Você está na página 1de 42

Psicopatologia Dinâmica da Criança e

Adolescente

Psicopatologia
da Adolescência:
O agir e a
Delinquência
Enquadramento
I. Adolescência
II. Delinquência
III. Acting out
IV. Depressão
V. Parentalidade
VI. Conclusões
VII. Factores de Resiliência
VIII. Prevenção
IX. Tratamento
X. Bibliografia
I. Adolescência

Adolescência

Desenvolvimento psíquico

Passagem da infância à vida adulta

Suporte psíquico ao
desenvolvimento
pubertário e sexual

(Matos, 2005d)
I. Adolescência

Identificação Identidade

• Conduz à formação da • Resultado do processo contínuo


identidade de identificação
• Inconsciente • Aquilo que é idêntico e diferente
• Assimila propriedades do outro em cada um
nas suas relações privilegiadas • Identidade objectiva – aspecto
• Meio que preexiste no sujeito social
• Adolescente confronta os seus Identidade subjectiva - como o
ideais primitivos com ideias mais sujeito se sente
realistas • Sentimento unitário
• Intimamente relacionada com o
que o sujeito pensa de si
(Matos, 2005b)
I. Adolescência

Identidade

Incorporação / assimilação da
Imagóico - imagética
identidade atribuída, é a experiência de
se poder ver ao espelho do olhar do
outro, como experiência de formação da
identidade

Idiomórfico Identificação a si próprio, na experiência


de se ver e de se experimentar a fazer, de
se perceber e de se auto ‐ conceber

Alotriomórfico ou
Identificação a outros
Xenomórfico
(Coimbra de Matos, 2002c)
I. Adolescência

Mudança de objectos e objectivos


Mudança de objecto de amor – luto pelo objecto
amoroso infantil e procura de um objecto libidinal
adulto
Mudança de objectivos - saída dos interesses
narcísicos para o desenvolvimento dos interesses
sociais e de grupo

“A identidade própria constrói-se entre o investimento objectal e o


narcísico, no aproximar do outro, no assimilar das suas qualidades,
bem como no contraste em afirmar-se a si próprio”

(Coimbra de Matos, 2002b)


I. Adolescência
Rei narciso
Narcisismo primário - amar-se a si próprio que inunda o
self no percurso para o objecto
Narcisismo secundário - amar-se a si próprio por retirada
sobre si mesmo do amor que dedicava aos outros

Sou como
desejei ser?
O que os outros
acham de mim?

(Coimbra de Matos, 2002e)


I. Adolescência
O adolescente assegura a sua identidade e marca a diferença em
relação aos outros …
Progressivo processo de autonomia
Emocional
Comportamental
Valores

Olhar
do Corpo – apropriação do corpo
outro Pais – fuga do controlo parental
Projectos de vida – pensar e
narcisismo decidir por si próprio
Imagem
de si face Desejo vs ansiedade
ao outro
(Fleming, 2005b)
I. Adolescência
Risco psicológico no desenvolvimento psicológico do adolescente

“factores de risco são as características ou condições de


vida de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que as expõe
a uma maior probabilidade de desenvolver um processo
mórbido de sofrer os seus efeitos” OMS, 1973

Risco passivo Detecção precoce dos factores


de risco, permite evitar ou
atenuar efeitos

Risco dinâmico Ser o próprio e não moldado


pelo desejo do outro, não ter
medo do desconhecido
(Fleming, 2005b) permitindo ser livre e autêntico
I. Adolescência

Adolescência

Desenvolvimento psíquico

Psicopatologia

(Matos, 2005a)
I. Adolescência

Normal vs Patológico

Patológico
* Desacordo com a textura
da pessoa
* Atraso ou hipermaturação
* Conflitos que já deviam Normal
estar resolvidos * Trabalho de luto das figuras
* Deformações do Eu parentais
* Sofrimento * Aceitação da identidade própria
* Escolha do objecto de amor

(Coimbra de Matos, 1981)


I. Adolescência

Hoje em dia …

•Entram logo na vida adulta

•Estagnam num mundo de “permissividade do fazer”


(Matos, 2005d)
I. Adolescência

Adolescência

Período de evolução que poderá


pôr em causa as aquisições
Conflitos externos anteriores nomeadamente quanto
Conflitos internos às representações de si e
representações do objecto

Respondem pela via da acção

(Matos, 2005a)
I. Adolescência

É durante a adolescência que a diferença entre o


comportamento agido e o mentalizado é mais importante,
sendo o agir a maneira privilegiada de demonstração de
angústia e conflitos

(Porot, 1969, citado por Marcelli &Braconnier, 2005)


II. Acting out
Forma de externalização que utiliza a
acting motricidade para manter o conflito fora
da consciência

Forma de representar o conflito que


actuar pretende compreendê-lo e resolvê-lo

(Matos, 2000)

Comportamento espontâneo, positivo,


“o acto” rápido, mas não é irreflectido

“a passagem ao acto” Violenta, agressiva, impulsiva e


delituosa
(Marcelli & Braconnier, 2005)
II. Acting out

 Vocabulário da Psicanálise (Laplanche & Pontalis, 1970):

”o acting out designa acções que apresentam, a maioria das vezes,


um carácter impulsivo, rompendo relativamente com os sistemas
de motivação habituais do indivíduo, relativamente isolável no
decurso das suas actividades, e que toma muitas vezes uma forma
auto- ou hetero-agressiva”
II. Acting out

António Coimbra de Matos (1984; citado por Matos, 2005a):


acting out é o resultado do sofrimento pré-edipiano e pré-verbal;
o jovem confronta–se com um objecto narcísico e sádico e
projecta o conflito interno para o exterior e para a sociedade

 Blos (1979; citado por Matos, 2005a): acting out tem um valor de
comunicação para os adolescentes

 Bergeret (1976, citado por Matos, 2005a): estes jovens guiam-se pela
procura imediata de prazer e agem contra outros
II. Acting out

Acting Acting
evolutivo patológico

(Matos, 2005c)
II. Acting out

comportamentos
defesas que desafiam os via para Acting
narcísicas limites de si e da exterior out
realidade

culpabilidade
defesas que leva à via para Acting
objectais exposição e interior in
sacrifício

(Matos, 2005c)
II. Acting out
Factores que favorecem o agir

Ambientais Internos
Mudança do estatuto
Excitação pubertária
social
O próprio conteúdo do
Angústia
novo estatuto
Modificação do equilíbrio
Estereótipos sociais
pulsão-defesa

Interacção social Antítese actividade/passividade

Constrangimentos excessivos da
Modificações instrumentais
realidade
(Marcelli & Braconnier, 2005)
II. Acting out
Significados psicológicos e psicopatológicos do agir

Estratégia
interactiva

Recusa de Mecanismo
agir de defesa

Entrave do
comportamento
mentalizado
(Marcelli & Braconnier, 2005)
II. Acting out
Diferentes modos de partida do adolescente

Viagem Caminhada Fuga

• Comportamentos agidos
• Não são delitos
• Comportamento social importante para o adolescente
• Não estão fatalmente situadas no contexto psicopatológico
• Passagem do campo familiar para o social
(Marcelli & Braconnier, 2005)
II. Acting out

Furto

Automóvel

• +/- 16-18 anos


• + rapazes
• contexto impulsivo
• “delito charneira” porque a resposta dada a este
comportamento vai determinar a evolução do
adolescente
(Henry, citado por Marcelli &Braconnier, 2005)
II. Acting out

Violência

Heteroagressividade

Auto agressividade

(Marcelli & Braconnier, 2005)


III. Delinquência

Criminologia Psicopatologia

Primeiros sinais: 7-9 anos


Transgressão da lei Fenómeno de dissociabilidade
(Coimbra de Matos, 2002d)
Perturbação do vínculo precoce
Jovens expressam-se através dos
actos

Sociedade está numa “puberdade agida”


(Matos, 2005d)
III. Delinquência

Repressão do desejo Superego

Delinquente neurótico Frustrações, privações

Passagens ao acto

Deficiência narcísica primária

Delinquente boderline Ausência do amor pelo objecto

Personalidade contraditória

(Coimbra de Matos, 1986, citado por Matos, 2005a)


III. Delinquência

“O corpo é solicitado quando a


identidade é posta à prova”
(Matos, 2005c, p.129)
IV. Depressão

Tensão

Dependência
Independência

“ O desligar dos pais é uma das mais necessárias e


também mais penosas realizações do desenvolvimento. É
inteiramente necessário e devemos supor que todo o ser
humano normal consegue em certa medida consumar
essa separação”

(Freud, 1909; citado por Fleming, 2005a)


IV. Depressão

Processo
adolescente envolve Trabalho de luto ou
enquanto processo Depressão normal
evolutivo

Perda da dependência afectiva e emocional dos


pais (abandono do carácter infantil da relação)
mantendo a relação, mas de forma diferente

O desenvolvimento do adolescente implica afectos ligados à


depressão normal, estando os sentimentos de tristeza, vazio e
infelicidade ligados ao processo de desenvolvimento
psicológico normal.
(Fleming, 2005a)
IV. Depressão
Depressão:
“Incorporação imaginária da agressividade do objecto ao nível do
self, com a existência simultânea de idealização defensiva de um
objecto de normalidade, sendo sentidos pelo sujeito como
sentimentos de inferioridade e culpa”
Angústia – medo de perder o amor do objecto

Adulto Adolescente

Falta de Hiperactividade
psicomotricidade

(Matos, 2005a; Marcelli & Braconnier, 2005)


V. Parentalidade

Passagem ao acto traduz:

 Intolerância à frustração

 Fraqueza do Eu e dos mecanismos de recalcamento

 Relação com o objecto muito dolorosa

 Ambiente familiar instável

 Ausência de modelo

 Perdas afectivas ou abandono real

(Coimbra de Matos, 2001)


V. Parentalidade

Melanie Klein

Impulso destrutivo

Anseio de reparar, construir e assumir responsabilidades

O acting out não se deve à fraqueza do Superego ou à


ausência de consciência moral, mas sim à severidade do
Superego

(Winnicott, 2002; Matos, 2005a)


V. Parentalidade

Bowlby
Separação prolongada da mãe
Causas da delinquência Amor /rejeição materna
Traumas emocionais

Ainsworth
Não há objecto interno
Causas da delinquência suficientemente bom
Não há objecto rêveur
Não há objecto capaz de elaborar
as frustrações da criança
V. Parentalidade

Winnicott

 Jovem rouba em busca da boa mãe


 Procura o pai que protegeria a mãe dos seus ataques e
limitaria os seus comportamentos agressivos
 Adolescente torna-se deprimido e incapaz de sentir a
realidade das coisas, excepto a realidade da violência

 Acto anti-social como um pedido de socorro


 Delinquência mostra que ainda existe esperança
V. Parentalidade

Ressentimento

Angústia de
castração Complexo de
(Freud) inferioridade
(Adler)

Necessidade reprimida de revolta

Adolescente como receptor de culpas

(Coimbra de Matos, 2002d)


VI. Conclusões
“O grupo representa uma caixa de ressonância, um amplificador
potencial das condutas desviantes ou das atitudes de consumo de
produtos tóxicos” (Braconnier & Marcelli, 1998, citado por Matos, 2005c)
O jovem substitui a realidade pelo fantasma e em vez de
planear o acto corre riscos inconscientemente e não prevê as
consequências (Matos, 2005c)
As crianças privadas precocemente de afecto tornam-se incapazes
de amar e de ser amadas (Racamier, 1956, citado por Matos, 2005a)
O nosso modelo sociocultural destrói os elos de ligação ao nível
da mãe, do pai e do casal, e como não fornece outros gera vazios
(Matos, 2005d)

Mas se o jovem for privado dos actos delinquentes corre um


grande risco de se deprimir, psicotizar ou suicidar (Choquet, 1998;
Weisner, 2003; Weisner & Kim, 2006, citados por Faustino, 2009)
VII. Factores de Resiliência

Tolerância à frustração

Capacidade de diferir

Capacidade de deslocar
VIII. Prevenção

Delineamento de programas preventivos

Modificação da abordagem educativa

Diminuição do funcionamento familiar


perturbado

Desaprovação na família e comunidade


de comportamentos desadequados

(Benavente, 2002)
IX. Tratamento
Institucional Não institucional
• Confrontar o jovem com a • Reforço da tentativa de cura
realidade ajudando-o a espontânea
compreender conceitos • Aproveitamento da actividade
como responsabilidade e a psicomotora para actividades
assumir as consequências socialmente integradas
dos seus actos. • Utilização de materiais e
• Restauração da identidade ferramentas como extensão da
e consciência moral de actividade motora
modo a neutralizar o • Ressocialização através da
funcionamento interiorização de sistemas
predominantemente relacionais equilibrados
egocentrista • Construção de uma melhor
imagem de si próprio através da
(Chartier, 1991; citado por terapia
Benavente, 2002) (Coimbra de Matos, 2002d)
X. Bibliografia
Benavente, R. (2002). Delinquência juvenil: Da disfunção social à psicopatologia. Análise
Psicológica, 4, 637-645.

Coimbra de Matos, A. (1981). O normal e o patológico na adolescência. Revista Portuguesa e


Pediatria, 12, 73-77.

Coimbra de Matos, A. (2001). A tendência a agir. In A. Coimbra de Matos (Ed.) A depressão (pp.
258-304). Lisboa: Climepsi.

Coimbra de Matos, A. (2002a). Crise da juventude e identidade. In A. Coimbra de Matos (Ed.)


Adolescência: O triunfo do pensamento e a descoberta do amor (pp. 83-84). Lisboa: Climepsi.

Coimbra de Matos, A. (2002b). Mudança de objecto e mudança de objectivos na adolescência .


In A. Coimbra de Matos (Ed.) Adolescência: O triunfo do pensamento e a descoberta do amor
(pp. 75-79). Lisboa: Climepsi.

Coimbra de Matos, A. (2002c). Nota sobre a identidade. In A. Coimbra de Matos (Ed.)


Adolescência: O triunfo do pensamento e a descoberta do amor (pp. 182-184). Lisboa: Climepsi.

Coimbra de Matos, A. (2002d). Notas sobre a delinquência juvenil. In A. Coimbra de Matos (Ed.)
Adolescência: O triunfo do pensamento e a descoberta do amor (pp. 55-58). Lisboa: Climepsi.
X. Bibliografia
Coimbra de Matos, A. (2002e). O adolescente príncipe Édipo e Rei Narciso. In A. Coimbra de
Matos (Ed.) Adolescência: O triunfo do pensamento e a descoberta do amor (pp. 147-156).
Lisboa: Climepsi.

Faustino, S. (2009). Contributo do estudo do funcionamento mental na delinquência juvenil


com base no processo de separação-individuação. Tese de Mestrado, Universidade de Lisboa,
Lisboa.

Fleming, M. (2005a) Depressão normal e depressão patológica na adolescência. In M. Fleming


(Ed.) Entre o medo e o desejo de crescer (pp. 197-208). Porto: Edições Afrontamento.

Fleming, M. (2005b). O risco de não correr risco nenhum… Impasses no desenvolvimento


psíquico adolescente. In M. Fleming (Ed.) Entre o medo e o desejo de crescer (pp. 141-148).
Porto: Edições Afrontamento.

Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1970). Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Moraes editores.
(Obra original publicada em 1967)

Marcelli, D., & Braconnier, A. (2005). O problema do agir e da passagem ao acto. In D. Marcelli
& ., Braconnier (Eds.) Adolescência e Psicopatologia (pp. 115-147). Lisboa: Climepsi.
IX. Bibliografia

Matos, M. (2005a). Adolescer e delinquir. In M. Matos (Ed.) Adolescência, representação e


psicanálise (pp. 57-64). Lisboa: Climepsi.

Matos, M. (2005b). Construção e defesa da identidade na adolescência. In M. Matos (Ed.)


Adolescência, representação e psicanálise (pp. 83-91).Lisboa: Climepsi.

Matos, M. (2005c). Para compreender os comportamentos de risco no adolescente. In M.


Matos (Ed.) Adolescência, representação e psicanálise (pp. 125-129). Lisboa: Climepsi.

Matos, M. (2005d). A puberdade agida. In M. Matos (Ed.) Adolescência, representação e


psicanálise (pp. 65-74). Lisboa: Climepsi.

Winnicott, D. W. (2002). Natureza e origens da tendência anti-social. In D. Winnicott (Ed.)


Privação e Delinquência (pp. 89-179). São Paulo: Martins Fontes.