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ANO 12 / NÚMERO 137 R$ 14,90

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DIREITOS HUMANOS NEW ORLEANS PÓS-KATRINA A MORTE DA EMPATIA?
SEM IGUALDADE COMO MATAR ASSEMBLEIAS
NÃO HÁ LIBERDADE UMA CIDADE DE SOM E FÚRIA
POR KUMI NAIDOO POR OLIVIER CYRAN POR MANUELA D’ÁVILA

LE MONDE

diplomatique
BRASIL

FIREHOSING:
MENTIRAS E DESMENTIDOS
2 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO É SAGRADA?

Liberdade
para Julian Assange
POR SERGE HALIMI*

O
rgulhoso como Artaban, sorri- ali lamentar o vigor da oposição do
dente, cercado por cerca de presidente Jacques Chirac à invasão
cinquenta fotógrafos e cinegra- do Iraque.
fistas, Jim Acosta realizou, em O que a “esquerda” perdoa menos
17 de novembro, seu retorno à Casa que qualquer coisa a Assange é a pu-
Branca, com muito alarde. Alguns blicação por seu site de e-mails hac-
dias antes, ele havia perdido sua cre- keados da campanha de Hillary Clin-
dencial de correspondente da Cable ton. Acreditando que esse caso
News Network (CNN), mas a justiça favoreceu os projetos russos e a elei-
norte-americana obrigou o presiden- ção de Trump, ela esquece que o Wi-
te Donald Trump a anular a sanção. kiLeaks primeiro revelou as mano-
“Foi um teste e vencemos”, gabou-se bras da candidata democrata para
Acosta. “Os jornalistas precisam sa- sabotar a campanha de Bernie San-
ber que a liberdade de imprensa é sa- ders durante as primárias de seu par-
grada neste país e que eles são prote- tido. Na época, os meios de comunica-
gidos pela Constituição [para] ção em todo o mundo não hesitavam
investigar o que nossos governantes e em transmitir essas informações, co-
líderes fazem.” Fade in, fade out, mú- mo haviam feito com as anteriores,
sica, happy end... sem que por isso seus diretores edito-
Refugiado há seis anos na embai- riais fossem vistos como espiões es-
xada equatoriana em Londres, Julian trangeiros e ameaçados de prisão.
Assange com certeza não pôde assistir A fúria das autoridades norte-ame-
ao vivo na CNN ao emocionante desfe- A atual detenção de Assange, bem Ilhas Cayman. A ditadura do presi- ricanas contra Assange é encorajada
cho. Sua existência se parece com a de como a ameaça de algumas décadas dente tunisiano Zine al-Abidine ben pela covardia dos jornalistas que o
um prisioneiro. Proibição de sair, sob de prisão em uma penitenciária nor- Ali foi sacudida pela divulgação de abandonam ao seu destino ou mesmo
pena de ser preso pelas autoridades te-americana (em 2010, Trump dese- uma comunicação secreta do Depar- se deleitam com sua desgraça. Assim,
britânicas e depois, sem dúvida, extra- jou que ele fosse executado), deve-se tamento de Estado norte-americano no canal MSNBC, o festejado apresen-
ditado para os Estados Unidos; comu- ao site de informações que ele dirige. que qualificava essa cleptocracia ami- tador Christopher Matthews, ex-caci-
nicações reduzidas e intimidações de O WikiLeaks está na origem das prin- ga de Washington de “regime esclero- que do Partido Democrata, ousou su-
todo tipo, uma vez que, para agradar cipais revelações que incomodaram sado” e de “quase máfia”. Também foi gerir que o serviço secreto dos Estados
Washington, o presidente equatoria- os poderosos deste mundo há cerca de o WikiLeaks que revelou que dois líde- Unidos deveria “agir à maneira is-
no, Lenín Moreno, resolveu endurecer dez anos: imagens dos crimes de guer- res socialistas franceses, François raelense e capturar Assange”...
as condições de vida de seu “hóspede”. ra norte-americanos no Afeganistão e Hollande e Pierre Moscovici, tinham
© Alves

(Ler o artigo de Franklin Ramírez Galle- no Iraque, espionagem industrial dos ido à embaixada dos Estados Unidos *Serge Halimi é diretor do Le Monde
gos na pág. 28) Estados Unidos, contas secretas nas em Paris, em 8 de junho de 2006, para Diplomatique.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 3

EDITORIAL

Guerra de valores
POR SILVIO CACCIA BAVA

N
ão nos iludamos, vivemos ape- que vale é a orientação ideológica de les que pensam e se comportam dife- incluindo também a grande maioria
nas um interregno em um pro- direita, levando para o governo a pola- rentemente deles. dos integrantes do Judiciário e da polí-
cesso que deve se acirrar de- rização política que caracterizou a Como, ao que parece, o projeto po- cia. Assim, os três poderes da Repúbli-
pois de 1º de janeiro, quando campanha eleitoral. lítico do novo governo não trata da ca se alinham e jogam na lata do lixo o
toma posse o novo governo. Ocupados Nessa guerra de valores, as áreas gestão do Estado e tampouco das polí- que há de substantivo na democracia:
com a montagem da equipe ministe- de educação e comunicação são fun- ticas públicas, e seu objetivo declara- o respeito ao outro e à pluralidade do
rial, Bolsonaro, seus generais e os gru- damentais. Bolsonaro propõe a mili- do é destruir a esquerda, criminalizar pensamento, o pacto na defesa de di-
pos evangélicos que o apoiam deram tarização das escolas públicas, a volta os movimentos sociais e combater to- reitos, a busca de uma vida digna para
uma trégua na guerra de valores que da disciplina Moral e Cívica para valo- da forma de pensamento crítico, todos todos. Temos uma democracia formal,
está orientando a estratégia de recru- rizar o civismo, o amor à pátria e a éti- aqueles que forem identificados como que elegeu o presidente, mas nenhum
tamento de sua equipe. ca, as parcerias público-privadas na participantes de qualquer manifesta- direito assegurado. Ao contrário, o go-
Colocando a economia de lado, educação pública e a vigilância per- ção de defesa de direitos e de contesta- verno eleito vai promover a espoliação
porque esta será dirigida por econo- manente dos professores para comba- ção às arbitrariedades que estão por ainda maior das maiorias, aprofundar
mistas ultraliberais provenientes do ter o pensamento crítico. Na área de vir serão vistos como inimigos. a pobreza e a desigualdade, e tentar
mercado financeiro, inspirados por comunicação, a estratégia é continuar A ação política que se delineia, à se- destruir todas as formas de represen-
sua formação na Escola de Chicago e a saturar com fake news as redes so- melhança do macarthismo nos Esta- tação e defesa das maiorias.
orientados a promover em larga escala ciais para atrair a atenção para o que dos Unidos dos anos 1940-1950, é ba- A combinação perversa do pacote
a privatização de estatais para atender não é importante e manter em alta a seada fundamentalmente em delações de maldades anunciado pelos dirigen-
aos interesses especialmente do gran- defesa de uma agenda de valores que não comprovadas, em uma intensa re- tes da economia (reforma da previdên-
de capital internacional e a direcionar reafirma toda sorte de preconceitos e pressão e perseguição políticas, e em cia, corte nas políticas sociais, precari-
os recursos públicos para alavancar os discriminações. métodos de censura e difamação com zação das relações de trabalho etc.),
processos de acumulação, o governo Se esses movimentos já denotam os base em acusações de traição ou sub- com a imposição da agenda de valores
que se constitui tem como projeto po- caminhos que esse novo governo vai versão. A manipulação midiática, os conservadora, condena nosso país à
lítico a defesa de valores conservado- trilhar – muito preocupantes por seu interrogatórios para incriminar os “es- condição de colônia exportadora de
res e de uma moral fundamentalista. caráter autoritário e fundamentalista querdistas” (que substitui o inimigo bens primários e joga o Brasil no obs-
O ministro das Relações Exteriores –, quando essas iniciativas saírem do “comunista”), a intimidação e a tortu- curantismo, reafirmando toda sorte
nega o aquecimento global, o multila- papel e forem postas em prática vai se ra para obtenção de confissões, a cria- de discriminações, naturalizando a
teralismo e a soberania nacional. O instaurar um confronto aberto na so- ção das “listas negras” que marcavam desigualdade, a exclusão das maiorias
ministro da Educação, professor da ciedade entre os defensores desses va- os perseguidos como traidores, tudo e a intolerância à diversidade, e sacrifi-
Escola de Comando e Estado-Maior do lores conservadores e a cultura plura- isso parece voltar do passado. cando nossa capacidade de produzir
Exército, defende a escola sem partido. lista e de respeito à diversidade que se Os militantes dos movimentos so- conhecimentos, formar novas gera-
O ministro da Justiça manipula o Judi- desenvolveu no período democrático ciais, dos sindicatos, das associações ções e oferecer um futuro melhor para
ciário para perseguir a esquerda em (1985-2016). Ainda que as forças poli- de defesa de direitos e das ONGs serão nossos filhos e netos.
nome do combate à corrupção... Os ciais possam desempenhar um papel objeto de vigilância e repressão. Evidentemente não é o fim da his-
critérios de recrutamento não buscam importante na caça aos esquerdistas, A onda conservadora que elegeu tória. Mas o enfrentamento dessa on-
© Claudius

gestores públicos experientes, capazes as maiores ameaças vêm da impunida- Bolsonaro contou com a participação da conservadora vai exigir dos demo-
de formatar e gerir políticas públicas de que grupos de ultradireita venham ativa de bancadas parlamentares que cratas novas formas de fazer política e
em benefício de um bom governo. O a ter ao praticar violências contra aque- comporão uma maioria no Congresso, coragem para defender seus direitos.
4 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

A ARTE DE MENTIR E DESMENTIR

Firehosing: por que fatos não


vão chegar aos bolsonaristas
Polêmicas efêmeras que confundem milhões e falsidades que consolidam crenças são
combustível para o firehosing, uma tática que tem nas redes sociais o terreno perfeito.
Como pará-lo? Segundo um volume crescente de pesquisas da psicologia,1 refutar (repetindo)
mentiras não enfraquece valores e pode até reforçá-los. O que fazer então?
POR RENAN BORGES SIMÃO*

N
o fim de novembro, as visuali- checar fatos e declarações, apenas dar O BRASIL DE BOLSONARO
zações do vídeo “Por que men- interpretações favoráveis ao governo, Para chegarmos ao Brasil atual e
tiras óbvias geram ótima pro- a propaganda sempre tem a “primeira compreendermos como a tática do fi-
paganda”, do site Vox, passaram notícia”. A combinação das primeiras rehosing se aproxima de Bolsonaro,
de 1 milhão. Baseando-se no artigo impressões e a repetição de mensa- devemos considerar como gênese o
“The Russian ‘Firehose of Falsehood’ gens com o mesmo teor ideológico ano de 2013 e entender sua ascensão
Propaganda Model” (2016), do think tendem a gerar mais credibilidade, diz como parte de outro método: a guerra
tank norte-americano Rand Corpora- o estudo. Quando são detalhadas por híbrida. Essa é a análise de Piero Leir-
tion, a peça aponta quatro aspectos evidências secundárias – como acon- ner, antropólogo e especialista em es-
principais da propaganda russa: 1) alto tece em toda boa propaganda –, o sen- tratégia militar. Desde as Jornadas de
volume de conteúdo; 2) produção rápi- so de autoridade é elevado. Até quando Junho, os escândalos de corrupção do
da, contínua e repetitiva; 3) sem com- fatos checados e desbancados alcan- establishment político e suas conclu-
prometimento com a realidade; e 4) çam grande parte das pessoas, a infor- sões na Justiça, o descrédito do Legis-

© Bernardo França
sem consistência entre o que se diz en- mação antes creditada como válida lativo, o impeachment de Dilma Rous-
tre um discurso e outro. Essencial- pode, a exemplo da tendência de viés seff e, finalmente, as eleições, grupos
mente, isso é o firehosing (fluxo de uma de confirmação, “continuar a moldar a políticos se aproveitam desses fatos e
mangueira de incêndio). memória das pessoas e influenciar usam discursos antipetistas e antissis-
Coautor do artigo com a psicóloga suas decisões”, escrevem os autores. O tema com o objetivo de mobilizar tam-
social Miriam Matthews, o cientista processo se intensifica quando senti- bém por meio da confusão. Criou-se,
social Christopher Paul diz no vídeo mentos de “aversão, medo e felicida- segundo Leirner, um ambiente de dis-
que nunca pensou que “alguém pudes- de” são suscitados pelas mensagens sonância cognitiva que seria restabe-
se aplicar o estudo à política norte-a- disfarçadas de notícia. lecido sempre com uma solução de or-
mericana”. A relutância de Paul tem ra- O artigo avisa que, se a inconsis- dem, sendo Bolsonaro o que mais se
zões políticas. O estudo que concebe o tência gerada por informações falsas aproveitou disso. “Esse processo co-
firehosing foi financiado pelo Gabinete vier das ações de propaganda, as au- meçou como guerra híbrida e termi-
do Secretário de Defesa dos Estados diências tendem a fazer vista grossa nou como firehose of falsehood”, diz o
Unidos, e a Rand é, há mais de meio sé- para as contradições. Não apresen- professor da Universidade Federal de tações de repetição” (autônomas ou
culo, ligada à segurança nacional nor- tam, no entanto, conclusões sobre co- São Carlos. “Bolsonaro foi a ponta de não) que ampliam o alcance das men-
te-americana. O think tank afirmou mo a “inconsistência se acumula para um processo que começou lá atrás, sagens. O ecossistema criado é des-
que Paul e Miriam não estavam dispo- uma única figura poderosa”, ou seja, mas que não se tinha certeza de como centralizado e estimula voluntários a
níveis para falar com a reportagem. quando o líder discursa e traz para si a iria terminar.” produzir em rede seus próprios con-
Tendo como recorte o período de responsabilidade de recuar de posi- Para Leirner, o jogo de informações teúdos, interagir com outros grupos e
2008 até a anexação da Crimeia pela ções e mentir claramente. “Isso não e contrainformações3 é indício de que legitimar práticas. Esquema similar
Rússia em 2014, o estudo descreve o pode ser bom para sua credibilidade”, a guerra híbrida4 (também chamada foi descrito em reportagem da revista
funcionamento da máquina de propa- dizem os autores. de não convencional, formulada pelo Época,5 mencionando a possibilidade
ganda russa para indicar como essas Para tentar inibir efeitos da tática, pesquisador russo-americano Andrew de segmentação de disparos em massa
mensagens podem ser assimiladas, Paul e Miriam indicam brevemente Korybko) foi estratégia da qual o presi- para grupos específicos. De forma in-
apoiando-se em conceitos como in- que apenas rebater as mentiras disse- dente eleito se beneficiou. Assim, posi- tensa, aparições em TV e grande im-
fluência e persuasão da psicologia ex- minadas não é uma ação eficaz. Já ções extremistas e desconexas de alia- prensa abastecem o processo.
perimental e social. mostrar outra narrativa, tal como dos de Bolsonaro geraram ganhos Com a institucionalização da figu-
Além dos quatro elementos de dis- contar como funciona a criação de políticos, contanto que estivessem ra de Bolsonaro, algo que já pode ser
seminação de informação já citados, o mentiras dos propagandistas, sim, se- coesos aos valores centrais do univer- visto na formação ministerial, o cená-
artigo aponta que os principais canais ria um método mais efetivo. De ma- so bolsonarista: antielitismo, autorita- rio muda. A suposta estratégia de se-
de propaganda são noticiários de TV e neira simplificada, é o que o linguista rismo e conservadorismo moral. O que mear instabilidade para colher autori-
web, “trolls de internet financiados” norte-americano George Lakoff cha- importa, acrescenta Leirner, “é a qua- dade conferiu seus efeitos colaterais,
para atuar nas redes sociais e discur- ma de verdade-sanduíche:2 primeiro lidade da informação, o que ela mobi- denotando inabilidade política. Os re-
sos falsos de Vladimir Putin. Para os exponha o que é verdade; depois liza, que símbolos e estruturas vão ser cuos de Bolsonaro sobre a redução de
autores, eles têm como objetivo “en- aponte qual é a mentira e diga como utilizados, e como”. No embate assi- status dos ministérios do Meio Am-
treter, confundir e cansar” as pessoas. ela é diferente do fato verdadeiro; de- métrico que acontece nas redes so- biente e do Trabalho são exemplos de
Essas frentes multicanais, quando pois repita a verdade e conte quais são ciais, mais especificamente no What- que há mais fogo amigo ao seu redor
combinadas com a máquina governa- as consequências dessa contradição. sApp, mensagens partem de um do que ele mesmo esperava. Com indí-
mental, criam um monopólio das pri- A ideia é tentar desmentir discursos “núcleo exemplar” (que podem ser cios como esses, afirma Leirner, “tudo
meiras impressões. Por não precisar falsos sem repeti-los. aliados de Bolsonaro) e chegam a “es- de que Bolsonaro não precisa é conti-
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 5

nuar a estratégia [de guerra assimétri- lavras, pode ser válido para muitas cer a confiança do outro, segundo ele, formuladores das redes [de direita],
ca], pois corre o risco de ela própria pessoas o seguinte raciocínio: “Isso deve vir primeiro. Depois, os fatos. mas precisamos disputar o [mesmo]
produzir instabilidade para ele”. pode ser falso, mas é útil para promo- Para explicar um tema espinhoso e público”, analisa. Alexandria Ocasio-
A comunicação direta com sua ba- ver o que eu acredito” – situação essa ao mesmo tempo considerar vivências -Cortez, 28 anos, eleita em novembro
se, todavia, dá sinais de que essa estra- que transcende campos políticos. Em em jogo, outra opção de argumenta- como a parlamentar mais jovem da
tégia vai continuar. Seu primeiro dis- artigo na Folha de S.Paulo (18 nov. ção pode ser a imaginação sociológica, história do Congresso dos Estados
curso como presidente eleito foi uma 2018), as autoras apontam que uma al- conceito cunhado pelo sociólogo C. Unidos, que teve súbita ascensão den-
transmissão ao vivo no Facebook, com ternativa seria propor uma nova forma Wright Mills. “É casar história e bio- tro da esquerda norte-americana, é
alguns veículos de comunicação bar- de argumentar e nela combinar uma grafia. É trazer um contexto e humani- uma inspiração para Mônica por mo-
rados. Seguindo a cartilha de Donald boa dose de crenças e valores comuns. zar as pessoas, saber qual ação política bilizar seus apoiadores mostrando os
Trump – este um espelho midiático e Com base em um modelo proposto pe- elas estão exercendo na vida e, com bastidores de sua vida política no Ins-
almejado aliado político –, o Twitter é la historiadora da Ciência Naomi Ores- base nisso, criar uma conexão”, afirma tagram. A agenda da Bancada Ativista
seu canal oficial de comunicação. Ali kes,7 pode-se argumentar com um Sabrina Fernandes, socióloga e youtu- deve rebater discursos conservadores
ele faz, para quase 2,5 milhões de se- descrente do aquecimento global (a ber no canal Tese Onze. Para ela, ouvir para assegurar direitos, Mônica reco-
guidores, desde anúncios oficiais até exemplo de Trump e do futuro chan- seus interlocutores é compreender nhece, mas pretende “criar pautas que
endossos a canais de YouTube que celer brasileiro) sem depender total- uma realidade particular com impli- vão ao encontro da solução das neces-
exaltam sua política. Como Trump, mente de evidências científicas: “Se cações sociais. “É muito mais produti- sidades reais”. Exemplo: para rechaçar
Bolsonaro posiciona parte da impren- isso [aquecimento global] não estiver vo a gente oferecer as ferramentas cor- o Escola Sem Partido, argumentar
sa tradicional como adversária e apos- ocorrendo, não perderemos nada, pois retas para as pessoas chegarem às com Escola Sem Estrutura. “Não é
ta em meios de comunicação alterna- teremos de todo modo criado um próprias conclusões”, diz a também uma reação, é uma luta concreta para
tivos. No primeiro pronunciamento mundo melhor, com mais cuidado professora substituta e pesquisadora mobilizar as pessoas.”
pós-eleição, Bolsonaro mostrou apre- com o planeta e com a natureza”. da Universidade de Brasília. Para Tatiana (que concorreu a de-
ço por seu público nas redes sociais: Estendendo o debate iniciado no A ativista e comunicadora Debora putada federal do Rio de Janeiro pelo
“Eu só cheguei aqui porque vocês, in- artigo, Tatiana e Fernanda afirmam à Baldin, amiga de Sabrina, reafirma Psol) e Fernanda, o próximo passo seria
ternautas, povo brasileiro, acredita- reportagem que é necessário para a es- essa aposta em equipar as pessoas construir consensos por meio de dispo-
ram em mim”. querda criar “novos parentescos entre com métodos de avaliação de sua pró- sitivos coletivos, os quais “talvez desa-
NOVOS CAMINHOS PARA NOVAS VERDADES nossos problemas”. Temas em disputa pria realidade. As duas enaltecem a fiem muito mais as crenças tradicionais
Nas redes sociais, notícias distorci- seriam, para Tatiana, a renda básica escuta ativa como ferramenta de da esquerda do que as dos movimentos
das (muitas vezes falsas) correm fácil e universal (“como forma de reconhecer transformação política,8 pois mobili- identitários”. “O problema é a falta de
mais rápido que fatos verificáveis por os tipos de trabalho que já realizamos zaram grupos de panfletagem “dife- estratégia geral da esquerda para lidar
poderem apelar a emoções. No What- gratuitamente, seja nas redes sociais rentes” em São Paulo e Brasília duran- com pessoas com quem ela perdeu o
sApp, rede que segundo reportagem da ou nas atividades domésticas”) e os te o segundo turno das eleições. O contato, para fazer trabalho de base,
Folha de S.Paulo (18 out. 2018) foi usada compromissos com eficiência e gestão diferencial das conversas era não falar para dialogar com os novos trabalha-
por empresas para disparos de cente- de instituições públicas (“não são exi- de política partidária, mas de progra- dores e o precariado”, analisam.
nas de milhões de mensagens anti-PT gências de direita, são de esquerda”). mas de governo com base em angús- Assemelhando-se ao que a antro-
durante as eleições, a comunicação de Outra pauta a ser trabalhada seria a tias pessoais, seja na rodoviária de póloga Rosana Pinheiro-Machado de-
127 milhões de brasileiros em redes educação pública de qualidade. “Será Brasília, seja na porta de uma igreja fende para uma reinvenção da esquer-
privadas e criptografadas se transfor- que uma parte considerável da popu- evangélica da periferia de São Paulo. da (“mais Mano Brown; menos
mou, como descreveu a revista Wired, lação brasileira quer mesmo colocar “O presencial é muito mais efetivo do manifesto de intelectuais e mais con-
em um “boca a boca em larga escala”.6 toda essa categoria nesse clima de des- que o virtual. As pessoas têm muita versa olho no olho, ao bom e velho es-
Segundo pesquisa Datafolha de 26 de confiança?”, afirma Fernanda, referin- necessidade de diálogo”, afirma De- tilo de banquinha de bolo ‘vamos con-
outubro, metade do eleitorado que usa do-se ao projeto Escola Sem Partido. bora. Mesmo admitindo que o cami- versar?’”), a saída parece ser mudar a
o WhatsApp (66%) diz acreditar nas Sobretudo, para ambas, estratégias nho analógico é “mais lento” que o di- chave do diálogo.9 Ou, como Mano
notícias que recebe pelo aplicativo. de comunicação, das instituições pú- gital, ela acredita que disponibilizar Brown intima: “Deixou de entender o
Mais de 80% dos eleitores de Bolso- blicas às mídias, devem se tornar mais um “modelo replicável de método e povão, já era. [...] Se não sabe, volta pra
naro acreditaram na informação falsa propositivas e menos reativas, aten- conteúdo” de argumentação pode for- base e vai procurar saber”.10
de que Fernando Haddad (PT) distri- tando para os novos papéis de “valo- mar “multiplicadores” para disputar
buiu um “kit gay” (apelido pejorativo res, emoções e processos cognitivos” nas redes sociais a veracidade dos fa- *Renan Borges Simão é jornalista.
do material didático Escola sem homo- em um contexto de “produção e aferi- tos – pois nesses círculos haverá mais
fobia) para crianças em escolas quan- ção da verdade”. confiança entre os envolvidos. “Eles
do era ministro da Educação, de acor- vão ter muito mais credibilidade para 1 Elizabeth Kolbert, “Why facts don’t change our
do com levantamento IDEIA Big Data/ ESCUTA E “PESSOALIZAÇÃO DA POLÍTICA” fazer isso do que eu”, afirma Sabrina. minds” [Por que fatos não mudam nossa mentali-
dade], New Yorker, 27 fev. 2017.
Avaaz. Mesmo após o pleito, o presi- Evan Davis, jornalista da BBC e au- Em São Paulo, oficinas debatem desde 2 Sean Illing, “How the media should respond to
dente eleito voltou a usar o discurso tor do livro Post-Truth: Why We Have inteligência emocional até reforma da Trump’s lies” [Como a mídia deve reagir às menti-
falso em entrevista ao Jornal Nacional. Reached Peak Bullshit and What We Can previdência, passando pela “doutrina ras de Trump], Vox, 18 nov. 2018.
3 Piero Leirner, “Uma contribuição para o anti-Bolso-
O porquê da enésima repetição de Do About It [Pós-verdade: por que atin- do choque”, da jornalista Naomi Klein, narismo”, Sul 21, 9 out. 2018.
uma mentira de 2011 oferece uma pis- gimos um pico de besteiras e o que po- no centro de cultura e acolhimento de 4 Guilherme Seto, “Comunicação de Bolsonaro usa
ta sobre como agir diante de discursos demos fazer a respeito] (Little, Brown LGBTs Casa1. Ações nas ruas paulista- tática militar de ponta, diz especialista”, Folha de
S.Paulo, 14 out. 2018.
como esse, que buscam a polarização Book Group, 2017), reitera que apenas nas voltam em dezembro. 5 Gabriel Ferreira e João Pedro Soares, “Comunica-
para se promover. os fatos não afetam os apoiadores de lí- No mesmo tom, a futura deputada ção de Bolsonaro usa tática militar de ponta, diz
Como sugerido pelas professoras deres populistas (ele define Bolsonaro estadual do Psol por São Paulo Mônica especialista”, Época, 24 out. 2018.
6 Antonio García Martínez, “Why WhatsApp be-
da UFRJ Tatiana Roque, historiadora como tal). “Ao corrigir sempre os fatos, Seixas, eleita junto com outros oito mi- came a hotbed for rumors and lies in Brazil” [Por
da Ciência e da Filosofia, e Fernanda você mostra que o líder populista está litantes do mandato coletivo da Ban- que o WhatsApp se tornou um viveiro de rumores
Bruno, pesquisadora de Tecnologias errado, mas fica do lado do velho esta- cada Ativista, encampa a estratégia da e mentiras no Brasil], Wired, 18 abr. 2018.
7 Ver Naomi Oreskes, “Por que devemos confiar nos
da Comunicação, discursos como o do blishment”, diz o britânico ao Le Monde “pessoalização da política” para criar cientistas”, TEDSalon NY2014, maio 2014.
“kit gay”, por exemplo, não se alastram Diplomatique Brasil. Ele recomenda “vínculos íntimos” com eleitores. 8 Benoit Denizet-Lewis, “How Do You Change Vo-
apenas por desinformação, volume de que, na argumentação, mostrar-se co- “Nós, da Bancada Ativista, somos vul- ters’ Minds? Have a Conversation” [Como mudar a
mentalidade dos eleitores? Converse], The New
mensagens (firehosing) ou falta de mo confiável e passível de erro é o co- neráveis e periféricos de diversas for- York Times Magazine, 7 abr. 2016.
checagem factual. Conteúdos dessa meço para o “outro lado” acreditar em mas. Nossa vida é o centro do debate 9 Rosana Pinheiro-Machado, “O que as forças pro-
natureza podem se espalhar por car- você. “Se diz que seu lado está errado, da política que a gente quer criar”, afir- gressistas podem fazer agora”, The Intercept Bra-
sil, 29 out. 2018.
regarem crenças e valores prévios ali- você ganha muito mais confiança de ma a jornalista de formação. “Sabe- 10 Ver: <www.youtube.com/watch?v=dO4TSYTK-
nhados a certos grupos. Em outras pa- quem apoia o populista”, afirma. Mere- mos que não vamos disputar com os 8No>.
6 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

MÍDIA E BOLSONARO

O solo fértil do ódio

© Bernardo França
O profundo ódio e desigualdade entre as classes,
o desprezo pela coletividade, a vigorosa arrogância
presente em nossos espaços de convivência, a falta
de perspectiva que leva milhões a credos religiosos
baseados na extorsão, a absoluta descrença com a
política, todos esses fenômenos não foram produzidos
apenas nesta eleição ou mesmo nos últimos anos
POR LEONARDO FERNANDES NASCIMENTO*

E
m 16 de fevereiro de 2017, recebi sarmos o processo histórico de apare- as matérias aumentavam sua frequên- à nossa história e à ausência do cultivo
um convite da Revista Plural, da cimento não tanto da persona pública cia em momentos de instabilidade po- de uma memória social coletiva – por
pós-graduação em Sociologia da Jair Bolsonaro, e sim das ideias políti- lítica. Todo e qualquer momento de meio de marcos, monumentos, mu-
Universidade de São Paulo, para cas que se concretizam em suas decla- crise se convertia em uma oportuni- seus – que convidem mulheres e ho-
escrever um artigo para um número rações. Com isso, resignei-me a escre- dade para o deputado fazer declara- mens deste país a refletir sobre aquilo
temático sobre a nova direita do Bra- ver o artigo, partindo de uma pergunta ções no plenário ou aos jornalistas, as que nos constitui como brasileiros. A
sil. A ideia, me disse um dos editores, simples: que pautas foram defendidas quais resultavam em abertura de pro- surpresa e a perplexidade de como
era que eu contribuísse para o dossiê pelo deputado na mídia impressa ao cessos. Por conseguinte, eram publi- pessoas de nosso convívio e de “co-
utilizando algumas das técnicas digi- longo de sua carreira política? cadas notícias sobre ele ao longo de se- nhecida inteligência e ponderação”
tais de extração e análise de dados Por meio de métodos digitais, obti- manas ou meses. Processo semelhante aderiram a notícias claramente absur-
qualitativos – especialmente de maté- vemos todas as matérias jornalísticas ocorreu em relação a notícias contra das como “nazismo de esquerda”, “kit
rias jornalísticas – que eu já vinha (de 1997 a 2017) dos jornais O Globo, os direitos humanos, sobretudo no gay” e tantas outras que eu não gosta-
pesquisando. Rapidamente percebi Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O que tange às políticas de ação afirma- ria de reproduzir aqui estão conecta-
que havia entrado em uma enrascada. Estado de S. Paulo que mencionavam o tiva e de promoção de direitos LGBT. das a processos sociais de longo prazo
Em minha tortuosa formação acadê- então deputado Jair Bolsonaro. Deci- Quanto maior foi o avanço dessas pau- na sociedade brasileira. O profundo
mica, eu nunca havia dedicado muita dimos restringir a análise aos jornais tas, mais notícias surgiram com as re- ódio e desigualdade entre as classes, o
atenção às disciplinas de ciência polí- de São Paulo, pois, se incluíssemos os percussões das declarações contrárias desprezo pela coletividade e pela res
tica. Como professor de Metodologia, cariocas, o volume de dados seria mui- a essa mesma agenda. publica, a vigorosa arrogância cotidia-
eu conhecia um arsenal de técnicas, to grande para o tempo disponível. Ao O último aspecto do artigo foi ten- namente presente em nossos espaços
métodos e softwares. No entanto, fal- longo dos vinte anos de notícias tenta- tar desviar o foco da pessoa do deputa- de convivência, a falta de perspectiva
tavam-me tanto a erudição das teorias mos destacar alguns aspectos. do em relação aos processos sociais que leva milhões de brasileiros a cre-
políticas como um percurso de análi- O primeiro deles dizia respeito às que deram – e dão – suporte histórico dos religiosos baseados na extorsão
se dos processos eleitorais brasileiros. matérias que descreviam aconteci- para as pautas políticas noticiadas. O econômica, a absoluta descrença com
Diante desse cenário intelectualmen- mentos inesperados, impactantes ou objetivo era acentuar que a violência a política, todos esses fenômenos não
te desolador pensei em reescrever pa- estapafúrdios associados ao deputa- em todas as suas formas, o desprezo e foram produzidos apenas nesta elei-
ra os editores declinando do convite. do. Desde as primeiras reportagens – indiferença em relação aos direitos ção ou mesmo nos últimos cinco, dez,
Deixei passar alguns dias até que, que tratavam da implantação de uma humanos e, sobretudo, a profunda di- vinte ou trinta anos. Eles são o resulta-
em 13 de março de 2017, li uma entre- bomba – até os dias atuais é possível ficuldade de acertarmos as contas do de um lento, vigoroso e repetitivo
vista muito marcante do então depu- encontrar uma sucessão de atitudes com nosso passado de escravidão e processo histórico.
tado federal Jair Bolsonaro na Folha de “explosivas”, declarações insubordi- com as torturas e sevícias perpetradas Sendo assim, o elo curioso e per-
S.Paulo intitulada “Não é a imprensa nadas e/ou ofensas abertas a minis- pelo regime militar são aspectos que verso entre determinadas agendas po-
ou o Supremo que vai falar o que é li- tros, colegas de parlamento e presi- nos constituem como nação brasilei- líticas e declarações polêmicas e a visi-
mite pra mim”. Fiz uma rápida busca dentes da República. Tais atos sempre ra. Nós tentamos sair, desse modo, da bilidade midiática do deputado não é
na web e vi que ele tinha um histórico resultaram em uma visibilidade mi- chave interpretativa parcial do proble- um fenômeno que pode ser devida-
de vitórias eleitorais sempre no estado diática do deputado que, como sugeri- ma de um indivíduo em direção à mente compreendido a curto prazo. O
Rio de Janeiro. Naquela época, eu já mos no artigo, poderia estar associada compreensão das complexas relações historiador Roger Chartier afirmou
havia morado quatro anos e meio na a suas repetidas vitórias eleitorais. sociais que produzem aquele mesmo certa vez que “os acontecimentos são
capital daquele estado, tempo sufi- O segundo aspecto diz respeito ao indivíduo. E também para as multi- explosivos, ruidosos. Eles fazem tanta
ciente para conhecer e interagir com tipo das pautas que foram abertamente dões de leitores e eleitores que vota- fumaça que enchem a consciência dos
determinados setores da sociedade defendidas e à frequência histórica com ram nele todos esses anos. Na lingua- contemporâneos”. Ele queria alertar
carioca que tinham, de fato, simpatia e que foram aparecendo nos jornais. Ape- gem das ciências sociais chamamos que analisar as coisas “na medida em
aderência pelas ideias que o deputado sar de a defesa dos direitos dos militares isso de “sociologizar” o debate. que elas acontecem” geralmente im-
expressava na entrevista. ter sido o pontapé inicial da carreira po- As famigeradas fake news, o exérci- plica perder a longa cadeia de eventos
Pouco tempo depois, após ver um lítica do deputado, três temas foram to de bots do Twitter, o meticulosa- de que elas fariam parte. Ou seja, sere-
vídeo compartilhado de uma das che- muito mais frequentes: o uso da violên- mente cultivado antipetismo – além, mos capazes de adquirir uma com-
gadas do deputado aos gritos de “mi- cia como modo de resolução de confli- obviamente, do apoio de corporações preensão mais adequada desta eleição
to”, eu me perguntei (obviamente que tos; a defesa do golpe militar de 1964 e/ nacionais e internacionais –, se toma- na medida em que fizermos o esforço
não sem um claro viés): será que o Bra- ou de uma intervenção militar como dos individualmente, talvez não sejam de enxergá-la em um longo processo,
sil seria capaz de elegê-lo como presi- saída para os problemas do país; e, por fatores suficientes para explicar o re- sobre o qual, eu acredito, precisamos
dente? Será que aquela ruidosa multi- fim, matérias que continham críticas e/ sultado da eleição do deputado Jair urgentemente refletir.
dão sabe quais bandeiras políticas ela ou ataques a toda e qualquer política re- Bolsonaro. Digamos que cada uma
está, por tabela, aclamando? Se a vitó- lacionadas aos direitos humanos. dessas “sementes” precisava de um *Leonardo Fernandes Nascimento é so-
ria chegasse a se concretizar (como, de Percebemos que, em relação à de- “solo fértil” para poder florescer. Essa ciólogo e professor da Universidade Federal
fato, aconteceu), seria preciso anali- fesa do retorno dos militares ao poder, fertilidade estaria diretamente ligada da Bahia.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 7

COMO RESISTIR AO FIREHOSING

Pequeno manual de conduta


e resistência ao controle
do discurso e da libido
Ao perceber que o noticiário sobre o novo governo te faz espumar e compartilhar

© Laura Erber
coisas o dia todo, pense em sair um pouco das redes sociais. Vá ver um filme, ler um
livro, ouvir a música que você ama ou um disco novo. Consuma e produza arte, que é
uma maneira e tanto de elaborar angústias e mobilizar forças, de forma crítica, inclusive
POR MARCOS DONIZETTI DE ALMEIDA*

V
ivemos uma crise política e so- misso com fatos ou lógica, com fre- mo algum gozo, uma satisfação secre- um pouco das redes sociais. Vá ver um
cial, uma crise que é também e quentes idas e vindas, com avanços ta e mesmo inconsciente, na captura filme, ler um livro, ouvir a música que
principalmente dos afetos e das aparentes e desistências. O objetivo também da indignação do meu grupo, você ama ou um disco novo. Consuma
relações. Há um sofrer indivi- aí é o controle da pauta. É uma ma- garantida pelo algoritmo no caso das e produza arte, que é uma maneira e
dualizado, vivido de maneira ímpar neira de controlar não só a imprensa, redes sociais. Há uma sensação de tanto de elaborar angústias e mobili-
pelos sujeitos e presente em seus rela- e essa tem sido a estratégia de Trump pertencimento mesmo nos afetos ne- zar forças, de forma crítica, inclusive.
tos de medo, frustração e ameaças desde o início de seu mandato, como gativos vivenciados coletivamente. A arte ajuda a seguir e a mostrar que a
constantes. E há um sofrer generali- também os temas das conversas nas Grosso modo, dado que libido é um re- vida continua lá fora. Convide alguém,
zado, marcado pelo enfraquecimento ruas, bares e condomínios. O uso das curso finito que apenas muda de um porque estar junto e compartilhar
dos laços, pela desesperança e pelo postagens em massa impulsionadas ponto de referência a outro, o que “gas- amor é uma forma de proteger os seus
ódio sempre presente, antes adormeci- no WhatsApp de maneira suposta- tei” em meu gozo catártico indignado e de alimentar esperanças, conseguir
do e hoje orgulhosamente sustentado e mente ilegal é o dado novo e até o mo- falta em outras atividades. É uma es- força, redirecionar a libido. É hora de
atuado. É um ódio performático, que se mento um grande diferencial do fi- tratégia de controle dos corpos co- usar o potencial mobilizador e de co-
pretende manifesto em defesa de uma rehosing à brasileira. Não sei por mum, clássica, potencializada pelas municação das redes em nosso favor:
velha teia de privilégios e ao mesmo quanto tempo isso funcionará, mas é redes sociais. Um exemplo é a hiperse- criando e fortalecendo laços, contatos
tempo contra um outro que foi eleito o assim, controlando o discurso e con- xualização das relações e do ambiente, que sem elas não seriam possíveis, ar-
bode expiatório da vez, a ser combati- fundindo a todos, que as medidas im- via mídia e publicidade, por exemplo, ticulando movimentos, coletivos, gru-
do e eliminado pois imaginariamente populares, essas sim calculadas e que resulta em sujeitos com menos li- pos de apoio mútuo etc. Que nossa
culpado pelos males da nação e inimi- planejadas, do segundo nível serão bido investida nos encontros sexuais. ação não fique restrita ao virtual. A
go de uma pátria que só existe como postas em prática sem maior resis- O fato é que a estratégia é gerar indig- melhor resposta a quem quer nos cap-
fantasia. Nos consultórios, no convívio tência. A declaração absurda toma de nação para controlar a pauta e tam- turar tanto pelo medo quanto pela in-
pessoal e nas redes sociais são palpá- assalto as redes sociais enquanto bém garantir a paralisação dos sujei- dignação é seguir vivendo, sem se es-
veis a ansiedade, o cansaço, a sensação uma emenda constitucional é votada, tos, que ficam meio que petrificados, quecer da empatia para com os que
paralisante de impotência e a angús- por exemplo. O projeto da “escola sem forças para resistir. O resultado é estão sofrendo, mas investindo naqui-
tia, o desamparo. sem partido”, cuja votação pode o sofrimento psíquico potencializado lo que podemos efetivamente fazer
A angústia, porém, pode ser com- acontecer a qualquer momento, e as e amplificado, com mais depressão, para ajudar; estudando, ouvindo e len-
bustível da ação, e cabe o questiona- mudanças no texto da Lei Antiterro- desamparo e sentimentos de falta de do muito para aprender formas de aju-
mento a respeito do que pode ser feito rismo são estratégias de controle do sentido. De quebra, a indignação e o dar mais. É preciso observar os movi-
para lidar com esse estado de coisas discurso também, óbvio, mas talvez medo gerado na oposição alimentam mentos “macro” do regime, saber onde
tentando permanecer minimamente eles nem esperem tanto essas aprova- parte da base apoiadora de Bolsonaro. eles estão efetivamente investindo. Is-
saudável. O resultado desta inquieta- ções. Mantê-los em pauta é ótimo pa- Esses jovens fazendo fotos pretensa- so estará sempre nas entrelinhas das
ção minha é o que chamo de peque- ra garantir a atenção e a tensão da mente ameaçadoras com armas na declarações e do que aparece no noti-
no manual de conduta e resistência a oposição e da imprensa. mão que vimos após a eleição estão ciário. Há medo e indignação, claro
essa estratégia de controle do discur- Além do controle do discurso e do implorando pelo medo que vai ali- que há, mas, se nos deixamos capturar
so e da libido tão facilmente identifi- diversionismo das pautas, há a atua- mentar uma fantasia fálica muito pri- por essa dinâmica, fazemos o jogo de-
cável nas ações de quem investe nes- ção sobre a libido, o ânimo daqueles mitiva de poder neles. Eles se alimen- les. Então, enquanto investimos em
te cenário de crise, insegurança e que são oposição. É um jogo de mani- tam da indignação e do assombro que formas de ajudar quem está precisan-
confronto generalizados. Não raro pulação da indignação também. esperam causar no outro, e não ofere- do resistir, precisamos nos cuidar e
vemos declarações de pessoas próxi- Acontece que a indignação é em al- cer o que pedem é confrontá-los com não sucumbir à ansiedade e à confu-
mas ao presidente eleito falando em gum grau catártica. Para nosso “apa- um dado de realidade. são propositada dos discursos. Não
“guerra cultural”, e não surpreende relho psíquico”, a indignação anteci- Mas vamos ao manual propria- podemos esquecer que é preciso mais
que a gestão da comunicação do no- pada com algo tem quase o mesmo mente dito: ninguém está dizendo que do que nunca estar com as pessoas.
vo governo, desde a campanha, te- efeito de vivenciar de fato esse algo ou não podemos mais demonstrar indig- Não é sem motivo que regimes totali-
nha elementos de estratégia militar, de agir contra ele. Quando eu compar- nação e medo ou se revoltar com o ab- tários em algum momento proíbam
de “guerra híbrida”, o assim chamado tilho uma fala do presidente dizendo surdo. É necessário, porém, sermos encontros e reuniões. O contato e a in-
firehosing. A atuação se dá em duas “olha o absurdo que ele está falando”, “seletivos” com nossa indignação. Ao teração são revolucionários.
frentes: num primeiro nível, declara- minha indignação implica direciona- perceber que o noticiário sobre o novo
ções cada vez mais estapafúrdias e mento de energia para esse fato, um governo te faz espumar e comparti- *Marcos Donizetti de Almeida é psicana-
revoltantes, sem nenhum compro- consumo de libido, e consigo até mes- lhar coisas o dia todo, pense em sair lista. Twitter: @marcdonizetti.
8 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

OS DIREITOS HUMANOS, UM BLOCO INDIVISÍVEL

Sem igualdade não há liberdade


Ao adotarem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro de 1948, 58 países entraram, pela primeira
vez, em acordo sobre os princípios que permitem a cada um viver em liberdade, igualdade e dignidade. Muito progresso se fez
desde então, mas a explosão das desigualdades ameaça tanto as liberdades políticas como os direitos econômicos e sociais
POR KUMI NAIDOO*

L
er e reler a Declaração Universal sião histórica para fazer um balanço hostil aos direitos fundamentais, ilus- manos como um conjunto indivisível
dos Direitos Humanos, setenta e tentar concretizar os direitos hu- tra muito bem os desafios que temos de direitos intrinsecamente associa-
anos após sua adoção pelas Na- manos para o maior número. pela frente. Se conseguir pôr em práti- dos e aplicáveis a todos. A Declaração
ções Unidas em Paris, é sempre O artigo 2 da Declaração Universal ca as promessas de uma campanha Universal não separava os direitos cí-
um exercício útil, pois o texto propõe, reza que os direitos por ela proclama- desumanizadora, Bolsonaro, chegan- vicos dos direitos culturais, econômi-
ainda hoje, a visão mais progressista dos pertencem a cada um de nós, seja- do ao poder, ameaçará as populações cos, políticos e sociais. Não distinguia
daquilo que nosso mundo poderia mos ricos ou pobres, não importando indígenas, as comunidades rurais tra- a necessidade de concretizar o direito
ser. No momento de comemorar seu nosso sexo ou a cor de nossa pele, o dicionais – chamadas “quilombos” –, à alimentação da exigência de garantir
aniversário, seria lógico ressaltar os país onde vivemos, a língua que fala- as lésbicas, os gays, os bissexuais, os a liberdade de expressão. Já reconhe-
inegáveis progressos realizados em mos, aquilo que pensamos e aquilo transgêneros e intersexuais (LGBTI), a cia o que hoje admitimos naturalmen-
conjunto nos últimos anos a fim de em que acreditamos. Longe de se tra- juventude negra, as mulheres, os te: as duas são estreitamente ligadas.
transformar essa visão em realidade. duzir em fatos, esse universalismo, militantes e as organizações da so- No curso das décadas que se segui-
Mas a honestidade nos obriga a dizer que subentende todos os direitos da ciedade civil. ram à adoção do documento, os Esta-
que a intolerância aumenta e que as pessoa humana, sofre hoje ataques É crucial nos perguntarmos por dos seccionaram os dois tipos de direi-
desigualdades extremas se dissemi- violentos. A Anistia Internacional, à que estamos exatamente na situação to, instaurando o desequilíbrio em sua
nam, enquanto os Estados parecem semelhança de outras organizações, que a Declaração pretendia evitar – percepção e proteção.1 Mas as organi-
incapazes de tomar coletivamente as não cessa de sublinhar que os discur- uma situação na qual os direitos hu- zações internacionais de defesa dos di-
medidas necessárias para enfrentar sos promotores da estigmatização, do manos são atacados e repelidos por- reitos humanos, como a Anistia Inter-
as ameaças globais. Encontramo-nos ódio e do medo se desenvolveram de que protegeriam alguns, e não todos. nacional, devem também assumir sua
exatamente na situação que os paí- maneira inédita no mundo a partir Se as múltiplas razões que condu- parte de culpa nessa distorção. Nossa
ses signatários da Declaração pro- dos anos 1930. ziram a esse impasse de fato são com- entidade é conhecida sobretudo pela
© Cau Gomez

meteram evitar. Por isso, não nos A recente vitória de Jair Bolsonaro plexas, uma coisa parece certa: o que defesa da liberdade de consciência e
contentemos com uma simples co- na eleição presidencial brasileira, ape- está em causa é, em parte, nossa inca- por seu apoio aos prisioneiros políti-
memoração e aproveitemos a oca- sar de um programa francamente pacidade de considerar os direitos hu- cos, isto é, às pessoas presas em razão
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 9

do que são e daquilo em que acredi- isso, do contrário não poderei com- mo, a indiferença do presidente fran- didas de emergência. Como movimen-
tam. Lutamos também contra a tortu- prar os medicamentos”.2 A maneira cês e, no mínimo, uma violenta repres- to de defesa dos direitos humanos,
ra, pela abolição da pena de morte e em como os governos reagiram aos mo- são policial. precisamos não apenas salvaguardar,
favor da liberdade de expressão. Só co- vimentos antiausteridade é outra Esse esquema está por toda parte como sempre fizemos, a liberdade de
meçamos a estudar e a defender ativa- prova do caráter indissociável dos di- no mundo. Impõe-se que os governos expressão e de manifestação, mas
mente os direitos econômicos, sociais reitos políticos, econômicos, sociais e se reconheçam incapazes de fazer res- também estabelecer um vínculo com
e culturais nos anos 2000. Desde então, culturais. No Chade, as medidas restri- peitar todos os direitos, de todos os ti- as decisões econômicas e financeiras
promovemos campanhas conjuntas tivas adotadas pelas autoridades mer- pos. Para esse fim, não basta reclamar tomadas por nossos dirigentes. Temos
contra as violações do direito à mora- gulharam ainda mais a população na a liberdade de expressão e de manifes- de trabalhar com organizações seme-
dia decente, à saúde e à educação. Sa- pobreza. Barraram o acesso aos cuida- tação; devemos examinar igualmente lhantes à nossa para exigir, dos res-
bemos que ainda há muito a fazer. dos de saúde elementares e colocaram os motivos da contestação. Tomemos o ponsáveis políticos, que prestem con-
A crise econômica mundial, cujas a educação fora do alcance da maioria. exemplo de Jamal Khashoggi, o jorna- tas da utilização do dinheiro público
consequências se fazem sentir em pro- Muitos chadianos se manifestaram e lista saudita agora conhecido no mun- no combate à corrupção, às transa-
fundidade, ilustra perfeitamente a ur- fizeram greves. Em vez de ouvir suas do inteiro por ter sido brutalmente as- ções ilegais de capitais e às falhas na
gência de aceitar esses desafios do reivindicações, o governo decidiu calar sassinado, em outubro último, no fiscalização internacional. Devemos
ponto de vista dos direitos humanos. os contestadores. Optou pela repressão consulado da Arábia Saudita em Is- nos empenhar na busca de soluções
Os acontecimentos em diversos países brutal, prendendo os militantes e aten- tambul. Como inúmeros defensores para os problemas estruturais de nos-
europeus puseram a nu a fragilidade, tando flagrantemente contra sua liber- dos direitos humanos em seu país, ele sas sociedades.
talvez mesmo a inexistência prática, dade de reunião. estava na mira de Riad por ter ousado Esse é um projeto de grande enver-
de uma proteção social de base. Pior A crise mundial pode parecer dis- exercer sua liberdade de expressão. gadura, que só se concretizará se
ainda: nos países mais afetados, as le- tante, mas ainda observamos suas ra- Em um último artigo, publicado no unirmos nossas forças para a criação
gislações econômicas e sociais conti- mificações sociais e econômicas. As Washington Post, escreveu que seus de coalizões com nossos parceiros de
nuam na maioria dos casos insuficien- desigualdades, a corrupção, o desem- compatriotas não podem tratar aber- outros movimentos: militantes de di-
tes. Isso significa que os cidadãos não prego e a estagnação econômica, que tamente das questões relativas à vida reitos humanos, advogados, sindica-
podem fazer valer seus direitos na jus- castigam as populações, criam terre- cotidiana. “Padecemos de pobreza, listas, representantes de movimentos
tiça, mesmo quando estes são notoria- no propício à emergência de dirigentes incúria política e má educação”, disse sociais, economistas e líderes religio-
mente violados. prontos a semear a divisão e o ódio, ele. “A criação de um fórum interna- sos. Com a ajuda de nossos aliados em
Em vários países, os governos pre- com as consequências explosivas que cional, independente dos governos todas as regiões do mundo, seremos
feriram responder à crise econômica todos conhecem. nacionalistas que semeiam o ódio, os porta-vozes daqueles que precisam
com medidas de austeridade de ele- O presidente francês Emmanuel permitiria aos cidadãos comuns do ser ouvidos. Somente a solidariedade
vado custo humano, entravando o Macron se arvora em paladino da luta mundo árabe encontrar soluções para nos permitirá edificar um mundo sem
acesso aos bens de primeira necessi- contra esses discursos, que ameaçam os problemas estruturais de sua socie- desigualdades e injustiças, um mun-
dade, à saúde, à moradia e à alimen- enraizar-se. “A Europa pende quase dade.”3 Khashoggi havia compreendi- do à altura dos compromissos assu-
tação. A Espanha fornece um bom em toda parte para os extremos e, de do perfeitamente por que os direitos midos na Declaração Universal dos
exemplo: após a crise econômica, o novo, cede ao nacionalismo”, declarou humanos formam um todo. A liberda- Direitos Humanos.
governo reduziu as despesas públi- ele pela televisão em 16 de outubro de de de expressão é essencial por nos
cas, inclusive na área da saúde. Os 2018. “Precisamos, nestes tempos con- permitir reivindicar os outros direi- *Kumi Naidoo é secretário-geral da Anistia
tratamentos de qualidade estão ago- turbados, de todas as energias da na- tos; mas não basta. Por isso, o povo Internacional.
ra inacessíveis e mais caros, em de- ção [...]. Confio em vocês, confio em egípcio entoava “Pão, liberdade, justi-
trimento sobretudo dos pobres, mas nós.” Contudo, o povo francês está in- ça social!” durante a Primavera Árabe
também das pessoas afetadas por quieto com as políticas de Macron nas de 2011. O que nem sempre consegui- 1 Ver Jean Bricmont, “Une gauche endormie par
doenças crônicas e deficiências físi- áreas de direito trabalhista, aposenta- mos entender, os manifestantes da l’hypocrisie impériale” [Uma esquerda adormecida
pela hipocrisia imperial], Le Monde Diplomatique,
cas ou mentais. Um homem interro- doria e acesso à universidade. A Anis- Praça Tahrir, no Cairo, já entendiam ago. 2006.
gado sobre esse assunto declarou que tia Internacional pôs em evidência dolorosamente há sete anos: em ma- 2 “Wrong prescription: the impact of austerity mea-
deverá agora escolher entre comida e também as restrições impostas ao di- téria de direitos humanos, é tudo ou sures on the right to health in Spain” [Receita erra-
da: o impacto das medidas de austeridade no direi-
medicamentos: “Sofro muito e preci- reito de manifestação na França, sob a nada. Ou exercemos todos ou não to à saúde na Espanha], Anistia Internacional,
so tomar meus remédios. Ou me cui- alegação de estado de emergência. Em exercemos nenhum. Londres, 24 abr. 2018.
do ou me mato [de tal forma a dor é 2018, as mobilizações em favor de leis Se quisermos que, verdadeiramen- 3 Jamal Khashoggi, “What the Arab world needs
most is free expression” [É da livre expressão que o
insuportável]... Portanto, se for ne- respeitosas dos direitos econômicos, te, os direitos humanos se tornem uma mundo árabe mais precisa], The Washington Post,
cessário me privar de comida, farei sociais e culturais suscitam, no máxi- realidade para todos, impõem-se me- 17 out. 2018.
10 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

70 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

Longo caminho rumo à dignidade


Os Estados-membros da ONU estão engajados em defender quais liberdades fundamentais? A leitura da Declaração
Universal dos Direitos Humanos dá vertigem: ela garante quase todos os direitos políticos e sociais. Mas com quais meios?
Resultado de um longo combate, contudo, a Declaração continua sendo uma eficaz ferramenta de progresso
POR CLAIRE BRISSET*

P
ensar o universal e transformá- des políticas caso esteja morrendo de
-lo em direito: é com essas pou- fome? Podemos desafiar a diversidade
cas palavras que podemos ten- cultural afirmando a universalidade
tar descrever o imenso objetivo dos direitos? A paz constitui a primeira
daqueles que, logo após a Segunda garantia dos direitos humanos? Apesar
Guerra Mundial, conceberam a Decla- das divergências originais, o texto res-
ração Universal dos Direitos Huma- ponde com otimismo a essas pergun-
nos. Seria necessário algum tempo pa- tas, e sua adoção por cinquenta Esta-
ra que os princípios oriundos de uma dos-membros da ONU, de 58, foi
visão religiosa e filosófica do mundo imediatamente percebida como o
abrissem caminho até o direito. Pode- maior êxito diplomático do pós-guer-
mos, é claro, remontar à Magna Carta ra. Entre os que se abstiveram figura-
(“Grande Constituição”) na Inglaterra vam a África do Sul, hostil ao princípio
(1215), que introduziu a noção de da igualdade de raças, a Arábia Saudi-
igualdade perante a lei e deu origem ao ta, contrária à igualdade entre homens
habeas corpus,1 garantia da liberdade e mulheres, e a URSS, ansiosa por afir-
individual. Mas o verdadeiro ponto de mar a primazia dos direitos econômi-
partida daquilo que seria o corpus dos cos e sociais sobre os direitos políticos.
direitos humanos da era moderna deve Diversos princípios fundamentais
ser buscado em Emmanuel Kant e na permeiam a declaração: os direitos
filosofia das Luzes, e depois na Revolu- humanos são universais e indissociá-
ção Norte-Americana, cuja Declaração veis uns dos outros; os direitos do in-
de Independência, em 1776, já procla- divíduo prevalecem sobre os da co-
mava: “Todos os homens são criados munidade; todos os seres humanos,
iguais” – conceito retomado alguns sem exceção, são iguais. De todos es-
anos depois na França, sem referência ses princípios, o da “dignidade huma-
religiosa ao Criador, na Declaração dos na”, presente desde o artigo 1º (mas
Direitos do Homem e do Cidadão, de que não constava da declaração de
1789: “Os homens nascem e permane- 1789), é sem dúvida o mais fecundo,
cem livres e iguais em direito”. ressalta Christine Lazerges, presiden-
No entanto, os direitos humanos te da Comissão Nacional Consultiva
repousam ainda hoje em outro alicer- Francesa dos Direitos Humanos: “A
ce, poderoso e contemporâneo: a igualdade em dignidade e em direito
guerra. Primeiro, a Guerra da Crimeia, de todos os homens fundamenta por
que revelou ao suíço Henry Dunant o bre as quais seria possível edificar um responsáveis do Terceiro Reich em vir- definição o princípio de universalida-
abandono dos feridos no campo de ba- direito menos utópico. Num navio de tude de duas noções radicalmente no- de. Por si só, permite rejeitar a pena de
talha de Solferino, em 1859, e o levou a guerra, o presidente norte-americano vas, nascidas precisamente dos direi- morte, a tortura, a escravidão; por si
fundar a Cruz Vermelha; a primeira Franklin Roosevelt e o primeiro-mi- tos humanos: o crime de genocídio e o só, alicerça a alteridade, o reconheci-
Convenção de Genebra, em 1864, se nistro britânico Winston Churchill as- crime contra a humanidade.2 mento do outro”.
inspirou diretamente em suas ideias. A sinaram a Carta do Atlântico, primeiro A fim de afastar quaisquer acusa- A partir de 1948, as Nações Unidas
guerra de 1914-1918, em seguida: ma- esboço da Carta da Organização das ções de controle por parte dos vence- sentiram a necessidade de transformar
tanças entre soldados, massacres de Nações Unidas (ONU), adotada em dores da guerra, o comitê de redação essas noções em um conjunto de nor-
milhões de civis. Após a assinatura do São Francisco em abril de 1945. Já no da Declaração, presidido por Eleanor mas coercitivas, ou seja, em tratados
Tratado de Versalhes, a Sociedade das preâmbulo, o documento atribui à no- Roosevelt, viúva do presidente ante- de direito internacional. “Foi preciso
Nações (SDN) tentou por todos os va organização mundial a tarefa de rior dos Estados Unidos, incluía, numa dar a esses conceitos um conteúdo em
meios impedir a repetição do conflito, “preservar as gerações futuras do fla- dosagem prudente, dezoito membros, direito, e não pura e simplesmente em
inclusive declarando a guerra “ilegal”. gelo da guerra” e proclama “a fé nos di- entre os quais o chinês Peng-chun moral”, explica Jean-Bernard Marie,
Ninguém ignora o que se seguiu. Con- reitos fundamentais do homem, na Chang, o libanês Charles Malik, o chi- diretor de pesquisas do Centro Nacio-
tudo, a SDN, antes de se esfacelar nos dignidade e no valor da pessoa huma- leno Hernán Santa Cruz, o britânico nal de Pesquisa Científica (CNRS), em
anos 1930, impôs a ideia de que a segu- na”. A essência do que iria constituir, Charles Dukes, o soviético Alexandre Estrasburgo. “Esses princípios – o da
rança coletiva só poderia se fundar no três anos depois, a Declaração Univer- Bogomolov, o haitiano Émile Saint-Lot universalidade, por exemplo – não são
multilateralismo, nunca na diploma- sal dos Direitos Humanos já está conti- e o francês René Cassin. meras noções contemplativas; é, pois,
© Cau Gomez

cia secreta. da nesse preâmbulo. No intervalo, de- As discussões de então prefigura- imperioso encontrar meios de garantir
Depois de 1941, os futuros vence- senrolou-se o processo de Nuremberg, ram os debates de hoje: é importante, sua eficácia.” Foi com esse objetivo que
dores haviam imaginado as bases so- que levou à condenação dos principais para o ser humano, dispor das liberda- a Assembleia Geral da ONU criou ime-
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 11

diatamente a Comissão dos Direitos a maneira como cumprem suas obri- simples indivíduos, dão força aos di- enorme edifício, construído ao longo
Humanos, encarregada de elaborar es- gações para com os direitos humanos: reitos humanos por vezes com risco de de décadas, resiste apesar de sua com-
ses instrumentos. Dois pactos – um em são os Exames Periódicos Universais vida. Segundo Forst, cerca de 4 mil de- plexidade. Como salienta Marie Heu-
torno dos direitos civis e políticos, e ou- (EPU). Por unanimidade, esse proce- les foram assassinados desde 1998. zé, que foi porta-voz de Kofi Annan,
tro em torno dos direitos econômicos, dimento faz com que, em toda parte, No entanto, as Nações Unidas não “nenhuma geração contou com um
sociais e culturais – foram adotados progrida o respeito aos direitos graças se esqueceram de que foram fundadas patrimônio jurídico e normativo tão
em 1966, quando 172 países ratifica- à pressão que exerce sobre os dirigen- também para manter a paz, garantia importante quanto a nossa, em maté-
ram o primeiro e 169 confirmaram o tes e ao ponto de apoio que oferece aos primeira dos direitos humanos. Foi ria de direitos da pessoa, de desenvol-
segundo. Uma miríade de convenções associados. Além disso, as Nações com esse objetivo que criaram os “ca- vimento e de manutenção da paz”.
específicas acompanharam-nos ao Unidas criaram o Alto Comissariado pacetes azuis”, forças mantenedoras Recentemente, porém, maus ven-
longo dos anos, das quais podemos ci- dos Direitos Humanos, órgão perma- da paz. Em face da maré de ceticismo tos sopraram. Alguns países, e não dos
tar as mais importantes: sobre o geno- nente sediado também em Genebra provocada pelo número de massacres menores, decidiram reduzir o aparato
cídio (1948), o estatuto dos refugiados que coordena todas as atividades do diante dos quais a comunidade inter- dos direitos humanos ou, mais exata-
(1951), a discriminação racial (1965), os sistema da ONU nessa área. É hoje di- nacional se revelou impotente (Cam- mente, seu alcance. Não só os Estados
direitos das mulheres (1979), a tortura rigido por Michelle Bachelet, ex-presi- boja, ex-Iugoslávia, Ruanda, Congo, Unidos, com suas atitudes francamen-
(1984), os direitos das crianças (1989), dente do Chile. Myanmar, Síria etc.), a ONU procura te hostis, mas também, de maneira tá-
os trabalhadores migrantes (1990)... A De resto, cada convenção adotada melhorar o recrutamento, a formação, cita, a China e a Rússia, alguns mem-
esses tratados acrescentou-se uma de- pela ONU dispõe de um comitê ad hoc o enquadramento e o financiamento bros da Organização da Cooperação
zena de declarações sobre os assuntos encarregado de assegurar que ela seja dessa força internacional. O desafio é Islâmica, da União Africana e, no seio
mais diversos, todos ligados a aspectos respeitada e de encaminhar observa- imenso, tanto mais que os Estados da União Europeia, países como a Po-
específicos dos direitos humanos. ções, por vezes contundentes, aos go- Unidos, os maiores contribuintes para lônia, a Áustria e a Hungria. As legisla-
Paralelamente, as Nações Unidas vernos. Em 23 de outubro último, o as forças de manutenção da paz, anun- ções contra o terrorismo restringem
estruturaram os órgãos encarregados Comitê dos Direitos Humanos criticou ciaram em setembro de 2018 sua in- igualmente o campo das liberdades
de velar pela aplicação desses textos. A a lei francesa de 2010 que proibia enco- tenção de reduzir o financiamento públicas, enquanto os direitos dos mi-
Comissão dos Direitos Humanos, rapi- brir o rosto em espaços públicos, ava- dessas operações – no instante em que grantes não são respeitados. Não há
damente envolvida nos conflitos da liando que ela provocava “discrimina- o secretário-geral Antônio Guterres nada mais fácil que reduzir alguns fi-
era pós-colonial, foi abolida em 2006 e ção cruzada, com base no sexo e na revelava que seu custo (US$ 7 bilhões nanciamentos de que a defesa dos di-
substituída pelo Conselho dos Direitos religião”. De modo mais geral, consta- por ano) representa “apenas 1% das reitos humanos necessita. Não há na-
Humanos, dotado de mais poderes. ta-se que a aplicação dos tratados, despesas militares mundiais”.3 A “res- da mais fácil também que invocar
Sediado em Genebra, esse conselho, mesmo imperfeita, vai aos poucos ponsabilidade de proteger”, teorizada especificidades culturais que a univer-
composto por 47 Estados eleitos se- transformando o direito interno dos em 2005 pelo secretário-geral Kofi An- salidade supostamente prejudicaria.4
gundo critérios geográficos, acabou países-membros. nan, utilizada e distorcida quando da Os direitos humanos nasceram de
também alvo de críticas constantes, Não contentes, as Nações Unidas desastrosa operação da Líbia, ainda uma revolta, inclusive contra o confor-
por acolher em seu seio alguns países abriram caminhos transversais que fi- não logrou adesões. mismo político e as facilitações de
pouco recomendáveis. Os Estados guram entre os elementos mais úteis Enfim, as Nações Unidas não se de- lealdades. O violento mundo atual,
Unidos retiraram-se dele com estar- do sistema: “relatores especiais”, “re- sinteressaram de uma de suas razões com sua geopolítica em recomposição,
dalhaço em junho de 2018, denun- presentantes especiais”, “especialistas de ser desde Nuremberg: a luta contra é prova disso.
ciando “uma cloaca de parcialidades independentes” estão encarregados a impunidade. Criaram em 1998 a Cor-
políticas”, nos termos da embaixadora de conduzir pesquisas sobre temas ou te Penal Internacional (CPI), com sede *Claire Brisset é jornalista e ex-defensora
norte-americana (hoje demissionária) países onde são denunciadas exações. em Haia, para julgar os crimes contra pública de crianças.
nas Nações Unidas, Nikki Haley, en- Livres para pesquisar e falar, eles, por a humanidade, os crimes de guerra e
quanto o secretário de Estado, Michael si sós, conseguem fazer com que os di- os crimes de genocídio. Paralelamen-
1 O princípio do habeas corpus proíbe a detenção
Pompeo, julgava “inadmissível” uma reitos humanos evoluam em temas te, a ONU montou vários tribunais es- arbitrária, exigindo que o prisioneiro seja apresen-
“prevenção contínua e documentada bem definidos ou em países particu- peciais (ex-Iugoslávia, Ruanda, Líba- tado a um juiz.
do conselho contra Israel”. larmente refratários à igualdade de di- no), para a mesma finalidade, que 2 Cf. Philippe Sands, Retour à Lemberg [Volta a
Lemberg], Albin Michel, Paris, 2017.
reitos. Assim, o francês Michel Forst, também suscitaram inúmeras críti- 3 Ver Sandra Szurek, “Pluie de critiques sur les cas-
MARÉ DE CETICISMO relator especial sobre a situação dos cas. Nem os Estados Unidos nem Israel ques bleus” [Chuva de críticas sobre os capacetes
Todos os Estados-membros da defensores dos direitos humanos, ten- fazem parte deles. azuis], Le Monde Diplomatique, jan. 2017.
4 Marie Bourreau, “Aux Nations Unies, haro sur les
ONU devem apresentar publicamente ta metodicamente proteger aqueles Após setenta anos, o balanço se re- droits de l’homme” [Nas Nações Unidas, clamor
a esse conselho relatórios exatos sobre que, responsáveis por associações ou vela necessariamente equilibrado. O pelos direitos humanos], Le Monde, 18 abr. 2018.
12 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

AVANÇOS E RETROCESSOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE

Direito à educação com


igualdade de gênero
Avanços jurídicos e políticos no sentido de garantir a igualdade de gênero na educação encontram fortes obstáculos
para sua concretização nas escolas de diversos países da América Latina e do Caribe. Barreiras culturais, falta de vontade
dos governos e avanço de tendências fundamentalistas conservadoras e religiosas afetam meninas e mulheres
POR FABÍOLA MUNHOZ*

C
omo Campanha Latino-Ameri- leis, políticas e procedimentos apro- distintos países da região, conquistas ção sexual na educação. Também se
cana pelo Direito à Educação priados para proibir e combater a vio- que têm sido alvo de grupos conserva- observam retrocessos para a igualdade
(Clade), temos acompanhado lência contra meninas e mulheres nas dores que tentam impedir a continui- de gênero no conteúdo da nova Base
os desafios e os avanços para a instituições educativas e seus entor- dade e a concretização dessas mudan- Nacional Comum Curricular (BNCC) e
garantia da igualdade de gênero e o nos. Propõe também que sejam dese- ças, ou mesmo querem promover no fato de terem excluído a referência a
respeito à diversidade na educação em nhados e aplicados currículos obriga- retrocessos em relação ao que já se ha- “gênero” do Plano Nacional de Educa-
nossa região e no mundo. tórios com informações integrais via avançado. O seguimento dessas ção e de outros planos estaduais e mu-
Meninas e mulheres são discrimi- sobre saúde e direitos sexuais e repro- transformações enfrenta barreiras cul- nicipais de educação aprovados no
nadas durante a educação em termos dutivos. Consideramos essa recomen- turais, falta de vontade dos governos e país. Outro retrocesso foi a decisão do
de acesso, permanência, conclusão, dação um instrumento de direitos hu- avanço de tendências fundamentalis- Supremo Tribunal Federal (STF) de se-
tratamento, resultados de aprendiza- manos muito importante, que deve tas conservadoras e religiosas, que in- tembro de 2017 que determinou a cons-
gem e escolhas de carreira, o que resul- ser usado na luta contra o patriarcado, vocam a existência do falso conceito de titucionalidade do ensino religioso
ta em desvantagens que vão além da por igualdade e pelos direitos de me- “ideologia do gênero” para promover confessional nas escolas, o que contri-
escolaridade e do ambiente escolar. ninas e mulheres. mobilizações, ações judiciais e campa- bui para a censura da abordagem de
A presença de estereótipos de gê- Outro instrumento que se aplica a nhas de desinformação, entre outras questões relacionadas a gênero e sexua-
nero nos currículos, livros didáticos e essa luta é a Agenda dos Objetivos de estratégias, contra a realização de uma lidade nos centros educativos.
processos de ensino, a violência que Desenvolvimento Sustentável (ODS), educação laica e com enfoque em direi- Na Colômbia, a elaboração no âm-
enfrentam dentro e fora da escola, res- adotada pelos Estados-membros da tos, o que inclui abordar nas escolas a bito do Ministério da Educação de um
trições estruturais e ideológicas e a ONU em 2015, que reconhece que “a igualdade de gênero, a diversidade se- guia que abordava o tema das orienta-
dominação masculina em determina- igualdade de gênero está inextricavel- xual, o direito à identidade de gênero e a ções sexuais e identidades de gênero
dos campos acadêmicos e profissio- mente ligada ao direito à educação” e educação sexual integral. Trata-se de não hegemônicas na escola, dirigido a
nais são fatores que impedem meni- estabelece o compromisso de garantir uma tendência regional que abarca docentes e com o objetivo de adequar
nas e mulheres de reivindicar e exercer uma educação inclusiva e de qualida- países como Brasil, Colômbia, Costa Ri- os manuais de convivência escolar à
o direito humano à educação em con- de para todas e todos, e eliminar todas ca, Equador, Peru, Paraguai e Uruguai. diversidade sexual e à não discrimina-
dições de igualdade. as formas de discriminação contra No caso do Brasil, o movimento Es- ção, gerou enérgicos questionamentos
A Recomendação Geral n. 36 do mulheres e meninas até 2030. cola Sem Partido vem promovendo pro- de grupos ultraconservadores e con-
Comitê Cedaw, da ONU, aponta al- Na última década foram observa- postas legislativas e outras ações para fessionais fanáticos do país.
guns desses desafios e sugere aos Es- dos avanços com relação à inclusão da proibir a abordagem das questões polí- Já na Costa Rica, um programa de
tados que promulguem e apliquem perspectiva de gênero na educação em ticas e relacionadas a gênero e orienta- estudos para a afetividade e a sexuali-
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 13

dade integral do Ministério da Educa- tivas e heterossexistas dominantes em lançada pela Clade em 2014 e realizada desempenhar e nos quais querem se
ção, que seria colocado em prática este nossas sociedades, as quais violam um com mães, pais, crianças, docentes e desenvolver. A falta desse debate e des-
ano, tem gerado forte rechaço por parte conjunto de direitos humanos, sobre- profissionais de escolas de educação sa problematização nas escolas é o que
de setores religiosos fanáticos, que en- tudo o direito a uma vida digna, livre infantil de Brasil, Colômbia e Peru, re- leva à persistência e à reprodução de
tendem que esse programa promove a de violência e discriminação. vela que a discriminação por razão de pensamentos machistas e discrimina-
“ideologia de gênero” nas escolas. No Para além da educação, permane- gênero se manifesta já no convívio en- tórios, que infelizmente hoje acompa-
Equador, sob o slogan “Con mis hijos no cem outras fortes injustiças contras as tre estudantes da educação inicial. A nham meninos e homens em suas tra-
te metas”, são organizadas mobiliza- mulheres: sua reduzida representação consulta mostra também que há uma jetórias na educação e na sociedade.
ções e marchas contra iniciativas legis- política e os salários desiguais que re- grande abertura de meninas e meni- Também faltam representativida-
lativas vinculadas à igualdade de gêne- cebem, sua responsabilidade quase nos dessa faixa etária para, orientados de, reconhecimento e valorização das
ro e para que não seja incluído o enfoque exclusiva pelo trabalho doméstico e o por um educador, identificar determi- meninas e mulheres nos planos, con-
de gênero nos currículos educativos. cuidado das pessoas, a criminaliza- nados comportamentos como incor- teúdos e práticas escolares. São inú-
No Peru há fortes questionamentos ção do aborto e a violência, e os índi- retos (por exemplo, impedir uma cole- meras as mulheres que foram e têm
à introdução de um novo Currículo ces de feminicídio na região conti- ga de jogar futebol porque é “menina”) sido fundamentais para a transforma-
Nacional de Educação Básica, que in- nuam alarmantes. e rever as próprias posições com base ção de nossas sociedades rumo à
clui o enfoque de gênero, a promoção Todos esses elementos revelam que em novas experiências. igualdade, à garantia de direitos para
da igualdade de oportunidades entre a igualdade de gênero ainda está longe todos e à superação da violência e da
homens e mulheres, a construção da de ser realizada plenamente, e a mu- discriminação, e que pela relevância
identidade de gênero e a educação se- dança desse cenário depende de uma de sua luta deveriam ser citadas em sa-
xual integral. transformação cultural e da mudança Preconceitos e la de aula.
No Paraguai, uma resolução do Mi- de pensamentos enraizados, o que en- estereótipos afetam As celebrações do Dia Internacional
nistério da Educação proibiu a difusão tendemos que só se tornará possível o direito de meninas da Mulher deste ano homenagearam
de materiais que abordam a questão por meio da reflexão e do olhar crítico de maneira especial as mulheres ativis-
de gênero em instituições educativas. sobre a realidade, elementos esses que
e mulheres de escolher tas, chamando a atenção para os altos
No Uruguai, a Justiça negou demanda podem e devem ser promovidos na e profissões, funções e níveis de violência de que são alvos es-
apresentada por um conjunto de pais e pela educação. campos de conhecimento sas defensoras dos direitos humanos
mães contra a divulgação de uma pro- que querem desempenhar em todo o mundo e fazendo um cha-
posta didática para a abordagem da COMO A EDUCAÇÃO SEXUAL INTEGRAL PODE mado aos Estados para que garantam
educação sexual nas etapas inicial e PROMOVER A IGUALDADE DE GÊNERO proteção e justiça a essas mulheres.
primária de ensino.1 Especialistas consideram2 que a O Dia Internacional de Luta contra
educação sexual integral implica reco- O primeiro passo para superar a a Violência Sofrida pelas Mulheres é
DESIGUALDADES E DISCRIMINAÇÕES POR TRÁS nhecer, desde a infância, meninos e discriminação é reconhecer que ela celebrado pela ONU em 25 de novem-
DAS ESTIMATIVAS EDUCATIVAS meninas como seres sexuados, de for- existe em todas as modalidades e eta- bro, data em que, em 1960, as três ir-
Em geral, os países da América ma informada, livre, responsável, e pas educativas. Defendemos que todas mãs Mirabal – Minerva, María Teresa e
Latina e do Caribe avançaram de mo- sem vincular a sexualidade e o diálogo e todos devem ter igual acesso aos di- Patria –, conhecidas como “Las Mari-
do substantivo em relação à paridade sobre gênero apenas à questão repro- reitos à educação para a igualdade de posas”, foram assassinadas por terem
entre homens e mulheres nas estatís- dutiva, e sim tratando esses temas de gênero e à educação sexual integral, formado um movimento de oposição
ticas educativas, tanto no acesso uma perspectiva sociocultural. pois discutir essas temáticas represen- direta contra a ditadura de Rafael Tru-
quanto no desempenho escolar. No Para esses especialistas, a educa- ta não apenas abordar os direitos de jillo na República Dominicana. Infeliz-
entanto, persistem graves obstáculos ção sexual integral não tem apenas meninas e mulheres, mas também re- mente, casos como esse não ficaram só
para a realização plena do direito hu- relação com a reprodução, a preven- fletir sobre os papéis e os estereótipos na história. Em 3 de março de 2018 re-
mano à educação de meninas e mu- ção de doenças sexualmente trans- atribuídos aos gêneros em nossas so- lembramos também o aniversário de
lheres, que vão muito além do acesso missíveis e a gravidez precoce, ou a ciedades, o que inclui questionar e re- dois anos do assassinato de Berta Cá-
escolar ou do tratamento que elas re- mudança no corpo dos estudantes construir nossos conceitos de feminili- ceres, ativista pelo meio ambiente e lí-
cebem nas escolas. durante a puberdade. A educação se- dades e masculinidades, para que der indígena de Honduras. Poucos dias
xual integral vai além desses fatores e sejam mais sensíveis e responsáveis e depois, recebemos com estarrecimen-
inclui o conhecimento sobre o pró- busquem a construção de sociedades to e indignação a notícia do assassina-
prio corpo e seu cuidado, a reflexão cada vez mais inclusivas, pacíficas e de- to brutal de Marielle Franco, vereadora
Os países da América sobre os sentidos e significados da se- mocráticas. Nesse caminho, é funda- feminista, negra, lésbica e lutadora pe-
Latina e do Caribe xualidade e as vinculações e relações mental que a educação promova, para la igualdade e contra a discriminação e
entre meninos e meninas. meninos e meninas, o aprendizado por a violência, no Rio de Janeiro.
avançaram de modo Graças a esse olhar, professores e es- meio da livre expressão, do autoconhe- Casos como esses não podem ficar
substantivo em relação tudante podem reconhecer e valorizar cimento e do reconhecimento das pró- impunes, e abordá-los na educação e
à paridade entre as diferenças e similaridades entre os prias identidades e sexualidades. em outros âmbitos e espaços de nossa
homens e mulheres nas gêneros, superando estereótipos e pre- sociedade é fundamental, para que es-
conceitos, trabalho importante de rea- DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL DE FUNÇÕES E FALTA DE sas formas de violência e injustiça te-
estatísticas educativas lizar desde a educação infantil, não REPRESENTATIVIDADE nham sua existência reconhecida e,
apenas na adolescência, pois a educa- A maioria dos docentes em nossa com isso, sejam superadas.
ção sexual integral tem também o papel região hoje é formada por mulheres, es-
Entre as principais barreiras estão de prevenir e combater casos de violên- pecialmente na educação infantil. Isso *Fabíola Munhoz é coordenadora de comu-
o trabalho infantil (especialmente o cia contra crianças, por meio do espaço acontece porque as mulheres, em geral, nicação e mobilização da Clade.
doméstico), o matrimônio e a gravidez de diálogo e da relação de confiança que são relacionadas a funções de educa-
precoces, conflitos armados – que afe- se cria entre estudante e docente. ção e cuidado ou a áreas do conheci-
tam de maneira especial meninas e A educação deve trazer uma re- mento relacionadas à sensibilidade, à 1 Para saber mais, acesse o posicionamento público
em defesa dos direitos à educação para a igualda-
mulheres –, a situação de pobreza, a flexão sobre os gêneros, não como subjetividade, à intuição e a áreas hu- de de gênero e à educação sexual integral, lançado
influência de religiões nas decisões so- uma divisão sexual anatômica que manas, enquanto os valores de racio- pela Clade em aliança com Cladem e Repem, em 8
bre a política educativa, entornos es- justifica diferenças, mas como cons- nalidade e objetividade geralmente são de março: <http://v2.campanaderechoeducacion.
org/es/noticias/824-2018-03-08-15-57-59.html>.
colares perigosos e violentos e, princi- truções sociais sobre os conceitos de atribuídos a homens e meninos. 2 Leia entrevista com Fernando Salinas-Quiroz e
palmente, práticas discriminatórias feminilidades e masculinidades em Esses preconceitos e estereótipos Mercedes Mayol Lassalle sobre a importância da
que se repetem nas escolas, refletindo nossas sociedades. afetam o direito de meninas e mulhe- educação sexual integral para a promoção da
igualdade de gênero: <https://goo.gl/EG3vb3>.
construções ideológicas e culturais A “Consulta sobre a discriminação res de escolher profissões, funções e 3 Clade, “Consulta sobre discriminação na educa-
machistas, patriarcais, heteronorma- na educação na primeira infância”,3 campos de conhecimento que querem ção na primeira infância”, 2014.
14 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

A TRANSFORMAÇÃO DE NEW ORLEANS DEPOIS DO FURACÃO KATRINA

Como matar uma cidade


Em 29 de agosto de 2005, um furacão atingia New Orleans, matando 2 mil pessoas e destruindo dezenas de milhares
de casas. A catástrofe permitiu que políticos e empresários experimentassem um urbanismo de tábula rasa, objetivando
substituir pobres por turistas – um método que inspira outros dirigentes ansiosos em lucrar com desastres climáticos...
POR OLIVIER CYRAN*, ENVIADO ESPECIAL

E
m um bairro tomado pela gen-
trificação, o lugar mais anódino
pode de repente surgir como
uma curiosidade, até como um
foco de resistência. Na Freret Street,
em New Orleans, esse papel é de uma
barbearia. Inaugurada em 1974, época
em que um visitante branco que se vis-
se perdido nessa rua trataria de dar no
pé rapidinho, a Dennis Barber Shop é
agora o “último vestígio de uma comu-
nidade desaparecida”, como diz seu
dono, Dennis Sigur, que, apesar da ida-
de respeitável, mantém sua jornada de
quinze horas. Do lado esquerdo, um
pet shop pode, por US$ 50, dar um ba-
nho em seu cãozinho. Em frente, a

© James Cage/cc
poucos metros de um bar de vinhos
francês e de um salão de beleza, uma
escola de ioga oferece “redução do es-
tresse” e “paz de espírito” por US$ 150
ao mês. Um pouco mais acima, na es-
quina da Jefferson Avenue, foi inaugu-
rada uma Starbucks no fim de 2017. “Eu Grafite em galpão no bairro de Bywater, New Orleans
já não me vejo aqui”, lamenta Sigur.
“Quase todos os meus antigos clientes
saíram do bairro. Felizmente, muitos modos onde ele morava aumentou um caso-limite. Enquanto em outros do do “liberalismo bombado por este-
ainda vêm à barbearia, às vezes de lon- mais uma vez o aluguel, que em quatro lugares o processo se desenrola de ma- roides” – para usar a expressão do
ge. Aqui é um ponto de encontro para anos passou de US$ 600 para US$ neira progressiva, por avanços inter- advogado William B. Quigley –, com
os mais antigos, meio como um bar de 1.100. “No mesmo período, meu salá- mitentes ou a longo prazo, aqui ele todas as características de uma guerra
amigos, só que sem o álcool.” rio não aumentou um centavo. Foi en- atingiu a velocidade da luz, em uma total contra os pobres. Professores fo-
Há uns quinze anos, a Freret Street tão que percebi que este bairro não era escala e com uma brutalidade sem ram demitidos, escolas foram privati-
e seus arredores eram um bairro qua- mais para mim e que tinha chegado a precedentes. Um desastre climático zadas, o hospital público foi condena-
se exclusivamente negro, como gran- hora de ir embora.” No mesmo ano, serviu como catalisador: o furacão Ka- do, o aparelho de segurança foi
de parte da cidade. A proporção de durante uma reunião pública, um gru- trina, que devastou a cidade há treze reforçado, o mercado imobiliário foi
afro-americanos em New Orleans po de uns cem novos moradores pediu anos, matando quase 2 mil pessoas. desregulamentado, os conjuntos habi-
caiu de 67% em 2005 para 59% em que se aumentassem os impostos lo- tacionais com aluguéis populares fo-
2013 – uma tendência que está se ace- cais a fim de custear o recrutamento TEMPESTADE DO SÉCULO, OFERTA DO SÉCULO ram demolidos e substituídos por resi-
lerando. Muito majoritariamente po- de agentes de segurança para realizar Para os moradores, as inundações dências de incorporadoras. Ao mesmo
bres, os “nativos”, como às vezes eles patrulhas noturnas. A proposta foi re- que se seguiram à tempestade de 29 de tempo que se mimava o setor do turis-
próprios se qualificam, com uma pon- jeitada,1 mas “naquele momento vi- agosto de 2005 continuam sendo um mo com os planos para a construção
ta de ironia – uma maneira também mos a que ponto a gentrificação tinha trauma para toda a vida, como mos- de um novo aeroporto e de uma miría-
de reivindicar a impressionante mar- remodelado o bairro”, diz Larose. O tram as taxas de suicídio registradas de de hotéis de luxo, estendeu-se o ta-
ca cultural deixada por eles na alma caloroso boteco na esquina da Bolivar desde então (de nove a cada 100 mil pete vermelho para os empresários,
da cidade –, têm se mudado para as com a Washington, que servia café da habitantes, antes do Katrina, para 26 a cobrindo-os de benefícios fiscais. “Foi
periferias ou para ainda mais longe, manhã a US$ 0,99 aos trabalhadores cada 100 mil depois).2 Para os formula- necessária a tempestade do século pa-
expulsos pelo afluxo de uma popula- da vizinhança, sumiu, dando lugar a dores de políticas e as elites econômi- ra criar a oportunidade do século. Não
ção branca, jovem e endinheirada que cafés de comércio justo vendidos a cas, elas foram providenciais. Ficando a deixemos passar”, exortava a gover-
levou os preços às alturas. Em poucos US$ 4 e hambúrgueres gourmet que três quartos debaixo da água por cau- nadora democrata da Louisiana, Kath-
anos, bairros historicamente negros e saem por US$ 12. sa da ruptura dos diques – que, aliás, leen Blanco, menos de duas semanas
populares, como Bywater, Marigny, 7ª Se aqui ele coincide com um siste- foi resultado da falta de manutenção após o Katrina. Dizer que ela foi ouvi-
Ward e Freret, tornaram-se tenden- ma de dominação racial profunda- produzida pelas economias orçamen- da é pouco. A tal ponto que o “renasci-
cialmente brancos e opulentos. mente enraizado na história do “Big tárias –, a joia urbana da Louisiana mento” de New Orleans, muitas vezes
Em que momento percebemos que South”, o fenômeno de recaptura dos viu-se esvaziada de sua população du- elogiado na mídia como um “modelo
o mundo onde vivemos não existe centros das cidades pelas classes mé- rante vários meses: a oportunidade de sucesso”,3 poderia servir como um
mais? Para Bernard Larose, de 52 anos, dias altas afeta a maioria das grandes perfeita para seus dirigentes termina- manual para todos os líderes mun-
que acaba de ter o cabelo tratado pela cidades ocidentais, de Nova York a Ber- rem o trabalho de destruição iniciado diais preocupados em fazer o melhor
talentosa tesoura de Sigur, foi em 2013, lim, passando por Detroit, Paris, Lis- pelo furacão. Os mortos mal foram ti- uso possível das tragédias climáticas
quando o dono do imóvel de três cô- boa e Barcelona. Mas New Orleans é rados da água e já se instaurou o reina- que teremos pela frente.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 15

A primeira lição que devemos reter generosamente indenizados, en- Foi, portanto, nas mãos desses espe- las fretadas”, ou “contratadas”: esse
a respeito do Katrina é que um cata- quanto as pessoas que viviam em cialistas em “gerenciamento de crise” termo designa um regime recente-
clismo recai preferencialmente sobre bairros pobres ficaram com as miga- que foi colocado o destino das crianças mente inventado que une o privado
aqueles que não têm nada, ou quase lhas. Treze anos depois, estima-se de New Orleans. Sob suas orientações, a (cada escola é dirigida por um opera-
nada. Prova disso são as imagens, exi- que cerca de 100 mil moradores de comissão escolar aproveitou o fato de dor que se comporta como um líder
bidas à exaustão na época, dos milha- New Orleans entre os mais pobres não haver alma viva na cidade para empresarial) e o público (o acesso às
res de sobreviventes que, por não te- (de um total de cerca de 450 mil habi- anunciar a demissão a seco de todos os escolas continua gratuito, e o operador
rem carro – portanto, não poderem tantes antes do furacão) nunca vol- seus 7.500 professores. “Quando a notí- privado não pode obter lucro). Inicial-
sair da cidade por conta própria –, taram para casa. “Deixaram claro cia foi dada pela mídia local, a maioria mente testado em Nova York, com
amontoaram-se no estádio Superdo- que eles não eram bem-vindos em dos professores ainda estava muito lon- apoio da Fundação Bill e Melinda Ga-
me e no Centro de Convenções em sua própria cidade”, lança Marshall, ge dali. Muitos tomaram conhecimento tes, o sistema charter difundiu-se num
condições inacreditáveis. “Foi procla- com a cólera que o acompanha há do fato repentinamente, no pior mo- piscar de olhos para a maioria das
mada lei marcial, em todas as esqui- treze anos. “Nossas autoridades usa- mento, quando ainda lutavam com o grandes cidades dos Estados Unidos,
nas havia policiais e militares apon- ram o Katrina como um superxerife trauma do Katrina e com dificuldades precedido por sua reputação de cura
tando armas para nós, mas ninguém para expulsar os indesejados – uma materiais insuperáveis”, destaca o ad- milagrosa para os problemas do fra-
para nos ajudar. É algo que nunca vou maneira de se vingar desta cidade vogado Willie Zanders, que defendeu os casso escolar em bairros difíceis.6
esquecer”, conta Alfred Marshall, de que eles sempre consideraram muito “7.500” em uma longa maratona judi- Nunca antes ele havia sido aplicado na
60 anos, sindicalista negro que é negra e indisciplinada. Quando se cial, que começou vencendo, mas aca- escala de toda uma metrópole.
membro do Stand with Dignity, um fala de gentrificação, o que eu ouço é bou com a derrota, em 2013, perante a Para conhecer melhor esse siste-
coletivo de defesa dos trabalhadores a palavra ‘eliminação’.” Suprema Corte da Louisiana. ma, batemos à porta da Paul Habans
precários. “Um rapaz vizinho meu en- Nas semanas de caos que se se- Charter School, uma escola primária
trou em uma loja abandonada para guiram ao Katrina, o prefeito demo- LIVRAR-SE DOS PROFESSORES em Algiers, na periferia. Na parede da
conseguir roupas secas e foi baleado, crata de New Orleans, Ray Nagin – Por que os professores? Zanders en- recepção exibe-se em grandes letras
como um cachorro. Nunca consegui- hoje preso por corrupção –, e a colhe os ombros. “Eles usaram como vermelhas o lema do estabelecimento:
mos saber quantas vítimas foram fei- governadora Blanco se uniram em pretexto o estado de desastre natural e o “Perseverança, excelência, coragem,
tas pelas forças da ordem. Sua preocu- torno de uma causa comum: liqui- fato de que não havia mais dinheiro nos comunidade”. No corredor, uma placa
pação número um era proteger a dar a escola pública e os professores. cofres. No entanto, dez dias após o proclama: “Sempre fazemos o melhor
propriedade contra aquilo que cha- No fim de setembro de 2005, a co- anúncio da demissão em massa, a Se- para sermos melhores”. Mais adiante:
mavam de pilhagem, e não salvar as missão escolar nomeou, para chefiá- cretaria de Educação do estado da Lou- “Somos parte de algo maior que nós
pessoas que estavam se afogando ou -la, um cost-killer [“matador de cus- isiana recebeu US$ 100 milhões do go- mesmos”. Nossos passos ecoam em
socorrer os sobreviventes.” tos”] de Nova York, o ex-coronel verno federal para ajudar o retorno dos um silêncio de catedral.
Uma vez evacuados e espalhados William Roberti, da empresa de con- professores. A ironia é que esse dinheiro A responsável pelo local nos dá a
pelo país, muitos sobreviventes foram sultoria corporativa Alvarez-Marsal. acabou recompensando quem os ex- honra de uma audiência. Branca, jo-
confrontados com escolhas dilaceran- Esta imediatamente descolou um pulsou.” Para o advogado, tratava-se vem, sorridente, Kate Mehok é a dire-
tes. No New York Times, o colunista contrato de US$ 16,8 milhões para também de neutralizar uma força so- tora-geral do grupo Crescent City
David Brooks alertou: “Se permitir- ajudar a comissão a reorganizar o cial potencialmente incômoda: “Exone- Schools, que gere três escolas, incluin-
mos que os pobres voltem a suas anti- sistema escolar. Um esquadrão de rando os professores, majoritariamente do esta. Ela também é de Nova York.
gas casas, New Orleans voltará a ser consultores com suas pastas grafite negros e muitas vezes envolvidos nas “Cada escola recebe US$ 8.500 por
acabada e disfuncional como antes”.4 aterrissou no Vieux Carré, o epicen- lutas de bairro, a cidade e o estado tam- criança por ano, pagos pelo estado e
Uma montanha de obstáculos foi colo- tro turístico da cidade, milagrosa- bém destruíram seu sindicato, o United pela cidade”, explica a diretora. “Aco-
cada diante deles. Um dos mais tor- mente poupado pelas águas. Graças Teachers of New Orleans, um dos raros lhemos todas as crianças sem discri-
tuosos foi o Road Home [“Caminho de a seus geradores, os bares do distrito que conseguiram se instalar no deserto minação e fazemos relatórios sobre
casa”], programa federal destinado a do álcool eram os únicos estabeleci- sindical que é a Louisiana”. nossos resultados. Mas ninguém vem
ajudar os exilados a reconstruir a pró- mentos comerciais da cidade aber- No entanto, o propósito da operação nos dizer que programa devemos se-
pria casa. A administração do presi- tos, enquanto tudo desabava ao seu – a qual Zanders suspeita que já estava guir e como fazer isso. Desde que os
dente George W. Bush calculou o mon- redor, “com seus clientes completa- na gaveta antes do Katrina, esperando objetivos sejam cumpridos, podemos
tante alocado para os beneficiários mente amodorrados e marinando uma oportunidade favorável para vir a fazer o que quisermos.”
com base no valor avaliado de suas sob a própria imundície, a ponto de público – era trazer ao mundo esta expe- Para substituir os professores demi-
propriedades no mercado imobiliário. parecerem figuras de cera abando- riência única: a transformação simultâ- tidos, os contratantes primeiro se volta-
Isso significa que os donos das opulen- nadas sob um poste de luz”, como nea de quase todas as escolas de uma ram para a Teach for America, uma or-
tas mansões do Garden District foram conta o escritor James Lee Burke.5 cidade grande em charter schools. “Esco- ganização humanitária que envia

Ensaios e inéditos A tradição da fábula Debates


Este volume, que inaugura a série de inéditos
em prosa de Euclides da Cunha, reúne um
Este livro reúne centenas de fábulas
clássicas, oriundas de diversas culturas.
feministas
total de 31 composições do Tendo como ponto de As pensadoras norte-americanas
autor que, em seu partida a tradição e Seyla Benhabib, Judith Butler,
conjunto, reforçam a mantendo sempre em Drucilla Cornell e Nancy Fraser
vertente ensaística de sua vista a recepção discutem questões-chave enfrenta--
admirável escritura e que contemporânea dessas das pela teoria feminista e
ficou plasmada notória e fábulas – em especial respondem às visões de cada uma,
definitivamente em Os a recepção brasileira, criando um diálogo genuíno sobre
sertões. com base no fabulário o papel da teoria no pensamento
trabalhado por feminista atual.
Monteiro Lobato e
Millôr Fernandes –,
analisa a fábula como
gênero literário e Produzir conteúdo
ilumina os pontos de Compartilhar conhecimento.
contato entre a Desde 1987.
tradição clássica e a
ww
www.editoraunesp.com.br
fabulística brasileira.
16 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

novatos recém-formados para territó- fundador do Hot 8 Brass Band, após de há gerações. O objetivo é que cada Os interessados podem, portanto,
rios em crise, normalmente no exterior: um show de levantar defunto. Sua um fique sozinho dentro de casa. relaxar. Jon Atkinson é o cofundador
é uma oportunidade de ter uma pri- banda é uma das mais famosas da ci- Quanto às plantas...” Ele nos faz tocar de um fundo de investimento especia-
meira experiência e depois obter o cer- dade e viaja o mundo inteiro – mas com os dedos a coisa esverdeada e ra- lizado em “empresas inovadoras”.
tificado de professor. Em New Orleans, seus membros mal têm onde cair mor- quítica plantada em frente à sua casa. Desde o meio deste ano, ele preside o
eles raramente ficam muito tempo. tos. “Muita gente está vindo para cá Plástico. “Está vendo isso? Não temos Idea Village, um grupo de empreende-
Mehok admite que há “uma rotativida- com muito dinheiro, eles compram nem o direito de arrancar essa coisa dores tech sediado no último andar do
de, como em qualquer empresa”, mas casas e bairros inteiros, forçando os horrenda para cultivar uma planta, Museu de Arte Contemporânea, como
destaca que “é também uma chance de antigos moradores a sair, então as con- uma de verdade.” Regras semelhantes que para celebrar a aliança entre di-
ter professores jovens, que ainda não dições também ficam mais difíceis pa- existem nas residências para as pes- nheiro e bom gosto. Ele nos recebe em
estão formatados”. E uma oportunida- ra os músicos”, confidencia. “Antiga- soas ricas, mas sem produzir o mesmo um ambiente furiosamente start-up,
de para seus empregadores, que pagam mente, tocávamos muito nos bares efeito punitivo. no meio de um open-space cheio de jo-
pessimamente, enquanto recebem eles turísticos da Frenchmen Street; agora Marshall sente raiva do que fize- vens barbudinhos que saboreiam seu
próprios polpudos salários – US$ 120 eles só pagam em gorjeta, o que recu- ram com seu bairro. Das cerca de 1.500 café em copinhos recicláveis. Quando
mil por ano (no caso de Mehok) até samos. Nunca foi tão difícil viver da famílias que viviam em Calliope, de- veio da Califórnia para estudar, em
mais de US$ 200 mil no caso de alguns nossa música. Para complementar, to- vem restar umas sessenta. “Na época, 2007, Atkinson, que ganha US$ 300 mil
de seus colegas. Como ela organiza o dos nós temos outros trabalhos – ven- todo mundo se conhecia, tínhamos por ano, diz ter encontrado a cidade
recrutamento? “Da maneira tradicio- dedor de loja, motorista de Uber etc.” pomares coletivos onde as pessoas em pleno “período de caos criador de
nal: publicamos um anúncio na inter- Outra proeza local: enquanto o núme- cultivavam frutas. Foi aqui que eu oportunidades”. Quando pergunta-
net, os candidatos se inscrevem, estu- ro de turistas cresce ano a ano (quase aprendi que, quando alguma coisa mos o que ele quer dizer com isso, ele
damos seu currículo e, se necessário, 18 milhões em 2017, um novo recorde), não funciona, ela pode ser melhorada dispara esta preciosidade conceitual:
chamamos para uma entrevista. É cla- os artistas que eles vêm prestigiar em- coletivamente. Hoje nem conheço “O Katrina fez de cada habitante um
ro que estamos livres para demiti-los se pobrecem a ponto de ter de levá-los de meus vizinhos. Ali na frente era um empreendedor. A necessidade de so-
eles não tiverem bons resultados, assim Uber até seu Airbnb. jardim público aonde as pessoas iam breviver obrigou todo mundo a ser
como eles estão livres para ir embora se Em New Orleans, como em muitos tocar juntas; agora é um terreno priva- criativo. Isso gravou o espírito em-
não estiverem satisfeitos.” outros lugares, a falta de moradia po- do e fechado com cerca. Para chegar preendedor em nosso DNA”.
Para os estudantes, a “oportunida- pular é a principal alavanca da gentri- ali, é preciso ser sócio de um clube es- “Se você consegue matar esta cida-
de” da qual fala a diretora não é tão ficação. Mas aqui ela não resulta ape- portivo. Naquele outro lado havia um de, você consegue matar qualquer cida-
evidente assim. Ashana Bigard, uma nas dos caprichos de um mercado bar, uma lavanderia e lojas, todos toca- de”, dizia um morador de New Orleans
assistente social que dá apoio legal deixado livre: é fruto de um implacável dos por irmãos negros; agora, só tem em 2006.7 Doze anos depois, no final da
aos pais de alunos em conflito com a trabalho de demolição. Entre 2006 e essas casinhas de papelão.” Canal Street, uma incorporadora de
escola, acredita que o sucesso político 2014, os quatro principais conjuntos Como organizador de lutas sociais, Massachusetts está transformando o
do modelo charter reside precisamen- habitacionais que compunham o uni- Marshall enfrenta outra realidade da World Trade Center em um gigantesco
te em seu caráter disciplinar. “Eles verso da moradia popular da cidade, gentrificação: enquanto, em dez anos, hotel cinco estrelas. A prefeitura contri-
chamam isso de regra no excuse”, ex- totalizando 4.500 unidades habitacio- os aluguéis aumentaram entre 50% e buiu copiosamente para o financia-
plica. “As crianças têm de andar em nais, foram todos destruídos. Essa 100%, dependendo do bairro, sobretu- mento dessa obra de US$ 465 milhões,
fila, como galinhas; algumas escolas ideia também já estava no armário an- do por causa da desregulamentação onde labutam os invisíveis da gentrifi-
onde os estudantes negros são ultra- tes do Katrina. Desde a década de 1990, do mercado especulativo das casas de cação. Em seu site, a incorporadora ex-
majoritários simplesmente suprimi- um programa federal aprovado du- veraneio e da proliferação do Airbnb, o plica que o restaurante panorâmico
ram a recreação. Crianças em idade rante a presidência de Bill Clinton sub- salário mínimo, do qual vive grande que ocupará os dois últimos andares do
escolar são punidas quando se encos- sidia a destruição de moradias sociais parte dos negros na cidade, não au- prédio oferecerá uma “celebração da
tam a uma parede, colocam a cabeça e sua substituição por residências para mentou. Ainda está em US$ 7,25 a ho- cultura afro-americana na Louisiana: a
na mesa ou usam uma blusa cuja cor “rendas intermediárias”. Com esse ra, o nível mais baixo permitido nos música, a comida e as tradições”.
não é permitida.” Mas o pior, segundo presente para as incorporadoras, a Estados Unidos. Dezenas de milhares
ela, é a regra que impõe o silêncio no prefeitura de New Orleans já havia co- de trabalhadores têm de se virar com *Olivier Cyran é jornalista e autor, com Ju-
refeitório e durante a sesta: “Para meçado, desde a virada para o ano essa miséria, especialmente nos seto- lien Brygo, de Boulots de merde! Du cireur au
crianças de 4 a 8 anos, uma proibição 2000, a planejar o desmantelamento res da construção e do turismo. Muitos trader. Enquête sur l’utilité et la nuisance so-
como essa pode prejudicar o desen- dos conjuntos. Mas as tentativas cho- se levantam às 4 ou 5 horas da manhã ciales des métiers [Empregos de merda! Do
volvimento das emoções sociais”. cavam-se com uma forte resistência. O para chegar ao trabalho e voltam à sapateiro ao corretor financeiro. Pesquisa so-
As charter schools são uma ferida estado de perplexidade provocado pe- noite com US$ 60 no bolso, menos o bre a utilidade e o prejuízo social das profis-
tão dolorosa para Bigard que ela está lo Katrina e o clima de corrida do ouro preço do ônibus. “Que vida é essa? Co- sões], La Découverte Poche, Paris, 2018.
pensando em ir embora da cidade on- que tomou conta da elite facilitaram a mo você acha que a pessoa está quan-
de nasceu. “Quero que meu filho transformação do plano em ato. do chega o fim da semana? Fomos afo- 1 Episódio contado por Peter Moskowitz, How to Kill
aprenda música na escola, mas aqui Morador histórico de Calliope, an- gados pelo Katrina e, no fim das A City: Gentrification, Inequality, and the Fight for
isso já não é possível. Era, antes do Ka- tigo conjunto habitacional de tijolos contas, continuamos nos afogando.” the Neighborhood [Como matar uma cidade: gen-
trificação, desigualdade e luta pela vizinhança],
trina: havia aulas de música em todas vermelhos do distrito de Uptown, Marshall e seus camaradas da Stand Nation Books, Nova York, 2017.
as escolas; foi nelas que muitos músi- Marshall nos leva para ver o que resta with Dignity estão mobilizados em tor- 2 Chelsea Brasted, “New Orleans suicides skyroc-
cos aprenderam a tocar. Hoje isso aca- dele: pequenas casas pré-fabricadas, no da reivindicação do salário mínimo keted after Katrina. Here’s where we are now” [Dis-
parada de suicídios após o Katrina. Onde estamos
bou. Meu tio-avô, Barney Bigard, era montadas às pressas e gerenciadas por de US$ 15, mas na Louisiana essa é uma agora], The Times Picayune, 29 mar. 2018.
um grande clarinetista de jazz, tocou uma incorporadora do Missouri ligada luta dura. Em março de 2018, o Senado 3 Cf., por exemplo, Beth J. Harpaz, “10 years after
com Duke Ellington e Louis Arms- ao banco Goldman Sachs. A que ele local rejeitou uma enésima proposta Katrina, New Orleans’ tourism industry a textbook
success story of rebirth” [Dez anos após o Katrina,
trong, e meu filho não tem nem acesso ocupa faz parte da cota de unidades para elevar o piso legal de US$ 7,25 para turismo em New Orleans é um modelo de sucesso
a um instrumento.” reservadas aos locatários sociais, o US$ 8. Eles preferem se desdobrar para em termos de renascimento], Associated Press,
que pode ser identificado pela porta da agradar os patrões. Foram muitos os in- 13 ago. 2015.
4 David Brooks, “Katrina’s Silver Lining” [O lado bom
DE MÚSICOS A MOTORISTAS DE UBER frente pintada de roxo. “A da minha vi- centivos fiscais criados para estes ao do Katrina], The New York Times, 8 set. 2005.
Na cidade-mãe dos músicos negros zinha é amarela, porque ela paga um longo dos anos, chegando agora a 80% 5 James Lee Burke, La Nuit la plus longue [A mais
norte-americanos, onde a embriaguez aluguel mais caro. Somos proibidos de do valor inicial das taxas e impostos. longa das noites], Payot-Rivages, Paris, 2011.
6 Ler Diane Ravitch, “Volte-face d’une ministre amé-
do som toma conta de você a cada pas- pintá-las. Aliás, tudo é proibido aqui: Em 2016, no momento de deixar o car- ricaine” [A mudança de opinião de uma ministra
so, a consideração dada aos músicos fazer churrasco, comer do lado de fora go, o governador republicano Bobby dos Estados Unidos], Le Monde Diplomatique,
também diz muito sobre as mudanças com os amigos, tocar música. O regu- Jindal fez a seguinte confissão pública: out. 2010.
7 Filmado por Spike Lee em seu documentário sobre
em curso. “Sempre foi difícil, mas está lamento não deixa nem sentar no al- “A verdade é que criamos um Estado de o furacão Katrina, When the Levees Broke [Quan-
cada vez pior”, suspira Bennie Pete, pendre, coisa que fazemos nesta cida- bem-estar para as empresas”. do os diques se romperam], HBO, 2006.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 17

“SINERGIA ENTRE O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E ESPIRITUAL”

Cosmismo, uma velha ideia


russa para o século XXI
Desde o fim da União Soviética, as elites russas procuram por ideologias alternativas. Conjugando cristianismo,
racionalismo e sonho de imortalidade, o cosmismo, uma corrente de pensamento nascida no século XIX, oferece
um quadro adequado para casar o relançamento dos programas científicos com a afirmação de valores tradicionais
POR JULIETTE FAURE*

E
m Moscou, no meio deste ano, o Em vez de celebrar o progresso,
© Dage / cc

Centro Pan-Russo de Exposi- Fiodorov pregava o culto aos antepas-


ções (antigo Parque de Exposi- sados. De maneira inédita, defendia o
ção das Realizações da Econo- uso da ciência em benefício de uma
mia Nacional, VDNKh) recuperou a única “causa comum”: a ressurreição
aura de grande atração turística de que dos mortos, considerada a tarefa mo-
gozara durante a era de ouro soviética. ral suprema da sociedade. Segundo
Vitrine do orgulho nacional, o parque é ele, “a unificação [dos vivos] em prol
um lugar crucial de representação do da ressurreição [é] o ato de criar ir-
poder russo. Construído em 1934, ele mãos, criar almas, criar vida, ao passo
celebrava a coletivização da agricultu- que o distanciamento dos filhos em re-
ra. Nos anos 1960, ali se podiam admi- lação às cinzas de seus pais cria socie-
rar os sucessos tecnológicos e indus- dades sem vida e sem alma”. Ele pro-
triais da economia soviética. Com o punha concretamente reunir e trazer
fim da experiência comunista, o par- de volta à vida as partículas desinte-
que foi desintegrado. A peça central da gradas dos ancestrais. Como a Terra
exposição, o Pavilhão do Cosmos, foi seria pequena demais para abrigar es-
esvaziado para dar lugar a um merca- sa humanidade imortal, Fiodorov
do, símbolo da década de 1990, marca- imaginava a conquista e a ocupação
da pela privatização da economia. do espaço. Assim, ele pretendia em-
Em 2014, porém, por iniciativa do pregar os avanços técnicos para do-
prefeito de Moscou, o parque recupe- mar a “força cega da natureza” e trans-
rou seu prestígio com a adoção de um formá-la “na ferramenta da razão
amplo plano de desenvolvimento, in- Busto em bronze na cidade de Veneza, Itália, em homenagem ao cosmonauta Yuri Gagarin coletiva e da vontade una e coletiva”.
cluindo a restauração de 37 pavilhões e Positivista e até mesmo transuma-
a abertura de onze novos museus. As- no, o aparelho traduz instantaneamen- resposta ao incitamento à ação política nista precoce, Fiodorov é ao mesmo
sim, quatro anos depois, a multidão te: “O pavilhão dos robôs está localizado expresso pela célebre pergunta do re- tempo um pensador religioso. Sua
atraída pela Copa do Mundo também perto da Fonte da Amizade dos Povos”. volucionário Nikolai Tchernichevski – ideia do homem-deus, causa e agente
teve a oportunidade de passear entre a E lá vão os visitantes observar um robô- “O que fazer?” –, alargou-se o fosso en- de sua própria salvação, é inspirada
famosa estátua O operário e a campo- -artista desenhando retratos ao lado de tre os partidários do materialismo em uma interpretação original da fi-
nesa, feita em 1937 pela artista Vera um robô-violinista e de um robô-Push- marxista e os defensores do dogmatis- gura do Cristo ressuscitado e em sua
Mukhina, um símbolo da sociedade kin, que recita poemas. Na saída, um mo religioso, nacionalista e antioci- obra de transformação milagrosa da
bolchevique, e a exposição “Rússia, mi- cartaz com os dizeres “Em breve, aqui, dental. Nikolai Fiodorov, hoje identifi- natureza. Seu modelo de sociedade or-
nha história”, preparada pelo Conselho o primeiro café-robô da Rússia” parece cado como fundador do “cosmismo”, ganiza-se em torno da ressurreição, na
Cultural do Patriarcado da Igreja Orto- saído de um romance de Vladimir So- propôs uma terceira via, na confluên- medida em que ela representa “o
doxa. Dentro da exposição, o público rokin, escritor russo muito na moda cia dessas linhas ideológicas. triunfo completo da lei moral sobre a
pôde circular entre hologramas e telas cujas histórias de ficção científica fa- Marginal e asceta, Fiodorov (1823- necessidade física” e a construção de
interativas que reconstruíram a histó- lam de teocracias neomedievais servi- 1903) ganhava alguns rublos por mês um vínculo intergeracional entre vi-
ria czarista, além de paredes repletas das por novas tecnologias.1 como funcionário da Biblioteca Cen- vos e mortos, “à imagem e semelhança
de citações de pensadores eslavófilos, tral de Moscou. Ele concordava com a da Santíssima Trindade”. Ele defende,
eurasianos ou cristãos. Tudo a serviço ESQUECER A SALVAÇÃO DIVINA constatação de Karl Marx: filósofos e portanto, um cristianismo científico
de uma mensagem clara, apoiada por Na Rússia, essa aliança entre ciên- cientistas já interpretaram bastante o que requer um trabalho moral e técni-
uma declaração do presidente Vladi- cia e religião desafia os termos da gran- mundo, chegou a hora de transformá- co sobre a natureza. A salvação não é
mir Putin: “Foi a ortodoxia que deu à de querela ideológica do século XIX en- -lo. Ele exibia a mesma fé na ciência e mais um milagre a ser esperado de
antiga Rússia seu poderoso impulso tre os ocidentalistas, defensores da na técnica que os positivistas de seu Deus, mas a causa da humanidade,
rumo ao desenvolvimento e à difusão ciência e das tecnologias ocidentais, e tempo, mas era hostil à ideia de pro- que assume sua responsabilidade cós-
da cultura, da educação e das Luzes”. os eslavófilos, defensores das tradições gresso, que, segundo ele, levava ao sa- mica ao espalhar sua atividade para
Mais adiante, um conjunto de atra- russas e da ortodoxia. O fim do século crifício das gerações passadas em no- além do globo terrestre.
ções em realidade virtual prometia foi, assim, assombrado pela busca por me do bem futuro: “O progresso é Fiodorov imediatamente despertou
“emoções irreais para toda a família”. uma “ideia nacional”, a “Ideia Russa”, precisamente a produção de coisas o interesse e a admiração de seus con-
Na entrada, muito solicitada pelos tu- capaz de definir a identidade e o desti- mortas; ele anda de mãos dadas com a temporâneos: Fiodor Dostoievski elo-
ristas, uma recepcionista consulta o no do povo, bem como seu papel na expropriação de pessoas vivas. Ele po- giou suas ideias, Leon Tolstoi o consi-
smartphone antes de mostrá-lo ao gru- história universal e sua vocação para de ser chamado verdadeira e efetiva- derava santo, e o teólogo Vladimir
po: em um inglês com sotaque vitoria- unir e transformar a humanidade. Em mente de inferno”.2 Soloviov, mestre. Mais tarde, o filósofo
18 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

Nicolas Berdiaev, expulso da União So- gou a ser citado em 1928 em um seus defensores o apresentam como Chubais, ex-vice-presidente do gover-
viética em 1922, escreveria que o pen- discurso de Mikhail Kalinin, futuro um pensador religioso, cujos ensina- no responsável pelo programa de pri-
samento de Fiodorov, “uma mistura chefe do Estado soviético, então mem- mentos abriram uma terceira fase após vatização da economia pós-soviética
de fé cristã e fé no poder da ciência e bro do Politburo. o Antigo e o Novo Testamento – a fase durante a presidência de Boris Yeltsin.
da técnica”, continha “muitos ele- Graças à revolução científica do iní- de um cristianismo ativo”.8 Mas o progresso técnico-científico
mentos dignos de ser retidos e inte- cio do século XX, o cosmismo difun- As referências cosmistas incorpo- também se combina com uma retóri-
grados na Ideia Russa”. Acrescentan- diu-se para além das fronteiras russas. raram os mais altos níveis de reflexão ca romântico-nacionalista, particu-
do: “Não conheço um pensador mais Na França, o padre e paleontólogo sobre o poder russo. Em 1994, o Minis- larmente nos setores estatais da defe-
tipicamente russo”.3 Pierre Teilhard de Chardin foi marcado tério da Defesa fundou o Instituto de sa e da conquista espacial. “Nosso
Além de Fiodorov, muitos intelec- por seu encontro com o geoquímico Noocosmologia, na Universidade Mi- país está destinado a se tornar uma
tuais ou artistas colocaram a inovação cosmista russo Vladimir Vernadsky, litar do Ministério da Defesa, com a grande potência espacial desde o nas-
técnica a serviço de uma busca espiri- que ofereceu uma série de palestras na missão de estudar as “hierarquias cós- cimento de nosso Estado”, afirma
tual e de uma meditação cósmica. É o Sorbonne. Com base na figura de um micas”, ou a “Razão Superior”, o senti- Dmitry Rogozin, presidente da agên-
caso da vanguarda russa, tanto no pe- Cristo cósmico, Teilhard de Chardin do e o propósito do Universo. Em 1995, cia espacial Ruscosmos e represen-
ríodo imperial como no soviético. Com desenvolveu uma compreensão teoló- um membro do Conselho de Seguran- tante da ala nacional-conservadora
seu poema sinfônico “Prometeu”, Ale- gica das descobertas científicas e do ça da Federação Russa, órgão consulti- do governo. “Isso estava predetermi-
xander Scriabin (1871-1915) explorou aperfeiçoamento tecnológico das ca- vo ligado ao presidente, propôs colo- nado pelo caráter nacional do povo
uma linguagem musical simbolista e pacidades humanas. Ele declarou-se car o cosmismo na base da identidade russo, acostumado a pensar em cate-
dissonante, libertada da gravidade to- “apaixonadamente seduzido e satisfei- nacional russa.9 gorias globais e pronto a sacrificar sua
nal e orientada para um acorde “místi- to por uma Cruz na qual se sintetizam Hoje, sem reivindicarem direta- vida por uma ideia. [...] [O cosmos] é
co” e “sintético”. Associando os sons às os dois componentes do futuro: o mente o cosmismo, alguns ideólogos um sinônimo do mundo russo. Logo, a
cores e luzes, perseguiu a busca por Transcendente e o Ultra-Humano”,6 nacional-patrióticos também tentam Rússia não pode viver sem o cosmos,
uma harmonia “radiante”, com a ima- um prelúdio do conceito de “transu- combinar o desenvolvimento tecnoló- fora do cosmos. Ela não pode conter
terialidade e a leveza cósmicas. Em mano” concebido pelo biólogo e teóri- gico ao tradicionalismo moral e reli- seus sonhos de conquistar o desco-
suas reflexões sobre seu projeto inaca- co do eugenismo Julian Huxley. gioso. Esse é o sentido do “conserva- nhecido, que atrai a alma russa.”13
bado, intitulado Mistério, ele imaginou dorismo dinâmico” promovido pelo Foi nesse espírito que, no meio des-
a composição de uma obra total, mobi- Clube de Izborsk, um think tank que te ano, o Pavilhão do Cosmos voltou a
lizando todos os sentidos, cuja execu- tem entre seus membros Sergei Glaz- abrir suas portas no Centro Pan-Russo
ção englobaria a humanidade e o uni- Mas o progresso yev, conselheiro do presidente, o inte- de Exposições, testemunhando a reto-
verso, até sua extinção no êxtase. A técnico-científico lectual nacionalista Alexander Dugin10 mada de um programa espacial robus-
superação do peso e da matéria, bem também se combina e a ex-deputada Natalya Narochnit- to. Entre 2016 e 2025, tal programa pre-
como a reflexão sobre a origem e a cria- skaya, fundadora de um instituto pró- vê a criação de complexos espaciais
ção do Universo também inspiraram
com uma retórica ximo da Igreja Ortodoxa em Paris. “O para controlar a atividade solar e a me-
as pinturas de Wassily Kandinsky romântico-nacionalista, objetivo da ideologia proposta e do teorologia espacial, a criação de uma
(1866-1944) e sua evolução rumo à abs- particularmente nos programa de reformas é criar um cen- nova geração de naves para transporte
tração geométrica. Na literatura, o es- setores estatais tauro com a ortodoxia e a economia da de pessoas e o lançamento de cinco
critor Andrei Platonov (1899-1930) inovação, com base em uma elevada ônibus espaciais automáticos para ini-
imaginou um cosmos “hominizado” e espiritualidade e na tecnologia de alto ciar a primeira fase do programa de
conquistado pela “antropotécnica”. nível”, diz Vitali Averianov, seu vice- ocupação da Lua. Dentro do pavilhão,
Após a Revolução Bolchevique, o O stalinismo pôs fim à explosão -presidente. “Esse centauro será o ros- abundam as citações de Tsiolkovsky, o
cosmismo, como filosofia que convi- criativa da década de 1920 na União to da Rússia no século XXI.”11 pensador e físico cosmista, honrando
dava a humanidade a evoluir para Soviética. Mas o utopismo cosmista Na cúpula do Estado, a defesa dos a ambivalência racionalista e espiri-
uma nova fase de gestão ativa do Uni- renasceu, em uma versão estritamente valores tradicionais acomoda facil- tualista do autor: “Primeiro vêm o
verso e melhoria técnica da condição tecnicista, durante a idade de ouro da mente a promoção do progresso técni- pensamento, as fantasias e os contos
humana, adaptou-se bem ao otimis- conquista do espaço, inaugurada com co-científico. De um lado, Putin pro- de fadas, depois o cálculo científico”.
mo e ao cientificismo da nova socieda- o lançamento do primeiro satélite, em move as “religiões tradicionais” e a A síntese entre modernização tec-
de soviética. As experiências relacio- 1957, seguido pelo primeiro voo de “sexualidade tradicional”.12 De outro, nológica e tradicionalismo religioso é
nadas à biotecnologia da década de Yuri Gagarin para o espaço, em 1961. A pede uma hipermodernização tecnoló- simbolizada pela recente construção
1920 buscaram a realização de um su- filosofia de Fiodorov continuou sendo gica. No discurso proferido em 1º de de uma igreja ortodoxa no coração da
per-homem tecnicamente aprimora- uma das únicas a competir com a rup- março de 2018 como programa de seu Cidade das Estrelas, o centro de treina-
do. Com suas pesquisas sobre a rege- tura revolucionária, apesar da censu- próximo mandato, ele anunciou a “su- mento dos cosmonautas russos. Quan-
neração física por meio da transfusão ra. Último filósofo religioso a ser men- pressão de qualquer barreira para o de- do foi consagrar a nova igreja, em 2010,
de sangue, o médico Alexander Bog- cionado na União Soviética, ele senvolvimento e o amplo uso de equi- o patriarca da Igreja Ortodoxa, Kirill,
danov compartilhava da convicção de também foi o primeiro a ser republica- pamentos robóticos, inteligência explicou o significado religioso do cos-
Fiodorov de que a ciência seria capaz do, na década de 1970. Foi então que artificial, carros sem motoristas, e-com- mos: “O Senhor nos convidou a habitar
de melhorar a natureza humana. acadêmicos e intelectuais reuniram merce e tecnologias de processamento e conquistar nosso planeta e todo o
Em Konstantin Tsiolkovsky, encon- sob o termo “cosmismo” um conjunto de big data”. O governo multiplicou os Universo. É por isso que o desejo do ho-
tramos o desejo de aperfeiçoar e trans- heteróclito de teólogos, cientistas e ar- esforços para promover o desenvolvi- mem de subir às estrelas não é um ca-
figurar a humanidade por meio da tistas afiliados à sua obra.7 mento tecnológico do país: criação de pricho, uma fantasia ou uma moda,
ciência. O inventor da astronáutica Desde o fim da União Soviética, o tecnopolos em Skolkovo e Akademgo- mas um programa implantado por
moderna e pai do programa espacial renovado interesse pelo cosmismo ins- rodok, fundação de campeões nacio- Deus na natureza humana”.14
soviético antecipou a ocupação do creve-se na busca por uma nova Ideia nais responsáveis por desenvolver no- Se a astronáutica foi uma das pon-
cosmos e a perda da corporeidade e da Russa. Da mesma forma que o eurasia- vas tecnologias, como a Rusnano e a tas de lança do ateísmo de Estado sob
individualidade dos seres humanos nismo ou o eslavofilismo, o cosmismo Rustec, ou ainda instalação de grandes Nikita Kruchev, atualmente, ao con-
em favor da evolução para um estado foi mobilizado nos anos 1990 para re- infraestruturas de pesquisa no âmbito trário, a união da ciência e da fé é de-
de “radiação”, “imortal no tempo e in- fundar uma ideologia nacional capaz do projeto federal “megaciência”. fendida pelas autoridades religiosas.
finito no espaço”.4 O utopismo imorta- de suceder ao comunismo. O alemão O tema da modernização tecnoló- Gagarin, que voltou do espaço decla-
lista também guiou os planos do ar- Michael Hagemeister, especialista na gica é sustentado principalmente pela rando que “não viu Deus”, é apresenta-
quiteto Konstantin Melnikov, que obra de Fiodorov, vê aí uma tentativa franja liberal e tecnocrática do poder, do como um crente que sugeriu re-
projetou o primeiro sarcófago de Le- de manipulação ideológica: “Sob a herdeira direta da elite política da dé- construir a Catedral de Cristo Salvador
nin.5 O pensamento de Fiodorov pene- União Soviética, Fiodorov era conside- cada de 1990. Prova disso é a presença, destruída por Stalin. “Todos os gran-
trou até nos círculos políticos. Ele che- rado um ‘materialista puro’, e agora à frente da Rusnano, de Anatoly des cientistas que estudaram o espaço
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 19

e procuraram conhecer as leis e a es- tecnologia e religião. Em 2016, o centro tecnologias são invocadas como fun-
trutura do Universo eram em geral organizou uma mesa-redonda com to- damento de uma “nova realidade fu-
profundamente religiosos ou, no final, ques cosmistas: “Aliança entre a fé e a turista”. Em 2011, em uma carta ao
alcançaram a fé, sabendo que o mun- ciência, uma interação em benefício presidente Dmitry Medvedev, Itskov
do só poderia ser organizado por um da Rússia”. Nela, o patriarca Kirill de- louvava nos seguintes termos seu pro-
Criador Inteligente. [...] Podemos dizer clarou que “as formas religiosa e cien- grama: “A imortalidade deve se tornar
com certeza que Sergei Korolev [enge- tífica de entender o mundo não se con- nossa ideia nacional”.21 O olhar da cidadania
nheiro que fundou o programa espa- tradizem”.18 No mesmo espírito de
cial soviético] era religioso”, declarou convergência, o conselheiro científico *Juliette Faure é doutoranda na Sciences
o padre Ioff, capelão da igreja da Cida- do Centro Federal de Pesquisa Nuclear Po, Centro de Pesquisas Internacionais (Ce-
de das Estrelas.15 lembrou o apoio essencial da Igreja ao ri), Centro Nacional da Pesquisa Científica
programa nuclear nos anos 1990, con- (CNRS), França.
firmando que a instituição religiosa e a
ciência continuam sendo parceiros es- Na luta
“É difícil para tratégicos, sem os quais “o futuro da
mim acreditar Rússia é impossível”.19 1 Cf. Vladimir Sorokin, Journée d’un opritchnik [O dia

pela
de um oprichnik], L’Olivier, Paris, 2008; e Le Kremlin
que se possa viajar Essa parceria também pode ser vis- en sucre [O Kremlin de açúcar], L’Olivier, 2011.
ta no ensino superior. Não menos que 2 Essa citação e as seguintes são de Nikolai Fiodorov,
pelo cosmos cinquenta universidades laicas têm “La Philosophie de l’œuvre commune” [Filosofia da
e não ver Deus, um departamento de teologia. O mais
causa comum]. In: Jean-Claude Polet (org.), Patri-
moine littéraire européen: anthologie en langue fran-
não sentir
Sua presença”
emblemático deles, criado em 2013 no
prestigiado Instituto de Engenharia
Física de Moscou (MEPhI), está sob a
çaise. 12, Mondialisation de l’Europe: 1885-1922
[Patrimônio literário europeu: antologia em língua
francesa. 12, Mundialização da Europa: 1885-1922],
construção
Universidade De Boeck, Bruxelas, 2000.
direção do metropolita Hilarion, dire- 3 Nicolas Berdiaev, L’Idée russe [A Ideia Russa],

de uma
tor do Departamento de Relações Ex- Mame, Paris, 1969.
4 Michael Hagemeister, “Konstantin Tsiolkovskii and
O cosmonauta Valery Korzun, herói teriores da Igreja Ortodoxa. “Qual é a the occult roots of Soviet space travel” [Konstantin
nacional e atual comandante do trei- relação entre teologia e pesquisa nu- Tsiolkovsky e as raízes ocultas da viagem soviética
namento de voo dos novos cosmonau- clear?”, perguntou no discurso de ao espaço]. In: Michael Hagemeister, Bernice
Glatzer Rosenthal e Birgit Menzel, The New Age of

sociedade
tas, também se empenha em contradi- inauguração. “Dada a especificidade Russia: Occult and Esoteric Dimensions [A Nova
zer o diagnóstico da morte de Deus do MEPhI e o papel único que a uni- Era russa: dimensões ocultas e esotéricas], Peter
atribuído a Gagarin: “É difícil para mim versidade desempenha em nosso sis- Lang, Berlim-Munique, 2012.
5 Leonid Heller e Michel Niqueux, Histoire de l’utopie
acreditar que se possa viajar pelo cos- tema de ensino, estou convencido de en Russie [História da utopia na Rússia], Presses
mos e não ver Deus, não sentir Sua pre- que o Departamento de Teologia desta
mais justa,
Universitaires de France, Paris, 1995.
sença”, declarou a uma revista ortodo- universidade em particular pode ter 6 “Croix d’expiation et croix d’évolution” [Cruz de ex-
piação e cruz de evolução]. In: Attila Szekeres
xa.16 As relações entre a Ruscosmos e a uma função inovadora fundamental (org.), Le Christ cosmique de Teilhard de Chardin
Igreja Ortodoxa vão muito bem, diz na promoção do diálogo entre religião [O Cristo cósmico de Teilhard de Chardin], Seuil-
Korzun: a pedido de um executivo da e ciência natural. Esse diálogo é neces- -Uitgeverij de Nederlandse Boekhandel, Paris-An-

solidária e
tuérpia, 1969.
Ruscosmos, o padre Ioff foi benzer os sário tanto para os portadores do co- 7 Cf. George M. Young, The Russian Cosmists: The
foguetes no cosmódromo de Baikonur. nhecimento científico como para os Esoteric Futurism of Nikolai Fedorov and His Fol-
A síntese entre progresso técnico e guardiões das tradições religiosas”.20 lowers [Os cosmistas russos: o futurismo esotéri-
co de Nikolai Fiodorov e seus seguidores], Oxford
religião também se opera no campo Essa hibridização da formação tam- University Press, Nova York, 2012.
nuclear. É a “ortodoxia atômica”, con-
cebida pelo ideólogo conservador Egor
bém pode ser encontrada nas fileiras
da Igreja, que reúne uma geração for-
8 Cf. Andrey Shental, “The Hybrid Ideology” [A ideo-
logia híbrida], entrevista com Michael Hagemeis-
ter, Inrussia. Disponível em: <http://inrussia.com>.
sustentável.
Kholmogorov, que leva além uma de- mada em universidades técnicas e 9 Michel Hagemeister, “Y a-t-il un ‘cosmisme russe’,
claração anterior de Putin.17 Em uma científicas na União Soviética. et a-t-il jamais existé?” [Existe “cosmismo russo”?
coletiva de imprensa, em fevereiro de No entanto, embora compartilhe Já existiu?], manuscrito não publicado, 2012.
10 Ler Jean-Marie Chauvier, “Eurasie, le ‘choc des ci-
2007, ele declarou que a ortodoxia e a com o cosmismo a recusa em separar vilisations’ version russe” [Eurásia, o “choque de
estratégia nuclear do país “estão liga- fé e razão, o discurso da Igreja Ortodo- civilizações” versão russa], Le Monde Diplomati-
das, uma vez que as religiões tradicio- xa condena o antropocentrismo radi- que, maio 2014.
nais da Federação Russa e a proteção cal de Fiodorov, que substitui a obra de
11 Vitali Averianov, “É preciso mais gente” (em russo),
Zavtra, Moscou, 14 jul. 2010. Quartas, às 17h,
nuclear da Rússia são os elementos Deus pela do homem. Do mesmo mo- 12 Ler Anaïs Llobet, “Échange de bons procédés en- Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM
que consolidam o Estado russo e criam do, ela se opõe claramente a uma in- tre le Kremlin et l’Église orthodoxe” [Troca de gen-
tilezas entre o Kremlin e a Igreja Ortodoxa], Le Ribeirão Preto: 107,9 FM)
as condições necessárias para a segu- terpretação tecnófila da Ideia Russa Monde Diplomatique, mar. 2018.
rança interna e externa do país”. promovida pelos transumanistas, 13 Dmitry Rogozin, “Sem o cosmos, a Rússia não
também por meio do cosmismo, bem pode realizar seus sonhos” (em russo), Rossiyska-
ya Gazeta, Moscou, 11 abr. 2014.
Quartas, à meia-noite
“ALIANÇA ENTRE FÉ E CIÊNCIA” como ao Projeto 2045, movimento 14 Cf. o site da Igreja da Transfiguração do Senhor: TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da
Esse amálgama tomou corpo na ci- fundado pelo oligarca Dmitry Itskov, <http://zvezdnyi.moseparh.ru/istoriya-xrama>.
15 Entrevista com o padre Ioff, da Igreja da Transfigu- Vivo Fibra e 186 da Vivo.
dade de Sarov, que é ao mesmo tempo que financia a pesquisa em genética
ração do Senhor, 4 dez. 2013. Disponível em:
um lugar santo ortodoxo, onde foi rea- molecular, neurociências e próteses <www.zvezdnyi.moseparh.ru>.
lizada a última canonização do impé- neurais para permitir o prolongamen- 16 “Com Deus no cosmos” (em russo), 12 abr. 2016.
rio czarista, e o local das instalações to da vida e a criação de avatares an- Disponível em: <www.pravoslavie.ru/92375.html>.
17 Cf. Maria Engström, “Contemporary Russian mes-
secretas de desenvolvimento do pro- droides conectados a um cérebro hu- sianism and new Russian foreign policy” [Messia-
grama nuclear soviético. Em 2012, o mano e dotados de consciência. Em nismo russo contemporâneo e a nova política exter-
patriarca Kirill e Sergei Kiriyenko, en- uma filiação explícita ao cosmismo, o na russa], Contemporary Security Policy, v.35, n.3,
Maastricht, 2014. observatorio3setor
tão diretor-geral da agência nuclear manifesto do movimento invoca a 18 “Discurso de Sua Santidade o patriarca Kirill du-
russa Rusatom e agora diretor da ad- chegada de uma “neo-humanidade”, rante reunião com cientistas em Sarov” (em russo),
ministração presidencial, fundou ali caracterizada, entre outras coisas, por 1º ago. 2016. Disponível em: <www.patriarchia.ru/
um centro espiritual e científico dedi- uma “sinergia entre o desenvolvimen-
db/text/4579909.html>. observatorio3setor
19 Ver relatório da reunião no site do Patriarcado da
cado a reunir cientistas, acadêmicos, to tecnológico e espiritual” e pela ca- Igreja Ortodoxa Russa: <www.patriarchia.ru/db/
representantes da Igreja Ortodoxa, pacidade de “se unir em um único es- text/4580022.html>.
membros do governo e empresários pírito coletivo imenso, a noosfera”.
20 Discurso do metropolita Hilarion, 16 out. 2012. www. observatorio3setor.org.br
Disponível em: <www.mospat.ru>.
para discutir as ligações entre ciência, Assim, espiritualidade, ciência e novas 21 Ver site do movimento: <www.2045.ru>.
20 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

CLASSES POPULARES E INJUSTIÇA FISCAL

Na origem do ódio ao imposto


A mobilização na França contra os impostos sobre os combustíveis pôs em evidência um sentimento de injustiça fiscal
expresso, sobretudo, pelos assalariados subalternos e pelos pequenos autônomos. Em um país onde o imposto continua sendo
uma alavanca para a redistribuição, como explicar que ele seja contestado por quem está no ponto mais baixo da escala social?
POR ALEXIS SPIRE*

“C
hega de impostos”, “Macron Tio
Patinhas”, “Ir trabalhar se tor-
nou um luxo”, “Direita, esquer-
da = impostos”, “Basta de extor-
são, a revolta do povo poderoso levará
à revolução”... A variedade de slogans
gritados durante as manifestações dos
“coletes amarelos” (motoristas de car-
ro) que bloquearam os principais ei-
xos de circulação de veículos da Fran-
ça para protestar contra a alta dos
impostos sobre os combustíveis, em 17
de novembro, evoca ao mesmo tempo
um movimento politicamente mutan-
te e um ódio voltado contra um objeto
bem preciso: os impostos, fundamen-
to do Estado social.
Ao longo do século XX, as classes
populares se mantiveram relativa-
mente distantes da questão fiscal. A
instauração do imposto de renda pro-
gressivo, logo após o fim da Primeira
Guerra Mundial, suscitou antes de tu-
do uma rebelião das profissões libe-
rais, dos trabalhadores independentes
e dos camponeses, unidos em associa-
ções de contribuintes.1 Depois, com
exceção do período da Frente Popular
(1936-1938), o tema da injustiça fiscal
continuou a ocupar apenas um lugar
marginal no movimento operário, em
comparação, sobretudo, com as rei-
vindicações salariais ou a defesa do
emprego. Mesmo o caráter iníquo das
taxas indiretas sobre o consumo, co-
mo a Taxa sobre o Valor Agregado
(TVA), que representa cerca de metade
das receitas fiscais quando o imposto
de renda representa apenas um quar-
© Hallina Beltrão

to, raramente mobilizou sindicatos e


partidos de esquerda.
Após alguns anos, contudo, a con-
testação do imposto recobrou ânimo,
a ponto de se impor como a aposta
principal das lutas contra a austerida-
de. Em Portugal, em maio de 2010, de-
zenas de milhares de pessoas se mani- depois, operários franceses de fábricas interferir na repartição primária das impor uma taxa de 75% sobre a parte
festaram contra a alta de impostos e os agroalimentares, ameaçados de de- rendas entre salários e lucros. Em al- das rendas que ultrapassasse 1 milhão
cortes orçamentários. Um ano depois, missão, se uniram ao movimento dos guns anos, a questão social, formulada de euros por ano permitiu a François
na Espanha, centenas de milhares de “bonés vermelhos” lançado pelos agri- em termos de partilha de benefícios, Hollande dar um colorido popular a
“indignados” se mobilizaram contra o cultores e pequenos empresários para cedeu lugar a uma questão fiscal, ins- seu programa, mas a medida foi con-
rigor orçamentário, as privatizações e pôr em xeque a ecotaxa. trumentalizada para aliciar o eleitora- cebida de maneira tão precária que o
o aumento da TVA – que havia passado A inversão de termos do debate fis- do popular. Em 2007, o slogan de Nico- Conselho Constitucional não teve tra-
de 4% para 21% para o material esco- cal decorre, inicialmente, das políticas las Sarkozy, “Trabalhar mais para balho algum para impugná-la. Em
lar. Na Grécia, assalariados dos setores públicas. Com o agravamento do de- ganhar mais”, e seu projeto de desone- 2017, Emmanuel Macron utilizou tam-
público e privado saíram às ruas a fim semprego em massa e a intensificação ração fiscal das horas extras seduzi- bém a supressão da taxa de habitação
de protestar contra os cortes de salá- da concorrência internacional, os go- ram numerosos empregados e operá- para contrabalançar sua imagem de
rios e a injustiça fiscal. Alguns meses vernantes foram aos poucos evitando rios. Cinco anos depois, a promessa de candidato das elites, antes de anun-
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 21

ciar finalmente que ela se estenderia lecida em 2017, nunca foi processada; comparações tendenciosas com a Ale- PRESENTE AOS EMPRESÁRIOS
por mais três anos. Cahuzac, condenado a quatro anos de manha, abrem caminho a reaproxi- Esses abatimentos influem sobre a
Essa politização da questão fiscal prisão, permanece em liberdade). mações entre empregados e patrões, avaliação do nível de tributação. Se-
implica um notável paradoxo: os mem- As experiências práticas acumula- notadamente quando se trata de ques- gundo nossa pesquisa, os contribuin-
bros das classes populares são hoje os das pelas classes populares em conta- tionar os impostos e o excesso de tes que se beneficiam de ao menos um
que mais criticam o nível de taxação, to com as administrações acentuam a regulamentações. nicho fiscal têm 1,4 menos chance que
embora sejam os que mais se benefi- percepção de “dois pesos, duas medi- Em um mundo do trabalho des- os outros de achar que “a França é um
ciam do sistema distributivo garantido das”. Os contribuintes menos afeitos construído, em que os empregadores país onde se paga muito imposto”. A
pela arrecadação. O fator geográfico ao manejo da linguagem abstrata do recorrem de bom grado à terceiriza- dramaturgia midiática encenada no
acentua essa desconfiança: quanto fisco contam frequentemente com os ção, a contestação do imposto pode outono em torno do desconto na fonte
mais longe o cidadão se encontra das agentes do Estado para ajudá-los a pre- também se exprimir pela voz de jovens revelou, de resto, um governo pronto a
grandes cidades, mais se considera in- servar seus direitos.3 Ora, a diminui- ativos, mas sem diplomas, emprega- se mobilizar para garantir esses dispo-
justamente taxado, com os habitantes ção do número de funcionários dete- dos e operários duramente atingidos sitivos, que beneficiam os mais próspe-
das zonas rurais e suburbanas se mos- riora as relações nos balcões de pelo desemprego e a precariedade. Pa- ros: o primeiro-ministro Édouard Phi-
trando os mais críticos do sistema fis- atendimento. De 2005 a 2017, os gover- ra muitos, a individualização do tra- lippe decidiu finalmente que 60% de
cal, por oposição aos parisienses. Após nos suprimiram mais de 35 mil em- balho se fez acompanhar pela erosão alguns créditos de imposto seriam pa-
vários anos de políticas destinadas a pregos no conjunto da administração das solidariedades coletivas, favore- gos em janeiro de 2019, e não mais seis
favorecer o acesso à propriedade, mui- das finanças públicas, principalmente cendo uma espécie de desfiliação: meses depois, como previsto de início.
tas famílias modestas, que se endivi- entre os agentes encarregados de aten- bem longe da estabilidade oferecida Paralelamente, a maioria adotou
daram para adquirir sua casa, arcam der o público. Nas áreas rurais, os ho- pela condição de funcionário, esses outras medidas tendo em vista os mais
além disso com os aumentos regulares rários de abertura se reduzem e, nas trabalhadores nutrem certo ressenti- ricos, como a ampliação do Pacto Du-
do imposto predial, que compensam o zonas urbanas, as filas de espera se mento pelo Estado e seus agentes, que treil,4 que autoriza os proprietários de
corte nos repasses do Estado às coleti- alongam, castigando os contribuintes gozam de uma proteção à qual eles empresas a legar suas ações, por doa-
vidades locais. Em certas áreas, o sen- pouco habituados às operações digi- não têm direito. Para os mais afetados ção antecipada ou por morte, com exo-
timento de injustiça nasce da degrada- tais e que preferem o contato humano. pela crise, o estatuto de trabalhador neração da maior parte ou mesmo da
ção dos serviços públicos e dos E isso sobretudo quando se trata de independente representa uma saída totalidade dos direitos sucessórios. Foi
problemas de mobilidade agravados pedir isenções, isto é, de demonstrar a possível. Ora, essa perspectiva de pro- uma dádiva que passou totalmente
pelo fechamento de linhas férreas.2 Tu- impossibilidade material de pagar a moção vem acompanhada, muitas ve- despercebida, não sendo objeto de ne-
do acontece como se os moradores taxa de habitação, o imposto predial zes, por um discurso que denuncia o nhum cálculo preciso; a ampliação
dessas zonas, que fazem a maior parte ou a taxa de televisão. Com o aumento “excesso de encargos”. A imagem da desse nicho fiscal, que já custa a cada
de seus trajetos em veículos motoriza- do desemprego e da precariedade, o pequena empresa sufocada pelas exa- ano cerca de 500 milhões de euros às
dos e sofrem na carne a alta dos preços número desses pedidos passou de 695 ções sociais e fiscais tornou-se o con- finanças públicas, representaria ga-
dos combustíveis, vissem desaparecer mil em 2003 a 1,4 milhão em 2015. Mas traponto de um Estado distante e indi- nhos bastante substanciais para os
diante de seus olhos as instituições as chances de convencer o cobrador de ferente às dificuldades encontradas in beneficiários.
que, do correio à escola, passando pela impostos variam conforme a classe loco. À valorização do trabalho como Durante todo esse tempo, jornalis-
estação ferroviária, representam a social: segundo nossa pesquisa, reali- fonte de dignidade e de remuneração tas e responsáveis políticos voltam sua
concretização local do dinheiro socia- zada em 2017, entre os contribuintes merecida acrescenta-se a estigmatiza- atenção para os “coletes amarelos” e se
lizado pelos “impostos”. que acionaram a administração, 69% ção da assistência, financiada pelos perguntam: mais vale preservar o am-
dos membros das classes superiores impostos. A desestabilização de faixas biente ou asfixiar os motoristas? Se ain-
UM ESTADO DISTANTE, PRÓXIMO DOS PODEROSOS ganharam a parada, contra 51% dos inteiras do universo dos assalariados da é muito cedo para avaliar o que virá
Outra desconfiança em relação ao provenientes das classes populares. subalternos contribuiu assim para ali- depois desse movimento, seu primeiro
fisco se inscreve numa conjuntura Às questões burocráticas acres- mentar, nas classes populares, uma mérito é ter trazido à luz o sentimento
singular, marcada por uma sucessão centam-se os efeitos da crise. Para os desconfiança crescente em relação ao de injustiça fiscal que fermenta há
de escândalos. Em 2010, descobriu-se assalariados e os pequenos trabalha- imposto, em nome da salvaguarda do anos no seio das classes populares.
que Liliane Bettencourt, a mulher dores independentes, cujo poder de emprego a todo custo.
mais rica da França, sonegou do fisco compra se estagnou ou regrediu, im- A confiança traída das classes po- *Alexis Spire é sociólogo, diretor de pesqui-
mais de 100 milhões de euros e finan- postos e taxas parecem menos a con- pulares nas fontes de financiamento sa do Centro Nacional da Pesquisa Científica
ciou a campanha eleitoral de Sarkozy. trapartida dos serviços públicos do do Estado social ficou por muito tem- (CNRS) da França e autor de Résistances à
Veio em seguida o caso Jérôme Cahu- que uma despesa suplementar. Sua po ausente dos debates sobre os pro- l’impôt, attachement à L’État. Enquête sur les
zac, ministro do Orçamento de Fran- percepção de iniquidade redobra: blemas fiscais. Quando ela se manifes- contribuables français [Resistências ao im-
çois Hollande, encarregado da luta além da incapacidade de pagar as so- ta durante as campanhas eleitorais, os posto, apego ao Estado. Pesquisa com os
contra a fraude fiscal e que confessou mas exigidas, existe a convicção de governantes cuidam mais de preser- contribuintes franceses], Seuil, Paris, 2018.
em 2013 manter uma conta secreta na que esse dinheiro serve apenas para var a aceitação do imposto pelas clas- Esse estudo se baseia num questionário
Suíça no valor de 600 mil euros – de- enriquecer “os que estão por cima”. ses médias – um grupo social com o apresentado, em 2017, a uma amostra repre-
pois de negá-la. Paralelamente sur- Após a crise de 2008, a desagregação qual se identifica a maioria dos eleito- sentativa de 2.700 pessoas e numa pesquisa
gem escândalos midiáticos. Os episó- do tecido industrial e as supressões de res – e altas. Desde o início dos anos qualitativa com contribuintes encontrados
dios LuxLeaks, SwissLeaks, Offshore emprego lançaram uma luz crua so- 1980, observa-se a multiplicação dos junto a balcões das repartições.
Leaks, Panama Papers e Paradise Pa- bre a impotência dos dirigentes, que nichos fiscais que permitem reduzir o
pers põem às claras os esquemas de não podem se opor às deslocalizações imposto de renda, enquanto a TVA
evasão fiscal de multinacionais, diri- (transferência de empresas para o ex- permanece a mesma para todos os
gentes políticos, celebridades do es- terior). Outrora considerado uma ga- consumidores e as taxas sobre os com- 1 Nicolas Delalande, Les Batailles de l’Impôt. Con-
sentement et résistances de 1789 à nos jours [As
porte e do mundo do espetáculo. Essa rantia de proteção, o Estado surge bustíveis aumentam sem que haja ne- batalhas do imposto. Consentimento e resistên-
sequência faz a igualdade perante o agora como uma instância distante, a nhuma isenção (salvo para os profis- cias de 1789 a nossos dias], Seuil, Paris, 2011.
imposto parecer uma fábula contada serviço dos poderosos. sionais do transporte). Doações a 2 Ver Jean-Michel Dumay, “La France abandone ses
villes moyennes” [A França abandona suas cida-
em livros de direito, pois o mundo Além disso, nas pequenas empre- partidos e associações, empregos não des médias], Le Monde Diplomatique, maio 2018.
agora se divide em duas categorias: de sas, particularmente expostas à con- presenciais ou aluguéis, trabalhos de 3 Yasmine Siblot, Faire valoir ses droits au quotidien.
um lado, os contribuintes comuns, corrência internacional, o imposto fi- renovação energética: são outros tan- Les services publics dans les quartiers populaires
[Exigir direitos no cotidiano. Os serviços públicos
que não devem medir esforços para gura quase sempre como ameaça tos mecanismos de isenção fiscal que nos bairros populares], Presses de Sciences Po,
salvar as finanças; de outro, os pode- direta à segurança no emprego. Essa permitem aos contribuintes, em con- Paris, 2006.
rosos, que conseguem escapar às percepção, espicaçada pelo estribilho trapartida, deduzir valores, dando até 4 Pacto instaurado pela Lei Dutreil (do nome de Re-
naud Dutreil, então secretário de Estado para pe-
coerções fiscais sem nunca ser real- jornalístico dos “encargos que sobre- a oportunidade aos mais afortunados quenas e médias empresas), ou Lei para a Iniciativa
mente incomodados (Bettencourt, fa- carregam o custo do trabalho” e pelas de otimizar seus negócios. Econômica, de 1º ago. 2003.
22 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

INFANTILIZAÇÃO INTELECTUAL NAS ESCOLAS DE NEGÓCIOS

A teologia
do management
Para converter alunos de cursos preparatórios em administradores, as grandes escolas de negócios institucionalizam um
fenômeno de desescolarização. Os estudantes perdem progressivamente o gosto pelo saber acadêmico para se submeter às
obrigações da vida dos negócios. Liberados da preocupação escolar, eles podem se adaptar ao “sério” mundo das empresas
POR MAURICE MIDENA*

U
ma vez diplomado, em 2016, na
Grenoble École de Manage-
ment (GEM) [Escola de Admi-
nistração de Grenoble], uma
renomada escola de negócios e admi-
nistração francesa, Étienne Badaroux,
de 25 anos, partiu em uma viagem pe-
los Bálcãs com colegas de classe a bor-
do de um velho furgão Peugeot, mo-
delo J5. Ao voltar para a França, depois
de dez meses de viagem, o jovem to-
mou uma decisão irrevogável: “Disse
a mim mesmo que nunca mais traba-
lharia de terno”. Desde o verão de
2017, ele emenda experiências como
barman. E prefere isso de longe aos es-
critórios nos quais trabalhou em suas
experiências corporativas.
Esse jovem descreve um descon-
forto existencial que ultrapassa o cam-
po da indumentária: “Repetiam para
nós: ‘O curso preparatório é o Cami-
nho Real’. Mas o Caminho Real para
onde? Para que serve aprender as teo-
rias da economia e da filosofia para de-
pois passar a vida vendendo um pro-
duto e contando os centavos que
podemos ganhar a cada exemplar?
Não faz sentido”.
Antes de integrar a GEM, Badaroux
passou por uma classe preparatória
para as grandes escolas de negócios –
as famosas “prepa-HEC” [da sigla em
francês para Altos Estudos Comer- tigiosas organizações francesas for- previamente traçada na economia, em sente no discurso do corpo docente:
ciais], que atraem anualmente cerca mam os futuros executivos de econo- consultoria ou em marketing, com o “Os professores não se dão nem se-
de 20 mil alunos, um número estável mia e se distinguem das dezenas de salário que a acompanha: cerca de 35 quer conta do vazio que sentimos. Te-
há dez anos. Nessas turmas, os estu- outras que também carregam o nome mil euros por ano brutos na saída da mos a impressão de fazer muito baru-
dantes fazem malabarismos com con- de “escolas de negócios” ou de “admi- escola. No entanto, o desencantamen- lho por nada nos cursos”.
ceitos de filosofia, economia e mate- nistração” (nome adotado pelas gran- to que ele descreve está longe de ser ex-
mática, refletem sobre problemas des escolas de negócios), mas não ofe- cepcional. O mal-estar aparece princi- UMA “FORTE EXPERIÊNCIA COMUM”
geopolíticos do Oriente Médio e dis- recem o mesmo nível de oportunidades palmente no primeiro ano, diante da “Não tenho muita certeza de que
sertam sobre as questões ontológicas e não são reconhecidas pelo Estado. fraqueza da exigência intelectual dos os cursos nos sirvam para alguma
do prazer ou do espaço. Em suma, um Esses grandes estabelecimentos fran- ensinamentos. Nos primeiros cursos coisa”, diz por sua vez Albane Mete-
local onde o saber universitário é rei. ceses têm importantes orçamentos, fi- de marketing ou administração, os es- yer, que, depois de obter um BTS (di-
Ao final de dois anos marcados por nanciados em mais de 50% por onero- tudantes ficam desapontados. Ex-alu- ploma técnico superior) de comuni-
uma grande intensidade de trabalho, sos valores de matrícula (12.080 euros na da Audencia Business School de cação em 2014, integrou a Skema
eles prestam uma prova de admissão por ano em média em 2018), aos quais Nantes, Catherine Galtier se lembra Business School, no campus de So-
nacional. Segundo sua classificação e se acresce a taxa de aprendizagem, as das “evidências teorizadas”, uma ma- phia Antipolis (região Alpes-Mariti-
seus desejos, são admitidos em uma subvenções das Câmaras de Comércio neira dela de designar a propensão mes). “A gente paga a escola, mas não
© Allan Sieber

das 26 grandes escolas de negócios e Indústria (CCI) e, cada vez mais, os dos livros de administração a concei- o conteúdo dos cursos.”
que recrutam estudantes levando em capitais privados. tualizar noções que são puro bom Ainda que esse mal-estar tenha
conta o nível bac+2 [com formação Raros são os diplomados que, como senso. Esse tipo de infantilização in- uma grande tendência a se dissipar ao
universitária de dois anos]. Essas pres- Badaroux, renunciam a uma carreira telectual parece também estar pre- longo da formação, ele prefigura o que
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 23

o sociólogo e economista Yves-Marie penso durante dois ou três anos de evoluírem em uma empresa, levando- ção comercial fosse criada em Paris (a
Abraham qualificou, ao final de uma classe preparatória: fins de semana de -os a desenvolver tanto as competên- futura ESCP), o Conselho Geral do Co-
pesquisa sobre as escolas de Altos Es- integração, torneios esportivos, festas cias técnicas como os conhecimentos mércio Francês garantia que “o co-
tudos Comerciais (HEC), de “desesco- open bar, degustações de vinho, esqui, úteis nas relações interpessoais. Um mércio como ciência [era] um estudo
larização em ambiente escolar”.1 Essa cruzeiros em veleiros... “Ter uma expe- cargo de tesoureiro, por exemplo, per- supérfluo e inútil a um grande núme-
“neutralização do jogo escolar”, obser- riência comum forte no primeiro ano é mite que o estudante se familiarize ro de negociantes que precisam so-
va ele, aparece como uma condição importante”, salienta Jean-François com os trabalhos de contabilidade, mente de conhecimentos práticos”.4
necessária da formação: os estudantes Fiorina, diretor adjunto da GEM. “É is- mas também com a arte da negocia- Em 1988, o especialista em ciências
da HEC só se tornarão bons adminis- so que permite a criação de um víncu- ção, principalmente na atribuição de da administração Henry Mintzberg
tradores “à medida que pararem de ser lo com a escola, o qual se perpetua por orçamentos aos diversos polos que afirmava: “Nossas organizações são
bons alunos”. Diretora do programa anos depois do fim da formação.” compõem uma associação. muito importantes para entrar nesse
Grande Escola da Skema Business A conversão da preocupação esco- jogo”5 – subentendendo o jogo univer-
School, Sophie Gay concorda com a te- lar em “administração séria”, comple- sitário, o da reflexão, da pesquisa, do
se do pesquisador: “Há uma ruptura tada por diversos estágios em empre- saber gratuito. Ao contrário, o econo-
forte entre a formação preparatória e a “O comércio como sas, revela uma ambiguidade intrínseca mista norte-americano Thorstein Ve-
escola. Os objetivos são muito diferen- ciência [era] um estudo às business schools. A fim de garantir blen escrevia desde 1918: “Uma escola
tes. Nossa formação se voltou para a supérfluo e inútil a um seu lugar no seio da família das grandes desse tipo, com seu corpo docente,
ação, mesmo que ela necessite de uma escolas, estas sempre sofreram com as suas instalações, ocupa um lugar
base reflexiva”.
grande número de contradições entre oferecer uma for- comparável às faculdades de Teologia
Os bons resultados escolares in- negociantes que mação prática, que torne seus diploma- em nosso sistema universitário. Todas
fluenciam apenas de forma periférica precisam somente de dos diretamente operacionais para as são estranhas à empresa intelectual,
o projeto profissional desses futuros conhecimentos práticos” empresas, e a necessidade de uma legi- que é a razão de ser aparente de nos-
administradores. A classificação dos timidade acadêmica, principalmente sas universidades”.6
alunos no seio de sua classe determina por meio do recrutamento de estudan- As escolas de comércio afirmam
duas coisas: o destino do semestre que tes de classes preparatórias. Essa busca colocar tudo em ação para favorecer a
eles vão passar em uma universidade A “vida de estudante” permite es- por legitimidade passa também pela satisfação pessoal de seus estudantes,
estrangeira e a escolha de sua especia- truturar as relações sociais, principal- pesquisa em ciências de administra- mas não se deve perder de vista seu
lização, que são apenas “detalhes” do mente graças a um tecido associativo ção, que conheceu um forte crescimen- objetivo principal: formar executivos
diploma, segundo Abraham. “O suces- denso, que participa de um movimen- to nos últimos vinte anos. operacionais para as empresas priva-
so escolar não é a nota”, precisa Gay. to de hierarquização dos estudantes. Essa tendência responde a uma ló- das. “Não podemos mais falar de es-
“Falamos mais da validação das com- Em 1999, o sociólogo Gilles Lazuech gica de competitividade crescente en- colaridade, mas de experiência estu-
petências. O importante vem do con- ressaltava que “todas as associações e tre os estabelecimentos da França e fo- dantil”, precisa Fiorina à GEM. “Com
junto do dispositivo, dos percursos in- todos os cargos não são equivalentes”.2 ra dela. Concedidos um por uma tudo o que se pode fazer fora dos mu-
dividualizados e da rede.” Há, de um lado, as associações valori- fundação europeia e outro por uma or- ros da escola, o ‘produto final’ que en-
Em um jogo escolar sem dificulda- zadas e, do outro, aquelas cujos mem- ganização profissional norte-america- tregamos terá compilado um conjun-
des, a desmotivação é inevitável, ou bros são de certa maneira desclassifi- na, os importantes e regrados selos to de competências.” Em 2017, 60%
quase. Quentin Pierrot, 26 anos, diplo- cados. A influência da associação é Equis (European Quality Improve- dos estudantes tinham encontrado
mado em 2016 na Escola Superior das inversamente proporcional à sua utili- ment System) e AACSB (Association to um emprego antes mesmo de deixar a
Ciências Econômicas e Comerciais dade pública. Na Escola Superior de Advance Collegiate Schools of Busi- escola, segundo a Conferência das
(Essec), em Cergy-Pontoise, se lembra Comércio de Paris (ESCP-Europe, a ness), que certificam a excelência de Grandes Escolas: a cadeia de produ-
das salas de aula e dos anfiteatros on- mais antiga das escolas de economia uma formação, dão relevância à pes- ção anda bem.
de se estendiam “florestas de Ma- da França), a Skloub, que organiza a quisa universitária. Para remunerar os
cBooks atrás dos quais era sabido que viagem anual de esqui, é uma das mais professores pesquisadores pagos a pre- *Maurice Midena é jornalista e ex-aluno de
nem todos estavam anotando o cur- importantes. Por outro lado, as asso- ço de ouro nesses estabelecimentos uma escola de negócios.
so”. Poucos reivindicam uma atitude ciações humanitárias ocupam apenas (um jovem doutor ganha no mínimo
séria, ainda mais porque para ter su- um lugar marginal. 50 mil euros brutos por ano), é preciso
cesso em uma prova não é necessário Lazuech coloca também em desta- obter financiamentos junto às empre- 1 Yves-Marie Abraham, “Du souci scolaire au sérieux
muito trabalho: “No primeiro ano, em que uma divisão de gênero do espaço sas... ou cobrar dos estudantes. Segun- managérial, ou comment devenir un ‘HEC’” [Da
Macro e Microeconomia, eu consultei associativo, com os homens obtendo a do os números fornecidos pelas esco- preocupação escolar à seriedade administrativa,
ou como se tornar um “HEC”], Revue Française de
livros de ciências políticas para ter ou- maioria dos cargos de responsabilida- las, seus gastos com escolaridade Sociologie, v.48, n.1, Paris, 2007.
tras visões”, conta Brune Lange, tam- de. Segundo um estudo da rede de as- aumentaram 14% nos três últimos 2 Gilles Lazuech, L’Exception française. Le modèle
bém diplomada pela Essec. “E não sociações estudantis Animafac, em anos. “A virada acadêmica teve um pa- des grandes écoles à l’épreuve de la mondialisa-
tion [A exceção francesa. O modelo das grandes
atingi a média na prova! No ano se- 2013 eles representavam 59% dos pre- pel essencial na alta de suas necessida- escolas à prova da globalização], Presses Univer-
guinte, eu simplesmente trabalhei no sidentes de associações de escolas de des financeiras, e seu investimento re- sitaires de Rennes, 1999.
básico e decorei as definições do cur- economia. A divisão também é social: cente na pesquisa induz a um reforço 3 Marianne Blanchard, Les Écoles de commerce.
Sociohistoire d’une entreprise éducative [As esco-
so: não tive problemas.” os alunos com maiores capitais econô- certo na ordem de prioridades”, explica las de economia. Sócio-história de uma empresa
Desde o começo da formação pre- micos, sociais e culturais dominam o a socióloga Marianne Blanchard.3 E is- educativa], Classiques Garnier, Paris, 2015.
valece a famosa “vida de estudante”, campo associativo. Diante disso, o so- so mesmo que o aporte da pesquisa à 4 Cédric Poivret, “L’enseignement commercial en
France durant le XIXe siècle: évolution et impact
marcada por uma obsessão coletiva ciólogo afirma que “as hierarquiza- qualidade do ensino pareça longe de sur le développement de savoirs explicités à l’inten-
pela fofoca. Associações “audiovi- ções internas que caracterizam o es- ser substancial: “Os professores com tion des gestionnaires” [O ensino comercial na
suais” reúnem regularmente os estu- paço das atividades extraescolares” forte atividade de pesquisa não são França durante o século XIX: evolução e impacto
sobre o desenvolvimento dos saberes explicitados
dantes nos anfiteatros para difundir parecem ter por efeito “reproduzir os particularmente chamados a dividir os na intenção dos administradores], 21ª Jornada da
sequências das festas onde são expos- grandes princípios de divisão e de resultados”, continua Blanchard, “nem História da Administração e das Organizações, Lil-
tas a bebedeira de uns e os beijos calo- oposição que estruturam o espaço a formar os estudantes, já que estes são le, mar. 2015. Disponível em: <https://hal.archives-
-ouvertes.fr>.
rosos de outros, sem nenhuma forma profissional dos executivos”. Menos vistos como essencialmente interessa- 5 Henry Mintzberg, “Formons des managers, non
de respeito pelo pudor ou pela vida pri- conhecida que a formatação ideológi- dos em uma formação ‘pragmática’”. des MBA!” [Formemos administradores, não
vada. Para além do consumo excessivo ca e o credo neoliberal, a passagem por MBAs!], Harvard-L’Expansion, n.3, Paris, inverno
1988-1989.
de álcool e das histórias sórdidas de uma associação é um elo essencial da DIPLOMA, UM “PRODUTO FINAL” 6 Thorstein Veblen, The Higher Learning in America:
trote, frequentemente denunciadas, o conversão ao “administrador sério”, já Essa tensão entre a universidade e A Memorandum on the Conduct of Universities By
folclore instiga sentimentos afetivos que essa “instituição dentro da insti- a prática chegou a se tornar um confli- Business Men [O ensino superior nos Estados
Unidos: um memorando sobre a conduta das uni-
nos estudantes que haviam anterior- tuição” prepara os estudantes para as to ao longo da história. Desde 1806, versidades sob a administração de homens de ne-
mente colocado a vida social em sus- situações que eles enfrentarão quando quando foi proposto que uma forma- gócios], B. W. Huebsch, Nova York, 1918.
24 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

QUE AUTONOMIA OS CURDOS TERÃO NA SÍRIA DE AMANHÃ?

Futuro incerto em Rojava


A Federação Democrática da Síria do Norte abriu conversações, rapidamente suspensas, com o regime de Damasco
para consagrar sua autonomia de fato. A organização permanece sob a ameaça do Exército turco e da Organização do Estado
Islâmico. Internamente, as tensões entre árabes e curdos se dissipam, mas uma desconfiança recíproca permanece
POR MIREILLE COURT E CHRIS DEN HOND*, ENVIADOS ESPECIAIS

ção democrática inspirada no comu-


nalismo,2 sem colocar em questão as
fronteiras. A desconfiança no interior
de comunidades árabes, turcomenas e
outras diante dos curdos era, então,
grande. Elas temiam que os vencedo-
res da Organização do Estado Islâmico
(OEI) se vingassem delas pelos maus-
-tratos das autoridades sírias sobre os
curdos. “Os curdos sofreram muito
com a política de assimilação levada
adiante pelo regime de Al-Assad”, lem-
bra Habib. “Desde que as FDS liberta-
ram zonas tomadas pela OEI, fizemos
grandes esforços para restabelecer a
confiança criando comitês de reconci-
liação e conselhos com representação
de todos. Hoje, podemos dizer que 60%
dos membros das FDS provêm de tri-
bos árabes”, completa. De acordo com
as estimativas mais frequentes, as FDS
contam com 40 mil combatentes.
Até 2017, Rojava era formada por
© Kurdishstruggle

três zonas de maioria curda: Afrin, Ko-


banê e Cezire. Após a conquista de Ra-
kka, em outubro de 2017, e a perda de
Afrin, em março de 2018, a federação
autônoma abriga menos curdos e mais
Combatente curda da Unidade de Proteção das Mulheres
árabes – daí a importância de uma
aliança sólida entre esses dois povos. O

P
equena vila empoeirada entre cer os técnicos e as peças necessárias ma político da Síria. Há um déficit de- ambiente estranho de Qamishli, capi-
as cidades sírias de Kobanê e para as válvulas defeituosas. Se uma mocrático enorme. As decisões são tal do cantão de Cezire, ilustra a com-
Rakka, Ain Issa é a nova capital cooperação técnica entre o CDS e Da- tomadas em Damasco e o sistema de- plexidade da situação, com bairros in-
administrativa da Federação masco é possível, por outro lado um pende de algumas famílias que gover- teiros que permanecem sob controle
Democrática da Síria do Norte, tam- acordo político permanece imprová- nam o país”. De seu lado, Al-Assad mu- do regime de Damasco. A população
bém conhecida como Rojava.1 Ilham vel. “Percebemos, escutando as decla- da de opinião constantemente. cristã siríaca está dividida entre o
Ahmed nos acolhe. Essa curda origi- rações do regime, que as negociações Diversas vezes prometeu que retoma- apoio a Damasco e a adesão ao projeto
nária de Afrin, uma cidade retomada eram uma questão tática para ele. Não ria cada parcela da Síria e, em dezem- de governo autônomo. Elizabeth Ga-
pelo Exército turco em março de 2018, há esforços sérios nesse sentido para bro de 2017, acusou os curdos de trai- wryie, integrante do governo autôno-
preside o Conselho Democrático Sírio fazê-los avançar no acordo”, prosse- ção. No início de maio de 2018, mo pela comunidade cristã siríaca e da
(CDS), o braço político das Forças De- gue Ahmed. É dessa forma que ela jus- contudo, afirmou em uma declaração delegação de negociação, nos acolhe
mocráticas Sírias (FDS), que contro- tifica sua ausência no encontro da televisiva que a porta estava aberta pa- na sede de sua associação. Ela evoca a
lam todo o nordeste do país. Imediata- oposição síria baseada em Istambul: ra um diálogo com as FDS, qualifican- questão do compartilhamento de re-
mente, ela detalha o projeto de “Nós somos a verdadeira oposição. A do as instituições criadas no norte e cursos naturais, notadamente o petró-
autonomia que defende essa aliança maior parte dos grupos armados do leste da Síria como “estruturas tempo- leo, cujos principais poços estão sob
curdo-árabe: “Exigimos que a Síria de território é extremista e apoiada pelo rárias”. Neste fim de ano, as negocia- controle do governo autônomo. “A Síria
amanhã compreenda zonas autôno- governo da Turquia. Tentar um acordo ções entre Damasco e o CDS congela- é um país rico. A repartição das rique-
mas. Queremos uma nova Constitui- com esses grupos radicais e jihadistas ram enquanto a situação se decanta zas será abordada nas próximas nego-
ção, na qual a descentralização estará seria um suicídio para nós”. em Idlib, cidade que o regime pretende ciações. Propusemos a Damasco criar
inscrita”, explica ela, que em julho de O grupo de negociadores do CDS cedo ou tarde retomar dos jihadistas. comitês bilaterais para os serviços pú-
2018 conduziu uma delegação do CDS foi a Damasco sem impor condições Depois da reconquista de Kobanê, blicos, a saúde e a economia”, explica.
a Damasco para as primeiras conver- prévias. Hikmet Habib, árabe de Qa- em 2015, pelas Unidades de Proteção
sas com o regime de Bashar al-Assad. mishli, adjunto de Ahmed e integrante do Povo (YPG) e pelas Unidades de A OCUPAÇÃO DE AFRIN, UM TRAUMA
Um reencontro oficial já tinha da delegação, explica: “Não utilizamos Proteção das Mulheres (YPJ), ajudadas O governo autônomo deve também
acontecido em Tabka, onde uma bar- grandes slogans como ‘Queremos a pelo Partido dos Trabalhadores do compor com as dificuldades relaciona-
ragem de uma hidrelétrica no Rio Eu- queda de Bashar al-Assad’. Não é o Curdistão (PKK), os curdos decidiram das à educação. Uma das prioridades
frates precisava de reparos urgentes. ponto principal. O que importa é mo- não proclamar a independência do foi implementar um programa escolar
Apenas o governo local poderia forne- dificar a Constituição e a base do siste- Curdistão, e sim instaurar uma federa- em três idiomas: árabe, curdo e siríaco,
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 25

com novos conteúdos pedagógicos pa- decreto proibiu funcionários do gover- ocupação dessa província de maioria encontro do PKK, o bode expiatório da
ra as matérias não científicas. “Não te- no autônomo de matricular seus filhos curda pela Turquia é vivida como um Turquia e, segundo alguns especialis-
mos problema com o programa escolar em escolas do regime. trauma. Em janeiro de 2018, após ne- tas, “mestre do jogo curdo na Síria”.
do regime nas matérias científicas, são O entendimento entre comunida- gociações, a Rússia autorizou a Turquia Passamos o Tigre, fronteira entre
programas universais. Por outro lado, des, contudo, parece melhorar, e as no- a invadi-la. A coalizão internacional li- Síria e Iraque, em um pequeno barco e
temos muitas questões em matérias vas instituições funcionam. Em Qa- derada pelos Estados Unidos fechou os atravessamos o norte do Iraque até
como História, Sociologia, Geografia, mishli, o copresidente do conselho olhos, e as mesmas forças curdas que Kandil, uma cadeia de montanhas que
porque as comunidades árabes não legislativo, Hakem Khalo, explica: tinham expulsado a OEI de Kobanê e abriga as tropas do PKK. Encontramos
aparecem nesses conteúdos”, explica “Aqui, nos cantões de Cezire, o Estado Rakka e salvo os curdos da OEI em Sin- Riza Altun. É a primeira vez que um al-
Musim Nebo, professor. não redistribuía nada. Seu sistema cen- jar foram massacradas sob indiferença to responsável do PKK fala a jornalis-
Em agosto de 2018, algumas deze- tralizado nunca levou em conta as ou- da “comunidade internacional”. tas desde o assassinato, em agosto de
nas de siríacos se manifestaram em tras comunidades étnicas ou religiosas. Impossível chegar lá. Paramos na 2018, de Mame Zeki, um comandante
Qamishli para denunciar a introdução Hoje, o regime sírio acredita que pode cidade mais a oeste da federação autô- yazidi do PKK, por um míssil turco.
do novo programa escolar entoando voltar à situação anterior à revolução de noma: Manbidj. Protegida pela coali- Durante toda a entrevista, um drone
palavras de ordem glorificando Al-As- 2011, mas muitos árabes agora partici- zão e defendida pelo conselho militar invisível zumbe sobre nossa cabeça.
sad. Protestavam por dois motivos: pam do governo autônomo, ocupam local, essa cidade é um exemplo de Sob a folhagem das árvores, Altun per-
porque o governo autônomo acabara cadeiras nos conselhos civis de Rakka, convivência entre comunidades. Mui- manece imperturbável. “Hoje, há con-
com as aulas em siríaco e porque os di- em Tabka, Manbidj, em Deir Ez-Zor; tas pessoas testemunharam as violên- tradições por todos os lados. Original-
plomas emitidos por suas escolas não perceberam que podem se ocupar da cias infligidas contra os curdos depois mente, os Estados Unidos não tinham
eram reconhecidos por Damasco, nem comunidade muito mais que antes”. da queda de Afrin. Em um relatório pu- a intenção estratégica de apoiar as
no exterior. Para se defender, as autori- Em Tell Abyad, pequena cidade blicado em 14 de junho de 2018, a orga- FDS. Os curdos sabem muito bem que
dades argumentaram que a maior próxima à fronteira turca, a tensão é nização Human Rights Watch denun- os Estados Unidos são imperialistas;
parte dos estudantes siríacos se esco- palpável. A OEI, perseguida pelas FDS ciou que “grupos armados do Exército mas nós somos obrigados a manter es-
lariza em instituições privadas, o que em 2015 depois dos combates, tinha lá Livre da Síria, apoiados pela Turquia, sa relação paradoxal, porque nossa so-
explica o fechamento de salas no setor uma base social. A ingerência da Tur- pilharam, destruíram e roubaram brevivência está em jogo.” E a recente
público. Algumas escolas privadas, quia e seus aliados é permanente na bens de civis curdos depois da queda atitude dos Estados Unidos de colocar
nas mãos da Igreja, foram temporaria- cidade, ao que se soma o peso de um de Afrin. Instalaram combatentes e a cabeça de dirigentes do PKK a prê-
mente fechadas por terem se recusado passado doloroso, já que fazia parte de suas famílias nas casas sem oferecer mio mostra a fragilidade dessa alian-
a aplicar o novo programa escolar. Fi- uma região onde o regime de Al-Assad nenhuma indenização aos proprietá- ça. Os jogos de poder e o enfrentamen-
nalmente, estabeleceu-se um acordo: havia instalado populações árabes nos rios”.3 Desde então, a organização es- to entre grandes potências estão no
o programa foi introduzido apenas anos 1960 e despojado os curdos de pera uma autorização da Turquia para auge sobre o território sírio...
nos dois primeiros anos do primário. suas terras. Estes últimos se esforçam continuar a pesquisa in loco.
Para as outras aulas das escolas priva- para não se mostrar revanchistas, co- *Mireille Court é professora de inglês e inte-
das, o programa de Damasco foi man- mo explica Reshad Kurdo, cuja família IMBRÓGLIO DE ALIANÇAS CONTRADITÓRIAS grante da coordenação Solidariedade Cur-
tido, o que garante o reconhecimento perdeu suas terras: “Quando as FDS li- Hoje, a Síria é um imbróglio de distão; Chris Den Hond é jornalista. Ambos
do diploma. bertaram Tell Abyad da OEI, não per- alianças contraditórias. Os curdos de coordenaram, com Stephen Bouquin, La
Em Kobanê, participamos da reu- seguimos ninguém. Não recuperamos Afrin, a oeste do Eufrates, eram prote- Commune du Rojava. L’alternative kurde à
nião de uma comunidade, uma assem- nossas terras tomadas pelos árabes há gidos pela Rússia, que os abandonou. l’État-nation [A comuna de Rojava. A alterna-
bleia na qual os habitantes de um bair- cinquenta anos. Esperamos uma solu- Os curdos a leste do Eufrates e em tiva curda ao Estado-nação], Critica-Syllepse,
ro discutem os problemas cotidianos ção política”, afirma. Manbidj hoje são protegidos pela coa- Bruxelas/Paris, 2017.
mais urgentes. Um habitante, Hevi Zo- Questionado, um mecânico curdo lizão internacional liderada pelos Es-
ra, denunciava a hipocrisia de alguns, se mostra cético: “Mesmo que cons- tados Unidos e pela França. Mas até
que não hesitavam em enviar seus fi- truíssemos um paraíso, os árabes não quando? No território, as populações 1 Ler “Une utopie au cœur du chaos syrien” [Uma
lhos para estudar em escolas fora de confiaram em nós. Eles acham que os consideram indispensável uma prote- utopia no coração do caos sírio], Le Monde Diplo-
matique, set. 2017.
Rojava: “Por que alguns ricos, e mesmo curdos querem subjugá-los. E temos ção aérea internacional, sem a qual os 2 Sobre o inspirador do comunalismo democrático
integrantes do governo autônomo, ma- medo de que a Turquia faça aqui o exércitos turco ou sírio não teriam ne- curdo, ler Benjamin Fernandez, “Murray Bookchin,
triculam seus filhos em escolas árabes mesmo que fez em Afrin”. nhuma dificuldade em massacrar a écologie ou barbarie” [Murray Bookchin, ecologia
ou barbárie], Le Monde Diplomatique, jul. 2016.
de Latáquia, Alepo ou Damasco, en- Afrin... Cada vez que pronuncia- frágil Federação Democrática. Mas 3 “Syria: Turkey backed groups seizing property” [Sí-
quanto os outros estudam em curdo?”, mos esse nome, os olhos de nossos in- uma proteção aérea a que preço? Para ria: grupos turcos roubam propriedades], Human
questionava. Uma semana depois, um terlocutores se enchem de lágrimas. A responder a essas questões, fomos ao Rights Watch, 14 abr. 2018.
26 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

ESPLENDOR E MISÉRIA

Febre digital no Quênia


Ao lançar seu primeiro satélite em maio de 2018, o Quênia juntou-se ao punhado de países africanos presentes no espaço.
O equipamento coletará dados destinados à prevenção de secas. A conquista é só mais um aspecto do desempenho tecnológico
queniano, cujas descobertas inspiram o mundo, sem, contudo, solucionar os problemas estruturais do país
POR SABINE CESSOU*, ENVIADA ESPECIAL

E
m Kibera, a maior favela de Nai- trapassado, o produto, muito caro pa-
róbi, mas também da África, ra eles, parece o top dos tops.
uma jovem mulher varre a frente Vistas de longe, as vitrines das TI-
de sua loja de zinco ondulado. Cs no Quênia parecem luminosas.
Apenas 1 metro quadrado, aberto em Com seus diversos fóruns, como ICT
um minúsculo guichê. Maureen Innovation, NextTech Africa, Women
Nyambura, de 23 anos, vende chips de in Tech Africa, Agritec Africa, seus
celular e serviços de transferência de centros de chamadas realocados e seu
dinheiro. A concorrência é alta nesse grande projeto de “Silicon Savannah”,
cruzamento de ruas sem asfalto pró- o país se torna um exemplo e inspira
ximo do centro da capital queniana. muitos outros, a começar pelo vizinho
AirTel, Safaricom... Em dez anos, as Ruanda, que tenta concorrer. A “sava-
marcas de celular e os serviços bancá- na de silício”, em construção desde
rios por telefone floresceram em todos 2013, tem o nome oficial de Konza Te-
os lugares. chnology City (KTC). O local de 2 mil
Um cliente coloca no balcão uma hectares na estrada de Mombasa, a
© Fiona Graham / cc

nota de 1.000 xelins (R$ 37), que Nyam- cerca de 60 quilômetros de Nairóbi,
bura se encarrega de enviar a um nú- deve fazer do Quênia “o hub digital da
mero de telefone via M-Pesa, a carteira África”, segundo o governo. Cerca de
eletrônica lançada em 2007 por enge- 20 mil alojamentos, uma universidade
nheiros locais. Graças a essa tecnolo- e um hospital de ponta estão previstos
gia, que se propagou na África oriental Barraca que opera serviço da carteira eletrônica M-Pesa em Kibera, Nairobi nessa “cidade inteligente” ainda vir-
e austral, o dinheiro dos usuários sem tual – apenas um prédio já saiu do pa-
conta bancária pode ser depositado pel. O canteiro, estimado em US$ 15
em diversos pontos de venda da Safa- ços custam mais caro, recusam-se a de bebidas on-line. Basta estar inscrito bilhões, deve ser cofinanciado em cer-
ricom. Depois ele pode ser utilizado abrir contas para os mais pobres. para ter acesso aos serviços de entrega ca de 10% pelo Estado e em 90% por
para pagar contas ou efetuar outras Graças às comissões deduzidas a de álcool, apresentados como “os mais investidores estrangeiros a serem en-
transferências, sempre por celular. O cada transação, a M-Pesa representa a rápidos da cidade”. Um desafio, se le- contrados. Por enquanto, apenas uma
sistema oferece aos mais pobres o cada semestre 220 milhões de euros de varmos em conta o tamanho de Nairó- universidade sul-coreana e o grupo
acesso aos serviços bancários básicos lucro líquido para a Safaricom. Lança- bi, onde se amontoam 3,5 milhões de chinês Huawei se comprometeram.
e permite que enviem dinheiro a seus da em 1998, a empresa queniana capta habitantes e seu tráfego dantesco. Em KTC, que faz parte do plano governa-
parentes na zona rural. Entre 2006 e 67% do mercado local. Pertencendo dez minutos, a cliente já está sem pa- mental Kenya Vision 2030, visa criar
2016, ele aumentou de 20% para 80% o em 40% ao grupo britânico Vodafone ciência. Felizmente, o entregador, que 20 mil empregos em cinco anos e 200
número de adultos com acesso ao ban- desde 2000, ela realiza um valor de ne- desviou dos engarrafamentos em sua mil mais a longo prazo, para fazer do
co – na verdade, simplesmente muni- gócios semestral de 930 milhões de eu- moto, não demora a trazer as garrafas país uma nação emergente.
dos de um telefone equipado. ros. Por sua vez, Nyambura ganha cer- de prosecco, 11 euros a unidade.
A África efetuou o que os especia- ca de 250 euros por mês, ou seja, o Um serviço tão eficiente não existe UM APP PARA OS PEQUENOS CAMPONESES
listas chamam de um “pulo de rã”: ela dobro da renda média mensal (103 eu- nem em Londres nem em Paris. Pode- No entanto, o crescimento tecnoló-
passou diretamente ao celular, sem ter ros). Ela economiza para realizar seu mos concluir que, no Quênia, a África gico e a confiança dos investidores não
conhecido um desenvolvimento maci- sonho: tornar-se professora. Como a do futuro chegou sem fazer estarda- são coisas que se decretam. A “Silicon
ço de linhas fixas, como os países in- escola de formação custa 400 mil xe- lhaço? No cinema Imax do centro, o Savannah” suscita ceticismo no Quê-
dustrializados. Com a carteira eletrô- lins (R$ 15 mil) por ano, serão necessá- filme norte-americano Pantera Negra nia, e o próprio arquiteto do projeto, Bi-
nica, o continente mais marginalizado rios muitos anos para que ela atinja teve suas sessões lotadas em março,1 tange Ndemo, já denunciou sua lenti-
no comércio mundial estampa pelo seu objetivo. Mas ela não se desespera: como em toda a África. Antes da proje- dão e o caráter burocrático de sua
menos uma vez uma vantagem na cor- afinal de contas, os clientes circulam ção em 3D, as publicidades são exibi- concepção. “Para a maioria dos que-
rida, inclusive em relação ao Ocidente por ali o dia inteiro. das, todas centradas nas tecnologias nianos, Konza City é um ‘elefante bran-
(Europa e Estados Unidos). O mobile No mesmo dia, do outro lado da ca- da informação e da comunicação (TI- co’ que só dará lucro definitivo para as
banking é utilizado por 17 milhões de pital, no bairro descolado de Wes- Cs), para louvar o último modelo de empresas estrangeiras e o governo”,
quenianos, em uma população de 47 tlands, amigas passam uma noite de smartphone ou o novo aplicativo a ser explica-nos Kahenya Kamunyu, fun-
milhões. Os agentes de uma economia festa no terraço de um prédio residen- baixado. A duas ruas da sala escura, no dador da empresa Able Wireless. “É
que permanece amplamente informal cial. Assim que as garrafas de bubbly Mercado Massai, comerciantes que uma ideia brilhante, mas que chega
têm, dessa forma, acesso aos serviços (espumante) se esvaziam, começa um vendem colares de miçangas e pratos num momento ruim. Deveríamos nos
financeiros, incluindo os emprésti- grito emitido em coro: “Chupa Chap!”. de sua etnia se extasiam diante do preocupar mais em construir infraes-
mos. Como em toda a África, os ban- A dona da casa digita em seu smart- iPhone 5 exibido por um turista para truturas que permitiriam depois ao
cos comerciais clássicos, cujos servi- phone e faz uma encomenda nessa loja calcular a taxa de câmbio. Mesmo ul- Quênia realizar grandes projetos.” Um
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 27

exemplo bem simples: a escola de de- mantido e puxado pelos serviços, não as vítimas do terremoto no Haiti ou consideradas muito próximas do po-
sign da Universidade de Nairóbi não se traduz em nenhuma decolagem ainda os pontos bloqueados pela neve der. Entre elas, a Safaricom, que viu
tem ainda uma impressora 3D para significativa. O desemprego perma- em Washington. Ele permitiu que a suas vendas caírem nas regiões do
seus estudantes. nece elevado (11%, segundo as esta- empresa social Ushahidi prosperasse, oeste, onde domina a etnia do candi-
O governo, por sua vez, defende tísticas oficiais; 39,1%, segundo as propondo o acesso à sua tecnologia em dato contestatário, os luos. “A econo-
seus planos baseado em números. As Nações Unidas), e os empregos cria- troca de valores módicos (US$ 100 a mia digital é apenas um instrumento,
novas tecnologias representaram 10% dos são frequentemente precários, 500 por mês). não a solução de todos os problemas.
do PIB em 2017. Elas saltaram desde a em uma das sociedades mais desi- Os políticos podem permanecer no lu-
instalação, em 2009, de um cabo de fi- guais do mundo.4 As causas: a falta de gar e fazer todos os seus planos, desde
bra ótica submarino, o East African investimentos na educação e na saú- que nos deixem fazer nossos negó-
Marine System (Teams), que religa os de e a pequena criação de empregos As eleições continuam cios”, resume uma mulher de negócios
Emirados Árabes Unidos ao Quênia. A no setor privado. Dois dos pilares da sendo marcadas que prefere permanecer anônima. Ela
obra, de US$ 82 milhões, lançada por economia, a indústria (17% do PIB) e pela violência, com mesma, ativa no que se convencionou
autoridades quenianas, visa reduzir a a agricultura (35%) permanecem chamar de “agronegócio feminino”,
dependência em relação a um cabo pouco produtivas. Claro, a empresa
ou sem as novas utiliza o WhatsApp, muito popular na
controlado pela África do Sul. O Teams que comercializa o aplicativo iCow tecnologias – que se África, para se comunicar gratuita-
fornece as conexões de internet mais (“iVaca”), por exemplo, se vangloria convidam inclusive mente por telefone ou mensagens de
rápidas da África, faturadas entre 25 e de ter permitido a seus 580 mil usuá- a participar do debate texto, criando grupos. “A fetichização
75 euros por mês – custo que perma- rios, pequenos proprietários rurais de empreendedorismo na África é o
nece elevado para o nível de vida. No que não possuem muito gado, a pos- novo mantra neoliberal”, afirma sem
Quênia high tech, três de quatro usuá- sibilidade de melhor acompanhar a meias palavras Ory Okolloh, cofunda-
rios ainda vão a cibercafés para usar gestação de seus animais e melhorar NÃO PODEMOS EMPREENDER dora da Ushahidi e diretora do Google
serviços lentos e caros.2 O programa sua produção leiteira e, consequente- NUM PAÍS MAL GERIDO no continente. “Basta se tornar em-
de aprendizagem digital DigiSchool, mente, sua renda. “Os agricultores Mesmo sendo muito eficiente, essa preendedor! Disseram-nos: ‘Não há
uma das maiores promessas eleitorais podem se informar em tempo real so- plataforma naturalmente não acal- eletricidade, mas vocês têm o sol. Suas
das eleições presidenciais de 2013, de- bre o custo dos produtos no mercado. mou as tensões políticas recorrentes estradas são esburacadas, mas vocês
ve fornecer 1 milhão de notebooks às Mas seus celulares não resolvem o no Quênia. As eleições continuam sen- podem usar o Uber em Nairóbi’. Isso
22 mil escolas primárias do país. Ain- problema da falta de infraestruturas do marcadas pela violência, com ou desvia nossa atenção dos verdadeiros
da nesse ponto, critica-se a lentidão rodoviárias para lhes permitir o aces- sem as novas tecnologias – que se con- problemas: não podemos ser em-
do projeto e o fato de que 20% dos es- so ou das manufaturas agroalimen- vidam inclusive a participar do deba- preendedores em um país mal admi-
tabelecimentos em questão ainda não tares para transformar os produtos te. A Corte Suprema pronunciou um nistrado. Claro, o crescimento está
dispõem de eletricidade, nem sequer no próprio local”, explica Ken Mwan- veredito histórico, no dia 1º de setem- presente na África, mas não é para os
de carteiras.3 gi, assistente de agrotecnologia da bro de 2017, ao invalidar a eleição pre- africanos!” No Quênia, a revolução
A taxa de pobreza efetivamente di- Universidade de Nairóbi. sidencial de 8 de agosto precedente, talvez seja digital, mas ela não ultra-
minuiu entre 2005 e 2016, e a parcela da Um dos sucessos mais impressio- ganha pelo presidente que saía do po- passa esse quadro.
população que vive com menos de US$ nantes das novas tecnologias no Quê- der, Uhuru Kenyatta, que acusou um
2 por dia passou de 43,6% para 35,6%. nia é sem dúvida a plataforma Ushah- “golpe de Estado judiciário”. Os magis- *Sabine Cessou é jornalista.
Segundo Tavneet Suri, economista do idi (“testemunho”, em suaíli). Esse trados se impuseram à comissão elei-
Massachusetts Institute of Technology programa livre foi inventado para per- toral independente: esta tinha procla-
(MIT) que estuda os efeitos da M-Pesa mitir o acompanhamento em tempo mado os resultados com base em
desde seu começo, a carteira eletrônica real das violências políticas na crise processos verbais que não eram todos 1 Ler Michel Galy, “‘Black Panther’ et afrofuturisme”
tirou da extrema pobreza cerca de 194 pós-eleitoral de 2008. O conflito – que autênticos, sem autorizar o acesso aos [“Pantera Negra” e afrofuturismo], Le Monde Di-
plomatique, jun. 2018.
mil lares quenianos, ou seja, 2% do to- se tornou interétnico – entre os parti- seus servidores informáticos, apesar 2 “World Development Report 2016: Digital Divi-
tal, entre 2007 e 2011. No entanto, mes- dários do presidente que saía do po- das acusações de pirataria e fraude. dends” [Relatório do Desenvolvimento Mundial
mo que a inovação tenha colocado os der, Mwai Kibaki, e os do oponente, Julgando as reformas eleitorais in- 2016: dividendos digitais], Banco Mundial,
Washington, 2016. Disponível em: <www.worl-
serviços bancários ao alcance de to- Raila Odinga, fez 1.200 mortos. O pro- suficientes, Odinga, principal oponen- dbank.org>.
dos, ela não resolveu os desequilíbrios grama, que oferece a possibilidade de te, recusou-se a tomar parte da nova 3 Dados do Banco Mundial.
estruturais da economia. cartografar os confrontos, foi utilizado votação de 26 de outubro de 2017. Ele 4 Ler Gérard Prunier, “Au Kenya les habitants de la
côte exclus du banquet démocratique” [No Quê-
Como em outros lugares da Áfri- por 22 mil usuários diferentes em 154 também convocou um boicote dos nia, os habitantes da costa excluídos do banquete
ca, o crescimento (5,8%), mesmo que países, por exemplo, para identificar produtos fornecidos pelas empresas democrático], Le Monde Diplomatique, out. 2014.
28 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

VIRADA À DIREITA DO SUCESSOR DE RAFAEL CORREA

No Equador,
o liberalismo-surpresa
O Equador com frequência entusiasmava os progressistas durante a presidência de Rafael Correa (2007-2017):
redução da pobreza, reestruturação da dívida pública, asilo político a Julian Assange, fundador do WikiLeaks...
Como então explicar a guinada de 180 graus de seu sucessor, Lenín Moreno, eleito para conduzir a mesma política?
POR FRANKLIN RAMÍREZ GALLEGOS*

M
aio de 2017. A posse de Lenín Moreno como pre-
sidente do Equador proporciona um suspiro de
alívio aos progressistas latino-americanos. Ao
derrotar o banqueiro Guillermo Lasso, Moreno
acaba de pôr fim ao avanço da direita na região depois das
eleições de Horacio Cartes no Paraguai em 2013 e de Mau-
ricio Macri na Argentina em 2015, ou da indicação de Mi-
chel Temer no Brasil após a destituição (mais do que
questionada) de Dilma Rousseff em 2016.1
Durante a campanha, Moreno prometeu continuar a
“Revolução Cidadã” de seu antecessor, Rafael Correa
(2007-2017), uma mistura de desenvolvimento, redistri-
buição de renda e reconstrução do Estado. Ele também se
comprometeu a alterar o estilo, considerado agressivo e
“verticalista”, do presidente que estava deixando o cargo.
Sua promessa? Promover um grande diálogo nacional pa-
ra acabar com a polarização, que teria exaurido parte da
população. O questionamento do modelo de Correa foi
reforçado com a crise econômica de 2015-2016 e os escân-
dalos de corrupção que afetam pessoas do entorno do ex-
-chefe de Estado. Para Moreno, é hora de mudar.
Terminada a eleição, o país descobre que o “diálogo na-
cional” tem apenas um objetivo: efetuar a aproximação do
Palácio de Carondelet (sede do Poder Executivo) com as eli-
tes contrárias a Correa. Pouco tempo depois de ter recebido
a faixa presidencial, Moreno age como se sua legitimidade
dependesse de sua capacidade de realizar essa reconcilia-
ção incomum. O programa que acaba de triunfar nas ur-
nas, e que poderia atrapalhar o “diálogo”, parece ter desa-
parecido. Restauração do poder dos mercados, alinhamento
com a política externa dos Estados Unidos: os primeiros
passos de Moreno surpreendem a esquerda regional. E dei-
xam a direita entusiasmada. Que principal adversário o no-
vo presidente escolhe? O homem cuja política ele promete-
ra seguir e do qual foi vice-presidente por seis anos, de 2007
a 2013: Correa. A Revolução Cidadã (RC), o projeto político
progressista que transformou o país, acabava de levar ao
poder um homem que se empenhava em destruí-la.
Em fevereiro de 2018, o governo de Moreno organizou
um referendo apresentado como indispensável para
“combater a corrupção”. Seu propósito real: enfraquecer
o ex-presidente, ainda muito apreciado por uma parte da
população. Das sete propostas colocadas em votação,
uma proibia os líderes políticos de postular mais de duas
vezes a mesma função; a outra permitia destituir funcio-
nários indicados para o Conselho de Participação Cidadã
e de Controle Social considerados próximos do ex-chefe
de Estado. Moreno ganhou sua aposta e venceu ampla-
mente. Impossibilitado de concorrer na eleição presiden-
cial de 2021, Correa está enfraquecido. O alívio causado
pela partida das pessoas ligadas a ele transforma o palá-
© Tulipa Ruiz

cio presidencial em um aconchegante ninho para o qual


se precipitam os representantes da elite, do patronato e
da direita.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 29

“DESPERDÍCIO POPULISTA” lar. O poder desenvolveu a ideia de que riana em Londres por medo de ser ex- e opaco” associado à esquerda é incapaz
Fundado por Correa em 2006, o a crise que abala o país seria explicada traditado para os Estados Unidos. da ética mais elementar. Ele, portanto,
Alianza País (AP) tornara-se o partido pelo “desperdício populista”. Martínez O “desastre populista” denunciado levaria automaticamente ao desregra-
mais importante desde o fim da ditadu- leva a política econômica para a direi- pelos neoliberais equatorianos parece mento e à crise. O poder e a mídia equa-
ra em 1979. Em 2017, ele conquistou a ta: objetivo de superávit orçamentário difícil de demonstrar: entre 2007 e torianos logo se juntam ao coro regional
maioria no Parlamento, apesar de seu primário, liberalização comercial, fle- 2016, a taxa de pobreza caiu de 37% pa- quando explicam que as políticas de re-
grupo ter passado de cem assentos em xibilização do direito trabalhista. A Lei ra 23%, enquanto o PIB cresceu 68%. distribuição de renda da esquerda leva-
2013 para 75 (de 137). No auge do confli- do Desenvolvimento Produtivo, apro- Eles, no entanto, se servem dele para ram à corrupção,7 sugerindo ao mesmo
to entre Correa e Moreno, o tribunal vada em agosto de 2018, impõe auste- reorganizar a sociedade de maneira a tempo que a austeridade seria um impe-
eleitoral decidiu colocar o partido sob o ridade ao erradicar as políticas de de- agradar os mercados internacionais. rativo moral sob essas condições.
controle de pessoas ligadas a este últi- senvolvimento e de redistribuição do Mas os princípios de sua nova econo- Uma pergunta se coloca, no entan-
mo, forçando seus adversários políticos mandato anterior. mia são muito semelhantes às antigas to: a operação teria sido possível se
a tentar fundar uma nova estrutura. Es- No que se refere aos impostos, o lógicas de renda sustentadas pela oli- Moreno não tivesse conseguido lucrar
ta, no entanto, está tendo dificuldades texto prevê anistia para particulares garquia do passado. com uma crise real dentro da RC? A
para se materializar por causa dos obs- maus pagadores, assim como uma sé- Num país que acabava de passar impunidade desfrutada até agora pe-
táculos que as autoridades eleitorais – rie de presentes destinados às grandes por um longo ciclo de hegemonia da los responsáveis pelo desfalque levou
agora ligadas a Moreno – colocam em empresas, a pretexto de “incentivar o corrente progressista encarnada por parte da população a concordar com o
seu caminho.2 A implosão das forças retorno dos investidores”. Apresentada Correa, teria sido necessária uma pro- governo. Assim, apesar da natureza
que juntas compunham a RC facilitou a como uma medida destinada a finan- funda transformação do equilíbrio de arbitrária da campanha de oposição a
aproximação das elites com o presiden- ciar o Estado, a lei ratifica a insubordi- forças e dos mecanismos de legitima- Correa, a luta contra a corrupção foi
te Moreno, que nunca viu os partidos e nação fiscal dos poderosos. Além dis- ção do poder para que uma guinada transformada em um grande proble-
mobilizações populares como forças so, o primeiro artigo da Lei Orgânica como essa despertasse tão pouca re- ma público. Em tal contexto, os pro-
democráticas úteis para a reconstrução de Defesa dos Direitos Trabalhistas foi sistência. Como explicar a introdução gressistas podem se contentar em ex-
de blocos políticos. Poucos meses de- suprimido. Ele permitia que as autori- desse “liberalismo-surpresa”? plicar seus reveses pela “traição de
pois, a nomeação de Richard Martínez, dades processassem os proprietários A expressão foi inventada em 2001 Moreno”? Ignorando a exigência po-
patrono dos patrões equatorianos, para de empresas que tivessem prejudicado pela intelectual Susan Stokes.5 Ela ten- pular de integridade, tal estratégia en-
o posto de ministro da Economia refor- os interesses de seus funcionários, tava então analisar o déficit de legitimi- fraqueceria o argumento de todos
çou o pacto que dá sustentação ao po- ocultando recursos ou retirando as dade democrática dos governos latino- aqueles que tentam mostrar que o
der de Moreno, enquanto a cisão entre máquinas das fábricas. -americanos que, como o de Moreno neoliberalismo não é uma cura para
apoiadores de Correa e Moreno o havia hoje, tinham chegado ao poder com um os chamados excessos da esquerda,
privado da maioria no Parlamento. programa diametralmente oposto às mas um projeto político desigual.
No entanto, o novo clã no poder receitas liberais tradicionais e que, no O campo progressista divide-se en-
não se limita às elites tradicionais: A luta contra a entanto, as tinham aplicado ao pé da le- tre uma esquerda oposta a Correa e
inclui também, em um nível inferior, “corrupção” combina tra. No Peru, na década de 1990, Alberto uma postura pró-Correa ainda mili-
intelectuais identificados como “pro- dois elementos Fujimori superou a dificuldade – com tante, mas enfraquecida pelos ataques
gressistas”, representantes de sindi- tal brilhantismo que conseguiu se ree- político-judiciais de poder e por sua
catos e figuras do movimento indíge-
complementares: leger – ao prometer segurança e ordem própria incapacidade de autocrítica.
na – situação que chocou parte da o ativismo político da (em face da ameaça dos guerrilheiros Portanto, a possibilidade de uma nova
esquerda da região. Em agosto de justiça e vigorosas do Sendero Luminoso) em troca do virada à esquerda parece incerta. A di-
2018, por exemplo, o argentino Adolfo campanhas de mídia ajuste estrutural. Já o Equador de 2018 reita, apesar de compartilhar o poder
Pérez Esquivel, vencedor do Prêmio apresenta sua virada neoliberal como de fato, não ganha uma eleição presi-
Nobel da Paz em 1980, enviou uma car- consequência da “crise moral da políti- dencial desde 1998; um colapso da po-
ta aberta à Confederação de Nações In- ca de Correa”. O combate à corrupção pularidade do regime atual poderia
dígenas do Equador (Conaie). Moreno Em relação às políticas de desen- torna-se aqui o principal mecanismo de minar suas esperanças de retornar à
acaba de propor à organização que se volvimento, o governo renuncia a ta- legitimação do abandono ao mercado. ativa por meio das urnas. Nesse caso, e
estabeleça nas instalações equatoria- xar os aumentos extraordinários no A luta contra a “corrupção” combi- tal como o presidente brasileiro Michel
nas da União das Nações Sul-America- preço de matérias-primas ou os repa- na dois elementos complementares: o Temer, Moreno teria conseguido devo-
nas (Unasul), que, em uníssono com a triamentos de divisas. Tal como o go- ativismo político da justiça e vigorosas rar tanto aqueles que o levaram ao po-
direita local, ele pretende enfraquecer: verno brasileiro, ele se abstém de au- campanhas de mídia que visam obs- der quanto os que apoiaram sua cruza-
“Lenín Moreno, junto com outros líde- mentar os gastos públicos em mais de curecer a memória popular. As mano- da antipopular. Todos agora sabem o
res de países que professam políticas 3% ao ano e restringe os déficits orça- bras contra a política de Correa se que aconteceu na história no Brasil.
neoliberais, está tentando destruir es- mentários apenas ao pagamento de multiplicam em um circuito que ali-
ses espaços de integração e participa- juros da dívida. O investimento desa- menta ao mesmo tempo as decisões *Franklin Ramírez Gallegos é professor
ção”, escreveu Pérez Esquivel. “Os po- pareceu da caixa de ferramentas das governamentais, o agito nas redes so- pesquisador em Ciência Política (Equador).
vos indígenas do Equador sempre se políticas públicas; as privatizações, ciais e as manchetes dos jornais. Não
mobilizaram pela defesa de seus direitos por outro lado, são facilitadas por meio se trata mais de julgar suspeitos, mas
e liberdades. Seria lamentável que eles de subvenções garantidas por vários de fazer dos tribunais instâncias legí- 1 Ler Anne Vigna, “Au Brésil, la crise galvanise les
aceitassem essa proposta, que visa en- anos. Não hesitando em violar a Cons- timas para avaliar a pertinência dessa droites” [No Brasil, a crise galvaniza as direitas], Le
Monde Diplomatique, dez. 2017.
fraquecer nossas democracias. A Conaie tituição, o poder adota o sistema inter- ou daquela política. Enquanto o ex-vi- 2 O grupo pró-Correa tem 29 deputados.
não pode ignorar o papel decisivo de- nacional de arbitragem de litígios para ce-presidente Jorge Glas – acusado de 3 “Carta pública de Adolfo Pérez Esquivel à Co-
sempenhado pela Unasul em desarmar todos os investimentos estrangeiros.4 formação de quadrilha – está na prisão naie”, TeleSur, 29 ago. 2018. Disponível em:
<www.telesurtv.net>.
e denunciar golpes na Bolívia, Equador, Além de sua participação no enfra- e Correa, que vive na Bélgica, foi objeto 4 Ler Benoît Bréville e Martine Bulard, “Des tribunaux
Paraguai e Honduras, entre outros.”3 quecimento da Unasul e da Comunida- de um mandado de prisão internacio- pour détrousser les États” [Tribunais para assaltar
Sua missiva permanece sem resposta. de dos Estados Latino-Americanos e nal,6 o governo está gradualmente os Estados], Le Monde Diplomatique, jun. 2014.
5 Susan Stokes, Mandates and Democracy. Neoli-
Tendo efetuado a reincorporação Caribenhos (Celac), Moreno propõe a questionando os êxitos do que os beralism by Surprise in Latin America [Mandatos e
dos interesses dos patrões e a vertente entrada do Equador na Aliança do Pací- equatorianos tinham batizado de “dé- democracia. Neoliberalismo-surpresa na América
reacionária das organizações sociais e fico, organização de livre-comércio que cada ganha” de 2007-2017: crescimen- Latina], Cambridge University Press, 2001.
6 Rejeitado pela Interpol em setembro de 2018
sindicais no seio do Estado – uma pro- reúne Estados latino-americanos lide- to econômico, redução da pobreza e devido à “natureza política” do processo em cur-
vidência que Correa sempre recusou –, rados por conservadores. Ele se pro- das desigualdades... so, que diz respeito ao sequestro de um deputa-
o novo presidente consegue governar nunciou contra o asilo concedido a Ju- Pouco a pouco, a narrativa que justi- do em 2012.
7 Ler Renaud Lambert, “Le Brésil est-il fasciste?”
com um partido sem coesão política, lian Assange, o fundador do WikiLeaks, fica a operação judicial e midiática con- [O Brasil é fascista?], Le Monde Diplomatique,
sem base eleitoral e sem apoio popu- entrincheirado na embaixada equato- segue impor uma ideia: o “Estado obeso nov. 2018.
30 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

UMA NOVA REVOLUÇÃO VERDE?

Fertilizantes nitrogenados:
providência transformada
em veneno
Produtos emblemáticos da “revolução verde”, os pesticidas
e adubos sintéticos permitiram vencer o desafio alimentar
apresentado pela explosão demográfica do século XX.
Mas o recurso generalizado a esses produtos afeta
gravemente a saúde dos agricultores e o equilíbrio do
ambiente. Aprender a limitar seu uso é um dos imperativos
da agricultura do século XXI
POR CLAUDE AUBERT*

E
m 1909, o químico alemão Fritz rendimento. Não há mais necessidade
Haber conseguiu combinar o ni- de carretas com toneladas de estrume
trogênio do ar com o hidrogê- ou compostagem nem do cultivo de le-
nio, obtendo a síntese do amo- guminosas ricas em nitrogênio...
níaco (NH3). Uma reação química Há um século, a produção de quan-
entre muitas? De modo algum. Ela re- tidades ilimitadas e pouco onerosas de
volucionou a agricultura, permitindo nitrogênio reativo, utilizável para as
dobrar – ou triplicar – a produção. Pa- plantas, vem revolucionando comple-
ra muitos especialistas, a invenção tamente a agricultura. Ela formava,
dos adubos nitrogenados alimentou a nos anos 1960, um dos quatro pilares
população do planeta, que passou no da “revolução verde”: seleção de varie-
século XX de 1,5 bilhão a mais de 6 bi- dades de alto rendimento, pesticidas,
lhões de habitantes. Essa descoberta, irrigação e adubos químicos. Esse mo-
à primeira vista genial, valeu a seu au- vimento foi saudado unanimemente
tor o Prêmio Nobel de Química em como uma grande conquista. Mas, nas
1918 – premiação controvertida, pois nações industrializadas primeiro e de-
Haber havia participado também da pois nos países em desenvolvimento, a
concepção dos gases letais emprega- utilização crescente de adubos nitro-
dos nas trincheiras da Primeira Guer- genados sintéticos provocou efeitos
ra Mundial. Esse pesquisador, oriun- que ninguém, ou quase ninguém, ha-
do de uma família judia, contribuiu via previsto.
igualmente para o aperfeiçoamento
do Zyklon B, gás funesto usado vinte SÉRIE DE EFEITOS DELETÉRIOS
anos depois pelos nazistas nos cam- Não tardou e os agricultores perce-
pos de extermínio. beram que a contribuição, para as cul-
A alimentação das plantas implica turas, de nitrogênio oriundo de dejetos
um paradoxo. O ar se compõe essen- orgânicos (esterco, chorume) e de legu-
cialmente de nitrogênio (78%, contra minosas não era mais necessária. En-
21% de oxigênio), mas elas não conse- tão, para que complicar a vida criando
guem obter assim esse alimento indis- vacas ou carneiros e pondo-os a pastar?
pensável a seu crescimento. É sobretu- Muitos agricultores se livraram do ga-
do no solo que o encontram, sob a do e passaram a se dedicar unicamente
forma de nitrato (NO3) ou de amonía- às lavouras, principalmente de cereais.
co (NH3). Podem então assimilá-lo, Mas, como era preciso produzir tam-
© Suryara

graças à sua mineralização por bacté- bém leite e carne, cuja demanda au-
rias, no humo e em outras matérias or- mentava a olhos vistos, outras fazendas
gânicas: resíduos de colheitas, estru- se voltaram exclusivamente para a pe-
me, compostagem etc. Desde a cuária, com as mais produtivas adotan-
invenção de Haber, uns poucos sacos do o método de confinamento, sem saí-
de adubo fornecem todo o nitrogênio da do gado, e substituindo a forragem
necessário às plantas e melhoram o por cereais ou oleaginosas.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 31

No decorrer de poucas décadas, a sobre a saúde e o ambiente, conforme te importante das partículas finas po- absorve três quartos da produção de
paisagem agrícola francesa e euro- demonstraram duzentos pesquisado- de ser de origem agrícola, principal- amoníaco. Os animais confinados
peia se transformou radicalmente. res europeus numa importante publi- mente por causa das emissões de emitem para a atmosfera quatro vezes
No centro e no grande leste da Fran- cação que, infelizmente, passou qua- amoníaco provenientes do solo após a mais amoníaco que os de pasto, quan-
ça, regiões cerealíferas sem gado re- se despercebida!1 Principais acusados: aplicação de adubos, e essencialmen- do estes não são criados de forma ex-
correm a uma agricultura quase in- os nitratos e o amoníaco. Os primeiros te dos dejetos (esterco sólido, esterco cessivamente intensiva. Algumas me-
teiramente mecanizada, utilizando estão normalmente presentes no solo, líquido, chorume) do gado. didas técnicas permitem, sem dúvida,
enormes quantidades de adubos ni- onde são absorvidos pelas raízes das Os cientistas que contribuíram pa- diminuir as emissões de amoníaco
trogenados sintéticos. Na Norman- plantas, às quais fornecem boa parte ra a avaliação europeia do nitrogênio (cobertura de fossas de chorume, ater-
dia, na Bretanha, na Jutlândia (Dina- de seu nitrogênio. Mas resta sempre, calculam o custo ambiental dos exce- ramento deste, utilização de nitratos
marca) e na Bavária, a pecuária se em particular quando as aplicações dentes dessa substância, para o conti- de amônia em vez de ureia etc.); mas
industrializa cada vez mais, com de adubos nitrogenados são muito al- nente, entre 70 bilhões e 320 bilhões de elas são geralmente caras e, em certos
enormes concentrações de cabeças tas, um excesso de nitrogênio; este euros por ano, por causa de seu impac- casos, de eficácia relativa. Para reduzir
de gado. Fazendas com mais de mil acaba sendo levado pelas chuvas, vai to sobre os ecossistemas, sobre a qua- bastante, ou mesmo suprimir, o uso de
vacas se tornam comuns em vários para os lençóis freáticos e os cursos de lidade do ar e da água e, em definitivo, nitrogênio sintético, seria necessário
países europeus, enquanto chiquei- água, chegando por fim às torneiras. sobre a saúde humana.6 Esse custo voltar à associação de cultura e cria-
ros e granjas produzem dezenas de Dois são os efeitos principais: um pos- lhes parece superior ao lucro econô- ção, o que diminuiria o número de re-
milhares de porcos por ano ou criam sível risco de aumento de certos tipos mico auferido da utilização dos adu- banhos em campo aberto. De resto,
centenas de milhares de galinhas. de câncer e a eutrofização dos rios, bos nitrogenados sintéticos. Os pes- hoje os adubos químicos permitem
Essa evolução resulta diretamente da que provoca o desaparecimento dos quisadores consideram o excedente de produzir rações para o gado a preços
invenção de Haber, considerada a peixes e o acúmulo de dezenas de mi- nitrogênio um dos maiores problemas relativamente baixos, satisfazendo a
justo título como a mais importante lhares de toneladas de algas verdes ao ecológicos do século XX, no mesmo demanda mundial crescente de carne
da história da agricultura – alguns di- longo das costas, todos os anos. En- patamar do aquecimento climático e e laticínios. Na Europa, ela vem dimi-
zem mesmo da história. contramos também nitratos nos ali- da perda da biodiversidade. nuindo; seria então o caso de acompa-
Essa revolução, lógica do ponto de mentos, com teores às vezes bastante A primeira solução seria, evidente- nharmos essa evolução comendo car-
vista econômico a curto prazo, gera elevados em alguns legumes. Seu im- mente, reduzir ou até suprimir o uso ne em menor quantidade e de melhor
uma série de efeitos deletérios, tanto pacto sobre a saúde ainda é objeto de de nitrogênio químico. Isso poderia qualidade. Uma nova revolução verde,
em matéria de saúde quanto de meio controvérsias, dada a falta de dados ser feito modificando-se os sistemas corrigindo as consequências nefastas
ambiente. Na realidade, numerosos científicos suficientes e congruentes. produtivos com a introdução, sobretu- da primeira, está ao alcance das mãos:
problemas ecológicos e sanitários do, de uma quantidade maior de legu- para tanto, bastaria usar cada vez me-
apresentados pela agricultura moder- NA ORIGEM DAS PARTÍCULAS FINAS minosas (feijões, ervilhas, alfafa etc.) nos adubos nitrogenados nas culturas
na emanam da síntese de adubos ni- O amoníaco é um poluente bem nas rotatividades, o que nos livraria da e optar por outros métodos de criação
trogenados, ou melhor, do mau uso menos conhecido, mas mais preocu- dependência da soja, importada em – menos concentrados, menos intensi-
que se faz deles. pante nas áreas de saúde e ambiental. massa. A agricultura orgânica, permi- vos e em pastagem. Mas, para chegar a
Primeiro problema: o teor de maté- A quase totalidade das emissões (679 tindo-nos dispensá-la completamen- isso, cruelmente duas coisas ainda pa-
ria orgânica no solo diminui em re- mil toneladas em 2016) provém da la- te, é um argumento de peso – sem dú- recem faltar: a informação ao consu-
giões de grandes culturas, por falta de voura (64%) e da pecuária (34,4%).2 vida tanto quanto a não utilização de midor e a vontade política.
fertilizantes orgânicos e de rotativida- Esse composto químico não perma- pesticidas sintéticos7 – em favor desse
de, incluindo as culturas que enrique- nece por muito tempo na atmosfera: modo de produção. *Claude Aubert é engenheiro agrônomo,
cem naturalmente a terra de nitrogê- uma parte se deposita no solo e na ve- Se fosse brutalmente proibida a especialista em agricultura e alimentação or-
nio e de matéria orgânica, como a getação; a outra dá origem a diversos utilização de nitrogênio químico a to- gânica e cofundador da Terre Vivante.
alfafa. Grandes produções são possí- compostos nitrogenados indesejáveis dos os agricultores, é óbvio que resul-
veis, mas, em determinadas regiões, (protóxido de nitrogênio, óxidos de ni- taria daí uma catástrofe, pois a conver-
tendem a se estabilizar e mesmo a se trogênio, ozônio etc.). Os óxidos de ni- são aos métodos orgânicos tem de ser
reduzir, a despeito do reforço de nitro- trogênio se combinam com outros po- progressiva e exige, para numerosas 1 Mark A. Sutton et al. (orgs.), The European Nitro-
gênio sintético. Além disso, a capaci- luentes que existem no ar e formam fazendas, uma inversão total de seu gen Assessment, Sources: Effects and Policy
Perspectives [Avaliação do nitrogênio na Europa,
dade de retenção de água do solo e a partículas finas secundárias.3 Esse úl- sistema produtivo. A maior parte dos fontes: efeitos e políticas em perspectiva], Cam-
rapidez de infiltração diminuem, o timo fenômeno é um dos mais inquie- especialistas vem observando que a bridge University Press, 2011.
que agrava o risco de erosão por escor- tantes. As partículas finas penetram generalização de uma agricultura sem 2 Relatório de emissão Secten (SECTteurs Econo-
miques et éNergie), Centre Interprofessionnel
rimentos ou inundações. fundo nos alvéolos pulmonares e pro- nitrogênio sintético conduziria a uma d’Études de la Pollution Atmosphérique, Paris,
Não bastasse isso, as pragas e doen- vocam câncer, além de doenças car- queda no rendimento. Mas uma meta- 2017 (publicado em 10 jul. 2018). Disponível em:
ças se multiplicam, exigindo cada vez diovasculares e respiratórias. A Orga- -análise recente concluiu que, em âm- <www.citepa.org>.
3 Nome dado às partículas em suspensão no ar com
mais tratamentos com pesticidas. Os nização Mundial da Saúde estima que bito mundial, a diferença média de diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, ou PM2,5.
adubos nitrogenados não são, eviden- a exposição a essas partículas causou rendimento entre a agricultura orgâ- 4 “Qualité de l’air ambiant et santé” [Qualidade do ar
temente, a única causa do problema, cerca de 4,2 milhões de mortes pre- nica e a convencional era de apenas ambiente e saúde], OMS, Genebra, 2 maio 2018.
Disponível em: <www.who.int/fr>.
mas contribuem para o desapareci- maturas no mundo, em 2016.4 Segun- 19%.8 Chega a cair para 8% ou 9% 5 Relatório de emissão Secten, op. cit.
mento das rotatividades longas, que do o Centre Interprofessionnel d’Étu- quando as técnicas orgânicas incluem 6 “Nitrogen in Europe: Current problems and future
interrompem o ciclo de reprodução des de la Pollution Atmosphérique rotatividades de culturas variadas. solutions” [Nitrogênio na Europa: problemas atuais
e soluções futuras], Initiative Internationale sur
dos agentes patogênicos e dos insetos, [Centro Interprofissional de Estudos Outra meta-análise mostra que as cul- l’Azote, Fondation Européenne de la Science, Es-
e para o aumento do teor de nitrogênio da Poluição Atmosférica] (Citepa), a turas associadas ou intercalares – vá- trasburgo, 2011. Disponível em: <www.nine-esf.
nas folhas, que favorece a multiplica- agricultura e a silvicultura foram res- rias espécies cultivadas num mesmo org>.
7 Ver Claire Lecœuvre, “Pourquoi manger bio?” [Por
ção de algumas pragas (por exemplo, ponsáveis por 55% das emissões totais campo e ao mesmo tempo – permi- que comer orgânicos?], Le Monde Diplomatique,
os pulgões). de partículas em suspensão, em 2016, tem, em média, um aumento de 30% mar. 2018.
Enfim, a cultura quase exclusiva e essas emissões não estão diminuin- na produção.9 Alimentar todos os ha- 8 Lauren C. Ponisio et al., “Diversification pratices
reduce organic to conventional yield gap” [Práticas
de cereais enfraquece a biodiversida- do, contrariamente às da indústria ou bitantes do planeta sem nitrogênio de diversificação reduzem a diferença de rendi-
de, do mesmo modo que a perturba- do transporte.5 Se as culturas repre- sintético parece, pois, possível – mas mento entre a produção orgânica e a convencio-
ção da atividade biológica da terra e os sentam a parte principal de emissão pressupõe uma mudança radical de nal], Proceedings of the Royal Society B, v.282,
n.1799, Londres, 22 jan. 2015.
depósitos de nitrogênio atmosférico, primária do conjunto de partículas modelo agrícola. 9 Marc-Olivier Martin Guay et al., “The new Green
provenientes do amoníaco emitido em geral, a pecuária contribui sobre- A outra parte da solução, menos di- Revolution: Sustainable intensification of agricultu-
pelos solos e pelo gado. Os solos vão se tudo para a formação de partículas fi- fícil de implementar a curto prazo, é re by intercropping” [A nova revolução verde: inten-
sificação sustentável da agricultura pelo plantio in-
tornando cada vez mais ácidos. O ex- nas. Quando dos picos de poluição, reduzir o porte das criações indus- tercalar], Science of the Total Environment, v.615,
cesso de nitrogênio tem graves efeitos em particular na primavera, uma par- triais e o consumo de carne. O gado Amsterdã, 15 fev. 2018.
32 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

UMA NOVA REVOLUÇÃO VERDE?

Pesticidas e agricultores
Os perigos de vários produtos químicos utilizados na agricultura vão sendo aos poucos admitidos;
entretanto, sua regulamentação e o reconhecimento dos males que provocam continuam sendo um
combate árduo, em particular para os agricultores
POR NATALIE SAUER*
© Daniel Kondo

E
m 10 de agosto de 2018, um jar- presunção de causalidade entre a explica François Lafforgue, advogado conforme Annie Thébaud-Mony, so-
dineiro dos subúrbios de San doença e a exposição é da ordem de 10 de diversas vítimas, entre as quais as cióloga e diretora de pesquisa do Insti-
Francisco conseguiu que a em- mil pessoas: dois terços para a doença de Triskalia:3 “Temos ganho de causa tut National de la Santé e de la Recher-
presa Monsanto fosse condena- de Parkinson e um terço para as hemo- em 95% dos casos, o que prova à socie- che Médicale (Inserm). Por ocasião
da em juízo por não tê-lo prevenido patias malignas”.2 dade que a MSA não leva em conta as das entrevistas para a emissão de um
dos efeitos do Roundup, o herbicida Nos últimos anos, porém, o regime sequelas constatadas”. atestado da origem profissional da
mais utilizado no mundo. Esse proces- de proteção social obrigatório dos agri- Os que desejam entrar com um doença, a ênfase é o mais das vezes so-
so valeu a Dewayne Johnson, que so- cultores fez alguns progressos no reco- processo devem enveredar por um la- bre fatores individuais dependentes
fria de um câncer em fase terminal, nhecimento das enfermidades. Vítima birinto kafkiano. Se suas doenças não dos hábitos de higiene – consumo de
uma indenização considerável: US$ em 2006 de uma leucemia rara após forem Parkinson nem linfoma não Ho- fumo ou álcool, obesidade –, em detri-
289 milhões (cerca de R$ 1 bilhão). Na manipular produtos à base de benze- dkin, eles precisam se dirigir ao Comi- mento de fatores ambientais. Ela ex-
Europa, o glifosato, principal compo- no, Dominique Marchal foi o primeiro tê Regional de Reconhecimento de plica: “Os médicos não estão prepara-
nente do Roundup, continuará autori- agricultor indenizado por causa de Moléstias Profissionais (CRRMP), or- dos para levar em conta fatores
zado pelo menos até 2022. uma patologia profissional associada ganismo independente da MSA, e pro- coletivos, que ponham em causa a ló-
Na França, segundo maior consu- aos pesticidas. Em 2012, a MSA acres- var que foram expostos aos produtos gica industrial”. As associações de víti-
midor de produtos fitossanitários en- centou a doença de Parkinson à sua lis- presumivelmente responsáveis por mas denunciam também pressões
tre os países da União Europeia (de- ta de enfermidades profissionais. Dois sua doença. Segue-se então a caça aos mais ou menos fortes que alguns mé-
pois da Espanha), a Mutualité Sociale anos depois, foi a vez do linfoma não documentos: talões de pedidos, fatu- dicos exercem contra os pacientes e
Agricole (MSA) indenizou quase mil Hodkin. No entanto, esses progressos ras ou recipientes que continham os que podem ir da advertência benevo-
agricultores durante a última década, ainda são insuficientes. Cofundadora tóxicos incriminados. lente (“É um processo longo”) à rejei-
para todos os tipos de doença. “É a do grupo Médoc Info Pesticides, Ma- Essas providências são particular- ção pura e simples (“Você não tem na-
ponta do iceberg”, reconhece Anne- rie-Lyse Bibeyran lutou pelo reconhe- mente cansativas para os trabalhado- da”, “Isso é uma ninharia”).4
-Marie Soubielle, encarregada do De- cimento da origem profissional do cân- res, que às vezes precisam se haver Por seu turno, a MSA garante que,
partamento de Saúde e Segurança no cer de fígado, que levou seu irmão com seus patrões, pouco inclinados a na Europa, seu sistema de proteção “é o
Trabalho do Ministério da Agricultu- vinicultor com a idade de 47 anos. Ela fornecer os documentos comprobató- mais favorável ao demandante” para
ra. Um relatório entregue ao governo sempre menciona o “duplo castigo da rios da exposição. Uma vez de posse as doenças ligadas aos pesticidas, co-
em janeiro de 2018 é alarmante: “O nú- doença e do silêncio” imposto aos agri- desses elementos, precisam em segui- mo afirma Marc Rondeau, médico as-
mero de vítimas hoje conhecidas dis- cultores afetados em 2018. da estabelecer um vínculo de causali- sistente e consultor técnico nacional
farça claramente o número potencial O relatório da administração colo- dade entre a doença e as substâncias, da seguradora. Alguns países, como a
delas”.1 Com base nos conhecimentos ca em destaque os “limites dos disposi- que podem ser múltiplas. “É uma tare- Alemanha, exigem dos demandantes a
científicos internacionais atualmente tivos” de indenização atuais, cujo as- fa difícil, porque os efeitos são a longo prova de que o produto é a causa direta
disponíveis, os inspetores-gerais da pecto mais desencorajador seria a prazo, surgindo vinte ou trinta anos da patologia, enquanto a MSA francesa
administração calculam que “o risco insignificância da compensação fi- depois da exposição, quando o perigo sustenta que acolhe “automaticamen-
da exposição da população agrícola nanceira a esperar. As indenizações era desconhecido”, explica Soubielle. te” os pedidos de indenização para a
aos produtos químicos envolveria hoje concedidas às vítimas de produtos fito- Segunda muralha a transpor: o re- doença de Parkinson ou o linfoma não
100 mil pessoas. O número de vítimas farmacêuticos são objeto de contesta- conhecimento clínico, considerando- Hodkin, caso a exposição mais recente
potenciais em que existe uma forte ções sistemáticas perante os tribunais, -se a formação precária dos médicos, à substância tenha ocorrido no curso
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 33

do ano anterior. Acusada de não repre- linhava que 52% dos especialistas en- zar uma reunião sem a ajuda de uma dia 2 de julho de 2018, em favor da cria-
sentar as vítimas dos pesticidas, ela se carregados de examinar os efeitos das empresa”, desafia Paul François, presi- ção de um fundo específico para as ví-
defende alegando que seu conselho misturas de pesticidas nos alimentos dente da associação Phyto Victimes e timas de pesticidas, o governo adiou o
administrativo é eleito por 24 mil pro- tinham “vínculos com a indústria”.5 primeiro agricultor do mundo a con- projeto para 2020, argumentando que
fissionais, incluindo os agricultores e Na França, a associação Générations seguir a condenação da Monsanto, em o conhecimento dos efeitos dos produ-
os empregados da agroindústria. Futures denuncia falhas no sistema de 2012, após uma intoxicação por um de tos era insuficiente para justificar esse
Sob o fogo das críticas, o grupo de homologação da Anses. Aí, os produ- seus herbicidas, o Lasso. A FNSEA se fundo. Em 2013, contudo, uma análise
pressão francês dos pesticidas pede tos são avaliados isoladamente, sem põe também ao lado de associações de coletiva do Inserm constatou que exis-
confiança no “sistema robusto” de re- levar em conta sua interação com ou- vítimas, de médicos e de funcionários tiam vínculos entre a exposição aos
gulamentação atualmente em vigor. tras substâncias químicas no ambien- na Comissão Superior das Doenças pesticidas e as doenças neurovegetati-
“Seria inquietante que os produtos fos- te – o “efeito coquetel” – nem suas con- Profissionais (Cosmap), a organização vas, problemas de reprodução ou al-
sem postos no mercado segundo crité- sequências a longo prazo. responsável por propor a inscrição das guns tipos de câncer, como o de prós-
rios suscetíveis de tornar as pessoas Alain Garrigou, professor de Ergo- doenças profissionais. Em 2012, ela vo- tata, as leucemias ou os linfomas, que
doentes”, declara Eugénia Pommaret, nomia da Universidade de Bordeaux e tou contra a inscrição da doença de afetam os órgãos produtores de com-
diretora da Union des Industries pour especialista em doenças profissionais, Parkinson. Em 2015, absteve-se no ca- ponentes do sangue (gânglios linfáti-
la Protection des Plantes (UIPP). Ela acrescenta que o uso de uniformes não so do linfoma não Hodkin. cos, baço, medula óssea). O número de
assegura: “O processo de autorização poderá jamais proteger integralmente No âmbito político, a questão vai pedidos de indenização não cessa de
para a colocação no mercado, condu- contra a exposição aos pesticidas: na ganhando corpo. Introduzida sob a aumentar: 26 em 2007, 113 em 2016 e
zido pela Anses (Agência Nacional de melhor das hipóteses, contribuirá para forma de uma emenda à Lei de Agri- um total de 678 para o conjunto do pe-
Segurança Sanitária da Alimentação, diminuí-la; na pior, para aumentá-la. cultura e Alimentação examinada no ríodo considerado.7
do Ambiente e do Trabalho), está en- Segundo seus estudos, os agricultores Senado, a criação de um fundo de in-
tre os mais rigorosos do mundo, pres- munidos de uniformes podem ficar até denização específico para as vítimas *Natalie Sauer é jornalista.
supondo um reexame do produto a três vezes mais expostos que os que de produtos fitossanitários está sendo
cada dez anos”. não os usam.6 Em certos casos, os pro- atualmente debatida. Seguindo o mo-
Pommaret insiste, notadamente, dutos passam diretamente pelo tecido delo do dispositivo de indenização às
na melhoria dos dispositivos de prote- dos uniformes, que se tornam então vítimas do amianto, esse fundo seria
ção: os uniformes de trabalho são ago- verdadeiros escafandros tóxicos. abastecido por uma taxa já em vigor
ra de algodão impermeável, mais con- Para Thébaud-Mony, a ênfase das sobre as vendas de pesticidas, confor- 1 Laurence Esloux et al., “La création d’un fonds d’ai-
fortáveis e bonitos, a fim de encorajar empresas agroquímicas nos equipa- me o princípio do “poluidor pagador”. de aux victimes de produits phytopharmaceuti-
seu uso. E todo agricultor exposto aos mentos de segurança não passa de uma A possibilidade de indenização se es- ques” [A criação de um fundo de ajuda às vítimas
de produtos fitofarmacêuticos], Inspection Généra-
pesticidas deve fazer obrigatoriamen- maneira disfarçada de atirar sobre os tenderia às pessoas que não ficaram le des Finances, Inspection des Affaires Sociales e
te um curso de três dias para aprender agricultores a responsabilidade da in- por muito tempo expostas aos produ- Conseil Général de l’Alimentation, de l’Agriculture
as boas práticas. Pode-se então, real- dústria. “Já vimos isso com o amianto. tos, inclusive as crianças cuja malfor- et des Espaces Ruraux, Paris, jan. 2018.
2 Grupo de cânceres das células do sangue, com-
mente, falar em vítimas se, como ela Os fabricantes e, em certa medida, as mação congênita seria provocada pela preendendo notadamente os linfomas não Hodkin.
afirma, tudo está à disposição dos organizações representativas insistem exposição de seus pais. Enfim, um 3 Ver Patrick Herman, “Pratiques criminelles dans
agricultores para se protegerem? “Essa na responsabilidade individual dos tra- grupo de pesquisa independente da l’agroalimentaire” [Práticas criminosas na produção
agroalimentar], Le Monde Diplomatique, set. 2017.
é uma questão delicada, que não vou balhadores, afirmando que eles não sa- MSA teria competência para examinar 4 Citado em Laurence Esloux et al., op. cit.
comentar”, diz. Mas acrescenta: “Pos- bem utilizar os produtos.” as relações entre exposição aos produ- 5 “A poisonous injection: How industry tries to water
so entender que essas pessoas se sin- Por mais estranho que pareça, a tos fitossanitários e doenças, pressu- down the risk assessments of pesticide mixtures in
everyday food” [Uma injeção de veneno: como a in-
tam vítimas”. Federação Nacional dos Sindicatos de pondo-se, além disso, a obrigação, por dústria tenta desvirtuar a avaliação de riscos das
De seu lado, ecologistas e profissio- Operadores Agrícolas (FNSEA), supos- parte das empresas, de revelar o segre- misturas de pesticidas no alimento do dia a dia], Pes-
nais da saúde ambiental rejeitam o ar- tamente defensora de seus membros, do comercial da composição dos pro- ticide Action Network Europe, Bruxelas, jan. 2014.
6 Alain Garrigou et al., “Ergonomics contribution to
gumento que minimiza os riscos asso- figura entre os mais aguerridos adver- dutos. Segundo François, a adoção chemical risks prevention: An ergotoxicological in-
ciados aos pesticidas apenas porque sários da regulamentação e se coloca dessa lei representaria uma vitória vestigation of the effectiveness of coverall against
seu uso seria controlado. O processo na primeira linha do grupo de pressão “histórica” para as vítimas. plant pest risk in viticulture” [Contribuição ergonô-
mica para a prevenção de riscos químicos: uma
de homologação da Autoridade Euro- favorável aos pesticidas. E mais: antes Entretanto, depois que a Assem- pesquisa ergotoxicológica da eficácia dos unifor-
peia de Segurança dos Alimentos (Ae- de chegar à direção da UIPP, em 2014, bleia Nacional se recusou a proibir o mes contra o risco dos pesticidas na viticultura],
sa) e os conflitos de interesses de seus Pommaret foi durante vinte anos a glifosato no verão passado, não parece Applied Ergonomics, v.42, n.2, Amsterdã, jan. 2011.
7 “Pesticides: Effects sur la santé” [Pesticidas: efei-
especialistas concentram as críticas. responsável “ambiental” da federação que o jogo vá ser ganho tão cedo. Ape- tos sobre a saúde], estudo coletivo do Inserm, Pa-
Em 2014, um relatório associativo sub- agrícola. “Eles não conseguem organi- sar de um voto unânime do Senado, no ris, jun. 2013.
34 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

SAÚDE

A cura da hepatite C em risco


O enfraquecido governo brasileiro de Michel Temer está abrindo mão de tratar todos os pacientes de hepatite C
apenas para beneficiar uma megacorporação norte-americana. Nem conceder a patente nem importar o remédio com
desconto resolveria o problema para os milhares de cidadãos que dependem desses medicamentos para sobreviver
POR JOSÉ PAULO GUEDES PINTO E ALEXANDRE BECKER*

R
ecentemente, a grande mídia mado entre o Instituto de Tecnologia coberta em 2007 pela empresa Phar- Assim, apesar de o desconto oferta-
brasileira, diversas ONGs e in- em Fármacos (Farmanguinhos), da masset, que foi adquirida pela Gilead do supostamente economizar recur-
clusive os candidatos à suces- Fiocruz, e o consórcio nacional BMK em novembro de 2011 por cerca de sos do SUS e de haver um baixo risco
são presidencial colocaram no (que reúne a farmacêutica Blanver, a US$ 11 bilhões. de uma volta precoce ao preço antigo
centro do debate sobre saúde pública a Microbiológica Química e Farmacêu- Após a aquisição, a Gilead apresen- por conta da concorrência nacional,
concessão da patente de um dos prin- tica e a KB Consultoria) obteve um tou o pedido de patente para o SOF em nada garante que a empresa não volte
cipais remédios utilizados no trata- registro da Anvisa para fabricar o so- combinação com a ribavirina em abril a praticar preços mais altos após a ob-
mento da hepatite C a uma empresa fosbuvir (SOF) genérico. de 2013 e, em outubro de 2013, recebeu tenção da patente, ainda mais sendo
privada norte-americana. O ponto Em tomada de preços no início de a liberação para o desenvolvimento da pressionada pelos acionistas por me-
central do debate foi o fato de que o go- julho no Ministério da Saúde, a Gilead droga pela Federal Drug Administra- lhores resultados no desempenho de
verno brasileiro deixaria de economi- ofereceu o medicamento a US$ 34,32 tion (FDA) dos Estados Unidos. seus papéis na Bolsa da Nasdaq.
zar mais de R$ 1 bilhão por ano caso o por comprimido, e o consórcio nacio- A história não oficial, porém, relata-
país não autorizasse a produção do nal liderado pela Farmanguinhos da pela organização Doctors of the IMPORTAR MAIS BARATO OU PRODUZIR
medicamento genérico. ofertou o genérico a US$ 8,50. Com a World, questiona essa narrativa ao NACIONALMENTE?
Segundo a Organização Mundial nova proposta, o governo passaria a afirmar que a verdadeira descoberta Mesmo que o Brasil não pudesse
da Saúde, hoje o vírus da hepatite mata pagar menos de um quarto do preço da molécula que torna o remédio pos- produzir o remédio, a importação do
mais que o da aids, tendo sido respon- anterior (US$ 1.506, ou cerca de R$ sível foi feita por pesquisadores da SOF com desconto fabricado pela Gi-
sável pela trágica marca de 1,34 milhão 6.024) para obter o tratamento de doze School of Pharmacy and Pharmaceuti- lead também não seria a única opção no
de óbitos em 2015. O Ministério da Saú- semanas com os dois medicamentos, cal Sciences, da Universidade de Car- mercado externo. A ONG Médicos Sem
de do Brasil calcula que cerca de 1,4 mas agora utilizando o SOF genérico diff, Escócia, em 1996. Esse fato, inclu- Fronteiras (MSF), por exemplo, publi-
milhão de pessoas já tiveram contato nacional fabricado pela Fiocruz (o sive, é base para os processos de quebra cou que chega a pagar pelo mesmo tra-
com o vírus do tipo C no país. Por conta DCV continuaria sendo ofertado pela da patente do SOF em países como a tamento cerca de US$ 120 para utilizá-
desses números, o próprio ministério Bristol-Myers). China, a Argentina, a Índia e o Egito. -lo em onze países, obtendo ambos os
lançou um plano para eliminar a hepa- Diante de uma possível perda do As duas histórias são importantes, medicamentos de diversas fontes.
tite C até 2030. A meta nacional é tratar mercado brasileiro a reação da Gilead pois afetaram diretamente o compor- Além do preço divulgado pelos
19 mil pessoas em 2018 e, a partir de foi dupla. De um lado, a empresa con- tamento do preço das ações da Gilead MSF, outros estudos (por exemplo,
2019, 50 mil pacientes por ano até 2024. seguiu obter do Instituto Nacional de ao longo do tempo. Após a compra da HILL et al., 2014, p.933) estimavam
A partir de 2025, esse número passaria Propriedade Industrial (Inpi), em se- Pharmasset em 2011 até meados de que, apesar do alto preço praticado
a 32 mil novos tratamentos ao ano. As- tembro de 2018, a patente de uma mo- 2015, as ações da empresa valoriza- em 2014, o custo de produção dos dois
sim, espera-se reduzir em 65% a mor- lécula intermediária utilizada no pro- ram mais de 500%, descolando bas- medicamentos para o tratamento de
talidade por hepatite C até 2030 e tratar cesso de síntese do sofosbuvir. De tante da variação do índice Nasdaq no doze semanas variava entre US$ 78 e
cerca de 511 mil pessoas. outro, a própria empresa norte-ameri- período (que teve uma valorização de 166. Além disso, ainda segundo os
Para lançar o plano, o governo bra- cana ofereceu em seguida um descon- 100%). Segundo a própria Gilead, o pi- MSF, por conta do aumento da con-
sileiro vai adquirir inicialmente 50 mil to para a compra governamental, o co dos preços de suas ações coincide corrência entre as empresas e de eco-
novos tratamentos que serão disponi- que reduziria o preço de cada trata- também com a obtenção da última nomias de escala, os preços de produ-
bilizados pelo SUS. O tratamento mais mento fornecido pelo SUS para US$ patente referente à utilização do re- ção caíram, em 2017, para US$ 76
eficaz hoje, que leva à cura em mais de 1.483,06 (R$ 6.039,32), ou seja, US$ 19 a médio em conjunto com ledipasvir (sendo o preço do DCV estimado em
95% dos casos, depende da combina- menos por tratamento que a proposta em meados de 2014. US$ 14 e do SOF, em US$ 62).
ção de antivirais de ação direta da Fiocruz. Apesar de a empresa já ter fatura- Fazendo uma conta básica, se o
(AADs), como o sofosbuvir (SOF), fa- Embora a concessão da patente te- do US$ 55 bilhões (R$ 225 bilhões) país comprasse o medicamento das
bricado pela empresa norte-america- nha apenas uma relação indireta com com a venda de remédios contra a he- mesmas fontes que ofertam as drogas
na Gilead, e o daclatasvir (DCV), feito o desconto oferecido pela Gilead ao patite C desde 2014, é possível obser- aos MSF, seria possível, por exemplo,
pela também norte-americana Bris- governo, neste artigo advogamos que var no Gráfico 1 que suas ações se- tratar todos os brasileiros que sofrem
tol-Myers Squibb. nenhuma das duas alternativas (con- guem uma tendência recente de de hepatite C (em torno de 700 mil en-
Apesar dos AADs terem revolucio- ceder a patente ou importar o remédio desvalorização, contrária à trajetória fermos) com pouco mais de R$ 340 mi-
nado o tratamento da hepatite C, con- com desconto) resolveria o problema positiva do índice Nasdaq. Essa que- lhões. Já com a droga fornecida pela
tribuindo para a cura de muitos pa- para os milhares de cidadãos e cidadãs da se deu certamente por conta da re- Gilead “com desconto” seria necessá-
cientes e reduzindo a demanda pelo que dependem desses medicamentos dução dos preços de seu principal rio praticamente o mesmo valor para
transplante de fígado, o problema hoje para sobreviver. medicamento. Quando lançado, o atingir apenas a meta mínima anual
são os altos preços pagos para obter os tratamento de doze semanas com o de tratamentos (50 mil pessoas por R$
medicamentos de marca. RECONHECER OU NÃO A PATENTE? SOF era vendido por US$ 84 mil (cer- 300 milhões).
Atualmente, o Ministério da Saú- A cessão da patente do SOF pelo ca de R$ 344 mil); hoje, graças à pres- Ainda assim, tais números só se sus-
de paga US$ 6.905 (aproximadamen- Inpi para a empresa Gilead é um caso são competitiva gerada pelos medi- tentam se a empresa Gilead mantiver o
te R$ 27.620) por cada tratamento que complexo e bastante controverso. A camentos genéricos, a empresa se viu desconto oferecido para o governo em
utiliza a combinação SOF e DCV de história oficial alega que a fórmula obrigada a ceder e vender o trata- 2018. Caso a empresa decida retomar os
marca. No entanto, um convênio for- principal do remédio teria sido des- mento por preços cada vez menores. preços antigos, seria necessário R$ 1,4
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 35

bilhão para cada 50 mil tratamentos ao norte-americana. Num cenário de Referências bibliográficas MSF sobre Hepatite C. 2018. Disponível em:
crescente dívida pública e de limites <www.msf.org.br/publicacoes /issuebrief_
ano, o que consumiria quase 8% de to- BARBER, J. Charity challenges Gilead’s European hep_c_6_pt.pdf>.
dos os recursos destinados à compra orçamentários cada vez maiores, a patent on hepatitis C therapy Sovaldi. First World MELLO, P. C. Governo libera patente de remédio para
de medicamentos pelo SUS em 2016. única escolha compatível com a sus- Pharma, February 10th 2015. Disponível em: hepatite C de americana e trava genérico mais ba-
<www.firstwordpharma.com/node/1263122#ax- rato. Folha de S.Paulo, 18 set. 2018. Disponível
(Segundo recente estudo publicado tentabilidade de um programa públi-
zz3RPviNrRF>. em: <www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/
pelo Ipea, o SUS gastou R$ 18 bilhões co de aquisição dos medicamentos pa- BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde governo-libera-remedio-para-hepatite-c-de-ameri-
em 2016 apenas com a compra de ra o tratamento da hepatite C crônica é lança plano para eliminar hepatite C até 2030. cana-e-trava-generico-mais-barato.shtml>.
2018. Disponível em: <http://portalms.saude.gov. SHADLEN, K. C.; FONSECA, E. M. Health Poli-
medicamentos.) manter a quebra da patente e incenti-
br/saude-de-a-z/hepatite#perguntas-respostas>. cy as Industrial Policy: Brazil in Comparative
Além disso, apesar de a alternativa var a produção nacional. GUEDES, O. Mais para quem tem mais. Le Monde Perspective. Politics & Society, v.41, n.4, p.
mais barata existir, nada garante que Diplomatique Brasil, ed.13, ago. 2008. Disponí- 561-587, 2015. Disponível em: <https://doi.
vel em: <https://diplomatique.org.br/mais-para- org/10.1177/0032329213507552>.
haja um fluxo contínuo da oferta dos *José Paulo Guedes Pinto é pós-doutor
-quem-tem-mais/>. VIEIRA, F. S. Evolução do gasto com medicamentos
medicamentos importados ao longo pela London School of Economics and Politi- HILL, A. et al. Minimum Costs for Producing Hepati- do Sistema Único de Saúde no período de 2010 a
do tempo. Especialistas no assunto cal Science e professor da UFABC; Alexan- tis C Direct-Acting Antivirals for Use in Large-S- 2016. Texto para Discussão, Instituto de Pesquisa
cale Treatment Access Programs in Developing Econômica Aplicada, Brasília/Rio de Janeiro, jan.
(SHADLEN; FONSECA, 2015) adver- dre Becker é graduado em Neurociências e
Countries. Clinical Infectious Diseases, v.58, n.7, 2018. Disponível em: <http://repositorio.ipea.gov.
tem para o risco de o programa se tor- mestrando em Economia Política Mundial p. 928-936, 2014. Disponível em: <https://doi. br/bitstream/11058/8250/1/TD_2356.pdf>.
nar insustentável na medida em que pela UFABC. E-mails: jose.guedes@ufabc. org/10.1093/cid/ciu01>. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Hepati-
MÉDICOS SEM FRONTEIRAS. Relatório da Campa- tis Report 2017. 2017. Disponível em: <www.who.
mais pessoas iniciam o tratamento; edu.br e alexandre.becker@ufabc.edu.br.
nha de Acesso a Medicamentos Essenciais de int/iris/handle/10665/255016>.
por isso, advogam a favor da produção
nacional como garantidora da oferta a
médio e longo prazo dos medicamen- GRÁFICO 1 – VARIAÇÃO DAS AÇÕES GILEAD SCIENCES X ÍNDICE NASDAQ (2011-2017)
tos genéricos. O Brasil sempre foi im-
portador líquido de produtos farma-
cêuticos desde o início da série 600%
histórica, tendo registrado um déficit
comercial crescente ao longo do tem-
500%
po (vide Gráfico 2), o qual atingiu US$
5,3 bilhões (ou cerca de R$ 21,2 bi-
lhões) em 2017. 400%
A saída via produção nacional po-
de reduzir a dependência do mercado
brasileiro dos produtos farmacêuti- 300%
cos importados e promover o avanço
tecnológico na produção desses me-
dicamentos, até porque entre os prin- 200%
cipais desenvolvedores do sofosbuvir
nos anos 2000 estava a empresa mi-
100%
crobiológica brasileira liderada pelo
cientista Jaime Rabi, justamente a Gilead
mesma que agora integra o consórcio 0% Nasdaq
liderado pela Fiocruz para a produ- 10/ 10/ 10/ 10/ 10/ 10/ 10/
ção do genérico. 201 201 201 201 201 201 201
1 2 3 4 5 6 7
Caso o país quebre novamente a
patente, a concorrência nacional pas-
Fonte: Nasdaq. Elaboração própria.
sará a ser imediatamente com os gené-
ricos importados de valor mais baixo, o
que pode levar a uma redução ainda
maior dos preços no futuro. Esse desfe- GRÁFICO 2 – BALANÇA COMERCIAL BRASILEIRA DE PRODUTOS FARMACÊUTICOS (EM US$ MILHÕES)
cho é particularmente importante, já
que a indisponibilidade de uma alter-
nativa genérica aumentaria também 10.000
os custos para quem tenta adquirir o
tratamento por conta própria, pois o 8.000
acordo com a Gilead, a princípio, é váli-
do apenas para os medicamentos ad- 6.000
quiridos pelo governo federal.
O Brasil é considerado um país de 4.000
renda média alta segundo o Banco
Mundial, mas ainda assim figura no 2.000
grupo dos subdesenvolvidos segundo
a classificação das Nações Unidas. 0
20
Apesar de termos um sistema único 01 200 200 200 200 200 200 200 200 201 201 201 201 201 201 201 201
z 2 3 4 5 6 7 8 9 0 1 2 3 4 5 6 7
de saúde, nosso gasto per capita com -2.000
o Estado é ainda relativamente mo-
desto se comparado com outros paí- -4.000
ses mais desenvolvidos, incluindo
países latino-americanos como o -6.000
Chile (GUEDES, 2008).
Pelos motivos expostos, afirmamos -8.000
que o enfraquecido governo brasileiro
poderá estar abrindo mão de tratar to- importacões Exportacões Saldo
dos os pacientes de hepatite C apenas Importações Exportações Saldo
para beneficiar uma megacorporação Fonte: UM Comtrade. Elaboração própria.
36 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

BACIA DO RIO DOCE

Três anos de desastre


A vitória de Bolsonaro, declaradamente contrário à defesa dos direitos humanos, do meio ambiente e dos indígenas
e quilombolas, dá ensejo a uma expectativa negativa para as pessoas atingidas, em relação tanto à defesa de seus direitos
socioeconômicos quanto à construção de soluções para problemas socioambientais enfrentados por elas
POR BRUNO MILANEZ, CRISTIANA LOSEKANN, TATIANA RIBEIRO, KARINE CARNEIRO E MANOELA ROLAND*

E
m 5 de novembro de 2018, o de- os primeiros meses após o rompimen-
sastre causado pelas minerado- to, foi transformada em ressentimento
ras Samarco, Vale e BHP Billiton e desprezo, já que passaram a ser consi-
completou três anos. Além do deradas um impedimento à volta da ge-
maior desastre socioambiental do ração de empregos pela Samarco.
Brasil, esse pode ser classificado como Com as eleições sendo disputadas
o mais longo do país: há três anos pes- em um dos contextos mais acirrados
soas atingidas não têm uma renda dig- dos últimos anos e com a propagação
na, sofrem a angústia de não ter certe- dos sentimentos de ódio e medo por
za se a água que bebem poderá lhes parte dos candidatos de extrema direi-
causar doenças no futuro e as que per- ta, os diversos setores da esquerda, tra-
deram a própria casa estão vivendo em dicionalmente engajados na defesa dos

© Daniel Kondo
moradias temporárias, aguardando o direitos das pessoas atingidas, passa-
reassentamento. Além disso, um nú- ram a se dedicar à agenda eleitoral. A
mero incontável de pessoas sofre de vitória da candidatura de Jair Bolsona-
alcoolismo, depressão e angústia em ro, declaradamente contrário à defesa
decorrência dos impactos do rompi- dos direitos humanos, do meio am-
mento, bem como da pressão resul- Com base em tal constatação, deve- fim, as corporações garantem seus in- biente e dos povos indígenas e quilom-
tante do processo de negociação pela mos nos perguntar como foi possível teresses usando seus advogados para bolas, dá ensejo a uma expectativa ne-
reparação integral dos danos sofridos. chegar a tamanho controle privado so- redigir propostas legislativas para de- gativa para as pessoas atingidas, em
Ao longo desses três anos, muito bre a vida das pessoas, dos territórios e putados federais e oferecem cursos de relação tanto à defesa de seus direitos
pouco foi efetivamente resolvido com das instituições. A resposta a essa ques- direito mineral para juízes e outros socioeconômicos quanto à construção
relação ao desastre na Bacia do Rio tão passa pelas formas de atuação eco- servidores do Judiciário. de soluções para problemas socioam-
Doce. Por um lado, a narrativa do setor nômica e política das mineradoras no Além dessas questões estruturais, bientais enfrentados por elas. Ressalte-
mineral, de que o “evento” foi algo iso- país, o que tende a ser agravado a partir há os aspectos conjunturais que favo- -se que o caso específico do Rio Doce
lado, impede que medidas de redução do próximo ano, em razão da predomi- receram o cenário de desalento na Ba- foi ignorado por todos os candidatos ao
de riscos sejam tomadas. Por outro, os nância da agenda neoliberal como re- cia do Rio Doce. O rompimento da longo da campanha eleitoral; nenhu-
governos federal e estaduais lavaram sultado da corrida eleitoral para a Presi- barragem de Fundão ocorreu em um ma atenção foi dada à contaminação
as mãos de suas responsabilidades e dência da República e para os governos momento particular da história políti- do solo e do lençol freático e à exposi-
deixaram que a Fundação Renova, de Minas Gerais e Espírito Santo. ca brasileira, pois menos de um mês ção das comunidades atingidas por di-
criada pelas três mineradoras, deter- Para entender o cenário atual, de- após o desastre o presidente da Câma- ferentes poluentes, nem ao seu adoeci-
minasse quem são as pessoas atingi- vem-se considerar aspectos estrutu- ra dos Deputados, Eduardo Cunha, mento ou à desestruturação econômica
das, especificasse os termos das repa- rais e conjunturais. Na perspectiva es- acolheu a denúncia de crime de res- e comunitária enfrentada por elas.
rações e definisse o destino dos rejeitos trutural, é preciso esclarecer como as ponsabilidade contra a presidenta Dil- Em 2019, tanto o Brasil quanto Mi-
espalhados e os termos dos convênios grandes mineradoras atuam no Brasil. ma Rousseff, o que resultou no impea- nas Gerais e Espírito Santo terão novos
celebrados com universidades públi- Em primeiro lugar, elas possuem ca- chment. Esse fato trouxe à tona uma governantes, cujos discursos propa-
cas, que restringem a autonomia dos pacidade de mobilizar grande quanti- nova agenda para os movimentos so- gam ameaças de criminalização e per-
cientistas na divulgação dos resulta- dade de recursos financeiros, em algu- ciais, que, em grande parte, passaram seguição a militantes e ativistas de
dos obtidos em pesquisas. mas situações superior ao orçamento a utilizar sua energia e capacidade de movimentos sociais, vulnerabilizando
No âmbito do Poder Judiciário, foi dos municípios onde se localizam. Em mobilização para contestar políticas os principais grupos que acolheram e
produzido um acordo (TAC-Gover- muitos casos, graças a “parcerias” com retrógradas do governo Temer, in- prestaram solidariedade às comuni-
nança) que, em certos aspectos, mais governos municipais, transformam cluindo a reforma trabalhista, a PEC dades atingidas. Por fim, a agenda de
institucionaliza a mobilização popular essa capacidade em poder ideacional e dos gastos públicos e a tentativa de re- aprofundamento de desmonte dos ór-
do que estimula a participação da so- imagético, na medida em que substi- forma da previdência. gãos ambientais aumenta a chance de
ciedade na construção de ações de re- tuem o Estado (com a construção e re- Ao mesmo tempo, a sociedade bra- novos desastres socioambientais, co-
paração, mitigação e compensação. forma de escolas e hospitais, por exem- sileira passou por um aumento pro- mo nos casos das mineradoras Hydro
Tal acordo foi ainda consideravelmen- plo) ou oferecem “voluntariamente” gressivo da polarização política e um Alunorte (PA) e Anglo American (MG).
te piorado pela decisão discricionária “benefícios” que são, na verdade, di- fortalecimento de posições de extrema Tendo em vista esse cenário desfa-
de um juiz que, sem nunca ter visitado reitos (saúde, lazer e cultura, por direita que favoreceram a naturaliza- vorável, um importante desafio está
os territórios atingidos, incluiu na ho- exemplo). Em alguns casos, os gover- ção de posturas racistas, misóginas, posto. Ele torna imperativa a rearticula-
mologação do Termo Aditivo ao TAP nos locais de cidades mineradas não sexistas e individualistas. Enquanto is- ção dos setores que militam em defesa
(que também normatiza o processo de têm capacidade de oferecer serviços so, os rejeitos da Samarco seguiram im- dos direitos humanos e da natureza.
reparação) “ressalvas judiciais” que vi- públicos de forma adequada em razão pactando povos e comunidades de Ma-
sam impedir a participação de pessoas das isenções fiscais concedidas às mi- riana até a foz do Rio Doce, com *Bruno Milanez (PoEMAS/UFJF), Cristia-
ligadas a agremiações partidárias, neradoras (como a Lei Kandir, que desproporcional efeito sobre a popula- na Losekann (Oganon/Ufes), Tatiana Ri-
ONGs e movimentos sociais/religiosos isenta do pagamento de ICMS os mi- ção negra e as mulheres. Ainda na cida- beiro (Gepsa/Ufop), Karine Carneiro (Gep-
na execução do trabalho de assessoria nerais exportados) e dos valores irrisó- de de Mariana, a solidariedade às pes- sa/Ufop) e Manoela Roland (Homa/UFJF)
técnica às pessoas atingidas. rios recebidos a título de royalties. Por soas atingidas, demonstrada durante integram a Rede de Pesquisa Rio Doce.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 37

A MORTE DA EMPATIA?

Assembleias de som e fúria


Declarações como aquela da ministra Rosa Weber – presidente da instituição guardiã da lisura e da legitimidade
no processo eleitoral –, de que, diante da avalanche de mentiras das fake news, não podia fazer milagre, devem ser
vistas menos na chave da agitação política e mais na da reflexão político-teórica
POR MANUELA D’ÁVILA*

P
assadas as eleições – momento mas de grande comoção, com vistas a milagre, devem ser vistas menos na
de paixões e de natural simplifi- atacar garantias individuais. Partindo chave da agitação política e mais na da
cação dos argumentos –, penso de pressuposto parecido, ainda que reflexão político-teórica.
que as pessoas comprometidas buscando responder a questões que
com a democracia, com as liberdades e não estão diretamente ligadas ao esta- SEGURANÇA, MORTE, VIOLÊNCIA
com o futuro do país precisam entrar do do direito, o historiador francês Uma das razões do mal-estar que
em uma etapa de reflexão. Não se trata Pierre Rosanvallon tem afirmado coi- todos os democratas estão sentindo
de abandonar a ação, cada vez mais ne- sas parecidas, apenas para citar dois está relacionada à perplexidade diante
cessária, mas de perceber que a eleição exemplos que talvez esclareçam o que do fato de um homem como Bolsonaro
de Jair Bolsonaro tem um significado estou tentando dizer. ter sido alçado à Presidência da Repú-
profundo, representa uma ruptura im- Tenho pensado que a internet, es- blica mesmo dizendo todas as barba-
portante e pede uma análise equilibra- pecialmente as redes sociais, transfor- ridades que disse. Como que alguém
da, madura e, especialmente, aberta. maram a política em uma espécie de cheio de bazófia e sem o mínimo reca-
Minha impressão é de que, em nosso assembleia permanente. Não se trata, to, falando o linguajar do porão da di-
velho e respeitável arsenal de conceitos no entanto, de uma esfera pública co- tadura, como lembrou o sociólogo Cel-
e interpretações, não vamos encontrar mo a nascida na Revolução Francesa, so Rocha de Barros, pôde receber esse Para que possamos aceitar pro-
material suficiente para uma decifra- lugar no qual uma série de vozes, algu- mandato das mãos do nosso povo? E messas de morte como aquelas feitas
ção rápida do fenômeno em curso. mas privilegiadas, outras bastante não foi só ele. Fiquei especialmente pelo presidente eleito e pelos governa-
Não rejeito as experiências históri- oprimidas, lutavam por seus pontos de chocada com as promessas de campa- dores que citei é preciso que algo te-
cas; elas são parte do patrimônio da vista. Trata-se de um lugar que lembra nha dos candidatos ao governo de São nha se quebrado dentro de nós. A his-
esquerda e nos oferecem importantes mais o verso de Hamlet que inspirou o Paulo e do Rio de Janeiro, assegurando toriadora norte-americana Lynn Hunt,
pontos de partida. A década de 1930, romance mais bonito de William que suas polícias militares atirariam em seu O nascimento dos direitos hu-
por exemplo, pode nos proporcionar Faulkner: um espaço de som e fúria. para matar. manos, sustenta a ideia de que a empa-
algumas analogias que já estão sendo Correndo o risco de fazer um uso um Na verdade, esse é o resultado de tia, ou seja, a capacidade de sentirmos
utilizadas e talvez contribuam para a pouco instrumental e ligeiro de um um processo bastante profundo, de es- a dor dos outros, tem uma história de-
compreensão do que vivemos. Essas conceito complexo, minha sensação é cala internacional, de construção de terminada. Ela teria nascido no século
comparações, no entanto, precisam de que uma linguagem e uma gramáti- uma verdadeira paranoia securitária. XVIII, o século do Iluminismo e da Re-
assumir um papel subsidiário, já que a ca comuns se romperam, de modo que A esquerda, que sempre elaborou de volução Francesa. Se de fato estiver-
realidade atual difere bastante da en- o que se estabeleceu nessa assembleia maneira pobre e insuficiente o tema da mos vivendo o fim do mundo criado
frentada nos anos 1930, tanto em ter- permanente não foi um diálogo, mas segurança, subestimando os justos re- pela grande Revolução de 1789, como
mos de conjuntura internacional uma agitação infinita, uma babel de ceios da população, permitiu que a di- têm defendido alguns dos autores lem-
quanto do ponto de vista da crise que incompreensão. Diante dessa percep- reita ficasse sozinha nesse debate. Isso brados neste texto, é possível que este-
vive o capitalismo e do tipo de alterna- ção do que se tornou o ambiente vir- fez que o Estado passasse a ser visto jamos vendo a empatia morrer. Se te-
tiva que os setores mais reacionários tual, não pretendo me tornar uma no- por grande parte da população como nho muito mais dúvidas do que
estão buscando. va ludista. Nem poderia, quando um instrumento de gestão da morte. certezas, como este texto transparece,
Um ponto de partida que me pare- percebo diariamente o poder dessas Fenômenos como a violência policial e há algo de que estou convicta: é preci-
ce interessante são as obras de uma sé- mesmas redes para fazer o oposto dis- o encarceramento em massa, voltados so que joguemos uma boia para a em-
rie de autores que têm buscado estu- so, para construir o bem comum; especialmente contra a população ne- patia, e é necessário que façamos isso
dar a política – ou a superestrutura, quando, mesmo em um processo elei- gra, foram apresentados como progra- agora. Aqueles que querem organizar
para usar um conceito mais clássico – toral marcado pela baixeza, vivi mo- ma de governo por uma série de candi- a morte precisam acabar com o que
com base em diagnósticos diversos so- mentos de indiscutível beleza nesses daturas vitoriosas, o que é uma resta da empatia para que seu projeto
bre uma crise da democracia, da polí- espaços virtuais. Esses pontos positi- tragédia humana de dimensões ainda possa continuar sendo aplicado. Algo
tica, do constitucionalismo ou do vos, no entanto, não devem nos fazer incalculáveis. me diz que o lugar de vanguarda das
estado de direito. Para alguns desses desconsiderar o caráter destrutivo que Esse fenômeno não acontece só no mulheres nas últimas lutas tem algo a
autores, esses quatro conceitos vivem a coisa tem assumido. Brasil nem foi produzido apenas pelos ver com isso. Nós – que fomos sociali-
hoje uma decadência simultânea. Para A questão é que essas assembleias programas de TV que mostram san- zadas para o cuidado e para a entrega,
outros, cada uma dessas crises consti- de som e fúria são capazes de mobili- gue e morte todos os dias, mas é estru- que tantas vezes sentimos a dor dos fi-
tui um fenômeno isolado e por vezes zar de forma impressionante os tais turante da atual fase da crise do capi- lhos de maneira mais aguda do que a
contraditório. Essa discordância, nes- poderes selvagens. E têm conseguido talismo, como tem lembrado o filósofo nossa própria – talvez tenhamos per-
ta fase especulativa de nossa elabora- fazê-lo com uma velocidade, sentido camaronês Achille Mbembe e, em cebido antes dos outros que a empatia,
ção, é um trunfo, não um problema. único e violência que ameaçam clara- chave algo distinta, mas igualmente que tem nome de mulher, está doente.
O jurista italiano Luigi Ferrajoli, mente as instituições democráticas e o frutífera, autores como os franceses Quem sabe venha daí a frase que mais
por exemplo, tem alertado para o sur- estado de direito. Declarações como Pierre Dardot e Christian Laval e a me- ouvimos e dissemos no dia seguinte à
gimento do que ele chama de “poderes aquela da ministra Rosa Weber – presi- xicana Sayak Valencia, entre outros. tragédia que nos atingiu: “Ninguém
© Daniel Kondo

selvagens”, que seriam mobilizações dente da instituição guardiã da lisura Vivemos o capitalismo do caos, da pi- solta a mão de ninguém”.
ocasionais de maiorias por meio de e da legitimidade no processo eleitoral lhagem e do descarte, no qual é preci-
processos plebiscitários formais ou in- –, de que, diante da avalanche de men- so organizar a morte em massa de nos- *Manuela D’Ávila é deputada estadual
formais, em geral em momentos e te- tiras das fake news, não podia fazer sos semelhantes. (PCdoB/RS).
38 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2018

MISCELÂNEA

livros internet
o equivalente para nosso tempo do clássico 1964: a NOVAS NARRATIVAS DA WEB
conquista do Estado, de René Armand Dreifuss. Sites e projetos que merecem o seu tempo
A NOVA DIREITA Inicialmente, esses aparelhos atuaram principal-
– APARELHOS DE mente na difusão dos dogmas da Escola de Chi- ATLAS DA NOTÍCIA
AÇÃO POLÍTICA E cago e dos preceitos neoliberais, desde o início da Um grupo de pesquisadores mapeou municí-
IDEOLÓGICA NO BRASIL Nova República. A partir dos anos 1990, além de pios no Brasil onde não há presença de jorna-
CONTEMPORÂNEO militarem a favor das reformas do Estado em dire- lismo local. Mais de 60 milhões de brasileiros
Flávio Henrique Calheiros ção ao seu desenho mínimo, também privatizaram vivem em áreas que ou não possuem jornais
Casimiro, funções sociais desse Estado, orientando a ação locais, ou estão em risco iminente de se torna-
Expressão Popular de ONGs e desenvolvendo políticas públicas. Fo- rem o que a pesquisa chama de “desertos de
ram também espaços de articulação da classe do- notícias”. O jornalismo local cobre temas que
Além de uma derrota eleitoral, as eleições de 2018 minante para a execução de seus projetos. A partir afetam diretamente a vida das pessoas, como
significam – talvez principalmente – uma derrota ide- dos anos 2000, o discurso liberal-conservador em a falta de saneamento, o transporte e a segu-
ológica. O discurso ultraneoliberal, meritocrático e de seu tom mais conservador, expresso, por exemplo, rança. Assim, é uma das principais formas de
erradicação de direitos, entendidos como “privilé- na atuação do Instituto Millenium, passou a predo- o jornalismo voltar a ser relevante para a po-
gios”, foi assumido por parte significativa de setores minar na ação desses grupos. pulação. O projeto é uma iniciativa do Instituto
populares. O lançamento de A nova direita ajuda a Ainda que haja similaridade nas ações, Casimiro para o Desenvolvimento do Jornalismo (Pro-
compreender a mudança da estratégia de ação po- atenta que a direita brasileira não possui uma homo- jor), mantenedor do Observatório da Imprensa,
lítica da direita brasileira, a partir da abertura política geneidade ideológica, com matizes que vão desde em parceria com o Volt Data Lab.
dos anos 1980, estabelecendo aparelhos privados o neoliberalismo às expressões mais radicais do li- <www.atlas.jor.br>
para a construção de hegemonia. beralismo. Porém, encontra pontos de unidade ou
A obra é um denso e exaustivo trabalho – ao mes- convergências suficientes para assegurar seus in-
mo tempo que oferece uma leitura ágil e fluente ao teresses políticos e econômicos. A contribuição de O CASO EVANDRO
leitor –, resultado da tese de doutorado de Casimiro, Casimiro para a compreensão da ação política e da Se você era criança no Paraná em 1992, você
na qual disseca com a precisão de um cirurgião a ideologia da classe dominante, identificando suas tinha medo das “bruxas de Guaratuba”. Foi
criação e a atuação de institutos, fundações, think contradições e fissuras, assim como a expressão de nessa cidade que desapareceu um menino de
tanks e empresas responsáveis pela criação de con- seu programa político, é imprescindível para o pen- 6 anos, depois encontrado morto no que foi
sensos em torno de políticas econômicas e públicas, samento crítico e a ação política do próximo período. considerado parte de um “ritual satânico”. Pes-
materializando o conceito gramsciano de Estado soas foram presas, confessaram o crime e o
ampliado. Flávio Henrique Calheiros Casimiro não [Miguel Enrique Stédile] Mestre e doutorando ritual, mas o caso nunca foi esquecido. O caso
apenas enumera cada organismo, como também em História pela UFRGS e pesquisador do Front – Evandro, popularmente conhecido no Paraná
identifica seus dirigentes e financiadores, produzindo Instituto de Estudos Contemporâneos. como “As bruxas de Guaratuba”, é o tema da
quarta temporada do Projeto Humanos – um
podcast de storytelling brasileiro, coisa rara.
Com muito jornalismo investigativo e qualida-
de normalmente não vista em podcasts, Ivan
na visão de mundo dos artistas, em seu processo cria- Mizanzuk leva meses, às vezes anos, em suas
tivo, às vezes subjugada pelos descaminhos da paixão. pesquisas e investigações antes de produzir
Já em A loucura branca, de Jaime Rocha, e No- os podcasts. Biscoito fino.
COLEÇÃO turno europeu, de Rui Nunes, a ficção envereda pela <www.projetohumanos.com.br/temporada/o-
TRÁS-OS-MARES forma poética e o discurso ganha timbres polifônicos, -caso-evandro/>
Vários autores, para dar conta dos muitos deslocamentos dos per-
Editora Hedra sonagens, desde paisagens interiores até a deriva
fantasmagórica pelo Velho Continente. Parece que TEMPO ELÁSTICO

C inco narrativas de autores portugueses chegam


ao Brasil, pela coleção Trás-os-Mares, e revelam
a diversidade de vozes em torno de questões caras
a voz institui o cenário.
Éter, de António Cabrita, talvez mais conhecido do
leitor brasileiro, reúne sete narrativas urbanas que
Seleção do festival de Sundance 2018, o
filme de “realidade mixada” com dez minutos
chamado Elastic time é difícil de ser descrito.
à literatura contemporânea, como o desencontro, a se passam em Portugal e Moçambique, diversas no Ao colocar os óculos especiais de realidade
fragmentação da experiência, o jogo errante da me- estilo e no experimento com a escrita, mas comple- virtual e aumentada, o usuário vê tudo distor-
mória e a busca por uma identidade precária, efêmera. mentares ao abordarem as tensões entre o indivíduo cido, pixelizado. Mas também pode “viajar no
Essas narrativas lutam, em certa medida, contra o e o coletivo, ou entre verdade e aparência. Até o ano tempo” e ver a si mesmo, minutos antes, uma
desmanche da realidade e a perda das referências que vem em Jerusalém, de Maria da Conceição Ca- vez que foi filmado por sensores dentro da ins-
estéticas aparentemente consagradas por aquilo leiro, faz uma travessia histórica e geográfica pelo talação. Durante a viagem, ouve um astrofísico
que chamamos de grande literatura, ou que na falta contexto sombrio do nazismo, em que o encontro explicar o Big Bang, a teoria da relatividade e
de melhor termo definimos como tradição. dos protagonistas se confunde com a dolorosa situ- alguns outros pensamentos teóricos. Já assis-
No romance Adoecer, de Hélia Correia, o pano de ação do exílio. tiu a Inception? Alguns usuários descrevem
fundo histórico, situado no século XIX, abriga o relacio- Cada livro encena um modo de aproximação ao assim a experiência.
namento amoroso intenso entre o casal de poetas e real, como num jogo de quebra-cabeça em que as <www.imverse.ch/project/elastictime/>
pintores Elizabeth Siddal (1829-1862) e Dante Gabriel peças se transformam ao sabor da linguagem.
Rossetti (1828-1882). As questões estéticas daquele [Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab,
momento na Inglaterra se misturam com a intimidade [Reynaldo Damazio] Editor, crítico e escritor. Au- professor de Jornalismo na ESPM, mestre em
dos personagens, e a efervescência do período pré- tor de trilhas, notas & outras tramas e Com os den- Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou-
-rafaelita assume contornos subjetivos e se entranha tes na esquina, entre outros. torando em Design na FAU-USP.
DEZEMBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 39

CANAL DIRETO SUMÁRIO


LE MONDE

diplomatique
BRASIL

Somos muitos, podemos ser fortes


O dia em que o povo descobrir sua força, nem o Ano 12 – Número 137 – Dezembro 2018
diabo segura... Muito menos esses protótipos de www.diplomatique.org.br

quase nada...
DIRETORIA
Vanderlei Dambros Diretor da edição brasileira e editor-chefe
Silvio Caccia Bava

Ora, povo é algo tão sem expressão que precisa de 2 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO É SAGRADA?
Liberdade para Julian Assange
Diretores
Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e
quem fale por ele. Ao longo da história humana, po- Por Serge Halimi
Rubens Naves

vo sempre serviu de bucha de canhão. Até já foi usa- Editor


do como alimento de leões. Por que não deixar que
ele continue ligado apenas em pagar impostos, igre-
3 EDITORIAL
Guerra de valores
Luís Brasilino

Editor-web
Por Silvio Caccia Bava
ja, axé e futebol, como prefere? Cristiano Navarro

José Mário Ferraz


4 CAPA
Firehosing: por que fatos não vão chegar aos bolsonaristas
Editores de Arte
Adriana Fernandes e Daniel Kondo

Capa Por Renan Borges Simão


Estagiária
O solo fértil do ódio
Istoé e Veja deviam aprender a fazer jornalismo Por Leonardo Fernandes Nascimento
Taís Ilhéu

com vocês. Parabéns! Pequeno manual de conduta e resistência ao Revisão


Simone Cristina controle do discurso e da libido Lara Milani e Maitê Ribeiro
Por Marcos Donizetti De Almeida
Gestão Administrativa e Financeira
Caramba, isso é o que nos espera! Quem tá no in- Arlete Martins

ferno abraça o capeta. 8 OS DIREITOS HUMANOS, UM BLOCO INDIVISÍVEL


Sem igualdade não há liberdade Assinaturas
Rodrigo Rodbs Por Kumi Naidoo Viviane Alves
Longo caminho rumo à dignidade Tradutores desta edição
Brasil, um país lovecraftiano. Por Claire Brisset Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira,
Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant
Yog Kaiser Mars
12 AVANÇOS E RETROCESSOS NA
AMÉRICA LATINA E CARIBE Conselho Editorial
Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles
Os Brasileiros São Todos Fascistas? Direito à educação com igualdade de gênero Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius
Acho intrigante que as ideias de Bolsonaro tenham Por Fabíola Munhoz Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor
Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S.
encontrado solo mais fértil nos estados com larga
14 A TRANSFORMAÇÃO DE NEW ORLEANS Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau
presença de famílias oriundas da Alemanha e Itá- Como matar uma cidade
Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki,
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião
lia, países onde surgiram o nazismo e o fascismo. Por Olivier Cyran, enviado especial Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles.
Ives Bruno Silva
17 “SINERGIA ENTRE O DESENVOLVIMENTO Apoiadores da campanha de financiamento coletivo
Henrique Botelho Frota, Pedro Luiz Gonçalves Fuschino,
TECNOLÓGICO E ESPIRITUAL”
O Congresso mais conservador dos últimos Cosmismo, uma velha ideia russa para o século XXI
Rita Claudia Jacintho e Vinícius D. Cantarelli Fogliarini

quarenta anos Por Juliette Faure Assessoria Jurídica


O novo Congresso é fruto de como os brasileiros Rubens Naves, Santos Jr. Advogados

vinham obtendo sua formação política nos últi- 20 CLASSES POPULARES E INJUSTIÇA FISCAL
Na origem do ódio ao imposto
Escritório Comercial Brasília
mos dez anos, ou seja, nenhuma. Marketing 10:José Hevaldo Rabello Mendes Junior
Por Alexis Spire Tel.: 61. 3326-0110 / 3964-2110 – jh@marketing10.com.br
Silvana Lunardi
22 INFANTILIZAÇÃO INTELECTUAL NAS Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação
da associação Palavra Livre, em parceria com o
Um novo tempo, mas qual? ESCOLAS DE NEGÓCIOS Instituto Pólis.
Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse A teologia do management
Por Maurice Midena Rua Araújo, 124 2º andar – Vila Buarque
método também se denomina “problema-reação- São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil
-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” Tel.: 55 11 2174-2005

prevista para causar certa reação no público, a fim 24 QUE AUTONOMIA OS CURDOS TERÃO
NA SÍRIA DE AMANHÃ?
diplomatique@diplomatique.org.br
www.diplomatique.org.br
de que seja este quem exija medidas que se deseja Futuro incerto em Rojava
Por Mireille Court e Chris Den Hond, enviados especiais Assinaturas
fazer com que aceitem. Por exemplo: criar uma cri- assinaturas@diplomatique.org.br
se econômica para fazer com que aceitem como Tel.: 55 11 2174-2015

males necessários o retrocesso dos direitos sociais 26 ESPLENDOR E MISÉRIA


Febre digital no Quênia Impressão
e o desmantelamento dos serviços públicos. Por Sabine Cessou, enviada especial Plural Indústria Gráfica Ltda.
Av. Marcos Penteado de Ulhôa
Paulo Alves Monteiro Rodrigues, 700 – Santana de Parnaíba/SP – 06543-001
28 VIRADA À DIREITA DO SUCESSOR DE RAFAEL CORREA
No Equador, o liberalismo surpresa Distribuição nacional
Podcast Guilhotina | Le Monde Diplomatique Brasil Por Franklin Ramírez Gallegos DINAP – Distribuidora Nacional de Publicações Ltda.
Caraca, não tava sabendo disso! Eu já assinei o Di- Av. Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678 – Jd. Belmonte –

30 UMA NOVA REVOLUÇÃO VERDE? Osasco/SP – 06045-390 – Tel .: 11. 3789-1624


plô. Nossa, uma das experiências mais maravilho-
Fertilizantes nitrogenados:
sas em termos de informação que eu já tive. LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA)
providência transformada em veneno
Cristiano Castro Araujo Por Claude Aubert Fundador
Pesticidas e agricultores Hubert BEUVE-MÉRY

Muito bom o programa. Na verdade, imperdível! Por Natalie Sauer Presidente, Diretor da Publicação
Simone Fadel Serge HALIMI

34 SAÚDE
A cura da hepatite C em risco Redator-Chefe
Por José Paulo Guedes Pinto e Alexandre Becker Philippe DESCAMPS

Diretora de Relações e das

Participe de Le Monde Diplomatique Brasil: envie suas 36 BACIA DO RIO DOCE


Três anos de desastre
Edições Internacionais
Anne-Cécile ROBERT
críticas e sugestões para diplomatique@diplomatique.org.br Por Bruno Milanez, Cristiana Losekann, Tatiana Ribeiro,
As cartas são publicadas por ordem de recebimento e, Le Monde diplomatique
Karine Carneiro e Manoela Roland 1 avenue Stephen-Pichon, 75013 Paris, France
se necessário, resumidas para a publicação.
secretariat@monde-diplomatique.fr
Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus
autores. E não, necessariamente, a opinião da coordenação
37 A MORTE DA EMPATIA?
Assembleias de som e fúria
www.monde-diplomatique.fr

do periódico. Por Manuela D’ávila Em julho de 2015, o Le Monde diplomatique contava com 37
edições internacionais em 20 línguas: 32 edições impressas e 5
eletrônicas.

Capa: © Bernardo França


38 MISCELÂNEA
ISSN: 1981-7525
LE MONDE

diplomatique
BRASIL

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