força por
um vendaval, assim os temporais de tristezas e experiências inexplicáveis
descobrem o fundamento da vida de um homem. Jó tinha um alicerce
forte; a esposa, não. Naturalmente, as tristezas dela eram extremas. É
difícil identificarmo-nos com a sua perda. Ela podia ter-se agüentado, se
tivesse edificado a sua vida sobre o mesmo sólido fundamento que o seu
marido. Mas as suas diferentes respostas à situação não foram devidas ao
modo como cada um experimentou a tristeza, mas aos seus alicerces (Mt.
7:24-27). Desse modo, ela não foi capaz de apoiar o marido durante o
período mais difícil da sua vida. Pelo menos, os amigos de Jó vieram
visitá-lo, embora não tivessem sido de grande ajuda. Mas, a Bíblia não
registra qualquer tentativa da parte da esposa para o aliviar na sua dor.
Durante todo o período de sofrimento, ela nunca esteve em primeiro
plano na história.

Muitos séculos mais tarde, depois de o Redentor, em


quem Jó acreditava (19:25), ter vindo, ter morrido, ressuscitado
e ascendido ao céu, Paulo escreveu que só há um fundamento
sobre o qual o homem pode construir a sua vida – Jesus Cristo
(1 Cor. 3:11).

Deus dotou as mulheres de um dom único para sentir os


sofrimentos dos outros e animá-los. Mas a esposa de Jó não o usou,
quando ele mais precisava.

Súbita e radicalmente a situação mudou uma vez mais. Jó e a


esposa tiveram de novo dez filhos, sete filhos e três filhas, como antes. Os
seus bens foram restaurados, de fato, ele ainda adquiriu mais gado do
que anteriormente à catástrofe.
Mas o sofrimento de Jó tinha produzido um fruto muito mais
importante do que estas coisas temporais. A sua relação com Deus
tornara-se mais profunda. "Eu te conhecia só de ouvir", disse Jó a Deus,
"mas agora os meus olhos te vêem" (Jó 42:5).
Jó não tinha mais necessidade de depender das experiências dos
outros, pois havia tido um encontro pessoal com Deus. Isto levou-o ao
arrependimento e à humildade (Jó 42:6). Estas duas características são
resultados inevitáveis de um encontro com Deus.
Jó tinha recebido uma compreensão mais profunda de si mesmo e
de Deus. Compreendeu que era necessário um Mediador entre Deus e o
homem (Jó 9:32-35; 16:19). Assim, o sofrimento tinha desempenhado
uma função positiva para ele. Revelara-lhe coisas que nunca antes
conhecera. Como Jacó, lutara com Deus e prevalecera (Gên. 32:28). O
resultado foi uma vida mais rica e mais feliz.
E Satanás? Foi de novo vencido. O resultado de ele ter tentado Jó
foi exatamente o oposto do que ele tinha previsto – Jó estava mais
dedicado a Deus do que nunca.
A Bíblia não diz muito acerca da mulher de Jó. Afirma que no calor
da tentação ela havia apontado para o lado errado – Deus – como sendo
o culpado. Como muitos incrédulos, ela havia sido cegada por Satanás (2
Cor. 4:4,11). Não compreendeu que embora Deus permitisse o
sofrimento, o Seu alvo não é meramente que o homem sofra, mas que o
sofrimento possa produzir um fruto positivo (Heb. 12:11). A sua
felicidade frágil tinha-lhe sido tirada, temporariamente, a fim de que
pudesse encontrar a felicidade imperecível – o próprio Deus. Contudo, a
estrada para encontrar essa felicidade passava pela escola do sofrimento.
Como uma mulher do Velho Testamento, ela carregava,
naturalmente, um fardo duplamente pesado. Não dispunha do
encorajamento da Palavra de Deus escrita e não tinha qualquer grupo de
amigos cristãos para lhe darem apoio. No entanto, tinha uma prova viva
de que não era preciso ser derrotada numa crise, mesmo no seu tempo. O
marido, Jó, era essa prova. O Novo Testamento louva-o porque
continuou a confiar em Deus em tempos de tribulação (Tg. 5:11). Quando
Satanás apontou os seus dardos de tentação, Jó usou a sua fé como um
escudo para os apagar (Efés. 6:16).
Ele provou que nenhum homem é tentado tão fortemente que não
possa agüentar-se com firmeza, e que Deus dá um escape no meio de
toda a tentação (1 Cor. 10:13).
Jó tinha edificado a sua vida sobre o fundamento de Deus. Mas
parece que a esposa não pôde encontrar qualquer fundamento sólido
para os seus pés. A tristeza arremessou Jó para os braços de Deus. Mas
na hora crítica da vida, a esposa de Jó disse não a Deus. Isso não faz dela
um bom exemplo para ser seguido.
A Esposa de Jó, a mulher que disse não a Deus

(Jó 1:1-3, 6-12; 2:1-10; 42:10-13; Romanos 8:28)

Perguntas:
1. Descreva a família de Jó antes das catástrofes.
2. Quem foi a causa da tristeza que afligiu a família de Jó?
(ver também Apocalipse 12:9, 10).
3. Reflita sobre a reação da esposa de Jó. Formule a sua
resposta nas suas próprias palavras.
4. Olhe para a vida dela e para a do marido em relação com
Mateus 7:24-27. Que é que pode concluir?
5. Que encorajamento é que a Bíblia oferece aos cristãos que
perseverara nas dificuldades? Compare Tiago 5:11,
Hebreus 12:11 e 1 Coríntios l0:13.
6. O que é que aprendeu pessoalmente, das experiências da
esposa de Jó? Que é que está a fazer para aplicar isto na
sua própria vida?
MARIA,

A MAIS PRIVILEGIADA ENTRE AS MULHERES

"A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou


em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva.
Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada"
Luc. 1:46b-48

Lucas1:26-38
Mateus 1:18-25
Lucas 2:6-14
Lucas 2:17-19
Lucas 2:33-35
João 19:25-27

"Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua


palavra'', murmurou ela totalmente esmagada pela mensagem que o anjo
acabava de trazer. Em pensamento ela recordou o que ele tinha dito. Ela,
Maria, ia tornar-se a mãe do Messias! O Redentor que tinha sido
prometido primeiramente a Adão, depois mais claramente a Abraão e
que mais tarde fora anunciado por vários profetas, viria ao mundo
através dela.
Verificou que Ele viria. Toda a mulher tinha esperado vir a ser seu
privilégio o tornar-se a mãe do Messias! E agora o tempo tinha chegado –
e tinha sido ela a escolhida para ser Sua mãe. Jamais sonhara que
poderia ser ela. Era jovem e provinha de uma aldeia insignificante (João
1:46,47). E – como é que ela poderia dar à luz um bebê se ela nem mesmo
era casada! Só estava noiva. Não admira que respondesse: "Mas eu sou
virgem e nem sequer casei. Como é que isso pode acontecer?'' O anjo
tinha começado por dizer: "Não temas, Maria, pois achaste graça diante
de Deus''. Então tinha-Lhe dito como é que o Espírito Santo realizaria
este milagre nela. O seu filho seria chamado Filho de Deus.
Maria conhecia a Deus através dos livros de Moisés, dos Salmos e
dos escritos dos profetas. Ela tinha uma profunda reverência pelo Senhor
Deus, no seu coração, porque sabia o que Ele tinha feito na história do
seu povo. Tinha a consciência do que Ele havia realizado não só a favor
de toda a nação mas também de certos indivíduos. Conhecia a Sua
misericórdia para com os que O reverenciavam e que preferia trabalhar a
favor daqueles que não tinham poder mundano. Estava bem consciente
do fato de que ela não tinha qualquer posição ou riqueza. Seria essa a
razão por que Ele a tinha escolhido? Seria ela um instrumento útil por
não possuir qualquer honra humana em si ou de si própria?
Maria estava pronta a sacrificar-se para se tornar a Sua mais
humilde serva. "Cumpra-se em mim segundo a tua palavra", disse ela
simplesmente, contemplando o anjo que partia.
Estas palavras indicavam uma rendição completa da sua parte. Ela
não estava a prender-se a absolutamente nada. Não se tratava de uma
resposta mal pensada. O seu Filho, Aquele que acabava de ser anunciado,
pronunciaria praticamente as mesmas palavras no Getsêmani: "Não seja
como eu quero, mas como Tu queres'' (Mt. 26:39). No futuro ela teria
ampla oportunidade de provar que queria dizer exatamente o que disse.
Todavia, naquele momento ela não podia prever as conseqüências.
Maria, a mais privilegiada entre as mulheres, aprendeu desde o
princípio que um privilégio excepcional vai sempre de mão dada com o
sacrifício. Moisés tinha experimentado isso antes dela (Heb. 11:24-26).
Paulo experimentá-lo-ia depois (Atos 9:15,16).
A primeira coisa que ela sacrificou foi a sua reputação. Pô-la de
parte para ficar à disposição de Deus. Isso criou um problema para José,
o seu noivo. Ele era um homem que andava com Deus. Como é que
poderia casar com uma jovem que esperava um bebê de algum outro?
Porque a amava, ele não queria acusá-la abertamente, pois se o
fizesse, e era isso que a Lei esperava dele, Maria seria morta. A Lei
afirmava que, se uma noiva hebraica tivesse traído o marido, e não
estivesse virgem na altura do casamento, seria apedrejada, sem perdão
(Dt. 22:20,21). Portanto, José planejou deixá-la secretamente. Quereria
ele deixar com Deus o problema do que lhe poderia acontecer a ela? Se
era assim, ele estava a fazer exatamente o que convinha.
Num sonho, o anjo do Senhor revelou a verdadeira natureza da
situação a José. Maria estava grávida com o prometido Emanuel, a
respeito do qual Isaías tinha profetizado (Is. 7:14).
José seria também uma pessoa privilegiada como pai terreno da
Criança. Seria o que ia dar ao menino o Seu Nome, Jesus. Teria a honra
de educar a Criança, como se fosse seu próprio filho. A casa de José devia
ser a casa onde o Filho de Deus Se sentiria mais confortável durante a
Sua estadia aqui na terra. Para Jesus, ela seria o seu único lar terreno.
José casou com Maria. Teve de sacrificar alguma felicidade pessoal
em troca da honra que havia sido posta sobre ele. Não só casava com uma
mulher cuja pureza era posta em causa por todos os que os rodeavam,
mas também não devia ter relações sexuais com ela até Jesus nascer.
Juntos, José e Maria subiram os degraus da Praça do Templo em
Jerusalém. Levavam o Menino e um par de rolas para oferecer ao Senhor.
Maria meditava nos acontecimentos do ano anterior. Lembrou-se
como pouco depois da visita do anjo Gabriel tinha ido a uma pequena
aldeia, perto de Jerusalém, visitar a sua parente Isabel, que também
estivera à espera de um bebê.
Sem ter dito uma palavra acerca da sua própria gravidez, Isabel
havia-lhe dado as boas vindas como bendita entre as mulheres. Cheia do
Espírito Santo, Isabel tinha-lhe chamado "a mãe do meu Senhor''.
Maria recordou a sua própria reação. Tinha sido uma explosão de
louvor a Deus, um cântico de ação de graças que Ele havia posto no seu
coração. Sentira-se profundamente impressionada com a grandeza das
coisas que iam acontecer. As pessoas chamar-lhe-iam bem-aventurada,
através das gerações futuras Não por causa de si mesma, mas por causa
do que Deus tinha feito. Ele era grande, Santo e todo-poderoso. Ela era
indigna disto. Nada tinha a oferecer senão a sua gratidão e louvor. O
Menino que ia nascer seria seu Salvador. Embora se sentisse privilegiada,
reconhecia também que era uma pecadora e necessitava de um Salvador.

A humildade de Maria pode-se ver no seu tão


impressionante Magnificat – o seu louvor a Deus (Lc. 1:46-55).
Ela não podia imaginar que, mesmo muitos séculos depois, as
pessoas ainda se sentiriam comovidas e estimuladas pelo seu
amor a Deus.

Quando o nascimento do Menino estava prestes, César Augusto


havia ordenado que se fizesse um recenseamento em toda a nação. Maria
e José haviam feito a longa jornada de Nazaré a Belém, a terra natal do
rei Davi, antepassado dos dois, para se registrarem. Como previam, todas
as estalagens estavam repletas. Belém, situada na estrada de caravanas
de Jerusalém para Hebrom, era uma cidade muito movimentada.
O seu filho tinha nascido fora da cidade, numa estrebaria onde se
guardavam os animais no inverno. Ela sentia-se triste porque o Filho
nem sequer tivera uma cama para dormir na sua primeira noite na terra.
Enquanto ela e José se encontravam sós e isolados, um milagre havia
acontecido. Uma clara luz refulgiu na noite, uma luz mais brilhante que a
do dia. De repente, apareceu um grande exército de anjos. "Glória a Deus
nas alturas, paz na terra..." tinham eles cantado, ao proclamarem o
nascimento do Filho de Deus, o Salvador do mundo.
Os pastores, informados pelos anjos, tinham vindo ao estábulo.
Eram homens pobres, com faces batidas pelo tempo. Mais tarde, vieram
homens ricos e cultos do oriente. Tinham feito uma longa jornada, para
trazerem honra e presentes preciosos de ouro, incenso e óleo precioso.
Deste modo, o seu filho havia sido anunciado por Deus e recebera as
boas-vindas tanto dos ricos como dos pobres (Mt. 2:1-12).
Ela sentou-se em silêncio, não sabendo exatamente o que dizer,
enquanto o seu coração se absorvia em todas estas preciosas recordações.
Subitamente, quando levaram o Filho ao templo, aproximou-se
deles um velho e pegou-lhes na Criança (Lc. 2:22-38). Tratava-se de
Simeão, um homem devoto, que durante muito tempo havia estado à
espera da vinda do Messias. "Cumpriste a tua promessa, Senhor. Agora
podes despedir em paz o teu servo'', ouviram-no eles dizer, para seu
espanto. E continuou: "Pois eu vi-O, como me tinhas prometido. Vi o
Salvador que enviaste ao mundo".
O discurso do ancião havia sido orientado pelo Espírito Santo. José
e Maria já não tinham qualquer dúvida de que estavam a segurar o Filho
de Deus nos braços.
Ama, uma profetisa idosa, que, como Simeão, havia passado a
maior parte da sua vida adulta na presença de Deus, também reconheceu
o menino como o Messias prometido.
Antes de Ana partir para a cidade com o fim de dizer às pessoas que
a redenção de Jerusalém estava próxima, Simeão disse algo de
importante a Maria: "Atende cuidadosamente, este Menino será rejeitado
por muitos em Israel, mas será de grande alegria para muitos outros. Os
pensamentos mais profundos de muitos corações serão revelados, mas
uma espada trespassará a tua alma''.
Não demorou muito a vir a primeira tristeza. O rei Herodes
mandou assassinar todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém,
esperando matar assim o anunciado rei dos judeus (Mt. 2:13-16). José e a
sua pequena família escaparam porque haviam sido avisados por Deus.
Foram, todavia, forçados a empreender uma longa viagem através do
inóspito deserto do Neguebe, uma região praticamente sem alimento e
sem água. O que tornava esta viagem para o Egito ainda mais difícil para
Maria era o saber que muitas crianças estavam a ser assassinadas por
causa do seu Filho. Na sua mente, ouvia os gritos dos inocentes bebês
que estavam sendo martirizados brutalmente. Sendo ela a própria mãe
há pouco tempo, identificava-se facilmente com a dor das mães daquelas
crianças. A mãe do Filho de Deus ia descobrindo que uma grande alegria
se misturava com muitas lágrimas.
Dez anos haviam passado.
Jerusalém estava cheia de gente e de movimento. Encontravam-se
ali famílias inteiras para celebrarem a festa da páscoa na cidade santa, e
honrarem o Senhor Deus com sacrifícios (Lc. 2:41-51).
Era uma ocasião feliz, pois podiam adorar o Senhor na companhia
de vários amigos que só encontravam em tais dias festivos. Por causa do
grande número de famílias que estavam de visita à cidade, as crianças
pululavam por toda a parte.
Os adultos desfrutavam do seu tão raro convívio com parentes e
amigos vindos de lugares distantes. Andavam e conversavam alto uns
com os outros, pelas ruas. As crianças chilreavam como passarinhos,
enquanto dançavam e brincavam juntas. Era fácil passar despercebida a
ausência de uma criança no meio de tal multidão. Os pais iriam
naturalmente pensar que o filho estava na companhia de outros, em
qualquer ponto do grupo.
Foi por isso que José e Maria não descobriram, senão depois de um
dia cheio e cansativo com a viagem de regresso, que Jesus não estava
com eles. Não se encontrava em lado nenhum. Finalmente, com os
corações aflitos, voltaram a Jerusalém à procura dEle.
Procuraram-no por toda a parte, sem resultado.
Finalmente, após três dias de busca, encontraram-nO no templo.
Para seu espanto, o jovem Jesus estava sentado entre os rabis eruditos.
Não Se limitava a ouvi-los, interrogava-os também. Surpreendia-os com
a Sua inteligência, compreensão e respostas adequadas.
Maria estava perturbada. "Filho", repreendeu-O ela, "por que é que
fizeste isto? O teu pai e eu temos andado à tua procura por toda a
Jerusalém". A resposta dEle não foi indelicada, mas clara e sem reservas,
"Não me devíeis ter procurado. Não sabíeis que eu estaria na casa de meu
Pai?''
De Seu pai? Mas José tinha andado em busca dEle por todo o lado
com a mãe. Não teria ela entendido que Ele Se referia ao Pai celestial?
Jesus começava a afastar-Se deles. Dava início à viagem da Sua vida
em direção ao Seu verdadeiro destino. Embora fosse o seu filho perdido,
naquela ocasião, era também o Filho de Deus, o Redentor do mundo
perdido. Os laços que O ligavam à Sua família já haviam começado a
desprender-se.
Teria esta experiência recordado a Maria as palavras de Simeão?
Estaria ela a experimentar as primeiras dores da espada que iria por fim
ferir o seu coração?
Quando voltaram a Nazaré, tudo parecia na mesma. Jesus era
obediente como antes. Mas algo acontecera no coração de Maria. Ela
conservou esta recordação e juntou-a com outras no coração. Esta era
uma oportunidade para sujeitar os seus desejos maternais à vontade de
Deus.
Os anos que passaram juntos foram agradáveis, enquanto Jesus Se
ia tornando adulto. A influência da mãe sobre Ele durante esse tempo foi
grande.
"Jesus tornou-Se alto e sábio, e tanto Deus como os homens O
amavam" (Lc. 2:52). Jesus, o Filho de Deus, que era perfeito como
criança, desenvolveu-se naturalmente num homem. Isto constitui um
santo mistério, que Deus, como homem na terra, pudesse submeter-Se à
influência de Maria.
Jesus não cresceu numa família rica ou socialmente privilegiada.
Mas o Seu ambiente espiritual era invejável. Os pais andavam com Deus
e respeitavam-se mutuamente. Os pensamentos de Maria estavam
particularmente cheios de Deus. Os pensamentos de uma pessoa
determinara as suas ações. Seguindo esse princípio, José e Maria
esforçavam-se para tornar o seu lar e a educação dos filhos conformes
aos pensamentos de Deus. Havia uma atmosfera amigável nesse
pequenino lar de Nazaré. Permeava-o um espírito de verdadeira
humildade e devoção natural. Esse espírito tornava fácil às crianças a
obediência aos pais. Foi no lar de José e de Maria que Jesus encontrou
pela primeira vez as Escrituras. O amor da mãe pela Palavra de Deus foi
um exemplo para o Filho.
Durante dezoito anos, Ele viveu no lar dos Seus pais.
Nasceram mais filhos. Houve outros rapazes – Tiago, José, Simão e
Judas – e filhas também (Mt. 13:55,56). Uma vez que José morreu
durante este período, é muito provável que Jesus, o primogênito,
partilhasse com a mãe os problemas da família e fosse responsável pela
manutenção da mesma.
As pessoas já não Lhe chamavam o filho do carpinteiro. Agora, era
o carpinteiro (Mc. 6:3).
Quando Jesus tinha trinta anos de idade, tudo mudou. Maria viu
isso claramente quando assistiu a um casamento, com Ele, em Caná, uma
pequena aldeia perto de Nazaré, nas montanhas ondulantes da Galiléia
(Jo. 2:1-11). Ela notou que o dono da casa estava embaraçado porque o
vinho tinha acabado. A sua primeira reação foi entregar o problema ao
seu Primogênito. Depois fez uma descoberta dolorosa. O filho parecia ter
mudado. Não estava a proceder como filho obediente que ela conhecia
tão bem. "Mulher", respondeu Ele, "que tenho eu contigo?" Tratando-a
por "Mulher" não estava a desrespeitá-la, nem a revelar menos afeto. As
mulheres hebraicas estavam habituadas a serem tratadas dessa maneira.
Mas isso marcava claramente uma distância entre Ele e a mãe. Alguma
vez Ele me tratou antes desta maneira? – perguntava ela a si mesma.
Então, as suas recordações recuaram até àquele dia, no templo. Nessa
altura Ele havia mostrado de modo muito semelhante que, embora fosse
seu Filho, não podia obedecer a todas as ordens dela. Tinha ordens
superiores a cumprir.
Maria não era irascível, e se acaso se sentiu pouco à vontade não o
demonstrou. "Fazei tudo quanto Ele vos disser", recomendou ela aos
servos, pois sabia que Ele era Deus e podia realizar milagres.
Ela parecia estar pronta a ocupar o segundo lugar. Teria
compreendido já que mais tarde Ele iria ensinar a respeito da grande
prioridade que Deus dá ao serviço?
Quando começou o Seu ministério, Jesus deixou Maria
definitivamente. Dali em diante, não era primeiramente o Filho de Maria,
mas Jesus de Nazaré, acerca de quem todo o país tinha começado a falar,
pois o Filho de Deus andava por toda a parte fazendo o bem.
Maria aprendeu a ficar na retaguarda, embora não sem sofrimento.
Experimentava cada vez mais o fio da espada na sua vida, mas reconhecia
também que a sua tristeza estava ligada com o favor de Deus. Tudo o que
lhe restava fazer era pôr-se constantemente à disposição dEle.
À medida que Jesus se movimentava por toda a parte, curando os
doentes e pregando o evangelho, a fé que Maria tinha nEle podia ir
crescendo. Sem dúvida, era doloroso para ela ver que os outros filhos não
acreditavam nEle (João 7:3-5), e que as pessoas de Nazaré não O
aceitavam (Lc. 4:16-30). Ele tornou isso penosamente evidente quando
ela e os filhos tentaram falar com Ele. Quando Lhe disseram: "Eis que
estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te", Ele respondeu:
"Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos?" Então, apontando
para os discípulos, acrescentou: "Qualquer que fizer a vontade de meu
Pai que está nos céus, este é o meu irmão e irmã e mãe'' (Mt. 12:46-50).
Os homens com quem Se misturava diariamente e os Seus discípulos
eram iguais a ela. As suas relações já não eram provadas pelos laços do
sangue, mas pelo elo de uma fé comum em Deus.

A espada penetrou-lhe na alma com toda a sua agudeza quando se


encontrava aos pés da cruz onde o seu Filho estava pendurado como um
criminoso qualquer.
Foi aqui que o sofrimento de Maria atingiu o auge.
Ela não tentou ignorá-lo, ou torná-lo mais fácil para si mesma.
Como Jesus, também ela bebeu o cálice amargo do sofrimento até à
última gota. Esteve junto dele até ao momento final. Viu a Sua agonia e
ouviu troçarem e escarnecerem dEle.
As horas passavam lentamente sob o sol escaldante, e Alguém – o
mais amado de todos – sofria como nenhum outro homem poderia
jamais sofrer.
Maria permaneceu junto à cruz e padeceu com Ele. Isto fazia parte
da sua maternidade. Ainda ecoavam na sua mente as palavras, "Faça-se
em mim segundo a tua palavra". Ela agüentou simplesmente porque se
tinha posto inteiramente à disposição do Senhor. O que ela sentia era
secundário.
Jesus viu-a, e embora estivesse na agonia da morte, não Se
esqueceu de cuidar dela. "Mulher, eis aí o teu filho'', ouviu-O ela dizer.
Depois disse a João, o homem que Ele mais amava na terra, "Eis aí tua
mãe" (João 19:26,27).
Jesus não deixou a Sua vida terrena sem providenciar quanto à Sua
mãe. O homem e a mulher que haviam sido os mais íntimos dEle na
terra, poderiam melhor compreender-se c ajudar-se depois da Sua
partida. Dali em diante, Maria viveu na casa de João.
A Cruz não assinala a última aparição de Maria nas Escrituras. Ela
surge de novo com os discípulos de Jesus, algumas outras mulheres e os
outros seus filhos, depois da ascensão de Cristo. No cenáculo, em
Jerusalém, Maria dedicou-se como os outros a constante oração (At. 1:9-
14).
Embora tivesse perdido o filho, não estava preocupada com a sua
perda pessoal, mas compreendeu que a sua tarefa em relação a Ele havia
terminado.
Maria, a mais bendita e mais privilegiada de todas as mulheres,
cujo nome foi mais honrado do que o de qualquer outro mortal, dedicou-
se de novo a Deus. Mais uma vez, nada exigiu. Imperceptivelmente,
tomou lugar entre os outros. Maria sabia que podia passar por cima dos
seus interesses pessoais, e dedicar-se totalmente a honrar a Deus.
Murra havia-se tornado uma mulher amadurecida. Nos últimos
trinta anos da sua vida, tinha atingido cumes desconhecidos de
felicidade. Ao mesmo tempo, havia experimentado tristezas profundas no
seu coração que nenhuma outra mulher tinha jamais encontrado. Mas a
sua atitude para com Deus não mudara. Ela havia provado com a sua
vida que falara a sério quando o Messias foi anunciado: "Eis aqui a serva
do Senhor: Cumpra-se em mim segundo a tua palavra''.

Maria, a mais privilegiada entre as mulheres

(Lucas 1:26-38; Mateus 1:18-25; Lucas 2:6-14, 17-19, 33-35; João 19:25-
27)
Perguntas:
1. O que é que fez de Maria a mais privilegiada de todas as
mulheres?
2. Estude o seu cântico "A Magnífica" (Lucas 1:46-55). Quais
eram os seus pensamentos acerca de Deus? O que é que ela
pensava de si própria?
3. A posição privilegiada de Maria significava ter de se
sacrificar. Enumere os sacrifícios que ela precisava de
fazer.
4. Qual lhe parece ser a coisa mais difícil que Maria enfrentou
como mãe?
5. Em seu entender, quais são as características mais notáveis
em Maria? Justifique as suas conclusões.
6. O que é que aprendeu de mais importante com Maria? Que
valor prático tem isso para a sua vida pessoal?
ISABEL,

FORTE DE CARÁTER E BOA ESPOSA

"Uma mulher capaz, inteligente e virtuosa, quem a achará? Ela é


muito mais preciosa do que as jóias e o seu valor excede em muito o de
rubis ou pérolas".
Prov. 31:30, Amplified Old Testament

Lucas 1:5-20
Lucas 1:24,25
Lucas 1:39-45

Isabel era uma mulher extraordinária. Era a esposa de um


sacerdote. Os sacerdotes só podiam casar com mulheres piedosas, cuja
reputação moral fosse absolutamente sem mancha (Levítico 21:1-7). De
outra maneira, iriam prejudicar o santo ministério dos maridos. Isabel
era uma dessas mulheres.
Não só estava casada com um sacerdote, mas ela própria descendia
da distinta tribo de Arão. O seu nome provinha da mesma raiz que o da
mulher de Arão – Elisheba.
A Bíblia salienta que eram ambos justos diante de Deus, sendo
irrepreensíveis em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.
Ninguém falava mal dela. Não se limitava a seguir no trilho
espiritual do seu piedoso marido; ela própria havia desenvolvido uma
vida espiritual independente, e era respeitada por causa da sua relação
pessoal com Deus.
Isabel não vivia apenas para a letra da Lei, mas servia também a
Deus no espírito da Lei. À luz de tudo isto, a sua esterilidade era um
enigma doloroso para ela. Como Eva e toda a mãe judia que, desde então,
havia dado à luz filhos, ela tinha tido a esperança de se tornar a mãe do
Messias. Todavia, sofreu a mesma humilhação de ser estéril como
qualquer mulher judia a quem fora negada a bênção de ter filhos.
Muitas vezes fizera a si mesma estas dolorosas perguntas: "Que é
que eu fiz de mal?'' e "Por que é que Deus não é misericordioso comigo –
por que é que não me abençoa?"
Ela era agora muito idosa, e o filho tão desejado não chegara.
Estaria ainda à espera, mesmo com aquela idade? Ou ter-se-ia resignado
à idéia de que as suas orações não agradavam ao Senhor e que não teria
filhos?
Teria ela recebido coragem das vidas de Sara, Rebeca e Ana,
mulheres que também tinham vivido sem filhos durante muito tempo?
A vida era cheia de surpresas, não só para as mães de Isaque, Jacó e
Samuel, mulheres que, depois de terem esperado durante tantos anos,
haviam tido, finalmente, grandes filhos, mas também para Isabel.
O seu marido pertencia a um grupo de sacerdotes que servia na
casa do Senhor (1 Cr. 24:19). Durante o seu período de seis meses de
serviço, Zacarias teve a oportunidade de queimar incenso no santuário.
Isto constituía uma grande honra, a qual um sacerdote só podia receber,
no máximo, uma vez na vida. Muitos nunca a chegavam a ter. O dia em
que Zacarias queimou o incenso abriu uma nova fase na sua vida e na de
Isabel. Como tantas vezes acontece, quando o céu parece de bronze
porque nenhuma oração é respondida, tudo se desenrolou num
momento.
Gabriel, o mensageiro especial de Deus, apareceu em pé, diante do
sacerdote, e disse: "Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi ouvida,
e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho e lhe porás o nome de João''.
A longa espera estava a ser recompensada. Zacarias e Isabel iam ter
um filho. Deus ia remover a sua vergonha. Nova vida ia entrar no seu pacato
lar. A sua quietude seria banida pelo barulho dos pés do filho e pelas suas
sonoras gargalhadas. Mas Deus ainda tinha mais boas novas a dar.
Um novo futuro ia começar para toda a nação judaica!
O filho deles não seria como qualquer outra criança. Iria ser um
homem dedicado a Deus e que ajudaria o povo a voltar-se para Ele. Jesus
diria mais tarde a respeito dele que jamais vivera neste mundo um
homem maior (Mt. 11:11).
O horizonte alargou-se; a visão aumentou. A bênção que devia
resultar do nascimento de João estender-se-ia muito para além das
pequenas fronteiras do seu próprio país e povo. Abrangeria o mundo
inteiro. João seria o homem que havia de preparar o caminho para a
vinda do Messias. Era o arauto do Reino que estava a chegar.
Zacarias, as tuas orações foram de fato ouvidas. Não só as que
fizeste por um filho, mas as que proferiste a respeito do Messias.
Como é que um ser humano podia agüentar tanta felicidade ao
mesmo tempo?
Zacarias mostrou que não era capaz. Pediu um sinal e Deus deu-lhe
a Sua resposta. Durante nove meses completos ele não podia pronunciar
uma palavra. Tudo o que desejasse dizer tinha de o reduzir a escrito. Mas,
evidentemente, Isabel não teve qualquer problema em acreditar na
fantástica promessa, embora não a tivesse recebido, como aconteceu com
o marido, diretamente de Deus através dum mensageiro divino. Teve de a
aceitar de forma prosaica, quando o marido a escreveu numa tabuinha.
Teria Isabel uma comunhão tão íntima com Deus que conseguisse
ouvir a Sua voz? Ou teria ela respondido mais pela fé? A Bíblia não o diz.
Enquanto que muitas pessoas no Ocidente escolhem simplesmente
o nome para um bebê por lhes soar bem ou por se chamar assim um
amigo especial, tal não acontecia na sociedade em que vivia Isabel. O
nome de João era como o toque dum clarim: "Deus é misericordioso!"
Foi o próprio Deus que deu esse nome a João. Ninguém lhe podia ter
dado um mais bonito.
Isabel ia pensando nestas coisas enquanto o milagre se realizava no
seu corpo. Procurou esconder-se durante cinco meses. Seria por se sentir
pouco à vontade com o seu corpo que se ia tornando volumoso, perante a
curiosidade das pessoas que a rodeavam? Talvez.
Mas a sua principal razão era. Deus. Ela maravilhava-se com o
milagre que se estava operando – não só porque Deus havia provado
mais uma vez que é especialista no impossível, mas também porque a
Sua fidelidade não tem fim. O que tinha parecido ser um castigo,
revelava-se agora como uma bênção.
Deus tivera em mente um filho muito especial para ela e Zacarias,
mas tiveram de esperar pelo Seu tempo. A sua hora não podia chegar
antes do nascimento do Senhor Jesus estar próximo. Ela devia dar ao
mundo um filho excepcional, um filho que teria um lugar único na
história. Fora realmente abençoada.
A sua paciência tinha sido duramente provada, e excepcionalmente
recompensada.
Se Isabel reagiu dum modo mais espiritual que o marido a esta
notícia, não há a menor evidência de que se tenha exaltado a si mesma.
Nem olhou para ele com ar superior. Não o rebaixou para se elevar a ela
própria. Pelo contrário, reagiu conto uma boa esposa que aceita a
fraqueza no companheiro da sua vida.
Isabel não provinha simplesmente duma família distinta; tinha
também um caráter nobre e independente, no sentido positivo do termo.
Quando o filho nasceu, os parentes e vizinhos interferiram – tentando
forçar a tradição de dar à criança o nome do pai.
Isabel recusou esta escolha.
Ela não cedeu à pressão, antes permaneceu leal ao marido e a Deus.
Firme e resolutamente, disse: "O seu nome será João".
A vida dela foi caracterizada por outras virtudes, tais como
humildade e modéstia. Estas tornaram-se particularmente evidentes
quando a sua parente Maria a visitou inesperadamente durante o período
da sua gravidez. A rivalidade era em absoluto estranha a Isabel.
Em vez de falar acerca de si mesma, deu toda a atenção a Maria,
que reconheceu imediatamente como sendo superior a ela. Este tornou-
se um encontro, não duma mulher idosa com uma jovem, mas da mãe de
João – o que prepararia o caminho – com a mãe de Emanuel, o Messias,
cujo caminho tinha de ser preparado. Isso fez uma grande diferença.
Isabel reconheceu-o com uma humildade e uma modéstia realmente
invejáveis. Não era absolutamente nada ciumenta. Não achava difícil
chamar à mulher muito mais nova, "a mãe do meu Senhor" e "bendita
entre as mulheres".
Isso foi obra do Espírito Santo nela. O fruto do Espírito Santo que
Paulo apresentou mais tarde com nove facetas distintas (Gl. 5:22,23),
estava já presente nela. Mesmo antes de Maria poder partilhar a sua
grande felicidade, já Isabel sabia o que estava acontecendo. Viu – por
assim dizer – o Menino não nascido e adorou-O como seu Senhor. O
outro bebê ainda por nascer – o que estava dentro de si – saltou de
alegria, como se quisesse dar as boas vindas ao seu Senhor, Aquele que,
mais tarde, ele serviria humildemente (João 3:30).
Nesse momento, a mulher que havia sido censurada pela sua
esterilidade, tornou-se profetisa. "Bem-aventurada a que creu", disse ela,
"pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram
ditas".
Durante três meses, as futuras mães permaneceram juntas –
mulheres que estavam a escrever história.
Falaram muito e riram muito, mas o que ocupava acima de tudo as
suas mentes era o que Deus ia fazer. Lucas é muito claro a esse respeito.
Não admira que todas as pessoas das montanhas da Judéia, que viviam
perto deles, falassem acerca de João e dos pais. Todos vibraram
realmente com o que estava a acontecer, e disseram: "Reparai nesta
criança. Esperai e vede em que é que ele se tornará. A mão de Deus está
sobre ele dum modo especial" (Lc. 1:65,66).
Uma nova expectação se fez sentir. As pessoas começaram a ficar
ansiosas por ver o que Deus ia realizar. Estavam preparadas para as
grandes coisas que iam acontecer, para o Homem que ia chegar –Jesus, o
Messias. Para tudo isto Deus usou Isabel, uma mulher de fé e de caráter
notável. O que a tomou realmente importante foi o fato de ela estar cheia
de Deus.
Deus pode usar uma mulher assim para a realização de coisas
maravilhosas. Tal mulher é uma boa companheira para a vida.
Isabel, forte de caráter e boa esposa

(Lucas 1:5-20,24,25,39-45)

Perguntas:

1. Que afirmação positiva faz a Bíblia a respeito de Isabel, em


Lucas 1:6?
2. Qual era o "opróbrio" da vida de Isabel? Nomeie outras
mulheres da Bíblia que tiveram idêntica experiência.
3. Considere o cântico de louvor de Zacarias (Lucas 1:67-79)
no contexto da história, e descreva como é que a falta
sentida pelo casal foi amplamente compensada. (Ver
também Mateus 11:1a).
4. Estude a vida de Isabel à luz de Gálatas 5:22,23. Que
aspectos do fruto do Espírito vê na sua vida? (Leia também
Filipenses 2:3,4; e 1 Coríntios 10:24).
5. Haverá indicações de que Isabel era uma boa esposa? Se
sim, quais?
6. Que o impressiona mais na sua vida? Em que sentido é que
deseja seguir o seu exemplo? Como é que o vai fazer?
ANA,

UMA MULHER QUE NÃO FOI DESTRUÍDA POR UM


CORAÇÃO FERIDO

"Ana permitiu que o seu profundo desgosto a forçasse para Deus...


Os que dentre nós têm enfrentado qualquer tipo de tragédia –
particularmente aquelas que são viúvas – sabem que nada cura as feridas
como o fato de se estar conscientemente com Deus".
Eugénia Price*

Jeremias 49:11 - "Deixa os teus órfãos, eu os guardarei em vida; e


as tuas viúvas confiarão em mim".
Salmo 147:3 - "Sara os quebrantados de coração e liga-lhes as
feridas".
Lucas 2:22-27a – "..."
Lucas 2:36-38 – "..."

Poderá uma pessoa morrer com o coração despedaçado?


Médicos britânicos, estudando os casos dum grande grupo de
viúvos, descobriram que muitos deles morriam dentro dos primeiros seis
meses após a morte das esposas – cinqüenta por cento com crises de
coração.
A vida da profetisa Ana podia ter sido sem esperança. Mesmo hoje,
uma viúva no Médio Oriente é praticamente lançada para a sepultura
quando o marido morre. A única coisa que uma mulher estéril, no tempo
de Ana, poderia fazer depois da morte do marido era voltar para casa dos
pais, esperar por um segundo marido, ou pela morte.
A felicidade do casamento de Ana durou apenas sete anos. Os
comentaristas da Bíblia dizem que ela era viúva há mais de 60 anos. Era
uma profetisa da tribo de Aser, da Galiléia. Desta tribo insignificante é
que se tinha dito, "Nenhum profeta pode vir da Galiléia".
Os profetas eram, em regra, homens. Uma mulher profeta era raro.
A Bíblia nomeia algumas – Miriã, Débora, Hulda e Noadia, no Velho

* Price, Eugénia. The Unique World of Women (O Mundo Único das Mulheres), 1969, Zondervan
Publishing House Grand Rapids, Michigan, U.S.A.
Testamento; e as quatro filhas de Filipe, o Evangelista, no Novo
Testamento.
Ana fica entre as do Novo e as do Velho Testamento.
Era uma honra ser profetisa. Uma mulher que, como um profeta,
anunciava a Palavra de Deus ao povo era excepcionalmente privilegiada.
Ana pertencia a um grupo seleto.
As viúvas tomavam muitas vezes a atitude, "Quando o meu marido
morreu, a minha vida acabou''. Ana revelou um ponto de vista
completamente diferente. Não se refugiou no isolamento ou na piedade
de si própria depois do grande golpe da sua vida. Não se tornou um fardo
para os parentes. Não se transformou numa mulher solitária, para quem
a vida já não tinha nada a oferecer, nem tão pouco se tornou numa
pessoa de quem toda a gente tivesse pena, mas que ninguém soubesse
como ajudar.
Também não se refugiou no passado. Este constitui um dos
maiores perigos que as viúvas enfrentam, e só aquelas que, como Ana,
perderam os companheiros da sua vida, sabem quão séria pode ser esta
ameaça para a vida espiritual.
Quando a unidade de um casal é quebrada, o que resta é uma
pessoa só, dividida em duas. Mesmo depois de um casamento
relativamente breve, o cônjuge que fica nunca é o mesmo que era antes.
Continua a ser metade de duas pessoas.
Ter-se-ia Ana confortado com a idéia de que Deus não leva a pessoa
só por levar? Teria ela esperado que Ele Se desse a Si mesmo em troca
daquilo que lhe havia tirado?
É muito provável. A pessoa tem de ter coragem e visão suficiente
para adotar essa atitude. Jesus disse mais tarde aos Seus discípulos que
ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de
Deus (Lc. 9:62). Ana fugiu para Deus. Dedicou a vida a servi-Lo no
templo. Orava e jejuava. Estava pronta a dar mais atenção a Deus do que
a si própria, e a dar ao Seu trabalho toda a prioridade.
Quando uma viúva ousa deixar o passado isolado, quando não
depende de recordações para uma felicidade autêntica, e quando é capaz
de enfrentar tanto o presente como o futuro com Deus, uma paz
sobrenatural inunda o seu coração. Já não está na vida como uma
desolada, mas como alguém que consola. Pode confortar os outros em
problemas e na dor, porque ela própria já foi confortada por Deus (2 Cor.
1:3,4).
Ana estava ocupada com o trabalho de Deus, não só durante o dia,
mas também de noite. Contudo, a despeito de todas as suas atividades,
não perdia a visão das pessoas. Uma verdadeira comunhão com Deus não
é apenas introspectiva, mas expressa-se também exteriormente. Deseja
fazer os outros felizes. Soren Kierkegaard disse uma vez: "A porta da
felicidade abre-se para o exterior... para os outros".
O mundo era escuro, sombrio e sem esperança no tempo de Ana.
Os problemas haviam-se tornado demasiado grandes para as pessoas os
poderem suportar. Muitos, portanto, estavam, consciente ou
subconscientemente, procurando uma redenção que só podia vir de Deus
– a vinda do Messias.
De repente, surge o grande dia. Jesus nasceu!
Quando José e Maria levaram o seu Primogênito ao templo para o
apresentarem a Deus, como indicava a lei, não encontraram lá apenas o
piedoso Simeão, o homem que sabia que não iria morrer sem ver o
Messias, mas viram também Ana. Deus, que havia cuidado dela tão
fielmente durante todos aqueles anos, fez com que ela não perdesse
aquele momento sagrado. A mulher que não teria, em regra, recebido
qualquer oportunidade na vida por causa da sua condição, o estado de
viúva e a sua idade, tornou-se nesse momento uma das mais
privilegiadas mulheres do mundo. Juntamente com Simeão, pôde ver o
Menino e adorá-lO.
Este foi o instante mais alto da sua vida, a resposta às orações de
muitos anos. Constituiu o momento supremo de todos os tempos, o
momento pelo qual o mundo tinha tão ansiosamente esperado – o
Messias havia chegado" Para Ana, só era natural fazer duas coisas.
Primeiro, juntou-se a Simeão no louvor e adoração a Deus porque o tão
esperado Redentor do seu povo, do mundo e dos seus próprios pecados
tinha chegado. Segundo, achou que não era possível conservar esta tão
extraordinária notícia só para ela. Alguém disse: "Testemunhar é olhar
bem para o Senhor Jesus Cristo, e depois contar aos outros o que se viu''.
Foi esta a reação de Ana.
Isto prova como conhecia bem as pessoas. Conhecia todos os que
em Jerusalém estavam ansiosos pelo Salvador. Foi e contou-lhes o que
tinha visto. Este anunciador de Jesus Cristo não era um jovem enérgico e
eloqüente, mas uma mulher idosa. Era alguém que havia experimentado
o que o Salmista escrevera a respeito do Senhor, "Sara os quebrantados
de coração e liga-lhes as feridas".

Ana, a mulher que não foi destruída por um coração ferido

(Jeremias 49:11; Salmo 147:3; Lucas 2:22-27a, 36-38)


Perguntas:
1. Quando jovem, Ana experimentou uma grande perda.
Como é que isso influenciou a sua vida? (Ver também
Lucas 9:62).
2. Como é que a Bíblia descreve a sua relação com Deus? Que
conclusões tira disso?
3. Que privilégio experimentou Ana?
4. O que é que fez Ana depois de ter visto Jesus?
5. Leia 2 Coríntios 1:3,4. Que oportunidades específicas têm
as pessoas que sofreram tristezas?
6. O que é que aprendeu de Ana acerca de como ter vitória
sobre a tristeza? Haverá alguém que possa ajudar nessa
área? Quem?
UMA VIÚVA

QUE SABIA USAR O DINHEIRO

"Não darei qualquer valor a algo que possua, exceto ao Reino de


Cristo. Se alguma coisa que tenho irá alargar os interesses da Reino, será
dado ou conservado, só na medida em que possa promover a glória
dAquele a quem devo todas as minhas esperanças no tempo e na
eternidade".
David Livingstone*

Marcos 12:41-44
2 Coríntios 9:6.8

Jerusalém estava cheia de movimento nesse dia. Judeus de todo o


mundo conhecido estavam chegando à cidade. Em breve se realizaria a
Páscoa, e todo o judeu devoto queria celebrar esses dias festivos na
cidade santa.
Nas casas, as mulheres estavam muito ocupadas com a preparação
da refeição da Páscoa. Tinham comprado grandes quantidades de comida
para cozinharem e assarem para a importante festa.
Mas houve uma mulher que não se juntou às festividades. Não
tinha gasto o dinheiro em gêneros alimentícios, porque não tinha muito
e, portanto, tinha de o usar com sabedoria. Não ganhava muito dinheiro
– mas sabia exatamente o que fazer com o que tinha. Dirigiu-se ao
templo, e lá, sem qualquer hesitação, foi pôr as suas duas pequenas
moedas de cobre na arca do tesouro. Homens ricos empurravam-na ao
passarem por ela, e deitavam grandes quantias de dinheiro na arca parte
da sua abundância. Depois, ela retirou-se de modo tão imperceptível
como havia chegado.
Imperceptível?
Não, no que diz respeito a Jesus. Ele estava no templo. As Suas
visitas à casa do Pai podiam contar-se. Dentro de mais alguns dias seria
feito prisioneiro num jardim oposto à praça do templo, precisamente do
outro lado do ribeiro de Cedron. Seria então crucificado. Coisas
importantes estavam para acontecer. De fato, o ato mais significativo da

* Studies in Christian Living (Estudos Sobre o Viver Cristão), Livro 6, "Crescendo em Serviço''. 1964,
The Navigators, Colorado Springs, Colorado.
história estava prestes a ocorrer. E, contudo, Ele teve tempo para notar
que uma pobre viúva deu a Deus duas pequenas moedas.
Pôs-Se a observar as pessoas que deitavam dinheiro na arca do
tesouro. Viu os ricos que davam muito, e isso era bom. Mas as dádivas
deles mal se faziam sentir nos seus muitos bens. Ainda lhes sobrava
muito. Tinha chegado então a viúva pobre. Jesus sabia o que ela estava a
fazer. Sabia que as duas moedas eram as últimas que possuía. Ela havia
dado, literalmente, toda a sua riqueza material a Deus, a Quem amava.
As moedas não adiantariam muito para o pagamento das contas do
templo – o que é que se poderia comprar com duas moedas?
Mas Jesus achou que a sua oferta foi tão importante, que chamou a
atenção dos discípulos para ela. Disse-lhes: "Esta pobre viúva deitou
mais na arca das ofertas, do que todos os outros; pois enquanto os outros
deitaram do que lhes sobejava, ela, pobre como é, deitou tudo o que
tinha''. Para o Senhor, o quanto ela deu não era tão importante como
aquilo com que ficou depois de dar. Ela não ficou com nada. Jesus estava
interessado no que o dinheiro representava para o ofertante. Para esta
mulher representava tudo.
O dinheiro em si não tem qualquer valor para Deus. Paulo
escreveu: "O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo Senhor
do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;
nem tão pouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de
alguma coisa; pois Ele mesmo é quem dá a todos a vida e a respiração, e
todas as coisas'' (At. 17:24,25). Deus está interessado nos motivos da
pessoa que dá. Sabe que, por natureza, as pessoas tendem a agarrar
ciosamente o seu dinheiro. Esquecem freqüentemente que só pela graça
de Deus podem ganhá-lo, uma vez que é Ele que dá a saúde e capacidade
mental (Prov. 10:22). Pensam muitas vezes, erradamente, "Posso fazer o
que quiser com o meu dinheiro''.
Deus não quer que as pessoas dêem por precisar. Só deseja que elas
usem o seu dinheiro de maneira correta. Ele sabe que se uma pessoa der
do seu sustento a Deus, fá-lo porque O ama; porque quer partilhar tudo –
mesmo os seus bens com Ele. Então, multiplica o real valor do dinheiro,
como multiplicou os pães e os peixes (Lc. 9:12-17). Pode realizar milagres
com isso. Uma pessoa que partilha tudo com Deus descobrirá que muito
se pode fazer com o pouco, quando Deus lhe junta a Sua bênção.
E impressionante ver esta pobre viúva que sentiu a atmosfera do
Novo Testamento, dando enquanto vivia sob o concerto do Velho
Testamento, onde o ato de dar era regulamentado pela lei, com regras
dadas por Deus quanto ao uso do dinheiro – dez por cento de toda a
receita para ser usado nos Seus propósitos (Lev. 27:30,32). Destes dez
por cento eram pagos os que serviam no templo, os levitas. Nenhum
judeu podia escapar a esta obrigação. Mesmo os levitas tinham de, por
sua vez, dar 10 % do seu dinheiro (Núm. 18:21, 25-30).
Mas no Novo Testamento a situação era diferente. Não havia
regulamentos rígidos, nem quantias especificadas. O fator que motivava
era o amor em vez da lei. E o amor não pode ser regulado pela lei. Tem de
ser uma expressão voluntária. Aqueles que são guiados por este
princípio, têm prazer em dar. Dão regularmente (1 Cor. 16:2). Dão
discretamente (Mat. 6:2-4).
Teria esta mulher a sensação de que Deus ia dar o Seu Filho ao
mundo? De fato, o maior ato de amor? Seria essa a razão por que
desejava provar-Lhe o seu amor através de uma dedicação total? Ela
compreendia que dar não era privilégio exclusivo dos ricos. As pessoas
pobres têm a mesma oportunidade. A percentagem que o pobre pode dar
dos seus salários não é menor do que a dos ricos. Embora a importância
real possa ser mais pequena, a percentagem é igual.
O dinheiro não precisa de ser considerado "coisa má''. Tem um
extraordinário potencial quando dedicado a Deus e ao Seu serviço. Então
o seu valor perdura. "O dinheiro", disse alguém certo dia, "é algo que não
podes levar contigo para o céu, mas que podes enviar à frente". Pode ser
usado em questões de valor eterno, como no caso da viúva. O dinheiro
torna-se então um capital investido no céu (Filip. 4:17).
É pena que o véu que cobre a vida desta mulher só fosse levantado
ligeiramente. Seria interessante saber como é que Jesus, que foi tocado
pela sua oferta sacrificial, tomou cuidado dela. Não disse Deus, através
de Salomão, "Honra ao Senhor com a tua fazenda e com as primícias de
toda a tua renda; e se encherão de trigo os teus celeiros e transbordarão
de mosto os teus lagares" (Prov. 3:9,10)? Não tinha Ele prometido pela
boca de Malaquias chuvas de bênçãos sobre a pessoa que desse a
percentagem de dez por cento sobre a sua receita? (Mal. 3:10)
A viúva pobre não se contentou em dar apenas uma parte do seu
dinheiro. Dez por cento era demasiado pouco num ato de devoção a
Deus. Queria dar 100 %. Uma vez que Deus não quer ser devedor de
ninguém, não há limites para as bênçãos que Ele pode ter derramado
sobre esta viúva pobre! Uma coisa é certa – ela celebrou a Páscoa de um
modo maravilhoso.

Uma viúva que sabia usar o dinheiro

(Marcos 12:41-44; 2 Coríntios 9:6-8)


Perguntas:
1. O que é que houve de extraordinário em relação à quantia
de dinheiro que a viúva deu?
2. Como é que Jesus avaliou esta pequena importância
(menos de 3 centavos) em vista das outras ofertas maiores?
3. O que é que Deus disse a respeito de dar no Velho
Testamento? Provérbios 3:9, 10; Malaquias 3:10).
4. Que diretrizes são dadas no Novo Testamento no que toca
a dar? (2 Coríntios 9:6,7; 1 Coríntios 16:2; Mateus 6:2-4).
5. Como é que Deus recompensa aqueles que Lhe dão do seu
dinheiro?
6. Será que a história da viúva o influenciou no sentido de
usar as suas finanças? Se sim, como?
MARTA DE BETÂNIA,

UMA MULHER QUE DEU PRIORIDADE A QUESTÕES


SECUNDÁRIAS

"A minha oração é que possais ter ainda mais amor – um amor
cheio de conhecimento e de sábia compreensão. Quero que sejais
capazes de reconhecer sempre o mais elevado e o melhor''.
Filip 1:9-10, tradução de Phillips

Lucas 10:38-42
João 11:17-27
João 11:32-44

Marta estava nervosa. Um momento antes, 13 hóspedes, todos


homens, tinham aparecido inesperadamente. Eram Jesus, o Mestre, e os
seus discípulos que iam a caminho de Jerusalém, a cerca de três
quilômetros dali.
Não se tratava de pessoas desconhecidas. Jesus era um bom amigo
de Marta, de sua irmã Maria e de seu irmão Lázaro. Várias vezes
apareceu com os discípulos, já de noite, para ficar com eles em Betânia.
Marta apreciava muito o Mestre, que não tinha onde reclinar a
cabeça Mat. 8:20). Se sentia à vontade com eles. Era hospitaleira e
alegremente abria o seu lar aos outros.Considerava que era uma honra
receber os hóspedes.
Marta lutava consigo mesma enquanto atendia às necessidades
daqueles homens cheios de pó e esfomeados. Não quer dizer que o seu lar
não fosse suficientemente espaçoso ou que a dispensa estivesse pouco
fornecida de comida. Tinha o bastante. Contudo, sentia-se irritada,
porque a irmã, Maria, não a ajudava no serviço.
Maria estava totalmente absorta, ouvindo o Mestre. Bebia
ansiosamente cada uma das Suas palavras. A questão que mais a
preocupava era: "Como é que eu poderei aproveitar ao máximo este
momento? Que é que posso aprender?''
Marta não se sentia menos feliz que a irmã por ter recebido a visita
de Jesus, mas não a podia saborear completamente. Os seus
pensamentos estavam sempre ocupados em pormenores e coisas
secundárias. Era por isso que a magnitude da ocasião lhe escapava.
Sentia-se nervosa. Irritada! E, como acontece geralmente numa situação
do gênero, jogou a culpa em outra pessoa. Marta considerava-se uma
vítima. "Senhor", interrompeu ela, "não te importas que a minha irmã me
deixe servir só?''
Marta não pareceu preocupar-se com o fato de estar a acusar a irmã
na presença dos hóspedes, e de estar a incluir Jesus na acusação! E isso
não foi tudo. Ela atreveu-se a ordenar ao Mestre que dissesse a Maria
para a ajudar.
A voz do Mestre, que tinha mantido os ouvintes fascinados, parou
de repente. "Marta, Marta'', disse Ele, "estás ansiosa e afadigada com
muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a
qual não lhe será tirada". Com aquelas poucas palavras Ele queria dizer
muito mais. Continham uma advertência:
Marta, como é que podes misturar dessa maneira o que é primário
com o secundário? Como é que te podes perder com coisas de somenos
importância, enquanto eu estou na tua casa? Marta, não compreendes
que eu vim, em primeiro lugar, para servir? Não para ser servido? (Mat.
20:28) Não vês que eu estou muito mais interessado em ti do que no
alojamento e na comida? Aprecio a tua hospitalidade, mas a minha
primeira preocupação é a Marta, não a hospedeira. Marta, és tão eficiente
e sábia – por que é que hás de fazer tudo, mesmo os pormenores mais
insignificantes, sozinha? Não compreendes que, de qualquer modo, eu
prefiro uma refeição simples? No meu Reino dá-se prioridade às
questões espirituais. Examina-te, analisa o teu próprio coração. Olha
para as coisas do meu ponto de vista.
Maria, continuou Ele, não precisa de ser corrigida. Tu, sim. Mas
digo-te isto porque te amo (Heb. 12:5,6). As coisas de valor temporal, as
preocupações acerca desta forma de vida sufocam a Minha Palavra (Mar.
4:19), e escurecem a tua visão dos assuntos eternos. Marta, também
deves ter cuidado quanto a julgares os outros (Mat. 7:1,2). Deixa antes
isso comigo (1 Cor. 4:5). Examina-te a ti mesma e julga o teu próprio
coração (2 Cor. 13:5).
O próximo encontro entre Jesus e essa família teve lugar em
circunstâncias extremamente dolorosas. A doença e o temor tinham
penetrado neste lar feliz. Lázaro estava gravemente enfermo. Sem
demora, as irmãs enviaram uma mensagem a Jesus, que andava a pregar
no outro lado do rio Jordão. Tudo o que Lhe disseram, foi: "Senhor, o teu
amigo está muito doente".
Esperavam que Ele viesse imediatamente. Sabiam quando é que
Lhe seria possível chegar lá. Mas Jesus permaneceu longe – de propósito
– e Lázaro morreu.
Deus seria glorificado através desta doença de um modo todo
especial. Maria e Marta não se regozijariam com a cura do seu irmão,
mas com a sua ressurreição dentre os mortos.
Isto ia muito além da percepção delas. Portanto, as irmãs repetiam
muitas vezes durante o dia: "Se o Senhor estivesse aqui, Lázaro não teria
morrido''.
Depois, quando Lázaro já estava enterrado há quatro dias, e a casa
estava repleta de amigos que procuravam confortá-las, chegou Jesus.
Maria, dominada pelo desgosto, ficou em casa, mas o temperamento de
Marta não lhe permitia ficar assim. Como é que poderia ficar calmamente
em casa quando o Mestre estava a chegar? Impossível! Foi ao Seu
encontro e repetiu-Lhe o que tinha dito muitas vezes com Maria; "Isto
não teria acontecido, Senhor, se tu estivesses aqui''.
Mais uma vez, havia um travo de acusação nas palavras que dirigiu
a Jesus, mas, ao mesmo tempo, elas constituíam uma expressão de fé e
esperança. Ela provou isso quando acrescentou: "Mas eu sei que mesmo
agora Deus Te dará o que quer que Lhe peças''.
Nem tudo estava perdido.
Quando Ele prometeu: "Teu irmão há de ressuscitar", Marta
pensou num futuro distante. Mas Jesus pô-la face a face com um fato
esmagador: "Eu sou a ressurreição e a vida''.
A ressurreição não oferecia esperança apenas para o futuro. Era
uma realidade presente. Essa realidade estava personificada no Homem
que falava com ela. Ele não dava meramente a vida. Era Ele próprio a
vida.
A resposta de Marta foi uma notável confissão de fé: "Sim, Senhor!
Eu creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo''.
A pergunta que tantos haviam feito e que tinha provocado tanta
divisão, era: "É ele o Cristo, ou não?" (João 7:31, 41-43; Mar. 11:3) Marta
tinha dado uma resposta positiva, embora não pudesse imaginar as
implicações do seu testemunho.
O que aconteceu em seguida é muito comovente. Marta tinha
chamado Maria. Esta chegou e saudou Jesus. Repararam que Jesus
estava profundamente triste. As palavras de Isaías tornaram-se
realidade: "Em toda a angústia deles foi ele angustiado'' (Isa. 63:9).
O Filho de Deus não Se envergonhava das Suas lágrimas. Chorou.
As irmãs e todos os que tinham vindo para chorar com elas
notaram isso. Alguns disseram: "Vede como o amava". Outros
criticavam-nO, dizendo: "Abriu os olhos aos cegos, não é verdade? Então,
por que é que não impediu que Lázaro morresse?''
Nesse momento, os sofrimentos de Jesus vieram à luz. Ele não iria
sofrer apenas com a Sua morte próxima. Naquele instante santo, quando
provou a Sua vitória sobre a morte, Jesus sofreu em vida. Havia sofrido
em cada dia da Sua existência terrena. Sofrera com a incompreensão do
povo (Mar. 6:1-6). Sofrera com a infidelidade dos Seus amigos (Luc.
22:39-45; Mat. 26:31-35). Sofrera também com Marta – pela maneira
como ela usava a sua energia – pelo modo como ela interferira.
De novo, Marta interrompeu. Quando Jesus deu a ordem para
removerem a pedra do sepulcro, ela achou que era necessário recordar-
lhe que Lázaro, que já estava sepultado há quatro dias, se acharia num
estado de decomposição.
"Não te disse que se creres verás a glória de Deus?" (João 11:40)
respondeu Jesus.
Ao seu grito: "Lázaro, vem para fora!'' (V. 43) a morte deixou a sua
presa. Lazão estava diante deles, vivo. Podiam tocar-lhe. Jesus, que tinha
tomado sobre Si próprio a culpa de insensibilidade perante a tristeza dos
Seus amigos, selava agora a Sua amizade pelas pessoas de Betânia, com a
Sua vida.
Agora a Sua liberdade estava limitada. Precisava Se esconder a fim
de não cair prematuramente nas mãos dos fariseus e dos principais
sacerdotes (João 11:53,54). Dentro de poucas semanas iria morrer na
cruz. Morreria, não só pelos pecados de Lázaro, Marta e Maria, mas
também pelos pecados de todo o mundo.

Seis dias antes da morte de Jesus, Marta serviu num banquete dado
em honra dEle (João 12:1,5). A história vem contada em poucas palavras.
Marta não tinha deixado de servir. Não caiu no outro extremo. Era uma
mulher de caráter vigoroso. As belas qualidades de hospitalidade e de
prontidão em servir continuavam a ser evidentes. Era também uma
mulher cuja fé, pela morte de Lázaro, havia suportado o teste.
Revelou-se também uma mulher corajosa. Permaneceu fiel ao
Senhor numa altura em que o ódio dos judeus era o mais veemente e
viria a resultar na Sua morte.
Jesus amava-a e estendeu-file a honra da Sua amizade.
Ele, que conhecia as pessoas, sabia que as mulheres como Marta
podem sofrer sem necessidade, simplesmente por causa delas próprias.
Sabia que uma mulher boa, inteligente e enérgica, como ela, podia
facilmente tropeçar, por causa de um vigor demasiado, por causa do
desejo de interferir. Ela tinha de ter um cuidado especial para não se
perder em coisas de importância secundária. As mulheres como Marta
precisam particularmente de Jesus. Ele pode impedi-las de dedicarem as
suas vidas ao segundo melhor.
Marta de Betânia, uma mulher que deu prioridade a questões
secundárias

(Lucas 10:38-42; João 11:17-27, 32-44).

Perguntas:
1. O que caracterizava a família em Betânia?
2. Qual lhe parece ser a qualidade mais positiva em Marta?
(Leia também Marcos 11:11 e Mateus 21:17).
3. Vê alguns perigos em relação com esta característica da sua
vida? Se sim, quais?
4. Que fatos nos levam a concluir que Marta dava realmente
prioridade a assuntos de importância secundária?
5. Leia João 11. O que é que este capítulo ensina a respeito da
fé de Marta?
6. Em que sentido é que Marta constitui um exemplo ou
advertência para si? Como é que vai aplicar o que aprendeu
da sua vida?
MARIA DE BETÂNIA,

UMA MULHER COM INTUIÇÃO PARA ESCOLHER O


MELHOR

''A amizade com Deus é reservada aos que O reverenciam. Só com


eles é que Ele partilha os segredos das Suas promessas''.
Sal. 25:14, The Living Bible, 1971

João 12:1-11
Mateus 26:13 – "Em verdade vos digo que; onde quer que este
evangelho for pregado, em todo o mundo, também será referido o que ela
fez, para memória sua".

Ela mal foi notada quando entrou na sala. Relanceou o olhar para
os homens que estavam lá e sentou-se atrás do hóspede de honra. Com
um simples movimento arranjou o seu longo vestido e apalpou o pequeno
vaso ainda escondido entre as pregas. Maravilhoso – a conversa dos
hóspedes não havia sido perturbada com a sua entrada. As vozes fortes
dos homens continuavam a encher a sala como antes. Ela estava
habituada a sentar-se aos pés de Jesus, e os presentes tinham-na visto
fazer isso anteriormente (Luc. 10:39).
Enquanto os homens comiam e conversavam, os pensamentos de
Maria voltaram-se para a primeira vez em que Jesus e os Seus discípulos
tinham vindo à sua casa. Ele havia entrado também na sua vida. E – como
só Ele podia fazer – tinha causado uma mudança radical. Ela já não
reconhecia a sua própria vida. "Ele começou por dar-nos a Sua amizade'',
meditava ela. Essa era uma experiência desconhecida. Até essa altura
existira um grande abismo entre os homens e as mulheres. Afinal de contas,
não agradeciam os judeus, todas as manhãs, nas suas orações, por Deus os
ter criado "não como um escravo, nem pagão, nem mulher"?
Havia-se tornado imediatamente claro que Ele era diferente. O Seu
interesse não estava simplesmente no homem ou na mulher. Ele visava o
ser humano total, homem ou mulher (Gál. 3:28).
Ele havia introduzido um novo respeito pelas mulheres. Oferecera-
lhes oportunidades que se desconheciam até então. Tinha-as elevado ao
Seu nível. Era por isso que ela se sentia tão completamente à vontade na
Sua presença. Sem qualquer timidez, viera e sentara-se no meio dos
homens que estavam escutando as Suas palavras.
Sentada aos Seus pés e ouvindo-O, sentia no seu coração uma fome,
uma sede de Deus. O propósito da sua existência tornara-se claro ao
ouvir este Homem. Uma convicção crescia dentro dela: "Fui criada para
Deus. Existo por causa dEle." (Apoc. 4:11)
Isto deu significado e cor à sua vida. Revelou primeiramente
oportunidades nunca sonhadas. Ela vivia a sua vida na comunhão com
Cristo (1 Cor. 1:9). Era esse o objetivo da vida para que se sentia
chamada. O primeiro resultado foi uma fome de Sua Palavra. O pão –
alimento só para o corpo – não podia satisfazer o ser humano. A pessoa
íntima tinha de ser alimentada com a Palavra de Deus (Mat. 4:4).
Enquanto se dessedentava com as Suas palavras e ia aumentando o
conhecimento a respeito dEle, os seus sentimentos amadureciam no
sentido de uma decisão: "Farei por Ele o que puder''. A gratidão
inundava-lhe o coração. Olhou para os homens que falavam um pouco
mais. Então foi distraída por Marta que servia o Senhor e os outros
homens. Marta, pensou ela, quanto Ele tem feito por ti! Quanto! Marta
possuía uma personalidade ativa e extrovertida. O seu amor pelo Senhor
revelava-se em serviço para Ele, porque ela era uma mulher que pensava
e agia rapidamente. Era o oposto de Maria que era mais introspectiva e
calma por natureza. Era animador ver como o Senhor compreendia as
duas. Amava cada uma delas de acordo com o seu próprio caráter.
De Marta, os olhos de Maria vaguearam até Lázaro, o hospedeiro,
que estava sentado ao lado do Mestre. Os seus olhos não podiam deixar
de expressar alegria vendo o irmão. Ele havia ressuscitado dentre os
mortos. Vivia! Jamais poderia esquecer aquele momento em que Jesus
tinha levantado a voz e gritado: "Lázaro, vem para fora!" Sentia-se
também um pouco envergonhada quando recordava aquela ocasião.
Marta e ela haviam-se interrogado a si mesmas sobre a razão por que o
Mestre não tinha vindo mais depressa. Não podiam compreender a Sua
demora que lhes foi quase mais penosa do que a perda do irmão. Nunca
antes em suas vidas se haviam sentido tão abandonadas. Olhando para
trás, podiam ver quão pouco perspicazes haviam sido. Mais tarde
compreenderam por que é que Cristo agira daquela maneira. Tinha-o
feito inteiramente pela vontade do Pai, pois a ressurreição de Lázaro
tinha honrado a Deus. Muitas pessoas foram levadas a crer.
Honrar a Deus e providenciar salvação para o Seu povo era esse o
alvo de Jesus. Isto provou ser difícil para Jesus, pois o ódio consumidor
dos líderes judeus, que se havia mantido latente até esta altura, ateava-se
agora numa chama que O iria destruir. Ao arrebatar Lázaro da morte, Ele
tinha assinado a Sua própria sentença de morte.
Dentro de seis dias seria a Páscoa.
Teria este pensamento aberto de repente os olhos dela? Teria ela
sentido instintivamente que Jesus viera naquele dia para dizer adeus?
Ele estava também a preparar-se para as festividades que se
aproximavam. Nessa Páscoa não haveria apenas sangue derramado no
Templo dos animais sacrificados para remir os pecados do povo (Êxo.
12:13, 21-28), mas, em Jerusalém seria oferecido um sacrifício muito
maior. Jesus ia morrer.
Ela havia falado dos Seus sofrimentos que se avizinhavam (Mar.
8:31). Reconheceu que o ódio de muitos líderes judeus tinha atingido o
ponto de ebulição. Não restava dúvida na sua mente. Jesus tinha de
morrer. Ele era o cordeiro de Deus que tira o pecado, não só duma nação,
mas do mundo inteiro (João 1:29). Muita coisa se tinha tornado clara
para Maria durante o tempo em que convivera com Jesus, enquanto se
enchia das Suas palavras. Tinha-se desenvolvido uma intuição espiritual
e uma compreensão das coisas que outras pessoas não viam.
Na Palavra de Deus, a fé e as obras são inseparáveis. Maria sentia
isso nas profundezas da sua alma. Sentia um desejo imenso de fazer
alguma coisa. Queria expressar o seu reconhecimento ao Senhor,
provavelmente pela última vez. As suas mãos deslizaram ao longo do
vestido. Tocaram no pequeno vaso escondido ali. Estava decidida.
O perfume era muito valioso. A quantidade que estava no vaso
representava o salário anual de um trabalhador (Mat. 20:2). O nardo era
um óleo para embalsamamentos. Isto pertence a um funeral, pensou.
Não! Ela reprimiu este pensamento tão depressa quanto ele viera à sua
mente. Era o Senhor vivo que devia receber a sua adoração, não o morto.
Era agora que tinha de fazer algo para Ele.
Rapidamente levou a cabo o seu plano, como se receasse que
alguém a impedisse de o fazer – como não restasse muito tempo.
As aromáticas gotas de perfume derramadas sobre os pés de Jesus,
eram uma expressão da gratidão de Maria. Sem retraimento, ela
apresentou toda sua alma. Esta homenagem foi sem palavras. Como é
que poderiam umas simples palavras expressar os seus muitos
pensamentos? Às vezes é mais fácil traduzir pensamentos muito
profundos por um olhar ou movimento, do que por palavras.
Os que a rodeavam foram completamente esquecidos, enquanto ela
estava imensa nos seus pensamentos a respeito do Senhor. Afavelmente
ela secou-Lhe os pés com os cabelos. De repente, a sala ficou silenciosa. A
conversa tinha cessado. O forte odor tinha penetrado na sala – encheu
toda a casa. Maria, que desejara honrar o Senhor sem ser notada,
colocara-se, com a difusão do cheiro, exatamente no centro das atenções.
O que é que ela tinha feito?
O que para o Mestre era um doce perfume, constituía-se ofensivo
para as narinas de Judas Iscariotes. A sua crítica foi mordaz: "Por que
não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos
pobres?" Outros apoiaram-no. Embora Judas parecesse altruísta, o seu
interesse nos pobres era um pretexto. Iria antes pôr o dinheiro num saco
que transportava, de modo a poder usá-lo para si mesmo.
Uma vez mais as boas intenções de Maria foram mal interpretadas,
como naquela ocasião em que havia sido acusada de preguiçosa pela irmã
(Luc. 10:40,41). Jesus, todavia, conhecia os seus motivos. Também
naquela altura a defendera. Neste momento disse: "Deixai-a, para que a
incomodais? Ela fez algo de bom e de belo por mim'' (Mar. 14:6). Maria
foi a única que reconheceu que o tempo dEle na terra estava a chegar ao
fim. Tudo o que pudesse fazer por Ele era mais importante do que
qualquer outra coisa.
Jesus não somente a defendeu, mas louvou-a: ''Ela fez o que podia''.
(Mar. 14:8).
O fato de ouvir atentamente as Suas palavras tinha ajudado Maria a
transformar-se numa mulher com visão espiritual. Tinha-se tornado uma
mulher que entendia os segredos de Deus. Sabia precisamente o que
fazer, e quando.
As palavras do Mestre não só revelaram os pensamentos de Maria
como também tornaram clara a maneira como Deus via as coisas. O Seu
maior louvor era reservado à pessoa que se interessava pela Sua Palavra e
que agia na base dela. Tal pessoa não precisava temer a crítica dos seus
semelhantes. Não precisava de se retrair quando eles a importunavam.
Ela dispunha do melhor advogado possível – o próprio Jesus.
Mais uma vez, Maria não foi repreendida. Pelo contrário, nesse
preciso momento, Jesus erigiu-lhe um monumento que perduraria ao
longo das gerações. Era melhor do que qualquer monumento de pedra ou
de bronze. "Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o
evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua" (Mar.
14:9).
O aroma do perfume de Maria tem permeado o mundo inteiro –
mesmo até aos nossos dias. Milhares, não, milhões têm-na louvado. Têm-
se sentido estimulados por ela, porque fez o que podia. Maria foi uma
mulher com intuição para escolher o melhor.

Maria de Betânia, uma mulher com intuição para escolher o


melhor

(João 12:1-11; Mateus 26:13).


Perguntas:
1. Qual é a primeira e impressionante qualidade de Maria
revelada em Lucas 10:38-42?
2. Qual foi a apreciação de Jesus acerca dela?
3. Considere a vida de Maria à Luz de Mateus 4:4 e 1
Coríntios 1:9 e enumere os pontos que descobriu.
4. Que pensamentos tem depois de ler a respeito de Maria em
João 12:1-8? (Leia também Mateus 26:6-13 e Marcos 14:3-
9).
5. Enumere as coisas que Jesus disse acerca de Maria. Qual
destas o impressiona mais? Por quê?
6. A que aspectos da vida dela acha que devia dar mais
atenção na sua própria vida? O que é que vai fazer a esse
respeito?
A SAMARITANA,

UMA MULHER QUE DISSE SIM A JESUS

"Cristo levou-me ao conhecimento da empolgante realidade... o


que isto significa numa vida de libertação, perspectiva, alegria e mudança
geral desconhecidas, não pode dizer-se em palavras''.
Guilhermina, anterior Rainha da Holanda*

João 4:4-26
João 4:39.42

Com relutância, ela pôs ao ombro o cântaro vazio e, debaixo do


escaldante sol do meio-dia, iniciou a sua caminhada ao longo da
poeirenta estrada de Sicar. Aborrecia-a mesmo só a idéia desta jornada,
mas não tinha alternativa. Era pobre demais para pagar a uma criada, e
sendo mulher de má reputação, não ousava ir ao poço mais tarde quando
o ar estivesse refrescado. Não podia arriscar-se a encontrar-se com
outros habitantes da aldeia, quando estes iam ao poço buscar a sua
porção diária de água.
Ela havia trocado a sua pureza feminina pela imoralidade, e pagava
diariamente por isso. Era uma marginalizada sem amigos. Esta era uma
conseqüência do tipo de vida que levava. E numa aldeia pequena
tornava-se particularmente notado.
Quando ainda ia longe, viu um homem sentado junto ao poço.
Mesmo à distância, podia ver que Ele estava cansado. À medida que se
aproximava, pôde ver pelo Seu rosto e feições que se tratava de um judeu.
Perguntava a si mesma o que teria trazido este Homem a tal lugar. Os
judeus tinham um ódio tão profundamente enraizado contra os seus
irmãos de raça, os samaritanos, que evitavam a todo o custo passar por
Samaria. Quando viajavam da Judéia para a Galiléia, faziam geralmente
um desvio em torno da região. "Os samaritanos", diziam eles, ''não têm
parte na vida depois da morte''. E, ''Aquele que come pão dum
samaritano é como alguém que come porco''. Nada podia ser mais
desprezível.
A sua surpresa aumentou quando o Homem lhe pediu um favor.
Ele era diferente de qualquer outro homem – seria a Sua voz? Ele falava

* Wilhelmina. Lonely, But Not Alone (Só, Mas Não Solitária) 1960, McGraw-Hill Inc., Nova York.
com autoridade, mas não com ar ditatorial. Ou seria a Sua expressão, o
Seu interesse humano?
Sentia-se um tanto perturbada, pouco à vontade na presença da
Sua forte personalidade. É compreensível que não O reconhecesse como
Mestre, pois não só os judeus nada tinham a ver com os samaritanos,
mas era mesmo proibido a um homem judeu falar com uma mulher na
rua. "Seria melhor que os Artigos da Lei fossem queimados, do que o seu
conteúdo ser revelado a uma mulher, em público", diziam os seus rabis.
Por que é que então este homem procurava entrar em contacto com
ela? – não só como samaritana, mas também como mulher?
Jesus não fez caso da sua pergunta. Despertou-lhe curiosidade,
falando a respeito da água viva. Se ela tão-somente soubesse com quem
estava a falar! – as palavras "água viva'' impressionaram-na. Isso
constituiria a resposta ao seu problema. Significaria que já não eram
precisas aquelas viagens diárias e penosas para ir buscar água. Ela não
compreendia que nem a água de todos os oceanos do mundo seria
suficiente para apagar a sua sede. Uma solução para o seu problema
material não era uma resposta autêntica. Era a sua alma que estava mais
profundamente necessitada.
E era isso exatamente que Jesus visava. Queria torná-la consciente
da necessidade de satisfazer essa carência. Ele tinha vindo a Samaria com
tal propósito.
Ela não O entendia. Absorvida como estava com os seus problemas
diários, tinha negligenciado as necessidades da alma. "Dá-me alguma
dessa água, a fim de que eu não volte a ter sede'', disse ela. "Então",
continuou, "não precisarei vir todos os dias ao poço''.
A resposta de Jesus foi um pedido simples mas realmente
desconcertante: "Vai, chama o teu marido e vem cá".
O teu marido, o teu marido – mas ela não tinha marido legal.
Sentiu-se assustada ao ouvir aquele Homem dizer tais palavras,
principalmente depois da conversa ter corrido tão bem. Ela era bastante
experiente no que respeita a homens, mas não pôde mentir a Este. "Não
tenho marido'', respondeu ela. "Não sou casada".
"Isso é verdade. Tiveste cinco maridos e não és casada com o
homem com quem vives agora''.
Isto era terrível. Será que não havia segredos para este Homem? A
sua vida era como um livro aberto para Ele (Heb. 4:13). E contudo, nem a
desprezou, nem a censurou. Que estranho! Todavia, Ele tinha-a tornado
consciente da triste mancha da sua vida – o pecado. Além disso, Ele
afirmou que não lhe daria a tão desejada água viva, até que este pecado
tivesse sido removido. Como uma mulher religiosa, estava plenamente
consciente das leis que dizem respeito ao adultério. Contudo, até ali havia
sido capaz de justificar as suas ações com desculpas.
Mas esse tempo tinha passado. Agora via claramente que a sua vida
tinha sido governada pelo pecado. Pecado este que não podia continuar
aos olhos de Deus. Pecado que tinha de ser condenado – forçosamente.
"Senhor, vejo que és Profeta", foi tudo o que ela pôde dizer. Depois
começou a falar sobre religião – como as suas formas e controvérsias
dividiam as pessoas. A religião mostrara-se sempre um tópico
interessante e bastante seguro. Uma pessoa podia gastar horas sem fim
em discussões, arranjando grandes argumentos em que pudesse
esconder perfeitamente os seus verdadeiros sentimentos.
Jesus manteve-se firme no tema principal da conversa. Não se quis
desviar do propósito que O tinha trazido ali. Mostrou-lhe por algumas
palavras que a religião não era uma questão de forma, mas de conteúdo.
Deus procurava as pessoas que O buscassem de todo o coração, que
quisessem servi-lO em absoluto. A única coisa que tinha valor aos olhos
de Deus era a fé. Era isso que Ele lhe estava a dizer. Ele não usou a
afirmação formal "Em verdade, em verdade vos digo..." como fizera com
o culto Nicodemos (João 3:5), mas pediu simplesmente: "Mulher, crê em
Mim''. O resultado desejado foi o mesmo – um novo nascimento.
Um anseio pelo Messias encheu então o seu coração. O Cristo – Ele
esclareceria tudo o que ainda era obscuro e enigmático. Foi exatamente
aí que a conversa atingiu o seu clímax. Jesus assegurou-lhe que o seu
anseio estava satisfeito; o futuro podia tornar-se presente, ali e então.
"Eu sou o Messias''. Cristo não era uma figura no futuro distante.
Era carne e sangue. Estava diante dela. Aquilo que Ele não tinha dito a
qualquer outra pessoa de um modo tão claro, revelou-o a ela: "Eu sou o
Cristo".
Por ela, unicamente por ela, tinha Ele vindo à tão odiada Samaria.
Por ela havia posto de lado as regras e preconceitos judeus. A hora
messiânica tinha chegado. O tempo da discriminação acabara. Havia
uma solução para o ódio racial e para a controvérsia religiosa. Todo o ser
humano, mesmo o mais pecador, podia agora vir a Deus através dEle, sob
duas condições:
Primeiro, tem de reconhecer o seu pecado (Rm. 3:23) e confessá-lo
(Rm. 10:9,10). Tem de reconhecer que não pode existir diante de um
Deus justo, pois Ele é santo. Segundo, tem de confiar em Jesus Cristo -
isto é, crer n'Ele. É Ele o Mediador entre Deus e o homem (João 14:6). É
a ponte sobre a brecha que o pecado abriu entre o homem e Deus.
Num momento, ela viu tudo isso claramente. Era uma pecadora,
horrível, desprezível. Ele era cheio de amor e compreensão – de perdão.
Compreendeu então que foi isso que O levou a procurá-la. Aceitou-O no
seu coração. Disse sim a Jesus Cristo.
A Rainha Guilhermina da Holanda, outra mulher que disse sim a
Cristo, escreveu uma impressionante auto-biografia, no fim da sua vida,
intitulada "Lonely, But Not Alone" (Só, Mas Não Solitária). Terminou
esse livro com o que se chama a revelação da sua vida – que Cristo quer
entrar no coração humano e governá-lo. As suas últimas palavras são
uma citação bíblica: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a
minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei e ele
comigo" (Ap. 3:20). A Rainha Guilhermina considerava-se uma filha de
Deus, e com razão, pois havia recebido Cristo como seu Salvador e
Senhor (João 1:12). Qualquer pessoa que recebe Cristo desse modo torna-
-se uma nova criação (2 Cor. 5:17). Há uma grande diferença entre as
condições sociais da samaritana e as desta rainha. Todavia, as suas
experiências mais profundas foram iguais, uma vez que receber Jesus
Cristo como Salvador é a experiência mais importante de qualquer vida
humana.
A mulher com um passado desfeito e arruinado, ficou inteiramente
liberta. Ficou livre do castigo do pecado e, portanto, aos olhos de Deus,
livre da mancha do passado. A crítica das pessoas já não precisava de a
ferir. Dali em diante, podia olhar livremente para elas – sem vergonha.
Aquele que julgava as pessoas, não pela aparência exterior, mas pelo
coração, tinha-a declarado livre de culpa. Como é que então as pessoas
poderiam acusá-la?
A solução para os seus problemas foi total – espiritual e material. A
fonte de água viva tinha-a limpo, e apagado a sua sede, e trouxe-lhe uma
felicidade que ela nunca julgara possível.
Ela não ia certamente guardar isto só para si. Esqueceu-se da razão
que a levara ao poço. Havia algo mais importante em jogo. Ela regressou
rapidamente à aldeia para comunicar a maravilhosa notícia de que o
Messias tinha chegado. O pecado podia ser perdoado. Precisava dizer isto
às pessoas imediatamente!
Dirigiu-se a elas com a natural clareza e liberdade de alguém que
esteve na presença de Deus, contando-lhes a sua experiência.
"Vinde comigo", pediu ela, "conhecer o Homem que sabia todo o
meu passado. Ele tem de ser, sem dúvida, o Cristo".
A sua timidez havia desaparecido. Fez referência ao seu passado
desonroso sem qualquer hesitação ou receio. Era impressionante ver
como essa vida passada, da qual tanto se envergonhara, se tornava agora
elo de ligação com o presente feliz.
As pessoas, vendo a mudança que se operara nela, apressaram-se a
ir da aldeia ao poço de Jacó. Lá encontraram o Messias. Jesus fez por eles
o que tinha feito pela mulher. Libertou-os. Deu-lhes uma nova vida –
vida eterna.
Eles ficaram impressionados e pediram-Lhe que ficasse mais
tempo. Ele acedeu. Ainda mais pessoas vieram ouvi-lo, e mais – e mais.
Diziam depois à mulher: "Nós cremos, não por causa do que tu nos
disseste, mas porque nós próprios O ouvimos. Estamos pessoalmente
convencidos de que Ele é o Salvador do mundo''. Isso era bom. Era Cristo
que devia receber atenção, não a mulher. Era Cristo que devia receber a
glória. Ela foi apenas um dedo que apontou para Ele.
Quatro anos se passaram. A terra e os céus tinham-se coberto de
densa escuridão no dia em que o inocente Jesus de Nazaré, Deus e
Homem, foi crucificado.
Depois da crucificação, os anjos proclama a Sua ressurreição – e
quarenta dias mais tarde, no momento da ascensão, anunciaram a Sua
segunda vinda à terra. Alguns dias depois, o Espírito Santo desceu do
céu. Primeiro sobre indivíduos, e então sobre grandes multidões.
Milhares e milhares de pessoas experimentaram o início de uma nova
vida.
Depois surgiu a horrível perseguição aos novos crentes. Satanás
não soltou – nem solta – facilmente a sua presa. Quando se tornou
demasiado perigoso para os cristãos continuar em Jerusalém, eles
fugiram para a Judéia e Samaria.
Iniciou-se um grande movimento evangelístico em Samaria. Foi tão
bem sucedido, que se tornou necessário um evangelista para continuar o
ministério. Quando Filipe chegou e começou a pregar a grandes
multidões, muitos aceitaram Cristo. Mais uma vez houve alegria na
cidade, culminando com o derramamento do Espírito Santo. As
diferenças entre os judeus e os samaritanos foram abolidas para sempre.
O Evangelho foi derramado sobre o mundo. As boas novas passavam de
cidade para cidade. E foi por a samaritana estar disposta a partilhar, que
o movimento evangelístico em Samaria ficará eternamente associado a
uma mulher.
A história da Samaritana ilustra claramente que, embora uma
pessoa sem Cristo seja um campo missionário, ela mesma se torna
missionária no momento em que O recebe – missionária para Ele e pela
Sua graça. Quando o Filho de Deus entra na vida de uma pessoa, faz uma
grande diferença.

A Samaritana, uma mulher que disse sim a Jesus

(João 4:4-26,39-42)
Perguntas:
1. Em seu entender, por que é que a Samaritana não ia buscar
água mais tarde, quando estivesse mais fresco? (A hora sexta
corresponde ao meio-dia).
2. Na sua opinião, por que é que Jesus lhe disse: "Vai, chama o
teu marido e vem cá"?
3. A mulher falou sobre assuntos religiosos secundários. Qual o
assunto real que Jesus procurou salientar perante ela? (Ler
Romanos 3:23; 10:9-11).
4. Examine esta história à luz de João 1:12 e de Apocalipse
3:20. Quais são as suas conclusões?
5. Compare João 4:39-42 com 2 Coríntios 5:17 e enumere os
pontos que encontrou.
6. Quais lhe parecem ser os dois maiores resultados da
conversa desta mulher com Jesus? (Verifique também Atos
8:1-17).
7. O que é que existe nesta história em relação a crer em Cristo
e testemunhar dEle que o tenha pessoalmente estimulado?
Que atitude prática irá tomar na vida como resultado disso?
DORCAS,

UMA MULHER QUE AMAVA A DEUS

''Quando uma jovem aceita de fato ficar solteira, então isso significa
uma tal libertação para ela, que nessa situação pode tornar as suas
peculiares características femininas úteis a muitos''
Dr. Paul Tournier*

Atos 9:36-42
Romanos 12:4-8
Trago 1:27

Dorcas não era uma mulher particularmente impressionante. A


única coisa que sabia fazer bem era costurar, e quem é que consideraria
isso uma coisa notável? Muitas mulheres podiam fazer outro tanto.
Dorcas era uma mulher de um só talento. Só tinha um dom, e
mesmo esse era insignificante. Teria sido natural que ela pensasse: Não
sou profetisa como Miriã, e não posso governar um país como Débora.
Não sou uma mulher capaz de desempenhar um papel de relevo na
história do meu país. Não pertenço à categoria das mulheres talentosas.
Parece que o casamento e a maternidade a tinham também deixado
de lado. De outro modo, ela teria podido influenciar indiretamente a
sociedade através do marido ou de um filho. Não era verdade que na
história do seu país o destino de um rei de Israel fora muitas vezes
decidido pela mãe?
Contudo, havia uma coisa em que Dorcas ultrapassava todas as
outras mulheres da Bíblia. É ela a única que foi chamada discípula!
Dorcas era uma discípula, uma seguidora de Jesus, e isso fazia toda a
diferença. Ela abriu-Lhe o seu coração antes de O seguir. Ele tornou-Se o
seu Salvador, antes de ser o seu Senhor. E embora ela o tivesse recebido
como Redentor, não se contentou com isso. A fé é mais do que simples
comunhão com Deus. A pessoa usa-a para servir os outros – a verdadeira
fé expressa-se em obras. Aquele que segue a Cristo é movido na direção
das pessoas, exatamente como Ele era. Torna-se criativo e quer fazer
todo o possível para dar à sua vida o máximo de significado. Portanto, a

* Tournier, Paul. The Healing of Persons (A Cura das Pessoas) 1965, Harper & Row – Nova Iorque, N. I.
discípula Dorcas fez o que brotava naturalmente dela. Costurou,
especialmente para as viúvas pobres. Aplicou toda a sua capacidade nesse
trabalho.
Jope (agora Jafa), um porto que fica no Mar Mediterrâneo, deve ter
tido uma grande quantidade de viúvas. Durante a estação do mau tempo,
muitos dos pescadores naufragavam e afogavam-se. Essas mulheres
haviam perdido não só os maridos, mas a sua fonte de receita. Não havia
qualquer Segurança Social naqueles tempos, mas isso, na verdade, não se
tornava necessário, pois, repetidamente, Deus tinha dito ao Seu povo que
cuidasse das viúvas e dos órfãos (Êx. 22:22-24; Dt. 10:17-18). Se
obedecessem às ordens de Deus, então as viúvas não teriam quaisquer
necessidades e o povo desfrutaria bênçãos abundantes, a recompensa que
Deus lhes havia garantido (Dt. 14:29; 24:19).
Deus tinha prometido ser o marido delas (Is. 54:4,5). Seriam alvo
de cuidado e proteção especiais da Sua parte. Sendo uma discípula,
Dorcas sabia o que dava prazer ao seu Senhor, ou seja, cuidar deste grupo
de pessoas em que Ele estava particularmente interessado. Portanto, ela
não executava o seu trabalho com indiferença. Não era simplesmente um
passatempo. Fazia-o com algo definido em mente. Fazia-o de todo o
coração porque amava a Deus. Quando Jesus entrou no seu coração,
Dorcas tornou-se uma mulher livre. Ele havia-Se definido a Si mesmo
como a Verdade (João 14:6). Mais tarde, afirmou que aqueles que eram
libertados por Ele, ficavam verdadeiramente livres (João 8:32,36).
Dorcas agia nesta base de liberdade.
A Bíblia dá lugar ao pensamento de que Dorcas era solteira, mas
não parece que ela se tenha sentido frustrada por sentimentos de
inferioridade. Não tinha qualquer desejo de competir em importância
com as mulheres casadas, ao seu redor. Não tinha ciúmes das mães que
possuíam filhos.
Dorcas tornou-se uma mulher que estava muito além da sua época.
Sentiu-se tão plenamente realizada na vida trabalhando sozinha, que foi
única em relação ao tempo em que viveu. Muitas das mulheres que
moram em Jafa hoje em dia ficariam certamente contentes se pudessem
trocar de lugar com ela. Dorcas satisfez uma necessidade real através da
costura. Exigia pouco para si mesma. Vivia para os outros. Era essa a
razão da sua própria felicidade.
"Aquele que quer conquistar a felicidade tem de a partilhar. A
felicidade nasceu como os gêmeos", disse mais tarde Lord Byron, poeta
inglês.

Uma mulher que é verdadeiramente livre pode ser de fato


ela própria e pode desenvolver o seu caráter da maneira que
Deus a criou singularmente. Aquele que é livre intimamente é
uma pessoa feliz, que irradia essa felicidade. A sociedade não
pode passar sem tais pessoas. Uma mulher assim não sente
necessidade de lutar por seus direitos. Não tem de se esforçar
para se tornar alguém – já é alguém.

Muitas das viúvas de Jope andavam por ali vestidas com vestes
feitas por Dorcas. A gratidão para com ela ia aumentando. Dorcas, que
provavelmente estava só na vida, era muito capaz de dar apoio moral e
espiritual às viúvas. Entendia as mulheres solitárias e podia conversar
com elas. Em conseqüência, utilizava esse seu potencial. Agindo assim,
tornou-se uma pessoa de importância na Igreja. Então, de repente,
ocorreu a tragédia. Dorcas adoeceu e morreu.
Alguém se lembrou de que Pedro estava trabalhando em Lida, a
uns escassos dezesseis quilômetros, e mandou imediatamente dois
homens para o trazerem. Sabiam que Pedro possuía um poder
sobrenatural. Não tinham eles ouvido que as pessoas doentes ficavam
curadas, quando a sombra de Pedro pousava sobre elas? (At. 5:15) Não
tinha ele, juntamente com João, curado o paralítico? (At. 3:1-10) Todas
as suas esperanças se concentraram nele. Pedro veio imediatamente. No
quarto superior, onde jazia o cadáver, Pedro viu-se rodeado por mulheres
chorosas. Estas disseram-lhe quão profundamente sentiram a falta de
Dorcas, quão desoladas se sentiam sem ela. Mostraram-lhe as roupas que
ela lhes havia feito.
Muitas vezes, só se dizem coisas boas a respeito dos mortos.
Todavia, neste caso, era perfeitamente evidente quanto sofriam os que
ficavam, com a perda daquela vida. O amor de Dorcas tinha despertado
também neles um grande amor por ela. Que outra coisa se poderia
esperar? Pedro fez o que tinha visto fazer ao Senhor numa situação
semelhante (Mar. 5:40-42). Pediu a todos que abandonassem o quarto,
orou então e trouxe de novo à vida o corpo de Dorcas, por meio do poder
de Deus.
A Bíblia registra sete casos de pessoas que foram ressuscitadas.
Dorcas foi a única mulher adulta entre elas. A notícia da sua ressurreição
tornou-se o assunto do dia, em Jope. "Ouviram?" exclamavam as pessoas
umas para as outras, "Dorcas está viva de novo! Pedro ressuscitou-a".
Então aconteceu mais alguma coisa notável. As pessoas
reconheceram que Deus havia realizado um milagre, portanto
glorificaram o próprio Deus, em vez de Dorcas ou Pedro. Através destes
acontecimentos, as pessoas reconheceram o vazio das suas próprias
vidas. Também elas desejavam crer no Senhor Jesus. Começaram a
entender alguns dos valores reais da vida. Queriam pertencer-Lhe como
Dorcas. Desejavam tornar-se cristãs, novas pessoas, com uma nova
perspectiva na vida.
"Que é isso na tua mão?", tinha, há muito tempo, perguntado o
Senhor a Moisés (Êx. 4:2-5). Ele respondeu: "Uma vara". "Vai e trabalha
com essa vara", disse Deus, "e serás meu servo''.
Se Deus tivesse feito a Dorcas a mesma pergunta, ela teria
respondido: "Uma agulha e uma linha, Senhor". Então Ele ter-lhe-ia
mostrado que eram esses precisamente os instrumentos com que podia
servi-lO.
A vida, morte e ressurreição de Dorcas ajudaram a disseminar o
Evangelho. Pedro não pôde deixar Jope durante algum tempo, porque
era solicitado pelas pessoas que desejavam saber mais acerca de Deus.
Dorcas começou um movimento que se espalhou para além das
fronteiras da sua cidade e do seu país. Indiretamente tornou-se uma
grande evangelista. Hoje, há Sociedades Dorcas em todo o mundo. A
Sociedade Internacional Dorcas, dos Estados Unidos, é a maior de todas.
Milhões de pessoas necessitadas são alimentadas e vestidas por esta
Sociedade.
Quem poderá contar as inúmeras mulheres que foram
influenciadas pela vida de Dorcas? O seu belo exemplo jamais se
extinguirá. É isso o máximo que qualquer discípulo pode desejar.

Dorcas, uma mulher que amava a Deus

(Atos 9:36-42; Romanos 12:4-8; Tiago 1:27)

Perguntas:
1. De acordo com Atos 9:36, o que era típico da vida de Dorcas?
2. Estude a sua dedicação à luz de Mateus 25:14-29 e Romanos
12:4-8, e enumere os pontos que descobriu.
3. Qual poderá ter sido o pano de fundo da sua dedicação para com
as viúvas? (Deuteronômio 10:17,18; 14:29).
4. Descreva em poucas palavras o que aconteceu a Dorcas.
5. Qual lhe parece ser o resultado mais importante da sua
ressurreição?
6. Quais os fatos desta história que mais o tocam? Como é que eles
irão modificar a sua vida?
LÍDIA,

UMA COMERCIANTE QUE DEU A DEUS O PRIMEIRO


LUGAR

"Não, queridos irmãos, eu ainda não sou tudo o que devia ser, mas
estou a concentrar todas as minhas energias nesta única coisa:
esquecendo o passado e olhando para o que está diante de mim, esforço-
me por chegar ao fim da corrida e receber o prêmio..."
Filip. 3:13,14, The Living Bible

Atos 16:11-15,40

O sábado tinha começado em Filipos.


Filipos era uma importante cidade da Macedônia, centro comercial
entre os Mares Egeu e Adriático. Esta localização chave constituía a
ponte que ligava o Médio Oriente à Europa por meio da estrada nacional
romana – a Via Ignácia.
Uma mulher asiática dirigiu-se rapidamente para fora da cidade,
até a um certo lugar junto ao rio, onde ia decorrer uma reunião de
oração. A mulher Lídia – da Lídia – era uma pessoa importante. Dirigia o
seu próprio negócio. Importava púrpura, um tecido muito valioso que era
usado unicamente pelos ricos e reis, da sua cidade de Tiatira, na Ásia
Menor.
Lídia era muito respeitada. Vivia numa casa espaçosa, com muitos
servos. Não admira que fosse uma comerciante bem sucedida, uma vez
que o mercado lídio de púrpura tinha fama no mundo greco-romano. Os
seus produtos eram avidamente procurados por toda a parte. Lídia era
uma mulher inteligente, de mente lúcida, que realizava o seu trabalho
com entusiasmo e determinação. A sua profissão permitia-lhe muitos
contatos com pessoas interessantes. E ser uma mulher independente,
especialmente naquele período histórico, constituía uma ocupação
excepcionalmente interessante.
Ao contrário de muitos negociantes, ela não se deixou absorver
totalmente pelo seu trabalho. A despeito das muitas obrigações que
tinha, conseguia arranjar tempo para coisas de maior importância. Não
estava satisfeita, como acontecia com muitos dos seus concidadãos, com
a adoração de Apolo. Ela adorava o único Deus verdadeiro. Dedicava-Lhe
algum tempo dentro do seu apertado horário. Lídia reconhecia que, como
comerciante, precisava da direção dEle, e era por isso que se dirigia para
essa reunião de oração.
Nesse dia, a reunião era muito pequena, e só para senhoras.
Aparentemente, não havia dez homens judeus em Filipos, o número
requerido para uma sinagoga, desse modo, as mulheres reuniam-se ao ar
livre. Naquele dia visitaram a reunião alguns hóspedes inesperados –
homens cultos. Paulo, o grande evangelista e apóstolo missionário, e os
seus companheiros Silas, Lucas e Timóteo tinham chegado à cidade,
vindos de Troas.
Inicialmente, Paulo formulara um plano diferente. Tinha desejado
ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus impediu-o, através de uma visão,
de noite. Ficou-lhe muito claro que era absolutamente urgente que ele
fosse à Macedônia (At, 16:7-10). Por isso, ali estava ele em Filipos,
dirigindo-se àquelas mulheres.
Falou-lhes acerca do Deus de Abraão que tinha enviado o Seu Filho
a este mundo a fim de remir as pessoas e Se tornar a ponte de ligação
através da brecha que o pecado criara entre Deus e o homem. Disse-lhes
que pela fé em Jesus Cristo havia redenção, vida eterna e uma nova
perspectiva para a vida (At. 3:13-16; Rom. 8:1,16,17). Lídia escutava
atentamente com todo o seu coração.
Pascal disse que Deus criou um vácuo com a Sua forma no coração
humano, o qual só pode ser preenchido pelo próprio Deus. Lídia estava
aberta às coisas de Deus, porque o seu o Rei seu coração ansiava por esta
experiência de fé mais profunda. O conhecimento de Lídia a respeito de
Deus era superficial. Ela não O conhecia como Pai em Jesus Cristo.
Todavia, Ele pôde atingir facilmente o seu coração, pois já estava assente
sobre Ele, e ela sensível à Sua Palavra. Lídia precisava dar atenção à Sua
Palavra, porque quando Deus dá um passo na direção de uma pessoa,
espera depois que o indivíduo dê o passo seguinte. Deus evidencia-Se
então dando o próximo passo.
A semente da Palavra caiu no seu coração como em terreno
preparado (Lc. 8:15), e resultou num novo nascimento. Ela descobriu o
elo que lhe faltava na sua experiência – uma fé pessoal em Jesus Cristo.
Lídia tornou-se cristã. Para essa mulher enérgica isso significava que
tinha de testemunhar abertamente desse fato, e sem demora. Ela queria
que todos conhecessem a inefável felicidade que existia em si. Foi
batizada. Através desse ato, afirmou sem palavras: "Identifico-me com a
morte e a ressurreição de Jesus Cristo, e vou começar uma nova vida''.
Esta nova convertida atraiu outros para Cristo como um imã. E
quem seriam os primeiros a ouvir senão os da sua casa? Eles escutaram a
Palavra e creram também. Confirmaram igualmente a sua fé pelo
batismo – e assim nasceu a primeira igreja de Filipos.
Para Paulo, já não existia qualquer dúvida quanto ao motivo
porque tinha sido dirigido para a Macedônia. As pessoas iam nascendo
de novo. Eram os primeiros cristãos da Europa. Um novo continente se
abria ao Evangelho – através de Lídia.
Em gerações futuras, uma multidão inumerável iria seguir o seu
exemplo. Como ela, iriam receber Cristo e multiplicar-se nas gerações
seguintes. O entusiasmo de Lídia por Deus produziu fruto nas vidas de
outros. O número de cristãos aumentou por intermédio dela. É isto o que
Deus espera de todos os cristãos. Na criação, Ele ordenou aos homens e
aos animais que se multiplicassem biologicamente para encherem a
terra. Eles deviam produzir fruto segundo a sua espécie (Gên. 1:24-29).
Quando Jesus falou aos discípulos acerca de produzir frutos (João 15:1-
16), referia-Se a pessoas que poderiam vir espiritualmente à vida por
meio da semente da Sua Palavra (João 17:20). Um cristão pode
multiplicar-se espiritualmente, trazendo outros a Cristo. Lídia fez isso.
Ser cristã era um assunto muito prático para Lídia. Não se tornou
freira, nem mesmo evangelista de tempo integral. Continuou na sua
profissão. Tornou o seu nome respeitado, submetendo-se ela própria,
bem como o seu negócio e os seus bens ao máximo no serviço de Cristo.
A primeira coisa que ela submeteu foi o lar. Insistiu com Paulo e
com os seus companheiros para ficarem ali. O fato de eles terem aceitado
provou que tomavam a sério a sua fé. Deste modo também se identificou
com o Evangelho perante os não crentes. Não tinha vergonha de Cristo.
Nem mesmo se envergonhou quando Paulo e Silas, magoados e feridos,
voltaram da prisão onde haviam sido postos ilegalmente. Todos na
cidade souberam que a distinta Lídia considerava um privilégio alojar
aqueles homens.
Deus deseja que os cristãos abram os seus lares aos outros e se
sirvam uns aos outros com o que têm recebido dEle. Deseja que eles se
revelem bons administradores dos bens materiais que lhes confiou.
Aqueles que são hospitaleiros, reconhecerão mais tarde, para sua
surpresa, que, por vezes, sem o saberem, alojaram anjos (Heb. 13:2).
Abraão teve essa experiência (Gên. 18:1-5; 19:1). Lídia também
compreendeu isso, embora não ficasse registrado em tantas palavras.
Desde então, os lucros de Lídia não seriam um fim em si mesmos,
mas um meio de levar mais longe o Evangelho. Lídia venderia púrpura
para glória de Deus. Era Ele que estava à frente na sua lista de
prioridades. Ela não ocupava só uma posição chave no aspecto social,
mas também sob o ponto de vista geográfico. As notícias espalhavam-se
depressa a partir desta cidade comercial situada sobre várias estradas
internacionais. Dali em diante, não sairiam da casa de Lídia apenas sacos
de púrpura, mas também o evangelho iria propagar-se através do mundo
civilizado.
É razoável admitir que uma mulher que pôde impressionar os
apóstolos e os da sua casa com as suas novas convicções não teria menos
êxito em convencer aqueles com quem contatava no seu negócio. Assim,
o seu comércio tornou-se um duplo sucesso.
Alguns anos mais tarde, quando Paulo escreveu à igreja de Filipos,
da sua prisão em Roma, mencionou as mulheres que trabalharam
esforçadamente com ele na propagação do evangelho (Filip 1:3-4; 4:3).
Ele tinha provavelmente em mente Lídia e outras que encontrara na sua
casa.
Lídia havia recebido muito e usou-o para o Senhor. Ela constitui
uma prova tocante do quanto Deus pode fazer através de uma pessoa que
Lhe tenha dado a prioridade na vida.

Lídia, uma comerciante que deu a Deus o primeiro lugar

(Atos 16:11-15,40)

Perguntas:
1. Onde é que Lídia aparece pela primeira vez, e o que é que
pode aprender dela?
2. O que é que aconteceu quando ela ouviu falar de Paulo? O
que é que Deus lhe fez, e o que é que ela própria realizou?
(Ver também Provérbios 4:23 e Lucas 8:15).
3. Depois de ter ouvido falar Paulo, qual foi a sua pública
confissão de fé? Qual pode ser a única explicação para isso?
4. João 15:1-16 fala acerca de produzir fruto. Em que sentido é
que a vida de Lídia produziu fruto nas vidas de outros?
5. Explique quais foram os dois grupos de pessoas para os
quais ela se tornou instrumento no ministério do
evangelho. (Leia também João 17:20 e 1 Pedro 4:9,10).
6. Como é que Lídia provou que deu prioridade às coisas de
Deus? O que é que aprendeu dela, e como é que pode
aplicar isso na sua vida diária?
PRISCILA,

UMA VALIOSA COLABORADORA NA PREGAÇÃO DO


EVANGELHO

"O 'Coemeterium Priscilla', uma das mais antigas catacumbas de


Roma, e a 'Titulus Priscilla', uma igreja no Aventino, em Roma, recordam
às pessoas do século vinte uma mulher que viveu no início desta era, a
quem Tertuliano chamou, 'a Santa Priscila, que pregou o Evangelho'."
A Autora

Atos 18:1-4
Atos 18:18.20
Atos 18:24-26
Romanos 16:3-5
l Coríntios 16:19

Priscila. O fato de o nome dela ter sido preservado na história prova


que foi uma mulher notável e distinta. O uso do seu nome antes do nome
do marido é mais uma afirmação disso. Por mais respeitada e
interessante que pudesse ter sido a sua vida em Roma, veio a terminar
abruptamente em 50 A. D., quando o imperador Cláudio expulsou todos
os judeus da cidade.
Priscila e Áquila deixaram Roma e regressaram à Ásia Menor
donde eram naturais, fixando-se finalmente em Corinto.
Parecia que as suas vidas tinham atingido um ponto morto, mas o
plano de Deus para eles revelaria em breve um excitante recomeço. Uma
fascinante nova vida de serviço os aguardava.
Tinham deixado muito para trás – os bens, os amigos. Mas
constituíam um casal harmonioso e o seu matrimônio continuava intacto.
Não precisavam da advertência que mais tarde Paulo dirigiu aos coríntios
que levavam uma vida livre, quando escreveu: "Não vos prendais a um
jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a
injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2 Cor. 6:14) Este
casal tinha-se tornado um, de um modo muito especial, enquanto
andavam juntos na sua fé (Amós 3:3).
Tinham chegado a Corinto precisamente antes de Paulo. Ele tinha
confiança neste casal e desejava investir a sua vida neles a fim de que o
Evangelho pudesse ser mais espalhado.
Tanto Priscila como Áquila tinham aprendido um ofício. E mesmo
os judeus ricos faziam com que os filhos aprendessem uma profissão. Um
sábio provérbio que apoiava esta prática dizia assim: "Aquele que não
cuida de ensinar uma profissão ao filho, ensina-o a ser ladrão''. E não
tinha Jesus de Nazaré, o carpinteiro, provado de fato que o trabalho
manual era digno?
Eles faziam tendas, e esta profissão revelou-se um elo entre eles e
Paulo, pois este fazia também. Não só trabalharam juntos, mas viveram
igualmente juntos. Paulo sabia bem que o melhor treino que podia dar
provinha do fato de estarem em contato dia após dia. Como Jesus, ele
escolheu cuidadosamente os seus futuros cooperadores (Mar. 3:14).
Trabalhavam numa pequena loja fora de casa, semelhante às que
ainda hoje são comuns no Médio Oriente. Fartavam-se de conversar à
medida que os dias decorriam e as peles de cabras e o couro se
transformavam nos seus dedos em úteis coberturas de tendas.
Diariamente, Paulo talhava a Palavra de Deus para as suas necessidades.
E eles aprendiam a aplicá-la (Filip 4:9).
Priscila e o marido ouviam ansiosos os ensinos de Paulo. Estavam
interessados na mensagem que Paulo pregava na sinagoga ao sábado.
Oravam a seu favor. E quando atravessava problemas estavam ao seu
lado, prontos a dar a vida por ele. Priscila e Áquila não estavam só muito
unidos pela fé e pela mesma profissão, mas também no seu respeito e
amizade por Paulo. Esta lealdade deve ter significado muito para este
homem solitário, pois pouco antes da sua morte, enviou-lhes as suas
saudações (2 Tim. 4:19).
Priscila, que observava os mínimos detalhes da vida de Paulo,
estava tão impressionada com o que ele fazia, como com o que dizia.
Surgiu nela um desejo de se tornar seguidora deste homem. Ele deixara
bem claro como é que uma pessoa podia seguir a Cristo (1 Cor. 11:1).
Sendo judeus ortodoxos, conheciam bem os ensinos do Velho
Testamento. Mas o novo conhecimento duma fé em Cristo e a obra
constante do Espírito Santo no coração humano eram verdades que
davam novas dimensões à vida.
Paulo deixou Corinto após dezoito meses, durante os quais se
formou uma igreja.
Priscila e Áquila acompanharam-no a Éfeso. Embora os judeus
crentes ali desejassem muito que ficasse, ele partiu pouco depois de
haver chegado. Estava de novo em marcha – desta vez para Cesárea.
O fruto do tempo que Paulo passara com Priscila e Áquila tornava-
se agora evidente. Ele já não era necessário em Éfeso, porque eles
podiam ficar lá e substituí-lo devidamente. O trabalho da sua vida estava
a ser continuado por intermédio deles.
Isto tornou-se muito claro quando Apolo, um talentoso pregador
judeu, de Alexandria, chegou a Éfeso. Falou às pessoas a respeito de
Jesus, com palavras brilhantes e convincentes. O que pregava era
verdade, mas incompleto. Priscila e Áquila detectaram imediatamente
onde é que estavam as falhas na sua mensagem. Verificaram que a sua
pregação terminava na obra de João Baptista. Ele não conhecia a
maravilhosa história do Evangelho – os resultados da morte e da
ressurreição de Cristo. Parecia que nunca tinha ouvido falar no
derramamento do Espírito Santo.
Não condescendendo, convidaram-no prudentemente para o seu
lar onde, de modo muito pessoal, lhe explicaram todo o Evangelho. A
Bíblia descreve isto em simples palavras, mas a parte e a personalidade
de Priscila não podem ser escondidos.
Ela não se retraiu por ser mulher, mas falou com tal amor e tato,
que o culto e dotado pregador aceitou avidamente as palavras do casal
leigo. Era isto que impressionava em Priscila, ela mantinha sob controlo
a sua forte personalidade, ao oferecer indiretamente a sua liderança.
Seria por isso que os homens com quem trabalhava a apreciavam?
O que é que Apolo ouviu de Priscila e do marido? Exatamente o que
Paulo lhes havia dito a eles. Provaram a Apolo, pelas Escrituras, que
Jesus era o Messias prometido, o Cristo.
Priscila e Áquila tinham começado uma reação espiritual em cadeia
semelhante àquela sobre a qual Paulo escreveu mais tarde a Timóteo, seu
filho na fé, "E o que de mim entre muitas testemunhas ouviste, confia-o a
homens fieis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros." (2
Tim. 2:2).
O que Paulo havia ensinado a Priscila – ou Prisca, como ele gostava
de lhe chamar – e a Áquila, tinham-no eles, por sua vez, transmitido a
Apolo. Também este começou a passá-lo a outros – às pessoas de
Corinto! Assim, Priscila e Áquila multiplicavam-se. Principiaram a
produzir fruto espiritual. Tocaram uma vida, e essa vida floresceu num
discípulo (1 Cor. 16:12), em quem sabiam poder confiar para pregar o
verdadeiro e completo Evangelho também aos outros. Desse modo,
enquanto Paulo viajava para a Palestina antes de regressar à Ásia Menor,
e enquanto Priscila e Áquila abriam o seu lar em Éfeso para edificarem a
igreja, Apolo alimentava os cristãos em Corinto. A Palavra de Deus
crescia rapidamente porque a semente dessa Palavra caía em terreno
preparado. Este apoio pessoal aos novos crentes causava crescimento e
nova vida.
Algum tempo depois, o casal já não era necessário em Éfeso. Uma
igreja tinha sido estabelecida ali, a qual podia continuar o seu trabalho.
Deus chamou-os de novo a Roma. Cláudio tinha morrido. Mais uma vez,
o lar de Priscila e Áquila se tornou o lugar de encontro para os cristãos,
agora em Roma.
Paulo chamava-lhes agora os seus cooperadores em Jesus Cristo.
Os antigos discípulos haviam-se transformado em valiosos
colaboradores. Eram recordados com gratidão em todas as igrejas, tanto
por judeus como pelos não judeus. A sua permanência em Roma foi
breve, provavelmente devido à horrível perseguição aos cristãos no
tempo de Nero.
Mas ficaram o tempo suficiente para começarem outra igreja.
Aonde quer que iam, vidas eram transformadas e renovadas à medida
que as pessoas chegavam a crerem em Jesus Cristo.
Voltaram a Éfeso. A tradição diz que Priscila e Áquila morreram
finalmente como mártires – decapitados! A Igreja Católica Romana
comemora os seus nomes no dia 8 de Julho na história dos mártires.
Priscila foi uma mulher e uma esposa notável. Muito
provavelmente excedia o marido, uma vez que a história e as inscrições
mencionam o seu nome e não o dele. Ela recebeu um lugar proeminente
na história por causa da sua amizade e colaboração a Paulo.
Seria ela mais famosa que o marido por ser mais inteligente, ter
melhor educação ou caráter mais forte? Ou ter-se-ia ela tornado cristã
antes dele? Teria sido ela a levá-lo a Cristo? A Bíblia não o diz.
Todavia, o seu casamento é fascinante. Estes cônjuges
harmonizavam-se perfeitamente em todos os aspectos da vida – na fé,
nos interesses sociais e espirituais, nas amizades, no lugar que a Palavra
de Deus desempenhava nas suas vidas, tanto para o seu estudo pessoal
como na pregação e na sua prontidão em se darem aos outros sem
quaisquer restrições. O seu propósito na vida era darem-se totalmente a
Deus.
A vida requereu muito de Priscila. Ela tinha de ter grande
vitalidade para se adaptar constantemente a novas situações. Fez grandes
e cansativas viagens. Arriscou a vida pela disseminação do Evangelho.
Foi excepcional nesse período da história, pois trabalhava com os
homens, ao mesmo nível, e todavia, conquistou o seu amor e respeito.
Não sucumbiu à tentação de se tornar uma figura dominadora
dentro do casamento. Honrou a relação que Deus deseja ver entre Ele e a
união dos cônjuges (1 Cor. 11:3).
Séculos após a sua morte, a vida dela ainda revela às mulheres de
hoje os segredos de uma vida frutífera e de um casamento que se torna
útil na proclamação do Evangelho.
A vida de Priscila mostra também possibilidades que de há muito
vêm sendo negligenciadas a abertura do lar tanto para a evangelização
como para a edificação da Igreja. Teria Paulo aprendido isto com Priscila
e Áquila? Pois ele serviu-se exatamente desse meio no futuro, quando
todas as outras portas se haviam fechado para ele (At. 28:30,31). Mesmo
nos nossos dias Priscila inspira muitos a porem os seus lares ao dispor
para a expansão do Reino de Deus.
Muito mais importante do que o nome de Priscila na história é o
fato de que através das gerações ela tem estimulado as pessoas a
seguirem Cristo – de várias maneiras.

Priscila, uma valiosa colaboradora na pregação do Evangelho.

(Atos 18:1-4,18-20,24-26; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19).

Perguntas:
1. Enumere todas as igrejas em que Priscila e o marido
serviram. O que é que isto revela a respeito do seu caráter?
2. Compare a dedicação de Priscila ao Evangelho com Atos
28:30,31. Qual foi a oportunidade que se revelou única para
o alargamento do Evangelho?
3. Estude o seu encontro com Apolo, à luz de 2 Timóteo 2:2 e
enumere as suas conclusões.
4. Leia Atos 18:24-26, cuidadosamente. Que condições tinha
satisfeito Priscila a fim de poder ser útil nessa situação?
5. Faça o resumo de todas as oportunidades que Priscila
utilizou para ser um instrumento útil na pregação do
Evangelho.
6. Em que sentido é que ela constitui um motivo de
encorajamento e estímulo para si? O que vai fazer para
seguir o seu exemplo?
LIVRO

2
PREFÁCIO

O meu primeiro livro, Seu Nome É Mulher, estava limitado pelo seu
tamanho e, portanto, só pôde incluir algumas das muitas mulheres da
Bíblia. Perguntas como, "E quanto a Rute ou Débora?" e "Por que é que
não mencionou Maria Madalena?" iriam forçosamente aparecer. Seu
Nome É Mulher, II Volume, explora a vida de mais 25 mulheres da
Bíblia que não haviam sido estudadas no primeiro livro.
A Bíblia deve ser o guia para toda a mulher que tenta descobrir o
significado da sua existência. Nas Escrituras, qualquer mulher pode ver
que Deus a criou à Sua própria imagem e que pode entrar numa relação
pessoal com Jesus Cristo, o Salvador do mundo. Verificará também que
para se realizar plenamente tem de viver em íntima comunhão com o seu
Criador. Estes fatos tão interessantes expressam claramente os seus
desejos e ideais mais profundos.
A Bíblia oferece orientação a toda a mulher que suspira por uma
vida com sentido e que procura tornar-se plena e realizada. Estas
pressões inatas e íntimas brotam da comissão que Deus deu à mulher
quando da sua criação. Ele espera que esta, que é companheira do
homem e sua igual, esteja pronta a assumir a sua parte para o bem-estar
do lar e da sociedade. Este livro, como o primeiro, demonstra que o lado
espiritual duma mulher é extremamente importante.
Em Seu Nome E Mulher, II Volume, verá como diversas
mulheres da Bíblia cumpriram as suas tarefas e levaram a cabo a sua
vocação. Nos tempos bíblicos, exatamente como em nosso próprio
século, algumas mulheres foram bem sucedidas e outras fracassaram. As
perguntas que precisamos fazer são, "Por quê?" e "Como?"
"Tudo isto lhes sobreveio como figuras e estão escritas para aviso
nosso", escreveu Paulo (I Coríntios 10:11). Portanto, devemos considerar
estas mulheres da Bíblia como ilustrações vivas para nós. Devemos tirar
lições das suas vidas, receber coragem, conforto e aviso do seu exemplo e
encontrar Jesus Cristo através de algumas delas.
A recepção que teve Seu Nome É Mulher deixou-me animada.
Espero que este livro tenha a mesma calorosa aceitação.
Pode abordar esta obra de duas maneiras. Primeiro, lendo-a
simplesmente. Não deixe de incluir na sua leitura os textos bíblicos no
princípio de cada capítulo. Constituem uma parte importante do livro.
Segundo, estudando o livro num grupo de discussão. Considere os
assuntos e as perguntas com algumas outras pessoas, em casa ou no seio
dum pequeno grupo. Isso lhe dará uma maior compreensão do estudo
sobre estas mulheres.
As referências que se encontram ao fundo de muitas páginas ajudá-
lo-ão a penetrar mais fundo nas riquezas da verdade e sabedoria da
Bíblia. Pode responder diretamente às perguntas que estão no fim de
cada capítulo, ou discuti-las no grupo. Pode também orientar o estudo
destas mulheres por tópicos, ou pesquisar os temas relacionados. Seja
qual for o método que adote, servir-lhe-á de estímulo à apreciação deste
estudo em grupo, especialmente depois de você próprio se haver
preparado.
Eu creio que o seu encontro com estas mulheres da Bíblia se
tornará uma agradável surpresa para si e que irá notar quão atuais e
relevantes são as suas experiências para nós.
Peço a Deus que elas lhe mostrem o caminho para uma vida mais
rica e mais feliz com Deus e com as outras pessoas.
AGAR,

CUJA EXTREMA NECESSIDADE FOI SATISFEITA POR


JESUS CRISTO

"Se ela deu uma serva ao marido e esta deu à luz filhos,
considerando-se depois igual à sua senhora, esta, por causa desses
filhos, não a poderá vender por dinheiro, reduzi-la-á à escravidão e a porá
entre as suas escravas."
Das Leis de Hamurábi*

Gênesis 16:1-16
Gênesis 21:1-21

Agar avançava lentamente ao longo do caminho irregular. Os seus


pés e artelhos fatigados doíam-lhe mais a cada passo que dava, e as
costuras da sua longa túnica estavam puídas e rasgadas. O coração batia-
lhe apressadamente por causa do esforço daquela jornada; os olhos
ardiam-lhe com o escaldante calor do sol.
O deserto que percorria dia após dia não lhe oferecia qualquer
proteção. Durante o dia, um calor horrível levantava a areia em vapores
e,um vento agreste atirava-lhe com o pó para a boca e nariz. A noite, a
temperatura baixava e.a terra tornava-se muito fria.
A despeito dos riscos, Agar continuava a caminhar em direção ao
Egito, a sua terra natal. Queria voltar ao lugar onde Sara, a mulher de
Abraão (como eles foram chamados mais tarde), a tinha comprado cerca
de 25 anos antes e a levara depois para Canaã como escrava.
Enquanto caminhava, ia refletindo sobre os anos anteriores.
Tinham sido anos bons. Embora fosse uma escrava, tinha desfrutado de
uma vida agradável. Afinal, pensava ela, eu tenho sido bem feliz em viver
com Abraão e Sara, com quem Deus fez mesmo uma aliança especial.
Através do exemplo deles, ela tinha tido contato com o Deus vivo.
Não obstante estas boas recordações do passado, não eram
pensamentos de gratidão os que agitavam naquele momento a cabeça de
Agar. Longe disso! Sentindo que tinha sido maltratada e mesmo
profundamente ofendida, ela estava cheia de amargura.

* De The Women of the Bible (As Mulheres da Bíblia) de Herbert Lockyer, p. 62, Copyright 1967,
Zondervan Publishing House. Usado com permissão.
De certo modo, Agar estava a sofrer as conseqüências duma
situação lamentável que existia na casa de Abraão. Quando ele se mudara
da terra que ficava entre os rios Eufrates e Tigre para Canaã, Deus havia-
lhe prometido um filho e tinha-lhe dito que por esse filho ele se tornaria
o pai duma multidão de nações. Gên. 12:1-5.
Mas os anos foram passando e o filho não chegara. Preocupada,
Sara convenceu-se de que o filho prometido devia nascer duma
concubina, uma segunda esposa, e não dela. De acordo com as leis desse
tempo, era permitida tal prática. De fato, um bebê que nascesse deste
acordo era legalmente considerado como filho da verdadeira mulher e,
como tal, herdeiro legítimo. Com vista à concretização desse plano, Sara
pensou em Agar, que ocupava uma posição de privilégio no círculo da
família. Depois de Agar se tornar a segunda esposa de Abraão não
demorou muito a dar-lhe a boa notícia, "Estou grávida!"
Antes da gravidez de Agar, e uma vez que não tinha filhos (Gên.
15:2-5), Abraão tinha pensado que Eliezer, mordomo da sua casa, seria o
seu herdeiro legal. Mas agora, por intermédio de Agar, o filho que Deus
lhe tinha prometido poderia estar a aparecer. Embora Abraão tivesse
razões para esperar que o seu herdeiro fosse um filho de Sara, até essa
altura Deus nunca lhe havia dito quem seria a mãe. Ele esperou 13 anos
até que Deus lhe desse a resposta a essa questão. Gên. 17:15-16.
Em breve se tornou evidente que a solução de Sara tinha sido
simplesmente humana. A bênção de Deus para Agar nunca fora pedida,
nem dada. Impaciente, e duvidando da capacidade de Deus para resolver
a sua situação, Sara havia escolhido a sua própria solução e Abraão tinha-
se enquadrado demasiado depressa nos seus planos. Não admira que a
paz de Deus tivesse desaparecido daquele lar.
Naquela época da história, uma mulher estéril era desprezada por
todos. Infelizmente, Agar não perdia a oportunidade de manifestar tais
sentimentos para com Sara. Então, como agora, poucas coisas havia no
mundo que fossem tão subtis e ao mesmo tempo se transmitissem com
tanta clareza como os sentimentos duma mulher para com outra.
Por seu turno, Sara reagia contra essas silenciosas afirmações de
Agar. Também ela tinha as suas armas e sabia como usá-las. Na
qualidade de senhora, assistiam-lhe direitos mais antigos e maiores, fato
confirmado pelas leis do seu tempo. Agar continuava a ser sua possessão
pessoal e podia agir com ela como lhe apetecesse.
Não podendo aproximar-se de Agar sem a permissão de Sara,
Abraão também não conseguia impedir que Sara usasse do seu poder
para humilhar Agar.
Embora os três tivessem transgredido as leis de Deus e fossem
igualmente culpados aos Seus olhos, é compreensível que a atitude de
Agar ferisse profundamente Sara. Essa ferida explica em parte o modo
horrível como Sara tratou Agar. Todavia, o conhecimento desse íntimo
conflito de Sara não torna mais fácil de aceitar a humilhação a que Agar
foi sujeita.
Agar, cansada do tratamento de Sara, perdeu finalmente a
paciência. Sem pedir autorização, fugiu para o deserto. Agindo assim,
estava a confirmar o seu nome, pois Agar significava literalmente "Fuga".
Sabendo perfeitamente que tanto ela como o bebê que esperava
estariam provavelmente a encaminhar-se para a morte, ela abandonou o
acampamento. Só, sem comida, ela sabia que talvez nunca chegasse à sua
terra. O seu filho talvez nunca viesse à vida. Mas via-se forçada a tentar.
Instintivamente, começou a caminhar em direção ao sul através da
estrada que levava ao Egito. Quanto mais andava, maior se tornava o
perigo. Ela havia trocado uma comunidade abrigada por um deserto sem
fim e inóspito. Nem pessoa nem animal se podia ver por quilômetros e
quilômetros; não havia ninguém para a ajudar.
Algures lá na parte do nordeste da Península do Sinai, Agar chegou
a um poço no deserto, junto da estrada que seguia em direção a Sul. O
oásis proporcionou-lhe frescura e descanso, mas não acalmou as suas
ânsias mais profundas.
Só, longe da segurança e amizade, ela clamou do mais íntimo do
seu ser ao Deus de Abraão, o Único que a podia salvar. E Ele não a tinha
abandonado. Aquele pontinho que se movia lentamente pelo difícil e
arenoso deserto do Sinai, não havia escapado à sua atenção. Deus
mantivera os Seus olhos sobre Agar, do mesmo modo que o faz em
relação a toda a humanidade.
"Agar", clamou Ele, tratando-a pelo seu primeiro nome. Gên. 16:7-
9. Deus sabia exatamente quem ela era.
"Serva de Sarai", acrescentou o Senhor, colocando-a no quadro em
que a via. Aos olhos de Deus ela era ainda a serva de Sara. Ele não
começou a conversa com uma repreensão, embora naquelas
circunstâncias o pudesse ter feito.
"Donde vens e para onde vais?", perguntou então o Senhor. Esta
maneira descontraída de lhe falar permitiu a Agar expressar livremente o
que sentia. Jesus Cristo, que durante os anos que permaneceu nesta terra
iria usar o mesmo método com mulheres pecadoras e ganhar assim os
seus corações, estava a falar-lhe. João 4:4-42; 8:3-11. O próprio Jesus
Cristo se abeirou dela na pessoa do Anjo do Senhor. Tratava-se de uma
das aparições do Senhor Jesus no Velho Testamento, antes da
encarnação.
Mais tarde, Ele iria revelar-se do mesmo modo a Abraão, pai de
todos os crentes (Gên. 17:4-5), e a Moisés, o que dera a Lei (Êx. 3:2-6),
dois homens a quem a Bíblia chama amigos de Deus. Tg. 2:23; Êx. 33:11.
Tanto o patriarca Jacó como Gideão, o herói da fé, ficaram também
profundamente impressionados quando tiveram um encontro com Cristo
em circunstâncias semelhantes. Gên. 28:12-17; Juí. 6:11-23.
Mas o primeiro encontro de Jesus Cristo, narrado de fato, com uma
pessoa, foi este com Agar, muito antes de Ele ter vindo à terra para
redimir a humanidade. Sendo uma jovem pagã que não pertencia ao
povo de Deus, ela – a mãe dum bebê por nascer – tinha vindo à presença
de Deus em necessidade extrema. Por sua vez, Deus mostrou-lhe o
caminho para a solução do problema. Numa atitude de humildade e
arrependimento ela obedeceu e regressou ao acampamento de Abraão. O
pecado de Agar, como o de Eva, era o orgulho.
Renunciando a esse espírito orgulhoso e rebelde e à sua obstinada
independência, ela voltou para Sara sua senhora.
Em vez de tentar impor a sua posição ou falar dos seus próprios
direitos, Agar precisava humilhar-se. O próprio Senhor lhe havia dado
um exemplo de humildade quando desceu para falar com ela. Mais tarde,
Ele iria humilhar-Se muito mais a fim de providenciar aos pecadores
uma alternativa para a morte. Filip. 2:5-11. Ele daria uma vida nova a
todo aquele que confiasse pessoalmente nEle para glória de Deus.
O Senhor, que dá bênçãos especiais àqueles que têm a coragem de
se humilhar (1 Ped. 5:6), honrou a obediência de Agar. "O bebê que
esperas é um rapaz", disse Ele. "Chamar-lhe-ás Ismael (esse nome
significava 'Deus ouve'). Multiplicarei sobremaneira a tua semente; que
não será contada, por numerosa que será". Gên. 16:10-12.
O filho que esperava não seria um homem com quem se lidasse
facilmente. Teria um caráter rude e indomável. Contudo, quanto ela se
deve ter alegrado no fundo do coração com estas palavras de Deus! Havia
de novo esperança. Em vez de aguardar a morte, ela tinha agora
perspectivas de vida. O futuro desabrochava para ela e seu filho. Jesus
tinha um plano para as suas vidas e descera do céu para o partilhar
diretamente com ela.
"Oh Deus que me vês"! – exclamou ela em adoração e culto.
Todavia, sentia-se ao mesmo tempo receosa e intimidada. Eu vi Deus e
continuo viva, pensou ela depois de o Senhor a deixar. Eu poso dizer isso
aos outros.
Mais tarde, esse poço onde ela encontrou Deus foi chamado Laai-
Roi (Gên. 16:14), que traduzido significava, "o poço do Deus Vivo que me
vê". Agar tivera uma experiência com o Deus verdadeiro, que a viu e
atendeu na altura da sua necessidade.
Enquanto vivesse, Agar recordaria certamente esta experiência com
Deus. Cada vez que pronunciasse o nome de Ismael, iria recordar-se do
fato: O Deus vivo tinha ouvido e atuado.
Passaram-se aproximadamente 17 anos. Ismael era então um jovem
robusto. Isaque, o filho da promessa, já havia nascido e, com três anos de
idade, estava agora pronto para ser desmamado.
Nessa época, o ato de desmamar um filho era motivo para grandes
festejos, pois considerava-se um marco importante na vida da criança.
Toda a casa de Abraão e muitos dos seus amigos das cidades vizinhas
vieram celebrar e ver por eles próprios o milagre que Deus havia
realizado na vida de Abraão e Sara. Estes, tendo já 100 anos e 90,
respectivamente, tinham sido abençoados com um filho na sua velhice, o
filho da promessa, de cuja descendência viria mais tarde o Messias.
Mas a atmosfera da festa não foi totalmente agradável. Ismael, o
filho mais velho, não podia tolerar toda a atenção de que estava sendo
alvo o seu irmão mais novo, e começou a troçar dele. Sem dúvida que por
detrás desta cena havia mais do que uma simples e inocente rivalidade
entre dois irmãos. Ismael, o filho natural, que fora gerado em
incredulidade e impaciência, sentia-se inferior a Isaque, o filho da
promessa. Não querendo aceitar um lugar secundário, Ismael recusou-se
a reconhecer a posição privilegiada de Isaque. Desconhecendo as
promessas de Deus feitas a sua mãe no deserto, muitos anos antes,
Ismael não queria aceitar a sua posição subalterna.
Abraão amava igualmente os dois filhos, como só um pai o pode
fazer. Apenas Sara compreendia o que estava em jogo. "Deita fora esta
serva e o seu filho", pediu ela a Abraão, "porque o filho desta serva não
herdará com o meu filho, com Isaque". Gên. 21:10.
Perante esta afirmação categórica da sua esposa, Abraão ficou
preocupado e confuso. Quando orou, Deus mostrou-lhe que a separação
dos filhos era necessária. A linha patriarcal da tribo que Deus havia
escolhido para o Seu futuro povo, Israel, seguiria por Isaque. Só ele era o
filho da promessa de Deus (Gál. 4:22-23), e se tornaria o antepassado
duma família de 12 tribos. Abraão compreendeu então que, dali em
diante, a diferença entre os dois filhos tinha de ser bem clara. Sara tinha
razão. No entanto, no meio desta confusão, a promessa de Deus a Agar de
que a sua descendência se tornaria numerosa permaneceu válida. Como
Isaque, Ismael iria tornar-se o pai duma família de doze tribos pelo fato
de ser filho de Abraão. Gên. 25:12-16.
Assim, Abraão teve de mandar embora Agar e seu filho, para o
deserto. Depois de morar na casa de Abraão cerca de 30 anos, ela via-se
agora forçada a partir. Enquanto Abraão enchia o odre de água para
Agar, os três reconheciam que o alimento e a água que ela levava não
duraria muito. No entanto, a difícil jornada começou.
O inevitável chegou demasiado depressa. As reservas de água
acabaram e, não obstante as suas buscas aflitivas, Agar e Ismael não
conseguiram encontrar uma fonte. O moço, enfraquecido pela caminhada
e sofrendo os efeitos da desidratação, foi o primeiro a cair exausto.
Quando a mãe verificou que o filho ia morrer dentro em breve, usou a
sua última energia para o arrastar para debaixo dum arbusto, pequeno
mas abrigado. Era o último serviço que ela poderia prestar ao filho.
Depois de ter feito tudo o que podia pelo seu querido filho, Agar
não teve coragem de se sentar ao lado dele vendo-o sofrer por mais
tempo. Entorpecida pela fadiga e pela dor, ela sentou-se a alguma
distância e chorou amargamente.
De repente, ela ouviu, vinda do céu, a mesma voz familiar que tinha
escutado no deserto, muitos anos antes. Uma vez mais, o Anjo do Senhor
fez-lhe uma pergunta, "Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a
voz do rapaz desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o moço, e pega-
lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação". Gên. 21:17-18.
Estupefata, ela ergueu os olhos e viu um poço de água fresca a poucos
passos de distância. Esforçando-se por se levantar, correu e tornou a
encher o odre de água. Com essa água que Deus tinha providenciado, o
filho bebeu uma nova vida.
Pela segunda vez, Jesus Cristo havia visitado Agar na sua miséria
para salvar a vida dela e do filho. De novo, fora-lhe feita a promessa dum
futuro esperançoso para Ismael.
Quando o moço já era mais velho, a mãe foi ao Egito e trouxe-lhe
uma esposa. Por essa atitude, provou que ainda era pagã no seu coração.
A longa estadia junto de Abraão e Sara não a modificara por completo.
Mesmo aquele encontro com Jesus Cristo não havia realmente
transformado o seu ser. O Senhor a quem ela tinha clamado em tempo de
necessidade, e que a tinha ajudado, não se tornara de fato o Senhor da
sua vida. Ela não Lhe chegara a dar o coração.
Como o Senhor sabia que Agar iria escolher os ídolos do passado,
teve de permitir a sua partida forçada, da casa de Abraão. Em vez de
desfrutar duma existência protegida e segura junto de Abraão, ela havia
preferido viver uma vida nômade no deserto. Por causa da lamentável
escolha de Agar e Ismael de se imporem a si mesmos, em lugar de
viverem pela fé no Deus de Abraão, toda a história do mundo foi afetada.
Ismael tornou-se o fundador das nações árabes, enquanto que os
israelitas são descendentes de Isaque. A inimizade destas duas raças
ainda continua nos nossos dias, e a situação do Médio Oriente permanece
extremamente explosiva.
Mas, apesar de tudo, Agar ergue-se na história como uma prova de
que Jesus Cristo ama as pessoas. Todo o homem, mulher e criança,
mesmo ainda por nascer, é objeto do Seu amor. A Sua manifestação a
Agar provou que toda a pessoa que, estando em necessidade, clamar a
Ele, será atendida. Jesus Cristo, que Se prontificou a revelar-Se a uma
mulher que havia atingido o limite das suas possibilidades, continua
ainda hoje à disposição de todo aquele que O busca.

Agar, cuja extrema necessidade foi satisfeita por Jesus Cristo

(Gênesis 16:1-16 ; 21:1-21)

Perguntas:
1. Descreva resumidamente e nas suas próprias palavras a
história de Juízes 13:3-24. Que semelhança lhe nota com
Agar?
2. A Bíblia fala de outras aparições do Anjo do Senhor (Gênesis
32:24-40; Josué 5:13-15 ; Juízes 6:11-24). Quais foram as
reações destas pessoas e em que sentido se pareceram com
as de Agar?
3. A que ponto Se humilhou Jesus Cristo diante dos homens?
(Filipenses 2:5-11).
4. Que alvo tinha Ele em mente quando veio à terra?
5. Que atitude devem ter as pessoas umas para com as outras?
(1 Pedro 5:5-6). Por quê?
6. Já experimentou o interesse pessoal de Cristo em si? Se sim,
dê um exemplo.
A MULHER DE LÓ,

QUE NÃO LEVOU A SÉRIO A GRAÇA DE DEUS

"A cordilheira montanhosa ab Sodoma consiste inteiramente de sal.


Uma das suas formas lembra vagamente ama figura feminina. Os guias
de turistas ainda apontam para ela como sendo a estátua de sal em que a
esposa de Ló ficou transformada."
A Autora

Gênesis 19:1-17
Gênesis 19:24-26

Cerca de 20 séculos depois de Cristo, os autocarros israelitas


chegam e partem da costa sudoeste do Mar Morto. Turistas de todas as
partes do mundo vêm ver o local onde ficavam Sodoma e Gomorra, ao
qual os árabes ainda chamam Bahr Loet – "o Mar de Ló".
Não há muito que ver. Sodoma é mais uma experiência do que uma
atração turística. Não existe qualquer sinal de vida. Não há cores a
alegrar a paisagem. A superfície do lago que fica a cerca de um quarto de
milha abaixo do nível do mar, é o lugar mais baixo da terra e evapora
rapidamente nas elevadas e quase insuportáveis temperaturas. O ar vibra
com o calor, e sente-se que está sobrecarregado de odores de sal e
enxofre.
Nesta atmosfera pesada e desoladora, não é preciso muita
imaginação para se reconhecer que um dia teve lugar ali uma catástrofe.
É como se o juízo ainda pairasse sobre a região. "Olhem, lá está a mulher
de Ló", dizem os guias dos turistas quando apontam para uma forma
bizarra na cordilheira rochosa, mas esse fato é difícil de comprovar.
Por outro lado, há séculos atrás, este mesmo local era agradável,
verde e cheio de vida (Gên. 13:10). As transações em Sodoma e Gomorra
iam-se processando como de costume e não havia muita indicação de que
o juízo de Deus estivesse a chegar.
Apesar dos seus subúrbios tranqüilos, na noite do dia que Deus
havia designado, a animada cidade de Sodoma estava em alvoroço por
causa de dois homens que tinham vindo visitar Ló e a sua família.
Saberia a mulher de Ló que os seus hóspedes eram anjos de Deus
enviados para julgar a cidade? Provavelmente, ela não sabia com que
insistência o patriarca Abraão intercedera junto de Deus para que
salvasse as cidades de Sodoma e Gomorra se lá houvesse só alguns
habitantes justos (Gên. 18:23-33). "Tenho ouvido", dissera Deus a
Abraão, "que os habitantes de Sodoma e Gomorra estão totalmente
corrompidos e que tudo o que fazem é perverso. Vou descer para ver se
estas referências são verdadeiras ou não. Depois o saberei" (Gên. 18:20-
21).
Mas a mulher de Ló sabia bem que a vida em Sodoma era imoral há
muitos anos. A sodomia – um aspecto aberrante de homossexualidade
(Rom. 1:26-27) – era praticada tão abertamente que recebeu o nome da
cidade de Sodoma. A situação tinha-se tornado tão deplorável nos
últimos anos, que a população masculina da cidade – jovens e velhos –
correu para raptar os hóspedes do seu marido.

Escrituras do Novo Testamento confirmam a iniqüidade


de Sodoma e Gomorra. Elas entregavam-se a práticas de
buscasse profunda imoralidade (Judas 7) e assim foram
condenadas, e reduzidas a cinzas (2 Pe. 2:6).

Ela reparou que o marido deixou a segurança do lar para tentar


negociar com a turba desordenada e sedenta de violência. Ficou
preocupada quando Ló ofereceu duas filhas virgens em troca dos dois
homens, mas desse momento em diante a situação começou a modificar-
se demasiado depressa para ela se poder aperceber da realidade.
Primeiro, os sodomitas voltaram a sua ira contra Ló de modo tal que só
um milagre, uma intervenção dos próprios homens de Deus, salvou a
vida do seu marido.
Depois, ela ouviu que os dois visitantes faziam várias perguntas
muito sérias a Ló. "Que parentes tens nesta cidade?" – perguntaram eles.
"Tens genros, filhos e filhas? Leva-os para longe daqui! Faz isso o mais
depressa possível, pois nós vamos destruir completamente a cidade. Deus
enviou-nos para isso" (Gên. 19:12-13).
A princípio, ela pensou que os visitantes estavam apenas tentando
preocupar Ló, sem necessidade. Mas eles haviam salvo o seu marido
daquela multidão desvairada, e assim começou a dar mais atenção às
suas palavras. O marido também ouviu e começou a obedecer. Correu
excitado para fora da porta e tentou em vão persuadir os genros a
fugirem da cidade com ele e sua família. Quanto insistiu com eles, para
afinal ficar frustrado e humilhado quando as suas gargalhadas lhe
ecoaram nos ouvidos. Estavam convencidos de que Ló estava a brincar e
olharam para ele como se tivesse perdido o juízo (Gên. 19:14).
Talvez a mulher de Ló tivesse conseguido dormir algumas horas,
antes de amanhecer, enquanto o marido estava fora. Mas com os
primeiros raios da manhã, os dois visitantes acordaram-na com gritos de
urgência. "Depressa, depressa, deixa a cidade enquanto podes. De outro
modo serás destruído com ela", disseram eles ao marido (Gên. 19:15). Ela
olhava com hesitação à sua volta – fixava o marido, as filhas, a casa. Por
que é que eu hei de deixar a minha casa? – perguntava ela a si mesma.
Viver nesta cidade, nesta casa... é bom, não é? Estou familiarizada com
tudo isto. O meu marido tem uma posição respeitável no conselho da
cidade e as minhas filhas estão noivas e vão se casar. A vida corre
normalmente. Na realidade, nada mudou. Por que é que o juízo de Deus
havia de vir repentinamente sobre nós?
Teria a mulher de Ló saído da Mesopotâmia com ele e com a
família, alguns anos antes ? Ou tê-la-ia encontrado Ló muito mais tarde,
em Sodoma? O passado dela é desconhecido, assim como o nome.
Quer ela tivesse nascido em Sodoma ou não, o fato é que a cidade
controlava agora os seus pensamentos. Estava ligada a Sodoma pelo
coração.
A Bíblia não diz se ela tinha uma relação pessoal com Deus ou não.
Todavia, em virtude do seu casamento, tornara-se parente próxima de
Abraão, a quem as Escrituras chamam "o pai de todos os crentes".
Abraão e Sara viviam em Hebrom, que ficava bastante perto de Sodoma.
Sem dúvida que ela se tinha encontrado com eles e desse modo ouvira
falar de Deus.
Ló, o seu marido, também conhecia o Senhor Deus, mas na
proporção em que se ia ligando mais a Sodoma, assim se afastava dEle.
Nesse momento da vida, Deus fez a Sua decisão. Não podia
permitir que a iniqüidade de Sodoma continuasse por mais tempo. Tinha
de castigar a cidade por causa dos seus graves e hediondos pecados. A
despeito da Sua ira, o coração de Deus inclinava-se para a mulher de Ló e
sua família. Ele queria salvá-la das garras da morte que já se estendiam
para a cidade. Desejava proceder com misericórdia para com ela,
oferecer-lhe uma graça que ela de fato não merecia. Deus enviou mesmo
os Seus anjos à sua casa para tentarem salvar as poucas pessoas que não
precisavam ser destruídas.
Apesar disso, ela hesitava. Desperdiçava tempo precioso. Os anjos
esperavam com impaciência que ela se mexesse, mas por fim não
puderam demorar mais. O cálice da ira de Deus estava cheio até às
bordas, até à última gota. Cada segundo que eles esperavam significava
maior perigo para as suas vidas.
Deus havia feito tudo o que podia para salvar Ló e a sua família.
Não obstante o amor de Ló pelo Senhor ter esfriado, Deus ainda o
considerava um homem justo (2 Pe. 2:8). Mas agora era necessário que a
família desse ouvidos aos Seus mensageiros e atendesse aos seus avisos.
Eles tinham que deixar a cidade de pecado, para trás.
Subitamente, um dos anjos agarrou na mão da mulher de Ló e
levou-a para fora da porta da sua própria casa, insistindo com ela:
"Escapa-te por tua vida. Não olhes para trás de ti, não pares em toda esta
campina; escapa lá para o monte, para que não pereças" (Gên. 19:10).
Tendo-se esgotado o tempo, Ló e a sua família partiram de casa.
Quando atingiram os subúrbios da cidade, Ló pediu autorização para
ficar na pequena e próxima cidade de Zoar.
Os anjos concederam-lhe, mas insistiram com ele para que evitasse
qualquer perda de tempo. "Apressa-te e escapa-te para Zoar", declararam
os anjos, "porque nada poderei fazer, enquanto não tiveres ali chegado"
(Gên. 19:21-22).
Assim, a família seguiu para Zoar. De acordo com os costumes
orientais, Ló ia à frente. A esposa ia alguns passos atrás.
Mal tinham chegado à pequena cidade, quando o juízo desabou.
Uma chuva de fogo e enxofre caiu do céu sobre Sodoma e Gomorra. As
forças da natureza fustigaram violentamente as duas cidades, reduzindo-
as a cinzas. Toda a região foi varrida da face da terra pela mão do Senhor.
Nenhum ser humano, nem animal, nem o menor vestígio de relva ou
arbusto permaneceu com vida.

"Deus fala uma e duas vezes ao homem, mas ele não


ouve", disse um dos amigos de Jó, "... levando os homens a
mudar os seus pensamentos... avisando-os do castigo do
pecado, e impedindo-os de caírem na armadilha" (Jó 23:14,17,
literalmente do holandês).

Quando a violência do céu irrompeu, a mulher de Ló deu provas de


que não tinha levado a sério a Palavra de Deus. Olhou para trás. Os seus
pés haviam-se afastado de Sodoma, mas o coração ainda se inclinava
para lá.
Esse olhar foi-lhe fatal. A chuva de enxofre e sal atingiu-a, cobriu-a
e tornou-se a sua sepultura. Bíblia descreve a sua história em quinze
palavras: "E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa
estátua de sal" (Gên. 19:26).
Ela podia ter escapado à morte, pois Deus tinha-a avisado a tempo.
Mas não levou a sério a advertência de Deus. Ignorou a Sua graça,
cometendo assim um grave erro. Usando as palavras de Davi, ela não se
interessou absolutamente nada com Deus ou com o que Ele havia feito
(Sal. 28:5). As palavras de Isaías também se lhe podem aplicar
diretamente. "Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende
a justiça; até na terra da retidão ele pratica a iniqüidade, e não atenta
para a majestade do Senhor" (Isa. 26:10).
Essa negligência custou-lhe a vida. Ela não deixou que Deus a
salvasse. Não aceitou a mão salvadora que Ele havia estendido na sua
direção. Morreu por não querer obedecer e agir pela fé, e não realmente
por causa dos pecados de Sodoma. Ela havia recebido a graça de Deus em
vão (Luc. 17:32).
Jesus usou-a mais tarde como uma advertência: "Lembrai-vos do
que aconteceu à mulher de Ló!" – disse Ele aos discípulos em face do
juízo final que está para vir (Luc. 17:32)

"Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo", escreve o


autor de Hebreus. "... Porque o nosso Deus é um fogo
consumidor." (Heb. 10:31; 12:29).

A mulher de Ló tinha ultrapassado a possibilidade de ser salva. O


seu destino foi selado. Todavia, a sua memória pode ainda ser uma
bênção, se as pessoas que lêem a sua história estiverem prontas a aceitar
a graça que Deus continua a oferecer. Há uma plenitude de graça em
Jesus Cristo (Ef. 1:7-8), e as pessoas que crêem nEle recebem graça, um
dom imerecido de Deus (Ef. 2:8).
Há esperança para todo o ser humano que leva a sério o que a
Bíblia diz. "Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais
firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos. Se,
pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda
transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos
nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido
anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que
a ouviram" (Heb. 2:1-3)

A Mulher de Ló, que não levou a sério a graça de Deus

(Gênesis 19: 1-17, 24-26)

Perguntas:
1. Conte resumidamente a história da mulher de Ló, nas suas
próprias palavras. (Leia também Gênesis 13:5-13).
2. Qual era o maior pecado dos sodomitas? (Leia também
Judas 7 e II Pedro 2:6-8).
3. O que é que chocou em relação com a graça que Deus
ofereceu à mulher de Ló ? (Leia também Jó 33:14, 17-18; II
Coríntios 6:1).
4. Qual lhe parece ser o pecado que custou a vida à mulher de
Ló ?
5. Considere esta história à luz de Hebreus 2:1-3. Quais são as
suas conclusões?
6. Que princípio aprendeu do exemplo da mulher de Ló e
como é que ele pode influenciar favoravelmente a sua vida?
RAQUEL,

QUE ATRAI NA APARÊNCIA, MAS DECEPCIONA NO SEU


ÍNTIMO

"Há dois tipos ab beleza. Há uma beleza que Deus dá no


nascimento e que murcha conto a da flor. E há outra beleza que Deus
concede quando, pela Sua graça, os homens nascem de novo. Esse tipo
de beleza nunca desaparece, antes permanece eternamente".
Abraão Kuyper *

Gênesis 29:1-30 (Ler também 30-33;35)

Algo confusa, Raquel olhou para o estrangeiro que estava de pé


junto ao poço. Tinha-se encontrado com ele alguns minutos antes,
quando, de acordo com a sua rotina diária, ela havia conduzido o
rebanho até ali, para lhe dar de beber. Quando se aproximava do poço,
vira com espanto como o estrangeiro tirava a pedra da boca do poço, com
a maior facilidade. Esse trabalho requeria geralmente a força de vários
homens robustos.
Embora nunca o houvesse visto antes, ele não lhe parecia
totalmente estranho. Havia algo na sua pessoa que lhe era familiar.
Alguns momentos depois, ela compreendeu o porquê; ele apresentou-se
como seu primo. Tratava-se de Jacó, o filho de Rebeca, sua tia, que anos
antes tinha partido da sua terra para Canaã, a fim de casar com Isaque,
seu pai.
Ele acha-me bela, pensava ela enquanto observava furtivamente a
maneira como ele a tratava. Este pensamento não era nada de novo para
Raquel. Estava habituada a atrair a atenção com o seu belo rosto e a sua
figura esbelta, e tinha aprendido a aceitar com naturalidade esta
homenagem à sua beleza, como tem acontecido com muitas mulheres
bonitas. Mas a maneira como este homem a fitava era diferente. Os seus
olhos penetrantes revelavam uma chama de amor nascente, e o seu beijo
de saudação parecia significar mais do que um mero cumprimento
impetuoso de um parente recém-chegado.

* De Women of the Old Testament, por Abraão Kuyper, pp. 32-33, Copyright 1933.. Zondervan
Publishing House. Usado com permissão.
Cativado pela beleza de Raquel desde o primeiro momento em que
a viu, Jacó experimentou um profundo e crescente amor pela sua bela
prima. Demonstrou-lhe o seu interesse um mês mais tarde, tornando-se
membro da família de Labão.
"É certo que tu és meu parente, mas isso não quer dizer que tu
devas trabalhar para mim sem salário", disse Labão a Jacó. "Quanto é
que queres ganhar? Indica o preço" (Gên. 29:15). Não houve o menor
sinal de hesitação na resposta de Jacó. "Sete anos te servirei por Raquel,
tua filha menor" (v. 18), disse ele resolutamente. Amava Raquel e estava
pronto a fazer o máximo para a ter como esposa. Embora sete anos
fossem muito tempo, para Jacó as muitas semanas e meses pareciam
tornar-se menos dias, por causa do seu grande amor.
E Raquel ? Quais seriam os seus sentimentos durante este período?
Amaria ela Jacó do mesmo modo que era amada por ele? A Bíblia não
nos diz nada a respeito dos seus sentimentos, nem da sua reação ao fato
horrível que aconteceu na altura do casamento, embora isso deva ter sido
muitíssimo penoso para ela.
Lobão, pensando só naquilo que lhe convinha a ele, não se
importou de usar meios ilícitos para alcançar o seu alvo. Aproveitou-se
deliberadamente da grande paixão de Jacó por Raquel a fim de casar
primeiro Léia, sua filha mais velha e pouco atraente. Trocando as filhas,
Labão enganou Jacó levando-o a casar com Léia em vez de Raquel.
Jacó expressou a sua ira em relação ao embuste do sogro com
palavras violentas, na manhã seguinte, mas não existe qualquer registro
da reação de Raquel. Não teria ela suspirado durante tantos aqueles anos
por ele, como Jacó suspirava por ela? Teria aquela troca das noivas
produzido alguma tristeza no seu coração? Quais seriam os seus
pensamentos mais íntimos? Seria a sua beleza exterior o reflexo da beleza
do seu coração? As suas reações às circunstâncias da vida fornecem-nos
as respostas.
Uma semana depois do casamento, Jacó casou de novo, desta vez
com Raquel, sob a condição de servir Labão durante mais sete anos.
O casamento de um homem com duas mulheres causava problemas
especiais que se agravaram ainda mais neste caso em que as mulheres
eram irmãs. Assim, Raquel e Léia não escaparam às tensões que
acompanham uma situação tão indesejável, e o fato de Jacó amar Raquel
e não Léia tornou a situação ainda pior.
Léia, que experimentava a dor de viver com um marido que não lhe
tinha amor, levou a sua necessidade a Deus. Por seu turno, o Senhor
recompensou-a com seis filhos e uma filha. Privada de beleza física, a sua
beleza interior foi crescendo no meio das circunstâncias difíceis, e ela
demonstrou reverência para com Deus.
Por outro lado, Raquel reagiu de um modo diferente e lamentável.
O seu caráter não deixava lugar para a gratidão e boa vontade. Sentindo
ciúmes de Léia, ela só pensava em si mesma. Estava certa de que tinha
mais privilégios que Léia, que Jacó a amava e que era atraente. Todavia,
concentrando os seus pensamentos no fato de não ter filhos, Raquel
invejava a felicidade maternal da irmã. No seu coração, Raquel recusava-
se a aceitar o fato de que ficava atrás da irmã neste particular.
"Dá-me filhos!", exclamava ela com amargura a Jacó, "ou se não
morro" Gên. 30:1). Estas palavras cruéis revelavam sem sombra de
dúvida o lugar que o marido ocupava no seu coração. Ela preferia a morte
à vergonha. Aparentemente, Jacó não tinha muito valor para ela.
A sua exclamação também desonrava a Deus. Embora Jacó
salientasse que Raquel não tinha dirigido a sua queixa à pessoa indicada
– só Deus concede ou retém a bênção de filhos – ele não conseguiu
convencer a mulher.
A dor de um anseio não realizado não atraiu Raquel para Deus. Em
vez disso, ela resolveu forçar uma solução. "Toma a minha serva Bila
como esposa", aconselhou a Jacó. "Os seus filhos serão considerados
meus" (v. 3). Ela conhecia o velho costume que permitia considerar os
filhos da serva legalmente como seus e, assim, verdadeiros descendentes
de Jacó.
Quando o filho de Bila nasceu, o caráter de Raquel revelou-se ainda
mais. "Deus julgou-me", disse ela, e deu-lhe o nome de Dã (v. 6). Apesar
de ter mencionado o nome de Deus, é evidente que para Raquel a criança
era parte da sua competição com Léia. Raquel tinha reclamado os seus
direitos; sentindo-se numa posição de inferioridade em relação à irmã na
questão de filhos, ela desejava alterar a sua situação.
Este pensamento tornou-se ainda mais claro quando nasceu o
segundo filho de Bila, Naftali. O nome que lhe deram significava
"Lutando", e representava que Raquel se considerava com mais uma
vitória na violenta contenda que travava com a irmã. Raquel estava a ser
motivada pela amargura, uma atitude perigosa e contagiosa que sempre
tem afetado as pessoas e o seu ambiente, de um modo negativo (Heb.
12:15).
Quando Raquel levou uma concubina ao casamento, começou uma
temível reação em cadeia. Dentro em pouco, Léia fez o mesmo com a sua
serva Zilpa. Nessa altura – como se os problemas não fossem já
suficientes – a família consistia de um homem com quatro mulheres.
Até que ponto Raquel foi tocada na sua alma pelo amor de seu
marido, permanece pouco claro nas Escrituras. Mas é evidente que ela
manipulou o seu amor na competição com Léia. À medida que os anos
passavam, o seu ciúme mantinha-se. Ela não dava lugar a sentimentos de
simpatia para com a irmã, que continuava na esperança de ganhar o
amor do marido. As palavras "dá-me" eram preponderantes nos seus
pensamentos.
A atitude egoísta de Raquel revelou-se num dia em que se segava o
trigo. Notando que Rubem, o filho mais velho de Léia, tinha trazido uns
frutos à mãe, Raquel também desejou tê-los. As mandrágoras eram
consideradas como tendo o poder de estimular o amor. Havia poucas, e
por isso o achado de Rubem era importante. "Dá-me algumas das
mandrágoras do teu filho", insistiu ela. "Então Jacó dormirá contigo esta
noite" (Gên. 30:14-15). Com toda a descontração Raquel distribuía amor
como mercadoria, a fim de conseguir o que queria. Mantendo nas mãos
as rédeas da família e do marido, manipulava-os orgulhosamente para
atingir os seus próprios fins.
É evidente que ela não conhecia o real significado da palavra amor,
Aquele ardor que devia ter sido uma efusão de amor, parecia-lhe
estranho. O que ela conhecia acima de tudo era o amor próprio. A beleza
física que a tornava atraente contrastava duramente com a sua dureza e
altivez interior. O interesse de Raquel estava congelado em torno da sua
própria pessoa. Quando se comparam os problemas e valores autênticos
da vida, Raquel fica atrás de Léia, cuja vida foi controlada por Deus num
grau muito superior. Mas isso não impediu que Deus estendesse a Sua
bondade a Raquel. O miserável egoísmo humano não podia anular a
graça de Deus. O Senhor viu a luta de Raquel. Conhecendo o seu
profundo desejo de ter um filho mesmo seu, Deus deu-lhe esse filho,
José. Quando lhe pôs o nome, Raquel provou mais uma vez quão
profundos eram os seus sentimentos de inferioridade em relação à irmã.
"Tirou-me Deus a minha vergonha", disse ela. Depois continuou,
"O Senhor me acrescente outro filho" (vv. 23-24). Raquel não mudara
absolutamente nada, mesmo depois de ter nascido o seu próprio filho. Os
pensamentos continuavam a revelar egoísmo, ciúme e ingratidão. "Dá-
me, dá-me", era ainda a sua música preferida. O seu espírito de
rivalidade sufocava a sua gratidão, pois essas duas atitudes não poderiam
viver no seu coração ao mesmo tempo.
Contudo, alguma coisa mudou no lar patriarcal depois do
nascimento de José. O que os filhos das outras mulheres de Jacó não
haviam podido fazer, conseguiu-o o filho da amada Raquel. Jacó
começou a ter saudades da terra do seu pai. Depois de 14 anos de luta, ele
perdeu a vontade de trabalhar em solo estrangeiro para qualquer outra
pessoa. Embora o sogro o tivesse convencido a ficar um pouco mais em
Harã, Jacó começou a construir o futuro da sua própria tribo. Depois de
outros seis anos de trabalho duro – durante o qual ficou rico – ele
decidiu-se definitivamente a voltar a Canaã.
Nesse dia, Jacó chamou Raquel e Léia à parte. Explicou-lhes como
o Senhor Deus lhe tinha mandado começar a viagem de regresso à sua
terra. Ambas as esposas concordaram com a decisão. "Faze tudo o que
Deus te tem dito", responderam elas unanimemente (vv. 14-16). As duas
concordavam plenamente em ir com ele. Não surgiu qualquer conflito
por causa da sua decisão.
Todavia, é impressionante ver como uma coisa simples pôde
revelar de modo tão claro a natureza íntima de uma pessoa.
Circunstâncias especiais que interrompem a rotina diária de alguém
tendem a despi-lo de todas as franjas com que se adornou durante anos.
Foi uma mudança deste tipo que afetou Raquel enquanto se
preparava para a longa caminhada até Canaã. Naturalmente, uma tal
viagem era um passo importante para uma jovem mulher oriental que
nunca tinha saído dos limites da sua aldeia. A jornada seria longa e o país
em que ia viver era-lhe desconhecido.
O fato de Deus ter ordenado a Jacó que partisse e a encorajadora
certeza da Sua presença não constituíam qualquer garantia para Raquel.
Aparentemente, os muitos anos de casamento com Jacó não a tinham
aproximado do seu Deus.
É evidente que o amor do marido tinha dado pouca inspiração a
Raquel para levá-la a conhecê-lo melhor. Os pensamentos mais íntimos
dele eram-lhe estranhos a ela, que não partilhava da sua vida espiritual.
Embora o caráter de Jacó tivesse algumas falhas graves – a sua
manipulação nos negócios,e a sua fraude – a sua fé em Deus triunfou
sempre.
A medida que a velha segurança de Raquel começava a falhar, ela
lançava-se para algo a que se pudesse agarrar – os ídolos da casa de seu
pai. Enquanto Jacó se encaminhava no sentido de renovar um pacto com
Deus, Raquel procurava refugio em imagens de deuses pagãos.
Léia, que também fora criada e educada nesta terra onde se
adoravam ídolos, tinha, pelo contrário, desenvolvido uma confiança no
Deus de seu marido Jacó.
Enquanto a grande família se preparava para partir em segredo,
acompanhada pelo gado, Raquel roubou os ídolos do pai. Essa atitude
derramou ainda mais luz sobre a sua relação com Jacó, pois ela cometeu
o roubo sem lhe dizer. Não partilhou com ele os seus problemas. Não
obstante o grande amor de Jacó por Raquel, o casal nunca conseguiu
uma intimidade e comunicação autênticas na sua vida conjugal.
Com o roubo dos ídolos, Raquel pôs em risco a sua vida. Jacó ficou
tão ofendido quando Labão o acusou de ter roubado os deuses da sua
casa, que exclamou: "Aquele com quem achares os teus deuses, esse não
viva!" (Gên. 31:32)
Raquel serviu-se então de uma mentira para escapar à morte.
Sentou-se sobre a sela do camelo debaixo do qual havia escondido os
ídolos e encontrou uma desculpa capaz e viável. Pretendendo uma
indisposição feminina, não se levantou do lugar enquanto Labão
rebuscava a sua tenda. Assim, Labão não conseguiu encontrar os ídolos.
Esta falsidade de Raquel não foi detectada, mas a sua ação e as imagens
roubadas profanaram a religião da família do patriarca Jacó. Mais tarde
se veriam os nocivos resultados do seu ato.
A Bíblia não é vaga no que toca à visão que Deus tem do coração
humano. Descreve-a em muitos capítulos. O coração do homem é
inclinado ao mal "desde a sua mocidade" (Gên. 8:21). É tão enganoso,
doente e complicado que só Deus de fato o conhece (Jer. 17:9-10). Ele
chama-lhe orgulhoso e teimoso (Jer. 5>23) e diz que aqueles que são "de
coração altivo" Lhe desagradam (Prov. 16:5). Na verdade, Deus não
tolerará um coração pecaminoso e impuro.
O ser humano é incapaz de mudar o seu próprio coração. Por mais
que se esforce, não conseguirá transformá-lo. Só Deus pode fazer isso.
Portanto, Ele diz a cada um: "Dá-me o teu coração" (Prov. 23:26), a fim
de poder agir.
Todavia, apesar do Seu amor, Deus permite muitas vezes que as
pessoas sofram, a fim de mudar os seus corações teimosos e obstinados e
incliná-los em direção a Ele. Deus prova os homens e as mulheres para
ver se eles estão preparados para fazer a Sua vontade (Dt. 8:2,16).

Davi, o maior rei de Israel, expressou mais tarde a sua


compreensão destes fatos, quando orou: "Cria em mim, ó Deus
um coração puro" (Sal. 51:10).

À luz destes fatos, o coração de Raquel não era excepcionalmente


mau ou totalmente obstinado. Em vez de render a sua vida a Deus,
escolheu dirigi-la ela própria. Essa decisão infeliz de se governar a si
mesma levou ao egoísmo e multiplicou os seus problemas pessoais.
Uma vez que o amor de Deus não teve oportunidade de iluminar o
seu coração, ele continuou imerso em trevas e fria altivez, sendo assim
muito difícil produzir calor. Quando um ser humano deseja partilhar o
coração com outro, tem de primeiramente se render a Deus. Só então é
que ele recebe e transmite o amor de Deus, cujo calor torna a sua vida
cintilante, feliz e quente.
A frustração de Raquel por não se impor pela maternidade
conduziu à sua morte. Antes que Jacó e a família se fixassem
definitivamente na terra prometida, Raquel morreu de parto. No seu
último momento de vida, ela chamou ao bebê Benoni, que significava
"filho da minha dor". Mas Jacó, mais tarde, deu-lhe o nome de
Benjamim, "filho da minha destra". Gên. 35:18.
Apesar da seriedade e infelicidade da pessoa de Raquel, ainda
existia um raio de esperança no seu filho mais velho, José. Ele era novo
quando a mãe morreu, mas veio a ser um excepcional homem de Deus,
em cuja vida o Senhor tinha proeminência absoluta. Ele estava destinado
a tornar-se uma bênção extraordinária para o povo hebreu.
Pouco antes da morte de Raquel, Jacó renovou o seu pacto com
Deus. Tirou todos os ídolos estranhos da sua casa e enterrou-os. Depois
desta purificação ser levada a cabo, Deus caminhou tão intimamente com
Jacó e sua família que todos os vizinhos ficaram profundamente
impressionados. Não obstante todos os erros passados, tinha-se
verificado um novo começo com Deus.
Ter-se-ia o coração de Raquel voltado para Deus na última fase da
sua vida? Seria José, órfão de mãe, um produto da educação do pai? Ou
teria Raquel, pelo poder de Deus, mudado de tal modo que fosse capaz de
deixar uma impressão indelével sobre ele?
Quaisquer que sejam as respostas, a vida deplorável e frustrada de
Raquel podia ter sido cheia de interesse e significado se tão-somente a
sua beleza interior igualasse o seu belo aspecto físico.

Raquel, que atrai no exterior mas decepciona no seu íntimo

(Gênesis 29:1-30; ler também Gên. 30:33; 35)

Perguntas:
1. Escreva o que aprendeu a respeito do coração humano.
2. O que é que a Bíblia revela acerca do coração de Raquel ?
3. Qual lhe parece ser a sua característica mais notável?
4. De que maneira podia a vida de Raquel ter tido uma influência
mais positiva?
5. Vê algumas bênçãos que tenham resultado da vida de Raquel? Se
sim, indique-as.
6. Com aquilo que aprendeu sobre Raquel, poderá ajudar-se a si
mesmo ou às pessoas à sua volta? Como?
LÉIA,

MULHER CUJO CASAMENTO INFELIZ SE TORNOU UMA


BÊNÇÃO DE DEUS PARA A HUMANIDADE

"Esta família polígama, não obstante o muito de reprovável que


houve na sua vida, foi aceita por Deus no seu todo para ser o princípio
das Doze Tribos que começaram a Nação Messiânica, escolhida por
Deus para trazer o Salvador ao Mundo. Isto mostra que Deus usa os
seres humanos como são."
Henry H. Halley*

Gênesis 29:21-35
(Ler também os textos do capítulo sobre Raquel)

As ilusões de Léia haviam sido totalmente destroçadas. As poucas


horas de escuridão que pertenciam agora ao passado tinham sido as mais
felizes da sua vida. Mantendo a esperança sem ter motivo para tal, ela
permanecera deitada saboreando o que sabia poderia ser uma felicidade
efêmera. Ao mesmo tempo que se entregava ao amor do seu noivo,
receava a hora da verdade. Temia enfrentar o novo dia.
Lentamente a hora chegou; o primeiro raio de sol brilhou no chão
térreo da tenda. Depois o marido acordou e viu-a, a ela, sua noiva. O
desapontamento que receava notar no rosto dele – ela não tivera a
coragem suficiente para o preparar – foi imediatamente claro. O seu
marido Jacó esperava ver ao seu lado Raquel, a mulher que havia amado
desde o primeiro momento em que a vira sete anos antes. Por Raquel
tinha ele trabalhado, esperado e sonhado. Com ela esperava passar a sua
noite de núpcias. Jacó tinha pensado numa única mulher – Raquel.
Olhou sonolento para Léia, e gritou então quando a verdade o
acordou rudemente. Desnorteado e desesperado, pôs-se em pé dum salto
perguntando a si mesmo como é que lhe podia ter acontecido uma coisa
daquelas. Pouco a pouco a sua confusão transformou-se em fúria, ao
reconhecer que havia sido enganado. Ao abrigo da noite, e do véu da
noiva, tinha-lhe sido levada à tenda uma outra moça, por causa de
implicações financeiras e sociais.

* Halley's Bible Handbook (Manual Bíblico de Halley), p. 104.


Léia compreendeu sem dúvida o sentimento de traição que Jacó
experimentava. Ele tinha sido tratado como uma pessoa imatura ou tola.
Fora ludibriado como se se tratasse de um diminuído mental ou de um
peão sob a autoridade de outro senhor. Uma mulher que ele não amava
fora-lhe imposta. Enquanto este e outros pensamentos dilaceravam o seu
ser, a reação de Jacó deixou absolutamente claro que não havia lugar
para Léia no seu coração. Ela nada significava para ele, apesar de o
considerar tanto.
Já não se pode voltar atrás, pensou Léia. A despeito de tudo, eu
sou sua mulher. O meu futuro está traçado. Estou casada com um
homem que não se importa absolutamente nada comigo. Enquanto fazia
estas deduções, Jacó precipitou-se para fora da tenda. Tinha de falar com
o sogro, Labão, que o havia tratado de um modo tão indigno.
Léia permaneceu só na tenda, continuando o diálogo com os seus
pensamentos. O futuro apresentava-se sombrio. Mas ainda havia
esperança, porque ela amava Jacó. Recusava-se simplesmente a admitir
que a sua causa estivesse perdida. Talvez, argumentava ela, o futuro
venha a revelar-se mais brilhante do que agora se mostra. Pode ser que
Jacó mude de idéia depois de ver quanto o amo. Talvez tudo fique bem
quando eu lhe der um filho. Talvez, talvez ...
Entretanto, com mal reprimida fúria e em tom acusador, Jacó
enfrentou Labão. "Que indignidade me fizeste", disse ele enfurecido.
"Servi-te sete anos por Raquel. Por que é que me enganaste?" (Gên.
29:25)
Labão voltou-se lentamente, com os olhos fitos no chão. A sua
defesa foi fraca, e a desculpa que arranjou foi muito pobre. "É costume
no nosso país casar a filha mais velha primeiro, depois a mais nova",
respondeu ele, ignorando o fato de que isso constituía uma objeção que
devia ter sido posta a Jacó mais cedo (v. 26). A verdade é que tinha
calculado as vantagens que ele próprio teria com um procedimento tão
desonesto. Por meio do engano, tinha apanhado o seu genro aplicado na
armadilha, e agora teria trabalho barato durante mais tempo. Dessa
maneira, o noivo teve de pagar um elevado preço pela noiva. Ao mesmo
tempo, Labão tinha conseguido casar também a sua filha mais velha. Ela
não era tão bonita como Raquel e provavelmente já tinha sido posta de
lado por possíveis pretendentes.
Jacó tinha pouco por onde escolher. A única coisa que tinha a fazer
era concordar com a proposta de Labão para casar também com Raquel,
logo que terminasse a festa nupcial de sete dias. Essa decisão obrigava-o
a servir o sogro mais sete anos.
Mas Jacó deixou também que os seus pensamentos recuassem até
ao lar paterno. Muito tempo antes, ele havia enganado o pai de um modo
semelhante, fazendo-se passar pelo irmão. Ele, o filho mais novo, tinha
roubado a bênção que pertencia ao seu irmão Esaú (Gên. 27:5-40). O
enganador fora enganado, derrotado com a sua própria arma. Agora
sofria a mesma tristeza que havia infligido a outros.

Deus sabe tudo o que fazemos e muitas vezes permite que


as conseqüências nos apanhem. "Não vos enganeis: de Deus não
se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também
ceifará." (Gál. 6:7)

Assim começou Léia os seus primeiros anos de casada, os únicos


em que teve o marido para si mesma. O homem que em pensamento
estava já com outra mulher, mal podia esperar pelo momento de lhe
chamar sua. Léia nutria um amor que não era correspondido. Viria
alguma vez a vê-lo?
O Seu casamento tinha pouco em comum com a união entre os
cônjuges que Deus tinha em mente quando criou o homem e a mulher
um para o outro. O plano divino para o casamento era a monogamia, a
união de um homem com uma mulher (Gên. 1:27; 2:24).
Contudo, os israelitas desobedeceram a Deus e começaram a ter
outras mulheres, como faziam os pagãos à sua volta. Embora Deus
tolerasse tal prática, Ele sabia também que ninguém podia violar a Sua
ordem para a criação sem sofrer as conseqüências. Foi essa a dor que
Léia experimentou. Ela provou o fruto amargo da poligamia – o
matrimônio de um homem com mais de uma mulher – durante todos os
dias da sua vida.
Desde essa noite do casamento, e à medida que os anos passavam,
a porta para o coração do marido manteve-se totalmente fechada para
Léia. Isso era devido em parte à sua aparência; ela não se podia comparar
com a irmã no tocante à beleza física. Os seus olhos, por exemplo, eram
tenros e fracos, mas a verdadeira natureza do problema é desconhecida.
Será que ela, como muitas outras pessoas do seu país, sofria de uma
doença que a tornava desagradável? Seria ela estrábica? Seriam os seus
olhos saudáveis mas pouco coloridos e sem o brilho que tornava as
belezas orientais tão atraentes? Seriam eles de um azul pálido em vez de
um castanho cintilante?

A relação matrimonial é tão exclusiva, tão santa, que Deus


a usou no Velho Testamento como símbolo da relação entre Ele
e Seu povo (Osé. 2:19), e entre Cristo e a Igreja (Ef. 5:28-32).
Ele espera ver entre os cônjuges uma fidelidade que dure toda a
vida (Mal. 2:14-16), que levará à felicidade (Ecl. 9:9). A mulher
ideal louvada por Salomão está integrada num casamento
monógamo (Prov. 31:10-31).

Embora prejudicada nesta importante área da sua vida, Léia foi,


todavia, abençoada de um modo especial por Deus. "Deus nunca fecha
uma porta, a não que abra outra", diz um velho provérbio. No caso de
Léia, essa porta foi a da maternidade. "Vendo pois o Senhor que Léia era
aborrecida, abriu a sua madre", lemos na Bíblia (Gên. 29:31).
O fato de Léia não ser atraente, não limitava a atuação de Deus. Ele
não a julgava pela aparência exterior. Olhava para o seu coração que se
dirigia para Ele (1 Sam. 16:7). Por outro lado, o coração de Raquel ia-se
tornando rapidamente egoísta e centralizado em si mesmo.
A tristeza traz muitas vezes consigo um perigo oculto. Pode levar a
pessoa a viver para si mesma, a isolar-se do seu semelhante, do mundo
exterior e de Deus. Contudo, na vida de Léia verifica-se o contrário. A sua
tristeza levou-a a Deus. Isto vê-se pelos nomes que deu aos filhos.
Chamou Rubem ao seu primogênito, que significa "Ele viu a minha
aflição". Por detrás deste nome estava a convicção de que Deus havia
notado os problemas dela. Tinha a certeza de que qualquer pessoa podia
confiar plenamente no Senhor. Não tinha Ele prometido que se alguém O
invocasse, Ele responderia e mostraria a essa pessoa a Sua salvação?(Sal.
91:15-16) Leia, que tinha experimentado a fidelidade e o amor de Deus,
expressou essa certeza no nascimento do seu segundo filho, Simeão.
"Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e ele te susterá", diria o Salmista
Davi, séculos depois (Sal. 55:22). "No dia em que eu temer, hei de confiar
em ti" (Sal. 56:3).
Esse nome significava "O Senhor ouviu". Sempre que ela proferia o
nome de Simeão recordava a si mesma, e aos que a rodeavam, a bondade
de Deus. Léia partilhava os seus problemas com o Senhor e não se
esquecia de O honrar abertamente quando Ele respondia às suas orações,
algo que de fato Ele esperava das pessoas (Sal. 50:15).
As 12 tribos de Israel – que receberam os nomes dos filhos de Jacó
– iriam fazer referência à fidelidade de Deus até ao fim da história
humana. Através de Léia, a mulher que teve um casamento infeliz, viria
uma herança fantástica. A tristeza que ensombrou a sua vida constituiu
um instrumento de Deus; levou-a a tornar-se uma pedra importante da
casa de Israel. As gerações futuras iriam louvá-la por isso (Rute 4:11).
O seu anseio natural pelo amor do marido – não poderia ser de
outra maneira – continuou. Mas a ausência dele conduziu Léia a uma
maior compreensão de Deus. A vida dela foi enriquecida pela tristeza e
amadurecida pela prova. A confiança que já tinha em Deus aumentou.
Quando nasceu o seu quarto filho, Judá, o amor que o coração de
Léia sentia pelo Senhor era mais forte do que o que dedicava a Jacó.
"Esta vez louvarei ao Senhor", exclamou ela com júbilo (Gên. 29:35). Pela
primeira vez, não mencionou o amor do marido. Léia não podia
compreender o significado profético deste momento. Não sabia que com
o nascimento de Judá se abria uma nova era. Dos descendentes deste seu
filho, da tribo de Judá, viria o Messias. Todas as gerações louvariam o
nome de Judá.
Léia jamais saberia quanto fora privilegiada. Esse fato só seria
revelado muitos séculos mais tarde. Mas o fato é que ela foi usada por
Deus como uma bênção para toda a humanidade. Na realidade, através
da sua vida tornou-se mais próximo o nascimento do Salvador do
mundo, Jesus Cristo.
Entretanto, a existência de Léia não decorria sem tensões. Vez após
vez Léia se entregou a um marido que não a amava. Para ela, a alegria de
estar junto do marido tinha um sabor amargo. Com uma intuição
infalível, sabia perfeitamente que a sua entrega de amor não despertava
qualquer entusiasmo no coração de Jacó. A relação matrimonial efetuada
deste modo tornava-se humilhante. Era mesmo um insulto. Todavia,
permanecia o fato insólito de que embora Jacó amasse Raquel, era Léia
quem lhe dava os filhos.
Ao contrário de outras mulheres da Bíblia (Gên. 16:4-5; 1 Sam. 1:2-7),
Léia não se tornou orgulhosa ao ver que Raquel não tinha filhos.
Continuou aberta e humilde, apesar da inveja da irmã. Contudo, o
ambiente da família continuava pesado e explosivo. Incidentes
insignificantes revelavam logo quão tensa era a situação. Um dia, por
exemplo, Rubem quis fazer uma surpresa à mãe, trazendo-lhe umas
mandrágoras – pequenos frutos parecidos com ameixas, também
chamados "maçãs do amor". Algumas pessoas daquele tempo
acreditavam que as mandrágoras traziam riquezas, felicidade e mesmo
fertilidade. Sentindo inveja da atenção que Léia havia recebido do filho,
Raquel pretendeu algumas mandrágoras. "Dá-me algumas delas", pediu
ela (Gên. 30:14).
As suas exigências levaram a uma acesa discussão, na qual Léia
perdeu também a sua compostura. "É já pouco que hajas tomado o meu
marido", respondeu ela agressiva, "tomarás também as mandrágoras do
meu filho?" (v. 15)
Raquel sabia como conseguir o que desejava. "Jacó dormirá contigo
esta noite pelas mandrágoras", prometeu ela (v.15). Raquel, a mais nova
das irmãs e a segunda esposa, concedia assim os seus favores a Léia com
uma atitude de superioridade.
Tratava-se de uma proposta indigna à luz da santidade do
matrimônio e dos princípios básicos dos direitos humanos. Todavia, Léia
aceitou a oferta da irmã. A mulher que estava pronta a fazer o máximo
para conquistar o amor do marido humilhou-se uma vez mais.
Quando Jacó voltou nessa tarde do trabalho, Léia estava já à sua
espera. Como um cão que pedisse um favor ao seu dono, solicitava ela o
afeto de Jacó. "Por favor, dorme comigo esta noite", pediu ela, "porque te
aluguei honestamente" (v. 16). Só por milagre é que o Deus santo podia
aceitar pessoas que escarneciam assim de coisas que Ele considerava
sagradas. O casamento e o amor deviam ser tratados com respeito.
Léia depressa teve mais dois filhos, Issacar e Zebulom. Ambos os
nomes mostravam mais uma vez o amor de Deus. Foi ela também a única
das esposas de Jacó que lhe deu uma filha, Diná.
Por essa altura, Jacó não estava apenas casado com Léia e Raquel,
mas também com as duas servas. O esforço de Raquel no sentido de se
tornar a melhor levou-a a oferecer a serva ao marido. Léia, que não
queria ficar atrás, fez o mesmo. Essas duas mulheres – Bila e Zilpa –
aumentaram a família com dois filhos cada.
Não obstante a maneira indigna pela qual este casamento era
tratado, a rápida expansão da família harmonizava-se com o plano de
Deus. A promessa que Ele havia feito ao avô de Jacó, Abraão – de que ele
se tornaria uma grande nação – tinha de ser cumprida (Gên. 12:2). Essa
mesma promessa foi feita a Jacó (Gên. 29:14-15). Léia, com a sua fé
profunda, teve um lugar proeminente nesse plano. Ela foi a mãe de seis
dos doze que se tornaram cabeças de tribos. Mas a sua vida não se tornou
de modo algum mais fácil. Jamais conseguiu conquistar o amor do
marido. Durante toda a sua vida, Jacó preferiu sempre Raquel.
Léia experimentou isso parcialmente de novo, quando a família voltou
à terra prometida. À medida que se aproximavam da fronteira, Jacó
começou a temer o seu irmão Esaú, a quem tinha enganado 20 anos antes e
de cuja ira havia fugido (Gên. 27). Preocupado com o que o vingativo irmão
poderia fazer a toda a sua família, resolveu dividi-la em pequenos grupos.
Primeiro iam as suas concubinas com os filhos. Depois seguia Léia com os
seus filhos. Os lugares mais protegidos foram reservados para José e
Raquel, que ficavam assim mais longe da ameaça de perigo.
Léia, a mulher dos olhos tenros, é recordada na história em
conexão com um casamento infeliz. A Bíblia não diz se Jacó a recusou só
por causa da sua aparência. Pode ser que a sua disposição e caráter
diferissem de tal modo dos do marido que fosse impossível uma unidade
perfeita. Todavia, uma coisa é certa: Léia chorou muitas e amargas
lágrimas durante toda a sua vida.
Pouco antes de morrer, Jacó esteve com José, e durante esse
encontro descreveu como tinha enterrado Raquel perto de Efrata, em
Canaã (Gên. 48:7). Depois, reuniu os filhos para predizer o futuro de
cada um e disse-lhes que Léia havia sido sepultada no túmulo da família
em Macpela. Desse modo, depois da morte, Léia foi colocada num lugar
de honra ao lado de Abraão, Sara, Isaque e Rebeca Gên. 49:30-31).

Na mesquita construída sobre o sepulcro de Léia, em


Hebrom, ainda hoje se vêem mulheres a lamentá-la em alta voz
– cerca de 4.000 anos mais tarde.

A história de Léia constitui ao mesmo tempo um aviso e um


estímulo. A sua vida permanece como uma advertência às pessoas, para
que não façam decisões contra a vontade de Deus. Faz também pensar
aqueles que tratam levianamente o amor, ou esperam conquistar o amor
de um cônjuge depois dos votos de casamento haverem sido trocados.
A história de Léia serve de estímulo porque nos ajuda a
compreender a maneira como Deus olha para as pessoas. Ele baseou a
Sua avaliação no coração de Léia e não na aparência exterior. Aceitou-a
também na situação em que ela se encontrava diante dEle. Através do
Seu amor, Deus pode e deseja transformar uma pessoa que carrega um
fardo quase insuportável, num canal pelo qual fluem as Suas bênçãos
para a humanidade. Apesar de tudo, o lugar de Léia na história é
honrado.

Léia, uma mulher cujo casamento infeliz se tornou uma


bênção de Deus para a humanidade

(Gênesis 29:21-35 ; Ler também os textos usados para Raquel)

Perguntas:
1. O que é que o impressionou mais a respeito da vida de Léia?
2. Como é que teria reagido aos problemas que ela enfrentou?
3. Usando um dicionário bíblico ou uma enciclopédia, faça uma lista
dos nomes dos filhos de Léia e do que eles significam. O que é que
o impressiona mais ao apreciar esses significados?
4. Que advertências tira da vida de Léia?
5. Que estímulo recebe da vida de Léia?
6. Que influência prática pode ter a vida de Léia sobre a sua própria
vida?
DINÁ,

UMA JOVEM CUJA CURIOSIDADE LEVOU AO CRIME E


AO LUTO

"Aumenta de um modo alarmante o número moças que, ansiosas


por uma mudança e querendo ver algo do mundo, abandonam a proteção
de um bom lar e nunca mais dão notícias. Muitas delas acabam em
pecado, crime e degradação."
Herbert Lockyer*

Gênesis 34:1-15
Gênesis 34:24-29

Diná, a filha de Jacó, sentia-se aborrecida e tinha muita razão para


isso. A vida numa tenda não oferecia muita atração para uma jovem,
particularmente porque os seus pais já eram idosos e ela só tinha irmãos
com quem falar.
Diná não tinha tido muita oportunidade para se divertir. A sua vida
fora sempre nômade, portanto, de constante movimento. Tendo
emigrado originalmente da cidade de Harã, na Mesopotâmia (Gên. 31:18)
– cerca de 400 milhas para nordeste – a sua família continuava a
vaguear. Vez após vez, eles paravam durante algum tempo, armavam as
tendas no solo e prosseguiam depois. De novo se punham em marcha,
avançando lentamente, a par com os animais.
Chegaram então a Canaã. O pai armou as tendas perto de Salém,
que pertencia à cidade de Siquém, e comprou um bocado de terreno
(Gên. 33:18-20). É evidente que ele desejava fixar-se na terra que Deus
tinha prometido aos seus antepassados Abraão e Isaque, pois através
dessa promessa a terra também lhe pertencia.
É de notar, entretanto, que Jacó não avançou mais algumas milhas
até Betel. Aí tinha feito uma promessa a Deus, 30 anos antes, quando
estava prestes a sair de Canaã (Gên. 28:19-22; 31:13). Teria arrefecido o
seu amor a Deus?
Siquém ficava situada num caminho estratégico que atravessava as
montanhas de Ebal, Efraim e Gerizim e controlava as estradas para o

* De The Women of the Bible (As mulheres da Bíblia) por Herbert Lockyer, p. 16.
norte e oeste. Gozando duma bela localização e cultura elevada, Siquém
nunca se tornava maçadora. Diariamente chegavam mercadores e
emigrantes que seguiam do oriente para o Egito, vestidos com trajes
exóticos.
Diná cansou-se de estar só. Sentia-se impaciente. Ansiava por algo
mais agradável e excitante do que as tendas do pai. Queria encontrar-se
com outras moças e tinha ouvido dizer que as jovens de Siquém
ofereciam um aspecto colorido por causa dos seus lindos trajes orientais.
Desejando ver com os seus próprios olhos esses vestidos, deixou a tenda
paterna e foi andando na direção de Siquém.
Será que os pais souberam da partida de Diná? Não haveria
ninguém que a advertisse ? Não teria a mãe ou o pai posto em evidência
os perigos que a ameaçavam? No passado, a sua bisavó Sara e a avó
Rebeca tinham enfrentado muitos problemas quando despertaram a
atenção dos reis da terra que haviam visitado (Gên. 12:14-20; 26:7-11). Só
uma intervenção de Deus e a presença dos maridos as haviam livrado da
tragédia. Mas Diná encontrava-se só, era jovem e inexperiente.
Assim chegou a Siquém. Se conseguiu ver alguma ou muitas das
beldades da terra, não sabemos. Mas ela acabou na cama do príncipe da
região. O príncipe Siquém, filho de Hamor, viu-a, tomou-a e violou-a.
Desconhece-se também se Diná consentiu em entrar no palácio ou se fez
tudo o que estava ao seu alcance para o impedir. Entretanto, dentro
daquelas paredes, ela perdeu a sua pureza, a sua virgindade. Como
qualquer outra moça que tenha passado por essa experiência, Diná
perdeu algo de muito precioso, algo que jamais poderia reaver.
A sua breve viagem, inspirada pela curiosidade e impulso,
desencadeou uma reação de tragédia que terminou com crime e luto. A
grande mágoa que Diná causou foi de efeitos terríveis, que não se
puderam controlar depois de estarem em movimento.
Esta situação revelou-se ainda mais grave do que a princípio
parecia. Diná era membro de uma família que havia feito um pacto com
Deus. Ela devia ter sido mais cuidadosa, não só por si mesma, mas
também porque a sua família representava a tribo do povo de Deus.
Enquanto Diná permanecia no palácio real com Siquém, cujo nome
era idêntico ao da cidade, Jacó e os seus filhos ouviram o que tinha
acontecido. O rei Hamor, pai de Siquém, antecipou-se à reação de Jacó e
visitou-o: "O meu filho está realmente apaixonado pela tua filha", disse
ele. "Por favor, deixa-o casar com ela" (Gên. 34:8).
Depois chegou o próprio Siquém. Sendo um príncipe pagão, ele não
tinha sido ensinado a pensar em Deus quanto aos seus planos. Embora
tivesse andado mal com Diná, ninguém podia duvidar dos seus planos
sérios a respeito dela.
O povo amava-o e ele era bastante apreciado. "Por favor, seja bom
para mim", suplicou ele. "Dê o seu consentimento para que ela se torne
minha esposa. No que diz respeito ao dote, pode indicar o que deseja.
Pagarei o que pedir" (vv. 11-12). Era evidente que Siquém se sentia muito
preso a Diná. Amava-a verdadeiramente. E ela? Ela não era indiferente
ao amor dele. Gostava da maneira como lhe falava.
Com o fim de agradar o mais possível à família da moça, Hamor
sugeriu que Jacó e a sua tribo fizesse uma aliança com o povo de Siquém,
de modo que pudessem realizar casamentos entre si, bem como negócios.
Mas Simeão e Levi, irmãos de Diná, estavam furiosos, e com razão. Eles
pertenciam a uma tribo que havia feito um pacto com Deus e, portanto,
tinham de satisfazer exigências mais elevadas. De acordo com a lei que
possuíam, o fato de uma jovem perder a sua virgindade era considerado
um crime flagrante (Dt. 22:20-21). Eles estavam demasiado chocados e
irados para deixarem passar o insulto, pois tratava-se de um ultraje a
todos eles. "Tu não podes fazer tal coisa!" exclamaram eles irritados.

Usando Moisés como Seu porta-voz, Deus, prometeu mais


tarde aos israelitas que continuaria a abençoá-los enquanto eles
Lhe obedecessem e guardassem os Seus mandamentos (Êx.
19:5-6, 20).

A sua fúria era justificada, mas a maneira como eles se vingaram


não o foi. Simeão e Levi atuam de uma maneira desonesta e hipócrita.
Fingindo concordar com a proposta do rei Hamor para misturar os dois
povos, eles estabeleceram a condição de que todo o macho habitante de
Siquém teria de se sujeitar à circuncisão, um rito obrigatório entre os
homens hebreus. A sua exigência mostrava até que ponto os dois irmãos
consideravam superficialmente a religião. Confundiam o seu autêntico
significado com o correspondente sinal externo. E o pior de tudo é que
usaram a religião para dar cobertura a um assassínio premeditado.
Depois de Hamor e Siquém haverem convencido os seus súditos de
que o pedido dos hebreus era razoável, a cerimônia teve lugar. Simeão e
Levi entraram então na cidade, no terceiro dia, armados com espadas.
Enquanto toda a população masculina gemia com dores, incapaz de se
mover por causa do ferimento, Simeão e Levi mataram todos os homens
da cidade. Com as espadas, decapitaram ou apunhalaram homem após
homem. Não hesitaram mesmo em sacrificar Hamor e Siquém, homens
com quem haviam fingido discutir a aliança alguns dias antes, apenas. O
que começou com a paixão da sensualidade, acabou por se tornar em
assassínio.
O crime hediondo perpetrado por Simeão e Levi contra pessoas
indefesas não foi suficiente para fazer arrefecer o seu ódio. Saquearam
também a cidade, apoderando-se de todos os rebanhos e gados e
capturando as mulheres e crianças como sua presa.
Aquela pequena viagem, aparentemente inocente, que Diná
empreendera, tinha levado os seus irmãos a cometer um crime que não
tinha qualquer relação com o mal que o príncipe Siquém havia praticado.
Simeão e Levi tinham-se tornado assassinos, detestados por todo o
mundo. Tinham acarretado uma mancha sobre eles próprios, a qual
jamais desapareceria. Homens sem conta morreram por causa da sua
crueldade, mulheres e crianças ficaram viúvas e órfãs, sem terem nada
mais do que tristezas.
Por meio destas circunstâncias, não só ficou arruinada a reputação
de Diná e dos irmãos, mas o seu pai sofreu também.
"Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores
desta terra", lamentou ele. "Sendo eu pouco povo em número, ajuntar-se-
ão e ficarei destruído eu e a minha casa" (v. 30).
De fato, foi o nome de Deus – tão intimamente ligado com o nome
de Jacó e do Seu povo (Gên. 32:28-29) – que realmente sofreu. Jacó
esqueceu-se de mencionar esse fato. Seria possível que ele estivesse mais
preocupado com o seu próprio nome, do que diriam dele por trás, do que
na honra de Deus? Seria esta fraqueza temporária do pai a causa do mau
comportamento dos filhos?
A sua atitude para com a família também não foi muito impressiva.
Repreendeu Simeão e Levi pela maneira como lhe tinham causado toda
aquela desgraça, mas não mencionou o pecado que haviam cometido
contra Deus e contra os seus semelhantes.
A Bíblia nem mesmo menciona qualquer preocupação e autoridade
paternal por parte de Jacó em relação a Diná. Ela não recebeu dele a
atenção de que necessitava nessa dolorosa situação. Aquele amor que se
mostra mesmo numa repreensão, parece que não lhe foi expressado Prov.
3:12). Jacó pensava apenas em si mesmo.
A Bíblia também não diz se a mãe de Diná a compreendeu e
confortou, ou não. E todavia, quem mais do que Léia – que tinha sofrido
tanto por causa do amor – poderia ter sido mais compreensiva para com
a dor da filha ? Diná era uma jovem simpática, e o homem que a tinha
amado estava morto, por causa da sua ação impulsiva. A sua terrível
aventura não a tinha desgraçado só a ela fisicamente, mas podia-lhe ter
deixado feridas morais. As escaras dessas feridas poderiam nunca mais
ficar completamente saradas.
Depois destes tristes acontecimentos, Jacó, sob a ordem de Deus,
seguiu com a sua família do lugar do crime para Betel. Aí, mais uma vez
se tornou o homem que devia ter sido mais cedo, pai que dirigia a família
no culto a Deus.

Cerca de 2000 anos mais tarde, Paulo advertiu Timóteo


de que as viúvas jovens que facilmente se aborrecem, começam
por ir de casa, entregando-se à maledicência e a outros pecados.
Deste modo, opõem-se a Deus e facilitam o trabalho de Satanás
(1 Tim. 5:13-15). Paulo deu também instruções específicas a Tito
a respeito das mulheres novas, com o objetivo de impedir que
lançassem o descrédito sobre a Palavra de Deus (Tito 2:4-5).

A história de Diná ocorreu cerca 1900 anos antes do nascimento de


Cristo. Mas os perigos que ela encontrou não se restringem simplesmente
a esse período ou ao Livro de Gênesis. O problema que Diná enfrentou é
universal As cidades modernas continuam a seduzir as jovens ansiosas
por "experimentar a vida". Todavia, quantas vezes essa experiência da
vida por parte de uma jovem numa cidade estranha acaba por se tornar
um encontro com as amargas realidades do pecado, de que, tanto ela
como a família, talvez jamais se venham a recuperar plenamente.

Diná, uma jovem cuja curiosidade levou ao crime e ao luto

(Gênesis 34:1-15, 24-29)

Perguntas:
1. Compare Gênesis 34:1-3 com Gênesis 12:14-20; 20:1-18; 26:7-
11. Em que é que as situações de Sara e Rebeca se comparam
com a de Diná?
2. A que perigos se expôs Diná, a jovem hebréia, quando se
dirigiu para a cidade de Siquém?
3. Descreva em poucas palavras, mas completamente, as
conseqüências da viagem de Diná para ela própria e para os
outros.
4. Por que é que Deus faz tantas exigências a respeito da
virgindade? (Deuteronômio 22:13-24).
5. Qual lhe parece ser a lição mais importante desta história?
6. Como é que pode aplicar um princípio que tenha aprendido
nesta história, à sua vida diária?
TAMAR,

UMA MULHER DESPREZADA QUE REIVINDICOU OS


SEUS DIREITOS

"Especificamente, tal afirmação dos seus direitos por parte das


mulheres é saudável para os homens. Nós machos sair-nos-íamos melhor
se as mulheres dotadas por Deus exercessem os seus talentos a nosso
favor e nos chamassem a contas naquilo em que temos agido egoística
ou injustamente em relação a elas ou a outros."
John Scanzoni*

Gênesis 38:6-30

Tamar, cujo nome significava "Palmeira", compôs o seu longo


vestido. Presas com uma faixa em torno da cintura, as pregas caíam ao
longo da sua figura esbelta e quase tocavam no chão. Ela olhou pensativo
para os trajes de viúva que acabava de tirar, e recordou-se então de que
tinha de colocar o véu com todo o cuidado.
Tamar olhou de novo para a sua silhueta. Anos antes ela havia
usado muitas vezes vestidos coloridos, mas agora mal se podia lembrar
da alegria dessas ocasiões. Embora parecesse mais nova com esta roupa,
não se notava alegria no seu olhar. Tinha um aspecto sério e à volta da
sua boca viam-se traços de amargura silenciosa. Era uma viúva solitária e
esquecida.
Os seus movimentos eram resolutos; sabia o que pretendia. Tinha
pesado as conseqüências da decisão que a pouco e pouco foi
amadurecendo dentro dela, e estava consciente de que o preço podia ser
elevado. De coração pesado, achava-se prestes a realizar um plano que
desejara evitar a todo o custo.
Chegara o tempo de reivindicar os seus direitos, por necessidade,
uma vez que ninguém procurava defender os seus interesses. Durante
anos tinha esperado por uma palavra do sogro, Judá, mas essa palavra
nunca veio. Judá, pensava ela, está bem mais interessado em me
esquecer por completo. Portanto, ela estava disposta a ter um encontro
com ele.

* De Assertireness for Christian Women (Afirmação de Direitos para Mulheres Cristãs), por John Scanzoni,
publicado pela Revista Christianity Today, 4 de Junho de 1976, p. 17. Usado com permissão.
Quando Tamar fechou a porta da casa dos pais onde estava a
morar, reviveu algumas das experiências que em tempos havia tido com
Judá e os seus filhos.
Quão orgulhosa se sentira quando Judá a havia escolhido para
noiva do seu filho, Er, o primogênito. Judá era um filho de Jacó, digno
ancião que tinha vindo do longínquo país da Mesopotâmia para viver em
Canaã. Além das suas riquezas e muitos filhos, Jacó era conhecido por
adorar o Deus do céu e da terra.

A terra de Mesopotâmia ficava localizada no país que


designamos agora de Iraque. O nome Mesopotâmia vinha das
palavras hebraicas Aram-nabarain, que significavam "Aram dos
dois rios", pois era limitada pelo rio Eufrates ao ocidente, e pelo
Tigre ao oriente (Gên. 24:10, nota na margem).

Ele e a sua família não serviam os deuses sol ou lua, nem ídolos de
madeira e pedra. O Deus eterno era o seu Senhor, e isso tornava-os
especiais.
Naturalmente, estes fatores haviam despertado as atenções de
Tamar. Tinha-se considerado privilegiada em casar com Er. Mas tudo
tinha resultado diferente do que esperava. O seu marido não provou de
modo algum ser um homem piedoso. De fato, as suas ações provocavam
de tal modo a ira de Deus, que Ele lhe tirou a vida.
As leis da tribo à qual Tamar pertencia agora proibiam uma mulher
sem filhos de continuar viúva. Os líderes acreditavam que o nome de um
homem não podia em circunstância alguma cair no esquecimento.
Como nora, Tamar permanecia debaixo da autoridade do sogro,
após a morte do seu marido. Competia-lhe a ele arranjar um segundo
casamento para Tamar, como da primeira vez. "Casa com a tua cunhada
Tamar", disse ele ao seu segundo filho Onã. "As nossas leis requerem isso
do irmão de um morto; de modo que os filhos que ela te dê serão
herdeiros de teu irmão" (Gên. 38:8).
Onã cumpriu o seu dever e casou com ela, mas só aparentemente.
De fato, aquele casamento não foi mais do que uma fraude. Impedindo
propositadamente a gravidez da sua nova esposa, Onã recusou conservar
viva a memória do irmão e dar-lhe herdeiros.
Assim, ele causou grande tristeza a Tamar. Não só a insultava, mas
também ofendia desse modo a instituição de Deus do santo matrimônio.
Sabotou intencionalmente a continuação da descendência de Judá. Não
fez isso só uma vez, mas muitas.
Deus não podia perdoar este pecado, tanto mais que o Messias
prometido viria da tribo de Judá. Essa profecia seria claramente
anunciada mais tarde, por altura da morte de Jacó (Gên. 49:8-10).
Desconhece-se até que ponto Judá e seus filhos estariam já conscientes
desse fato. Mas a incógnita do futuro não tornou de modo nenhum
menos reprovável a atitude de Onã.
Depois de Onã, como o seu irmão Er, ter sido morto por Deus por
causa dos seus pecados, Tamar ficou viúva pela segunda vez. A sua
confiança na religião e nos homens em geral havia sido profundamente
abalada. A única pessoa em que parecia ainda confiar era o seu sogro
Judá.
"Espera até que o meu filho mais novo cresça, para casares outra
vez", aconselhara Judá. "Então ele será teu marido" (Gên. 38:8).
Assim Tamar regressou ao lar paterno a fim de esperar que Selá
crescesse e a desposasse. Era a única coisa que uma viúva dessa época
poderia fazer. Ela não podia ter uma vida independente ou procurar um
desenvolvimento pessoal. Uma mulher solteira ou viúva tinha de fazer
unicamente o que lhe mandavam.
Os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses, e os
meses em anos, sem que se desse qualquer alteração nas circunstâncias
de Tamar. Gradualmente, foi-lhe evidente que Selá nunca viria ter com
ela. Judá tinha medo que o seu filho mais novo também morresse depois
de casar com ela, e por isso impediria a sua vinda. Tamar começou a ver
que as pessoas a consideravam culpada pela morte dos seus dois
maridos. Em vez de reconhecer a má conduta dos filhos, Judá estava a
lançar sobre ela as culpas.
Com o reconhecimento deste fato, Tamar deixou de confiar em
Judá. Mantida completamente fora do assunto do seu casamento, nunca
ninguém se lembrara de a consultar sobre o problema. Ninguém tentara
conhecer os seus sentimentos. Ela era considerada simplesmente como
uma mulher sem direitos, a quem um homem poderia tratar como bem
lhe apetecesse. A maldição pronunciada sobre Eva de que o homem
dominaria a mulher, também caíra sobre ela (Gên. 3:16).
Mas Tamar não estava disposta a tolerar tal atitude. Embora ferida
pelo tratamento humilhante de que tinha sido alvo, não procurou
encontrar conforto em outro marido. Respeitou o pedido do sogro,
apesar de saber que Selá não casaria com ela por preço algum. Sentia que
Judá desejaria, muito provavelmente, esquecer-se do fato de que o nome
dela tinha sido registrado na sua tribo.
Compreendendo que ao assumir ela própria a resolução dos seus
problemas toda a responsabilidade cairia sobre si, nem por isso
negligenciou o seu dever. O mandamento de encher a terra tinha sido a
primeira responsabilidade conferida ao homem e à mulher, igualmente
(Gên. 1:28). Apenas porque o homem não estava a cumprir a obrigação
dada por Deus, achava Tamar, isso não constituía desculpa para que
também ela descurasse o seu dever. Como ser humano, teria de dar
contas diretamente a Deus dos seus atos. Independentemente da
liberdade de escapar a essa obrigação, recusou-se a transigir.
O dever de dar à luz um herdeiro pesava grandemente sobre ela.
Intuitivamente, compreendia que a extinção da tribo de Judá tinha de ser
evitada a todo o custo, e considerava o que estava prestes a fazer como
um dever religioso. Por estes motivos, Tamar preparou-se para um
encontro com o sogro.

Mais tarde, de um modo semelhante, outras mulheres


iriam reivindicar os direitos das suas tribos e verem a sua causa
reconhecida por Deus (Núm. 27:1-11; 36:5-10). Essas mulheres
e Tamar passaram à posteridade, pois sem elas a história teria
seguido um curso totalmente diferente.

Através da contribuição individual e sacrifício pessoal de Tamar, o


plano de Deus para o mundo foi levado a cabo. A sua obediência apontou
para Jesus Cristo, através de cuja obediência foram efetuados os planos
de Deus para s salvação dos homens (Isa. 53:10).
Entretanto, Judá ia a Caminho de Adulam para Timnate. Estava
ansioso pelos dias que se aproximavam. Tal como os seus antepassados,
Abraão, Isaque, ele era um pastor abastado e dirigia-se para Timnate
para verificar a tosquia anual dos rebanhos. Depois que todo esse hábil
trabalho de tosquia estivesse terminado, haveria uma grande festa.
Durante semanas, todos falaram a Deus para a respeito desse
acontecimento, pois haveria abundância de comida e bebida especiais.
Judá entusiasmou-se ao pensar nesses dias agradáveis. A sua vida
passada não tinha sido isenta de cuidados. Durante anos, sentiu muita
tristeza por causa da morte dos seus dois filhos mais velhos. Mais
recentemente, a perda da esposa tinha acrescentado mais um fardo sobre
os seus ombros.
Mas o período de luto havia passado e Judá queria distrair-se.
Desejava tomar novamente o seu lugar na sociedade. Por isso, viajou com
todo o aparato. O seu selo de identificação, que conservava pendurado ao
pescoço com um fio de prata e ouro, mostrava a quem passava que se
tratava de um homem distinto. Na mão levava o cajado, símbolo de
dignidade que o apresentava como cabeça da tribo.
Enquanto caminhava, notou uma mulher ao lado da estrada, perto
da entrada da aldeia de Enaim. Ela tinha o rosto coberto com um véu, e
isso impedia que qualquer encontro pudesse ter um toque pessoal. É
uma prostituta, pensou Judá. O véu da mulher não o preocupou, porque
ele não estava interessado em contatar com ela como pessoa. Só via nela
um objeto para satisfação das suas necessidades sexuais.
Com a promessa de que a recompensaria com um cabrito por lhe
prestar serviços sexuais, a mulher concordou no ato. Esse constituía o
pagamento normal por este pecado, e Judá esperava que ele fosse
sacrificado no templo da deusa da fertilidade, a quem as prostitutas
muitas vezes se dedicavam.
Todavia, a mulher não estava preparada para acreditar na palavra
dele. Aparentemente receava que o cabrito prometido nunca chegasse.
"Que garantia me dás para que eu tenha a certeza de que me vais enviar?"
(Gên. 28:17) perguntou ela. Judá deixou-a escolher. Quando ela lhe pediu
os sinais da sua honra e dignidade – o selo de identificação e o cajado
deu-os sem qualquer hesitação.
Depois desse encontro, Judá continuou a sua viagem para Timnate.
Tamar – pois era ela mesma – voltou para a casa dos pais e trocou de
novo o véu pelos seus trajes de viúva. A vida continuou como se nada
tivesse acontecido, pelo menos por algum tempo.
Quando Judá, por meio dum amigo, quis entregar o cabrito para
receber de volta o selo e o cajado, foi incapaz de encontrar a mulher.
Quando perguntou aos homens de Enaim, durante a sua busca, onde é
que poderia encontrar a prostituta, eles mostraram-se admirados. "Uma
prostituta?" – repetiram eles. "Não, não a conhecemos. Nunca existiu
nenhuma aqui!"
Judá, que não tinha deixado que Deus dirigisse as suas ações neste
assunto, temia agora o que as outras pessoas poderiam dizer. Se
descobrissem o que tinha feito, ele tornar-se-ia certamente motivo de
troça no meio delas. Isso fê-lo compreender claramente quão cego tinha
ficado com os seus desejos sexuais. Agira irrefletidamente e pusera a sua
reputação em jogo. A única coisa que restava fazer era esquecer
completamente o caso, esperando que não surgissem mais conseqüências
para ele. Tentou esquecer-se de que a mulher também poderia sofrer as
conseqüências da sua transgressão moral. Ele sabia que ela poderia
perder a vida por causa daquele pecado. Mais tarde, esse castigo seria
estabelecido pelas leis de Deus.
Três meses mais tarde, rebentou a tempestade sobre a cabeça de
Tamar. Nessa altura, o sogro ouviu dizer que ela se encontrava grávida,
evidentemente como resultado de imoralidade. A fúria de Judá não
conheceu limites, e ele tinha razão. Tamar havia manchado o nome da
sua tribo. Era a viúva dos seus dois filhos mais velhos e considerada
ainda como a futura noiva do seu filho mais novo. Como cabeça da
família, ele tinha a responsabilidade de julgar o pecado que Tamar tinha
cometido. Ninguém pode desrespeitar a santa instituição do casamento
sem ser punido (Heb. 13:4).
O seu juízo foi implacável, inexorável. Tamar tinha de sofrer a
maior punição que se podia aplicar à sua transgressão. Sem investigar os
fatos que lhe diziam respeito a ela, Judá sentenciou-a à morte. "Trazei-a e
queimai-a" (Gên. 38:24), gritou ele.
Seria este juízo impregnado de uma mistura de receio e ira? Teria
Judá levado em conta os seus próprios sentimentos em relação a Tamar e
à morte dos seus filhos? Seria o fato de queimar Tamar, um meio de
destruir ao mesmo tempo os seus sentimentos de auto-acusação
resultantes de ele ter infringido a promessa concernente a Selá e a
Tamar?
Calma e digna, Tamar apareceu vestida de viúva. Antes de chegar
ao lugar da execução, deu alguma coisa a um dos homens que a
escoltavam. "Leva estas coisas ao meu sogro", disse ela. E deu-lhe o selo
de identificação e o cajado. "Pergunta-lhe se os reconhece", continuou
com ênfase. "Diz-lhe que o dono destes objetos é o pai do meu filho" (v. 25).
A reação de Judá foi reveladora. Ficou abalado. O seu próprio
pecado ficou cruelmente exposto pelos seus efeitos pessoais. Não podia
dissimular por mais tempo. Teve de confessar, envergonhado, que Tamar
tinha reivindicado os seus direitos legais que ele tentara manter fora do
seu alcance. "Ela é mais justa do que eu", reconheceu ele, "porque eu
recusei cumprir a minha promessa de lhe dar o meu filho Selá" (v. 26)
Teria Judá reconhecido que era ele o verdadeiro culpado? Não fora
ela que o seduzira; ele tinha-a tomado. A sua atitude fora motivada por
um desejo físico ilícito, enquanto que os motivos dela tinham sido
nobres. Ela tinha-se mostrado interessada na continuação da posteridade
de Israel. Do seu ponto de vista, ela tinha simplesmente feito aquilo que
considerava ser seu dever.
Se Judá tivesse sido mais honesto consigo próprio, teria
reconhecido que havia usado duas medidas. Tinha-se servido de um
duplo padrão e queria ver Tamar morta por uma culpa que ele próprio
havia cometido.
Seis meses mais tarde, Tamar deu à luz dois filhos, Perez e Zera.
Um casamento sem Selá estava agora fora de questão, pois já não se
tornava necessário. Judá tinha servido como seu substituto. Selá já não
tinha de casar com Tamar, porque já lhe fora feita justiça.
Muitos anos mais tarde, Mateus escreveu a genealogia de Jesus
Cristo (Mar. 1:1-17). Trata-se de uma longa lista de nomes,
principalmente de homens. Das cinco mulheres mencionadas, Tamar é a
primeira. Maria, a mãe de Jesus, encerra a lista.
Tamar, a mulher humilhada, é a primeira registrada na genealogia
de Jesus Cristo. O seu filho Perez tornou-se um antepassado na linhagem
de Jesus de Nazaré. Este fato não prova que Deus tenha concordado com
o pecado. Mas confirma a verdade de que Ele escreveu a Sua história
mesmo através dos fracassos dos homens.
A Bíblia não é uma galeria de heróis. Descreve-nos pessoas
pecadoras que, com grande surpresa sua, experimentaram que podiam
enquadrar-se no plano de Deus para este mundo. Esses planos de Deus
tiveram o seu início e fim, o seu cumprimento cabal, em Jesus Cristo.
O amor de Cristo pelos seres humanos estava também patente na
publicação dessa genealogia. No que diz respeito à sua vida terrena,
Cristo não estava apenas preparado para nascer da família de homens e
mulheres de qualidades duvidosas, mas estava também pronto a
salientar esse fato, a fim de demonstrar a profundidade do Seu amor. Ele
não teve receio de Se identificar com qualquer pecador que tivesse
desempenhado uma parte no Seu fundo histórico terreno.
Cristo fez também algo de muito especial pelas mulheres em geral,
enquanto permaneceu nesta terra. Restituiu-lhes a sua posição, o seu
valor. Conferiu-lhes o lugar que Deus lhes havia originalmente dado
antes da queda de Eva no Jardim. Aproximou-se delas com respeito, sem
preconceitos, e tratou-as sempre com objetividade de amor. Condenou
um tratamento desigual entre homens e mulheres, na cruz. Duplos
padrões morais eram-Lhe estranhos e ofensivos.
Um dia, por exemplo, os líderes judeus trouxeram-Lhe uma mulher
que fora apanhada no próprio ato de adultério (João 8:3-10). Por de trás
do seu piedoso pretexto de obedecerem à lei de Moisés, que diz que uma
mulher deve ser morta por tal pecado, eles estavam a tentar apanhar
Jesus em falta, e condenar ao mesmo tempo a mulher.
Jesus não desculpou o pecado que a mulher tinha cometido.
Todavia, expôs os seus acusadores: "Muito bem", disse Ele com firmeza.
"Apedrejai-a para que morra. Mas só aquele que nunca pecou poderá
atirar a primeira pedra!" (João 8:7)
Os acusadores não começaram a apedrejá-la. Em vez disso,
afastaram-se furtivamente. O Salvador tinha-os atingido no íntimo,
revelando-lhes o seu desonesto e impiedoso preconceito.
A história de Tamar só ganha perspectiva quando a luz de Jesus
Cristo brilha sobre ela. Apesar de tudo o que possa dizer-se contra ela,
Tamar tornou-se uma mulher invejável.
Jesus Cristo estendeu-lhe a honra de se tornar uma mãe na história
antiga da Sua família terrena.
Tamar, uma mulher desprezada que reivindicou os seus
direitos

(Gênesis 38:6-30)

Perguntas:
1. Estude a história das filhas de Zelofeade (Números 27:1-11;
36). Qual foi a razão do seu pedido, e qual o resultado? Que
relação vê entre esta situação e a de Tamar?
2. Vê alguma relação entre o que se diz de Cristo em Isaías
53:10 e Tamar? Se sim, o quê?
3. Estude a história de Judá e Tamar à luz de Romanos 2:1-2. A
que conclusão chegou?
4. Quais são as cinco mulheres que encontra na linhagem de
Jesus em Mateus 1:1-17? Escreva aquilo que sabe a respeito
delas?
5. Que revela a inclusão destas mulheres na genealogia sobre a
pessoa de Cristo?
6. Nesta história examinou muitos princípios bíblicos. Qual foi
o mais importante para si? Como é que o vai aplicar na sua
própria vida?
JOQUEBEDE,

UMA MULHER QUE APRENDEU A VIVER COM A


TRISTEZA

"Quando todo o tipo de provas e tentações desabarem sobre as


vossas vidas, meus irmãos, não as recebais como intrusos, mas dai-lhes
as boas-vindas como a amigos! Reconhecei que elas vêm testar a vossa
fé."
Tiago 1:2-3, Phillips

Êxodo 1:8-22
Êxodo 2:1-10

O grito de um bebê recém-nascido atravessou a casa.


A mãe Joquebede (Núm. 26:59) caiu sobre as almofadas, exausta.
Ao mesmo tempo, inundou-a um sentimento de uma nova felicidade
maternal. Mais uma vez havia dado à luz um filho. Seja louvado o nome
de Jeová! Este era o momento que tinha esperado com tanta ansiedade,
que tinha desejado e receado ao mesmo tempo. "É menino, ou menina?",
perguntou ela com ansiedade.
Antes que lhe respondessem, Joquebede foi distraída por sons que
vinham de fora. Um chicote zuniu no ar e cortou desapiedadamente as
costas de um dos seus compatriotas. Ela ouviu o grito de um hebreu e a
palavra de maldição de um egípcio furioso. Tais sons tinham-se tornado
mais familiares, e a sua penetração nas casas da colônia hebraica
resultava num clima de medo e tensão. A situação dos israelitas na
província egípcia de Gósen há muito que não era agradável, e nos últimos
tempos havia piorado ainda mais.
No princípio, os egípcios haviam favorecido os hebreus, devido
principalmente à influência de José, filho de Jacó. Através da sua visão e
sábia liderança, o Egito tinha agüentado uma imensa fome, e nessa época
os egípcios tinham-se sentido muito gratos. O seu país tornou-se um
porto de refúgio para todo o Próximo Oriente (Gên. 41:55-57). Alguns
anos após a morte de José, ainda os egípcios apreciavam os israelitas.
Quatro séculos haviam passado desde então, e a situação tinha-se
modificado gradualmente. Mas Deus continuara a abençoar o Seu povo
nessa terra estranha. Os números de Israel aumentavam e os seus bens
tornavam-se cada vez maiores. Como resultado dessa bênção que
repousava sobre Israel, o povo egípcio começou a sentir-se ameaçado.
Apertaram mais o controlo sobre os hebreus e tentaram limitar o seu
crescimento pela supressão e trabalhos forçados. Todavia, as suas
tentativas falhavam constantemente. Os israelitas começaram a
multiplicar-se ainda mais depressa que antes.
Finalmente, Faraó tentou abordar o problema pela raiz. Para o
ajudarem, pediu a colaboração de duas parteiras hebréias que auxiliavam
as mulheres israelitas nos seus partos. "Vede atentamente se o que nasce
é menino ou menina", ordenou ele, percebendo-se a ira na voz. "Se for
menino, deveis matá-lo, mas deixai viver as meninas" (Êx. 1:16).
Essa ordem cruel também não chegou a dar resultado, pois as
parteiras revelaram temer mais a Deus do que ao rei. Puseram de parte a
sua ordem, com uma desculpa. "As mulheres hebréias têm os bebês tão
depressa, que nós nem chegamos a tempo", responderam elas. "Elas não
são demoradas como as mulheres egípcias" (v. 19).
A situação ainda não se tinha alterado quando, três anos mais
tarde, o primeiro filho de Anrão e Joquebede nasceu. Uma vez que as
parteiras se recusaram a cooperar, o rei dera agora uma nova ordem,
desta vez à nação inteira: "De agora em diante", decretou ele, "lançai
todos os rapazes hebreus recém-nascidos ao Nilo" (v. 22).
A ordem abalou os israelitas já tão oprimidos. Para as mulheres
hebréias, isso transformou a alegria da maternidade numa tensão
horrível. Dali em diante, os primeiros gritos de vida de um menino eram
logo seguidos dos gritos da sua morte, quando os seus corpinhos quentes
eram lançados às frias águas do Nilo. Horrorizados, os pais eram
forçados a ver constantemente os seus filhinhos a serem comidos pelos
crocodilos.
"Comida de crocodilo", estremeceu Joquebede. "É isso o que Faraó
faz da nossa carne e sangue". Então, num sobressalto, ela voltou à
realidade da sua própria situação. Embora tivessem passado apenas
alguns segundos desde a sua pergunta, ela sentiu que a parteira hesitava
em responder. Quando a mulher olhou para ela, Joquebede descobriu
receio nos seus olhos. "É um menino", disse ela por fim, com um suspiro
repassado de compaixão.
"Dá-me o bebê", foi tudo o que Joquebede pôde dizer. Um instante
depois, ela apertava o fofo e rosado corpinho de encontro ao coração.
"Que lindo bebê que tu és!" – segredou ela. Depois, mirando o menino da
cabeça aos pés, sentiu-se dominada por uma estranha percepção. Não se
tratava simplesmente dum belo bebê; aquela criança perfeita estava
ligada aos planos de Deus de um modo todo especial. Ele era belo para
Deus (Atos 7:20).
Deus tinha planos para o seu filhinho. Joquebede não podia definir
exatamente que planos seriam esses, mas tinha a certeza de que eles
existiam. Desse momento em diante, decidiu lutar pela vida dele. O
sentimento dominante no seu coração não seria tristeza. Ela confiaria em
Deus.
Joquebede e o marido eram levitas e por isso pertenciam à tribo
que mais tarde viria a ser designada para servir a Deus no templo.
Embora ambos tivessem nascido escravos, mantinham a sua fé em Deus.
Joquebede invocava-O constantemente pela fé. Por causa desta sua
fidelidade, ela recebia as Suas mensagens e ganhava convicções íntimas a
respeito de coisas que seriam reveladas mais tarde.
Deus estava prestes a fazer algo de grande pelo mundo, pelos
hebreus oprimidos e por esta família provada. E como geralmente faz na
história, Ele incluiu um ser humano no Seu plano, Joquebede. Muito
dependeria da sua fé, na medida em que ela se conformasse com a Sua
direção.

O que é fé? É a firme confiança de que algo que esperamos


irá acontecer. É a certeza de que aquilo que esperamos nos
aguarda realmente, mesmo quando as possibilidades parecem
mínimas (Heb. 11:1). Todos os cristãos têm sido justificados pela
fé por meio de Cristo (Gál. 2:16), mas a fim de receberem a
resposta às suas orações, eles têm de orar com fé (Mat. 21:21).
Se duvidarem e não orarem com fé, as suas orações não serão
atendidas, porque tudo o que for feito sem fé é pecado (Rom.
14:23).

A Bíblia mostra que Deus honrou Joquebede e o seu marido. A fé


dos dois deu-lhes coragem para menosprezarem a ordem do rei (Heb.
11:23). Obedeceram a uma liderança mais alta, a Deus. Contra a ordem
expressa de Faraó, esconderam o filho, dia após dia. A sua motivação era
a obediência a Deus bem como o amor pelo menino.
O que é que eles esperavam? Um milagre? Essa solução era sem
dúvida uma possibilidade. Deus, que criou os homens e os animais bem
como toda a criação, simplesmente do nada, tinha poder para fazer todas
as coisas. O Seu poder não estava limitado. A Ele tudo era possível.
Pouco, Joquebede começou a entender que Deus ia operar um
milagre através dela. Contudo, nessa altura a situação continuava na
mesma. A atmosfera no país ainda era de opressão e de hostilidade
contra os hebreus. O rei não se havia tornado indulgente. De dia para dia
tornava-se mais difícil esconder o bebê do mundo exterior. A sua voz ia-
se tornando mais forte e os seus períodos de choro aumentavam os
motivos de preocupação.
Joquebede não poderia provavelmente imaginar quão maravilhosas
eram as ordens de Deus para esta criança que Ele chamara de um modo
singular. "Toda a criança vem ao mundo com 'ordens seladas'. Todo o ser
humano tem um destino distinto a cumprir" (The Christian Family, de
Larry Christensen, p. 64).
Que ela diariamente dava banho, vestia e alimentava uma criança
que se tornaria um dos maiores líderes nacionais da história era ainda
assunto selado. Deus havia escolhido o seu filho para fazer dele uma das
personalidades mais importantes do Velho Testamento. Como homem,
ele transmitiria as leis de Deus ao povo hebreu, leis essas que séculos
mais tarde ainda seriam consideradas como o fundamento da sociedade.
Ele prefigurou o Filho de Deus – o Messias que havia de vir – e a
primeira fase da concretização destes fatos tinha sido colocada nas mãos
de sua mãe. Embora os problemas do povo de Deus, nessa época da
história, parecessem insuperáveis, estavam na realidade a chegar ao fim.
Deus tinha planos, mas não problemas. Os Seus planos seriam
anunciados através desta criança.
Enquanto o tempo passava, a insegurança e a fé lutavam por
prioridade. Existia insegurança humana no que dizia respeito à criança, e
havia a certeza da fé. Esse período de prova concorreu para o crescimento
da fé de Joquebede e deu-lhe coragem.
Essa confiança crescente tornou-a imaginativa. Ela revelou-se
engenhosa na maneira de esconder a criança e concebeu o plano de lhe
poupar a vida. Aprendeu a educar o pequeno Arão, de modo a que ele não
traísse o irmãozinho. Conseguiu entender-se bem com Miriã, a sua única
filha, a despeito de tudo o que tinha de fazer para cuidar do bebê. Deus
também tinha ordens seladas para os seus outros filhos, cujo futuro
estaria intimamente ligado ao deste menino. Joquebede era responsável
tanto pelo desenvolvimento deles, como pelo do novo filhinho. O plano
que Joquebede arquitetou era simples e acessível. Baseado em fatos que
ela tinha cuidadosamente examinado, esse plano era acima de tudo
inspirado pela fé. O próprio Deus lhe tinha dado as idéias, o que tornou o
plano verdadeiramente genial e até engraçado na sua execução.
Primeiro, ela transformou um simples cesto de junco – talvez o
cesto das compras – num pequeno barco. O exterior de junco tinha de
proteger o bebê contra os crocodilos que pareciam ter pouco interesse em
comê-los. Depois cobriu cuidadosamente o interior do cesto com betume
e pez. A água que ameaçava de morte o menino tinha de salvar a sua vida.
Tinha de se tornar num aliado e amigo da criança.
Calma e pacientemente Joquebede lançou-se ao trabalho. Todas as
possibilidades foram pesadas. Passo a passo, enquanto desenvolvia as
suas próprias e boas soluções, ela ia-se integrando nos planos que Deus
havia formado no céu para o Seu servo na terra. A parte dela nesse plano
divino era vitalmente importante, mas só se podia movimentar nos
sentidos que Deus lhe apontasse.
Por causa da fé de Joquebede, os problemas não chegaram a surgir.
Não conseguiram paralisá-la ou isolá-la. Pelo contrário, as provas por
que passou empedraram o caminho para maiores oportunidades. As suas
dificuldades transformaram-se em amigos em vez de inimigos.
Joquebede fez da salvação do seu filho mais novo um assunto de
família. Por meio desta sua atitude, os problemas e preocupações
tornaram-se uma bênção para todos os familiares. O marido estava unido
com ela na sua fé. Todavia, foi ela, a mãe, que pôs particularmente o seu
selo sobre os outros membros da casa durante esse período difícil, e os
uniu como instrumentos de Deus.
Joquebede teve a coragem de envolver a sua jovem filha nestes
planos. Esse foi mais um passo de fé. Quando colocou o barquinho nas
águas do rio Nilo, ela retirou as mãos do filho e deixou-o ao cuidado de
Deus. O futuro do seu filhinho estava agora inteiramente nas mãos do
Senhor e nas da pequena Miriã.
Miriã mantinha uma vigilância discreta sobre o berço flutuante,
dando provas do cuidado com que havia sido preparada para esta tarefa.
A calma e a confiança da mãe caracterizavam-na igualmente.
Quando a filha de Faraó reparou no cesto e o mandou tirar do Nilo,
Miriã conduziu-se com excepcional maturidade. Logo que viu que o seu
irmão estava salvo e com a princesa, avançou. Nenhuma palavra ou
movimento deu a entender até que ponto ela se encontrava pessoalmente
relacionada com a criança. Não se notou qualquer indício na sua voz.
Nada na sua atitude despertou qualquer suspeita. "Irei eu a chamar uma
ama das hebréias, que crie este menino para ti?" – perguntou ela (Êx.
2:7). "Sim", respondeu a princesa (v. 9), sem imaginar que com aquelas
palavras ela restituía a criança à mãe.
Quando o menino cresceu e a princesa o adotou como seu próprio
filho, deu-lhe o nome de Moisés. "Este será o seu nome", disse ela,
"porque o tirei das águas" (v. 10). Assim, durante um tempo de terrível
perseguição, Joquebede pôde cuidar abertamente do seu filho sem se
sentir ameaçada. Estava mesmo a ser paga para cuidar dele pela filha do
homem que tinha tentado matá-lo. Chamava-se a isso humor divino.
Moisés havia sido salvo; o seu futuro estava totalmente assegurado.
Após os primeiros anos sob o cuidado da mãe, ele recebeu as melhores
oportunidades na corte de Faraó, o que certamente qualquer jovem do
seu tempo poderia desejar. Ele, o filho de uma família hebréia escrava,
recebeu a educação de um príncipe. Todas as possibilidades dos
poderosos e cultos egípcios estavam à sua disposição. E enquanto os
bebês hebreus continuavam a ser vítimas de morte prematura, Moisés
estava a ser preparado para a tarefa que Deus lhe tinha atribuído. A
ordem selada para ele consistia em se tornar o redentor do seu povo.
Joquebede continuou a ter uma parte nessa preparação. Os poucos
anos que Moisés tinha passado debaixo das suas asas ajudaram a
determinar o seu futuro. A fé que ela tinha em Deus tornou-se familiar a
Moisés. As tradições patriarcais do seu povo e a sua total dedicação a
Deus deixaram uma impressão indelével na sua alma receptiva; as
atrações do palácio pagão pouco significavam para ele.
Quando Moisés chegou à idade adulta, preferiu os sofrimentos do
seu povo às riquezas do Egito. Tornou-se um homem de fé (Heb. 11:24-
29) que andava diariamente com o Deus invisível como se O conseguisse
ver. Converteu-se num "amigo de Deus" (Êx. 33:11). Este era, na verdade,
o maior elogio que se poderia fazer a um ser humano.
Joquebede tinha recebido o significado do seu nome, "Jeová é a sua
glória". Será que esse nome lhe fora dado por pais crentes na esperança
de que ela viesse a trabalhar para a glória de Deus na sua vida? Será que
ela própria o escolheu como um testemunho público dos seus
pensamentos mais profundos, ou seria um nome honroso que Deus lhe
concedera?
A Bíblia só menciona duas vezes o nome de Joquebede Êx. 6:20;
Núm. 26:59), mas ele ficou para sempre gravado na história como sendo
o nome de uma das mães mais importantes que até agora existiram.
Provavelmente foi a única ocasião na história em que três filhos da
mesma mãe, Joquebede, tiveram tanta influência ao mesmo tempo.
Os filhos desta mulher demonstraram ao mundo o lugar que Deus
havia tido no coração da mãe. O maior alvo da sua vida foi honrá-lO. Eles
mostraram esse mesmo princípio nas suas próprias vidas. Quando
Moisés era o líder da nação israelita (Miq. 6:4; Sal. 103:23), Arão era o
sumo-sacerdote, que simbolizava a santidade e a graça de Deus para com
Seu povo (Êx. 28:1). Na qualidade de sumo-sacerdote, ele também
representava Deus perante o povo e este perante Deus. Como intercessor
da nação, prefigurou também Cristo (Heb. 2:17: 5:1-5).
Miriã desempenhou também uma parte na liderança do povo de
Deus, o que, para uma mulher foi um exceção rara na história de Israel.
Tornou-se a primeira profetisa da nação e usou os seus dons de música e
canto para levar as mulheres hebréias a darem louvor a Deus (Êx. 15:20-
21).
Assim, os três filhos do Joquebede usaram as suas vidas para o
serviço de Deus. A mãe tinha as leis do Senhor no coração, muito antes
de elas poderem ser lidas numa página impressa, e imprimiu-as também
no coração dos filhos, como a Bíblia ordena (Dt. 6:6-7). Ela realizou as
suas proezas e ministérios crendo nas promessas de Deus.
Joquebede viveu muito antes do aparecimento das palavras de
Tiago: "Quando todos os tipos de provas e tentações desabarem sobre as
vossas vidas, meus irmãos, não as recebais como intrusos, mas dai-lhes
as boas vindas como a amigos! Reconhecei que elas vêm testar a vossa fé"
(Tg. 1:2-3). Mas ela experimentou a verdade destas palavras exatamente
como os outros homens e mulheres – heróis da fé – em cujas fileiras se
encontra. Tratava-se de pessoas vulgares que se tornaram famosas por
causa da sua fé. Conseguiram grandes e extraordinárias vitórias porque
creram no Deus todo-poderoso (Heb. 11:1-40).
A despeito dos ambientes hostis que muitas vezes enfrentavam, eles
pensavam verticalmente em vez de horizontalmente, e num sentido
espiritual em lugar de obedecerem às suas próprias naturezas humanas.
Convictos de que o seu Deus era superior às maiores dificuldades,
enfrentaram corajosamente inúmeros problemas. Viram por experiência
as surpresas que Deus lhes reservava, e como para Ele era tão simples
transformar inimigos ameaçadores em amigos.

Joquebede, uma mulher que aprendeu a viver com a tristeza

(Êxodo 1:8-22; 2:1-10)

Perguntas:
1. Por que é que a mãe de Moisés aparece nas fileiras dos
heróis da fé? (Hebreus 11:23).
2. De acordo com Hebreus 11:1, o que é a fé ? Em que sentidos
é que vê esta fé concretizada na vida de Joquebede ?
3. Aprecie a vida de Joquebede à luz de Gênesis 50:20 e de
Romanos 8:28. Explique como é que estes versículos se
tornaram um fato na vida desta mulher.
4. Examine cuidadosamente a sua situação e faça uma lista de
todos os "inimigos" que Joquebede enfrentou.
5. Indique por escrito quais destes "inimigos" se
transformaram em "amigos" .
6. Terá você certas circunstâncias difíceis na sua vida, que o
poder e a graça de Deus possam transformar em "amigos"?
Se sim, quais são?
DÉBORA,

UMA LÍDER DE FÉ À FRENTE DE UM POVO

"Geralmente, o homem é responsável pela liderança. Neste caso, é


uma mulher. Deus nem sempre trabalha segundo padrões fixos. Ele
procura pessoas que se ponham ao dispor como instrumentos".
A Autora

Juízes 4:1-10
Juízes 4:12-16
Juízes 4:23-24
(Ler também os restantes versículos de Juízes 4 e 5)

A situação de Israel era sombria e desoladora. A vida tinha-se


tornado quase insuportável e insegura. Todo o comércio estava
paralisado, pois as caravanas tinham deixado de percorrer o vale de
Jisreel em direção ao sul ou ao leste. O cultivo da terra estava reduzido ao
mínimo. Dificilmente se encontrava um lavrador que ousasse cuidar da
terra, com receio de ser morto durante um ataque repentino do inimigo.
Com a paralisação do tráfego, as ruas estavam desertas. Os
habitantes das aldeias montanhosas saíam um pouco mais das suas casas
do que os outros, mas mesmo assim preferiam usar os caminhos
estreitos.
Durante mais de vinte anos, a terra tinha permanecido ocupada, e
os conquistadores tinham mantido o povo sob o seu firme controle. Os
jovens só conheciam a palavra "liberdade" de a ouvirem aos pais. Para as
pessoas mais velhas, estava-se a tornar cada vez mais difícil recordar o
que esse termo realmente significava. A população encontrava-se
desanimada, receosa e deprimida.
O rei Jabim, que vivia ao norte, na cidade de Hazor, dominava todo
o Israel. O seu temível homem forte, o general Sísera, comandava um
grande exército com 900 carros ferrados (Juí. 4:3). Toda o povo tinha
medo dele, pois as suas forças podiam invadir e destroçar uma região,
com rapidez e intenções de morte. Só o povo das montanhas estava
relativamente a salvo, pois os seus carros não os podiam atingir.
A causa dessa miséria, no entanto, não estava nas forças da
ocupação, mas nos próprios israelitas. Depois de 80 anos de
prosperidade sob a orientação de líderes anteriores, os juízes Eúde e
Sangar, o povo de Israel não tinha revelado qualquer gratidão para com
Deus. Afastou-se dEle e começou a adorar ídolos.
Os resultados das suas ações eram de prever. As pessoas que
pensavam que já não precisavam de Deus, tinham agora de notar o Seu
afastamento (v. 2). Quando o Senhor retirou a Sua proteção, eles ficaram
indefesos contra os inimigos e a paz desapareceu.
Todavia, nem todas as estradas do país se encontravam desertas.
Havia uma que apresentava movimento freqüente. Na região
montanhosa de Efraim, na estrada entre Betel e Ramá, viam-se cada vez
mais pessoas que se dirigiam para uma palmeira que sobressaía dos
arbustos ao redor. Debaixo dessa árvore, a sua líder de então – a
profetisa Débora – atendia-os, julgava os problemas das pessoas e dava-
lhes orientação para as suas vidas (vv. 4-5). Foi ela a única mulher juiz
entre os doze que orientaram o povo no período que separou a época de
Josué da de Samuel.
Débora exercia um cargo duplo no meio do seu povo. Era ao mesmo
tempo a sua líder nacional e espiritual, e desempenhava os seus deveres
de forma competente e com bons resultados. Como antes havia já
acontecido muita vezes, na sua tumultuosa história, a tribulação levava
os israelitas a buscar a Deus. Nesta situação, Débora teve o privilégio de
ser o Seu instrumento. Por causa da sua fé, o que aconteceu transformou
a história.
As responsabilidades de Débora eram as de um homem. Todavia,
ela não tinha chegado a essa posição por se ter imposto a um homem, e
não tinha assumido ilegalmente o poder. As suas responsabilidades
haviam-lhe sido dadas por Deus. Tinha sido encarregada de trazer o povo
de volta ao Senhor e de o livrar do poder dos seus opressores. Toda a
nação a reconhecia como líder. Portanto, enquanto Débora julgava os
problemas espirituais e materiais, também instruía o povo nas coisas de
Deus.
O seu marido, Lapidote, assumiu um papel de menor importância.
Nos eventos que se iam desenrolar, ela seria a líder principal. Entre o
povo do seu tempo – tanto homens como mulheres – a sua figura parecia
tão excepcional como a palmeira da sua terra, a que mais tarde foi dado o
seu nome. Revelou-se notável e única.
A profetisa Débora era a mediadora entre Deus e o Seu povo, a
porta-voz da Sua Palavra. Na sua posição elevada, ela comunicava
compreensão profunda, sabedoria e o conhecimento de Deus, com amor,
ao seu povo. Com a maravilhosa intuição de uma pessoa que habita na
presença de Deus, Débora percebia que tinha chegado o tempo de sacudir
o jugo da opressão.
"O coração do sábio discernirá o tempo e o modo", escreveu
Salomão (Ecl. 8:5). Débora provou que esta afirmação era exata. Ela não
somente discerniu o tempo da intervenção de Deus na história do Seu
povo, como também compreendeu intimamente, e com clareza, o método
que Ele queria usar para os livrar.
Sentiu, e com razão, que como mulher ela não era a pessoa indicada
para travar esta guerra. Portanto, o comando foi entregue a Baraque, o
filho de Abinoão, de Quedes. "Mobiliza 10.000 homens" (Juí. 4:6).
Débora raciocinou e fez as suas decisões baseadas na sua vida de
constante comunhão com Deus. A sua liderança tinha forma e conteúdo.
Ela desempenhava as suas tarefas com brilho e inteligência, e com
perseverança sacrificial.
Durante anos, trabalhou como mensageira de Deus pela liberdade,
e orou por ela. Mas agora que tinha chegado o tempo de agir, seria outra
pessoa a desempenhar o papel principal. Com sabedoria e tato, Débora
encontrou a maneira correta de apresentar o problema a Baraque.
Compreendeu que toda a autoridade humana era, de fato,
autoridade delegada. O único que realmente possuía autoridade
autêntica e definitiva era Deus. Por isso, embora ela fosse a primeira
entre o seu povo, não se colocou acima de Baraque. Em vez disso, pôs-se
num lugar secundário e, juntamente com ele, submeteu-se à liderança de
Deus. Como andava com Deus, perdeu o desejo de desfrutar toda a glória.
As outras pessoas tornaram-se mais importantes para ela. Exercia a sua
liderança, inspirando os outros.
Débora derivou a sua motivação do Deus de Israel. Nunca, nem por
um só momento, duvidou de que o Todo-Poderoso – que tinha salvo o
Seu povo de problemas no passado – iria ajudá-los de novo.
A sua ordem a Baraque era ao mesmo tempo um estímulo. "Não
temas por causa do seu número", disse ela cheia de confiança. "Olhando
para ele do ponto de vista de Deus, o nosso inimigo já está derrotado. Os
carros e os exércitos do rei Jabim não são nada aos olhos de Deus. A
única coisa que Ele espera de ti é fé" (vv. 6-7). Com algumas frases, ela
pôs a situação na sua perspectiva correta.
A liderança prudente e espiritual de Débora teve um efeito
libertador sobre Baraque. Impediu-o de se mostrar mais forte do que
realmente era. Ele ousou aceitar o desafio, mas não sem ela. Tinha a
certeza de que Deus só estaria com os seus exércitos se Débora o
acompanhasse. Reconhecia-a como superior a ele em fé e coragem.
Todavia, por causa destas experiências, Baraque transformou-se num
homem que é mencionado entre os heróis da fé em Hebreus 11 (Heb.
11:32-33). Ele revelou-se um líder forte na guerra que se seguiu.
Embora a atitude de Débora tivesse ajudado Baraque a tornar-se
um herói para Deus, nenhum deles permitiu pensamentos de rancor ou
competição entre os dois. Funcionaram simplesmente como
instrumentos no plano de Deus. Como duas pessoas- uma mulher e um
homem – levaram a cabo as ordens de Deus. Cada um se ajustou
voluntariamente ao outro para o bem-estar da nação inteira. Sabiam
também que parte do plano de Deus incluía o seu livramento através de
uma mulher, Jael, a esposa de Héber (Juí. 4:9).
Débora e Baraque agiram como uma unidade. Ajudaram-se e
completaram-se mutuamente. Deslocaram-se juntos de Efraim para
Quedes, que não ficava longe do lugar onde Jabim vivia. Aí, Baraque
recrutou os seus soldados. Seguindo à frente do exército recém-formado,
Baraque e Débora subiram juntos a encosta do monte Tabor e olharam
para baixo através da planície de Jisreel para o inimigo acampado no
sopé da montanha.
Ao longo da sua constante cooperação com Baraque, Débora
continuou a ser a líder e a pessoa responsável por todas as decisões.
Quando chegou o dia do combate, Deus revelou através dela a sua
vontade. "Levanta-te", disse ela a Baraque, "porque este é o dia em que o
Senhor tem dado a Sísera na tua mão" (v. 14). De novo acompanhou esta
ordem com uma palavra de estímulo. "Porventura o Senhor não saiu
diante de ti? Não tenhas medo de Sísera. Não se trata de uma luta entre ti
e ele, mas entre ele e Deus. O resultado da batalha já está decidido antes
do seu início. A vitória é de Deus. Ele luta ao nosso lado" (v. 14).
Débora observou então como Baraque, com a sua força de l0.000
homens que o seguiam, se precipitou pelo íngreme flanco do monte
Tabor. Junto ao ribeiro de Quisom, ele enfrentou o exército dr Sísera
acampado por detrás dos horríveis carros ferrados. O adversário
esperava uma vitória fácil. Não era o seu inimigo irrisoriamente fraco e
insignificante?
Teria alguém olhado para o céu enquanto os dois exércitos se
aproximavam? Nuvens cinzentas de trovoada agrupavam-se, rugindo em
sinal de mau presságio. O mau tempo aproximava-se.
A tempestade rebentou com toda a sua força, exatamente no
momento em que os israelitas alcançaram a planície.
Chuva torrencial e saraiva fustigou os rostos dos soldados inimigos
(Flávio Josefo, Antiquities of the Jews, Vol. V, cap. 5). Em breve o ribeiro
de Quisom inundou as margens e tornou-se uma torrente impetuosa.
Águas tumultuosas agitavam o chão que os soldados pisavam,
transformando-o numa massa lamacenta. Os carros do adversário
enterraram-se, provocando a derrota em vez da vitória. O inimigo
derrotado foi incapaz de fugir rapidamente, por causa dos carros
enterrados na lama.
Baraque e os seus homens reconheceram a mão de Deus no que
estava a acontecer. Perseguiram o adversário ainda com mais coragem e
mataram todos os soldados (v. 16). Sísera, vendo que tudo estava
perdido, tentou escapar e fugiu em busca de refúgio. Mas nem mesmo ele
escapou. Caiu, como Débora havia predito, pela mão de Jael (vv. 18-21).
A ocupação terminara. Israel era de novo livre. A opressão
desaparecera. Finalmente podia viver-se outra vez uma vida normal.
Mais uma vez a existência ganhava cor e significado. O povo tinha novos
alvos; o seu futuro apresentava-se brilhante.
É um fato que é difícil para qualquer homem agüentar-se na
adversidade. No entanto, o caráter de uma pessoa talvez seja ainda mais
provado quando se lhe pede que exerça o poder.
Desde a criação, Deus decretou que a mulher e o homem – unidos
pelo casamento – deviam executar a Sua comissão na terra. Ela foi criada
como companheira do homem, igual e, ao mesmo tempo, diferente.
Portanto, a mulher é própria para ele e capaz de o completar.
Esta relação entre o homem e a mulher pode atingir uma realização
total dentro do casamento. Mas também pode verificar-se em outros
lugares. A vida em sociedade sempre decorre melhor quando o homem e
a mulher desempenham em harmonia as tarefas dadas por Deus. Débora
e Baraque demonstraram esse princípio.
Geralmente, o homem tem sido responsável pela liderança.
Todavia, nesta passagem o líder foi uma mulher. Deus nem sempre
trabalha de acordo com um padrão fixo. Ele procura pessoas que estejam
dispostas a ser usadas como instrumentos, seja qual for a maneira que
Ele escolha. Débora não exerceu o seu poder indevidamente. Viveu
simplesmente para o cumprimento das suas responsabilidades. Era uma
mulher fascinante e dotada, que executou de modo competente todas as
suas variadas tarefas. Sendo uma figura de tremenda força espiritual, ela
instruía o povo nas leis de Deus. Ao mesmo tempo, agia em redor e
traçava sábias diretrizes para uma operação militar. Sabia tão bem usar a
espada como a pena.
Contudo, a maior força de Débora não estava nas suas capacidades
humanas, independentemente de quão notáveis e variadas elas fossem.
Ela sabia que a força e o poder que possuía lhe haviam sido concedidos
por Deus. Em tudo o que fazia, a sua esperança estava nEle. Pessoas
assim, descritas em Isaías (Isa. 40:31), continuam a receber novo vigor, à
medida que vão fazendo novos esforços.
O cântico de vitória de Débora, que pertence a alguns dos mais
antigos e mais belos poemas hebreus, mostrou que a sua força estava em
Deus. A felicidade dela não estava, primeiramente e acima de tudo, na
satisfação de uma tarefa bem executada. A sua alegria mais profunda
vinha de Deus.
"Ouvi, Reis; dai ouvidos, príncipes; eu, eu cantarei ao Senhor;
salmodiarei ao Senhor Deus de Israel", assim começava o cântico de
Débora e Baraque Juí. 5:1-3). E terminava com as seguintes palavras:
"Porém os que amam ao Senhor sejam como o sol quando sai na sua
força" (v. 31).
A vida de Débora foi forte e impressionante. Para descrever uma
vida assim, eis como Salomão se expressou: "A vereda do justo é como a
luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito" (Prov.
4:18).
Embora Deus tivesse o primeiro lugar no cântico épico de Débora,
ela reservou também espaço para outras pessoas. Todos os que tiveram
uma parte na vitória- Baraque, os líderes do povo, Jael – foram
cuidadosamente mencionados.
Débora não exigiu honra para si própria. Com moderação afirmou
o fato de que não havia líderes em Israel antes do seu aparecimento.
Como é que ela se descreveu a si própria? Considerou-se simplesmente
uma mãe em Israel. Do mesmo modo que as atenções duma mãe estão
voltadas para o bem-estar dos seus filhos, os anseios profundos do
coração de Débora se dirigiam para o bem-estar do seu povo.
Débora é uma das mulheres mais eminentes na história bíblica por
causa da sua liderança, do seu caráter e da sua bela poesia. Certamente, a
sua vida foi fascinante. Contudo, as suas prioridades não assentavam nas
suas realizações. O segredo evidente da sua vida era Deus. Mais do que
qualquer outra coisa, ela mostrou o que uma mulher pode fazer quando
Deus assume o pleno controle da sua vida. As possibilidades são muito
variadas para o líder de uma nação que quer ser inspirado pela fé em
Deus.

Débora, uma líder de fé à frente de um povo

(Juízes 4:1-10, 12-16, 23-24)

Perguntas:
1. Estude cuidadosamente a vida de Débora. Quais são as suas
características positivas?
2. Encontra nela também características negativas? Se sim,
quais são elas ?
3. O que é que o cântico de vitória de Débora revela quanto à
sua visão de Deus? (Juízes 5).
4. Que ênfase dá ela no seu cântico às outras pessoas ? E a si
própria?
5. Escreva o que possa encontrar quanto à sua cooperação com
Baraque. O que é que mais o impressiona a respeito da sua
relação?
6. Faça uma lista de quaisquer princípios práticos que tenha
aprendido nesta história. Como é que os vai aplicar?
DALILA,

UMA MULHER QUE ARRUINOU DELIBERADAMENTE


UM LÍDER ESPIRITUAL

"Achei coisa mais amarga do que a morte: a mulher cujo coração


são redes e laços e cujas mãos são grilhões; quem for bom diante de
Deus fugirá dela, mas o pecador virá a ser seu prisioneiro."
Ecl. 7:26

Juízes 16:4-30

Dalila era uma filistéia que pertencia a uma cultura que adorava
ídolos. Mostra também que não levava a sério a moralidade. Tendo pouco
respeito pelo seu corpo, pôs naturalmente de lado a sua honra, como uma
prostituta.
A Bíblia não se refere a estes fatos de um modo tão claro como no
caso de Raabe (Juí 2:1), mas o contexto permite tirar estas conclusões.
Dalila é recordada como uma mulher que arruinou um líder
espiritual. Como qualquer mulher, ela havia sido criada por Deus para
ser companheira do homem, sua colaboradora. Contudo,
deliberadamente, ela se degradou para se colocar em oposição a ele e o
desgraçar. O que é que a teria motivado para prejudicar Sansão, o
homem com quem vivia, de um modo tão irreparável?
Sansão era um homem extraordinário, um servo de Deus.
Chamavam-lhe nazireu, pois havia sido dedicado a Deus antes do seu
nascimento (Juí. 13:2-5, 24-25). Os seus longos cabelos eram uma
demonstração desta entrega, e durante vinte anos ele dirigiu e julgou os
israelitas (Juí. 16:31).
O nome de Sansão, que significava "«pequeno sol", mostrava quão
felizes se sentiram os pais quando ele nasceu. Como aconteceu no caso de
Jesus, muitos séculos mais tarde (Lc. 1:26-38), o seu nascimento foi
anunciado por um anjo. Resultou também de um milagre, uma vez que a
sua mãe ao princípio não podia ter filhos. Depois do nascimento, Sansão
foi-se desenvolvendo com a bênção de Deus, até se tornar um líder – o
homem mais forte de Judá – que possuía uma força física invulgar Juí.
14:5-6; 15:13-16). Desse modo, ele estava muito acima dos inimigos, que
tinham razão em considerá-lo invencível. Não era verdade que Deus
tinha dito que Sansão começaria a livrar Israel da mão dos filisteus?
Apesar da sua força física, Sansão era moralmente fraco. O homem
que facilmente rasgava ao meio um leão, só com as mãos, não revelava
qualquer domínio sobre as suas paixões sexuais. Tinha deixado sem freio
a sua conduta em relação ao sexo oposto, atitude que é perigosa para
qualquer homem e por vezes fatal para um líder espiritual.
Várias mulheres antes de Dalila tinham já exercido uma influência
nefasta sobre a sua vida. Desta vez ele caiu-lhe nas mãos e deixou-se
envolver. Não casou com ela. Não a levou como esposa para a sua própria
casa. Em vez disso, tornou-se seu amante e vivia com ela.
Os príncipes dos filisteus, representando provavelmente cada um
deles uma grande cidade, ouviram falar das relações de Sansão com Dalila.
Por isso, atraíram Dalila para uma conspiração cujo objetivo era destruí-lo.
Afinal de contas, era mesmo um imperativo nacional matar Sansão. Onde
tinha falhado a força militar, tinha de triunfar agora a astúcia.
Os príncipes visitaram pessoalmente Dalila e disseram-lhe: "Tenta
descobrir o que é que torna Sansão tão forte. Fala com ele até saberes
isso. Então poderemos vencê-lo e dominá-lo" (Juí. 16:5).
Seria o amor de Dalila ao dinheiro que a levou a aceitar a proposta?
Cada um dos homens prometeu-lhe 1.100 peças de prata. Uma vez que
cada peça pesava mais de 16 gramas, o peso total da prata que lhe foi
prometida seria uma soma inconcebível.

O amor ao dinheiro é um grande perigo. Moisés afirmou que uma


pessoa que aceita suborno fica cega (Êx. 23:8), e Paulo disse que "o amor
do dinheiro é raiz de todos os males" (1 Tim. 6:10). Os que procuram
dinheiro, só pelo dinheiro, são traspassados por muitas dores.

Ou seriam as ações de Dalila provocadas pela sua má vontade


contra os israelitas? O futuro de Sansão como líder de um povo que se
tinha revelado sempre mais forte do que realmente era, por causa da
ajuda de Deus, estava agora nas mãos dela. O Deus de Israel não era o
seu deus, porque ela e o seu povo adoravam o ídolo Dagom.
O pedido dos príncipes filisteus deve ter apelado também ao seu
orgulho. Num país e numa época da história em que a posição da mulher
ficava atrás da do homem, os líderes importantes da sua nação bateram à
sua porta pedindo ajuda.
Depois de ter aceita a sua proposta, Dalila procurou descobrir o
segredo da força de Sansão. Começou a sua farsa com todos os meios de
que podia dispor como mulher. O primeiro passo foi o uso da lisonja.
"Por favor, diz-me o que te faz tão forte", suplicou ela. «Haveria alguém
capaz de alguma vez te capturar?" (Juí. 16:6)
Cego pela sua paixão por Dalila, Sansão cometeu a imprudência de
lhe responder. Evidentemente, ele não deu a devida importância ao
perigo que corria. Se vivesse em íntima comunhão com Deus, teria ficado
alarmado e tê-la-ia deixado imediatamente.
Através do descaramento de Dalila, os líderes dos filisteus
presenciaram, de uma sala anexa, o seu jogo humilhante com Sansão.
Prestaram toda a atenção enquanto ela o atava com sete vergas de vime.
Mas quando exclamou: "Os filisteus vêm sobre ti, Sansão", ele rebentou
as vergas como se fossem fios de algodão (v. 9). Os príncipes, verificando
que o plano tinha falhado, permaneceram onde estavam.
Dalila insistiu então no ponto da honestidade de Sansão. "Estás a
zombar de mim", disse ela contrariada. "Mentiste-me" (v. 10). Sansão
mais uma vez lhe deu ouvidos e brincou com a delicada situação. Mas de
novo as cordas com que ela o havia maniatado se rebentaram como fios
duma teia, logo que ele usou os músculos.
O fato de viver com um homem que mostrava estar realmente
interessado nela, não modificou os pensamentos de Dalila, nem
amoleceu o seu caráter. Pelo contrário, tudo o que possuía – a sua
sedução e o seu cérebro – foram propositada e insistentemente aplicados
no sentido da destruição de Sansão. Uma vez mais ela continuou na sua
tentativa de apanhar Sansão, desta vez tecendo o seu cabelo no tear.
Todavia, os resultados foram ainda nulos. Não obstante os príncipes dos
filisteus terem perdido a paciência e voltado às suas cidades, Dalila foi
suficientemente perseverante para tentar mais um plano de ataque.
Nesta ocasião, ela desempenhou o papel de uma mulher cujos
sentimentos de amor haviam sido feridos. "Dizes que me amas",
lamentou-se ela, "mas não confias em mim. Enganaste-me estas três
vezes e ainda não me disseste o que te faz tão forte" (v. 10).
Dalila baseou o seu novo ataque na reação do seu amante
apaixonado ao ver o seu amor posto em dúvida. Como mulher, ela
possuía uma arma contra a qual poucos homens poderiam resistir. Foi
essa que pôs então em ação. Queixava-se diariamente, importunando-o
sem cessar. Passava o tempo a acusá-lo dos seus estratagemas.
Ela sabia como usar esta arma final, com determinação e êxito.
Pouco a pouco foi quebrando a resistência de Sansão, que se tornou como
cera nos seus braços. Por fim, totalmente frustrado, ele não pôde
agüentar por mais tempo. Só já estava preocupado com uma coisa. "Não
suporto mais esta chaga. Quero ter paz!" (v. 16)
Contou-lhe então toda a verdade. "O meu poder está relacionado
com o meu cabelo que nunca foi cortado", confessou ele. "Mesmo antes
do meu nascimento, fui dedicado a Deus. A minha força deriva desta
entrega. O meu cabelo é um símbolo disso. Se mo cortares eu já não serei
diferente de qualquer outro homem" (v. 17).
Sentindo que desta vez Sansão estava a dizer a verdade, sem lhe
esconder absolutamente nada, ela mandou imediatamente uma
mensagem aos príncipes dos filisteus. "Tendes de vir cá mais uma vez",
disse ela. "Ele já me contou tudo" (v. 18). Nem lhe passou pela mente a
idéia de que estava a trair o seu amante.
Os homens vieram logo com o dinheiro. Tornaram a esconder-se.
Dalila fez então o que Sansão lhe tinha dito para fazer. Chamou alguém
para lhe cortar as sete tranças enquanto ele dormia nos seus joelhos.
Mesmo enquanto o cabelo de Sansão estava a ser cortado, Dalila já tinha
a certeza de ter vencido. Quando as tranças caíram no chão, a força de
Sansão abandonou-o.
Quando Dalila gritou: "Sansão, os filisteus vêm prender-te" (v. 20)
ele não se apercebeu imediatamente da sua derrota. Como das outras
vezes, tentou libertar-se, mas os seus esforços foram em vão. Depois do
corte do cabelo, o Senhor deixara-o. Ele perdeu a força extraordinária
que possuía e a presença de Deus – por causa dos seus erros.
Os resultados foram terríveis. Os filisteus capturaram Sansão. Não
o mataram, mas arrancaram-lhe os olhos. Daí em diante, ele viveu uma
vida de mutilado; órbitas vazias nada podiam ver senão escuridão.
Como prêmio do seu triunfo, e vergonha de Sansão, os líderes
mandaram-no para a cidade de Gaza. Como se não bastasse a
humilhação da sua cegueira e prisão, foi posto a moer grão como um
escravo vulgar.
Dalila tinha consumado o seu trabalho. Sansão, um servo de Deus e
líder em Israel, perdera o seu brilho. Dificilmente se poderia conceber
uma degradação mais profunda para este gigante.
O povo partilhou do seu sofrimento. Quando terminou a liderança
de Sansão, os israelitas entraram num período de derrotas, anarquia e
declínio espiritual. A sua queda atingiu-os também a eles.
Sansão tinha negado o seu Deus, os seus ideais e o seu povo. Havia-
se tornado traidor de si mesmo e da causa que devia defender.
Naturalmente, ele só poderia acusar-se a si mesmo por estes atos. Mas
isso não tornava Dalila menos culpada. Como qualquer outra pessoa,
Dalila era diretamente responsável diante de Deus pelas suas ações. Ela
continuava a ter de responder pela sua parte na desgraça que desabou
sobre Sansão e os outros.
A única razão que se podia mencionar em defesa de Dalila é que ela
não conhecia a Deus. Por meio de Paulo Deus diz que os pagãos que não
possuem as Suas leis, contudo as têm nos corações, e serão julgados de
acordo com este fato (Rom. 2:13-15). Dalila não possuía as Suas Leis
Todavia, mesmo como mulher pagã, ela tinha pouca desculpa.
Cerca de dois séculos mais tarde, Salomão caracterizou a relação
entre Dalila e Sansão: "E eu achei uma coisa mais amarga do que a
morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e cujas mãos são
ataduras; quem for bom diante de Deus, escapará dela, mas o pecador
virá a ser preso por ela" (Ecl. 7:26).
O retrato de Dalila parece-se com a mulher ímpia contra a qual
Salomão adverte os homens em Provérbios. "Porque os lábios da mulher
estranha destilam favos de mel", escreve ele, "e o seu paladar é mais
macio do que o azeite; mas o seu fim é amargoso como o absinto... Os
seus pés descem à morte" (Prov. 5:3-4).
Os pés de Dalila levaram, de fato, literalmente à morte. Esta, que
espreitava Sansão e milhares de outros israelitas, iria revelar-se num
futuro próximo.
Os líderes da cidade não cabiam em si de contentes. Para celebrar a
prisão de Sansão, organizaram uma grande festa e dedicaram-na ao seu
deus Dagom. Quando o festival já estava a decorrer, as pessoas
começaram a ficar excitadas e chamaram por Sansão. Queriam divertir-
se e humilhá-lo. Desejavam exaltar Dagom acima do Deus de Israel. Será
que, quando Sansão finalmente chegou, ninguém reparou que o seu
cabelo já tinha crescido? Será que ninguém se tinha demorado a observar
o homem que, evidentemente, era superior?
O amplo edifício em que se realizava a festa estava superlotado de
homens e mulheres e, sem dúvida, de príncipes dos filisteus.
Provavelmente, encontrava-se lá a própria Dalila, pois como é que eles
poderiam celebrar uma festa tão grande sem a heroína? Só no terraço do
edifício havia cerca de 3.000 pessoas.
Será que ninguém, de entre a multidão, se lembrou do Deus de
Israel e de Sansão? Será que não havia o menor temor de que Ele Se
vingasse do insulto que Lhe tinha sido feito a Ele, ao Seu servo e ao Seu
povo?
Quando os filisteus forçaram Sansão a ficar de pé entre as duas
colunas que sustentavam o teto, de modo a poderem zombar dele, Sansão
recordou-se da sua missão inicial. Não fora ele indicado para redimir o
seu povo dos inimigos? "Ó Senhor Jeová", orou ele, "lembra-te
novamente de mim. Por favor, fortalece-me uma vez mais, a fim de que
eu possa vingar-me dos filisteus pela perda dos meus olhos" (Juí. 16:28).
Ao mesmo tempo, ele empurrou as colunas com toda a força e elas
desmoronaram-se. Todo o edifício que se apoiava nelas ruiu, matando
Sansão e milhares de filisteus.
A catástrofe que Dalila desencadeara e pela qual, provavelmente,
perdeu a sua vida, teve sem dúvida um alcance muito maior do que ela
teria previsto ou desejado. O que tinha começado por um ato imoral,
como na história de Diná (Gên. 34:1-20), terminou com a morte de
muitas pessoas. O resultado dos seus atos foi pior do que o início.
"Uma prostituta é uma cova profunda" (Prov. 23:27), escreveu
Salomão. "Todos os que se dirigem a ela não voltarão, e não atinarão com
as veredas da vida" (Prov. 2:19). Ter comunhão com uma prostituta é
como transportar fogo no seu próprio seio (Prov. 6:27). Será que alguém
pode fazer isso sem se queimar?
No seu livro The Unique World of the Women (O Mundo Singular
das Mulheres), a autora Eugénia Price escreve que as mulheres cristãs
dos nossos dias sentem-se certamente muito longe da traiçoeira e
perversa Dalila. Na sua opinião, elas estão convencidas de que nada têm
em comum com essa mulher. Eugénia Price aconselha então as mulheres
a não cometerem um grave erro. "Podemos não ser prostitutas, ou
mesmo abertamente coniventes e ardilosas como foi Dalila, mas muitas
de nós somos realmente desleais... De fato, creio que todas nós revelamos
tendência para enganar" (p. 63).
Séculos depois da morte de Sansão e de Dalila, Paulo deu outra
admoestação aos cristãos de Corinto que se aplica também à nossa
perspectiva em relação à vida de Dalila. "E estas coisas foram-nos feitas
em figura, para que não cobicemos as coisas más como eles cobiçaram" (1
Cor. 10:6). Fazemos bem em ter em conta estes avisos.

Dalila, uma mulher que arruinou deliberadamente um líder


espiritual

(Juízes 16:4-30)

Perguntas:
1. Considere a vida de Dalila à luz de Provérbios 5:1-11. Quais
são os aspectos negativos mencionados aí que se lhe
aplicam?
2. Vê características boas ou más em Dalila que não estejam
mencionadas em Provérbios 5:1-11 ? Se sim, indique-as.
3. Escreva todas as conseqüências dos atos de Dalila. Qual é a
que sobressai ?
4. Descreva agora a vida de Dalila como a vê.
5. Que lições ou advertências valiosas pode tirar da sua vida?
6. Como é que pode aplicar na sua vida aquilo que aprendeu ?
NOEMI,

UMA VIÚVA QUE SE PREOCUPOU COM O BEM-ESTAR


DOS OUTROS

"Não deixes que ninguém se Aproxime de ti sem partir melhor e


mais feliz. Procura ser uma expressão viva da bondade de Deus:
bondade na tua face, bondade nos teus olhos, bondade no teu sorriso,
bondade no teu caloroso cumprimento".
Madre Teresa*

Rute 1:1-6
Rute 1:15-22
Rute 4:14-17
(Ler também todo o livro de Rute)

Noemi, a viúva de Elimeleque, olhava amorosamente para o bebê


recém-nascido que tinha ao colo. Sendo geralmente faladora,
encontrava-se agora sem conseguir exprimir a sua gratidão. As emoções
eram tremendas.
À sua volta ouvia-se o cochichar das vizinhas excitadas. "Rute tem
um filho", gritaram elas alegremente. "Louvado seja o Senhor, Noemi. Na
tua velhice, haverá um homem para cuidar de ti. Mas muito mais
importante do que isso, é que tens um remidor para a tua família.
Oramos", continuavam as mulheres, "para que este menino se torne
famoso em Israel" (Rute 4:14).
Noemi riu-se. O nome do marido, que significava "O meu Deus é
Rei", iria continuar. A sua herança não passaria para outros. Os nomes
dos seus filhos mortos não seriam esquecidos.
Olhou de novo para o bebê. Tinham-lhe dado o nome de Obede,
que significava "Servo". Orou silenciosamente para que o Senhor Deus de
Israel fosse de fato Rei na vida de Obede. Depois, ela pensou em
Elimeleque e um dilúvio de recordações encheu a sua mente.
Refletindo sobre o passado, ela viu-se viajando com o marido e os
dois filhos, de Judá para Moabe muitos anos antes, com o propósito de

*De Malcolm Muggeridge, SomethingBeautiful for God (Algo de Belo Para Deus), p. 69, 1971, The
Mother Teresa Committee, Harper & Row, Publishers, Inc., New York. Usado com permissão.
escapar à fome que tinha caído sobre Israel. Essa fome estava tão
espalhada, que mesmo na sua cidade de Belém (chamada "a casa de pão"),
com dificuldade se encontrava algum alimento, não obstante o fato de
essa cidade ser considerada o celeiro do país.
Elimeleque tinha sentido profundamente a responsabilidade pelo
sustento da família, especialmente por os filhos Malom e Quiliom serem
doentes e estarem a definhar de dia para dia. "Vamos emigrar", propôs
Elimeleque. "Vamos para Maobe, onde haverá muita comida para todos
nós. Lá não teremos de nos preocupar" (Rute 1:1).
Como tudo tinha sido diferente! – pensou Noemi.
Moabe era o país que ficava a leste do Mar Morto, habitado pelos
descendentes de Ló, sobrinho do patriarca Abraão (Gên. 19:36-37). Não
era simplesmente um país vizinho. Era uma nação que Deus tinha
amaldiçoado por causa do seu povo ter sido cruel para os israelitas após a
sua saída do Egito (Dt. 23:3-4; Jer. 48:1-47). Um moabita era impuro aos
olhos de Deus e, como tal, não podia entrar na assembléia do Senhor.
Entre essas pessoas estabeleceram Elimeleque, Noemi e os seus
filhos a sua residência. Mas algum tempo depois, Elimeleque morreu.
Uma vez que moravam em Moabe, os filhos casaram com moças
moabitas. Malom casou com Rute e Quiliom com Orfa. Todavia, à
medida que os anos passavam Noemi tornava-se dolorosamente
consciente de que nenhum dos casamentos tivera filhos. Será que Deus
nos está privando da Sua bênção? – perguntava ela a si mesma. Como
todo o israelita, Noemi acreditava que os filhos eram uma bênção de
Deus e que a falta deles era sinal da Sua maldição (Dt. 28:4-18).
Depois, Quiliom e Malom, os seus únicos filhos, morreram ainda
jovens. Dentro de um período de dez anos, toda esta tristeza desabara
sobre ela. Naturalmente, sentira-se solitária. Só – longe da pátria,
privada da família, abandonada por Deus – tinha antecipado um futuro
amargo, sem qualquer significado ou esperança.
Ouvira entretanto que havia de novo muita abundância em Belém.
Deus estava a abençoar o Seu povo dando-lhe boas colheitas. Esse
milagre viera confirmar as suas suspeitas. A fome do passado tinha sido,
na realidade, um aviso de Deus para o povo desobediente (Lev. 28:14-
20).
Noemi tinha verificado que a partida da sua família de Belém tinha
significado de fato um afastamento de Deus. Em Belém, ela e Elimeleque
tinham sido cidadãos importantes. Se ao menos tivéssemos confessado
os nossos pecados a Deus, pensava ela, talvez tivéssemos levado o nosso
povo a voltar-se de novo para o Senhor. Mas a sua família tinha perdido
essa oportunidade com a saída do país.
À luz das leis de Deus, o casamento dos seus filhos não tinha sido
aceito. Um israelita que casava com uma estrangeira agia contra os
mandamentos de Deus (Dt. 7:3-4), que tinha dado estas instruções a fim
de impedir que o Seu povo se afastasse dEle.
A convicção de Noemi foi-se arraigando cada vez mais. Eu tenho
que regressar, pensava ela. Não posso permanecer mais tempo neste
país estrangeiro. Eu pertenço a Israel, a Belém.
Embora tivesse sofrido por causa das mortes ocorridas na sua
família, ela havia experimentado também ricas bênçãos nas pessoas de
Orfa e Rute. Quando Noemi se preparava para voltar à sua pátria, ambas
as jovens tinham decidido sem hesitação deixar os pais e ir com ela.
Noemi tinha sentido sempre uma grande responsabilidade por
aquelas mulheres, porque eram as viúvas dos seus filhos. Mas não tinha
sido essa a única razão. Tratava-se de mulheres pagãs, que não
conheciam a Deus. Muitas vezes Noemi tinha partilhado com elas a sua fé
em Deus, o Deus que havia ofendido, mas que ainda amava
intensamente, apesar de tudo.
O seu interesse em Orfa e Rute tinha-a ajudado também a esquecer
a sua própria tristeza. Tinha-lhe feito bem manter-se ocupada com o
bem-estar dos outros; isso tinha-lhe servido de refrigério. Pouco depois,
havia deixado Moabe.
Quando ia a caminho de Belém, Noemi tomou subitamente
consciência da finalidade das decisões das suas noras. Não estava o
futuro dela totalmente dependente dos novos casamentos que fizessem?
Sem dúvida que o pensamento de que as noras poderiam um dia
pertencer a outros maridos lhe era doloroso. A dor adormecida, mas
presente, das mortes dos seus filhos viera de novo à superfície. Ao
mesmo tempo, a idéia do bem-estar de Rute e Orfa triunfou. Pouco a
pouco, enquanto as recordações a respeito dos filhos voltavam para o
fundo, ela sentiu desejo de que as viúvas tivessem oportunidade de serem
de novo felizes.
Contudo, Orfa e Rute, conhecendo os fatos, tinham escolhido ir
com ela. Em vez de voltarem para as suas casas onde encontrariam
felicidade, procuravam entrar num país cheio de preconceitos contra
elas. Nenhum israelita seguidor da lei admitiria alguma vez a hipótese de
casar com uma moabita.
"Voltai para os vossos lares, para os vossos pais", tinha pedido
Noemi. "Que o Senhor vos recompense pela fidelidade que revelastes
para com os vossos maridos e para comigo" (vv. 8-13).
Todavia, Orfa e Rute rejeitaram totalmente essa resposta. "Não",
responderam elas por entre lágrimas. "Queremos ir contigo, para o teu
povo" (v. 10).
No entanto, Noemi não mudou de idéia, nem mesmo quando o seu
próprio futuro atravessou a sua mente. A vida iria tornar-se-lhe ainda
mais vazia. Não viveria apenas sem marido e filhos; perderia também as
noras. Mas Deus tinha-lhe dado a graça de não ser egoísta, e por isso ela
estava pronta a sacrificar os seus desejos de uma vida segura na velhice,
pelo bem-estar daquelas duas jovens.
As três viúvas permaneciam de pé numa estrada solitária e cheia de
sol, incapazes de dominarem as suas emoções. De repente, uma das
personagens moveu-se. Orfa dirigiu-se a Noemi, abraçou-a e voltou
depois para Maobe. Rute havia-se aproximado também da sogra e
apegou-se a ela. "Por favor, vai-te embora, como fez a tua cunhada",
pedira Noemi (v. 15). Mas Rute abanou decididamente a cabeça.
"Não insistas para que te deixe, porque quero ir contigo para onde
quer que fores, e viver onde quer que vivas. O teu povo será o meu povo,
e o teu Deus será o meu Deus" respondera Rute (v. 16).
"O teu Deus será o meu Deus". Estas palavras tinham tocado
profundamente Noemi. Mostraram que Rute não só tinha escolhido ficar
com a sogra, mas tinha escolhido igualmente o Deus de Israel. As
palavras de Noemi a respeito de Deus tinham sido ouvidas e
compreendidas. A despeito dos desvios de Noemi, o Senhor tinha
abençoado o seu testemunho. Isso era já em si uma graça maravilhosa,
um favor imerecido.
Não obstante esta experiência encorajadora, a sua chegada a Belém
fora um desapontamento. As notícias do seu regresso espalharam-se
rapidamente. Agitaram toda a cidade. "Já sabem?" – gritavam as pessoas
umas para as outras. "Noemi voltou!" (v. 19) Apesar da sua longa
ausência no estrangeiro, as pessoas ainda se lembravam dela. Não era ela
das relações de Boaz, seu rico concidadão?
As reações das pessoas, quando a saudaram pela primeira vez,
mostraram a Noemi quanto ela havia mudado. "Será mesmo Noemi?" –
perguntavam as mulheres, sem querer acreditar. Pelos olhos dela é que
Noemi se tinha visto ao espelho. Era agora uma mulher de rosto
inexpressivo, em que a tristeza havia traçado profundos sulcos. A sua
personalidade tinha perdido todo o colorido. O nome dela significava
"agradável", mas era evidente que a sua alegria havia desaparecido e as
pessoas de Belém sabiam-no.
"Não me chameis Noemi; chamai-me Mara", respondera ela
impulsivamente (v. 20). O nome Mara significava "amarga", e era assim
mesmo que se sentia naquele momento. Esse nome ajustava-se a ela
perfeitamente agora. Mas a sua amargura brotava de um sentimento de
auto-comiseração, e isso geralmente leva a acusar outras pessoas. Foi o
que aconteceu também a Noemi. Esses sentimentos recalcados de
tristeza e desespero tinham dado lugar a uma acusação contra Deus. "O
Todo-Poderoso deu-me grande amargura", disse ela. "Saí cheia, mas o
Senhor trouxe-me de volta vazia" (vv. 20-21).
Não referiu uma só palavra sobre o fato de que Elimeleque e ela
própria se tinham afastado de Deus quando empreenderam aquela
viagem para Moabe. Nesse momento ela ainda não tinha reconhecido
que de fato não voltara vazia. Tinha agora uma carinhosa nora que
desejava partilhar da sua vida.
Desse momento em diante, no entanto, a vida de Noemi começou a
modificar-se. Da mesma maneira que se tornara evidente a falta da
bênção de Deus em Moabe, mostrava-se agora muito claramente em
Belém.
Tinha meditado muitas vezes nas palavras que Moisés havia
transmitido ao povo, da parte de Deus. "Eis que hoje eu ponho diante de
vós", dissera ele, "a bênção e a maldição. A bênção, quando ouvirdes os
mandamentos do Senhor vosso Deus, que hoje vos mando; porém a
maldição, se não ouvirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus e vos
desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros
deuses que não conhecestes" (Dt. 11:26-28).
Noemi tinha experimentado a bênção de Deus através de Rute, que
desde o princípio tinha cuidado dela como filha. Tinha visto igualmente a
bênção de Deus por meio da Sua orientação. Desde o primeiro momento,
Ele havia-se conduzido na direção de Boaz, o homem que iria
transformar radicalmente as suas vidas.
Quando Noemi tomou consciência de que Deus estava a agir a favor
deles, e suspeitou de que Ele ia dar a Rute a alegria de um casamento
com Boaz, disse à nora: "Minha querida, não será altura de eu tentar
encontrar um marido para ti e ver-te de novo casada e feliz?" (Rute 3:1).
Boaz era um proprietário abastado, mas o mais importante é que
era temente a Deus. Uma vez que se apaixonou por Rute, não hesitou em
casar com ela. Como resultado do casamento, o pequenino Obede estava
agora sentado no colo de Noemi. Rute, que não tivera filhos da sua união
com Malom, fora agora abençoada por Deus com um menino.
O movimento do bebê interrompeu as meditações de Noemi sobre
o passado. As vizinhas tinham dito todas: "Rute teve um filho" (Rute
4:15). Ela sorriu para o "neto" que não tinha o mínimo sinal do seu
sangue nas veias. Contudo, este pensamento não a amargurou. Ela não
envenenou a sua alegria com pensamentos do que podia ter acontecido.
Não disse que teria sido mais feliz se pegasse num filho de Malom e de
Rute.
Noemi aceitou os fatos. Abriu o coração a Obede como se fosse de
fato seu neto. Afinal de contas, era filho de Rute, que valia mais para ela
do que sete filhos. Isso era já por si felicidade completa. Por isso, sentia-
se grata. Por outro lado, de acordo com a lei judaica, ela tinha realmente
um neto, pois Obede era considerado como filho de Malom.
O futuro de Noemi brilhava finalmente. Todo o pensamento de
solidão desaparecera como a neve diante do sol. Rute, por quem tinha
velado com tanto amor, fazia agora todo o possível para a ver feliz. A avó
estava a tratar do bebê em vez da mãe.
Mais um vez, Noemi se tornou agradável, uma pessoa que dava e
recebia amor. O período de Mara ficara para trás. "Bendito seja o
Senhor", tinham dito as vizinhas (v. 14), e essas palavras permaneciam
no seu coração. Deus tinha sido bom para ela, a despeito das
dificuldades, das tristezas e das suas próprias faltas.
Até que ponto é que Deus tinha sido bom? Nessa altura ela não
tinha a menor idéia de que aquela criança mexida que tinha no colo se
tornaria um elo especial na história do seu povo e na história da
redenção. Como é que ela poderia mesmo imaginar que estava a acariciar
o avô do mais querido rei de Israel, Davi? Só o futuro iria revelar que,
com Davi, o nascimento do Messias estava à vista. Noemi, que se
preocupava com o bem-estar dos outros, não podia prever que a sua vida
ficaria ligada ao Salvador do mundo, Jesus Cristo, que viria passados
mais de mil anos.

Noemi, uma viúva que se preocupou com o bem-estar dos


outros

(Rute 1:1-6,15-22; 4:14-17; Ler também todo o Livro de Rute)

Perguntas:
1. Escreva uma breve biografia sobre Noemi.
2. Quais são os aspectos positivos da sua vida? E quais os negativos?
3. Por que é que Noemi foi uma boa sogra?
4. Quando examina as afirmações de Noemi a respeito de Deus, a
que conclusões chega?
5. O que lhe parece ter influenciado mais a sua vida?
6. Que qualidades de Noemi gostaria de desenvolver na sua própria
vida? Como é que irá fazer isso?
ORFA,

A MULHER QUE CAIU NO ESQUECIMENTO POR UMA


DECISÃO ERRADA

"As nossas vidas continuarão por milhões e milhões de anos. E a


escolha que fizermos agora decidirá o tipo de vidas que vamos viver no
futuro."
Billy Graham*

Rute 1:1-15
(Ler também todo o Livro de Rute)

A vida tinha sido dura para Orfa. Embora fosse ainda jovem, já
tinha experimentado mais sofrimento do que muitas pessoas numa vida
inteira.
A morte do marido, Quiliom, foi o golpe que mais duramente a
abalou. Tinha sido uma boa esposa para ele, mas a sua felicidade tinha
durado apenas alguns anos. Uma vez que não tinham filhos, depois da
sua morte ela ficou só.
Dentro do circulo dos parentes, Orfa não era a única pessoa que
tinha enfrentado o sofrimento. Noemi, a sua sogra, também era viúva.
Rute, a sua cunhada, tinha passado por idêntica experiência. Estas três
mortes haviam arrebatado todos os homens da família. O resultado foi
que se desenvolveu entre as três desoladas mulheres um elo de profunda
afeição.
Orfa e Rute ficavam continuamente impressionadas com o amor e
altruísmo da sogra. Noemi, que entre elas fora a que mais perdera, dava-
se inteiramente na luta pelo bem-estar das noras, em vez de olhar pelos
seus próprios interesses. Todos os dias provava que podia existir uma
boa relação entre uma sogra e as suas noras.
Mas de agora em diante, Orfa iria perder o carinhoso cuidado de
Noemi e a amizade e compreensão de Rute. As bênçãos que haviam
acompanhado e suavizado a sua tristeza eram agora simples recordações,
pois Orfa havia decidido voltar para o seu povo e os seus deuses.

* Billy Graham, The Challenge (O Desafio), pp. 71 e 72, 1969. Usado com permissão.
Encontramos Orfa numa estrada deserta, algures em Maobe, não
longe da fronteira com Israel. Era uma figura solitária. Quando olhou
para trás, viu Noemi e Rute que se afastavam em direção oposta à dela.
Depois, esses dois pontos diminutos acabaram por se sumir no horizonte.
Tinham desaparecido, separando-se para sempre de Orfa.
Pouco tempo antes, as três viúvas tinham caminhado juntas na
direção da fronteira israelita. Agora, Orfa caminhava ao longo da estrada
em direção à sua terra, sozinha.
A decisão de Noemi de voltar a Belém não apanhou Orfa de
surpresa. Alguma vez a minha sogra foi feliz em Moabe? – perguntava
ela a si mesma. Apesar da sua adaptação ao país estrangeiro, Noemi
pareceu sempre estar desenraizada e deslocada.
Orfa sabia isso por causa da relação de Noemi com Deus. A sogra
era hebréia e não adorava os deuses das nações ao redor de Israel.
Adorava o verdadeiro Deus que tinha escolhido os israelitas para Seu
povo (Dt. 7:6) e lhes tinha dado especificamente a terra em que viviam
(Dt. 1:8). Para Orfa era evidente que Noemi só seria feliz no seu próprio
país, a terra onde o seu Deus era adorado.
Tanto Rute como Orfa tinham partilhado da decisão de Noemi de deixar
Moabe, e haviam partido com ela, sem a menor hesitação. As três, unidas ao
princípio pelo amor a Malom e Quiliom, pertenciam umas às outras.
Assim deram início à sua viagem. Enquanto os seus pés se moviam
sobre a estrada poeirenta e quente, cada uma delas entretinha-se com
pensamentos ligados ao passado. Os de Orfa iam para Quiliom, o homem
que amara. Sentia a falta dele, especialmente agora que o seu futuro era
tão incerto.
Então, de repente, Noemi parou no meio da estrada. "Por que é que
não ides para a casa dos vossos pais?" – perguntou ela. "Isso é melhor,
Orfa e Rute, do que virdes comigo. Que Deus vos abençoe por todo o
amor que mostrastes para com os meus filhos. Que Ele vos recompense
com outro casamento feliz" (Rute 1:1:8-9). Para mostrar às noras que
deviam levar a sério as suas palavras, ela beijou-as e disse-lhes adeus.
Nessa altura, todas desataram a chorar.
Rute e Orfa não queriam escutar a proposta de Noemi, mas os seus
argumentos eram fortes e lógicos. "Por que é que havíeis de vir comigo?
O vosso futuro está num casamento. Se fordes comigo, perdereis essa
oportunidade. Sou velha demais para ter filhos" – insistia Noemi. "E
mesmo que isso fosse possível, por causa da sua idade os meus filhos não
seriam próprios para vós (vv. 11-13).
Enquanto ouviam esta argumentação clara, tanto Orfa como Rute
começaram de novo a chorar. Mas as decisões definiram-se. Rute
resolveu firmemente permanecer com Noemi, enquanto Orfa, receosa
pelo futuro desconhecido, se dispôs a ser persuadida. Depois de beijar a
sogra mais uma vez, Orfa voltou-se e começou a jornada de regresso. É
esta a última vez que a Bíblia menciona o seu nome (v. 14).
As Escrituras não indicara as razões de Orfa para tal decisão. É
evidente, contudo, que até ao momento da separação ela em nada se
distinguira de Rute. Ambas são louvadas pelo seu amor aos maridos.
Ambas provaram estar prontas a deixar a casa dos pais e a sua terra para
enfrentarem um futuro desconhecido. Todavia, as circunstâncias tinham
mudado na altura em que lhes fora solicitada uma decisão pessoal. Por
que é que então Noemi tinha falado com tal insistência? Por que é que ela
pintou tão cruamente os fatos de Orfa e Rute? Talvez soubesse que as
noras só poderiam viver felizes em Israel se tivessem a oportunidade de
escolher voluntariamente o seu país.
Através das suas próprias experiências, Noemi tinha aprendido que
não estava só em jogo a escolha de um simples lugar para viver, ou de
uma pessoa. As suas escolhas significavam uma posição a favor de Deus
ou contra Ele e, como tal, tinham de ser decisões individuais baseadas
numa convicção pessoal.
Josué, um líder da nação hebréia, tinha enfatizado antes esse
mesmo ponto. "Escolhei hoje a quem ides obedecer", havia ele declarado.
"Se os deuses dos vossos pais além do rio Eufrates, ou..." Depois
acrescentou, "porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (Jos.
24:15).
Como Rute, Orfa tinha entrado em contacto com o Deus de Israel
através dos hebreus. Todavia, ao contrário da cunhada, decidira não
servir a Deus e contentou-se em permitir simplesmente que Ele
continuasse a ser o centro da religião do marido e família dos sogros. Não
quis aceitar o Deus de Noemi como seu Deus.
No momento da decisão, Orfa escolheu a favor do deus da sua
nação, Quemos, que se chamava "a abominação de Moabe" (1 Rs. 11:7).
Ela preferia este deus ao Deus de Israel. Escolheu um deus que não podia
falar ou agir, em vez do Criador do céu e da terra (Isa. 16:12). Voltou as
costas a Deus – que queria mostrar-lhe a Sua bondade – para servir
ídolos vãos (Jon. 2:8). Trocou o Deus que dá a vida por um ídolo que
exigia vidas através do sacrifício de crianças. "Orfa voltou ao seu povo e
aos seus deuses" (Rute 1:15). Com estas palavras de Noemi, Orfa caiu no
esquecimento. O seu nome desapareceu dos escritos bíblicos.
A Bíblia ensina claramente que toda a decisão que uma pessoa faz
tem conseqüências eternas. Essas conseqüências não só influenciam a
sua vida terrena, mas determina o seu destino eterno. Decidem se ela irá
para o céu ou para o inferno.
Deus mantém um registro de rodos os que têm vivido. No Seu Livro
da Vida, Ele escreve todos os atos que as pessoas praticam (Mal. 3:16;
Apoc. 20:12-15). Todo aquele cujo nome não aparece nesse Livro será
condenado ao inferno por toda a eternidade.
Talvez Orfa se tenha arrependido mais tarde da sua decisão errada,
e se tenha voltado dos ídolos para Deus. Se ela procurou encontrá-lO com
todo o seu coração, então sem duvida que Ele a encontrou (Jer. 29:13).
Mas se Orfa não buscou a Deus, então o seu futuro estava acabado e a sua
vida e alma foram perdidas para toda a eternidade.

Orfa, mulher que caiu no esquecimento por uma decisão


errada

(Rute 1:1-15 ; ler também todo o Livro de Rute)

Perguntas:
1. Que semelhança vê nas circunstâncias e atitudes entre Orfa
e Rute?
2. Qual é a grande diferença entre as duas?
3. Quais as palavras de Rute que mais claramente expressam a
diferença ?
4. Explique em breves palavras a influência que Rute e Orfa
tiveram na história.
5. Estude a vida de Orfa à luz de Malaquias 3:16-18 e
Apocalipse 20:12-15, e escreva as suas conclusões.
6. O que é que aprendeu de Orfa no que toca a decisões?
Mencione uma situação específica em que o seu exemplo
poderia influenciar uma decisão que tenha de fazer.
RUTE,

UMA MULHER CARACTERIZADA PELA SUA


FIDELIDADE

"Cada mulher tem o privilégio especial de ser uma fonte de energia


para Deus e ser usada em qualquer dilema humano. Mais do que
qualquer coisa, as pessoas precisam de amor. Elas estão sedentas de
AMOR."
Irmão Mandus*

Rute 2:1-23
Rute 3:1
Rute 4:13
(Ler também todo o Livro de Rute)

Rute trabalhava sem parar, mal se permitindo uma breve pausa. O


suor corria-lhe pelas costas, à medida que o sol se tornava mais quente. O
pequeno monte de espigas que estava a juntar crescia a olhos vistos. A
certa altura parou e sentou-se à sombra para descansar, mas por pouco
tempo. Queria surpreender a sua sogra, Noemi, levando-lhe uma boa
porção de grão.
De repente, sentiu que alguém se aproximava e uma voz masculina
dirigiu-se a ela amavelmente. Levantando os olhos, viu o rosto de um
homem que já não era novo. Reconheceu-o imediatamente. Era Boaz, o
dono da terra. "Ouve, minha filha", disse ele, "fica conosco para colheres
as espigas, não penses em ir para quaisquer outros campos. Segue as
minhas empregadas. Eu já avisei os rapazes para não te incomodarem.
Quando tiveres sede, vai e bebe água" (Rute 2:8-9).
A sua simpatia, o seu cuidado e o calor das suas palavras
apanharam-na de surpresa. Ela ajoelhou-se numa vênia. "Por que me
trata tão bem?" – disse Rute timidamente. "É tão amável. Não sabe que
eu sou uma estrangeira?" (v. 10). Ele não me trata como uma pedinte,
pensou ela. Em vez disso, fala-me como se eu fosse uma das suas
empregadas que ganham o seu salário.

* De For Women Only – With Mankind in Mind (Só para Mulheres – Com a Humanidade em Mente),
pelo Irmão Mandus, pp. 99 e 100, Copyright 1963, Arthur James, The Drift, Evesham, Worcs. WR11
4NW, Inglaterra. Usado com permissão.
"Sim, eu sei" – respondeu Boaz. "Estou informado de tudo o que
fizeste pela tua sogra, depois da morte do teu marido. Também sei que
deixaste o teu pai e a tua mãe, e a tua terra, para viveres como estrangeira
entre o nosso povo" (v. 11).
Que homem tão amável, pensava Rute. Começou a ter confiança na
simpatia que tinha notado logo nele, desde que o vira. Depois, verificou
também que ele era rico, mas notou que tratava os trabalhadores com
bondade e cordialidade. "O Senhor seja convosco!" – disse-lhes ele; e os
empregados responderam: "O Senhor te abençoe!" (v. 4). Será esta frase
uma expressão de piedosa delicadeza, uma maneira de se
cumprimentarem uns aos outros neste país religioso? – perguntara ela a
si própria. Ou será o resultado do íntimo contato de Boaz com Deus que
se manifesta nas suas relações com os trabalhadores?
Então Boaz falou-lhe de novo. "O Senhor te recompense pelo que
fizeste", disse ele, "e que um grande galardão te seja dado pelo Senhor,
Deus de Israel, sob cujas asas vieste refugiar-te" (v. 12).
A naturalidade com que ele falava de Deus impressionou Rute. É
exatamente como Noemi, meditava ela. Esse tipo de relação com Deus
sempre lhe havia causado uma profunda impressão. Este homem, de
fato, toma Deus em consideração. Posso sentir isso nas suas palavras e
na seriedade com que fala. Dentre todas as pessoas, ele compreende por
que é que eu vim para este país. Ele tem razão. Eu quero encontrar
refúgio sob as asas do Deus de Israel.
"As suas palavras consolam-me, senhor" – disse ela com
simplicidade. "Tem sido tão amável comigo, e eu nem mesmo sou uma da
suas empregadas" (v. 13). Depois de mais algumas horas de trabalho
duro, chegou o momento da refeição. Modestamente, Rute afastou-se dos
segadores. Ela sabia qual era o seu lugar.
Uma vez mais, Boaz chamou-a para a frente. "Vem para aqui, come
conosco" (v. 14). Depois que ela veio, ele velou pessoalmente para que
nada lhe faltasse. Só descansou quando a viu satisfeita.
Rute procurou disfarçar o seu misto de receio e excitação uma vez
que sabia que os homens judeus, geralmente, pouco tinham a ver com as
mulheres em público, e muito menos com estrangeiras. No entanto, ele
trata-me como se eu fosse uma mulher de categoria, sua igual, pensava
ela com surpresa, apesar de eu ser nova na sua terra.
Rute, cujo nome não pode ser traduzido no hebraico por causa da
sua origem moabita, conquistou rapidamente o apreço dos que a
rodeavam. Desde o momento em que pisou a propriedade de Boaz, ela
causara uma boa impressão em virtude das suas qualidades de lealdade,
cortesia, modéstia e desejo de trabalhar. Embora fosse estrangeira, ela
poderia facilmente ter exigido alguma coisa, em virtude da sua posição
como nora da conhecida Noemi. Podia ter pressionado as pessoas para
lhe concederem os seus direitos de acordo com a lei dos hebreus, que
requeria que os israelitas ajudassem os pobres e os estrangeiros (Lev.
19:9-10).
Todavia, Rute não exigiu nada. Pediu humildemente autorização
para juntar as espigas e revelou profunda gratidão a todos por cada favor
que lhe concediam. Além disso, mostrou-se diligente nas suas
responsabilidades.
Boaz não foi a única pessoa a reparar logo nela; o responsável pelos
trabalhadores ficara também favoravelmente impressionado. E assim,
num pais onde era normal que as mulheres acarretassem água para os
homens, ela bebeu da água que os servos haviam trazido.
A fama da sua fidelidade espalhou-se rapidamente. As pessoas de
Belém, por exemplo, falavam daquela moabita que cuidava tão bem da
sogra. Tornou-se conhecida como uma estrangeira com dignidade,
espírito de iniciativa e interesse e amor pelos outros.
Rute parou finalmente de trabalhar quando a noite chegou. Depois
de debulhar a cevada que havia recolhido, verificou que enchia uma efa.
Teria ela notado que o trabalho da tarde lhe correu mais
suavemente do que o da manhã? Teria verificado que os segadores,
obedecendo às ordens de Boaz, iam deixando cair punhados de espigas,
propositadamente?
Pegando na pesada efa de cevada, Rute dirigiu-se do campo de
Boaz para a cidade. Cansada, satisfeita e grata chegou a casa de Noemi.
"Tanto?" – exclamou a sogra, feliz, quando viu todo o grão que ela
arranjara. "Onde estiveste? Para quem trabalhaste? Que Deus abençoe o
homem que foi tão amável contigo!" (v. 19). As suas perguntas brotavam
incessantemente.
Rute foi contando aos poucos a sua história. Noemi ficou
entusiasmada com o que a nora lhe disse. Soube do que tinha acontecido
nesse dia. Ouviu tudo a respeito do que Boaz tinha dito e feito, e como
Rute tinha sido pessoalmente convidada a continuar a colher espigas até
ao fim das colheitas.
"Bem, esse homem é um dos nossos parentes mais chegados",
exclamou Noemi depois de ouvir toda a história (v. 20). A sua voz
revelava surpresa e esperança. Ela estava emocionada por Deus ter
dirigido Rute de um modo tão claro, desde o primeiro dia. Boaz
constituía um elo com o passado. Iria ele tornar-se uma ponte para um
novo futuro?
Durante as semanas que se seguiram, Rute foi todas as manhãs
para o campo, até terminarem as ceifas da cevada e do trigo. Embora
tivesse recolhido logo no primeiro dia quantidade suficiente para
algumas semanas, não diminuiu o seu zelo. Nunca se referiu ao fato de
ser parente do rico Boaz. Desempenhando as suas tarefas sem
pretensões, mantinha-se fiel à promessa que havia feito de que não
deixaria Noemi só.
Seis ou oito semanas passaram rapidamente e, como era costume,
todos os trabalhadores celebraram o fim da época das colheitas com uma
grande refeição. Depois de comer e beber até se saciar, Boaz deitou-se na
eira para vigiar o grão.
Era essa a situação ideal que Noemi tinha previsto (Rute 3:2). De
acordo com a lei hebraica, uma viúva sem filhos tinha o direito a um
casamento de levirato.

Para manter intacta a propriedade da família, foi


estabelecida uma lei de remissão. De acordo com esta lei, a
propriedade vendida por um homem seria comprada por um
parente chegado. Se o vendedor em causa não tivesse parentes,
podia vendê-la a qualquer pessoa, mas esperava-se que a
readquirisse quando tivesse dinheiro. Se continuasse pobre, a
terra voltaria, automaticamente para ele durante o ano de
jubileu que ocorria de 50 em 50 anos.

Visando manter intacto o nome de um marido morto, Moisés tinha


instituído que o irmão que se lhe seguisse em idade casasse então com a
viúva. O primeiro filho nascido desse casamento continuaria então a
linha original da família do defunto, de modo que o seu nome não fosse
esquecido (Dt. 25:5-10). Tanto quanto Noemi podia saber, Boaz era o
parente mais chegado, a quem Rute podia reclamar os seus direitos, pois
Elimeleque não tinha irmãos vivos. Contudo, Noemi não estava só
preocupada com a continuação do nome e de descendentes do marido e
dos filhos, estava interessada também na felicidade de Rute. Tinha
observado o curso dos acontecimentos das semanas anteriores, com todo
o cuidado, e não podia deixar de ver claramente a direção de Deus em
todos eles.
Ela e Rute haviam chegado a Belém no início das duas colheitas.
Sem mesmo saber, Rute tinha ido logo para a propriedade de Boaz. E
sem dúvida, mesmo pondo-se de fora, ela havia detectado já os primeiros
sinais de um amor nascente. Isso parecia indicar que Deus estava a usar
as circunstâncias para unir Rute e Boaz.
Noemi notou também semelhanças entre a relação de Rute com
Boaz e os casamentos dos seus antepassados notáveis. Uma vez que a sua
mãe também não era israelita (Jos. 625; Mat. 1:5). Boaz parecia ser o
marido ideal para Rute. Por seu lado, ela revelar-se-ia uma boa
auxiliadora . Era essa a norma que Deus havia estabelecido para Eva, a
primeira mulher (Gên. 2:18).
Certos aspectos desta relação fizeram voltar também os
pensamentos de Noemi para o patriarca Abraão e sua esposa, Sara. E
como no caso das esposas de Isaque e Jacó – Rebeca e Raquel – o desejo
de Rute em trabalhar afanosamente tinha-a levado a estabelecer contacto
com um homem piedoso. Sem dúvida que o amor do homem pela
mulher, que constituíra o selo dessas antigas alianças (Gên. 24:67;
29:20), também existia em Boaz.
A próxima coisa que Noemi tinha a fazer era verificar se Deus
estava a abrir ou fechar as portas. Assim, ele surgiu com uma proposta
baseada em três fatores: o cumprimento das leis de Deus, o seu amor por
Rute e a consciência da direção do Espírito Santo.
"Lava-te, perfuma-te, veste um lindo vestido. Depois vai à eira esta
noite" – disse Noemi a ela. "Toma cuidado para que Boaz não note a tua
presença antes de ter acabado a ceia. Repara onde ele se deita e então vai
deitar-te suavemente aos seus pés. Depois disso, ele deixará, certamente,
claro o que deves fazer" (Rute 3:3-4).
Criada nas tradições moabitas, Rute achou esta sugestão bastante
estranha. Ela queria observar a lei israelita, mas era uma mulher
recatada; tinha também espírito de iniciativa e ousava tomar decisões
arrojadas. Acima de tudo, amava a castidade e a pureza.
Mas Rute nutria também um profundo respeito por Noemi e estava
certa de que a sogra faria tudo o que pudesse para a ver feliz. Tinha a
certeza de que ela não lhe apresentaria uma proposta indigna nem lhe
iria sugerir algo de desonroso. Sabia que Noemi mantinha comunhão
com Deus e que seria prudente atender ao seu conselho.
"O teu Deus será o meu Deus, o teu povo será o meu povo", tinha
Rute afirmado a Noemi, lá na estrada que seguia para Belém (Rute 1:16).
Tinha chegado a ocasião de se adaptar às leis desta terra e ao Deus em
Quem se tinha refugiado. Ele cuidaria dela. Não a abandonaria, mesmo
agora. Confiando nEle, decidiu fazer o que Noemi lhe havia proposto.
Rute sentia também um profundo respeito por Boaz. Ele era o
homem que, sem ela lhe pedir, tinha provado protegê-la e providenciar
quanto às suas necessidades. Não é verdade que ele já havia mostrado
compreendê-la? Tratava-se de um homem que andava muito perto de
Deus. Não iria certamente molestá-la ou causar-lhe sofrimentos.
"Farei o que sugeres", respondeu ela a Noemi (Rute 3:5). Nessa
noite, ela deitou-se aos pés de Boaz, tendo-se adornado de novo como
uma noiva. Esperou com ansiedade, perguntando a si mesma como é que
Boaz iria reagir.
Por volta da meia noite, Boaz acordou e ficou espantado por
encontrar uma mulher aos pés. Rute contou então com simplicidade e
clareza a sua história. "Na base da lei de Deus, peço-lhe que me tome
como esposa, pois é o meu parente mais chegado" (Rute 3:9).
A reação de Boaz comoveu-a profundamente. Ele mostrou uma vez
mais até que ponto a compreendia. Ela sentiu-se emocionada com a
humildade que ele revelou.
Não ligando ao fato de que ele próprio era um pretendente
desejável, Boaz falou sobre a fidelidade de Rute com o falecido marido.
Referiu-se à pureza que ela manifestara nos seus contatos com os
homens, e louvou-a pelas virtudes que todos lhe reconheciam na cidade.
Boaz continuou dizendo que estava pronto a casar com ela. Existia,
contudo, um problema, pois havia ainda um parente mais chegado de
Rute do que ele. Se esse abrisse mão aos seus direitos não a redimindo,
então Boaz ficaria com o caminho desimpedido. Por esse teste, Deus iria
mostrar claramente qual dos dois homens desejava para marido de Rute.
O próprio Boaz trataria do assunto a fim de que Rute não
precisasse passar de novo pela experiência difícil de se oferecer a um
homem. Mais uma vez, ele manifestou o seu interesse nela. Não a
mandou embora no meio da noite.
De manhã cedo, enquanto ainda era escuro, Rute deixou Boaz e
dirigiu-se para as ruas desertas. Ele não a havia tocado. O seu profundo
amor e respeito por ela foram expressados através do controle dos seus
desejos.
Boaz protegera também o bom nome de Rute. Ninguém precisava
de saber que ela tinha estado na eira. Se esse fato fosse alguma vez
conhecido, prejudicaria a sua reputação, tornando-a indigna de um
remidor. Não só se guardou a ele mesmo do mal, mas mostrou
consciência do que as outras pessoas poderiam pensar. A sua conversa e
atitude provou que Deus era realmente importante nos seus
pensamentos.
Rute seguiu calmamente através da cidade, meditando. É
exatamente o mesmo que encontrei da primeira vez. Nessa altura foi
durante um dia normal de trabalho, mas agora tratava-se de uma
situação inesperada, e de noite. Estava pois absolutamente certa de que
Boaz vivia em comunhão com Deus, e tinha uma convicção profunda de
que se podia confiar a tal homem.
Quando ela estava para ir embora, Boaz deu-lhe efa e meia de
cevada. "Não deves chegar ao pé da tua sogra de mãos vazias" – dissera
ele" (v. 20). Por esse fato, Boaz comunicou duas promessas a Rute:
Quando se casasse com ela, não esqueceria Noemi. Prometeu também
em vista do seu futuro casamento, uma pequena porção do seu dote de
noiva. Se por qualquer razão, Rute encontrasse alguém quando se
dirigisse para casa, este sinal do seu cuidado por ela serviria como uma
explicação razoável para um passeio tão matinal.
Boaz, cujo nome pode ter significado "velocidade", fazia jus a esse
seu nome. Nesse mesmo dia resolveu todos os pormenores necessários,
de acordo com o que estava estabelecido na lei (Rute 4:1-10). Cheio de
energia, encontrou-se com o outro parente – o remidor potencial de Rute
– junto às portas da cidade. Depois chamou dez anciãos da cidade e
organizou a reunião. Após a decisão do outro de não casar com Rute,
porque tal casamento podia pôr-lhe em risco a herança, Boaz comprou a
terra de Noemi perante testemunhas. Isso responsabilizava-o pela
herança de Elimeleque e dos filhos. Ele tornou-se o marido legal de Rute
e prometeu que um futuro filho usaria o nome da família do seu primeiro
marido.
A noiva tinha-se revelado uma mulher de excepcionais qualidades.
Era corajosa, tendo ousado trocar um presente bem conhecido por um
futuro ignorado. Era robusta e cheia de iniciativa, mas ao mesmo tempo
estava pronta a ouvir o conselho dos outros. Mostrou-se sempre fiel e
cumpridora das suas promessas. Sendo habilidosa, humilde e pura, era
conhecida por toda a cidade pelo seu amor radiante. O noivo dedicava-
lhe uma verdadeira atenção. Respeitava profundamente a sua
feminilidade. Por causa do amor que lhe tinha, protegia-a e cuidava dela.
Tratava-se de uma excelente relação baseada no entendimento que
existia entre os dois cônjuges. Podiam falar um com o outro, e também
sabiam ouvir. Falta de diálogo – a temível rocha sobre a qual muitos
casamentos se despedaçam – não constituía ameaça para eles. O seu
mútuo respeito e desejo de atender os interesses do outro garantiam um
casamento feliz. Esse casamento possuía as características de uma
aliança feita no céu.
Rute, a mulher que amou a Deus e ao seu semelhante,
experimentou o favor do Senhor. O seu filho, Obede, foi escolhido por Ele
para um dos ascendentes de Jesus, o Messias (Mat. 1:5).

Um pouco a leste de Belém fica o "campo de Boaz", que é


conhecido como o local onde Rute recolheu as espigas de milho.
A propriedade a seguir é chamada "campo de pastores". A
tradição diz que os anjos proclamaram pela primeira vez o
nascimento de Cristo sobre local. No mesmo lugar onde o amor
entre Rute e Boaz começou a florescer, cantaram os anjos mais
de mil anos depois: "Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na
terra entre os homens, a quem ele quer bem" (Luc. 2:14)
O privilégio que toda a mulher hebréia ambicionava foi-lhe
concedido a ela, que se tornou uma mãe entre os antepassados do
Redentor.
A Bíblia contém dois livros nomes de mulheres: Rute e Ester.
Tendo grande respeito por ambos, os judeus costumam ler o Livro de
Ester na Festa do Purim, e o Rolo de Rute na Festa do Pentecostes.
Os cristãos de todo o mundo devem reconhecer com gratidão o
contribuição de Rute. O Messias, o Redentor de Israel, é também o
Salvador do mundo. Através desta mulher, os hebreus e cristãos estão
para sempre unidos. A influência de Rute, longe de se restringir à terra e
ao povo hebreu, permeia a história humana até ao presente.

Rute, uma mulher caracterizada pela sua fidelidade

(Rute 2:1-231 3 li ; 4:13 ; ler também todo o Livro de Rute)

Perguntas:
1. Qual o aspecto da vida de Rute que exerceu maior influência?
2. Na sua opinião, por que é que a vida de Rute seguiu um rumo tão
favorável?
3. Enumere as virtudes de Rute e sublinhe as que lhe parecem mais
importantes.
4. Estude o seu relacionamento com Boaz, atentamente. Acha que
eles foram guiados um para o outro por Deus? Se sim, por quê?
Vê o fundamento de um casamento feliz nesta história? Descreva
as suas razões.
5. Que estímulo podem tirar da vida de Rute as pessoas que
experimentam luto e tristeza?
6. Faça o sumário dos princípios que aprendeu de Rute. Considere
em oração quais deles deve aplicar à sua vida, agora mesmo.
MICAL,

CUJO CASAMENTO CARECIA DE UNIDADE E SE


DESMORONOU

"O caminho seguro para qualquer casamento – como para


qualquer relação humana – é uma experiência de Deus partilhada.
Podemos discordar em muitas outras coisas e continuaremos a amar-nos,
se estivermos de acordo acerca de Deus."
Eugênia Price

1 Samuel 19:10-17
2 Samuel 6:16-23

O casamento de Mical, a filha mais nova do rei Saul, não teve um


bom princípio. Os problemas conjugais que surgiram não foram devidos
à diferença de nível social entre a filha do rei e o jovem pastor. A verdade
é que Saul tinha arranjado esta união de Davi com Mical, esperando que
isso o tornasse infeliz e lhe causasse a morte (1 Sam. 18:17-21). O rei
havia dado a sua filha em casamento a Davi, porque queria que ele
morresse.
Saul não podia agüentar mais o homem que se tornaria rei em seu
lugar, o homem que havia já conquistado o amor do seu povo. Em muitas
ocasiões anteriores, tinha mesmo tentado matar Davi, embora sem êxito.
De fato, Davi tinha ganho o direito a casar com Merabe, a filha mais
velha de Saul. O rei tinha-a prometido ao homem que derrotasse Golias,
o gigante filisteu (1 Sam. 17:25). Mas a promessa não foi cumprida. Na
altura em que Davi estava pronto a casar com Merabe, o pai já a tinha
dado a outro (1 Sam. 18:19).
Saul ofereceu então a filha mais nova, Mical, a Davi, sob a condição
de ele matar 100 filisteus. A possibilidade de Davi se manter contra
tantos filisteus é tão reduzida, pensava o rei com azedume, que
certamente irá perder a vida.
Mas Saul tinha excluído Deus dos seus pensamentos. Através da
bênção divina, o jovem matou 200 filisteus e Mical tornou-se sua mulher
(1 Sam. 18:27). Não admira que Mical amasse Davi. Tratava-se de um
jovem elegante, corajoso e também sensível. Ao mesmo tempo que se
revelava um bravo guerreiro, era também um artista que escrevia
cânticos e compunha música. Tinha grande popularidade e havia sido
indicado como próximo rei. Contudo, a qualidade mais impressionante
na vida de Davi era o seu relacionamento com Deus. Isso dava-lhe um
certo encanto, que, embora nem sempre se pudesse definir, era uma
realidade.
Em breve se tornou evidente que o fato de Davi ser genro de Saul
não mudara em nada os sentimentos do rei. De novo, este começou a
pensar sobre a maneira de lhe tirar a vida. Quando descobriu que não
podia ver-se livre dele por meio da guerra ou da sua própria arma,
arquitetou um plano para o matar na sua própria casa.
Todavia, Mical ouviu falar a respeito da conspiração. "Se não te
fores embora imediatamente", avisou-o ela, "serás um homem morto" (1
Sam. 19:11). Assim, ajudou o marido a escapar a tempo. Quando os
servos do pai vieram no dia seguinte para o apanhar, ele já tinha ido
embora. "Encontra-se doente", mentiu Mical (v. 14), provavelmente para
ganhar tempo.
Foi essa a última gota no copo da ira de Saul. "Então tragam-no
mesmo na cama", ordenou ele furioso (v. 15). Depressa descobriu que a
filha o havia enganado. Um ídolo disfarçado tinha sido posto na cama
para dar a impressão de que se tratava de Davi. Desconhece-se se Davi
sabia realmente que este ídolo estava na sua casa, mas foi a primeira
indicação de uma brecha crescente entre Mical e o seu piedoso marido.
Exteriormente, parecia que o seu casamento gozava de unidade
espiritual. Mical adorava o Deus de Israel, da mesma forma que o
marido. Mas no íntimo do seu coração, esse Deus era-lhe estranho; a sua
relação com Ele não era de fé. Por outro lado, o marido não adorava
outros deuses; o seu amor por Deus era total e aplicava-se às situações
diárias.
A falta de unidade espiritual num casamento poderia parecer, à
primeira vista, um simples arranhão na felicidade conjugal. Mas tal
arranhão torna-se freqüentemente uma fenda que depois se alarga, até
formar um abismo que já não pode ser transposto. A vida em comum não
pode ser construída sobre um fundamento irregular. A um tal casamento
falta desde logo a base sólida de que necessita para ser feliz e para ter
duração suficiente de modo que sobreviva às tempestades que
certamente hão de vir. Nenhuma pessoa sensata se arriscaria a mudar-se
para uma casa que, ou não tivesse qualquer fundamento, ou estivesse
construída sobre um alicerce fraco.

O único fundamento sobre o qual alguém pode edificar é


Jesus Cristo (1 Cor. 3:11). Os relatórios anuais de Ajuda por
Telefone, na Holanda, ilustram este ponto. Dentre os que
necessitam de ajuda, as pessoas que tinham problemas
conjugais formavam o maior grupo, e todos os anos esse
número cresce em porcentagens alarmantes.

Por isso, é incompreensível que a escolha tão importante para


encontrar um companheiro para a vida seja tantas vezes feita sem tomar
em consideração os princípios espirituais que podem permanecer firmes
contra as tensões da vida.
Quando o pai a acusou, furioso, "Por que é que me enganaste e
deixaste escapar o meu inimigo?", Mical respondeu: "Ele ameaçou
matar-me se eu o não ajudasse" (1 Sam. 19:17).
Estas palavras são reveladoras. Em vez de dizer a verdade, Mical
acusou Davi de um modo horrível. O homem que pouco depois recusaria
vingar-se do sogro; o homem cuja consciência o perturbaria só pelo fato
de cortar uma orla do vestido de Saul, e que impediria os seus homens de
matarem o seu perseguidor (1 Sam. 24:1-7), foi aqui acusado de uma
tentativa de assassínio da esposa.
Os atos de Mical diferiam profundamente dos de Davi. Na mesma
situação, ele lançou os seus problemas sobre o Senhor, atitude que
sempre tomou em circunstâncias difíceis. Deus era o seu refúgio e ele
esperava que as soluções para os seus problemas viessem dEle. Na
realidade, a linha de pensamento de Davi era totalmente oposta à
incredulidade e espírito enganoso da mulher.

Paulo escreveu, na sua carta aos Coríntios, que a diferença


entre um cristão e um incrédulo pode comparar-se ao contraste
entre a retidão e a profunda injustiça, entre a luz e as trevas (2
Cor. 6:14-15). O amor de Deus demonstrado através de um
cristão é paciente e amável, humilde a altruísta. Sente-se feliz
quando a verdade triunfa, e evita a todo o custo os conflitos.

A brecha espiritual entre Davi e Mical ia-se tornando cada vez mais
evidente. Mas o que tinha acontecido pôs também um ponto de
interrogação sobre o professado amor de Mical.
Era evidente que os dois cônjuges seguiam caminhos diferentes.
Era de prever que após o desaparecimento de Davi esse casamento
terminasse abruptamente. Todavia, a causa não residiu na ausência de
unidade espiritual. No seu desejo de se vingar de Davi, Saul deu a filha a
outro homem em casamento – a Palti, filho de Laís, de Calim (1 Sam.
25:44).
Os anos passaram, e depois que Davi se tornou rei de Judá chamou
Mical de novo para ele. O que o levou a chamá-la? (2 Sam. 3:14-15). A
Bíblia não é explícita. Também não se faz qualquer referência aos
sentimentos de Mical, que havia sido atirada de um homem para outro
como se fosse uma bola. Sem dúvida que as suas emoções estavam
despedaçadas quando deixou o segundo marido e o viu a chorar,
angustiado, enquanto ela voltava lentamente para Davi.
Depois deste incidente, encontramos Mical uma vez mais. O tempo
continuara a passar, pois Davi é agora rei sobre todo o Israel. Havia
atingido o clímax da sua vida. Deus tinha cumprido as Suas promessas.
Os seus inimigos foram derrotados e o seu reino era altamente
respeitado, entre as nações ao redor (1 Crôn. 14:2).
Todavia, a coroa da obra de Davi estava ainda para vir. Ele tinha
mais um serviço a fazer para Deus. Não poderia ser feliz até que a arca –
o sinal da presença de Deus – chegasse ao seu lugar próprio em
Jerusalém, a capital.
Quando finalmente chegou esse dia, toda a Jerusalém se juntou
para receber de um modo festivo a arca do Senhor e a trazer para o local
que Davi lhe havia designado. Os sacerdotes e os levitas tinham-se
preparado espiritualmente para estas tarefas. Os cantores e os músicos já
tinham afinado os seus instrumentos. Os líderes tomaram o seus lugares
no cortejo e a eles se juntaram muitos dentre a população de Israel.
De repente soltou-se um grito indescritível de regozijo. Címbalos,
trombetas, harpas e cítaras competiam com as vozes das pessoas no
louvor a Deus (1 Crôn. 15:3-25). O mais feliz de todos era o rei Davi.
Sentia a alma inundada de uma profunda gratidão. Deus permitia-lhe
esta honra. Viveu essa ocasião não como um rei orgulhoso, mas como um
pecador que está consciente da presença de um Deus santo.
Nessa situação, era natural que ele pusesse de lado o seu traje real e
se cingisse com os calções de linho que Deus tinha ordenado para os
sacerdotes (Êx. 28:42-43; 1Sam. 2:18). O grande rei sentiu, e com razão,
que só podia aparecer diante de Deus vestido como um servo da arca.
Não queria ser simplesmente o representante da autoridade sobre o
povo, um homem que os beneficiava com os seus presentes paternais.
Procurou identificar-se com eles. Perante Deus eram todos iguais,
julgados do mesmo modo por Ele. O Deus deles era o seu Deus.
Davi expressou então a sua extraordinária alegria e gratidão numa
dança religiosa. Essa dança demonstrava, segundo os costumes orientais,
os seus sentimentos em relação a Deus.
Mical não se encontrava entre a multidão que saíra a receber
festivamente a arca. Uma vez mais se tornou evidente até que ponto
aumentara a brecha entre ela e o marido. Ela não partilhava das suas
convicções religiosas. Este grande dia, um ponto alto na vida dele, não
significava nada para ela. Como seu pai, Mical não estava interessada na
arca de Deus (1 Crôn. 13:3). Não sentiu qualquer desejo de pegar num
tamboril e dirigir as mulheres num cântico ao Senhor como Miriã havia
feito certa vez Êx. 15:20-21).
Muito pelo contrário. Mical desprezou Davi por causa do seu
entusiasmo e atitudes. Por detrás de uma janela, observava-o à distância
enquanto ele dançava no meio do povo. Sentiu um íntimo desprezo por
ele.
Quando Davi voltou a casa, depois da chegada da arca, desejoso de
partilhar a alegria dos festejos daquele dia com Mical, ela aproximou-se
dele com um comentário escarninho e mordaz. "Que glorioso se mostrou
hoje o rei de Israel!" – disse ela com sarcasmo. "Expôs-se às servas ao
longo da rua, como um perverso vulgar!" (2 Sam. 2:20).
Estas palavras não expressavam pensamentos a respeito de Deus.
Mical desprezou o rei, o seu marido, que conseguiu esquecer-se de si
próprio a tal ponto que se identificou humildemente com o seu povo. Ela
só conseguiu revelar sarcasmo mordaz ao homem que, na sua opinião, se
tinha esquecido da sua dignidade. Mical era orgulhosa e de coração frio –
para com Deus, para com o povo, para com o marido. No seu desdém
chamou perverso e impudico a Davi. Não só rejeitou a religião dele, mas
maculou-a. Classificou-a de imoralidade. Mais uma vez ela colocou o
marido a uma luz desfavorável.
A ausência do amor notava-se dolorosa. Mical não só não amava o
marido e o Deus do marido, mas carecia também de amor para com os
outros. Depois de muitos anos de casamento, ela ainda não conhecia o
coração de Davi. Não dava importância às coisas que o comoviam. Os
motivos dele não eram os seus.
A brecha cada vez maior entre marido e mulher não se devia
primeiramente às diferenças de caráter ou ambição. Devia-se sim ao fato
de cada um pensar e reagir numa estrutura religiosa diferente. O temor
do Senhor, que era evidente no marido, não tinha despertado no coração
de Mical um desejo de conhecer o Senhor Deus dessa mesma maneira. Os
seus muitos anos de vida matrimonial não tinham tocado
espiritualmente o íntimo do seu ser.
Mical não se tornou uma esposa segundo o coração de Davi, porque
não era uma mulher segundo o coração de Deus. Davi sentia-se mais
chegado a uma mulher simples do povo que amasse a Deus, do que à sua
própria esposa.
A Bíblia não relata quanto tempo viveu Mical após este incidente,
mas dá a entender que a sua vida conjugal terminou. A brecha entre os
cônjuges era agora total.
"Mical, a filha de Saul, não teve filhos até ao dia da sua morte", diz
a Escritura (2 Sam. 6:23). Essas poucas palavras revelam a desaprovação
de Deus sobre uma mulher que tratou mal o homem segundo o Seu
coração (Atos 13:22). O Senhor impediu-a de ter filhos. Podia também
concluir-se daqui que depois deste incidente Davi nunca mais se ligou a
Mical como marido. O seu papel externo como esposa terminara, e ela
passou os restantes dias da sua vida em solidão. Morreu sem ter tido uma
influência, e talvez sem nunca ter tido um encontro com o Deus do
marido, através de uma entrega pessoal.
O casamento de Davi com Mical permanece como uma advertência
na história. Se os cônjuges não são um em Deus – partilhando de uma
unidade espiritual – a sua união matrimonial pode ceder sob as pressões
da vida.

Mical a mulher cujo casamento carecia de unidade e se


desmoronou

(1 Samuel 19:10-17 ; 2 Samuel 6:16-23)

Perguntas:
1. Estude cuidadosamente o casamento de Davi com Mical e
enumere as suas diferenças.
2. Considere essa lista à luz de II Coríntios 6:14-15. Qual lhe
parece ser a maior diferença entre eles?
3. Lemos em I Samuel 18:20-28 que antes do casamento Mical
amava Davi. Será que durante todo o tempo que passaram
juntos Mical o amou de fato à luz da definição de amor que
encontramos na Bíblia? (I Coríntios 13:4-7).
4. Leia I Samuel 19:13-17 e Salmo 59 e compare o
relacionamento de Davi e Mical com Deus.
5. Que princípios básicos sobre o casamento aprendeu através
desta história ?
6. De que maneira é que prole aplicar os princípios de
fidelidade e entrega (ou a falta deles) estudados nesta
história, à sua própria vida?
ABIGAIL,

UMA MULHER ATENTA À CONSCIÊNCIA DE UM SERVO


DE DEUS

"A beleza íntima duma mulher está quase sempre dependente da


sua relação com Deus."
Eugenia Price

I Samuel 25:23-42

As suas mãos moviam-se rapidamente.


Os seus pensamentos corriam ainda mais.
Embora reconhecesse que a situação era séria, Abigail não caiu em
pânico, nem ficou nervosa. Fez os seus planos com calma. Não se
esqueceu de que dispunha de pouco tempo, e de que não podia perder
um segundo.
As palavras do criado, proferidas alguns momentos antes,
ressoavam ainda nos seus ouvidos: "Veja bem, senhora, o que tem a
fazer", dissera ele, "pois vai haver grandes problemas para o nosso
patrão, para todos nós. Vim ter consigo, porque o patrão é rude e teimoso
e não se pode mesmo falar com ele" (1 Sam. 25:17).
Como a situação era extremamente delicada e não se podia cometer
o mínimo erro, Abigail estava a tratar de tudo sozinha. Não ousava
entregar tais responsabilidades aos criados.
Tinha de pensar rapidamente e com acerto. De que é que
precisariam 600 homens vorazes e que viviam no campo agreste, para
acalmarem a fome? Assim, ela juntou bastantes provisões, havendo
reunido alimento suficiente para satisfazer todos aqueles homens.
Abigail não pensou apenas nas coisas essenciais, como pão e carne.
Cozeu também umas medidas de trigo tostado, 200 cachos de uvas,
deliciosos bolos de figos e dois odres de vinho (v. 18). Queria cuidar bem
dos homens e pretendia levá-los a ficarem bem-dispostos.
Num mínimo de tempo, tudo se arranjou com eficiência. "Ide à
minha frente" – ordenou ela aos criados. "Eu seguirei atrás de vós" (v.
19). Sob o ponto de vista psicológico era uma viagem tática. Os servos de
Abigail podiam começar o seu trabalho antes de ela chegar.
Abigail não disse nada ao marido, Nabal, a respeito dos seus
planos, sabendo que as suas palavras não poderiam penetrar através da
sua embriaguez.
Nabal tinha organizado uma grande festa para celebrar a tosquia
anual do rebanho. Era um homem rico, que possuía 3000 ovelhas e 1000
cabras. A tosquia do rebanho era importante, pois a lã constituía um
artigo vital na cultura de Canaã.
Depois de todo o trabalho haver terminado, Nabal ofereceu aos
tosquiadores (peritos que eram especialmente contratados para esse fim)
uma refeição. E o mais barulhento de todos à mesa era o próprio Nabal.
O marido de Abigail era descendente de um homem importante, de
Calebe (1 Sam. 25:3). Mas não se parecia absolutamente nada com esse
ilustre antepassado que tinha manifestado um maravilhoso temor de
Deus, visão e coragem. Nabal, cujo nome significava "o tolo" era
exatamente isso – um homem rude e grosseiro que não revelava senso
algum nas suas palavras.
Foi isso o que Davi experimentou quando, por meio dos seus
mensageiros, pediu comida a Nabal para si próprio e para os seus 600
homens. Tratava-se de um pedido normal, pois Davi e os seus guerreiros
tinham formado um muro de proteção em torno dos tosquiadores do
rebanho de Nabal, para impedir que ladrões e nômades vadios os
perturbassem durante o trabalho. Qualquer xeque árabe – mesmo hoje
podia ter pedido igual tratamento, sem lhe ser recusado.
Davi fez modestamente o seu pedido. Tinha-se aproximado de
Nabal com uma atitude submissa e falou-lhe como um filho faria ao pai.
Apesar dessa prudente abordagem, a reação de Nabal foi grosseira e
insultuosa. "Quem é esse tal Davi?" – perguntou desdenhosamente.
"Quem é que esse filho de Jessé pensa ser ? Há muitos servos hoje que
fogem dos donos. Iria eu pegar no meu pão e na minha água e na carne
dos animais que degolei para os tosquiadores e dá-la a um bando que de
repente aparece vindo não sei donde?" (vv. 10-11)
Esta resposta foi extremamente ofensiva para Davi, que gozava de
grande popularidade em todo o país. As mulheres de todas as cidades de
Israel tinham andado a cantar as suas vitórias (1 Sam. 18:6-7), e ele já
havia sido ungido para ser o próximo rei. Mesmo os servos de Nabal o
louvavam pela ajuda e pela maneira disciplinada dos seus homens 1 Sam.
25:15-16). Ele havia dado provas de uma liderança prudente e forte,
mantendo os seus soldados – que dispunham de poucos meios de
subsistência – organizados e obedientes às suas ordens.
Não obstante estes fatores, Nabal tratou Davi como uma pessoa
sem importância, um rebelde, cujos pedidos não precisava de levar em
séria consideração.
Davi reagiu a este tratamento indigno com uma explosão de ira.
Pouco tempo antes, havia-se recusado a vingar-se de Saul que tentara
matá-lo, e tinha deixado que fosse Deus a julgar a sua causa (1 Sam. 24:4-
7). Durante aquela luta com o gigante Golias, que proferia insultos e
maldições, ele havia pensado apenas no nome de Deus (1 Sam. 17:45-47).
O homem que mais tarde seria conhecido na história como "o homem
segundo o coração de Deus" (Atos 13:22) não pôde ignorar este insulto
pessoal. Quis vingar-se imediatamente.
"Cingi, todos vós, as espadas", ordenou ele. "Nenhum homem da
casa de Nabal escapará com vida. Amanhã de manhã teremos acabado
com todos eles" (1 Sam. 25:13,22). Para se vingar da ofensa de Nabal,
Davi seguiu para a casa dele com 400 homens.
Entretanto, Abigail montou num burro e dirigiu-se ao encontro de
Davi. Sendo uma mulher suficientemente humilde para dar ouvidos ao
conselho de um criado, ela revelou ao mesmo tempo bastante força moral
e coragem para enfrentar a ira de Davi. Possuía um espírito brilhante e
era atraente, inteligente e sábia. Embora o significado do seu nome fosse
"o meu Pai (Deus) dá alegria", ele não refletia as circunstâncias que ela
estava a atravessar, presa como se sentia por causa do casamento com
Nabal. Só vagamente se pode imaginar o que poderia significar a vida
com um tal insensato para uma mulher tão crente e sensível.
Certamente que não era esta a primeira vez em que Abigail tentara
reunir as peças quebradas pelo marido. Quando ela se encontrou com
Davi, as suas palavras provaram isso. "Foi tudo por minha culpa,
senhor", disse ela, "eu não vi os mensageiros que enviou" (v. 25). Por
outras palavras, tentava dizer: "Se eu os tivesse visto, tentaria usar a
minha influência para evitar este problema".
A atitude de Abigail revelou-se ao mesmo tempo prudente e
impressiva. Embora ela chamasse tolo temperamental ao marido,
identificava-se com ele no reconhecimento da ofensa. Na sua atitude e
nos atos que dela resultavam, seguiu o mesmo princípio que outros
grandes homens de Deus iriam seguir. Por exemplo, Neemias (1:4-11) e
Daniel (9:3-19) iriam mais tarde identificar-se com a culpa do povo judeu
que desobedeceu a Deus. Abigail não pediu perdão para Nabal; pediu-o
simplesmente para si própria.
A atitude desta mulher, bem como as suas palavras,
impressionaram Davi. Logo que os dois grupos se encontraram no
caminho e Abigail viu Davi, desmontou-se imediatamente e inclinou-se
profundamente diante dele, com respeito. O futuro rei de Israel e servo
de Deus, que tinha sido maltratado pelo marido como se se tratasse de
uma pessoa indigna, recebia agora honras dela. Os homens com quem
Nabal não quisera gastar a sua água, tinham agora vinho que lhes era
oferecido pela esposa.
Salomão disse mais tarde que um presente alarga o caminho a uma
pessoa e leva-a à presença dos grandes (Prov. 18:16). Abigail
experimentou essa lição. Os presentes que enviara à sua frente tinham
suavizado o coração de Davi e esfriado a sua fúria. A sua chegada e
palavras podiam então fazer o resto.
O que ela continuou a dizer mostrou tal sabedoria e discernimento,
que se podem descrever melhor com o que Tiago chamou mais tarde, no
Novo Testamento, "sabedoria do alto". Tal sabedoria é "primeiramente
pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons
frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia" (Tg. 3:17).
O que mais impressiona em Abigail é o fato de ela não exibir uma
frente falsa. Manifestou-se como realmente era. As circunstâncias não
lhe tinham dado tempo para refletir madura e antecipadamente sobre a
situação. Não tinha havido tempo para reunir força e coragem, ou
sabedoria. Não tinha havido tempo para bravata intelectual ou espiritual.
Não podia pretender ser diferente do que realmente era, pois as
tempestades da vida arrastam qualquer capa que não faz parte integrante
da própria pessoa. As suas reações imediatas tornam-se então o traje com
que é vista.
Foi essa a atitude de Abigail para com o Deus santo. O seu coração
tremia diante dEle. Amava-O acima de tudo, estava convencida de que
acima de tudo o mais, o ser humano tinha de O honrar. Tinha a certeza
de que ninguém poderia tentar iludi-lO. Ele não podia ser enganado, e as
conseqüências de tal tentativa seriam deploráveis.
Deus tinha abençoado ricamente Davi. De repente, quando ela o
enfrentou, Abigail viu que as bênçãos que Davi havia já experimentado
seriam pequenas comparadas com o que o Senhor planeava ainda fazer
pelo futuro rei.
Do seu profundo respeito por Deus, esta mulher colhera amor pelo
Seu servo, por este seu semelhante. O seu amor era puro, sincero e
espontâneo. Através da sua dependência de Deus, Abigail manteve
também uma atitude correta em relação a si própria. Em vez de pensar
unicamente em si, era modesta e evitava a auto-comiseração.
Embora usasse todo o tato para salvar a vida de Nabal e dos seus
homens, parecia ser levada por uma motivação mais profunda. Estava a
pensar naqueles que nesta situação estavam ameaçados pelo desejo de
vingança. Numa fúria cega, Davi e os seus homens estavam prestes a
cometer um pecado que iriam lamentar para sempre. O crime que estava
quase a ser perpetrado seria irreparável. Um pesado fardo
sobrecarregaria a sua consciência pelo resto da vida. A mancha de
sangue, tanto dos inocentes como dos culpados, ficaria nas suas mãos.
Abigail recordou a Davi o favor de Deus que ele desfrutava, a
proteção toda especial de que estava sendo alvo. Chamou a sua atenção
para o futuro privilegiado que o esperava sob a mão bendita de Deus
como futuro rei de Israel. O nome de Davi estava ligado ao nome de
Deus. Rejeitando Davi, Nabal tinha desonrado o nome do Senhor, mas o
futuro rei estava também a ponto de lançar uma mancha indelével sobre
esse nome. Num ímpeto de sede de sangue, estava disposto a tomar nas
suas mãos os seus próprios direitos e a matar pessoas inocentes.
Abigail estava convencida de que Deus castigaria Nabal por causa
da sua impertinência para com o Seu ungido. Mas estava igualmente
certa de que Deus não precisava de Davi para executar essa punição. Não
repreendeu Davi. Pintou simplesmente as conseqüências da sua
precipitada decisão, começando o seu apelo com estas palavras: "Vive o
Senhor" (1 Sam. 25:26). Apresentou-o corri uma eloqüência tão natural,
que o poeta Davi teve dificuldade em não se deixar fascinar pelo seu
estilo.

Na sua carta aos Coríntios, Paulo escreveu que todo


cristão devia buscar o bem do seu próximo (1 Cor. 10:14-24) e
devia evitar o fender a qualquer pessoa (1 Cor. 10:32).

Abigail tinha a sua vida centralizada em Deus. Colocava-O em


primeiro lugar nos seus pensamentos e tomava-O como exemplo em tudo
o que dizia. Não pensava apenas na vida do marido e dos seus
trabalhadores; estava preocupada com a reputação de Davi. reputação de
Davi. Via as coisas à luz dos planos de futuro que Deus tinha traçado para
ele. Portanto, o seu apelo baseava-se no que era melhor para Davi e não
nos interesses dela. A sua força motivadora era o amor por Davi como
seu semelhante.
O que Abigail desejava aconteceu. A consciência de Davi acordou. O
seu apelo, baseado no caráter de Deus e no Seu soberano poder, deixou-o
desarmado. "Bendito o Senhor Deus de Israel que te enviou ao meu
encontro, hoje!" – exclamou Davi. "Graças a Deus pelo teu bom senso!
Bendita sejas por me teres impedido de matar os homens e exercer
vingança por minhas próprias mãos. Pois eu juro pelo Senhor, o Deus de
Israel que me guardou de te ferir, que se tu não tivesses vindo ao meu
encontro, nenhum homem da casa de Nabal estaria ainda vivo amanhã
de manhã" (1 Sam. 25:32-34).
Com estas palavras, Davi agradeceu à mulher que tinha estado
atenta à sua consciência e o guardou do pecado e do remorso. Por causa
da sua abordagem direta e espiritual do problema, ele descobriu quão
nublada era a sua própria visão, quão egocêntrico tinha sido por causa do
seu envolvimento pessoal. Davi restabeleceu então uma visão adequada
de Deus, que através desta mulher o havia impedido de cometer um erro
terrível.
Abigail, que reconhecia plenamente a extensão e o alcance que teria
tido o plano de Davi, agiu portanto com sabedoria e discernimento. Não
só impediu um homem de se tornar um assassino, mas salvou a
reputação de um futuro rei. Davi, um homem tão altamente respeitado,
que as gerações futuras iriam referir-se a Jesus Cristo como o "Filho de
Davi", não se desrespeitou a si mesmo. Conseguiu dominar a sua ira, e
por esse auto-controle conseguiu uma vitória maior do que se tivesse
conquistado uma cidade (Prov. 16:32).
Todavia, o mais importante de tudo foi o fato de Davi não ter
pecado contra o Senhor. Ele não deu tristeza a Deus. Os inimigos do
Senhor não tiveram oportunidade de escarnecer do Seu santo nome. "Vai
em paz para tua casa. Vê que eu ouvi as tuas palavras e atendi o teu
pedido" (1 Sam. 25:35). Foram essas as palavras com que ele a despediu.
Abigail tinha visto corretamente a situação. As coisas
transformaram-se na vida de Nabal. Quando ele ouviu da esposa, na
manhã seguinte, o que tinha acontecido na véspera, a sua reação de fúria
e medo resultou num ataque. Dez como dias mais tarde, morreu,
experimentando no seu corpo a verdade de que ninguém pode escarnecer
de Deus e permanecer impune.
Quando Davi ouviu a noticia de que Nabal tinha morrido, louvou e
agradeceu a Deus por lhe ter dado o que merecia. Deus tinha-o guardado
de resolver os problemas pelas suas próprias mãos. Davi demonstrou
então a impressão inesquecível que Abigail lhe tinha causado.
Imediatamente, sem perda de um minuto, pediu-lhe para se tornar sua
esposa, e Abigail concordou " «Quando o Senhor te fizer grandes coisas,
lembra-te de mim!" (v. 31), recebeu um cumprimento surpreendente. Ela
sabia por experiência quanta solidão podia existir num casamento onde
os cônjuges tinham pouco em comum; mas agora tornava-se a esposa de
um homem com quem partilhava muitas coisas: coragem, fidelidade, um
intelecto vivo e discernimento criterioso.
Todavia, a maior unidade de Davi e Abigail estava nas suas atitudes
para com Deus, que possuía o primeiro lugar no coração dos dois.
Abigail, altruísta, verificou como Deus podia usar todas as coisas para
bem daqueles que O amam (Rom. 8:28). Inesperadamente havia-se
transformado numa esposa do rei de Israel. Infelizmente, era apenas
uma das oito esposas de Davi (2 Sam. 3:1-5, 13; 11:26-27). Seguindo o
exemplo de outras cortes reais do seu tempo, Davi não se tinha
restringido ao pacto de um casamento monógamo dado por Deus.
A atitude de Abigail para com Deus e o seu semelhante, e o seu
raciocínio modesto, impediu um dos maiores homens da história de
lançar o seu nome na lama.
Por meio do apurado discernimento de Abigail e da maneira como
abordou uma situação difícil, Davi teve a oportunidade de continuar
diante de Deus como estava, o homem segundo o seu coração. Pôde
assim cumprir o propósito para o qual ele e todo o ser humano foi criado:
honrar o nome do Senhor (Apoc. 4:9-11; 5:11-14). Como futuro rei, teria
perdido absolutamente essa oportunidade, se uma mulher não tivesse
entrado na sua vida no momento próprio e vigiado a sua consciência,
guardando-o assim de ofender a Deus.

Abigail, uma mulher atenta à consciência de um servo de Deus

(1 Samuel 25:23-42)

Perguntas:
1. Enumere algumas das características mais importantes de
Abigail.
2. O que o impressiona quando examina a sua atitude em
relação a Nabal?
3. O que é que prova que Abigail possuía a "sabedoria do
alto"? (Tiago 3:17).
4. Salomão tem muito a dizer sobre a maneira de nos
tornarmos sábios (Provérbios 1:7; 2:1-6; 9:10). Quais são os
passos necessários para adquirir sabedoria?
5. Quais são as possibilidades que temos hoje em dia de
adquirir sabedoria de Deus e que faltavam a Abigail?
6. Qual é o princípio mais importante que aprendeu desta
mulher? Como é que ele irá influenciar a sua vida?
BATE-SEBA,

UMA MULHER QUE NÃO IMPEDIU UM HOMEM


TEMENTE A DEUS DE OFENDER O SENHOR

"Portanto, de agora em diante, o assassínio será uma constante


ameaça sobre a tua casa, porque me ofendeste tomando a mulher de
Urias."
2 Sam. 12:10

2 Samuel 11:1-17, 26, 27

O futuro glorioso que Abigail tinha anunciado a Davi já era uma


realidade há muito tempo. Depois de ter reinado sobre Judá durante sete
anos e meio, Davi tornou-se chefe de toda a nação de Israel. No período
do seu reinado defrontou-se com um bom número de tempestades que o
afetaram a ele e às suas mulheres (1 Sam. 30:1-6). Todavia, a despeito
dessas dificuldades, havia um fato que não mudara. Ele continuava a ser
fiel a Deus. Era um rei justo, tratando bem cada um dos seus súbditos.
Muitas vezes o Senhor confirmou que estava com Davi. O nome do Deus
de Israel tornou-se muito respeitado entre as nações ao redor de Israel.
Foi então que ele deu um passeio nessa tarde fatídica da primavera.
A estação das chuvas, que havia interrompido a guerra contra os
amonitas, já tinha acabado e o general Joabe e o seu exército voltaram a
pelejar (2 Sam. 11:1). Contudo, o rei Davi não acompanhou as suas tropas
como costumava fazer. Ficou em casa. A ociosidade não o favoreceu.
Uma noite, quando não conseguia dormir, saiu da cama e pôs-se a
passear no exterior. Aí, do terraço do seu palácio, viu uma mulher
chamada Bate-Seba que estava a tomar banho no terraço da sua casa.
Inativo, e negligenciando os seus deveres como rei de Israel, Davi
tornou-se presa fácil das tentações de Satanás. Ele nunca tinha feito,
como Jó, um pacto com os seus olhos para não atentar com desejo em
qualquer outra mulher (Jó 31:1). Nunca havia tomado uma atitude
deliberada contra o pecado vergonhoso da luxúria, que se transforma
num fogo destruidor na vida do homem que o comete.

Pedro exortou os cristãos a estarem vigilantes contra


Satanás, que, tal como o leão, procura encontrar uma presa
humana (1 Pe. 5:8). Contudo, a armadura de Deus é forte e
permanecerá firme contra os ataques de Satanás (Efés. 6:11).

Tal como aconteceu naquele dia fatídico no paraíso – Satanás não


foi muito original – a tentação usou de novo os olhos. Como no caso de
Eva (Gên. 3:6), o coração de Davi desejou o que os olhos viram. Ele não
renunciou imediata e radicalmente ao desejo, e assim o mal não pôde ser
refreado por mais tempo.
Bate-Seba era uma mulher sumamente bela. O seu pai, Eliã, foi um
dos heróis de Davi. O marido, Urias, era um oficial dedicado e corajoso
do exército do rei, que realizava o seu trabalho criteriosa e
conscientemente.
Será que Bate-Seba era uma mulher frívola, que tentava
astuciosamente atrair a atenção de outro homem agora que o marido
estava longe de casa? Estaria ela a tentar propositadamente apanhar na
sua rede o rei – que era sensível à beleza feminina? Será que procurava
de algum modo afastar a sua solidão? Ter-se-ia tornado demasiado forte
o seu desejo de relações com outro homem? Ou tratava-se apenas de uma
mulher sem idéias preconcebidas, mas descuidada? Teria ela descurado
deliberadamente as precauções necessárias para se proteger de interesses
impróprios?
Não há razão para não dar a Bate-Seba o benefício da dúvida.
Talvez a situação fosse tal que ela tivesse razão em não esperar ser vista.
Não há qualquer evidência de que ela tivesse visto antes qualquer homem
naquela seção do terraço do rei. Não era Davi um homem de guerra que
passava muito do seu tempo fora de casa? A Bíblia não diz se ela
aguardava o convite do rei, ou se ele a apanhou completamente de
surpresa. É certo que os monarcas orientais estavam habituados a agir
desse modo, mas este tipo de comportamento era indigno de Davi, o
homem segundo o coração de Deus.
Quando os enviados do rei a chamaram, Bate-Seba foi,
naturalmente. Como qualquer súbdito, tinha de obedecer. Não podemos
saber se a sua rendição sexual ao rei teve lugar voluntariamente ou com
protestos da sua parte. Todavia, permanece a verdade de que ela não foi a
instigadora responsável pelos dramáticos acontecimentos que se iam
desenrolar. No entanto, a história lança-nos luz sobre o caráter de Bate-
Seba, que estava longe de ser inocente.
A sua situação podia comparar-se à de José, que disse
corajosamente: "Como é que eu poderia cometer tal mal e pecar contra
Deus?" (Gên. 39:9) A ela faltou-lhe o amor, a coragem e o auto-domínio
que Deus está pronto a dar à pessoa (2 Tim. 1:7), e de que José foi um
exemplo. A preocupação com que Abigail se tinha aproximado
anteriormente de Davi quando ele estava a ponto de se esquecer de si
mesmo e matar pessoas inocentes (1 Sam. 25:23-31), não existia,
infelizmente, em Bate-Seba. A falta dessa percepção divina nesta mulher
– igual ao seu pecado do adultério – foi a causa dos seus pecados.
"Davi fez o que era reto aos olhos do Senhor, e não se desviou de
tudo o que lhe ordenara em todos os dias da sua vida, senão só no
negócio de Urias, o heteu" (1 Rs. 15:54).
Bate-Seba não impediu o homem segundo o coração de Deus de
lançar para sempre uma nódoa sobre o seu próprio nome, nem impediu
Davi de dar azo aos inimigos de Israel para escarnecerem do nome de
Deus (2 Sam. 12:14). Davi ofendeu a Deus, mil anos antes de Cristo. Dois
mil anos depois de Cristo, os holofotes de Hollywood ainda continuam a
revelar, sem piedade, o pecado de Davi e Bate-Seba.
A Bíblia não encobre nada. Remove todas as dúvidas quanto a Davi
ser ou não o pai da criança que Bate-Seba teve. Todos os fatos vieram
gradualmente à luz e com eles apareceu o terrível pecado. O que começou
com a negligência, por parte de Davi, dos seus deveres para com o
exército, transformou-se pela enganosa luxúria – mesmo depois de lhe
terem dito que Bate-Seba era casada – em assassínio. Estes atos
evoluíram precisamente de acordo com o modelo acerca do qual Tiago
advertia mais tarde (Tg. 1:14-15). O desejo sensual de Davi seduziu-o e
atraiu-o e, porque ele cedeu, resultou em morte. Cinco pessoas pelo
menos sofreram literalmente a morte.
A consciência de Davi mostrou-se tão entorpecida, que ele nem
reconheceu a extensão dos seus atos até ao momento em que o profeta
Natã e confrontou com eles (2 Sam. 12:1-9). Mas nessa altura já haviam
passado mais de nove meses. O homem que tinha mantido uma
comunhão com Deus tão intensa que dizia: "Oh, Deus, Meu Deus!
Quanto Te busco! Quanto sedento me sinto de ti nesta terra ressequida e
cansada onde não há água. Quanto anseio por ti!" (Sal. 63:1), manteve-se
silencioso durante todo aqueles meses diante de Deus. E como a sua
percepção de Deus estava obscurecida, também a visão que tinha de si
mesmo não era lúcida.
Quando Natã colocou o pecado de Davi perante ele, sem mencionar
quaisquer nomes, o rei pronunciou a sentença de morte para o culpado,
sem a menor hesitação.
É lamentável que Bate-Seba, a pessoa que poderia ter levado Davi a
parar a tempo, não tenha agido assim. Muitas vezes, no passado, Davi
tinha-se mostrado aberto ao conselho de outras pessoas, quer ele viesse
de uma mulher como Abigail, ou de outros dos seus súbditos (2 Sam.
18:3-4). Uma palavra de Bate-Seba teria sido provavelmente suficiente
para evitar a tragédia. O que Abigail tinha evitado, aconteceu agora com
esta mulher. Davi ofendeu o seu Deus.
Este pecado deu origem a uma reação em cadeia de morte e
tristeza, pois "esta coisa que Davi fez desagradou ao Senhor" (2 Sam.
11:27). Embora, de acordo com a lei de Moisés, ambos merecessem a
morte (Lev. 20:10), Deus foi misericordioso com eles. Permaneceriam
vivos após Davi ter confessado o seu pecado, mas o seu filho morreria.
Houve uma dupla maldição sobre a vida de Davi. Uma vez que
tinha desonrado a Deus apoderando-se da mulher de Urias, a espada
jamais se apartaria da sua casa (2 Sam. 12:10). Ele seria também
castigado pelo seu adultério; outro homem iria desonrar publicamente as
suas mulheres.
Estas predições foram literalmente cumpridas. O bebê de Davi e
Bate-Seba morreu logo (v. 19). Urias tinha sido morto. Três dos filhos de
Davi – Amom (2 Sam. 13:28-30), Absalão (2 Sam. 18:14) e Adonias (1 Rs.
2:24-25) – sofreram morte violenta. As concubinas de Davi foram
desonradas por um dos seus filhos perante todo o Israel (2 Sam. 16:22).
A Bíblia não descreve apenas os atos dos homens; proclama
também a grandeza de Deus e a Sua graça infinita. Depois de Davi ter
reconhecido e confessado que, acima de tudo, havia pecado contra Deus,
sentiu-se liberto do fardo do pecado. Tornou-se feliz por ter recuperado a
comunhão com o Senhor, e expressou o novo significado da vida num
comovente Salmo de contrição (Salmo 51). A sua vida ganhou uma nova
dimensão que se nota nas linhas jubilosas com que inicia um outro
Salmo: "Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada!" –
exclamou ele. "Que alegria quando os pecados são cobertos! Que alívio
para aqueles que confessaram os seus pecados e aos quais Deus já não
considera culpados" (Sal. 32:1-2). Davi não se desculpou; não minimizou
o que tinha feito.
Embora a Bíblia não faça qualquer menção dos sentimentos de
Bate-Seba, parece aceitável admitir que ela partilhou do senso de culpa
de Davi e da sua aceitação do perdão de Deus. Não é verdade que o
próximo filho que Deus deu a Davi e Bate-Seba foi Salomão, que em
devido tempo seria um rei conhecido pela sua sabedoria e riquezas? O
profeta Natã, a quem Deus havia escolhido para anunciar o Seu juízo,
chamou ao bebê Jedidias, que significava "o amado de Jeová" (2 Sam.
12:24-25).
Deus foi misericordioso para Bate-Seba, que mais tarde agiu como
intermediária, por meio da qual o seu filho Salomão se tornou herdeiro
do trono. A mulher que começou com um papel negativo na história
tornou-se, pela graça de Deus, a esposa do maior rei de Israel. Foi
também a mãe do mais sábio e mais rico governador, Salomão (1 Rs. 1:11-
31), e aparece entre os ascendentes do Salvador do mundo, Jesus Cristo
(Mat. 1:6).
A história de Davi e Bate-Seba tornou-se um monumento que fala
da fidelidade de Deus. Ergue-se como um estímulo para todo o ser
humano que, como Davi e Bate-Seba, tem confessado o seu pecado e
aprendido a viver pela graça. Contudo, a história de Bate-Seba
permanece acima de tudo como um exemplo funesto e negativo. Não se
tratava de uma jovem inexperiente. Era uma mulher casada que sabia
bem quão facilmente se podia despertar o desejo de um homem. Não era
também uma pagã ignorante das leis do Deus santo. Descendia de uma
família que sempre honrara o Seu nome.
Bate-Seba não vivia num ambiente imoral. Urias, seu marido, tinha
mantido elevados princípios morais. Vivendo uma vida disciplinada,
tinha subjugado os seus desejos sexuais de modo a poder expandir a sua
energia no sentido de princípios mais elevados – a lealdade ao rei. E, sem
dúvida, Bate-Seba sabia que o homem que a tinha desejado era o rei do
seu povo, bem conhecido pela sua vida justa e piedosa.
Bate-Seba mostra claramente que uma mulher precisa manter uma
perspectiva clara da santidade de Deus. Tem que pensar de antemão nos
resultados desastrosos do pecado e recusar pôr um homem em estado de
tentação. De outro modo, poderá tornar-se facilmente uma maldição, em
vez de uma bênção.
Bate-Seba sabia o que estava certo, mas não o fez. Foi esse o seu
maior pecado (Tg. 4:17).

Bate-Seba, uma mulher que não impediu um homem temente


a Deus de ofender o Senhor

(2 Samuel 11:1-17, 26-27)

Perguntas:
1. O que é que a Bíblia diz de positivo acerca de Davi? (Atos
13:22; II Samuel 5:10). E de negativo? (I Reis 15:5; II Samuel
12:10)
2. Acredita que Davi foi a única pessoa em falta? Por quê, ou
por que não?
3. Poderia Bate-Seba ter feito alguma coisa para evitar que
Davi ofendesse a Deus? Se sim, como?
4. Enumere os resultados do pecado de Davi e Bate-Seba. (Ler
também II Samuel 12:1-14)
5. Estude a história de Davi e Bate-Seba à luz de Tiago 1:14-15.
Como é que começou o seu pecado?
6. Qual é a maior advertência que tira desta história? Como é
que pode aplicar à sua vida o que aprendeu?
JEZABEL,

QUE SE ESQUECEU DE QUE NINGUÉM PODE BRINCAR


COM DEUS

"Não te iludas; lembra-te de que não podes desconsiderar Deus e


escapar: o homem ceifará sempre aquilo que semeou. Se semeia para
satisfazer os seus próprios desejos vis, está a plantar as sementes do mal
e ceifará certamente a morte e a ruína espiritual."
Gál. 6:7-8, The Living Bible

I Reis 19:1-3
l Reis 21:5-16
(Ler também 1 Reis 18)

A rainha Jezabel mal podia conter a ira. Enquanto descansava no


seu palácio de verão em Jezreel, escutava atentamente o relato do marido
que acabava de voltar de uma viagem ao Monte Carmelo.
"Devias ter visto o que fez Elias", disse o rei Acabe, meneando a
cabeça. Depois contou pormenorizadamente o que tinha acontecido.
Descreveu à esposa como é que Elias tinha desafiado os sacerdotes do
deus Baal para medir a sua força com a do seu Deus. De fato, ele tinha
observado o Senhor Deus a operar através da pessoa de Elias, mas não
disse nada sobre isso.
No pensamento de Jezabel, o Deus de Israel era igual a Baal. Ela
considerava Jeová como um deus local que tinha uma mensagem
unicamente para os israelitas. Contudo, dentro da Sua suposta nação
escolhida, o Deus de Israel tinha sido incapaz de se agüentar ao lado do
seu deus Baal. Portanto os sacerdotes de Baal tinham aceito alegremente
o desafio de Elias. Não estavam eles em maioria? Portanto, 450
sacerdotes de Baal alinharam-se contra o único profeta do verdadeiro
Deus de Israel (1 Rs. 18:22).
De acordo com o plano estabelecido, foram construídos dois
altares. Um era para o Senhor Deus, o outro para Baal. O verdadeiro
Deus tinha de provar que o era mandando fogo do céu para acender a
lenha. Nenhum ser humano estava autorizado a acender o fogo (v. 23).
Os sacerdotes de Baal começaram primeiro as suas cerimônias,
gritando o mais que podiam durante a maior parte da manhã. Como não
haviam recebido qualquer resposta por volta do meio dia – não tinha
vindo qualquer fogo sobre o altar – eles começaram a ferir-se
horrivelmente a si próprios com facas e espadas, até que o sangue correu.
Apesar de terem continuado a clamar durante toda a tarde, o seu deus
permanecia silencioso. Era um deus sem vida, incapaz de dar uma
resposta, mesmo quando 450 dos seus servos o invocavam em êxtase (v.
29).
Então Elias começou a arranjar o altar do seu Deus, o Deus vivo,
que estava estragado. Trabalhou sozinho, colocando calmamente doze
pedras, cada uma das quais representava uma das doze tribos de Israel
(v. 31).
Para marcar bem o contraste e, ao mesmo tempo, testemunhar
abertamente da sua fé, cavou uma vala em torno do altar, com cerca de
um metro de largura. Depois, arranjou a lenha e colocou sobre ela um
boi. Foram então despejados quatro cântaros de água em cima do
sacrifício e da lenha. Esse ritual repetiu-se três vezes, pondo nitidamente
o Deus de Elias em desvantagem.
Depois de terminar todos os preparativos, Elias dirigiu-se para o
altar e suplicou: "Ó Senhor, responde-me! Responde-me para que estas
pessoas saibam que tu és Deus e que os fizeste voltar de novo para Ti" (v.
37).
Nesse mesmo momento, precipitou-se fogo do céu e queimou
completamente o sacrifício, a lenha e a água, as pedras e mesmo o pó. Foi
um acontecimento empolgante e terrível.
Não restava a menor dúvida sobre qual era o verdadeiro Deus. Ele
havia-o provado com toda a clareza. Os israelitas que se tinham desviado
para a idolatria, reconsideraram. Aqueles que não tinham mostrado
qualquer preferência no princípio do teste, estavam agora convencidos.
"O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!" – exclamavam eles (v. 39).
Foi então que rebentou a fúria contra os profetas de Baal. Todos foram
mortos junto a um ribeiro que passava perto; nem um escapou.
Pouco depois disso, o Senhor Deus respondeu a outra oração do
Seu profeta Elias. Uma seca que tinha arrasado o país e os seus
habitantes durante três anos e meio, terminou depois de um anúncio do
profeta. A chuva que não caíra durante aqueles anos precipitou-se
torrencialmente do céu.
"A água veio tão de repente" – disse Acabe ainda visivelmente
impressionado – "que embora Elias me dissesse que partisse
imediatamente, eu mal pude chegar ao palácio antes dela começar a cair"
(vv. 44-45). Quando o marido acabou de contar a história, a rainha
Jezabel ficou lívida de raiva. Ela era filha de Etbaal, rei dos sidônios (1
Rs. 16:31), cujo povo vivia no país que ficava ao norte de Israel. O seu pai
não era apenas rei do povo; era também um sacerdote de Baal.
Depois do casamento de Jezabel com o rei Acabe, ela introduziu o
culto de Baal em Israel. Esta religião – cruel e desumana – tornara-se
conhecida pelos seus sacrifícios de crianças. Por causa da influência de
Jezabel, o marido excedia todos os outros em fazer o que era mau aos
olhos de Deus. Ela encorajava-o à prática de toda a sorte de impiedade (1
Rs. 21:25). Estava firmemente devotada ao culto dos ídolos.
Acabe, um homem fraco, tornou-se um instrumento dócil nas mãos
de Jezabel e ofendeu o Senhor Deus, mais do que qualquer outro rei
antes dele (1 Rs. 16:33). O pior dos seus muitos pecados foi o seu
casamento com a idólatra Jezabel (vv. 30-33). Ele, um rei israelita,
começou a servir Baal – por causa dela e com ela.
Por meio da influência de Acabe, Baal assumiu, pois, o lugar do
Deus vivo nos corações dos israelitas. Mas Jezabel não estava satisfeita;
minou a religião dos hebreus ao ponto de quase todas as pessoas
aceitarem Baal como seu Deus. A rainha começou a exercer cada vez mais
poder sobre o marido, até que por fim era ela que governava o povo.
Talvez fosse a própria Jezabel quem deu a ordem de matar todos os
profetas do Deus de Israel. Mas Obadias, o mordomo da casa de Acabe,
salvou a vida de 100 profetas, escondendo-os numa caverna, com risco
da sua própria vida (1 Rs. 18:4).
Todavia, Jezabel continuou a encorajar o culto a Baal. Apoiou
pessoalmente os profetas de Baal, alimentando 400 deles todos os dias à
sua própria mesa (v. 19).
Depois de Acabe ter terminado a sua história, Jezabel não ficou
impressionada com a maneira pela qual o Senhor tinha tratado os
sacerdotes de Baal. Considerou a ação dEle como uma ofensa pessoal.
Naturalmente, a sua fúria descarregou-se sobre Elias. Ela
considerava-o como único culpado por aqueles acontecimentos recentes.
As palavras que enviou a Elias eram amargas como fel. "Mataste os meus
profetas. Juro que te matarei" – afirmou ela. "Amanhã estará morto" (1
Rs. 19:2).
Tão poderosa era esta mulher – tão má, tão implacável – que Elias
não duvidou de que ela executaria a sua ameaça. O homem que havia
enfrentado calmamente o rei Acabe e 450 profetas excitados de Baal
perdeu agora toda a coragem. Fugiu para o deserto, a fim de salvar a
vida. "É demais", lamentou ele agachando-se debaixo de uma árvore.
"Senhor, por favor toma a minha vida" (v. 4).
Felizmente, a situação não era tão sombria como o desanimado
profeta pensava. Havia ainda 7000 pessoas que não tinham dobrado os
seus joelhos diante de Baal, nem quebrado o Seu concerto com Deus (v.
18). Mas Elias só ouviu isso a respeito deles, mais tarde.
Jezabel pensou provavelmente que tinha ganho uma nova vitória
contra o Deus vivo. Ou não teve oportunidade de matar Elias, ou não
aproveitou com medo das reações do povo. Mas o seu inimigo tinha
fugido, e ela considerou isso uma vitória.
Agora não havia ninguém que se pusesse abertamente ao lado de
Deus. Jezabel tinha avançado mais um passo para o alvo de extinguir o
culto ao Deus de Israel. A convicção crescente da vitória tornou-a
presunçosa – quase descuidada como em breve demonstrou.
Entretanto, Acabe começou a desejar uma vinha que ficava ao lado
do palácio e pertencia a um homem chamado Nabote. Querendo usar
esse terreno para jardim real, ele ofereceu a Nabote um bom preço.
Nabote recusou, de modo que o rei ofereceu-lhe uma propriedade melhor
em troca. Mas o dono recusou de novo a oferta. A terra era herança de
seu pai, e a lei israelita proibia-o de se desfazer dela. A propriedade tinha
de permanecer na família. Nabote sabia que se se desfizesse dela seria
desobediente ao Senhor (1 Rs. 21:1-3).
Acabe compreendeu a resposta de Nabote, pois conhecia os
mandamentos do Senhor. Contudo, ficou amuado por causa dessa
recusa, como uma criança que não consegue o que quer e se nega a
comer. Foi para a cama, de mau humor, e voltou a cara para a parede (v.
4).
Jezabel pensou que a atitude do marido era totalmente estúpida.
Na sua terra nenhuma autoridade excederia a do rei. "Que lindo rei tu és"
– disse com desdém. "Governas este país, ou não? Levanta-te e come.
Alegra-te, que eu vou-te conseguir a vinha de Nabote"(v. 7).
Jezabel era uma mulher sem escrúpulos, capaz de cometer um
assassínio sem o mais leve remorso. Por isso, começou a procurar uma
desculpa aceitável para matar Nabote. Depois da morte dele, a terra
podia então ser reclamada pelo rei. Ironicamente, descobriu o que
buscava na religião hebraica, e usou as leis de Deus, que sempre tinha
minado, como uma desculpa para fazer uma acusação contra Nabote.
Abusando da autoridade do rei, ordenou a convocação de um
jejum. Isso queria dizer que as pessoas iriam juntar-se sob o pretexto de
uma reunião religiosa. O jejum, naquela época, significava a humilhação
da pessoa diante de um Deus santo (Sal. 35:13), que não podia deixar o
pecado sem castigo. Nesse ambiente era fácil colocar Nabote como bode
expiatório que desencadeara a ira de Deus. Acusou-o publicamente de ter
blasfemado contra Deus e contra o rei. De acordo com as leis, qualquer
pessoa que blasfemasse contra Deus tinha de sofrer o castigo, tinha de
morrer (Lev. 24:16).
Jezabel organizara cuidadosamente os seus planos. Com vista a
fazer uma acusação válida (Dt. 19:15), ela fez questão de que estivessem
presentes duas testemunhas. Embora se tratasse de falsas testemunhas,
fizeram exatamente o que se esperava delas.
Assim, Nabote, um homem inocente, foi apedrejado até à morte por
ordem de Jezabel. Os seus filhos tiveram o mesmo fim (2 Rs. 9:26). O rei
Acabe adicionou então a terra de Nabote às suas propriedades.
A rainha, que fingira ter em grande consideração as leis de Deus,
tinha-as minado mais uma vez. A acusação contra Nabote consistia em
que ele tinha blasfemado contra Deus e contra o rei. Desse modo, ela fez
com que o rei parecesse tão importante como Deus. De novo escarnecia
do Deus vivo. Teria Jezabel pensado que talvez o tivesse calado para
sempre, agora que o Seu profeta Elias parecia estar fora de combate?
No momento em que o rei entrou na vinha de Nabote para se
apropriar dela, Elias apareceu subitamente diante dele. "Esta é a
mensagem de Deus para ti", declarou ele. "Não te chega o teres morto
Nabote? Ainda o queres roubar? Uma vez que fizeste isso, os cães
lamberão o teu sangue fora da cidade, como lamberam o de Nabote (1 Rs.
21:19), e os teus descendentes morrerão também de morte semelhante"
(v. 22). Elias profetizou então a respeito de Jezabel: "Os cães de Jezreel
comerão o corpo de Jezabel, tua mulher, dentro das fronteiras de
Jezreel"(v. 23)
O sangue do inocente Nabote, dos seus filhos e dos profetas de
Deus não tinha clamado a Deus em vão (2 Rs. 9:26). Acabe e Jezabel
morreram como fora predito (vv. 30-37).
O fim de Jezabel, que foi particularmente horrível, harmonizou-se
com o seu governo ímpio. Através da sua vida, ela tinha continuado a
estar ligada com as práticas imorais e de feitiçaria (v. 22). Mas agora, o
juízo de Deus estava iminente. Depois de ser lançada por uma janela do
palácio, o seu corpo esmagou-se contra o chão e foi pisado pelos cascos
dos cavalos. Os cães dilaceraram então o seu corpo morto e comeram-lhe
a carne.
A princípio, ninguém notou o cadáver de Jezabel. Quando mais
tarde se tomou a decisão de a enterrar – uma vez que se tratava de uma
filha e esposa de rei – os homens mal encontraram alguma coisa da que
fora uma orgulhosa rainha. Tudo o que conseguiram juntar foi a caveira,
os pés e as mãos. Estas partes do corpo foram então espalhadas como
estrume num campo, de modo que ninguém poderia identificá-los.
A profecia de Deus a respeito de Jezabel tinha sido literalmente
cumprida. Ela colheu o que semeara. Tinha lançado a semente no campo
do seu egoísmo e ceifou a destruição. As palavras que Salomão proferiu
em nome de Deus aplicam-se a ela: "Porque chamei, e vós recusastes
ouvir... e ignorastes todo o meu conselho e não quisestes a minha
repreensão, também eu me rirei da vossa calamidade; e zombarei quando
o pânico vos assaltar" (Prov. 1:24-26).
Deus tinha dado a Jezabel muitas oportunidades de se voltar para
Ele. Sendo uma princesa pagã, tinha tido a possibilidade de viver na terra
da promessa. Aí, ela entrou em contato com as Suas leis e os Seus
profetas. Presenciou os grandes milagres que Ele efetuou. Contudo, não
aproveitou tais oportunidades. Pelo contrário, escarneceu do Deus de
Israel e presunçosamente cometeu os seus atos vis em nome da religião.
O amor de Deus estava à disposição de Jezabel, uma mulher que
Ele havia criado. As muitas possibilidades que Deus lhe deu para fazer
bom uso da sua vida mostram isso mesmo. Ela podia ter-se modificado e
ter aceitado a Sua graça. Deus tinha-a dotado com um intelecto invulgar.
Era perspicaz, inteligente e resoluta. Mas todas essas capacidades usara-
as ela para fins excepcionalmente maus. Tinha-as colocado, voluntária e
intensamente, ao serviço do mal. Havia assumido uma alta posição e
podia ter exercido uma grande e piedosa influência, mas não só fez ela
própria o que desagradava ao Senhor, como também instigou os outros a
fazer o mesmo.
Muitos séculos mais tarde, Jesus lamentou os habitantes da capital
de Israel: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os
que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a
galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mat.
23:37)
Da mesma forma, Jezabel recusou voltar-se para Deus. Continuou a
praticar o mal até à morte. Acreditava orgulhosamente que podia
desafiar a Deus, mas essa crença resultou numa dolorosa decepção.
Ninguém pode brincar com Deus.

Jezabel, que se esqueceu de que ninguém pode brincar com


Deus

(1 Reis 19:1-31 21:5-16. Ler também 1 Reis 18)

Perguntas :
1. Estude cuidadosamente a vida de Jezabel e enumere as
qualidades do seu caráter. (Ler I Reis 16:31; 21:17-29; II
Reis 9:30-37).
2. Compare o comportamento de Jezabel com as obras da
carne mencionadas em Gálatas 5:19-21. Que conclusões tira
daí?
3. Considere a vida de Jezabel à luz de Provérbios 1:20-31, e
explique como, na sua opinião, Deus Se manifestou a ela.
4. Quais foram as suas respostas a Deus ?
5. Quais são as "notáveis" palavras usadas a respeito do
marido em I Reis 21:25?
6. Que lições aprendeu desta história? Como é que as vai
aplicar à sua vida diária?
HULDA,

UMA MULHER QUE AJUDOU UMA NAÇÃO APÓSTATA A


VOLTAR A DEUS

"O termo profecia, na Bíblia, (no hebraico nebu'ab) não se refere


primeiramente à predição de acontecimentos futuros, no sentido em que
se prevê o tempo ou as finanças. Refere-se, sim, à proclamação da
vontade de Deus sentida intuitivamente com respeito a uma situação
específica na vida de um indivíduo ou de uma nação." *

2 Crônicas 34:22-33
(Ler também 2 Crônicas 34:1-21; 35:1-19)
Embora o seu nome significasse "doninha", felizmente Hulda não
permitiu que isso afetasse o seu caráter. A sua vida não se parecia de
modo nenhum com esse animalzinho tímido e parecido com a marta. No
tempo em que Hulda viveu, eram necessárias pessoas que ousassem falar
corajosamente das suas convicções, que não tivessem medo de agir.
Hulda era uma profetisa, uma mulher que servia como porta-voz de
Deus. A sua vocação especial não a colocava fora do seu meio social, pois
era ao mesmo tempo uma dona-de-casa.
Hulda era esposa de Salum, o homem responsável pelo guarda-
roupa do rei Josias. Como toda a mulher casada deve fazer, ela cuidava
diariamente do marido. Mas o casamento não constituía impedimento à
execução da sua tarefa. Conseguia harmonizar uma responsabilidade
com a outra. Nessa altura, Israel tinha também dois profetas, Jeremias
(Jer. 25:1-7) e Sofonias (Sof. 1:1-6), que continuamente insistiam com o
povo para voltar a Deus.
Os israelitas tinham abandonado o Senhor. Já não obedeciam à Sua
Palavra. A nação havia-se tornado apóstata. Embora Israel se tivesse
afastado das leis que Moisés tinha dado seis séculos antes, o povo ainda
continuava fiel à letra daquelas leis. Segundo essas leis, os israelitas
tinham podido contar com uma bênção e prosperidade excepcionais da
parte de Deus, pois eram o Seu próprio e nobre povo. Ele havia-os
escolhido acima de todas as outras nações (Dt. 7:6). Todavia, aqueles
privilégios tinham estado dependentes de uma condição: o povo tinha de
permanecer fiel a Deus.

* Do Harper's Bible Dictionary (Dicionário Bíblico de Harper), por Madeleine S. Miller e J. Lane
Miller. Harper & Row, Publishers, Inc., 1952. Usado com permissão.
Se eles deixassem de ser fiéis, os resultados seriam trágicos. Se
rejeitassem a Deus, Ele os rejeitaria também (Osé. 4:6). Catástrofes
indizíveis cairiam sobre eles, e no fim não permaneceriam na terra que
Deus lhes tinha prometido através de Moisés (Dt. 28:1-64).
Com esta chamada à obediência, Deus tinha dado ao Seu povo um
padrão pelo qual ele deveria aferir a sua vida: os Seus Mandamentos.
Para tornar possível essa obediência, Ele havia descrito cuidadosamente
essas leis. O Seu povo não estava às escuras quanto ao que Deus esperava
dele. Sabia exatamente o que Deus requeria.
Para impedir que os israelitas esquecessem os Seus mandamentos,
Ele disse-lhes que escondessem as leis nos seus corações. Deviam ensinar
aos filhos a Palavra de Deus e deixar que as suas vidas individuais e as
das famílias fossem permeadas por pensamentos a respeito dEle. Todas
as suas atividades deviam ser influenciadas pela orientação de Deus (Dt.
6:6-9).
Por conseguinte, a obediência à Palavra de Deus não seria muito
difícil para os israelitas. Essa obediência não ficava fora do seu alcance
nem acima das suas forças. Pelo contrário, eles tinham ouvido as Suas
leis desde a infância e levavam-nas no coração, prontos para as recitarem
sempre que necessário (Dt. 30:14). Tudo o que Deus esperava deles era
disposição para viverem de acordo com a Sua orientação. Isso seria feito
com a Sua ajuda e por meio do Seu poder. Desse modo, todo o mundo
poderia constatar a felicidade de uma nação que andava com Deus.
Ao princípio, especialmente enquanto os israelitas foram
governados por reis bons, tudo corria perfeitamente. Durante o reinado
de Davi, que se tinha mantido apaixonadamente fiel a Jeová, Deus tinha
abençoado Israel. No tempo de Salomão, filho de Davi, que tinha sido
amado pela sua piedade e sabedoria, a fama de Israel estendeu-se.
Todavia, a partir daí, os israelitas tinham ido gradualmente
degenerando na sua vida espiritual. Afastavam-se cada vez mais do seu
pacto com Deus. Poucos dos anteriores reis israelitas se tinham desviado
tanto de Deus como Manassés e Amom, avô e pai do rei que então
governava. Poucos outros reis haviam sido tão ímpios, tão apóstatas.
Nenhum tinha servido os ídolos de modo tão repulsivo (2 Crôn. 33:1-25).
Hulda dava as suas audiências perto dos edifícios do templo. Aí, no
seu posto na parte nova de Jerusalém, dava diariamente conselho ao
povo em relação ao Senhor. A despeito da apostasia de Israel, ainda havia
algumas pessoas interessadas em conhecer a vontade de Deus.
Hulda desempenhava abertamente os seus deveres, sem qualquer
impedimento. Não precisava se esconder, como havia acontecido com
outros profetas. Pela primeira vez, depois de muitos anos, Judá tinha um
rei que servia a Deus. O rei Josias, seguindo nos passos do seu ilustre
antepassado, Davi, obedecia cuidadosamente às leis de Deus e não se
apartava delas. Sem dúvida que a sua dedicação a Deus era o resultado da
influência de sua mãe Jedida. Ele começou a purificar a terra dos ídolos,
destruindo os altares dos deuses falsos e reduzindo os ídolos a pó.
Contratou também trabalhadores para consertarem e melhorarem o
templo de Deus (2 Crôn. 34:1-13).
No local onde atendia as pessoas, Hulda fora-se acostumando ao
barulho das obras no templo. Foi então que, numa tarde, viu que cinco
homens se aproximavam. Reconheceu facilmente Hilquias, sumo-
sacerdote, e Safã, o secretário, e vários outros servos do rei. Vinham com
expressões sérias e mediam bem as palavras.
"Quando se tirava o dinheiro que se havia trazido à Casa do
SENHOR, Hilquias, o sacerdote, achou o Livro da Lei do SENHOR, dada
por intermédio de Moisés. Então, disse Hilquias ao escrivão Safã: Achei o
Livro da Lei na Casa do Senhor" (2 Crôn. 34:14-15).
"Relatou mais o escrivão ao rei, dizendo: O sacerdote Hilquias me
entregou um livro. Safã leu nele diante do rei. Tendo o rei ouvido as
palavras da lei, rasgou as suas vestes" (vv. 18-19).
O rei sente-se envergonhado pelo pecado do Seu povo. Compreende
que a situação é muito séria, pois receia a ira de Deus.
Hulda logo compreendeu que os homens tinham vindo ter com ela
para descobrir a vontade de Deus em relação a este livro que fora
encontrado. Se ficou admirada por o rei a ter consultado a ela em vez de
ao profeta Jeremias, por exemplo, não o manifestou. Como outras
profetisas no passado – Miriã (Êxo. 15:20) e Débora (Juí. 4:4) – Hulda
estava habituada a trabalhar com homens, com naturalidade e dignidade.
Deus precisava de um ser humano que pudesse proclamar a Sua
Palavra na terra. Na maioria dos casos usava os serviços dos homens,
mas nesta época particular usou uma mulher.
Hulda compreendia perfeitamente que, como mulher, não devia
tentar competir com os homens. Nem tampouco procurava escapar à
suas responsabilidades, só porque era mulher. Deus procurava uma
pessoa que pudesse servir como instrumento; o sexo dessa pessoa era
secundário no Seu plano.

Paulo explicou claramente este princípio quando escreveu


que não é a natureza de um instrumento mas a sua eficiência
que o torna útil para Deus. Não importa, por exemplo, se um
vaso é de ouro, de prata, ou de barro, contanto que seja
santificado e "idôneo para uso do Senhor, preparado para toda a
boa obra" (2 Tim. 2:20-21).
Jeová seja louvado, pensava Hulda. Josias não quer tratar o Livro
da Lei como uma antiguidade que faz parte de uma coleção. Ele
compreende que o Livro de Deus não pode ser considerado um
ornamento numa biblioteca real. A Lei existe para ser aplicada.
Hulda não pôde deixar de reconhecer a autoridade do Livro da Lei
que acabava de ser encontrado. A sua resposta foi clara, sem reservas.
Não mostrou qualquer constrangimento, pois foi o próprio Deus que
falou pelos seus lábios, desafiando o povo.
"Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Dizei ao homem que vos
enviou a mim: Assim diz o Senhor ...." Aquelas quatro palavras – "assim
diz o Senhor" – eram as que davam crédito ao que ela dizia como
profetisa (2 Crôn. 34:23-24).
Hulda predisse então a ruína nacional do povo. Eles não tinham
dado importância à Palavra de Deus e tinham apostatado, servindo os
ídolos em vez de o Deus vivo. A mensagem que ela apresentou foi
portanto uma mensagem terrível e de condenação (v. 25) mas Hulda não
escondeu nada. Não temia os resultados que essas palavras pudessem ter
sobre si própria.
Contudo, as palavras de Deus não continham apenas condenação;
falavam também de graça. Deus tinha notado o amor e a fidelidade que
Josias mostrara para com Ele, a sua pronta resposta às Escrituras. Por
isso, adiou o Seu julgamento para depois da morte do rei (v. 26-28).
Então, no tempo do rei Zedequias, o juízo seria executado sobre o povo.
Nessa altura, o cálice da ira de Deus estaria a transbordar. Já não seria
possível qualquer restauração, pois Israel não tinha respondido aos
repetidos apelos de Deus para a conversão (Jer. 29:19). A nação tinha
ignorado as Suas ordens: "Ó terra, terra, terra, ouve a palavra do
Senhor!" (Jer. 22:29) Jerusalém e o templo seriam destruídos, e as
pessoas forçadas a ir para o exílio (2 Crôn. 36:15-21).
Depois de os mensageiros terem entregado a forte mensagem de
Hulda ao rei, este já não tinha qualquer dúvida de que Deus havia falado
por ela. Viu também claramente que se tornava necessário agir de
imediato.
Logo ele foi ao templo com os líderes do povo e leu a Lei de Deus a
todos os habitantes de Jerusalém e Judá, tanto pequenos como grandes
(2 Crôn. 34:30).
As pessoas ouviram atentamente. Como no caso do rei, ficaram
convictas de que Deus havia falado através da profetisa Hulda. Em
conseqüência, começou um avivamento entre o povo, como jamais se
havia conhecido. O rei, os líderes e a nação inteira fizeram um novo
concerto com Deus. Juntos afirmaram solenemente que dali em diante
serviriam ao Senhor. Estavam prontos a obedecer à Sua Palavra com
todo o coração e com toda a sua alma.
Disso resultou uma reforma completa. A purificação da idolatria
continuou a ser feita e estabeleceram-se limites morais. Esta atividade
não se limitou à cidade capital. Todo o país – de Geba ao norte até
Berseba no sul – ficou envolvido (2 Reis 23:4-8). Mas o mais importante
de tudo, foi celebrarem de novo a Páscoa. Os israelitas tinham-se
esquecido de como Deus os havia livrado no passado. Haviam descurado
o sacrifício que apontava para a vinda de Cristo. Haviam deixado no
olvido a comemoração do êxodo do Egito, um acontecimento que Moisés
tinha instituído da parte de Deus como uma festa anual (Êxo. 12:1-7;
23:14-15). Havia muitos anos que não se fazia tal celebração.
Josias continuou a viver de acordo com a norma que Deus tinha
estabelecido para o rei. Através de Moisés, o Senhor definira a atitude
que o rei devia assumir em relação à Lei de Deus: "Quando se assentar no
trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta lei num livro, do
que está diante dos levitas sacerdotes. E o terá consigo e nele lerá todos
os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, seu Deus, a fim
de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir"
(Dt. 17:18-19).
Depois da sua meditação e aplicação à Palavra de Deus, Josias
experimentou a bênção divina, uma verdade que muitos outros rolos
tinham descrito (Jos. 1:8; Sal. 1:1-3). Tal como a desobediência
acarretava a maldição de Deus, assim a obediência era seguida pela Sua
bênção.
O fato de dar ouvidos às palavras da Escritura não mudou apenas a
vida do rei Josias; toda a nação se modificou. Verificou-se a reforma do
culto mais completa que alguma vez se conhecera em Judá. Uma nação
apóstata voltou ao seu Deus vivo.
Contudo, o juízo definitivo de Deus não podia ser retirado.
Demasiadas gerações de israelitas tinham pecado profundamente. Mas
as pessoas que viveram durante o período da profetisa Hulda receberam
vários anos de prorrogação.
Embora o nome de Hulda só iluminasse por momentos a história, a
influência da sua vida foi enorme. Controlou o destino duma nação
inteira porque associou o seu nome com a Palavra de Deus. Hulda
conhecia essa Palavra, portanto podia livremente exortar e encorajar as
pessoas com ela.
Ao contrário de outros profetas e profetisas, ela não revelou
quaisquer segredos sobre um futuro distante. Ocupou-se da tarefa de
revelar a vontade de Deus através de um meio que Ele tinha usado
durante séculos. Aplicou a Sua Palavra à situação especial da nação
israelita e ao seu povo individualmente. Ajudou-os a descobrir verdades
perdidas. Quando o seu povo deu de novo atenção à Palavra de Deus -
ouvindo-a, lendo-a, estudando-a, meditando nela – coisas maravilhosas
começaram a acontecer. Quando os seres humanos estão prontos a fazer
o que Deus espera deles, verificam-se maravilhas que ninguém
imaginaria possíveis.

Como muitas outras mulheres, Hulda era uma dona-de-casa.


Todavia, a sua dedicação à Palavra de Deus e a sua coragem em se aliar
fortemente com ela distinguiu-a da maior parte dos seus compatriotas.
Quando a grande oportunidade da sua vida chegou, ela estava preparada.

Hulda, uma mulher que ajudou uma nação apóstata a voltar a


Deus

(2 Crônicas 34:22-331 ler também 2 Crônicas 34:1-21; 35:1-19)

Perguntas :
1. Qual era a dupla tarefa de Hulda?
2. Por que é que Hulda foi escolhida para anunciar o juízo? O que é
que provava que ela falava em nome de Deus?
3. Que instruções tinha dado Deus aos reis israelitas ? (Deut. 17: 18-
19).
4. O que é que Deus esperava do Seu povo em relação à Sua Lei?
(Deut. 6:6-9; 30:14).
5. Que mudanças se verificaram depois de Hulda ter falado?
6. Que efeito tem a Palavra de Deus na sua vida? Haverá possíveis
mudanças que queira fazer depois de ter apreciado a vida de
Hulda?
HERODIAS,

UMA MULHER QUE SE DEGRADOU PELA VINGANÇA E


HOMICÍDIO

"Quando ela (a mulher) escolhe fazer o bem, fá-lo em muito maior


medida que qualquer homem. Mas no momento em que ela se vende ao
pecado, o seu ódio para com os homens de Deus é muito mais ardente,
muito mais feroz, mesmo fatal."
Abraão Kuyper *

Marcos 6:17-28

"A cabeça de João Batista", sussurrou Herodias (Mar. 6:24). Não


havia qualquer hesitação na sua voz, nem qualquer traço de dúvida. À
sua volta muitas outras pessoas estavam a falar. Um grupo selecionado
de visitantes tinha-se reunido no palácio para a celebração do aniversário
do rei Herodes Antipas. Muitos príncipes eminentes, oficiais militares de
alta patente e importantes hóspedes de Galiléia tinham vindo ao
banquete, atendendo ao convite do monarca (v. 21).
Salomé, a filha de Herodias, inclinou-se prudentemente para a mãe
e perguntou: "Que pedirei?" (v. 24)
Perante tal pergunta, Herodias mal pôde suprimir um sorriso de
triunfo. A vingança brilhava-lhe nos olhos. Não teve dificuldade em
encontrar uma resposta, nem por um momento. Exigiu a cabeça do
profeta, João Baptista.
O plano de Herodias tinha resultado. Finalmente ia ver-se livre do
homem que tanto odiava. Onde as palavras tinham falhado, vencia a
astúcia. Herodes, o marido, seria agora forçado a matar João. Não tinha
ele acabado de dizer a Salomé, na presença de todos, "Pede-me o que
quiseres e eu to darei"? Tinha mesmo confirmado essas palavras com
outras: "Mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei" (v. 23).
Herodias conhecia a inclinação do marido para a crueldade. Ele
partilhava dessa característica da família como o pai, Herodes, o Grande
(Mat. 2:13). De fato, Herodes não era um homem de moral elevada.
Afinal de contas, não tinha ele repudiado a esposa legal – uma princesa

* De Women of the Old Testament, por Abraão Kuyper, p. 60.


árabe – por ela, Herodias, a mulher do seu irmão Filipe? Não tinham
ambos abandonado os seus cônjuges para viverem juntos?
Herodias estava plenamente consciente do orgulho e sensualidade
do marido. Esses traços serviram de base à sua reflexão e constituíram a
razão que a levara a desafiar Salomé, pouco antes, a dançar perante os
hóspedes. Nessa época e região tais danças eram vulgares numa festa,
embora não para judeus ortodoxos.
A dança sensual da moça excitou os presentes. Os seus movimentos
fascinaram as pessoas que tinham passado a noite a comer e a beber.
Achando que aquela atuação voluntária – e aos seus olhos fantástica –
tinha de ser altamente recompensada, o rei fez uma declaração
injustificável.
Herodias sabia também que Herodes não era um homem corajoso.
Ele não ousaria reconhecer que num impulso tinha prometido algo que
de fato não queria fazer. Não iria admitir que a vida de um homem não
pertencia ao domínio de um monarca terreno. Embora não tivesse o
direito a dispor de uma vida, nesta situação ele não consentiria que o seu
juramento fosse considerado inválido e sem poder.
Orgulhoso e egoísta, Herodes escolheria de acordo com os seus
próprios interesses e contra os do profeta. Mas Herodias tinha de o forçar
a fazer essa decisão. O marido hesitava ferir João de sua livre vontade.
Não era esta a primeira vez que Herodias tentava matar João
Batista. Até então, o marido tinha sempre protegido o profeta dos seus
vis planos. Todas as tentativas que fizera para tirar a vida a João haviam
falhado. Mas agora, tinha finalmente preparado uma armadilha a
Herodes. Fizera-o com tanta habilidade, que o marido foi apanhado
desprevenido. A luta pela cabeça de João Batista tinha terminado.
Herodias triunfara.
O seu ato hediondo não tinha resultado de um súbito impulso. Ela
não tinha agido num acesso de loucura. Havia trabalhado arduamente
naquele plano diabólico durante cerca de ano e meio. Estes fatos foram o
pano de fundo do drama horrível que estava prestes a desenrolar-se.
A maneira como Herodes e Herodias viviam escandalosamente
juntos era um insulto às leis do povo entre o qual viviam. As Leis de Deus
condenavam o que eles estavam a fazer, com palavras muito claras. "E
quando um homem tomar a mulher de seu irmão, imundície é; a nudez
de seu irmão descobriu; sem filhos ficarão" (Lev. 20:21).
Todavia, tornava-se difícil para os súditos de Herodes e Herodias
censurá-los. O monarca e a esposa eram pessoas de grande autoridade.
Representavam o imperador romano cujas tropas ocupavam o país
judaico.
Foi então que surgiu um homem que não se deixou intimidar pela
autoridade real que eles tinham. Falava em nome de Deus. Ele, João
Batista, transmitia as Suas ordens sem medo das pessoas. A sua
mensagem era incisiva e simples: "Arrependei-vos, porque o Reino dos
céus está próximo" (Mat. 3:1-6).
A sua voz, onde se podiam ainda notar a rudeza e a agressividade
do deserto onde tinha vivido (Luc. 1:80) ressoava através da Palestina.
A mensagem não era desconhecida. Profetas anteriores, homens
como Moisés (Dt. 30:9-11) e Jeremias (Jer. 18:11), tinham proclamado a
mesma chamada à conversão. Também eles tinham exortado a nação a
melhorar o seu tipo de vida. Se os israelitas se tivessem arrependido,
Deus teria perdoado os seus pecados e restaurado a sua terra (2 Crôn.
7:14).
Todavia, a pregação de João era extremamente urgente: o Reino do
Céu estava próximo. "Preparai o caminho do Senhor", clamava ele
"endireitai as suas veredas" (Mat. 3:3).
Muitas pessoas reconheceram a voz de Deus. Juntavam-se a João
em grande número e confessavam os seus pecados. Como prova de que
os seus corações haviam sido transformados, eram batizados.
A voz de João não bateu só à porta dos seus concidadãos. Soou
também nos portões do palácio do tetrarca, o título correto de Herodes
(Luc. 3:19). O título de "rei", embora lisonjeiro, era incorreto, uma vez
que ele só governava sobre as províncias da Galiléia e Peréia, um quarto
do território judaico.
Herodes e Herodias não eram israelitas, mas edomitas,
descendentes de Esaú. Jacó, de quem descendiam os judeus, não se
contava entre os seus antepassados. Contudo, eles tinham em comum
com os israelitas os patriarcas Abraão e Isaque. Eram portanto parentes
afastados dos judeus, no meio dos quais viviam.
A mensagem do profeta não visava apenas a nação dos judeus.
Visava também Herodes e Herodias, pois eles precisavam igualmente de
se arrepender. Necessitavam voltar-se da direção errada em que seguiam.
Deus tinha um recado para eles. Após a sua conversão poderiam receber
o perdão e a restauração.
João não se contentou em deixá-los com uma exortação genérica.
Não hesitou em advertir o casal pessoalmente. "Não te é lícito possuir a
mulher de teu irmão" – dizia ele francamente a Herodes. Salientou
também outros crimes que o tetrarca estava praticando (Luc. 3:19-20).
Não se poderia conceber uma diferença maior entre o justo e
resoluto profeta e o imoral e indeciso Herodes. Todavia, tinha-se
desenvolvido entre os dois homens uma certa relação. O rei sentia-se
atraído para o profeta, apesar do fato de João sempre lhe ter declarado a
verdade dura. Reconhecia em João qualidades que a ele lhe faltavam:
retidão e uma vida santa. Por isso, Herodes tinha mandado vir João
muitas vezes à sua presença para o ouvir falar. Como resultado, o rei
ficou cada vez mais confuso, mas não se verificaram quaisquer mudanças
espirituais na sua vida.
Herodias via esta fraqueza do marido perante o profeta como um
perigo adicional. A mulher através de cuja influência dois casamentos
haviam sido desfeitos queria estar certa de que não seria repudiada.
Desde o momento em que João tinha exposto a sua ligação pecaminosa,
passara a odiá-lo – a ele, o perturbador da sua paz. Queria apanhá-lo de
qualquer maneira!
Acima de tudo, Herodias queria evitar que Herodes se deixasse
influenciar ainda mais por João Batista. Por isso, pediu-lhe que
prendesse João, e finalmente conseguiu-o. A possibilidade de o matar
parecia estar agora ao seu alcance, pois a prisão ficava dentro dos muros
da fortaleza onde morava a família real. Todavia, Herodes continuava
vigilante, no seu próprio interesse e no de João. Ele sabia que a morte de
João podia resultar num tumulto, pois as pessoas consideravam-no sem
dúvida uma profeta (Mat. 14:5). E o seu «trono» tão inseguro poderia
não resistir a tal revolta.
Assim o profeta que começou por trazer as pessoas de volta a Deus
estava encerrado numa prisão. O homem de quem Jesus dissera, "Entre
os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João
Batista" (Mat. 11:11), estava cativo. Era presa de uma mulher mesquinha
e sedenta de sangue e de um homem cruel e indeciso. Privado da sua
liberdade, jazeu acorrentado – dia após dia, semana após semana – até
que, por fim, chegou a duvidar da seu próprio chamado" (Mat. 11:2-6).
Herodias provou o ódio que lhe tinha. Com uma precisão mortal,
armou as suas ciladas em torno de João. Apanhou também Herodes
nessas armadilhas, minando a sua vigilância.
Como acontece com muitos pais, Herodias tinha a característica de
usar a sua filha para seu próprio proveito. Mesmo essa filha foi
sacrificada ao seu plano diabólico, cuja fase final estava agora à vista.
Salomé, influenciada pela mãe, não perdeu tempo a apresentar o
seu pedido diante do rei. As suas reações foram ainda mais cruéis que a
da mãe. Verificou que a sua horrível missão exigia rapidez. Tinha de fazer
depressa o seu trabalho, antes que a disposição do rei mudasse. De outro
modo, ele poderia voltar atrás com a sua oferta estouvada.
"Quero que, sem demora, me dês num prato a cabeça de João
Batista" (Mar. 6:25).
Nem mesmo a mãe tinha ido tão longe. Mas o ódio da mãe tinha
envenenado os pensamentos da filha. Para Salomé não bastava que João
fosse assassinado sem um julgamento aberto, sem ser interrogado ou
sem qualquer tipo de defesa. Ela não se contentava em que ele tivesse de
deixar esta vida sem dizer adeus aos amigos. João continuaria a ser
profundamente humilhado até à morte; o prato com a sua cabeça rígida
constituiria um suplemento à sobremesa da festa de aniversário de
Herodes, na base do pedido explícito de Herodias e Salomé.
Os grandes dias festivos constituíam oportunidades durante as
quais os monarcas mostravam muitas vezes misericórdia, mas Herodias
degradou horrivelmente este dia de festa. Assassinou um homem
inocente cujo único "crime" tinha sido o de falar corajosamente as
palavras de Deus, e fez de dois dos seus parentes cúmplices do seu crime.
Embora os nomes de Herodes e Herodias significassem "heróico",
raras vezes os significados dos nomes estiveram em tão flagrante
contradição com as vidas dos que os usavam. Os seus atos não brotavam
de heroísmo. Pelo contrário, foram ditados pelo inferno.
A galeria de retratos que a Bíblia apresenta mostra muitas
mulheres pecadoras, mas poucas delas foram tão perversas como
Herodias. Poucas tiveram as mãos tão manchadas de sangue como ela. A
possibilidade de se arrepender foi-lhe claramente oferecida, mas rejeitou,
cometendo assim o maior dos seus pecados.
Antes de João ter sido encarcerado, tinha apontado para um
homem que percorria a terra da Palestina, pregando e fazendo muitos
milagres – Jesus de Nazaré. "Vede! Ali está o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo", dissera João Batista (João 1:29). E acrescentou: Eu
não sou importante, mas Ele é (Mar. 1:7). Eu sou apenas o Seu arauto, a
voz que O anuncia, o dedo que aponta para Ele.
Os judeus entendiam este simbolismo. Aquelas palavras prediziam
que Jesus – como um Cordeiro inocente de acordo com o seu pacto com
Deus (Êxo. 12:1-6) – daria a Sua vida para os redimir. Dali em diante não
seriam necessários mais sacrifícios de animais para substituir o homem
pecador. Jesus era o Messias anunciado – o Salvador do homem, do Seu
povo, do mundo inteiro (João 3:16).

Jesus, o Filho de Deus, identificou-se de tal modo com os


pecadores, que tomou sobre Si próprio a sentença de morte que
pesava sobre eles. Desse modo, a exigência de Deu de que o
pecador tinha que morrer, foi satisfeita; az sua condenação caiu
sobre Cristo, em vez de sobre a humanidade. O culpado fica
livre, porque o Inocente suportou a pena (Isa. 53:5-12). Sempre
que uma pessoa admite e confessa o seu pecado e recebe Cristo
como Salvador, recebe o perdão de Deus. A salvação é agora
acessível a todos.
João exortou Herodes e Herodias de modo que eles pudessem ter
também uma parte nesta nova relação com Deus. Mas para isso, tinham
de confessar os seus pecados, de renovar as suas vidas. João queria que
eles se encontrassem com o Messias que já vivia entre eles. Mas o casal
recusou atender ao apelo de Deus.
Quão diferente foi a resposta da mulher samaritana numa situação
idêntica. Como Herodias, ela era conhecida publicamente pela sua
imoralidade (João 4:18). Também ela foi visitada pessoalmente, embora
pelo próprio Jesus (vv. 7-26), e não por João.
Essa mulher, reconhecendo que o pecado a tinha conduzido a um
beco sem saída, chegou a uma fé salvadora. A sua vida modificou-se
radicalmente e tornou-se uma bênção para outros. Diversas pessoas da
sua aldeia vieram a crer em Jesus Cristo por meio do seu testemunho (vv.
28-29).
Todavia, com Herodias aconteceu o contrário. A vida dela
degenerou. Tornou-se uma maldição para o ambiente em que vivia. Teve
a crueldade de carregar a consciência da sua própria filha com o sangue
de um dos servos escolhidos de Deus. A sua filha Salomé nunca revelou
sinais de arrependimento. A consciência dela, como a da mãe, estava
demasiado cauterizada.
Herodias teve também uma influência destrutiva sobre o marido.
Ao princípio, Deus tinha visto uma possibilidade para a conversão de
Herodes. A porta do seu coração tinha permanecido entreaberta à fé até
que, pela influência de Herodias, se fechou redondamente.
Quando, algum tempo mais tarde, Jesus foi sentenciado à morte,
deu atenção a Pilatos. Na cruz, Cristo abriu mesmo o céu a um assassino
(Luc. 23:39-46). Mas nada teve a dizer a Herodes (v. 9), que havia
perdido a sua oportunidade. Como Herodias, ele não tinha escutado
quando Deus lhe falou através de João. Ambos experimentaram o fato de
que Deus freqüentemente fala mais que uma vez à mesma pessoa (Jó
33:14). Mas quando esta não atende a Seu chamado pode perder a sua
oportunidade para sempre.
Herodes, que em tempos tinha tentado evitar a morte de João
Batista, teve parte na morte de Jesus (Luc. 23:8-12). Ele continuou a
tradição sanguinária da família. O seu coração estava endurecido.
A vida de Herodias teria sido diferente se ela se tivesse corrigido a
tempo e ouvido a advertência de Deus. Infelizmente, preferiu o pecado;
ignorou o amor de Deus que a tinha avisado a tempo. Recusando aceitar
a solução para o seu problema, trouxe a desgraça sobre si própria.
Endureceu o coração (Prov. 28:14) contra os ensinos do Senhor. O maior
pecado de Herodias não foi o adultério ou o assassínio; foi a
incredulidade.
"Quem ama a disciplina ama o conhecimento, mas o que aborrece a
repreensão é estúpido" (Prov. 12:1). Estas são palavras de Salomão, o
homem mais sábio de todos os tempos.
"Retém a instrução e não a largues", avisou ele também, "guarda-a,
porque ela é a tua vida" Prov. 4:13). " o que abandona a repreensão anda
errado " (Prov. 10:17).
Herodias rejeitou a repreensão que visava o seu bem, e as
conseqüências foram desastrosas, tanto sob o ponto de vista material
como espiritual. Flávio Josefo escreveu que a ambição de Herodias
acabou por ser a sua ruína. Ela abusou da sua influência sobre Herodes e
incitou-o a pedir ao imperador Calígula o título de rei. O pedido foi
recusado, Herodes foi exilado e desprezado para o resto da vida (Flávio
Josefo, Antiquities of the Jews, Livro 18, cap. 7). Herodias partilhou da
humilhação do marido. Tal foi a recompensa de uma mulher que, por
causa da vingança, se degradou a ponto de cometer um homicídio.

Herodias, uma mulher que se degradou pela vingança e


homicídio

(Marcos 6:17-28)

Perguntas:
1. Por que é que Herodias estava interessada na morte de João
Batista? De que meios se serviu para atingir o seu alvo?
2. Em que sentido é que a influência de Herodias afetou o
marido e a filha?
3. De que modo é que a advertência de João Batista podia ter
influenciado a vida de Herodias ?
4. Que pecados cometeu Herodias? Qual lhe parece ter sido o
pior? Por quê?
5. Estude Deuteronômio 30:9-10 e II Crônicas 7:14. Quais são
as condições para se poder experimentar a bênção de Deus?
6. Haverá ocasiões na sua vida em que também deixa de ouvir
a orientação de Deus e perde assim parte das Suas bênçãos?
SALOMÉ,

UMA MÃE QUE PENSOU EM PEDIR O MELHOR PARA OS


FILHOS

"Salomé era ambiciosa para os filhos, e a ambição é louvável


quando está em perfeito acordo com a mente e o propósito de Deus.
Quando divinamente orientada, ela pode conduzir à elevada honra, mas
quando egoisticamente procurada pode lançar à pessoa em profunda
degradação".
Herbert Lockyer *

Mateus 20:17-28

Salomé, a mãe de João e Tiago (Mat. 27:56; Mar. 15:40), avançou


resolutamente alguns passos. Os filhos seguiram-na. Ela não se importou
de interromper Jesus. Não esperou até que Ele acabasse de falar. Salomé
tinha algo no cotação para pedir ao Mestre – algo que não podia esperar.
Estava próxima a Páscoa e Jesus e os discípulos iam fazer mais uma
vez a viagem da Galiléia para a Judéia. Um número crescente de pessoas
tinha-se agrupado em torno deles para subirem a Jerusalém para a
celebração da festa da Páscoa. Entre esses encontravam-se os doentes, os
coxos e os cegos – pessoas que queriam que Jesus as curasse.
A longa viagem pelo campo e a travessia do Rio Jordão já estavam
vencidas. Depois chegaram a Jericó. Os quilômetros finais que os
separavam de Jerusalém tinham de ser bem avaliados. A parte mais
difícil da viagem – a subida dos montes íngremes e áridos da Judéia –
ainda ficava para a frente.
À primeira vista, parecia não haver muita diferença entre esta
viagem e as anteriores. Mas os discípulos de Jesus sentiam que não era
assim. As sombras do futuro sofrimento do Mestre estavam a escurecer a
Sua vida e a perturbar os pensamentos de Salomé e os dos Seus outros
amigos.
As palavras que Jesus havia dito precisamente antes de o pequeno
grupo deixar a Galiléia vinham-lhe constantemente ao pensamento.

* De The Women of the Bible, por Herbert Lockyer, p. 151.


"Eu vou ser entregue ao poder daqueles que me querem matar",
dissera Ele (Mat. 17:22-23). Essa afirmação havia-lhes causado tristeza,
uma vez que compreendiam agora que em breve os deixaria.
Apenas alguns momentos antes, Jesus tinha repetido novamente
aquelas palavras e feito reflexões sobre elas. Deixando a multidão por um
breve instante, Ele puxou os discípulos de lado.
"Como vedes", disse, "vamos para Jerusalém. O Filho do homem
vai ser entregue nas mãos dos homens e eles irão matá-lo; mas ele
ressuscitará ao terceiro dia" (Mat. 20:18-19).
Estas palavras eram assustadoras. Revelaram que Jesus, que veio
para o Seu próprio povo, seria rejeitado por eles (João 1:11). Embora os
líderes religiosos dos judeus O sentenciassem à morte, a decisão deles
não esfriaria o ódio que Lhe tinham. Antes de Ele morrer, iriam
escarnecer dEle, humilhá-lO e tentar ridicularizá-lO. O homem que havia
feito somente o bem seria publicamente executado como um criminoso
comum.
Imediatamente antes deste terrível evento, Jesus desejou que os
Seus companheiros de viagem partilhassem da Sua angústia. Não
estavam entre eles os Seus melhores amigos – Pedro, João e Tiago – bem
como Salomé e outras mulheres que tão fielmente O tinham servido?
Poucas pessoas Lhe eram mais íntimas e O conheciam melhor. Eles
partilhariam dos Seus sentimentos, das Suas tristezas.
Salomé foi a primeira e a única pessoa que respondeu às palavras
de Jesus. A sua voz soou, séria, mas o que ela estava a dizer nada tinha a
ver com o Mestre. As palavras que proferia não tinham qualquer conexão
real com as afirmações que Ele fizera. A mãe Salomé não mostrou
compaixão para com o Salvador e os Seus próximos sofrimentos. Pensou
unicamente em si mesma e nos seus filhos.
Quando João Batista começara a pregar, cerca de três anos antes,
os filhos de Zebedeu juntaram-se inicialmente a ele. Mais tarde, quando
Jesus passou junto ao lago da Galiléia e os chamou, eles deixaram o seu
trabalho e seguiram-nO imediatamente (Mar. 1:19-20).
Os meus filhos podem ter um temperamento impetuoso e
mostrarem até, por vezes, certa insensibilidade, pensou Salomé, mas
eles são de fato homens espirituais. Eu compreendo por que é que os
outros discípulos lhes deram o apelido de "filhos do trovão" (Luc. 9:54-
55), contudo é verdade que eles têm os corações abertos para as coisas
de Deus.
Foi essa a razão porque ela e o marido, Zebedeu, não tinham
desviado João e Tiago da sua intenção de seguir o Mestre. Eles haviam
deixado ir os filhos sem se queixarem, sem lhes pedirem que dessem
preferência aos seus próprios interesses.
Zebedeu tinha um próspero negócio de peixe, e com dificuldade
poderia dispensar os filhos. Eles formavam o eixo em torno do qual se
centralizava muito do trabalho. Quando os filhos partiram, o negócio
ficou muito mais dependente dos trabalhadores, e isso tinha os seus
inconvenientes.
Todavia, como pais, tinham-se sacrificado alegremente. Sentiam-se
felizes por verem que Tiago e João – a quem haviam dado uma educação
de temor a Deus – tinham reagido de um modo tão positivo. No íntimo
dos seus corações estavam gratos porque os filhos se interessavam por
Deus e não viviam ansiosos por riquezas.
Era um privilégio para Tiago e João – e indiretamente para os seus
pais – serem escolhidos como discípulos do Nazareno. A gratidão dos
pais tinha aumentado quando viram que João, que ocupava um lugar
especial no coração de Jesus, se foi gradualmente tornando o Seu melhor
amigo.
Estes pensamentos devem ter passado pela mente de Salomé. Por
esse motivo, ela começou a preocupar-se. Depois do repetido anúncio a
respeito dos Seus sofrimentos, os problemas que daí poderiam resultar
começaram a perturbá-la.
O que é que acontecerá aos meus filhos quando o Senhor morrer?
– perguntava Salomé a si mesma. Eles construíram as suas esperanças
sobre Ele. Os seus futuros estão dependentes dEle.
Salomé repetia mentalmente as palavras de Jesus. Verificou então
que Ele não havia falado apenas de morte; tinha mencionado também a
ressurreição.
É isso! – pensou Salomé, aliviada. O destino final de Jesus não é a
morte. Ele ressuscitará de entre os mortos e estabelecerá o Seu reino.
Em breve reinará sobre o Seu povo como rei. Estes e outros
pensamentos do gênero que preocupavam os discípulos e muitas outras
pessoas (João 6:15; Atos 1:6), estavam também na sua mente.
Ela sabia agora o que tinha a fazer. Sem perda de tempo tinha de se
certificar de que o futuro dos filhos estava garantido. E quem é que
poderia falar melhor a favor dos filhos do que a mãe?
Não teria ela direito de fazer isso? Não tinha ela dado em sacrifício
da sua vida ao Mestre? Não tinha partilhado das dificuldades próprias de
viagens constantes? Não Lhe dera ela do seu tempo e bens? E, como irmã
da mãe de Jesus (Mar. 15:40-41; João 19:25), não podia reclamar um
privilégio especial?
Avançou rapidamente alguns passos. Depois ajoelhou-se diante do
Mestre para Lhe expressar o seu respeito.
"O que é que posso fazer por ti?" (Mat. 20:21) – perguntou Jesus,
amavelmente.
Sem se deter em introduções, ela apresentou o seu pedido. As suas
palavras traziam à luz o seu pensamento. "Promete-me que os meus dois
filhos se sentarão junto de Ti no Teu reino", suplicou ela, "um à Tua
Direita, outro à Tua esquerda" (Mat. 20:21).
Salomé disse tudo o que tencionava dizer. Não a chocaria o fato de
que estas palavras poderiam soar duras e egoístas aos ouvidos do senhor?
Não reconheceria ela que Jesus experimentava dolorosamente a falta do
seu afeto? será que, ao menos em parte, ela se apercebeu de quão
pobremente estava a responder à situação desse momento? Estaria
Salomé consciente da mesquinhez do seu pedido quando comparado com
o intenso sofrimento que aguardava o Mestre? O inocente Filho de Deus
estava prestes a morrer, e as únicas coisas em que ela conseguia pensar
eram os futuros dos filhos.
Enquanto o Filho de Deus, como homem, Se erguia enfrentando a
morte, ansiando por compreensão e afeto, Salomé abrigava unicamente
sentimentos de orgulho maternal.
Não se sabe exatamente se ela falou por si própria ou se foi também
porta-voz dos filhos (Mar. 10:35-45). Mas mesmo que esta última
hipótese fosse correta, isso não a favorecia. Não diminuía a sua
responsabilidade. Pelo contrário, essa questão revelou que ela havia
perdido a oportunidade de os corrigir.
Por causa de Salomé, o Senhor não estava agora a sofrer
unicamente com a ambição de uma mãe. Sofria também por estar sendo
abandonado pelos filhos dela – dois dos Seus melhores amigos.
Os Seus outros discípulos também não se portaram melhor. Pouco
depois, todos se mostraram furiosos por causa desse pedido de João e
Tiago. Não reagiram desse modo por sentirem que essa atitude dos dois
condiscípulos tinha sido dolorosa para Jesus. Pelo contrário, sentiram-se
ofendidos – postos à margem. Era evidente que Tiago e João estavam
convencidos de que eram muito importantes. Quem eram eles para se
considerarem superiores aos outros?
As palavras de Salomé foram cruéis para Cristo, mas eles também
mostraram pouca preocupação com as mães dos outros colegas.
Por que é que os filhos de Zebedeu, poderiam perguntar a si
mesmas as outras mães, hão de ser novamente privilegiados? Não será
já hora de os outros – os nossos filhos – irem ficando na frente? Não é
verdade que Pedro e André também deixaram tudo? Não têm seguido
igualmente o Senhor? (Mat. 19:27)
A despeito do orgulho maternal de Salomé, Jesus não a repreendeu.
O Filho do Homem que estava diante dela era também Deus, capaz de
sondar os recantos mais profundos do coração humano. Ele não só
reconhecia as suas características egoístas e negativas, mas via mais.
Discernia os seus pensamentos e desejos. Todo o seu ser estava aberto e
nu perante Ele, que lhe lia o coração como se fosse um livro.
Sem dúvida que isso era assustador, mas ao mesmo tempo
estimulante. Ninguém senão o Criador do coração de uma mãe conhece
como esse coração – com todas as fibras do seu ser – está ligado ao do
filho a quem deu à luz. Ele compreendia quão vulneráveis são as mães
deste mundo, mesmo na sua relação com Deus. Ele sabia com que
facilidade uma criança se pode meter entre a mãe e o próprio Deus. Ele
via a luta diária que as mães enfrentavam nesse campo. As mães cristãs
não estavam isentas de tais sentimentos.
Por isso, o Senhor não repreendeu Salomé. Compreendeu e
perdoou. Ele sabia que ao lado das suas falhas, ela possuía fé. Mostrou
acreditar no futuro dEle, embora a visão que tinha enfermasse das
deficiências e erros humanos. Jesus sentia o amor dela naquele desejo de
conseguir que os seus filhos ficassem sempre perto dEle.
O Mestre deu valor à lealdade de Salomé. Ela tinha-O servido
fielmente desde o princípio, e continuou a fazê-lo mesmo depois de ter
saído a ordem para O prenderem em Jerusalém.
Por esse motivo, Jesus não negou a esta mulher o seu pedido. Em
vez disso, corrigiu-o. Embora nesse momento ela não o reconhecesse, a
resposta à sua petição viria de um modo inteiramente diferente do que
ela esperava.
Salomé não sabia o que estava a pedir. Pensando segundo os
padrões humanos, considerava a honra e a reputação como favores
excepcionais. Contudo, o Senhor orientava-se pelos padrões divinos. A
maior honra do céu estava reservada para as pessoas que sofressem por
causa da sua fé.
Assim, a Sua compreensiva resposta, dirigida a João e a Tiago,
passou exatamente por cima da cabeça de Salomé. "Podeis vós beber o
cálice que eu tenho de beber?" (Mar. 20:22)

Paulo, na sua carta aos Filipenses, explica como podemos


compreender estas duas afirmações aparentemente
contraditórias. Ele escreveu que Jesus "a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de
homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz"
(Filip. 2:7-8). Por causa dessa disposição de Jesus para servir e
morrer pela humanidade, Deus exaltou-O soberanamente e Lhe
deu um nome que é sobre todo o nome, para que ao nome de
Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus e na terra, e
debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o
Senhor (Filip. 2:9-11).

O Senhor Jesus estava prestes a estabelecer um Reino celestial em


vez de um reino terreno. Os lugares de honra nesse reino seriam
designados por Deus – Seu Pai – e não por Ele. O portão para esse reino
assentava no sofrimento, o sofrimento do Filho de Deus. E quão amargo
ele era; cada gota doe Seu cálice de pavor estava misturada com fel.
Salomé experimentou o sofrimento de Jesus alguns dias mais tarde,
quando permaneceu ao pé da cruz. Acompanhada pela mãe de Jesus e
várias outras mulheres, partilhou dessa angústia com Ele. Estava
presente quando Jesus clamou: "Meu Deus, meu Deus, por que me
desamparaste?" (Mat. 27:46)
Este clamor era dirigido ao Pai celestial, que no princípio do
ministério terreno de Jesus Lhe havia dito: "Tu és o meu único Filho, o
Homem segundo o Meu coração" (Mar. 1:11).
O reino do Senhor estava alicerçado sobre o sofrimento e a
obediência. Os filhos de Salomé teriam um lugar nesse reino. Mas tinham
de entrar nele da mesma maneira que o Mestre. Ele, o pioneiro da
salvação, sofreria profundamente a fim de trazer muitos filhos à glória
(Heb. 2:10). Ele distribuiria o sofrimento como um favor, um privilégio,
uma graça.
A mais bela coroa que uma pessoa poderá usar não é feita de
respeito e honra, mas de obediência incondicional. A Bíblia afirma que o
Filho de Deus aprendeu a obediência na escola do sofrimento (Heb. 5:8).
Para os Seus servos, não existia outro caminho. A sua medida de
sofrimento – se suportada em nome de Cristo – determina a sua alegria
futura na glória (1 Pe. 4:12-13).
Tiago e João dispunham já duma parte nesse sofrimento.
Felizmente, essa dor estava ainda escondida da mãe. Salomé pediu
privilégios excepcionais para os filhos e recebeu-os, expressos mais no
sofrimento do que em termos de honra e glória.

A dolorosa experiência do sofrimento não pe algo que se


escolha naturalmente. Nenhum ser humano gosta de sofrer; não
pode gostar. Todavia, à luz da eternidade, o sofrimento de um
cristão é mais fácil de suportar quando ele olha para a escola do
sofrimento ensinada por Cristo e para a glória da vida eterna
com Deus (2 Cor. 4:17-18). Descansando nas promessas que
estão na Bíblia, os cristãos que estão prontos a colher os frutos
do sofrimento também compreendem que cada vez melhor as
bênçãos que ele contém. "Porque para vós", escrevia Paulo aos
cristãos de Filipos, vos foi concedido em relação a Cristo, não
somente crer nele, como também padecer pó ele" (Filip. 1:29).

Seria Salomé ainda viva, quando o seu filho Tiago, o primeiro dos
apóstolos a ser martirizado, foi morto pelo então rei Herodes Agripa I
(Atos 12:1-2). Ela nunca chegou a saber que o seu outro filho, João, foi
exilado no fim da vida por amor do evangelho (Apoc. 1:9).
Tiago e João não dominariam as redondezas de um reino terreno.
Mas, mais tarde, no céu, ostentariam uma brilhante coroa de mártir, por
causa dos sofrimentos que haviam padecido em nome do Cristo.
Não podemos saber quanto desse seu sofrimento Salomé chegou a
entender.
Junto à cruz, ela foi tratada excepcionalmente bem. Jesus apontou
para João, pedindo-lhe que cuidasse de Maria, Sua mãe (João 19:25). O
Salvador concedeu ao discípulo que mais amava, a honra de servir. O
serviço, como o sofrimento, é um pilar sobre o qual está construído o
reino eterno de Deus. Deste modo, os princípios do reino de Deus são
diametralmente opostos aos dos monarcas terrenos.
Jesus colocou essa lição perante a atenção das mulheres e dos
discípulos, nesse dia em Jericó. Os Seus seguidores deviam desejar
impor-se pelo serviço e não pelo domínio. As pessoas que estão prontas a
serem as mais insignificantes na terra serão consideradas as mais
importantes no céu.
É importante que cada mãe considere cuidadosamente o pedido de
Salomé a favor dos filhos, especialmente aquelas que – embora tendo
consciência das suas faltas e limitações humanas – amam
verdadeiramente o Senhor e procuram o melhor para os seus filhos.
Todas elas podem aprender muitos princípios deste texto,
principalmente no campo da oração. As mães têm de aprender a não
serem precipitadas nas suas preces a favor dos filhos. Têm de orar sem
egoísmo e com reflexão.
Mas há também um grande estímulo ligado à história de Salomé.
Deus sabe o que é realmente melhor para os filhos e quer providenciá-lo,
mesmo quando a mãe pede uma coisa errada.

Salomé, uma mãe que pensou em pedir o melhor para os filhos

(Mateus 20:17-28)
Perguntas:
1. Formule o pedido de Salomé a Jesus, nas suas próprias palavras.
2. Quais lhe parecem ser os motivos que a induziram a fazer este
pedido?
3. Como é que o seu pedido foi atendido?
4. A que características e experiências se dá mais valor no reino de
Deus?
5. Faça um breve estudo do texto da coluna ao lado sobre o
sofrimento, lendo as duas referências nela indicadas. O que é que
o impressiona?
6. Aprofundou a sua compreensão da Palavra de Deus através desta
história? Se sim, o que é que aprendeu e como é que o pode
aplicar à sua vida?
MARIA MADALENA,

UMA MULHER QUE SERVIU DE EXEMPLO EM SEGUIR A


CRISTO

"Mulher jaz morta há dez anos em sua casa"


"A senhora B. foi encontrada morta em seu lar em Haia. Um
montão de cartas no vestíbulo permitiu à polícia determinar que ela tinha
morrido há dez anos. Não houve crime." *

João 20:1-18
Marcos 16:9

Magdala ficava situada a noroeste do Lago da Galiléia, junto à


praia, a cerca de três milhas da bem conhecida cidade de Capenaum. Aí,
Maria se encontrou com Jesus pela primeira vez. Aí, Ele a libertou de
Satanás, que através dos seus demônios, a possuía. Aí teve lugar o
milagre da sua vida, um milagre cuja extensão total ela só poderia chegar
a compreender gradualmente.
Até esse encontro, Maria de Magdala tinha sido uma desgraçada.
Ela só compreendeu toda a sua miséria quando viu os outros possessos.
Eles ficavam incapazes de se enquadrar na sociedade normal. Quase mais
animais que humanos, vagueavam pelas cavernas – homens e mulheres
lunáticos, com rostos distorcidos e olhos esgazeados. Criados por Deus,
estavam, contudo, sob o domínio de Satanás.
Depois de Jesus ter ordenado aos sete demônios que deixassem
Maria, tudo mudou nela. O seu espírito cativo ficou livre; as pernas hirtas
descontraíram-se. A expressão dos seus olhos tornou-se tão calma como
a superfície do lago próximo, num dia sossegado.
Maria nunca seria capaz de expressar exatamente o que lhe tinha
acontecido. A experiência era demasiado grande para se relatar. Só uma
pessoa a compreendia plenamente: Jesus. Por isso, ela recusou deixá-lO
depois de se encontrar curada. Partiu de Magdala – um próspero centro
de indústria – e foi com Ele.
Maria Madalena queria estar perto de Jesus por muitas razões.
Primeiro, sabia por experiência que não podia minimizar o poder de

* Tirado de Trouw, julho 24, 1974, p. 2. Amsterdã, Holanda.


Satanás. A não ser que permanecesse perto do Senhor – que era superior
ao diabo – por si só não tinha meio de se defender contra os ataques
satânicos. Tinha de evitar que o mal se apoderasse dela novamente. Se tal
coisa viesse a acontecer, o seu fim seria pior do que o princípio (Luc.
11:24-26).
Embora Madalena permanecesse perto de Cristo a fim de se
proteger a si própria, não era essa a única razão. Ela seguia-O também
por amor e gratidão. Queria fazer mais do que simplesmente ajudar com
os seus bens e ficar calmamente em casa a falar da sua experiência.
Maria Madalena, que antes fora presa do diabo, possuía agora
outra paixão. Jesus Cristo tomara posse dela. Tinha-a arrastado das
trevas para a luz, do poder de Satanás para Deus (Atos 26:18) –
literalmente.
Essa mudança iria afetar toda a sua vida futura. Dali em diante,
Maria reconheceria apenas um Senhor. Decidiu segui-lO, custasse o que
custasse, até ao fim. Desse modo, havia acompanhado Jesus e os
discípulos, como o fizeram outras mulheres que também tinham sido
curadas de demônios (Luc. 8:1-3).
Bem cedo nessa manhã da ressurreição, as ruas estavam
silenciosas. O sol ainda não se tinha levantado. A escuridão envolvia as
ruas estreitas de Jerusalém, mas Maria Madalena mal o notava. Nem
mesmo tinha consciência das outras mulheres que a rodeavam: Salomé,
Joana, Maria mãe de Tiago e José, e algumas outras (Luc. 24:10).
Todavia, como grupo, elas iam a caminho do sepulcro de Jesus para
acabarem de embalsamar o Seu corpo. Tinham interrompido o trabalho
na sexta feira à tarde, por causa do início das celebrações do sábado
(João 19:31).
Seguiam apressadas para o Lugar da Caveira, exatamente fora da
cidade, e avançavam a olhos vistos. Os mercadores, que dentro de poucas
horas tornariam essas ruas ainda mais apertadas com a exposição das
suas mercadorias ainda não tinham chegado. Os mendigos que
estenderiam a mão para receberem as esmolas, com os olhos a brilhar,
ainda estavam a dormir.
Maria Madalena seguia à frente do pequeno grupo. Não estava
interessada no que se passava à sua volta. Os seus pensamentos só se
dirigiam num sentido. Partiam e chegavam ao mesmo ponto: o Mestre.
Os pensamentos desta mulher iam freqüentemente para os
acontecimentos dos últimos dias. Durante a viagem da Galiléia para
Jerusalém, os discípulos e outras mulheres que estavam com Jesus
tinham sentido o coração muito oprimido; Jesus havia-lhes dito o que O
esperava.
Apesar dessa Sua predição, a entrada deles em Jerusalém tinha
sido festiva. Grandes multidões haviam vindo entusiasticamente ao seu
encontro, rejubilando: "Hosana ao Filho de Davi", - gritavam eles –
"Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas" (Mat.
21:9). Enquanto proferiam estes gritos de júbilo, muitos tinham tirado as
capas, lançando-as sobre a estrada que Jesus ia palmilhando. Outros
cortaram ramos de palmeiras e fizeram o mesmo com eles (Mat. 21:8).
Esse estado de êxtase foi de pouca duração. Alguns dias mais tarde,
os mesmos habitantes de Jerusalém gritavam: "Fora com ele! Crucifica-
o!" (João 19:14-16)
O sofrimento que o Mestre de Maria Madalena tinha suportado
desde então apresentara diversas fases. Mas Maria tinha-O seguido
fielmente até ao fim.
Tinha estado presente no edifício do julgamento quando as
multidões pediam a Sua morte. Ouviu o governador Pilatos que O
submeteu à fúria dos inimigos. O seu coração ficara arrasado quando viu
como as pessoas troçavam e escarneciam do seu Mestre que tanto amor
tinha mostrado por elas.
Seguiu-O quando Ele carregou a cruz ao longo da estrada, desde a
residência de Pilatos até ao Calvário, o lugar onde a sentença
pronunciada seria executada. A rua que Jesus deve ter percorrido é agora
chamada a via Dolorosa, que significa "A Estrada das Dores".
Profundamente preocupada, Maria Madalena observava como os
açoites deixavam o Mestre prostrado, como Ele tropeçava sob o peso da
cruz. Como muitas outras pessoas em Jerusalém, ela derramava lágrimas
por causa da agonia do Mestre e da sua própria tristeza. Tinha-se sentido
incapaz de fazer alguma coisa por Aquele que tudo havia feito por ela.
Junto à cruz, Maria Madalena e as outras mulheres viram os cravos
que atravessavam as mãos e os pés de Cristo. Observaram como o
soldado O espetou com a lança, no lado, e como o sangue e água
pingaram para o chão (João 19:34). Nesse momento, os olhos de
Madalena tinham em vão procurado os discípulos. Todos eles, com
exceção de um, tinham abandonado o Mestre.
Tinham-se sucedido então acontecimentos horríveis que eram
difíceis de compreender. Ao meio dia o céu ficou subitamente escuro e
permaneceu assim durante três horas. Houve um tremendo terremoto
que rebentou as rochas e abriu os sepulcros. Muitos homens e mulheres
piedosos que já tinham morrido, vieram de novo à vida (Mat. 27:45-53).
Dentre todos esses eventos terríveis, o mais impressionante para
ela foi o grito de Jesus, pouco antes da Sua morte: "Meu Deus, meu Deus,
por que me desamparaste?" (Mar. 15:34)
Por que é que, perguntara a si mesma com tristeza, Jesus tem de
ser abandonado pelo Pai e pelos homens? Por que é que Ele não se
poderia salvar a Si próprio? Não era Ele poderoso ? Não tinha mais
poder do que Satanás e do que a morte?
Maria Madalena tinha observado repetidas vezes o poder de Jesus
sobre a doença, as enfermidades, e sobre os endemoninhados. Mesmo a
natureza obedecia à Sua voz. Um vento tempestuoso tinha-se
transformado numa brisa calma, e ondas encrespadas haviam dado lugar
a um cristal ondulado.
Por que é que, gritava uma voz dentro dela, não usou Ele o Seu
poder para Se ajudar a Si próprio ? Por quê? Por que não?
Embora o sofrimento de Jesus fosse difícil de agüentar, Maria
Madalena ficou até ao momento em que tudo havia terminado e Jesus
tinha proferido as palavras "Está consumado!" (João 19:30) Não se podia
afastar do Mestre que significara mais para ela do que qualquer outra
pessoa.
Ela esteve presente na altura do sepultamento e depois, quando
todos se tinham ido embora – exceto Maria, mãe de Tiago e José –
colocou-se junto do sepulcro. Não abandonou o local até que a Lei dos
judeus impôs que o fizesse, ao começar o sábado.
Mas agora o sábado já havia terminado, e, enquanto toda a cidade
dormia, as mulheres aproximavam-se do sepulcro. Sentiam-se aliviadas;
depois de um dia de descanso forçado, podiam finalmente fazer alguma
coisa. Pensando naquilo que as levava ali, aperceberam-se de certos
problemas. "Como revolveremos a pedra à entrada do sepulcro?" (Mar.
16:1-4) – perguntavam umas às outras. E não era essa a única dificuldade.
Pilatos tinha posto guardas junto do sepulcro e selado a pedra de entrada
para impedir que os discípulos de Jesus roubassem o corpo.
Na altura em que as mulheres chegaram, o sol já tinha nascido. Não
se via ninguém à volta. A mãe de Jesus e os discípulos não tinham feito
qualquer visita matutina ao sepulcro.
De certa distância, elas olharam para a grande pedra. Foi então que
ficaram estupefatas. Será que estava a ver bem? Sim, não podia haver
dúvida. O túmulo estava aberto. A pedra tinha sido removida.
Maria Madalena olhou imediatamente à sua volta, em vez de
examinar o sepulcro. Os discípulos de Jesus tinham de saber do que se
estava passando. Correu para casa de Pedro e João, o mais depressa que
pôde. "Levaram o corpo do Senhor, do túmulo", exclamou ela esbaforida,
"e eu não sei onde o puseram" (João 20:2).
Pedro e João voltaram com Madalena. Ao contrário das mulheres,
eles não ficaram fora da gruta rochosa. Entraram e descobriram – pela
maneira ordenada em que se encontravam os lençóis usados para o
sepultamento – que o corpo de Jesus não fora roubado. Pasmados e
inseguros, voltaram à cidade.
Todavia, Maria não podia deixar o último lugar onde havia sido
colocado o corpo do seu Senhor. Continuava fora do túmulo, com as
lágrimas deslizando-lhe pelo rosto.
Num impulso, inclinou-se para dentro do túmulo uma última vez e
deu com seres angélicos que a fitavam. Usando vestes brancas e
brilhantes, dois homens estavam sentados no lugar onde estivera o corpo
de Jesus – um à cabeceira e outro aos pés.
"Mulher, por que choras?" – perguntaram-lhe eles (v. 13). "Porque
levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram", respondeu ela,
limpando as lágrimas com a mão (v. 13). Depois, como se ainda estivesse
à procura do Mestre, afastou-se do túmulo, e viu alguém que estava do
lado de fora. É o jardineiro ou José de Arimatéia, pensou ela.
"Mulher, por que choras?" - perguntou-lhe o homem (v. 15). Maria
só buscava uma pessoa, o seu Mestre. Nem lhe ocorreu que o jardineiro
não sabia dos seus pensamentos. Sem qualquer introdução disse:
"Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei" (v. 15).
Maria Madalena tinha sido fiel ao seu Senhor, desde a sua conversão.
Tinha permanecido junto à cruz até ao último momento, e fora a
primeira a chegar ao sepulcro. Agora queria completar o seu derradeiro
ato de amor ao Mestre, ungindo-lhe o corpo com óleos.
Foi então que ela ouviu a Sua voz: "Maria!" (v. 16)
Só havia uma pessoa que pronunciava o nome dela desse modo.
Ninguém mais conseguia dar-lhe a mesma profundidade, o mesmo calor
irradiante. Uma avalanche de sentimentos a inundou; perturbação,
alegria, gratidão e adoração lutavam pela primazia.
"Rabboni", foi tudo o que Maria pôde dizer (v. 16). Tratava-se de
uma palavra usada entre amigos para o Mestre, no aramaico popular, a
linguagem que Jesus usava quando falava com ela.
Nesse momento, Maria Madalena tornou-se a primeira testemunha
da ressurreição de Jesus. A verdade central sobre a qual assenta a
história da salvação, foi-lhe primeiramente revelada. Que privilégio!
As palavras que Jesus proferiu provaram que, embora estivesse
novamente vivo, dali em diante as coisas seriam diferentes. Ele não
deixou que ela Lhe segurasse os pés. "Não me detenhas, porque ainda
não subi para meu Pai", disse o Senhor. "Mas vai para meus irmãos e
dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus"
(v. 17).
Com essa comissão, o Senhor ressuscitado fez também de Maria a
primeira pessoa a anunciar a Sua ressurreição. Essa honra não foi
reservada a João, o Seu amigo íntimo, ou a Pedro, o discípulo que mais se
distinguia. Mesmo a mãe de Jesus não gozou tal privilégio. Ele foi
reservado a Maria de Magdala, a mulher que serviu de exemplo em
seguir a Cristo.
A história de Maria Madalena é de tal modo importante, que foi
narrada pelos quatro evangelistas. Ao mencionarem as mulheres, o nome
dela vem sempre em primeiro lugar exceto junto à cruz. Aí,
naturalmente, a mãe de Jesus aparece primeiro (João 19:25). Contudo, o
nome de Maria de Magdala ocorre nada menos que 14 vezes nos
Evangelhos. Cada evangelista escreve também que Jesus foi visto
primeiro por ela após a ressurreição.
Infelizmente, o nome de Maria Madalena aparece às vezes
relacionado com a imoralidade. As pessoas referem-se a ela como se se
tratasse de uma mulher imoral, uma prostituta.
Talvez essa linha de pensamento derive do Talmude judaico que
afirma que Magdala – conhecida pelos seus trabalhos de tinturaria e
fábricas rudimentares de têxteis – tinha uma reputação má e foi
destruída por causa da sua perversidade no campo sexual.
Em 1324, em Nápoles, na Itália, encontrava-se um lar para
mulheres perdidas que se chamava exatamente Lar de Maria Madalena.
Isso concorreu para aumentar a confusão.
Algumas pessoas identificam-na com a mulher pecadora a respeito
da qual Lucas escreveu, pouco antes de mencionar Maria Madalena
(Lucas 7:37-50). Mas isso é pura especulação.
O ponto fraco que Satanás usou para invadir a vida de Maria
Madalena é desconhecido. Mas é evidente que a Bíblia se refere ao fato de
ela ser possessa de demônios e não a qualquer tipo de imoralidade.
Antes de Madalena ter tido o encontro com Jesus, a sua vida era
um autêntico pesadelo. Depois que Ele a libertou do poder de Satanás,
ela começou a viver uma vida cheia de significado. Esta nova vida por
Cristo atingiu uma dimensão mais ampla na manhã da ressurreição de
Jesus. A relação terrena com o seu Mestre tinha acabado, mas fora
iniciado um relacionamento novo e espiritual. Sete semanas mais tarde,
no Dia de Pentecostes, o Espírito Santo foi dado aos crentes (Atos 2:1-
22). Embora o seu nome não seja mencionado, Maria Madalena estava
certamente entre os presentes Atos 1:14).
O Dia de Pentecostes deu a Maria Madalena a resposta à sua
questão – Por que é que Jesus não podia salvar-Se a Si próprio da morte.
Ele não era apenas o Senhor; era também o Cristo, o Salvador, de acordo
com o magistral sermão de Pedro. Mais tarde, o mesmo apóstolo
descreveu a morte de Cristo mais extensivamente: "Porque também
Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-
nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo
Espírito" (1 Ped. 3:18).
Deus abandonou o Seu Filho na cruz, porque amava os homens e
queria que todos os que confiassem em Jesus Cristo tivessem vida eterna
em vez de morte eterna (João 3:16).
Cristo subiu ao céu, mas o Seu Espírito Santo desceu para
convencer as pessoas a respeito dos pensamentos de Deus sobre o
pecado, a justiça, o juízo, e conduzi-las à verdade de Deus (João 16:8-11).
Foi exatamente o mesmo Espírito Santo que ajudou também Maria
Madalena a continuar perto de Cristo. Deu-lhe o poder de testemunhar
dEle (Atos 1:8). Ela experimentou também aquilo que Paulo escreveria
mais tarde: "E ele morreu por todos, para que os que vivem – depois de
receberem a vida eterna por Ele – não vivam mais para si, mas para
Aquele – Cristo – que por eles morreu e ressuscitou" (2 Cor. 5:15). Desde
Maria Madalena, têm vivido milhões de mulheres cujos nomes foram
esquecidos, mas o dela continua vivo.
Quando os arqueólogos puseram a descoberto as anteriores
fundações de Magdala, cerca de 2000 anos mais tarde, esse nome
recordou-lhes Maria Madalena e logo as notícias se espalharam pela
imprensa internacional. Durante séculos, poetas e pintores se têm
inspirado nela. Por exemplo, ela influenciou o grande mestre flamengo
Poter Paul Rubens no seu famoso quadro "A Descida da Cruz".
A história de Maria Madalena derrama, acima de tudo, luz sobre a
pessoa de Jesus. Mostra o Seu amor para com uma pessoa e o Seu poder
sobre Satanás. Mas mostra igualmente e com toda a clareza a atenção
que Ele deu a uma mulher. A história dela ilustra o fato de que Deus
reserva, sem dúvida, privilégios excepcionais para as mulheres quando
estas se dão totalmente a Ele, em amor e gratidão.

Maria Madalena, que serviu de exemplo em seguir a Cristo

(João 20:1-18; Marcos 16:9)

Perguntas:
1. Descreva a situação de Maria Madalena antes do seu
encontro com Jesus Cristo (Lucas 8:2).
2. Estude Marcos 5:1-13 e 9:17-27. Como é que se comportava
os endemoninhados?
3. Que perigos enfrenta uma pessoa que foi liberta dos
demônios? (Lucas 11: 24-26).
4. De que maneira mudou a atitude de Madalena depois que se
encontrou com Cristo?
5. Que privilégios excepcionais recebeu Maria Madalena?
6. Enumere algumas das qualidades piedosas de Maria
Madalena. Que área da sua vida precisa de ser limpa pelo
poder de Deus?
SAFIRA,

A MULHER QUE MORREU POR TER DADO OUVIDOS A


SATANÁS

"Na longa história da igreja, jamais existiu tal manifestação de mordomia


cristã e de senso de responsabilidade individual para com Deus."
Herbert Lockyer *

Atos 4:32-5:11

Quem teve primeiro a idéia? Ananias ou Safira?


Qual deles decidiu vender uma parte da propriedade a fim de dar o
dinheiro aos necessitados?
Era um plano maravilhoso, altruísta e sacrificial.
Cativados por um movimento que havia surgido ultimamente em
Jerusalém, Ananias e Safira juntaram-se ao grupo de pessoas cujo maior
desejo era fazer os outros felizes. Mais tarde, esses foram chamados
cristãos (Atos 11:26), termo que os ligava ao nome do seu Salvador e
grande exemplo, Jesus Cristo.
Em Jerusalém, algo de especial tinha acontecido. Dez dias depois
da ascensão de Jesus, o Espírito Santo tinha descido sobre os discípulos,
exatamente como estava predito. Esse Espírito tinha cativado os corações
dos crentes, mudando-os radicalmente. Desenvolveu-se entre eles um
laço mútuo de amor e unidade como nunca se imaginara possível.
Experimentaram entre si uma relação que jamais existira antes e que
mais tarde foi bastante esquecida.
Os crentes encontravam-se diariamente no templo. Desejavam
estar juntos. Procuravam-se mutuamente e comiam uns com os outros.
Deus constituía o centro dos seus pensamentos e conversas.
Em tais situações, as diferenças sociais podem tornar-se dolorosas.
Como é possível desfrutar dos bens próprios enquanto outros passam por
grandes necessidades? O Espírito de Jesus – acerca do Qual os apóstolos
falavam com entusiasmo – tinha vindo para o seu meio. Era a Sua
compaixão que eles experimentavam. Como Ele, também os crentes
desejavam servir os outros, fazê-los felizes. Dessa altura em diante,

* De Women of the Bible, por Herbert Lockyer, p. 153.


queriam ser bons mordomos dos seus bens. Sem que ninguém os
forçasse a fazer isso, os ricos vendiam as suas propriedades. A
importância recebida era então colocada num fundo comum, do qual
todos recebiam a sua parte, de acordo com a necessidade de cada um.
A primeira igreja de Jesus Cristo estava intimamente unida pela fé
nEle. Os seus membros eram também iguais nas circunstâncias externas,
porque os mais abastados davam do que tinham a favor dos que
precisavam.
José, também chamado Barnabé, era um homem particularmente
notável entre eles. O seu nome significava "Filho da Consolação", e isso
traduzia exatamente o que ele era. Vendeu um campo que possuía e
trouxe o dinheiro aos apóstolos. Todos começaram a falar a respeito
deste homem e do bom exemplo que dera.
Uma vez que a igreja pensava em termos espirituais, os seus
membros estavam convictos do valor relativo e temporal dos bens
materiais. Não tinha o Mestre dito com bastante ênfase que se uma
pessoa não renunciasse a tudo o que tinha não podia ser Seu discípulo?
(Luc. 14:33)
Como os seus pensamentos estavam acima de tudo preocupados
com as coisas do Reino de Deus, os cristãos tinham a convicção de que o
Senhor cuidaria deles (Mat. 6:33). Não tinha Jesus afirmado que aqueles
que deixam parentes, casa e propriedades por amor d'Ele e do Evangelho
receberão cem vezes mais? (Mar. 10:29-30)
Não admira que os crentes que viviam de acordo com estes padrões
divinos fossem populares com as outras pessoas. Os que criam em Jesus
Cristo, o Ressuscitado, eram diariamente acrescentados à igreja (Atos
2:43-47).
Naquela época, muitos milagres maravilhosos se estavam a realizar,
os quais enchiam as pessoas de temor, incluindo Ananias e Safira. Sem
outra pressão que não fosse a das suas próprias consciências, este casal
decidiu voluntariamente seguir os exemplos que viam à sua volta. Não
queriam ficar atrás de Barnabé e de outros. A sua excelente decisão de
vender uma propriedade e dar o dinheiro foi mútua.
Satanás tinha observado o desenvolvimento dos primeiros cristãos
e sentia-se furioso. Estava a procurar maneiras de anular o seu
crescimento e felicidade. Como cada pessoa que se juntava à igreja era
um perda para o seu domínio (Atos 26:18), ele não podia permanecer
inativo. Olhou para os corações de Ananias e Safira e descobriu que a fé
deles não era da mesma qualidade que a de Barnabé. verificou que eles
possuíam um duplo objetivo. Queriam fazer o bem, por um lado, e
conseguir causar boa impressão, por outro.
Ananias e Safira não estavam apenas preocupados com os pobres.
Desejavam também ser alvo de honras e admiração. Em parte, o seu alvo
não era espiritual. Queriam aparentar ser melhores do que realmente
eram. Talvez o medo os tivesse também invadido, após a decisão inicial.
Agora que eram mais velhos, recebiam menos cuidados e o futuro era
incerto.
Quaisquer que fossem as suas razões, eles concordaram em guardar
parte do dinheiro da propriedade que tinham vendido, fingindo
entretanto que davam tudo. De outro modo, as pessoas não ficariam tão
bem impressionados com eles como com Barnabé. Plenamente
conscientes da sua decisão bem pensada, Ananias e Safira levaram por
diante o seu plano, com prejuízo das suas vidas.
Quando Pedro recebeu o dinheiro de Ananias, sabia já que se estava
a praticar uma fraude. A sua saudação foi aterradora, "Ananias, por que
encheu Satanás o teu coração para que mentisses ao Espírito Santo, e
retivesses parte do preço da herdade?" (Atos 5:3)
As palavras de Pedro revelaram a extensão e a seriedade desta
atitude enganosa. Ananias tinha consentido que Satanás ocupasse o seu
coração. Como acontecera ao primeiro casal na terra, Adão e Eva, ele e
Safira haviam-se deixado enganar por Satanás. Como sempre, o diabo
visava destruir a obra de Deus.
Pedro sabia que enganar o Espírito Santo era enganar Deus.
"Guardando-a não ficava para ti ? E, vendida, não estava em teu poder?"
E Pedro continuou: "Por que formaste este desígnio em teu coração? Não
mentiste aos homens, mas a Deus" (Atos 5:4).
Com estas palavras, Ananias caiu morto. Não foi condenado por
causa da oferta não ser suficientemente grande, mas porque estava ligada
à desonestidade. A sua ação de nada valeu, por causa da duplicidade e
mentira. Acima de tudo, ele tentara enganar a Deus e depois aos crédulos
necessitados. A decisão que haviam tomado pôs em causa a santidade de
Deus e desonrou-O pela mentira. Isso custou-lhe a vida.
O Deus a Quem Ananias e Safira tinham profundamente
menosprezado é um Deus santo. É um fogo consumidor (Heb. 12:29).
Nenhuma criatura se esconde diante dEle. Mas todos estão patentes e
expostos aos Seus olhos (Heb. 4:13). Isso era também verdade a respeito
dos pensamentos de Ananias e Safira. Eles tinham igualmente de dar
contas dos seus atos a Deus, e quem poderia subsistir quando Ele
administrava a justiça em vez da misericórdia?
Petrificadas, as pessoas que estavam presentes observaram como os
jovens cobriram o corpo de Ananias com um lençol e o levaram
imediatamente para ser sepultado.
Jerusalém era pequena. De qualquer ponto da cidade, se chegava
depressa à praça do templo. Como o marido não tinha regressado a casa
após cerca de três horas, Safira foi investigar. Quando entrou na sala para
falar com Pedro e os apóstolos, elas ainda estavam a pensar no que de
terrível tinha acontecido. À distância soaram os passos dos jovens que
voltavam do funeral de Ananias.
Será que Safira se apercebeu da tensão que pairava na sala ?
Será essa a razão por que ela não ousou perguntar onde estava o
marido?
Ninguém lhe disse o que havia acontecido. Ela tinha de enfrentar
também o teste em que o marido falhara.
Pedro retomou o fio da conversa com Safira como se não tivesse
passado tempo algum desde a morte de Ananias. "Dize-me, vendeste por
tanto aquela herdade?" (Atos 5:8)
Deus estava a dar a Safira uma segunda oportunidade. Ela havia
perdido a primeira – a possibilidade de responder como o marido de
forma honesta a Deus e aos Seus servos.

"Uma pessoa é escrava daquilo que a controla" (escreveu


Pedro (2 Pe. 2:19). Os cristãos não devem racionalizar mesmo o
hábito mais insignificante, se sabem que é contrário á direção
do Espírito Santo e se encontra fora do ambiente sa verdadeira
liberdade que Cristo nos tem dado pela Sua morte e
ressurreição.

Safira não havia sido uma boa auxiliar para Ananias (Prov. 31:12).
Não tinha usado a grande influência que possuía como sua esposa para
servir de bênção ao marido. Tinha-lhe feito pouco bem. Não tentara se
impedi-lo de pecar, e, portanto, era também culpada da sua morte.
Mostrou que também ela estava em poder de Satanás. Por
conseguinte, a sua resposta foi forçosamente breve e sem qualquer
hesitação: "Sim, por tanto" (Atos 5:8). "Como é que tu e o teu marido
foram capazes de pensar mesmo em fazer uma coisa destas conspirando
juntos para tentar o Espírito de Deus?" – disse-lhe Pedro em tom de
censura (v. 9).
O terrível fato do pecado de Ananias e Safira estava em que fora
premeditado. Eles tinham plena consciência do que faziam. O pecado não
os apanhara de surpresa. Entretiveram-se com ele deliberadamente. Por
causa do seu pecado, Safira morreu também.
Entretanto, os jovens regressavam a casa. Chegavam precisamente
a tempo para sepultar a mulher de Ananias.
Safira causou, sem dúvida, uma impressão, mas não positiva.
Deixou atrás de si recordações de medo, terror e desânimo; tanto no que
dizia respeito aos cristãos, como para os que não eram da igreja mas
ouviram falar da causa da sua morte.
O nome de Safira estava relacionado com a pedra preciosa chamada
"safira", mas o único clarão que conseguiu deixar foi um triste aviso.

Safira, a mulher que morreu por ter dado ouvidos a Satanás.

(Atos 4:32-5:11)

Perguntas:
1. Faça uma lista de algumas características da igreja cristã no
tempo de Safira.
2. Qual lhe parece ser o atributo mais notável dos crentes?
3. Como é que a atitude destes cristãos influenciou a vida de
Ananias e Safira?
4. Examine a atitude de Safira para com o marido, à luz de
Provérbios 31:12. A que conclusão chega?
5. Como é que a morte de Safira afetou os cristãos?
6. Que princípio aprendeu desta história que possa aplicar à
sua própria vida?
MARIA DE JERUSALÉM,

CUJO LAR FUNCIONOU COMO CASA DE DEUS

"Eu rogo ao Céu que derrame a Melhor das Bênçãos sobre esta
Casa e sobre todos os que daqui em diante a habitarem. Que unicamente
homens honestos e sóbrios governem sob este teto."
John Adams *

Atos 12:1-17

A noite tinha há muito caído sobre Jerusalém. As casas da capital


de Israel estavam completamente às escuras, pois as lâmpadas de óleo já
haviam sido apagadas horas antes.
Todavia, na casa de Maria, todas as lâmpadas brilhavam, embora
ninguém do exterior pudesse ver a luz, pois as janelas tinham sido
cuidadosamente fechadas. Nem mesmo um pequeno raio de luz
conseguia atravessar. As pessoas que passavam na rua, não tinham
possibilidade de saber o que se passava dentro de casa.
Será que os que se encontravam neste lar estavam a fazer algo tão
mau que não pudesse ser exposto à luz ? De modo nenhum.
As pessoas que se encontravam em casa de Maria eram cristãos,
seguidores de Jesus Cristo. Já há algum tempo se vinham reunindo
naquela casa. Tinham abandonado a sala de reuniões do templo – o seu
velho lugar de encontro – porque se tornara demasiado perigoso. Agora
era a casa de Maria que, por necessidade, funcionava como igreja.
Estes cristãos formavam uma minoria. Tinha rebentado uma
perseguição tão violenta contra os crentes, que muitos haviam fugido de
Jerusalém (Atos 8:2). Aqueles que ficaram estavam constantemente em
perigo. A ameaça de prisão pendia sobre as suas cabeças como a espada
de Dâmocles. Sentiam-se gratos por Maria, uma viúva próspera, ter posto
o seu lar à disposição.
"A minha casa é bastante espaçosa", disse ela. "Por que é que não
fazemos aqui as reuniões? A minha casa pode facilmente funcionar como
edifício da igreja".

* O segundo presidente dos EUA. Tirado da cornija da lareira da sala de recepção do Embaixador
americano em Haia, Holanda.
Maria não parecia preocupada a respeito da sua própria vida. Como
amava a Deus, aceitava com naturalidade o fato de que a vinda e ida de
muitas pessoas significaria trabalho, despesa e certos inconvenientes.
Desse modo, Maria de Jerusalém revelou-se como uma mulher
corajosa e abnegada. Em certos aspectos, parecia-se com Marta e Maria
que, durante o tempo em que os líderes dos judeus tentavam matar Jesus
(João 11:54-57. 12:1-11)), não recearam recebê-lo. Ela constituía um elo
indispensável na cadeia da vida da igreja primitiva.
Maria não contava com o apoio do marido. Seria por isso que ela se
sentia mais atraída para Deus? Teria ela consciência do fato de que no
passado o Senhor tinha defendido fortemente a causa das viúvas que
confiavam nEle?
Não fora o profeta Elias mantido com vida durante um período de
fome, por uma viúva? (1 Reis 17:7-16) Não tinha sido a profetisa Ana – a
primeira mulher privilegiada em ver o Menino Jesus no templo (Luc.
2:25-38) e uma das que anunciaram a Sua entrada em Jerusalém –
também viúva?
O motivo por que os cristãos estavam reunidos nesta noite e não
haviam ido embora à hora do costume, provinha de uma emergência.
Eles encontravam-se em grande tribulação. Pedro havia sido preso pelo
rei Herodes Agripa.
Os líderes judeus, ciosos por causa dos sinais e milagres que os
apóstolos estavam realizando, já haviam posto anteriormente os crentes
na prisão (Atos 5:17-20). E embora o próprio Deus, por meio de um anjo,
tivesse livrado os Seus servos da prisão, a oposição continuara. O sangue
de Estêvão tinha sido derramado (Atos 7:57-60), e as pessoas queriam
mais.
Nada de bom se podia esperar de Herodes. O ódio contra Jesus e os
Seus seguidores estava enraizado na família deste governador. Não tinha
o seu pai, Herodes o Grande, entrado definitivamente na história como
aquele que assassinou os meninos de Belém? (Mat. 2:16) E não tinha o
seu predecessor, Herodes Antipas, decapitado João Batista? (Mat. 14:1-
12) O próprio Herodes Agripa tinha pouco antes mandado matar Tiago,
irmão de João e discípulo de Jesus (Atos 12:2).
Não havia dúvida de que Pedro também seria morto,
provavelmente em público. Então todos veriam o que pensava o rei
acerca dos seguidores de Jesus, e a maneira como os tratava.
Os crentes reuniram-se para orar na noite que parecia ser a última
da vida terrena de Pedro.
Entretanto, o apóstolo dormia profundamente, a despeito de se
encontrar encarcerado numa prisão e com cadeias nas mãos. Não se
mantinha acordado por causa do medo, perguntando a si mesmo o que
lhe poderia acontecer no dia seguinte. Os 16 soldados que o guardavam
em grupos de quatro não o impediam de dormir.
Todavia, nenhum ser humano seria capaz de o livrar. Ele estava
totalmente desligado do mundo exterior. Havia uma parede
intransponível entre ele e a liberdade. Os guardas constituíam a garantia
de que ele não poderia sair. "Mas a igreja fazia contínua oração por ele a
Deus" (v. 5). Embora a passagem para o exterior pudesse estar
totalmente fechada, o caminho para cima permanecia aberto.
Com o enérgico e preventivo uso da força, Herodes Agripa queria
estar seguro de que Pedro não seria libertado pelos amigos. Mas aqueles
crentes, embora não tendo poder em si mesmos, dispunham, por meio da
oração, de uma arma contra a qual o rei Herodes não possuía qualquer
poder.
Não tinha Cristo dado muitas promessas em relação com a oração
antes de ascender aos céus? "Também vos digo que se dois de vós
concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes
será feito por meu Pai, que está nos céus" (Mat. 18:19).
Ele havia prometido também: "Onde dois ou três estiverem
reunidos em meu nome aí estarei no meio deles" (Mat. 18:20).
"Podeis obter tudo – tudo o que pedirdes em oração", dissera Jesus,
"se crerdes" (Mat. 21:22).
Noutra ocasião, Cristo ilustrou o Seu desafio à persistência na
oração com o exemplo de uma viúva que tinha perseverado em pedir e
finalmente veio a receber aquilo de que necessitava (Luc. 18:1-8).
Os discípulos sabiam que estas promessas não haviam perdido o
seu poder. Continuavam válidas, apesar de Jesus já não estar com eles na
terra. Sabiam que Ele apoiava as suas orações, no céu, que estava a
interceder por eles (Heb. 7:25), e que os atenderia.
Os cristãos que se reuniram em casa de Maria acreditavam que as
orações dos justos tinham muito poder e conseguiam resultados
maravilhosos (Tg. 5:16). Assim, aconteceu que, enquanto eles, de acordo
com as palavras do profeta Isaías, insistiam perante Deus (Isa. 62:7), Ele
respondeu. Um mensageiro sobrenatural, um anjo, desceu à prisão de
Pedro. A escuridão da noite desvaneceu-se quando ele chegou. As cadeias
de ferro quebraram-se e caíram no chão.
Depois de o anjo ter desprendido as cadeias de Pedro, levou-o para
fora sem que disso fosse impedido pelas portas fechadas. Ele tornou os
guardas surdos e cegos, e estes não notaram o que estava a acontecer.
Pedro, acordado do seu sono, pensou que tudo aquilo não passava de um
sonho. Em poucos minutos encontrava-se fora da prisão, sem saber se
estava acordado ou a dormir.
Enquanto os crentes desconheciam, naturalmente, o que se
passava, Pedro seguia já em direção à casa de Maria. Depois de um
momento de reflexão consigo próprio, verificou que se não tratava dum
sonho. Grato a Deus pela sua liberdade, seguiu diretamente para o lar de
Maria.
Os crentes experimentaram a verdade do que Deus havia dito
séculos antes através dos lábios de Isaías: "E será que antes que clamem,
eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei" (Isa. 65:24).
Depois da descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes, muitos
cristãos venderam as casas e as propriedades e ofereceram o produto aos
outros crentes necessitados.
Maria não tinha feito isso. Não vendeu a sua espaçosa casa, dando
depois o produto dessa venda. Em vez disso, conservou a casa, mas
colocou-a à disposição da Igreja.
Maria era uma mulher independente, dirigida por Deus de um
modo individual. Ela sabia que existiam diferentes maneiras de servir a
Deus. Ela própria podia fazê-lo com o dinheiro que recebesse da venda
dos seus bens. Mas podia igualmente servir a Deus – e foi nesse sentido
que Ele a orientou – partilhando do que tinha com os que estavam em
necessidade.
Maria compreendia que os dons distribuídos pelo Espírito Santo
entre os cristãos diferiam uns dos outros. A igreja de Cristo era como um
mosaico, pois continha muitas formas e muitas cores.

Deus proveu a igreja com apóstolos, professores e profetas


(1 Cor. 12:28). Mas outros são igualmente necessários para
desempenharem a sua função no Corpo de Cristo. Cada membro
da igreja tem um dom funcional, ou possui algo, que deve usar
de modo adequado (Rom. 12:4-7). Deus, na Sua sabedoria, tem
dado a cada cristão um dom específico, de modo que todos os
membros possam alegrar-se pelo fato de serem únicos e estejam
dispostos a partilhar esse dom com os outros (1 Cor. 14:12).

Maria continuou a tradição das mulheres que tinham vivido junto


de Cristo, apoiando-O com os seus bens particulares (Luc. 8:3). Ela
ocupou o seu próprio lugar no mosaico da igreja. A sua tarefa foi tão
importante como a das pessoas que pareciam ser mais proeminentes aos
olhos do dom específico, público. A influência dela na igreja foi inegável e
insubstituível. Deus tornou as viagens de Pedro para pregar o Evangelho,
e a sua oportunidade de realizar novamente milagres (Atos 3:6-8; 5:15),
dependentes, em parte, de pessoas como Maria de Jerusalém. Ela teve a
sua função dentro da igreja. Mas não foi só essa a sua responsabilidade.
Foi igualmente mãe de João Marcos (Atos 12:12).
Como mãe, Maria experimentou a alegria de saber que o filho
estava a servir o Senhor. A vida dela não influenciou apenas os de fora;
afetou também o seu próprio filho.
Será que Deus recompensou a mãe através das oportunidades que
estava dando ao filho?
João Marcos recebeu o excepcional privilégio de se tornar um
auxiliar de Paulo e Barnabé (Atos 12:25). Mais tarde, foi companheiro de
viagem de Pedro, que carinhosamente lhe chamava "Meu filho". (1 Pe.
5:13).

De acordo com a tradição João Marcos – o autor do


Evangelho de Marcos – viajou para Alexandria depois da morte
de Barnabé. Aí fundou uma igreja e serviu como seu primeiro
bispo até que morreu ou foi martirizado por volta de 62 A.D. O
seu corpo pode ter sido roubado por soldados venezianos, cerca
de 815 A.D. e posto na Igreja de S. Marcos, em Veneza.

O que esse convívio com estes três grandes homens de Deus


significou para João Marcos, e como isso influenciou o seu caráter, pode-
se facilmente imaginar.
A Bíblia menciona o nome de Maria apenas uma vez, e a ênfase não
é a ela, mas ao seu lar. De acordo com a lenda, esta é a mesma casa em
cujo cenáculo Jesus celebrou a última ceia com os discípulos.
O resto da vida de Maria permanece encoberto. Mas um dia, o
Livro de Memórias de Deus – o Livro em que Ele registra as ações dos
homens e das mulheres (Mal. 6:16) – será aberto. Só então se tornará
claro o que Maria significou realmente para o Reino de Deus.
Até essa altura, ela continuará a ser um estímulo para toda a
mulher, seja viúva ou não. Maria mostrou a tremenda influência que
pode exercer uma mulher piedosa, quando põe o seu lar à disposição de
Deus.

Maria de Jerusalém, cujo lar funcionou como casa de Deus

(Atos 12:1-17)
Perguntas:
1. De que maneira é que Maria seguiu o exemplo de outras
mulheres que serviram a Cristo? (Lucas 8:3).
2. Enumere e resuma as contribuições de outras mulheres da
Bíblia que puseram os seus lares à disposição de Deus (1
Reis 17:10-22; 2 Reis 4:8-11).
3. Descreva o propósito para que foi usada a casa de Maria.
Quais foram os resultados da sua hospitalidade?
4. Qual lhe parece ter sido a atitude de Maria em relação aos
seus bens?
5. Diga como se sentiria se Pedro chegasse à sua porta
pedindo abrigo durante uma época de perseguição aos
cristãos. Na sua opinião, quais foram as qualidades de
Maria que lhe deram força para se arriscar à possível prisão
e mesmo a morte?
6. À luz de Mateus 18:19-20, como é que a sua casa pode ser
usada para promover o Reino de Deus?
FEBE,

UMA MULHER SOLTEIRA QUE POSSUÍA O ANTÍDOTO


DA SOLIDÃO

"De país para país, algumas das pessoas mais atraentes que tenho
encontrado são missionárias solteiras. São, sem dúvida, as pessoas de
vida mais vigorosa que se podem encontrar. Obviamente, canalizam a
sua força criativa e as suas energias para ajudar outros à sua volta, em
nome de Jesus. Eu observo-as e me sinto inspirada".
Ada Lum *

Romanos 16:1-2

Febe, a serva da igreja em Cencréia – a parte oriental de Corinto –


tinha acabado a sua viagem. Tratara-se de uma longa e penosa jornada,
que até muitos homens hesitavam em fazer.
Febe tinha viajado por terra e por mar. Tinha os pés cheios de
bolhas por causa das infindas caminhadas por estradas pedregosas das
montanhas. Constituíra uma prova para os nervos a sua travessia da
Macedônia para a Itália num pequeno barco que não deixava de ranger.
Mas em todas essas circunstâncias, ela permaneceu sempre consciente da
sua tarefa. Tinha de entregar a carta de Paulo aos cristãos em Roma, sem
dano algum.
Finalmente, os contornos da cidade apareceram diante dos seus
olhos. Roma, a cidade eterna, lá estava diante dela sobre as suas sete
colinas. A Via Ápia que ia percorrendo conduzia ao coração da cidade.
Para Febe, esta viagem constituía uma aventura excitante em vários
sentidos.
Acima de tudo, através desta viagem tinha alargado os seus
horizontes. Estava-se por volta de 57 A.D., quando ainda poucas pessoas
tinham o privilégio de viajar e a maior parte dos que o faziam eram
homens. Levaria ainda séculos antes que o mundo – primeiro pela
palavra escrita e mais tarde através dos meios de comunicação modernos
– se abrisse inteiramente. As pessoas viviam isoladas e geralmente não
conheciam muita gente fora das suas próprias cidades.

* De Single & Human (Solteira e Humana), de Ada Lum, p. 40. Copyright 1976. Inter-Varsity Christian
Fellowship. Usado com permissão.
Esta viagem não permitiu apenas a Febe visitar outro pais e uma
das cidades mais fascinantes de todos os tempos; deu-lhe também a
oportunidade de conhecer outros cristãos. Tirando o fato de partilharem
da mesma fé, os outros crentes diferiam dela em muitos sentidos.
Febe era uma mulher solteira, mas não se sentia só. A sua vida era
tudo menos vazia. O senso de realização própria resultava da sua
prontidão em servir. Dando-se aos outros, Febe mantinha à distância o
espectro da solidão. Ela sabia que uma vida voltada para os outros atrai
as pessoas, particularmente as que vivem sós, isoladas. O fato de se abrir
às necessidades dos outros ajudava-a a encher e enriquecer a sua vida,
tornando-a uma aventura interessante e variada.
Febe experimentaria esse princípio em Roma. Os cristãos não a
iriam receber como uma estranha. O pergaminho de Paulo, que
constituía a parte mais preciosa da bagagem que levava, continha uma
recomendação calorosa da mensageira. Por isso, ela seria recebida com
cordialidade e tratada com honra.
"Ajudai-a em tudo que puderdes", escrevera Paulo (Rom. 16:1-2).
Febe, que pensava sempre nos outros, seria agora alvo de ajuda. Estas
palavras manifestavam a amizade sincera e o respeito do Apóstolo por
Febe.
Paulo, que teve de adiar muitas vezes a sua visita a Roma (Rom.
1:13), ousava fazer o seu primeiro contato com os cristãos romanos
através desta serva de Deus. Iriam passar mais três anos até que ele
tivesse possibilidade de visitar Roma. Até lá, a igreja cristã dessa cidade
iria vê-lo através dos olhos de Febe.
Embota fosse um notável líder cristão, Paulo colocou a sua
reputação nas mãos de uma mulher. Era arriscado para ele tornar-se tão
dependente de uma outra pessoa. Todavia, com Febe, ele ousava correr o
risco. Estava certo de que ela tinha uma boa reputação e ia representá-lo
bem. Esta irmã tinha já provado que possuía um coração dedicado a
Deus e ao Seu serviço. Era competente, digna e merecia a confiança de
desempenhar esta grande responsabilidade.
Na carta de Paulo aos Romanos estava a sua declaração mais
completa do evangelho. Da cidade de Roma, a mensagem de Cristo iria
espalhar-se pelo mundo. Nessa epístola, o Apóstolo explicava todos os
princípios básicos do evangelho. Ele queria que os leitores soubessem
que todo o ser humano é pecador (Rom. 3:23). É nascido de pais
pecadores (Rom. 5:12) e comete ele próprio pecado, duas coisas que
merecem castigo de morte. Sem qualquer exceção, o homem sem Deus
está perdido (Rom. 6:23). E uma criatura que não pode existir perante
um Deus santo (Rom.3:10-18) Este é, sem dúvida, o fato mais triste da
história humana.
Contudo, a carta de Paulo não chamava apenas a atenção para o
maior problema da humanidade. Continha também a grande solução de
Deus. O homem não precisava sofrer esse terrível castigo. Não estava
condenado a morrer pelo seu pecado. Podia escapar a esse trágico
destino apelando para o Mediador enviado por Deus.
Jesus Cristo – o Filho de Deus – suportou a morte embora estivesse
inocente (Rom. 5:8). Ele dá completo perdão a todos os que aceitam a
Sua obra de substituição (Rom. 8:1) e reconhecem que são pecadores.
Precisam também crer e pôr a sua confiança em Jesus, e declarar
publicamente essa decisão por Cristo (Rom. 10:9-10).
A pessoa que crê e responde à mensagem de Cristo não será
condenada à morte espiritual. Em vez de ficar eternamente separada de
Deus, receberá uma vida nova, eterna e espiritual. Torna-se filho de Deus
e o Espírito Santo dá-lhe uma profunda convicção íntima desta verdade
(Rom. 8:13-17).
Continuando a lançar os fundamentos da fé, Paulo instruiu os
crentes romanos a respeito da segurança da salvação (Rom. 8:31-39).
Referiu-se à necessidade de andar com Deus e viver no poder do Espírito
Santo. Estas e outras grandes verdades definiu Paulo na carta que Febe,
uma serva pronta do evangelho, levou a Roma.
A Bíblia não nos diz como é que esta mulher veio a ter uma fé
pessoal em Cristo. As 45 palavras que descrevem a sua vida são
demasiado escassas. Mas a fé que nutria era certamente o conteúdo da
sua vida e a motivação dos seus atos. Ela era uma irmã da igreja, onde a
fé em Cristo unia todos os crentes numa grande família de várias
culturas. Eles interessavam-se pelas necessidades uns dos outros, como
irmãos.
No caso de Febe, a palavra irmã não indicava apenas uma relação
espiritual mútua; falava também de um estado. Numa sociedade em que
a mulher era colocada bastante abaixo do homem, Febe tinha o seu lugar
numa grande família de filhos de Deus, numa relação espiritual de
completa igualdade. Dessa posição começou ela a servir a igreja.
Para Febe, servir não significava entregar-se a um trabalho inferior.
Não se tratava de uma realização própria de segunda categoria. Era antes
um grande privilégio. No porto de Cencréia, que como qualquer outro
grande porto marítimo revelava o pecado nas suas formas mais abjetas, a
personalidade de Febe irradiava luz. Seria esse brilho mesmo de Febe?
Não, a luz de Jesus Cristo (João 8:12) é que brilhava através dela. A luz
que irradiava era um reflexo do poder transformador de Deus.
Não sabemos como é que ela ajudava as outras pessoas. Será que
abria o lar para serviço da igreja, como Lídia e Priscila? Ofereceria ela
hospitalidade às pessoas que viajavam na direção do oriente ou ocidente,
através do porto que ficava no Mar Egeu? Ou teria a sua ajuda consistido
principalmente de ofertas de dinheiro e de bens? Estas questões não
encontram respostas definitivas. Também não são de grande
importância, pois sabemos que os serviços de Febe eram variados,
sacrificiais e eficientes.
Febe não tinha marido. Estava só na vida. Todavia, não ficava
pacientemente à espera de que alguém viesse aliviar a sua solidão.
Servia-se antes dessa solidão para ajudar os outros. Quem, talvez tenha
pensado, poderá fazer isto tão livremente como ela? Quem poderá dar-se
melhor aos outros do que a pessoa que só tem de cuidar de si própria?
Essa atitude determinou também o seu relacionamento com Paulo.
Não há dúvidas de que, para Febe, Paulo era o grande apóstolo, servo de
Deus. Mas, ao mesmo tempo era seu "irmão". Era também um homem só
na vida, que necessitava e apreciava a colaboração de uma mulher
compreensiva.
Assim, isso resultou numa interação ideal. Se Febe desempenhava
uma função especial – a de diaconisa, por exemplo – ou se se limitava a
trabalhos gerais, não podemos saber exatamente. O seu primeiro dever
podia estar relacionado com a expressão "que serve na igreja", o segundo
com o fato de que pessoalmente ajudava Paulo e outras pessoas. Mas
para uma mulher como ela, isso não fazia qualquer diferença.
Preocupava-se apenas com coisas que tinham realmente importância – a
sua utilidade para Deus e para os outros. Uma serva assim não ansiava
por um título. Queria simplesmente ser um ser humano com uma
influência positiva. Tornava-se merecedora do respeito por causa da sua
fé e visão, e por causa da sua total entrega aos outros.
Todas as mulheres necessitavam de amor e atenção. Febe não
constituía exceção. Ela recebia o que necessitava dando primeiro o seu
amor e talentos aos outros. Empregando as palavras de Salomão, ela era
"enriquecida"» porque antes "dava generosamente" ((Prov. 11:24-25).
De acordo com as leis do reino de Deus, quando os cristãos dão
com generosidade, recebem de volta com abundância. Uma pessoa que
não foge ao serviço – que alegre e voluntariamente espalha amor e
amizade – experimentará a bênção de Deus. "Deus", escreve Paulo, "ama
ao que dá com alegria" (2 Cor. 9:9-8). Sobre uma pessoa assim, Ele
derramará os Seus dons. Tal crente sempre terá mais do que necessário,
em todos os aspectos; disporá de meios abundantes para fazer toda a
sorte de boas obras.
A questão sobre se a humanidade teria hoje uma cópia da epístola de
Paulo aos Romanos, se Febe tivesse falhado, é mera especulação. Deus – o
Eterno, o Soberano, o Todo-Poderoso – não dependia de um ser humano
para a entrega da Sua mensagem. Mas permanece o fato de que Ele usou
Febe para levar esta preciosa Palavra de Deus ao povo romano e ao mundo.
Febe encabeçou uma série de mulheres que através dos tempos têm
servido Cristo e a Sua igreja. Paulo mencionou-a primeiro numa longa lista
de colaboradores, entre os quais nomeou mais oito mulheres (Rm. 16:1-16).
Febe, que servia a igreja em Cencréia, mostrou a todos – que vivem
sós ou não – o remédio eficaz contra a solidão: Servir.

Febe, uma mulher solteira que possuía o antídoto da solidão

(Romanos 16: 1-2)

Perguntas:
1. Apresente por palavras suas a descrição que Paulo faz de
Febe. Ao estudar as perguntas 2-6 formule alguns princípios
básicos do evangelho constantes da carta aos romanos,
juntando-lhe referências bíblicas da sua própria escolha,
para as respostas.
2. Estude Romanos 3:10-18, 23; 6:23.
a. Quem é que pecou?
b. Qual é o salário do pecado?
3. Como é que uma pessoa pode receber perdão para o seu
pecado ? (Romanos 5:8; 8:1).
4. De acordo com Romanos 10:9-11, quais são as condições
para que alguém possa receber a salvação?
5. Quem convence o cristão de que é um filho de Deus?
(Romanos 8:16-17).
6. Faça a si próprio algumas perguntas: À luz dos fatos acima,
serei eu um filho de Deus? Se sim, que estou a fazer para
partilhar esta mensagem com os outros? Se não, o que é que
tenho de fazer para me tornar filho de Deus ? (Leia João 1:12
; 3:16; 14:6; 1 João 5:11-12).
LÓIDE E EUNICE,

MULHERES QUE ESTAVAM CERTAS DO PODER DA


PALAVRA DE DEUS

"O Senhor Jesus era uma realidade viva para mim. Quando eu era
ainda muito criança, a minha mãe contou-me como Ele amava tanto as
crianças e queria viver nos seus corações. Eu devo-Lhe ter pedido para
entrar, embora não saiba como e quando isso aconteceu".
Corrie ten Boom *

2 Timóteo 1:5
2 Timóteo 3:14-17
Atos 16:1-3

Os nomes de Lóide e Eunice não se podem separar. Isso não


acontece por se tratar de mãe e filha, mas por causa da sua fé sincera e da
sua visão das Santas Escrituras. No entanto, o mais importante de tudo é
que ambas tinham interesse por Timóteo, filho de Eunice e neto de
Lóide.
Os nomes delas aparecem uma única vez na Bíblia. Mas, partindo
só desse fato, não se pode tirar a conclusão de que as suas vidas não
foram importantes, ou de que a sua influência foi relativamente pequena.
O contrário é que é verdade.
Os nomes destas duas mulheres ficaram para sempre na história
por causa da impressão indelével que deixaram no apóstolo Paulo, um
dos maiores evangelistas e autor de grande parte do Novo Testamento,
incluindo duas cartas a Timóteo.
Por volta de 67 A.D., Paulo incluiu estas palavras na última carta
que, de Roma, enviou a Timóteo: "Trazendo à memória a fé não fingida
que em ti há", escreveu ele, "a inclinação de toda a tua personalidade
para Deus em Cristo, em absoluta confiança e segurança no Seu poder,
sabedoria e bondade, uma fé que habitou primeiro e de modo
permanente no coração da tua avó Lóide e da tua mãe Eunice, e que,
estou certo, também existe em ti" (2 Tim. 1:5).

* Extraído ed In Hem geborgen (Escondido Nele), por Corrie ten Boom, p. 15. Publicado por
Evangelische Lektuur Kruistocht, Almelo, Holanda. Usado com permissão.
A perseguição aos cristãos tinha começado durante o domínio do
imperador Nero, alguns anos antes, e tinha culminado com um terrível
incêndio que o próprio imperador provocou, mas pelo qual culpou os
cristãos. Desse modo, ele pôde arranjar uma justificação para os
perseguir.
A tradição afirma que Paulo caiu vítima dessa perseguição. Preso
em Roma e aguardando a morte, escreveu ao seu "filho na fé" Timóteo (2
Tim. 1:2). Estava ansioso por ver o seu fiel e amado colaborador pela
última vez (2 Tim. 4:9). Paulo sabia que a sua vida terrena estava prestes
a terminar. O seu serviço estava quase completo. Mas através de Timóteo
(e de outros) o trabalho que ele havia começado iria continuar. Nesta
carta, o homem que o tinha acompanhado em tantas viagens – o
cooperador que ele havia mandado a diferentes igrejas – ia receber as
instruções finais do seu líder e mestre. Essa orientação ajudaria Timóteo
a executar as tarefas que ele e outros estavam a receber de Paulo.
A razão por que Paulo podia escrever que tinha combatido o bom
combate e que vivia na expectativa de receber a coroa da justiça (2 Tim.
4:7-8) também tinha a ver com Timóteo. Paulo estava convencido de que
a educação espiritual e a ajuda que havia dado a Timóteo não iria parar
ali, pois Timóteo já tinha revelado que guardara no coração as lições que
tinha aprendido... Mais uma vez, o Apóstolo orientou-o em relação às
tarefas que o aguardavam. "E o que de mim, entre muitas testemunhas,
ouviste confia-o a homens fiéis", dizia Paulo, "que sejam idôneos para
também ensinarem os outros" (2 Tim. 2:2).
No que dizia respeito a Paulo, esse ensino tinha começado cerca de
vinte anos antes, em Listra. Aí, ele tinha tido um breve encontro com
Timóteo enquanto pregava durante o que constituiu provavelmente a sua
primeira visita a essa parte do mundo (Atos 14:9-7).
Desde o princípio, o Apóstolo tinha ficado impressionado com o
caráter nobre desse rapaz e a sua vida de temor a Deus. Paulo verificou
que Timóteo gozava de uma boa reputação, tanto entre os cristãos locais,
como entre os da vizinha Icônio. Com uma preparação adequada, ele
poderia tornar-se um instrumento útil no serviço de Deus, porque tinha
sido ensinado nas Sagradas Escrituras desde a infância.
Por mais excelente que pudesse ter sido a educação bíblica que
Timóteo recebera da mãe e da avó, ela não podia substituir a conversão.
Essa continuava a ser indispensável. Portanto, Timóteo teve
primeiramente de se converter. Pouco depois da conversão de Timóteo a
Cristo, Paulo começou a cuidar dele, treinando-o cuidadosamente no
serviço de Deus.
Todavia, a instrução inicial de Timóteo não viera de Paulo.
Originara-se, sim, no ensino recebido anos antes sob a direção de Lóide e
Eunice. Paulo colheu o que outros haviam semeado.
Quando o menino nasceu, os pais deram-lhe o nome de Timóteo,
que significava "aquele que teme a Deus". Mas esse nome foi
provavelmente escolhido mais pela mãe judia do que pelo pai grego.
Por que razão Eunice, que temia ao Senhor, casou com um pagão,
continua a ser um mistério. Não se sabe se isso aconteceu com o
consentimento de Lóide, ou sem ele. Talvez nenhuma das mulheres fosse
cristã nessa altura. Qualquer que fosse o caso, o marido de Eunice não
tinha um encontro com o Deus em que ela cria. Em conseqüência,
Timóteo permanecia sem se circuncidar.
Teria o pai morrido cedo? Seria por isso que a educação do moço
teve de ficar a cargo da mãe? Será que Eunice, sendo viúva, teria de
ganhar a vida e, portanto, deixou a educação do filho à responsabilidade
da avó?
Assim Timóteo foi educado nas Sagradas Escrituras. Essa instrução
foi um enorme privilégio que jamais poderia agradecer suficientemente a
Deus. Timóteo devia essa educação religiosa à mãe e à avó. Desde a sua
mais tenra infância, tinha sido ensinado na Palavra de Deus.
Lóide e Eunice não pensavam, Vamos educá-lo de forma "neutra"
e depois, mais tarde, ele poderá fazer as suas próprias decisões.
Também não argumentaram, Ele é ainda muito criança. Mais tarde,
quando puder entender melhor as coisas, começaremos a ensinar-lhe a
Palavra.
Lóide e Eunice davam grande valor à Bíblia e aproveitaram todas as
oportunidades para a ensinar cuidadosamente ao menino. Tanto a mãe
como a avó não instilaram apenas um conhecimento teórico em Timóteo.
Dia após dia, elas mostravam pelas suas próprias vidas como é que a fé se
podia aplicar na prática. Isso ajudou a moldar o seu caráter.
Claro que nesse ensino elas não podiam ir além do conhecimento
que possuíam. Como mulheres judias que viviam numa terra estrangeira,
provavelmente não sabiam mais do que o conteúdo do Velho
Testamento, A mensagem de que o Messias esperado tinha vindo na
pessoa de Jesus de Nazaré e que Ele oferecia o perdão dos pecados não
lhes era inteiramente clara. A boa nova de que Deus estava agora ao
alcance de todos os que criam em Cristo era algo que se tornou conhecido
através das mensagens de Paulo.
Por mais que a fé da mãe e da avó tivessem penetrado na vida do
rapaz, isso não o salvava. Ele próprio tinha de chegar a fazer uma decisão
pessoal por Cristo. Como Paulo, também ele tinha de crer que Jesus
Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores (1 Tim. 1:15; Atos 16:31).
Tinha igualmente de aceitar que era pecador.
O futuro mensageiro do Evangelho tinha de crer, ele próprio,
primeiro no evangelho. Tinha de crer que Jesus Cristo morreu, foi
sepultado, ressuscitou dentre os mortos, segundo as Escrituras (1 Cor.
15:3). Precisava entregar a vida a Cristo a um nível pessoal.
Quando o apóstolo chegara a Listra anos antes, Deus provou a
verdade da profecia de Isaías. A Sua palavra não voltaria vazia; iria
realizar a obra que Ele se propunha fazer (Isa. 55:11). Timóteo, filho de
Eunice e neto de Lóide, tornou-se o "filho no Senhor" de Paulo. O
Apóstolo tornou-se seu pai em Cristo Jesus através do evangelho (1 Cor.
4:15,17).
Porque a mãe e a avó, pelo poder do Espírito Santo, tinham
semeado generosamente essa Palavra no coração receptivo de uma
criança é que se verificou o seu novo nascimento depois da pregação de
Paulo (1 Pe. 1:23).
Teriam Lóide e Eunice rogado a Deus o cumprimento das palavras
que o ilustre rei Salomão havia escrito, "Ensina a criança no caminho em
que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele"? (Prov.
22:6)
Timóteo tornou-se primeiro cristão e depois um ativo mensageiro
de Jesus Cristo, um embaixador de Deus (2 Cor. 5:20). Tornou-se um
homem que falaria às pessoas das boas novas do evangelho (2 Tim 4:5).
A sua vida adquiriu valor eterno. Foi um homem sábio que
"resplandecerá como o resplendor do firmamento", porque "ensinou a
muitos a justiça" (Dan. 12:3).
Que mãe, que avó, poderia esperar mais rico fruto do seu ensino?!
Quão profundamente gratas se devem ter sentido esta mãe e esta avó
quando Timóteo iniciou a sua missão de pregar o evangelho! Instruindo
Timóteo nas leis dos hebreus, Lóide e Eunice não lançaram apenas a base
para a conversão de Timóteo; prepararam-no também para o trabalho da
sua vida.
Quando ele, ainda rapaz, deixou Listra para acompanhar Paulo em
substituição do seu primeiro colaborador, Barnabé, tinha pela frente uma
pesada tarefa. Teria de fazer longas viagens que poderiam arruinar a sua
constituição basicamente fraca. Ver-se-ia envolvido em dificuldades
contra as quais a sua natureza sensível e tímida dificilmente poderia
agüentar-se.
Timóteo iria precisar da Palavra de Deus que Lóide e Eunice lhe
tinham comunicado, em todos os dias da sua vida. Teria de se apegar a
ela, viver por ela e usá-la como preparo para a eternidade. Não a poderia
dispensar na vida quotidiana. Constituía o seu conforto, a sua força, a sua
bússola.
Para poder ser um servo de Deus apto para a sua missão e equipado
para toda a boa obra, Timóteo iria orientar-se pela Palavra. Seria
instruído e corrigido por ela, que continuaria a prepará-lo no sentido de
um caráter piedoso. A Palavra que Timóteo aprendera a amar e a
obedecer no lar iria também inspirá-lo e revelar-se um instrumento
necessário para o treinamento de outros nas verdades bíblicas.
O elo de fé que passou de Lóide para Eunice e desta para Timóteo
não parou aí. Através dele, muitas outras pessoas viriam a abraçar a
mesma fé e seriam estimuladas e instruídas na pregação do Evangelho.
Ele permanecia em cooperação com Paulo até à morte do apóstolo, e o
fato de Paulo lhe ter pedido que viesse a Roma para o confortar, nas suas
últimas horas terrenas, mostra a afeição que os unia (2 Tim. 4:9).
Naturalmente, Eunice e Lóide não conheciam os grandes planos
que Deus tinha para Timóteo. Também Mônica não sabia qual o papel
que o seu filho, Agostinho, iria desempenhar na história da igreja. A mãe
de Billy Graham não podia imaginar quantas pessoas se tornariam cristãs
através do ministério do seu filho. Deus tem surpresas maravilhosas para
as pessoas, para as mães e avós que confiam em Deus, para abençoar os
seus queridos.
Quão facilmente as vidas de Lóide e Eunice – duas mulheres sem
importância especial que viviam na Ásia Menor (hoje Turquia) –
poderiam ter permanecido anônimas.
Desde que elas viveram, a Bíblia foi traduzida em centenas de
línguas e distribuída em milhões de exemplares. Até aos nossos dias, os
leitores da Bíblia em todo o mundo continuam a encontrar-se com Lóide
e Eunice, duas mulheres que estavam certas do poder da Palavra de Deus
e da influência que ela tinha sobre a vida humana.

Lóide e Eunice, mulheres que estavam certas do poder da


Palavra de Deus

(2 Timóteo 1:5; 3:14-17; Atos 16:1-3)

Perguntas:
1. De que forma é que Timóteo foi profundamente influenciado
pela mãe e pela avó? Procure analisar a influência delas.
2. Quando é que Timóteo aprendeu pela primeira vez as
Sagradas Escrituras? Como é que ele usou este
conhecimento?
3. De acordo com II Timóteo 3:16-17, como é que a Escritura
prepara a pessoa para o serviço de Deus?
4. Quando Timóteo cresceu, que coisas realizou no serviço de
Deus? (Talvez deseje examinar as passagens no Novo
Testamento e preparar um estudo biográfico de Timóteo).
5. O que é que aprendeu de Lóide e Eunice no que diz respeito
à Palavra de Deus?
6. Escreva o princípio que lhe parece mais importante nesta
história, e depois enumere algumas maneiras pelas quais
pode aplicá-lo à sua vida ou à vida dos que o rodeiam.