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Biblioteca Nacional de España
Novas Reflexoes
Sóbre a

Lingua Portuguesa

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Obras do mesmo autor

Linóes Práticas (3 vol.).


Problemas da Linguagem (3 vol.).
O que se náo deve dizer (3 vol.).
Falar e Escrever (3 vol.).
Estrangeirismos (2 vol.).
Problema da Colocado de Pronomes (1 Vol.).
Vicios da Linguagem Médica (1 vol.).
A Ortografía no Brasil (1 vol.).
A Cólera-Morbo (1 vol.).
“Vade-Mecum” dos estudiosos da lingua portuguesa (1 vol.)
Gramática Sintética (1 vol.).
Gramática das crianzas (1 vol.).
Noticia histórica dos antigos povos do Oriente (1 vol.).

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30037 o
Novas Reflexoes
Sobre a

Lingua Portuguesa
POR

CANDIDO DE FIGUE1REDO
Da Academia das Sciéncias de Lisboa, da Academia de Sciéncias de Portugal
da Academia Brasileira de Letras, da Real Academia Espanhola,
da Sociedadc Asiática de Paris, da Academia de Jurisprudéncia de Madrid,
do Instituto de Coimbra, etc. etc.

LISBOA
L1VRAR1A CLASSICA EDITORA
de ñ. M. TEIXEIRfl & C.a (Fimos)
Praga dos Restauradores, 17
1923

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Imp. Tip. do Anuario Comercial — P. Restauradores, 24 - Lisboa

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Razáo do título

Extinta a brilhante e numerosa pléiade dos


nossos letrados quinhentistas, a lingua portugue­
sa, como se reílectisse a nossa decadencia política
e social, comegou a enfermar gravemente: ao con­
tacto do gongorismo, perverteu-se o gósto lite-
rário; e a pureza e a correcto da linguagem
sofreram as naturals consequéncias da inércia pú­
blica, do desprézo dos bons modelos, da escas-
sez do patriotismo e do desamor ao estudo.
Contra essa deplorável degenerado protesta­
ran: a trabalharam os nossos mais cultos espirites
do sáculo XVIII, entre os quais foi astro de pri-
meira grandeza o sabio Luís António Verney, com
o seu Verdadeiro Método, e se evidenciou com
glória o erudito humanista Francisco José Freire,
mais conhecido pelo nome arcádico de Candido
Lusitano.
Éste ilustre humanista, largamente conhecedor

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da nossa literatura clássica, procurou, com a ligáo
dos mestres, atalhar a ignorancia pública, e deter
a enxurrada, que ameagava subverter a lingua de
Cambes e Joáo de Barros. Táo patriótico e meri-
tório esfórgo é inda hoje atestado, especialmente,
por urna das numerosas obras de Candido Lusi­
tano, aquela que se intitula Reflexdes sobre a Lin­
gua Portuguesa.
Já lá váo quase dois sáculos depots que se es-
creveram as Reflexdes, e nao é hoje menos opor­
tuno o esfórgo que elas representam. Pelo con-
trário: menos difundida do que hoje a leitura e a
escrita, menos numerosos seriam os erros dos
que escreviam e dos que se supunham letrados.
Mas as Reflexdes nao foram escritas para o
tempo presente: a natureza dos vicios da lingua-
gem, os recursos da crítica, os processes da Fi­
lología, a riqueza das fontes subsidiarias, as pró-

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prias condiQóes do publico que lé, nada disto é
boje o que era há dois sáculos.
E contudo os interesses da lingua sao e seráo
os que eram; de maneira que, nao obstante a di-
versidade de assuntos e processos, os patrióticos
intuitos do velho humanista sao idénticos aos do
autor desta obra, por isso intitulada Novas Refle-
xoes sobre a Lingua Portuguesa.
E assim, embora nos tempos de boje nao pen­
sarnos aceitar todas as Refiexoes de Cándido Lu­
sitano sem rectificares e corréeles, bem se
poderá dizer que éste meu livro é continuado
daquele, pela analogía dos intuitos e a de alguns
assuntos; mas nao é dependente déle, como sao
entre si os volumes de urna série. A todos é licito
fazer refiexoes sobre a lingua portuguesa; e quem
nao fez as primeiras pode chamar novas ás que
produz.

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Justificado assim o título da obra presente,
vai ela emparelhar-se com duas duzias de volu­
mes que consagrei á lingua portuguesa, dos quais
é talvez remate, porque na minha idade pouco se
espera, e porque, tendo já talado multo ou em
demasía, pouco mais poderei ou deverei dizer.
Bastaráo porém esses volumes para mostrar
aos meus amigos quanto amei a lingua da nossa
terra, e quanto por ela tressuei, conseguindo legar
a meus filhos duas propriedades: honra e pobreza.
Outros porém teráo legado menos.

1917.
C. de F.

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*C/<r*ífv'y

Anormalidades prosódicas

É sabido e corrente que a prosódia das pala-


vras portuguesas depende, em regra, da quanti-
dade da penúltima silaba das palavras latinas ou
gregas, de onde aquetas procedem.
Sucede, porém, que, por motivos de vária es­
pecie, ouvimos em portugués numerosos vocábu-
los, cuja acentuado tónica é oposta aqueta regra.
Em muitos casos, o erro já vem dos tempos
em que ainda se desconheciam completamente os
principios da Filología e os elementos essenciais
para a comparaqáo scientífica das línguas.Noutros
casos, porém, o erro é relativamente moderno, e
deriva sobretudo da deficiente preparado escolar,
da influencia das leituras francesas, do imperio da
moda, etc.
Os érros modernos, em-quanto se nao possam
considerar radicados na linguagem, poderáo e
deveráo corrigir-se, na esperanza de se irem su-
cessivamente reduzindo os érros de pronuncia ou,
antes, de prosódia.

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10 Novas ReflexSes

Especialmente os termos scientíficos sao sus-


ceptíveis de correcto, visto que os homens diplo­
mados, que os usam, fácilmente reconheceráo e
compreenderáo a Iegitimidade e a conveniencia
da correcQáo.
Assim, embora muitos médicos se comprazam
inadvertidamente em pronunciar hidroterápia,
amnésia, albuminúria, hematúria, etc., reconhece­
ráo, se os anima boa fé, que a penúltima sílaba
do grego therapeia é ditongo, isto é, sílaba longa
e, por tanto, o i de terapia, em portugués tem de
ser tónico: hidroterapia (acento tónico na penúl­
tima sílaba); como reconheceráo que em portu­
gués é sempre tónico o sufixo ia, e portan to:
alegría, abadía, bastardía, cortesía, amnesia, albu­
minuria, hematuria, etc.
Por influéncia francesa, muita gente tem pro­
nunciado crisantemo, hipódromo, velódromo, etc.
É quase ocioso ponderar se que a prosodia exacta
é crisantemo, hipódromo, velódromo... A fonte
grega e o latim chrysantemon náo podem deixar
dúvidas a tal respeito.
Todos sabem, creio eu, que autócrata é pro­
nuncia exacta; e que portanto exacta seria a pro-
núncia demócrata, aristócrata... Mas vulgarizou-se
a tal ponto a errada pronuncia democráta, aristo-
cráta, acráta, etc., que talvez já seja tarde para se
restablecer a prosódia correcta.
Mais antigos, e talvez mais enraizados que és-
tes, há muitos érros prosódicos, verdadeiras anor­

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Anormalidades prosódicas 11

malidades consagradas pelo tempo, mas cujo re­


giste se nao pederá dizer ocioso, sobretudo se
ésse registe contribuir para ver se ñas escolas,
ou entre os homens de letras e entre os verda­
deros estudiosos, será possivel ir restabelecendo
a verdade scientífica, corrigindo-se alguns désses
erres, pelo menos.
*
* *

Ora vejamos alguns erres prosódicos, que fa-


zem parte da linguagem corrente, e que só por
esfórgo heroico de filólogos e pedagogos, e por
boa vontade dos amigos da nossa lingua, pode-
riam ser extirpados, pelo menos em parte.
Álcool — Assim pronuncia toda a gente; e con-
tudo a palavra formou-se de deis elementos ará­
bicos, o artigo al t o substantivo cohl, de onde se
ve que a pronuncia exacta é alcoól ou alcóol, visto
que o acento tónico nao deve ficar no artigo
componente. Dizer álcool é como se disséssemos
Álmada, álqueire, etc., em vez de alquéire, Al-
máda, etc.
Álcali — É caso análogo. Do árabe al e cali, só
devia provir alcalí, (acento tónico na ultima síla­
ba), e nao álcali.
Miope —Quem se aventuraste a pronunciar
miope faria talvez rir o ingenuo ouvinte; e con-
tudo o latim e o grego ordenam expresamente
que se pronuncie miópe !

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12 Novas Reflexóes

Esqueleto —Já o Sr. Dr. Ramiz Galváo notou


judiciósamente que esta palavra anda mal pronun­
ciada em nossa lingua. Efectivamente, o grego
skéletos e o latim scéletus mostrara que a pronun­
cia exacta seria esqueleto. Mas atreva-se alguém...
Fígado — Que eu saiba, só em Trás-os-Montes
se diz figádo. Toda a mais gente, em Portugal e
no Brasil, diz fígado, (acento tónico na primeira
sílaba). A verdade, porém, é que o latim ficátum
dá razáo aos Trasmontanos. Já que ninguém mais
lha dá, resignem-se.
Patena — Esta pronuncia veio provávelmente do
francés patene. A verdade, porém, é que o étimo
latino manda lér pátena.
Patera — É caso semelhante. Por causa do fran­
cés, chamara patera a urna especie de escápula.
Mas o latim pátera está mostrando a legítima pro-
sódia.
Gemido — Se esta palavra se pode considerar
substantivo verbal de gemer, bem está; mas se el a
veio do latim génútum, como tém dito os dicio-
nários, entáo deveria dizer-se gemido. A boas
horas!
Juíz — Se esta palavra veio da latim júdice, como
dizem os sábios, deveria, sera dúvida, pronun­
ciarse júiz, (acento tónico na primeira sílaba).
Mas nao pensemos mais nisso. O que nao tem
remédio, remediado está.
Idolo — Nao posso entrever as razóes, por que
todos nós dizemos ídolo, (acento tónico na pri-

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Anormalidades prosódicas 13

meira sílaba), sendo aliás certo que a etimología


latina só autoriza idólo. Digam-no os sábios.
Farmacia — Esta prosodia, aliás correntissima,
opde-se abértamente á etimología grega e latina.
O grego pharmakeia e o latim pharmacía mostram
que a palavra, legítimamente, teria acento tónico
na penúltima sílaba, cí. Aínda será tempo de se
restabelecer nisso a exacta prosódia?
Os farmacéuticos váo dizer que nao. E os
outros?
Teoría — É palavra largamente conhecida, e to­
dos nós a pronunciamos paroxitonamente, (acento
tónico na penúltima sílaba). E contudo a verda­
dera pronúncia seria teoría. Ninguém a aceita, é
claro, mas o Filinto nao esteve com ceremónias,
e mais de urna vez disse teoría, como se pode ver
no vol. XIV, pág. 134, e vol. XVI, pág. 218, das
suas obras, (ediqáo rolandiana).
Teriága — Toda a gente diz teríága, e o povo,
contraindo a palavra, diz claramente triága. A
verdade, porém, é que o étimo latino, theríaga,
mostra que a pronúncia exacta seria teríaga,
(acento tónico na segunda sílaba).
Amazona — Ninguém hesita na pronúncia desta
palavra: todos dizem amazona. E contudo a pro­
sódia latina amázona mandaría que em portugués
também se dissesse amázona. Prova inútil: se al-
guém se atrevesse a falar dos povos do Amázonas,
talaría certo, mas talvez o afogassem no Amazo­
nas, pelo menos...

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14 Novas Reflexdes

Acónito — É trivial éste termo em terapéutica,


e, desde os médicos até os doentes, todos pro­
nuncian! acónito. Manda, porém, a verdade que se
diga sér errónea tal pronuncia e que a prosódia
exacta, é acónito, (acento tónico na penúltima sí­
laba), como no latim.
Taprobana — Desde os nossos avós, que passaram
inda alént da Taprob&na, até os nossos tetranetos,
sempre aquele nome se pronunciou e se pronun­
ciará, como Cambes o pronunciava. Os Latinos,
porém, diziam Taprobana, e assim deveríamos nós
dizer, com o devido respeito ao cantor dos Lusía-
das. Tal vez até que o pronunciasse assim o nosso
épico, e que éle conscientemente Ihe deslocasse
o acento tónico, por conveniéncia do metro e da
rima... É o que éle fez, noutras conjunturas, como
quando metrificou Dário em vez de Darío, ido-
tátra em vez de idólatra, etc. Se o pudéssemos
consultar...
Enciclopedia — É pronuncia generalizada, mas
errónea. O étimo grego enkuklopaideia nao deixa
dúvidas a tal respeito: o ditongo grego ei faz
tónica a respectiva sílaba em portugués. É dos
casos, em que o mal ainda pode tér remédio:
enciclopedia, (acento tónico na penúltima sílaba).
Amido — Todos conhecem esta palavra e sua
pronúncia usual, que aliás é errada. O latim ámy-
lam torna esdrúxula a correspondente fórma por­
tuguesa: ámido.
Clitoris — Pronúncia usada mas errónea. O grego

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Anormalidades prosódicas 15

kleitoris mostra que o correspondente vocábulo,


em portugués, deve tér o acento tónico na pri­
meara sílaba.
Cotilédone — Já num livro meu, (Falar e Escrever,
vol. II), consagre! algumas páginas a éste vocá­
bulo, relativamente á sua formagáo, ao sen gé­
nero e á sua pronuncia; mas, ocupando-me, ago­
ra, especialmente, de anormalidades prosódicas,
mais algumas linhas consagrare! ao mesmo vocá­
bulo, visto que a sua pronuncia usual me parece
errónea.
Todos dizem, creio eu, cotilédone, considerando
esdruxulo o vocábulo. Se ele nos proviesse do
nominativo latino cotylédon, que nao tem e final,
é claro que a sílaba tónica seria lé; mas tendo o
vocábulo um e final, desde a Botánica de Brotero,
que o introduziu entre nós, e correspondendo esta
fórma ao ablativo latino cotyledóne, que tem a pe­
núltima sílaba longa, também é claro que nos nao
deveríamos afastar da prosódia latina e que deve­
ríamos dizer cotiledóne.
Isto, quanto á prosódia do vocábulo, tal como
o temos e o registam os dicionários. Mas, quanto
á sua construyo, diga-se, de passagem, que tam­
bém ela é anormal.
Com efeito, o grego kotuledón e o latim cotylé-
don,cotyledónis,deveria.m produzir em nossa lingua
cotileddo, derivado da fórma acusativa cotyledónem,
como Catónem produziu Caído, como leónem pro-
duziu ledo, como occasiónem produziu ocasido, etc.

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16 Novas Reflexdes

Parece evidente que cotiledone, que para uns é


masculino e para outros feminino, tem sido pro­
nunciado erróneamente (cotiledone), equea prosó-
dia exacta é cotiledone.
Béngáo — É certo que toda a gente diz béngáo,
ou béngam, (acento tónico na primeira sílaba). E,
contudo.o vocábulo é simples contracto da forma
primitiva bendigáo, do latim benedictionem. Ora,
se bendigáo, é, e nao podia deixar de ser, palavra
oxítona ou aguda, natural seria que bengáo man-
tivesse a mesma acentuaqáo tónica.
Pois nao manteve; e, agora, talvez já seja tarde
para iba restituir.
Regime — Éste vocáblo, que também se escreve
regimen, sem necessidade e sem lógica, pronun­
cia-sé bern no espanhol (regime), e pronuncia-se
mal em portugués, (acento tónico na segunda
silaba). O nominativo latino régimen nao deixa
dúvidas a tal respeito.
Se o vocábulo proviesse do ablativo latino
regimine, como se afigura a alguns lingüistas, esta­
ría bem a nossa pronuncia usual; mas, em tal caso,
a forma erudita regimen, aínda adoptada por muita
gente, seria urna monstruosidade, porque a fórma
lógica, mas impraticável, seria regimem; isto é,
nunca poderia acabar em en, mas em em.
Nao pensemos nisso.
Limite — Esta anormalidade é urna das que su-
ponho irremediáveis. O latim manda-nos pronun­
ciar límite, com acento tónico na primeira sílaba;

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Anormalidades prosódicas 17

mas a tal mandamiento todos faráo ouvidos de


mercader.
Poissim, mas saibamos ao menos que pronun­
ciamos mal.
Helena — Parece-me que toda a gente entende
que le bem éste nome (Helena), e creio bem que
nunca em Portugal se leu de outra maneira.
A verdade, porém, a cruel verdade é que a
pronuncia exacta seria Helena, embora esta pro­
nuncia seja talvez menos eufónica que a usual.
A deslocagáo do acento podará explicar-se por
os Francezes terem usado, primeiro que nós,
aquele nome, e termos nós ido atrás déles, como
tantas vezes sucede. Ora os Francezes nao tém
esdrúxulos e Hélena é nome esdrúxulo.
Como ninguém reclama, continuaremos a pro­
nunciar erradamente aquele fatídico nome.
Heitor — A guerra de Tróia, causada pelo ra­
pto da célebre mulher de Menelau, faz que eu le­
vante urna pequenina escaramuza, nao só contra
a maneira usual como pronunciam o nome Helena,
senáo também contra a pronúncia vulgar do nome
de outra figura daquela guerra, o desgranado
Heitor, filho de Príamo.
Se bem que o grego Hektor, com o seu ómega,
está de acórdo com aquela pronúncia, é certo que
0 latim, cuja prosódia, para nós, prevalece sobre
a grega, ensina outra coisa.
Com efeito, o ablativo latino Héctore, só po­
derla, em portugués, produzir Héitor, coisa
2

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18 Novas ReflexSes

que ninguém diz, mas que seria pronuncia acer­


tada.
Se nao tem remedio..passemos adeante.
Orgia — Todos nós, ou quase todos nós, pronun­
ciamos orgía, (acento tónico na penúltima sílaba).
É erro; e Castilho, que sabia o nome aos bois,
dizia e mandava dizer orgia.
Nao sei se os seus mandamentos, neste caso,
seráo observados. Entretanto, digamos sempre a
verdade a quern em tudo a devemos, como acon-
selhava Sá Miranda, e... quis potest capere, ca­
piat.
Reptil — É erro corrente, vulgaríssimo, pronun­
ciarse esta palavra como se fósse aguda ou oxí-
tona: reptil, (acento tónico na última sílaba) _
Sucede, porém, que o latim réptilis nos manda
pronunciar reptil, (acento predominante na pri-
tneira sílaba).
Como em regra as palavras, terminadas em l,
sao agudas ou oxítonas, (animal, fiel, funil, anzol,
azul), náo se recordam os ingénuos de que há
numerosas exep?óes, como fácil, hábil,fútil, projé-
ctil, etc.; e, assim como caem no disparate de dizer
gracíi, em vez de grácil, projectíl, em vez de projé-
ctil, textil, em vez de téxtil, insistem em dizer reptil,
em vez de réptil, e éste erro, infelizmente, difun-
diu-se por toda a parte, até entre gente culta.
Advirta-se, porém, que já desde há tempos os
homens de letras comeqaram de notar o disparate
e alguns tratadistas de sciéncias naturals já náo

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Anormalidades prosódicas 19

falam de reptís, mas de répteis, plural de reptil,


nao reptil.
Se aínda há quem possa opor travancas á erró­
nea costumeira, nunca as máos lhe ddam.
Nigromancia — Tem-se pronunciado erróneamente
éste vocábulo, bem como outros, de formaqáo
análoga, embora menos vulgares, como capno-
mancia, geomancia, gastromancia, etc., pois os con­
siderara esdrújulos, rimando-os com ignorancia,
constancia, abundancia, etc.
Sucede, porém, que o segundo elemento de
nigromancia, ou antes necromancia, e dos seus si­
milares, veio do grego manteia (advinhagáo), e o
ditongo grego ei obriga, em portugués, a tornar
tónica aquela sílaba ci. De maneira que a pronun­
cia exacta é nigromancia, (acento tónico na penúl­
tima sílaba), rimando com dia, alegría, folia, Ma­
ria, etc.
E aínda me nao parece tarde para que se faga a
devida correcQáo, tanto mais exequível, quanto é
certo que os respectivos vocábulos nao sao táo
vulgares, que se tornassem absolutamente incorri-
gíveis...
Gemonias — Ao lugar, em que se langavam os
corpos dos supliciados, davam os Romanos o nome
de gemonias. Os literatos franceses gostaram do
termo, e, como nao possuem fórmas esdrúxulas,
representaram-no por gemonies, cuja acentuado
tónica passou totalmente para o portugués, adian­
do até abrigo em dicionários de algum valor, como

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20 Novas Reflexoes

o Contemporanio, de Aulete, ou antes de Santos


Valente.
O vocábulo, porém, é aínda menos vulgar que
nigromancia, donde fácilmente se conclue que po­
demos e devemos pronunciá-lo bem, isto é, gemó.
nías, (acento tónico na segunda sílaba).
Anécdota — A prosódia exacta seria anécdota-, mas
já é tarde para se fazer a correcQáo. O próprio
Sr. Dr. Ramiz Oalváo, que raro transige com pro-
sódias erróneas, viu-se obrigado a aceitar esta.
Como todos a querem, registe-se o erro, e nao
pensemos mais nisso.
Arnica — É o nome culto de urna planta, que
vulgarmente se chama espirradeira e que, mace,
rada em alcool, dá urna tintura, que se aplica em
certas contusóes ou lesóes.
Do que ela nao é capaz, é de curar o eleijáo,
com que entrou na botica. Derivada, um pouco
esquisitamente, do latim ptármica (que faz espir-
rar), e já que em portugués perdeu as duas primei-
ras letras do étimo, e aparece com n em vez de m,
ao menos seria louvável que se lhe mantivesse a
prosódia originaria, isto é, árnica, em vez de ar­
nica.
Mas, se alguém fór pedir árnica a urna botica,
nem eu quero imaginar a cara e a resposta do
farmacopola.
É também dos casos em que podemos talvez
limitar-nos a conhecer o erro e a deixar correr o
marfim.

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Anormalidades prosódicas 21

Pantano — Toda a gente diz pantano, (acento tó­


nico na primeira sílaba). E contudo sabe-se que o
vocábulo nos veio do espanhol pantano, (acento
tónico na segunda sílaba). Aínda estou para saber
como demónio foi que nós concertemos urna pa­
lacra paroxítona ou grave em proparoxítona ou
esdrúxula, ao incés da tendencia popular e fran-
cesista, que é tornar graces os cocábulos esdrú-
xulos. Fosse como fósse, é ecidente que a pronun­
cia exacta daquele cocábulo é pantano, (acento
tónico na penúltima sílaba).
O mais curioso é que todos nós pronunciamos
muito bem pantana, que é cocábulo da mesma
origem; de maneira que, tratando mal a fórma
masculina, tratamos excelentemente a feminina.
Bem se ce que o Magriqo foi nosso acó.
Nivel — É outra anomalía prosódica. Do latim
libellum ceio o portugués livél e olivél. O livél
mudou de fórma para nivél; e, se bem que os an- *
tigos, pelo menos o Moráis, mandassem lér livél
e nivél, é certo que apenas algumas pocoaqóes do
norte de Portugal consercam honrósamente a le­
gítima pronuncia livél e nivél e que se generalizou
extra ordinariamente a errada pronuncia nivel,
(acento tónico na primeira sílaba). É táo descon-
chacada esta costumeira, que nao fica mal o pro­
téstameos contra ela e esforqarmo-nos pela sua
correcQáo.
Melodía —Esta já nao tem cura. Como palinodia
e salmodia, que sao pronúncias exactas, decíamos

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22 Novas Reflexdes

lér melodía, que, aliás, parece nao tér sido usada


nunca entre nós, visto que o próprio Camóes
pronunciou a palavra como nós a pronunciamos-
Muito provávelmente, aquela palavra, de origem
grega, veio para nós, directamente, do francés,
onde nao há esdrúxulos, e mantivemos-lhe a acen­
tuado francesa. E táo corrente é a errada pronun­
cia melodía, que até o Sr. Dr. Ramiz Galvao, in­
transigente em casos prosódicos, nem sequér anotou
o erro.
Eu anoto-o, mas... curvo-me á soberanía do
uso.
Océano — Outro que tal. O latim océanus manda
que digamos océano, (acento tónico na antepenúl­
tima sílaba); mas neste caso, e aínda noutros, nin-
guém obedece ao latim. É urna anormalidade con­
sagrada: desrespeitá-la seria malhar em ferro frió.
Malhe quem nao tivér que fazer.
Erisipela — Creio que toda a gente diz erisipéla,
menos o povo iletrado, pois éste diz erzipla, que
corresponde á exacta pronuncia erisipela, (acento
tónico na antepenúltima sílaba).
Incontestávelmente, dizer erisipéla é dizer mal.
Opála — Todos pronunciamos opála, provável­
mente porque recebemos a palavra do francés,
onde tem essa acentuado. O latim o'palus mandava
outra coisa, (ópala): mas a Franca nao só alte-
rou o género do vocábulo, qué na sua origem era
masculino, mas até nos transmitiu urna acentuado
que, para nós, é errónea,

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Anormalidades prosódicas 23

Duvido, porém, de que alguém tenha o ousio


de se pór a dizér ópala, porque toda a gente tem
mais ou menos receto do ridículo, e quem nao
tala como tout le monde et son pére, desperta o
riso de Gregos e Troianos. Eu próprio, que sou
um passa-culpas, corro algum risco...
Sonido — Dizem os sábios que o nosso vocábulo
sonido veio do latim sónitus.
Pois viria, mas o filho nao se parece com o pai:
éste é esdrúxulo, (sónitus) e o filho é grave ou
paroxítono.
Degenerou, o rapaz. Sonido é que ele devia ser;
mas quem torto nasce...
Cerbéro — É como multa gente chama ao famoso
cao mitológico, que nunca teve tal nome. O que
ele é é cerbero. E possível que alguém receasse
confundido com a massa encefálica (cérebro) e lhe
deslocasse a acentuado,para evitar dúvidas, trans­
mitido o seu criterio ao de Panurgo.
Se assim foi, fez obra asseada e ficou-lhe o
juízo a arder.
Em suma: cerbéro é tolice quadrada. Cérbero é
a pronuncia direita.
Alégre — Esta é outra das que náo tém cura.
Dizer que o latim álacris manda que digamos ále-
gre é perder o latim e perder o azeite.

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24 Novas ReflexSes

Já vai longo o estendal de anomalías de pro-


núncia e assalta-me o receio de que, a esta hora-
já esteja pregando aos peixinhos. Fica-me tadavia
a consciencia de que os leitores menos lidos al-
guma coisa aproveitaráo do fastiento arrazoado.
É que, efectivamente, se tém difundido nu­
merosos erros prosódicos, que nao ficam bem na
boca de quem se preza, e cuja correcto o mais
simples bom-senso aconselha ou ordena. Outros
há, é verdade, por tal forma enraizados no uso
corrente, que é tempo perdido pór-lhes a raiz ao
sol. Para éstes há o mero dever da anotaqáo e...
da resignado.
Mas aqueles que se nao generalizaram e os que
nao sao aceitos por gente que fala bem, ésses nao
devem ser apenas conhecidos: dcvem ser comba­
tidos na prática por todos quantos desejem falar
correctamente e evitar sistemáticamente o que se
nao deve dizer.
Longe de ser reclamo, é isto conselho de
amigo, que amigo é da lingua que talamos.

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Pequeñas linóes

1. — Há quem se deixe tomar de dúvidas so­


bre a legitimidade e análise de expressóes como
esta :
—« Os Alemáes é que foram a causa da con­
flagrado. ..«
O plural Alemaes, colocado á maneira de su-
jeito atrás do singular é, dá ansa a hesitares.
Nao há motivos para isto. Aquela expressáo
pertence á linguagem corrente e, afora outras
abonaqóes, tem estas, de Camilo:
—« Os mortals é que náooram «.(Horas de Paz,
pág. 118).
—« Essas é que decerto lhe nao empresta».
(Agulha em Palheiro, 2.a ed., pág. 45).
A análise gramatical destas expressóes e de
outras, similares, é a mesma que eu sugerí para
a frase: “há vinte e dois anos que nasci». (O que
se nao deve dizer, vol. III, cap. 109).

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26 Novas Reflexdes

2. — Tém dado que pensar a alguns estudiosos


as conjugales dos verbos desaguar, enxaguar,
averiguar, minguar, etc.
Em geral, os gramáticos insinuam que a ter-
ceira pessóa do indicativo presente deve ser ave­
rigua, desagita, mingúa, enxagúa, etc.
Sucede porém que, assim como ninguém diz :
eu distingúo, tu distingues, ele destingúe, também
nao é raro ouvir-se ao povo: «enxágua-me essa
roupa", «isso nao míngua», (isso nao é necessário).
Em que pese a bons gramáticos, esta prosodia,
ou, antes, esta conjugado tem abonagáo clássica.
Lé-se na Elegía XI de Cambes:

«Éste curso do Sol, táo bem medido,


que um só ponto nSo míngua nem se aumenta...»

Claro é que, se Cambes dissesse mingúa, teria


feito um verso erradíssimo, o que ninguém aceita.

3. — No portugués arcaico aparecem vestigios


de diferenqa gráfica entre o pronome me, comple­
mento directo, e o pronome me, complemento
terminativo. Para éste último caso, tinham os
Latinos mihi, e, para aquele, tinham me.

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Pequeñas Liqoes 27

Para ambos os casos, temos boje o pronome


me: «enganou-me») «deu-me dinheiro».
Ora, no portugués arcaico, achamos mi como
complemento terminativo. No testamento de Afon­
so II, extractado ñas Ligoes de Filología de L. de
Vasconcelos, há éste passo :
—«...aquelas cousas que Déos mi deo en
poder..."
Nos dizemos: «que Deus me deu»; mas o no­
tario de Afonso II encostava-se mais á fonte latina.
Como estava mais perto...

4. — Dáo grande importancia os gramáticos á


distingo entre Ihe (singular) e Ihes (plural).
Pode dizer-se afoitamente que tal diferenga
nao é clara na linguagem popular. O povo, geral-
mente, nao conhece Ihes (plural).
Quando eu era mogo e mais inexperiente do
que boje, nao aceitava de boa avenga aquele verso
do Dom Jaime, em que Tomás Ribeiro, falando
das flores da alma, dizia:

«Banham-/áí as hastes, retratando as frontes,


límpidas fontes...»

Mal supunha eu que o povo também assim


falaria; e menos suporia, aínda, que o próprio Ca-

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28 Novas Reflexoes

mdes tivesse escrito, como escreveu, no canto II


dos Lusiadas, estanca 80:

«....... as gentes váo matando


Por roubar-Ihe as fazendas

Nem Camoes poderla escrever roubar-lhes,


como nos outros faríamos. Se tal escrevesse, o
verso nao ficaria verso, mas aleijáo imperdoável.
Cortamente nao vai nisto a condenado da
forma plural Ihes; mas vai a indicado de que nao
podemos nem devemos ser severos e intolerantes,
quando se nos depare Ihe, por Ihes. 1

5. — Tenho observado que a medida de tempo


por minutos nao é de feiqáo popular. Para desi­
gnar um minuto, um momento, um pequeníssimo

1 Estavam escritas as linhas procedentes, e já se tinham


estampado no Jornal-do-Comércio do Rio-de-Janeiro, de 13
de Outubro de 1914, quando pude conhecer os excelentes
Serdes Qramatlcais, (2.a ediqáo, 1915), do eximio professor
Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. Na página 325 daquela obra,
prova o respeitável mestre que o Ihe, por Ihes, era usual
entre os antigos clássicos, e aduz váríos exemplos de Ca-
mdes, Vieira e Bocage.
A tal respeito, náo poderla eu tér pois melhór com-
panhia.

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Pequeñas LipSes ¡29

lapso de tempo, a linguagem corrente ou familiar


tem varios recursos, como éstes:
— «Chegou num instante...»
— «Desaparecen num ápice...»
— «Num abrir e fechar de olhos...»
— "Em-quanto o diabo esfrega um ólho...»
— «Num relance...»
— «Num pronto...«
— »Num sancti-amem...»
— «Teria passado o tempo de um glória-
-pátri...»
— «Em menos de dois credos...»
— «Nao tinha tempo de passar duas lojas de
barbeiro...»

6. —Para a história da lingua, ou para o estudo


da nossa evolagáo vocabular, cumpre ler com
atengáo os antigos documentos e confrontá-los
com a morfología e a fonética dos tempos moder­
nos.
Abrindo ao acaso a Crónica de D. Manuel por
Damiáo de Oóis, (última edigáo), deparam-se-nos
éstes factos no vol. II:
— Pag. 42: Senhora da Concepgao, (por Senhora
cía Conceigdo).
— Pág. 44: Cepta, (por Ceuta).
—Pág. 53: Vezinho, (nunca vizinho). A moderna
e afectada escrita vizinho nao impediu, até agora

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30 Novas Reflexdes

a boa pronuncia ve-zi-nho. O mesmo com visita,


Filipe, ministro, etc.
— Pag. 28: regno, (e nao reino).
— Ibidem: dixe, (por disse).
— Pag. 31: conveo, (por conveio). E' o caso de
veio, passeio, receio, feio, etc., que primitivamente
foram veo, passeo, feo, etc.
— Ibidem: Rui Martins. Modernamente, sobre-
tudo onde nao langaram aínda raízes as últimas
reformas ortográficas, tem-se escrito Ruy, que é
forma errónea mas usadíssima.
— Ibidem: teverüo, (por tivérao).
— Pag. 32: meo, (por meio). Compare-se conveo<
passeo, feo, etc.
— Pág. 34: jodo de Vasco Goncellos, (por Jodo
de Vasconcelos). ¿Picará assim explicada a forma-
gao do apelido Vasconcelos?
— Ibidem: George (por Jorge).
— Pág. 37: Sardinia, (por Sardenha).
— Ibidem: Cálhere (por Cagliari). Moje, quase
toda a gente prefere a fórma italiana, esquecida
infelizmente a portuguesa.
—Ibidem: Genoa, (por Genova).
— Pág. 38: Apulha, (por Apúliaj.
—Ibidem: a la mar, (por ao mar). Nota-se
aquí, além da manutengáo do velho artigo la, o
género feminino dé mar.
— Ibidem: vintacinco, (por vinte e cinco). Entre
o povo portugués ouve-se aínda vinta um, (por
vinte e um); e tanto o vintaum como o vintacinco

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Pequeñas LifSes 31

estáo de acórdo com a exacta forma dezasseis, de-


zassete, dezanove, que ás vezes nos aparece corru­
ptamente transformada em dezeseis, dezesete, deze-
nove... Um horror !
— Ibidem: Nigroponte, (por Negroponlo).
— No prólogo do vol. I: cosa, (por coisa).
— Ibidem: poer, (por port.
— Ibidem: fectura, (por feitura).
— Ibidem: sos dois respeitos, (por dais respeitos
só ou só dois respeitos).
— Ibidem: quomo, (por como).
— Ibidem: de a, (por da).
— Cap. I: regnado, (em vez de reinado).
— Ibidem: daido, (por dedo).
— Cap. Ill: mother, (nao malhér). Inda hoje há
filólogos que preferem molhér a mulhér.
- Vol. II, pág. 7: cinquo, (por cinco).
— Pág. 22: voda, (por boda). Perante a etimo­
logía, voda seria preferível a boda.
— Pág. 23: a infante, (nao a infanta/.
— Ibidem: Sintra, (nao Cintra). Nao pode haver
dúvida de que Sintra, é a forma exacta; mas, em
tempos modernos, quase toda a gente aceitou a
corruptela Cintra. Nao Herculano. Pode vér-se o
que, a tal respeito, deixei escrito nos seguintes
livros: Falar e Escrever, vol. II, cap. 224; O que
se nao deve dizer, vol. II, cap. 80 e 210.
— Pág. 24: vintaquatro, (por vinte e quatro..
Veja-se acima vintacinco.
— Ibidem: despois, (nao depots/.

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32 Novas Reflexoes

— Pág. 25: Octobro, (por Outubro).


— Pág. 26: passar em África, (por passar
para a África, ou passar á África). Aquele texto
e outros, similares, talvez expliquem o brasilei-
rismo:
—«ÓJoáo.vai no meu quarto, e traze-me o re-
lógio».
*

7. — Há uns rectas-pronuncias, que sentem ca-


lefrios, guando ouvem ou léem frases como estas:
— «Recomende-me Vossa Excelencia a sens
queridos filhos...»
— «Pego a Vossa Majestade toda a sua bene­
volencia. ..»
Acham Síes que a vossa, relativa á segunda
pessóa do plural, nao faz sentido com seas e sua,
relativos á terceira pessóa do singular; e opinam
que a sintaxe rigorosa só autoriza vossos filhos,
vossa benovolénica.
Equivocam-se. Os vossos e a vossa seriam, na-
queles casos, realmente legítimos; mas nao sao
menos legítimos os seus, e a sua.
Seus e sua nao podem evidentemente referir-se
a vos nem concordar com vossa: referem-se á Ma­
jestade, á Excelencia, que nao sao entidades a quem
se fala, mas de quem se fala; e as entidades, de
quem se fala, sao sempre da terceira pessóa, o que
torna legítimos os seus e sua.

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Pequeñas Lindes 33

Em confirmagáo déstes principios, temos a li-


gáo dos clássicos. Exemplo:
— Vossa Majestade, neste volume que a seus
pés deponho...» (Frei Luís de Sousa, Historia de
S. Domingos, no prólogo, pág. V).

8. — Mais de urna vez tenho afirmado que a le­


tra m, colocada numa palavra antes de sílaba que
nao comece por b, ou p, ou outro m, é irregulari-
dade ou desconchavo.
E todavía essa irregularidade, consequéncia de
urna errada compreensáo da exacta composigáo
vocabular, tem sido vulgaríssima na moderna es­
crita portuguesa, porque vulgarissimamente se tem
escrito emfim, emquanto, comti o comsigo, comtudo,
bemfazer, bemaventuranga, Bemfica, etc.
Nenhuma destas fórmas é rigorosa. Além do
mais, bemaveuturan(a tem o inconveniente de se
poder ler be-ma-ven-tu-ran-ga.
Como nao é lícito substituir ali o m por n, — o
que contraria a pronuncia corrente do vocábulo,—
temos o simples e legítimo recurso de escrever bem-
-aventuranga, separando por hiten os dois elemen­
tos da palavra; e assim, nem o m fica ¡mediatamente
atrás de um a, nem se prejudica a pronuncia usual.
O mesmo processo se deverá seguir quanto a
emfim, emquanto, bemfazer, bemdizer, etc., que
convém ercrever bem-dizer, bem-fazer, em-quanto,
3

Biblioteca Nacional de España


34 Novas Reflexoes

em-fim, etc.; se bem que podemos até separar com­


pletamente os dols elementos daquelas duas últimas
palavras, em fim,em quanto, como jáfaziam os clás-
sicos, nomeádamente o citado Luís de Sousa, na
referida Historia de S. Domingos, vol. I, pág. 38.
Bemfica deverá escrever-se Bem-fica, ou, como
escrevia o mesmo cálssico, Benfica.
Comtudo, comsigo, comtigo, tambcm já sabemos
que nao sao formas exactas. Exacto é escrever-se
contudo, contigo, consigo, formas abonadas nao só
pela Filología, se nao também pelos clássicos, es­
pecialmente Luís de Sousa, cuja obra, nesta oca-
siáo, continua aberta deante de meus olhos.
Como bem-dizer, pederíamos escrever bem-dito;
mas, verificado que bendito ou bem-dito é mera con­
tracto de benedito, que nao tem m, conclue-se que
a mais rigorosa forma da palavra é bendito, com n.
Consequéncia final: na constituido de urna
palavra, é irregular, ou antes erróneo, o emprégo
da letra m, dentro de urna palavra, antes de sí­
laba que nao comece por b, (bomba, tumba, rombo,
etc.), ou por p, (campo, tempo, limpo, etc.), ou
outro m, (emmaranhar, emmalar). ¡inmenso, immor­
tal, communicar, etc., sao fórmas legítimas, mas
inúteis. Segundo a ortografía oficial portuguesa,
temos imenso, imortal, comunicar, etc.
*

9.—Prossigamos nalei tura de Freí Luís de Sousa,


sempre fecunda em ensinamentos de varia especie.

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Pequeñas Linóes 35

Como nao sao vulgares os estudiosos, que te*


nham lazeres e ánimo para folhear detidamente os
bafientos clássicos, é talvez prestar algum servido
o registar-se sucintamente ou de relance qualquér
coisa de que, nos mesmo clássicos, é a comprova-
Qáo de seguras doutrinas e ensino sempre opor­
tuno e sao.
Restringindo-me por agora á História de S. Do­
mingos, nela vejo, além da documentado exarada
em lifoes precedentes, novas provas de muitos ta­
ctos, com que eu em tempo cheguei quase a es­
candalizar os meus contemporáneos, em-quanto
os progresses de Filología e o bom senso dos
letrados nao reforjaran! o que eram tactos da lin­
gua e o que os ingenuos e praguentos acoimavam
de novidade audaciosa.
Pelo mesmo processo, com que Luís de Sousa
escrevia contigo, Benfica, etc., também escrevia
sensatamente Alenquér, com n e nao m. O que é
mais urna valiosa abonado do que deixei escrito
ñas Lifdes Práticas, vol. I, cap. 33; Falar e Escre-
ver, vol. I, cap. 255 ; O que se nao deve dizer, vol. II,
cap. 81, e vol. III, cap. 157; assim como a gratia
Espanha, seguida por Luís de Sousa, abona o que
eu disse em O que se nao deve dizer, vol. I, 1.a
parte, cap. 22.
*

10, — Está demostrado que, assim como Tor­


quato, quaderno, etc., evolucionaran! para Torcato,

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36 Novas Reflexoes

caderno, etc., assim quatorze evolucionou para ca­


tarze, e desta forma geralmente se escreve já em
Portugal, como eu propunha ñas Lifoes Prá-
ticas, vol. III, cap. 75 e 120; O que se nao deve
dizer, vol. III, 240. Pols aínda ueste caso Luís de
Sousa está ao lado da boa escrita, escrevendo ca-
torze, (Historia de S. Domingos, vol. I, pág. 17).

11, — Na página 29 do mesmo volume lé-se:


— « Até o di a em que escrevo... »
Isto é, Freí Luís de Sousa reforja o que dei-
xei dito, em várias passagens: que a forma até o
dia, até o fi/n, até o Porto, etc., é preferivel á
mais usada : até ao dia, até ao finí, até ao Porto...
(Veja-se Falar e Escrever, vol. I, cap. 201, e vol. III,
cap. 194; Lifdes Práticas, vol. I, cap. 10 ; Problemas
da Linguagem, yol. III, cap. 21).

12. — No citado vol. I da Historia deS. Domin­


gos, escreveu-se emprender, e nao emprehender,
como escrevem hoje, geralmente.
A prática do clássico está de acordó com a
fórma de aprender, que todos usam, embora o
étimo indicasse aprehender.
Pelo mesmo processo, surprender ou sorpren­
der, como se escreve no Jornal do Comércio, do Rio,

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Pequeñas Lindes 37

seria preferivel ao usual surprehender, ou sur-


preender.
*

13. — Em Portugal, e aínda mais no Brasil, há


publicistas, que tém escrúpulos exagerados, quanto
a cacofonías.
Embora a eufonía deva agradar a todos, já
mostrei que sao mal empregados, ás vezes, aqueles
escrúpulos, (O que se nao deve dizer, vol. III,
cap. 110; Problemas da Linguagem, vol. II, cap. 11,
e vol. 111, cap. 32).
Tais exageres nao tinha Freí Luís de Sousa,
pois escrevia:
— «.. .sem outra cama mais que urna tábua».

14.— Continuemos a folhear Freí Luís de Sousa.


Há na lingua portuguesa locuQóes adverbiais
pouco usadas, mas nem por isso menos elegantes
ou menos dignas de apreso. Tal é a locuqáo por
sem dúvida, no sentido de evidentemente.
Temos, para ela, abonagáo em Freí Luís de
Sousa:
— «Por sem dúvida, podemos...» (Hist, de
S. Dom., vol. I, pág. XI).
Ocorre-me que igual locuqáo se me depa-
rou nos Apólogos Dialogáis de D. Francisco Ma­
nuel.

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38 Novas ReflexSes

15. — Quando eu estudava em Coimbra, mais


de urna vez estranhei que um lente, multo dado
a estudar clássicos, empregasse a expressáo nao
poder acabar consigo, num sentido que para mim
era novo, isto é, no sentido de resolverse.
Temo-la aquí, em Frei Luís de Sousa:
— «Nao pode acabar consigo largar o cam­
po...». (Ibidem).
— " De nenhuma maneira podia acabar consigo
ser pesado, nem dar pena a nenhuma criatura".
(Ibidem).
*

16. — Há casos morfológicos, pouco ou nada ri­


gorosos, mas de uso constante entre os antigos e
entre os modernos.
A letra x tem dado ensejo a alguns désses
casos. Assim, por exemplo, quase toda a gente
tem escrito anda, anciar, ancioso, anciedade...
Felizmente, a Filología creio que ainda veio a
tempo de mostrar que o x do latim anxietas em
caso nenhum podia passar para c, mas sim para
s, como o latim dixi passou, em portugués, para
disse, e nao dice; e boje os bons dicionários e
vocabularios já registam, á urna, ansia, ansiar,
ansioso, ansiedade,...

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Pequeñas LiqSes 39

Mas há outros casos, que sao talvez irremediá-


veis. Tal é o verbo tecer, que, provindo do latim
texere, deveria escrever-se tesser.
Certo que ninguém se atreve boje a escrever
assim. Entretanto, registe-se que Freí Luís de
Sousa escrevia exemplarmente tesser,(Ibidem,vol. I,
pág 36). Suponho, porém, que o exemplo nao fruc­
tificará.
Lembremo-nos entretanto de que os Italianos
escrevem excelentemente téssere, tessitura...

17, — É pinturesca e exacta a expressáo irmaos


inteiros, para designar filhos do mesmo pai e da
mesma mae.
Pode vér-se na Historia de S. Domingos, vol. i,
pág, 39.
*

18, — É vulgar dizer-se, e até escrever-se, como


fez Camilo: —“Já tinha passado há mais de ses-
senta anos".
É claro, porém, que ali os verbos tinha e há
nao jogam certo.
A nossa gente diz, a cada passo:
— "Nao comia há quatro dias".
— “Náa lhe falava há muito tempo".
— "Nao te via há dois meses".

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40 Novas Reflexdes

E tudo isto parece correcto, mas nao é. Corre­


cto, por menos eufónico que seja, é:
— “Nao comía, havia quatro dias”.
— “Nao lhe falava, havia muito tempo”.
— “Nao te via, havia dois meses”.
Por amor á eufonía, pederíamos antes dizer:
— “Havia dois meses que eu te nao via”.
— “Havia muito tempo que lhe nao falava”.
— “Havia quatro dias que nao comía”.
A expressáo ha quatro dias que nao comía, e
similares, sao condenadas pela prática dos bous
mestrés. Herculano, no Eurico, escreveu:
— “A raga dos Visigodos subjugara toda a Pe­
nínsula, havia mais de um sáculo”.
Freí Luís de Sousa concorda:
— “.. .contenda que havia muitos anos dura-
va”. (Hist, de S. Dom., vol. I, pág. 47).

19, — Continuemos a lér os mestres coram po­


pulo.
Como as melhores leituras nao sao as que mais
agradam ao povo, leía alguém por ele.
Hesita muita gente, e eu próprio tenho hesi­
tado, em subscrever frases como estas :
— "As finangas estáo em mau estado”.
— “Éste livro está em mau estado”.
— “Os examinandos estayam em sofrivel es­
tado”.

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Pequeñas Lindes 41

Tais frases nao seráo modelos de harmonía,


mas tém abonagáo clássica :
— «Neste estado estava Portugal...» (Hist,
de S. Dom., vol. I, pág. 50).

20. — Freí Luís de Sousa também abona a


fórma popular reprender, em vez do erudito e usual
repreender ou reprehender. (Ibidem., pág. 76).
Reprender e sorprender estáo de acórdo com o
vulgar aprender, que velo do latim apprehendere.
A fórma apreender, por fazer apreensdo, tole-
ra-se por mera conveniencia de distingo de signi­
ficado.
*

21. — Já noutros logares indique! que até o fim,


até o Porto, sao fórmas preferíveis a atéao fim,
até ao Porto, etc. Na mesma ordem de ideias, te­
mos abonaQóes de Freí Luís de Sousa.
— «Até o presente...» (Ibidem, pág. 129).
— «... o acompanhasse até o lugar». (Ibidem).

22. — Em várias passagens de livros meus,


procure! mostrar que a velha e portuguesíssima
fórma botaría é muito preferível á moderna fórma
afrancesada batería, por mais usada que esta seja.

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42 Novas Reflexóes

Como era de esperar, Freí Luís de Sousa só


escreveu bataria, e jamais batería. (Hist, de
S. Dom., vol. I, pág. 137).
*

23. — Procure! também, mais de urna vez, de­


monstrar que as expressoes casas meias construi­
das, gente meia disposta, porta meia aberta, etc.,
sao anormais, e nao sao plausíyeis; e que a nor­
mal construyo portuguesa é casas meio construi­
das, gente meio disposta, porta meio aberta, etc.
Freí Luís de Sousa está de acórdo:
— «Porta meio aberta.. .<> (Ibidem, pág. 138).1
*

24. — Escrevemos normalmente esquecer, arre-


fecer, amanhecer, etc.; e, nao obstante a identi-i

i O Sr. Carlos Góis, bem conceituado professor gina-


sial de Minas Gerais, num dos sens livros, a Sintaxe de
Concordancia, aceita por igual as duas fórmas — porta meio
aberta, e porta meia aberta, entendendo que cada urna
daquelas fórmas tem sentido diferente da outra; isto é,
meio aberta é o mesmo que pitase aberta; e meia aberta
significa metade abcrta exactamente!
Parece-me devánelo esta distingao. Alias, quando Gar­
rett falou de urna velha meia morta quererla dizer que ela
estava, por exemplo, moribunda havia 60 minutos, e mor-
ria, paseados 60 minutos precisamente.
É fantasia, ou nSo é? (Cf. Carlos Góis, Sintaxe de
Concordáncia, pág. 200).

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Pequeñas Lindes 43

dade de origens quanto ás desinencias, todos nos


temos escrito descer, florescer, nascer, crescer, etc.,
com um s que nao tem valor na pronuncia cor­
rente.
Mais sensatos e coerentes eram os nossos ve-
Ihos mestres, a tal respeito. Frei Luís de Sousa, á
sua parte, escrevia sempre decer, (Ibidem, pág. 55),
crecer, florecer, (passim).
Se o exemplo frutificasse!

25. — É vulgar depararem-se-nos, até em letra


redonda, expressóes como estas:
— «Aquele concorrente foi o melhor classifi-
cado».
— «Esta noticia foi melhór recebida que a ou-
tra».
— «O boato nao podia ser melhór engen­
drado».
Náo dou nada por tais expressóes, e já tive
ocasiáo de as rejeitar, neutros logares, (Falar e
Escrever, vol. I, cap. 52; vol. II, cap. 58), e o
grande Antonio Vieira está de acórdo comigo.
Diz ele:
—«A praqa mais bem presidiada...» (Sermoes,
vol. VI, pág. 353).
Qualquér escriba teria dito: «a praqa melhór
presidiada».
Temos, portanto: «praqa mais bem presidiada;

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44 Novas ReflexSes

«concorrente mais bem classification; «noticia mais


bem recetada»; «boato mais bem engendrado».

26. — O jeu des mots dos Franceses, que feral­


mente representamos pelo nosso trocadilho ou
coisa assim, tem tradugáo literal e portuguesís-
sima nos Sermoes de Vieira: jógo do vocábulo.
(Vol. VI, pá. 473).
O que a ingenuos poderia parecer galicismo
é afinal expressáo abonada por Vieira, que nin-
guém acusará de galicista.

27, — Toda a gente sabe que a locuqáo arti­


cular por o é substituida pela palavra pelo: «a mu-
lhér foi moría pelo marido»; «divagava pelos cam­
pos»; etc.
Quando, porém, aquele o é pronome comple­
mentar, escreve-se feralmente, e sem erro, poro:
«esforqou-se por o conseguir; desgostoso por o nao
encontrar; etc.
Entretanto nao se diga que é erro escrever-se:
«esforqou-se pelo conseguir»; desgostoso pelo nao
encontrar»; etc.
A prova, temo-la em Vieira:
— «Davam grasas a Deus pelos ter escolhido».
(Sermoes, vol. VI, pág. 531).

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Pequeñas Li?5es 45

28. — Vieira tem urna frase que, se fósse es­


crita por outrem, seria acoimada de erro grama­
tical por muita gente. Vem nos Sermoes, vol. Vi,
pág. 537, e reza assim :
«Isto é o melhór e o mais melhór«.
É exemplo que foge á regra da composite
dos comparativos, mas é de Vieira.

29.— Todos nós, perante a expressáo todo po­


deroso, formaríamos o plural todos poderosas.
Vieira, porém, considerando palavra composta
aqueles dois elementos, formou o plural de outra
maneira. Diz ele:
—“Os todo-poderosos do mundo...« (Sermoes,
vol. VI, pág. 309).
É liqao que se nao deve perder de vista.

30. — Modernamente, adoptou-se aposposiqáo


do artigo o, a, os, as, ao pronome todo, toda, to­
dos, todas, sem excepQáo: toda a parte, todo o
mundo, todo o caso, etc.
A éste respeito, já tornei sensível a convenien­
cia de se fazer distinqáo, como a faziam os clás-
sicos e como a fazem os Franceses; isto é, quando

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46 Novas Reflexoes

todo corresponde a qualquér, dispensa-se o artigo:


em todo caso, em toda parte, etc.; quando todo
corresponde a inteiro, é seguido do artigo: toda
a napao, todo o Brasil, etc. (Veja-se Faiar e Es-
crever, vol. I, cap. 96; Problemas da Linguagem,
vol. III, cap. 21; O que se nao deve dizer, vol. III,
cap. 153).
Esta é a doutrina e a prática dos clássicos; e
Vieira, abonando-a a cada passo, chega a nao fa-
zer distinqáo entre os dois referidos casos. Só no
vol. VI dos Serinoes, podemos aproveitar, entre ou-
tros, os séguintes exemplos:
—«Em todas suas principáis circunstancias..."
(Pág. 94).
—"Que toda Europa a servisse á mesa...’’
(Pág. 110).
—.. com todo seu poder”. (Ibidem),
—"E toda sua fazenda..(Pág. 147).
—"Todos seus ministros..." (Pág. 148).
—"Todos seus exércitos..(Pág. 152).
—"... de todos seus pecados”. (Pág. 465).
E aínda há quem estranhe que eu escreva sem-
pre: em todo caso... e jamais em todo o caso...
Paciencia.
*

31.— Todos nós dizemos "o povo belga”, “a


naqáo belga”, etc.
Note-se, porém, que Vieira autoriza o adjectivo

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Pequeñas Linóes 47

bélgico, pois que pelo menos nos Sermoes, vol. VI,


pág. 108, fala do ledo bélgico...
Junte-se, pois, mais éste adjectivo ao tesoiro
da lingua, e nao hesitemos em reconhecer o valor
bélgico, as desgragas bélgicas...

33. — Todos conhecem, no Brasil pelo menos,


o nome próprio Sergipe. Mas o Padre Antonio
Vieira, que conheceu o Brasil, quando muitos no-
mes geográficos aínda ali eram de formagáo
recente, escreveu Cerigipe, (Sermoes, vol. VI,
pág. 108).
Nao tenho á máo elementos para avallar qual
das duas fórmas corresponde melhór ás origens
do vocábulo ou á verdadeira pronuncia quinhen-
tista da respectiva fonte tupi.
Os homens letrados do Brasil mais fácilmente
saberáo deslindar o caso.
O que é positivo é que, entre os Portugueses
do tempo de Vieira, a sílaba Ser nao soava como
Cer; donde eu concilio que, se o grande orador
lá tivesse ouvido Ser..., nao escreveria Cer... A
confusáo das duas iniciáis, quanto ao seu valor
fonético, é relativamente moderna.
Em suma, ai fica enunciado um pequenino
problema do onomástico brasileiro, e resolva-o
quem nao saiba táo pouco como eu.

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48 Novas Reflexdes

34. — É correntíssimo o vocábulo desastrado,


no sentido de desajeitado ou desmazelado. Como,
porém, eu visse que o Filinto, o Castilho e o Gar­
rett preferiam a fórma desestrado, por suporem
que o termo se relacionaría melhór com estro,
do que com desastre, inclinei-me um pouco a
éste parecer, na 1.a edigáo do meu Novo Dicio-
nário.
Gonsalves Viana, ñas suas excelentes Aposti­
las aos Dicionáríos, divergindo do meu conceito,
tratou largamente de justificar a fórma usual, de­
sastrado; e, pela sua autoridade e pelas suas ra-
zóes, abalou a minha crenga na outra fórma, como
se póde ver na 2.a edigáo do Dícionário.
Urna das razóes principáis, aduzidas pelo emi­
nente glotólogo, é que a fórma desestrado nao tem
abonagáo mais antiga que a de Filinto e Garrett.
Nao aviverei, nesta meia dúzia de linhas, um
problema, que daría urna dissertagáo, mas de re­
lance, notarei que aquela razáo do respeitável filó­
logo tem contra si um facto, que vou registar.
Dois sáculos antes de Filinto e Garrett, já o
grande António Viéira, no volume VI dos seus
Sermoes, pág. 343, coluna 1.a, in fine, (e di gao de
1690), escrevia:
«Éste foi o desestrado fim de Olio fern es..
Creio que vale alguina coisa esta abonagáo, —

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Pequeñas LiqOes 49

o que nao significa, certamente, que valham pouco


as razóes do sábio autor das Apostilas.
Visto referir-me a Gongalves Viana, nao sei
cerrar estas linhas, sem deixar registado que o
eruditíssimo académico, falecido há pouco, lan-
sou pesado e perdúravel luto ñas letras portugue­
sas, e a mais entranhada magua em quantos o
conheceram de perto.
Ácérca dos seus trabalhos lingüísticos, já nin-
guém dará novidade, táo conhecidos e acatados
éles sao, nao só onde quér que se fale a lingua
portuguesa, senáo também ñas mais cultas agremia­
res scientíticas do velho e do novo mundo. Mas
do seu boníssimo carácter nunca será demais di-
zer-se que raramente, num homem de cerebro táo
opulento, terá pulsado táo grande, táo nobre e
táo generoso coraqáo.
Náo conheceu vaidades. Ensinava quanto sabia
a quantos o procuravam. Desadorava os reclamos,
e evitava sistemáticamente a fácil notoriedade, táo
dilecta dos seus contemporáneos. Só, sem fami­
lia, vivía entre os seus livros e junto déles expi-
rou.
Como náo fez testamento e como náo tinha
herdeiros próximos, Urnas parentas remotas arre-
cadaram e venderam em Ieiláo a sua riquíssima
e preciosa livraria, — seus únicos haveres; —e o
grande filólogo, glória das nossas letras, foi ati­
rado indiferentemente para urna vala, no pobre
cemitério de Benfica, nos aros de Lisboa.
4

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50 Novas ReflexSes

Se algúns amigos nao puserem ali urna pedra


ao menos, com um nome e urna data, nao saberáo
os nossos filhos onde foi descansar o grande tra­
bajador, que consagrou a sua vida e a sua lumi­
nosa inteligencia ao estudo dos vastos problemas
que mais interessam á lingua portuguesa.
É certo, porém, que o mais doradoiro monu­
mento da sua passagem pela terra sao os seus
livros, e éles diráo a nossos filhos e a nossos ne­
tos quanta veneragao lhes merece o inextinguí-
vel nome de Gonsalves Viana.

35. — Como é sabido, consideram-se sinónimas


as conjungóes adversativas mas, porém, todavía,
contado; e por isso alguns letrados, presumindo
de rectas-pronuncias, estranham que o vulgo diga
ou escreva ás vezes, conjuntamente; mas porém...;
ou mas contado; ou contado porém.
Essa estranheza talvez desapareja, quando se
saiba que os mestres da lingua abonara o emprego
conjunto de duas daquelas conjungóes.
Véjam-se ao menos os seguintes textos:
— «Mas todavía nao é concedido...» (M. Ber­
nardos, Luz e Calor, pág. 144, edigáo de 1758).
— «Mas contudo...» (Bernardim Ribeiro, Me­
nina e Mofa, cap. V, e passim).
— «Mas porém déste desterro, que tu cá tra­
zos contigo de ti saber o espero». (Sá de Miranda).

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Pequeñas LipSes 51

36. — Parece-me que já citei anteriormente al-


guns textos clássicos, em que o adjetivo todo se
nos depara, sem que seja seguido do artigo o,
como é hoje vulgar.
Aínda aquí tenho mais alguns exemplos:
— «De sorté que todos meus pensamentos.. .<>
(Bernardas, Luz e Calor, pág. 620).
— «Aquí vos mostro... todas minhas chagas».
(Ibidem, pág. 609).
— «... e te dedico todos meus afectos,,. (Ibi­
dem, pág. 578).
— «Quam magníficas e bem ordenadas sao,
Senhor, todas vossas obras,,! (Ibidem, pág. 556).
—.. e o mundo, com todas suas cousas.. .„
(Ibidem, pág. 547).
— "Em todas minhas obras nao acho mais.. .„
(Ibidem, pág. 110).
— "nao responderam a todas suas preguntas,,.
(Ibidem).
— "... repousam, com todos sens afectos do
seu peito amoroso,,, (¡bidem).
— "Aínda que percas todos tens santos exer-
cícios...,, (Ibidem, pág. 259).
— "Os peregrinos de toda África..(Ibidem,
pág. 366).
— "Éste Senhor a todas suas criaturas ama...,,
(Ibidem, pág. 448).
A estas passagens de Bernardos juntemos ou-

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52 Novas Reflexdes

tra de António Galváo, no seu Tratado dos Des-


cobrimentos:
— . hü mapamudo que tinha todo ámbito
da térra».

37. — Alguna glotólogos insistem em que a


partícula no, na, nos, ñas, é urna antiga fórma arti­
cular. Instintivamente, entendí sempre que, além
do artigo, está ali representada urna preposiqáo
de lugar, correspondendo aquelas a est’outras; em
o, em a, em os, em as.
Bern se sabe que em o nao podia produzir no:
mas também se deve saber que a preposiqáo em,
no portugués galiziano, se escrevia en, como inda
boje no castelhano.
Ora, assim como boje o n final castelhano tere
a vogal ¡mediata (compare-se con ellos—conelhos),
o nosso en arcaico feria a vogal seguinte, por
fórma que en o necessáriamente se lia eno, e esta
fórma, evolucionando, e deixando cair a primeira
letra, por afórese, naturalmente se converteu
em no.
Se provarmos que os antigos, deixando de es-
crever separadamente en o, fundiram os dois ele­
mentos numa só palavra, representando com ela
o que boje representamos por no, parece ficar de­
monstrado que aquela partícula, com as suas fie-

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Pequeñas LipGes 53

xoes (na, nos, ñas), é a junga© da antiga prepo-


sigáo en com o artigo o e suas flexdes, jungáo
que sofreu a aférese do e.
Para se obter essa prova, nao será mistér largo
estudo.No Arquivo da Torre do Tombo, (Livro III
de D. Dinís) póde Iér-se:
hua adega có saas cubas que tinha ena
villa...
Na villa é que se escreveria boje; mas quem
escreveu aquilo quería dizer a mesma coisa, escre-
vendo como entáo se pronunciava, e evidenciou
que a preposigáo en entrou, como elemento, na
formagáo de ena, e portanto na formagáo de na,
no, ñas, nos.
Ou eu nada percebo.

88. — Considerara geralmente espanholismo a


locugáo adverbial de verdade, usada especialmente
em tauromaquia.
Descansem, porém, os tímidos, que a expres-
sáo é portuguesa e clássica. Tenho-a aqui, mais de
urna vez, na Luz e Calor do admirável oratoriano
Manuel Bernardes:
— " ... que ama a seu próximo de verdade».
(Pag. 56, edigáo de 1758).
—" Aquele que de verdade ama o seu ami­
go...». (Pág. 96).

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54 Novas ReflexSes

39. — Em materia de concordancia, esfalfam-se


os gramáticos em formular regras, que muita vez
sao contrariadas pela prática dos mestres.
Se um aluno de qualquér professor de portu­
gués escrevesse esta frase: — "Bern se deixa ver
as diligencias que se fariam», — o professor natu­
ralmente apontaria um erro palmar de concordan­
cia : deixa, por deixam.
E contado o autor daquela frase é nada me­
nos que o grande Vieira, (Sermoes, vol. VI,
pág. 136).
A respeito de concordancia irregular ou laten­
te, ocorre-me também um sugestivo exemplo de
Bulháo Pato:
«... á minha madrinha
Que é Nossa Senhora,
Ir a gente juntos
E rezar-lhe agora».

Com esta concordancia gente juntos tém grande


snalogia os seguintee exemplos do velho cronista
Fernáo Lopes:
•—" Vieram de Castela com ele multa gente de
Franceses...» (Cro'n. de D. Joño I).
... e esta gente de armas traziam graves
com pendoes». (Ibidem).
Sabe-se que os gramáticos deitam estas coi­
sas á conta de names colectivos; mas nem por

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Pequeñas Li?3es 55

isso os factos sao menos dignos de ponderado,


tanto éles aberrara das regras decretadas. E a ver-
dade é que o citado exemplo de Vieira nada tera
cora os colectivos, exactamente como éste exem­
plo de Camilo:
— "Que me importa a mira espides?" (Bruxa
de Monte Córdova, 1.a parte, cap, V).
Está próximamente no mesmo caso éste exem­
plo de Castilho:
— "Para a concordancia dos termos entre si,
foi sempre necessário a gramática». (Sabichonas,
pág. 160).
Estas e outras anormalidades sintáticas de-
vem pór-nos de sobre-aviso, para nao julgarmos
de leve as fraquezas gramaticais do nosso pró­
ximo. ..
*

40. — Sustenta multo bóa gente que o pro-


nome quem só se refere a pessóas. Nao é, porém,
difícil extraír dos clássicos a prova de que tal
pronome também se pode referir a coisas.
Já no volume III da obra Fular e Escrever, ca­
pítulo 207, aduzi varios textos, justificativos da
referencia do pronome quem a coisas, e boje posso
aduzir mais um, colhido nos Lusíadas, canto IX,
estancia 68. Diz assim:

«Comefam de enxergar súbitamente


Por entre verdes ramos varias cores,
Cores, de quem a vista julga e sente
Que nao eram das rosas ou das flores.

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56 Novas ReflexSes

Como se ve, o quern destes versos refere-se a


cores, e nao a pessoas.

41. — Toda a gente tem visto qualquér coisa


feita em pedagos. Está, porém, muito longe de ser
pretensiosa a expressáo feita pedagos. É até cías-
sica. Basta ver Frei Luís de Sousa, na Historia de
5. Domingos, volume I, onde, a pág. 185, se tala
de um vaso feito pedagos. Na pág. 70, pode vér-se
exemplo análogo.

42, — já tive ocasiao de mostrar que resposta e


reposta sao duas fórmas legítimas.
A reposta, embora desusada na escrita mo­
derna, é aínda corrente no talar de grande parte
do povo portugués. Nada se perde em documen­
tar o valor clássico da reposta.
Póde vér-se, por exemplo, em Vieira, Sermoes,
6. a parte, (ediqáo de 1690), pág. 76, 83, 99, 140,
186, 276, 305, etc.
Em Bernardes, Luz e Calor, (ediqáo de 1758),
pág. 210, lé-se:
— "Muito vos dilatastes nesta reposta”.
E, mais adiante, pág. 432, também se lé:
— “Teve do Senhor a seguinte reposta".
Entre os nossos gramáticos modernos, apenas

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Pequeñas Linóes 57

um, que eu saiba, prefere a reposta á resposta, ba­


scado na própria etimología do vocábulo, pare-
cendo que a usual resposta é deturpaqáo, produ-
zida por influencia do verbo responder, cuja origem
aliás nada tem com a da resposta.
Notare! aínda a circunstancia de que a reposta,
além de ser corrente na linguagem do povo por­
tugués, é também usada por grande parte do povo
brasileiro. Pelo menos, segundo me comunicou há
anos o Sr. Dr. Alcides Cruz, a reposta é usual no
Rio-Grande-do-Sul.

43. — Correntemente, os casos oblíquos dos


pronomes pessoais sao regidos de prepósito: de
mim, por si, para ti...
Entretanto, desde os meus tempos de crianza,
impressionou-me sempre o facto de o povo das
provincias antepór conjunto áqueles pronomes,
embora algumas vezes junte ás conjuntes a pre­
pósito a. Por exemplo:
— "Sou táo gordo com’a ti".
— “Se fósses com'a mim, envergonhavas-te''.
Mal supunha eu que nos velhos mestres da
lingua havia de encontrar ao depois linguagem
abonatória daquele (alar do meu povo. Vejam-se,
ao menos, os seguintes textos:
— "Verdaderamente nhum ha como ti”. (Sa­
muel Usque, Tribuíales de Israel, fol. 37, v.)

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58 Novas ReflexSes

— “Elas ninguém querem melhór que si”.


(Jorge Ferreira, Eufrosina, pág. 146).
— "Casemo-nos: eu e ti". (Gil Vicente, Obras,
vol. I, pág. 140, edicáo de Hamburgo).
— "Porque tal fui com'a ti". (Idem).
Parece, portanto, que estas fórmas, boje irre­
gulares, já foram regulares, sendo por isso res-
peitáveis os vestigios que délas ficaram na lin-
guagem popular.

44.— Todos entre nós escrevem pároco e pa-


róquia, com um só r, á semelhanqa da fórmalatina,
e é costume estranhar-se que, na linguagem do
povo, se oiga a cada hora a pronuncia párroco e
parroquia...
No italiano algumas vezes se escreve pároco,
com um só r, mas a escrita corrente é párroco e
parróquia (com dois rr); e no castelhano só se
conhece a fórma párroco, parróquia, (com r duplo).
Isto já nos bastarla para que nao estranhásse-
mos e, sobretudo para que nao censurássemos, o
linguajar do povo a tal repeito, visto que nao
podemos censurar a fórma espanhola, pertencente
á lingua mais irman da nossa.
Provável é até que a gente culta, entre os
nossos avós, prounciasse, como os Espanhóis,/?¿/*-
roco, e que alguns presumidos latinistas julgassem
acertado escrever com um só r a palavra que to-

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Pequeñas Lipdes 59

dos pronunciavam com dois; e déste conceito


viria naturalmente o difundir-se entre a gente de
letras gordas e magras a pronuncia de pároco,
com r simples, conforme a escrita.
E a prova de que os nossos antigos conhe-
ciam e praticavam, como os Eespanhóis, a forma
parroquia (com dois rr), é vérmo-la nós, por
exemplo, no grande Vieira, (Sermoes, vol. VI,
pág. 545).
E nao se diga que é fórma antiquada, por tér
a abonaqáo de um clássico do século XVII; em
tempos muio mais próximos de nós, houve outro
mestre que empregou a mesma fórma: foi Filinto
Elisio, no volume V das suas obras, pág, 11, (edi-
qáo rolandiana).
Se mais procurarmos, mais acharemos.
Resumindo: tem o povo boas escoras para se
convencer de que nao fala mal quando diz párroco
e parroquia.
*

45. —É sabido que alguns gramáticos e outros


letrados nao reconhecem a legitimidade da popu-
laríssima expressáo: eu parece-me.
Já lá váo 25 anos depois que eu, pela primeira
vez, ousei defender a legitimidade daquela expres­
sáo, contra o desassisado parecer do bom Silva
Túlio, e verifiquei que Latino Coelho tinha opi­
nado como eu.

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60 Novas ReflexSes

Julio Ribeiro e Joáo Ribeiro singraram no


mesmo rumo; e, nao obstante, Rui Barbosa aínda
julgou conveniente referir-se ao caso, fortificando
o seu parecer, que é de Latino e dos dois gramá­
ticos citados, com varios textos, de construyo
análoga.
Entretanto, perante a boa doutrina, aínda nao
deixou de haver herejes, e convém que os haja:
opportet haereses esse; e, embora os textos cita­
dos na Réplica de Rui Barbosa, (pág. 64, nota),
tenham, pela sua analogía, a maiór fórqa pro-
bativa, poderáo os heresiarcas pretextar a sua
impenitencia com o facto de naqueles textos nao
aparecerem expresamente estas palavras: eu pa-
rece-me.
Pois bem. Nao se váo sem resposta os herejes,
porque a temos aqui á máo.
— "Tudo! Quem sabe? Eu parece-me que nao».
(Garrett, Frei Luís de Sousa).
Para quem ve claro, já nao seria preciso éste
argumento de autoridade; mas, para quem tem
vista curta, nao há nada como pór-lhe as coisas
bem perto dos olhos.

46. — As modificares, que se tem dado em


nossa lingua através dos sáculos, referem-se espe­
cialmente á semántica, isto é, á variaqáo do sen­
tido dos vacábulos, e também á morfología, isto

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Pequeñas Li<?5es 61

é, á formagáo e á aquisiqao de termos novos e


ao desuso de muitos outros.
Quanto á sintaxe, póde-se dizer que, em ge-
ral, ela é o que sempre foi. Mas notam-se ás ve-
zes alterares, que, longe de desabonar a prática
e o conceito de nossos avós, demonstram neles
alguma razio e coerencia.
Como se sabe, aínda que ninguém tivesse lido
o volume que consagre! á colocaQüo de pronomes,
há palavras e frases, que tornam proclíticos os
pronomes pessoais, objectivos e terminativos, isto
e, atraem-nos para si, antes do verbo. Por isso,
dizemos, por exemplo, o que me contaram, e nao
o que contaram-me».
Póde, entre as palavras atraídas e a que atrai,
surgir urna expressáo, como ueste caso:
— "Eis o que nessa hora me acontecen».
Nesta hipótese, boje, já nos satisfazemos
com que o pronome relativo torne proclítico o
pronome pessoal, para nao dizermos incorrecta­
mente:
— "Eis o que nessa hora aconteceu-me».
Mas, para a generalidade dos nossos mestres
antigos, nao bastava o que hoje nos basta, e fa-
ziam que, naquele exemplo, o relativo que atraísse
directamente o me, sem interposiqao de outra ou
outras palavras, escrevendo, portanto:
— "Eis o que me nessa hora acontecen».
O nosso ouvido estranha talvez esta constru­
yo, que alias se estriba rigorósamente na fór?a

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62 Novas ReflexSes

atractiva do pronome que. Entretanto, tal cons­


truyo é copiósamente abonada pela prática dos
velhos mestres. Por exemplo:
—"... de como se El Rey foi a Santarem».
(Rui de Pina, Crón. Af. V. cap. 55).
— “... a quem vos táo boas novas traz».(Fer-
náo Lopes, Crón. de Joao I).
— "... até que a forqa lhe de todo faleceu».
(Azurara, Crón. de D. P. de Menezes).
— . as quais armas, que lhe per o dito se-
nhor dadas foram...» (Chancelaria de Af. V, L.
10, fl. 75).
— "... dois vintens que lhe hoje o cura em-
prestou». (Gil Vicente, Farelos).
—11... Sinal que lhe na ceia oSenhordera...»
(Curvo Semedo).
— "E como tal coisa ouvi, logo me este mal
doeu». (Sá de Miranda).
—"... como se na Chronica de El Rey dom
Alfonso quinto contém». (Damiáo de Goes, Crón.
de D. Man.. II, 22).
—"... de que se tanto esperava». (Ibidem,
prólogo).
— "... como se ao deante verá». (Ibidem, II, 9).
—"... da qual se el Rei dom Emanuel depois
serviu». (Ibidem, 17).
— "... a perda que se disse hayia de seguir».
(Ibidem, 28).
— "... a mercé que lhe Déos tinha Ibi­
dem, 30.)

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Pequeñas Lindes 63

— donde se Dom Rodrigo de Monsanto


tornou pera Tánger». (Ibidem).
—"... do que se nisso passou». (Ibidem,).
— "Depots que se esta escaramuza acabou...»
(Ibidem, 34).
— "Posto que se agora chame...» (Ibi­
dem, 47).
—"... onde Ibes os parentes váo dar prolfaga».
(Ibidem, 32).
E, se vos admiráis..., ficai também sabendo
que o próprio Castilho, um dos raríssimos escri­
tores modernos que poderáo pleitear vernaculi-
dade com Vieira e Bernardes, escreveu isto no
proemio da sua tradugáo das Palavras de um
Create.
— a... trabalhos de consciencia, de que me
só vieram muitas penas e amarguras».
Donde se conclue, mais urna vez, que a torga
atractiva de certas palavras nao é urna lenda,
como supóem os passa-culpas e os arautos do
arbitrio; e que os velhos mestres, quanto ao em­
prego dos pronomés proclíticos, eram sem dúvida
mais exigentes que os pobres lingüistas de hoje...

47. — Sabe-se que o verbo jogar, no sentido


de fazer qualquér jogo recreativo ou sugerido por
interesse, é normalmente transitivo, isto é, o seu

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64 Novas ReflexSes

complemento nao é precedido de preposiQáo: jo­


gar as cartas, jogar a pela, jogar o gamao...
Entretanto, na linguagem corrente, nao é raro
deparar-se-nos o verbo, na mesma acepqáo, se­
guido da preposigáo a, contraida com o artigo a,
ou agrupada com o artigo o: — Jogar ás escondi­
das; jogar ao gamao; jogar ás cartas...
Há quem duvide da exactidáo destas constru­
yes; mas a verdade é que, além de serem popu­
lares, e portanto portuguesas, sao abonadas por
autoridades indiscutíveis. Exemplo:
— "Jogam com éles á pela». (Luz e Calor,
pág. 24, ed. de 1758).
— "S. Francisco Xavier jogava ás cartas».
(Pág.126).
E já que tenho na máos a admirável Luz e Calor
de Manuel Bernardes, apraz-me registar algumas
formas de linguagem, que nao andam na boca de
todos e que contudo sao oiro sem liga. Assim:
— "De sorte que todos meus pensamentos...»
(Pág. 620).
— «Aquí vos mostró todas minhas chagas...»
(Pág. 609).
— "E te dedico todos meus afectos». (Pág. 578).
— "E o mundo com todas suas cousas...»
(Pág. 547).
— "Nao responderáo a todas suas preguntas”.
(Pág. 140).
— "Repousam com todos seus afectos...»
(Pág. 192).

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Pequeñas Lindes 65

— "Aínda que percas todos teas santos exercí-


cios». (Pag. 259).
— «Os peregrinos de toda África». (Pá­
gina 366).
— "Mas era todo tempo se guardou.(Pá­
gina 379).
— "Éste Senhor a todas suas criaturas ama».
(Pág. 448).
Os clássicos, era geral, singram ñas raesraas
águas...
A expressáo até o, era vez da hoje usual até
ao, é tambéra abonada copiosamente pelo vene-
rável oratoriano:
— "Hei de resistir até o último alentó». (Pá­
gina 513).
—"... vai da redondeza da ter ra até o firma­
mento». (Pág.459).
— "Tomarei contas até a presente hora». (Pá­
gina 20).
— "Desde os trinta anos atéoiim da sua vida».
(Pág. 28).
— "Temos chegado até a poténcia do entendi-
raento». (Pág. 31).
— "E até o tira do mundo...» (Pág. 115).
Basta.
Vejamos agora como se prova que o substan­
tivo virgem é de dois géneros...
O velho Azurara, na sua Conquista da Guiñé,
afirmou que ó infante D. Henrique morrera vir­
gem; e Manuel Bernardes, com razdes cértamente
5

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66 Novas ReflexSes

mais plausíveis que as de Azurara, disse, refe-


rindo-se a Jesus:
— "Vós fostes puríssimo virgem...» (Pág. 604).

Multa gente, nao se contentando de tér mu­


tilado a boa fórma quere, timbra em estender a
mutilaqáo até o verbo requerer, escrevendo geral-
mente ele requer,' tm vez de ele requere.
Pois o nosso Bernardes também protesta con­
tra a mutilaQáo, pois escrévia porque requere.. .
(Pág. 471).*
*

Todos sabem o que é morar paredes meias com


alguém. Mas náo é menos elegante éste frasear de
Bernardes:
— «Vizinho e morador de parede meia». (Pá­
gina 151).
*

Como muitos escrevem separadamente os dois


termos da locuqáo éste outro, ésse outro, sucede
que também os deixam separados, quando se fórma
o plural, (estes outros, ésses outros,). Vejamos,
porém, a boa prática de Bernardes:
— "Se destoutro ócio que acabo de explicar...»
(Pág. 167).
— "Finalmente, essoutras almas...» (Pág. 150).

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Pequeñas Lifoes 67

E muito mais se nos depararía aínda, se pudés-


semos observar o preceito do mestre, contido
nesta sua hela frase:
— "Olha mais de fito, e acharás». (Pág. 117).

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Ill

Intemerata

Deparam-se-nos ás vezes, em letra redonda,


erros quase inacréditáveis e, ao mesmo tempo,
táo vulgares, que bem Ibes pederíamos chamar
erros clássicos, se a classificagáo nao fósse depre-
ciativa para os mestres que tais erros nao subscre-
vem.
Agora mesmo, ao lér a página 15 do belo e re­
cente livro do Sr. Dr. Aloísio de Castro, Novas
Alocugdes Académicas, a minha atenqáo é chamada
involuntariamente pelo autor para um daqueles
erros.
Todos sabem, pelo menos no Brasil, que o
Sr. Aloísio de Castro, fluente escritor e Director
da Faculdade de Medicina do Rio-de-Janeiro, man-
tém galhardamente as honrosas tradiqóes de seu
pai, o Dr. Francisco de Castro, cuja competencia
scientífica rivalizava com a sua competencia Uteri­
na; e por isso estas Alocugdes, na sóbria elegan­
cia da sua eleqüéncia académica, sáo testemunho
brilhante de um homem de sciéncia, ao mesmo

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Intenierato 69

tempo hornera de letras. Algumas das suas pá­


ginas me despertara afectuosas recordares: sao
as que o autor consagrou ao venerando antropó­
logo e literato italiano, Paulo Mantegazza, que
me destinguiu com a sua benevolencia, e de quera
fui o primeiro traductor em Portugal, (Problema
do Casamento, Fisiología do Amor, Fisiología da
Malher). Outras páginas, como a referente á Medi­
cina ñas letras clássicas, evidenciara leituras varia­
das, bora gósto e arte; e todas elas dáo relevo á
simpática personalidade do Director da Faculdade
de Medicina do Rio-de-Janeiro.
Mas dizia eu que o autor rae chamou invo­
luntariamente a atenqáo para o habitual e erróneo
emprégo do vocábulo intemerato. Pelo menos, na
ira prensa periódica da minha terra, e até nalguns
livros, tenho visto, dezenas de vezes, o termo in­
temerata cora urna significado que éle nunca teve
ñera pode tér. Por exemplo:
— "Regressaram da África os nossos intemera-
tos expedicionários...»
- — "A Academia de Sciéncias de Lisboa cele­
bren o aniversário da morte de Albuquerque, o
intemerato conquistador de Góa».
— "Éste jornalista é realmente ura Iutador in­
temerato..."
Como se vé, os respectivos escribas imaginara
que intemerato significa o mesrao que desterrado,
intrépido, valente. Imaginado, apenas.
Intemerato, se o latinismo é permitido, nao

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70 Novas Reflexóes

póde significar senáo puro, imaculado, incorruptí-


vel... Em Vergílio, Tácito, etc., nunca o latim
intemeratus significou outra coisa. Vergílio, por
exemplo, no segundo livro da Eneida, fala-nos da
intemerata fides, (fé pura).
Ora, a disparatada significado de intrépido,
destemido, nao se justifica, mas explica-se. Como
temos o adjectivo timorato, seria lícito o seu antó­
nimo intimorato, e até entre os clássicos se encon­
tra intimorado, evoluQao do hipotético intimorato.
Mas, como esta forma dá aos ingénuos a aparea­
da de intemerato, nao estiveram com ceremónias,
tomaram a nuvem por Juno, e desataram a ser-
vir-se de intemerato, como se significasse o mesmo
que intimorato.
Aínda assim, o Sr. Dr. Aloísio de Castro,
usando da expressáo tonga missüo de trabalho in­
temerato, talvez nao quisesse adoptar o significado
erróneo de esforfado, vigoroso, e antes tivesse em
mira falar de trabalho nobre, sem mancha, apro­
ximándole, em tal caso, da genuína significado
do vocábulo.
Mas, dado que também ele escorregasse na-
quela casca de laranja, nao vale a pena descon­
solarle multo, desde que soubér que o próprio
Camilo, num dos seus momentos de soñolencia,
empregou intemerato no sentido de valente, na sua
Boémia de Espirito, pág. 213.
Solatium est miseris..,

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IV

Transformares vocabularcs

Por motivos de varia especie, independente-


inente da natural evolugáo vocabular, numerosas
palavras portuguesas tém sotrido na sua estrutura
essenciais modificagóes, que as desviara do seu res­
pectivo étimo.
Muitas dessas modificagóes ou transformagóes
consistem num fenómeno, que os gramáticos cha­
mara metátese, e que é, como se sabe, a transposi-
gáo de letras, dentro de urna palavra, ou num
grupo de palavras.
Quando os rapazes do meu tempo,referindo-se
ao comediógrafo Gervasio Lobato, lhe chamavam
facetamente Qervato Lobásio, faziam metátese, por
brincadeira; mas o povo, muito a serio e sera dar
por isso, tem realizado, através dos tempos, inu-
meráveis metáteses, que sao tactos da lingua e
que baldadamente procuraríamos corrigir.
Assim, o latim crepare prodüziu naturalmente,
em portugués, crebar; mas a fonética popular des-
locou o primeiro r para depois do b, e formou
quebrar.

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72 Novas Refle.xdes

Temos o latim ténerum, que produziu tenro, ein


portugués; mas o tenro, nao deixando alias de
existir, como suceden ao crebar, determinou a for-
maqáo de outra palavra, pela inversáo das duas le­
tras nr: temo; com a curiosa circunstancia de que
os dois vacábulos, tenro e temo, tendo alias a
mesma origem, significam boje coisas diferentes.
É o que se dá, pouco mais ao menos, com mu­
ladar e muradal. A forma primitiva, portuguesa
e castelhana, é muradal, (monte de caliqa, entulho);
e a permuta de duas letras produziu muladar,
imonturo, esterqueira). Para éste significado con-
tribuiu talvez a ingenuidade dos nossos diciona-
ristas, os quais supunham muladar um derivado
de muía !
Todos nos escrevemos primeiro, que primiti­
vamente foi primairo, metátese de primário, que
é a fórma original, em que a vogal tónica, segundo
Diez, atraiu a vogal átona seguinte. E assim
rio produziu a fórma vulgar vigairo, donde se
deriva vigairariá. Moje, raramente se ouvirá vi­
gairo, mas a vigairaria ficou.
Compare-se desvairar, e seus derivados, sim­
ples metátese de desvariar, e da qual se derivou
o desvairo, que era fórma clássica.1
O latim mérulum deu, em portugués, merlo,

1 Segundo A. A. Cortesao, vário < vairo < desvairo


< desvairar.

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Transformacdes vocabulares 73

que caiu em desuso. O que se usa é melro, trans­


formado metatética de melro, embora no Algarve
se oíQa merlo.
O termo antigo masturgo, derivado do latim
/nasturtium, foi transformado em rnastrugo, que é
o que se usa boje.
O estrepe tem deslocado o r, porque, vindo
do italiano sterpo, deveria ser esterpe ou esterpo.
O milagre, se nao tivesse sofrido metálese, se­
ria miragle, francés miracle, do latim miráculum.1
A andorinha seria arundinha, mas ha aquí
talvez um fundo de etimología popular: andar.
A parábola tranformou-se em palábora, para
produzir o vocábulo palavra.1 2
O antigo cancrejo, (castelhano cangrejo), passou
para cranguejo e, depois, para caranguejo. O povo
algarvio aínda diz cancrejo.
O latim palude produziu, por metálese, o
baixo latim padule, donde o nome paúl.
Gairar é transformado de garlar, do latim
garrulare.
O latim pigritia deu naturalmente pegriga;
mas, com a deslocado do r, o que temos é pre-
guiga.
Nao deixam de sér interessantes as evoluQdes

1 No portugués arcaico, houve miragre, que, por dissi-


milapáo, poderla produzir milagre.
2 Para A. A. Cortesa®, (Subsidios), parábola < para­
vola < paravra < palavra, dissimilado do primeiro r,

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74 Novas ReflexOes

que se realizaram, antes de se fixar o vocábulo


renda, (obra de mal ha). Do latim rete (rede) saiu
a forma hipotética rétina, que produziu, em por­
tugués, rédena. Da transposigáo recíproca do n
e d, resultou réneda, que pela queda do segundo
e, nos deu renda.
O reíros, na sua origem, tinha o r depois do
o, (latim re-torsus); hoje tem-no antes do o, (re­
irás).
Agora a roldana.
Do latim rótula (pequeña roda) velo o deri­
vado ficticio rotulana, que devia produzir rodu-
lana. A rodulana sofreu metálese ou transposiqáo
de consoantes, ficando transformada em roludana;
e a roludana, deixando caír o u, ficou roldana,
pelo menos no castelhano, donde talvez nos veio
o termo.
Veja-se também a taipa, que é o castelhano
tápia, com a deslocado do i.
O grupo inicial latino pl produziu normal­
mente o grupo portugués ch. Assim plaga deu
chaga; plorare deu chorar; plenum deu cheio;
planum deu chao; plumbum deu chumbo; pluvia
deu chuva; e plantare deu chantar, (plantar de es­
taca). Sucede, porém, que o portugués chantar
produziu por seu turno, metatéticamente, outra
forma portuguesa, tanchar (plantar), que tem va­
rios derivados (tanchao, tanchoeira, etc.); isto é,
tanchar é transformado portuguesa de outra fór-
ina, também portuguesa, chantar.

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Transforrnacóes vocabulares 75

Com a planta chamada tanchagem, deu-se a


mesma transformado, pois que a sna fórma, pri­
mitiva e legítima, devía ser chantagem, do latim
plantáginem.
O nosso tii tern um l final, porque velo do
castelhano tilde; mas, se o castelhano tivesse obser­
vado a morfología da sua origem latina, (titulum),
seria tidle, em vez de tilde. Houve metálese por­
tanto.
Também é curiosa a formado da nossa legua.
O latim leuca produziu naturalmente leuga; e a
transposido recíproca do g e do u, produziu a
actual légua.
Aqui temos nós o portugués lóbrego, que 6
transformado metatética de lógobre, por lúgubre.
O nosso sibila transformou-se em sílibo, que
se contraiu em silbo, donde resultou o conhecido
silva.
O jarréte, na linguagem popular, passou, por
metálese, para rájete, que assumiu a fórma defi­
nitiva de rejeito, no vocabulário actual.
O latim cáseum passou, com metálese, para
cáesum, donde veio a evoludo cáeso < cáiso <
cáijo < cdijo < queijo. Isto é, o nosso queijo é
devido á deslocado de urna vogal do latim cá­
seum.
Do substantivo cámara e do adjectivo ancho
formou-se cámara-ancha < camarancha, cu jo au­
mentativo, camarancháo, designa obra avanzada,em
fortificado. Ora, éste camarancháo, pela transpq-

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76 Novas Reflexdes

sido recíproca do m e do r, produziu o portugue-


síssimo caramanchao, que significa ligeira cons­
truyo em jardins, e que já nao póde tér outra,
fórma.
A pederneira é transformado de pedreneira,
que é um derivado de pedra.
No mesmo caso está empedernir, que, sendo
derivado de pedra, deve tér comegado por ser
empedrenir.
O latim lampetra deve tér produzido Lampedra,
que se transformen em lampreda; e esta lampreda,
pela natural queda do d medial, deu lamprea <
lampreia.
Cadurga, termo muito usado em tecnología
industrial, é mera transformado metatética de
carduga, (carda grosseira).
Aigoto, (filho de águia), é um provincialismo,
que deve tér sido agaióto, derivado de águia Me­
tálese, portanto.
O nosso aipo é outra transformado metaté­
tica do latim ápio.
A expressáo popular dávida é o mesmo que
dádiva, com transposido de duas consoantes.
O latim capistrum produziu naturalmente ca­
bestro, que, pela deslocado do r, deu cabrésto
fórma hoje consagrada.
O mesmo suceden com encabrestar, que, pro­
cedendo do latim incapistrare, devia sér primiti­
vamente encabestrar, e é hoje outra coisa.
Hoje também temos encarangar, que alias de­

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Transformares vocabulares 77

vería sér encangarar ou encangueirar, como deri­


vado de cangueira.
O castelhano faltriquera devia produzir faldri-
queira em portugués; e, contudo, produziu fral-
diqueira, com a simples destocado de um r.
Fresta é outro exemplo de metálese, porque,
viudo do baixo latim festra, que é contracto do
latim fenestra, apresenta orna primeira sílaba e
nao na última.
Todos sabem que nossos país diziam e escre-
viam fról e que nós dizemos e escrevemos flor.
A diferenqa está na transposigáo do r e do l.
O mesmo se dá com a fórmula antiga frolir,
correspondente ao actual florir.
O popular fulineiro é simples metálese de fu-
nileiro, derivado de funil.
Oalrlto, nome de urna rede para a pesca de
peixe miúdo, e nome de um saco para coar vinho,
é transformado de garlito, termo castelhano.
Pairar é também metálese de parlar, que é
contracQáo de parolar.
Grinalda é transformado curiosa de guirlan­
da, termo muito conhecido em Náutica e que no
Alentejo é o mesmo que íoiceiro: o grupo guír
passou para gri, e o landa para nalda.
Todos sabem que auga é forma popular e an­
tiga, em vez de agua. Por processes, divérsamente
explicados pela alta Filología, água deu áugua, e
daqui auga.
Com tais modificares fonéticas e morfológi­

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78 Novas ReflexCes

cas, e com muitas outras, cuja enumeradlo seria


sobremodo fastienta, fácilmente se reconhece que,
a despeito das vulgares razóes etimológicas e ne­
gras de derivadlo vocabular, há transformadóes
respeitáveis, em que a metátese ás vezes é só apa­
rente, pois obedecem a processes, em que a Filo-
logia descobre leis. Assim, ñas fórmas populares
crapínteiro e cravño, que parecem metátese de car­
pínteiro e carvño, há provávelmente o resultado do
que os gramáticos indianos chamam suarabásti;
isto é, em carpinteiro e em carvao, introduziu-se
urna vogal, que desuniu consoantes, produzindo
carapinteiro e roraiw.Sobreveio depois a haplolo-
gia, contraindo se a primeira sílaba, e formando-se
popularmente crapínteiro e cravño.
Mas, se a quem me le nao importa a última
razáo das coisas, cerremo-nos por aqui.

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V

ftféresc

Expus virios exemplos de transformares vo-


cabulares, producidas por transposigao de letras,
ou por metálese, transformares que sao tactos da
lingua e que ninguém rejeita.
Menos numerosas, mas nao menos interessan-
tes, sao as transformares, que muitos vocábulos
sofrem, perdendo a primeira sílaba da sua cons­
tituido primitiva.
Os gramáticos chamam aférese a ésse fenóme­
no; e é curioso observar-se como, em detrimento
da etimología, se reduziram as sílabas de multas
palavras, sem que tenhamos boje o direito de ibes
restabelecer os elementos primitivos. Citem-se al-
guns exemplos:
Em vez de abbatina, ou abatina, derivada do
latim abbate (abade), generalizou-se a fórma batí-
na, e só muito pretensiosamente é que alguém se
aventurará boje a talar de abatinas. Isto é, o vo-
cábulo perdeu a primeira sílaba.
De amavio (feitiqo, encanto), derivara-se anti-

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80 Novas Reflexdes

gamente o adjectivo amavioso. Correram os tem­


pos, caiu a primeira sílaba, e todos nós dizemos
hoje mavioso, sem apelagáo nem agravo.
O latim inamorare produziu o castelhano e por­
tugués enamorar: e déste verbo, com a perda da
primeira sílaba, resultou o verbo correntíssimo
namorar e os seus derivados.
A nossa homenagem, para certos efeitos, per-
deu também a primeira sílaba, e ficou simples-
mente menagem, quando nos referimos á torre de
tnenagem e a outros casos, que vém nos dicioná-
rios.
Os Trasmontanos, a um pequeño assobio, cha-
mam sobiote, em vez de assobiote. Aférese no caso.
Do francés avant-garde pederíamos ter deri­
vado avanguarda; mas afinal o que derivámos foi
vanguarda. Outra aférese.
O peixe, que se chama badejo, chamava-se aba­
dejo. A primeira sílaba saiu do uso comum.
O nosso velho embornal, ou cevadeira, perdeu
a primeira sílaba, para produzir o nosso vulgarís-
simo bornal.
O conhecido alaúde já em tempos antigos se
dizia simplesmente laúde.
A par de alameda, derivada de álamo, temos
também a fórma lameda, com dispensa da pri­
meira sílaba da rigorosa fórma.
E, a par do velho enojo, temos hoje, corrente-
rnente, o vocábulo nojo, em que desapareceu a pri­
meira sílaba da fórma primitiva.

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Afórese 81

E mais nao será mistér, para se vér que o vo­


cabulario portugués se ampiiou com mutilaQóes,
que náo respeitaram a radical das palavras e que
constituíram tactos inconcussos, a despeito das
etimologías, e a despeito dos escrúpulos dos gra-
maticóes.

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VI

Dcriva^áo regressiva

Há um interessante fenómeno lingüístico, que,


em Filología, tem o nome de derivacao regressiva.
Consiste ele na aberrado dos correntes pro­
cesses de derivado vocabular e refere-se aos vo-
cábulos que, parecendo primitivos, sao todavía
derivados de outros, que sao realmente primitivos
e parecem todavía derivados daqueles.
Com exemplos melhór se compreende o fenó­
meno.
Um dos mais curiosos exemplos da derivado
regressiva está ñas relaqóes de rosmano com ros-
maninho.
Aparentemente, julgar-se-ia que rosmaninho é
um derivado de rosmano, sob fórma deminu-
tiva.
Pois é exactamente o contrario: o vocábulo
primitivo é rosmaninho, do latim rosmarinas; e
rosmano é derivado, regressivamente, de rosmani­
nho; isto é, concedeu-se hipotéticamente que ros­
maninho poderla sér o deminutivo de rosmano,

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DerivagSo regressive 83

que, ueste caso, seria o vocábulo primitivo, o que


alias nao é.
E há muitos outros casos análogos 11a lingua
portuguesa. Como éles, quase todos, nao tém sido
notados pelos nossos gramáticos e filólogos, nao
será inútil registar alguns, pelo menos.
Fraga e fragoso. Dir-se-ia que fragoso pro velo
de fraga; mas suceden precisamente o contrario;
havia o vocábulo fragoso, (latim fragosas), e déle
proveio fraga, que parecería o termo primitivo.
Farroupa e farroupilha. Parece que farroupi-
Iha poderla ser um derivado de farroupa; mas
éste velo depois, derivando-se regressivamente de
farroupilha.
Rafia e rufiao. Embora ruficio pareja um de­
rivado aumentativo de rufia, a verdade é que o
derivado é rufia, e rufiao a forma primitiva.
Sarampo e sarampao estáo no mesmo caso.
Supós-se que sarampao seria aumentativo de sa­
rampo, e creou-se esta fórma á sombra daquela,
que já existia, procedendo do castélhano saram­
pión.
Malandro e malandríni. Éste parece derivado
daquele, mas é o contrário; o vocábulo primitivo
é malandrim, do italiano malandrino; e, á sombra
déste, formou-se malandro, hipotéticamente pri­
mitivo.
Sardana e sardanisca. Esta parece derivar da­
quela, que é um provincialismo. E contudo sar­
danisca preceden sardana.

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84 Novas Reflexdes

Campa e campana. Já Gonsalves Viana, (Apos­


tilas, I, pág. 315), observen éste caso, em que
campa é um suposto primitivo, quando realmente
é um derivado regressive de campana. E assim
venta e ventana, ago e aceiro. Além de Gonsalves
Viana, também Júlio Moreira, ^Estu dos da Lingua
Portuguesa, II, pág. 174), se referiu ao caso do
ago e aceiro.
O mesmo fenómeno se dá em apo e apeiro:
apeiro, embora o paresa, náo é um derivado de
apo. O apo veio depois do apeiro e á cusía déste.
Na literatura brasileira, vejo tambem um caso
novo de derivaste regressiva. Révoa é creaste,
como suponho, de Coelho Neto. A pág. 101 do
seu Fabulário, emprega éle o termo révoa, no
sentido de revoada. Se révoa nao fósse um neolo­
gismo, poderia supor-se que déla veio a revoada.
Mas sucede o contrário: a revoada existe há mili­
to, e á sombra déla se formou agora a révoa, que
eu nao sel se se vulgarizará. Em todo caso, é
exemplo do referido fenómeno da derivasáo re­
gressiva, e o conhecimento déste fenómeno mais
de urna vez póde explicar obscuros factos da mor­
fología portuguesa.

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léchenlos de velho tronco

O descobrimento e colonizado do Brasil, —


lacios coetáneos da nossa linguagem quinhentista,
— determinaran! um curioso fenómeno na histó-
ria da lingua portuguesa.
Mui tos vocábulos, que eram correntes entre
os nossos avós, sao boje obsoletos em Portugal e
relegados para os dominios dos arcaísmos, ao passo
que aínda boje viqam e florescem ñas terras do
Brasil.
No portugués antigo havia, por exemplo, o
verbo guaiar, que, como se ve no Itinerário de
Pantaleáo de Aveiro, pág. 262, vol. V, 2.a ed.,
significava cantar em estilo de lamentado; e boje,
com significado aproximada, isto é, no sentido
de dar ais ou lamentar-se, ouve-se e emprega-se
no Brasil, como ateata o Saldunes do Sr. Coelho
Neto, (pág. 112).
Também no poetugués antigo havia um gali­
cismo corrente, mancar, no sentido de faltar, fran­

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86 Novas ReflexSes

cés manquer. E táo corrente ele era que, numa


antiga obra de agricultura, póde lér-se: — «a uva
marisca é de casta muito aneira, porque há anos,
em que manca de todo». Ninguém boje, ein
Portugal, emprega aquele verbo em tal acepgáo;
mas quern percorrer a regiáo de S. Francisco, no
Brasil, multas vezes o ouvirá na linguagem cor-
rénte.
Os nossos avós davarn ao dente do siso o nome
de dente queiro, como se ve na Eufroslna de Jorge
Ferreira de Vasconcelos, pág. 72. Ninguém co-
nhece boje aqui tal expressao; mas conhecem-na
no Brasil.
O mesmo acontece com o termo bertigo, que
se ouve no Brasil do Norte, pelo menos no sen­
tido de grande animal. Serviu-se do termo Gil
Vicente, (Obras, vol. I, pág. 262); «mentis como
um bertigo»; mas desaparecen da linguagem cor­
rente, perdurando contudo no Brasil e num afas-
tado rincáo de Trás-os-Montes.
A fórma brabo, correspondente a bravo, era
do portugués antigo, como se vé na Eufrosina,
pág. 147, e aínda boje do Brasil, como se vé no
Dicionário incompleto de Macedo Soares.
Considera se brasileirismo o termo cabungo,
no sentido de bispote. É todavía certo que o vo-
cábulo já existia no portugués antigo. Velo talvez
do quimbundo, e nao será fácil verificar se os
Negros o levaram á América e á Europa, ou se a
Europa o conheceu primeiro que a América. Em

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Rebentos de Velho tronco 87

todo caso, é vocábulo conhecido boje no Brasil


e obsoleto em Portugal.
Com a muxinga, (soya, tunda, azorrague), podem
ter-se dado circunstancias análogas. A muxinga
é mui to conhecida no Brasil; e, em Portugal, há
déla urnas vagas remeniscéncias na linguagem po­
pular do Ribatejo e de Alcobaqa.
Cachafo, no sentido de porco cevado, é con­
siderado brasileirismo pelo dicionário de Macedo
Soares; e contudo, em Portugal, o termo devia
ser usado antigamente, e déle se serviu Vasco
Mousinho de Quevedo, no seu Afonso Africano.
Sogigar, (por subjugar), ouve-se no Estado da
Baía; mas era fórma arcaica, de que se póde vér
exemplo na Eufrosina, pág. 27; e Filinto nao se
dedignou de a empregar também.
Em Portugal, as bombachas, calqóes largos que
se atavam por baixo dos joelhos, sao boje desco-
nhecidas, mas foram usadas pelos nossos avoen-
gos, e usam-nas aínda os cavaleiros, ao Sul do
Brasil.
Pedágio,que se considera brasileirismo, e que
designa o tributo de portagem, ou de passagem
por urna ponte, é velho vocábulo portugués,
como se vé no Itinerário de Pantaleáo de Aveiro,
pág. 54, V., (2.* ediqáo).
E desta ligeira ementa se conclue que ao Bra­
sil devemos o tér mantido na sua linguagem nu­
merosos e bons lusismos, que, sem aquele depó­
sito, teriam já desaparecido do talar moderno.

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88 Novas Reflexoes

Mostrei que na linguagem dos Brasileiros se


conservaram e aínda vivem numerosos vocábu-
los, que há muito desaparecerán! da linguagem
dos Portugueses, e por isso sé consideram obso­
letos ou arcaicos. Mencione! varios exemplos e,
já agora, mencionare! mais trés: geriza, faneco e
alfafa.
A geriza, boje, é apenas conhecida no Brasil,
com o significado de ira, raiva, odio, mas fez
parte da nossa linguagem clássica.
O mesmo sucede com faneco, que no portu­
gués antigo significava um pedaqo de pao, e que
no Brasil designa um pedazo ou bocado de qual-
qtiér coisa.
Alfafa ou alfaifa, vocábulo de origem caste-
lhana, era o nome que os nossos avós davam á
luzerna, e ainda é boje o nome que os Brasileiros
dáo á mesma planta.
Mas nao foi para me ocupar nóvamente dos
velhos lusismos, no Brasil conservados, que eu
agora pegue! na pena: foí para registar tactos
análogos, concernentes ao nosso vocabulario an­
tigo, de que se nos deparam vestigios na lingua­
gem de um ou outro afastado rincáo das provin­
cias portuguesas.
Quando há cerca de trinta anos eu comeqava
a organizar o Novo Dicionário da Lingua Portu-

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Rebentos de velho tronco 89

ffuesa, e examinava atentamente os Cancioneiros,


a velhas Crónicas, todos o principáis documen­
tos da lingua, relativos aos primeiros sáculos do
nosso idioma, folheei naturalmente as Léñelas da
india, de Gaspar Correia; e, entre muitos vocá-
bulos antigos, mas de significadlo clara, por mim
colhidos naquela obra, topei com a seguinte pas-
sagem no cap. IX:
— « ... e encheram sor(as délas».
Elas eram as aves, que os companheiros de
Vasco da Gama, desembarcando em Mozambique,
tinliam ido cazar no mato. E com elas encheram
sorzas, —- dizia o cronista.
Mas que seriam sorgas?
O texto nao o dizia; o Elucidário de Viterbo e
os dicionários da lingua nada diziam a tal respei-
to, e eu nao podia adivinhar o significado.
Tomei, pois, nota do vocábulo, simplesmente
para o registar com a abonazáo de Gaspar Cor­
reia, mas sem indicazáo de significado, ficando
éste ao arbitrio, mais ou menos criterioso, de quern
me lésse, como sucedeu com muitos outros vocá-
bulos, que eu pude colher, e cujo significado eu
nao poderla indicar.
Tempos depois, quando eu respigava paciente­
mente,na linguagem das nossas provincias, militares
de termos, aínda nao registados em dicionários,
fui descobrir que, num recanto de Trás-os-Mon-
tes, nos concebios de Lagoaza e Mogadoiro, a
enigmática sarga era termo corrente, ali conheci-

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90 Novas ReflexSes

díssitno, designando-se com éle urna espécie de


chourigo.
Ficou, portanto, esclarecida a passagem de
Gaspar Correia: —os marinheiros do Gama ti-
nham feito cbourigos com a carne das aves...
Mas a sorga nao é caso esporádico.
Vamos ver como muitos vocábulos, desconhe-
cidos da linguagem geral e considerados obsoletos
ou arcaicos, vivem aínda, num ou noutro ponto
das nossas provincias, como rebentos de um ve-
lho tronco, que os sáculos cobriram de pó, fur-
tando-os á vista do caminhante desprevenido...

Bagaxa era um dos nomes, com que os nos-


sos avoengos designavam a prostituta. O termo
desapareceu da linguagem corrente, da escrita
dos mestres, e até dos dicionários, mas aínda boje
é conhecido no Alentejo, com urna ligeira modi­
fica gao gráfica: bagaga.
*

Antigamente, dava-se o nome de bilhó á casta-


nha assada e descascada; e o mesmo nome se lhe
dá boje, em alguns pontos de Trás-os-Montes,
onde também dáo ésse nome a urna crianga gor-
dinha e baixa. Provávelmente, bilhó relaciona-se
com beilhó, que é um bolo frito, de farinha e abó-
bora.

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Rebentos de velho tronco 91

Eido é um conhecido provincialismo, sobre­


todo ao norte de Portugal, e com esse nome se
designa especialmente um patio, um quinchóse,
um quintal, perto de casa de habitagáo. Proveio
naturalmente do latim áditus. Os antigos usavam
ésse vocábulo, sob outra fórma: éixido. E esta an-
tiqualha serve boje, num recanto de Trás-os-
-Montes, para significar um pomar ou urna quinta.
A diferenga está só em que o povo de Murga,
(Trás-os-Montes), diz énxido. Mas o vocábulo é
o mesmo.
*

O Elucidário de Viterbo, definindo o termo


arcaico camba, diz-nos que é o mesmo que picar-
nel. Mas o mesmo Elucidário nao regista nem de­
fine picarnel no lugar próprio, e o mesmo fizeram
todos os dicionários anteriores ao meu. Em Eos-
coa, porém, fui encontrar o vocábulo, corrente
entre o povo, que com ele designa urna azenha
provisória, assente sobre as pedras de urna ribei-
ra, para aproveitar no veráo algum veio mais
grosso de água.
*

O nosso vulgar emplastro era conhecido dos


antigos sob a fórma de empastro, como se vé na

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92 Novas Reflexdes

Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcelos, pá­


gina 62. Pois este emprasto é ainda vulgar na re-
giáo do tioiro.
*

Como se sabe, o sóido designa especialmente


o pavimento superior de um edificio, ou compar­
timento esconso désse pavimento. Mas no Baixo
Alentejo é outra coisa: pavimento inferior de um
predio, rés-do-cháo, loja; e era exactamente neste
sentido que os antigos conheceram a palavra,
como se póde vér ñas OrdetuiQoes do Reino, livro I,
título I: "sotáo ou logea...»

Do castelhano tiveram os nossos avós o termo


caleja, (pequeña rúa, béco). Pois a caleja ainda
boje se ouve em Trás-os-Montes.

Encontra-se em documentos antigos o adjectivo


dioso, (que tem muitos dias, que é velho, que é
anciáo), e que, se nao foi derivado de día, era
simples metálese de idoso. Ora, aquéle dioso ainda
é corren te em vários pontos do Minho.

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Rebentos de velho tronco 93

No Brasil, é conhecida a palavra cófo, (cesto


oblongo, de boca estrella, em que os pescadores
arrecadam o peixe). O termo, naturalmente, foi
conhecido outrora de Portugueses, porque os an-
tigos derivaram déle a palavra cofinho, com que
designavam um cestinho de esparto ou verga,
que servia de agamo aos animáis. Éste cofinho, no
mesmo sentido, ouve-se ñas duas Beiras.

Á enxada deram os antigos o nome de legáo,


(do castelhano legón), e ésse nome se lhe dá aínda
no Minho.

Os antigos conheceram a palavra belga, (pe-


quena porgáo de terreno, leira, geira), e natural­
mente a tiraram do castelhano vega, (veiga).
O Elucidário de Viterbo nao registou a palavra,
mas referiu-se a elá quando definiu leiva.
Nao a recolheram os outros dicionários, mas
live eu de a registar, nao só porque é da lingua-
gem corrente da minha Beira, mas até porque
figura em termos oficiáis de procedéncia provin­
ciana, em escrituras de partilhas, processes (oren-

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04 Novas Reflexdes

scs, etc. É termo antigo, hoje desconhecido no


centro e no sul de Portugal, mas correntísimo
no norte.
*

Fiz há pouco referencia ao arcaísmo guaiar,


(lamentar-se), empregado modernamente no Bra­
sil, por Coelho Neto, pelo menos. Pois ésse ar­
caísmo contraiu-se sob a forma átgaiar, e ouve-se
em algumas povoaqóes da Beira.

Tenreiro chamavam os antigos ao novilho; e


assim lhe chamam também em Trás os-Montes.

Tinham os antigos o termo grossor, como si­


nónimo de grossura. Pois o tém aínda hoje os Al-
garvios.
*

Dava-se antigamente o nome de buzaranhos ás


coisas fantásticas, que se apresentam aos olhos de
quern tem muita febre.Veja-se Gil Vicente, Obras,
vol. I, pág. 261, ediqáo rolandiana. O mesmo nome,
com igual aplicadlo, se ouve hoje ém Trás-os-
-Montes.

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Rebentos de ve I ho tronco 95

Também os Trasmontanos conservar» orréta,


nome que os antigos davam ao vale profundo e
estrello.
*

Gerecer-se, no sentido de formarse ou aparecr,


(falando-se de tumores ou furúnculos), é termo
antigo, usado por Gil Vicente, e desconocido
modernamente de dicionaristas e escritores. Quem
todavía atravessar a Beirá-Alta poderá ouyir ésse
termo a cada passo.

Almofía, (espécie de tijela), é também termo


arcaico, que nem por isso deixou de se ouvir na
Beira.
*

Traguer é fórma arcaica de trazer; mas ouve-se


multas vezes na Beira-Baixa, onde até se conjuga:
eu trago, tu tragues, ele trague, rtós traguemos, etc.

Nos nossos escritores antigos, como nos cas­


tellanos, encontra-se a palavra nembro, equivalente

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96 Novas Reflexoes

a tnembro, e bastará relembrar o Tratado das En-


fertilidades da Aves de Caga, por Mestre Giraldo.
Dessa fórma antiga achamos boje vestigios em
terras do Minho, onde o poyo muitas vezes diz
netnbro, em vez de tnembro.

Os nossos clássicos antigos, nomeádamente


Jorge Ferreira de Vasconcelos, (Eufrosina, acto I,
scena II), conheceram a locugáo adverbial á certa
confita. Pois esta locuqáo é muito conhecida
ainda em Trás-os-Montes, no sentido de inespera­
damente ou de súbito; e no Minho, com mais de
um significado: na ocasiáo aprazada; com certeza,
sern dúvida.
No Minho, pelo menos, aquela locugao é ex­
plicada da seguinte fórma:
Alguns aventuremos de feiras jogam a verme-
Ihinha, servindo-se de urna fita enrolada, em que
o ponto mete o dedo, perdendo a partida, se o
dedo fica solto, o que sucede normalmente; donde
vem dizer-se que o ponto perde á certa com fita,
(confita).
Na ocasiáo aprazada, urna das aceptes usadas
no Minho, parece estar de acórdo com a acepqáo
clássica. Pelo menos, na citada passagem da Eu­
frosina lé-se:
— Quem quiser mentir arrede testemunhas: e
quando vem a certa confita págáo-vos com farey
farey. —

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Rebentos de velho tronco 97

Deliro é a expressáo velha, no sentido de donai­


re, bom aspecto, modo, parecen5a, mas aínda se
ouve na Beira e no Alentejo.
*

Perdoanga, vocábulo antigo, o mesmo que per-


dúo, ouve-se freqüentemente no Minho; e assim
é que o cultivador ou rendeiro de urna fazenda
pede ao senhorio perdoanga de alguns alqueires
no pagamento da renda, quando a colheita foi es-
cassa, por motivo de torga maiór.
*

O vocábulo antigo altor, por altura, também


se o uve no Minho e em Trás-os-Montes.
*

Bestigo, (grande animal), era termo familiar a


Gil Vicente, que déle se serviu, pelo menos no
seu volume I, pág. 262; e nao só é boje conhecido
no Brasil, como já tive ocasiáo de notar, mas é
também usado em Trás-os-Montes.
*

Ñas velhíssimas comedias de Simáo Machado,


fl. 69, v.°, depara-se-nos o galicismo gocho, (ca-
7

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98 Novas ReflexSes

nhoto, desajeitado); e achamo-lo actualmente em


Trás-os-Montes, embora em acepqáo modificada:
que ve pouco, que distingue mal os objetos.

Do que tudo se poderá concluir que o confes-


sado desamor ao vocabulario antigo nao é apaná-
gio dos intelectos mais alumiados, nao só porque
o povo se encarrega de manter a vida de velhos
organismos vocabulares, mas também porque dos
mais velhos escrínios da nossa lingua há de ser
sempre permitido e meritorio extrair as jóias de
mais fino quilate, para relevo e brilho da nossa
opulenta linguagem.

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VIII

Haplologia

Sao numerosíssimas as palavras portuguesas,


cujos elementos similares se contráem ou se sim­
plifican!, tornando o vocábulo mais curto, e mais
fácil a pronuncia.
A éste fenómeno dáo os filólogos o nome de
haplologia, formado do grego haplos, (simples), e
logos, (tratado).
Quando nós dizemos bondoso, caridoso, sau-
doso, idoso, maldoso, vaidoso, humildoso, majes­
toso, piedoso, etc., nem todos suporáo que tais
adjectivos nao sao rigorosamente derivados do res­
pectivo substantivo bondade, caridade, saudade,
etc.
Com efeito, a rigorosa derivado daría bonda­
doso, idadoso, maldadoso, etc. Desaparecen, po-
rém, um dos dois elementos similares da-do, e
contraiu-se o vocábulo, resultando as fórmas, boje
usuais e correntes, bondoso, caridoso, saudoso,
idoso, maldoso, etc.

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100 Novas ReflexSes

Outros factos anágolos.


Urna nota musical que tem o nome de metade
de urna mínima, deveria ser semi-mínima, mas é
seminima.
Parece que o substantivo redor veio do latim
hipotético rotator.
Sendo assim, a primitiva fórma portuguesa
seria rodador—redador, que, por haplologia, pro-
duzia redor.
De cándido derivar-se-ia candiduta; mas o que
temos é candara.
Dé aeróstato derivar-se-ia aerostateiro; mas o
que temos é aerosteiro.
Do latim fantasma e do grego skopeim poderla
formar-se, híbridamente, fantasmatoscópio, para
designar urna especie de lanterna mágica, empre­
gada em fantasmagoría. E, contudo, o que temos
é fantascópio.
Em Fisiología, temos intuscepgáo. E, todavía,
do latim intus e susceptio tcriamos derivado intus-
suscepQ&o.
Ao adorador do ídolo chamavam os Latinos
idolólatra, e esta mesma fórma passou para por­
tugués, como se ve nos Lusiadas, embora o Ca-
móes lhe alterasse a prosódia, talvez por exigencia
da versificadlo, (idololátra). Mas o nosso vocábulo
corrente é idólatra. Haplologia, no caso.

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Haplologia 101

Do latim pérdita derivaram os Castelhanos


pérdida; e nós, eliminando um dos elementos simi­
lares do vocábulo, temos perda.
Do prefixo des, e do substantivo tanino, pede­
ríamos formar destaninizar; mas o que temos é
destanizar.
A par de romanticismo, temos romantismo, que
é mera contracto haplológica daquela palavra,
como eclectismo o é de ecleticismo.
De emético derivar-se-ia emeticizar. Pois deri-
vou-se emetizar.
A forma primitiva de pular era pulular; mas
desapareceu ali um dos dois elementos simila­
res.
Em vez de sericicultura, formicicida, prestidigi­
tador, usam-se as formas contraídas sericultura,
formicida, prestigitador...
Do árabe emir-almuminin tirámos miramolim,
dando-se ao mesmo tempo afórese e haplologia.
Do latim oleum e Libanus tirámos o nome de
urna goma, olíbano, quando a derivado rigorosa
seria olelíbano.
Em vez de catolicizar, tem-se dito e escrito
catolizar. Veja-se Tomás Ribeiro, /ornadas, vol. I,
págs. 227 e 254.
Em vez de exoticismo, dizemos geralmente exo­
tismo.
A par de contendedor, forma exacta mas pouco
usada, diz-se geralmente contendor.
Etc., etc.

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102 Novas ReflexSes

Poderiam multiplicar-se os exemplos de rigo­


rosa haplologia, mas é talvez preferível, ao me­
nos pela variedade, registar outras contracqóes
vocabulares, que, embora nao sejam verdadeira
haplologia, tern com el a relaqóes mais ao menos
estrellas.
Assim, sebresalente é contraerá o de sobrasa-
líente, que aínda existe no castelhano.
Do latim male levatus, que produziria male-
vado, tiramos nós a forma contraída malvado.
Do prefixo de, e do verbo escravizar, formou
Gamillo descravizar, (Caveira, pág. 230).
Em vez das formas completas mestre de sala,
mestre de escola, temos as formas contraídas mes-
tre-sala, mestre-escola.
O latim malvaviscus deveria dar-nos malvavisco,
mas deu malvaísco.
A ujamanta contraiu-se, por aférese, em ja-
manta.
Em vez de despampanar, temos despampar.
A fisiognomonia contraiu-se e simplificou-se em
fisionomía.
Em vez de emolegar, do latim emollicare, te­
mos amolgar.
O verbo carregar tomou a fórma contraída car­
gar, multas vezes usada por Filinto; e de cargar
derivamos carga e cargo.

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Haplologia 103

O folegar deu folgar, que passou para folgo.


O povo contraiu acarretar em acartar.
A Asia-Austral, e Austral-Ásia, contraiu-se em
Australia.
Nestes factos, como fácilmente se compreende,
predomina a lei do menor esfdrQO, que muitas ve-
zes sobreleva ás mais respeitáveis regras de deri-
vagáo e composigao.
Donde se deve inferir que os gramáticos, ao
formular os seus dogmas, nunca deveri am desfi­
lar olhos da eloqüéncia dos factos, que se des-
viam daqueles dogmas...

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IX

Tecnología scicntífica

Há mais de dois mil anos, sentenciava Cicero:


— É licito criar nomes novos para explicar coi­
sas novas. —
Esta sentenca passou em julgado, e nada há
que se oponha.
Com efeito, a inteligencia e o trabalho do ho-
mem multiplicam constantemente o número e a
categoría das coisas, que interessam á sciéncia e
ao exercício da actividade humana e que, como
tais, exigem'um nome, urna designado definitiva,
com que se fixem na linguagem falada e escrita.
Criam-se, pois, termos novos para correspon-
derem a coisas novas; mas nem sempre essa cria-
gao é merecedora de aplauso, e o seu deleito mais
vulgar e menos capital é o hibridismo, ou a for-
magáo de um vocábulo com elementos dé diversas
línguas. Em caso de necessidade, e á míngua de
melhór, aceitam-se os hibridismos, como suceden
com bigamia, sociología, monóculo, helíogravura,
etc. O mais grave é aventurarem-se expressóes

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Tecnología acientífica 105

novas, cujos elementos se nao associam conforme


os exactos processes morfológicos.
Está neste caso um vocábulo, que alguna ento­
mologistas tém aventurado, para significar tratado
das abelhas: — apidologia.
Ao traduzir há tempos um delicioso livro de
Maeterlink, Vida das Abelhas, 1 á se me deparou o
vocábulo, mas tive a coragem de o rejeitar, nao
por sér híbrido, como de facto é, mas porque os
seus dois elementos, — latim e grego, — estáo er­
róneamente associados.
O latim apis e o grego logos nunca produzi-
riam legítimamente apidologia.
Maeterlinck, ou o entomologista que lhe deu o
exemplo, confundiu a declinadlo do substantivo
latino apis, (abelha), com a declinado de outros
nomes, cujos casos sao imparisílabos no singular,
tais como cuspis cuspidis, absis absidis, clitoris
clitoridis, chlamys chlamydis, etc.; e, na suposiqáo
de que haver i a apis apidis, formaram levianamente
apidologia. Ora, o latim apis tem genitivo da
mesma forma do nominativo, e nao apidis; e,
como a letra d, em morfología, nao tem aplicado
eufónica, claramente se conclue que apidologia é
fórma errónea.
A fórma exacta tem de s&r outra, segundo o
processo adoptado e seguido desde há muito em
vocábulos de composiqáo análoga. Assim como
fisiología, por exemplo, se formou do grego phu-
sis e logos, com intercalado de um o epentético,

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106 Novas ReflexSes

ou expletivo, ou eufónico, de igual maneira for­


maremos apiologia, do latim apis e do grego lo­
gos, com intercalado do referido o epentético.
Rejeite-se, portanto, a impensada apidologia, e
substitua-se pela forma, que nao póde oferecer
dúvidas, apiologia.

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X

Prosodia

Um conspicuo homem de letras, que é tam-


bém alto funcionario da Répública Brasileira, e
cu jo nome nao estou autorizado a revelar, distin­
gue-n^e com urna interessante carta, em que com­
bate urna afirmado minha, contida num meu ar­
tigo do Jornal-do-Comércio, do Rio-de-Janeiro.
Anotando a obra de Franco de Sá, trascrevi
as palavras, em que o autor estranhava que os
gramáticos Pacheco da Silva e Lameira de An­
drade aconselhassem involucro, em vez de involu­
cro, e atribuía o caso a erro de imprensa.
Ponderei entáo que, embora nos digamos in­
volucro em Portugal e no Brasil, Pacheco e La­
meira tinham a seu favor a prosódía latina, visto
que no latim há involúcrum, e nao invólucrum.
Acode o Sr. *** a afirmar categóricamente que
eu me enganei, e que o latim é invólucrum, e nao
involúcrum.
Como homem que louvávelmente procura de­
monstrar o que afirma, cita um verso latino de
Prudéncio, em que a métrica aconselha a proso­
dia invólucrum; e assevera que os mais autorizados

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108 Novas Reflexdes

dicionaristas indicam a mesma prosódia, mas li-


mita-se a mencionar o dicionarista Freund, tradu-
zido por Theil, á parte o Oradas ad Parnasum,
de Noel, que difícilmente poderá s&r considerado
entre os mais autorizados dicionaristas: chame-
mos-lhe pedagogo, e já nao é pouco.
Ora, antes de eu apresentar provas contrarias,
devo referir-me ás duas, apresentadas pelo Sr.***:
o verso de Prudencio e o dicionário de Freund,
ou antes de Theil.
Nao há dúvida que um ou outro fon&ticista
tem aceitado a suposta prosódia latina invólucrum;
mas o verso de Prudencio pouco ou nada prova,
pois todos sabem que, sobretudo em poesía, sao
vulgares os hiperbibasmos; isto é, pela figura
gramatical, chamada sístole, urna sílaba longa
passa para sílaba breve; e, pela figura diastole,
urna sílaba breve passa para sílaba longa. Por isso
é que Cambes, pela exigencia do verso, manda
pronunciar Anibál, Dário, idolátra, etc.
Deixemos, pois, o verso de Prudencio, que
nada vale ao pé de Freund.
É certo que Freund é grande autoridade, mas
é urna, além de que o Sr.*** cita a traduQáo de
Theil; e eu, que nao possuo o original, nem é fá­
cil obté-lo, nao posso afirmar terminantemente
se o Theil seria traduttore, ou se seria traditore.
Mas eu dou de barato que um notável dicio­
narista, como Freund, aceitasse e registasse a pro­
sódia invólucrum. Tal facto, porém, náo autoriza

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Prosódia 109

que essa prosódia se atribua, sem outras provas,


aos mais autorizados dicionaristas; e o que eu
posso mostrar sem dificuldade é que, á parte o
Freund, os dicionaristas mais autorizados estáo
ao meu lado.
Comecemos pelo patriarca de todos os dicio­
naristas, pelo grande Calepino, que, tendo nas-
cido em plena Resnascenqa clássica, consagrou
toda a sua vida á lexicología latina, deixou fama
universal e serviu de base a todos o lexicógrafos
posteriores, desde Passerat, Facciolati, Forcellini,
até Freund e Quicherat.
Publicado pela primeira vez há 413 anos, o Di-
cionário de Calepino teve ¡numeras ediqóes. Tenho
aquí a de 1681 em dois grandes volumes, maióres
do que missais- e na pág. 904 do vol. I, poderáo
Sr.*** verificar que o grande mestre de todos nós
faz langa a penúltima sílaba de involucre, involú-
cris e involúcrum.
Depois de Calepino. surge na Europa um seu
digno continuador, Forcellini, que, como o seu
antecessor, consagrou a vida inteira á lexicografía
latina, deixando em quatro grandes volumes o To-
tius Latinitatis Lexicon, em latim, italiano egrego,
— verdadeiro monumento scientifico, que nenhum
dicionarista aínda eclipsou. Tenho presente a pri­
meira ediqáo, (Pádua, 1771), e aqui tambémo Sr.***
poderá lér involúcrum, e jámais invólucrum.
Eram já conhecidos e estudados os trabalhos
de Calepino, de Forcellini, Freund, Noel, etc.,

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110 Novas ReflexSes

guando em Lisboa (1857) se fez a nova edigáo do


Magnum Lexicon Latinum et Lusitanum, que foi,
e aínda é, o mais vulgarizado e aceito ñas escolas
portuguesas e nao sei se ñas brasileiras, onde a
esta hora talvez predomine o de Saraiva, que eu
nao possuo. Pois o Magnum Lexicon manda lér,
como Calepino e Forcellini, involúcrum.
Antes do Magnum Lexicon, vigor ava ñas escolas
portuguesas um Lexicon Latinum do século XVIII,
de cu jo autor me nao lembro, mas que era traba-
lho bem feito.como se póde vér no exemplar que
tenho presente, e a que falta o frontespício e a
primeira folha da introdujo, dificultando-me as-
sim o conhecimento da data e do nome do autor.
Entretanto, para eventual identificaqáo, registarei
que tem 830 páginas em 8.° grande, a duas colu-
nas, corpo 8. É precedido de um Indiculus Chro-
nologicus, e seguido de um Dicionário Abreviado
da Fábula, 216 páginas.
¿ Conhece-o acaso algum dos meus leitores, e
poderá indicar-me o nome do autor? É ediqáo de
Lisboa. Nao desejo invocar autoridades proble­
máticas, mas vejo que há ali trabalho de valor, e
que também ali se manda lér involúcrum, (pág. 394,
coluna 1.a).1 i

i Depois de publicadas estas liabas, verifique! que o


referido dicionário é o Lexicon Latinum do grande erudito
e académico Pedro José da Fonseca. É edifáo de Lisboa,
1798.

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Prosódia 111

Mas, mais modernos que todos os citados, e de


grande e incontestável renome, tenho aquí o Qui-
eherat, Dictionnaire Latin-Franjáis, (Paris, 1892).
Pois o Quicherat, (pág. 720, coluna 1.a), também
está comigo: involúcrum, e nao invólucrum.
Embora nós todos, ou quase todos, em Portu­
gal e no Brasil, digamos involucro, os Italianos,
cuja lingua é Irma da nossa e procedente da lati­
na, nao dizem involucro, dizem involucro.
Eu disse sempre invólucro, como toda a nossa
gente; mas habituei-me a ouvir ao finado orien­
talista Vasconcelos-Abreu, e ao grande glotólogo
Gonqalves Viana, a afirmaqáo provada de que de­
veríamos dizer involucro, que tal era a prosódia
latina. E Gonqalves Viana assim o deixou indi­
cado no seu Vocabulário Ortográfico e Remissivo,
(pág. 329, coluna 2.a). Xavier Rodrigues, no seu
Vocabulário Ortográfico, também regista as duas
variantes, — urna, porque é a usada geralmente;
outra, porque é a exacta.
Visto que o Sr.*** impugnou urna afirmaqáo
minha com um argumento de autoridade, defen-
do-me com meia dúzia de argumentos da mesma
especie.
Posto o seu argumento num prato de balanza,
e postos os meus no outro prato, creio que para
éste se inclinará o fiel.
É natural, é das leis da Física.

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XI

Desinquieto, etc.

O termo desinquieto e seus afins tem dado no


goto de varios gramatiqueiros, parecendo-lhes que
há ali disparate, ou anormalidade inexplicável.
Com efeito, significando desinquieto o mesmo
que inquieto ou buligoso, nao ocorrerá de pronto
a razáo por que se adaptou um prefixo de negaqáo
(des) a urna palavra que já tinha outro prefixo da
mesma natureza, (in), sem lhe alterar o significado,
o que alias sucede normalmente, quando a um vo-
cábulo se antepóe um prefixo des: fazer e desfa-
zer, primor e desprimor, crédito e descrédito, etc.
E todavía desinquieto é termo familiar e corren-
tíssimo, desde longa data, como é certo achar-se
registado nos melhores dicionários.
Aínda nao vi deslindada terminantemente a
morfología daquele vocábulo e de outros simila­
res, o que me leva a aventurar hipóteses, que os
sábios julgaráo.
Já noutro lugar, nao sei quando, admití o pos-
sibilidade de que o prefixo des de desinquieto nao

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Desinquieto 113

seria prefixo de negado, mas prefixo de realce


ou intensidade, dado que proviesse, por abranda-
mento de um t em d, do prefixo latino tres, que
é realmente prefixo de intensidade.
Efectivamente, nao repugna que o latim tres
passasse em portugués para des, tendo caído o r,
como sucedeu na passagem de rostrum para rosto,
e tendo-se transmudado o t em d, como sucedeu
em datas, (dado), consulatus, (consulado), etc.
Admitamos, porém, que esta hipótese se nao
tinha dado, e que o des de desinquieto é realmente
um prefixo de negado, como em desonra, desfa­
vor, etc. Aínda assim, creio que o termo se póde
justificar gramaticalmente.
Ao passo que no latim duas negativas afirmam,
como em non nullus, (algum), nao sucede o mesmo
em portugués, pois que ninguém vi, nada sei, com
urna só negativa, dizem o mesmo que nao vi nin­
guém, nao sei nada, com duas negativas; nao de­
vendo portanto repugnar que desinquieto diga o
mesmo que inquieto.
Acresce que o vocábulo desinquieto nao é,
quanto á sua formagáo, caso esporádico na cons­
tituido da lingua.
Posso, pelo menos, citar os seguintes exem-
plos de casos análogos:
Desinfeliz, o mesmo que infeliz;
Desagreste, o mesmo que agreste;
Desapear, o mesmo que apear;
Desarrancar, o mesmo que arrancar;
8

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114 Novas ReflexSes

Desimpureza, o mesmo que impureza;


Desnudez, o mesmo que nudez;
Desinsofrido, o mesmo que insofrido;
Desapagar, o mesmo que apagar;
Desapartar, o mesmo que apartar;
Desgastar, o mesmo que gastar;
Desquebrar, o mesmo que quebrar (em fra­
gmentos) ;
Desmudanqa, o mesmo que mudanca.
E o mesmo fenómeno se pederá observar em
desmazelado, desabado, desinviolar, destalhar, des-
lasso, desmiudar, desnegar, despavorir, desperecer,
desvao, desenxabido, etc., etc.
Está, pois, largamente radicado na lingua por­
tuguesa o prefixo des, sem designar negaqáo,
como sucede vulgarmente; e tais raízes lanqou,
que mal justificadas seráo as estranhezas, que ele
tem suscitado em bem intencionados espirites,
mas insuficientemente alumiados...

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XII

Gcrúñdios c Participios

0 Sr. Otoniel Mota, Professor em Campinas,


(Brasil), que tem prestado bons servidos á nossa
lingua, deu agora á estampa mais urna interes-
sante monografía lingüística, em que se ocupa es­
pecialmente da evolüQáo do gerúndio.
Deu ensejo a éste seu trabalho a circunstancia
de alguns filólogos terem apodado de galicismo a
sintaxe desta frase e outras semelhantes:
— "Comprei um livro compreendendo 300 pá­
ginas".
Os que assim discorrem entendem que o ge­
rúndio se nao deve confundir com o participio
activo, e que, em vez daquela frase, deveríamos
dizer: — "Comprei um livro, que compreende 300
páginas».
O Sr. Otoniel Mota nao opina assim; e, como
a teoría do finado filólogo Julio Moreira e de
outros lhe suscitasse dúvidas, tratou de procurar
nos documentos da lingua textos e provas, para

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116 Novas ReflexOes

continuar a crér que o gerúndio assumiu as fun-


QSes de participio presente e o valor de adjectivo,
como na frase citada: — "um livro compreendendo
300 páginas».
Antes de se ver que, em grande parte, os tex­
tos que ele colheu nao provam o que deseja, os
meus leitores háo de permitir-me urna ligeira di-
versáo, para lhes mostrar que, a respeito de ge­
rundios e participios, os gramáticos portugueses
e brasileiros aínda nao assentaram uniformemente
doutrina irrecusávél.
Cada um se desvia dos outros para seu lado,
e nao me admiro de que o Sr. Otoniel Mota nao
baja demonstrado plenamente a doutrina sintácti­
ca, que procura sustentar.
Comecemos pelos gramáticos brasileiros.
Julio Ribeiro, (Gramática Portuguesa, 3.a edi-
Qáo, pág. 200), regista o gerúndio cantando, e diz
que o participio presente é cantante.
Como se ve, rejeita o participio cantando, ao
contrário do Sr. Otoniel Mota.
Augusto Freire da Silva, (Compendio de Gra­
mática Portuguesa, 6.a edi?áo, pág. 166), entende
que cantando é participio presente e adjectivo
invariável; e que o gerúndio é a locugao em can­
tando.
Mais adeante, porém, (pág. 168), dá-nos exem-
plo do gerúndio curando, sem o anteceder da
preposigáo em.
O Sr. Mota provávelmente está de acordó

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Gerundios e Participios 117

com a primeira parte, mas creio que nao aceita a


segunda.
Eduardo Carlos Pereira, (Gramática Expositiva,
2.a ediQáo, pág. 282), concorda com o Sr. Mota,
consignando o gerundio cantando e o participio
presente da mesma forma, com funqáo adjectiva.
E reserva os gerundios para as locuqóes yer­
báis, como: estar cantando.
Mas vai confessando, — e já é meio caminho
andado para a verdade, — que, pelo sentido, é
difícil discriminar do gerundio o participio pre­
sente.
Maximino Maciel, (Lipoes Elementares), nao
trata do gerundio e aceita o participio presente
cantando.
Alfredo Gomes, (Gramática Portuguesa), a
mesma coisa.
Joáo Ribeiro, que, a meu vér, nao anda longe
da verdade, (Gramática Portuguesa, Curso Supe­
rior, 13.a ediQáo), regista o gerundio cantando,
nao lhe chama participio, e regista cantante como
participio presente.
O Sr. Mota nao concorda, é claro.
Referindo-me a gramáticos brasileiros, ocioso
é ponderar que apenas cito alguns nomes entre os
primaciais, deixando em paz os profetas menores.
Guando os generáis se nao entendem uns aos
outros, que faráo os soldados?
Os gramáticos portugueses nao sao menos con-
traditórios, reciprocamente.

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118 Novas ReflexSes

* *

Assim como os gramáticos brasileiros, os por­


tugueses nao se entendem uns aos outros, em ma­
teria de gerundios e participios.
O velho Reis Lobato, (Arte da Gramática), nao
regista o gerundio (cantando), e aceita dois parti­
cipios presentes: cantante (declinável), e cantando
(indeclinável).
Moráis, no Epítome da Gramática que acom-
panha o seu Dicionário, aceita cantando, como
gerúundio e como participio presente. Reporta-
va-se, coitado, ás Gramáticas francesas de Duelos
e Condillac, e todos sabemos qife o francés tem
urna só fórma gerundiva e participial.
Soares Barbosa, (Gramática Filosófica), nao
obstante o seu saber e a sua grande autoridade,
só diz heresias em materia de participios, (pá­
gina 209).
Para éle, cantando é adjectivo verbal, tomado
do ablativo do participio presente latino (cantan­
te)! pois o te final passa para do! Ha cem anos, a
Filología era isto. Nao discutamos sequér o pro-
cesso etimológico de Soares Barbosa.
Borges Carneiro, (Arte de falar, escrever e con­
tar, 1820), regista o gerundio cantando, e o par­
ticipio activo cantante. Está de acórdo com Joáo
Ribeiro, mas nao com o Sr. Mota.

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Gerundios e Participios 119

Adolfo Coelho, (NoQoes Elementares de Gramá­


tica), regista cantando como participio presente,
e nao fala de gerundio.
Augusto Ep i f an i o, fGramática Elementar), deixa
o caso em dúvida, pois diz que cantando é parti­
cipio presente ou gerundio.
Ribeiro de Vasconcelos, (Gramática Históri­
ca, pág. 187), chama gerundio a cantando, e nao
fala de participios presentes. Tenha paciencia o
Sr. Mota.
Ulisses Machado, (Gramática Portuguesa, 3.a
edicáo), a mesma coisa: nada de participios pre­
sentes.
O Dr. A. A. Cortesáo, (Nova Gramática Por­
tuguesa, 26.a ediqáo), a mesmíssima coisa.
Em meio de tantos e táo diversos parece­
res, talvez me seja permitido exteriorizar tam-
bém um parecer, por mais desautorizado que
seja.
Devo desde já confessar ao Sr. Otoniel Mota
que, nao obstante o meu melhór desejo de estar
de acórdo com lie, naturalmente me inclino
para o conceito de Joáo Ribeiro, do Dr. Corte­
sáo, do Dr. Ribeiro de Vasconcelos, de Borges
Carneiro, etc.; pois me parece que cantando é
exclusivamente gerúndio; e que o participio
activo do mesmo verbo foi cantante, hoje mero
adjectivo.
Consultando os grandes filólogos, vejo que
lies abonam o meu conceito. Meyer Lübke, por

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120 Novas Ref!ex5es

exemplo, (Gramática das Línguas Románicas,


vol. II, pág. 216), proclama expréssamente:
— "O participio presente ñas línguas románi­
cas subtraiu-se quase inteiramente ao sistema ver­
bal, para passar ao estado de simples adjectivo.
E, assim, o participio presenté mal póde tér ca­
bida em materia de conjugado«.
Isto é, desaparecen o participio presente can­
tante, que se tornou simples adjectivo, e cantando
nao é participio presente.
Os principáis gramáticos estrangeiros, tratando
da lingua portuguesa, consignam doutrina idénti­
ca. Gaetano Trisoni, por exemplo, o filólogo que
escreveu a Gramática della Lingua Portoghese-
-Brasiliana, um dos numerosos volumes que cons­
tituent a célebre Biblioteca dos Manuais Koepli,
de Miláo, regista o gerúndio (cantando), e nao
pensou no participio presente.
Mais ainda. Como as Gramáticas francesas re-
gistam um participio presente, pelo que foram
naturalmente a causa de alguns plumitivos nos-
sos empregarem cantando como participio activo
com funqáo de adjectivo, o grande Littré,(Diction,
de la Langue Frangaise, vb. Gérondif), cita opor­
tunamente as seguintes palavras do gramático
D’Olivet:
— "Ousaria eu proper urna novidade, que con­
sistiría em dar ao participio activo o nome de
gerúndio, e conservar o nome de participio só
para o participio passivo?»

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Gerundios e Participios 121

É o que eu proporia também, se tivesse o di-


reito de ser ouvido: que se eliminasse de urna vez
o participio presente das Gramáticas portugue­
sas, deixando-se o gerúndio no lugar que lhe com­
pete par droit de naissance.
Contra tal proposta insurge-se naturalmente
o Sr. Otoniel Mota, que procurou juntar provas,
para sustentar o combalido participio presente
(cantando), com carácter adjectivo.

* *

Deitemos, pois, urna vista de olhos ás razóes


do ilustre professor de Campinas, em abono do
participio presente de forma gerundia!, e com
funqáo de adjectivo.
Faz éle algumas excursoes pela gramática la­
tina, anotando relaqóes entre o gerúndio, o par­
ticipio e o infinitivo; mas reconheceu cértamente
que nao há alegajes teóricas que prevaleqam aos
facfos da linguagem, e, por isso mesmo, como in­
vestigador consciencioso e diligente, tratou de
reunir abonares clássicas, em que o suposto par­
ticipio presente nos aparece sob a fórma gefun-
dial.
Parece-me todavía que, procedendo a essa in-
vestigagáo, já tinha opiniáo formada sobre a legi-
timidade do gerúndio, aplicado como participio
activo e com funqáo de adjectivo.

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122 Novas Reflexdes

Seria preferível que, antes de se dedicar a ésse


trabalho, nao tivesse formado previamente opi-
niáo, para nao tér de aplicar alguns textos em
sentido que Síes nao comportam. Nao há dlívida
que um ou outro escritor terá empregado o ge­
rundio com funcáo adjectiva, talvez sem dar por
isso, tal é a influencia que a sintaxe francesa tem
exercido, até em espirites que contra ela deviam
estar precavidos.
Mas daqui a vermos participios presentes em
todos os textos, que nos mostrara o gerundio,
nao vai pequeña distancia. Assim, quando Vieira
diz: — "O espóso, atravessando serras», — ¿com
que direito ou com que necessidade havemos de
chamar participio áquele atravessando? Nao Ihe
vejo funqáo de adjectivo, e, para mira, é sempre
gerundio, que poderla substituir-se por urna lo-
cuQáo: —"Ao atravessar«: “na ocasiáo em que
atravessava...»
O Sr. Mota tambera ve participio nesta outra
expressáo de Vieira: — «Como leáo bramindo...»
Por ésse processo, nunca teríamos gerúndios,
e deveríamos criar nova gramática, para chamar-
mos participios presentes aos verbos das seguin-
tes locuqoes:
— “Moje, saindo de casa...»
— "O vizinho, enganando-me...»
— "As tropas, fugindo...«
Em nenhum déstes casos o gerundio exerce
funqáo adjectiva, nao podendo portante ser parti-

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Gerúndios e Participios 123

cípio presente. Chegaria a tér grasa que aquele nao


podendo também atestasse fungoes adjectivas.
Bernardes é igualmente acusado de paríicipis-
ta, quando diz — "Mulher... é leda abrasando...»
¿Para que havemos de imaginar a equivalen­
cia: «leda que abrasa», se podemos e devemos
supor: "leóa, quando abrasa», ou: «leóa, ao abra­
sar...», qualquér coisa em-fim, que nao corres­
ponda ao preconceito do Sr. Mota?
Mais flagrante é ainda a violencia, com que
se procura vér participios presentes nos seguin-
tes textos:
1.° "Estando em Gibraltar, nao consentí...»
Mas isto é portuguesíssimo, e nao há ali nada
que represente fungáo adjectiva, isto é, que seja
participio presente.
2. ° "Comedia... feita... a D. Joáo III, sendo
príncipe».
Corrente. Sendo príncipe significa claramente
quando era príncipe, e nao que era príncipe.
Á excepsáo de um texto de Herculano e de um
ou dois de Latino, pode talvez dizer-se que todos
os textos aduzidos podem ser analisados como os
dois que acima transcrevi. Quando algum escri­
tor escorrega involuntariamente em locusoes deste
género: — «Tenho urna casa abrangendo nove
divisdes», deveria tér dito que abrange, porque o
gerundio, com valor de adjective, nao é da ín­
dole da lingua, mas provável reflexo da sintaxe
francesa.

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124 Novas ReflexSes

Entretanto, claro é que, com o trabalho e o


talento que distinguen: o Sr. Otoniel Mota, e
com alguns textos pouco felizes, aínda se pederá
sustentar meia hora a doutrina do ilustre pro­
fessor.

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Sinónimos

A riqueza do nosso idioma nao está simples-


mente em seu numeroso vocabulario, — mais nu­
meroso que o de todas as línguas, de que eu tenho
mais ou menos noticia.
Para a sua riqueza contribue também a abun­
dancia dos significados de cada palavra e sobre-
tudo a variedade e o número de vocábulos, com
que se póde exprimir um ideia.
Com efeito, a sinonimia portuguesa é táo ex­
tensa e variada, que seria boje dificílimo organi­
zar-sé um completo dicionário de sinónimos por­
tugueses.
Cada urna das partes de um simples carro de
bois, por exemplo, é conhecida, de localidade para
localidade, por nomes táo diversos e táo nume­
rosos, que mais de urna vez parece a estranhos
que tais nomes representan] objectos distintos.
A título de curiosidade, e como subsidio a
quem se lembre, um dia, de organizar um dicio­
nário analógico portugués, — que bem conve­

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126 Novas Reflex5es

niente seria, — posso registar os seguintes termos,


que todos dizem respeito ás várias partes de um
simples carro de bois:
— Cabegalha, cabegalho, brocha, bussil, cabega-
Ihao, cabresto, socairo, canzis, cangalhos, coucóes,
treitoira, treitoeira, entriteiras, lobeto, cantadeira,
cantadoira, cheda, chedeiro, cocao, chavija, mile,
cambas, impolto,sobrerrelha, tesoira, torneja, torne-
jao, sobeu, pespilhar, picando, cadeias, lame, couci-
Iháo, caibro, meao, cambras, pigarro, medio, cam-
bao, pina, casse, sobrecadeira, tendal, cintel, limao,
lunar, sobreporta, titela, mapa, berlota, mancebo,
cadelo, ponte, estronca, lúria, malhal, malhete,
meal, prítica, rodado, pinalho, tougo, trapeiro, ro­
dal, romao, engala, sobrelimao, tesao, zimboque,
etc., etc.
Com o nosso velho moínho ou azenha, dá-se
próximamente a mesma variedade de nomencla­
tura para cada urna das suas partes; mas, para
desviar o enfado do leitor, nao farei, a tal res­
peito, registo análogo ao das várias partes do carro
de bois.
Quero, porém, referir-me, ao menos, a duas
palavras, que só por si, abonam a riqueza sino­
nímica da lingua portuguesa: embriaguez e me­
retriz.
Como meretriz tem numerosos sinónimos, que
sáo verdadeiros e desagradáveis plebeísmos, com-
preende-se que eu déles nao faga aqui especial
registo. Mas a embriaguez nao está precisamente

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Sinónimos 127

no mesmo caso; e como ela, em Portugal e no


Brasil, tem tantos sinónimos, que talvez sejam
novidade para muita gente, mostrare! que o acto
ou vicio da embriaguez me ministrou, apesar de
tudo, um dos mais significativos documentos da
riqueza sinonímica da lingua portuguesa.
É curioso e talvez instrutivo, — parece-me.
O leitor julgará.
*

* *

Registarei, pois, um feixe de sinónimos de em­


briaguez, colhidos na linguagem culta, na lingua-
gem plebeia e até na gíria.
1. ° — Aforda. — Éste sinónimo é privativo da
gíria: «aquele gajo apanhou boje urna agorda".
2. ° — Barretina. — É outro termo de gíria.
Como a cabega se tolda com a embriaguez, o ins­
tinto popular relacionou o facto com palavras que
indicam cobertura para a cabega: barretina, cabe-
leira, touca, pala...
3. ° — Bébeda. — É um provincialismo, que eu
colhi em Turquel, mas extensivo a outras locali­
dades: "vai cozer a bébeda»...
4. ° — Bebedeira. — É um dos sinónimos mais
correntes.
5. ° — Bebedice. — Menos usual, mas portugués.
Mais própriamente, designa o vicio de beber mui-
to, o que nem sempre importa embriaguez.

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128 Novas ReflexSes

6.°
— Berzunda. — É vulgar no Alen tejo.
7. ° — Berzundela. — É igualmente provincia­
lismo alentejano.
8. ° — Bico. — É termo familiar, com que se in­
dica embriaguez incompleta, ou principio de em­
briaguez.
No Roberto, notável parodia do Dom Jaime de
Tomás Ribeiro, por Manuel Roussado, há esta
referencia ao bico:

«Nota. Repare o leitor


que o meu estro aquí foi rico:
como a scena é de taberna,
arme! os versos em bico».

9. ° — Bicancra. — É termo chulo, que se rela­


ciona com bico, na mesma acepqáo.
10. ° — Borracheira. — Termo vulgar, derivado
de borracho, (bébedo), como borracho é um deri­
vado de borracha, (pequeño vaso de couro para
transporte de vinho).
11. ° — Bruega. — Esta palavra, que no Brasil
significa desordena ou barulho, usou-se em Por­
tugal, no sentido de chuva miúda, e é aínda ple-
beísmo, usado no sentido de embriaguez. Desco-
nhece-se a sua origem.
12. ° — Cabelcira. — É acepgáo figurada, como

a de touca, barretina e pala, no mesmo sentido.


13. ° — Cachaceira. — É brasileirismo contien­
do, e bem derivado de cachaca. •

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Sinónimos 129

14. ° — Cacharamba. — É boje termo desusado,


que talvez proviesse do quimbundo.
15. ” — Canjica. — Vocábulo muito conhecido
no Brasil, em virios sentidos, entre os quais o de
embriaguez. Parece que proceden da África, do
quimbundo. Como se sabe, os negros transmiti­
rán! grande número de vocábulos a portugueses
e brasileiros.
16 .° — Camoe'ca.— É termo popular, de ori­
ge m desconhecida.
17. ° — Cardina. - É acepqáo popular. Em ace-
pcáo geral, designa as pastas de sujidade, que
aderem ao pelo ou lan dos animáis, e é possível
que se ja um derivado de cardim, que vem de car­
do, e se aplica ao toiro de pelo branco e preto.
18. ° — Cardiola. — É o nome que os trasmon­
tanos dio á cardina.
19. ® — Carga. — De um individuo bébedo diz
o povo: aquele sujeito está carregado. E por­
tanto natural foi que á embriaguez chamasse
carga.
20. ® — Cara,panta.'—Plebeísmo, de origem des­
conhecida, se nao é alterado de carraspana.
21. “—Carraspana —Vulgaríssima, estaexpres-
sio popular. É desconhecida a sua origem, mas
deve relacionar-se com o termo carraspeira, que
em Trás-os-Montes designa a aspereza, que se
sente na garganta, como por efeito de constipado.
22. “— Carrega. — Usa-se principalmente no Mi­
ntió, e é substantivo verbal de carregar. De um bé-
9

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130 Novas ReflexSes

bedo, que passa, diz ás vezes o povo: leva os


machinhos carregados.
23. ° — Carióla. — Como se sabe, a carióla, em
linguagem popular ou familiar, designa chapéu
alto; e já notei como o povo relaciona as cober­
turas da cabeqa com os vapores da bebedeira:
barretina, cabeleira, pala, touca, carióla...
24. ° — Cegonha. — Provávelmente, o termo nSo
se relaciona com a ave do mesmo nome. É mais
natural que se ja reflexo burlesco de ceguelra e ce-
gueta, pois que o ébrio nao tem a vista clara.
25.0 — Chiquita. — É provincialismo de Trás-
-os-Montes. Evidentemente, os trasmontanos nao
foram buscar o termo ao Novo Mundo; mas é
curioso notar-se que na América do Sul se dá o
nome de chica a urna bebida alcoólica.
26. ° — Crapiela. — É provávelmente formagáo
de píela, com um prefixo incerto ou arbitrario.
27. ° — Dosa. — É claramente alteragáo de dése,
porgáo, quantidade. Ouve-se principalmente na
Beira e em Trás-os-Montes.
28° — Ebriedade. — É termo erudito, que nos
velo do latim ebrietate, e é privativo de lingua-
gem culta ou literaria. A ebriedade do amor, por
exemplo.
29.° — Embriaguez. — Termo corrente e limpo.
É substantivo verbal de embriagar. O adjective
latino ebriacus, (bébedo), formaría, hipotéticamente
falando, o verbo ebriecar (embebedar), que por
natural evolugáo, passaria para ebriagar, nasalan-

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Sinónimos 131

do-se a primeira sílaba, talvez por influencia do


do prefixo em, que acompanha multas fórmas ver­
bals: embocar, embrechar, embarrar, empalhar,
empacotar, empedrar, etc.
30. ° — Erna. — É um termo conhecido ao norte
do Brasil, onde significa, ao mesmo tempo, o
acto de mascar tabaco.
Como o fumo do tabaco entontece o fuma­
dor incipiente, tornou-se extensivo o termo á be-
bedeira, se nao suceden o contrario.
Erna também é nome de urna ave, e nome
próprio de mulhér; mas a ema, bebedeira, deve
sér vocábulo distinto.
31. °—Gata. — Em tal sentido, é termo popu­
lar ou familiar, mas nao entrevejo a relaqáo, que
ele tenha com animal do mesmo nome. Talvez
provenha do caláo de marinheiros, pois que,
como se sabe, a gata, além de significar urna
das gáveas, também significa urna especie de án­
cora, cujas unhas se cravam ao mesmo tempo no
fundo da agua. E assim, a bebedeira seria qual-
quér coisa que se acha no interior do bébedo;
isto é, seria urna gata.
Conjecturas, já se ve.
32. ° — Gafeira. — É um simples derivado do
vocábulo antecedente.
33. ° — Grossura. — É termo de gíria, neste ca­
so. Como a embriaguez parece tornar mais pe­
sado o individuo, vista a dificuldade dos moví- '
mentos, e como um individuo pesado é natural­

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132 Novas ReflexSes

mente corpulento ou grosso, talvez daqui viesse


a razáo da grossura, (embriaguez).
34. ° — Marmelo. — É termo dos Azores. Nao
sel a razáo déle. Talvez o ébrio, que coze urna be-
bedeira, sugerisse a ideia de alguém que digere
difícilmente um marmelo cru.
35. ° — Marta. — Ouve-se em Trás-os-Montés.
É possível que o termo provenha de um nome
próprio de mulhér, se alguma, chamada Mar­
ta, se tornou afamada pelos seus sacrificios a
Baco.
36. ° — Mela.—No sentido de embriaguez, é
brasileirismo.
Temos mela, doenga de vegetáis, e, figurada­
mente, falta de vigor; e como a bebedeira póde
produzir grande prostraqáo de forjas, talvez daqui
proviesse a razáo do termo.
37. ° — Moafa. — É termo popular, corrente. O
próprio Garrett o empregou, na sua comedia Fa-
lar verdade a mentir.
Parece termo de origem cafreal.
38. ° — Mona. — É termo chulo. A razáo déle
será urna de duas: ou porque o ébrio faz trejei-
tos e esgares como a mona, a fémea do macaco;
ou porque a embriaguez faz multas vezes que o
bébedo se mostré casmurro, macambúzio, mono.
39. °—Nassa. — É termo usado em Trás-os-
-Montes, como sinónomo de bebedeira. Náo sel
porqué...
40.°—Nena. — Como sinónimo de embriaguez,

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Sinónimos 133

é também de Trás-os-Montes, especialmente de


Miranda.
41. ” — Pala. — Termo de gíria. Tem razáo
análoga á da barretina e da taúca, quando usadas
no mesmo sentido.
42. ” — Peleira. — Provávelmente, é contracto
de pieleira, derivado de píela.
43. ° — Píela. — É muito conhecido o termo, e
de uso geral entre o povo. Derivaram-no de piar,
que nao tem nada com o outro verbo piar, (dar
pios).
Em gíria, piar significa beber vinho ou outro
líquido alcoólico, e veio do caló piyar, (beber).
44. ° — Perua. — Nao sei como o termo se re­
lacionará com o nome da ave, perú. Mal compa­
rado, talvez se relacionasse com as grandes em­
barcares, a que no Brasil chamam perus. •.
45. ° — Pifao. — É termo chulo, muito conhe­
cido em Portugal. Até a musa popular o aprovei-
tou. Quando se estabeleceu o sistema métrico,
cantava se:

«Éstes metros e estes litros


vém pór tudo em confusSo:
vai um homem p’ra a taberna,
de pena e papel na tnüo,
para vér com quantos litros
póde agarrar um pifao».

46. ° — Piteira. — Eu nao sei se do fruto da


planta piteira se extrai aguárdente. O que é certo

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134 Novas Reflexoes

é que a gíria chama piteira á aguárdente, e, ex­


tensivamente, dá o mesmo nome á bebedeira.
47. " — Pizorga. — É termo de gíria, um pouco
desusado já.
Os bébedos também se chamam pizorgas, mas
naturalmente nem éles sabem porqué.
48. ° — Porco. — Porque será que, para a gíria,
tomar um porco, ou estar com o porco, é embria­
garle? Será porque o bébedo dorme ás vezes
como um porco?
49." — Pórre. — É também termo problemático.
50. " — Rapioca. — Mais vulgarmente, dáo éste
nome á pándega, á estroinice; e, provávelmente,
como a pándega e o vinho sao ideias associadas,
tornou-se extensivo o nome, e, talando chulamen­
te, deram-no também á bebedeira.
51. " — Raposeira. — Dá-se vulgarmente éste
nome a urna boa soneca; e, como entre o vinho
e o sono há conhecidas relagoes, conseguiu a em­
briaguez mais aquele sinónimo.
52. " — Rasca. — É chulismo do Brasil, origi­
nado talvez de que os enófilos da taberna prefe-
rem o vinho rascante, adstringente, que rasca na
garganta. Ou nao?
53. " — Rosca. — É provincialismo minhoto. Nao
sei a razio déle.
54. " — Tachada. — Eu supus, em tempo, que
esta palavra seria corruptela fácil de togada, (con­
feti do de urna tasa). Mas os bébedos de baixa ex­
travio conhecem pouco as tagas, e nlo lhes basta­

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Sinónimos 135

ría o conteúdo de urna, para ficarem como hao


de ir.
É talvez mais natural qué o termo seja um
derivado de tacho. Um tacho sempre leva mais
que urna taca
55. °— Temulencia. — Éste agora é termo culto,
como a ebriedade, a embriaguez... Já o conhe-
ciam os Latinos, porque o vinho e os seus pióres
efeitos já eram conhecidos desde a mais remota
antiguidade, — desde Noé, pelo menos. O pobre
patriarca escapou do diluvio universal, mas afun-
dou-se um dia numa tal embriaguez, que os filhos
Jafé e Sem viram-se em talas, para esconder ao
povo aquele pavoroso escándalo.
O Génesis, (IX, 10), conta singélamente:
— "ComeQou Noé a cultivar a terra e plantou
vinha.
«E, bebendo vinho, ficou embriagado e nu, na
sua tenda».
É que o pobre Noé aínda nao sabia dos efei­
tos do vinho. Se soubesse, talvez nem ele plan-
tasse a primeira vinha, nem eu estaría hoje a dis­
cutir a vasta sinonimia do piór efeito do vinho.
56. ° — Tiorga — É expressáo popular, que tal­
vez se ralacione com pizorga.
57. °— Torda — É provincialismo trasmontano,
corrente sobretudo no concelho de Sabrosa.
Ñas provincias portuguesas do norte, é mais
ou menos freqüente um vicio de pronuncia, que
os glotólogos chamam lambdacismo, e que consiste

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136 Novas ReflexSes

na substituicao da letra l pela letra r. Está-me pa-


recendo que isso se deu na torda, e que esta forma
é corruptela de tolda, acto ou efeito de toldar.
Efectivamente, o vinho tolda a cabera, dizem.
58. °—Touca. — Pertence ao grupo pinturesco
da pala e da barretina. Mas aínda há outro termo,
que talvez tenha afinidade com ésse grupo. É o
seguinte:
59. ° — Perunca. — Se me nao engano muito, a
perunca é simples corruptela de pernea. A pernea,
ou cabeleira, nao fica mal, debaixo da touca.
60. °—Travoada. — Melhór se diría urna tur-
voada, mas as coisas sao o que sao. E quem sabe
se o termo, na sua origem, nao seria atordoada,
substantivo verbal de atordoar?
Se ja o que fór, adeante.
61. °— Trapizonda. — Escusam de procurar-lhe
parentesco com a velha cidade de Trebizonda, que
na Idade-Média foi capital do Império Romano do
Oriente. O termo é castelhano; em Espanha, si­
gnifica desordena, confusao, balbúrdia. Passou para
os Portugueses de Trás-os-Montes, e, lá, signi­
fica simplesmente urna bebedeira, sem mais nada.
E já nao é pouco.
62. ° — Turca. — Com efeito, a embriaguez é
mais turca do que cristan; mas digam lá os sa­
bios da Escritura porque seria que o povo por­
tugués baptizou a bedeira com um nome de quem
se nao baptiza. Talvez fósse porque o bébedo,
embora baptizado, nao gosta de que lhe baptizem

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Sinónimos 137

o vinho; vinho baptizado, ou vinho com água, nao


serve para camoécas de respeito.
63. ® — Verniz. — Parece que o vinho, bebido á
larga, enverniza as faces e o nariz. Para o verniz,
com que se dá polimento aos móveis, é preciso
resina e álcool; para o verniz da embriaguez, basta
urna das coisas. A economía nao é palavra vá...
64.® — Doeiro. — Usa-se no Minho.
65.® — Dor-de-cabresto. — Idem.
66. ® — Zerenamora. — Esquisita coisa, éste tras-
montanismo! Estudem-lhe os filólogos a morfolo­
gía, que eu nem entrevé-la posso. Procedendo por
conjeturas, talvez pudéssemos deduzir aquilo de
duas palavras castelhanas, sirena mora (sereia moi-
ra); e, como já vimos que os bébedos apreciam as tur­
cas, nao repugna que também apreciem as moiras.
Éles lá sabem. O que eu sei também é que
esta ladaínha já vai multo estirada e que, embora
nao seja difícil reunir aínda mais sinónimos de
embriaguez, nao devo abusar da paciéncia de quem
me lé, alongando muito a palestra, em assunto
de duvidoso interesse.
Fica no entanto registado um dos mais signi­
ficativos exemplos de que é riquíssima a nossa
lingua, e de que da sua riqueza nos devemos ufanar.

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XIV

Filinto Elisio

Francisco Manuel do Nascimento, triáis conhe-


cido pelo nome que lhe deu a primeira Marquesa
de Aloma, Filinto Elisio, embora longe da patria
que o exilou, prestou patrióticamente assinalados
servidos á lingua da sua terra, defendendo a so­
bretodo contra as invasóes do francesismo, e ata­
cando rudemente os francelhos e galiciparlas, —
como ele dizia.
A par de grandes e incontestáveis servidos á
nossa lingua, a consciencia dos próprios méritos
e a sua altiva éxcentricidade de carácter, arrasta-
ram-no a incorrecQoes e extravagancias, que obri-
gam os críticos judiciosos a por de sobreaviso os
estudiosos da lingua.
Quern, como eu, teve a paciencia benedictina de
lér atentamente os numerosos trabalhos literarios
de Filinto, pode colher farta messe de audacias e
extravagancias, que de maneira nenhuma se deve-
riam apontar como exemplos clássicos.

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Feli'nto Elisio 139

A título de curiosidade, e como aviso a incau­


tos, reunirei aquí um pequeño feixe de extrava­
gancias filintianas.
Em Filinto, a própria sintaxe sofre ás vezés
tratos de polé, como ñas máos de qualquér es­
criba de sexta ordem. Veja-se como ele tratou o
verbo haver:
— "Haja vista ás bandurras alfamistas». {Obras,
vol. I, pág. 131, edigáo rolandiana).
— "Haja vista ao entremez». (Ibidem, vol. V,
pág.138).
— "Houveram grandes terremotos». (Vida e
Feitos de D. Manuel, vol. III, pág. 259).
— "Houveram alguns que...» (Ibidem, vol. I,
pág. 20).
— «Haviam poderes...» (Ibidem, vol. III,
pág. 54).
Em matéria de adverbios de modo, teve inven­
tes destas:
— ..." o que é viver aprende, sem deixar que­
brantar-te mulhermente». (Obras, vol. IV, pág. 95).
— "Quando nao talamos académica nem pulpi-
tamente...» (Ibidem, vol. XIII, pág. 115).
Como espécime de superlativos impossíveis,
bastará mencionar trés exemplos:
Em frente do orelhíssimo francelho...'<(Obras,
vol. V, pág. 20).
— 11... companheiro do Pinto viagíssimo. (Ibi­
dem, vol. XI, pág. 134).
No género das palavras compostas, cite-seisto;

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140 Novas ReflexSes

— "Batatíphago», (que se alimenta de batatas).


(Obras, vol. V, págs. 103 e 111).
— «Fund-dobre», (que tem tundo duplo). (Ibi­
dem, vol. XVI, pág. 93).
— «Olhitoiro», (que tem olhar de boi). (Ibi­
dem, art. V, pág. 89).
— "Esquisitiparla„, (aquele que tala esquisita-
mente). (Ibidem, vol. XIX, págs. 267 e 269).
— "Tivemos por manticostumes o teor monár­
quico». (Ibidem, vol. XXII, pág. 115).
Muitas vezes Filinto empregou o relativo cajo
no mesmo sentido de o qual, de encontró aos
mais simples preceitos gramaticais. Vide Obras,
volume XIX, págs. 61 e 103; vol. XX, págs. 78,
120 e 127; vol. XXII, págs. 12, 57, 60 e 106).
Para designar urna coisa esquisita, urna con­
cepto disparatada, inventou ele um vocábulo:
fósmea. (Obras, vol. I, págs. 12 e 169; vol. IV,
pág. 88). E, sobre essa invento, levantou outra:
fósmeo, adjective, para significar abstruso, dispa­
ratado, etc. (Obras, vol. XIII, pág. 165).
Em vez de sugagao (acto de sugar), nao se
lembrou de fazer saga, e inventou soga. (Obras,
vol. XV, pág. 308).
Em vez de azucarado ou sacharino, éle, que
detestava os francelhos, fez-se francesista e, do
sucre francés, derivou, para nosso uso, o adjectívo
sucreo ! (Obras, vol. IX, pág. 163).
Em vez de industrioso ou industrial, inventou;
industre.

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Filinto Elisio 141

Em vez de genebrés, (habitante de Genebra),


inven tou genebro.
*

Entre as suas infelizes invettgoes, temos tam-


bém o adjectivo septifúlmino, que Filinto aplidou
ao substantivo voz, nesta locugáo: septifúlmina voz,
como que dizendo voz de sete raios. (Obras, vol.
XVI, pág. 318).
*

No volume I, pág. 50, refere-se ao letargo em


que puseram a lingua

«Bal ofos biltres, mazorrais syndapsos».

¿Que entendería ele por syndapso, vocábulo que


eu nao descubro em nenhuma lingua románica, e
cuja composigáo ou derivagáo é misterio para mim?
Á primeira vista, poderá parecer termo híbri­
do, formado da partícula grega sun e do latim
daps, podendo, neste caso, significar urna especie
de comensal. Mas quem sabe lá a intengáo do
poeta?
*

No volume X, pág. 262, refere-se a um vento


de oésnoroéste, que ele chama Jápix. Ora, os La­

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142 Novas Reflexdes

tinos davam ao vento de noroeste o norne de


iapix, iápigis; portanto, a forma portuguesa seria
iápige; e, aínda que Filinto tomasse a liberdade
de adoptar o nominativo latino como etimología
da palavra portuguesa, aínda assim a primeira le­
tra deveria ser i, e nao j.

No volume I, pág. 49, fala-nos de urna lingua


freirá, em vez de freirática ou delambida. Nao
vejo meio de se justificar a inven cao.
Na mesma página do mesmo volume, refere-se
a urna lingua bruta, que éle qualifica de oco-ritn-
bomba.
No vol. X, pág. 262, faz referencia aos irmaos
de Hélena. Esta prosódia seria a exacta, mas nunca
se usou em portugués. Todos nós, como nossos
país e avós, pronunciamos Helena, e, pelo menos,
seria inteiramente inútil aconselhar-se outra coisa.
Outra excentricidade é a "remora angairodente»
do vol. IX, pág. 270.
No volume XIV, pág. 234, depara-se-nos a pa­
lavra hyppéphalo. Mas é palavra que nunca exis-
tiu nem póde existir. O que há é hippélapho ou
hipélafo. O poéta enganou-se e fez metálese a seu
talante.
A locuqáo o mais mínimo, inadmissível a meu
ver, também é de Filinto: vem no vol. XIII,
pág. 39.

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Filinto Elisio 143

O laureado escritor, no mesmo volume XIII,


pág. 187, nao teve escrúpulo em escrever a ex-
pressáo pouco galanes, em vez de pouco galantes
ou pouco corteses.
No yol. I, pág. 49, fala-nos das nobres acade­
mias ...
Nós temos academia em Belas-Artes; mas a
um conjunto de académicos e a varios institutos
dá-se o nome de academia.
Bern sabemos que, originariamente, academia
e academia sao a mesma palavra, e que a prosódia
academia podia ser legitima para ambos os casos;
mas os tactos sao tactos; e talar como mais nin-
guém tala é passear na Lúa...
Do que tudo se conclue que o velho Castilho
tinha carradas de razáo, quando disse, referindo-se
a Filinto:
— «Fez servido talvez maiór que nenhum dos
clássicos; mas é de todos o menos para seguir ás
cegas».

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Singularidad^ de alguns números
singulares...

Quem observar a constituí gao da lingua por­


tuguesa reconhecerá que, em regra, os substanti­
vos portugueses, derivados do latim, receberam
dos Romanos a prosodia, o género e o número, se
reunirmos numa categoría o género masculino e
o neutro; e também reconhecerá que há interes-
santes excepgdes daquela regra, mérmente quanto
ao número singular de muitos substantivos portu­
gueses; as vezes, procedem de adjectivos latinos
e, mais vezes aínda, representara, no singular, o
plural latino.
Um dos exemplos mais característicos é o subs­
tantivo portugués arma, que veio do substantivo
latino arma. Mas arma, no latim, é plural neutro
e designava quaisquér armas ofensivas ou defen­
sivas. Para designar urna arma, no singular, os
Romanos serviam-se de ferrum e de outros termos.

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Singularidades de al guns números 145

Agenda, que é substantivo feminino, singular,


em portugués, é adjectivo, plural, neutro, em la-
tim, concordando, clara ou latentemente, com ne-
gócios; negotia agenda, (coisas que se devem fazer).
Legenda está precisamente no mesmo caso: é
fórma adjectiva e plural, como se disséssemos, em
latim, negotia legenda, (coisas que se devem lér).
Lenha, por intermedio do baixo latim lenia,
procedeu do latim clássico ligna; que é plural de
lignum, (lenho).
Marsúpia veio do latim marsupia, que é o plu­
ral de marsupium, (bolsa).
Parelha veio do latim parilia, que é plural
neutro do adjectivo párilis, (igual).
Pétala, substantivo singular em portugués, re­
presenta o latim pétala, que é o plural neutro de
pétalum, (folha).
Sina, feminino, singular, corresponde etimoló­
gicamente ao latim signa, plural neutro de signum,
(sinal).
Muralha veio do latim muralia, que é adje­
ctivo neutro, plural de muralis, (relativo a muro).
Pera veio da fórma latina pira, que é plural
de pirum, (pera).
Úlcera, singular, feminino, corresponde á fórma
latina ulcera, que é plural neutro de ulcus, (chaga).
Boda, singular feminino, veio do latim vota,
plural neutro de votum, (voto).
Folha, singular, feminino, veio do latim folia,
que é plural neutro de folium, (folha).
10
Biblioteca Nacional de España
146 Novas ReflexSes

Fada corresponde ao latim fata, plural de fa­


tuta, (fado).
*

Além dos exemplos citados, tenho mais.


Do latim capút capitis, (cabera), derivam os
Latinos o seu capitium, (cobertura da cabega); e
do plural deste vocábulo, que é neutro, (capítia),
derivámos nós o substantivo singular e feminino,
cabera.
Segundo o parecer do sabio Meyer-Lübke, o
nosso vocábulo cernelha, singular e feminino, pro-
veio de cernida, que é contracgáo de cernicula,
plural do substantivo latino cerniculum, do género
neutro.
A nossa gola é um claro derivado do latim
colla, que é o plural do substantivo neutro collum.
A ferranienta portuguesa, singular e feminina,
procede do latim ferramenta, que é o plural do
substantivo neutro ferramentum.
A nossa festa está no mesmo caso: é o latim
festa, plural de festum, neutro.
E no mesmo caso está a fila.
E a ementa.
E a ópera.
E a obra.
E a pimenta.
E a ova.
E a miscelánea.

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Singularidades de alguna números 147

E a mobília.
E a /Dtissa.
E a monelha.
E a mortalha.
E a maravilha.
E a sobrancelha.
E a sorwz.
E a tormenta.
E a manta.
E a amora.
E a alimária.
E a brévia.
E a íy//í<z, (pelo).
E a crónica.
E a coca, (célula oca).
E a colheita.
E a adenda.
E a corrigenda.
E a componenda.
E a gesta.
E a antiga bona.
E a nómina.
E a mónita.
E a vímina.
E a espinha.
E a bisélia.
E a boceta.
E a babídola.
E a peita.
E a c/V/ozíz.

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148 Novas ReflexSes

E a igualha.
E a espinha.
Etc., etc.
Fica, pois, demonstrado que nao obstante os
principios gerais em contrário, muitos substanti­
vos portugueses, femininos, de género singular,
tiveram por origem vocábulos latinos, do número
plural e neutros.
Quanto a vocábulos masculinos, do singular,
procedentes de plural latino, só me ocorre agora
o nosso incunábulo, que veio do plural latino in­
cunabula; e tal vez o nosso codicilo, do plural la­
tino codicilli. Digo talvez, porque os Romanos
também tinham o singular codicillus, mas em ace-
PQáo diversa da do nosso codicilo.
Registando-se estas e outras singularidades,
urde-se talvez um pequeño capítulo da história
da lingua, e pdem-se de sobreaviso varias criatu­
ras ingenuas, que aceitam como dogmas todas as
teorías da Gramática que decoraram.

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Camócs

Evidentemente, os Lusíadas sao o mais alto e


perdurável monumento da lingua portuguesa.
Traducidos em todas as línguas cultas, estudados
e admirados durante quatro séculos, dentro e fóra
de Portugal, nao constituem simplesmente a gló-
ria de um poeta, mas aínda imarcescível glória de
urna pequeña nacionalidade, que se tornou respei-
tada pela sua enorme extensáo colonial, e que,
juntamente com o Brasil, se ufana de falar a opu-
lentíssima e formosa lingua em que foi escrito o
assombroso poema.
Nao obstante’, de tempos a tempos, e a par de
bem intencionadas críticas sobre pontos obscuros
ou duvidosos da obra de Cambes, tém surgido
detractores malévolos e zoilos inconscientes, que
baldadamente tentaram denegrir ou apoucar o
prodigioso épico.
Verdade é que essas tentativas nao tém ficado
impunes, e que, por cada detractor dos Lusíadas,

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150 Novas ReflexSes

se ergue urna pléiade de paladinos, para rebater


audácias, ruins intuitos e culposos desacertos.
Entre ésses paladinos, veio recentemente to­
mar lugar um erudito patriota, cujo saber e ta­
lento sao táo grandes como a sua modestia, e que,
velando o seu nome sob o simples criptónimo de
Curioso obscuro, brindou as letras portuguesas
com um vol. de 332 págs. in 8.° grande, sob éste
modestísimo título: Apontamentos sobre os "Lu-
síadas», ensato de crítica ás críticas do poema
nacional.
Além dos mais naturals sentimentos de jus-
tiga, que me nao permitirían: calar o nome do
autor da obra, acresce que esta é acompanhada da
seguinte dedicatoria: — Á perpetua cerfraterniza-
(do das nagoes irmds, Portugal e Brasil, na indus­
tria e no comercio, e sobre tudo em moral e justiga,
dedica efectuosamente o autor; e o Brasil e Portu­
gal sao igualmente interessados em conhecer o
modesto mas brillante escritor, que, abroquelado
pelo seu patriotismo e pela sua erudiqáo, vem nó-
bremente fazer rosto aos críticos dos Lusíadas.
Já outra vez me referí ao mesmo escritor, ao
noticiar outra obra sua, — a tradugáo, em versos
portugueses, das poesías de Catulo, Tibulo e Pre­
párelo: é o Sr. Arcebispo de Calcedónia, Dr. Ai­
res de Oouveia, que depois de tér percorrido
com grande brilho os mais vistosos degraus da es­
cala social, — Lente da Universidade, Deputado ás
Cortes Presidente da Cámara dos Deputados, Mi-

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CamCes 151

. nistro da Justina, aplaudido e vernáculo orador


sagrado e parlamentar, — chegou vigorosamente
aos oitenta e oito anos de idade, e atesta aínda o
seu vigor em bem servir as letras portuguesas,
retraindo-se na sombra, sem pruridos de glórias
e triunfos.1

Os vinte capítulos da obra do Sr. Arcebispo


de Calcedonia abrangem, como ele diz, modestas
elucidates de varios passos embarazosos e con-
troversos dos Lusíadas.
Logo no capítulo segundo, versa o autor um
intersante assunto: versos errados, atribuidos a
Camóes; e mostra, com documentos á vista, que
efectivamente nalgumas edites aparecem versos
errados, mas que ésses erros procedem dos edi­
tores e dos anotadores descuriosos. E, assim,
aponía virios erros evidentes, que se nos depa-
ram na edito do Gabinete Portugués de Leitura
do Rio-de-Janeiro, na magestosa edito Biel, do
Porto, etc.
Bastará um exemplo. Camóes, como se ve ñas
suas primeiras edites, grafava hüa, que cons­
tituía urna só sílaba métrica; e a edito Biel, mo­

1 Meses depois de escritas estas linhas, o Sr. Arcebispo


de Calcedónia faleceu na Praia da Granja, em Fevereiro
dé 1917.

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152 Novas Reflexdes

dernizando a grafía camoneana, substituía sempre


aquela forma por urna, que sao duas sílabas; e
apenas por causa desta palavra, rnais de urna dú-
zia de erros métricos apareceram nagüela edigáo.
Outros, porém, e muitos, sao os erros de me-
trificagáo, que o tristemente célebre José Agosti-
nho de Macedo atribue ao nosso maiór poéta; e
désses supostos erros se incumbiu o Sr. Arcebispo
de Calcedónia de provar a inanidade e o absurdo.
De maneira que os erros métricos dos Lusía-
das, uns sao mera invengáo de zoilos tresnoita-
dos, e outros sao obra dos editores. Sabido é que
varios editores, ou os curiosos que éles encarre-
gam de dirigir as edigóes, desrespeitam a cada
passo os autores das grandes obras antigas, substi­
tuido as formas genuínas pelo pechisbeque de
invencionices baratas. Mais de urna vez me tenho
queixado déles, pela sem-ceremónia com que des­
virtuara a esséncia gráfica, e até a doutrina, dos
nossos clássicos, na prosa e no verso. O que fize-
ram do próprio dicionário de Moráis, todos o
sabem.
Eu quisera que assim como em vida de um
escritor ninguém sera seu consentimento altera as
suas diqóes, assim ninguém ousasse transformar
depois as ediqoes auténticas, sera incorrer em pe­
nalidades graves.
Com a memória dos grandes escritores deveria
coexistir a propriedade da sua escrita, para nao
vermos, como se véem, ñas escolas e ñas máos de

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CamSes 153

toda a gente, edades de clássicos, invadas de erros


e pretensiosos modernismos, que falsificara a obra
dos nossos mestres, fazendo que as modernas ge-
raqóes os julguem como éles nao sao.
Mas voltemos á obra crítica do Sr. Arcebispo
de Calcedónia.
*

* *

Como na métrica moderna urna sílaba nasal


constitue sílaba distinta da vogal pura que a segue,
nao tem faltado quera ache erro era muitos versos
dos Lusíadas, tais como:

«Debatem e na porfia permanecem».


«Quem viu um olhar seguro, um gesto brando».
«Ha de ser Dom Christovao o nome sen».
Etc.

Alera de que, era muitos casos, a fonética po­


pular tende para a substituicáo de vogais nasais
por vogais puras, como era viage por viagem, o
autor da obra, que tenho presente, demonstra
que aqueles tactos, longe de serem erro do grande
poéta, estáo de acórdo com métrica, seguida no
seu tempo pelo maiores luminares da poesía qui-
nhentista, como Gil Vicente, Sá de Miranda, An-
tónio Ferreira, Diogo Bernardes e Pero Caminha;
e essa demonstrado estriba-se em numerosos tre­
chos, da autoría daqueles poétas, e que preenchem
concludentemente o terceiro capítulo da obra.

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154 Novas ReflexSes

No capítulo quarto, sugere o autor um cu­


rioso problema. Porque na estancia 2.a do Canto I
dos Lusíadas se fala dos Portugueses que anda-
ram devastando as terras viciosas da África e da
Asia, entende o judicioso crítico que o poeta, em
vez da palavra devastando, teria escrito devassando,
e que esta seria adulterada fácilmente na tipogra­
fía; pois nao é natural que o épico apontasse á
venerado dos vindoiros as devastares dos nossos
antepassados; tanto mais, que o poéta, em nume­
rosas passagens dos Lusíadas, atesta que os mari-
nheiros de Vasco da Oama, generosos sempre, só
procuravam a amizade de estranhos e trazer á
metrópole os sinais certos de um novo mundo,
que deixavam descoberto. (Lusíadas, VIH, 56;
IX, 5; etc.).
Tudo é possível; mas, se o esclarecido autor
me permite urna ligeira ponderado, talvez nao
seja difícil defender a propriedade daquela ex­
pressed, devastando.
Além de que o poéta, bem ou mal, reviu as
provas tipográficas da 1.a ediqáo dos Lusíadas, em
que vemos que a referida palavra, o verbo devastar,
na sua acepqáo primitiva, nao é simplesmenteasso-
lar regióes, mas também destruir, desbaratar.
E assim é que, ñas Metamorfoses de Ovidio,
(XIII, 255), temos: agmina ferro devastata; isto é,
batalhdes destruidos ou desbaratados a ferro.
Ora, a estancia 2.a do Canto I, onde aparece
aquela expressáo, nao se refere determinádamente

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CamSes 155

aos heréis do descobrimento da India, os quais na


epopeia se apresentam sempre como generosos: re-
fere-se genéricamente ás memórias daqueles reis,
que andaram devastando terras de Africa e de
Asia
Senda assim, fácil é conceber que, sobretudo
em Africa, em tempo de D. Joáo I, D. Duarte,
D. Afonso V, e D. Joáo II, se desem realmente
devastates, desde Arzila até o Congo, pelo menos.
E, se a referencia a elas passou pela mente do
poeta, nao seria para nós título de grande glória,
mas seria documento de justiqa...
Oh! a generosidade dos conquistadores!
*

* *

Desmedidamente se alargariam as minhas re­


ferencias ao notável trabalho crítico do Sr. Arce-
bispo de Calcedónia, se me detivesse, aínda que
por alguns minutos apenas, em cada um dos pon­
tos que sugeriram a crítica do autor.
Ora um determinado texto dos Lusíadas, en­
carado sob novo aspecto, ora os comentários au-
dazes ou inconscientes de renomeados criticantes,
— sao o tema de eruditas divagares, que ates-
tam, além de vasto saber, justeza de critério e
grande clareza de espirito.
Sobretudo a desgrasada edigao dos Lusíadas,
dirigida e canhestramente comentada por Gomes
de Amorim, dá ansa e margena a luminosos tra-

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156 Novas Reflexdes

qos de crítica acerada e justa. Gomes Monteiro, o


Visconde de Juromenha, o próprio Morgado de
Mateus, e aínda outros comentadores, caem sob a
férula impiedosa do abalizado crítico.
Magóa-se Ble justamente com asem-ceremónia
que tem levado literatos de nome a perveter a le­
tra e o espirito do poema, atribuindo bastas vezes
a Camoes o que um simples literatelho nao subs-
crevia.
Por seu lado, as modificares que propóe ao
texto mais autorizado dos Lusíadas restringem-se
a supostos lapsos tipográficos, e em nada prejudi-
cam a contextura e o pensamento dos Lusíadas.
Urna dessas propostas, entretanto, sugere-me
leve reparo.
Entende o esclarecido critico que, tendo a edi
Qáo dos Lusíadas de 1572 dado o genero feminino
á palavra planeta, (canto V, estancia 24), as mais
ediQóes deveriam manter, e nao mantém, a planeta,
e dizem o planeta, como todos nós dizemos boje.
Com efeito, em virios clássicos, como Samuel
Usque e outros, planeta é do género feminino,
como eram feminos — o finí, o maná, o mar, o
clima, o cometa, o fantasma...; e eram masculi­
nos—a dor, a tribo, a linguagem, a linhagem, a
base, a coragem, a orígem, a torrente...
Mas, quanto aos Lusíadas, também eu acredite!
que o poeta usara planeta como termo feminino,
no canto V, visto que a reproduQáo do poema, feita
por Adolfo Coelho em 1880, assinalava ésse facto.

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CamSes 157

Tive, porém, ocasiáo de ver a edigáo de 1572,


e, com algum espanto meu verifique! que, em tal
passagem dos Lusíadas, o planeta tem o género
masculino, e nao o feminino, como se tem su-
posto.
O que alias nao significa que aquele substantivo
nao fósse empregado, como feminino, por outros
escritores; mas significa cértamente que nao há
lugar para que, naquele ponto, ss altere o texto
dos Lusíadas.
Esta ligeiríssima e oportuna discrepancia, claro
é, em nada desluz os altos predicados da obra do
Sr. Arcebispo de Calcedonia; e nesta sua obra,
como em seara feracíssima, poderáo os amigos da
lingua e literatura portuguesa colher salutares en-
sinamentos e lograr algumas horas de diversáo
gratíssima.
$

* *

A apologia de Camóes está feita e, já agora,


pouco mais se poderá dizer em homenagem ao
poeta extraordinário, que, sendo o primeiro épico
portugués, é também um dos primeiros líricos de
todos os tempos.
Mas o que nunca lindará é a serie de trabalhos
expositivos, críticos e exegéticos, sugeridos pela
monumental epopeia dos Lusídas.
Só em Portugal, no ano de 1915, deram os Lu-

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158 Novas ReflexSes

siadas ensejo ao aparecimento de tres obras de


grande relevo e criterio. Refiro-me á Astronomía
dos Lusíadas, pelo sabio Lente da Universidade de
Coimbra, Dr. Luciano Pereira da Silva; ás Fontes
dos Lusíadas, largo e notabilísimo documento de
crítica honesta e de vasto saber, publicado na Re­
vista do Instituto de Coimbra e que fórma um
grande volume, com indiscutível lustre para o
nome do seu autor, Dr. José Maria Rodrigues,
Lente de Filología latina na Universidade de Lis­
boa; e refiro-me á edigáo dss Lusíadas, anotada
em dois volumes, de quase seicentas páginas cada
um, pelo douto e velho humanista Francisco de
Sales Lencastre.
■Pode dizer-se que esta edigáo foi urna das mais
helas e perduráveis consagrares do aniversario
da morte do poeta, (10 de Junho).
Numa espléndida e correctíssima edigáo da Li-
vraria Clássica Editora, de Lisboa, o Sr. Sales
Lencastre deu a lume urna edigáo dos Lusíadas,
que, mais do que nenhuma outra, facilita a vul-
garizagáo do ¡mortal poema.
É que, para os lei tores náo familiarizados com
a linguagem clássica e poética, esta edigáo apre­
senta, em seguida a cada estancia do poéma, a
versáo do respectivo texto em prosa, conser­
vando-so os mesmos vocábulos, dispostos em or-
dem sintática regular, desfazendo-se hipérbatos e
anacolutias, acrescentando-se em tipo diverso pa-
lavras subentendidas por elipse ou silepse e

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CamSes 159

acrescentando-se aínda, entre parénteses, vozes


explicativas, indispensáveis.
Como se nao bastasse éste paciente e proficuo
processo de vulgarizado, cada página é franjada de
copiosas notas, concernentes á parte histórica do
poema, á Geografía, á Cosmografía, á Flora, etc.
Diga-se também que, nao obstante a reconhe-
cida competencia do Sr. Sales Lencastre, esta edi­
do dos Lusíadas foi revista e apreciada pelo re-
cém-finado gl otó logo Gonsalves Viana; e mais
nao será preciso para que tal edido se considere,
por mais de um título, verdadeiro acontecimento
literario e relevante servido á lingua e á literatura
portuguesa.
*
* *

Notei há pouco que os Lusíadas” sugtnr&m


em Portugal, no ano de 1915, nada menos de
tres publicares memoráveis, que nao poderáo,
já agora, separar-se da crítica histórica da nossa
literatura: a edido anotada de Sales Lencastre,
as Fontes dos Lusíadas, do Dr. José Maria Rodri­
gues, e a Astronomía dos Lusíadas, do Dr. Lu­
ciano Pereira da Silva.
Tenho deante dos olhos esta última obra, e
julgo cumprir um dever, contribuindo, na medida
dos meus escassos recursos, para a possível vul­
garizado de um precioso documento scientífico e
literário, que é a mais clara e brilhante compro-

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160 Novas ReflexSes

vado de que o ¡mortal poeta era conjuntamente


verdadeiro homem de sciéncia, tanto quanto o
permitiam as luzes do seu sáculo. Assim o julgou
já o grande Humboldt, mostrando que o poeta
conhecia a Botánica, a Geografía, a Cosmografía,
como um dos maiores sábios do seu tempo.
O Conde de Ficalho, velho professor de Bo­
tánica na Escola Politécnica de Lisboa, escreveu
um volume sobre a Flora dos Lusíadas; Borges
de Figueiredo, antigo bibliotecário da Sociedade
de Geografía de Lisboa, escreveu outro sobre a
geografía do mesmo poema; e o Sr. Luciano
Pereira da Silva, lente de Matemática na Univer-
sidade de Coimbra, publicou urna substanciosa
monografía astronómica, bascada sobretudo nos
Lusíadas.
O autor desta obra expoe minunciósamente o
estado da sciéncia astronómica no sáculo XVI, em
face das obras de Sacrobosco, Pedro Nunes, etc.;
compara a máquina do mundo, tal como Tétis a
apresenta ao Gama no canto X dos Lusíadas, com
o conhecimento das leis astronómicas até Newton :
e de par com muitas outras observares, demons­
tra que os Portugueses foram quem primeiro des-
cubriu a famosa constelado do Cruzeiro do Sul.
Esta demonstrado, baseia-a sobretudo nos Lusia-
das:

«Lá no novo hemispheric, nova estrella,


N3o vista de outra gente...»

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Camdes 161

Que o Cruzeiro do Sul nao foi visto de outra


gente, antes dos Portugueses, prova-o o autor,
aínda com varios documentos históricos, devendo
concluir-se irrefutávelmente que os Portugueses,
navegando para o Sul do Equador, e perdendo de
vista a estréla polar do Norte, tomaram por guia
o Cruzeiro do Sul, ñas suas navegaqóes austrais.
É natural que esta demonstrado seja recebida
com muito interesse em terras do Brasil, cuja po­
pulad0 pederá atribuir aos seus avós o descobri-
mento e a aplicad0 prática daquela notável cons­
telado-
Por cima de tudo, vé-se que refulge, cada vez
mais luminosa, a auréola de Cambes.

11

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XVII

Pantcáo

(Bllhete para o Sr. Deputado


Dr. Jacinto Nunes).

Meu querido amigo:

Conhecemo-nos e prezamo-nos há mais de trinta


anos, e sou dos que mais justiga fazem á sua sin-
ceridade e aos seus talentos.
Por isso me permitirá dois dedos de cavaco
afectuoso.
Um parlamentar, seu colega, teve a coragem,
— quem sabe se por culpa minha! —de meter num
projecto, ou coisa que o valha, a palavra pantedo.
Vocé ouviu, e interjeccionou:
— “Pantedo! que horror! Etitáo o grego...»
O horror explica-se.
O meu velho amigo, que sabe muito, mas que
nunca teve o mau gósto de se meter com filolo­
gías e coisas, e que durante setenta anos tem

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PanteSo 163

visto setn indignado as francesias, com que os


galiciparlas remendam o nosso formoso idioma,
tomou a pronuncia francesa pela grega, e pro­
testors
Ora, eu lhe conto, se a sua amizade mo con-
sente.
Aquela palavra nao nos veio directamente do
grego, mas, do latim. No grego, há pantheon e
pantheion, a que corresponden!, respectivamente,
as formas latinas pantheon e pantheum.
Nos principios da nossa lingua nao foi conhe-
cido o termo, pois entrou nela no sáculo XVII ou
XVIII, sob a fórma erudita e alatinada pánteon,
(acento tónico na 1.a silaba, e nao na última, pan­
teón). Alguns liam pantéon, mas nao era pronún-
cia exacta.
O panteón, como termo erudito, bem estava,
numa lingua onde temos íleon, ísquion, e outros
semelhantes eruditismos scientíficos.
Mas os Franceses, que todo lo mandan, e que
nao possuém, como nós e os Latinos, palavras es-
drúxulas, dizem panteón; e a nossa gente faltaría
aos mais sagrados, etc., se nao entrasse também a
pronunciar panteón, a ponto de um dicionário
chegar a registar a tolice prosódica, como se em
portugués houvesse palavras oxítonas, (agudas),
terminadas em n.
Para se corrigir a asneira, só haverá um de
dois caminhos: ou regressar á fórma erudita e
exacta, pánteon, (acento tónico na 1.a sílaba), ou

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164 Novas Reflexdes

aplicar a regra geral, aportuguesando-se a desi­


nencia estrangeira on em cío.
O meu amigo sabe que o latim non deu nao,
o latim Aaron deu Aarao, o latim Pantaleon, deu
Pantaledo, como o latim pantheon poderla dar pan-
teño.
E assim é que orfeón em portugués é urna his­
toria ou perfeita macaquice da pronuncia francesa,
porque a portuguesa é orfeao.
Como daqueles dois caminhos o regresso á
fórma e pronúuncia panteón nao tem probabili-
dade de éxito, dada a tendéncia francesíssima da
nossa gente, resta aceitar a prosódia francesa (pan­
teón), e dar ao vocábulo desinencia portuguesa,
que só pederá sér ao.
Donde se infere que o meu amigo, em vez de
se horrorizar com o que lhe parecen novidade,
deveria aplaudir o seu colega por aquele acto de
coragem. Porque é preciso tér coragem, para nao
ir no rebanho inconsciente de Panurgo.
O meu amigo, que lia os meus versos de ra­
paz e aínda hoje se lembra deles, talvez ache pouco
poético o pantedo. Mas quem o feio ama...
Ali está a minha vizinha, para quem nada há
mais poético que o nome do seu Jodo.
E aquí estou eu, a quem os horrores do Jacinto
Nunes parecem urna caricia.

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XVIII

ft voz dos animals

Em-quanto nao tivermos um dicionário analó­


gico, que será de alta vantagem para os nossos
publicistas ou escritores, e especialmente para os
que o procuram ser, muita vez se repetirá a difi-
culdade de achar o termo próprio para um objecto
ou fenómeno conhecido, de que nos nao ocorre
ou nao conhecemos a expressáo vocabular.
Dá-se isto, por exemplo, com a voz dos animáis,
como se poderá dar com as variadíssimas pegas
do complicado aparelho de um navio, etc.
Há milhares de animáis, cujas vozes sao mais
ou menos diferentes, e ás quais correspondent ex-
pressóes, mais ou menos privativas.
Infelizmente, na linguagem vulgar, ou na es­
crita mais comum, ouve-se, quando muito, urna ou
duas dúzias de expressóes, com que se designam
as vozes de vários animáis.
No sáculo passado, Pedro Dinis, um poeta por­
tugués, que teve alguma voga no seu tempo, como
versejador de almanaques, fez urnas quadrinhas,

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166 Novas Reflexdes

que entraram em livros escolares, e em que o au­


tor indicava diferentes vozes de animáis.
Segundo essa resentía, vé-se que:
A pega e o papagaio palram;
A galinha cacareja;
Os pombos arrulham;
A rola geme;
A vaca muge;
O toiro berra;
A ran e o pato grasnam;
O leao ruge ;
O gato mía;
O lobo uiva;
O cao uiva, ladra, late e gane;
A ovelha bala ;
O burro zurra;
O tigre brama;
A raposa regouga;
As aves cantam, gorgelam e chilram;
O mocho e o pintaínho piam;
O pardal, o rato, a doninha e a lebre chiam;
O corvo crocita;
O insecto zuñe e zumbe;
A serpente assobia ;
O porco grunhe;
O galo cucurica;
O cavalo relincha;
O macaco dá guinchos;
A crianza dá vagidos;
O homem fala...

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A voz dos animáis 167

Já é alguma coisa, mas está longe de sér tudo.


Assim, ao grasnar da ran será preferivel o coaxar;
e, para as vozes de mui tos animáis condecidos, nao
há ali expressáo indicada.
Numa colecQáo de Contos mens, (Lisboa, 1908,
Ouimaráes & C.a, editores), na pág. 61, vem um
parágrafo, que é um aditamento á ladaínha de Pe­
dro Dinís, e que eu vou reproduzir agora, gritando
os verbos das respectivas vozes, nao mencionadas
naquela ladaínha:
— «Em-quanto o trinar do rouxinol, o rugir
do leáo, o trucilar do tordo, o rinchar do cavalo,
o pissitar do estorninho, o grassitar do pato, o
gazear da garqa, o regougar da raposa, o balar da
ovelha, o arensar do cisne, o pupilar do paváo, o
gloterar da cegonha, o coaxar da ran, o trinfar da
andorinha, o cucular do cuco, o mugir do boi, o
/reteñir da cigarra, o gruir do grou, o tinir da mi-
lheira, sao pobres idiomas, talvez monossilábicos
como o chinés; o idioma da raga canina, embora
nao esteja ainda escrito, como nunca escreveram
a sua lingua os Tupis, corresponde cértamente a
um alfabeto mais numeroso que o russo, e tem
recursos para a expressáo dos mais variados sen­
tí mentos e conceitos..
E neste período nao invente! nada, nem disse
tudo que poderla dizer, como veremos.
Referi-me apenas ás expressoes menos usuais, e
lembrarei que o trucilar dos tordos já era condecido
dos Latinos, e ve se em dicionários portugueses.

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168 Novas Reflexdes
«
O pissitar dos estorninhos também foi conhe-
cido por latinos e, em portugués, vé-se nos Fastos
de Castilho.
O grassitar do pato lé-se nos meemos Fastos.
O gazear da garga, embora de origem incerta,
está nos dicionários.
O arensar do cisne é dos citados Fastos.
O pupilar do paváo, já estava no latim, (pupil-
tare).
O gloterar da cegonha, também o vi nos Fastos.
O trinfar da andorinha, ibidem.
O cucular do cuco é onomatopaico, velo do
latim, e registei-o no meu Dicionário, mas, em
vez de cucular, os tipógrafos inventaram cucuiar.
Fica feita a correcgáo, de que tomaráo nota, se
Ibes aprouvér, os queadquirirama 1aedi;áo daquela
obra.
O /reteñir da cigarra é dos Fastos.
O gruir do grou, idem.
O tinir da milheira é de Castilho.
Etc.
Mas temos mais, que nao anda no falar de toda
a gente, e que talvez valha a pena mencionar.
Os citados Fastos referem-se ao trinfar da an­
dorinha; mas eu também achei grinfar, no mesmo
sentido.
E, para exprimir a voz da andorinha, aínda te­
mos o verbo trissar, que é bom latinismo, e já
foi usado pelo meu ilustre confrade Coelho Ne­
to, no seu Saidunes.

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A voz'dos animáis 169

O grugulejar do perú é termo onomatopaico


e foi usado por Camilo, nos Volcoes.
O barrir dos elefantes é boa fórma portugue­
sa, que velo do latim barrire. Já está registado
num dicionário, no meu.
O crás do corvo é onomatopaico e multo acei-
tável.
Além do cucular do cuco, ocorre-me, para o
mesmo efeito, o verbo cucar que eu fui encontrar
ñas Sabichonas, de Castilho, pág. 197.
O chinear da coruja, talvez corrupto de chil-
rear, está nos dicionários.
O blaterar dos camelos, descobri-o no latim
(blaterare), e, se me nao engano, vi a fórma por­
tuguesa nos Fastos.
O bramar dos veados é clássico.
O gralhar das gralhas, dos galos, etc., idem.
O pistar do taralháo, se nao é contracto de
pissitar, é bela e exactíssima onomatopeia, para
quem tenha ouvido aquela interessante avezita de
arribado.
Afigura-se-me que o simples registo destas e
de outras coisas, que nao sao muito vistas, atesta,
por seu lado, a vastidáo e excelencia dos recursos
da Ifngua portuguesa.

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XIX

Garrett

O respeito que devemos aos grandes mestres


em letras, e a obrigagáo, que nos impende, de lhes
acatar as boas ligoes, arrasta murtas vezes os me­
nos lidos ou os mais ingenuos a um culto incon­
dicional, que lhes nao deixa ver os lapsos e os des-
mazelos que, de espago a espago, maculam lavores
de alguns daqueles mestres.
Rui Barbosa mais de urna vez feriu esta tecla,
em sua admirável Réplica, na questáo literaria do
Código Civil Brasileiro e, a propósito de Garrett,
citou, de brago dado com José Veríssimo, varias
complacencias e desmazelos garretianos, em ma­
teria de estrangeirismos, a saber: desapontamen-
to, esquissa, breve (por em suma), deboche, preferir
antes, tractos (por episodios), fazer as delicias,
detalhe, estar ao facto, de parte e outra, lutar de
zelo, ter lugar (em vez de ocorrer).
O registe, como era natural, nao ficou com­
pleto. Eu próprio aquí tenho á máo alguns casos,
que nao é ocioso vulgarizarem-se, em vista da

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Garrett 171

tendencia de certos espirites para aceitar como


dogma a infalibilidade dos mestres.
O francés tapisser levou o grande poeta a per­
petrar esta extraordinaria francesia: colinas ta-
pessadas de verdura. Claro é que, em vez de
tapessadas, temos atapetadas, ou tapizadas, ou
revestidas...
O francés scander fé-lo cometer esta estrangei-
rice ñas Viagens: — "Bela ocupagáo para um ho-
mem de vinte e um anos, escandar jambos e tro-
cheus». — Ora em portugués auténtico, já tínhamos
escandir, usado por Castilho e outros, e derivado
do latim scandere,. que nao podia produzir verbo
portugués da primeira conjugado, (desinéncia
em ar).
Mas, á parte os estrangeirismos, nao sao me­
nos numerosas as estravagáncias de Oarrett, em
materia de grafía e até de prosódia.
Assim foi que éle inventou a pronuncia sui­
cida, (proparoxítono), quando todos nos pronun­
ciamos excelentemente suicida, (paroxítono); e
assim como é déle o capricho Beiralta, por Beira-
-Alta. (Rotnanceiro, vol. II, pág. 132).
Em vez de cratéra, que é como se pronuncia
o termo entre nos, e como já se pronunciava en­
tre os Latinos, éle dizia crátera!
Da duplicado de consoantes, quando ela se
nao estriba na etimología, nem na pronuncia,
nem no uso, dá-nos exemplos em barda. Bastará
citar fummo, repettir, cumullar, ricco, ditto. No

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172 Novas Reflex6es

género extravagancia, nao conheQo nada melhór


que a fórma entrehabrir. (Viagens na Minha Ter­
ra, vol. II, pág. 55, 6.a edigáo).
Illucidar, (em vez de elucidar), foi outra fan­
tasía de Garrett, ou casca de laranja, em que tam-
bém escorregou o Camilo, e em que escorrega
muita gente que nós conhecemos, mas que nao
tem as responsabilidades daqueles escritores.
É também curiosa esta grafía de Garrett:
trahidor.
Tem-se escrito geralmente trahir, por se ha-
ver imaginado que o h desfaria o ditongo. Ora,
como o ditongo air nunca existiu em portugués,
trair, com h ou sem h, havia de lér-se sempre da
mesma fórma. E, desde que ninguém pronuncia
tra-i-dor, mas trái-dor, o h, ueste substantivo é
apenas urna excrescencia prejudicial.
A própria etimología nao justifica o h de
trahir, porque a origem latina nao é trahere, mas
sim tradere.
Para o trahir, aínda alguém invocaría o falso
pretexto da diérese; mas, para trahidor, nao há
sequér um pretexto falso; nao há nada.
Piquemos, pois, nisto: em materia de verna-
culismo, Garrett obriga-nos a algumas reservas;
e, em matéria de ortografía, devemos convencer­
nos de que ele brincava multas vezes.
O que nao significa que devemos também
brincar.

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XX

fives brasileiras

Como contribuido para a lexicografía portu­


guesa, o Sr. Rodolfo Garcia, erudito ornitólogo
brasileiro, publicou oficialmente, pelo Ministerio
da Agricultura, urna interessante monografía, que
intitulou Nomes de Aves em Lingua Tupi.
Coube-me a honra de recebar um exemplar
dessa publicado; e, afora o agradecimento, que
de si se entende, tenho a satisfago de registar e
aplaudir o aparecimento da referida monografía.
A esta hora, estao inventariadas, pelo menos,
1:686 especies de aves brasileiras; mas o Sr. Ro­
dolfo Garcia propós-se meramente a organizar um
elucidario etimológico dos nomes de aves, origina­
rios do tupi, elucidário que, aínda assim, abrange
mais de duzentos nomes.
De passagem advertirei que o autor, afirmando
que ésses nomes, em sua grande maioria, aínda
nao foram apontados em nenhum dicionário da
lingua, labora num equívoco, fácilmente explicá-
vel, visto que o Sr. Rodolfo Garcia nao consultou,

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174 Novas ReflexSes

a tal respeito, todos os dicionários da lingua. Se


éle tivesse visto, por exemplo, o Novo Dicionário
da Lingua Portuguesa, fácilmente teria verificado
que nesse dicionário estáo registados muitíssimos
desses nomes de aves, originarios do tupi. Bastará
ponderar que, dos onze nomes, compreendidos
na página 17 da monografía, o Novo Dicionário
já tinha registado seis.
Mas ainda bem que sabemos nao estarem to­
dos registados em dicionários da lingua, porque
eu, pelo menos, já posso juntar alguns subsidios
ornitológicos para a 3.a edigáo do Novo Dicio­
nário.
Já se entrevé portanto a sinceridade dos mens
agradecimentos.
Estudando, porém, esta valiosa monografía,
casos há em que hesitare! na adopgáo morfológica
de um ou outro nome.
Assim, creio tér havido erro de revi sao tipo­
gráfica em tubujajá, que deve ser tabujajá.
O mesmo sucede com tai que lá nos aparece
sob a fórma de tiu.
Urutáurana, que é como o autor escreve, nao
me parece que se possa acentuar assim. O acento
agudo é privativo de vogais tónicas, e aquele á
nao é a vogal tónica, se é certo que o tupi nao
tem vocábulos esdrújulos.
Naturalmente o autor também pronuncia uru-
taurána, (acento tónico na penúltima sílaba); mas
entendeu que, sendo aberto o primeiro a, podia

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Aves brasüeiras 175

sobrepor-lhe acento agudo. Nao era porém pre­


ciso, visto que o a do ditongo au é sempre aber-
to: e, ainda que conviesse acentuá-lo, só lhe podia
competir o acento grave, visto que nao é a vogal
tónica da palavra. Nao se inventou ainda outro
recurso, apesar do desamor, com que a rotina re­
cebe o acento grave.
Também me oferece dúvidas a fórma, adoptada
pelo autor, de pepoasá, a que os Brasileiros dáo
vulgarmente o nome de pombinha das almas e
maña-branca.
É que eu sei que o nome scientífico daquela
ave é taenioptera pepoaza, e nao há razáo nenhuma
para substituimos o z scientífico por um s de
convenqáo. E, depois, a palavra será oxítona como
a aparenta o autor? ou será paroxítona, como é o
nome latino? A esta dúvida melhór se respon­
derá no Brasil, do que da banda de cá do Atlán­
tico.
Na transcribo dos nomes tupis-guaranis, ado-
ptou o autor a ortografía usual, e por isso grafou
myuá e tuyuyu.
Mas a lexicografía moderna está intimamente
relacionada com a Glótica; e, na lingua portu­
guesa, a sciéncia da linguagem nao aceita o exó­
tico y, salvo em vocábulos de origem grega, entre
supostos etimologistas. Ora, aquetas palavras nao
sao de origem grega; e, embora os Jesuítas vul-
garizassem a adopgáo do y, para representado
do i gutural dos Tupis, é certo que &sse i gutural

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176 Novas Reflexdes

desaparecen na pronuncia brasileira e em toda a


pronuncia portuguesa, desaparecendo portan to o
pretexto para se representar por y qualquér som
gutural, que já nao existe.
Se a lexicografía nao póde nem deve seguir
caminho avésso ao da sciéncia da linguagem, há
vantagem e até necessidade em se corrigirem as
fórmulas usuais, que a sciéncia enjeita.
Como se ve, sao isto simples anotares, a que
nos obrigam os interesses da lingua, ou meras
restribes de fórma, que nao desabonam os méri­
tos reais da substanciosa monografía do distinto
ornitólogo brasileiro.

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XXI

djcctivos-advérbios

O notável e respeitado jurisperito Dr. Clovis


Bevilacqua, anotando o projecto do Código Civil
Brasileiro da respectiva comissáo parlamentar, e
a propósito do artigo 203, aconselhou que o adje­
ctive adverbial independente fósse substituido pelo
adverbio independentemente.
A éste respeito, outro notável jurisperito, que
é também abalizado lingüista e esmerado escritor,
o Dr. Rui Barbosa, em nota á pág. 55 da sua admi-
rável Réplica, observen judiciósamente que nao
era razoável a aconselhada substituido, pois é
muito da nossa lingua evitar os largos adverbios
em mente, substituindo-os pelos adjectives empre­
gados adverbialmente; e, em abono do seu con-
ceito, mencionou estas passagens de Filinto:
— «Folgado danqariam
— "Comeu fino, bebeu largo».
— «Longo se discutiu».
— «Nao diverso daqui, de lá derrubam».
— Pediu que breve lh’a traduzisse».
12

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178 Novas ReflexSes

— "Fácil se ve».
— «Suspirando contino».
— *Direito se encaminha».
— Medra sobejo».
— «Péssimo arrazoou».
— "Prometeu largo».
— «Sem pranto um avarento raro acaba,,.
— «Viviam junto em branda sociedade».
— «Brando o atalha».
— "Fácil me aceitam».
E mencionou também estes passos de Ber-
nardes:
— "Procedía mais discreto».
— "Pouco nacional procede».
— "Portando-se impertinente».
— "Quis portar-se fiel».
Claro é que, gramaticalmente, os citados adje­
ctives poderiam tér a forma puramente adverbial:
"medrar sobejamente»; "portar-se fielmente»; "fá­
cilmente me aceitam»; etc. Mas também é certo
que, em alguns daqueles exemplos de adjectives
adverbiais, nao seria difícil ver ali puros adjecti­
ves; tais sao:
— "Aparece logo e direito se encaminha...».
— "O escalracho medra sobejo...»
— "Proceder discreto...»
— "Portar-se fiel.. .»
A doutrina é que nao oferece dúvida; isto é,
os adjectives masculinos, no singular, tomam mul­
tas vezes o valor adverbial.

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Adjectivos-Adverbios 179

O adjective contino, ou continuo, tomado como


adverbio, nao é só^’de Filinto. Nos Lusíadas,
canto III, estancia 8.‘, também Camóes nos diz:

«a neve está contino pelos montes».

E, afora os mencionados adjectives verbals,


muitos outros há, que Rui Barbosa cortamente
conhece, e que talvez nao soja ocioso registarem-
-se, para ligao de certos caturras, que mais de
urna vez embicam neles e tém a tentaqáo de os
julgar avessos á gramática. Por agora, ocorrem-me
os que váo incluidos nos seguintes exemplos, que
podem vér-se na própria linguagem corrente:
— "Pronto apareceram».
— "E manso e manso se dirigiram.. .»
— "Aquelas aventuras custaram-lhe caro...»
— "Estas fazendas vendem-se mui to barato».
— "Dizes multo bem, exacto».
— "Os soldados ficaram próximo do rio».
— "Pensam rectamente, mas procedem torto».
— Oostava imenso de salmáo».
— "E caminharam rápido».
— "Gritaram rijo».
— "E súbito emmudeceram».
— “Gostam de falar alto».
Etc.
Mas daqui nao infira algum ingenuo que todos
os adjectives podem tomar o valor de advérbio.
Para se ver que tal ilagáo seria disparate, bastará

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180 Novas ReflexSes

vlr-se que ninguém pederá dizer: "os filhos pro­


cederán! indigno». E é por isso que eu entro em
dúvida sobre se nao haverá puros adjectivos em
alguns exemplos, como nos de Bernardes: "pro­
ceder discreto», "portar-se fiel”.
O que nao oferece dúvida é que numerosos
adjectivos portugueses se empregam com valor
adverbial, e, entre éles, independente, que serviu
de tema a indiciosas ponderales de um sábio, o
Dr. Rui Barbosa, e me sugeriu o modesto emen-
tário que boje subscrevo.

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XXII

3 cólera-morbo

Fósse eu lá imaginar que, depois de tér publi­


cado um volume a respeito da cólera-morbo ñas
suas relaqóes com a lingua portuguesa, e depois
de tér estampado no Jornal-do-Comérco, do Rio-
-de Janeiro, tres artigos concernentes ao mesmo
assunto, aínda teria de servir aos meus leitores o
refervido chá de Tolentino!
É o caso:
No Estado-de-San-Paulo, de 1 de Dezembro
de 1915, publicou o Sr. Augusto Baillot um arti­
go, em que amávelmente procurou mostrar-me
que há na lingua quatro vocábulos, que contra­
rían: a regra, que eu suponho incontestável, de
que a palavra ou expressáo, composta de dois
substantivos distintos, é do género do primeiro.
Nos meus trés mencionados artigos, procure!
eu mostrar que tais vocábulos nao destroem a re­
gra, nem tém aplicagáo ao caso.
Nao se convencen o Sr. Baillot com a minha
réplica e, no referido periódico Estado-de-San-
Paulo, de 17, 25, 26, 28 e 30 de Maio último, veio

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182 Novas ReflexSes

estirar mais cinco longos artigos, em reforjo da


sua tesse e em desabono da minha réplica.
Em tempos de ócio, que nao sao os de agora,
em que me vejo a bragos com trabalhos mais pon­
derosos e de maiór responsabilidade,—emtempos
de ócio, dizia eu, do melhór grado iría desfiar, li-
nha por linha, os brillantes artigos do Sr. Baillot,
pois que o assunto me apraz, e o articulista me
parece merecedor de atengáo, pela boa fé que o
inspira e pela correcgáo com que se apresenta.
Mas a ocasiáo é inoportuna e, aínda que o nao
fósse, haveria o risco de eu, assim, produzir mais
outro volume sobre a cólera-morbo, o que os mens
sete leitores cértamente dispensam, porque a ques-
táo está já ventilada de sobra, e os narcóticos tém
pouca extracgáo; além de que, pelo visto, seria
tempo perdido o procurar alguém convencer o
articulista de que é érro crasso contra a lingua
portuguesa a masculinizagáo da cólera-morbo.
Mas há na réplica do articulista paulistano
virios erros de facto, que vale a pena desvanecer,
tanto mais que alguns procederam talvez de eu
me nao haver explicado com suficiertte clareza.
*

$ *

Como leal paladino de velhos tempos,o Sr.Bail­


lot apresenta-se na arena, cumprimentando gallar­
damente o adversario.
Mui to obrigado.

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A cólera-morbo 183

Trocadas as cortesías, o articulista cai inocen­


temente num engano de alma, ledo e cegó, afir­
mando precipitadamente que "lodos tém dito até
hoje o cólera-morbo..
Quem o ler ou o ouvir pode imaginar que fui
eu o inventor de "a cólera-morbo».
E a final eu nada invento.
— "Todos tém dito o cólera-morbo«.
Mas... quem sao ésses todos? A massa anó­
nima de duas dúzias de jornalistas? E nao sabe­
mos nós como se fazem jomáis?
Quem sao as genuínas autoridades, que justi­
fican^ o cólera-morbo?
O Sr. Baillot nao cita urna sequér.
Em compensado, poderá verificar que ne-
nhuma autoridade scientífica ou literaria falou
aínda da cólera-morbo, sem lhe atribuir o género
feminino.
Em tempos antigos, nao era conhecida a cólera
asiática, entre nós; mas os nossos primeiros dicio-
naristas, Jerónimo Cardoso, Bluteau, Bento Perei­
ra, registando a cólera (doenqa), todos lhe deram
o género feminino, e náo lhe podiam atribuir
outro
Desde que a cólera-morbo aparecen em Por­
tugal, tratou-a pelo género feminino a Academia
Real das Sciéncias, o Conselho de Saúde Pública
do Reino, as Revistas médicas, os mais notáveis
médicos, os estadistas e escritores Andrade Corvo,
Rodrigues Sampaio, António de Serpa. Camilo

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184 Novas Reflexoes

ñas Scenas Contemporáneas, 4.* ediqáo, pág. 88,


diz a cólera-morbo. O filólogo Dr. A. Cortesáo
aplaudiu o meu livro sobre a cólera-morbo. O sa­
bio helenista Dr. Gonsalves Guimaráes entende
que aquele livro nao pode tér réplica. O brilhante
cronista do Estado-de-San-Paulo, Dr. Silvio de
Almeida, na sua crónica de 30 de Janeiro de 1911,
referia-se ao meu trabalho em sentido diverso das
apreciares, que o Sr. Baillot subscreveu no mesmo
jornal.
E afinal de contas aínda há quem afirme que
todos temos dito "o cólera-morbo»!
Aquele todos fica, pois, reduzido á turba anó­
nima de varios jornalistas, ao Sr. Baillot e ao
médico, seu vizinho. Nao é verdade?
Mas aínda há outros erros de facto, que pedem
rectificado, como vamos vér.

* *

Viu-se e provou-se que o amável articulista


do Estado-de-San-Paulo se enganou deplorável-
.mente, quando, arrastado cortamente pela prática
ruim de varios e ilustres anónimos e pela lin-
guagem bastarda de algum médico, seu vizinho,
ousou afirmar que todos até hoje temos dito o có­
lera ...
Mas temos mais.

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A cólera-morbo 185

Entende ele que apresentou quatro palavras,


que destroem a regra: sér do género do primeiro
substantivo a palavra ou expressáo composta de
dois substantivos distintos.
Aínda na hipótese, — que eu contesto, — deque
as tais quatro palavras nao concordassem com a
citada regra, seria originalíssimo admitir-se que
urna regra pudesse ser destraída por quatro ex­
ceptes. Nunca se viu isso. Costuma-se até dizer
que as exceptes confirmara a regra.
Entre dezenas de exemplos, que nos levariam
longe, sem necessidade, bastará lembrar que na
fonética portuguesa há boje a seguinte regra: —
A consoante s, entre vogais, tem o valor de z.
E, contudo, o Sr. Baillot, como toda a gente,
conhece dezenas e centenas de vocábulos, em que
o s intervocálico tem o valor de dois ss. Fica por
isso destruida a regra? Diga que sim o Sr. Baillot,
se é capaz.
Contra a regra que eu formule!, — e que afinal
nao é minha, porque é da lingua, — entendeu o
articulista que há quatro palavras: ferrovia, pata-
burro, varapau, e pontapé.
Nao há nem urna, visto que tais palavras nao
sao com postas de substantivos distintos.
No caso daquelas quatro, há até mais algumas,
que nao ocorreram ao Sr. Baillot, mas que eu nao
tenho dúvida em lhe apontar, como se désse ar­
mas contra mim: lembrar-lhe-ei ao menos cana-
mdo e rodapé.

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186 Novas Reflexoes

Agora, já tem seis, e náo me agradeca o acrés-


cimo, porque nem por isso ficou mais bem apare­
jado para o torneio. Tanto valem as seis, como
as quatro, como nenhuma, para os efeitos que o
meu amável adversario procura.
Éle até acha contradicho em haver eu dito que
a ferrovia se explica, em vista de processes tri-
viais em Filología, e entender que a mesma ferro­
via foi invenqáo infeliz, já agora irremediável
talvez.
A contradicho é urna história.
Ferrovia é de composicáo fácilmente explicá-
vel, mas nao é invencáo feliz, porque nao era pre­
cisa, e até porque arrasta espirites inteligentes,
como o Sr. Baillot, a imaginar e crér que o ele­
mento ferro entrou ali integralmente, quando é
certo que nao entrou, como mostrei da outra
vez, em que converse! pela imprensa com o
Sr. Baillot.
Mas o Novo Dicionário diz, — e diz bem, —
que ferrovia, se formou de ferro, e de via, e nao
podia dizer outra coisa; nao diz porém como se
formou, ou como se deveria formar, porque isso
me obrigaria a minucias, que interessam a pou
eos, e discordaría da índole de urna obra, desti­
nada a corresponder a interesses mais gerais.
Assim, de cavalaria, diz o Dicionário que vem
de cavalo. Pela lógica do Sr. Baillot deveria con­
cluirse que o vocábulo cavalo entrou integral­
mente naquele derivado. E, contudo, deve saber

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A cólera-morbo 187

que cavalaria se formou da radical caval., e do


sufixo aria.
Da mesma fórma, lá se diz que ossifluente vem
de osso e de fluente. E contudo a palavra nao é
ossofluente.
Dá-ños o Sr. Baillot varias listas de termos
compostos, em que a vogal eufónica de ligagáo é
ás vezes i, outras vezes o, etc.
Nao me dá novidade, e só acho parra de mais,
para chegar a esta uva:
— “Deixemos pois a ferrovia como está, que
está bem».
Pois deixemos. Nao é grande coisa, mas tam-
bém me nao tira o sono.
A que vem cá, porérn, a ferrovia, se nada tem
com a cólera, senáo guando esta vem pelo ca-
minho de ferro?
Já se vai vér.

* *

Nao adivinho por que será que o ilustre arti­


culista do Estado-de-San-Paulo sente que a scién-
cia da linguagem nao baja determinado qual o
instante, na historia da evolugáo dos vocábulos,
em que desaparece o hífen das palavras compos­
tas...
Melhór diría: em que o hífen comegou a
usarse em palavras compostas...

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188 Novas ReflexSes

Porque o hífen, como sinal diacrítico, é de in-


venólo moderna. Os nossos velhos clássicos nao
o conheceram nem déle precisaram.
E também lhes nao devemos atribuir a forma-
gao heteróclita do varapau e de mais duas ou tres
irregularidades morfológicas daquele jaez. Sao de
formagáo popular, inconsciente, como se se tratasse
de urna palavra simples, cuja desinéncia indicasse
o género.
Se os clássicos formassem urna expressáo com
os dois elementos daquela palavra composta, ne-
cessáriamente escreveriam a vara pau, como es-
creveram ou autorizaran: a mulher peixe, o peixe
espada, a cobra capelo, o pardal fémea, a erva bo-
tdo, (planta brasileira), a erva sangue, a erva
tosido. . .
Como o Sr. Baillot tem de casa a erva botdo,
de que deve tér ouvido talar muita vez, vai cor­
tamente empreender campanha, para que se diga
o ervabotao; e realmente, se o termo fósse engen­
drado pela turba inconsciente, esta perdería fácil­
mente a noglo da composigáo do vocábulo, e,
atendendo só á desinéncia déste, faria fácilmente
o ervabotao, como fez o varapau e o pontapé; e,
como a asneira puxa asneira, seríamos levados,
talvez com gáudio do Sr. Baillot, a dizer a peixe-
mulher, o cobracapello, e outros disparates de tá­
relo igual.
Mas, embora os varapaus e os pontapés eviden­
temente náo estejam ñas condigóes de cólera-

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A cólera-morbo 189

-morbo, porque aquí estáo distintos os elementos e


acolá nao, eu concedo-lhe por um pouco, se nisso
tem empenho, que pudéssemos escrever o vara-pau,
o ponta-pé, sem merecer palmatoadas; mas estri­
barse nestas monstruosidades morfológicas e sin­
téticas. para concluir que a fórma correctísima
a cólera-morbo, usada até boje por todos os que
bem escrevem, deverá subordinar-se á influencia
teratológica do varapau, deixa crér que os defen­
sores de tal absurdo, quando sejam inteligentes e
cultos como o Sr. Baillot, estáo brincando com a
tropa, ou procuram pretexto para alardear des­
trezas de esgrimistas, num terreno, em que a ver-
dade e os tactos devem prevalecer contra todos os
pruridos de vistosos torneios.
Sendo isto assim, como parece que é, dispen-
so-me de acompanhar as pacientes dissertates
do Sr. Baillot, a favor de Darmesteter, e contra
Littré (!); nao me canso sequér em lhe demonstrar
que a suposta analogía de cólera-morbo com agri­
cultura, terramoto, etc., sao historias para crianzas ;
nao lhe mostrare!, como seria facílimo, que em có­
lera-morbo, o elemento principal e determinado
é cólera, e nao morbo, (cólera que é doenga, e nao
doenga que é cólera; cólera que é doenga, porque
também há cólera, que é ira); etc.
Nestas condigóes, como nao tenho agora pa­
chorra nem tempo para combater moínhos de
vento, náo leve a mal o Sr. Baillot que eu me
cerre por aquí, reconhecendo-lhe a inteira liber-

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190 Novas ReflexSes

dade de continuar a talar francés (le cholera), ao


passo que eu continuare! a talar portugués (a
cólera).
Para mim, nao há preciosidades alheias que
valham a prata da casa.
Feitios.

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XXIII

Julio Moreira

Publicou-se recentemente o segundo e último


volume dos Estudos da Lingua Portuguesa, do eru­
dito académico Julio Moreira, há pouco falecido.
Obra póstuma do notável lingüista, éste vo­
lume é valioso remate da sua larga e prestimosa
bibliografía.
Exemplarmente laborioso, póde talvez dizer-se
que distribuiu a maiór parte da sua vida e da sua
actividade entre duas missóes nobilíssimas: estu-
dar e ensinar.
Leu muito, aprendeu muito, e muito ensinou.
Ensinou publicamente latim, grego, alemáo,
inglés, francés, Literatura, História, Filología; e,
dos recessos do sen gabinete, ensinou a muita
gente o que muitos ignoram sobre a riqueza da
lingua portuguesa, e sóbre numerosos problemas,
que a mesma lingua sugere.
A maiór parte dos seus trabalhos lingüísticos
acha-se compendiada nos dois volumes dos seus
Estudos. Mas Julio Moreira nao morreu velho; e,

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192 Novas ReflexSes

ao surpreendé-lo a morte, preparava, deixando-os


incompletos, outros prestírnosos trabalhos, tais
como um substancioso estudo sóbre a linguagem
do Brasil, de que apenas se salvaram algumas pá­
ginas, encorporadas pelos editores no Volume agora
publicado.
Vale a pena abrir éste livro aos olhos de quem
me le, e transmitir ao leitor algumas das impres-
sóes que o livro me deixou.

* *

Neste segundo volume dos Éstudos, depara-se-


-nos, entre outros, um excelente capítulo, sóbre
a teratología da linguagem., em que se frisa o in-
teressante caso do adjectivo azoratado, (atolei-
mado, maluco).
Azoratado é participio de azoratar, que Julio
Moreira nao cita, mas que eu deixei registado
em o Novo Dicionário; e azoratar é derivado de
zorate.
Ora, para éste zorate achou Julio Moreira urna
espécie de derivaqáo regressiva, que me parece
plausível.
Temos o substantivo plural orates, e, ao pro­
nunciado com o respectivo artigo, dxztmos os-ora­
tes, que sóa ozorates, cuja forma singular seria
ozorate. Dando-se a quéda do primeiro o, por afó­
rese, temos zorate, e daqui azoratar.

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Julio Moreira 193

Sobre formaqáo de palavras, o mesmo autor


ocupa-se judiciósamente da fungáo excepcional do
prefixo des.
Como se sabe, a principal significaQáo deste
prefixo é o contrario do segundo elemento da
respectiva palavra: desfazer, desatar, desprimor,
etc.
Mas sucede que, sobretudo em linguagem fa­
miliar, aquele prefixo designa refórgo ou intensi-
dade, como nos exemplos, aduzidos pelo autor:
desgastar, desenxabido, desabusado, desabalado...
Nao citou, porém, mais expressivos exemplos,
pois temos desinquieto, desinfeliz, desmazelado...
E, se eu nao abusasse da paciencia de quem
me le, aínda poderia acrescentar:
Desagreste, desabado, desapear, deslasso, desta-
Ihar, desarrancar, desimpureza, desmudar, desnu­
dez, desmiudar, desnudar, desnegar, despavorir,
desperecer, deslavrar, desinsofrido, desapagar, des­
apartar, desvao, desnevado, etc., etc.

* *

Muito elucidative e oportuno o parágrafo que


o autor consagra á chamada derivado regressiva.
13

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194 Novas Reflexdes

O comum dos leitores talvez nao forme ideia


do que os filólogos chamam derivagao regressiva.
O caso é simples.
Temos, por exemplo, rosmano e rosmaninho;
e, assim como de figo se deriva figuinho, de ma­
caco macaquinho, de lindo lindinho, etc., assim, á
primeira vista, rosmaninho seria derivado de ros-
mano. Pois sucede o contrário: rosmaninho veio
do latim ros marinus, e rosmano inventou se,
como sendo o termo primitivo, de que derivasse
rosmaninho.
Em caso análogo, está o ago e apo, que nao sao
fórmas primitivas, mas que o parecem, porque
apeiro e aceiro parecem fórmas derivadas daquelas.
E eu aínda poderia apontar a Julio Moreira
muitos outros casos análogos e cortamente inte-
ressantes, que eu devo á minha investigado di­
recta. Tais sao: fraga, em relado a fragoso; rafia
e rufido; farroupa e farroupilha; malandro e ma-
landrim; mandria e mandriáo; sarampo e saram-
pdo; etc.1
*

* *

Vejamos agora a terceira parte da obra de


Julio Moreira.i

i Da derivagao regressiva me ocupe! expressamente no


capítulo VI déste livro.

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Júlio Moreira 195

É esta a mais longa, e porventura a mais in-


teressante, das tres partes da obra.
Trata-se de lexicología.
Apresenta o autor um largo estudo sobre a
linguagem de Camilo, colhendo nela, e apresen­
tando, alguns centenares de vocábulos, que o
grande romancista extraiu do talar corrente da
Beira e Trás-os-Atontes, —as duas provincias que,
na frase de Camilo, sabem portugués como Frei
Luís de Sousa. Tais vocábulos nao figuravam nos
dicionários portugueses, anteriores ao Dicionário
de Cándido de Figuiredo; mas quase todos fo-
ram registados neste último. Nem por isso, toda­
vía, é inoportuna a apresentaqáo da colheita de
júlio Moreira, porque ele a acompanha de glosas
e comentarios, que se nao compadecem com a ín­
dole e os limites de um dicionário própriamente
dito.
Na sua justificada admiraqáo por Camilo, teve,
porém, a condescendencia de supor que Camilo
nunca dormitou, e de registar, como palavras
portuguesas, certas ingresias.que o romancista acei-
tou provisoriamente de alguns plumitivos irres-
ponsáveis, e com que matizou pinturescamente
a Corja e outras lacéelas ocasionáis.
Tais sao os verbos explosir e zxpluir, que eu
registe! no Novo Dicionário, sob a responsabilidade
de Camilo, mas que eu ti ve a coragem de capitular
de incorrectos,porque as homenagens e a gratidáo
que eu devo ao grande escritor nao me obcecam

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196 Novas ReflexSes

a ponto de sceitar, de boa avenga, os deslizes


ou coxilos, que se nos deparem ñas obras de Ca­
milo.
Quase todo o grande tesoiro da linguagem ca-
miliana, estranho ao vocabulario antes déle regis-
tado, é extraído da inesgotável mina do falar
popular, na Beira e em Trás-os-Montes; mas aque­
les molinos explosir e expluir, nao foi lá que os
descobriu, porque o povo os náoconhece; empres-
tou-lhos a arraia-miúda da literatice contemporá­
nea; e éle, que tanto ensinou, fechou os olhos, por
um instante, e aceitón a Iigáo de quem nem discí­
pulo podia ser.
Julio Moreira, nao podendo nem devendo jus­
tificar aqueles dois verbos, tratou de os explicar,
sem coragem para os repelir.
Explicagáo inútil, diga-se a verdade. De expío-
sao nunca se poderla derivar legítimamente um
explosir; e o portugués explodir, poderla, pela
quéda do d medial, produzir a fórma exploir; mas
nunca a produziu, porque isso seria urna evolugáo
morfológica, e as evolugoes déste género só se
realizam no decurso dos sáculos. Ora, o verbo
explodir é multo novo no portugués, nao tem tai-
vez meló sáculo; nao se tornou aínda popular; e
só daqui a dois ou trés sáculos, é que éle se po-
derá contraír em exploir, (com o).
Expluir (com u), nem daqui a déz sáculos,
nem nunca, poderla ser fórma portuguesa, deri­
vada do latim explodere; e é precisamente o ez-

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Julio'Moreira 197

pluir, (com u), o que por ai se perpetra impune­


mente, e o que Camilo aceitou urna vez, no
decurso de urna soneca, em que nunca mais caíu.
Fagamos, pois, instiga ás boas intengóes de
Julio Moreira, mas nao lhe aceitemos a tolerancia,
com que tratou aquele caso, e continuemos a
apreciá-lo e a louvá-lo, nos helos ensinamentos,
que a sua obra vem ministrar aos estudiosos da
lingua.
*

* *

Evidentemente, a linguagem é seara táo ampia,


que mais de urna vez os estudiosos, e até os peri­
tos, hesitam na escolha do melhór processo para
a monda e colheita da opulentísima seara.
. Tratando da linguagem de Camilo, Julio Mo­
reira registou falario, que o romancista nao in-
ventou, mas que cortamente colheu no tesoiro da
linguagem popular. Como dicionaristas, também
registe! o termo, mas indiquei-lhe pronuncia di­
versa da que Julio Moreira lhe atribue.
Julio Moreira manda lér faiário, (acento tó­
nico na sílaba lá), e diz-nos, em nota, que o su-
íixo ário, neste caso, tem valor semelhante ao
sufixo ório, que forma derivados com sentido or­
dinariamente pejorativo.
Nao me parece que tenha razáo Julio Mo­
reira.

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198 Novas Reflexdes

Cumpre evitar sempre a confusao de desinen­


cias com sufixos: todo o sufixo é urna desinencia,
mas nem todas as desinencias sao sufixos, em por­
tugués.
Falando mais claro: em directorio,oratorio, tetri-
tório, etc., temos a desinéncia ório, mas nao temos
sufixo portugués, porque essas palavras já vieram
formadas para a nossa lingua, com o radical e o
sufixo que tinham na lingua máe.
É certo que temos o sufixo ório, mas em pala­
vras de formagáo popular ou familiar, como cebo-
lorio, finório, latinório, casorio, palanfrório, fogue-
tório, vivório, esquesitório, simplório, etc.
Mas o mesmo nao sucede com o sufixo ário.
Todas as palavras nossas, que tém esta desinéncia,
nao receberam sufixo nenhum em portugués, por­
que já o traziam da lingua donde vieram. Tais sao:
aquário, sacrário, calvario, rosario, notário, etc. As-
sim, creio poder afirmar que o sufixo ário nao é
portugués, pois me nao ocorre nenhum vocábulo
portugués, em que a desinéncia ário nao se ja de
origem ou filiagao latina.
O povo nao conhece pois nem usa tal sufixo,
como coisa sua. Mas conhece e pratica o sufixo
tónico io, como se vé em bafio, de bafo; em lavradio,
de lavrar; em mulherio, de tnulhér; em rapazio,
de rapaz; em doentio, de doente; em escorregadio,
de escorregar; em poderlo, de poder; etc.
Ora, assim como de mulhér fizémos mulhe­
rio, de rapaz rapazio, de poder poderío, etc.,

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Julio Moreira 199

de falar pederíamos só íazer falarío, e jamais


falário.
*
* *

Também na parte lexicológica da sua obra se


ocupa Julio Moreira de um vocábulo, que anda
um pouco adulterado, em dicionários e tratados
agrícolas. É o suposto quinconcio, importado di­
rectamente do francés quirtconce.
A tal respeito, observa éle judiciósamente que
a fórma portuguesa deve ser quincunce, (do latim
quincuncetn).
Essa mesma observado eu tinha feito antes,
ao refundir o Novo Dicionário, que, na segunda
edigáo, regista e define quincunce, deixando o
quinconcio para uso dos francesistas.
E, sobre o que Julio Moreira e eu também
nao estamos em desacordó, é a nogáo, que éle nos
dá, de quincunce.
■ Diz éle que o quincunce designa particularmente
a figura formada por objectos dispostos com os
cinco pontos de um dado de jogar; e que plan­
tar arvores em quincunce é plantá-las em xadrez.
Na segunda edigáo do Novo Dicionário, definí
quincunce:
— "Plantagáo de árvores, disposta em xadrez,
sendo urna em cada canto e urna ao centro. Grupo
de cinco, formando quatro um quadrado e ficando
um no centro».

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200 Novas ReflexSes

Mas deve notar-se que os tratadistas de agri­


cultura e os dicionaristas, embora multo cons­
picuos, nao estío de pleno acórdo a tal res­
pedo.
O Petit Larousse define o vocábulo como eu;
mas o grande Larousse deve surpreender muita
gente, quando define: " plantadlo de árvores,
de maneira que representara o algarismo ro­
mano V».
E o notável agronomista Paulo de Moráis vai
na mesma esteira.
Esta divergencia nao se justifica, mas expli­
cate, se forraos ver o Littré, (Dictíonnaire de la
Langue). O grande lexicógrafo faz distinglo entre
quincunce simples e quincunce duplo. Para éle, o
simples é representado pelo tal algarismo, (V),
isto é, por tres pontos, ligados por línhas, de
forma que representara o V; e o quincunce duplo
sao quatro árvores, que formara quadrado, tendo
urna no meio, assim :

o o
o
o o,

ou, mais simplesmente, ligando os pontos, X.


Afinal, parece-me que ao verdadeiro quincunce
deu Littré o nome de duplo, para aceitar talvez o
nome de quincunce, dado por agricultores ao que

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Júlio]Moreirá áót

é realmente me/o quincunce, se assim me posso


exprimir.
Com efeito, remontando á origem da palavra
e á sua verdadeira e primitiva significado, adia­
mos que o quincunce, entre os Romanos, era urna
moeda de cinco onqas, e neta se representavam
cinco pontos, ou pequeñas bolas, como acima in­
dique!, para o suposto quincunce duplo.
O quincunce, para o Romanos, também desi­
gnava o juro de cinco por cento, e, como adje-
ctivo, aplicava-se a qualquér coisa que tivesse
cinco partes.
Donde se deve concluir que a palavra se re­
fere a cinco coisas, e nao ao algarismo Roma­
no, (V), que representa o número cinco.
Portanto, o verdadeiro quincunce é represen­
tado por cinco objectos, dispostos como os cinco
pontos da moeda de cinco onqas,

(o o
• o
O o), 7

ao passo que o V apenas representa tres pontos


ou objectos, ligados por duas linhas.
Veio isto a propósito da judiciosa correado
de quincóncio por quincunce, lembrada também
por Julio Moreira; e como já vai estirada a pa­
lestra que me foi sugerida pelo último livro do
finado filólogo portuense, mais nao será mistér,

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202 Novas ReflexSes

para que os estudiosos da lingua reconheeam que


na sua estante nao devem faltar os Estudos da
Lingua Portuguesa, de Julio Moreira.

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XXIV

O g

O chamado ce cedilhado acompanhou sempre


a lingua portuguesa desde os inicios déla. Veja-se
peca, tranga, roca, tica, praca, Franca, etc., etc.
Urnas vezes é determinada pela procedencia
latina do respectivo vocábulo, e corresponde ao
ce ou cí, ou ti, ou te prevocálico: fácio, (fago);
prétium, (prego); nátio, (nagáo); platéa, (praga);
lancea, (langa), etc.; outras vezes corresponde ao
grupo zz italiano, como em razza, (raga), ou ao z
castelhano: troza, (troga); pinza, (pinga); bozo,
(bugo); calabaza, (cabaga); cachaza, (cachaga);
mortaza, (mordaga); danza, (danga); chorizo,
(chourigo); carozo, (carogo); e, outras ainda, á
míngua de razóes etimológicas ou de lagos de
parentesco com outras línguas, o c é determinado
pela velha pronuncia portuguesa, que nao con­
fundía o valor do c com o valor do grupo ss, co­
mo, por exemplo, na palavra canica.
É claro que as razóes scientíficas e justificati­
vas do c intervocabular dos citados exemplos sao

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204 Novas'Reflexdes

precisamente as mesmas que justificam a antiga


escrita gapato, garga, etc. Entretanto, nos tempos
modernos generalizou-se extraordinariamente a
substituido do g inicial por s, e quase todos te­
mos escrito sapato, sarga, etc.
Embora esta substituido nao tenha nada de
scientífica, foi respeitada pela Comissáo oficial,
que em 1911 reformou e regularizou a ortografía
portuguesa; e por isso a comissáo prescreveu, no
artigo X do seu formulario:
— «Fica banido o g inicial, que será substi­
tuido por s nos poucos vocábulos em que etimo­
lógicamente figuraría; exemplo: sapato, sarga, e
nao gapato, garga, como dantes se escrevia, e
ainda urna ou outra vez se escreve».
Á primeira vista, poderá notar-se que urna
Comissáo, constituida por homens de sciéncia,
baja preferido, embora excepcionalmente, certas
práticas, determinadas apenas por convendo tá­
cita, aos evidentes preceitos scientíficos.
Mas o caso tem explicado simples.
Tanto no batimento do ug» inicial como no
do z final dos patronímicos "Fernández», "Gon-
dlvez», etc., e de outras palavras, como "sim­
plex», "ourivez», etc., a Comissáo deteve-se algu-
mas vezes nos seus propósitos de reformado
scientífica, alegando no seu relatório:
— "Teve a Comissáo em atengáo que a extra-
nheza, que poderiam ocasionar no público certas
¡novadles ou renovagóes gráficas, náo viesse pre-

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Op 205

judicar a aceita gao dos demais preceitos, que pa-


recerao a todos exequíveis».
Isto é, a Comissáo, para nao dificultar a acei­
tado, que a sua obra felizmente teve, transigiu,
— raramente, sim, mas transigiu, — com certas
práticas, que a sciéncia rejeita.
Procedeu judiciósamente, parece; e.como toda
a obra é susceptível de melhoria, confiou em que
o tempo facilitasse o reconhecimento público de
certos preceitos, que, própriamente talando, nao
ficaram "banidos», mas adiados.
Creio que, entre ésses preceitos, teráo cabida
os relativos á legitimidade do “p" inicial, quando
estribados em evidentes razoes filológicas.
Nao será pois inoportuno ir amanhando o ter­
reno e langando a boa semente, embora os frutos
se nao colham desde já.
Mais duas palavras portanto.

* *

Referiu-se a Comissáo reformadora da ortogra­


fía portuguesa aos poucos vocábulos em que o p
inicial figurarla etimológicamente, e menciona
apenas sapato e sarga.
Com efeito, a sarga, rigorosamente escrita, é
garga, e assim escreveu Herculano. Compare-se o
castelhano zarza. E sapato, com análogo funda­
mento, será gapato, em que pese a nossos olhos
mortals, habituados a coisa diferente.

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206 Novas Reflexoes

Mas poucos vocábulos, como disse o doutís-


simo relator da Comissáo, nao é bem assim. Há
muitos na lingua portuguesa, aos quais compete
filológicamente o g inicial, e que todos nós, ou
quase todos, modernamente, é claro, temos es­
crito com s inicial. Exemplifiquemos, para que os
nossos olhos se váo habituando a fórmulas, que
necessáriamente háo de substituir as actuáis, se a
sciéncia nao é urna palavra vá.
Saloio, rigorósamente escrito, de acórdo com
o étimo arábico, foi e há de ser galoio.
Sáfaro, também a origem arábica ordena que
seja gáfaro.
Safar, (verbo), corresponde ao castelhano za­
far, e portanto tem de sér gafar.
Sarabanda, com o mesmo fundamento, é gara-
banda. Veja-se o castelhano zarabanda.
Sarigueia é vocábulo guarani, que para sér bem
escrito tem de sér garigueia.
Sarpar corresponde ao castelhano zarpar. Por­
tanto, garpar.
Salema tem de sér galerna. O árabe nao deixa
dúvidas a tal respeito.
Surro, (sujidade), deve sér garro.
Safim, nome geográfico, era Qafitn entre os
antigos, e assim será.
Sumatra, ou antes Samatra, tem de voltar a
sér Qamatra.
O nosso conhecido seiim, assim escrito, pela
nefasta influéncia do francés, voltará a sér cetim,

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que é como escreviam os nossos mestres, e como
manda a fonte arábica. Nao tem g inicial, mas é
caso análogo.
A salsa-parrilha é simplesmente corruptela de
garga-parrilha.
Salamaleque é invenqáo moderna. O étimo ará­
bico ordena falamaleque. -
Sambaco íoi sempre gambaco.
Sanco é urna ofensa á origem castelhana. Qanco
é que corresponde ao castelhano zanco.
Saragoga está no mesmo caso. Veja-se o cas­
telhano Zaragoza.
Sanefa é outra inexactidáo usual, A fonte ará­
bica ordena ganefa.
Sanja corresponde ao castelhano zanja. Por­
tanto ganja.
Sapa, (especie de pá), tem de ser gapa. Com-
pare-se o castelhano zapa.
Safoes, nao: é gafoes.
Safra, diz o árabe que devemos escrever ga~
fra.
Samarra é coisa que nao deveria haver. O cas­
telhano zamarra está dizendo que, em portugués,
temos gamarra.
Sahara é urna história: Qahará é que devi a ser.
Suaquem, que os francesistas escrevem Suakim,
foi e deve ser Quaquém, e assim escreveu Ca­
motes, (Lusíadas, X, 97).
E assim teremos de corrigir as fórmas Sofala,
Socotorá, Sunda, Surate Samora, etc.r notnes que

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208 Novas Reflexdes

os nossos clássicos escreveram rigorosamente:


Cofala, Qocotorá, Cunda, Cúrate, Camora, etc.
(Veja-se Barros, Década, III, liv. V, cap. 1; Cou­
to, Década IV, liv. Ill, cap. 1; Eufrosina, acto I,
se. 2; Barros, Década I, liv. IV, cap. 3; etc., etc.)
Vamos a ver se, pouco a pouco, nos libertamos
de proconceitos pueris, e se nos resolvemos a por
de lado a dilecta e nociva ortografía ocular, para
nao aceitamos senáo a que se estriba na sciéncia
e ñas tradiqóes da lingua.
Assim seja.

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XXV

Outro gramático

Multa gente, especialmente no Brasil, deve tér


conhecido o antigo Senador e Ministro do tempo
do Imperio, Filipe Franco de Sá, falecido há pon­
eos anos.
Mas o que multa gente de certo ignora é que
o velho estadista e parlamentar era um doutís-
simo lingüista, que, sendo do Maranháo, tem di-
reito a que o agrupemos na brilhante pléiade
daqueles Maranhenses, que se chamaram Gonsal­
ves Dias, Sotero dos Reís, Joáo Lisboa, Odorico
Mendes...
E vou explicar o meu asserto.
Depois de retirado da vida pública, Franco de
Sá voltou-se para os seus dilectos estudos da lin­
gua portuguesa, e tormou o plano de urna grande
obra, como servido aos estudiosos da lingua, es­
pecialmente, como ele diz, "á maiór parte dos
nossos escritores, em que nao tem aumentado o
zélo da vernaculidade e correcqáo da lingua, em-
bora a sciéncia glotológica se tenha vulgarizado,
14

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210 Novas ReflexSes

dé anos a esta parte, introduzindo-se até com


demasía nos compendios escolares» ...
A doenqa porém nao lhe permitía completar
essa obra; e Franco de Sá resolveu publicar ao
menos a primeira parte, relativa á ortografía ou
recta pronuncia.
Mas essa resoludo ficou, por entáo, sem efeito,
porque a morte surpreendeu Filipe Franco de Sá.
O Governo do Maranhao, cónscio do valor
daquele trabalho lingüístico, e com aprovaqáo do
Congresso estadual, encarregou pessóa compe­
tente de copiar e rever o manuscrito, dirigindo a
publicado.
Essa incumbencia coube a um publicista, já
apreciado em Portugal e no Brasil, muito dedi­
cado aos interesses da lingua portuguesa, e cujo
nome literario é Fran Paxeco.
Tenho presentes as primeiras 122 páginas pu­
blicadas, cuja doutrina se impoe á minha conside­
rado, e da qual, com verdadeiro prazer, darei
conta aos mens habituáis leitores, a quem nao
será indiferente o conhecer um novo e respeitável
arauto da pureza e correcto da linguagem.

* *

A publicado póstuma dos trabalhos lingüísti­


cos do ilustre e finado maranhense Franco de Sá
tem por título A Lingua Portuguesa, (dificuldades

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Outro" gramático 211

e dúvidas), e trata especialmente da ortofonía, que


é o mesmo que ortoépia ou pronuncia rigo­
rosa.
Embora a ortofonía constitua apenas urnas das
partes da gramática, abrange assuntos táo com­
plexos, que ocupa o volume de Franco de Sá, e
mais se poderla alargar aínda
Divide-se a obra em títulos, e subdivide-se em
capítulos.
O primeiro título increve-se Dos sons e diton­
gos, e abrange seis capítulos, o primeiro dos quais
é consagrado ao discutido tema quais sejant os di­
tongos portugueses, e revelador da grande erudiqáo
e sisudo criterio do autor.
O assunto tem-se prestado aos mais variados
conceitos, desde Joao de Barros, que só admitía
sete ditongos, até o dicionarista Constancio, que
enumera trinta e cinco.
Eu próprio, — se de mim posso talar,—incli-
nei-me em tempos para a opiniáo de Júlio Ribeiro,
que admitía dezanove ditongos puros. (Veja-se
Falar e Escrever, vol. III).
Mas, depois, estudando mais detidamente o
assunto, pareceu-me que nao devíamos aceitar
mais de oito ditongos puros. (Vejam-se Problemas
da Linguagem, vol. III, e O que sendo déve dizer,
vol. II).
Entretanto, o erudito mestre e meu respeitável
amigo Concalves Viana é de parecer que os di ton­
gos puros sao doze.

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212 Novas ReflexSes

A diferenga está apenas em que o sábio glotó-


logo ve ditongos distintos em ái e ai, éi e éi, ói e
di, éu e éu.
Como os ditongos nada tém com a forma, e
tém tudo com o som, nao me repugna aceitar o
aditamento do mestre, que, na esséncia da questáo,
está mais próximo de mim do que de Joáo de Bar­
ros, Soares Barbosa, Constancio, Ribeiro de Vas­
concelos, Adolfo Coelho, Epifánio, Julio Ribeiro,
etc., o que muito me anvaidaria, se eu fosse sus­
ceptive! de vaidades.
Franco de Sá faz lucidamente a historia e a
crítica dos ditongos, e conclue por aceitar, como
ditongos oráis, todos os que eu aceitei, menos um,
que é ou.
Entende éle que oa, pronundiando-se como a
simples sílaba ó, deixou de ser ditongo.
Efectivamente, talvez se poss sustentar que a
pronuncia ditongal de ou é simples fenómeno re­
gional, e que, na fonética geral, mórmente na de
Lisboa, o grupo ou sóa como ó.

É incontestável a erudigáo e, géralmente, ocri-


tério do lingüista maranhense; mas pede a justiga
que se pondere sér essaerudigáo superior, algumas
vezes, á clareza do que éle expoe.

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Outro gramático 213

Assim, nao me parecem suficientemente claros


éstes períodos:
— "Só formam tritongos na nossa lingua os
ditongos precedidos de i medial, como ca-iaes,
sa-iais, ou da vogal u, articulada com urna con-
soante gutural, pronunciada juntamente com o di­
tongo, como na antiga interjei?Io guai! e em
Uruguay, Paraguay, aguai, adequate, delinquiu...
Ás vezes, porém, o u, procedido da gutural, sóa
separadamente do ditongo seguinte, e entlo nao
há tritongo: por exemplo, em arguaes, recuae..
Em primeiro lugar, nao se explicam bem aque­
jas duas formas divergentes, ca-iaes, sa-iais. Ou
deveríamos tér ca-iais, como sa-iais, ou sa-iaes,
como ca-iaes.
E depots que palavras sao estas? Sao tempos
dos verbos cair e sair? Em tal caso, os subjuntivos
caíais e saiais nunca foram nem podem sér triton­
gos, porque o i medial faz parte da primeira sílaba,
(cai, sai), sem nenhuma ligadlo fonética com o
ditongo ais.
Demais, tanta razio há para se nao ver tritongo
em recuaes e arguaes, como em Paraguai, Uru-
guai, etc.; e o suposto tritongo de adequai, ade­
quate, briga urn pouco com a teoría, que o autor
expóe na pág. 22, sobre a conjugadlo dos verbos
terminados em quar e guar.
Nao sao porém de estranhar estas hesitaqoes
do autor, num assunto sóbre que talvez nao baja
tres gramáticos acordes. Além que a fonética por­

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214 Novas ReflexCes

tuguesa assenta os factos, que nao sao os mesmos


em toda a parte e em todo o tempo, e a apreciaqáo
dos próprios factos incontestados diversifica, de
gramático para gramático, de lingüista para lin­
güista. Bastará advertir-se que Jerónimo Soares
Barbosa, com outros gramáticos célebres, nem
sequér admitía a existencia de tritongos na lingua
portuguesa, ao contrário exactamente do que afir-
mou o velho Duarte Nunes de Leáo e o grande
glotólogo Diez.
Em todo caso, o livro de Franco de Sá sus­
cita interessantes problemas, relacionados com di­
tongos e tritongos; e nele podem os estudiosos
colher, pelo menos, valiosos elementos para a de­
finitiva rosolugáo de tais problemas.
O autor, depois de se ocupar de ditongos e
tritongos, ocupa-se do que éle chama ditongo móvel.

Ditongo móvel chamam os Italianos ao que de­


saparece, quando a sílaba deixa de ser acentuada,
como em priego e pregáre, ciólo e celeste, etc.
Para o lingüista maranhense, em portugués só
há um ditongo que se pode dizer móvel: é o que
se fórma pela inserqáo de um i eufónico onde se
dá o encontró de e com a.
Esclarecendo: nós tínhamos as formas clássicas
passeo,feo, recéo, cea, cadéa, etc. Por eufonía, pos-

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Outro gramático 215

pós-se um i ao e, e todos hoje dizemos e escreve-


mos passeio, feio, receio, ceia, cadeia, etc.
Nos derivados destas palavras, desde que se
desloca a acentuado tónica, desaparece o i, e
diz-se e escreve-se pcissear, fealdade, recear, cear,
cadeado, etc.
Éstes sao os tactos, e déles se deduz que erram
deplorávelmente tantíssimos plumitivos, que a toda
a hora nos enjóam com formas déste tárelo: pas-
seiar, ceiar, recelar, encandelar, feialdade... Tais
vocábulos nao podem ter i, que só se justificava,
por eufonía, nos vocábulos primitivos passeio, ceia,
receio...
A éste respeito, com razáo estranha Franco de
Sá que o Filinto, no último verso do livro 7.° dos
Mártires, perpetrasse a forma passeiado; e, procu­
rando atenuar o disparate, faz estas ponderales:
— "Parece que o autor usou do ditongo, re-
ceando que, na lingua, se fizesse sinérese das duas
vogais, Meando o verso errado, com falta de urna
sílaba; mas para o evitar, bastava por o acento
circunflexo no e — passéando, o que seria mais
fluente...»
Creio que nao tem razáo o nosso lingüista.
Passéando foram sempre quatro sílabas métri­
cas e gramaticais; e só por necessidade do metro
se toleraría que representasse trés sílabas.
Nao era precisso nem convida o acento circun­
flexo. Por duas razóes •'
1.a —Porque o acento circunflexo, como o

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216 Novas Reflexdes

acento agudo, só é permitido em sílabas tónicas:


espectáculo, rótulo, lépido, avó, corda, labaréda,
médo, etc.
2.a — Porque nunca em Portugal se pronunciou
pás-sé-an-do, mas sim, pas-si-an-do.
Nao sel se no Maranháo a pronuncia é outra.
Em Portugal, o e átono, antes de a, o ou u, pro­
nuncia-sé sempre como i: idear, (idiar) passear
(passiar), jornadear (jornadiar), cear (ciar), Leote
(Lióte), peúfa (plúga), reunir (riunir), etc.
O que nao significa que eu condene a pronun­
cia maranhense, se é outra. Significa apenas que
a escrita normal em caso nenhum necessita do i
em passear, cear, etc.
Nao há atenuantes para aquele erro de Filinto.
Para aquele e para outros.

O capítulo V da prim eirá parte ou título da


obra de Franco de Sá é preenchido por urna curiosa
questáo fonética e morfológica: o ditongo oi por
ou, e vice-versa.
Como se sabe, no Doiro e no Minho, como no
Brasil, prevalece ou, e nao oi: tesouro, mouro,
cousa, agouro, outo, couro, etc.; ao passo que ñas
outras provincias portuguesas, e ainda em Lisboa,
prevalece oi: coisa, tesoiro, moiro, oiro, toiro, oito,
agoiro, coiro...

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O litro gramático 217

Na colisáo das duas pronuncias, e inclinando-se


ao parecer do velho gramático Borges Carneiro, o
lingüista maranhense propoe soluqáo que se pode
justificar, mas que me parece inexequível.
Entende ele que se déve manter ou, quando
corresponda a au no étimo latino: ouro, touro,
mouro, etc., (latim aurutn, taurum, maurum, etc );
e que se deve manter oi ñas palavras do étimo
diferente: oito, noite, biscoito, coiro, Doiro, ce­
rnirá, tesoira..., pois que, ueste caso, o i corres­
ponde ao c do grupo latino ct, (octo, noctem, co-
ctum, etc.), ou é determinado por simples metálese
ou deslocaqáo do i da fonte latina, (Durium, ton-
soria, coriutn, etc.)
Nao há dúvida de que estamos em frente de
dois diferentes fundamentos etimológicos, que
podem justificar dois diferentes processes de pro­
nuncia e de escrita.
Mas o facto é que quem diz e escreve ouro,
touro, tesouro, etc., também diz e escreve Douro,
couro, tesoura, noute, biscouto, e até onto; ao passo
que quem diz e escreve oito, noite, tesoira, etc.,
também diz e escreve oiro, moiro, tesoiro, etc.; e
a grande dificuldade estaría em levar o público a
dizer e escrever ao mesmo tempo touro, e coiro,
porque o ou corresponde ao au do latim taurum
e o i de coiro é o mesmo i do latim corium. Desde
que a diferenqa do processo depende da diferenqa
etimológica seria necessário que, ao lado de cada
cidadáo, estivesse sempre um filólogo, para lhe

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218 Novas Reflexdes

corrigir coisa por cousa, e couro por coiro, afóra


dezenas de hipóteses análogas; e, aínda assim,
creio escássamente na eficacia de tal correcto.
Desde que urna pronuncia se tornou normal, nao
há sabio que a substitua por outra; e, ao invés
do que opinava o Borges Carneiro, nao é a pro­
nuncia normal que se há de subordinar á escrita
de um erudito, antes a escrita é que se há de su­
bordinar a essa pronuncia.
Sejam quais forem as predilecqóes e os hábi­
tos, o facto é que temos na lingua portuguesa as
formas divergentes ouro e oiro, couro e coiro, ce-
noura e cenoira, cousa e coisa.
Preferí sempre a segunda fórma, porque
aprendí a falar com ela e porque é a mais vulga­
rizada na linguagem da minha terra e na escrita
dos meus mestres; mas ninguém dirá que a pri-
meira é errónea; e a divergencia autorizada de
urna fórma vocabular, longe de prejudicar, póde
até abonar a riqueza de um idioma.

* *

Depois de éscritas as precedentes páginas, com-


pletou-se a publicado da obra de Franco de Sá.
Já tive ensejo de reconhecer que Franco de
Sá possuía larga erudito literaria e filológica,
grande amor aos interesses da lingua portuguesa,
e raras qualidades de ponderadlo e criterio.

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Outro gramático 219

Com modestia nao menos rara, enuncia ás ve-


zes tactos problemáticos, regista as provas que
abonam qualquér das faces de um problema, e,
em vez de decretar a soluqáo que lhe ocorre,
como é vezo de supostos lingüistas e filólogos,
deixa ao arbitrio e criterio do leitor o julga-
mento do pleito.
Nao obstante ocupar-se a obra especialmente
de ortofonía ou ortoepía, nela se versam nume­
rosos pontos e problemas da nossa opulenta e
formosa, mas difícil, lingua portuguesa. A alguns
deles me referirei também, aplaudindo o conceito
do autor, ou comentando-lho, á luz escassa dos
meus escassos recursos.
Planeava o autor trabalho largo sóbre a lin­
gua portuguesa; mas a doenqa restringiu-lho á
primeira parte, consagrada á pronuncia exacta, ou
ortofonía.
Agora, que a obra está concluida e visto que
a nao acompanha qualquér índice, convirá sinte­
tizar aquí o elenco das matérías que se tratam no
volume.
Na primeira parte da obra, consagra o autor
47 pág. aos sons e ditongos, ocupando-se dos di­
tongos portugueses, dos tritongos, da sinérese
e diérese, do ditongo móvel, dos ditongos ña-
sais, etc.
Na segunda parte, ocupa-se dos acentos, —
acento tónico, acento secundário, aspirado e qua-
lidade e timbre das vogais.

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220 Novas ReflexSes

A terceira parte, consagrada á eufonía, ocupa-se


de letras acrescentadas ou suprimidas, de letras
mudas, consoantes suavizadoras.
Na quarta parte, o assunto sao os dialectos
portugueses e brasileiros, vicios de pronuncia, etc.
Em apéndice dá-nos o autor urna útil e co­
piosa lista, devidamente acentuada, de nomes pró-
prios, de homens, mulheres e cidades.
Conhecida a extensáo e a importancia da ma­
teria do livro, passemos em revista alguns pon­
tos que, a meu ver, merecem especial atenqáo e
estudo.
*

* *

A Fonología, se nao é a parte mais importante


da gramática portuguesa, é cortamente a mais es­
cabrosa, a mais sujeita a oscilaqóes de facto, e por­
tanto a mais susceptível de variados conceitos
doutrinários.
Compreende-se, pois, que a obra póstuma do
Dr. Filipe Franco de Sá, Lingua Portuguesa, exce­
lente subsidio para o estudo da lingua e valioso
documento de saber e criterio, poderá, de quando
em quando, sugerir aditamentos, anotares e até
reparos de um ou outro estudioso, visto como a
obra, interrompida pelo falecimento do autor, ficou
exclusivamente consagrada á Fonología, ou, como
diz o autor, á Ortofonía ou recta-pronuncia.
A recta-pronuncia é formosa ideal, cuja reali-

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Outro gramático 221

zagáo esbarra a cada hora ñas mu tasó es do tempo


e do espago. Há tres sáculos, nao se falava o por­
tugués como hoje se rala; no Minho, nao se fala
como no Algarve; no Para, nao se fala como em
S. Paulo.
Desta variabilidade da pronuncia derivam dou-
trinas várias, virios pontos de vista, e aínda virios
conceitos acerca do ponto, em que finda o normal
e comega o anormal.
É natural, portanto, que a substanciosa obra
de Franco de Si, consagrada exclusivamente i
Ortofonía, sugira a um ou outro leitor estudioso
anotagóes, que, quando exteriorizadas de boa fé,
representan: alguna servigo aos interesses da lingua.
Demais, como Franco de Si faleceu hi alguns
anos ji, e como em cada um dos últimos anos a
Filología tem realizado conquistas inestimiveis, é
de crér que o autor, se vivo fósse e desse hoje i
estampa o seu livro, em alguns pontos modificaría
talvez a sua doutrina, táo sujeita é a Fonología i
influencia das observagóes de cada hora.
Á cerca de sons e ditongos, assunto da pri-
meira parte da obra, ji eu tive ocasiáo de anotar
que, a tal respeito, há sensíveis divergencias entre
os gramiticos; e, se passarmos i segunda parte,
que se ocupa dos acentos,talvez haja conveniencia,
em se cor rigirem algumas passagens, tanto mais,
quanto é certo que o autor nao reviu as provas
tipográficas da obra, e um lapso de revisáo póde
transformar o aspecto de um problema, — o que

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222 Novas'.ReflexSes

aliás nao significa que o inteligente revisor da


obra se baja esquivado aos mais louváveis estorbos
para cumprir exemplarmente a sua missao.
Nao vale a pena referirmo-nos a meros lapsos
de revisáo, quando éles nao influein claramente na
doutrina do autor. Já nao sucede o mesmo, por
exemplo, na pág. 78, onde se le:
— "Todas as palavras portuguesas terminam
por vogal ou por urna destas consoantes — m, ti, v,
S, X, z,.. •"
Ora, em portugués, nao há palavras terminadas
em v, mas há multas terminadas em r. Portanto,
onde está v, deve estar um r. Aquela confusáo
tipográfica é fácilmente explicável, mas ofende a
doutrina e poderá iludir algum leitor menos pre­
cavido.
Outra confusáo aínda, que nao é dos tipógra­
fos, mas do próprio autor, pois que, na página
¡mediata, indue nos vocábulos que tém acento
tónico na penúltima sílaba o nome próprio CÁCEM,
vila de Portugal.
Cácem, com acento tónico na penúltima sílaba,
que é a primeira, é nome que nao existe em Por­
tugal. O que temos, com acento tónico na última
sílaba, é Cacém, nome de um logarejo nos arredo­
res de Lisbóa, e que faz parte do nome da vila de
Santiago de Cacém.
Na pág. 80, entre as palavras que terminam em
do, e tém o acento tónico na penúltima sílaba,
incluém-se cóvdo, fúngao, sarátnpao.

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Outro gramático 223

Em Portugal, pelo menos, aquelas palavras nao


se pronunciam assim, nem os dicionários as regis-
tam como tais. Acresce que o castellano saram­
pión, que o autor cita como etimología de saram-
pao, em caso nenhum justificaría acento tónico
fóra da última sílaba.
Iludir-se-ia o autor com alguns tactos da pro-
núncia maranhense?
Passemos a outros pontos.

* *

A palavra benpao tinha primitivamente, com


todo o fundamento, o acento tónico na última
sílaba, visto que era contracto de bendipao;
mas o uso geral alterou-Ihe a prosódia, e todos
dizemos benpao, com acento tónico na primeira
sílaba. A éste respeito, observa Franco de Sá,
(pág. 80):
— «Há quem opine que, talando de benqáo da
igreja, se deve dizer, com acento na última sílaba,
benpao, benpoes. Nao vemos razáo para isso; e fóra
difícil, se nao impossível.fazer que a mesma palavra,
com a mesma significado, seja pronunciada de
modo diferente, num caso especial».
Tem muita razáo o autor; mas eu, nem com
diversas significapoes, levaría a bem que urna pa­
lavra tivesse duas prosódias. O disparate dos tais,
a que se refere Franco de Sá, faz-me lembrar o,

Biblioteca Nacional de España


224 Novas Reflexdes

disparate de outros que dizem carácter (de homem),


e caractér (tipo de imprensa).
É verdade que nós temos academia, com pro­
sódica grega, e temos infelizmente academia, com
prosodia latina, para significar figura de gésso.
Mas um disparate nao justifica dois.

Como exemplo de vocábulos oxítonos, termi­


nados em n, o autor, rejeitando judiciósamente a
pronúncia Ó ton, substitue-a por Otón, ou Otao.
Otáo, bem está; mas Otón (acento tónico na
última sílaba), nao póde ser. Nao há nem pode
haver palavras portuguesas, que terminem em n,
e tenham acento tónico na última sílaba. Tal pro­
núncia é puramente francesa.
Por isso, fala francés, e nao portugués, quem
diz panteón, orfeón, camión, Otón...
As formas portuguesas sao panteáo, orfeao, ca-
miño, Otao. Póde escrever-se panteón, mas com a
condigáo de lhe darmos prosódia latina, isto é,
acentuar tónicamente a primeira sílaba: panteón.

Entre as palavras paroxítonas ou graves, termi


nadas em er, menciona o autor o nome Férrer.

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Outro gramático 225

O nome é espanhol, e na Espanha pronuncia-se


Ferrér.
É certo, porém, que em Portugal e no Brasil
se diz Férrer, (acento tónico na primeira sílaba).
Porqué?
Suponho eu que, tendo sido canonizado um
espanhol com o nome de Vicente Ferrer, éste
nome passou para o latim eclesiástico; e, como
no latim nao há polisílabos com acento tónico
na última sílaba, á parte alguns nomes que vieram
do hebreu, e que, aínda assim, sao lidos á latina
por virios padres e leigos, cometamos de lér
Férrer, á latina; e assim se chamou Férrer um
grande jurisconsulto coimbráo; e assim se cha­
mou Férrer o ilustre jurisconsulto pernambucano,
meu amigo, Dr. Vicente Férrer de Barros Wan-
derley Araújo, recentemente falcado.

* *

A palavra tu'ipa tem silo pronunciada divér-


samente. Uns dizem tul pa, outros tulipa. Franco
de Sá, estribando-se em alguns dicionános, manda
lér túllpa, (acento tónico na primeira sílaba).
Duas palavras sobre o caso.
Viesse do persa ou do turco, o termo é de ori-
gem incerta.
O facto de alguns dicionários registarem a pro­
nú ncia tulipa, atribuo-o eu a que o Bluteau só
15

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220 Novas ReflexSes

conhecia, a tal respeito, a pronuncia jisboéta, re-


gistou-a no seu vocabulário, e ali a foram beber
outros dicionaristas. Mais nada.
Em Lisbda, com efeito, dizem geralmente tu­
lipa; mas, por cssas provincias fóra, nunca ouvi
senáo tulipa, (acento tónico no lí), e creío ser esta
a pronuncia verdadeiramente nacional; e, desde
que o étimo é desconocido, só temos o recurso
da pronuncia geral.
Demais, tenho rázoes para afirmar que os an-
tigos nao diziam túlipa mas tulipa.
No Lexicon Etimológico de Frei Joáo de Sousa,
o que se regista é tolipa, (to, e nao tu).
É claro que, se a pronuncia geral fósse túlipa,
o grande arabista nao escreveria tolipa.
Logo..adeus túlipa.

O autor defende judiciósamente a pronuncia


cúbala, citando embora a pronuncia castellana
cabála, e afirmando que todos boje dizem cúbala.
Nem todos. Em Portugal é quase vulgar ou-
vir se cabála, mas nao há dúvida que os entendi­
dos aconselham cúbala.
Nao é verdade que em castelhano se diga ca-
búla, como o autor indica, mas é possível que
nesta indicado houvesse erro tipográfico. Tanto

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Outro gramático 227

os Espanhóis como os Italianos dizem cábala, e


assim deveremos dizer.

* *

A propósito do rodo, (orvalho), pondera Franco


de Sá que alguns poetas, por conveniencia de me­
tro e de rima, dizem rodo, ou rósdo, como fez
Odorico Mendes.
Efectivamente a pronuncia exacta é rodo,
(acento tónico no í), e nao pode ser outra. Mas
a pronuncia errónea rocío nao é só liberdade de
alguns poetas: vulgarizou-se extraordinariamente
entre os que escrevem e entre os que só léein. A
generalidade dos novos poetas nao conhece outra.
Nao é, pois, tempo perdido insistir-se em que
o latim rosdvus, donde procedeu aquele vócábulo,
nao permite que se diga rodo ou róscio..

* *

Á mesma liberdade de metro e rima a trihue


o autor o haver Camoes pronunciado sempre
Quíloa, (acento tónico na primeira sílaba), salvo
que no seu tempo se pronunciasse assim.
Donde se infere que Franco de Sá tinha como
exacta a pronuncia Quilóa.
Mas teva depois conhecimento do que, a tal

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228 Novas Reflexñes

respeito, deixei escrito no volume III, cap. 33, das


Li(des Práticas, e em O que se nao deve dizer,
vol. I, 1.a parte, cap. 18; e, ñas notas do seu li-
vro, (pág. 150), reproduziu amávelmente o meu
conceito, quanto á errónea pronuncia Quilóa, e
nao o contestón. Assim procedem os sinceros ami­
gos da verdade.
*

* *

Entre as palavras acentuadas na ante-penúltima


sílaba, indue Franco de Sá o vocábulo involucro.
É sabido que quase toda a gente assim pronuncia,
e nao é muito para estranhar que o autor, na
pág. 153, escrevesse a seguinte nota:
— "Nao sabemos em que se fundam os auto­
res, muito competentes, de urna nossa Qrámátlca,
(a de Pacheco da Silva Júnior e Lameira de An­
drade), para aconselhar que se diga involucro;
parece-nos érro de imprensa, na colocaqáo do
acento».
Nao foi érro de imprensa; foi o que devería
sér. Mas Franco de Sá, acreditando, de boa fé, na
existencia da fórma latina invólucrum, nao se deu
ao cuidado de verificar a prosódia da palavra no
latim. Alias, teria visto que, entre os Latinos, nao
havia invólucrum, mas sim involúcrutn; e como,
nesta palavra, a penúltima sílaba é langa por na-
tureza, tal como em ambulácrum, simulacrum, etc.,
em portugués devia sér involúcro.

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Outro gramático 229

Portanto, nao houve erro de imprensa na­


güela passagem da Gramática de Pacheco da
Silva e Lameira de Andrade, e nalguma coisa
éles se fundaram, para aconselhar a pronúncia
involucro.1
Mas as coisas sao o que sao. Creio que toda
a gente no Brasil, e quase toda em Portugal, diz
involucro; e esta pronúncia, embora inexacta,
passará talvez para o rol das irremediáveis e nu­
merosas inexactidóes prosódicas, que o uso con-
sagrou em miope, em álcool, em esqueleto, em pa­
tena, em océano, em ídolo, em acónito, em béngáo,
em pántano, etc., etc.
É da sabedoria das naqoes: o que nao tem re­
medio, remediado está.
Mas, ao menos, conhega-se o erro; e, quando
e em-quanto se póde, reajamos contra ele.

* *

Assim como todos nós pronunciamos correcta­


mente decámetro, kilómetro, etc., parece, á pri-
meira vista, que também deveríamos pronunciar
decálitro, kilólitro, decágrama, kilógrama...
Franco de Sá entende, com efeito, que deve­
ríamos dizer decálitro, mas que o vulgo prefere a

1 Veja-se atrás o cap. X.

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230 Novas Reflexdes

acentuado francesa, fazendo acento tónico na sí­


laba li.
Creio que nao é bem assim.
O decámetro, o kilómetro, etc., sao exactamente
pronunciados, porque a primeira sílaba do latim
metrum é breve; e o mesmo se nao póde dizer
de litro e grama. Demais, a Academia Espanhola
já condenou, como errónea, a pronuncia decalitro.
*

* *

Num livro meu, Falar e Escrever, (vol. II, ca­


pítulo 113), e aínda noutro livro, (Vicios da Lin-
guagem Médica, 9.a secqáo, cap. 11), já procure!
mostrar que nao é exacta a usual pronuncia de
cotilédones.
Franco de Sá é do mesmo parecer, o que é
mais um motivo para insistirmos em tirar da cir­
culado aquela moéda falsa; e do meu parecer é
também, (pág. 12), quando aconselha a fórma por­
tuguesa telefónio,zm vez da francesa telephone.(Pó&t
vér-se o meu livro Falar e Escrever, vol. 1, cap. 9 ;
e O que se nao deve dizer, vol. 1,2.a parte, cap. 70).
E sempre satisfago o vermos que os bons espi­
rites se encontrara cora o nosso.
*

* *

Nem sempre, porém, isso poderla suceder.


Franco de Sá, por exemplo, nao acha que

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Outro gramático 231

opór á pronuncia, muito adaptada, de Débora e


Dálila.
Os meus hebraístas, contado, acham e ensinam
que a pronuncia exacta é Debóra sDalíla, (acento
na penúltima sílaba).
Acresce que, no latim, há Dalíla e nao Dálila.

Como era de supor, Franco de Sá nem sempre


podia ter informagoes seguras sobre a pronuncia
normal entre os Portugueses,visto que viveu longe
distes, e os livros raramente traduzem, com in-
teira exactidáo, as modalidades fónicas de qual-
quér país.
Por isso convirá fazer algumas restrigóes nos
exemplos. que ele nos dá, (pág. 184), de palavras
em que os Portugueses dáo valor aberto, mas se­
cundario, á vogal inicial de certos vocábulos. Em-
bora o autor diga o contrário, é certo que em
Portugal nao tem som aberto, mas fechado, a pri-
meira vogal das palavras — abdicar, abjurar, abro­
gar, absolver, absorver, abster, abstraír, absoluto,
absurdo, abstruso. Quando a palavra comega por
ob, entáo sim, o o tem som aberto: objector, obs­
táculo, obsequio, etc.
Igualmente nao é aberto o primeiro a de bra-
dar, e de sarrar, e de talim, nem táo pouco o e
de arredio.

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232 Novas ReflexSes

Com estas simples restrigóes, a doutrina, que


o autor expóe na pág. 186, nao me parece que
suscite reparos do leitor mais escrupuloso. Pare­
ce-me sá e segura.
*

* *

Diz-nos Franco de Sá, (pág. 264), que a letra p


sóa ñas palavras optimismo, optimista, perceptível,
scepticismo, scéptico, seseeptibilidade, susceptível.
Assim será... no Brasil, e nao será pronuncia
incorrecta. Em Portugal os tactos sao outros:
naquelas palavras, nunca se pronuncia o p. E, se
é certo que, tanto em Portugal como no Brasil,
o p nao sóa em óptimo, nao vejo razáo para que
se pronuncie nos derivados daquela palavra: opti­
mismo e optimista.
*
* *

Em regra, como é sabido, o m, dentro de urna


palavra, nao sóa, antes de n: somno, damno, so­
lemne, columna, etc., e por isso muito racional­
mente, se escrevia dantes, e já se escreve também,
coluna, solene, daño, sono, etc.
Em nota, porém, observa o mesmo autor que,
em Portugal, ao norte, orné pronunciado em
amnistía, gimnásio, gimnástica, indemne e seus
derivados (indemnizar, etej.
Aquela restrillo ao norte é inoportuna: ao

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Outro gramático 233

norte, como ao sul e ao centro, os Portugueses


pronunciam normalmente o m de indemnizar e
amnistía, o que está de acórdo com a pronuncia
geral de amnesia, vocábulo da mesma familia.
Quanto a gimnasio e gimnástica, dantes, na
pronuncia corrente, soava o m; vulgarizados, po-
rém, ésses vocábulos, váo sofrendo a natural evo-
lugáo fónica, e hoje ouve-se a cada passo ginásio,
ginástica, e só esporádicamente se ouvirá o m de
gimnásio e gimnástica.

* *

É muito indicioso e elucidative o capítulo que


Franco de Sá intitulou consoantes suavizadas.
Mas, nesse capítulo há, pelo menos, um pe­
ríodo que pede anotaqáo. Diz assim:
— «O s entre vogais abandonou-se. ficando
igual a z; mas, na regiáo supra mencionada (Trás-
-os-Montes e Beira), aínda tem o som duro ou
forte, como no espanhol, de ss».
Nao é isso. Na Beira e em Trás-os-Montes,
onde se mantém aínda a velha pronuncia portu­
guesa do s, ninguém dá ao s entre vogais o som
forte de ss.
Nao sóa como dois ss, nem sóa como z. Tem
um valor fónico, que se nao póde representar por
qualquér outra letra de alfabeto; e quem nao tivér
sido criado naquelas provincias, muito difícilmente

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234 Novas Reflexdes

pronunciará, como os beiroes e trasmontanos, o


s entre vogais, táo avésso ele é á fonaqáo france­
sa, adoptada e vulgarizada entre nós, nos últimos
tres sáculos.
Se eu, em vez de escrever, estivesse talando,
fácilmente exprimiría o valor daquele s. Assím,
apenas poderei sugerir urna apróximada represen­
tadlo daquele som.
Segundo a pronuncia geral, a expressáo as al­
mas é azalmas, visto que o s entre vogais vale z.
Mas o beiráo nao diz assim. Fagam de conta que
a expressáo é só as, e reparem bem no valor que
dáo ao s do artigo as: nao vale z, nem vale dois
ss; nao é verdade? Pois mantenham inalterável
ésse valor, como se nao estivesse entre vogais, e
pronuncian seguidamente almas.
Se a operaqáo foi feita com cuidado, ficaráo fa-
zendo ideia da pronuncia beiróa e trasmontana
do s entre vogais, pronuncia que era cortamente
a dos nossos avós.
*

* *

A propósito da pronuncia do s intervocálico,


Franco de Sá observa judiciósamente, (pág. 274):
— "Epifánio Dias e outros autores mandam
pronunciar com o som que lhe é próprio o s dos
números ordinais: vigésimo, trigésimo, centésimo,
etc. Essa pronuncia parece-nos errónea, por in-

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Outro gramático 235

fuéncia de décimo, undécimo, duodécimo. No Bra­


sil pronunciamos ésse s como z».
É esta exactamente a doutrina, que eu tenho
defendido mais de urna vez e em mais de um lu­
gar. (Vejam-se Lifdes Práticas, vol. III, cap. 51 e
67; Falar e Escrever, vol. II, cap. 57 e 86).
Além de Epifánio, porém, e de algum grama-
ticastro anónimo, nao contieno outros escritores
que, a respeito de vigésimo, trigésimo, centésimo,
mandem pronunciar estas palavras, como se as
escrevéssemos vigécimo, trigécimo, centécimo.
Quera especialmente pronuncia vi-gé-ci-mo, sao
os cautelemos de Lisboa; e, como os lisboetas sao
geralmente criaturas muito atreitas a cacofonías
que ibes paregam modernas, nada me admira que
a pronuncia dos cauteleiros se tenha defendido na
cidade de mármore e granito, chegando até a ser
perfilhada por um gramático que sabe alguma
coisa, e qae tinha obrigaqáo de se nao abandear
com cauteleiros e vários alfacinhas de letras gordas.
Normalmente, o s entre vogais sóa como z, e
nem sequér há sombra de pretexto, para que o s
do vigésimo seja excepto á regra.
E nao talemos mais em tal.
*
* *

Cerrara a obra de Franco de Sá dois excelen­


tes capítulos sobre os dialectos portugueses e os
dialectos brasileros.

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236 Novas Reflexdes

Á parte ligeiras observares, que se poderiam


fazer ao facto de o autor atribuir a certas regioes
portuguesas modos de pronúncia que nao sao de-
las ou sao também de outras, o lingüista brasi­
lero notabiliza-se pela seriedade da investigado,
e pelo juízo imparcial que consegue manter, en­
tre as qualidades da pronuncia brasileira e as
qualidades da pronúncia portuguesa.
É natura] que os Portugueses prefiram a sua
pronúncia á dos Brasileiros; como é natural que
os Brasileiros prefiram a sua á dos Portugueses.
Em geral, nao nos sóa agradávelmente a pro­
núncia que nao usamos. É corrente e humano. Mas
o desagrado nao obriga a remoques e desdens,
como os que ás vezes tém surgido, entre publi­
cistas de cá e de lá.
Qualquér dos dois países tem erros vulgares
de pranúncia, que os entendidos poderlo e deve-
rio corrigir. Fóra desses erros, todas as modali­
dades fónicas, por mais diferentes que sejam,
podem tér justificado na história da lingua, na
vizinhanga ou influencia dos outros idiomas, nos
virios processes de educado literária, etc.
Portanto, temos ligio oportuna e claros moti­
vos de aplauso ñas seguintes palavras de Franco
de Si, tio criteriosas como nobres:
— "Nao há razio para desdens e motejes recí­
procos. Cada um dos dois povas irmios tem a
pronúncia que a fórga inelutável das circunstancias
peculiares lhe den: com ela está contente, porque

Biblioteca Nacional de España


Outro gramático 237

a julga a tnelhór e a mais legítima. Isso nao altera


a unidade da lingua culta, do idioma literário, e o
mesmo sucede em todas as línguas».
E, com esta chave de oiro, aquí me cerro.

Biblioteca Nacional de España


XXVI

3 riqueza do nosso idioma

Já neutro capítulo deste livro exemplifiquei a


numerosa sinonimia da lingua portuguesa, como
abonado da riqueza da mesma lingua.
Masa prova maisconcludentedesssariqueza —
e riqueza muito extraordinaria — sao os tactos, de
que, por circunstancias condecidas, tomei condeci-
mento directo e incontestável.
É trivial a afirmaqáo genérica da riqueza do
nosso idioma, e eu próprio afirme! algures que a
lingua portuguesa é a mais rica da Europa, com
exepgáo talvez do russo.
Hoje, creio possuir elementos para me conven­
cer de que nem o russo, nem qualquér outra lin­
gua, condecida ñas cinco partes do mundo, possue
a riqueza do idioma portugués.
Há vinte ou trinta anos, já eu faz i a a seguinte
ponderado: se compulsarmos os dicionários por­
tugués-italiano, portugués-francés, portugués-in­
glés, portuguez-alemáo, etc., e os dicionários

Biblioteca Nacional de España


A riqueza do nosso idioma 239

alemáo-portugués, inglés-portugués, francés-por­


tugués, italiano- portugués, etc., fácilmente se ve­
rifica que o vocabulario portugués ocupa maiór
espado, ou é mais numeroso, que o vocabulario
das outras línguas.
Ora, nesse tempo e até quase á actualidade, os
dicionários menos incompletos chegaram a regis-
tar sessenta e tantos mil vocábulos, o que justifi-
cava já aquela ponderadlo. Mas boje, depots da
republicano do Novo Dicionário da Lingua Por­
tuguesa, a que pude consagrar dezenas de anos
de aturadas investigates e labores, temos já re­
gatados cento e vinte mil vocábulos, pouco mais
ou menos. Se apenas metade déles já nao teriam
confronto, quanto a número, com os vocabulários
das outras línguas, é fácil concluir que nenhuma
destas tem riqueza que se compare á da lingua
portuguesa.
Mas aínda nao é tudo.
O Novo Dicionário, reeditado, comeqou a im­
primirse em Agosto de 1912 e acabou em igual
més de 1913; e, como o autor nunca interrompeu
a colheita de vocábulos portugueses e brasileros,
aínda nao registados em outros dicionários, impor­
tantes acquisiqóes acompanharam a reedito e nela
tomaram lugar; mas outras houve, e multas, que,
ao adquirirem-se, já encontraram impressas as res­
pectivas folhas, e só poderiam entrar em suple­
mento. Pois só essas acquisites, feitas apenas
em alguns meses, e que nao podiam fazer parte

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240 Novas ReflexSes

do corpo da obra, tiveram de constituir um


suplemento em que os leitores do Novo Dicio-
nário poderáo contar mil e oitenta e quatro vocá-
bulos!
E mais ainda. Dois ou tres dias depois de
impresses aqueles aditamentos, já eu tin ha
urna dúzia de novos vocábulos, que tiveram
de constituir um pequeño suplemento aos adita­
mentos /
Terminada a reimpressáo da obra, nao termi-
nou nem podia terminar a minha colheita; e, em
menos de quinze dias depois de exposta á venda
a reedigáo do Dicionário, novos e mui tos vocábu­
los eu possuía já, os quais, reunidos com alguns
subsidios retartados de um ou outro obsequioso
cooperador, perfazem o número de quatro centos
e tantos, que, a esta hora, sao apenas elementos
de um grande suplemento, que se publicará urn
dia, na provável hipótese de eu nao tér vida até
á terceira ediqáo da obra 1
Ora, os aduzidos tactos provam sobejamente
que é infinita a seara do vocabulário portugués,
e que seria loucura imaginar-se possível um di­
cionário completo; como provam que nenhum

1 Viví, felizmente, até á 3.“ edicto, pelo menos, e nela


entraram todos os referidos aditamentos, como entrarüo
na 4.a muitissimos outros, que ainda vou coligindo. (Nota
da presente edigao).

Biblioteca Nacional de España '


A riqueza do nosso idioma 241

idioma rivaliza em riqueza com o portugués, se é


que os vocabularios extrangeiros representam al-
guma coisa ao lado do numerosso vocabulário
contido em o Novo Dicionário da lingua Portu­
guesa.
Podem pois ufanar-se Portugueses e Brasileiros
de possuir e talar um idioma, cujo variado voca­
bulário por nenhum outro é excedido em abun­
dancia e riqueza.

16

Biblioteca Nacional de España


XXVII

Saudade

Alguns moQos letrados da minha terra, entre


os quais se podem citar com encarecimento os
Srs. Jaime Cortesáo, Teixeira de Pascoaes, e alguns
outros, convencidos de que a saudade é o afecto
mais característico da alma portuguesa, preconi­
zan! um sistema de filosofía e religiáo nacional,
a que dáo o nome de saudadismo, e deram á
estampa um formoso livro da erudita Senhora
D. Carolina Michaélis, doutora em Filosofía pela
Universidade de Edelberga e professora da Uni-
versidade de Cóimbra.
Éste livro, a Saudade Portuguesa, embora nao
destinado expresamente á propaganda daquele
sistema, de que a autora discorda em parte, e com
que em parte concorda, é urna rica e formosa con­
tribuido para o estudo filológico, histórico e lite­
rario da palavra saudade.
É comente a suposiqáo de que nenhuma outra
lingua tem vocábulo, que corresponda precisa­

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Saudade 243

mente á nossa saudade, ou que exprima precisa­


mente o sentimento que ela representa.
A senhora Michaélis aceita com reservas essa
suposigáo, e entende que o castelhano soledad, o
asturiano senhardade, o galiziano morrinha, o ca-
taláo anyoransa, e o alemáo senhsucht, sao sinóni­
mos de saudade, e, sobretudo no termo alemáo,
vibra a magua complexa, que a palavra portuguesa
exprime. Reconhece entretanto que a saudade é
trago distintivo da melancólica psyché portuguesa
e das nossas manifestagóes musicals e líricas, muito
mais do que a sehnsucht é característica da alma
germánica, que é mais reflectida que a nossa, e
avéssa a sentimentalismos deletérios.
Assim é que a autora, estudando as melhores
obras da literatura portuguesa, ve que a saudade
e o morrer de amor sao as sensagoes que mais vi­
bra m nessas obras.
Sao elas que períumam a Menina e Mofa de
Bernardim Ribeiro, as Tribulafdes de Israel de
Usque, as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso,
as Cartas da Relegiosa Portuguesa, as Rimas de
Camoes, o Freí Luís de Sousa de Garrett, e os
primeiros cantares de amor dos poetas galego-por-
tugueses, nomeádamente os do Rei Sancho I.
E, a éste propósito, faz crítica das famosas
Cartas de Egas Motriz Coelho, mostrando que,
longe de serem coevas de Afonso Henriques, sao
falsificagóes monstruosas de literatos seiscentistas,
que, patrióticamente, desejavam mostrar aos Espa-

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644 Novas Reftexóes

nhóis que possuímos literatura mais antiga que


a déles.
Em-quanto a sciéncia da Iinguagem nao foi
conhecida em Portugal, todos julgaram auténticos
aqueles documentos, excluindo Garrett, Teófilo
Braga, etc.Veio porém a lingüística e demonstra-se
que tais documentos sao apócrifos, anacrónicos,
absolutamente incompatíveis com a nossa lingua-
gem arcaica.
Ocioso é ponderar o elevado alcance crítico
e literário destas revelaqóes, que constituent um
dos pontos mais interessantes da Saudade Portu­
guesa.
Seguidamente a éste ponto, faz a autora o
exame lingüístico dos vocábulos saudade e sau-
doso. Claro é que a origem désses vocábulos é vul­
garmente conhecida; mas a Senhora Michaélis,
acompanhando, através dos sáculos, a evoluqáo
do latim solitate até á forma actual, saudade, (so-
litate — soedade — soidade — suidade), faz a histó-
ria minunciosa dessa evoluqáo, reconhecendo que
a transido de oi para au é anormal, e só explicá-
vel por processes de analogía ou de etimología
popular, a que nao é estranha a palavra saúde.
É támbém muito interssante o estudo histó­
rico e comparativo, que a autora faz, do signifi­
cado da saudade; e, se em todas obras da Senhora
Michaélis, há documentado vasta da sua erudi-
Qáo histórico-literária e da sua alta competéncia
filológica, a Saudade Portuguesa é, além de tudo,

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Saudade 245

um livro que interessa vivamente á alma portu­


guesa, sempre identificada com o mais puro e
doce sentimento, que se póde abrigar no coraqáo
humano.

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XXVIII

Notas a lapis

Á margem de urna «Gramática Histórica»

Tem já urna Gramática Histórica o Brasil.


Organizou-a o erudito e respeitado professor
do Ginásio de S. Paulo, Sr. Eduardo Carlos Pe­
reira, a quem já devíamos urna Gramática Expo­
sitiva, que merece e tem cabida entre as mais
substanciosas Gramáticas da lingua portuguesa.
Éste seu segundo empreendimento teve natu­
ralmente de se defrontar aínda com mais respon­
sabilidades e exigencias, do que o primeiro.
Efectivamente, os elementos da história da
lingua andam dispersos em táo numerosos e va­
riados documentos, que dificílimo deve ser co-
lhé-los e coordená-los numa sintese completa; e
muitos há, que até parecem nunca tér sido avis­
tados pelos gramáticos e comentadores da evolu-
Qáo do idioma. Como exemplo, bastará citar a
evoluQáo do imperfeito do subjuntivo (louvar,
louvasse). O latim laudarem produziu louvar em

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Notas a lápis 247

documentos arcaicos; mas, com o tempo, o mais-


-que-perfeito laudavissem (louvasse) foi substituir
a primeira fórma do imperfeito. Quando? Porque?
O verbo saber também poderla dar lugar a
investigates interessantes. Velo do latim sápere,
mas a primeira pessoa do indicativo, (eu sei) nao
podia vir de lá. Veio directamente do francés?
Como? Quando?
¿E a formato e evoluqáo dos diferentes tem­
pos do verbo ser?
Em suma, estas e outras coisas inda nao fo-
ram suficientemente tratadas em Gramáticas His­
tóricas, o que comprova a dificuldade deste gé­
nero de estudos.
Quando me refiro a Gramáticas Históricas,
claro é que só me refiro a duas, porque nao co­
nfiero outras: a do Sr. Eduardo Carlos Pereira e a
do Sr. Dr. Ribeiro de Vasconcelos, da Universi-
dade de Coimbra. Aquela é mais desenvolvida
do que esta, mais profunda e menos incompleta;
mas esta, a meu vér, tem sobre a do Sr. Pereira
a incontestável vantagem da coeréncia e rigor da
fórma.
O Sr. Vasconcelos, embora discretamente eti-
mologista, mantém em toda a obra uniformidade
e exactidáo gráficas; e todos véem bem quanto
isso importa aó ensino, seja qual fór o sistema
ortográfico do autor.
Mas o Sr. Eduardo Carlos Pereira, salvo o
respeito que todos lhe devemos, afigura-se-me que

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248 Novas Reflexdes

nao tem convicgoes ortográticas nem sistema de­


finido, escrevendo ás vezes a mesma palavra com
duas ou tres formas diferentes, segundo as im-
pressdes de momento. Assim, vemos nesta sua
obra ao envez, ao invez, e ao inve's... Éle sabe
perfeitamente que, daquelas trés fórmas, só a ter-
ceira é exacta, mas deixou passar outras, porque
se nao prende com rigores ortográficos.
Tal desprendimento tem atenuantes na im­
prensa periódica, em que mui tas vezes, nao há
tempo nem competencias para correcgoes gráfi­
cas; mas, em livros escolares, bom servido se fará
ao ensino, nao habituando os alunos a tomar como
exacto quanto Ibes ensinaram em tamaninos, ou
a julgar acertada qualquér forma que ibes caí da
pena.
Entretanto, é fóra de dúvida que, sobretudo
num livro doutrinário, a esséncia está na doutrina
e nao na grafía.
A doutrina da Gramática Histórica do
Sr. Eduardo Carlos Pereira é abundante, geral-
mente segura, e está exposta por método que nao
levantará oposigao seria. É verdade que o autor
subordinou a organizado da obra a um programa
oficial, e, em casos tais, as responsabilidades sao
repartidas; mas, a ésse respeito, o Sr. Carlos Pe­
reira nao se restringiu ás linhas gerais do pro­
grama: ampliou-as e entreteceu-as, dando ao seu
trabalho desenvolvimento vantajoso, de que só
eje é responsável.

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Notas a lápis 249

Compreende-se que urna obra de tal dificul-


dade e alcance nem sempre se esquivará a desli­
ces e senóes. Explícitamente o reconhece o autor,
e espera que as advertencias dos seus colegas o
auxiliem na melhoria da obra, que, a meu ver, há
de tér outras edigóes. A sinceridade do seu de-
sejo anima-me a reproducir, sem intuitos críticos,
algumas ligeiras observances a lápis, que o fo-
lhear da obra me foi sugerindo.
Se algumas forem julgadas aceitáveis e pude-
rem contribuir para a melhoria de nova edigáo,
de alguma forma terei significado a sincera aten-
gao e aprego, com que leio e estudo os trabalhos
gramaticais do prestimoso e aplaudido professor.

Nao posso aceitar nem acho justificável a in­


sistencia com que o autor pratíca e defende as
gráfias dezeseis, dezesete, dezenove, e até desenove,
com s, (pág. 19 e 117).
Parece que o autor de urna Gramática Histó­
rica deve conhecer a história, a morfología e a
fonética da respectiva lingua. Que entre os jorna-
listas e entre os publicistas, menos preocupados
do rigor da fórma, baja muitos que escrevam
dezeseis, dezesete, dezenove, na errada suposigáo
de que sao palavras compostas de dois elementos
ligados pela conjungáo e, é caso que a ninguém
deve surpreender. Mas quem estudqu e nos expóe

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250 Novas ReflexSes

a historia da lingua, tem o dever moral de reco-


nhecer que sempre em portugués se disse deza-
seis ou dezasseis, dezasete ou dezassete, dezanove;
que assim escreveram todos os mestres, e que
essas formas se registaram nos vocabulários por­
tugueses, desde o mais antigo dicionário da lin­
gua até os modernos dicionários, cujos autores
tiveram a consciéncia do que faziam.
Nao me deterei agora sobre a exacta grafía
daquelas palavras, porque do caso me ocupei já
com alguma largueza. (Veja-se calar e Escrever,
vol. I, cap. 120 e 202)

A determinado dos ditongos, (pág. 29), póde


suscitar dúvidas.
Com efeito, chamando o autor ditongos de-
crescentes ao ai, au, ei, eu, ui, oi, ou, ocorre
lembrar que os ditongos sao tactos fonéticos, e
que, sob a forma de ei, há dois: ei, como em rei,
e éi como em hacharéis; assim como há dois
com a fórma de oi: di, como em foi, e di, como
em herói, quér se escreva assim, quer se escreva
heroe.
Por outro lado, chamar também ditongo ás
vogais átonas ea, ia, ua, ie, io, é contrário á defi­
nido que de ditongo nos dá o próprio autor,
(duas vogais pronunciadas com um impulso único
de voz), visto como aquetas vogais, em gloria, ni­

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Notas a lapis 251

vea, agua, vário, etc., nao sao pronunciadas com


urna só emissáo de voz, embora em metrificado
constituam urna só sílaba. Mas sílaba, neste caso,
nao é o mesmo que ditongo.
O autor, tratando dos ditongos, omite os ña-
sais. Porqué, nao sei.

Na pág. 34, ao fazer-se a classificado dos vo-


cábulos, segundo o número das sílabas, enumera-se
o tretrasílabo, e diz-se que éste termo vem do
grego tretra.
Nem tretrasílabo é palavra portugués, nem tre­
tra é grego.
Houve cértamente inadverténcia de revisáo.

A propósito da persisténcia da sílaba tónica,


na transformado do latim em seus dialectos no-
vi-latinos, o autor da Gramática Histórica, (pág. 43
e seguintes), baseia-se ás vezes em tactos que...
tal vez o nao sejam.
Entende éle que a palavra portuguesa barba­
ría, (acento tónico no i), veio do latim barbária,
tendo sido deslocado o acento por ignorancia.
Vai nisto confusáo. O latim barbária e barbá-
ries deu em portugués termos análogos e seme­
jantemente acentuados: barbária e barbárie.

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252 Novas Reflexoes

A barbaría, (acento tónico no i), nao veio do


latim: é um derivado de bárbaro, com o suíixo ia,
que é sempre tónico.
Tém origem e acentuado diferente os dois ter­
mos — barbária e barbaría. Nao houve deslocagáo
de acento.
Do latim pénsilem ainda se nSo deu em Portu­
gal deslocacáo normal do acento, visto que geral-
mente cá se pronuncia oénsil, (acento tónico na
primeirá sílaba). Como o Sr. Eduardo C. Pereira
diz que pensil tem acentuado na última sílaba,
refere-se provávelmente á fonética brasileira, que,
neste caso, nao é a portuguesa, nem está de
acórdo com a fonte latina.
Com o latim amylum é que houve deslocaqáo
do acento, (amído), mas a Gramática Histórica
menciona amylum como paróxítono, quando ele é
proparoxítono ou esdrúxulo. Deve ser érro de re­
visto.
Sabe-se que zangam ou zángdo é palavra paro-
xítona; mas, como geralmente se escreve zangáo,
sem se designar a acentuaqáo tónica, o autor ima-
ginou que tal vocábulo é geralmente oxítono, ri­
mando com bardo, ocasiáo, etc.; e, para cúmulo
de confusáo, até imaginou que o Garrett também
assim pronunciava, porque escreveu zangdo.
Para evitar estas confusdes, é que eu sempre
defendí as formas orgam, oregam, orpham, fran-
gam, zangam... Mas a ortografía oficial portu­
guesa, para desviar as dificuldades da formagáo do

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Notas a lápis 253

plural, manteve a grafía mais usual, órgdo, órfdo,


frangdo, zángdo,..., contanto que se acentúe grá­
ficamente a sílaba tónica.
Frangdo (frangam) ou jrango, é pronuncia
normal, pelo menos áquém do Atlántico; mas,
no declive do zangao, foi o autor levado a dizer-
-nos que frangdo também é oxítono ou agudo.
No Brasil, é possível que o seja, e o Sr. Eduardo
Pereira o poderá verificar; em Portugal, nunca
o foi.
Com relacáo ao latim involucrum e myopem,
também o autor labora num pequeño equívoco.
Diz ele que no latim clássico se acentuava invó-
lucrum. Póde, porém, sustentar-se que Plinio e
Cicero acentuavam involúcrum. 1
Quanto a myopem, a palavra nao era esdrú-
xula no latim, como o autor indica; era grave ou
paroxítona, como é fácil verificar-se; e no grego
também o o era longo, (ómega). Portanto, aqui é
que fizemos deslocaqáo de acento, porque o latim
e o grego ordenam miope, coisa que ninguém diz.

Entre os vocábulos que nos vieratn de línguas


estrangeiras, cita-nos o autor chalet, com acento
agudo etudo.

1 Vejam-se os capítulos X e XXV.

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254 Novas ReflexSes

Mas chalet nunca veio para a nossa lingua,


nem podia vir, com aquela fórma, porque nao
temos palavras terminadas em t. Usa-se, mas
como palavra francesa. Quandoseaportuguesasse,
teria de ser chalé.
Mas falemos de coisas serias.

A respeito de metaplasmos, ensina o autor


que entre as vogais se observa a substituidlo de
um som mais agudo por outro mais surdo. Assim
foi que do latim similare veio setnelhar; de lupum,
lobo; de cerimoniam, ceremonia..., (pág. 53).
Inverteram-se aqui as origens, salvo melhór
juízo.
O portugués ceremonia, que é fórma exacta,
embora alguns escrevam cerimonia, procedeu do
nome próprio latino Caere e produziu em latim
caeremonia, donde proveio o inglés ceremon, o
francés ceremonie, e castellano, o italiano e o por­
tugués ceremonia, registado éste pela maoria dos
nossos escritores e lexicógrafos, como Bluteau,
Fonseca, Moráis, Francisco Manoel, Camilo Cas-
telo Branco. Como se vé, isto é menos com o
Sr. Eduardo Carlos Pereira, do que com aqueles
que, levados por urna suposta etimología, ou por
hábitos injustificados, teimam em esertvtx cerimo­
nia.
Bom proveito.

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Notas a lápis 255

O esclarecido autor da Gramática Histórica


diz-nos, (pág. 65), que o e átono se permuta ás
vezes por i, como do latim lectionem para o por­
tugués licúo.
Nao é bem isso.
Assim como o latim perfectionem, electionem,
rejectionem, etc., produziu no portugués perfeigdo,
eleigao, rejeigáo, etc., pelo mesmo processo o latim
lectionem devia produzir primitivamente leigáo.
Leigáo evolucionou, contraindo-se o ditongo
ei, e caindo o e, como sucedeu em eigreja, (igreja).
Nao houve pois substituidlo de urna vogal por
outra.
*

Na mestna página se afirma que na prosodia


brasileira se diz vale (3.8 pessóa do indicativo de
valer).
Acrescente-se: e também na prosódia de Por­
tugal.
*

Faz o autor a crítica de vários sistemas orto­


gráficos, e, á parte algum preconceito de escola,
essa crítica é geralmente judiciosa.

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256 Novas ReflexSes

Concorda, por exemplo, em que o chamado


sistema misto, aínda largamente adoptado, espe­
cialmente no Brasil, tem por criterio o uso vario,
a incongruencia.
Nao há dúvida. Para remediar variances e in­
congruencias, acha o autor que a intervengo de
urna autoridade reconhecida, que fixasse num vo­
cabulario a grafía mais generalizada e acorde com
a índole electiva daquele sistema, conseguirla, setn
imitéis abalos, a unidade ortográfica, em breve
tempo.
É urna doce ilusáo do conspíscuo gramático.
Há mui tas autoridades reconhecidas; mas, a
tal respeito, nenhuma opina precisamente como
as outras.
Autorizadíssimo era o finado Consalves Viana,
— e aínda nao conheci quern o fósse mais, —e
todavía, em-quanto trabalhou largos anos por sua
conta exclusiva, nao conseguiu vulgarizar a sua
obra de uniformidade ortográfica. Sao naturalíssi-
mas as divergencias em tal assunto; e foi neces-
sário que ele abstraísse de algumas opinióes suas,
e que na unificado gráfica cooperassem quantos
em Portugal tinham voto na materia, para se
conseguir urna reforma, que é boje oficial e que,
dentro de meia dúzia de anos, nao contará entre
portugueses meia dúzia de dissidentes.
A Academia das Sciéncias de Lisboa, pela sua
Comissao do Dicionário da Academia, aceitou a
mesma Reforma, que só fóra aprovada superior­

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Notas á lápis 257

mente para as publicares e documentos oficiáis;


e a Academia Brasileira, que já tinha em 1907,
antes da reforma portuguesa, aprovado um sis­
tema de unificagáo e simplificado gráfica, eli-
minou, em Novembro de 1915, as pequeñas
divergencias que a separavam da ortografía
oficial portuguesa, e com esta a vemos boje de
acórdo.
Nao sei, — nem isso é comigo, — se a Acade­
mia Brasileira conseguirá, em pouco tempo, a
vulgarizado do sistema que aprovou; o que todos
devemos saber é que, se el a o nao conseguir, nao
o conseguirá nenhuma autoridade reconhecida, in­
dividualmente considerada; e o douto gramático
de S. Paulo continuará a lastimar que o seu sis­
tema tenha por critério a variedade, a incongruen­
cia.
*

A propósito da crítica, geralmente indiciosa,


de vários sistemas ortográficos, o erudito gramá­
tico do Qinásio de S. Paulo perdeu o seu azeite,
analizando a Reforma Brasileira de 1907.
Em 1912, já essa reforma tinha sido modifica­
da; e, em Novembro de i915, fundia-se coin a
ortografía oficial portuguesa.
Como é que o autor da Gramática Histórica,
publicada anos depois, nao conhecia aqueles
factos? É possível que a impressáo da obra se
17

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258 Novas Reflexóes

íizesse durante o ano de 1915; mas, aínda nesse


caso, a reforma criticada pelo Sr. Eduardo Pereira
já em 1912 eslava modificada.
Veio portanto um pouco tarde a crítica da
Reforma Brasileira de 1907.

Quanto á reforma portuguesa, o ilustre gra­


mático está no seu papel, nao morrendo de amo­
res por ela e preferindo o eclectismo variado e
incongruente. Respeitando-lhe as convienes, nada
lhe oporei.
Pede porém a verdade que eu diga ao
Sr. Eduardo Pereira que nao informou bem os
seos leitores, dizendo-lhes que, entre as origina­
lidades da Reforma Portuguesa, se ve crear (com
e) e recriar (com i).
Podia lá ser! Para os reformadores, criar é
verbo regular: eu crio, tu crias, ele cria. Lógica­
mente, vantajósamente, temos criar.
Justifica-se crear (e nao eu creo, tu creas, como
íazem certos plumitivos); mas a Reforma preferiu
criar, mas nao recriar, e, siin, recrear, porque os
dois verbos nao tém igual conjugado: eu crio,
tu crias, eu recreio, tu recreias... O autor mudou
a chave á (echadura, e disse o contrario do que
tinha em mente.

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Na página 164, houve um pequeño equívoco:
afirmar-se que o nome Marte proveio do nomi­
nativo latino.
O nominativo é Mars, que nao podia produ-
zir Marte. O acusativo Martem, sim.

A página 192 pede também urna ligeira recti-


ficaqáo.
Tratando de palavras que tém no Brasil sen­
tido diverso do que se ibes dá em Portugal, men-
cionam-se, entre outras: — borracho, (em Portugal,
filho de pombo, e, no Brasil, bebado); faceira
(em Portugal, carne da face do boi, e, no Brasil,
tnulhér casqai'ha); moco, (em Portugal, criado, e,
no Brasil, jovem).
Rectifique se: faceira, como mulhér ou homem
peralta, era trivial nos séculos XVII e XVIII, e
aínda se emprega; moco e borracho, tanto em Por­
tugal como no Brasil, significant respectivamente,
jovem e bébado, sem prejuízo de outras significa­
nces.
Também nos diz o autor que fazenda, em
Portugal, sao bens, mercadorias; e que as botas,
em Portugal, sao botinas, e, no Brasil ealcado de
cano alto; e que arrear, em Portugal, é adornar,

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260 Novas ReflexSes

e, no Brasil, selar animáis. Pois o que tais pala-


vras significam no Brasil, igualmente o significan!
em Portugal, á parte quaisquér outras significa­
nces.
*

Entre divergencias da prosódia luso-brasileira,


enumera o autor as palavras pequeño e sobrado
que os Portugueses, segundo o aplaudido gramá­
tico, pronunciam p’queno, s’brado...
Nao é verdade: sobrado, todos o pronunciam
su-bra-do; e pequeño, entre os que nao pronun­
ciam pe-que-no, pronuncia-se pi-que-no.
E de tudo se ve que, geralmente, entre a foné­
tica brasileira e a portuguesa, nao há tantas diver­
gencias, como se afigura aos mestres.

Fala-nos o autor, com alguma largueza, dos


elementos estrangeiros, que entraram no léxico
portugués, (pág. 241 e seguintes).
A éste respeito, impressiona-me a facilidade,
com que alguns gramáticos, alias eminentes, dáo
foros de cidade a vocábulos que nao sao nossos,
isto é, imaginam que fazem parte do léxico por­
tugués vocábulos, que nunca foram portugueses.
Ao referir-me algures á excelente obra do doutís-
simo gramático batano, Dr. Ernesto Carneiro Ri-
beiro, tive já ensejo de assinalar o estranho caso.

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Notas a lápis 261

Nos realmente, de envolta com o nosso voca­


bulario, usamos ás vezes palavras estrangeiras,
ora por necessidade, á mingua de palavras nossas
que conrrespodam áquelas, ora por luxo ou moda.
Assim, temos o deficit, o Tantum Ergo a toilette,
o pan y toros, o jockey, o chauffeur, etc., etc.
Dizer que isto sao palavras portuguesas, por­
que nos servimos délas, parece-nos o supremo
dos contrassensos.
Pois é o que se dá, por exemplo, na Gramá­
tica Histórica do Sr. Eduardo Castro Pereira; e,
para assinalarmos apenas os casos mats sensíveis,
note-se que o ilustre gramático considera encor-
porados no léxico portugués o sheliing, o penny,
o meeting, o leader, o sport, o clown, o record, o
spleen, o high-life, o roast-beef, etc., etc.
Em nenhum vocabulario portugués entraram
aínda, nem podiam entrar, tais fórmas. Algumas
já se aportuguesaram, com o schelling, que em
velho portugués é xelim; como roast-beeffe, que em
portugués é rosbife; e aínda como sport, que em
velho portugués é desporte ou desporto; mas as ou-
tras mantém o seu cunho estrangeiro.e, em quanto
o mantiverem, sao alheias ao léxico portugués.
Entre as palavras que recebemos do russo, enu­
mera o autor steppe e cossaco; mas nenhuma des­
tas palavras é russa nem portuguesa. O russo é
stepi, (com um só p), e nós temos estepe. Cossaco
nao existe: é cosaco, (só com um s), e veio-nos
(Erectamente do francés cosaque-

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262 Novas Reflexoes

Também nos diz que da China recebemos


o nankim. Nao conhego esta palavra. O k nao per-
tence a fórmas portuguesas, e em nossa lingua
nao há palavras oxítonas terminadas em in. O
que os nossos mes tres escreveram sempre foi
Nanquim. Mas basta ver Joáo de Barros, Década
II, livro 10, cap. I.
— Que da Persia nos veio o Schah, — diz ele
também.
Nao veio tal, porque o nao temos, nem na
Persia há aquetas letras. Virios jornalistas escre-
vem aquilo, porque o viram no francés, embora
a forma saja mais aleman que francesa. A palavra
persa, por transliteragáo, é xah; e os nossos es­
crupulosos clássicos representavam excelentemente
a etimología persa escrevendo xá. Assim escreveu,
por exemplo, o autor da Etiopia Oriental, II, 27.
— Que do húngaro nos veio hussard.
Esta fórma nunca podia ser portuguesa, por­
que nao temos vocábulo comum, terminado em d.
Hussard é francés e a fórma portuguesa é hus­
sardo.
Poderia alongar-se a relagáo dos vocábulos que
o autor considera portugueses e que o nao sao;
mas tanto bastará para que éle julgue se valerá
ou nao a pena fazer a revisio daquela parte da
sua obra.
*

As palavras como cadeia, cela, teia, meia, etc.,


adquiriram, fonética e gráficamente, um i, para

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Notas a lápis 263

se desviar o hiato, o que alias nao significa que


sejam inexactas as formas primitivas cadea, cea,
tea, idea..., tanto mais que os seus derivados nao
admitem ditongo, salvo ñas terminales eio, eia,
etc. Assim, de cadea, temos encadear; de cea,
cear, e jámais ideiar, ceiar, teiar, encadear...
Sao coisas simples, mas cumpre que, a tal res-
peito, se nao inoculem ideias falsas nos estudio­
sos, como poderla suceder em quem despreveni­
damente vir que o autor da Gramática Histórica
escreve e repete, na página 259, encadeiamento,
(com i).
O caso nao vale dois caracóis, mas, num livro
escolar, as pequeñas coisas podem tér grandes
resultados.
*

Tive, há poucos anos, a pachorra de escrever


um pequeño volume, procurando demonstrar que,
em portugués de lei, a cólera (doenga) é do gé­
nero feminino, embora na linguagem corrente e
no jornalismo haja muita gente que Ihe atribue
o género masculino, á francesa; e já depois re-
digi uns artiguelhos no tnesmo sentido, em res­
posta a um jornalista paulistano.1
Estáo pois conhecidos os pretextos para a mas-
culinidade e as razoes para a femininidade daquelai

i Veja-se o cap. XXII déste livro.

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264 Novas RcflexScs

palavra, e nao terei o mau gósto de reeditar ra­


ides e pretextos.
Nao resisto todavía a estranhar a maneira, um
tanto original, como o douto gramático Sr.Eduardo
Carlos Pereira encarou o problema.
Para ele nao há dúvida, — antes o confessa, —
que Alexandre Herculano, Garrett, o Sr. Dr. Ra­
miz Galváo, e outras autoridades literarias escien-
tíficas, dáo o género feminino á palavra cólera
(doenga); mas, ponderando que no Brasil geral-
mente dáo áquela palavra o género masculino,
entendeu, cértamente por mal empregado patrio­
tismo, por de lado a sciéncia e os homens de le­
tras, e aceitar urna corruptela, que lhe pareceu
mais ou menos vulgarizada entre os seus compa­
tricios.
O patriotismo é sempre louvabilíssimo, mas
o louvor tem de sofrer res tríades, quando, como
agora, se lhe sacrifica a sciéncia e a verdade.
Claro é que, como gramático, o Sr. Eduardo
Pereira entendeu que devia dizer porque pretere
o género feminino ao masculino, relativamente
áquela palavra; e por isso aduziu pretextos, já
por outrem aduzidos, e também respondidos, en­
tre os quais todavía há um, que parece novo: —
que, embora a cólera tivesse primitivamente o
género feminino, nao seria de estranhar que mu-
dasse de género, visto que de género mudaram
mui tas palavras portuguesas.
A diferenga está em que a mudanza de género

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Notas a lápis 265

em muitas palavras, generalizando-se sem exce­


ptes, foi reconhecida e aceita por aqueles a quern
devemos os documentos da lingua; ao passo que
a masculinidade da cólera, além de se nao tér vul­
garizado, em Portugal pelo menos, nao me consta
que tenha sido aceita por um único homem de le­
tras, digno déste nome.
Donde eu concluo que mais bem avisado an­
daría o ilustre professor, se, deixando a corru­
ptela aos que a quiserem perfilhar, nao insinuasse
no ánimo dos seus discípulos preceitos e notes
que a lingua portuguesa enjeita.
Para acumular pretextos, o autor chega a citar
o Moráis, como um dos dicionaristas que dáo á
cólera o género masculino.
Iludiu-se. Moráis nao deu género á cólera,
pela simples razáo de que esta aínda nao era co-
nhecida na Europa nem na América, quando éle
publicou o seu dicionário.
Mas o caso explica-se: o Sr. Eduardo Pereira
viu um Moráis qualquér, que nunca foi Moráis e
que nao tem cotaqáo em lexicografía portuguesa.
O verdadeiro Moráis ficou em 1813. O que depois
disso apareceu com o nome déle já nao é Moráis.
O legítimo nao subscreveria o dislate, que a
Gramática Histórica lhe atribue.
*

Oatros publicistas téem escorregado namesma


pasca de laranja, e por isso ibes tenho chamado a

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266 Novas Reflexoes

ateiiQáo para o deplorável equívoco, etn multas


passagens dos meus artigos e dos meus livros.
Sucede, porém, que nem todos léem tudo, e por
isso me será perdoado que eu toque de novo na
mesma tecla.
O Dr. António de Moráis e Silva, que nasceu
no Rio-de-Janeiro, e faleceu em Pernambuco em
1825, foi magistrado, teve a patente de Capitáo-
-mór e de Coronel de milicias, mas o seu nome
passou á posteridade com título mais nobilitante:
o de insigne dicionarista.
Em 1789, reformou, acrescentou e publicou o
dicionário de Bluteau.
Sobre esta publicado fez aínda tais reformas
e alterares, que, republicando-se a obra em 1813,
já nela nao aparece o nome de Bluteau, Iendo-se
no frontespicio:
— Dicionário da Lingua Portuguesa, recopilado
dos vocabulários impressos até agora, por António
de Moráis e Silva.
O autor nao fez outra ediqáo, mas esta bastón
para lhe dar a celebridade que ele aínda tem, e
para que a obra tivesse desde logo a mais extra­
ordinaria procura, a ponto que, aínda em vida
do autor, (1823), nova ediqáo se fazia em Lisboa,
dirigida por empresario anónimo mas ganancioso.
Em 1831, fazia-se a quarta edi^áo, dirigida por
um tal Oliveira Velho, que declara enriquece-la
com grande número de artigos e de sinónimos...
Em 1844, outro anónimo fazia a quinta ediqáo,

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Notas a lápis 267

declarando, textualmente, que a acrecentara com


muitos artigos novos e etimológicos...
Em 1858, fazia-se a sexta edito, que se diz
multo acrescentada por um Desembargador Fal-
cáo...
Em 1877, aparece a sétima edigao, com o ró­
tulo de melhorada e muito acrescentada. Nao diz
quern a melhorou e acrescentou, mas eu, que já
entáo vivía em Lisboa, sei que o encarregado de
a dirigir foi um mocinho de algum talento, que
escrevia num jornal, e cujas habilitates literarias
se resumiam num exame de instrugáo primaria.
Com a sua natural agudeza e audacia, relacio-
nou-se com os políticos e, muitos anos depois,
chegou a ocupar alto cargo na administrado pú­
blica. Nunca, porém, se dedicou a estudos da
lingua portuguesa, mérmente até á época em que
o incumbiram de melhorar e acrescentar a obra de
Moráis...
Depois disso... Nao sei mais nada. Sei que
outras edites se fizeram, naturalmente acrescen-
tadas ainda: mas, como me nao consta que as di-
rigisse algum homem de letras, tenho-me abstido
sistemáticamente de verificar os acrescentamentos
dos outros acrescentamentos.
Ora, é exactamente nesses acrescentamentos
anónimos ou suspeitos, que vários publicistas,
alias bem intencionados, váo ingenuamente bus­
car razóes para justificar o que nao se justi­
fica; e assim foi portanto que o esclarecido ay toy

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263 Novas Reflexdcs

da Gramática Histórica atribuía a Moráis a mas-


culinidade da doenqa cólera-morbo, que o dicio-
narista nao registou nem podia registar, porque
essa doenqa era aínda desconhecida na Europa e
na América.
Et mine vos erudimini..,

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Demmutivos anormais

Embora anormais, há tactos que contrariam


as regras geralmente establecidas em morfología
portuguesa, e a que os nossos gramáticos nao
tém dado a ateneo devida.
Centenas de palavras, de construyan análoga
a portáo, borrachdo, brejeirao, cavaldo, figurdo,
navalhao, rabecdo, regueirao, etc., etc., mostram
que o ditongo do tem ali valor aumentativo: grande
porta, grande brejero, grande cavalo, etc.
Mas a regra, neste caso, tem muitas excepydes.
Com efeito, conheyo nao poneos substantivos,
em que a desinencia do nao designa aumento ou
grandeza, mas exactamente o contrário. Ora veja­
mos.
Peixdo significa normalmente peixe grande;
mas em Aveiro e Cascáis significa besugo pequeño.
Leirao, que deveria significar leira grande, si -
gnifica realmente letra pequeña.
Calgdo, em vez de significar caiga grande, si­

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270 Novas ReflexÓes

gnifica o contrario: caiga pequeña, calca, que desee


só ate o joelho, ou pouco mais abaixo.
Telhao é realmente urna telha grande; mas na
regiáo de Bairrada designa apenas um pedaQo de
telha, um caco.
Na mesma regiáo dá-se o nome de pontao a
urna ponte pequeña.
Cordao, parecendo que deveria significar corda
multo grossa, significa o contrario: corda delgada.
Mas éste caso tem explicagáo convincente. O nosso
cordao velo directamente do francés cordon, e no
francés o sufixo on é deminutivo. Compare-se
oison, (patinho), e vejam-se as Apostilas de Viana,
vol. I, pág. 246.
Também agulhao é bússola pequeña, e por isso
o Sr. Óscar de Pratt o suppóe derivado do fran­
cés aiguilon. Veja-se o opúsculo Notas á Margem
do Novo Dicionário, valioso trabalho de um inves­
tigador laborioso, o Sr. Pratt.
E também carreirao, (carreiro estreito), e agui-
dáo, (pequeña aguida ou agude, no Algarve),
foram já notados, como deminutivos anormais,
no citado lugar das Apostilas.
Um feirao, no Minho, é urna feira pequeña.
Rodilhao é urna roda pequeña, em zorras e car­
ros de máo.
Escotilhdo é urna escotilha pequeña.
Quartao, em Turquel, é urna vasilha menor
que a quarta, e no Brasil designa um cavalo pe­
queño, próprio para carga.

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Deminutivos anormais 271

Se estes deminutivos sao anormais, porque


tém a fórma de aumentativos, aínda mais anor­
mais sao os verbos com formas deminutivas, no
gerundio pelo menos.
E é o que vemos em dormindinho, como expres-
sáo de meiguice: o Lula está dormindinho. Ouve-se
na Oaliza, e parece que é muito conhecido no
Brasil, em vista da autorizada informado de Pa­
checo da Silva, no seu Prontuário.
Semejantemente, Castilho, no Sonho de Urna
Noite, empregou Passeandíto.
— "Eu e ela andámos muito manas passeandíto
a par».
Tais sao os tactos, que é mistér descontar ñas
regras gerais, como excepgóes ou como anorma­
lidades legítimas.

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xxx

Frusto

Spectator, um amável anónimo, escreveu-me:


— "Disse v. que fruito é forma antiga de fruto,
usada por Cambes, quando fala da Inés de Castro.
Pois um vizinho meu, que tern fumabas de litera-
telho, diz-me, muito a serio, que v. cincou, por­
que Camoes, se escreveu fruito, foi para rimar
com muito. Que diz v.„?
Digo que o literatelho ¿ inconsciente e que a
ousadia déle lhe corre parelhas com a ignorancia.
Provávelmente. pertence ao número daqueles bí­
pedes, que ás vezes me vém bater á porta com
os calcanhares, a ver se ibes dou atenqáo, já que
ninguém Iba dá. Perdem o tempo.
Mas como Spectator me parece pessóa de boa
fé, conversemos.
Fruito e fruita sao fórmas correntes nos pri-
meiros sáculos da nossa lingua Bastará dizer-lhe
que o nosso inais antigo dicionário, — o de Jeró­
nimo Cardoso, 1569, — registou fruito e fruita e
nao tem fruto nem fruta. É que todos falavam e

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Falito 273

escreviam como o dicionarista. No Clérigo da


Beira.de. Oil Vicente, vé-se um "cabaz com fraita«.
Na Peregrinagao de Fernáo Mendes Pinto, ñas
Décadas de Joáo de Barros, etc., vemos fruito
a cada passo. O nosso Barros, na sua Gramática,
nao mencionou outra forma. O fruito do vicio
sao até palavras déle. No sáculo XVII, ainda
essa forma era mais ao menos corrente. Aquí
tenho eu, por exemplo, a Historia de S. Domingos
de Frei Luís de Sousa, em que todos podem lér
a seguinte frase: "Pede a razáo que se nao lou-
vem fruitos». E, na Estatística de Lisboa de 1552,
(manuscrito da Biblioteca Nacional), Ié-se:—"...
cereja e fruyta de Colares e Sintra.»
Já ve Spectator que a epéntese ou a liberdade
poética de fruito, por fruto, é desconchavo des­
marcado de genuino ignorantáo. Nem Barros, em
Mendes Pinto, nem Luís de Sousa, nem tantos
mais, escreviam em verso, quando escreviam fruito.
Era fórma corrente e legitima; e ainda boje no
Brasil, onde se conservam restos do nosso falar
an ti go, chamam fruita a urna espécie de bolo de
mandioca.
Portanto, Spectator amigo, quando o assaltem
petulantes daquele estofo, deixe-os em paz e ás
moscas, que mais nao merecem.

18

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XXXI

Ortografía ideal

Poucas coisas haverá, que tenham índole mais


prática do que a expressáo do pensamento por
meio da palavra falada e escrita.
E, contado, tém aparecido homens de evidente
cultura literaria, que, tratando de assuntos de
linguagem, se comprazem em fundar castelos na
arcía, arquitectando fórmas e elaborando concei-
tos, que pertencem exclusivamente ás regioes da
fantasia pura.
Está ueste caso um publicista espanhol, alias
muito erudito, o Sr. José T. Gómez, de Barcelona.
Brindou-me ele com a sua recente obra, Orto­
grafía Ideal, adquirindo jus aos mens agradeci-
mentos, e dando-me ensejo de lhe testemunhar
particularmente o meu desacórdo em pontos ca­
pitals.
Quanto ao público, só lhe darei conta da im-
pressáo que me deixaram as tres páginas, que o
autor consagra ao que ele chama castelhanizagao
do portugués.

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Ortografía ideal 275

O intuito essencial do Sr. Gómez é a reforma


ortográfica da lingua castelhana, que ele desejaria
muito mais simplificada do que é; e, nesse intuito,
faz o estudo comparado da fonografía de varias
línguas europeias, discorrendo sobre a dificuldade
da simplificado do francés, emitindo conceitos
sobre a grafía do italiano, do inglés, do cataláo,
do galego, do esperanto, e referindo-secom pouco
amor á última reforma ortográfica, adoptada ofi­
cialmente em Portugal, e á qual o meu ilustre
confrade barcelonés a trihue o defeito de nao sér
mais radical.
É natural a argüido, vindo de um homem
que organizou, para seu uso, urna ortografía ideal,
que o seu próprio país nao aceita nem aceitará
nunca.
Efectivamente, o Sr. Gómez propoe urtagrafia
em vez de ortografía, upinió em vez de opinión,
Zervantes em vez de Cervantes, ce em vez que,
cereta em vez de querela, etc.
Nao admira, portanto, que a reforma portu­
guesa lha pareja incompleta ou pouco radical.
Os reformadores evidentemente poderiam té-la
feito radicalíssima; mas nao há dúvida nenhuma
de que, em tal caso, a reforma portuguesa teria o
destino da Ortografía Ideal, isto é, nao passaria
de arquitectura fantástica.
Em pontos de escrita, nunca poderla haver
reforma vivedoira, desde que ela pusesse de banda
as origens e tradigóes da lingua.

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276 Novas Reflexoes

No entender do Sr. Gómez, urna reforma or­


tográfica deve basear-se especialmente na pronun­
ciagao.
Mas, em Portugal sobretudo, urna reforma
ortográfica, bascada especialmente na pronuncia­
do, redundaría num disparate enorme: o Minho
nao pronuncia como o Algarve; Lisboa nao pro­
nuncia como Trás-os-Montes; Portugal nao pro­
nuncia como o Brasil; e urna reforma sensata terá
sempre de deixar lugar para todas as legítimas
modalidades fonéticas.
Conseguintemente, a reforma portuguesa, to­
mando em conta a linguagem geral e as origens
e tradigoes da lingua, simplificou o que era simpli-
ficável, e sobreviverá longamente a todas as orto­
grafías ideáis, embora norteadas pelas mais nobres
intenses.
As boas intengoes nao livram do inferno...

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XXX1Í

Pi lei do menor esfór^o

É muito conhecida em lingüística a chamada


lei do menór esfórgo, e por ela se explicam va­
riados fenómenos da nossa linguagem e da de
outros povos.
Tomou-a para tema de urna interessante mo­
nografía o Sr. Julio Nogueira, professor suple-
mentar no afamado Colégio Pedro 11, e é justiga
reconhecer que o autor se abeirou plausivamente
de graves problemas, e se praparou para o seu
trabalho com a leitura e o estudo de autorizados
mestres na sciéncia da linguagem.
Ou se ja a analogía, ou seja o contágio, ou seja
a generalizagño e a especializagao, o que, segundo
éste ou aquele glotólogo, explica determinados
fenómenos de linguagem, parece certo que o me­
nór esfórgo abrange realmente os diversos criterios,
levando o professor fluminense a conclusóes, que
difícilmente se contestaráo.
Isto, quanto á esséncia da obra.

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278 Novas ReflexSes

Quanto porém a observares de ordem secun*


daría, nao posso, mau grado men, concordar sem-
pre com o autor.
O Sr. Nogueira, por exemplo, escreve o se­
guí n te (pág. 18):
— "A palavra artilheria designava an liga-
mente. ..»
Mas, antigamente, artilheria só podía ser fórma
esporádica, ou lapso do escritor ou do copista. E
o mais grave é que o autor atribue ao próprio
Cambes aqueta palavra. (Lusíadas, canto VII, es­
tancia 12).
O que todos vemos naqucle passo da ediqáo
auténtica dos Lusíadas e nos outros mestres anti-
gos é artilharia, (com a, e nao com e), deparan-
do-se-nos aínda artelharia, e ravíssimamente arti­
lheria, (com e), que é devogáo moderna dos que
conhecem mais o francés que o portugués.
Na pág. 67, repete-se a fórma artilheria, e
também se diz infantería, fórma que igualmente
nunca foi portuguesa. Em compensado, vemos
ali cavalaria, que é fórma exacta, e que o autor
respeitou, como naturalmente respaila sapataria,
drogaría...
Provávelmente, o autor, mercé talvez dos seus
felizes e verdes anos, nao está por ora disposto a
tersar armas pela vernaculidade do nosso idioma,
como nós os velhos, que já tivémos tempo de
manusear com amor os mais respetados docu­
mentos da lingua, esquivando-nos naturalmente a

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A lei do menór esfórqo 279

subscrever enxertias inúteis e corruptelas despro­


positadas.
Assim é que, em caso nenhum, eu aceitaría
•nuance, (págs. 26 e 37), evoluir, (pág. 40); como
nao subscreveria os estrangeirismos excepQdo fei-
ta, (pág. 8), por completo, (pág. 26), chauffeur,
(pág. 20), champagne (ibidem), etc.
Nao significa isto que eu nao chame um chauf­
feur, ou que eu desadore o champagne; mas nunca
incluiría tais formas numa lista de palavras portu­
guesas,porque o nao sao, nem o podem sér.O chauf­
feur há de tér equivalente portugués, que poderá ser
o motorista, o condutor, ou qualquér outra coisa;
e o champagne já foi aportuguesado em champa-
nha e champanhe por Filinto, Castilho, etc.
Nao sei se me estou demasiando em minucias
de escasso interesse; mas, além de assim provar
que li atentamente a monografía do Sr. Julio No-
gueira, creio que em assuntos de linguagem nao
há minucias despiciendas, quando se procure res-
ta'oelecer ou tornar evidente o que exigem os in-
teresses e a historia da lingua.
Nao posso por isso ocultar a estranheza, com
que lelo a seguinte frase do Sr. Nogueira, de um
professor de portugués:
— "A linguagem nao creía a ideia».
Mas creía é o subjuntivo do verbo crér. O verbo
crear, ou antes criar, nunca em portugués teve no
indicativo presente outra conjugado, que nao
fósse eu crio, tu crias, ele cria...

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280 Novas RcflexSes

Os escritores brasileiros de justo renome de-


vem, pelo menos, encolher os ombros, guando
virem que, entre os seus compatricios, surgiu a
extravagancia de se escrever eu creio em vez de eu
crio, por se ver que no latim há creare. Mas a eti­
mología nao suplanta a fonética, ou a pronúncia
e a escrita de todos os tempos. E que seria de
nos, se assim nao fósse? Imagine-se: como
no latim há o verbo rumpere, nós, em por­
tugués, nao pederíamos conjugar eu rompo, tu
rompes, ele rompe, mas, sim, eu rumpo, tu rum-
pes, ele rumpe..., do que o senso comum nos
livrará.
Ao mesmo tempo, o Sr. Nogueira e os que in­
ventaran: a pronúncia e a escrita creía em vez de
cria, em norae da etimología, num caso em que
ela nao está de acórdo com a fonética, rejeitam a
grafía exacta péssego e agúcar, perfeitamente acorde
com a etimología, e defendem as fórmas, modér-
namente vulgarizadas, assúcar e pécego, fácilmente
explicáveis e irremissivelmente condenadas. (Pá­
gina 21).
Quena sofre é a coeréncia, e nao menos a scién-
cia da linguagem.
Nao vale a pena insistir neutros deslizes grá­
ficos, como veiu, em vez de velo, fusil, (com s),
etc.; mas nao farei ponto sem confessar que estou
muitas vézes de pleno acórdo com o Sr. Julio
Nogueira, até quando éle, adversário da simplifi­
cado ortográfica, sustenta, (pág. 57), que ela se

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A leí do menor esfónjo 281

nao deve fazer de forma imperativa, a golpes de


administrado...
Exactamente. Pelo menos, isso nunca se deu
em Portugal. Nenhum Qovérno, por isso que nao
tem competencia técnica nem moral para decretar
ortografías a urna nado, perpetraría decretos de
tal natuerza. No meu pequeño país fez-se outra
coisa e dos mais prontos resultados. A Imprensa
Nacional solicitor! providencias contra o gravís-
simo embarago, em que se via, para adoptar urna
nórma, sem reclamagóes, entre as variadas grafías
dos Deputados, dos Senadores, das Repartí goes
publicas, etc. Para se unificar a ortografía portu­
guesa, o Conselho Superior de Instrugáo Pública
propós a organizáo de urna Comissáo, formada
entre os especialistas portugueses, que mais pro­
babilidades Ihe ofereciam de competencia. A Co­
missáo, que de ninguém recebeu, nem podía re-
ceber, instrucgdes sobre o sistema que deveria
proper, estudou afincadamente o assunto, e pro­
pos o sistema que mais harmónico lhe parecen
com as tradigóes da lingua, com a Glotología e
com os mais altos interesses do nosso idioma.
O Govérno, que alias aceitaría qualquér outro
sistema, proposto pela Comissáo, aceitou aquele,
como era natural; e, no pleno direito de quem
manda em sua casa, resolveu que o sistema pro­
posto fósse adoptado na Imprensa Nacional, ñas
escolas e nos demais estabelecimentos oficiáis.
Pora disso, adoptou o sistema quem quis ado-

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282 Novas Reflexdes

ptá-lo. Adoptou-o a Academia das Sciencias de


Lisboa, adoptaram-no os jomáis lisboetas de maiór
circulaqáo e numerosos jomáis provincianos; ado­
ptou-o a maioria dos escritores que tém a cons­
ciencia do que fazem; e pódé dizer-se que, em
regra, e por um fenómeno de daltonismo explicá-
vel, só hesita em o aceitar um ou outro publi­
cista político, que atribue á República urna refor­
ma que existia há dezenas de anos no espirito e
na prática da maioria dos reformadores, entre os
quais a política nao tinha prosélitos conhecidos.
Donde se vé que a moderada simplificaqáo grá­
fica, actualmente em vigor no meu país, nao foi
feita de forma imperativa, a golpes deadministrafao.
Estamos pois de acórdo, e aínda bem.

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XXXIII

Novíssimos Estudos

Haverá déz anes, o Sr. Mario Barreto, inde-


fesso professor fluminense, publicou a primeira
serie dos sens Estudos da Lingua Portuguesa, que
Iogrou merecida aceitado, da parte do público e
dos entendidos na materia.
Tempos depois, publicou um volume de No­
vas Estudos; e éste ano deu á estampa terceiro
volume, que inscreveu Novíssimos Estudos da Lin­
gua Portuguesa.
Creio bem que esta publicado nao póde tér
passado despercebida entre os compatricios do
autor, e nao serei eu, de certo, quem ibes anun­
ciará o que já devem conhecer. Mas eu, que, com
o mais natural interesse, tenho acompanhado os
trabalhos progressivamente recomendáveis do in­
teligente professor, e a quem me liga a comunháo
de ideias em nmitos casos, nao ficaria bem comigo
mestno, se nao registasse publicamente a grata
impressao que me deixou a leitura dos Novíssi­
mos Estudos.

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284 Novas Rcflexoes

Sao etn grande número, variados e pondero­


sos, os assuntos que se nos deparam do decurso
desta obra, e pena é que ela nao venha acompa-
nhada do índice das materias, para maiór facilidade
de consulta e para exposiqáo sumaria do alcance
e do interesse da obra.
Sao raros os pontos, em que nao posso, a pe­
sar meu, concordar com o autor, embora no campo
da linguagem sejam naturaes as divergencias en­
tre os que mais a estudam.
Assim é que, tendo eu notado o deslize de
Camilo, que mais de urna vez escreveu camapé,
em vez de canapé, o Sr. Mário Barreto opina que
Camilo nao errou, porque camapé é invenqáo po­
pular, por influencia de cama e de pé.
Estaría multo bem, se a forma errónea camapé
se tivesse vulgarizado, como por exemplo abespi-
nhar, em vez de úvespinhar, (de vespa). Mas abes,
pinhar-se vulgarizou-se na linguagem talada e
escrita, foi recebida por todos os escritores mo­
delares, entrou nos registos lexicográficos, e nin-
guém lhe opoe reparo. O camapé, pelo contrario,
nao se vulgarizou, pois que, pelo menos em Por­
tugal, quase toda a gente escreve e pronuncia bem
a palavra canapé. Aiém de Camilo, será difícil
citar-se escritor de nome, que perpetrasse o ca­
mapé, e nenhum dicionarista teve aínda a ousadia
de registar o destempéro.
O que nao significa que o meu Camilo nao
seja Mestre, quando nao coxeia, como aos melhó-

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Novísshnos Estados 285

res mestres sucede mais de urna vez; nem signi­


fica que eu tenha menor veneraqáo por Camilo,
do que a que lhe tributa o Sr. Mario Barreto. A
diferencia está, creio eu, em que, para inim, nao
há autorioridades incondicionais.
*

* *

Na página 34 e seguintes, afirma o autor que,


principalmente em dois casos, pode o sentido de
urna palavra mudar-lhe o género:
1. ° — Um nome feminino passa para masculi­
no, quando é atribuido a um homem: a cometa,
e o corneta.
Nao há dúvida.
2. ° —Certas combinares, em que se emprega
urna palavra, podem mndar-lhe o género. Assim,
coisa é termo feminino; mas alguma coisa deve
considerar-se pronome indefinido e é equivalente
a algo, pasando alguma coisa a sér do género
masculino, quando acompanhado de adjectivo, e
podendo dizer-se: "Há sempre alguma coisa di­
vino ñas evolugoes...»
Aqui, já tenho dúvidas, e tanto mais que o
autor, em nota, refere que alguma coisa pode sér
locugáo adverbial, como quando dizemos: "co-
nhego alguma coisa o mundo».
Cértamente, temos ali urna locugáo adverbial;
mas as locugóes adverbiais, como os simples
adverbios, nunca tiveram género nem o podem

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286 Novas Reflexdes

ter; e portanto o exemplo da locuqáo adverbial


nao tem nada com o género de alguma coisa.
Aínda que coisa, designando chulamente um
homem, como no tal l.° caso, (a corneta e o cor­
neta), pudesse entrar na frase — vetn cá, meu coi­
sa,— claro é que o correspondente adjectivo seria
também masculino. Portanto, se alguma coisa pu­
desse perder o seu género etimológico, havia de
perdé-lo em ambos os termos da expressáo, e de­
veríamos dizer alguni coisa, o que o Sr. Barreto
cértamente nao aceita.
Ora, se alguma coisa é a fórma completa e
perfeita, ese o pronome alguma há de sér eterna­
mente feminino, em caso nenhum póde constituir
urna locuqáo masculina a expressáo alguma coisa>
Mas eu entrevejo o motivo, por que o abali­
zado professor se deixou arrastar, aceitando al­
guma coisa, como expressáo masculina.
É que um respeitável médico, que foi também
um esmerado cultor das boas letras, o Dr. Fran­
cisco de Castro, disse num seu discurso:
— "Mas há sempre alguma coisa divino ñas
evoluQóes désse meteóro fantástico».
Ora, o Dr. Francisco de Castro náo disse
aquilo; se o disse, detxou perder urna sílaba, ou
os tipógrafos lha devoraram.
O que éle devia ter dito, ou o que éle disse
talvez, foi o seguinte:
— “Mas há sempre alguma coisa de divino, etc."
E, assim, está bem.

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Novíssimos Estudos 287

De outra maneira, nao vejo ponía, por onde


se lhe pegue. Mas continuemos.

Como eu dizia, sao raros os pontos, em que,


a pesar meu, nao posso estar de acórdo com o
autor dos Novíssimos Estudos. Pelo contrario,
comprazo-me em verificar que, no decurso da
obra, a verdadeira doutrina, ou antes a que eu
reputo verdadeira, ressalta geralmente daquelas
páginas, nao revelando apenas um estudioso, se-
náo também um julgador prudente e seguro.
Em confirmagáo deste meu asserto, poderiam
aduzir-se dezenas de casos, que teriam a desvan-
tagem de estirar desmedidamente esta simples
noticia, e poderiam parecer nova ediqáo do livro,
prejudicando a procura da primeira.
Ao menos duas passagens, a que nao posso
negar o meu aplauso.
Há ingenuos, que, tendo ouvido algures que
duas negativas afirmam, supóem incorrectas as
fórmas — nao vi nada, nao contieno ninguem.
O Sr. Barreto regista e condena a tolice dessa
suposigáo; e acertadamente nota que, sobretudo
entre os antigos, era vulgar o emprégo da nega-
Qáo expletiva ou redundante. Como ele cita al-
guns exemplos, aplicáveis ao caso, permitir-me-á
que eu lhe cite mais alguns, para juntar ao seu

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288 Novas Reflexdes

registo, se isso lhe aprouvér. Temos em Gil


Vicente:
«Saibarn quantos sao nacidos
sentenqa que nao varia:
contra a morte e contra o amor
que ninguem n3o tem valia».

E Castilho, que nao é antigo, deixou estes dois


exemplos ñas Escavagoes Poéticas:

«Que nada ver nSo quería».


«Nem o céu nao lhe acudía».

Na Menina e Moga, de Bernardina Ribeiro,


lé-se isto:

«Mas nenhuni mal nao me é crido».

Ñas Tribulagoes de Israel, do judau clássico


Samuel Usque, a fólhas 27, lé-se:

«. .. os quais já mais nao tornaram».

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na sua Eufro-


sina, pág. 146, escreveu:

«E ninguem nao diga desta agua náo beberey».

A outra passagem, em que só tenho que aplau­


dir o esclarecido professor fluminense, é aquela,
em que éle combate o tolo parecer de um profes-

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Novíssimos Estudos 289

sor mediocre, que decretou ser incorrecta a frase


— prometeu de me dar.
Nao é gloria combater e derrotar antagonistas
daquele estofo; mas, ao menos, teve o Sr. Barreto
o ensejo de afirmar e provar que é portuguesís-
sima a frase — prometen de me dar, e outras simi­
lares.
Aos muitos e oportunos exemplos, que o
Sr. Barreto aduz, em abono da sua tese, podiam
aínda acrescentar-se estes:
— "Determinou de mandar lá». (Ooes, Crón.
de D. Manuel, II, 43).
— "Desejava de casar com ele...» ílbidem, 24).
— "Desejou de fazer guerra». (Rui de Pina,
Crón. de D. Dinis, II).
— "Mereceu de ser Iouvado». (Ibidem).
— “Determinou de o render». (Vieira, Ser-
moes, Vi, 360).
— "Resolve de arrancar...». (Ibidem, 108).
— «As causas deviam de sér diversas». (Ibi­
dem, 200).
— "Eu proponho de guardar a lei». (M. Ber-
nardes, Luz e Calor, 458).
— «Ordenou de mandar...» (Fernáo Lopes,
Crón. de D. Jodo I).
— «Cumpre aqui de o notar...» (Ibidem).

E basta. Por isto, e por muito mais, se veri­


fica que o Sr. Mario Barreto é meritorio paladino
de boas doutrinas em materia de linguagem, o
19

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290 Novas Reflexoes

que nao é novidade, mas sempre motivo de efusi­


vas congratulares.
Acresce que o autor dos Novíssimos Estudos,
como outros escritores da sua terra, é escrupuloso
observador da ortografía oficial portuguesa, o que,
realzando o seu assisado criterio, faz muita honra
aos propugnadores da simplificado ortográfica.
Mas isto é o menos. O mais é tudo.

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miv

Judcus

Aínda nao vi desenvolvido expresamente éste


curioso tema: influencia dos Judeus na literatura
portuguesa.
E, contado, o assunto prestar-se-ia a largas
considérameles, tanto mais desassombradas e inte-
ressantes, quanto é certo que os preconceitos de
seita já nao tolhem, em geral, a pena do escritor,
nem o anti-semitismo inquisitorial tem sequér eco
ñas sociedades modernas.
A tal respeito o progresso nao é palavra van
e, ao lermos agora os Judeus, drama histórico do
Sr. Visconde de Sanches de Frias, mais se nos
ilumina a distancia moral e espiritual, que na his-
tória separa do sáculo XVI o sáculo XX.
Talvez o meu Ieitor nao conheqa aquele drama,
obra elaborada no Brasil, há bastantes anos, mas
só agora publicada, com lustre para o autor e pro-
veito para as nossas letras.
O Sr. Visconde de Sanches de Frias, ao juntar
um drama histórico e versificado á lista das suas

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292 Novas Reflexdes

numerosas e aplaudidas publicares, pos em re­


levo o odio e a perseguido, de que eram alvo os
Judeus, em tempo de D. Joáo III.
Ora, essa perseguido, antes e depois de
D. Joáo III, abrangia naturalmente, e talvez de
preferencia, os Judeus que cultivavam as letras e
as sciéncias; alias, o célebre filósofo Spinosa nao
seria, para nos, um estrangeiro; o talentoso autor
das Guerras do Alecrim e da Mangerona, o dra­
maturgo Dr. Antonio José da Silva, o Judeu, nao
teria morrido ñas fogueiras da Inquisido ; o clás-
sico portugués Samuel Usque nao iria lamentar
na Italia as Tribuía(oes de Israel...
Suponho haver muita gente, para quem o
nome de Samuel Usque é pouco menos que des-
conhecido.
E contudo a sua obra, Consolando ás Tribuía­
les de Israel, é um dos mais preciosos documen­
tos da nossa literatura quinhentista.
Publicada em Ferrara, em 1553, e republicada
em Amsterdáo, tornou-se raríssima, naturalmente
porque a Inquisido se encarnigou em suprimir a
obra do Judeu; e, aínda há meia dúzia de anos,
seria dificílimo, quase impossível, descobrir e fo-
lhear a obra.
Felizmente, grasas aos esforqos do catedrático
Dr. Alendes dos Remédios, a Livraria Franca
Amado, de Coimbra, reeditou, com toda a fideli-
dade, a Consolando, impressa em Ferrara; e boje
podemos conhecer e admirar aquela jóia literaria,

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Judeus 293

repassada de sentimento e mimo, ás vezes dolo­


rida e solene, como urna lamentado de Jeremías.
Há com efeito muitos pontos de contacto, entre
os expatriados profetas hebreus, que carpiam sau­
dades super flumen Babylonis, e o desgranado Sa­
muel Usque.
Mas o que especialmente nos deve interessar
é o alto valor, que a obra de Usque representa,
para a historia da lingua portuguesa, ou para a
evolugáo do nosso idioma. Devo até reconhecer
que, entre os clássicos, que mais elementos me
ministraran: para o registe da evoluqáo morfoló­
gica da lingua, em o Novo Dicionário, Samuel
Usque ocupa um dos primeiros lugares, nao obs­
tante a pequenez da sua obra.
De como se prova que aos Judeus alguma coisa,
ou muito, deve a lingua portuguesa; e como, ao
reler a Consolagao ás Tribuía (des de Israel, pode­
mos simultáneamente amar a beleza e a riqueza
da nossa lingua, e saber que a amou um Judeu
ilustre, mártir da liberdade e vi tima da intole­
rancia de nefastos tempos idos.

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XXXV

ñfixos

O Sr. Dv. Carlos Coes, poeta, publicista e


professor do Ginásio Mineiro, publicou recente-
mente no Rio-de-Janeiro, (Briguiet & C.a, edito­
res), um Dicionário de Afixos, Desinencias e o li­
tros elementos de composiQdo.
Claro é que o assunto desta obra é mais ou
menos versado na generalidade das Gramáticas e
neutros livrinhos escolares; mas é versado por
incidente, e de maneira táo perfuntória, que os
respectivos autores nao previnem a maioria das
hipóteses, nem se podem alargar na exposigáo
doutrinária.
Representa, pois, incontestável servido aos es-
tudos da lingua o Dicionário do Sr. Carlos Coes,
embora, como todas as obras humanas, seja sus-
ceptível de melhoramentos. O autor, por exemplo,
nao advertiu que, mórmente em trabalhos lexico­
gráficos, é de primeira necessidade a acentuado
gráfica. Assim é que nem todos os estudiosos, ao
verem registado o sufixo icula, saberáo se devem

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Afixos 295

lér icúla, (acentuado na 2.a sílaba), ou icula,


(acentuaqáo na 1.a). Por outro lado, o autor abusa
um pouco da acentuado, empregando-a onde ela
nao é precisa nem conveniente, como quando
acentúa proféssa, compóstos, etc., ao passo que
geralmente nao acentúa os esdrújulos, em que a
acentuado é convenientíssima.
E, já que estou em maré de inofensivos repa­
ros, o Sr. Carlos Ooes, em seu próprio interesse,
ou antes no interesse de futuras ediqóes da sua
obra, permitir-me-á cortamente que eu registe
ainda mais algumas ligeiras anotares minhas,
que ele tomará na conta que Ihe merecerem.
Ñas duas páginas do pequeño preámbulo da
obra, impressionou-me urna erudicfdo (com dois
cc), e urna Kampenomia, com k, letra que nao
existe em vocábulo nenhum portugués.
Se tivesse de reproduzir o kappa grego em
todas as palavras que, procedentes do grego,
acusam a tal letra na etimología, teríamos fatal­
mente de escrever kinema em vez de cinema, kali-
grafía em vez de caligrafía, kaparídeas em vez
de caparídeas, karakter em vez de carácter, kelen-
terado em vez de celenterado, kronista em vez de
cronista, etc.
A única palavra, em que ainda se tolera o
kappa, é kilo (e seus derivados), apenas porque
representa urna convengáo internacional, embora
errónea, pois nao corresponde á etimología do
vocábulo.

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296 Novas Reflexdes

Á parte o kilo, nao sao portanto represen­


tados convenientemente todos os prefixes agru­
pados sob a letra k do Dicionário.
*

* *

Mais uns ligeiros reparos ao Dicionário do


Sr. Carlos Goes.
Na parte preliminar, há um evoluir, que os
escritores escrupulosos nunca empregaráo; e há
doutrina inaceitável sobre infixes. Com efeito,
diz-nos o autor que há infixes por atracQáo foné­
tica, como inflingir, por infligir; e há infixes
para evitar colisáo, como em juras-lo, por juras-o.
Ora, a verdade é que nunca houve inflingir;
e os gazeteiros, que perpetram esta tolice, soíre-
ram a influencia de infringir, e ignoram que te­
mos infligir.
Quanto a juras-lo, é outra fantasia, pois nunca
tal se escreveu ou se disse em portugués. A cam-
penomia e a simples prática da lingua ensinam
que, sem excepqáo possível, as flexóes verbais,
terminadas em r, s ou z, perdem estas conloan­
tes, quando se segue o pronome lo, la, los, las.
E, assim, temos louvá-lo, e nao louvar-lo; encon-
trámo-lo, e nao encontrámos-lo; fé-lo, e nao fez-lo ;
tu louva-lo, e nao tu louvas-lo; tu jura-lo, e nao
tu juras-lo, e muito menos tu juras-o.
Em palavras, compostas de verbo e pronome,
nunca o pronome o se pospós ao verbo, se a fie-

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Afixos 297

xao verbal termina em r, s, z, ou em sílaba nasal.


Néste último caso, mantém-se intacta a flexáo ver­
bal, e o pronome passa para no, nos, na, ñas:
enganaram-no, iludiram-na...
Eu creio bem que o Sr. Carlos Goes nao ignora
estas simplíssimas coisas; mas até as inadverten­
cias e precipitares de um sabio podem levar os
ineptos e os praguentos a apodá-lo de ignorante;
e o seguro morreu de velho.
Na pág. 7, ensina o autor que a palavra cognac
foi derivada do nome próprio da cidade francesa
Cognac. Mas o autor ocupa-se de palavras por­
tuguesas, e cognac nao é, e nunca será, forma
portuguesa, porque nunca houve, nao há, nem
póde haver palavras portuguesas, terminadas em c.
No caso sujeito, ou havemos de escrever cognac,
sublinhando ou gritando o termo, para mostrar-
mos que nao é nosso; ou temos de o aportugue-
sar, e, ueste caso, escreveremos conhaque.
É caso análogo ao exemplo, que o autor nos
dá, de onomatopeia: tic-tac.
Nao póde ser: a forma portuguesa é tique-
-taque.
Percorrendo algumas páginas ao acaso, vejo,
(pág. 19), que o autor considera korño aférese de
a Icorao.
Korño! Se caiu a primeira sílaba por aférese,
(a razao é outra, porque corno é palavra completa,
t al é o artigo arábico), mas, se caiu a primeira
sílaba, claro é que ficou corño e jámais korño.

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998 Novas ReflexSes

Nao se compreende fácilmente esta simpatía


pelo inutilíssimo kappa, sobretudo em palavras
que, como korao, nao vieram do grego, e o kappa
é privativo da Grecia.
Nao me alongare! em minucias des te jaez, por­
que nao estou tazando a crítica da obra, nem de-
sejo que os mens reparos a coisas mínimas pre-
judiquem, no ánimo dos ingenuos, o conceito que
a obra merece. Bastará convencermo-nos de que a
obra do Sr. Carlos Goes merece estudo e apreqo,
e convencer-se o próprio autor de que, em edi-
qóes subsequentes, deveráo ser mondados uns ou
outros senóes ou deslizes, para que a obra mais
direito tenha aínda ás felicitares, com que já
boje a devemos recebar.

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XXXVI

Cintra

Já por varias vezes, noutrOs lugares, tenho


notado que Cintra é grafía moderna e usual, per­
petrada por nós todos; mas, por descargo de
consciéncia e dever do oficio, tenho também no­
tado e provado que a forma exacta é Sintra, já
hoje forma oficial.
Naturalmente, a rotina há de recalcitrar; e
por isso o esclarecido académico, meu velho con-
frade e paciente investigador de arquivos, Gomes
de Brito, teve a pachorra e a amabilidade de me
brindar com um punhado de documentos, com-
provativos de que a forma Sintra era corrente
entre os nossos escritores clássicos, e até entre
os que nao eram clássicos.
A comprovagáo nao seria precisa para nin-
guém que conheqa suficientemente os documentos
da lingua e os processes e conclusóes da sciéncia
da linguagem; mas talvez que ela insinué urna
ré'tia de luz em cránios impermeáveis, e é sempre

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300 Novas Reflexdes

meritorio fazer luz em cerebros ennoitados, aínda


que éles o nao merecam.
Segue a comprovacao histórica da fórma Sin­
tra, segundo as notas de Gomes de Brito:
—“Como o Iffante mandou Gonzalo de Sintra
a Guiñee...» (Azurara, Crónica da Quiné,
cap. XXVII).
— “Como Gonzalo de Sintra com outros foi
morto na Angra...» (Joáo de Barros, Década I,
liv. I, cap. IX).
— "Elrey estava em Syntra...» (Gaspar Cor­
reia, Leudas da india, tomo I, parte I, 138).
— “... onde tem viraqáo de melhores ares
que os pacos de Sintra". {Idem, ibidem, tomo I,
parte II, 908).
— "E eu espero nelle que fazendo vós assy,
yenhais encher estes picos da serra de Sintra, de
ermidas». (Carta de D. Joáo de Castro a El-Rei,
ñas Leudas da india, tomo IV, parte II, 657).
—... cereja e fruyta de Colares e Sintra». (Es-
tatística de Lisboa de 1552), manuscrito da Biblio­
teca Nacional).
— «Jaz o rio do Ouro & angra de Gongalo de
Sintra...» (Duarte Pacheco, Esmeraldo).
E centenares de textos análogos se deparariam
ao indefesso investigador, se ele tivesse tempo e
valesse a pena procurá-los expresamente. Pelo
menos, e por agora, além dos colhidos por Go­
mes de Brito e dos que eu tenho citado em mais
de urna conjuntura, também mencionarei que Da-

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Cintra 301

miáo de Goes, o grande clássico da Crónica de


D. Manuel, diz e repete Sintra, e nunca Cintra.
(Veja-se a obra citada, vol. II, pág. 23, etc., úl­
tima edigáo),
Mas a questáo nao está resolvida simplesmente
pela morfología histórica da lingua: está resol-
vida pela fonética. Como se sabe, — isto é, sa-
bem-no os que nao sao alheios á regedoria da
linguagem,—como se sabe, a pronuncia de hoje
nao é exactamente a pronuncia dos sáculos XIV,
XV e XVI, sobretudo quanto ao valor do s ini­
cial, do s intervocálico, do grupo ch, etc. O s ini­
cial tinha o valor, que aínda hoje tem na Beira e
na Espanha, e que se nao confunde com o do c
antes de e e i; isto é, se os quinhentistas e os
seiscentistas pronunciassem como nos a sílaba sin,
nao escreveriam Sintra, mas Cintra. Escrevendo,
como escreviam, Sintra, vé-se que davam ao s
inicial o valor do s inicial beiráo e castelhano,
de acórdo com o latim medieval Sintra e Sin-
iria, que se nao lia como lemos. Os escritores
modernos, por demasiada transigencia com mans
hábitos, poderáo tér traduzido venialmente Sin­
tra por Cintra; mas um clássico, que fizesse tal
tradugáo, numa época, em que a fonética lhe nao
poderia deixar dúvidas, lavraria deplorável do­
cumento de mau senso e incompetencia literária.
Tapemos porém o agude, que mais água nao
pede a várzea. Tornar a abrir a comporta só seria
perdoável, se um filólogo ou gramático de algum

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302 Novas Reflexoes

crédito, ou se um publicista de comprovada pre­


parado para a crítica histórica da lingua, pudesse
tér a veleidade de discutir o indiscutível. Mas ne-
nhum a tem, posso jurá-lo; e portanto... escreva
Cintra quem quisér escrever Cintra, e assim tem
escrito muito bóa gente, já porque náo pensou
dois minutos no caso, já porque náo nasceu para
emendar o mundo. Está porém assente que entre
os antigos mestres e leigos, sobretudo até o sé-
culo XVII pelo menos, era vulgar e corrente a
forma Sintra, e que a forma latina medieval náo
podia tér tradugáo diferente, como ninguém po­
derla traduzir o latim sentiré, sérius, séptimas,
signum, etc., por centir, cério, cétimo, cigno...
Salvo se o juízo do tradutor estivesse varrido
de todo.
Em tal caso, manicomio.

F IM

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íhdice;

I — Anormalidades prosódicas ...... 9


II — Pequeñas Liqóes............................................ 25
III — Intemerato...................................................... 68
IV — Transí ormaqdes vocabulares...................... 71
V — Afórese...................................................... 79
VI — Derivacao regressiva................................ 82
VII — Rebentos de velho tronco........................... 85
VIII — Haplologia...................................................... 99
IX — Tecnología scientífica.......................................104
X—Prosódia . . 107
XI — Desinquieto, etc................................................... 112
XII — Gerundios e Participios........................... 115
XIII — Sinónimos.............................................................125
XIV — Tilinto Elisio...................... .... 138
XV — Singularidade de alguns números singulares 144
XVI — Camdes.............................................................149
XVII — Panteao.............................................................162
XVIII — A voz dos animáis............................................. 165
XIX—Garrett............................................................ 170
XX — Aves brasileiras..................................................173
XXI — Adjectivos-advérbios....................................... 177
XXII — A cólera-morbo..................................................181
XXIII — Julio Moreira.......................................................191
XXIV-O Q................................................................. 203

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304 Indice

XXV — Outro Gramático............................................209


XXVI — A riqueza do nosso idioma............................238
XXVII — San dade............................................................. 242
XXVIII — Notas a lápis; (á margem de urna Gramá­
tica Histórica)............................................ 246
XXIX — Deminutivos anormais.......................................¿69
XXX —Fruito............................................................ 272
XXXI — Ortografía ideal..................................... 274
XXXII — A lei do menor esfórpo................................. 277
XXXIII — Novíssimos Estados...................................... 283
XXXIV —Jadeas............................................................291
XXXV - Afixos........................................................... 294
XXXVI - Cintra............................................................ 299

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