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OAB/FGV – XXIII Exame de Ordem 1. Determinado tratado internacional de proteção aos direitos humanos, após

OAB/FGV XXIII Exame de Ordem

  • 1. Determinado tratado internacional de proteção aos direitos humanos, após ser assinado pelo Presidente da

República em 2005, foi aprovado, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por quatro quintos dos votos dos respectivos membros, sendo promulgado na ordem interna. Após a sua promulgação na ordem jurídica interna, percebeu-se que ele era absolutamente incompatível com regra constitucional que disciplinava certo direi- to dos administrados perante a Administração Pública, já que o ampliava consideravelmente.

Com base na situação narrada, responda aos itens a seguir.

  • A) O referido tratado pode ser considerado norma válida de natureza constitucional? (Valor: 0,75)

  • B) Caso seja identificado algum vício de inconstitucionalidade, seria possível submeter esse tratado ao controle

concentrado de constitucionalidade realizado pelo Supremo Tribunal Federal? (Valor: 0,50)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

Gabarito comentado

  • A) O examinando deve responder que o tratado foi aprovado em harmonia com o procedimento previsto no Art. 5º,

§ 3º, da CRFB/88, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 45/04, logo, é formalmente válido. Acres-

ça-se que o fato de destoar da Constituição da República, por ter ampliado um direito, não caracteriza qualquer afronta às cláusulas pétreas previstas no Art. 60, § 4º, da CRFB/88, preceito que lhe é aplicável por ter a natureza de emenda constitucional. Portanto, é materialmente válido.

  • B) O examinando deve responder que o tratado aprovado na forma indicada está sujeito ao controle concentrado

de constitucionalidade, consoante o disposto no Art. 102, inciso I, alínea a, da CRFB/88, por ter a natureza de ato normativo.

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  • 2. João, vereador do Município X, e José, senador pelo Estado Y, ambos pertencentes ao Partido K, proferiram

inflamado discurso em Brasília contra as atividades desenvolvidas por determinada autarquia federal. Ao final, concluíram que os resultados alcançados nos últimos anos por essa pessoa jurídica de direito público eram pífios,

o que era mais que esperado, já que o seu presidente, o Sr. Antônio, “era sabidamente inapto para o exercício da

função”. Ao tomar conhecimento do discurso, o Sr. Antônio ficou transtornado. Afinal, era servidor público de car-

reira e era conhecido por todos pela lisura e seriedade do seu comportamento. Quanto aos maus resultados da autarquia, seriam sabidamente decorrentes da crise econômica que assolava o país, não da incompetência do seu presidente. Por fim, o Sr. Antônio procurou o seu advogado e disse que queria

adotar as providências necessárias para a responsabilização do vereador João e do senador José pelos danos causados à sua honra.

Considerando a situação hipotética apresentada, responda, de forma fundamentada, aos itens a seguir.

  • A) O vereador João e o senador José podem ser responsabilizados civilmente pelas ofensas à honra do Sr. Antô-

nio? (Valor: 0,75)

  • B) O vereador João e o senador José, nas circunstâncias indicadas, seriam alcançados por alguma imunidade

formal passível de influir na sua responsabilidade penal? (Valor: 0,50)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

Gabarito comentado

  • A) O senador José não poderia ser responsabilizado civilmente, pois é inviolável pelas opinões e pelas palavras

correlatas ao exercício do mandato (Art. 53, caput, da CRFB/88), sendo certo que compete ao Congresso Nacio-

nal fiscalizar e controlar os entes da administração indireta (Art. 49, inciso X, da CRFB/88). Possui, portanto, imu- nidade material. Já o vereador João poderia ser responsabilizado, pois a inviolabilidade por suas opiniões e pala- vras é restrita à circunscrição do Município e ao exercício do mandato (Art. 29, inciso VIII, da CRFB/88).

  • B) O senador José possui imunidade formal, consistente na impossibilidade de ser preso, salvo em caso de fla-

grante de crime inafiançável (Art. 53, § 2º, da CRFB/88) e na possibilidade de a tramitação do processo penal que

venha a responder ser sustada por deliberação do Senado Federal (Art. 53, § 3º, da CRFB/88).

venha a responder ser sustada por deliberação do Senado Federal (Art. 53, § 3º, da CRFB/88). O vereador João, por sua vez, não possui imunidade formal (Art. 29, inciso VIII, da CRFB/88).

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  • 3. Ernesto, de nacionalidade boliviana, imigrou para a República Federativa do Brasil em 2000 e, desde então,

com aquiescência das autoridades brasileiras, fixou residência no território nacional. Cidadão de reputação ilibada e profundo admirador de nossa cultura, conheceu Cláudia, de nacionalidade portuguesa, também de reputação ilibada e que vivia no Brasil desde 2010. Ernesto e Cláudia, que começaram a viver juntos há cerca de um ano, requereram a nacionalidade brasileira. Para supresa de ambos, os requerimentos foram indeferidos. No caso de Ernesto, argumentou-se que suas características pessoais, como idade e profissão, não se enquadravam nas diretrizes da política nacional de migração. Quanto a Cláudia, argumentou-se a ausência de utilidade na naturali- zação, já que, por ser portuguesa, seria alcançada pelo estatuto da igualdade entre portugueses e brasileiros. Inconformados com os indeferimentos, Ernesto e Cláudia procuraram os seus serviços como advogado(a) para que a situação de ambos fosse objeto de criteriosa análise jurídica.

Considerando a situação hipotética apresentada, responda, de forma fundamentada, aos itens a seguir.

  • A) Ernesto possui o direito subjetivo à obtenção da nacionalidade brasileira? (Valor: 0,60)

  • B) As razões invocadas para o indeferimento do requerimento de Cláudia mostram-se constitucionalmente corre-

tas? (Valor: 0,65)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

Gabarito comentado

  • A) O(A) examinando(a) deve responder que, uma vez preenchidos os requisitos estabelecidos no Art. 12, inciso II,

alínea b, da CRFB/88, o estrangeiro, como Ernesto, possui o direito subjetivo à obtenção da nacionalidade brasi- leira.

  • B) O(A) examinando(a) deve esclarecer que qualquer estrangeiro que preencha os requisitos exigidos, inclusive

aquele originário dos países falantes de língua portuguesa, consoante o Art. 12, inciso II, alínea a, da CRFB/88,

pode postular a obtenção da nacionalidade brasileira, o que ensejará o surgimento de vínculo mais estreitos com a República Federativa do Brasil.

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  • 4. Determinado cidadão (jurisdicionado) apresentou reclamação, perante o Conselho Nacional de Justiça (CNJ),

em face de juiz do trabalho. Ao apreciar o caso, o CNJ, em sessão presidida pelo Conselheiro Presidente do Su- premo Tribunal Federal, conhece da reclamação e instaura Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Conside- rando que os fundamentos da defesa já tinham sido amplamente apresentados pelo juiz do trabalho em suas ma- nifestações públicas, o CNJ, em prol da celeridade processual, afastou a necessidade de nova manifestação do referido agente, tendo decidido pela aposentadoria do magistrado com proventos proporcionais ao tempo de ser- viço.

Considere a seguinte situação hipotética e responda aos itens a seguir.

  • A) O cidadão poderia ter se dirigido ao Conselho Nacional de Justiça na forma descrita? (Valor: 0,60)

  • B) O procedimento do Conselho Nacional de Justiça foi correto? (Valor: 0,65)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

Gabarito comentado

  • A) O examinando deverá responder que de acordo com o direito de petição, previsto no Artigo 5º, inciso XXXIV,

alínea a, da CRFB/88, “qualquer pessoa é parte legítima para representar ilegalidades perante o CNJ”.

  • B) O examinando deverá responder que não, pois, de acordo com o Art. 5º, inciso LV, da CRFB/88 (“aos litigan-

tes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla

defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”), a defesa do juiz e, portanto, o seu direito fundamental à defe-

sa, não pode ser prejudicado ou relativizado por conduta não prevista na Constituição da República.

OAB/FGV – XXII Exame de Ordem 1. Suponha a seguinte situação hipotética: determinada Emenda Constitucional, promulgada

OAB/FGV XXII Exame de Ordem

  • 1. Suponha a seguinte situação hipotética: determinada Emenda Constitucional, promulgada em março de deter-

minado ano, altera o regime das coligações eleitorais dos partidos políticos. Nos atos das disposições transitórias, a própria Emenda Constitucional estabelece que as novas regras atinentes às coligações partidárias já deverão ser observadas nas próximas eleições, que ocorrerão em outubro do mesmo ano.

Com base no fragmento acima, responda, fundamentadamente, aos itens abaixo:

  • A) A referida Emenda Constitucional apresenta alguma violação aos limites constitucionais impostos ao Poder

Constituinte Derivado Reformador? Justifique. (Valor: 0,70)

  • B) No âmbito do ordenamento constitucional brasileiro, é correto afirmar que ainda vigora a obrigatoriedade da

verticalização das coligações partidárias? Justifique. (Valor: 0,55)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

Gabarito comentado

  • A) Sim. A referida Emenda Constitucional viola limitações constitucionais de ordem material, ou seja, viola uma

cláusula pétrea. Com efeito, ao determinar que as novas regras que alteram o regime das coligações eleitorais dos partidos políticos já deverão ser observadas no mesmo ano da sua promulgação, a referida Emenda Constitu- cional afronta o princípio da anterioridade eleitoral insculpido no Art. 16 da CRFB/88, que, na jurisprudência firme do STF, representa garantia individual do cidadão-eleitor, detentor originário do poder exercido pelos representan-

tes eleitos. Portanto, o princípio da anterioridade eleitoral é uma garantia fundamental do cidadão-eleitor que tem o direito de receber, do Estado, o necessário grau de segurança e de certeza jurídicas contra alterações abruptas das regras inerentes à disputa eleitoral. Assim, a referida Emenda Constitucional violou uma cláusula pétrea nos termos do Art. 60, § 4º, inciso IV, da CRFB/88, transcendendo, pois, os limites constitucionais de ordem material, estabelecidos ao poder constituinte derivado reformador.

  • B) Não. A Emenda Constitucional n. 52/2006 alterou o texto do Art. 17, § 1º, da CRFB/88, conferindo plena auto-

nomia aos partidos políticos para definir o regime de suas coligações eleitorais, extinguindo a chamada verticali- zação das coligações partidárias. Portanto, tal verticalização já não mais existe no direito constitucional brasileiro. A partir da referida EC, as coligações partidárias realizadas em âmbito nacional deixaram de ser obrigatórias em âmbito estadual, distrital ou municipal. Ou seja, não há qualquer restrição à plena autonomia das coligações parti- dárias no plano federal, estadual, distrital e municipal.

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  • 2. Roberto, servidor público estadual, após se aposentar, surpreende-se com o corte do auxílio-alimentação que

recebia quando em atividade. Indignado, requer à Administração que o referido benefício seja reinserido, já que o direito à alimentação integra o conceito de mínimo existencial. Todavia, ao negar o pedido, a Administração, ale- gando crise orçamentária, informa que esse direito, embora constitucionalmente previsto, é sempre hierarquica- mente inferior aos demais direitos estabelecidos no rol de direitos fundamentais sociais, não tendo o Estado, por- tanto, o dever de contemplá-lo. Inconformado com a resposta, Roberto procura um(a) advogado(a) para que es- clareça os itens a seguir.

  • A) Diante do que informa o sistema jurídico-constitucional brasileiro e das informações acima apresentadas, há

elementos jurídicos para reverter judicialmente a decisão administrativa do corte do auxílio-alimentação? (Valor:

0,65)

  • B) Independentemente da possibilidade ou impossibilidade jurídica do corte do auxílio-alimentação, a questão

hierárquico-normativa suscitada pela Administração Pública pode ser considerada um argumento reconhecido pelo sistema jurídico-constitucional brasileiro? (Valor: 0,60)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

Gabarito comentado

  • A) Não. Segundo a Súmula Vinculante nº 55, editada pelo Supremo Tribunal Federal, “o direito ao auxílio-

alimentação não se estende aos servidores inativos.” Neste sentido, não se desviou do ordenamento jurídico- constitucional a Administração Pública estadual ao deixar de conceder o auxílio-alimentação a Roberto quando passou à inatividade. É o que se extrai do Art. 103-A, quando afirma que a súmula vinculante, a partir de sua pu-

blicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e

blicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à adminis- tração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.

  • B) Não. Está consagrada a teoria de que não existe hierarquia em abstrato entre princípios, devendo a precedên-

cia relativa de um sobre o outro ser determinada apenas à luz do caso concreto. Dessa forma, conclui-se que os direitos fundamentais, incluindo os sociais, não possuem escala hierárquica prévia, inexistindo prevalência inata de específicos direitos fundamentais sociais sobre o direito à alimentação e vice-versa. De toda forma, o princípio

da harmonização (ou concordância prática) consiste em uma recomendação para que o intérprete, deparando-se com situação de concorrência de direitos, adote uma solução que otimize a realização de todos eles (no caso, o direito à alimentação) e, ao mesmo tempo, não acarrete a negação de nenhum deles.

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  • 3. A Câmara de Vereadores do município Beta aprova projeto de lei que divide o mencionado município em dois,

sem qualquer espécie de consulta pública à população e sem realizar qualquer estudo prévio de viabilidade do novo ente federativo. O prefeito de Beta veta o referido projeto e a Câmara derruba o seu veto, promulgando a lei. Logo em seguida, o prefeito de Beta, inconformado com a norma aprovada, decide realizar um referendo a fim de saber a opinião da população local, a qual, após a consulta, manifesta-se favoravelmente ao desmembramento. A partir da situação narrada, responda aos itens a seguir.

  • A) A referida norma municipal é constitucional? Justifique. (Valor: 0,90)

  • B) À luz do sistema constitucional vigente, seria possível a fusão do município Beta com o Município vizinho Alfa?

Justifique. (Valor: 0,35)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pon- tuação.

Gabarito comentado

  • A) A norma municipal é inconstitucional. Conforme prevê o Art. 18, § 4º, da CRFB/88, compete ao Estado autori-

zar, mediante lei ordinária, o desmembramento do município, desde que: i) seja realizada consulta pública prévia

com a participação dos interessados; ii) seja apresentado e publicado Estudo Prévio de Viabilidade Municipal; iii) se respeitem as limitações de calendário dispostas em lei complementar federal, a qual, por ainda não existir, inviabiliza a criação de novos municípios.

  • B) Atualmente, nem a criação, nem o desmembramento e nem a fusão de municípios é possível até que seja edi-

tada a lei complementar federal, prevista no Art. 18, § 4º, da CRFB/88, que discipline as limitações de calendário para tais atos. O STF decidiu acerca do tema na ADI nº 2.702/PR e na ADI nº 2.632/BA.

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  • 4. Em 1975, o Presidente da República estabeleceu, por decreto, que a localização da nova usina nuclear seria o

Município Alfa. O Decreto de 1975 seguiu todas as prescrições legais então vigentes, sem nenhum tipo de viola- ção à Constituição da época. Não obstante, tendo em vista diversos fatores econômicos, políticos e sociais, o início dos trabalhos ficou adiado para uma nova oportunidade. Com o advento da Constituição de 1988, o texto constitucional passou a determinar que a localização de usinas nucleares seja autorizada por Lei Federal. Diante da narrativa acima, responda aos itens a seguir.

  • A) O Decreto do Presidente da República, editado em 1975, foi recepcionado pela nova Constituição? Justifique.

(Valor: 0,70)

  • B) O atual Presidente da República pode, por Decreto Presidencial, alterar a localização da usina nuclear para o

município Beta, no lugar de Alfa? Justifique. (Valor: 0,55)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A simples menção ao dispositivo legal não será pon- tuada.

Gabarito comentado

  • A) Sim, porque o direito brasileiro não admite a inconstitucionalidade formal superveniente. O examinando deve

destacar que o Decreto Presidencial de 1975 foi recepcionado pela nova Constituição, na medida em que não há nenhuma incompatibilidade material com este paradigma de análise, ou seja, não há nenhuma vedação à cons- trução de usinas nucleares, bem como nenhuma proibição constitucional acerca da sua localização no município Alfa. Portanto, a inexistência de incompatibilidade material entre a nova ordem constitucional e o Decreto Presi- dencial de 1975 indica que este ato normativo foi recepcionado pela nova Constituição. No direito brasileiro, o

fenômeno da recepção analisa tão somente a compatibilidade material perante a nova Constituição, não impor- tando

fenômeno da recepção analisa tão somente a compatibilidade material perante a nova Constituição, não impor- tando a forma do ato normativo, daí a inexistência de inconstitucionalidade formal superveniente. No caso, a evi- dente incompatibilidade da forma do ato normativo (Decreto Presidencial ao invés de Lei Federal) não é suficiente para impedir sua recepção.

  • B) Não, porque o Decreto Presidencial de 1975 foi recepcionado pela nova ordem constitucional com o novo sta-

tus de lei federal, já que a norma infraconstitucional que não contrariar materialmente a nova Constituição será recepcionada, devendo, inclusive, adquirir a "roupagem" que a nova Constituição estabelece para a matéria que regula. Foi exatamente esse o caso do Decreto Presidencial de 1975, que foi recepcionado com eficácia de lei federal, no que se refere à localização da usina nuclear, não podendo, portanto, ser alterado por outro decreto presidencial. Em consequência, a resposta é negativa, na medida em que seria necessária a edição de uma Lei Federal para autorizar a nova localização da usina no Município Beta, nos termos do artigo Art. 225, § 6º, da

CFRB/88.

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  • 1. O Governador do Estado Z, no decorrer de seu mandato, é processado por agredir fisicamente um funcionário

do hotel em que se hospedara no decorrer de suas férias, pois esse funcionário não teria tido o devido cuidado no transporte de suas malas. O fato ganhou as manchetes dos meios de comunicação, o que deu origem a uma forte pressão popular para que o agente político respondesse penalmente pelo desvio de conduta cometido. O Governador, preocupado, alega em sua defesa que se trata de conduta não passível de responsabilização, pois, quando a Constituição estabelece que o Presidente da República não responde por crimes estranhos ao exercício de sua função, estende tal direito, com base no princípio da simetria, a todos os chefes de Poder Executivo. Sobre o fato descrito, responda aos itens a seguir.

  • A) Tem razão o Governador quando afirma que, se a conduta descrita fosse praticada pelo Presidente da Repú-

blica, este não responderia criminalmente? Justifique. (Valor: 0,60)

  • B) No caso em tela, o Ministério Público poderia ajuizar a ação penal, de imediato, em face do Governador? Justi-

fique. (Valor: 0,65)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

Gabarito comentado

  • A) Não possui. O que o Art. 86, § 4º, da CRFB/88 confere ao Presidente da República é uma prerrogativa de índo-

le processual, ou mesmo uma imunidade temporária à persecução penal. O preceito não dispõe que o Presidente é irresponsável por crimes não funcionais praticados no curso do mandato, mas apenas que, por tais crimes, não poderá ser responsabilizado enquanto não cessar sua investidura na Presidência da República.

  • B) Sim. De acordo com o sistema jurídico-constitucional brasileiro, as prerrogativas contempladas nesse preceito

da Lei Fundamental, por serem unicamente compatíveis com a condição institucional de Chefe de Estado, e não com a de Chefe de Governo, são aplicáveis apenas ao Presidente da República, não sendo extensíveis aos Go- vernadores. Além disso, poder-se-ia alegar que a aplicação da simetria no caso em tela é medida violadora ao princípio republicano. Nessa linha, o Governador do Estado Z, não gozando dessa prerrogativa, não possui nem mesmo direito à imunidade temporária à persecução penal garantida ao Presidente, podendo a ação penal ser ajuizada de imediato.

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  • 2. O Governador de um Estado-membro da Federação vem externando sua indignação à mídia, em relação ao

conteúdo da Lei Estadual nº 1234/15. Este diploma normativo, que está em vigor e resultou de projeto de lei de iniciativa de determinado deputado estadual, criou uma Secretaria de Estado especializada no combate à desi- gualdade racial.

Diante de tal quadro, o Governador resolveu ajuizar, perante o Supremo Tribunal Federal, uma Arguição de Des- cumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) impugnando a Lei Estadual nº 1234/15. Com base no fragmento acima, responda, justificadamente, aos itens a seguir.

  • A) A Lei Estadual nº 1234/15 apresenta algum vício de inconstitucionalidade? (Valor: 0,60)

  • B) É cabível a medida judicial proposta pelo Governador? (Valor: 0,65)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu-

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

  • A) A referida lei estadual apresenta vício de inconstitucionalidade formal, já que somente lei de iniciativa privativa

do Chefe do Poder Executivo pode ciar órgão de apoio a essa estrutura de poder. É o que dispõe o Art. 61, § 1º, inciso II, da CRFB/88, aplicável por simetria aos Estados, tal qual determina o Art. 25, caput.

  • B) Não. A resposta deve ser no sentido de negar o cabimento da ADPF diante da ausência das condições especi-

ais para a propositura daquela ação constitucional, ou seja, a observância do princípio da subsidiariedade, previs- to no Art. 4º, § 1º, da Lei nº 9882/99. A jurisprudência do STF é firme no sentido de que o princípio da subsidiarie- dade rege a instauração do processo objetivo de ADPF, condicionando o ajuizamento dessa ação de índole cons- titucional à ausência de qualquer outro meio processual apto a sanar, de modo eficaz, a situação de lesividade indicada pelo autor.

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  • 3. Luís, governador do estado Beta, pertence a uma família de grande prestígio na esfera política estadual e é

casado com Carla, que pertence a outro importante clã político do mesmo estado. Após alguns desentendimentos públicos, todos devidamente acompanhados pela mídia, o casal se divorciou. Imediatamente, Carla busca um advogado e solicita orientação sobre a possibilidade de concorrer ao cargo de governador do estado Beta. Porém, passadas duas semanas da consulta, Luís tem um infarto, não resiste e fale- ce.

De acordo com o caso concreto acima narrado e tendo por referência os aspectos jurídico-constitucionais que fundamentam o sistema jurídico brasileiro, responda aos itens a seguir.

  • A) Qual a resposta corretamente dada a Carla pelo advogado? (Valor: 0,60)

  • B) O advogado daria a mesma resposta, caso Carla o tivesse procurado após o falecimento de Luís? (Valor: 0,65)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

Gabarito comentado

  • A) Carla não pode se candidatar ao cargo de governador do estado Beta. Segundo a Súmula Vinculante 18, edi-

tada pelo STF, a dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilida- de prevista no Art. 14, § 7º, da CRFB/88.

  • B) Não. Nesse caso, não há de ser seguida a orientação constante na Súmula Vinculante 18 do Supremo Tribunal

Federal, a qual não se aplica nos casos de extinção do vínculo conjugal pela morte de um dos cônjuges. Essa posição foi reconhecida pelo STF como tese de repercussão geral, no RE 758461.

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  • 4. O prefeito do Município Sigma envia projeto de lei ao Poder Legislativo municipal, que fixa o valor do subsídio

do chefe do Poder Executivo em idêntico valor ao subsídio mensal dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Tal projeto é aprovado pela Câmara de Vereadores e sancionado pelo Chefe do Poder Executivo. No dia seguinte ao da publicação da referida norma municipal, o vereador José, do município Sigma, ajuizou Ação Direta de Inconstitucionalidade, perante o Supremo Tribunal Federal, a fim de que fosse tal lei declarada inconsti- tucional. Diante do exposto, responda aos itens a seguir.

  • A) Há vício de inconstitucionalidade na norma municipal? Justifique. (Valor: 0,85)

  • B) A medida judicial adotada pelo Vereador está correta? Justifique. (Valor: 0,40)

Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontu- ação.

Gabarito comentado A) A norma é formalmente inconstitucional, pois deveria ter sido iniciada pela Câmara Municipal,

Gabarito comentado

  • A) A norma é formalmente inconstitucional, pois deveria ter sido iniciada pela Câmara Municipal, conforme deter-

mina o Art. 29, inciso V, da CRFB/88. Além disso, também há inconstitucionalidade material na lei municipal, pois o vício de iniciativa ofende, em consequência, o princípio da separação dos poderes, previsto no Art. 2º da CRFB/88. Por outro lado, em relação ao valor fixado, não há vício de inconstitucionalidade, pois está de acordo

com o Art. 37, inciso XI, da CRFB/88, que limita o subsídio dos prefeitos ao teto constitucional.

  • B) O vereador não possui legitimidade para ajuizar Ação Direta de Inconstitucionalidade perante o Supremo Tri-

bunal Federal e a norma municipal não pode ser objeto de ADI, conforme estabelecem o Art. 102, inciso I, alínea

a, e o Art. 103, ambos da CRFB/88.