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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO

Estética Filosófica II
Docente: Eugénia Vilela
Aluna: Carla Lopes 100712012

Ensaio Filosófico sobre a obra O estúdio de Alberto Giacometti

As esculturas de Giacometti são como as pegas, são o que são, as primeiras,


esculturas, as segundas também podem ser chamadas de putas, ou douradas, se bem que
o último poderá remeter-nos para qualquer tipo de aparência que Giacometti com os
olhos nas mãos apaga e quer apagar. Quando as mulheres estão em pelo, quando elas se
lhe aparecem nuas, Giacometti sabe que, para além de putas, são deusas, - de facto, a
mão do escultor também aparece sempre nua no seu trabalho, embora só o seja
percepcionada com o prolongamento do traço, que na tela desenha um braço mais
acima. Sem aparências na tela, ou em bronze, as coisas ganham a sua singularidade se
houver alguém que repare nela, se não houver elas têm, mas não há a evidência dessa
vida, dessa força que reside nas esculturas, ou nas telas, ou nos desenhos de Giacometti,
se elas mesmas não se evidenciarem simultaneamente, e aqui, pretendo, com este ensaio
invocar Kant, pois a experiência do sublime não poderá nunca ser encontrada em mim,
ou em Giacometti, nem na Natureza, nem nas putas, nem na beata que se evidenciou a
Genet. Poderá, quanto muito, ser encontrada numa relação entre mim e o objecto,
simultaneamente: “O belo da natureza concerne à forma do objecto, que consiste na
limitação; o sublime, contrariamente, pode também ser encontrado num objecto sem
forma, na medida em que seja representada nele uma ilimitação ou por ocasião desta e
pensada além disso na sua totalidade.”1 A obra O Estúdio de Alberto Giacometti
despertou-me um pensamento de beleza, dentro e fora de mim, embora algumas partes
do texto se tivessem evidenciado das outras, e outras, ainda assim, se tivessem
evidenciado delas mesmas, sem ‘outras’, sozinhas evidenciavam-se, sozinhas eram
putas, e nuas eram deusas. Mesmo reduzido a pó, Giacometti sabe que as putas
continuam a ser putas, pois se são aquilo que são, ainda que com os poros tapados, sê-
lo-ão igualmente no mundo dos mortos; e se nos objectos não existem aparências, pelo
menos sobre a janela que se esconde na mão de Giacometti (porque dizer artista não
possui, a meu ver, a mesma força), parecem, embora mortos, estarem mais vivos do que
nunca, pelo movimento solitário do qual, sem tempo, e atrasado, Giacometti tenta
desdenhá-las.

1
Kant, Immanuel, A crítica da Faculdade do Juízo, trad. de António Marques, p.137
FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Estética Filosófica II
Docente: Eugénia Vilela
Aluna: Carla Lopes 100712012
“Não ... não tenho mulher.
Ao mesmo tempo, imita com a mão o gesto de
masturbar-se.
- Não ... mulher não ... Tenho a mão ... só a mão ...
e mais nada, nada, só a toalha ... ou os lençóis ...
Os olhos dele não páram de mexer, brancos, deslavados
e sem expressão.”2

Nesta citação que evidencio, o árabe cego diz que não tem mulher, talvez porque
a mulher não seja só a mulher, o árabe tem a mão, e só a mão, não tem mais nada, só a
toalha ou os lençóis, enquanto os seus olhos, pelos quais deveria ver divindade nas
mulheres, observá-las nuas, estão em reboliço, brancos, deslavados e sem expressão.
Aqui poderia invocar a ideia de morte, mas da morte que só Giacometti, pela mão de
Genet nos faz chegar e entrar (e sair), os olhos estão mortos, mas são o que são, fazem
um movimento contínuo, estão mortos e vivem, e a mão? A mão vê, como em
Giacometti, sem esforço, ao contrário do artista que tenta que os olhos não o confundam
com as aparências. O árabe, certamente não faz escultura, se o fizesse, Genet ter-nos-ia
dito, mas percebe esse mundo dos mortos para quem Giacometti ousa legar as suas
esculturas.

“Coça a cabeça cinzenta, desgrenhada.


Foi Annette quem lhe cortou o cabelo. Arregaça
as calças cinzentas caídas sobre os sapatos. Ainda há
dois segundos ria, mas eis que toca uma estátua:
durante meio minuto estará por inteiro na passagem
que une os dedos à massa de terra. Já não lhe interesso.”3

Giacometti deixa que lhe cortem o cabelo, afinal ele ainda está no mundo dos
vivos, é aparência e é o que é; então Annette, não podendo limpar o pó a nenhuma
escultura, não podendo arrumar o estúdio, corta-lhe o cabelo, torna-o a aparente e deixa
que as madeixas do seu cabelo caiam sobre o chão; talvez um dia essas apanhem um
pouco de pó, talvez se transformem em deusas, nuas e evidenciadas, quem sabe um dia,
não possam habitar uma das suas esculturas, porque o espaço circula, e também a luz…

2
Genet, Jean, O estúdio de Alberto Giacometti, trad. Paulo Costa, p. 59
3
Genet, Jean, O estúdio de Alberto Giacometti, trad. Paulo Costa, p. 23

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