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ROBERT WEAVER SHIRLEY


Profesaor Adjunto da Univenlidade Federal do
Rio Grande do Sul

ANTROPOLOGIA
JURíDICA

1987
polêmico: forçar o leitor a examinar os dogmas do estudo jurídico for-
mal à luz das ciências sociais e demonstrar algumas alternativas antropo-
lógicas. Também por esta razão foi empregado o estilo anglo-americano
de uso extensivo de casos ilustrativos. Esperamos que o leitor considere
este material interessante, e, talvez, um pouco "inquietante".
O primeiro agradecimento deste prefácio vai para Dalmo de Abreu
Dallari, a quem este livro é dedicado. Seu apoio nos possibilitou minis-
trar o curso original e escrever este livro. Também externamos nosso re-
conhecimento a Albert Bildner por financiar o curso, assim como ao pes-
soal do USIS do consulado americano. Outros que nos auxiliaram no O QUE É
curso foram Eunice Aparecida de Jesus, Daisy Prado, Silvino da Silva e
Benedito Freire. Somos grato a todos eles. ANTROPOL OGIA?
Queremos manifestar gratidão a João José de Oliveira Veloso por
traduzir para o português os nossos rabiscos em inglês, e a Diana Maria
Noronha, pela revisão do texto, com a constante assistência de Jorge "A antropologia é o estudo do homem e seus traba-
lhos através do tempo e do espaço." ,
. Barbosa de Oliveira. De uma forma menos direta , mas não me-
Gustavo
nos Importante, agradecemos a Margarida Maria Moura, Roberto Kant "A antropologia é a mais humana das ci~ncias ea
de Lima, Paulo Mariano Rodrigues e Kevin Bourassa pelo interesse con- mais cientHica das humanidades. "
tínuo e pelo conselho de pesquisar a antropologia jurídica. "Antropologia é o que os antropólogos fazem. "
As falhas deste trabalho, entretanto, são da nossa inteira responsa- "Antropologia IJ8da mais é do que sociologia compa-
bilidade e de mais ninguém. rada. "
. Ao Vanderlei e ao Humberto Calloni nosso muito obrigado pela da-
tilografia do texto final. Estendemos por derradeiro, nossos mais caloro-
S?S agradecimentos àqueles estudantes do curso do Largo de São Fran-
CISCO;seu interesse, espírito crítico e criatividade nos foram extremamen- Todas estas definições da antropologia, feitas pelos próprios antro-
te estimulantes. Foi, na verdade, uma das melhores experiências acadê- pólogos, são verdadeiras, pois refletem as distintas facetas da disciplina.
micas da nossa vida e esperamos que a publicação destas palestras conti- A antropologia é uma ciência ao mesmo tempo social e natural; devido
nue a estimular o interesse por elas demonstrado. o enorme alcance de sua função -:- o estudo do homem - é quase um
mpo sem fronteiras; um mar de conhecimentos. A antropologia física,
Robert Shirley uma de suas subdivisões, estuda a genética humana, a fisiologia e a bio-
logia, bem como os parentes evolutivos do homem - os primatas. A ar-
Porto Alegre, 1983.
queologia, outra das subdivisões da antropologia, pesquisa a origem e a
volução da raça humana, não somente a evolução biológica, mas tam-
bém a social. A lingüística antropológica deriva do estudo de línguas não
e critas e tem dado contribuições notáveis à psicologia, à história e à na-
tureza do conhecimento humano.
Os antropólogos são, todavia, provavelmente mais conhecidos pelo
e tudo dos povos "exóticos", povos que ainda vivem ou mesmo que vi-
veram até recentemente em formas de vida tribais e tradicionais. Este es-
tudo de sociedades simples e sem lingua escrita é a grande tradição da an-
tropologia social e cultural.
Como se desenvolveu uma disciplina de âmbito tão amplo, diante da
e pecialização crescente do conhecimento nesta época moderna? A res-
po ta pode ser encontrada na sua própria história. A antropologia come-

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çou como o estudo de povos sem uma tradição escrita e este fato obrigou britânico, Sir Stamford Raffles, que fundou a cidade de Cingapura. O~-
os antropólogos a tentarem entender a língua, a economia, a religião, a tro foi o de Lord Lugard, o fundador da Nigéria. A Ingl~terra produziu
mitologia, as leis e mesmo a biologia de um povo como partes de um to- centenas desses imperialistas eruditos que, por razões práticas, às vezes, e .
do e não como fragmentos estanques. O antropólogo teve de se tornar utras, românticas, vieram a estudar e conhecer povos de todo o mund~,
um generalista ao invés de um especialista, mesmo quando seus interesses viver com eles e em muitos casos, escrever sobre eles. O exemplo mais
eram mais centralizados. famoso foi o de' Lawrence da Arábia, que se tornou mais árabe do que
A antropologia, como o estudo sistemático de culturas diferentes inglês.
das do pesquisador, é uma disciplina muito antiga. Com um pouco de es- Porém nos Estados Unidos da América o problema imperial foi ~e-
forço, poder-se-ia remontá-Ia a Heródoto, ou mesmo ao grande historia- nos sério. Os povos nativos da América do Norte e do norte do MéXICO
dor chinês Sima Quan, que viveu há centenas de anos antes de Cristo, po- não eram muito numerosos e tinham sido dizimados pelas doenças euro-
rém a maioria dos antropólogos reivindicaria uma história mais recente, péias muito antes da expansão ao oeste do país. Exceto em poucas áreas
de pouco mais de um século. A antropologia moderna, na nossa opinião, i oladas dos planaltos centrais (onde o General Custer fora derrotado pe-
tem três temas, todos importantes para a compreensão da disciplina, e I nação Sioux), os índios americanos raramente oferec~ram q~alquer sé-
que podem ser chamados de tema pragmático, tema romântico e tema ria ameaça à expansão dos Estados Unidos. Apesar dISSO,fOI fundado
cientifico. m 1864, em parte por razões científicas, mas com vistas ~o controle pa-
O pragmatismo pincelado de romantismo é a verdadeira base da an- cifico dos povos nativos do oeste, o Departamento Amencano de Etno-
tropologia social. Desenvolveu-se como um subproduto do expansionis- logia (Bureau of American Ethnology), comandado pelo General John
mo da Europa imperial no século passado. As nações européias, princi- Wesley Powell.
palmente a britânica, a espanhola, a francesa, a holandesa e a portugue- Este tema prático (o imperial) da história da ~tropolo~i~ é um fato
sa, viram-se efetivamente com o domínio e a conquista de enormes áreas ocial e econômico. Entretanto, isto não deve sugenr uma c~ltlca ~oral a
e de milhões de pessoas de quem quase nada sabiam. Os primeiros impé- toda disciplina, nem mesmo à maioria dos antropólogos, m~luslve aos
rios, o espanhol e o português, confiaram o papel de conhecer e com- missionários, da época. Aqui, deve-se reconhecer ~ importância do. tema
preender esses povos conquistados à Igreja Católica Romana. Os missio- romântico na antropologia. Embora muitos estudiosos e missionários de
nários, principalmente os jesuítas, realizaram mesmo numerosas pesqui- então aceitassem a visão do "fardo do homem branco" ou de trazer a
sas antropológicas. Houve até um instituto de estudos astecas, fundado "civilização" aos ."primitivos" , muitos outros se torn~am. profunda-
na cidade do México logo após a conquista espanhola em 1521. mente envolvidos com o povo que estudaram e, na prática, vieram a ser
Existe, porém, uma distinção fundamental entre o papel de um mis- defensores impetuosos de sua independência cultural. Esta é também
sionário e o de um antropólogo. O missionário vem ensinar a ideologia e uma característica comum aos antropólogos modernos. Pode-se. notar
a fé européias a um povo não-europeu. O antropólogo vem aprender o que alguns foram além das pesquisas para s~rem incorporados à t~lbo es-
que esse mesmo povo tem para ensinar a si e à sua própria sociedade. O tudada. No Brasil, vários antropólogos aceitaram a VIda dos nativos. O
interesse do missionário é essencialmente pragmático, embora tenha ha- famoso Kurt Nimendaju manteve várias famílias nativas além de sua fa-
vido exceções muito valiosas. Ele procura conhecer um povo a fim de milia "oficial" no Rio de Janeiro. Um caso célebre foi o do professor
mudá-Io e, na maioria dos casos, dominá-Io. Devido a esta profunda Frank Cushing, da Universidade de Colúmbia, que após alguns .anos de
contradição dentro do campo missionário, muitos de seus elementos an- pesquisa intensiva sobre a religião dos índios Zuni, do Novo MéXICO,tor-
tropológicos, assim como o instituto acima citado, foram finalmente re- nou-se realmente um sacerdote Zuni - queimou todas as suas ~otas de
primidos, especialmente quando os missionários mais profundamente pesquisa de campo e Jamais voltou a Nova Iorque. Este romantismo da
envolvidos começaram a defender esse mesmo povo contra os próprios antropologia, o fato de poder compreender e conhecer bem outros po-
interesses imperiais que o sustentavam. Esta foi uma das principais ra- vos, tem sido uma de suas mais belas características.
zões da expulsão dos jesuítas da América Latina no século XVIII. Contudo, não se deve esquecer que a antropologia é também ~ma
Os britânicos, franceses e holandeses estavam, contudo, muito me- ciência natural e descritiva da língua e da vida de outros pov.os, e ainda
nos interessados na religião que no comércio. Não é por acaso que mui- uma ciência comparativa que tenta compreender todas as SOCiedadeshu-
tos dos maiores antropólogos vieram desses países. Alguns dos melhores manas.
antropólogos do século XIX estavam abertamente a serviço do governo Talvez seja correto dizer que a antropologia como ciência e profis-
imperial. Por exemplo, um dos mais completos estudos já realizados so- são surgiu no começo deste século, tendo como precursores Franz Boas,
bre a história e a sociedade da ilha de Java foi feito pelo seu governador nos Estados Unidos, e Bronislaw Malinowski, na Inglaterra. Boas parti-

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cipou da primeira grande expedição antropológica organizada com fina- IIIb te em guerras locais, ou tiram cabeças de seus inimigos como tro-
lidade especificamente científica - a "Jessup North Pacific Expedition" oPorém, como regra geral, o método tem muita força, já que o pes-
- para est~dar os povos da costa noroeste do Pacífico, do Canadá e do dor científico, ao conviver com um povo.jem que se envolver em
Alasca. MaIS tarde, voltou para ocupar a primeira cadeira de antropolo- vidas, seus problemas, temores, crenças e aspirações. O antropólo-
gia numa universidade americana - a Universidade de Colúmbia, em nvolve uma dupla visão de vida, torna-se multicultural. De certo
Nova Iorque. Seus alunos formam a maioria na lista dos grandes antro- 0, converte-se no que estuda. Esta "experiência antropológica" é a
pólogos americanos da geração passada: A. L. Kroeber Melville Hers- r' do pesquisador do campo e ela muda sua personalidade para sem-
kovits, Ruth Benedict, Ralph Linton, Margaret Mead etc. Muitos deles o A experiência de viver numa outra cultura, com o objetivo de apren-
fundaram departamentos de antropologia em todo o pais. Boas era aci- t cultura, tem efeitos profundos nas pessoas que dela participam.
ma de tudo, um cientista formado em física que exigia muito de seu; dis- Ir uma original é hoje bastante conhecido como "choque cultural" -
cípulos, sempre com a visão de que a antropologia devia tentar ser tão ri- m di túrbio intenso que pode durar vários meses ou eventualmente não
gorosamente científica quanto possível. p recer de todo. A experiência de uma pesquisa científica extensa
Por outro lado, Malinowski foi o criador do método científico es- ,,() ó permite ao antropólogo aprender uma outra cultura, mas tam-
sencialmente fundamental na antropologia - o da observação partici- m, em muitos casos, faz com que ele esqueça ou questione os dogmas
pante. Por uma série de razões, durante a Primeira Guerra Mundial ele u própria cultura.
viveu cerca de quatro anos nas ilhas Trobriand, no sul do Pacífico. Lã es- te ~ um outro preceito antropológico desenvolvido pelos fundado-
tud?u meticulosamente quase todos os aspectos da vida desse povo mela- d antropologia moderna: a negação do etnocentrismo.
n~sJO:a produção econômica e o câmbio, a vida familiar, a religião, os
nuto~ e até a poesia. Tendo voltado à Inglaterra após a guerra, aceitou a O etnocentrismo é simplesmente a crença firme na verdade da pró-
cadeira de antropologia social da Universidade de Londres e lá permane- prl cultura de alguém. Cultura, no sentido antropológico, é o conjunto
ceu até sua morte, em 1941. Sua influência proveio não somente de sua LJ c nhecimentos, crenças e valores de uma sociedade. Todas as pessoas
extrema dedicação como professor, mas também de sua extraordinária r em aprendendo uma cultura. O etnocentrismo é a idéia de que a
habilidade em escrita. Da experiência adquirida com os habitantes das própria cultura e crenças de cada um são "a verdade" ou, pelo menos, a
ilh~ Trobriand, surgiu uma série de livros clássicos em antropologia, to- 11I neira superior de lidar com o mundo. É perfeitamente natural acredi-
dos unpressos ate hoje: Argonauts of the western Pacific, Coral gardens t r que aquilo que lhe foi ensinado quando criança, sua religião, seus va-
and their magic, The sexual life of savages in North Western, A cientific lor ,seus modos de conduta são os melhores, os mais corretos e verda-
theory of eulture e Crime and custom in savage society, Só os títulos já d Iros, e que a cultura de outros povos é errada, supersticiosa e inferior.
refletem o alcance de seu interesse como antropólogo e pesquisador cien- M os fundadores da antropologia ensinaram que o etnocentrismo é fal-
tífico do campo. () que todas as culturas são, em geral, iguais, que nenhuma cultura ou
Esse dois homens, Franz Boas e Malinowski, muito diferentes em ( iedade possui o monopólio da verdade e que, de qualquer forma, to-
experiências e temperamento - um, judeu-alemão formado em física; d elas merecem respeito.
outro, ~m polonês expatriado formado em matemática, porém em mui- A destruição do etnocentrismo (a certeza sobre a verdade da própria
t~s sentidos um aventureiro --:-criaram a ciência moderna da antropolo- ultura de alguém) e a aceitação da validade de outras culturas, de outros
gra como matéria universitária e incentivaram e patrocinaram muitos es- modos de vida e de outras crenças, foram ensinamentos dos fundadores
tudos e pesquisas. Embora suas idéias diferissem em muitos aspectos, d ntropologia moderna, que são aceitos pela maioria dos antropólogos
ambos ensinaram certas idéias fundamentais que se tornaram preceitos d hoje. O próprio método do trabalho antropológico cientifico, incluin-
básicos da antropologia moderna. do longos períodos de convivência com membros de uma outra cultura,
O pri~eiro desse~ preceitos é o método da observação participante, d trói o etnocentrismo do pesquisador. O conhecimento de que existem
desenvolvido por Malinowski, que requer um longo período de convivên- utros meios de fazer certas coisas, outras maneiras de pensar, de falar,
cia (um ano, no mínimo) com o povo a ser estudado. A observação parti- outras leis e regras, elimina a confiança natural de uma pessoa na própria
cipante implica que um antropólogo não apenas observe uma outra cul- cultura. É por isso que a experiência antropológica é tão perturbadora e
tura, mas se torne realmente envolvido na vida diária do povo aprenda o mesmo tempo tão gratificante. O antropólogo perde a certeza de sua
sua língua e aceite seus costumes. Certamente há limites para ~ grau em própria cultura, porém ganha profunda consciência de uma outra.
que um antropólogo possa ou deva tornar-se membro de uma outra cul- Ele se torna menos um cidadão de uma nação e mais um cidadão de
tura. Por exemplo, poucos se casam dentro de uma cultura ou travam muitas nações. Isto é tão belo quanto assustador, já que significa que o

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m dernos. Esta ênfase sobre o "primitivo" limitou o campo e foi
antropólogo não mais pertence à sua própria sociedade. Ele passa a ser, 111 de muitos erros em trabalhos posteriores.
de uma forma bem real, profissionalmente marginalizado. Mas, no senti- ) primeiro dos antropólogos a dar reconhecimento especifico à co:
do humanista, torna-se mais desenvolvido. Pertence ao mundo. I o entre as sociedades pequenas e simples e os Estados modernos .fOl
O próprio fato de o antropólogo conhecer profundamente mais de oh ri Redfield (Tepoztlan: a Mexican village, a study of folk ~lfe,
uma cultura e sociedade é o elemento predominante do campo como I O). que desenvolveu uma nova metodo~ogi~ de estud~ das co~umda-
ciência. Um outro elemento introduzido pelos fundadores da antropolo- rurais dentro de um Estado maior. Primeiro no México e mais tarde
gia moderna foi o conceito de comparação controlada. Esta sugere que li 'hina, ele pesquisou sobre as vilas rur~s com? po.rt.s?~ieties.;Desse
através do conhecimento de muitas culturas e sociedades pode-se chegar I iod ,libertou a antropologia de sua tradição de pnrmtlVlsmo, ~ d~s-
a um entendimento mais cientifico do gênero humano em geral. A antro- obrlu um novo campo extensivo para pesquisa. Fez também a útil dis-
pologia provou que muitas "leis" nas ciências sociais eram em si mesmas I nt; entre a sociedade e cultura da elite urbana e ~ ~pones.a rural,
etnocêntricas e eliminou vários preconceitos inerentes à visão européia lU • m suas próprias palavras, entre a "grande tradição das Cidades e
do mundo. Esta talvez tenha sido a maior contribuição da antropologia .: quena tradição" do campo. É interessante obse~ar que Redfield,
às ciências sociais. Hoje, em qualquer campo - da psicologia e da edu- m como Boas e Malinowski, é hoje severamente criticado por não ter
cação à ciência politica - a perspectiva multicultural desenvolvida pelos I l onhecido a relação de poder e autoridade que o Estado mantém sobre
antropólogos é muito importante. Num mundo cada vez mais complexo, omunidade rural. Esta critica é devida ao seu primeiro trabalho no
a visão multicultural pode ser essencial à sobrevivência humana. xlco. Contudo, nos estudos posteriores sobre a China, Redfiel.d exa-
Os fundadores da antropologia moderna introduziram um elemento 11I IIOU explicitamente os problemas dó comércio e do p~der na ~ocleda~e
final: a focalização da atenção dos antropólogos sobre sociedades de pe- 1111 1 sendo esses trabalhos infelizmente pouco conhecidos hoje em dia.

quena escala e de tecnologia simples - as chamadas "primitivas". Na Durante a década de 30 e até o presente, o campo da antropologi.a
realidade, a última sociedade verdadeiramente primitiva provavelmente I 111- e desenvolvido constantemente. Antropólogos como Edward Sapir
tenha desaparecido há 30.()()() anos com o Neanderthal. Tanto Boas co- (/.anguage, an introduction to the ~tud~ 01 s~ech, ~921-1~54), foram fi-
mo Malinowski usaram o termo "primitivo" (ou, no caso de Malinows- ur fundamentais na criação da ciência da lingüística. PSicólogos como
ki, "selvagem") não no sentido de que pensassem que Ospovos que eles bram Kardiner (The individual in his society, 1956) e antropólogos co-
estudaram eram biológica ou mesmo culturalmente inferiores às socieda- IJIO Margaret Mead (Coming 01 age in Sam~a, 1928) dedicaram-se à
des modernas, pelo contrário, tinham profundo respeito por eles. Con- pr ciação da personalidade e da cultur~ e abriram nov.as áreas no estu-
tudo estavam interessados em estudar povos com tecnologias e estruturas 10 da educação comparada. As pesqwsas antropológ.tcas torna.ram-se
politicas relativamente simples e independentes, tanto quanto possivel, 11 trumento fundamental para se compreender a organização social. Es-
das forças econômicas e politicas dos impérios modernos. Desse modo, lud de religião e de mitologia transformaram-se numa grande ~ea de
divergiam acentuadamente dos antropólogos dos séculos anteriores. Seu JI quisa. Enquanto estudo de produção e de troca, a antropologia e~o-
interesse era realmente cientifico ao invés de prático. Eles não tiveram a nõmica, iniciada por Malinowski, tem sido sensivelmente des~nvolvlda
intenção de dominar os povos que estudaram, porém de entendê-los cien- JI r antropólogos como Raymond Firth (Ma!ay flSher'!len, th~,r pe~ant
tificamente (com uma insinuação de romantismo em Malinowski). Mas, -conomy, 1946) e por marxistas como Maunce Goudher (R~clOnalldade
em última análise, o esforço para achar tais povos "primitivos" isolados irracionalidade na economia, 1975). A escola estruturalista .francesa
fracassou. Ainda em 1914, quando Malinowski começou seu trabalho I i da por Claude Lévi-Strauss abriu mui~ áre~ novas na análise estru-
cientifico, tendo Boas realizado o seu há uma década, o número de socie- tur 1 do parentesco, da linguagem e da mitologia. Toda~ elas t.êm~ado
dades verdadeiramente independentes em qualquer parte do mundo era r nde contribuição à ciência social bem como ao humanismo científico.
muito limitado; hoje, praticamente inexistem. Recentemente, os antropólogos começaram 'a examinar o fe?Ô~eno
Ainda persiste em antropologia a tradição de pesquisa em socieda- urbano. Este trabalho envolve várias instituições urbanas, como Igrejas e
des simples, porém com a crença de que estudando-se-as, facilita-se a outras organizações religiosas, fábricas e até ~col~ de s~ba (da ~a~ta,
compreensão das mais complexas. Todavia, por muitos anos os antropó- arnavais, malandros e heróis; para uma SOCiologiado dilema brasileiro,
logos procuraram ignorar o fato de que a maioria dos povos que pesqui- 1979; Velho, A utopia urbana, 1973; Oliven, Urbanização e mudança so-
savam era de fato dominada ou pelo menos solidamente influenciada pe- dai no Brasil, 1980). Há também estudos sobre bairros e outros gru~os
los Estados e culturas ocidentais. Eles tentaram recriar uma cultura "pu- urbanos. Como Roberto da Matta já observou, os antropólogos tem
ra" e "tradicional", indagando sobre o passado e ignorando os elemen-
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uma tradição de estudar povos ignorados pelas outras ciências sociais:
favelados, mendigos, índios e outros povos nativos forçados a morar em
c~dades. A antropologia, assim, tenta dar voz àqueles que são pouco ou-
vidos.
Par~e possível dizer agora que as velhas raizes pragmáticas da an-
tropologia como elemento de dominação imperial estão sendo gradual-
mente substituídas pela antropologia como ciência. Ainda mais que o
Código de Ética da Associação Americana de Antropólogos proíbe ao
antropólogo profissional participar de qualquer atividade que possa tra- O QUE É
zer prejuízo ao povo que ele pesquisa. Isto não quer dizer que não possa
se esforçar para ajudar tal povo em suas relações com a sociedade mo-
d~rna ou me~mo nas lutas, para que sobrevivam às provações da moder-
ANTROPOL OGIA
nização. HOJe, esta é uma das mais nobres e úteis tarefas da antropologia
moderna, contanto que seja feita a pedido e com apoio das pessoas e não
LEGAL?
de uma maneira paternalista e dominante.
Deste modo, a linha pragmática do campo tem sido modificada
n,tas a ~déi~de domínio está sendo substituída pela de cooperação, e a as: Para examinarmos os conceitos de antropologia legal, de,:em~s ~is-
sistência ainda não desapareceu. A antropologia como ciência social utir primeiro o problema do direito em si. Para um estudante ao direito,
tem-se tornado mais vigorosa, com novas técnicas e novos métodos de questão é relativamente simples: uma.lei é uma regr~ropos pelas_or-
pesquisa, c0n,t0 o estruturalismo, a lingüística, a arqueologia, a econo- nizações próprias ao Es~o. Geralmente é uma legislação com apro-
mia, a biologia e a genética. Mas ainda nela persiste a linha romântica e v ç o do Executivo e dos poderes judiciários. Para. o antr~pólogo e o ~o-
provavelmente nunca d.esaparecerá. O mundo é extremamente complexo 610go, a lei é algo muito mais complexo. O cientls~ S~I~ não está m-
para que a antropologia se transforme numa ciência exata num futuro t re sado apenas nas regras formais específicas e nas mstltwçOes do Esta-
previsível. . do, porém em todo o padrão das normas, e nas sanções que ':Ilantêm.a
irdem social e que permitem a uma sociedade funcionar. As leis formais
A antropologia - o estudo das sociedades exóticas - tem sido sem- d Estado são somente um elemento desse padrão. De fato, o assunto da
pre um assunto de romantismo e apesar de todas as técnicas modernas a ntropologia legal clássica é exatamente o do direito "primitivo" , que é
maioria dos antropólogos é basicamente humanista. Na realidade a~- lei nas sociedades simples e sem escrita, onde o Estado é ausente ou
tropologia como ciência tende a dar um grau de objetividade e rigor, bem
como controle de observação, ao que ainda é uma arte - a de ser antro- muito distante.
pólogo. Com esta pequena introdução, podemos começar a examinar a Thomas Hobbes e muitos doutores da lei ensinaram que o Estado é
relação entre a antropologia e o direito. um elemento necessário para garantir a ordem social. De acordo com a
filosofia de Hobbes (Leviathan, 1968), sem o poder coercitivo do Estado
vida seria "grosseira, bruta e breve" na "guer~a de todo~ contra
lodos". A antropologia moderna provou q~e ~sta VIS~Oda s~ledade é
m grande parte falsa. Muitas sociedad~ eXlStlr~ e aI~da eXls~emsem
qu isquer leis escritas, ou poder burocrático, ou violência organizada do
I. tado. Isto não significa que essas sociedades não tenham regras ?u
n rmas sociais, nem quer dizer que não há mecanismos de co~trole SOCial
u sanções contra aqueles que infringem essas regras. Todavia esses ~e-
c nismos existem em outras instituições que não o Estado e, o que é am-
d mais importante, estas instituições continuam a funcionar mesmo na
moderna sociedade urbana.
Há muitas regras e costumes dentro de qualquer sociedade, que não
o leis formais mas que mesmo assim as pessoas obedecem. Isto é, nor-
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