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Não Removas Os Marcos Antigos – Provérbios 22.

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Por que é tão importante lembrar que aquilo que hoje realizamos alegremente foi um
dia combatido por nós ou desprezado no passado? Que outras pessoas estiveram nos
alertando e nós não demos a mínima importância? Por que não atribuímos aos idealizadores
as suas idéias, ao invés de tomarmos por nossas as, agora, maravilhosas realizações? Por que
lembrarmo-nos deles? É porque aqueles que não honramos no passado podem e
provavelmente estão, agora mesmo, dizendo coisas que, mais uma vez estamos desprezando.
Quando no futuro despertarmos de novo para estas verdades desprezadas, então nos
alegraremos em fazer, ainda que tardiamente, o que deveríamos ter feito o quanto antes.
Contudo, este atraso do nosso raciocínio, fruto da dureza e da vaidade do nosso coração, deixa
marcas, feridas e morte na vida de outros que, muito provavelmente estarão esquecidos em
nossa mente cauterizada. Os profetas mortos que hoje honramos são aqueles que os nossos
pais mataram e nós matamos os filhos dos profetas enquanto nos deliciamos nas profecias de
seus pais – que contradição! Como eu, um Acabe vaidoso poderia amar qualquer Micaías,
aquele mesmo desmancha prazer de sempre? Os Micaías sempre profetizam o mau dos Acabes
e, mesmo sendo apenas a verdade, Acabe quer matá-lo ou amordaçá-lo. Acabe prefere
escolher seus próprios profetas (I Reis 22.8). Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas...
(Mateus 23.37).

Um homem que repete os mesmos erros, tendo sido advertido, é semelhante a alguém
que se contempla no espelho e, afastando-se esquece a sua própria face, como quem já não se
lembra dos pecados do qual foi resgatado (Tiago 1.23-24). Quando a Palavra de Deus nos
exorta a não removermos os marcos anteriores, nos ensina a respeitar as fronteiras
estabelecidas no passado, aquelas que os nossos inimigos costumavam romper alargando o
seu poder ou domínio; não podemos reproduzir os erros dos nossos inimigos, porque se não o
Senhor nos entregará novamente nas mãos de opressores. Por que chora Jeremias? Pelo que
lamenta? Não deveria o profeta alegrar-se com a alegria de Israel? As lágrimas de Jeremias
incomodam e desanimam Israel que anda na sua euforia e nos seus folguedos. Nem sabe que,
quando Jeremias se calar, todo o povo estará irremediavelmente no exílio, em Babilônia
(Ezequiel 14.20).

Não se produzem enchentes arrasadoras sem grandes represas, porque, uma vez
represadas as águas, surge às margens do rio contido uma boa porção de terra fértil. Aí se
constroem cidades e fazendas, mas quem segurará as águas quando se romperem as
barragens pela muita chuva que o Senhor envia? As águas paradas produzem lodo e
contaminação, porém Jesus é rio caudaloso que brota do trono de Deus, cujas margens são
repletas de árvores da vida, cujas folhas são para a cura das nações (Apocalipse 22.1-2). Nós
somos estas árvores enquanto às margens do rio, porém as árvores às margens da represa
vivem e produzem frutos, contudo jamais serão cura para as nações.

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Não se espera que um profeta seja morto, a não ser em Jerusalém, dentro da cidade de
Deus, pelas mãos do povo que se chama pelo Seu Nome. Também não é o profeta desonrado,
senão em sua própria casa. Houve um tempo em que literalmente matávamos os profetas em
Israel, mas hoje nós apenas os amordaçamos ou ocultamos a sua mensagem. A prática
difundida na nossa terra, pelos que dominam microfones e lentes, é hiper-expor suas
mensagens particulares e esconde a verdade, usando de subterfúgios para refutá-la. Contudo
a verdade é imbatível e tudo no fim coopera para que ela ganhe ainda mais força.

Nosso país vive a euforia do crescimento, aliás, a própria igreja está igualmente
contagiada. Neste bojo, por causa da muita alegria, não nos apercebemos das minúcias do
ataque aos fundamentos. Enquanto miramos na estética, o inimigo nos ilude e mina os
alicerces da igreja e da família, removendo o genuíno evangelho e estabelecendo um
evangelho estético, de sorriso, de alegria, de felicidade e prosperidade, sem passar pelo
reconhecimento de que a salvação é absolutamente de graça e é concedida ao contrito,
quebrantado e abatido de espírito (Isaías 57.15). Jesus é o rio, Jesus é a rocha das águas
caudalosas. Como se ordenou a Moisés que ferisse a rocha para que ela produzisse água e se
ordenou que falasse à rocha para que produzisse água (Êxodo 17.6; 20.8), assim Jesus foi
ferido uma só vez, bastando que hoje falemos a Ele, nossa Rocha Eterna, e as águas brotarão
(Romanos 6.10; João 14.14). Se cedermos à euforia, estaremos removendo os marcos antigos,
amordaçando profetas e ferindo mais uma vez a rocha. Lembremo-nos de que Moisés não
entrou na terra prometida. Sendo assim, nós que já entramos de posse da promessa e do
descanso (Hebreus 4.10), podemos e devemos nos conduzir com prudência e humildade,
porque Jesus foi moído pelas nossas iniqüidades – não nos cabe, senão falar ao Senhor.

Logo, onde estaria a alegria e o júbilo da igreja? Está na posse do vencedor, aquele
cujos claros motivos de alegrar-se, se evidenciam em sua vida, quando ele reconhece que a
vitória foi garantida por uma fonte externa que se esmerou em completar aquilo que havia
iniciado. Jesus é abertura do túnel, é a sua extensão completa e também a cápsula que garante
o sucesso do resgate do crente das profundezas do inferno (João 14.6). Quando o líder
espiritual reconhece quem lhe garantiu salvação, não restam dúvidas aos seus seguidores que
nenhum outro destino os aguarda, senão o ver brilhar a luz no fim do túnel. O líder evidente
oculta a verdade, mas o líder quebrantado a revela. Mas nada há oculto que não seja revelado
(Lucas 12.2), por isso, ouçamos as vozes dos profetas e não removamos os marcos anteriores.

Valmir Vale

São José dos Campos, 19 de outubro de 2010.