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AS ORDENAÇÕES AFONSINAS E OS JUDEUS EM PORTUGAL.

Rosana de Melo Louro


a
Prof. Dra. Fátima Regina Fernandes

Palavras-Chave: Judeus, Ordenações Afonsinas, Políticas Régias.

O trabalho aqui proposto visou analisar as leis contidas nas Ordenações Afonsinas
concernentes aos judeus, que poderiam ser utilizadas como parte integrante das políticas de
afirmação régia, que foram uma constante no século XV.
Assim, pretendeu-se compreender como se configurava a situação dos judeus no
reino português, a partir das disposições contidas nas Ordenações Afonsinas, posto que
contivesse leis de regulamentação específica ao povo mosaico e que abrangia vários
aspectos de seu convívio social, político e econômico.
A problemática que foi empregue nesta pesquisa teve como fulcro as políticas de
afirmação régia e como estas se valiam das leis criadas e/ou ratificadas na compilação,
para auxiliar neste intuito de centralização do poder.
Como o tema da pesquisa restringiu-se aos judeus em Portugal, tendo como objeto
específico estes segundo as Ordenações Afonsinas, buscou-se analisar a fonte, neste caso
diretamente as Ordenações Afonsinas, com o olhar direcionado à problemática
anteriormente indicada.
Assim, a metodologia aplicada visou dividir o trabalho em três momentos, a saber,
um que propiciasse a contextualização do período em questão, outro que afunilasse o foco
em direção aos judeus e, por fim, aquele que estabeleceria a ligação entre a reunião de todo
este conhecimento à análise da fonte.
Portanto, o trabalho foi divido em três capítulos, sendo que o primeiro deles versou
sobre o processo de organização das Ordenações Afonsinas e do desenvolvimento das
cidades medievais, cabendo ao segundo capítulo o trato mais estreito da pesquisa relativa
ao povo hebreu, estudando sobre sua configuração regimental na vida comunal e as
diferenças entre a judiaria e a comuna e, reservou-se ao último capítulo, a análise
minuciosa da fonte.
No capítulo primeiro encontra-se a contextualização do período de compilação das
leis do reino, que culminou nas Ordenações Afonsinas, bem como, ponderações pertinentes
ao tema.
A ocasião da coletânea das leis foi particular, já que se caracterizou como um
momento em que o poder régio buscava seu fortalecimento, revelando-se um tempo de
maior resistência real em relação ao uso de prerrogativas pessoais, além de assinalar a idéia
de unificação do reino sob a égide de identidade única.
Neste sentido, Luis Miguel Duarte1 defende a idéia de que a compilação de leis do
reino servia como um mecanismo essencial para a afirmação régia, por meio do direito e da
justiça, uma vez que se esperava do rei a observação incontestável da lei, bem como de seu
cumprimento, encontrando-se em sua figura a chave para a resolução de conflitos entre as
diversas partes sujeitas àquela, mantendo o reino em paz.

1
DUARTE, Luis Miguel. Justiça e Criminalidade No Portugal Medievo (1459-1481). Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1999, p. 69.
Outra perspectiva é despertada através de uma segunda análise proposta pelo
mesmo autor2, que se define pela dúvida acerca da efetividade das normas jurídicas. Um
dos fatores que ele elege como suporte para sua teoria, é que não existe um consenso entre
os historiadores portugueses sobre a circulação e divulgação das ordenações do reino,
durante o período estudado.
A dificuldade encontrada para a efetivação, e até mesmo o conhecimento, das
ordenações é mencionada por diversos autores, entretanto, vale destacar três estudos
clássicos que foram utilizados nesta pesquisa3, um de cunho mais geral, qual seja, o de
Serrão4, que afirma ser de longe a necessidade de uma coletânea jurídica para por em
acordo as normas em vigor e as antigas; o estudo de Marcello Caetano5, que aponta a
dificuldade de determinar o momento de real vigência e aplicabilidade da compilação,
chegando mesmo a demonstrar certa dúvida em relação a este ponto; e o trabalho de Judite
Freitas6, de cunho mais específico, em que destaca o surgimento de desacertos na
edificação deste plano de compilação, devido ao fato de ocorrer em um período de
instabilidade política e de extensão prolongada, sendo um projeto partilhado por dois
monarcas, um regente, dois legisladores e três revisores.
Na outra metade deste capítulo, que trata sobre o desenvolvimento das cidades no
período em questão e a crescente importância do concelho7 na sua estruturação, ponderou-
se a respeito de análises do período medieval ao desenvolvimento urbano, constatando-se
que este fora marcado como um momento dinâmico, tendo como seus pontos chave a
cidade e o poder monárquico8.
O motor que teria impulsionado este desenvolvimento urbano no medievo foi,
basicamente, o aumento populacional. Se por um lado, não há um consenso entre
pesquisadores quanto à continuidade ou ruptura com a Antiguidade das cidades medievais,
pois alguns afirmam – como Henri Pirenne – que o fechamento do Mediterrâneo pelas
invasões germânicas durante os séculos VII e VIII provocou a morte da antiga malha
urbana e a ruralização da população9, por outro lado, concordam no entendimento de que
com a retomada, no século X, do comércio, esta teria renascido10.
Existem pesquisadores como Maurice Lombard que “atribui a retomada do grande
comércio e da circulação monetária à demanda econômica do mundo muçulmano,
justamente o estímulo comercial que suscita o nascimento da cidade medieval”11 e há,

2
DUARTE, Luis Miguel. Justiça Medieval Portuguesa. Cuadernos de Historia del Derecho, Madrid, n. 11,
p. 87-97, 2004.
3
Estes autores foram aqui destacados pelo fato de figurarem entre as obras consideradas essenciais em
qualquer pesquisa concernente a temática medieval portuguesa, abordada nesta pesquisa.
4
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. (1415-1495). 8. ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1996,
p.224.
5
CAETANO, Marcello. História do direito Português. Lisboa: Editorial Verbo, 1985, p. 532-534.
6
FREITAS, Judite A. Gonçalves de. Tradição legal, codificação e práticas institucionais: um relance pelo
poder régio no Portugal de Quatrocentos. Revista da Faculdade de Letras. Porto, série III, v. 7, p. 51-67,
2006.
7
O termo Concelho corresponde a uma comunidade com autonomia administrativa baseada em foral régio
que a institui município. Cf. FERNANDES, Fátima Regina. Sociedade e Poder na Baixa Idade Média
Portuguesa. Curitiba: Ed. UFPR, 2003, p. 345.
8
BASCHET, Jérôme. A civilização Feudal: do ano 1000 à colonização da América. São paulo: Globo,
2006. p. 143.
9
Para Pirenne no medievo a grande maioria da população vivia no meio rural e, embora, os núcleos urbanos
remanescentes das cidades romanas ainda existissem, concentravam uma parte inócua da população.
PIRENNE, Henri. As Cidades da Idade Média: ensaio de história econômica e social. Lisboa: Publicações
Europa-América, 1964.
10
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. v.1. Bauru,
SP: Edusc, 2006. p.223.
11
Apud, ibid. p.222.
ainda, aqueles que defendem que as cidades medievais são continuidades das já existentes
na Antiguidade e que “reemergiram da sua prolongada depressão”, com a revolução
comercial da Idade Média12.
No capítulo segundo pretende-se montar uma visão panorâmica sobre os judeus,
inseridos na realidade das comunas e judiarias, esclarecendo suas diferenciações e
particularidades, bem como, analisar as informações sobre concessões, privilégios e
jurisdições, levando em conta pesquisas específicas neste tema.
Um dos maiores problemas encontrados ao tratar do tema aqui proposto refere-se à
escassez de estudos específicos sobre o povo judeu em Portugal, principalmente, no século
XV. Contudo, optou-se por seguir a linha de análise proposta por Maria José Pimenta Ferro
Tavares13, que se dispôs a estudá-lo em termos de longa duração, em sua obra “Os Judeus
em Portugal no Século XV”.
Nesta obra a autora entendeu os judeus portugueses como uma minoria religiosa e
aplicou vários métodos de trabalho histórico, dentre estes se pode citar o descritivo, o
quantitativo e o conceitualizante, tentando estudá-los na sua comunidade, na relação com o
poder público, seja o rei, o concelho ou as autoridades comunais, sendo que estas duas
últimas são de particular importância no estudo da problemática aqui abordada.
Durante praticamente todo o período analisado, os judeus constituíam uma minoria
étnico-religiosa em Portugal, encontrando-se espalhados por todo o reino e mantendo
relações com todos os estratos sociais, desde o homem mais humilde do povo, até os
membros da nobreza e da família real e, assim, através da evolução de suas comunas e
judiarias, pretende-se perceber o desenvolvimento de algumas destas relações e, para que a
análise se desenvolva corretamente, a primeira conceituação que foi trabalhada neste
capítulo consistiu na diferenciação entre uma e outra.
A utilização do termo judiaria como bairro afastado e com portas guardadas, as
quais se abriam com o amanhecer e se fechavam ao anoitecer, acredita-se só ter aparecido
na segunda metade do século XIV, com a legislação de Pedro I. Nas Cortes de Elvas de
136114, este monarca estabeleceu onde habitassem mais de dez judeus adultos, deviam
concentrar-se em uma região circunscrita, na qual não se encontrassem misturados com os
cristãos, mas muitas das comunidades só foram encerradas no século XV15.
Portanto, comuna e judiaria16 muitas vezes são interpretadas, erroneamente, com a
mesma conotação.
Quanto aos privilégios, concessões e jurisdições outorgadas aos judeus, pôde-se
levantar nas obras consultadas, que estas nunca foram gratuitas e que, o fato de banqueiros
e tributários judeus assentarem, também, como fontes de renda ao poder régio, serviu como
um estímulo para o bom acolhimento destes pelos monarcas portugueses, em um período
marcado pelas perseguições ao povo mosaico na grande maioria dos reinos cristãos
europeus.
O último capítulo dedicou-se à análise das leis específicas ao povo judaico,
contidas nas Ordenações Afonsinas, que poderiam ser consideradas como fontes às

12
LOPEZ, Robert S. A Revolução Comercial da Idade Média 950-1350. Porto: Editorial Presença, 1980,
p. 67.
13
Uma vez que esta autora realizou um lato estudo sobre o povo judeu português e deparou-se com o mesmo
impasse, qual seja, a carência de pesquisas aprofundadas do tema em questão. TAVARES, Maria José Ferro.
Os judeus em Portugal no século XV. Lisboa: UNL. 1982, p. 13-15.
14
CAETANO, Marcello. História do direito Português. Lisboa: Editorial Verbo, 1985, p. 506.
15
TAVARES, Maria José Ferro. Os judeus em Portugal no século XIV. Lisboa: Guimarães Editores,
1992, p. 74.
16
O termo judiaria designa “uma rua ou várias em que moram judeus e não a entidade administrativa que é a
comuna, embora, em certos locais, se identifique com ela” e “a documentação mostra-nos que judiaria é, no
século XV, usada em várias acepções. Ibid. p. 23.
políticas de afirmação régia perpetradas pelos monarcas portugueses, principalmente, pelos
integrantes da Dinastia de Avis.
O primeiro ponto que foi constatado ao estudar especificamente a estruturação das
comunas e a diferença entre estas e as judiarias, apontou para a simetria entre a comuna
judaica e os concelhos cristãos.
Esta simetria pôde ser identificada, claro que abstraindo das restrições
consubstanciadas nas Ordenações Afonsinas, a partir do regime jurídico geral vigente e do
âmbito estrutural das comunas definido por lei régia, ou seja, como bem definido por Elias
Lipiner, “um pequeno reino à sombra de outro” 17.
Em um primeiro momento acreditou-se que as ordenações tributárias é que seriam
aquelas utilizadas nas políticas de afirmação régia, contudo, chegou-se a conclusão que
para tanto, também poderiam ser avocadas a problemática as ordenações que classificamos
como restritivas e administrativas.
Várias leis contidas nas Ordenações puderam ser classificadas como restritivas,
entre outros exemplos, encontram-se a proibição de arrendar Igrejas ou Mosteiros pelos
judeus, a condição de que estes deveriam viver apartadamente em judiarías, a determinação
das penas para os judeus que não obedecessem ao toque de recolher, as punições e
condições para o judeu que portasse armas quando comparecessem em festas e outras
reuniões ou comemorações no reino e, por último, a proibição que sujeitava os judeus a
não ocuparem cargos oficiais, independentemente de quem houvesse feito sua nomeação.
Das leis que especificavam os tributos encontramos somente dois títulos, a saber, o
que define os judeus estarem passíveis de pagar a Portagem18e o título que regula como
estes deveriam pagar o serviço real.
As regras que definiam a estruturação administrativa das comunas constituíam
quatro títulos, que tratavam de como os Arrabis das comunas deviam guardar em seus
julgados os seus direitos e costumes, de como o Arrabi-mor dos judeus e os Arrabis das
comunas deviam usar suas jurisdições, a quem pertencia o conhecimento da contenda entre
judeu e cristão e de como os judeus tabeliães deveriam fazer as escrituras.
Esta divisão foi realizada com intuito didático a fim de facilitar a compreensão e o
desenvolvimento da pesquisa. Os demais títulos referentes ao povo hebreu contidos nas
Ordenações Afonsinas não foram aqui contemplados por não possuírem ligação direta com
a problemática proposta nesta investigação.
A grande maioria das leis analisadas determinava multas e penas que iam desde
prisão, perda dos bens até açoitamento público aos judeus, em caso de não observância da
lei. Então, pôde-se observar e compreender que o grande número de multas e cobranças de
toda a sorte, além de duras penas que recaíam, geralmente, somente sobre os judeus,
mesmo nos casos em que cristãos também tivessem envolvimento no delito, poderiam ser
utilizados como moeda de troca política ou monetária.
Outro ponto que a pesquisa realizada proporcionou maior compreensão, foi em
relação à uniformização das leis do reino em um único regimento, bem como, o
fortalecimento do poder concelhio ao longo do século XV, fecundando o jogo de poder em

17
LIPINER, Elias. O Tempo dos Judeus Segundo as Ordenações do Reino. São Paulo: Nobel, 1982, p. 47.
18
Portagem era o imposto pago às portas das cidades, pelos artigos que entravam nas povoações para ali
serem comercializados e, como especificado na própria ordenação, “As Portagens, e qualquer outro direito,
que se pagam, segundo Direito, ou Costume da terra, das mercadorias, e coisas, que se trazem para a terra, ou
levam fora dela”, eram tidos como direito real e pertenciam as rendas dos tributos à Coroa. Portugal. Título
XXIIII, art. 9, Ordenações Afonsinas, Lisboa, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, Livro II, 1998, p.
211. O autor Henrique da Gama Barros considera que as mercadorias passíveis de tributação pelo direito de
Portagem, por serem as de maior circulação interna no reino, são cereais, vinhos, frutas, pescados, peles e
couros, cera e mel, panos grosseiros e gados. BARROS, Henrique da Gama. Administração Pública em
Portugal nos séculos XII a XV. Tomo X. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1945, p. 117.
que convergiam forças externas do poder régio às forças internas de especialização,
elitismo e hierarquização sobre os municípios, devido à preocupação em determinar os
papéis desempenhados pelos oficiais a serviço do poder régio nas ordenações, em todas as
esferas municipais, tanto as regras especificamente escritas com vistas aos concelhos
cristãos, como aquelas destinadas à parcela da sociedade que, naquele tempo, nem ao
menos era considerada como parte integrante e legítima de tal sociedade, ou seja, os
judeus.
Assim, a problemática proposta para esta pesquisa revelou-se pertinente e ampliou
a abrangência esperada inicialmente, uma vez que, longe de buscar constituir-se em uma
verdade absoluta sobre o tema ou a própria problemática, transformou-se em uma
possibilidade de estudos posteriores, que considere temáticas interdisciplinares, outras
fontes e metodologias, que possam vir a dar lume às estratégias e objetivos orquestrados
nas linhas de força da dinâmica social do poder local nas comunas em contraposição ao
poder central dos monarcas.