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Roteiro

Apresentação:

Nome: Janderson Andrade Rodrigues

Psicólogo do CENPRE desde 2014.

Graduação em Psicologia na UFSM em 2011.

Experiência no Caps-ad Caminhos do Sol em 2009.

Mestrado em Psicologia Social e Institucional na UFRGS em 2014.

Objetivo: que ao final da exposição e das discussões, possamos construir um cenário no qual o
uso abusivo de drogas e os quadros de dependência química constituam um problema
transversal (saúde, justiça, educação, política...) e complexo. Demandando, com isso, o
protagonismo dos diversos atores que se ocupam dessas problemáticas com base numa
relação horizontal entre os saberes. Assim como, a inclusão de aspectos adjacentes ao sintoma
(ou seja, que não nos limitemos exclusivamente a sua eliminação) que possam ter como
perspectiva a construção de novas formas de vida.

Proposta: primeiramente, compartilhar a minha experiência e, em segundo lugar, propor uma


discussão a respeito de reportagens e charges sobre problemáticas relacionadas ao uso
abusivo de drogas e a quadros de dependência química.

Trailer do filme: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the
Spotless Mind, 2004).

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original, 2005 (Charlie Kaufman).

Retrata o início, o meio e fim do relacionamento amoroso de Joel (Jim Carrey) e Clementine
(Kate Winslet).

Apaixonam-se logo de cara num churrasco de amigos. Ele é contido, tímido e aborrecido, ela é
impetuosa, esquentada e dada a excessos.

Logo brigam. Mas, sem antes, terem se amado pra valer.

Em uma ocasião na qual Joel procura Clem com o objetivo de reatarem o romance, ele
descobre que Clem se submeteu a um procedimento que o apagou da memória dela (“Pareceu
como se ela não soubesse quem eu sou”). Ele, então, vai à procura da mesma empresa
responsável por apagar as memórias de Clem a fim de se submeter ao mesmo procedimento e
também a esquecer.

Joel é instruído a recolher todos os objetos que teriam vínculos com Clementine e com a
relação amorosa (fotografias, presentes, CDs que compraram juntos, páginas de diário) e levá-
los para o médico. De posse desses objetos, Joel volta ao consultório para que, por meio
daquilo que eles fazem Joel lembrar em relação a Clementine, construam um mapa com as
localizações cerebrais de cada lembrança evocada. Identificados os pontos, tratava-se agora de
agir sobre eles fazendo-os sumir.

Senhora com objetos ligados a um presumível cão.

Porém, no meio do processo, Joel desiste de esquecê-la, pois, apagá-la de sua memória,
apagaria também um pedaço de si. É então que começa a saga dentro da mente de Joel para
salvar Clementine do esquecimento transportando-a para momentos de sua vida em que ela
não esteve e que não estavam mapeados pelo programa utilizado pelos funcionários da
Lacuna.

Insucesso do tratamento efetuado por Lacuna em Clem. Após ter deletado Joel, Clem namora
Patrick – jovem funcionário inescrupuloso que explora as lembranças supostamente
eliminadas de Joel para conquistar Clem – e começa a ter crises de choro e angústia sem
motivo aparente. Tudo se passa como se certos rastros de suas lembranças amorosas
digitalmente anuladas permanecessem vivos em sua memória sem força suficiente para se
tornarem conscientes, mas como energia bastante para se atualizarem em situações presentes
que os convocam (p. ex.: deitar com o novo namorado sobre o rio Charles congela como fizera
outrora com Joel).

O tema do filme é a Memória. Voluntariamente os personagens utilizam dos serviços da


Lacuna para apagar suas memórias para poderem seguir em frente nas suas vidas, sem o peso
afetivo de seus fracassos.

O filme tem como epígrafe um poema de Alexander Pope:

Feliz é a inocente vestal


Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.

Vestal, em sentido figurado, refere-se a uma mulher de grande beleza e de castidade


exemplar.

Mentes imaculadas, corações resguardos, os quais não são assombrados por lembranças... o
ato de recordar, portanto, também pode ser alheio a nossa vontade, assim como pode ser
despertada por algo externo (um cheiro, um objeto, um determinado jeito de olhar ou de
sorrir ..., um traço). Por vezes, uma invasão avassaladora contra a qual caberia que nos
defendêssemos. No tratamento psicológico busca-se, ao invés de combater as associações,
acolhê-las. Abrandando a angústia e o sofrimento vinculados à força irresistível do que não se
encontra disponível à consciência.

Qual o tradicional remédio para a dor de um amor perdido?

Dissertação: A rasura química do traço

bArrar/bOrrar as associações

Rasura: Do Latim RASURA, “ato de raspar”, de RASUS, “raspado, arranhado”.


Caso clínico da dissertação.

Tratamento pela palavra daquilo que se só encontrava um tratamento pela química da droga.

Casos Clínicos

a) Carlos, 36 anos, dos quais passou 14 cumprindo pena em regime fechado em um


presídio longe de sua cidade natal, chega trazido por uma amiga da sua mãe. A
aparência de Carlos corresponde à caricatura que se faz usualmente de um usuário de
crack: magro, sujo, machucado, maltrapilho, sinais físicos de cansaço, etc. Trazido pela
amiga da mãe, Carlos se diz muito chateado com a mãe, pois essa última havia lhe dito
que não iria lhe ajudar. Diz que, quando saiu da prisão, arrumou um emprego na
cidade na qual havia cumprido a sua pena e que, desde antes, já não havia mais usado
crack ou qualquer outro tipo de droga. Entretanto, após algum tempo, entendeu que
deveria retornar à cidade natal para cuidar da mãe que estava seriamente doente.
Retornando à sua cidade natal, volta a morar com sua mãe com o pretexto de que
queria cuidá-la, pois previa que a morte dela era iminente devido à gravidade de seu
quadro de saúde. No desenrolar do tratamento, juntou-se à intenção de cuidá-la, o seu
desejo de reparar tudo aquilo que ele entendia que fizera de errado ou o sofrimento
que ela passou e pelo qual ele se sentia culpado, como, por exemplo, as agressões que
sua mãe sofria de seu pai, do qual ela não se separava, segundo ela própria, por causa
dos filhos pequenos. Entretanto, o retorno à casa da qual estivera afastado desde os
16 anos de idade (quando foi levado para o cumprimento de medida socioeducativa na
antiga FEBEM por tentativa de assassinato de um adolescente que agrediu a mãe de
Carlos e com o qual o próprio tinha uma desavença) lhe colocou, novamente, em uma
prisão da qual estivera livre todo esse tempo em que viveu afastado da mãe e das
lembranças que aquelas paredes traziam à tona. A droga, segundo ele, mantinha-o
afastado de tudo aquilo que esse retorno tratou de incitar. De acordo com Carlos, a
culpa antecede o crime, de forma que a delinquência nada mais foi que uma forma de
reconhecer-se culpado, assim como, penalizar-se... O que implica uma forma de lidar
nomeando aquilo que a droga trata, ao seu modo, de manter afastado.
b) Cezar, 67 anos, trazido pela filha por conta do alcoolismo e de delírios de perseguição,
queixa-se de que estão lhe querendo fazer algum mal, talvez queiram lhe enlouquecer.
Não sabe dizer, inicialmente, quem e por quê. Supõe que o vizinho pode estar bravo
com ele porque Cezar olhou para a mulher do vizinho com motivações sexuais. Os
filhos, inclusive, foram buscar informações com o vizinho para saber se, de fato, ele
está bravo com Cezar. O vizinho nega qualquer hipótese dessa ordem. Os filhos
informam a Cezar que o vizinho não está bravo com ele, dizem que isso é coisa da
cabeça de Cezar. Entretanto, por onde quer que Cezar vá, as mulheres estão se
insinuando para ele. Querem que ele as assediem para que ele seja prejudicado, seja
preso. Não pode mais dirigir, pois se sente perseguido constantemente por carros ou
motos. Não sai mais para fora de casa sozinho, pois “eles” estão à espreita, prontos a
lhe fazer algum mal. Segundo Cezar, sua vida parece um filme no qual há detetives que
lhe perseguem, mulheres que tentam seduzi-lo para lhe prejudicarem. Assim, os filhos
não deixam mais que Cezar dirija, pois estão com medo de que ele possa ocasionar
algum acidente. Os filhos dizem, insistentemente, para Cezar que seus medos são
coisas da sua própria cabeça. Cezar, entretanto, diz que não pode ser, pois ele os vê.
Seus delírios e alucinações começaram mais fortemente depois da suspensão do
consumo de álcool, o qual não pretende voltar a usar. Diz que teve que parar de
beber, porque sua esposa havia caído enferma. Sua esposa encontrava-se com
Alzheimer, segundo ele, justo agora que Cezar havia se aposentado depois de tanto
tempo dedicado ao trabalho. Sua esposa era quem cuidava das atividades domésticas.
Agora, é Cezar quem precisava se ocupar das atividades domésticas, além de dar
assistência à esposa. Entre outras coisas, precisava limpá-la constantemente, pois ela
defeca e urinava nas fraldas (fraldas essas que constantemente vazavam). Há algum
tempo, também, não conseguia mais ter relações sexuais com a esposa: “como transar
com uma pessoa doente daquele jeito, isso até é pecado”, falou-me ele. Disse-me que
não tinha mais nem a ereção matutina de outrora. Preocupava-se, ainda, com a
situação financeira da família. Ganhava apenas um salário mínimo depois que se
aposentou e, por isso, precisava lavar carros para complementar a renda. Estava
assoberbado, mas entendia que era sua obrigação cuidar daquela mulher que já não
era mais aquela com quem houvera se casado. A direção do tratamento seguiu para a
estabilização com a construção de um delírio que pôde oferecer um mínimo de
organização a Cezar através, por exemplo, da formulação a propósito das intenções
daqueles que queriam que ele enlouquecesse, a saber, segundo Cezar, esses que
querem enlouquecê-lo têm o objetivo de fazerem mal a ele sem precisarem sujar suas
mãos, sem se comprometerem ou serem incriminados. Querem que Cezar faça uma
loucura e, assim, prejudique a si mesmo.
c) Carla, 40 anos, dos quais 10 foram vividos na rua usando crack. Magricela, disse estar
muito contente por ter ganhado 6 kg: “estou até gordinha”, diz ela segurando um
singelo naco de pele da barriga. Está com 45 quilos, esteve com 39 até pouco tempo.
Chegou ao CENPRE já com um histórico de abandonos de tratamentos ofertados em
outras ocasiões. Diz que seu problema é o crack, precisa manter-se abstinente dessa
droga que lhe causa tanto mal e que lhe fez abandonar a filha com 03 anos de idade
aos cuidados da sua própria mãe. Diz que decidiu largar a droga por causa do
nascimento do neto, de cuja filha, agora com 13 anos de idade, Carla abriu mão e,
também, por causa da doença de sua mãe, cega devido a problemas ocasionados pelo
diabetes. Carla, agora, de acordo com ela própria, era filha, mãe e avó em tempo
integral. Disse que estava preocupado com as crises de abstinência, queria a prescrição
de medicamentos para controlá-las. Disse, entretanto, que certa vez os remédios não
a impediram de voltar para rua. Mesmo se sentindo um tanto zonza e com a
musculatura um pouco enrijecida por causa dos medicamentos, pulou o muro da casa
da sua mãe e voltou para a rua. Relata que vivia na rua com o pai de sua filha, de quem
tentou manter-se afastada diversas vezes. De acordo com Carla, ela tentou ajudá-lo
para que largasse da droga, da rua, arrumasse um trabalho, etc.. Entretanto, como não
conseguiu convencê-lo a largar da droga e não conseguiria viver sem ele, juntou-se
àquele a quem ela entendia ser o seu único amor. As crises de abstinências, agora,
passaram a ocorrer em relação ao pai da sua filha, sujeito de quem Carla tinha medo
de encontrar visto o risco de recaída nessa nova velha droga: “seu único amor”. Há
alguns dias iniciado o tratamento, Carla não retornou ao CENPRE. Liguei para a sua
casa e a filha de Carla me informou que ela não retornou para a casa depois do
trabalho. O seu pai havia saído do hospital depois ser esfaqueado por traficantes, a
filha de Carla supõe que ela deve estar cuidando dele.

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Cracolândia Vs Polícia
Começo: 04:30 minutos
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