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Revista Ciências da Sociedade (RCS), Vol. 2, n. 3, p.

14-44, Jan/Jun 2018

História natural de uma rua na visão dos seus moradores:


emoções, memória e lugares
Natural history of a street in the eyes of its residents:
emotions, memory and places
Mauro Guilherme Pinheiro Koury1

Resumo: Este artigo apresenta etnografia de uma rua de um bairro popular da


cidade de João Pessoa, através da memória dos seus moradores. Procura mos-
trar como as narrativas dos moradores remontam a conformação de uma cul-
tura emotiva e o seu arcabouço moral ungidos na trama pessoal e coletiva das
trajetórias que uniram homens e mulheres em um lugar, no interior de uma his-
tória natural de solidariedade e compromissos afetivos vividos por eles. Busca
compreender igualmente as bases desta construção solidária, e a preocupação
destes pioneiros em repassar este nós construído e experimentado como co-
nhecimento emocional e moral aos seus descendentes. O que faz emergir, no
cotidiano fazer-se da rua e dos seus moradores, um plano comum de ações e
códigos de conduta para si próprios e para as novas gerações, transformando a
rua em uma comunidade de afetos.
Palavras-chave: etnografia de uma rua, cultura emotiva, memória, lugar, comu-
nidade de afetos, história natural.

Abstract: This article presents ethnography of a street in a popular neigh-


borhood of the city of João Pessoa, through the memory of its residents. It tries
to show how the narratives of the residents trace the conformation of an emoti-
onal culture and its moral framework anointed in the personal and collective plot
of the trajectories that united men and women in a place, within a natural history
of solidarity and affective commitments lived by them. It also seeks to unders-
tand the bases of this solidarity building, and the concern of these pioneers to
pass on these knots built and experienced as emotional and moral knowledge to
their descendants. Giving rise thus in everyday life make up the street and its
residents, a common plan of action and codes of conduct for themselves and for
future generations, transforming the street into a caring community.
Keywords: ethnography of a street, emotional culture, memory, place, caring
community, natural history.

Introdução

Este artigo etnografa uma rua de um bairro popular da cidade de João Pessoa
através da memória dos seus moradores (BOSI, 1994). Trata especificamente de recriar,
1
Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Pa-
raíba. Coordenador do GREM Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções da mesma
universidade. E-mail: maurokoury@gmail.com

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através de suas narrativas, o processo de chegada e ocupação de um espaço onde


construíram uma trajetória de vida em comum e um lugar de pertença.

A rua, aqui denominada Rua X, hoje já não existe, a última casa foi adquirida em
2017 e logo depois destruída pela construtora que comprou os demais terrenos. A Rua
X se localizava quase às margens do Rio Jaguaribe, no seu lado sudeste, nos limites
do bairro da Torre, na cidade de João Pessoa, Paraíba. É uma rua com uma história
natural2 pungente e sobre a qual os seus moradores construíram um fluxo e direção de
si próprios associados a um lugar de pertencimento, a Rua X.

Esta rua reflete o envolvimento da primeira geração de moradores que ocupou


um terreno na Mata do Buraquinho e próximo às margens do Rio Jaguaribe, nos ano de
1940 e lá construíram suas moradias. Ela exemplifica, em seus relatos, suas trajetórias
de sofrimento, lutas, conquistas, partilhamento, solidariedade e amizade, conformando
um processo social singular de conformação de uma cultura emotiva que envolve os seus
membros em torno do que eles identificam como uma comunidade de afetos. Processo
experiencial este vivido e burilado constantemente pela primeira geração que ocupou
um espaço na Mata do Buraquinho, nos terrenos desconsiderados pela especulação
imobiliária e pelos empreendedores morais e seus projetos e ações projetivas, na época,
para a cidade de João Pessoa e sua expansão, e a transformou em um lugar de pertença.

Este artigo, assim, procura entender as narrativas de compartilhamento e perten-


cimento que dão forma a esta comunidade de afetos, através da perspectiva da antropo-
logia das emoções (COELHO & REZENDE, 2011: KOURY, 2009; 2014). Tenta mostrar,
na narrativa dos seus moradores, principalmente os de primeira geração, aqui chamados
de pioneiros, como eles remontam a conformação da cultura emotiva e o seu arcabouço
moral ungidos na trama pessoal e coletiva das trajetórias que uniram homens e mulheres
em um lugar, no interior de uma história natural de solidariedade e compromissos afetivos
vividos por eles. Do mesmo modo que busca compreender as bases desta construção
solidária, e a preocupação destes pioneiros em repassar este nós construído e experi-

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Por história natural se entende aqui a trajetória retrospectiva de desenvolvimento e maturação de um
acontecimento, na sequência de seus fatos e ações, ou em sua carreira moral, como um evento social-
mente situado, quando narrado ou quando buscado ser explicado ou compreendido pelos personagens
que o acompanharam de modo direto ou indireto. Assim como, nas ações projetivas e construções de
cenários sobre o futuro (PARK, 2017; HUGHES, 1984; KATZ, 2017).

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mentado como conhecimento emocional e moral aos seus descendentes. Erguendo no


cotidiano fazer-se da rua e dos seus moradores um plano comum de ações e códigos de
conduta para si próprios e as novas gerações.

É um relato de um experimento de vida que durou um pouco mais de setenta


anos, desde a chegada desses homens e mulheres à Mata do Buraquinho, a construção
de suas casas, até a venda da última residência no ano de 2017 e a dispersão dos seus
moradores permanentes por outros vários bairros da cidade de João Pessoa, incluindo
os quatro últimos remanescentes da primeira geração. A Rua X hoje não existe mais, a
não ser na memória dos seus moradores, construtores e organizadores do que chamam
de comunidade de afetos.

É sobre a rememoração desta entrada na Mata do Buraquinho e da construção


da Rua X que esse artigo trata. Apenas. O processo de construção moral desta comuni-
dade nas gerações seguintes, de filhos e netos, não será trabalhado aqui. Assim como
não serão objetos de análise as tensões resultantes na manutenção de uma rua de in-
tensa pessoalidade como a Rua X, nem as interações conturbadas com os moradores
de grande circulação da Vila Sem Nome que, apesar de pertencerem fisicamente à Rua
X, não são considerados e nem se consideram membros da comunidade de afetos local.
Esta última composta pelos moradores pioneiros e os das gerações seguintes de filhos
e netos, que continuaram a viver na rua em puxadinhos, ou nos cômodos internos das
residências dos pais e avós3 .

1. A gente sempre foi de uma junção só

Uma conversa na oficina de conserto de sapatos de Seu José introduz aqui o


argumento de união e de bem-querer deste nucleamento humano de forte sedimentação
intersubjetiva (BERGER & LUCKMANN, 1985, p. 95) que conforma a história natural
desta pequena rua em uma comunidade de afetos. Rua de parceiros de laços estreitos
e presentes desde a ocupação daquele “pedaço de chão”, isto é, das trocas simbólicas
de bens e sentidos, e de ajuda mútua, que foi se solidificando no cotidiano interacional
desses homens e mulheres, bem como no processo de socialização dos seus filhos e

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Este processo e as relações tensas nele vividas podem ser visto em Koury (2018).

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nas praticas de auxílio aos próximos “mais necessitados” locais4

Este item tem seu título retirado de uma conversa com Seu José, em 2008, em
sua pequena loja de conserto de sapatos, em um “pé de porta”, na parte central do bairro
da Torre. Nesta conversa ele relata o momento do encontro dele e de sua mulher com os
demais outros homens e mulheres que juntos ergueriam a comunidade de afetos no lugar
escolhidos para viver e morar, de onde construíram suas casas e caminharam unidos em
trajetórias comuns e singulares a cada um que compunha a história natural do lugar.

De acordo com a sua narrativa, em um meio de tarde e já chegando à noite,


homens e mulheres, casais e solteiros, aportaram na cidade de João Pessoa. Essas
pessoas vindas de várias cidades do interior do Estado expulsas do meio rural, por in-
tempéries, por modernização da agroindústria rural ou para encontrar melhores condi-
ções de vida na capital da Paraíba, em processo amplo de modernização. Ao aportarem
na cidade desconhecida encontravam-se como que perdidos e com medo da aventura
começada e se descobriam confusos por onde começar, para onde ir, o que fazer.
Segundo o relato de Seu José,

A5 gente se conheceu, tempos atrás, um com olho compenetrado sem


saber que rumo tomar e assustado com o que podia acontecer com a
gente e as mulheres e uns filhos poucos que alguns já tinham. Muitas
mulheres da gente estavam buchudas (grávidas), umas quase parindo...
e a gente tudo olhando pra dentro da gente mesmo com a pergunta que
a gente não fazia pra fora, mas que martelava a cabeça da gente... e
agora!?...

O receio do desconhecido, embora ansiado e, em muitos casos, obrigados em que


se encontravam, pelo sentimento de impossibilidade de continuarem nos seus antigos
lugares de pertença em que nasceram, foram criados e iniciaram a vida adulta, pesava de
uma forma quase sufocante no interior de cada um, “a gente tudo olhando pra dentro da
gente mesmo”, com os olhos de um lado para outro, vendo a situação de suas mulheres
e filhos arrastados nesse desvario aventureiro, com receio de expressar uma “pergunta
que a gente não fazia pra fora, mais que martelava a cabeça da gente, e agora!?”.

Não que tivesse medo da aventura, se estivesse sozinho, muitos afirmaram, quem
4
Referido pelos moradores permanentes que perfazem a comunidade de afetos, aos moradores da Vila
Sem Nome que alugavam, por curta temporada, as “casinhas” da vila na entrada da rua.
5
Neste artigo o português das narrações foi corrigido garantindo, porém, a estrutura narrativa do interlo-
cutor. Apenas palavras êmicas serão conservadas e, se necessário, anunciadas em rodapé o seu sentido
aproximado.

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sabe fosse diferente, mas agora, como casal e, em muitos casos, já com filhos, ou quase
parindo “a coisa se tornava cheia de receios pelos compromissos além de eu”. O medo
de não conseguir encontrar um lugar, um emprego, dificultado ainda mais pelo desconhe-
cimento da cidade, de não ter amigos e parentes a quem recorrer, girava a cabeça de
todos, homens e mulheres, em um verdadeiro turbilhão de temores. Turbilhão solitário,
diga-se de passagem, preenchido que estava pelo receio de ser expresso para o outro,
parceiro ou parceira da relação, e com vergonha de ter arrastado o outro em uma aven-
tura fadada ao fracasso6 , até porque vinda de “supetão”, como me disse Dona Antônia
em 2010. Isto é, sem projeto algum a não ser o “ter que sair daqui, aqui já não dá pra
gente sobreviver”, como ela lembra ter insistido junto ao seu marido que queria ainda
tentar permanecer no sítio do pai dele que estava quase que tomado pelo fazendeiro
local.

Ela conta a dificuldade de olhar para o marido quando, na calçada da estação de


trem, foi tomada pelo desespero de ter cometido um erro de avaliação e ter de volta um
olhar intimidativo do marido, que ela sentia que o “tinha arrastado” em uma aventura fan-
tasiosa. Uma narrativa próxima é contada por cada um dos homens e mulheres isolados
ou como casais que serviram de interlocutores nos diversos momentos da pesquisa7 , e
que fizeram parte do nucleamento básico construtor da Rua X e de sua comunidade de
afetos.

Parados em frente da estação ferroviária, viam as horas passarem e a noite quase


chegar. Com um olhar fugidio do olhar do companheiro ou da companheira, de vergo-
nha, remorso, ou culpa de os terem arrastado nesse “descaminho”, como expressou Seu
Samuel em sua narrativa, em 2017, viviam um quase desespero de não ter o que dizer,
de se encontrarem em uma situação sem saída. O mesmo olhar fugidio, do companheiro
ou da companheira vagava em volta e enxergava outros tantos com as mesmas expres-
sões assustadas e temerosas de exprimi-las em palavras para o seu próximo, mulher ou
marido. Viam também “uma ruma” de crianças, algumas brincando, algumas chorando,
algumas se acomodando entre “as tralhas de cada qual”, vendo a barriga “a roncar”,
contando na cabeça os trocados que dispunham, e o que sobrava dos alimentos que

6
Uma excelente discussão sobre o fracasso pode ser encontrada em Sennett (2000).
7
Estive em campo entre os anos de 2000 a 2005, 2007 a 2012 e final de 2016 e início de 2018.

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trouxeram na viagem.

De um lado, o enxergar os outros tantos tão perdidos como eles, ainda mais, au-
mentava o sentimento de vergonha de terem insistido com o outro relacional nessa “lar-
gada” fadada ao fracasso. Do outro lado, a “barriga a roncar” e o ver crianças cansadas e
com fome em torno e pessoas desconhecidas que se encontravam tão temerosas quanto
eles próprios, motivou um sentimento de compartilhamento que levou uns ao encontro
dos outros, enquanto pessoas e enquanto casais.

Como disse Seu José em sua narrativa,

Daí, num sem como um se aproximou do outro.... Talvez o café oferecido


por uma mulher da gente a uns por perto.... Talvez o agasalho empres-
tado a uma ou duas crianças.... Talvez o instinto da gente de sempre ter
que conversar pra afastar os augúrios...

“Um se aproximou do outro”, contudo. Seja pelo café oferecido, pelo agasalho
emprestado, ou pela necessidade humana de conversar “pra afastar os augúrios” e os
receios que cada qual estava se debatendo em seu íntimo.

Simmel fala desse momento que arrasta um indivíduo ao outro e onde exercitam
trocas passageiras ou que podem se encaminhar para relações duradouras de sociação.
Sociação, para Simmel (1908), é uma noção que descreve a descoberta e o lançar-se
ao outro em um encontro possível qualquer, e em uma dimensão também ampla, que vai
de uma simples intenção de curiosidade, a de compartilhamento ou solidariedade, ou de
tensão e conflito.

Uma ida emocional que leva os indivíduos aos outros e, segundo o Seu José, o
que a impulsiona “talvez seja o instinto da gente sempre ter que conversar pra afastar
os augúrios”, ou trocar informações, ou querer se situar, ou ajudar, ou tensionar o outro
por um motivo qualquer que levou um indivíduo a interpretar de forma apreensiva ou pre-
conceituosa um comportamento diferente emitido pelo outro interpelado agressivamente.
As formas assumidas por esse impulso ao outro no momento seguinte do encontro con-
forma o tamanho e a intensidade da relação em uma temporalidade e a uma vinculação
a um espaço por onde pode ou não se expandir. O que conforma uma cultura emotiva
que se concluiu em si mesma, ou em outra que prossegue em configurações diversas
e na emergência de uma moralidade tecida no processo da continuidade desta relação,

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tornando-se assim, social.

É o que Seu José descreve como uma dimensão nova que emerge na vida dessas
pessoas expostas e paralisadas em uma calçada de uma estação ferroviária. Pessoas
estas desembarcadas de vários caminhos para um mesmo destino, João Pessoa, mas
sem saber para onde seguir e se vasculhando interiormente sobre a aventura e seu
cheiro de fracasso e o envolvimento do outro relacional em um projeto desorganizado
e sem possibilidade de sucesso, “de vencer a cidade grande”. E a vergonha de tê-lo
exposto a isso.

“Sei lá...”, diz ele. “Só sei que de repente tava todos nós amontoado, e papo e
papo a rolar... Aí, sei não, mas acho que a gente ficou forte de novo... Já começamos
a cavar o amanhã pra nós...”. Essa dimensão nova proporcionada pelo encontro com
outros relacionais na mesma situação, no caso, de acordo com a descrição do Seu José,
abriu fronteiras. A sua expressão desse “de repente” demonstra assim o prazer dessa
ida ao outro e da esperança revelada nesse intercâmbio: “tava todos nós amontoado,
e papo e papo a rolar”. A esperança é demonstrada na força dos outros no encontro,
advinda do “papo a rolar”.

Como disse o Seu José, “acho que de repente a gente ficou forte de novo”. Assim,
já não se estava só em uma cidade desconhecida, agora se era um “amontoado” com o
mesmo sentimento de ganhar a cidade de João Pessoa, com a mesma insegurança do
que fazer. Insegurança essa dissipada no “papo a rolar”, que provocou novas emoções
de uma ida em conjunto para um amanhã agora possível; de um possível nós que fez
“a gente [ficar] forte de novo” e já começar a pensar o amanhã “pra nós”, isto é, para o
conjunto de famílias ali expostas em uma calçada e agora em processo de ajuntamento
e adesão há um dia seguinte comum.

Seu José continua sua exposição afirmando que “de início, professor, foi logo
uma amizade só... A gente sempre foi de uma junção só... Parecia que a gente já se
conhecia de montão...”. O encontro solidário da partilha de café, alimentos e agasalhos
e dos diversos caminhos ali cruzados, em suas palavras, encheu de novas expectativas
os projetos de cada um que encontrou nos projetos dos outros também possibilidades
comuns de continuidade. Deste modo, segundo ele, esse conjunto de homens, mulheres

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e crianças se encheram de coragem e força e foram procurar meios de sair daquela


calçada.

De repente, alguém do grupo falou que alguém tinha dito que na praça ao lado
havia carroças que serviam de transporte e que seus donos possuíam informações sobre
os rumos para seguirem, se acomodarem e prosseguirem seus caminhos de conquistas
da cidade. “E aí, arranjamos umas carroças e aportamos por essas bandas...”, isto é, o
local onde se ergueria a Rua X.

“E aí”, continua Seu José, “a gente nunca deixou de se gostar, uma amizade que
só parente com parente tem, às vezes. Um sempre atento às necessidades dos outros,
e também, todo mundo no seu canto...”. Essas afirmações do Seu José preenche em
muito o que os moradores da Rua X chamam de comunidade de afetos.

Esta comunidade de afetos sentida como organizada por eles na trajetória de


suas vidas em comum. Trajetória que começaram a tecer e seguir socialmente desde
que iniciaram a conversar na estação ferroviária e seguiram adiante no atravessar a
rua em direção a uma praça, conversarem com os homens que possuíam carroças de
aluguel, alugar duas, encherem elas com suas “tralhas”, com as crianças e as mulheres,
sobretudo as grávidas e seguirem a viagem até a margem esquerda do Rio Jaguaribe,
onde todos foram deixados com suas bagagens. Continuou no ato de prosseguirem a pé
pela margem do rio até um lugar onde pudessem descansar. Continuou no dia seguinte
com a resolução conjunta de divisões de tarefas, indo, em pequenos grupos de homens,
em várias direções para percorrer o local, adentrarem na mata e procurar um lugar para
construírem a sua moradia e conseguir trabalhos para, juntos, se organizarem na cidade.

A comunidade de afetos para eles é constituída, assim, dessa amizade e desse


gostar constantemente renovado no se estar “sempre atento à necessidade dos outros”
. Mas é também esse saber respeitar a privacidade de cada um, expresso na afirmação
de “todo mundo em seu canto”.

Uma relação difícil de fazer, mesmo porque o até onde vai o estar “atento às ne-
cessidades dos outros” e onde começa o canto de cada um se esbarram e ultrapassam
limites a todo instante na lógica de intenso compartilhamento a que se acostumaram
desde o início a seguir como base do laço social que os unia. Esse dilema constante e

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continuamente enfrentado pela Rua X percorreu todos os setenta anos da sua comuni-
dade de afetos.

Uma rua de vínculos estreitos e profundos entre os seus moradores, sobremodo


os da primeira geração, onde desenvolveram uma pessoalidade intensa e uma forma
singular de ver e sentir o mundo, de onde se espelhavam cotidianamente para prosseguir
adiante. Deste modo, esta forma tecida de intenso compartilhamento era recheada de
tensões. Tensões que complexificavam as relações na Rua X, nos frouxos limites deste
estar junto e ser também um “em seu canto”, e no acomodar as fluídas dimensões entre
o sempre estar atentos às necessidades dos outros, amigos e vizinhos e companheiros
de jornada, e o não invadirem a intimidade de cada um.

A comunidade de afetos da Rua X, onde a amizade e a solidariedade dispunham


as bases de sua organização, portanto, era uma comunidade de tensões. Para Seu
José, esse longo processo, esse difuso fazer-se, foi sempre recheado de rusgas, de dis-
cussões, de “querelas” e de fofocas, por ele chamado de “chamego das conversas”. Foi
também pleno de pequenas, médias e grandes mágoas, muitas vezes caladas, surdas,
mas amainadas pela disposição dos membros comunitários de “todo mundo [estar con-
tinuamente] atento [aos limites, e buscar] diminuir as querelas” quando estas ultrapassa-
vam as fronteiras permitidas do outro. E, do mesmo modo, no saber pedir desculpas e
procurar “achar engraçado o chamego das conversas... e o fulano disse... a fulana falou”
.

2. Apresentando a rua e seus moradores

A Rua X é uma rua tranquila, pequena e de entrada e saída pela várzea do Rio
Jaguaribe. É constituída, no seu lado direito, por nove residências. No lado esquerdo,
possui quatro casas e uma pequena vila8 constituída por seis pequenas casas gemina-
8
Esta pequena vila não será objeto de análise neste artigo que se restringe ao desempenho narrativo
dos primeiros moradores da Rua X sobre a ocupação do lugar e à organização moral e afetiva de si
mesmos como uma cultura emotiva que produziu um ethos específico de interrelação entre eles e o lugar.
A vila, quando referenciada no decorrer do texto será chamada de Vila Sem Nome, é composta por seis
casas geminadas cujas frentes das casas dão diretamente para a rua. São casas sem jardins e sem
quintais. A vila fica no começo da Rua X, próxima à várzea do Rio Jaguaribe. As casas geminadas da
Vila Sem Nome foram erguidas sobre uma pequena calçada comum, o “alpendre”, com dois degraus para
acesso. No alpendre, de mais ou menos sessenta centímetros de largura, os moradores, nos fins de tarde,
com o sol baixo, se sentam no chão para sentir o vento mais brando do entardecer e início da noite. Na

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das, de um pequeno e único cômodo, para aluguel, erguida nos anos de 1960 no quintal
de um morador residente na rua ao lado, cujo fundo dava para a Rua X.

Os terrenos das nove casas do lado direito da Rua X são relativamente profundos,
e de propriedade dos próprios moradores. Possuem um pequeno jardim9 na frente, e
mangueiras e algumas jaqueiras ou pés de fruta-pão nos quintais. Todas elas possuem
cercas e muros, separando as casas.

No lado esquerdo da Rua X, contudo, os terrenos das quatro casas, também de


propriedade dos moradores, são mais compactos, e quase todo preenchido pelas “mo-
rada”, com pequeníssimos jardins e, algumas delas, acanhados quintais. Todas as casas
possuem um pequeno amurado, de madeira ou tijolos.

Nas treze casas da Rua X todos se conhecem, se frequentam e se ajudam mu-


tuamente. Formam uma comunidade solidária e afetiva. Quase todos os moradores lá
estabelecidos chegaram ao local em meados da década de 1940, vindo expulsos das
regiões do Brejo e do Sertão paraibanos. Desembarcaram na cidade de João Pessoa
no ano de 1945, embora não precisem bem a data de chegada “lá pela meada dos anos
quarenta”; “foi mais ou menos em 1945, acho” ou, “eu sei que estava com a barriga
cheia, e logo depois, num passou um mês, acho, tive meu filho que num chegou a re-
sistir, morreu horas depois. Acho que foi pela dureza da viagem e da chegada, muita
emoção, seu moço, muita emoção...” (Dona Amália). Chego a esta conclusão através do
relato de que no desembarque, algumas das esposas estavam grávidas, e o nascimento
de alguns desses filhos ocorreram um pouco depois da chegada à Mata do Buraquinho,
no ano de 1945. A maioria era de jovens, iniciando uma família, que chegaram ao local
expulsos do campo e em busca das possibilidades possivelmente abertas de trabalho e

pequena Vila Sem Nome a maioria dos moradores é de inquilinos recentes, vindos também do interior
para a capital. A vila possui uma rotatividade grande, o que dificulta a sua integração na comunidade de
afetos da Rua X. O que motiva disputas entre os dois grupos de moradores, permanentes e temporários,
e a existência de uma dissimulada hierarquização entre eles. As vilas foram comuns à paisagem do bairro
da Torre entre as décadas de 1930 a 1960 e ainda fazem parte do cenário local, cedendo, porém, pouco a
pouco, à especulação imobiliária (SILVA, 2000).
9
Todos os jardins das residências da Rua X possuem um ou dois pés de ?buquê de noiva?, que dão
flores coloridas, nas cores brancas e ou rosas, emoldurando e embelezando a rua e as residências. O
buque de noiva é um pequeno arbusto com floragem o ano inteiro. As flores aparecem em cachos, tomando
toda a copa do arbusto, no formato de um pequeno buquê. Por isso o nome popular local com que é
conhecido.

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vida na capital10 .

Esses treze casais são os personagens centrais de uma longa trajetória de luta e
manutenção de um ritmo e estilo de vida, de cuidados de si e dos outros companheiros,
que chegaram de lugares diferentes do Estado da Paraíba e aportaram jovens e cheios
de esperança e medos em uma calçada da estação ferroviária com suas “tralhas e coi-
sas”. E que, “por um acaso de uma sorte”, na visão de uns, ou “por um ensejo de deus”
, na opinião de outros, ou mesmo, “por a gente se sentir sozinho e cheio de medo numa
cidade que a gente não conhecia e nem sabia pra onde ir ou o que fazer”, na aprecia-
ção de outros mais, os fez ficarem juntos, compactuarem os medos, as esperanças, a
comida entre si, a busca de achar um lugar “pra gente ficar ou passar a noite” e, logo
depois, o destino de caminharem juntos, em duas carroças, até às margens do Rio Ja-
guaribe, e seguirem da Estrada dos Macacos para dentro da Mata do Buraquinho, e lá,
dia a dia, suor e lágrimas, construírem uma “camaradagem”, e um lugar para residirem e
compartilharem juntos: a Rua X.

A “sorte”, o “ensejo de deus”, “o se sentirem sozinhos e cheios de medos”, ou ou-


tros motivos dados para sua união, juntou esses homens e mulheres em uma trajetória
comum, e os fizeram construir uma sociedade entre eles, uma forma de vida interdepen-
dente, que os ajudaria “no suor e nas lágrimas” a “caminharem juntos”, a constituírem um
núcleo de “camaradagem”, e a compartilharem, também juntos, de um lugar escolhido
para morarem e criarem os seus filhos e, no futuro almejado, netos e bisnetos. De acordo
com Simmel (1908, p. 4), a “sociedade existe onde vários indivíduos interagem”.

Esta interação surge sempre a partir de certos impulsos ou por causa


de um propósito definido. Os impulsos [ao outro], os propósitos de de-
fesa, ou ataque, de vicissitudes, de aquisição, de assistência, bem como
de instrução e inúmeros outros possibilitam ao homem estar juntos, tra-
balhar uns para os outros, trabalharem juntos, [ou] atuarem uns contra
os outros a entrarem em convivência mútua, isto é, de transferir efeitos
sobre os demais homens e receber os efeitos deles em si. Essas intera-
ções significam que os portadores individuais desses impulsos e fins se
tornaram uma unidade, se tornaram uma “sociedade”11 .
10
Ver o croqui da Rua X com a localização das casas e dos seus moradores, bem como da Vila Sem
Nome.
11
Tradução livre de: “...Gesellschaft aus dass sie da existiert, wo mehrere Individuen in Wechselwirkung
treten. Diese Wechselwirkung entsteht immer aus bestimmten Trieben... heraus oder um bestimmter
Zwecke willen. Triebe, Zwecke der Verteidigung wie des Angriffs, des Spieles wie des Erwerbes, der
Hilfeleistung wie der Belehrung und unzählige andere bewirken es, dass der Mensch in ein Zusammensein,
ein Füreinander-, Miteinander-, Gegeneinander-Handeln, in eine Korrelation der Zustände mit andern tritt,

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Figura 1. Croqui aproximado da Rua X com a localização dos casais e da Vila Sem Nome.
Fonte: Arquivos do GREM. Croqui elaborado pelo autor.

Uma sociedade em construção, no caso da sociedade de afetos da Rua X. Uma


sociabilidade edificada, ou “feita”, como se gosta de afirmar localmente, através de muita
amizade, muita compreensão, muita luta e muito sofrimento, mas também de partilha-
mento de alegrias e de fundação de um modo de viver que os fez se sentirem e agirem
como e enquanto comunidade. E sobre a qual montaram um nucleamento de bem querer

d. h. Wirkungen auf sie ausübt und Wirkungen von ihnen empfängt” (SIMMEL, 1908, p. 4).

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e de força: “e, daí pra frente foi só trabalheira”.

A limpeza do terreno, a busca de emprego, a construção das casas, a luta pela


permanência no lugar deu origem a um espírito solidário de compartilhamento e união,
e transformou esse conjunto de homens e mulheres em uma comunidade de afetos. Os
transformou em uma sociedade de partilhamento e solidariedade intensa que perdurou
por toda a existência desses personagens, e ainda perdura na memória e nas emoções,
entre os viventes.

3. Uma comunidade de afetos

O grupo de pioneiros que ergueram a Rua X compõe assim a comunidade de


afetos. Os seus filhos e netos e as novas composições familiares advindas a partir deles
proporcionam o prosseguir dessa cultura emotiva composta pela montagem comum de
caminhos que foram traçando direções específicas sobre o como prosseguir e a posição
de cada um deles, velhos e novos membros, no seu corpo societal e cultural.

Esta comunidade de afetos, portanto, construída no transcursar a escolha de um


grupo de homens e mulheres de prosseguirem juntos e comporem uma trajetória e bio-
grafia comuns tecidas nesta existência coletiva, dão sentido ao grupo enquanto unidade
social e a dimensão cultural montada sobre o sentimento comum de pertencimento, e
da formulação de regras e normas de conduta que orientavam esse continuar. A sua
história natural, deste modo, monta um mosaico de representações sociais desta figu-
ração social, e que serve de parâmetro ideal de condutas a serem observadas e que
igualmente objetificam os sentidos morais repassados às gerações seguintes e de forte
presença nas narrativas individuais sobre o lugar, sobre locais e sobre a sua densidade
e proeminência.

A memória social da conformação comunitária, os ordenamentos mentais desse


sentimento de pertencimento a um lugar comum de trocas solidárias e a noção de uma
comunidade de amizades e dedicações montam por fim um quebra-cabeça. Quebra-
cabeça este cujas peças permitem a compreensão e a visualização do formato singular
do lugar e dos personagens que dele fazem parte.

A comunidade de afetos da Rua X se autoproduziu e se reproduziu cotidiana-

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mente em uma forma, no sentido simmeliano (SIMMEL, 1910-1911), no processo de


crescimento de si mesma enquanto corpus. Corpus que orienta formatos de agir e con-
solidam pertencimentos, trajetórias individuais e dão sentido a um viver junto em comum,
o definindo como um nós. Uma forma, um corpus, um nós, simmelianamente falando,
pensado não como unidade homogênea, mas como uma unidade tensional.

Tensão esta que mobiliza a forma e a transforma cotidianamente em um caleidos-


cópio em que novas composições de mosaicos vão se constituindo a cada jogo interaci-
onal, apesar de usarem as mesmas peças. O que exige de cada jogador uma habilidade
para se movimentar entre estas composições sempre novas de mosaicos, e de seguirem
as regras de conduta que os organizam e lhes dão sentido. Mosaicos estes, por fim, em
que um nós denso, ou uma formação, ou uma figuração, orienta as narrativas individuais
em relação a um processo de conformação dos personagens em um si mesmos, coleti-
vizados, enquanto selves autoespelhados, na bela expressão de Charles Cooley (1964;
2017).

Espelho abstrato este através do qual cada indivíduo presente se autorrefletia em


cada situação ou a cada mosaico armado pelo contínuo girar do caledoscópio emocional
e moral da Rua X. Nos autorreflexos, uns dos outros, uns sobre os outros os moradores
permanentes se orientavam em direção a suas ações privadas e em relação aos demais
próximos e aos outros ao redor. Processo de autorreflexão, por fim, que articulava os
fios de um caminho que enredava os personagens-agentes sociais nele imersos, pe-
los compromissos cognitivos inerentes ao pertencimento ao grupo, em uma espécie de
autossentimento (SCHEFF, 2016, p. 70-71).

Peter Berger (1972, p. 135) afirma, - ao discutir o processo de conformação de


pessoas em um grupo social específico e em relação com o ambiente social e físico
dessa ação - que, “ao se escolher pessoas específicas, escolhe-se um lugar específico
para viver”. Com essa afirmação ele apresenta a noção de grupo de referência definida,
a partir de uma leitura específica e elástica de Robert Merton (1957), como uma coleti-
vidade cujas opiniões, convicções e rumos de ação são decisivos para a formação das
opiniões, convicções e rumos de ação individual de cada membro do grupo (BERGER,
1972, p. 133).

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O fazer parte de um grupo de referência, em certa medida, assim, orienta as ações


das pessoas nele imerso, constituindo uma espécie de cosmovisão (BERGER, 1972,
p. 131), ou uma maneira subjetiva de ver o mundo através das experiências vividas
e apreendidas no cosmo comunitário da sociabilidade a que pertencem. O grupo de
referência, portanto, serve como um identificador pelo qual os indivíduos que o compõe
lêem o mundo, os outros que nele habitam e os que vivem ao seu redor e além, e institui
um lugar para si de onde enxergam a si mesmos como indivíduos sociais, emocionais e
morais, enfim, enquanto pessoas.

Uma pessoa no interior de um grupo de referência, destarte, percebe o mundo de


que faz parte de um modo determinado, e a partir deste modo organiza a sua visão sobre
os outros próximos, sobre si mesmo e os demais (BERGER, 1972, p. 134). O grupo de
referência, assim, fornece um modelo sobre o qual se pode comparar continuamente o
próprio self, o nós próximo, comunitário e pessoalizado, e os outros.

O grupo de referência, igualmente, como cosmovisão, proporciona aos indivíduos


sociais dele participantes um determinado ponto de vista sobre a realidade vivida e cons-
tituída. Realidade esta fruto das experiências de trocas sociais com os outros relacionais,
com o ambiente físico e social interno e comum à experiência do grupo, e que será parte
e conterá a parcela de participação dos personagens que dele participam, no grupo em
si e nas trocas com os demais.

É possível, nesse sentido, pensar aqui a dimensão da natureza precária da re-


alidade, de Thomas & Thomas (1928), através da ideia de que cada realidade social é
produto de uma situação e de ações situadas que são produzidas no jogo dos persona-
gens em cena dentro de um plano comum de sentidos organizados. Plano comum este
que serve como orientador das ações individuais em relação ao nós e a sua ação como
coletividade e a ação dos personagens pertencentes ao mesmo lugar comunitário, e a
ação dos outros que dela não fazem parte.

Essa discussão serve aqui para se pensar o plano comum de sentidos no ambi-
ente da Rua X aqui estudada. A comunidade de afetos é composta pelas casas da Rua
X em cujas unidades residem as 13 famílias12 originárias da rua, alguns dos seus filhos,

12
Originalmente foram 18 famílias que se encontraram na calçada da estação ferroviárias e seguiram

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com genros e noras, e seus netos e bisnetos, em alguns casos13 . A comunidade de afe-
tos se autorreflete, de tal modo, em quatro casas no lado esquerdo da rua, e nove casas
no lado direito14 .

Nestas 13 casas, os seus moradores são os mesmos que edificaram as suas


moradias e compuseram os sentidos que movem a comunidade de afetos na Rua X.
Estão no lugar desde o processo de ocupação da Mata do Buraquinho, em meados dos
anos de 1940, e lá desenvolveram uma participação ativa na conformação deste lugar,
enquanto rede afetiva que medra a cultura emotiva local e objetificam uma moralidade
como regras de agir comuns. Assim como no processo de afirmação dessa participação
como pertencimento.

Pertencimento este que orientou as composições sempre tensas de códigos de


conduta oriundos da intensa mobilização amiga e solidária dos seus moradores e que
desenvolveram o grupo de referência e a cosmovisão organizada neste viver em co-
mum. Ao mesmo tempo em que serve de motivação e abalizamento das narrativas e dos
planos comuns de ação dispostos nesse corpus, que serviram como orientadores das
ações individuais e coordenadores do comportamento e do desempenho dos que a ela
pertencem.

juntas até a margem do Rio Jaguaribe onde organizaram o seu lugar de moradia e a vontade de seguirem
juntas uma trajetória de vida em comum. Cinco destas famílias, contudo, terminaram cedendo a pressões
dos “coronéis” ou de possíveis donos da terra, ou das forças policiais e jurídicas do Estado e terminaram
indo embora com medo de “algo de ruim” acontecer com eles e seus familiares. Como, de fato ocorreu com
o esposo de Dona Antônia, uma das moradoras pioneira da Rua X, morto por capangas de um proprietário
de lote de terra próximo acusado de ser ladrão, logo nos primeiros anos de ocupação. Este artigo trabalha
apenas com as 13 famílias que permaneceram no lugar em que edificaram as suas moradias e construíram
a comunidade de afetos que compõe a cultura emotiva e o ethos de pertencimento à Rua X.
13
Os personagens principais deste artigo são os moradores permanentes da Rua X. Dentre estes mora-
dores dois casais e seus filhos: os casais Raposo e Etelvina (pais de Arnaldo) e Pedro e Geralda (pais de
Noé), moradores do lado direito da Rua X. Os demais personagens do lado direito da Rua X, juntamente
com seus filhos e netos são: Seu Dudu e Dona Maria; Seu Paulo e Dona Eulália; Seu José Lourenço e
Dona Amália; Seu João Carroceiro; Seu José e Dona Margarida; Seu Fabrício e Dona Leocádia; Dona
Antônia. No lado esquerdo da Rua X se encontram quatro casais e seus filhos e netos, também morado-
res permanentes do local: Seu Jonas e Dona Maria Flor; Seu Beto e Dona Socorro; Seu Samuel e Dona
Vilma; e Seu Euclides e Dona Josefa.
14
Existe ainda a pequena vila já mencionada, com seis casas de um único cômodo no início do lado
esquerdo da Rua X, que não será analisada neste artigo. Vila esta que se constitui um contraponto à
comunidade de afetos das demais moradias da rua, que não consideram os seus moradores, vistos como
temporários, como pertencente a este tecido comunitário.

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4. A narrativa dos pioneiros: a ocupação do lugar e a composição da rua

As 18 famílias que edificaram uma trajetória comum e constituíram-se em uma


comunidade de afetos imigraram para a cidade de João Pessoa, vindas de caminhos e
sentimentos de partida dos seus lugares de origem diferentes, se encontraram parados
em uma calçada da estação ferroviária da capital, onde desembarcaram, e lá se conhe-
ceram e resolveram partirem juntos na busca de um lugar para morar e erguer suas vidas
na cidade. Todos, ou em sua grande maioria, muito jovens, de acordo com a narrativa de
Seu Raposo e Seu Pedro.

Seu Raposo e Seu Pedro relembram que seguiram com suas mulheres e outras
16 famílias em duas carroças de boi até as margens do Rio Jaguaribe, nos limites do
bairro da Torre em expansão. Lá chegando, depois de uma noite em torno de uma
fogueira perto do rio, saíram em grupos para identificarem o local e escolheram, junto
com as outras famílias, o lugar onde deveriam realizar o desmatamento e edificar as
suas moradias.

Relatam que tomaram conta de dois terrenos conjugados, na delimitação da área


ocupada pelo grupo formado, limparam o terreno e neles construíram aos poucos as suas
casas. Casas com quintais generosos onde deixaram de pé ou plantaram árvores fru-
tíferas como mangueiras, jaqueiras, pés de fruta-pão e mantiveram uma pequena horta
cuidada em conjunto pelas donas de casa e amigas Dona Etelvina e Dona Geralda, suas
esposas e, posteriormente, com a ajuda dos filhos tardios.

Filhos que “iam crescendo felizes e mais e mais amigos inseparáveis”, como con-
tou com lágrimas nos olhos Dona Etelvina, rememorando a velha amizade das duas
famílias e o crescimento dos dois meninos, seus filhos. “Isso mesmo Etelvina, amigos
inseparáveis como nós quatro”, complementa dona Geralda, “que, desde que nos co-
nhecemos pequenininhos, era sempre um agarrado só, um no outro, numa amizade sem
fim...”.

Com os filhos dos dois casais também parecia se dá o mesmo: viviam em uma
interação profunda e benquista e incentivada pelos pais. Eram “desde pequenininhos”,
“meninos de ouro”. Crianças sadias e que “sempre cooperavam com a gente nessa lida
diária de cultivo de nossas hortaliças e verduras... sempre...”. Foram filhos que cres-

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ceram de forma afável e cooperativa e “que nunca, nunca deram trabalho...”, conforme
disse Dona Etelvina, com uma aprovação de cabeça de Dona Geralda15 .

Além da estreita amizade entre os casais Raposo e Etelvina e Pedro e Geralda,


os vizinhos da pequena rua sem calçamento, como um todo, por sua vez, faziam parte
desta rede solidária da comunidade de afetos, como todos os pioneiros chamavam a si
próprios. Comunidade construída ao longo dos anos de profundo convívio e resistência,
no cotidiano da sobrevivência e na defesa do lugar que escolheram para viver e criar os
seus filhos.

Muitos dos vizinhos, quase a maior parte deles, segundo Dona Etelvina, “frequen-
tavam a mesma igreja que a gente logo que cheguemos por aqui”. De acordo com o seu
relato, “mesmo os que tinham outra igreja ou religião eram tidos como irmãos pra nós”
, isto é, eram vistos como coparticipantes desse núcleo interacional de significados, de
trocas simbólicas, de ajuda mútua e de ajuda ao próximo.

“Principalmente dos mais necessitados de nós”16 , disse o Seu Paulo, na primeira


vez que conversamos, no início de 2002, quando, acompanhando o Seu Raposo até a
sua residência nos deparamos com ele, sem camisa, no muro de tábuas de sua casa.
Lá, paramos, e eu fui apresentado ao Seu Paulo pelo Seu Raposo, atendendo ao com-
primento festivo e afetuoso de uma ?boa tarde? e um chamado de mão e voz para que
nos “achegasse” até ele. Após a apresentação ficamos juntos entre o portão e o muro
de tábuas e conversamos um pouco.

Seu Raposo, complementando a narrativa do Seu Paulo em relação à comunidade


de afetos da Rua X, olha para mim e afirma: “uma coisa é certo, professor, eu tenho

15
Os depoimentos da história da ocupação do lugar onde construíram a Rua X foram tomados durante
as três estadas em campo, entre os anos 2000 a 2004 e de modo descontínuo até 2005; 2007 a 2009 e
intermitente até 2012, e 2016 e 2017, prosseguindo até o final do mês de janeiro de 2018.
16
Os “mais necessitados de nós”, na apresentação da rua a mim através da narrativa de Seu Paulo,
eram os moradores das seis pequenas casas da Vila Sem Nome que ficava no começo da rua, no seu
lado esquerdo. Esta vila, segundo Seu Paulo, era normalmente ocupada por moradores recém chegados
a João Pessoa, muitos deles “desempregados e com filhos”, que alugavam de um senhor, proprietário,
“que morava na rua da frente e que construiu as seis pequenas casinhas” geminadas para aluguel. A vila
foi construída no fundo de residência do proprietário, com abertura para a Rua X. De acordo com o Seu
Raposo, “... a rua inteira, toda semana, entrega mantimentos de primeira necessidade aos moradores da
vila e busca integrá-los” ao cotidiano da rua, do bairro e da cidade. Afirma ainda que “a maioria deles
estava ali só de passagem”, enquanto não podiam alugar ou “montar um cantinho melhor para eles”. A
Vila Sem Nome não será objeto direto de interesse nesse artigo, só aparecendo em função da sua relação
presente nas narrativas dos moradores pioneiros.

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orgulho e agradeço muito ter tido a sorte de parar nessa turma que ajudou a montar
essa rua e esse pedaço de bairro”. A turma que ele se refere são as 18 famílias de
pioneiros, tornadas 13 mais tarde, que se autoconstituíram em uma comunidade afetiva.

Segundo o seu relato, “nós, desde o início só se demos bem, tudo alma caridosa
e necessitada uns dos outros”. Pára um pouco, como a refletir sobre o modo de melhor
continuar a sua narrativa, e a seguir prossegue: “mas, professor, todo muito agarradinho
nos apoios uns pros outros, mas também, e isso é uma coisa firme na gente... cada
um direito, no seu canto, sabendo os pés17 de cada um e atendendo apenas quando
chamado e estando atento pro que der e vier”.

Destarte, no depoimento de todos os pioneiros da Rua X, bem como de seus fi-


lhos e netos, apenas as “casinhas” da vila tinham um alto rodízio de moradores. O que
dificultava, segundo eles, uma convivência mais próxima, a não ser nas visitas semanais
aonde os pioneiros iam levar mantimentos e se mostrarem à disposição para ajudá-los.
Os demais moradores se encontravam ali desde o momento inicial de ocupação da área,
quando ainda estavam se organizando para estabelecerem os espaços para a constru-
ção de suas moradias.

Com o passar do tempo, montaram roçado e criação comuns e partilhavam dos


bens e de algum lucro obtido sobre a venda das sobras da colheita. No caso de haver
sobra, assim, um grupo de moradores se encarregava de repassá-las e atingiam outros
moradores por perto, a quem vendiam o produto; ou iam mais adiante, como fazia o
Seu João Carroceiro, que montava barraca, no início, em pontos próximos da Lagoa,
ou no entorno do mercado público de Tambiá e nas feiras livres da cidade chegando a
um número maior de pessoas. Outros, que tinham alguma habilidade, faziam cestos,
peneiras, chapéus e iam vender na cidade; ou, faziam como Seu Pedro, que possuía
a arte de vidraceiro, e montou um “negocinho” que, em pouco tempo, era conhecido e
chamado por uma clientela “que só fazia aumentar”, em uma época de expansão da
cidade.

Outros tantos começaram a trabalhar como ajudantes de pedreiro, alguns se tor-


nando mestres de obras e contratando o seu próprio pessoal para o trabalho de peque-

17
A palavra pés aqui, como empregada por Seu Raposo, tem o sentido de limites e motivos.

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nas construções ou reparos e pinturas de paredes. As mulheres se empregavam como


domésticas nas casas da cidade, outras tinham a arte da costura e costuravam para a
redondeza, e algumas se empregaram em fábricas, mas poucas delas, e outras ainda
apenas cuidavam “do lar”.

Outros mais, de acordo com a conversa de Seu Paulo, em 2002, ao “pé do portão”
de sua casa, “... não tiveram tanta sorte, mas mesmo assim lutaram e com a ajuda de
nós, da comunidade foram se remontando aos pouquinhos”. Relembra que, com a ajuda
de todos os membros da comunidade, eles foram “... se ajeita[ando] devagarinho na vida,
trabalhando honesto e criando seus bruguelos (filhos)...”.

Seu Paulo para um pouco, reflete, emite uma expressão de tristeza no olhar e,
falando olhando direto para o Seu Raposo, me informa que, mesmo assim, alguns “outros
num aguentaram os puxões da vida e se mandaram logo...”. Evoca as cinco famílias
que não resistiram às pressões a que os pioneiros foram submetidos no processo de
constituição da comunidade de afetos, como se referem à rua onde moram.

Referência na qual, com frequência, fazem uma simbiose entre os dois nomes:
Rua X e comunidade de afetos. Um e outro se fundindo em torno de um mesmo núcleo
de pertencimento e solidariedade mútua. A memória social e individual de cada pioneiro
se mistura assim entre o lugar e a história natural de sua ocupação e a comunidade de
afetos gerada no decorrer dessa história.

As paisagens construídas nas narrativas, deste modo, fundiam as imagens de


apropriação do espaço, ainda composto por uma mata natural, com a composição afetu-
osa do lugar conquistado com muitas lutas e sofrimentos. Mas também sempre evocada
em suas lembranças a partir da solidariedade e afetos que uniam o conjunto dos seus
moradores. Em seus balanços rememorativos contam suas trajetórias individuais e co-
letivas como um composto de ganhos e de muitas perdas no decorrer da história natural
da Rua X.

Isso pode ser sentido de forma absorvente na narrativa do seu Pedro, em 2009,
quando ele afirma: “... a gente tudo, professor, era gente nova, com disposição e com
braços para a labutagem e com vontade de se aperfeiçoar nas artes que a gente já tinha
ou para outras que porventura deus quisesse dar pra nós”. O Seu Pedro se refere à

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vontade fortificada quando do envolvimento dos diversos casais, uns com os outros, que
deram força a eles, ao conjunto, na montagem de projetos e projeções sobre o destino
de cada família, de cada um, e da comunidade afetiva que se formava e se tornava mais
forte e dinâmica a cada “novo amanhecer”.

Seu Pedro expõe sobre as dificuldades passadas por todos os casais, homens
e mulheres, e algumas crianças que já se encontravam entre eles, ao se lançarem na
aventura da conquista de um lugar na cidade de João Pessoa para sobreviverem e cria-
rem os seus filhos. Segundo ele, “... algumas mulheres da gente, no início, tiveram que
trabalhar na casa dos patrões lá na cidade e passavam de quinze dias a um mês por lá
e dois dias em casa, era dureza”.

Olha ao redor, para as casas ao longo da rua, pára um pouco como para situar-se
melhor do que iria informar; olha para mim, e aponta com o dedo na direção de algumas
residências me dizendo: “... a mulher de João [Carroceiro], que deus a tenha, e a de
Euclides e a de Paulo, e de outros tantos daqui passaram tempos fazendo isso até se
aprumarem na vida...”. Prossegue, apontando para si próprio e para a casa vizinha do
amigo-irmão, Seu Raposo, olhando direto para os meus olhos, como querendo sentir a
minha expressão facial sobre o que ia dizer, e afirma que “a minha Geralda e a Etelvina,
mulher do Raposo, ainda bem, não precisaram não”.

Afirma orgulhoso de que os dois possuíam uma posição profissional diferente que
os tornava mais afeitos na vida, o que poupava as mulheres do trabalho fora de casa.
Deste modo, suas esposas “... ficavam na casa cuidando da casa, [mas] plantavam uma
roça, cuidavam dos nossos filhos e iam pra igreja18 , e ajudavam nas festas, nos hinos e
coisa assim...”.

18
De acordo com o relato de Dona Geralda, em uma conversa informal, ela, Dona Etelvina e os esposos,
e muitos outros da rua, quando chegaram a João Pessoa, frequentavam a religião católica. Mas, segundo
ela, “nos anos depois [por volta de 1970 ou um pouco mais] a gente se desiludiu da igreja e começamos a
frequentar outra. Essa era uma pequena igreja próxima onde nós morava que falava mais de perto o que a
gente precisava ouvir, aí Pedro falou com Raposo, que depois falaram com nós para passar por lá pra ver
como era lá, isso a convite do pastor e da mulher dele, que visitaram a nossa comunidade e convidaram
pra gente ir lá e a gente foi. Não é que a gente voltou cheio de luz, lá só tinha gente como a gente, se
falava de precisão e de como se resolver ela e de que era nós na união e na paz que fazia isso acontecer.
Aí a gente foi indo devagarinho, frequentando lá e cá, até que decidimos ficar nessa nova fé... Hoje, pro
senhor vê, tamos em uma outra, que é a de um compadre nosso lá de nossa terra que virou pastor e veio
pra cá e montou com a ajuda da gente essas paredes e hoje muitos de nós frequenta o lugar de deus e
ajuda nos trabalhos de evangelização do povo de deus daqui e de outros cantos pobres da cidade...”.

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No entanto, mesmo assim, fez questão de dizer que elas eram “trabalhadeiras” e
sempre “prestativas”. Nas suas palavras: “as duas, Geralda e Etelvina, ficavam em casa,
é verdade, mas sempre foram mulheres da luta... Sempre trabalhadeiras e prestativas
aos outros próximos da gente e até aos desconhecidos da paróquia...”.

5. Os anos de chegada foram dureza


Alguns meses depois da minha conversa com Seu Pedro, houve uma festa na Rua
X a que fui convidado. Era a festa de aniversário dos 84 anos de Dona Antônia, no ano
de 2009.

A festa aconteceu no quintal da casa de Dona Antônia em volta de uma grande


fogueira onde as pessoas se sentavam em torno e assavam pedaços de carne, de frango,
de salsichas, de queijo coalho, em uma grande fartura, e onde eram servidos sucos e
muita cachaça com caju e limão. Na festa se armou, ao redor da fogueira, uma grande
e animada roda de conversa. O assunto, - com outros do dia a dia da comunidade e
de muitas “salvas” e “vivas” a Dona Antônia, - foi sobre a construção da comunidade de
afetos da Rua X19 . No dizer de Seu José Lourenço, que dá nome a este subtítulo, “os
anos de chegada foram dureza”.

Seu José Lourenço continua, afirmando que “a sorte da gente foi a gente ter en-
contrado uns comparsas que estavam na mesma precisão de nós, e gente da boa...”
. O Seu Beto pega esta afirmação de Seu José Lourenço para relembrar o momento
em que se encontravam na calçada da estação ferroviária de João Pessoa, no bairro do
Varadouro.

Relembra esse instante passado, mas presentificado na sua imaginação e dos


muitos presentes, como o marco inicial de uma união entre pessoas que nunca tinham
se visto antes, mas que se colocaram em um projeto de vencerem juntas as agruras
daquele momento. E, desse modo, partilhar as suas vidas, conquistas e derrotas, lutas e
ganhos, perdas, sofrimentos e alegria e o prazer de estarem cada vez mais juntos, como
19
Como lembrou Dona Maria Flor, era sempre a mesma coisa, sempre se conversava sobre esse período
juntos, das “durezas da vida nos primeiros tempos”, das “conquistas de cada um e de todos”, e “das coisas
da vida e da vida em comum”. “E agora”, acrescentou Seu José, “temos o professor pra nos ouvir e
perguntar... aí é que a conversa não vai acabar mais... eita aniversário bom!...”. Todos riram! Fiquei feliz
com a saudação afetuosa de Dona Maria Flor, me integrando prazerosamente, ao grupo, como um ouvido
diferente, “e aí que a conversa não vai acabar mais...”.

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naquele instante comemorando o aniversário de “uma guerreira, de mulher de fibra, essa


amiga, irmã, batalhadora, essa nossa Antônia”.

Prosseguindo o relato iniciado por Seu José Lourenço, descreve que “...távamos
tudo de nós ali, recém chegados, com bagagem, mulher e alguns com filhos pequenos,
olhando o mundão sem saber que rumo tomar...”. A sua voz adquire uma tonalidade es-
pecial, a narrativa se torna quase épica, enquanto continua a falar. Conta que “ninguém
quase não se conhecia, mas tava tudo junto como um monte pensando cada qual o que
fazer”.

Pensa um segundo e todos ficam esperando a continuidade dessa narrativa. Olha


para Dona Antônia, e grita um “... parabéns para essa mulher da gota serena!”, olha
para o local em que se encontra Dona Socorro, dá uma piscadela, encosta a mão direita
nos lábios e manda um beijo em sua direção. Olha, enfim, para a plateia armada de
amigos em torno da fogueira e prossegue: “Aí, Antônia, mulher do finado Amaro, junto
com Socorro, minha mulher... trocaram conversa e fizeram logo amizade, [e] começaram
a passar uns pães e um café ralo entre o monte que era a gente...”.

Faz outra pausa curta e acrescenta: “essa movimentação de Antônia e Socorro


eu não esqueço jamais! Foi aí que tudo começou pra nós junto”. Ao redor existem vários
olhares emocionados. Todos se inserem no interior da narrativa épica de Seu Beto e,
claramente, esta cena comum passada que serve como o símbolo da montagem da
rede afetiva que tomou conta da vida de todos desde então em uma trajetória comum, é
revivida por todos.

A emoção toma conta cada vez mais da plateia. O Seu Beto sabe tirar proveito
dela e continua, grave, “com uma voz empostada de pregador, fazendo pregação na La-
goa”20 . Descreve sobre esse encontro simbólico para os comunitários da Rua X. Informa
que, “uns começou a falar com os outros, e o finado Amaro disse que soube que lá pras
bandas de uma tal Estrada dos Macacos tinha uma beira de rio e uma mataria, que a
gente podia ver se si achegava por lá...”.

Dá uma olhadinha para os lados, para ver o comportamento da plateia e, como

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Como me cochichou brincalhona Vilsa, a filha de Seu Samuel e Dona Vilma, casal de pioneiros da
comunidade de afetos.

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estavam todos de ouvidos e olhos atentos para ele, continua: “e, assim, dito e feito! Todo
mundo quase de imediato se animou e já tinha um destino junto...”. Faz um olhar triste
para relembrar algumas famílias e alguns homens e mulheres sozinhos que estavam
como eles na calçada da estação ferroviária e não se interessaram ou não tiveram co-
ragem de segui-los na empreitada de conquistar a “mataria”, “lá pras bandas de uma tal
Estrada dos Macacos”. E então assume a voz empostada e a teatralização da narrativa
e diz, “pois é, vai ver que tinha que ser assim, mas poucos que estavam por lá foram
os que não toparam a parada e por lá ficaram, e perdemos o rumo deles... pra todo e
sempre”.

O que é concluído por Seu Jonas, que aproveita o momento de silêncio do Seu
Beto e lhe toma a palavra. Antes, porém, faz um “urra!” em direção à Dona Antônia,
levanta um copo com cachaça e limão e faz um brinde à aniversariante. O que é seguido
por todos.

Depois, retoma a palavra tirada do Seu Beto e expõe aos presentes: “pois é,
meus amigos, então, como o Beto vinha contando... foi aí que a coisa começou”. Para
um pouco, como a relembrar o momento passado vivido junto aos demais companheiros
e relata: “Pois é, amigos, acho que todos tem essa coisa toda nas cabeças, nos olhos
e no coração, pois é... já era de manhãzinha quando resolvemos caminhar na direção
dessa tal Estrada dos Macacos. Quem é que sabia como chegar? Aí o jeito foi sair
perguntando...”.

6. A caminho da Estrada dos Macacos


Seu Beto fala de alguém que ouviu falar que do outro lado da rua havia carros
de boi que faziam transporte e conheciam a cidade e os melhores lugares para onde
eles poderiam ir. Diz que olhou em frente e, de fato, “tinha uns carros de boi parado por
lá e eu e João foi perguntar, um deles disse que podia levar a gente e disse o preço,
disse que era uma lonjura danada e lá pra dentro de mata fechada...”. Ele continua o seu
relato dizendo que ele e o Seu João Carroceiro “voltaram pro grupo e contamos o que a
gente tinha e dava pelo conjunto pra alugar dois carros e botar por cima umas mulheres
da gente buchuda (grávida) e criança pequena, o resto acompanhava a pé...”. Todos do
grupo, segundo ele, concordaram. Contaram o dinheiro de cada um e daria para fazer o

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pagamento do transporte dos dois carros. Ele pára um pouco, ri e continua: “Né, minha
gente, todos aqui se lembram, ficamos liso e leso, só vendo, mas fomos pra dentro que
era a nossa meta maior naquele momento...”.

Seu Raposo balança a cabeça confirmando os relatos de Seu José Lourenço, Seu
Beto e Seu Jonas e acrescenta: “é verdade, foi uma dureza, mas era a nossa meta e a
gente tinha fé!”. Assume a palavra e retoma a narrativa épica deste encontro social que
levou estes homens e mulheres a seguirem unidos em uma longa trajetória.

De acordo com o Seu Raposo: “Nós cheguemos quase de madrugada junto do


Rio Jaguaribe. Paguemos os carroceiros, gente boa, que viu a nossa situação e deixou
ainda uns trocados com a gente e seguiram viagem de volta”. Diz que desembarcaram,
olharam uns para os outros, dividiram os “malotes entre eles, e “a gente adentrou a andar
pela margem do rio, andou, andou e parou num canto”.

Nessa parada para descansar um pouco, se reuniram e decidiram que teriam ta-
refas imediatas a serem executadas para dar o conforto mínimo ao grupo. Desse modo,
ficou decidido que “as mulheres organizariam um acampamento”, e houve uma sepa-
ração de atividades entre eles. Segundo o Seu Raposo, “uns de nós fomos pra mata
arranjar uns paus pra fazer uma fogueira pra espantar os bichos e mosquitos”. Diz que
ficou nesse grupo com Seu Pedro.

Segue o seu relato afirmando que “uns outros de nós arranjaram uns peixes com
varas improvisadas jogadas no rio, e fizemos a nossa primeira janta de outras tantas que
aconteceriam com nós...”. O Seu Samuel toma a palavra, emocionado com tantas lem-
branças trazidas pelos seus amigos desse dia que os marcou para sempre e acrescenta:
“a gente tava cansado de morrer, mas tava quase feliz! Depois da janta improvisada foi
um sono só, com um de nós sendo acordado de tempo em tempo para substituir os que
ficaram acordados de vigia do grupo...”.

Continua a sua exposição falando desse momento de relaxamento coletivo e da


exaustão que os levou a dormir “de um sono só”. Lembra que “acordamos com o sol alto,
o rio de um lado e a mataria do outro”. Diz que tomaram um café com umas bolachas
que ainda restavam e de novo se organizaram em três grupos. O das mulheres que
ficaram cuidando das crianças e “na lida” de providenciar comida e lavar as roupas sujas

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de dias de viagem. Os homens, por sua vez, se dividiram em dois outros grupos, um
que adentrou a mata, “para verificar o local; e o outro, para providenciar comida para o
grupo. Este se dividiu em outros dois, um para pesca e o outro para caça de animais
silvestres. Assim organizados, conta o Seu Samuel, “olhamos um pro outro e deixamos
as mulheres na lida de arrumar o acampamento e saímos em grupos, um para arranjar
o que comer e o outro para verificar a região que a gente tinha parado”.

Em suas palavras,

Eu, Beto, João, Amaro, José Raposo e Pedro, - que só andavam, desde
aquele tempo, agarrados, - fomos pra dentro da mata pra verificar o local;
O grupo pra arranjar o que comer se dividiu em dois, um pra entrar na
mata e caçar, e outro pra pegar peixe no rio... Foi um dia danado de
bom!

Conta que

No caminho se descobriu que outras gentes já tavam por ali, uns como
nós, recém chegados, outros com mais tempo, e já com uma roça, umas
galinhas, uns porcos, uns gados, uns burros de carroça e uns cavalos...
Conversamos sobre a terra e eles disseram que aquela região que nós
tava podia ficar pra nós e que eles ficavam ali, outros acolá e assim foi...
João Carroceiro perguntou prum dono de uns animais se ele não preci-
sava de braço pra trabalhar... Ele olhou pro João, olhou pra nós e disse
que ali tudo era pouco, mas podia repartir uns ovos, uns pintos, umas
vasilhas de leite em troca de trabalho no roçado e na lida dos bichos.
João topou na hora!
Mais tarde, na roda pra janta, falou a respeito e levou, no dia seguinte,
outros dois com ele...

“Nós outros ficamos de dividir o terreno da mata pra nós morar e viver!”, conclui.

Após uma demarcação de oitiva das comunidades já instaladas e do local apon-


tado para servir de lugar de assentamento desse novo grupo, fizeram um recorte de onde
cada um ia ficar. Na época, o grupo era composto, ao todo, de 18 famílias e juntos avan-
çaram na distribuição, delimitando o local de cada núcleo familiar e um traçado de rua:
nove terrenos de cada lado.

De acordo com o relato de João Carroceiro, as divisões eram equivalentes no


início, mas, no passar do tempo, quando apareceu “um tal de coronel, né, e disse que
as terras ali tinha dono, uns logo se intimidaram”. Deste modo, segundo ele, “logo que a
briga começou terminaram por ceder seus terrenos e casas, na época de palha, por uns
trocados e se mandaram dali deixando nós no fogo e no sufoco”.

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Diz que com a “saída desses frouxos, os cabras (capangas) do coronel fizeram
um muro no lugar e as casas ficaram lá dentro com um portão pro outro lado de nós”.
Conta que “a pressão foi grande e o pessoal do lado direito da nossa rua venderam aos
poucos um pedaço de seus terrenos e outros se mandaram logo como medo”.

“É por isso que hoje a gente vê que os traçados dos terrenos ficaram desinformes:
uns maiores de um lado da rua do que os outros do outro lado. E um lado com as nove
casas e do outro só quatro...”.

Nessa altura há um zumzumzum na plateia. Mas Seu João Carroceiro aumenta o


tom de voz e continua a sua narrativa:

Muito depois, o coronel dono dos terrenos das quatro casas que foram
tomadas por pressão em troca de quase nada, vendeu os terrenos para
um que chegou ao local e construiu a casa dele virado pra outra rua e
no fundo da casa, do lado de cá essa vila com as seis casinhas que o
professor já viu...
Nós, do lado direito, mantivemos quase intactos os nossos terrenos, por
isso eles ainda têm um bom quintal...

No que é complementado por Seu Euclides, “pois é... o João contou uma história
certa, mas com uma mágoa guardada...”. Diz que vai contar a história da “mágoa guar-
dada na contação” de Seu João Carroceiro, mágoa que “a gente arrepara até no tom da
voz dele”.

Segundo o Seu Euclídes,

essa mágoa é a de que a gente tava junto, unido, mas, embora se gos-
tasse e quisesse ficar junto, muitos de nós tomaram uma decisão de sair,
acharam que o dinheirinho que deram, depois de botar gado na roçinha
da gente, de ameaçar tocar fogo nas casas de palha da gente, de ame-
açar bater em nós, era melhor pegar do que ficar sem nada e até correr
o risco de ficar sem vida...
É isso... nem todo mundo é igual na pressão, uns cedem outros não, uns
cedem mais ou menos, outros não, depende do sofrimento de cada um,
do arrastado da vida que cada um levou, do medo ou da batalha de cada
mulher que vive com o seu homem; e depende também da precisão de
cada um.
Eu mesmo fui um que fiquei, eu também vendi um pedaço do terreno da
minha casa, por uma merreca21 e por pressão, mas tô aqui...
João mesmo, tava com uma mulher fraca em casa e também terminou
vendendo a uma família um pedaço do quintal da casa dele, e ele [a
pessoa que comprou] ampliou o terreno dele e construiu uma casa do
outro lado da rua.
21
Merreca - pouca coisa, quase nada, pouco dinheiro. Aqui tem o significado de uma oferta de pouco
valor econômico.

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João tava necessitado de dinheiro urgente, tava com dois filhos novos
recém nascidos em casa, a mulher doente da parição e precisava de re-
médio, de pagar parteira, de pagar uns lambedor e umas ervas pra Dona
Anastácia, lá do outro lado da Mata, que sabia cuidar dessas doenças,
e coisa e tal.
O dinheiro da parte que ele vendeu foi o que salvou meus gêmeos e deu
vida de novo a minha mulher dele e as minhas outras filhas depois... Não
é que eu era frouxo, era de precisão, como também foi o de João... E o
que fiz resolveu o que eu tinha de resolver, sem eu precisar arredar o pé
daqui e batalhar junto pela nossa rua e nossa amizade...
É isso que eu queria dizer... O relato de João é certo, mas a mágoa deve
ser diminuída, pra se olhar com mais justeza os modos de agir de cada
um de nós?

A plateia emocionada aplaude essa defesa das opções dos que se foram, ou dos
que ficaram, mas venderam parte dos seus terrenos. Muitos soltam algumas frases
gritadas, “é isso mesmo Euclídes!”, “cada um sabe onde o calo aperta”, “João quando
bebe não controla a língua e ofende o mundo...”, e outras tantas.

O Seu João Carroceiro pede silêncio para a plateia, retoma a palavra, e emocio-
nado, diz alto, “É verdade, é verdade, o que Euclides falou é verdade...”. Fala então dos
tempos difíceis que teve que enfrentar, com a mulher doente e cada vez mais fraca, os
filhos para criar, ele sozinho tendo que enfrentar “a vida” vendendo verduras e frutas de
porta em porta, e repete, “é verdade, gente, como todos sabem,

eu tive mesmo que vender um pedaço do meu terreno a um infeliz que


queria aumentar o terreno dele do outro lado da rua para fazer a casa
pra morar e abrir um lugar de servir comida e um bar... e fiz pra salvar
o par de gêmeos, meus filhos e a minha mulher que depois deles quase
morria de fraqueza danada...
E não foi por pressão, mas, como ele [o vizinho dos fundos] mesmo falou,
sabendo que eu tava aperriado e doido da vida com a situação que eu
tava passando em casa, me fez uma proposta e eu aceitei.
Sou o único do lado esquerdo a tá com um terreno menor... Euclídes
tem razão, a vida de cada um tem lá suas atribulação e cada qual sabe
onde o sapato aperta e como fazer as coisas para sair do aperto... tem
razão sim!...

O Seu João Carroceiro pediu desculpa mais uma vez, e falou que não tinha inten-
ção de ofender ninguém. O grupo inteiro, contudo, estava comovido. Algumas lágrimas
brilharam na luz da fogueira nos olhos dos presentes, e Dona Antônia, arrematou a pa-
lavra dizendo que “não pode haver mágoa, nem ressentimento entre a gente, pois a luta
da gente é uma luta presente a todo o dia e é uma luta de gente forte e de vencedores...”
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No que Seu Raposo acrescentou: “... gente de deus... veja! A gente, como disse
Antônia, é gente de bem, séria e conforme os mandatos de deus... A gente não pode ter
mágoa de coisas do passado...”.

O Euclides tem razão: as precisões de cada um, quando não podiam ser
resolvidas pelo grupo, era de cada um, e cada um agia com sua própria
cabeça, no seio de deus, sempre generoso, e cada um fez o certo que
achava certo. E a gente outros tinha também de saber que esse era o
certo pra ele, e para o grupo em geral.
Não vamos estragar a festa de Antônia que tá muito mais do que boa,
vamos continuar a contar o nosso bê-á-bá pro professor, e mostrar como
a gente apesar das dificuldades tamos aqui pra contar as nossas vidas
de bem querer...

Todos os presentes, ainda com a emoção aflorando o semblante de cada um,


riram, aplaudiram, deram vivas aos 84 anos de Dona Antônia, e uma rodada mais de
cachaça e sucos de manga e de caju remontou o clima de festa e um final menos tenso.
A festa prosseguiu noite adentro em um clima de trocas de afetos e amenidades.

Essas narrativas aconteceram durante uma roda de conversas para comemorar


o aniversário de uma das moradoras do lugar, que fez parte do núcleo de pessoas que
chegaram juntos à Mata do Buraquinho. Outras narrações apresentadas no decorrer do
artigo foram colhidas em diversos momentos da pesquisa de campo. Todas relatam, de
forma épica, a chegada do grupo a João Pessoa, o encontro na calçada da estação, a
chegada na Estrada dos Macacos, a caminhada pela margem esquerda do Rio Jagua-
ribe, e a ocupação de locais desprezados pela especulação imobiliária da época para
constituição de um lugar de moradia e trajetória de vidas em comum na cidade escolhida
para viver, a dureza dos primeiros tempos, a desistência de alguns e o fortalecimento do
grupo. O que deu origem a uma história natural afetiva, que desemboca na consolidação
de uma comunidade de afetos contada através da memória dos seus organizadores.

Este artigo teve por objetivo mostrar um agrupamento humano que se organizou
através de um aprofundamento de vínculos solidários e de compartilhamento do con-
junto de bens a eles dispostos, bens físicos e simbólicos. Quis apresentar também as
diversas tensões resultantes de uma organização de pessoalidade intensa, devido ao
estreitamento dos laços e da dificuldade de se distinguir em seu interior os limites entre
o pessoal e o coletivo, causando às vezes pequenos conflitos, e mágoas entre os que se
sentiram vitimados pela intrusão do grupo em suas vidas, e entre os que se sentiram ex-

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cluídos de participação efetiva dos dilemas vividos por uma pessoa, ou família ou grupo
situacional específico no cotidiano da rua.

Mas, por outro lado, de um grupamento humano, cuja comunidade também produ-
ziu o sentimento de pertença não só ao lugar, mas simbolicamente aos vínculos fortes de
amizade que os entrelaçaram em uma trajetória comum, e onde aprenderam que descul-
pas e perdão, e às vezes o silêncio reflexivo ante algo sentido como ofensa é possível de
ser feito, é bem vindo, e principalmente deve ser conversado e negociado, como forma
de unidade tensa e de continuidade do que chamam de comunidade de afetos.

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