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Introdução: infância e adolescência

Apesar de ser algo lógico, vale a pena repetir que a infância e a


adolescência são períodos cruciais para que os jovens construam
uma boa saúde mental para si mesmos.

As crianças que sofrem com as dificuldades de um transtorno mental,


por exemplo, vivem maiores riscos de deixar a escola precocemente,
e em consequência disso, acabam tendo no futuro maiores
dificuldades para conseguir um bom emprego.

O sistema educacional tem um papel fundamental na identificação


dessas dificuldades, assim como no que diz respeito ao apoio as
crianças com transtornos psicológicos em possível estado de
desenvolvimento.

Como saúde mental e permanência na escola são questões que


caminham juntas, nada mais natural que demandar do Estado o
desenvolvimento de políticas que afetem positivamente à ambas

Crianças e jovens com dificuldades psicológicas, quando não


tratadas da maneira correta, podem perder momentos preciosos de
suas vidas.

O apoio na infância protege e muda a vida das pessoas, diminui


necessidades futuras e evita que transtornos psicológicos tornem-se
ainda mais difíceis de se contornar.

O sistema educacional deve receber investimentos que tenham como


um de seus fins evitar o abandono escolar e a consequente
ampliação de casos, entre crianças e adolescentes, de problemas
psicossociais.
Gráfico (1): Surgimento de transtornos psicológicos por faixa de
idade média nos Estados Unidos

30

20

15

10

Transtorno de Transtorno de Esquizofrenia Outros transtornos


ansiedade humor

Fonte: OCDE (2015)

Tendo em vista que, em média, pessoas passando por dificuldades


psicológicas buscam tratamento apenas 12 anos depois de seus
gatilhos, muitos jovens não entram contato com serviços de saúde
mental e/ou apoio psicossocial.

Nesse contexto, sabe-se que um forte auxilio vindo dos sistemas


educacionais sempre será necessário. (Kessler e Wargn, 2008)

A Dinamarca, por exemplo, possui um excelente sistema de saúde


mental, reconhecido por seus ótimos resultados na inserção do
jovem com transtorno mental no mercado de trabalho.

Algumas políticas desenvolvidas no país:

 Desenvolvimento de competências de saúde mental entre


professores e autoridades educacionais
 Seguridade de acesso a escola e a políticas de suporte para
estudantes que sofrem com dificuldades psicológicas
 Investimento na prevenção ao abandono escolar e ação
planejada para estes casos
 Prestação de apoio eficaz entre escola/universidade para o
mercado de trabalho
Desenvolvendo competências gerais de saúde
mental dentro dos sistemas educacionais

Alguns países têm desenvolvido ações e programas preventivos em


relação à saúde mental da criança e do adolescente, mas poucos
deles envolvem a escola nesses programas de escala nacional.

Um país que foge a essa regra é a Noruega, local em que foi


desenvolvido um projeto cooperativo de saúde mental nas escolas
norueguesas, especificamente dirigido para professores e seus
alunos.

Os professores passaram a serem treinados para melhorar seus


conhecimentos sobre saúde mental, de modo que fossem capazes
de identificar situações preocupantes entre os estudantes.

Com esse projeto, a Noruega conseguiu diminuir a evasão escolar


de crianças e adolescentes que apresentavam problemas de
comportamento na escola por conta de questões psicológicas e/ou
sociais.

O governo da Austrália - outro país exemplo - segue a mesma linha


de cuidados financiando dois programas importantes de atenção a
saúde mental em seu território.

O primeiro, buscando sua promoção entre crianças do ensino


primário, nomeou-se de Kidmatter, e o outro, buscando sua extensão
a estudantes do ensino médio, seria nomeado como Mindmatter.

Kidmatter e Mindmatter tem como fim dar base para a colaboração


entre professores, familiares, os próprios estudantes e as
comunidades próximas das escolas.

As ações são desenvolvidas de acordo com três tópicos: colaboração


com a comunidade local; conscientização de famílias e apoio aos
estudantes com dificuldades psicossociais.

A escola torna-se a base para a realização dos programas de apoio,


conscientização e prevenção. Estudos demonstraram o impacto no
dia-a-dia de professores e alunos australianos ao longo dos anos de
implementação e consolidação do projeto.

Por fim, apoiam-se tanto os estudantes que apresentam maiores


dificuldades quanto quaisquer outros estudantes.

O pesquisador e professor da Universidade de South Australia,


Roger Slee, apontou após a realização de pesquisas que os
programas são muito apreciados pelas escolas, professores,
familiares e alunos.

Slee afirmou que programas como estes tem a capacidade de mudar


a cultura de uma escola e de toda uma sociedade no que diz respeito
a saúde mental de uma população como um todo.

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Alternativas para melhorar o conhecimento sobre saúde mental


entre professores e estudantes:
 Investir em programas de prevenção á saúde mental nas
escolas
 Incorporar nos currículos dos professores treinamentos
primários sobre saúde mental e jovens.

Essas são soluções que não necessitam de grandes investimentos,


dão excelentes resultados e evitam que crianças se tornem adultos
vivendo sob dificuldades psicológicas e sociais crônicas.

As experiências de infância importam para entender


dificuldades psicológicas surgidas tardiamente na vida das
pessoas!

Gráfico (2): Percentual de pessoas que experimentaram eventos


graves durante a infância, por gravidade de transtorno mental quando
adulto.

Transtorno mental grave Transtorno mental leve Não possuem transtorno mental

60%
55%

33%
30% 30%
27% 25% 25%
15%
10% 10% 9%
7% 5%
3%

Doença dos pais Foram adotadas Conflito familiares Pais desempregados Um sério evento
durante a infância

Fonte: OCDE (2015)

Esse estudo realizado na Dinamarca pela OCDE constatou-se que


eventos impactantes vividos dentro da infância têm relação direta
com o desenvolvimento de problemas psicossociais enfrentados por
pessoas quando mais velhas ou adultas.

Sessenta por cento (60%) dos indivíduos com transtornos mentais


considerados graves, como indica o gráfico, tiveram algum evento
traumático em sua infância.

Experiências negativas nesse período da vida afetam


significativamente a saúde mental de pessoas quando na vida adulta
- e este é um fato que cada vez mais está sendo confirmado através
de novas pesquisas.

Dados como esses tendem a serem reafirmados em países em


desenvolvimento como o Brasil.

Nesse sentido, os professores desempenham um papel crucial na


prestação de apoio aos alunos e podem chegar a impedir desfechos
negativos deixem de acontecer.

No entanto, muitos não tem o treinamento necessário ou a


infraestrutura necessária para ajudar os estudantes dessa forma;
lacuna que reflete problemas não só no Brasil, mas também em
países do mundo todo.
O suporte recebido pela população jovem
mundial em dificuldade psicológica tem sido
insuficiente

Fornecer tratamento oportuno e apoio aos jovens com dificuldades


psicológicas é um desafio. As taxas de tratamento e
acompanhamento entre crianças e adolescentes são as mais baixas.

O apoio a saúde mental nas escolas é insuficiente em muitos países


do mundo.

Alguns países da OCDE estão desenvolvendo formas de suporte ao


estudante em estado de dificuldade psicológica. Alguns com o
treinamento de professores, e em algumas instituições de ensino
desses países, com a presença de psicólogos e psicólogas.

Como exemplo, um estudo realizado na Suécia demonstrou que


sairia mais barato para o Estado sueco contratar psicólogos para as
escolas e/ou para treinar seus professores do que gastar com
tratamentos para seus estudantes em um possível futuro.

Além dessas informações, sabe-se que a incapacidade de fornecer


suporte as crianças e adolescentes em tempo hábil se relaciona em
muito com a falta de colaboração entre as próprias escolas, serviços
especializados e comunidades.

Na Suécia, aos poucos, essa realidade tem sido alterada


demonstram pesquisas. As escolas e comunidades estão, cada vez
mais, trabalhando juntas com serviços de saúde mental para
protegerem os mais jovens.

No Brasil, no entanto, ainda não temos dados para saber quantas


escolas trabalham em colaboração com a RAPS e os CAPS. Não
existe no nosso país um programa que incentive essa união.

Dois bons exemplos de serviços de sucesso surgidos de programas


de prevenção em saúde mental são os serviços Sweden Youth Clinic
e os centros de suporte na Austrália, ambos financiados pelos
governos locais.

Apesar de serem serviços voltados para todos os públicos, eles têm


um foco especial sobre a promoção da saúde mental dos mais
jovens, algo que se reflete na atuação das equipes

Todas elas são compostas por psicólogos, assistentes sociais e


profissionais da saúde.

Esses serviços não apenas fornecem informações e conselhos para


os jovens lidando com dificuldades psicológicas, eles oferecem
também tratamentos terapêuticos e multidisciplinares efetivos.

Pensando sempre na inserção do jovem na sociedade, o governo


australiano oferece, por exemplo, suporte vocacional e cursos
profissionalizantes a essa parcela da população (OCDE, 2015).

Os centros de Flanders, na Bélgica, e os de Amsterdã, na Holanda,


são referencias europeias no que tange ao tema da inserção social
de pessoas em dificuldades psicossociais.

Esses lugares tem como foco providenciar atendimentos


multidisciplinares de suporte aos jovens com problemas de
comportamento, emocionais, psicológicos e/ou sociais.
As questões levadas por eles são discutidas por uma equipe
multidisciplinar, composta por psicólogo, assistente social, terapeuta
ocupacional e professores da comunidade.

Os atendimentos buscam quebrar estigmas e preconceitos ao não


rotular os jovens que deles participam, assim evitando também
qualquer tipo de incitação a medicalização imediata.

Esses centros possuem parcerias com as escolas, os professores


identificam os alunos que estão passando por problemas emocionais
e sugere a eles o acompanhamento pelos profissionais dos centros.

Na Holanda, os centros atendem 1% dos estudantes do ensino


fundamental e 4% dos estudantes do ensino médio, algo muito
abaixo da demanda que gira em torno de 20% de todos estudantes
com problemas (OCDE, 2015).

Os governos holandeses, no entanto, ampliaram seus gastos com a


saúde mental da população ao longo dos anos tentando suprir essas
lacunas sociais.

No final das contas, apenas a Bélgica tem índices de interação ideais


entre as escolas/universidades e os serviços de saúde mental. Cerca
de 85% das escolas possuem algum vínculo explícito.

Mesmo assim, investir na prevenção em saúde mental tornou-se uma


medida valiosa em diversos países e tem evitado com que um
elevado número de jovens possuam problemas psicológicos
crônicos.
Os jovens em estado de dificuldade mental
abandonam a escola mais cedo e com maior
frequência

Segundo a OCDE (2015), a média de abandono escolar no mundo é


de 14%. Com crianças e adolescentes considerados portadores de
transtornos mentais leves, esse índice sobe para 20%.

Alguns países tem aprimorado seus métodos de suporte para


diminuir o abandono escolar. Essas são algumas medidas tomadas
por governos internacionais:

 Organizar centros de registro locais para casos de abandono


escolar
 Criação de espaços especiais para a gestão de casos de
evasão escolar precoce
 Elevação da escolaridade obrigatória

Gráfico (3): Taxa de evasão escolar em consonância com a saúde


mental dos jovens

Fonte: OCDE (2015)


A falta de suporte para a transição entre a escola/universidade e
o mercado de trabalho

Pesquisas apontam que a taxa de desemprego é muito mais alta em


pessoas que sofrem em decorrência de transtornos mentais do que
no restante de qualquer população.

Na última década, muitos países têm percebido um aumento


acentuado no número de pedidos de aquisição de benefícios por
invalidez entre jovens de 15 a 24 anos considerados portadores de
transtorno mental.

O aumento de pedidos de aposentadoria por invalidez nessa faixa


etária tem crescido muito mais rápido do que em outras faixas de
idade.

Outra fator correlato e constatação tão grave quanto a apontada


acima diz respeito a taxa de desemprego entre os jovens, que na
realidade, tornou-se bem mais alta que outras representando outros
setores das populações mundiais.

A maioria dos países não oferece apoio para que jovens portadores
de transtornos mentais de qualquer nível possam se inserir no
mercado de trabalho, ficando esses um longo tempo sem conseguir
um emprego.

Apenas a Bélgica tem boa interação entre a escola e o serviço de


saúde mental em torno de 85% das escolas possui essa interação
com os serviços.

A transição entre escola e o mercado de trabalho, tem que começar


quando o jovem ainda frequenta a escola, oferecendo suporte
multidisciplinar para inclusão desse jovem no mercado de trabalho.
Boas práticas em saúde mental infantojuvenil

A Noruega possui os melhores índices de instrução sobre saúde


mental entre professores e alunos do mundo

Os professores possuem um papel crucial na tarefa de identificar os


estudantes com maiores dificuldades psicossociais dentro e fora do
ambiente escolar.

Quebrar os estigmas que afetam os estudantes lidando com essas


dificuldades tem impactos enormes em sua inclusão. Essa é outra
tarefa que cabe ao professorado desempenhar enquanto exemplo.

Dentro do contexto escolar, a melhora na instrução de alunos e


professores sobre saúde mental auxilia na prevenção de resultados
educacionais negativos.

Na Noruega, programas de saúde mental na escola promoveram


diversos treinamentos para estudantes, familiares e professores. O
projeto faz parte da estratégia do governo para integrar a saúde
mental com a educação e o ensino.

Ampliar a conscientização geral e o bem estar dos cidadãos


continuam sendo dois dos fins mais importantes dos programas
noruegueses, por exemplo.

Alguns dos objetivos primários dos programas:

 Fazer entender melhor o que são transtornos mentais


 Aprender a trabalhar com alunos com transtornos mentais
 Conhecer a fundo o modelo de cooperação entre escola e
serviço social

Alguns resultados:
 O programa ajudou os estudantes a expressarem melhor seus
sentimentos e a entenderem seus colegas, melhorando a
integração dentro e fora da escola
 Os estudantes que participaram do programa aumentaram
significativamente seus conhecimentos sobre transtornos
mentais
 Diminuiu-se o preconceito e o estigma
 Aumentou-se a integração entre os centros de saúde mental e
as escolas

A Dinamarca e os Centros Municipais de Orientação para Jovens

Como já foi falado, jovens que lidam com dificuldades psicológicas


lidam com um maior risco de abandonar a escola precocemente, algo
que dificulta a entrada do mesmo no mercado de trabalho.

Ações para assegurar uma transição suave dos ensinos médio e


superior para o mercado de trabalho são necessárias. Pensando
nisso, a Dinamarca criou os Centros Municipais de Orientação para
Jovens.

O programa CMOJ:

Os centros municipais foram pensados para auxiliar a transição de


jovens dos 15 aos 25 anos dos ensinos médio e superior para
mercado de trabalho, assim como também para acompanhar aqueles
estudantes que abandonam os estudos nesses períodos.

O conselho geral do CMOJ tem como responsabilidade preparar


planos de transição para aqueles que conquistaram seus diplomas,
assim como para aqueles com maiores dificuldades, que
eventualmente abandonaram o sistema educacional.

Os planos buscam envolver os alunos, suas as famílias e as


instituições, com o objetivo de construir um registro escolar de
informações e conquistas desse estudante, seus interesses,
expectativa de futuro e como gostaria de seguir sua vida.
O plano pode ser desenvolvido anos antes do aluno terminar o ensino
médio.

O conselho tem acesso aos desempenhos acadêmicos de cada um,


assim como a aspectos sociais desse estudante e de sua família.

Aos 15 anos de idade, caso seja constatada a necessidade, ele


passa a ser acompanhado mais de perto por representantes do
conselho, após diálogo com a família e possivelmente com o
estudante.

Quando alunos abandonam as escolas, por exemplo, suas famílias


recebem uma carta convite para comparecerem aos CMOJ para que
se verifique o que esta acontecendo.

O conselho entra em contato com os serviços sociais para


providenciar apoio psicólogo, caso necessário, e outros tratamentos
terapêuticos para os estudantes.

Os centros são interligados com a escola e o conselho geral. Todos


visam cuidar e inserir o jovem com maiores dificuldades no mercado
de trabalho por meio dos cursos e recursos oferecidos.

Resultados:

Existem na Dinamarca mais de 50 centros municipais e conselhos


ativos em diversas cidades do país.

O ministério da educação tem investido sempre para assegurar a


qualidade do sistema.

Nos últimos anos, a Dinamarca conseguiu colocar grande parte dos


jovens com algum transtorno mental ou dificuldade psicossocial no
mercado de trabalho.

Os jovens com transtorno mental na Dinamarca possuem a menor


taxa de risco de pobreza da União Europeia.