Você está na página 1de 6

Hans Lindgren

Teorias Existentes:
Gostaria de mencionar que sou muito relutante em usar o termo estabilidade do núcleo
(N.T: “Núcleo” é a tradução do termo em inglês “core”, bastante utilizado no Brasil também,
utilizarei ambos os termos na adaptação do texto: núcleo e core). O conceito de
estabilidade do core tem sido tão utilizado e tão mal compreendido na última década que
as pessoas têm questionado o seu valor (N.T: Este texto foi escrito em 2011, mas continua
atual, já que quase 6 anos depois estas questões continuam por aí). Estarei usando o termo
no texto por ser universalmente aceito.

O fato é que uma grande quantidade de tempo e


energia têm sido investida no treinamento do core.
Ele é considerado como parte vital de programas
funcionais de reabilitação, e a indústria da saúde e
do condicionamento físico o têm promovido
fortemente e desenvolveram seus sistemas para
treinamento do core.

1
Muitos atletas têm usado uma valiosa quantidade de tempo de seu regime de treinamento
para fortalecer o core, mesmo que seguidamente seja publicado algum estudo para avaliar
o efeito de tal treino e que os resultados não sejam nada favoráveis. Tem havido
comentários como estes:

“Não existem correlações significativas entre estabilidade do core, movimento funcional


e desempenho. Correlações de moderadas a fracas foram identificadas, sugerindo que
estabilidade do core e *FMS não são fortes preditores de desempenho. Além disso,
avaliações existentes não confirmam satisfatoriamente a importância da estabilidade do
core no movimento funcional. A despeito da ênfase que os profissionais têm colocado em
movimento funcional e treinamento do core para o aumento do desempenho, nossos
resultados sugerem outra coisa. Embora treinamento do core e movimento funcional
sejam importantes a ponto de serem inclusos em um programa de treinamento,
especialmente para prevenção de lesões, eles não deveriam ser a ênfase primária de
nenhum programa de treinamento” (29).

*N.T: FMS – Functional Movement Screen, o FMS é uma ferramenta de análise de padrões de
movimento bastante popular nesses dias. Composta de 7 movimentos que são pontuados de acordo
com a qualidade da execução numa tentativa de estabelecer um caráter mais objetivo em algo que
é subjetivo: qualidade dos padrões de movimento.

“Os resultados clínicos de programas de fortalecimento do core não têm sido bem
pesquisados. Os estudos são dificultados pela falta de consenso em relação ao que
constitui um programa de fortalecimento do core. Alguns descrevem a reeducação
neuromuscular, enquanto que outros descrevem um treinamento de especificidade
esportiva e educação funcional. Ao que saibamos, não existe nenhum estudo randomizado
controlado a respeito da eficácia do fortalecimento do core. A maior parte dos estudos são
séries de casos, prospectivos, não controlados” (1).

(N.T: Estudos randomizados controlados são aqueles em que todas as variáveis possíveis são
controladas: idade, sexo, alguma patologia, etc. e um software separa os grupos de forma aleatória
= random em inglês. Estudo prospectivo é aquele onde se acompanha o(s) indivíduo(s) por meses,
mas com um baixo controle sobre ele(s)).

Adicionalmente, temos “O Mito da Estabilidade do Core” (24) escrito por Eyal Lederman
que mais ou menos tenta arrebentar com todo conceito de estabilidade do núcleo com o
apoio de uma longa lista de referências de qualidade.

2
A Estabilização do Core começou mais ou menos
com a teoria do Transverso Abdominal e os exercícios
de encolher o umbigo, após a pesquisa conduzida
por Hodges et al. (16) mostrar que o transverso
abdominal é ativado antes de qualquer movimento
voluntário dos membros ocorrer e que pessoas com
problemas lombares têm um atraso da ativação do
transverso e dos multífidos. De repente, todos
exercícios supostamente deveriam ser realizados
N.T: Uma dica verbal comum dada nesse
encolhendo o umbigo (N.T: O que em inglês chamam
tipo de recomendação durante o exercício
hollowing ou draw-in) para ativar o núcleo profundo (encolher o umbigo) é: “Cole o umbigo nas
(N.T: Especialmente o transverso abdominal). costas”

N.T: Essa é uma representação que se vê com frequência quando se


fala de “núcleo profundo” (deep core em inglês) e aparece sob uma
infinidade de nomenclaturas: subsistema intrínseco, núcleo intrínseco,
etc. Representando a ação conjunta dessas estruturas para
estabilidade do tronco.

O treino com superfícies instáveis foi introduzido e se


alegava que para controlar a instabilidade
proporcionada pelo implemento os abdominais e os
músculos profundos das costas
teriam que trabalhar mais e que,
portanto, o núcleo ficaria muito mais
forte e manteria a coluna
estabilizada. Um estudo (25) mostrou
que somente o reto abdominal e o
eretor da coluna mostraram aumento
da atividade (N.T: Atividade elétrica,
foi um estudo feito com o uso de
eletromiografia de superfície) quando
foram desempenhados exercícios em
uma bola suíça (N.T: Os exercícios
usados neste experimento estão
ilustrados ao lado).

3
Isto na realidade indica que o núcleo não foi ativado, uma vez que estes músculos estavam
tentando aliviar a carga. (N.T: A Conclusão do estudo diz: “Embora exista evidência que sugira
que a bola suíça fornece um estímulo de treinamento para o reto do abdome, a relevância
desta mudança no treino de estabilidade do core requer pesquisas futuras em razão de o foco
do treino de estabilização é minimizar a atividade do reto do abdome...”).

O uso de base de suporte instável tem sido questionando em razão da carga de trabalho
(N.T: Work-load em inglês) ser reduzida drasticamente, uma vez que a resistência é muito
menor. Flanagan et. al (6) citam que uma maior ativação da musculatura do core parece
ocorrer ao se levantar um peso maior acima da cabeça do que levantar um peso mais leve
em uma superfície instável ou com uma carga instável.

N.T: O estudo citado acima usou o exercício “desenvolvimento de ombros” sob diferentes condições,
a fim de determinar qual produzia maior atividade eletromiográfica dos motores primários: Porções
anterior e média do deltoide, trapézio e tríceps braquial. Além de músculos da região do tronco: Reto
do abdome, oblíquo externo e porções superior e inferior do eretor da coluna. As imagens abaixo
mostram as condições utilizadas do exercício “desenvolvimento de ombros”.

Carga estável Carga estável Carga instável Carga instável


Superfície estável Superfície instável Superfície estável Superfície instável

Durante todo esse tempo têm


havido vozes de profissionais
que trabalham com atletas de
força (N.T: Ou dos próprios
atletas) de que exercícios para
o core são desnecessários se
alguém agacha ou faz um
levantamento terra com pesos decentes.

4
O método Pilates também surgiu como uma alternativa popular e efetiva para estabilização
do núcleo. O pilates enfatiza a respiração diafragmática combinada com a ativação do
transverso abdominal para estabilização do núcleo.

Vera-Garcia et al. (33) demonstraram que o “firmar” o abdominal (N.T: Técnica que em inglês
se chama “bracing”) é superior ao “encolher o abdome” para a estabilização da coluna. O
“bracing” abdominal consiste em tensionar toda parede abdominal, como se alguém fosse
se preparar para receber um soco na barriga. O “bracing” abdominal é a resposta para a
estabilidade do core? Ele certamente aumenta a estabilidade do tronco, mas ao custo do
aumento da carga de compressão na
coluna (N.T: Um exercício muito usado com
o propósito de treinar esse “firmar” o
abdominal são as populares “pranchas
abdominais” – imagem ao lado).

Porque o Conceito de Core não tem Funcionado:


A primeira e óbvia razão pela qual o conceito de estabilidade do core tem falhado é uma
falta de definição apropriada do que envolve a estabilidade do core. Cada autor, e
autoproclamado guru, tem sua própria definição e uma lista de músculos envolvidos no
fenômeno de estabilidade do core. No geral, tem havido uma tendência de colocar uma
descrição anatômica na função de estabilidade, no entanto, ESTABILIDADE é uma
FUNÇÃO, não uma ESTRUTURA. Todas teorias apresentadas estão analisando o núcleo
de fora para dentro. A ênfase está em enrijecer e trabalhar os músculos abdominais e das
costas, tratando o tronco como um tubo oco (N.T: Esquecendo, na visão do autor e do DNS
em geral, a parte superior: diafragma; e a parte inferior: assoalho pélvico. Já que o DNS
enxerga o núcleo, o core, como um cilindro, e não um tubo oco).

5
O “bracing” trabalha somente a parte externa do core. Durante um estudo sobre os efeitos
terapêuticos dos “3 grandes exercícios” (prancha, prancha lateral e perdigueiro) feito por
McGill (27), uma surpreendente observação foi que a estabilização na verdade diminuiu
quando uma inspiração profunda foi realizada. Outro comentário interessante deste estudo
foi: “Além do mais, os sujeitos mostraram variação da ativação muscular ligadas à inspiração
e expiração, indicando que alguns pacientes podem incorporar os músculos respiratórios para
funcionar de maneira independente da sua função de estabilização espinal”.

(N.T: McGill é um grande “advogado” do uso do bracing como forma principal de estabilização
do tronco, também recomenda muito o uso dos exercícios citados pelo autor deste artigo:
prancha, prancha lateral e perdigueiro. Os quais são mostrados nas imagens abaixo).