Você está na página 1de 10

Trabalho de Processos de Fabricação Mecânica 1 - Prof.

Victor
Alunos Ana Beatriz Luiz da Silva e César Rafael Rezende

1. USINABILIDADE

 Definição
A usinabilidade é uma grandeza tecnológica que expressa, por meio de um valor numérico
comparativo (índice ou porcentagem), um conjunto de propriedades de usinagem de um
material em relação a outro tomado como padrão. (FERRARESI, 1977). Ou seja, a
grandeza determina o quão difícil é usinar certo material.

 Descrição dos principais fatores que influenciam a usinabilidade dos materiais


Os fatores que influenciam a usinabilidade dos materiais são divididos em três partes:
- Material da peça;
- Processo mecânico e condições de usinagem;
- Critério empregado na avaliação.

Sobre o material da peça, são levados em contas tais critérios:


- Composição química;
- Micro estrutura;
- Dureza;
- Propriedades das tensões e deformações;
- Rigidez da peça;
- Operações anteriores efetuadas sobre o material e do eventual encruamento.

Já os critérios levantados dos processos mecânicos e as condições de usinagem são:


- Material da ferramenta;
- Condições de usinagem (velocidade, avanço, profundidade, geometria da ferramenta,
entre outros);
- Fluídos de corte;
- Rigidez da máquina, ferramenta e do sistema de fixação da peça;
- Tipos de trabalhos executados pela ferramenta (operação empregada, corte contínuo ou
intermitente, condições de entrada e saída da ferramenta).

 Principais ensaios para determinação da usinabilidade dos materiais


Os métodos de ensaio de usinabilidade podem ser divididos em ensaios de curta e longa
duração. Os ensaios de longa duração são utilizados quando se deseja traçar as curvas de
vida para um determinado material com uma precisão razoável, porém necessitam de um
tempo de ensaio muito longo e de um alto consumo de material. Por outro lado, os ensaios
de curta duração possuem a vantagem de necessitarem de um consumo pequeno de
material e tempo porém é menos utilizado.
O ensaio de longa duração leva em conta a propriedade de usinagem vida da ferramenta.
O índice de usinabilidade (I.U) é dado pela relação entre Vc20 (velocidade da corte para
20 minutos) do material ensaiado e aquela do material padrão.

𝑉𝑐20(𝑚𝑎𝑡𝑒𝑟𝑖𝑎𝑙 𝑒𝑛𝑠𝑎𝑖𝑎𝑑𝑜)
I.U = Vc20(padrão)

O ensaio de curta duração é baseado no desgaste das ferramentas, podendo ser realizado
em condições forçadas (método do comprimento usinado, faceamento de Bradsma, entre
outros) ou normais de usinagem (sangramento com ferramenta bedame, radioativo). Em
todos esses métodos, as ferramentas são utilizadas até a sua destruição.
Para a determinação da usinabilidade de um material é necessário o emprego de vários
critérios de ensaio. A utilização somente do critério de vida da ferramenta seria
insuficiente, porém este é o critério que mais pesa na determinação da usinabilidade. Há,
ainda, a critério de curiosidade, outros ensaios de usinabilidade que são baseados na força
da usinagem, no acabamento superficial, na produtividade e na análise dimensional.

 Fatores metalúrgicos que afetam a usinabilidade das ligas de alumínio


O alumínio, assim como as ligas de magnésio, é um material de fácil usinagem pois a
energia consumida por unidade de volume é baixa, com temperatura de usinagem baixa
e altas velocidades de corte. Porém possui a desvantagem de formação de cavaco longo
e acabamento superficial obtido insatisfatório quando seus critérios de usinabilidade são
baseados na rugosidade da peça e nas características do cavaco. Suas caraterísticas de
usinagem podem ser afetadas pela variação de fatores (elementos de liga, impurezas,
processos de fundições, etc).
Na tabela abaixo, podemos ver a relação das características das ligas de alumínio e suas
vantagens e desvantagens:
Possui módulo de elasticidade cerca de Desvantagem: pode gerar deformações
1/3 do módulo da elasticidade do aço indesejadas
(Deformação três vezes maior)

Limite de resistência equivalente ao de Vantagem: em temperaturas altas, essa


alguns aços de baixo carbono em resistência é bastante reduzida e favorece
temperatura ambiente a usinagem

Forças de corte necessárias baixas Vantagem: favorece a usinagem

Coeficiente de dilatação térmica maior Desvantagem: gera dificuldades na


que o do aço e latão obtenção de tolerâncias apertadas
Tabela 1. Relação das características com suas vantagens e desvantagens.

O material de ferramenta típico para usinagem de ligas de alumínio (com exceção das
ligas de alumínio-silício) é o metal duro classe K sem cobertura pois as temperaturas de
corte são baixas e, por isso, a formação do desgaste de cratera via processo difusivo não
é problema. As ferramentas de metal duro a base de carboneto de titânio classe P não
são adequadas a usinagem do alumínio devido a grande afinidade físico-química entre o
alumínio e o titânio.

 Fatores metalúrgicos que afetam a usinabilidade dos aços


O principal fator metalúrgico que afeta a usinabilidade do aço é a dureza. Aços de baixo
teor de carbono com baixa dureza e alta ductilidade tendem a formar aresta postiça de
corte, o que reduz a vida da ferramenta e deteriora o acabamento superficial. Um maior
teor de carbono melhora a usinabilidade devido ao aumento da dureza e diminuição da
ductilidade. Um valor médio de dureza do aço gira em torno de 200 HB. Valores abaixo
dessa dureza facilitam a formação de aresta postiça de corte e valores acima aumentam
o desgaste da ferramenta devido a abrasão (desgaste por fricção) e difusão, o que afeta
negativamente a usinabilidade do material.
Uma maneira de aumentar a dureza e diminuir a ductilidade de aços de baixo carbono é
realizar seu encruamento via trabalho a frio. Encruamento é o fenômeno de elevação da
tensão de escoamento durante a fase de deformação plástica. Na figura abaixo, é
possível observar o efeito do encruamento na vida útil da ferramenta de uma liga de aço
SAE 1016:
Figura 1. Efeito do encruamento na vida da ferramenta com liga de aço SAE 1016

Outro fator metalúrgico a ser considerado é a microestrutura do material a ser usinado. A


variação da microestrutura via mudança de fase gerada por tratamento térmico afeta a
usinabilidade do material de forma positiva. Por exemplo, os aços de médio e alto carbono
apresentam melhor usinabilidade com estrutura perlítica lamelar e esferoidita grosseira.
O terceiro fator metalúrgico que afeta a usinabilidade do aço é a presença de inclusões.
Em geral, as macroinclusões são muito duras e abrasivas, por isso torna-se necessário
utilizar um material livre desse tipo de inclusões. Estas macroinclusões estão relacionadas
com aços de baixa qualidade e muitas vezes são responsáveis pela quebra súbita da
ferramenta de usinagem. Seus efeitos são divididos em três categorias:
a) Inclusões indesejáveis: partículas duras e abrasivas, como o carboneto e óxido de
alumínio.
b) Inclusões que não causam muito dano a usinabilidade: são os óxidos de manganês
e de ferro.
c) Inclusões desejáveis em velocidades de corte altas: são os silicatos.
O quarto e último fator metalúrgico é a presença de elementos de liga, podendo ter efeitos
positivos ou negativos dependendo do material listados na tabela abaixo:

Elementos de liga com efeito positivo Elementos de liga com efeito negativo
Chumbo Vanádio
Enxofre Molibdênio
Fósforo Nióbio
Carbono de 0.3% a 0.6% Tungstênio
Tabela 2. Relação de elementos de liga e seus efeitos

Geralmente, os elementos de liga com efeito positivo estão presentes em aços de


usinabilidade melhorada, enquanto os elementos de liga com efeito negativo são
elementos formadores de carboneto (partículas duras e abrasivas).

 Fatores metalúrgicos que afetam a usinabilidade do ferro fundido


O ferro fundido é um material com alto teor de carbono (entre 2% e 4%), com nível de
fragilidade considerável tornando o processo muito delicado, com boa rigidez, resistência
à compressão e relativo baixo ponto de fusão, possibilitando o uso do processo de
fundição. Ele gera cavaco pequeno e de aparência quebradiça, correndo o riso de
contaminar o óleo solúvel da máquina. Alguns tipos comuns de ferro fundido são:
- Ferro fundido cinzento: alto silício, muito carbono livre e quase nenhuma cementita.
Forma cavacos de ruptura;
- Ferro fundido branco: baixo teor de silício, grande formação de cementita e pouca grafite
na liga;
- Ferro fundido nodular: grafite em forma de nódulos e maior resistência mecânica,
tenacidade e ductilidade. Forma cavacos longos;
- Ferro fundido maleável: ferro fundido branco tratado termicamente com a
transformação de cementita em carbonetos esféricos. Forma cavacos longos.
É importante ressaltar que quanto maior a dureza e a resistência de um tipo de ferro
fundido, pior é sua usinabilidade. Alguns valores são explicitados na tabela abaixo:

Propriedade Ferro cinzento Ferro nodular


Resistência à tração (Mpa) 250 750
Módulo de elasticidade 105 160
(GPa)
Condutividade térmica 47 28
(M/m2K)
Tabela 3. Propriedades médias dos ferros fundidos

2. MATERIAIS PARA FERRAMENTAS DE CORTE

 Critérios para seleção do material da ferramenta de corte


A seleção de um material para ser utilizado como ferramenta de corte depende dos
seguintes fatores:
- Material a ser usinado (dureza e tipo de cavaco);
- Natureza da operação de usinagem;
- Condição da máquina operatriz (máquinas mais antigas exigem materiais de ferramentas
mais tenazes e que não requeiram alta velocidade de corte);
- Forma e dimensões da ferramenta;
- Custo do material da ferramenta (maior vida da ferramenta/maior produção com
custo/benefício razoável);
- Emprego de refrigeração e lubrificação;
- Experiência prévia.
O tipo de material para ferramenta exige um conjunto de requisitos que são vistos como
de maior ou menor importância dependendo da situação. São eles:
a) Dureza a quente: há a necessidade de materiais que possam atingir temperaturas
maiores que 1000ºC com dureza suficiente para as tensões de corte;
b) Resistência ao desgaste: resistência ao atrito, que está diretamente relacionada à
dureza a quente;
c) Tenacidade: a capacidade de resistir aos choque inerentes do processo.
d) Estabilidade química: evita o desgaste por difusão.
Os grupos mais importantes de materiais para ferramentas são atualmente os aços rápidos
e o metal duro. O primeiro grupo se destaca pois é o material de ferramenta que suporta
altas velocidades corte, elevada resistência ao desgaste, elevada dureza a frio e a altas
temperaturas, podendo ser forjado, laminado e usinado. Já o metal duro se aplica na
maioria das operações de usinagem de praticamente todas as ligas metálicas conhecidas
porque possui alta dureza e resistência à compressão.
 Aços rápidos (com e sem cobertura)
O aço rápido é composto por uma alta liga de tungstênio, molibdênio, cromo, vanádio,
cobalto e nióbio. Como explicado anteriormente, suporta altas velocidades de corte,
elevada resistência ao desgaste, etc. Sua estrutura básica confere ao material a dureza a
quente. O tipo e o número de carbonetos duros que se formam conferem a característica
de resistência à abrasão. Os elementos de liga e seus respectivos graus de dissolubilidade
conferem a tenacidade do material. Alguns tipos convencionais de aços rápidos estão na
imagem abaixo:
Figura 2. Composição e características dos aços rápidos.

O desenvolvimento dos aços rápidos com cobertura surgiram com intuito de melhoria das
condições de usinagem de materiais mais resistentes nos quais a utilização de metal duro
ou material cerâmico é restrito devido à forma e dimensão dessas ferramentas. A
cobertura é feita de nitreto de titânio e carbonitreto de titânio. Esta cobertura possui as
características de alta dureza, elevada ductilidade, redução sensível do caldeamento a frio,
baixo coeficiente de atrito, é quimicamente inerte, possui espessura de 1 a 4 ìm e ótima
aparência.

 Metal duro (com e sem cobertura)


O metal duro é um produto da metalurgia do pó feito de partículas duras finamente
divididas de carbonetos de metais refratários, sinterizados com um ou mais metais do
grupo do ferro formando um corpo de alta dureza e resistência à compressão (DINIZ;
MARCONDES; COPPINI, 2008, p.83). Através do metal duro, foi possível aumentar a
carga na ferramenta e as taxas de remoção do material.
A seleção do metal duro para determinada aplicação de usinagem está relacionada com o
tipo de material e com o tipo de cavaco que se forma durante a usinagem. Os cavacos
podem ser contínuos, de cisalhamento ou de ruptura.
A classificação ISO (International Organization for Standardization) tem o agrupamento
de classes do metal duro em três grupos:
a) Grupo P: tipos/classes empregados na usinagem de metais e ligas ferrosos que
possuem cavacos longos e dúteis;
b) Grupo M: tipos/classes empregados na usinagem de metais e ligas ferrosos de
cavacos tanto longos como curtos;
c) Grupo K: tipos/classes empregados na usinagem de metais e ligas ferrosos que
possuem cavacos curtos e materiais não-metálicos.
O metal duro com cobertura surgiu com a intenção de aumentar a resistência ao desgaste
da camada superior que entra em contato com o cavaco e a peça, sendo que o núcleo da
pastilha permanece com tenacidade do metal duro mais simples. Essa cobertura é feita de
carboneto de titânio e/ou óxido de alumínio, nitreto de titânio e carbonitreto de titânio.
Existem pastilhas com até três camadas de cobertura. Quando se aumenta a espessura da
camada de cobertura, a resistência ao desgaste aumenta mas a tenacidade diminui e
começa a aumentar a tendência ao lascamento das arestas.

 Material cerâmico
O material cerâmico possui algumas propriedades muito interessantes para uma
ferramenta de usinagem, como por exemplo dureza quente, que é importante na usinagem
em altas temperaturas e velocidades. Em contrapartida, algumas propriedades dificultam
a usinagem, como por exemplo a baixa condutividade térmica e, principalmente, a baixa
tenacidade. As ferramentas cerâmicas podem ser classificadas em: à base de óxido de
alumínio, à base de nitreto de silício, cerâmica pura, cerâmica mista, sialons e cerâmicas
reforçadas com whiskers. Há uma comparação das características entre os materiais
cerâmicos e o metal duro na tabela abaixo:

Tenacidade Dureza a Resistência Estabilidade Estabilidade


quente ao choque química química
térmico (Fe) (Ni)
Cerâmica 2 2 1 5 5
Pura
Cerâmica 1 3 2 4 4
Mista
Cerâmica 4 3 3 2 3
com
whiskers
Sialons 3 5 4 1 2
Metal duro 5 1 5 3 1
Tabela 4. Propriedades relativas dos materiais cerâmicos comparados com o metal duro
(Sandvik, 1990).

Pode-se observar que cada tipo é relativo a seu uso e a prioridade das características
envolvidas na usinagem.
 Diamante
O diamante é um material para ferramenta pouco utilizado devido ao seu alto preço
embora seja o material de maior dureza encontrado na natureza (monocristalino). Ele é
utilizado apenas quando se deseja alta precisão de medidas e acabamento brilhante
(usinagem de espelhos e lentes). Devido a seu custo foi desenvolvido um diamante
sintético policristalino (PCD). Ele possui propriedades vantajosas a usinagem,
destacando-se a alta condutividade térmica, altíssima dureza e resistência ao desgaste por
abrasão. Pode ser usado na usinagem de metais leves, cobre, latão, bronze e estanho. Sua
utilização mais larga na indústria é feita na usinagem de ligas de alumínio e silício quando
se necessita tolerâncias apertadas e ótimo acabamento superficial da peça, com seu tempo
de vida de até 80 vezes maior que os das ferramentas de metal duro.
Referências Bibliográficas
<http://www.usinagem-brasil.com.br/12141-usinagem-de-ferro-fundido-exige-cuidado-
redobrado/pa-1/> . Acesso em: 13/05/2018.
<http://www.infomet.com.br/site/acos-e-ligas-conteudo-ler.php?codConteudo=48>.
Acesso em: 13/05/2018.
<https://www.cimm.com.br/portal/verbetes/exibir/519-encruamento>. Acesso em:
13/05/2018.
<http://www.usinagem-brasil.com.br/10593-progressos-no-desenvolvimento-das-
ferramentas-de-metal-duro/>. Acesso em: 13/05/2018.
Sandvik Coromant; Properties, manufacture and utilization of ceramics, publicação
interna, 1990.
DINIZ, A.; MARCONDES, F.; COPPINI, N. Tecnologia da usinagem dos materiais.
São Paulo: Artliber, 2008.
FERRARESI, D. Fundamentos da usinagem dos metais. São Paulo: Edgard Blucher,
1970.