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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA - UEFS

ANA GRAZIELY DIAS COSTA


PSICOLOGIA 4° SEMESTRE

Fichamento do texto “A transferência de Freud a Lacan” e “ A transferência. O sujeito


suposto saber” de J. Miller presente no livro Percurso de Lacan: uma introdução

No texto “A transferência de Freud a Lacan” Miller explicita o conceito de


transferência perpassando pela multiplicidade do termo presente nas obras de Freud até a
acepção do Sujeito Suposto Saber como pivô da transferência introduzida por Jacques Lacan,
objetivando definir este último. Assim, a “[...] transferência é o termo que conceitua [...] o
modus operandi da psicanálise, a mola mestra da cura, seu motor terapêutico e o próprio
princípio de seu poder.[...] (p.55). Sem transferência não há análise.
Miller pontua ainda que “[...] se a técnica psicanalítica evolui [...] é porque o
inconsciente mesmo evolu i[...]” (p.57), logo o que era a arte de interpretar se transforma na
necessidade de analisar as resistências, sendo que o próprio analista passa a fazer parte do
inconsciente do analisando por isso pode “modificá-lo”: “ “[...] o inconsciente está estruturado
como uma linguagem, e que a intervenção do psicanalista no inconsciente é de tal natureza
que pode modificá-lo.[...]” (p.57).
O sujeito suposto saber não está presente nas obras de Freud, mas para Lacan, é ele
quem articula os fenômenos produzidos durante a transferência, sendo a partir da suposição
do saber do analista que a análise será construída. Assim atua como articulador das 3 formas
de transferência freudiana: a transferência com a função de repetição, com função de
resistência e identificada com a sugestão.

“[...] A primeira transferência freudiana corresponde aos tropos da transferência. [...] o


desejo se apodera de formas errantes que nada valem em si mesmas, que foram despojadas de
significação que funcionam separadas de sua significação primeira, no fundo funcionam como
letras, e isso é o que se compreende melhor a partir da teoria lacaniana.[...]” (p.59)

A primeira forma de transferência é caracterizada pelo deslocamento de sentido.


Acaba-se dando um certo grau de importância a determinados elementos que quando
interpretados se revelam de natureza secundária, para negar aquelas que são de fato
importantes. Culmina-se pois nos chamados fenômenos lacunares: o sonho, o chiste, o lapso.
Mas é após o caso Dora que isso será melhor desenvolvido “[...] a transferência [...] se produz
quando o desejo se aferra a um elemento muito particular que é a pessoa do terapeuta. [...]”
(p. 59). Ou seja, liga-se o desejo a figura, ao significante do analista; o psicanalista então,
“[...] imanta as cargas liberadas pelo recalque[...]” (p. 60) já que este ocupa um lugar na
economia psíquica do analisando, ele (analista) também é uma formação inconsciente e vai
agir dando uma significação aos significantes presentes na bagagem do indivíduo.

“[...] A análise se faz, em certo sentido, graças à transferência e, em outro sentido,


apesar da transferência [...]” (p.62)

Ao apresentar a segunda forma da transferência fica explícito seu caráter ambíguo: de


um lado a análise movida pela repetição (o analista é capturado na série psíquica do
analisando ocupando uma posição que já existia outrora) e do outro interrompida pela
resistência. A transferência tem também “[...] uma função, pode-se dizer, de tampa para
associações inconsciente [...]” (p.62). A transferência como resistência faz com que o
analisando “fuja” do momento de encarar a verdade por trás do próprio sintoma, “fuja” da
análise; é por isso que o analista deve ser paciente. No momento em que há “[...] o combate
entre libido do paciente e a demanda do analista [...]” (p.64) fica estabelecido o motor da
análise, a transferência adquire aqui um caráter de alavanca e pode ser de dois tipos:
transferência negativa e transferência positiva, sendo esta última classificada como erótica
(não convém para análise) e a amável (a mais indicada para análise), a qual permite “[...]
operar no paciente por sugestão [...]” (p.64)
Dessa forma a transferência de sugestão é traduzida pela influência do analista sobre a
pessoa em questão. Miller fala ainda sobre a neurose de transferência definida como “[...] a
doença artificial própria da psicanálise [...]” (p.65), nela os sintomas adquirem uma nova
significação pois se dirigem ao Outro, que no caso é a figura do analista, por isso este
consegue operar sobre o sintoma.
“[...] A transferência é quando a repetição triunfa sobre a exigência de recordar e
verbalizar que o psicanalista fórmula. O psicanalista pede, mediante a “associação livre”, a
rememoração. A transferência opõe, à rememoração, a repetição.[...] (p.66)

O analista só consegue operar sobre o sintoma do analisando mediante a associação


livre, na qual emergem os conteúdos inconscientes, com o intuito deste rememorar aquilo que
foi recalcado “à pedido” do Eu, por isso a repetição triunfa sobre a rememoração. E por meio
do amor do analisando, o analista fica no centro das repetições.
Até então a transferência era marcada como tendo traços polimorfos, “[...] Lacan
funda a transferência [...] como uma consequência imediata da regra fundamental da
psicanálise [...] “ (p.69) sendo o sujeito suposto saber “[...] o princípio constitutivo da
transferência; depois sobre esse fundamento, pode produzir-se toda a diversidade de
fenômenos que acompanhamos em Freud. [...]” (p.69).

“[...] A estrutura da situação analitica coloca, em primeiro lugar, o analista como


ouvinte, ouvinte do discurso que ele estimula no paciente, posto que o convida a se entregar a
ele sem omitir nada [...]” (p.72). O analista não atua apenas de forma passiva, e sim
interpretando aquilo que ouve, é ele quem tem o “[...] poder sobre o sentido [...]” (p.73) do
discurso. Sua escuta, deve então, ultrapassar, ir além desse discurso. É a partir da associação
livre que a transferência começa a ser estabelecida, por meio dela o paciente busca descobrir a
si mesmo e para tanto faz uso da palavra, por isso o ouvinte deve ficar em silêncio.
O Sujeito Suposto Saber “[...] é um efeito da situação análitica [...]” (p.75). A posição
de ouvinte do analista e o convite ao analisando para às associações livres fazem demonstrar o
grau de importância da fala deste último, o analista tem uma demanda: “[...] a demanda de
dizer o que não quer dizer nada, estando sempre seguro de que isso vai querer dizer alguma
coisa [...]” (p.78) e assim o analisando acha que o mesmo possui o saber sobre sua demanda.
No entanto esse saber está no inconsciente. “[...] a transferência tem nesse sentido um caráter
ilusório[...]”(p.76). Quando permanece em silêncio o analista frustra o desejo do analisando.
A transferência é tida para Lacan como uma forma de amor (o analisando deseja ser
amado pelo analista), é o traço que une os três aspectos elencados por Freud:
transferência-repetição, transferência-resistência, transferência-sugestão. A resistência se
instala porque o sujeito possui o desejo de manter seu desejo
É importante ressaltar que ser colocado no lugar de sujeito suposto saber não significa
que o analista deve se identificar com esse lugar, seu desejo deve ser o de o analisando
descobrir que não existe sujeito suposto saber, é o de “[...] não se identificar com o Outro, de
respeitar o que Freud em sua linguagem chama de individualidade do paciente, não ser um
ideal, um modelo, um educador, e sim deixar espaço para a emergência do desejo do
paciente”[...] (p.89)

REFERÊNCIAS
MILLER, Jacques-Alain. (1984a) “A transferência de Freud a Lacan”, In: Percurso de
Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p.55-71.
______. (1984b) “A transferência: o sujeito suposto saber”, In: Percurso de Lacan:
uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p.72-89.