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INSTITUTO EDUCACIONAL DE ENSINO SABER - IEDES

PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM SAÚDE INDÍGENA

MARCIA ALVES DO CARMO

DESAFIOS DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À SAÚDE


INDÍGENA

COLINAS DO TOCANTINS - TOCANTINS


2018
MARCIA ALVES DO CARMO
NAYARA ALVES DO CARMO

DESAFIOS DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À SAÚDE


INDÍGENA

Artigo apresentado, ao Instituto Educacional de


Ensino Saber - IEDES, como requisito parcial para
conclusão do curso de pós graduação em
Especialização.

Orientador(a): Professor(a)

COLINAS DO TOCANTINS - TOCANTINS


2018
MARCIA ALVES DO CARMO
NAYARA ALVES DO CARMO

DESAFIOS DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À SAÚDE


INDÍGENA

Artigo apresentado à Banca Examinadora do Instituto Educacional de Ensino Saber - IEDES, como
requisito parcial para obtenção do titulo de Especialista em Saúde Indígena. Orientador(a):
Professor(a)

Aprovada em ____/_____/_____

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________
Professor(a)
Orientador(a)

_________________________________________________ 2º Membro da
Banca Examinadora

_________________________________________________ 3º Membro da
Banca Examinadora
Márcia Alves do Carmo1
Nayara Alves do Carmo2

RESUMO

Este artigo envolve uma reflexão sobre o desenvolvimento de uma política pública
voltada às questões de saúde indígena, relacionando este contexto sociopolítico
com os desafios ainda existentes em relação ao trabalho de assistência do
enfermeiro em situações de atendimento a pessoas indígenas. Tem-se, assim, o
tema dos desafios da assistência de enfermagem à saúde indígena como assunto
central deste trabalho, como cerne de toda a discussão que aqui se desenvolve.
Tendo como fundamentação teórica estudos que se realizaram em pesquisas em
torno da problemática da saúde indígena no Brasil e o trabalho do profissional
enfermeiro, este artigo tem como objetivo promover uma reflexão sobre os aspectos
da assistência de enfermagem à saúde indígena e os desafios ainda presentes
nesse contexto.

Palavras-chave: Saúde indígena. Assistência de enfermagem. Desafios.

ABSTRACT

This article involves a reflection on the development of a public policy focused on


indigenous health issues, relating this sociopolitical context to the still existing
challenges regarding nurses' care work in situations of care for indigenous people.
Thus, the theme of the nursing care challenges to indigenous health is the central
theme of this work, as the core of all the discussion that develops here. Having as
theoretical foundation studies that have been carried out in researches about the
problem of indigenous health in Brazil and the work of the professional nurse, this
article aims to promote a reflection on the aspects of nursing care to indigenous
health and the challenges still present in this context.

Keywords: Indigenous health. Nursing care. Challenges.

1
Graduada em Enfermagem pela Faculdade de Colinas do Tocantins (UNIESP). Pós-graduando(a) em Saúde
Indígena pelo Instituto Educacional de Ensino Saber - IEDES
2
Graduada em Enfermagem pela Faculdade de Colinas do Tocantins (UNIESP). Pós-graduando(a) em Saúde
Indígena pelo Instituto Educacional de Ensino Saber - IEDES
1 INTRODUÇÃO

Muito trabalhados e divulgados nos últimos tempos são os direitos dos


povos indígenas. Considera-se, atualmente, que esses povos se caracterizam como
sendo remanescentes de culturas milenares que foram sendo hostilizadas de
diferentes formas ao longo do período da colonização, e também nos dias de hoje.
Assim, tornam-se alvo de olhares cuidadosos, no sentido de promover uma busca
pela compensação da perda ocorrida em relação aos bens culturais e materiais dos
índios, assim como a manutenção do bem-estar e da cultura desses povos.
No que se refere ao desenvolvimento de um trabalho voltado para a saúde
indígena, percebe-se um forte desenvolvimento nas últimas décadas, marcando um
processo de estruturação do que seja uma política social, desdobrada em políticas
públicas voltadas aos interesses da muito diversificada população brasileira. Nesse
sentido, houve muitos progressos, já que se formularam leis que amparam a
proteção da integridade da pessoa indígena, em sua forma de pensar e perceber o
mundo a sua volta.
Considerando todo este debate em torno da saúde indígena, este trabalho
volta o olhar para os desafios da assistência de enfermagem à saúde indígena,
levando em conta que ainda existem muitas barreiras a serem transpostas,
especialmente as que impedem o reconhecimento e valorização do diferente que
marca a cultura indígena.
Trata-se de buscar, aqui, uma reflexão sobre as marcas de uma realidade na
qual persistem pensamentos, no meio universitário de formação de profissionais da
enfermagem, não condizentes com as vivências dos povos indígenas, o que permite
procedimentos nem sempre adequados ao que se espera. Mesmo considerando a
disciplina que trata do trabalho do enfermeiro em relação com indígenas, ainda
persistem muitas dificuldades, as quais necessitam de reflexão e encaminhamentos.
Dessa forma, este trabalho tem como objetivo promover ponderações em
torno da realidade indígena no Brasil, relacionando essa realidade com o que há em
termos legais e de políticas públicas para esses povos no tocante às questões de
saúde. As reflexões a serem desenvolvidas neste trabalho devem levar em conta
este contexto aqui mencionado e sua relação com os desafios da assistência de
enfermagem à saúde indígena.
Assim, este trabalho se justifica pela importância do tema em questão, tendo
em vista os desafios ainda presentes e a forte presença de profissionais da
enfermagem na assistência à saúde indígena, necessitando de encaminhamentos e
fortes esclarecimentos em relação à postura e aos procedimentos adequados.

2 CONTEXTOS E DESAFIOS: A SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL

Já é bastante divulgado o conhecimento sobre os direitos dos cidadãos


brasileiros, principalmente no que diz respeito ao acesso aos serviços básicos, como
a saúde, segurança e a educação. Desde a promulgação da Constituição Federal de
1988 (BRASIL, 1988), esses serviços são concebidos como dever do Estado e
direito de todos, devendo, pois, ser acessíveis a qualquer pessoa no território
nacional.
A esse respeito, Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 53)
afirmam:

A Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL, 2000) determina que “a


saúde é um direito de todos e um dever do Estado”. Pode-se, então,
inferir que a saúde deve ser levada, independentemente de cultura,
credo ou cor, a toda a população brasileira.

Como fica ressaltado pelos pesquisadores, a saúde se configura como um


direito de todos e um dever do Estado, uma realidade com base legal e que,
portanto, deve ser estendida a todo e qualquer cidadão. A Lei, ao colocar esse fato,
não menciona quaisquer restrições, pelo contrário, constrói a ideia de igualdade e de
direito, desenvolvendo uma concepção igualitária em relação ao acesso e às
demandas para a realização de qualquer serviço na área da saúde.
Assim sendo, infere-se que esses serviços devem ser oferecidos a
qualquer povo dentro do território nacional, sejam citadinos, moradores da zona
rural, quilombolas, comunidades/colônias, povos indígenas, indiscriminadamente,
quaisquer cidadãos em plenos direitos. É importante reforçar esse fato, uma vez que
pode haver equívocos em relação aos povos indígenas, tendo em vista que existem
políticas públicas, no Brasil, direcionadas a esses povos, o que, muitas vezes, gera
a impressão de que devem ser atendidos por uma legislação particular, específica
aos povos indígenas.
Existe uma realidade no Brasil na qual há pouco acesso à saúde,
independentemente da localização ou da origem dos cidadãos. Trata-se de uma
situação de parcas aplicações em reais investimentos nas políticas sociais, no caso,
na área da saúde, o que vem gerando uma realidade de agruras. No que toca aos
povos indígenas, a realidade é um tanto mais difícil, levando em conta questões de
acesso, cultura, religiosidade e mesmo preconceitos por parte de alguns
profissionais.
Assim, sendo, é importante, neste trabalho, focar em algumas questões de
base legal, apontando e reforçando uma legislação existente para o amparo dos
povos indígenas.
A partir da I Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio, como
primeiro passo em direção ao reconhecimento da dignidade e do respeito aos povos
indígenas, uma variedade de ações foram sendo realizadas no sentido de oferecer
um sistema de saúde adequado a esses povos.
Silva e Gonçalves (2003, p. 388) afirma que:

A Política Nacional da Atenção à Saúde dos Povos Indígenas integra a


Política Nacional de Saúde, prevista na Lei Orgânica de Saúde e na
Constituição Federal do Brasil por reconhecer as diferenças étnicas e os
direitos culturais indígenas(1), formalizando, assim, um avanço nas
diretrizes norteadoras das políticas públicas de saúde voltadas a essa
clientela.

Todo esse processo político que vem sendo implementado ao longo dos
últimos anos recai na formação do enfermeiro, congregando o currículo desse
profissional da saúde. Reconhece-se, atualmente, que o enfermeiro deve conhecer a
realidade dos índios enquanto pessoas com características próprias, cultura e etnia
específicas, que demandam uma postura diferenciada diante da atuação em
questões de saúde. Ainda se faz necessário o conhecimento sobre a legislação que
regulamenta essa atuação, tendo em vista as políticas públicas e os direitos dos
índios em relação ao atendimento apropriado em relação aos procedimentos
despendidos pelos profissionais da saúde.
Com relação à formação do profissional enfermeiro, com vistas ao
conhecimento sobre os povos indígenas e seus direitos em relação às questões de
saúde, Silva e Gonçalves (2003, p. 389) observam que:

A atuação junto às populações indígenas constitui-se em um processo que


vem sendo construído a partir da inserção da disciplina Saúde Indígena,
inicialmente como disciplina optativa e posteriormente obrigatória para o
currículo pleno do Curso de Enfermagem/UFAM, por entender-se que na
região norte, onde os povos indígenas estão majoritariamente, a realidade
da diversidade da constituição étnica e cultural da população nativa canaliza
a atenção à saúde a este grupo como prioritária e oportuniza a formação
transcultural dos profissionais de saúde, no caso em pauta, do enfermeiro.

Considerando a diversidade nacional e o imperativo de atendimento a


todos os cidadãos, independentemente de sua origem ou localização, organizou-se,
no Brasil, um sistema para o atendimento dos povos indígenas, compreendidos
como nação. Conforme Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 53):

No Brasil, há o Sistema Único de Saúde (SUS), e mediante ele, vem-se


buscando dar uma cobertura de saúde, de forma igualitária, a toda à
nação, e se não bastasse isso, engloba uma “sub-nação”, a indígena,
considerada como tal por apresentar cultura e língua próprias (BRASIL,
2007). Decorreu desse fato a criação de um subsistema de atenção à
saúde indígena, intitulado Política Nacional de Assistência à Saúde dos
Povos Indígenas (PNASPI).

Há, como se sabe, uma estruturação da saúde pública que congrega as


questões indígenas no atendimento e no desenvolvimento de ações da saúde junto
a esses povos. Assim sendo, o SUS (Sistema Único de Saúde) se desdobra em
subsistemas, no caso no Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (BRASIL, 2002).
Lunellia e Vargasa (2017, p. 1), comentam o seguinte sobre esse
desdobramento do SUS em relação aos povos indígenas no Brasil:

O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena é um componente do Sistema


Único de Saúde (SUS), devendo assim haver perfeita integração para o
funcionamento. O financiamento do SASI é de responsabilidade da União e
o SUS é encarregado por realizar a articulação do Subsistema com os
órgãos responsáveis pela política indígena do país, podendo ainda os
estados, municípios e outras instituições, tanto governamentais como não
governamentais, participar de forma complementar no custeio e na
execução das ações.

Como se observa, há toda uma organização para a estruturação das


questões de saúde no Brasil, direcionando políticas públicas aos diversos povos que
habitam a nação, levando em conta as diversidades culturais e as etnias
prevalecentes no país, especialmente os povos indígenas, primeiros habitantes
desta terra (FERNANDES et al, 2016). Compreende-se uma Política Nacional de
Atenção aos Povos Indígenas (PNASPI), a qual foi implementada em 2002, tendo
como base a Lei Orgânica de Saúde. A esse respeito Lunellia e Vargasa (2017, p. 1)
comentam:

A Política Nacional de Atenção aos Povos Indígenas (PNASPI) foi


implementada em 2002 com base na Lei Orgânica de Saúde, reconhecendo
as especificidades étnicas e culturais e os direitos territoriais dos povos
indígenas nos campos das ações voltadas para a proteção, promoção e
recuperação da saúde. Para tanto, é imprescindível ressaltar que a adoção
dos princípios e diretrizes que caracterizam o SUS como a universalidade,
equidade, participação comunitária e o controle social são vitais para a
realização de estudos, de quaisquer naturezas com populações indígenas.

Assim, construíram-se, por meio de ações sociais, políticas para a oferta


dos serviços de saúde aos povos indígenas, caracterizados em suas
especificidades, levando em conta todas as marcas que influenciam nas concepções
sobre saúde, doenças, tratamentos, concepções estas oriundas de suas crenças e
culturas. A necessidade de um sistema de saúde voltado a esses povos se faz
importante instrumento para o bom encaminhamento de profissionais, os quais
devem receber formação voltada para o trabalho com povos indígenas (SILVA,
2013).
É importante salientar que a existência desse sistema de saúde, chamado
de Política Nacional de Assistência à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI),
como um subsistema do Sistema Único de Saúde (SUS), é uma marca desses
tempos em que a sociedade brasileira age de forma a buscar atender a
diversidade, por meio de políticas sociais organizadas para a compreensão de
que deve haver respeito às especificidades de cada povo e cultura.
É fundamental, ainda, notar que se trata de uma política pública, de
uma estruturação com base em leis que garantem o direito ao acesso adequado
aos serviços de saúde. Tendo isto em vista, compreende-se que o atendimento
aos povos indígenas, por meio de um sistema específico voltado para a sua
realidade, é uma questão extremamente importante e obrigatória, alicerçada na
legislação.
Trata-se de uma realidade no centro das questões de saúde, que não
devem se desenrolar sem que haja um certo teor de humanidade, ou seja, sem
que se considere os sujeitos envolvidos.
Tomando-se o trabalho de enfermagem como base para estas discussões,
compreende-se de fundamental importância o conhecimento sobre as leis que
amparam os direitos dos povos indígenas. Esse conhecimento, relacionado aos
serviços de oferta de saúde pública, se faz necessário para que, a princípio, não
haja injustiças por parte dos profissionais enfermeiros, no sentido de que não
negligenciem as especificidades dos indígenas e suas carências em relação a esses
serviços. Em um segundo ponto, é importante conhecer essa realidade porque ela
encaminha a uma formação específica por parte dos profissionais da saúde,
buscando capacitações que permitam um trabalho eficiente com os povos indígenas.
A esse respeito Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 57) afiram que:

O índio, na sua singularidade étnico- cultural, requer cuidados


específicos e qualificados. Smeltzer e Bare (2005) afirmam que o
cuidado de enfermagem deve ser culturalmente competente, apropriado
e sensível às diferenças culturais.

Observe-se que os pesquisadores citados anteriormente reforçam a


importância de um trabalho específico com os indígenas. Quando apontam que há
uma singularidade étnico-cultural, ressaltam uma tradição formada ao longo dos
séculos, a qual acompanha cada povo indígena específico, ou seja, cada nação
carrega culturas e costumes marcantes, sendo, pois, necessária uma formação que
qualifique os profissionais da saúde a conhecer o público alvo dos serviços a serem
prestados.
Compreender esse fato leva a conceber a complexidade do trabalho do
profissional enfermeiro, uma vez que deverá desdobrar-se em busca do saber sobre
aqueles aos quais se dirige. Trata-se, assim, de um trabalho amplo, de estudo e de
capacitações, tanto para haver uma maior abertura e respeito ao outro, ao diferente,
quanto para que se possa agir da forma adequada em relação a esses povos.
Ainda segundo Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 57):

[...] a formação acadêmica deve promover uma verdadeira articulação


entre a educação e os serviços de saúde, valorizando as relações
existentes no cotidiano do trabalho. Porém, na realidade não é o que se
vê, principalmente em respeito às populações indígenas.

Nesta citação, os pesquisadores apontam uma realidade problemática na


formação dos profissionais enfermeiros, no tocante a um estudo mais amplo e
aprofundado referente ao cotidiano de trabalho, no qual se interage com diferentes
realidades, diversificadas culturas e crenças. Essa relação entre educação (isto é,
formação universitária dos futuros profissionais da enfermagem) e o cotidiano de
trabalho, voltada a uma interação com o diferente/o outro, deveria ser enfatizada e
trabalhada com maior profundidade. O enfermeiro é um profissional da saúde que
lida diretamente com a diversidade, seja em qual for a realidade de trabalho, o que o
induz a uma postura de respeito e de abertura à aceitação do outro, considerando-o
em sua diversidade.
No que se refere à interação com povos indígenas, essa formação para a
interação com o diferente se torna ainda mais enfática. Ainda há, segundo o que
apontam os pesquisadores, uma vasta carência de conhecimento, principalmente
para a compreensão e consideração dos saberes desses povos, que podem, sim,
contribuir com o trabalho dos profissionais da saúde.
A respeito do que se afirma anteriormente, sobre os saberes indígenas e
suas contribuições, Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 57) apontam o
seguinte:

Leininger (1991), em sua teoria da enfermagem transcultural, discorre


que as pessoas de cada cultura não apenas podem saber e definir as
formas nas quais experimentam e percebem seu mundo de atendimento
de enfermagem, mas também, podem relacionar essas experiências e
percepções com suas crenças e práticas gerais de saúde. A autora
retirou da Antropologia o componente cultural, e da Enfermagem o
componente cuidado.

Observe-se que os pesquisadores consideram a existência de uma relação


entre a cultura e a compreensão sobre a enfermagem. Isto significa que as crenças
construídas ao longo dos séculos no interior das culturas permitem olhar de uma
determinada forma para os procedimentos de cura, tratamento, cuidados com a
saúde, vendo-os por um viés mais objetivo ou mesmo sob uma perspectiva
espiritualizada.
No caso dos povos indígenas, há uma tendência de se mistificar tanto os
estados de enfermidade quanto alguns procedimentos de tratamento, sejam eles
parte de um procedimento profissional, ou uma atitude mais rudimentar nos moldes
da cultura indígena.
Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 57), citando George,
observam: “Segundo George (2000), o cuidado cultural é o meio complexo mais
amplo para conhecer, explicar, interpretar e prever o fenômeno do cuidar
visando a orientar a prática de cuidados de enfermagem”. Como é colocado
neste fragmento, o profissional de enfermagem deve estar sensível aos
aspectos culturais do povo indígena ao qual irá se dirigir, tendo em vista suas
compreensões sobre saúde, tratamento, doença e cuidados, considerando a
cultura e as crenças desse povo. Isto se faz necessário porque, em dependência
da forma como são abordados e conduzidos, os sujeitos podem ser mais ou
menos resistentes, aceitando ou não determinados procedimentos.
Os mesmos pesquisadores ainda lembram que o conhecimento sobre o
outro (no caso, pessoas indígenas) se faz não apenas em âmbito universitário
ou por meio de qualquer formação/preparação. Ainda deve ser levado em conta
a importância do contato direto com as pessoas indígenas no ato de uma
consulta, um diálogo que permite visualizar alguns aspectos culturais
relacionados ao estado de enfermidade. Afirmam que:

A consulta de enfermagem é considerada uma atividade importante no


intercâmbio de conhecimentos e na interação tu/eu, uma vez que
apresenta um componente educativo no momento de sua realização
(ALENCAR 2006).
Assim sendo, faz-se imprescindível que o profissional de enfermagem
busque agir desprovido de preconceitos, tendo o olhar sensível para o outro em
suas especificidades, considerando a importância da visão de mundo daquele
que atende. Apenas com essa capacidade de ver com sensibilidade é que o
enfermeiro poderá agir de forma a conhecer melhor e buscar agir da maneira
mais adequada possível, no sentido de alcançar os objetivos de tratamento.
Nesse sentido, entende-se que um ponto crucial na interação entre o
profissional de enfermagem e o sujeito indígena é a comunicação, entendida
como o ato de estar sensível aos aspectos que marcam as percepções oriundas
de uma cultura e das crenças construídas ao longo dos séculos. A esse respeito
Marinelli, Nascimento, Costa e Araújo (2012, p. 60) afirmam que:

A comunicação é primordial para uma assistência direcionada às


necessidades do paciente e quando esta é prejudicada pode gerar uma
inadequação de assistência, como foi revelada pelos depoimentos a
seguir.

Sabendo disso, torna-se de essencial importância a postura sempre


aberta ao diferente, compreendendo a maleabilidade de certas atitudes, a
capacidade de interação com outros procedimentos de origem na cultura do
indígena, para que haja uma busca pelo tratamento mais eficaz possível, sem o
desrespeito à forma de vida da pessoa indígena.
É marcadamente perceptível a diversidade linguística entre índios e não
índios no Brasil. Esse fato, a princípio, pode gerar variadas inseguranças por parte
de alguns profissionais da enfermagem, vista que parece ser um obstáculo maior
diante das adversidades a serem enfrentadas em relação aos indígenas.
Fernandes et al. (2010, p. 1952), a respeito da diversidade de línguas
faladas pelos índios no Brasil, apontam que:

Essa imensa diversidade étnica e linguística coloca o Brasil entre as


maiores do mundo, com aproximadamente 60 grupos indígenas isolados
dos quais ainda não existe informações; 180 línguas faladas por esses
grupos, as quais compõem mais de 30 linguísticas diferentes.
Como se vê, trata-se de um real obstáculo, tendo em vista que existem uma
variedade imensa de línguas faladas no território do Brasil pelos diversos povos
indígenas que aqui habitam. Esse fato, no interior dos estudos sobre o atendimento
de saúde a pessoas indígenas, é ressaltado como uma das barreiras que os
profissionais da enfermagem precisam buscar solucionar, por meio de uma atitude
aberta e sensível ao diferente, aos aspectos que marcam a cultura de índios, com
língua, cultura e etnia diversas.
O fato de que se trata de uma cultura e de uma etnia diferentes do que
predomina na sociedade brasileira, além de todo um percurso histórico marcado por
agruras e sérios obstáculos em relação ao respeito e à aceitação, marcam os povos
indígenas como sendo remanescentes de todo um processo de luta.
Fernandes et al. (2010, p. 1952) comentam:

Trata-se de uma sociedade que percorreu uma longa jornada de luta pelo
reconhecimento dos seus direitos, pelo respeito as suas peculiaridades e
diversidade cultural e a busca constante de usufruir um sistema de saúde
que respeitasse as suas diversidades.

Sendo assim, houve todo um processo recente para a estruturação


anteriormente mencionada, resultado do reconhecimento de que é necessário
oferecer um trabalho adequado e respeitoso aos povos indígenas, que já passaram
por numerosas situações de desrespeito ao longo da História.
Porém, é relativamente recente a organização para uma estrutura das
questões de saúde oferecidas aos indígenas. Fernandes et al. (2010, p. 1952)
lembram que:

A I Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio (I CNPSI)


aconteceu em 1986 com a presença de lideranças de várias comunidades
indígenas, órgãos públicos e organizações da sociedade civil para discutir
uma proposta de Diretrizes relativas à Saúde do Índio. O objetivo da
Conferência era avaliar a situação de saúde e criar uma política efetiva para
os povos indígenas. 14 Naquele momento, o gerenciamento das ações e
serviços de saúde direcionados às nações indígenas tornou-se
responsabilidade do Ministério da Saúde, integrado aos demais níveis de
atenção do SUS. O evento foi uma expressão inicial do princípio de atenção
diferenciada pela situação multicultural de ações e serviços de saúde.
Sem dúvida que umas das grandes barreiras entre os profissionais de
enfermagem e pessoas indígenas se refere à língua, uma vez que muitas
comunidades/nações indígenas no Brasil utilizam idiomas próprios, muito
distantes do universo linguístico da língua portuguesa. Tendo isto em vista, um
dos primeiros passos de qualquer profissional da saúde em relação a um
trabalho com povos indígenas é a disponibilidade de aprender a língua dos
interactantes, uma vez que isto poderá evitar diversos equívocos.
Discutindo sobre a barreira linguística, Marinelli, Nascimento, Costa e
Araújo (2012, p. 60) observam que:

Sem entender a língua, os equívocos são frequentes, tem-se trabalhado


essa diferença e essa dificuldade ao longo da história (GRUPIONI et al.,
2001). E, parafraseando George (2000), pode-se ressaltar que
diferenças notáveis entre os significados e as expressões dos
prestadores e dos receptores de cuidado levam à insatisfação de
ambos. Alencar (2006) frisa que o diálogo é um caminho fundamental
para que ocorra a construção e a troca dos saberes.

Sem qualquer dúvida, esta se configura como uma das maiores barreiras no
que se refere a uma interação satisfatória entre profissional enfermeiro e o sujeito
indígena. Como colocado na citação anterior, muitos equívocos ocorrem por falhas
de comunicação, o que gera, frequentemente, desentendimentos e dificuldades na
aceitação do outro, dos procedimentos a serem impostos, das ações a serem
tomadas em relação a quaisquer tratamentos.
No entanto, é importante frisar que a diferença linguística não se trata de um
obstáculo intransponível, mesmo considerando a grande diferença entre as línguas
indígenas e o idioma português. Muitos são os profissionais que interagem
satisfatoriamente, compreendendo o outro por meio de outros signos, como gestos e
feições faciais, em um jogo de interação e comunicação que exige um maior
desdobramento em busca dos objetivos propostos (Marinelli, Nascimento, Costa e
Araújo, 2012).
Dessa forma, a atuação de um profissional da enfermagem se caracteriza
como um fazer amplo, não restrito apenas a procedimentos diante de situações de
cuidados com a saúde. Isto significa que não basta ao enfermeiro conhecer sobre
doenças, procedimentos de tratamento, condutas referentes ao desenvolvimento de
um processo ante a questões de saúde, é necessário que ultrapasse a mera
problemática do fazer intrínseco ao ser enfermeiro.
Obviamente, o conhecimento próprio da profissão de enfermagem, ou seja,
o saber voltado às questões da saúde humana e aos procedimentos possíveis e
inerentes ao enfermeiro, é a base para o desenvolvimento de uma carreira no
exercício da enfermagem. No entanto, esse trabalho envolve, também, o saber
sobre o outro, sobre a interação, a ética, o respeito, a conduta acertada em meio a
crenças, culturas, formas de vida que marcam a sociedade em geral.
No que diz respeito ao trabalho com pessoas indígenas, é fundamental
conhecer sobre a cultura e as formas adequadas de interação, de modo que haja um
procedimento pautado pelo respeito e a eficiência. Considerando esta necessidade,
salienta-se que, os indígenas nem sempre se permitem a dados procedimentos, a
certas interações. Há toda uma formação cultural desenvolvida ao longo da História,
o que, de certa forma, mantém barreiras entre um e outro povo, no afã de preservar
o que resta da cultura ancestral dos índios. Sobre este assunto, Geertz (2001, p. 70-
72) afirma que:

No passado quando as chamadas culturas primitivas envolviam-se apenas


muito marginalmente umas com as outras referindo-se como ‘as
verdadeiras’, ‘as boas’ ou simplesmente ‘os Homens’, e desprezando as
que se situavam do outro lado do rio ou da serra como ‘macaco’ ou ‘ovos de
piolho’ isto é não humanas ou não plenamente humanas , a integridade
cultural era prontamente mantida. (...) A profunda indiferença para com as
outras culturas era uma garantia de que elas podiam existir a sua própria
maneira e segundo os seus próprios termos. (...) Agora, quando é claro que
essa situação já não prevalece quando todos cada vez mais apertados num
pequeno planeta, estão profundamente interessados em todos os demais e
nos assuntos que lhes dizem respeito assuma a possibilidade de perda
dessa integridade em função da perda dessa indiferença. Talvez
‘etnocentrismo nunca desaparecerá por completo sendo da essência
mesmo da nossa espécie’, mas pode tornar-se perigosamente fraco
deixando-nos a mercê de uma espécie de uma entropia moral. (...) Sem
dúvidas nos iludimos com um sonho ao supor que um dia a igualdade e a
fraternidade reinarão entre os homens sem comprometer nossa diversidade.

Como se percebe, houve todo um processo histórico de desenvolvimento da


cultura, perpassada, também, pelos muitos conflitos que promoveram as
hostilidades, guerras, subjetivação do indígena e muitas outras agruras, gerando um
contexto de opressão sobre o ser indígena no Brasil. Todo esse desdobramento
histórico culminou na realidade presente, com muitos índios distribuídos em
pequenas reservas, sob o (des)mando de uma legislação oriunda da cultura não
indígena.

Ainda é importe mencionar um outro desafio proveniente da cultura


indígena, relacionado à mulher. Ao longo da história a mulher indígena
sofreu das mais diversas injúrias, violências, submissão por medo e
racismo. Em tempos de voltar os olhares para um grupo que historicamente
pode ser considerado como sobrevivente e com demandas tão específicas
quanto os indígenas, principalmente as mulheres indígenas, a assistência
de saúde requer a adoção de determinadas condutas para que esse
atendimento seja considerado individualizado, humanizado e integral.

O fato de que os indígenas sofreram graves violências ao longo da história


rende, nos dias de hoje, diversas ações políticas no sentido de compensar as
desvantagens sofridas por esses povos. Desde a chegada dos europeus, os povos
indígenas passaram por situações de agruras, como a perda das próprias terras, a
submissão e o racismo, fatos que atravessaram séculos e chegaram aos dias atuais
em forma de uma realidade de preconceitos e violências.
Tendo em vista essa realidade adversa, há muitas demandas a serem
atendidas em relação aos serviços de saúde ofertados aos indígenas. Um primeiro
passo, conforme apontado na citação anterior, diz respeito a uma maior abertura,
orientando-se sem os entraves do preconceito e de ideologias negativas em relação
a esses povos.
Salienta-se, também, o fato de que há uma organização específica nas
nações indígenas, diferente do que há nas sociedades não indígenas no Brasil. Uma
marca dessa diferença diz respeito ao papel da mulher e sua relação com os demais
membros do meio em que vive. Existe uma determinada conduta a ser observada ao
se interagir com os indígenas, especialmente em relação às mulheres, as quais são
ensinadas, desde cedo, a conviverem e agirem de forma muito específica na tribo.
Não apenas a mulher indígena apresenta características muito particulares
que demandam uma interação característica, principalmente no tocante aos serviços
de saúde, que, geralmente, exigem a exposição do corpo. Há uma diversidade de
culturas que também se orientam de forma particular no que diz respeito a esses
assuntos da interação e da exposição. A esse respeito, Silva, Farias, Garcia, Silva e
Torres (2009, p. 2965) apontam o seguinte:
No destaque a mulher, podemos encontrar diretrizes para a assistência a
mulher rural, homossexual, negra, deficiente, na terceira idade e
menopausa, presidiárias e ainda à mulher indígena. Com relação à
sociedade indígena, que por ser uma etnia específica, tem suas
possibilidades sociais e culturais que dificultam o acesso aos serviços
governamentais de saúde, educação, saneamento.

É importante salientar, no entanto, que as marcas culturais e étnicas que


caracterizam os povos indígenas não afetam no que se refere às características
epidemiológicas, ou seja, nos tipos de problemas de saúde enfrentados por essas
pessoas. Na verdade, os casos detectados entre os indígenas representam as
condições gerais da população brasileira, conforme observam Silva, Farias, Garcia,
Silva e Torres (2009, p. 2966)

Ao contrário do que se pensa, as questões relacionadas à saúde indígena


não diferem das condições gerais da população nacional, essas assumem
características particulares em função de suas especificidades étnicas e
culturais (2). O perfil epidemiológico da sociedade indígena foi analisado
pelo Ministério da saúde (2) e detectou-se que esse é marcado por altas
taxas de incidência e letalidade por doenças respiratórias, diarreicas,
imunopreviníveis, malária e tuberculose. O Ministério da Saúde, através do
Programa Nacional de DST/AIDS - Distritos Sanitários Especiais Indígenas
(3) verificou que os jovens indígenas estão mantendo contatos sexuais mais
frequentes com populações vizinhas, o que pode aumentar seu risco de
infecção por HIV/AIDS e outras DST, soma-se a isso a dificuldade do
acesso da equipe de saúde a comunidade indígena.

Nota-se que há uma imbricação entre o que ocorre na sociedade brasileira


em geral e no meio social indígena, certamente pelos contatos entre uns e outros.
Toda uma problemática relacionada à saúde indígena se caracteriza como reflexo
das questões de saúde brasileira, o que facilmente compreensível uma vez que as
interações entre índios e não índios tem avançado largamente nas últimas décadas.
Esse fato também pode levar a crer que as medidas a serem tomadas – tanto por
parte das politicas públicas/sociais direcionadas aos serviços de saúde, quanto por
parte dos próprios profissionais que atuam nessa área – podem ser as mesmas para
todos, ou seja, que as ações não precisam se diferenciar para uns ou outros.
Porém, o fato que diferencia os indígenas e os não indígenas no que se
refere às questões de saúde são as marcas culturais e étnicas. Essas marcas
influenciam na forma de conceber e lidar com as enfermidades, assim como na
busca por certos tratamentos. Assim sendo, quando se discute que os profissionais
da saúde devem estudar e conhecer os sujeitos com os quais deverá interagir no
exercício de sua profissão, refere-se ao conhecimento dos costumes originados de
uma cultura particular. São esses costumes que influenciam na aceitação ou não de
determinados procedimentos, por exemplo.
Essa realidade que conduz os profissionais da saúde à busca do
conhecimento sobre a cultura do indígena é ampla e complexa. Há, no Brasil, um
enorme diversidade de povos/nações indígenas, cada qual com suas marcas
culturais, costumes e formas de vivências.
É interessante ressaltar que, em meio às culturas indígenas, existem formas
tradicionais de tratamento da saúde. Muitas dessas formas precisam ser conhecidas
pelos enfermeiros no trabalho de assistência aos indígenas, uma vez que deve
haver uma imbricação de culturas e não a imposição.
Segundo o que observa Guimarães (2011, p. 19): “O índio, de uma maneira
geral, tem formas muito singulares de cuidar das doenças, da cura e da prevenção
dos agravos apresentados nas suas comunidades”. Compreende-se que há uma
realidade nas diversas culturas indígenas marcada por uma especificidade no que
se refere não apenas à compreensão sobre os estados de enfermidade, mas,
também, em relação aos procedimentos utilizados tanto na prevenção quanto na
cura de determinadas doenças.
Isto significa que os povos indígenas adquiriram, ao longo dos séculos,
determinados saberes dos quais lançam mão para a busca de tratamentos. Esses
saberes se referem a experiências com a natureza e que permitiram a esses povos
a construção de conhecimentos sobre doenças e curas. É importante salientar que
são conhecimentos adquiridos pelas experiências empíricas, ou seja, através de
experimentos com o uso de plantas ou outros recursos naturais.
Ainda se faz importante lembrar que esses conhecimentos são de grande
relevância para o conhecimento geral de algumas enfermidades. Muitos desses
saberes indígenas proporcionaram e ainda proporcionam estudos em torno da busca
de curas para certas enfermidades. Assim sendo, faz-se fundamental uma postura
sempre aberta e atenta para o que os povos indígenas sabem e como podem
contribuir em alguns procedimentos de cura.
Um dado de extrema importância em relação às questões de saúde entre
indígenas se refere ao desenvolvimento de algumas enfermidades entre eles, antes
não percebidas. Isto porque o contato com outros povos proporcionou, dentre muitas
consequências, o fato de que houve o contágio e a exposição a enfermidades antes
não existentes entre pessoas indígenas.
Sobre essa realidade, Guimarães (2011, p. 19) afirma que:
A saúde dos povos indígenas vem sofrendo grandes alterações,
desde o seu perfil epidemiológico, até o modelo de atenção à saúde.
As doenças infectocontagiosas ocupam um lugar de destaque na
história dos indígenas e persistem como as principais causas de
morte e de doenças nesse grupo.

Compreende-se que as transformações concernentes às questões de saúde


não se restringem apenas aos tipos de enfermidades presentes entre os povos
indígenas, o que marca um certo perfil epidemiológico. Mudanças ocorreram,
também, no tocante às formas de tratamento hoje realizadas em relação a pessoas
indígenas, hoje com uma estrutura pautada sobre uma regulamentação específica
direcionada a índios no Brasil.
Interessante o que a pesquisadora aponta na citação anterior sobre as
doenças infectocontagiosas em meio aos indígenas. Sendo esse tipo de doenças as
prevalecentes entre esses povos, isto significa um contexto cultural e de costumes
que permite a entrada de determinadas doenças, as quais permanecem ou se
alargam, ampliando o número de enfermidades que atingem pessoas indígenas por
meio de contatos com agentes infecciosos.
Ainda segundo Guimarães (2011, p 20):
As transformações que os povos indígenas têm vivido perpassam por
alterações socioeconômicas e culturais e tem impactado na situação
de saúde, principalmente pelo contato com a sociedade não indígena
(COSTA et al., 2006). Além dessas alterações, outras como as
mudanças demográficas, culturais e ambientais (COIMBRA et al.,
apud COSTA, 2006) têm orientado a transição epidemiológica que
vivenciam os índios brasileiros (presença e causa morte por doenças
infecciosas e parasitárias, associadas a doenças crônico-não-
transmissíveis).

O excerto anterior ressalta que as mudanças em relação às questões de


saúde entre os povos indígenas se fizeram por um amplo contexto de
transformações sociais. Essas transformações ocorreram pelo contato com povos
não indígenas, acarretando o contágio e a entrada de novas enfermidades, como
pelos novos costumes adquiridos pelos índios. A alteração de costumes viabilizou a
exposição a novos agentes infecciosos, transformando, também, a busca por
recursos de cura antes utilizados.
Sem dúvida que as transformações se devem à entrada de povos não
indígenas pelo território nacional. Esse fato trouxe como consequência a diminuição
do espaço dos povos indígenas, que tiveram menos recursos, menos acesso aos
bens naturais antes utilizados, tanto como recursos para a alimentação como para
procedimentos de cura de enfermidades.
Ainda é importante salientar que houve e ainda há um contexto de opressão
sobre os povos indígenas, os quais sofrem com o preconceito étnico, a retaliação
por parte dos não índios e a violência. Nesse contexto, muitos desses povos
primitivos deixaram de proceder segundo os costumes aprendidos dos ancestrais,
permitindo-se ao contato com o homem não indígena e fragilizando-se diante dos
novos costumes adquiridos.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo envolveu uma reflexão sobre o desenvolvimento de uma política


pública voltada às questões de saúde indígena, relacionando este contexto
sociopolítico com os desafios ainda existentes em relação ao trabalho de assistência
do enfermeiro em situações de atendimento a pessoas indígenas.
O tema dos desafios da assistência de enfermagem à saúde indígena foi
discutido como assunto central deste trabalho, como cerne de toda a discussão que
aqui se desenvolveu. Tendo como fundamentação teórica estudos que se realizaram
em pesquisas em torno da problemática da saúde indígena no Brasil e o trabalho do
profissional enfermeiro, este artigo teve como objetivo promover uma reflexão sobre
os aspectos da assistência de enfermagem à saúde indígena e os desafios ainda
presentes nesse contexto.
Levando em conta os pontos colocados nestes parágrafos anteriores,
observou-se, nas discussões feitas, que o país desenvolveu, ao longo das últimas
décadas, algumas políticas sociais voltadas a um atendimento às preocupações dos
povos indígenas. Uma dessas políticas diz respeito às questões da saúde indígena,
considerando todo um contexto sócio-histórico no qual o índio necessita de
atendimento específico, adequado à cultura e ao ser índio no Brasil.
Compreendeu-se que há uma legislação para as questões de saúde
indígena, fomentando todo um procedimento que se desdobra em ações, inclusive
em disciplina sobre saúde indígena ofertada no âmbito da formação em
enfermagem, com o propósito de capacitar os futuros enfermeiros que atuarão com
essa clientela. Observou-se, assim, que houve uma estruturação legal e de
formação curricular no sentido de organizar as diretrizes que orientam as ações em
relação aos indígenas.
No entanto, considerando todo um aparato teórico desenvolvido em
pesquisas, percebeu-se que ainda restam variados desafios em relação ao trabalho
de enfermagem na assistência à saúde indígena. Muitos desses desafios dizem
respeito ao desconhecimento em relação aos direitos dos povos indígenas, às
peculiaridades que incitam um trabalho específico e atento em relação aos índios,
levando em conta a sua cultura e sua forma de perceber o mundo a sua volta.

REFERÊNCIAS

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