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BRANDÃO, Vera Maria Antonieta Tordino. Labirintos da memória: Quem sou?

- São Paulo:
Paulus, 2008.

Introdução
Memória o que é?

P.8 A origem da palavra memória remete à mitologia greco-romana, mais precisamente à deusa
Mnemósine, personificação da memória ou lembrança, filha do Céu e da Terra, irmã de Cronos – o
deus que preside do tempo – e mãe das Musas, que com elas reagiram as artes e todas as formas de
expressão, especialmente a poesia.

Vemos, nessa perspectiva, uma articulação importante que permeia e amplia o tema, entre memória,
tempo e narrativa, como arte de expressão. Assim, verificamos que, desde os tempos mitológicos,
passando por filósofos como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, entre muitos outros, até hoje, o
tema memória, e os termos que dele se desdobram, têm sido objeto de reflexão também da filosofia,
das religiões e da linguística, como arte narrativa. Se pensarmos no amplo tema- tempo-,
intrinsecamente ligado a ela, podemos também incluir a Física, a História, a Antropologia, entre
outras ciências.

[…] podemos verificar que abordar o tema requer uma abertura do pensamento em uma perspectiva
interdisciplinar.

P.9 Vamos buscar, inicialmente e de maneira simples, uma compreensão a partir dos dados
fornecidos pelo neurobiológicos e apresentados por Izquierdo (2004 a), em seu livro Questões sobre
a memória. Ele afirma que a memória é aquisição, convocação e evocação das informações, dos
fatos vividos por cada indivíduo, e que tanto a formação quanto sua extinção – os esquecimentos-
estão vinculados a sistema complexo, sendo que a formação das memórias de longa duração “(…)
dependem da forma direta das modificações bioquimicas estruturais, derivadas, por sua vez, da
sintese de novas proteínas durante ou depois da formação de cada uma delas”(p.21).

P.10 Izquierdo afirma que os estudos na área mostram que existe uma rede no cérebro responsável
pelo processo das recordações, e que as memórias de curta e longa duração usam as mesmas
células, mas enzimas diferentes; por isso são independentes. Enquanto esses processos não
estiverem concluídos, as memórias de longa duração são instáveis. O conjunto desses processos,
assim como seu resultado final, chamasse de consolidação. Só após seu término, as memórias
podem ser recuperadas. Mas ele diz também que um acontecimento só é mantido na memória, e
passivel de ser recuperado, se for modulado pela emoção e, assim, lembramos porque muitos desses
fatos são acompanhados de uma forte carga emocional, “(…) num momento de hiperatividade dos
sistemas hormonais” (Idem, p.36).

P.11 […] Ele afirma que o esquecimento, fora os ocasionados por danos neurológicos e que podem
acontecer em qualquer idade, é uma arte. Uma arte? Em seu livro A arte de esquecer – cérebro,
memória e esquecimento, o autor diz que “(…) esquecemos para poder pensar, esquecemos para
não ficarmos loucos; esquecemos para poder conviver e poder sobreviver” (2004b, p.22)

P.12 […] “(…) nada somos além daquilo que recordamos”!

E, ligada a essas afirmações, deparamos com uma questão que é, sem dúvida, fundamental entre
todas as que têm mobilizado o ser humano ao longo de sua história – se sou o que me lembro, quem
sou? Acreditamos que , nesse ponto, os leitores já terão incorporado a perspectiva desse livro e de
que poderemos responder de forma afirmativa, à pergunta inicial: sim, a memória é constituitiva do
ser humano e dos grupos e, portanto, é uma das questões fundamentais a respeito da qual devemos
refletir.

P.13 A ambivalência gerada por essa dubla sensação – de pertencimento e de desenraizamento –


contida na homogienização-fragmentação pode levar a um sentimento de perda de referências e
crise das identidades culturais, que são tanto individuais como coletivas.

P.14 […] Considerando essa perspectiva, podemos afirmar, então, que as lembranças dos indivíduos
– as memórias autobiográficas -, suas histórias são importantes? Elas podem responder à questão
fundamental: Quem sou? Esses são os temas que se interlaçam – memórias e identidades – e colocá-
los no plural tem também um significado, que ficará mais claro no desenvolvimento do livro.

A partir dos conceitos já abordados, constatamos que as memórias autobiográficas, nossa história,
são constituídas pelas memórias de longa duração, consolidadas, e que podem ser recuperadas. Elas
possuem uma dimensão subjetiva e socioafetiva; são tanto individuais como coletetivas
considerando-se as fontes e reservas culturais dos grupos humanos. Assim como os indivíduos são
constituídos por suas lembranças, nossa cultura e história podem ser considerados o acervo dos
costumes e dos acontecimentos sociais, econômicos e políticos que, cronologicamente organizados,
formam as bases das sociedades que vivemos. É a história e memória dos povos.

P.15 A experiência nos mostra que, a partir da memória autobiográfica nas histórias narradas, e
muitas vezes escritas, podemos, usando a linguagem, refletir, compreender, reorganizar e
ressignificar essas trajetórias e projetos de vida-trabalho, nossas e de outros, articulando as
memórias individuais e coletivas, dando-lhe um sentido-significado. Essa história, que é nossa e dos
grupos aos quais pertencemos, diz-nos quem somos, auxilia e fortalece nossa identidade, ilumina
nosso caminho na busca de sentidos para nosso ser-estar no mundo.

P.16 E o “ato de dar sentido a vida” pode ser feito a cada momento por qualquer pessoa,
independentemente de sua idade, sexo, classe social, nível de escolaridade, etc. E com essa
perspectiva, incorporamos a Educação como disciplina, e a interdisciplinaridade como atitude
perante o saber, que se agrega a outras já mencionadas, ampliando a reflexão sobre o tema.

Como vimos, cada memória é única, tem a marca e é constitutiva de nossa identidade, fazendo
parte, simultaneamente, das comunidades restritas ou ampliadas das quais participamos: ligando-
nos também as memórias comuns, sócio-históricas. Ao trabalharmos com as histórias dos sujeitos,
como narrativas, ficam evidentes as lembranças individuais entrelaçadas as memórias coletivas,
também como parte da memória histórica que as contextualiza.

Ao serem relatadas e escritas, as narrativas autobiográficas tornam-se histórias compartilhadas, da


qual somos os protagonistas, por meio do instrumento “nobre” de nossa humanização, que é a
linguagem. É por meio delas que estabelecemos os contatos intersubjetivos, formando nossas redes
de relações, base constitutiva da humanidade e, portanto, dos grupos comunitários e da sociedade. É
na e pela palavra que dizemos quem somos, dos nossos afetos, dos medos, dos sonhos e projetos.
Damos “vida” ao imaginário da cultura, relatamos a partir do presente “uma verdade” possível e
construímos o “mito” do herói – nos mesmos. “Re-significamos” a identidade e a história,
projetamo-nos em realidade e fantasia para um futuro em linguagem, realidade e ficção,
perspectivas enriquecedoras, que permitam a vida e nos constituem como sujeitos históricos.

CAPÍTULO 1
Memória(s): um tema em discussão
P.19 O termo memória – no singular e no plural – refere-se, segundo as definições acima, à
faculdade de lembrar e de conservar o passado e, também aos relatos que descrevem esse passado
(re)vivido, pressupondo, assim um narrador. Surgem como sinônimos os termos: recordação,
lembrança e, segundo alguns autores, reminiscência, revisão de vida, autobiografia, narrativa e
história oral. Cada um desses termos, mais que sinônimos, indicam-nos tentativas de classificar e
organizar essas manifestações em torno das memórias, especialmente destacadas no processo de
envelhecimento, mas que não dão conta da complexabilidade inerente aos temas – memória e
envelhecimento.

P.22 […] A partir dessa afirmação, podemos construir o elo entre cultura e memórias
autobiográficas, pois, por meio delas, nas narrativas, teremos acesso a esse discurso, oral e
simbólico, realizado no e do interior dos grupos, e que pode desvelar as diversidades e
subjetividades dos indivíduos no processo de construir essa trama de significados ao longo da vida.

p.23 Fazemos aqui outro parêntese, pois, no caso dos novíssimos celulares, podemos abrir-nos para
um “futuro-hoje”, no qual o indivíduo já não só é receptor dessa avassaladora massa de
informações. Ele pode ser o produtor não só da própria “narrativa-história-verdade”, por meio das
memórias sociais, autobriográficas, mas também do registro imediato das imagens/cenas que
comporão seu (e nosso) acervo de lembranças para o futuro. E o que será selecionado e/ou
deletado? Essa questão abre o horizonte para uma reflexão crítica a respeito do tema memória
social, considerando a complexidade do mundo atual. […]

Abordamos acima a ambivalência entre sensações de homogeneização – o que mistura e procura


igualar – e de fragmentação – que estilhaça, segmenta e divide – como sentidas na sociedade de alta
tecnologia, de consumo e de mudança acelerada em que vivemos.

Observamos que a homogeneização se faz presente, especialmente, devido às possibilidades de


intercomunicação planetária imediata, influenciando modas e modos de comportamento. Essa
possibilidade, simultaneamente, une – ampliando os horizontes de informação e conhecimento e nos
faz tripulantes e responsáveis por esta “espacionave Terra” - mas, também, afasta e discrimina,
podendo gerar uma sensação de estranhamento, exacerbar diferenças e gerar preconceitos. Por um
lado, temos essa sensação de homogeneização-fragmentação; por outro, a força das narrativas,
como busca de compreensão interna dos grupos e das culturas, ampliando o discurso humano. […]

P.24 Como afirma Balandier, “(…) a atual temporalidade está tão composta quanto estilhaçada”
(Idem, p.171), e nela o tempo é o do instante, um ciclo que permanece inacabado, com a
valorização do efêmero, que também propicia a fragmentação. A sobrecarga de informações, aliada
à aceleração sentida do tempo, “embaça” os conteúdos”, pontos de referência e muitas vezes as
identidades. […]

P.25 No cenário do tempo acelerado, fragmentado e instável, como encontrar respostas positivas às
questões até aqui abordadas? A impressão é que, no tempo estilhaçado, o homem não encontra nem
reconhece sua trajetória, nem as condições e indicações necessárias à percepção e identificação com
seu tempo de vida e na elaboração de projetos futuros. Mas se considerarmos essa perspectiva
dinâmica de tempos e memórias, podemos vê-los como fonte e reserva das culturas e identidades
dos grupos humanos. Se somos aquilo que lembramos e esquecemos, vislumbramos novos
caminhos e aberturas para reflexão e compreensão de como se constrói uma cultura, no seu sentido
amplo, e como nelas as memórias, nos tempos, podem ser uma “antídoto” ante o “desencadeamento
da existência” nesse panorama complexo da “modernidade líquida” - leve, fluida, dinâmica, mas
incerta – termo utilizado pelo sociólogo Zygmunt Bauman (2001)