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500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE

Um chamado à revitalização da Igreja

A propósito dos 500 anos da Reforma Protestante, comemorados em 2017, é oportuna e


sugestiva uma revisão da história e dos postulados teológicos desse importante
movimento. Para continuar sua missão proclamadora e atuar como força
transformadora, na implantação dos valores do reino de Deus no mundo, a igreja
contemporânea não pode prescindir da herança reformada. A celebração dos 500 anos
da Reforma é um chamado à revitalização da Igreja.
A revista que você tem em mãos contém uma primeira parte que focaliza a
história da igreja cristã, desde a Era Apostólica, passando pela Alta Idade Média, indo
até à Baixa Idade Média. Como bem escreveu Earle E. Cairns, “o presente é certamente
o produto do passado e a semente do futuro. Paulo nos lembra em 1 Coríntios 10.6,11
que os eventos do passado devem nos ajudar a evitar o mal e imitar o bem. O estudo da
Igreja Católica Romana na Idade Média revelará o perigo do eclesiasticismo
contemporâneo que parece insinuar-se no Protestantismo. Novas seitas aparecem
geralmente como velhas heresias travestidas. (...) A ignorância da Bíblia e da história
da Igreja é a razão principal por que muitos enveredam por falsas teologias e por
práticas erradas.” (O Cristianismo através dos séculos, Vida Nova, p.20).
A segunda parte da revista focaliza os acontecimentos do século XVI, com a
eclosão da Reforma e seus desdobramentos imediatos. Um enfoque especial é dado à
contribuição dos principais líderes do movimento no referido período.
A última parte da revista apresenta um resumo da teologia reformada, com a
explanação dos famosos “Cinco Solas da Reforma”.
Para prosseguir sua caminhada, na condição de “Igreja Reformada e sempre se
reformando”, é imprescindível que o povo de Deus, hoje, conheça ou recorde a história
e a teologia desse movimento que, há 500 anos, sob a direção do Espírito, vem
produzindo transformações na vida de homens e mulheres, em culturas, povos e nações.
É com alegria que a DIDAQUÊ disponibiliza esse material histórico, o que faz
na expectativa de que o mesmo seja uma relevante contribuição em favor da
revitalização da Igreja.

Fraternalmente,

Rev. Eneziel Peixoto de Andrade – Editor


Enildes Rosa Queiroz Andrade – Gerente Comercial
ÍNDICE

1. A constituição da Igreja
2. A expansão da Igreja
3. A institucionalização da Igreja
4. A deterioração da Igreja
5. Movimentos reformistas
6. A Reforma Protestante do século XVI
7. A expansão da Reforma e a Contrarreforma Católica
8. “Sola Scriptura” – Somente a Escritura
9. “Solus Christus” – Somente Cristo
10. “Sola Gratia” – Somente a Graça
11. “Sola Fide” – Somente a Fé
12. “Soli Deo Gloria” – Glória somente a Deus
13. “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est” – Igreja Reformada
sempre se reformando
Bibliografia sugerida
Filmes sugeridos
01 - A constituição da Igreja
Mateus 16.13 a 20

LEITURA DA SEMANA
SEG - Gênesis 12.1-9
TER - Deuteronômio 26
QUA - Salmo 100
QUI - Atos 1
SEX - Atos 2.1-40
SAB - Atos 2.41-47; 4.32-37
DOM - I Pedro 2.1-11

Não é um equívoco nem um exagero afirmar que a origem da igreja remonta aos
primórdios da criação, embora a sua constituição tenha passado por diferentes estágios.
Partindo do pressuposto que a igreja é o povo de Deus, separado do mundo e reunido
em torno do Senhor para adoração e serviço, concluímos que a semente do que se
entende por igreja remonta aos nossos primeiros pais, criados para a glória de Deus e
os primeiros responsáveis pela Missio Dei – a missão de Deus no mundo. Naquele
momento, a missão consistia em encher a terra e administrar as obras da criação (Gn
1.26-28; 2.15). Isso implicava em trabalho e descanso, relação familiar, convívio
amistoso com a natureza, sendo tudo feito para a glória de Deus e o desfrute do homem.
Já sob o impacto da Queda, a semente do que se denomina igreja brota em Abel
– “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta” (Gn 4.4). Posteriormente, essa
semente brota na linhagem de Sete, terceiro filho de Adão e Eva – “Tornou Adão a
coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque,
disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. A
Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a
invocar o nome do Senhor.” (Gn 4.25,26). Perpassando a descendência de Sete, chega-
se a Noé. Após o Dilúvio, percebe-se claramente que a ideia de igreja está enraizada
na prática de Sem e seus descentes (semitas), sobretudo, Abraão, o pai dos hebreus.
Como observa Herman Bavinck, “Deus permitiu que as nações seguissem seus próprios
caminhos, e com Abraão e sua descendência, estabeleceu uma aliança, que também
separava externamente a igreja do mundo por meio do sinal da circuncisão e foi
confirmada ao pé do monte Sinai e elevada ao nível de aliança nacional.” (Dogmática
Reformada, vol. 4, Cultura Cristã, p. 281).
Assim, Israel tornou-se o povo chamado por Deus para a adoração, o serviço e
o testemunho perante as nações.
TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. O embrião da igreja
O antigo Israel é o embrião da igreja cristã. A história da igreja cristã está
visceralmente ligada à prática religiosa judaica.
Nas palavras de Bavinck, “em Israel, a igreja e o Estado não eram idênticos.
Havia uma diferença entre o sacerdote e o rei, o templo e o palácio, as leis religiosas e
as civis. Não obstante, os dois estavam tão estreitamente unidos que cidadãos e crentes,
a nação e o povo de Deus, coincidiam, e uma só lei divina controlava toda a vida de
Israel. (...) No entanto, depois do exílio, a existência nacional de Israel sofreu uma
mudança importante. Os judeus deixaram de ser um povo como os outros povos da terra
e se tornaram uma comunidade religiosa. Em toda cidade, dentro e fora da Palestina,
assembleias de crentes se reuniam no Sabbath (Sl 74.8; At 15.21) para lerem a Torá e
serem instruídas nela. O componente primário do culto conduzido ali era o ensino (Mc
1.21; 6.2). Para os judeus, esses encontros se tornaram cada vez mais o centro de sua
vida religiosa e, nas cidades de população mista ou predominantemente grega,
adquiriram uma organização independente. O templo de Jerusalém, de fato, continuou a
existir e ainda era honrado como localização da presença especial de Deus, embora os
judeus da diáspora adquirissem gradualmente um culto que tomava forma sem o templo
e o altar, o sacerdócio e os sacrifícios e consistia totalmente em pregação e oração.
Foram essas assembleias que, no tempo do Antigo Testamento, lançaram o alicerce
para a futura comunidade eclesiástica cristã.” (op. cit., p. 283-284).
Essas assembleias, identificadas pelo termo grego sunago̅ge̅, ocorriam em
casas denominadas “sinagogas”. Os cristãos, por sua vez, passaram a chamar suas
reuniões de ekkle̅sia (igreja). No Novo Testamento, Israel é substituído pela igreja de
Cristo, a “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de
Deus” (I Pe 2.9).

2. O fundamento da igreja
Após a solene confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt
16.16), Jesus faz uma importante declaração acerca da constituição da igreja cristã:
“sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela.” (Mt 16.18).
A igreja não é propriedade cultural de Israel, ela é de Deus. Não é um projeto
apenas nacional, é universal. Não é mera adaptação e continuação do judaísmo; é um
projeto concebido por Deus e levado a cabo por Cristo, que a comprou com o seu
próprio sangue (At 20.28; Tt 2.11-14).
Sobre a confissão de Pedro e a declaração de Jesus, Bavinck afirma: “As
palavras ‘esta pedra’ só podem se referir à pessoa de Pedro, mas ele é e demonstrou
ser uma pedra por meio de sua confissão de Jesus como o Cristo, uma confissão que ele
devia não a si mesmo, mas à revelação do Pai. Precisamente por essa razão, Jesus
prometeu a Pedro que edificaria sua igreja sobre Pedro como o confessor da filiação e
do messianismo de Jesus. Cristo, consequentemente, apresentou-se como o construtor
de sua igreja e Pedro, o confessor, como a pedra sobre a qual sua igreja se apoiaria. A
mesma imagem ocorre em Mateus 21.42; Atos 4.11; I Coríntios 3.10; Efésios 2.20;
Apocalipse 21.14 (cf. I Pe 2.4-6), mas é aplicada de forma diferente. Ali os apóstolos
são vistos como os construtores que, por meio de sua pregação, basearam a igreja sobre
Cristo como seu fundamento, mas aqui, em Mateus 16.18, Cristo é o construtor que
edifica sua igreja sobre Pedro, o confessor. Cristo também cumpriu sua promessa.
Pedro é o principal dos apóstolos, o principal fundador da igreja, o exemplo e o líder
de todos os confessores de Cristo ao longo dos séculos. Por essa razão, ele é sempre
mencionado primeiro nas listas dos apóstolos (Mt 10.2; Mc 3.16; Lc 6.14; At 1.13) [...]
Depois da ascensão de Jesus como primeira testemunha entre os discípulos, Pedro
ocupou o lugar central (At 1.15; 2.14; 3.1ss.; 4.8ss.; 5.3ss., 29ss.; 8.14; 10.5ss.; 12.3ss.;
15.7ss.) e também foi honrado por Paulo como o primeiro entre iguais (Gl 1.18; 2.7-9).
(op. cit., p.343-344).
Pedro não é a pedra fundamental da igreja. Ele é uma pedra entre as pedras
sobre a pedra principal, que é Cristo. Cristo é a pedra angular ou “pedra de esquina”, a
pedra que amarra e sustenta os lados do edifício (Is 28.16; Lc 20.17; I Pe 2.6).

3. A eclosão da igreja
A ekkle̅sia cristã, que teve o seu núcleo inicial com Jesus e os doze, logo após a
ascensão do Senhor já contava com umas 120 pessoas. Porém, coisas extraordinárias
estavam por acontecer na vida da igreja:

A promessa de Jesus (At 1.4,5) – Após a ressurreição, Jesus apareceu


durante quarenta dias aos discípulos. Em sua última aparição, ordenou-
lhes que permanecessem em Jerusalém para que esperassem a promessa
do Pai. A promessa consistia no derramamento do Espírito Santo sobre
eles (At 1.8). No passado, Joel já havia profetizado acerca desse tempo
especial de manifestação da graça de Deus (Jl 2.28-32).

O cumprimento da promessa (At 2.1-4) – Conforme prometera Jesus,


por ocasião do Pentecostes o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos de
forma extraordinária. Tomados de grande poder, puseram-se a falar em
outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Pedro
tomou a palavra e declarou: “o que ocorre é o que foi dito por intermédio
do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que
derramarei do meu Espírito sobre toda a carne [...] E acontecerá que todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (At 2.16-21).
Com grande unção, Pedro passou a pregar a Cristo, falando sobre sua morte,
ressurreição e senhorio. A mensagem penetrou o coração de aproximadamente 3.000
pessoas, provocando grande quebrantamento espiritual (At 2.37-41).

A consolidação da igreja (At 2.42-47) – Após a eclosão relatada no


segundo capítulo de Atos, a ekkle̅sia cristã nunca mais seria a mesma.
Cultivando sincera devoção e profunda comunhão, a igreja estava
consolidada e experimentava contínuo crescimento.
Em Atos 4.32 a 37, Lucas resume as experiências da comunidade nascente,
falando de uma multidão, uma só alma, grande poder, testemunho da ressurreição do
Senhor Jesus, abundante graça.

DISCUSSÃO

À luz deste estudo, que elementos constituem a base para a edificação e o crescimento
da igreja?
02 - A expansão da Igreja
Atos 13.1 a 3

LEITURA DA SEMANA
SEG - Atos 5.12-42
TER - Atos 6
QUA - Atos 7
QUI - Atos 8
SEX - Atos 9.1-31
SAB - Atos 9.32 – 10.48
DOM - Atos 11

Após o Pentecostes, a comunidade dos discípulos de Jesus tomou forte impulso.


Os apóstolos pregavam com grande poder; sinais e prodígios eram realizados; muitas
pessoas se convertiam a Cristo e juntavam-se à comunidade.
Em virtude do fortalecimento daquele movimento, Pedro e os demais apóstolos
começaram a sofrer ameaças por parte das autoridades judaicas (At 4.15-21). Diante da
intensificação das ameaças, não esmoreceram; pelo contrário, tornaram-se ainda mais
intrépidos no anúncio da palavra (At 4.29-31). Não obstante as ameaças, “crescia mais
e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor.” (At
5.14).
Após o martírio de Estêvão, um diácono da igreja, levado a cabo pelo Sinédrio
(conselho religioso judaico), grande perseguição se levantou contra a igreja em
Jerusalém. Mas os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra (At 8.4).
Nesse ínterim, deu-se a conversão de Saulo, um dos mais temidos perseguidores
dos seguidores de Jesus, chamados “os do Caminho” (At 9.1-30). A partir daí
sobreveio um tempo de paz para a igreja (At 9.31).
Alguns que eram de Chipre e de Cirene foram até Antioquia e falavam também
aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com
eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor. Em Antioquia, foram os discípulos,
pela primeira vez, chamados cristãos (At 10.19-26). Antioquia haveria de se tornar uma
forte base missionária para a evangelização mundial.

TÓPICOS PARA REFLEXÃO


A notável expansão da igreja naqueles dias está vinculada a três fatores principais:

1. O impacto das conversões


A partir do Pentecostes, quando quase 3.000 pessoas se converteram a Cristo,
uma onda de conversões tomou conta de Jerusalém.
Após descrever o estilo de vida dos primeiros convertidos, caracterizado por
perseverança, temor, desprendimento e companheirismo, Lucas conclui com o seguinte
relato: “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia os que iam sendo salvos.”
(At 2.42-47). Em Atos 4.4, o evangelista já fala de quase 5.000 discípulos. Em 5.14,
volta a dizer: “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como
mulheres, agregados ao Senhor.” Em 6.7, relata que “crescia a palavra de Deus, e, em
Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes
obedeciam à fé.” Em 9.31, apresenta um resumo da situação geral da igreja que, a essa
altura, já havia se espalhado de Jerusalém para a Judeia, a Galileia e Samaria. O relato
é positivo e, uma vez mais, aponta para a vitalidade da igreja, expressa na paz, na
edificação, no temor do Senhor, na assistência do Espírito Santo e na quantidade
crescente de conversões.
Essa quantidade impressionante de conversões, com certeza, provocava um
forte impacto na sociedade. Os convertidos assumiam um estilo de vida marcado por
vida simples, comunhão fraternal, pureza moral, alegria e lealdade a Cristo. Esse estilo
de vida despertava admiração e interesse nos que estavam fora e acabava por atrair
cada vez mais gente. Por outro lado, irritava as autoridades judaicas, que logo tomaram
providências com o fim de deter o avanço daquele movimento (At 4.1-21).

2. O impacto das perseguições


Conforme Atos 5.7 a 42, novamente as autoridades judaicas agiram, lançando
em prisão alguns dos apóstolos. Eles foram miraculosamente soltos pelo anjo do
Senhor, sem que as portas da prisão tivessem sido arrombadas. Como continuavam a
pregar, foram conduzidos perante o Sinédrio, interrogados, açoitados e proibidos de
pregar, mas “não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo.” (vv.40-42).
Mais tarde, o Sinédrio condenou o diácono Estêvão. Era homem “cheio de
graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.” (At 6.8). Perante as
autoridades, fez uma explanação da história da redenção, desde Abrão até Cristo,
denunciando as perseguições movidas por eles e seus antepassados contra os profetas
do Senhor. “Eles, porém, clamando em alta voz, taparam os ouvidos e, unânimes,
arremeteram contra ele. E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram.” (At 7.57,58).
“Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos,
exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria.” (At 8.1).
Nos três primeiros séculos, os cristãos sofreram várias perseguições. Havia
momentos de paz e tranquilidade, mas também tempos de intensas perseguições.
Inicialmente, aconteceram as perseguições movidas pelas autoridades religiosas
judaicas. Foram tão intensas sobre os cristãos de Jerusalém, a ponto de quase aniquilar
aquela igreja. Depois vieram as perseguições imperiais, as quais atingiram cristãos
espalhados por várias partes do Império. As perseguições imperiais tiveram início com
imperador Cláudio (41-54 d.C), que expulsou os cristãos de Roma. Continuaram com
Nero (54 a 68 d.C.), que os acusou de um incêndio que devastou 10 dos 14 bairros de
Roma, no ano 65. Tornaram-se mais intensas sob Domiciano (81 a 96), que proibiu
totalmente o culto cristão e renovou o decreto que obrigava todos os cidadãos ao culto
do imperador. Diminuíram com Trajano (98-117). Reiniciaram com muita violência no
governo de Marco Aurélio (161-180), durando 15 anos e fazendo muitos mártires. Sob
Décio (249-251), estenderam-se por todo o Império. Foram reforçadas por Diocleciano
(284-305), superando as anteriores em violência.
Apesar de todas as adversidades, o estilo de vida dos primeiros cristãos
caracterizava-se por amor fraternal, zelo e pureza moral, contentamento e alegria, uma
firme esperança quanto à volta do Senhor e a firme disposição para o martírio.
Conclui-se, portanto, que as perseguições acabaram cumprindo papel
importante no sentido de depurar a igreja e promover sua expansão. Por vezes, Deus
permite que venham as adversidades, a fim de levar a cabo os seus propósitos (I Pe
4.12-19; I Ts 3.1-5; Ap 2.10).

3. O impacto das missões


Além dos fatores já apresentados, é incontestável o fato de que a notável
expansão da igreja naqueles dias estava vinculada a seu reconhecido fervor
missionário.
Os que foram dispersos iam por toda parte pregando o evangelho (At 8.4-8).
Chegaram até à Fenícia, Chipre e Antioquia; e, segundo o relato de Lucas, “a mão do
Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor.” (At 11.19-26). A
igreja foi tomada de um grande ímpeto evangelístico. Antioquia tornar-se-ia a grande
base missionária para a evangelização mundial.
A proclamação do evangelho, que antes estivera limitada aos judeus, em
Jerusalém, agora se expandia, alcançando também os gentios. Um dos mais notáveis
evangelistas foi Filipe, que pregou e estabeleceu igrejas nas cidades costeiras de Gaza,
Jope e Cesareia (At 8.4-40). Outro grande reforço que a caminhada missionária da
igreja ganhou foi o recém-convertido Saulo de Tarso, ex-perseguidor da igreja, cujo
nome foi mudado para Paulo, o qual viria a se tornar o “apóstolo dos gentios” (At 9.1-
30; 11.25-30). Pedro foi a Cesareia de Filipos pregar e, lá, pode ver o derramamento
da graça de Deus sobre os gentios (At 10; 11.1-24).
Herodes tentou se levantar contra a igreja, fazendo passar ao fio de espada a
Tiago, irmão de João, e prendendo a Pedro. Porém, o anjo do Senhor libertou Pedro e,
mais tarde, feriu a Herodes de morte (At 12.1-23). “Entretanto, a palavra do Senhor
crescia e se multiplicava.” (At 12.24).
Um dos mais significativos relatos de Lucas está em Atos 13.1 a 3. A partir daí,
uma nova página se abre na história da igreja, com as grandes viagens missionárias de
Paulo (de 44 a 58), narradas a partir do capítulo 15 até o final do livro de Atos. Ao
mesmo tempo, vários outros evangelizavam em outras partes da Bacia do Mediterrâneo
e noutras regiões distantes. Milhares de missionários anônimos, certamente, foram
usados pelo Senhor nessa obra.
O impacto das missões foi decisivo para a rápida e abrangente expansão da
igreja. A igreja estava consolidada e expandia-se sem parar. Segundo o historiador
Robert H. Nichols, “pelo ano 100 d.C. havia igrejas em inúmeras cidades da Ásia
Menor e em muitos lugares da Palestina, Síria, Macedônia e Grécia, em Roma e Puteoli
(na Itália), em Alexandria, e, provavelmente, na Espanha.” (História da Igreja Cristã,
Cultura Cristã, p.20).

DISCUSSÃO

O que falta à igreja, hoje, para alcançar maior expansão tanto geográfica quanto entre
os diversos segmentos da sociedade?
03 - A institucionalização da Igreja
Tito 1

LEITURA DA SEMANA
SEG - Atos 6.1-6
TER - Atos 15.1-34
QUA - Atos 20.13-36
QUI - Efésios 4.1-16
SEX - I Timóteo 3
SAB - I Pedro 5
DOM - I João 4

A igreja da era apostólica não chegou a conhecer uma rígida estrutura


hierárquica e jurisdicional. A estrutura era bem simples e funcional, sendo que cada
comunidade local possuía liberdade e autonomia administrativa, não estando, portanto,
subordinada a nenhum tipo de estrutura eclesiástica.
O funcionamento das comunidades baseava-se no modelo implantado em
Jerusalém, que iniciou com os apóstolos cuidando da direção geral da comunidade e
dedicando-se especialmente ao ministério da palavra, auxiliados pelos diáconos, que
proviam socorro aos necessitados (At 6.1 a 6).
O governo das comunidades era local ou regional e funcionava de forma
independente, sendo supervisionado por um bispo ou um colegiado de presbíteros (At
14.23; Fp 1.1; I Tm 3.1; Tt 1.5).
Não havia um sistema de jurisdição eclesiástica abrangente como conhecemos
hoje. Foi somente a partir do início do século IV que começou a haver uma estruturação
eclesiástica de caráter jurisdicional mais ampla.

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. A organização e funcionamento das comunidades locais


Em síntese, a estrutura organizacional das igrejas nos primeiros séculos incluía
os seguintes ministérios:
Pregação e ensino (ministério exercido pelos apóstolos, por profetas,
evangelistas e mestres). Referências a eles podem ser encontradas, por exemplo,
em Atos 6.1 a 4; 13.1; 15.6, 32; 16.4; 21.8; I Coríntios 15.9; Efésios 4.11, etc. Eles
desfrutavam de grande credibilidade; e sua autoridade era reconhecida por todas
as comunidades cristãs.
Tiveram importante atuação nesse sentido, os chamados Pais da Igreja, os
responsáveis pela teologia que se desenvolveu a partir do ensino apostólico. Estes são
alguns dos principais representantes: (século I: Clemente de Roma, Inácio de
Antioquia, Policarpo de Esmirna e Papias; século II: Justino Mártir, Taciano, Aristides
e Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia, Irineu de Lyon; século III: Clemente de
Alexandria, Cipriano, Tertuliano de Cartago, Panteno, Hipólito de Roma e Orígenes;
século IV: Eusébio de Cesareia, Atanásio, Basílio de Cesareia, Jerônimo, Teodoro de
Antioquia, Agostinho de Hipona, Cirilo de Alexandria, Ambrósio e Crisóstomo).
A produção teológica desses Pais da Igreja é conhecida como “Patrística”.
É bem verdade que, ao ser submetido ao crivo da teologia reformada, esse
legado teológico apresenta algumas discrepâncias. É preciso entender que toda
elaboração teológica tem os seus limites. Contudo, não se pode negar o valor do
trabalho por eles empreendido, visto que abriram caminhos e lançaram bases para
construções teológicas e doutrinárias posteriores. Os reformadores do século XVI
beberam nessas fontes.
Pastoreio (ministério exercido por um bispo ou um colegiado de
presbíteros). Estes se dedicavam especialmente ao cuidado pastoral, exercendo a
disciplina e administrando os sacramentos, bem como a superintendência da
igreja. As palavras “bispo”, “presbítero” e “pastor” são títulos que designam
praticamente o mesmo ministério. Na verdade, o bispo era um presbítero como os
demais, mas que ocupava uma posição de primazia. Referências a esses
encarregados do pastoreio e da administração da igreja são encontradas, por
exemplo, em Atos 14.23; 15.6; 20.28; Efésios 4.11; I Timóteo 3.1 e 2; 5.17; Tito
1.5; Tiago 5.14; I Pedro 5.1 a 3, etc.
Diaconia (ministério exercido por diáconos, os quais cuidavam da
beneficência em favor dos necessitados da comunidade). Referências a eles são
encontradas, por exemplo, em Atos 6.1 a 3; Filipenses 1.1; I Timóteo 3.8, etc.
Segundo João Calvino, há outros ministérios citados na Bíblia e encontrados na igreja
da era apostólica, mas que são temporários. No entendimento do ilustre teólogo, “dois
tipos de ministério, porém, sempre persistem: o governo e o cuidado dos pobres. Opino
que ‘governadores’ fossem os anciãos do povo, escolhidos para prestarem assistência
aos bispos na censura dos costumes e manutenção da disciplina. Não podemos, de fato,
interpretar de outro modo o que ele diz: ‘Quem preside, faça-o com diligência’ (Rm
12.8). Por isso, desde o início, cada igreja contava com seu conselho, constituído por
homens piedosos, austeros e santos, os quais, como logo veremos, estavam revestidos
de jurisdição para corrigir os vícios. Que semelhante ordem não tenha sido temporária,
mostra-o a própria experiência. Portanto, devemos concluir que o múnus do governo
será sempre necessário. O cuidado devido aos pobres foi entregue aos diáconos. [...]
Os apóstolos, escusando-se de que não podiam prover os dois ofícios, a saber, o
ministério da Palavra e o serviço das mesas, pediram à multidão que escolhesse sete
homens virtuosos aos quais se entregasse o serviço das mesas. Ora, tais foram os
diáconos da Igreja apostólica, e tais nos convém tê-los agora.” (Institutas da Religião
Cristã, Tomo II, Livro IV, Unesp, pp.507-508).
Conforme o ponto de vista de Calvino, e sua própria prática em Genebra, os ofícios que
têm vigência permanente devem ser assim compreendidos:
Pastores – encarregados da pregação, assistência espiritual e
administração dos sacramentos.
Presbíteros – encarregados do governo e da disciplina.
Mestres – encarregados do ensino e doutrinação.
Diáconos – encarregados da assistência aos pobres e doentes.
Os três primeiros ofícios têm a ver com o governo da igreja; o último ofício tem a ver
com o cuidado dos necessitados. Esse entendimento se contrapôs fortemente ao sistema
eclesiástico vigente no período medieval, significando uma volta ao modelo encontrado
nas comunidades do Novo Testamento.

2. A estruturação geográfica e política da igreja


No ano 312, se deu a “conversão” do imperador Constantino (285-337). Essa
conversão é bastante questionada, pois muitos acreditam que tenha sido apenas uma
estratégia política. Em 313, Constantino assinou, juntamente com Licínio, que
governava no Oriente, o famoso "Edito de Milão". Esse decreto punha fim a toda a
perseguição religiosa, proclamava o Cristianismo como religião legal e concedia plena
liberdade religiosa a todos os habitantes no Império. Com o novo status concedido aos
cristãos, as discussões teológicas e doutrinárias passaram a ser tradas como questão de
Estado.
Em 325, realizou-se o Concílio de Niceia, na Turquia, convocado por
Constantino. Foi um concílio fortemente manipulado pelo imperador. Nesse concílio,
organizou-se a cristandade sob a liderança de cinco patriarcas (bispos), a saber: o de
Jerusalém; o de Antioquia (na Síria); o de Alexandria (no Egito); o de Constantinopla
(atual Istambul, na Turquia); e o de Roma, que foi se tornando proeminente entre os
demais. Pode-se dizer que aí está o marco histórico do surgimento da chamada “Igreja
Católica Apostólica Romana”.
A partir de então, a igreja tornou-se parte do sistema que governava o mundo e
foi-se embrenhando pelos caminhos da política e dos interesses materiais e temporais.
Pouco a pouco, foi-se distanciando dos caminhos trilhados nos primeiros séculos da era
cristã, abandonando o seu estilo de vida, visão e missão.

3. A transformação do Cristianismo em religião oficial do Império


No ano 380, o imperador bizantino, Teodósio (347-395), tornou o Cristianismo
a religião oficial do Império Romano, consolidando a política adotada por Constantino.
Mais do que tornar o Cristianismo a religião do Estado, o decreto determinava a
perseguição aos que professavam outra fé. Isso fez com que muitos entrassem para a
igreja sem que fossem convertidos, conservando suas superstições e outros erros e,
consequentemente, enfraquecendo o padrão de vida cristão.
Em 533, o imperador Justiniano promulgou um decreto, que entrou em vigor em
538, o qual elevava o bispo de Roma à condição de cabeça de todos os bispados do
Império.
O poder eclesiástico centralizado em Roma consolidou-se a partir de 590, com
Gregório I (540-604), que posteriormente passaria a ser considerando um dos maiores
papas, tornando-se conhecido como “Gregório Magno” ou “Gregório, o Grande”. Foi
hábil administrador e um líder comprometido com a causa dos pobres e perseguidos.
Conquistou a confiança de todos e tornou-se a autoridade mais respeitada na Itália de
então. Foi o primeiro a fazer uso frequente do termo Servus servorum Dei ("Servo dos
servos de Deus") como título papal. É reconhecido como o último dos quatro grandes
Pais da igreja latina, que inclui: Ambrósio, Agostinho e Jerônimo.
Com o fortalecimento crescente do papado, a igreja conquistou a hegemonia
religiosa e política, distanciando-se aos poucos dos princípios do santo evangelho. De
serva, transformou-se em senhora; de igreja perseguida, em igreja perseguidora. A essa
altura, os interesses temporais já começavam a falar mais alto que a tradição
apostólica, ditando as aspirações e os rumos da igreja.

4. Os outros cristãos
É interessante registrar aqui a existência das outras tradições cristãs, a saber:
Cristãos coptas – São os descendentes dos antigos egípcios, que se
converteram ao Cristianismo no século I. Hoje, são cerca de oito milhões de
cristãos (10% da população egípcia), divididos em três grupos: 90% dos coptas
pertencem à Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, nativa do país; os cerca de
800.000 restantes estão divididos entre a Igreja Católica Copta e a Igreja
Protestante Copta.
Além dos cristãos coptas, há outras igrejas cristãs antigas, que se separaram de
Roma por volta do século V, por não aceitarem as definições cristológicas do Concílio
de Calcedônia (451). São elas:
Igreja Ortodoxa Síria – Tem raízes apostólicas, tendo sido fundada,
segundo a tradição, em 34, na cidade de Antioquia, pelo apóstolo Pedro. Está
concentrada na Síria, Turquia, Iraque e Índia, mas tem muitos fieis espalhados
pelo mundo, inclusive no Brasil;
Igreja Apostólica Armênia – Também tem raízes apostólicas. A Armênia
foi a primeira nação do mundo a declarar-se cristã, o que se deu em 301. A Igreja
Apostólica Armênia reúne hoje cerca de nove milhões de fiéis (Obs.: não é a
mesma denominação, também da Armênia, chamada Igreja Católica Armênia);
Igreja Ortodoxa Indiana – Segundo a tradição, foi fundada por Tomé, que
teria chegado à Índia em 52, onde instituiu a igreja e sofreu o martírio em 72;
Igreja Nestoriana – Foi um grupo liderado por Nestório, Patriarca de
Constantinopla (428–431). Apesar da divergência de compreensão da natureza de
Cristo, eram crentes sinceros e cheios de zelo missionário. Foram para a Pérsia e
depois se espalharam pela Arábia, Curdistão, China e Índia. Os cristãos
nestorianos formam hoje um grupo pequeno, sendo que muitos voltaram ao
catolicismo no século XVI;
Igreja Ortodoxa – Reivindica ser a mesma instituição anunciada
por Jesus e considera seus líderes sucessores dos apóstolos. Resultou do Cisma
do Oriente ou Grande Cisma, em 1054, sendo herdeira da cristandade do Império
Bizantino. É formada por uma comunhão de igrejas e conta com cerca de 250
milhões de fiéis, concentrados em países da Europa Oriental. As maiores igrejas
locais são a russa e a romena.
Esses grupos cristãos (com exceção do último) aceitam apenas os três primeiros
concílios: Concílio de Niceia (325), Concílio de Constantinopla (381) e Concílio de
Éfeso (431).

DISCUSSÃO

Quem são os verdadeiros cristãos?


04 - A deterioração da Igreja
Apocalipse 2.1 a 7

LEITURA DA SEMANA
SEG - Isaías 1
TER - Oseias 6
QUA - Gálatas 1
QUI - Gálatas 2
SEX - Gálatas 3
SAB - Gálatas 5
DOM - Apocalipse 22

Já no século I, conforme se vê no texto central deste estudo, muitos problemas


de ordem doutrinária e prática eram enfrentados pelas igrejas.
As tendências judaizantes (exigência de observância do cerimonialismo
judaico) e o docetismo (corrente de pensamento que negava a encarnação de Cristo e
ensinava que os aspectos de sua suposta natureza humana eram apenas aparentes)
colocavam em xeque a pregação apostólica e ameaçavam a estabilidade da igreja (Rm
1.1-4; I Jo 4.2; II Jo v.7). A partir do século II, a filosofia gnóstica (combinação de
tradições religiosas orientais, com filosofia grega e Cristianismo) também se tornou
uma grande ameaça à igreja, pois atacava pontos centrais da fé cristã.
Nas cartas do Apocalipse (Ap 2 e 3), o apóstolo João (o último dos apóstolos;
morreu por volta do ano 98) mostra que algumas das igrejas da Ásia Menor, já naquele
tempo, estavam ameaçadas. Esse é um risco que sempre ameaçou as comunidades
cristãs.
Contudo, muitas comunidades têm permanecido fieis à tradição apostólica. E há
sempre o apelo da parte do Senhor: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e
volta à prática das primeiras obras.” (Ap 2.5).

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

Muitos foram os fatores que ameaçaram a igreja. Alguns serviram para o seu
fortalecimento e a consolidação da fé cristã. Outros, porém, contribuíram para o
enfraquecimento e a perda das qualidades cristãs. Vejamos:

1. Ameaças internas – as heresias


A fé cristã foi ameaçada por concepções teológicas originadas dentro da
própria igreja, a saber:
Arianismo – Surgiu no século IV com um sacerdote norte-africano
chamado Ário, que resistia à doutrina da natureza divina de Cristo. Foi combatido
nos concílios de Niceia (325) e de Constantinopla (381), vindo a se enfraquecer.
Entretanto, Ulfilas, famoso missionário que evangelizou as tribos germânicas e os
visigodos do norte do Danúbio, ensinou amplamente um semiarianismo. “Somente
no fim do século VII a ortodoxia finalmente amorteceu o arianismo. Mesmo assim,
o arianismo renasceu na era moderna na forma do unitarismo extremado, e as
Testemunhas de Jeová veem em Ário um precursor de C. T. Russel.” (V. L.
Wlater, em Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vida Nova, vol.
1, p.107).
Apolinarismo – Surgiu no século IV com Apolinário, um jovem cristão
de rara inteligência e reconhecida piedade. “O apolinarismo foi o precursor das
grandes lutas cristológicas que lançaram Antioquia contra Alexandria, tendo Roma
por árbitro, e o resultado final foi o cisma monofisita permanente da cristandade,
depois do Concílio de Calcedônia, em 451.” (op. cit., p.98). O “monofisismo”
defende que Cristo tem uma única natureza: a divina. As igrejas ortodoxas
orientais têm hoje uma posição moderada, chamada “miafisia” ou “henofisitismo”,
uma fórmula cristológica que afirma que na pessoa Jesus Cristo, divindade e
humanidade estão unidas em uma única natureza: "sem confusão, sem mudança,
sem divisão e sem separação".
Nestorianismo – Surgiu no século V, com Nestório (bispo de
Constantinopla que estudou em Antioquia e abraçou as ideias de Teodoro de
Mompsuéstia). Combateu de forma ferrenha o arianismo. Porém, sua polêmica
com a Igreja se deu não em função da situação de Cristo na Trindade, mas em
relação à encarnação. Ele defendia que, tendo Jesus uma natureza divina e uma
natureza humana, Maria seria mãe apenas do Jesus humano, não podendo, portanto,
ser chamada de “Mãe de Deus”. Quanto à atribuição desse título a Maria, os
protestantes também discordam da posição católica.
Monofisismo – Doutrina sustentada por um monge de Constantinopla,
chamado Eutiques, no século V. Combateu implacavelmente o nestorianismo,
caindo no extremo de negar as duas naturezas em Cristo. Afirmava que a natureza
divina havia absorvido a natureza humana, anulando-a, portanto. Pode-se dizer que
as raízes do monofisismo estavam no antigo docetismo.
Esses embates resultaram, por um lado, em perdas na comunhão cristã; por
outro lado, significaram ganhos doutrinários. É uma pena, porém, que nem sempre tenha
sido possível seguir a verdade em amor (Ef 4.15,16).

2. A influência da herança pagã


Eram considerados “pagãos”, a partir do século II, todos os habitantes do
Império Romano que não professavam a fé cristã. Os outros não cristãos, que viviam
fora dos limites do Império, eram chamados “bárbaros”. O paganismo greco-romano
não se lançou com força contra o Cristianismo, pois já estava enfraquecido e recebeu o
golpe fatal com a transformação do Cristianismo em religião oficial do Império, a partir
de 538.
O problema é que, desde então, inúmeros pagãos passaram a professar a fé
cristã, sem que tivessem passado pela experiência da conversão a Cristo e sem nenhum
compromisso com os princípios da vida cristã. Essa prática de receber muitas pessoas,
de forma apressada e sem o devido preparo, se estendeu por toda a Idade Média.
Consequentemente, a saúde espiritual da igreja e o seu testemunho se tornaram cada vez
mais enfraquecidos. Faltava instrução bíblica, discipulado cristão e santidade cristã.
Isso favoreceu o desenvolvimento de todo tipo de superstições entre os crentes.
“O culto dos santos é um exemplo frisante dessa tendência. Era natural que se
tributasse veneração aos mártires e a outros homens e mulheres, famosos por sua
santidade. Para essa gente que estava acostumada aos deuses das suas cidades e aos
seus lugares sagrados e que não estava bastante cristianizada, a veneração dos santos
transformou-se rapidamente em adoração. Os santos passaram a ser considerados como
pequenas divindades cuja intercessão era valiosa diante de Deus. Os lugares onde
nasceram e viveram, passaram a ser considerados santos. Surgiram as peregrinações.
Começaram a venerar relíquias, partes dos corpos e objetos que pertenceram aos santos
e atributar a esses objetos poderes miraculosos. Tudo isso foi fácil para aqueles que
ainda persistiam nas superstições do paganismo.” (História da Igreja Cristã, Cultura
Cristã, p.51).

3. A sedução do mundanismo
Os acontecimentos históricos apontados no estudo anterior, referentes aos rumos
tomados pela igreja cristã a partir de sua institucionalização e o seu atrelamento ao
poder temporal, conduziram-na a uma situação de progressiva deterioração. A Igreja
foi adquirindo poder econômico e político e perdendo poder espiritual. Como já foi
dito, de serva, transformou-se em senhora; de igreja perseguida, em igreja
perseguidora. A essa altura, os interesses temporais já falavam mais alto que a tradição
apostólica, ditando as aspirações e os rumos da Igreja.
Embora houvesse nas comunidades locais muitos sacerdotes piedosos e
tementes a Deus; gente simples e fiel aos princípios cristãos, que buscava a santidade e
testemunhava; homens e mulheres generosos que exercitavam a sua fé por meio das
boas obras em favor dos necessitados; homens que dedicavam suas vidas à missão
evangelizadora; muitos outros que se entregavam à vida monástica em busca de
santidade... fato é que boa parte do clero estava mais preocupada com poder político,
riquezas materiais, prazeres carnais, ou seja, uma vida mundana. A Igreja agia no
sentido de se tornar uma instituição cada vez mais poderosa econômica e politicamente.
Ela já não podia mais dizer como Pedro, pois, agora, tinha prata e ouro, mas não tinha
mais poder espiritual (At 3.6).
Os historiadores informam sobre a degradação que, no período medieval, tomou
conta. Nichols, por exemplo, escreve: “Não é exagero afirmar que, por toda a Europa,
sacerdotes escandalosos superavam, numericamente, os de vida honesta. Não somente a
ignorância e o abandono dos deveres eram frequentes, mas também a vida luxuriosa,
grossa imoralidade, roubo e simonia, isto é, a venda dos ofícios eclesiásticos. O alto
clero não era melhor, talvez pior. A simonia era a maneira regular e reconhecida de se
obter um bispado; e para alguns deles havia preço fixo. Nem o papado ficou isento. Seu
estado por mais de 150 anos, a partir de 890, era vergonhoso, vil ao último grau. O
ofício que tinha sido tão elevado por Gregório I e Nicolau, passou por toda a sorte de
desgraças.” (op. cit., p.72).
A Igreja mergulhou numa situação deplorável, ocorrendo o que adverte
Provérbios 29.18: “Não havendo profecia, o povo se corrompe.”
DSICUSSÃO

Quais são as ameaças à igreja em nossos dias? Como enfrentá-las?


05 - Movimentos reformistas
II Timóteo 1

LEITURA DA SEMANA
SEG - I Timóteo 3
TER - I Timóteo 4
QUA - I Timóteo 6
QUI - II Timóteo 2
SEX - I Pedro 1
SAB - I Pedro 2.1-11
DOM - I Pedro 4

Chama-se Idade Média, o período da história europeia compreendido


aproximadamente entre a queda do Império Romano do Ocidente (476) e a conquista da
cidade de Constantinopla, pelos turcos, em 1453, pondo fim ao Império Bizantino. O
final da Idade Média foi determinado pela afirmação do capitalismo sobre o modo de
produção feudal, o florescimento da cultura renascentista e os grandes descobrimentos.
O período se divide em Alta Idade Média (da metade do séc. V até o séc. X) e Baixa
Idade Média (do séc. XI até meados do séc. XV).
A Idade Média teve muitos momentos de tumulto e anarquia, começando com o
colapso do Império Romano (476); as sucessivas ondas de invasão bárbara (séc. IV e
V); as invasões mulçumanas da Península Ibérica (a partir do séc. VIII); o Grande
Cisma do oriente (1054); transferência da sede do Papado de Roma para Avinhão, na
França (1309 a 1377); o Grande Cisma do ocidente (1378 a 1417); mortandade de um
terço da população da Europa vitimada pela peste bubônica, a “Peste Negra” (1348); a
Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra (1337-1453), etc.
A Idade Média foi um período longo e complexo, mas quase sempre tratado de
forma limitada e superficial, como se tivesse sido marcado somente por estagnação,
dificuldades e obscuridade. Na verdade, há aspectos positivos que precisam ser
reconhecidos e destacados. Resumidamente, alistamos aqui: a) o desenvolvimento da
arte sacra; b) o esplendor da arquitetura gótica; c) a valorização dos debates teológicos
(inicialmente nos mosteiros – teologia monástica; depois nos bispados e, por fim, nas
universidades). A teologia medieval é conhecida como “escolástica” e tem em Tomás
de Aquino (1225 – 1274) seu maior porta-voz. Tentava explicar a existência de Deus
por meio de provas lógicas, a Teologia Natural, tendo como referencial teórico o
aristotelismo. Sua obra magna é a Suma Teológica. Não se pode deixar de fazer
menção também a Pedro Abelardo (1079 – 1142), o mais revolucionário pensador da
Idade Média, que defendia o valor da lógica e da razão na investigação das verdades
cristãs. Sua história é retratada no filme Em Nome de Deus; d) ampliação da
oportunidade de estudo. O Concílio de Latrão III (1179) determinou às igrejas a criação
de escolas; e) desenvolvimento do conceito de estado nação; f) criação de
universidades a partir do séc. XII. “No tempo da Reforma havia oitenta e uma
universidades. Trinta e três destas tinham estatuto pontifício, quinze estatuto real ou
imperial, vinte tinham os dois, e apenas treze não tinham nenhuma credencial.”
(www.institutosapientia.com.br). Vê-se, portanto, que não é justo nem inteligente
reduzir a complexidade de tudo o que marcou a Idade Média, a esta frase tão batida:
“longa e trevosa noite”.
É fato triste, porém, que esse período foi marcado pelo abandono, por parte da
Igreja, dos mandamentos de Jesus. A Escritura tornou-se uma exclusividade dos
teólogos escolásticos; e a teologia mera especulação filosófica. As acusações que
pesam contra a Igreja nesse período têm a ver com o fato de que, sendo grande
proprietária de terras e de riquezas doadas pelos reis e pelos fiéis, adquiriu poder
econômico e uma ampla influência. A Igreja estava sempre no epicentro dos
acontecimentos, especialmente a partir do século XIII, que foi o ápice da Idade Média.
À frente dos domínios eclesiásticos, encontravam-se muitos bispos e cardeais que
agiam como senhores feudais, sem muito espírito cristão. As influências da Igreja eram
exercidas sobre a política, a economia, a ciência, as artes e a cultura. Ao final da Idade
Média, a Igreja estava mergulhada em profunda decadência espiritual. O mundanismo
tomara conta. A imoralidade sacerdotal era uma realidade conhecida por todos.
Dogmas antibíblicos foram criados e determinavam a conduta dos fiéis, conduzindo-os
ao erro. O culto às relíquias era mais e mais fomentado entre o povo. A exploração da
fé tornou-se prática comum, o modus operandi da Igreja. Enquanto isso, a repressão
levada a cabo de forma implacável pela Inquisição (tribunal instituído no início do séc.
XIII) sentenciava e tentava calar as vozes inconformadas.

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. Vozes que se levantaram clamando por reformas


Entre os chamados pré-reformadores, aqueles que denunciaram os desvios da
Igreja e clamaram por uma reforma religiosa, destacam-se:
Arnaldo de Bréscia (1100 – 1155) – Reformador da Lombardia (região
ao norte da Itália). Desafiou a igreja a abrir das riquezas e do poder temporal,
voltando à pobreza evangélica. Questionava a validade dos sacramentos
administrados por sacerdotes indignos, bem como a confissão aos sacerdotes. Foi
condenado à morte por enforcamento; depois seu corpo foi queimado e as cinzas
lançadas no rio Tibre;
Dante Alighieri (1265 – 1321) – Escritor, poeta e político italiano,
autor de A Divina Comédia. Foi condenado ao exílio perpétuo;
João Wycliffe (1324 – 1384) – Sacerdote, escritor e reformador inglês,
catedrático da Universidade de Oxford. Traduziu a Bíblia para o inglês. Só
escapou das ameaças de Roma porque desfrutava de grande apoio na corte e no
Parlamento;
João Huss (1373 – 1415) – Escritor, teólogo e reformador theco,
catedrático e reitor da Universidade de Praga. Foi condenado à fogueira,
juntamente com seus livros, pelo Concílio de Constança. João Huss morreu, mas
os seus ideais reformistas permaneceram vivos. Cem anos depois, entraria em
cena Martinho Lutero para promover a reforma sonhada por Huss;
Jerônimo Savonarola (1453 – 1498) – Monge dominicano em
Florença, Itália. Foi condenado à fogueira, juntamente com outros dois
dominicanos.
Esses são alguns dos que se tornaram mártires na luta por uma igreja
espiritualmente revitalizada. Com justiça, são considerados “Precursores da Reforma”.
Estes se mantiveram firmes, inabaláveis e abundantes na obra do Senhor, pelo que seu
trabalho não foi vão (I Co 15.58). A história de fé e coragem desses valorosos servos
de Deus inspira e nos desafia a uma vida de maior fidelidade ao Senhor (Mt 5.1-12).

2. Movimentos reformistas
É importante lembrar que os nomes acima citados não foram vozes isoladas.
Havia um anseio geral por mudanças, traduzido em alguns movimentos populares de
cunho reformista, os quais foram cruelmente sufocados pela Igreja:
Petrobrussianos – Movimento liderado por Pedro de Bruys, sacerdote
católico que se desligou da Igreja, no sul da França. Praticavam um Cristianismo
simples e criam na salvação pela fé. Eram contra a religião institucionalizada, o
culto a Maria, o uso de imagens no culto, o celibato e o batismo de crianças.
Insistiam na autoridade da Bíblia sobre os pais da Igreja. Pedro de Bruys foi
queimado vivo em 1135. Sua obra foi continuada pelo conde D. Henrique, abade
de Cluny, que promoveu grande avivamento, sendo depois preso e condenado;
Valdenses – Movimento iniciado no século XII por um rico
comerciante de Lyon, França, chamado Pedro Valdo. Valorizavam a vida simples
e piedosa, bem como a pureza doutrinária com base somente nas Escrituras. Pedro
Valdo foi excomungado em 1184 e morreu em 1217. Seus seguidores foram
expulsos e se fixaram nos vales alpinos franceses, na Alemanha, no norte da
Itália, e na Europa Central e Oriental. Foram duramente perseguidos. Em 1645,
foram mortos uns 2.700 deles no sul da França;
Cátaros ou Albigenses – Movimento surgido no século XIII, no norte
da Itália e sul da França. Não se tem informações seguras sobre suas crenças.
Rejeitavam os sacramentos, a Trindade e a ressurreição como ensinada pela
Igreja. Viviam vida de renúncia e desapego das coisas materiais. Também
sofreram intensa perseguição;
Lolardos – Movimento religioso e político desenvolvido no final do
séc. XIV e início do séc. XV, pelos seguidores de John Wiclif. Semearam por toda
a Inglaterra a Palavra de Deus. Denunciavam as peregrinações, as superstições, as
indulgências, os santos e o uso de imagens. Muitos deles foram martirizados;
Irmãos da Vida Comum – Movimento iniciado na Holanda, no séc.
XIV, por Gerardo Groot (1340 – 1384), humanista, teólogo e pregador. Primavam
pelo estudo do Novo Testamento grego e propunham, como fundamento para
qualquer reforma, a esmerada educação da juventude. Deram grande impulso à
impressão de livros teológicos. Antes de 1500, já tinham publicado mais de 450
livros.
Esses foram, portanto, cristãos fiéis e corajosos, que lutaram pelo retorno da
Igreja à pureza do evangelho. Todos eles sofreram intensas perseguições e foram
sufocados de forma impiedosa. Mas, a luta e o sangue derramado não foram em vão (Jo
12.24 e 25). O fermento já estava levedando a massa para a vinda de um novo tempo.

3. A fermentação da Reforma
Já no limiar do séc. XVI, segundo o historiador Justo L. Gonzalez, “fora da
Itália a Renascença tomou um rumo bem diferente. Na Espanha, Inglaterra, França,
Alemanha e Países Baixos havia eruditos que sonhavam com uma restauração do
Cristianismo antigo, seguindo os métodos dos humanistas.” (Uma História Ilustrada do
Cristianismo, vol. 5: A Era dos Sonhos Frustrados, Vida Nova, p.152). Erasmo de
Roterdã (1466 – 1536) foi o mais expressivo, sendo por isso considerado o “príncipe
dos humanistas”. “Em resumo, o humanista holandês procurava uma reforma dos
costumes, a prática da decência e a moderação. Pouco a pouco foi conquistando a
admiração de boa parte dos eruditos da Europa, que se escandalizavam com as
atividades dos papas da Renascença.” (op. cit., p. 155).
Como disse Jesus, a implantação do reino de Deus se dá como um processo de
fermentação (Lc 13.20,21). A Reforma não se deu de um momento para outro; foi o
resultado de uma fermentação iniciada muito antes, como se viu nos tópicos anteriores.
Vários fatores foram decisivos para a eclosão da Reforma, a saber: a)
corrupção eclesiástica e depravação moral do clero; b) despreparo dos sacerdotes; c)
abandono do povo e consequente insatisfação popular; d) opressão religiosa e venda de
indulgências; e) proliferação de ideias reformistas com o advento da imprensa; f)
fortalecimento do anseio nacionalista; g) a busca de mudanças impulsionada pela
Renascença.
Pelo fato de estar a igreja edificada em Cristo, as forças infernais não prevaleceram
contra ela – não a igreja institucionalizada, mas o corpo vivo de Cristo, que é a
verdadeira igreja. Essa, sim, será sempre vitoriosa, como garante o próprio Senhor
Jesus (Mt 16.18).
DISCUSSÃO

Que lições, os personagens e movimentos que precederam a Reforma Protestante do


século XVI deixam para nós, quanto ao exercício da fé cristã hoje?
06 - A Reforma Protestante do século XVI
Romanos 1.16 e 17

LEITURA DA SEMANA
SEG - Habacuque 3
TER - Romanos 1.1-17
QUA - Romanos 3
QUI - Romanos 8
SEX - Romanos 12.1-2
SAB - Efésios 2
DOM - Efésios 1.1-14

Conforme foi mostrado no estudo anterior, a reforma da Igreja vinha sendo


engendrada já há muito tempo. O anseio reformista se assemelhava a águas represadas,
prestes a arrebentarem a represa. Deus suscitou, para aquele momento histórico, líderes
de aguçada percepção, tanto no meio eclesiástico quanto no meio civil. As condições
sociais, culturais, econômicas e políticas eram extremamente favoráveis.
A Reforma Protestante do século XVI foi um movimento religioso em prol de
um Cristianismo autêntico, propondo um retorno aos princípios fundamentais do
evangelho de Cristo, visto que a Igreja estava degenerada por ter se afastado desses
princípios.
Segundo Philip Schaff, em História da Igreja Cristã, “A Reforma Protestante
assinala o encerramento da Idade Média e o início dos tempos modernos. Partindo da
religião, ela deu direta ou indiretamente, um poderoso impulso a todo movimento
progressivo; e tornou o Protestantismo a força propulsora da moderna civilização.”
Deus ouviu o clamor daqueles que, a exemplo de Habacuque, aguardavam a
instauração de um novo tempo (Hc 3.2)

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. A deflagração da Reforma
No limiar do século XVI, entrou em cena Martinho Lutero (10/11/1483 –
18/02/1546).
Lutero era um monge agostiniano alemão. Estudioso, tornou-se professor da
Universidade de Wittenberg, na Alemanha, onde viveu e começou a apresentar suas
ideias reformistas.
Em 31 de outubro de 1517, afixou nas portas da Igreja de Wittenberg, suas 95
teses contra as indulgências. Rapidamente, Lutero transformou-se no estopim da
Reforma.
Em 1518, Roma abriu um processo contra ele por heresia. Dois anos mais tarde,
o papa Leão 10 ameaçou puni-lo, caso não revogasse suas teses. Em dezembro de 1520,
Lutero queimou a bula papal, em protesto, além de um livro de leis católicas e várias
obras de seus opositores. Assim, rompia definitiva e irreversivelmente com Roma.
Quando Leão 10 ficou sabendo do escandaloso espetáculo de incineração, não hesitou:
em 03 de janeiro de 1521, lançou sobre o reformador a maldição da excomunhão.
O pregador das indulgências, Johann Tetzel (1465 – 1519), pediu a fogueira
para Lutero. Entretanto, alguns príncipes se colocaram do lado dele, pois acreditavam
em suas ideias e criam que, através dele, seria possível limitar o poder de Roma.
Esses príncipes convenceram o Imperador Carlos V a convidar Lutero para ir à
corte em Worms. Lutero pôs-se a caminho e foi recebido com entusiasmo durante todo
o trajeto. Pregou em Erfurt, Gotha e Eisenach, antes de ser celebrado pelos habitantes
de Worms.
Na assembleia de Worms, entre os dias 16 a 21 de abril de 1521, instado com
ameaças a retratar-se de suas ideias e posições, Lutero declarou solenemente: “É
impossível retratar-me, a não ser que me provem que estou laborando em erro pelo
testemunho das Escrituras ou por uma razão evidente. Não posso confiar nas decisões
de Concílios e de Papas, pois é evidente que eles não somente têm errado, mas se têm
contraditado uns aos outros. Minha consciência está cativa da Palavra de Deus; e não é
seguro nem honesto agir-se contra a consciência de alguém. Assim Deus me ajude.
Amém.”
Após deixar Worms, Lutero estava protegido por um salvo-conduto que o
resguardaria de ser imediatamente preso. Porém, o imperador o declarou fora da lei e,
portanto, exposto ao cárcere e à destruição de seus escritos. Durante a viagem de volta,
o príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio, mandou sequestrá-lo e o escondeu no
castelo de Wartburg. Enquanto lá permaneceu, se pôs a traduzir a Bíblia para o alemão.
Assim, Lutero escapou da Inquisição.
Através da obra À Nobreza Cristã Alemã, convocou toda a Alemanha a unir-se
contra Roma. A Reforma estava, portanto, deflagrada e não tinha mais como ser
contida. Novos líderes foram surgindo, os quais deram grande ímpeto ao movimento
reformista.
A mão do Senhor estava com esses homens; por isso, ninguém seria capaz de
impedir a Reforma (Is 43.13).

2. Os frutos imediatos da Reforma e sua expansão


Os frutos da Reforma foram rápidos e variados. Surgiram três vertentes
reformistas, as quais alteraram profundamente o cenário político e religioso daquela
época. São elas:
Luteranismo – É a tradição teológica e eclesiástica baseada nos ensinos
de Martinho Lutero. As raízes da teologia de Lutero estão fixadas na patrística,
tendo em Agostinho (354 – 430) o seu maior referencial. Lutero o considerava o
mais fiel intérprete de Paulo. Embora crítico da escolástica, tinha alto apreço pelo
teólogo medieval Bernardo de Claraval (1090 – 1153). Foi influenciado também
pela tradição mística do final da Idade Média. “Foi muito grato ao superior de sua
ordem, Johann von Staupitz (1460 – 1524) e sua teologia cristocêntrica, que
consolava Lutero em suas aflições.” (Do Conflito à Comunhão, Sinodal/CNBB,
p.44).
Principais pontos da teologia luterana:
a) A Bíblia é a única fonte segura para a fé cristã;
b) A justificação do pecador é pela fé, como ato da graça divina. Deus
declara o pecador justo por intermédio da morte de Jesus e não por meio de obras ou
méritos humanos;
c) Sobre a eucaristia, Lutero entendia que Cristo estava presente “em, com e
sob” o pão e o vinho, mas não de forma transubstanciada conforme definida no Concílio
de Latrão (1215);
d) Contra o clericalismo, Lutero defendeu o sacerdócio de todos os crentes;
e) “Lutero via a Escritura como primeiro princípio (primum principium) no
qual todas as afirmações teológicas deveriam estar fundamentadas direta ou
indiretamente.” (op. cit., p.75);
f) A igreja deve ser tutelada pelo estado.
Pesa contra Lutero sua declarada postura antissemita (Sobre os Judeus e Suas
Mentiras, 1543). Cerca de 400 anos depois, o nazismo se apoiaria em algumas de suas
ideias para justificar a perseguição contra os judeus na Alemanha.
Zwinglianismo – Ulrico Zwinglio (1484 – 1531), doutor em teologia, de
formação humanista, é o pai da tradição reformada. Foi o grande reformador da
Suíça, tendo atuado a partir de Zurique. Dos dez cantões suíços, cinco aderiram à
Reforma. Na implantação da Reforma na Suíça, defendeu a luta armada contra os
cantões que permaneceram fieis a Roma. Na condição de capelão de seus
soldados, foi vitimado em um dos combates (Batalha de Cappel – 1531), aos 47
anos de idade. Além dele, morreram sete dos seus melhores pregadores. Foi
sucedido por Henrique Bullinger (1504 – 1575).
O pensamento teológico de Zwinglio está sintetizado nos 67 Artigos, a primeira
confissão de fé reformada. Enfatiza a supremacia da Escritura; a salvação unicamente
em Cristo; a predestinação; a natureza espiritual, e não institucional, da igreja; a
inutilidade das obras humanas para a salvação (justificação pela fé); a pregação como o
centro da vida da igreja. Para Zwinglio, a Ceia é simplesmente um memorial.
Pesa contra Zwinglio a implacável perseguição movida contra os anabatistas.
Calvinismo – Um dos mais notáveis reformadores foi o francês João
Calvino (1509 – 1564). Quando Lutero publicou suas 95 teses, Calvino tinha oito
anos de idade; e não chegou a se encontrar com o grande reformador. Sua adesão
ao protestantismo se deu entre 1532 e 1533, quando tinha 23 ou 24 anos, ou seja,
pouco tempo depois da morte de Zwinglio.
Calvino, um jovem de rara inteligência, haveria de se tornaria a principal voz
da Reforma. De formação humanista e influenciado pelos ideais renascentistas, estudou
direito e teologia, destacando-se como teólogo, educador e escritor. Foi o principal
sistematizador do pensamento reformado, dando profundidade à teologia reformada.
A convite do reformador Guilherme Farel (1489 – 1565), Calvino atuou na
cidade de Genebra, em duas fases. A primeira foi de 06/09/1536 a 22/04/1538. Tendo
sido expulso da cidade, juntamente com Farel, foi para Estrasburgo, na Alemanha, onde
permaneceu por três anos. A segunda fase em Genebra foi de 13/09/1541 até à sua
morte, em 27/05/1567.
A influência de Calvino não se limitou ao campo religioso, mas estendeu-se
também à política, à economia, às artes e à cultura. Foi um mestre por excelência e um
profícuo escritor. Além de outras obras, produziu comentários sobre quase todos os
livros da Bíblia. Através de suas obras, especialmente Instituição da Religião Cristã,
exerceu poderosa influência para o desenvolvimento e consolidação da Reforma.
Genebra tornou-se um centro de difusão do pensamento reformado. Todas as chamadas
Igrejas Reformadas ou Presbiterianas são calvinistas.
A obra de Calvino em Genebra contemplou especialmente a educação teológica,
o pastoreio dos fieis, o cuidado dos pobres e doentes, o acolhimento a refugiados.
Pontos principais do calvinismo:
a) Enquanto Lutero intencionava reformar a Igreja Católica Romana, Calvino
idealizou a criação de uma nova igreja;
b) A obra da salvação é um ato soberano da graça de Deus, tendo por base a
eleição em Cristo (predestinação);
c) A presença de Cristo na Ceia é espiritual;
d) O reino de Deus e o governo civil, embora distintos em natureza e função,
não se excluem mutuamente, nem são entre si incompatíveis;
e) A essência da teologia de Calvino é a ênfase à soberania de Deus.
Gerald McDermott (Grandes teólogos: Uma síntese do pensamento
teológico em 21 séculos de igreja, Vida Nova), enumera cinco coisas principais que
podemos aprender com Calvino: a) a importância da pregação; b) predestinação; c)
teologia bíblica; d) santificação; e) a soberania de Deus.
Segundo Herman Hanko, “Deus usou Calvino como a figura chave na Reforma e
na história subsequente da igreja. Lutero e Calvino concordavam em todos os pontos
doutrinários, com exceção da doutrina dos sacramentos. Lutero foi ordenado por Deus
para arrebentar a imponente e aparentemente indestrutível cidadela do catolicismo
romano. Calvino foi divinamente nomeado para erigir sobre as ruínas, uma casa nova,
um templo glorioso, a igreja onde Deus faz Sua habitação.” (Retratos de Santos Fiéis,
Fireland, p.165).
Há um fato desconfortável na biografia de Calvino: a condenação à morte, pelas
autoridades de Genebra, do médico Miguel de Serveto, ferrenho opositor do
reformador. Não há como negar que esse fato tenha manchado a história desse notável
homem de Deus.
Os reformadores dessas três vertentes da Reforma “estavam convictos do fato
de que o poder político devia ser empregado para incentivar a causa da reforma
eclesiástica.” (Dicionário de Teologia, Vida, p.114).
“Três tipos da teologia Reformada se desenvolveram nos territórios suíços. Os
cantões do norte, de fala alemã, seguiram Zwinglio. Os do sul, liderados por Genebra,
seguiram Calvino. E os radicais da Reforma, conhecidos como anabatistas, formaram
uma facção extrema daqueles que, antes, tinham trabalhado com Zwinglio. De Zurique,
o movimento anabatista alcançou toda a Suíça, a Alemanha e a Holanda, onde, sob a
liderança de Menno Simmons, solidificou-se mais.” (O Cristianismo Através dos
Séculos – Uma História da Igreja Cristã, Vida Nova).
Anglicanismo – Esse é o nome dado ao protestantismo que triunfou na
Inglaterra. Comumente, se diz que a Igreja Anglicana foi fundada pelo rei Henrique
VIII. Do ponto de vista político, é inegável que o rompimento desse monarca com
Roma, foi extramente favorável para que o protestantismo se consolidasse na
Inglaterra. Contudo, vale a pena considerar esta informação salientada pelo
historiador R. H. Nichols: “Muito antes do rompimento de Henrique VIII com o
papa, várias forças tinham contribuído para preparar o povo inglês para que
recebesse a Reforma. A maior dessas forças foi a organização dos “Irmãos
Lollardos”, que tinham conservado vivos os ensinamentos de Wycliffe. Além
disso, havia a propaganda das ideias sobre a Reforma na igreja pelos humanistas,
tais como Colet, a disseminação dos livros e dos ensinos de Lutero em alguns
lugares e a circulação extensiva, embora proibida, do Novo Testamento de
Tyndale, publicado em 1525.” (História da Igreja Cristã, Cultura Cristã, p.189).
A reforma inglesa conservou muito da estrutura da igreja romana (governo
episcopal) e da forma litúrgica. Teologicamente, adotou os princípios da Reforma
Protestante.
Houve muita perseguição, especialmente no reinado de Maria Tudor (1516 –
1558). Cerca de 300 protestantes foram martirizados, inclusive Thomas Cranmer (1489
– 1556), arcebispo de Cantuária, grande líder da reforma na Inglaterra.
O pensamento calvinista triunfou na Inglaterra, graças à firmeza dos chamados
“puritanos”. Em 1643, o Parlamento convocou a histórica Assembleia de Westminster,
que produziu a mais notável confissão de fé protestante, a famosa Confissão de Fé de
Westminster, de orientação calvinista.
Diante de tão gloriosa história, vale a pena lembrar aqui o que escreveu o poeta
inglês Arthur Campbell Ainger (1841-1919):

Os seus intentos cumpre Deus


No decorrer dos anos.
Ele executa o seu querer
De acordo com seus planos.
Eia! Aproxima-se o final!
Bem perto o dia vem,
Quando a glória de Deus
Há de o mundo inundar
Como as águas cobrem o mar.

Desde o longínquo Norte ao Sul,


Em todos os recantos,
Sai a mensagem do Senhor
Da boca dos seus santos.
Povos, nações, vinde! Atendei!
O seu apelo ouvi,
Para a glória de Deus
Vir o mundo inundar
Como as águas cobrem o mar.

Com a bandeira de Jesus,


Avante, caminhemos.
Seu Evangelho, a salvação,
Ao mundo anunciemos.
Contra o pecado e todo o mal
Lutemos com vigor
Para a glória de Deus
Vir o mundo inundar
Como as águas cobrem o mar.
Nosso trabalho vão será
Se Deus não for presente.
Só ele o esforço aqui bendiz
E é quem nutre a semente.
Eia! Aproxima-se o final!
Bem perto o dia vem,
Quando a glória de Deus
Há de o mundo inundar
Como as águas cobrem o mar.

3. Anabatistas – a ala radical da Reforma


Não se pode deixar de fazer menção, aqui, ao movimento anabatista.
“Anabatismo” é um “termo geral referente a vários movimentos oriundos da Reforma
protestante do século XVI, muitas vezes denominado ‘Reforma Radical’. Os anabatistas
rejeitavam o batismo infantil, conforme se praticava nas igrejas luterana e reformada.
Além disso, criam que essas igrejas se haviam corrompido ou não se haviam separado
totalmente do que consideravam os erros da Igreja Católica Romana. Portanto, insistiam
com seus seguidores para que fossem novamente batizados como discípulos conscientes
de Jesus Cristo. Entre os membros importantes desse movimento, temos Menno
Simmons e Jacó Hutter.” (Dicionário de Teologia, Vida, p.8).
Os anabatistas defendiam a total separação entre igreja e estado. Condenavam a
guerra e defendiam o pacifismo como caminho para a solução de conflitos e a
promoção da justiça e da paz – posição que se distancia bastante de um de seus
pioneiros, o teólogo Thomas Müntzer (1490 – 1525), que pegou em armas e liderou a
revolta dos camponeses alemães. Condenavam o clericalismo, defendiam o livre exame
das Escrituras e valorizavam a comunhão como vista na igreja primitiva. Em resumo,
não aceitavam o modelo de igreja estabelecido desde Constantino.
Numa época em que vida civil e religiosa estavam tão atreladas, as posições e
práticas dos anabatistas incomodavam tanto a Igreja Católica quanto os reformadores,
pelo que foram acusados de inimigos do estado e hereges. Tornaram-se alvo de
perseguições movidas pelos dois grupos. Estima-se que milhares deles, juntamente com
seus líderes, tenham sido martirizados, mas o movimento se espalhou por diversas
partes da Europa.
A grande lição deixada pelos movimentos radicais, em especial o anabatismo, é que
Deus e a fé cristã não podem ser institucionalizados e controlados. É preciso entender
que Deus age fora do campo do nosso monopólio (Jo 3.8; I Co 1.26-31).
A Reforma Protestante do século XVI foi, sem dúvida, o maior acontecimento da
história da igreja cristã. São transcorridos 500 anos e a sua força ainda se faz sentir!
Vale lembrar que a Reforma não é algo acabado, um fato histórico apenas a ser
lembrado; mais do que isso, é uma experiência dinâmica, um movimento em constante
construção. Ser igreja verdadeiramente reformada implica ser igreja sempre se
reformando (Rm 12.1,2).

DISCUSSÃO

Em sua opinião, o que significa ser “igreja reformada sempre se reformando”?


07 - A expansão da Reforma e a Contrarreforma Católica
II Timóteo 3.10 a 17

LEITURA DA SEMANA
SEG - Salmo 19
TER - Salmo 119.1-18
QUA - Efésios 2.1-10
QUI - Romanos 5
SEX - Romanos 8
SAB - Hebreus 10
DOM - I Pedro 2

A Reforma Protestante do século XVI tornou-se um movimento vigoroso,


devido ao fato de que estava embasada em princípios consistentes e relevantes. As
proposições reformistas iam ao encontro das necessidades e aspirações da sociedade,
pelo que foram abraçadas com avidez por muitas cidades e nações inteiras. Como já
vinha acontecendo, desde há muito, os princípios norteadores da Reforma acabaram por
minar as bases da igreja institucionalizada, ameaçando a estabilidade do sistema
religioso vigente. Esses postulados tornaram-se a base para a formulação de novas
concepções e a construção de uma nova igreja: bíblica, democrática, libertadora.
A viabilidade dessa nova concepção de igreja – que na verdade era um
reencontro com a igreja da era apostólica – se confirmou pela rápida expansão do
movimento reformado e seus resultados facilmente mensuráveis.
Como era de se esperar, a igreja dominante não assistiria passivamente ao
triunfo da Reforma. A reação foi rápida e abrangente, caracterizando-se por duas ações
básicas: uma reforma interna, ainda que tardia; e estratégias para tentar deter o avanço
do protestantismo. Essa reação é denominada “contrarreforma católica”.

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. Postulados essenciais da Reforma Protestante


Estes princípios se tornaram verdadeiro combustível para que a pregação
reformada incendiasse o continente:
1.1. Supremacia da Bíblia sobre a tradição (Rm 16.25-27; II Tm 3.16,17) –
Segundo esse princípio, a autoridade da Bíblia é superior à autoridade da Igreja, da
tradição e dos concílios. Somente a Bíblia deve ser aceita como regra de fé e conduta.
A consciência deve submeter-se, incondicionalmente, somente aos princípios das
Escrituras, a Palavra revelada de Deus. Os reformadores defendiam que todo o povo
deveria ter livre acesso à leitura e estudo das Escrituras.
1.2. Supremacia da fé sobre as obras (Rm 5.1; Gl 5.5; Ef 2.8,9) – A salvação
é alcançada não pelos méritos humanos, mas única e exclusivamente pela fé em Cristo.
A salvação é fruto da graça de Deus e é recebida pela fé em Cristo e em sua obra
expiatória. As obras não podem salvar, embora devam acompanhar a vida dos que são
salvos (Ef 2.10; Tg 2.14-26).
1.3. Supremacia do povo cristão sobre um sacerdócio exclusivo – A doutrina
do sacerdócio de todos os cristãos libertou os homens do temor e do medo. Foram
libertados do poder da igreja medieval e conduzidos a uma religião mais sincera e
profunda. Esse princípio defendia o seguinte:
a) Cada indivíduo pode gozar da comunhão com Deus, pela fé, sem a
intervenção do sacerdócio da Igreja (I Tm 2.5; Hb 10.19-22);
b) Cada indivíduo pode confessar seus pecados diretamente a Deus e dele
receber o perdão (I Jo 1.9; 2.1,2);
c) Cada indivíduo pode ser justificado diante de Deus, mediante a fé, sem se
submeter às exigências da Igreja, que monopolizava a justificação do pecador (Rm 5.1;
8.1; Tt 2.11-14);
d) Cada indivíduo pode examinar as Escrituras, entendê-las, e conhecer a
vontade de Deus (Sl 119.11-16; II Tm 3.14-17).

2. Os caminhos da expansão
Em seu livro Nossa Crença e a de Nossos Pais, David S. Schaff apresenta o
seguinte resumo sobre a expansão da Reforma nos seus anos iniciais: “Partindo da
Alemanha (Wittenberg), o movimento se alastrou à Suíça, tendo Zurique e Genebra
como centros principais. Na Dinamarca, Suécia e Noruega, o novo sistema suplantou
inteiramente o velho. Na Hungria, dividiu a população. Triunfou na Holanda, após a
mais a amarga perseguição. Na Inglaterra, cenas sangrentas se desenrolaram, antes que
as novas concepções se estabelecessem. Na Escócia, o povo e o Parlamento se uniram
para seguir João Knox, sendo implantado o sistema presbiteriano. Na França, as
perspectivas de reforma foram promissoras, mas teve de enfrentar a má vontade do rei,
que lhe moveu profunda perseguição, queimando a vinte e quatro ‘hereges’ em Paris, no
espaço de seis meses, sendo seis executados à sua própria vista. Cinquenta anos mais
tarde, com o massacre da noite de São Bartolomeu, 1572 (foram assassinados, num só
dia, em torno de 2.000 protestantes), o Partido Protestante foi quase aniquilado.”
(p.67).
Apesar de todas as reações contrárias, a Reforma estava consolidada e ganhava
o mundo. O movimento se expandiu para outros países da Europa e para algumas
províncias bálticas. Mais tarde, tomou conta dos Estados Unidos (desde o início da
colonização); e, a partir daí, alcançou vários outros países pelo mundo afora, graças
aos grandes empreendimentos missionários.
3. A Contrarreforma Católica
Comumente, se afirma que a chamada “contrarreforma católica” foi uma reação
à Reforma Protestante. Em parte, isso é verdade; mas, fato é que, já antes da reforma
protestante, a própria Igreja Católica implementava mudanças em “resposta à aspiração
generalizada de regeneração religiosa que permeava a Europa dos fins do século XV”
(Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. 1, Vida Nova, p. 348).
Com o advento da Reforma Protestante, a Igreja Católica se viu forçada a
acelerar sua reforma interna. Três ações foram decisivas para a contrarreforma:
a) Criação, em 1534, da Companhia de Jesus, por Inácio de Loyola
(movimento jesuítico). Num caminho inverso ao da vida monástica, “os jesuítas
ministravam aos pobres, educavam meninos e evangelizavam os pagãos (...) Quando
Inácio morreu, a Sociedade tinha cerca de 1.000 membros que administravam cerca de
100 fundações. Um século mais tarde, havia mais de 15.000 jesuítas e 550 fundações, o
que é testemunho da vitalidade contínua da contrarreforma.” (op. cit., p.349);
b) Recrudescimento da Inquisição (tribunal eclesiástico instituído no início do
séc. XIII, que investigava e julgava de forma sumária os acusados de heresia). A partir
de 1542, o Tribunal da Inquisição expandiu o seu trabalho, funcionando intensamente
principalmente nos impérios espanhol e português. Os historiadores falam em cerca de
150 mil julgamentos e 3.000 condenações à morte;
c) Realização do Concílio de Trento (entre 1545 a 1563). As principais
decisões do Concílio de Trento foram: “condenar a venda de indulgências, conforme
Lutero já as combatera e a igreja romana admitiu seu erro; condenou a intervenção de
príncipes nos negócios da Igreja; condenou a doutrina protestante de justificação apenas
pela fé e reafirmou que a salvação é pela fé e também pelas obras; que a missa deve ser
ressaltada em sua importância na liturgia; ainda confirmou cultos aos santos, à virgem
Maria e relíquias; reativou o Tribunal do Santo Ofício (Inquisição); reafirmou a
doutrina da infalibilidade papal, do pecado original, da existência do purgatório e dos
sete sacramentos (batismo, confirmação ou crisma, confissão, eucaristia ou comunhão,
matrimônio, ordem e extrema unção); confirmou a indissolubilidade do casamento, mas
o proibiu para membros do clero (celibato clerical) e criou seminários para formar
seus sacerdotes. Também estabeleceu decretos e metas para a unidade católica,
fortalecendo sua hierarquia.” (Dr. Armando Araújo Silvestre -
www.infoescola.com/historia/concilio-de-trento/).
Na análise do já citado Dr. Armando A. Silvestre, a contrarreforma foi um
“esforço teológico, político e militar de reorganização católica e de confronto
ao protestantismo; e todas as suas doutrinas católicas foram discutidas para responder
às críticas doutrinárias dos protestantes. Também as guerras e conflitos entre católicos
e protestantes se estenderam por décadas, culminando com a atroz Guerra dos Trinta
Anos que dilacerou metade da Europa, terminando apenas em 1648, com a Paz de
Vestfalia, e a demarcação dos territórios e fronteiras políticas e religiosas católicas e
protestantes.”
Os caminhos da Reforma não foram fáceis; foram marcados por muita luta e
derramamento de sangue, mas o esforço não foi em vão. Pela graça de Deus, a Reforma
triunfou e inaugurou um novo tempo, transformando radicalmente a realidade de muitos
povos. As marcas da Reforma são indeléveis. Diante disso, devemos nos sentir
desafiados e motivados a sustentar a fé cristã reformada, contribuindo assim para
promover a vida abundante oferecida por Cristo Jesus (Jo 10.10).

DISCUSSÃO

No contexto em que você vive, quais são as evidências dos benefícios proporcionados
pela Reforma Protestante? O que a sua igreja faz hoje para ampliar esses benefícios?
08 - “Sola Scriptura” – Somente a Escritura
II Reis 22

LEITURA DA SEMANA
SEG - Salmo 119.1-24
TER - Salmo 119.25-48
QUA - Salmo 119.49-72
QUI - Salmo 119.73-96
SEX - Salmo 119.97-120
SAB - Salmo 119.121-144
DOM - Salmo 119.145-176

O texto bíblico central deste estudo relembra a história do rei Josias, que
empreendeu uma profunda reforma religiosa em Israel, a partir da redescoberta do
Livro da Lei do Senhor.
Pode-se dizer que a Reforma Protestante foi uma redescoberta do Livro da Lei
do Senhor. O entendimento da ênfase reformada à supremacia da Escritura deve
considerar a tendência que prevaleceu na Idade Média, em que a interpretação dos Pais
da Igreja, as decisões conciliares e os decretos papais falavam mais alto do que a
Escritura. Esse legado ficou conhecido como “a tradição da Igreja”. Em muitos
aspectos, a tradição da Igreja é uma expressão do ensinamento bíblico; porém, ela
inclui questões que não expressam exatamente o ensino escriturístico, que se opõem
frontalmente à Escritura e que vão além dela.
No período anterior à Reforma, a Igreja se conduzia muito mais pela tradição
do que pelo ensino da Escritura. Por isso, o anseio reformista propunha, antes de tudo,
um retorno à Escritura. Esse retorno à Escritura foi decisivo para abalar a estrutura
eclesiástica vigente e desencadear a Reforma Protestante. Em seu discurso na Dieta de
Worms, Lutero declarou que a sua consciência estava cativa à Palavra de Deus.
A Reforma foi, antes de tudo, um movimento em direção à Escritura. Foi a partir
da redescoberta da Escritura que se desencadeou a onda de mudanças com
desdobramentos que impactaram definitivamente diversos povos e nações.

TOPICOS PARA REFLEXÃO

1. Sobre a relação Tradição x Escritura


Para a Igreja Católica Romana, a Igreja antecede a Bíblia. Aliás, a própria
Bíblia é fruto da decisão da Igreja, que definiu a formação do cânon por ocasião do
Concílio Vaticano I (1870). Daí fica mais fácil entender a razão de a tradição ter tanto
peso para eles. Por esse raciocínio, a própria Bíblia é resultado da tradição da Igreja.
Dizer que a Escritura foi definida pela Igreja pode parecer uma afirmação
lógica, mas não deixa de ser arriscada, uma vez que Deus sempre falou, desde o início
da criação (Hb 1.1,2). De fato, a Igreja definiu o cânon, mas não seria correto afirmar
que Deus só começou a falar após essa definição. Não tem sustentação, portanto, o
pensamento de que a Bíblia é dependente da igreja.
Sobre isso, argumenta Herman Bavinck: “A própria Escritura ensina
claramente, portanto, que não a igreja, mas a palavra de Deus, escrita ou não, é
fidedigna em si mesma e por si mesma. A igreja, em todas as épocas, esteve atrelada à
palavra de Deus na medida em que ela existiu e na forma em que ela existiu. Israel
recebeu a lei no monte Horebe; Jesus e os apóstolos se submeteram à Escritura do
Antigo Testamento. Desde o início, a igreja cristã esteve vinculada à palavra falada e
escrita dos apóstolos. A palavra de Deus é o fundamento da igreja (Dt 4.1; Is 8.20; Ez
20.19; Lc 16.29; Jo 5.39; Ef 2.20; 2 Tm 3.14; 2 Pe 1.19; etc.). A igreja pode, de fato,
dar testemunho da palavra, mas a palavra está acima da igreja. Ela não pode conferir a
ninguém uma crença na palavra de Deus baseada no coração. Isso é algo que só a
palavra de Deus pode fazer por si mesma e pelo poder do Espírito Santo (Jr 23.29; Mc
4.28; Lc 8.11; Rm 1.16; Hb 4.12; 1 Pe 1.23).” (Dogmática Reformada, vol. 1, Cultura
Cristã, p.458).

2. Sobre o valor intrínseco da Escritura


2.1. A Escritura é, por excelência, o meio pelo qual Deus fala – A Bíblia é a
Palavra de Deus! Por meio dela, Deus fala aos nossos corações. Comentado a respeito
do significado de “Sola Scriptura”, Joel Beeke escreveu: “Os reformadores libertaram
a Bíblia da hierarquia católica romana em pelo menos três maneiras: por meio da
tradução em vernáculo, como a Bíblia alemã de Lutero; por meio da pregação
expositiva, recomeçada por Zwínglio; e por meio da exegese gramático-histórica, mais
bem exemplificada pelos comentários de Calvino. Eles ensinavam que a Bíblia é a
regra de prática que guia nossos deveres diários. A Escritura é Deus falando conosco
como um pai fala com seus filhos, disse Calvino.” (Vivendo Para a Glória de Deus,
Editora Fiel);
2.2. A Escritura é infalível – A Escritura não é uma produção humana. Como
afirma Paulo, “toda a Escritura é inspirada por Deus” (II Tm 3.16). Pedro afirma que
“nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais
qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da
parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (II Pe 1.20,21). O salmista declarou: “As
tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos
dura para sempre.” (Sl 119.160). Por ser palavra de Deus, a Escritura é infalível e,
portanto, fiel e digna de inteira aceitação (I Ts 2.13);
2.3. A Escritura é poderosa para cumprir os propósitos divinos – Como
afirma Hebreus 4.12, “a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que
qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas
e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Sendo
viva e eficaz, a Palavra cumpre os propósitos divinos (Is 55.10,11). É pela Palavra que
o pecador é convencido de seus pecados, experimenta o arrependimento e se rende a
Cristo (Rm 10.13-17).
A Escritura aponta o caminho da salvação em Cristo (Jo 5.39; 20.30,31). Além
disso, ela molda o nosso caráter, como ensina Paulo em II Timóteo 3.16 e 17.

3. Sobre o livre exame da Escritura


Durante o período que antecedeu a Reforma Protestante, a Escritura estava
“escondida”. O povo não tinha acesso a ela; nem mesmo os sacerdotes lidavam com a
Escritura. Ela estava circunscrita a um círculo muito restrito de teólogos e, além disso,
estava subjugada à tradição desenvolvida pela Igreja ao longo dos anos, resultante das
decisões conciliares e dos decretos papais.
A Reforma Protestante significou uma redescoberta da Palavra de Deus, tal qual
ocorreu nos dias do rei Josias, quando o Livro da Lei do Senhor foi encontrado no
templo. Os reformadores popularizam a Bíblia, traduzindo-a na língua falada pelo povo
e ensinando-a sistematicamente. O advento da imprensa favoreceu a proliferação de
cópias da Bíblia e dos catecismos para a instrução do povo.
A Escritura foi libertada da interpretação limitada e condicionada aos
interesses da Igreja. Os reformadores incentivaram o livre exame da Escritura, sob a
iluminação do Espírito Santo, por entenderem que Deus fala a todos os que, de forma
sincera e submissa, abrem o coração para receber a sua Palavra. Porém, é inegável que
o livre exame da Escritura traz consigo um efeito colateral danoso: a ideia equivocada
de que qualquer um pode ler e interpretar a Bíblia como bem entender, desprezando
princípios e regras de interpretação. Na prática, infelizmente, isso acontece em larga
escala; e é tão prejudicial quanto o monopólio outrora exercido pela Igreja.
O livre exame da Escritura deve se dar de forma criteriosa, com temor, cuidado
e zelo, especialmente por aqueles que optam por ensinar (I Tm 4.16; II Tm 2.15; Tt
2.1).

4. Única regra de fé e prática


O artigo 7º da Confissão Belga define bem o que significa ter a Bíblia como
única regra de fé e prática: "Cremos que esta Sagrada Escritura contém perfeitamente a
vontade de Deus e suficientemente ensina tudo o que o homem deve crer para ser salvo.
Nela, Deus descreveu, por extenso, toda a maneira de servi-lo. por isso, não e lícito
aos homens, mesmo que fossem apóstolos ‘ou um anjo vindo do céu’, conforme diz o
apóstolo Paulo (Gl 1.8), ensinarem outra doutrina, senão aquela da Sagrada Escritura. É
proibido ‘acrescentar algo a Palavra de Deus ou tirar algo dela’ (Dt 12.32; Ap
22.18,19). Assim se mostra claramente que sua doutrina é perfeitíssima e, em todos os
sentidos, completa. Não se pode igualar escritos de homens, por mais santos que
fossem os autores, às Escrituras divinas. Nem se pode igualar à verdade de Deus
costumes, opiniões da maioria, instituições antigas, sucessão de tempos ou de pessoas,
ou concílios, decretos ou resoluções. Pois a verdade está acima de tudo e todos os
homens são mentirosos (Sl 116.11) e ‘mais leves que a vaidade’ (Sl 62.9). Por isso,
rejeitamos, de todo o coração, tudo que não está de acordo com esta regra infalível,
conforme os apóstolos nos ensinaram: ‘Provai os espíritos se procedem de Deus’ (1 Jo
4.1), e: ‘Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa’
(2 Jo v.10)."

DISCUSSÃO:

“Somente a Escritura!” De modo geral, isso tem sido verdade na igreja evangélica
brasileira?
09 - “Solus Christus” – Somente Cristo
Atos 4.5 a 12

LEITURA DA SEMANA
SEG - Isaías 53
TER - João 1
QUA - Romanos 3
QUI - Hebreus 7
SEX - Hebreus 8
SAB - Hebreus 9
DOM - I Pedro 1

Antes do advento da Reforma, estava em vigor um sistema religioso fortemente


clericalizado. O monopólio da fé estava nas mãos da Igreja, que mantinha absoluto
controle sobre a vida dos fiéis. O sacramentalismo patrocinado pela Igreja funcionava
como uma espécie de pedágio, o qual tinha de ser transposto na busca da salvação. O
indivíduo era obrigado a submeter-se a penitências e à prática de boas obras, valendo-
se dos sacramentos da Igreja, para que pudesse ser salvo. Tudo isso acontecia sob a
ameaçadora declaração emprestada de Cipriano: Extra Ecclesiam nulla salus – “Fora
da Igreja não há salvação!”
Para os reformadores, esse monopólio da fé usurpava as prerrogativas de
Cristo. Quem salva é só Jesus, independente dos benefícios da Igreja ou das obras
humanas! Somente Cristo!
Como bem observa Joel Beeke, “a centralidade de Cristo é o fundamento da fé
protestante. Lutero disse que Jesus Cristo é o ‘centro e a circunferência da Bíblia’ –
significando que o que Cristo é e o que ele fez, em sua morte e ressurreição, é o
conteúdo fundamental da Escritura.
As 67 teses que Zwínglio escreveu, em 1523, enfatizavam este ponto mais
firmemente do que as 95 teses de Lutero, escritas 16 anos antes. Por exemplo, Zwínglio
disse em sua segunda tese: ‘A essência do evangelho é que nosso Senhor Jesus Cristo, o
verdadeiro Filho de Deus, tornou conhecida a nós a vontade de seu Pai celestial e nos
redimiu, por meio de sua inocência, da morte eterna e nos reconciliou com Deus’. A
terceira tese continua: ‘Portanto, Cristo é o único caminho de salvação para todos que
foram, são e serão salvos’. E a quarta tese diz: ‘Quem procura ou mostra qualquer outro
caminho comete erro, sim, é um assassino de almas e ladrão’.
Zwínglio prosseguiu, dizendo: ‘Cristo é o Cabeça de todos os crentes, que são o
seu corpo; e sem ele o corpo está morto’ (Tese 7). ‘Cristo é o único Mediador entre
Deus e nós’ (Tese 19). ‘Cristo é a nossa justiça’ (Tese 22). ‘Somente Deus perdoa
pecados unicamente por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor’ (Tese 50). ‘Todos os
superiores espirituais devem se arrepender sem demora e estabelecer somente a cruz de
Cristo, pois, do contrário, perecerão, visto que o machado já está posto à raiz das
árvores’ (Tese 65).
Nas palavras de Zwinglio, vemos que nossos ancestrais reformados
proclamaram com ousadia a salvação somente por meio de Cristo (solus Christus). A
vida está somente em Cristo, e fora dele existe apenas morte, eles disseram.” (Vivendo
Para a Glória de Deus, Editora Fiel).

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. Cristo é o único Mediador entre Deus e o homem


O capítulo da Confissão de Fé de Westminster que discorre sobre a mediação
de Cristo, começa com estas palavras: “Aprouve a Deus, em seu eterno propósito,
escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus
e o homem”. Infelizmente, nem todas as pessoas compreendem e aceitam isso. Muitos
têm desejado chegar até Deus, porém, ignorando ou descartando a Pessoa de Cristo
como o único Mediador. O próprio Senhor Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a
verdade, e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6). A Palavra de Deus é
claríssima ao mostrar que não há outro caminho para se chegar a Deus.
Escrevendo a Timóteo, Paulo afirma que “há um só Mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate...” (I Tm 2.5,6).
“O único Mediador do pacto da graça é o Senhor Jesus Cristo, que sendo o eterno Filho
de Deus, da mesma substância e igual ao Pai, na plenitude do tempo fez-se homem, e
assim foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas perfeitas e distintas, e uma
só pessoa para sempre. O nosso Mediador foi chamado Jesus, porque foi, acima de
toda medida, ungido com o Espírito Santo, e assim separado e plenamente revestido
com toda a autoridade e poder para exercer os ofícios de profeta, sacerdote e rei de sua
igreja, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação” (Catecismo
Maior de Westminster - Questões 36, 41 e 42).
Conclui-se, portanto, que, como fizeram os reformadores, nós também, hoje, devemos
bradar alto bom som: “Somente Cristo!” O cenário de pluralismo religioso que
caracteriza o tempo atual nos desafia a apresentar, incessantemente, a mensagem bíblica
verdadeira e insubstituível: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu
não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos
salvos.” (At 4.12).

2. O caráter do Mediador e a natureza da obra de mediação


Segundo o ensino claro das Escrituras, Cristo Jesus, o Mediador, é o Deus-
Homem, que reúne os ofícios de Profeta, Sacerdote e Rei (Lc 7.16; At 3.22; I Tm 1.17;
6.13-16; Hb 7.20-28). Ele foi constituído pelo Pai como Cabeça da igreja (Ef 4.15;
5.23). A ele foi confiado o julgamento do mundo com autoridade e poder (Mt 28.18; Jo
5.22; At 10.42).
Segundo a Confissão de Fé de Westminster, “aprouve ao Pai que nele habitasse
toda a plenitude, a fim de que, sendo santo, inocente, incontaminado e cheio de graça e
verdade, estivesse perfeitamente preparado para exercer o ofício de Mediador e
Fiador.” (Cap. VIII, parág. 3º). Para a realização dessa obra, Cristo cumpriu a lei (Mt
5.17; Gl 4.4,5); também enfrentou o sofrimento e a morte (Fp 2.5-8; I Pe 1.18-20; 3.18);
finalmente, triunfou sobre a morte (At 2.24; 13.37).
Vale ressaltar que a obra sacrificial de Cristo é eterna e perfeita e satisfaz
plenamente a justiça divina (Rm 3.24-26; Hb 9.11-15; 10.14).
Segundo o ensino bíblico, Cristo continua sua obra intercessória em favor do
seu povo (Rm 8.34; Hb 7.23-25; I Jo 2.1). Tal certeza nos enche de alegria e esperança
e nos motiva a correr com perseverança a carreira proposta, olhando firmemente para
Jesus, o Autor e Consumador da fé (Hb 12.1,2).
Acerca do tríplice ofício de Cristo, Herman Bavinck afirma: “O racionalismo
reconhece somente seu ofício profético; o misticismo, somente seu ofício sacerdotal; o
milenarismo, somente seu ofício real. Mas, a Escritura, consistente e simultaneamente
atribuindo os três ofícios a ele, descreve-o como nosso principal profeta, nosso único
sumo sacerdote e nosso rei eterno. Embora seja um rei, ele governa não com sua
espada, mas com sua palavra e com seu Espírito. Ele é um profeta, mas sua palavra é
poder e realmente acontece. Ele é um sacerdote, mas vive pela morte, conquista pelo
sofrimento e é todo-poderoso por seu amor. Ele é sempre todas essas coisas em
conjunção, nunca uma sem a outra: poderoso em palavra e em ação, como rei e cheio de
graça e de verdade, em seu papel real.” (Dogmática Reformada, Cultura Cristã, vol.
03, p.372).

3. A eficácia da obra de Cristo


A expressão latina “solus Christus”, criada pelos reformadores, enfatiza que a
salvação só é possível em virtude da morte expiatória de Cristo, sendo nulos, portanto,
quaisquer esforços humanos, seja por meio de penitências ou boas obras, para se
alcançar a justificação diante de Deus. Fora de Cristo não há salvação!
Conforme o ensino da Palavra de Deus, por ser eterna e perfeita, a obra de
Cristo garante uma eterna herança a todos aqueles que, habilitados pelo Espírito, se
dispõem a crer (Rm 3.21-26; Hb 9.15; I Pe 1.3-5)
A virtude, eficácia e benefícios da obra de Cristo, desde o princípio, foram
comunicados aos eleitos por meio de promessas, tipos e sacrifícios (Gn 3.15; Dt 18.15-
18; Is 53). O Mediador é o Cordeiro morto desde a fundação do mundo, sendo o mesmo
ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8; I Pe 1.18-21).
Sobre a eficácia da obra de Cristo, assim declara a Confissão de Fé de
Westminster: “Cristo, com toda certeza e de forma eficaz, aplica e comunica a salvação
a todos aqueles para quem a adquiriu. Isto ele consegue, fazendo intercessão por eles e
revelando-lhes na Palavra e pela Palavra os mistérios da salvação, persuadindo-os,
eficazmente, pelo seu Espírito, a crer e a obedecer, governando os corações deles pela
sua Palavra e pelo seu Espírito; subjugando todos os seus inimigos por meio de sua
onipotência e sabedoria, da maneira e pelos meios mais condizentes com a sua
admirável e inescrutável dispensação.” (Cap. VIII, parág. 8º).

DISCUSSÃO

Sempre houve no ser humano a pretensão de se tornar o autor da sua própria salvação.
Em sua opinião, por que alguns têm dificuldade em reconhecer que é somente em
virtude dos benefícios da obra de Cristo que o homem pode ser salvo?
10 - “Sola Gratia” – Somente a Graça
Efésios 2.1 a 10

LEITURA DA SEMANA
SEG - Efésios 1.1-14
TER - Romanos 3.21-31
QUA - Romanos 4
QUI - Romanos 5
SEX - Romanos 6
SAB - Romanos 11
DOM - Tito 2.11-14
As obras humanas se tornam totalmente inúteis quando realizadas com o
propósito de se alcançar a justificação diante de Deus. A salvação só é possível em
virtude da maravilhosa graça de Deus disponibilizada na pessoa de Cristo Jesus. Em
Romanos 3.23 e 24, Paulo afirma claramente: “todos pecaram e carecem da glória de
Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em
Cristo Jesus.”
No tempo que antecedeu a Reforma Protestante do século XVI, a salvação era
apresentada como um prêmio que poderia ser alcançado com muito esforço pessoal,
inclusive o investimento financeiro, por meio da aquisição dos títulos de indulgência. O
valor da indulgência se justificava em função de um dogma criado pela Igreja, diga-se
de passagem, sem respaldo bíblico, denominado “purgatório”. O purgatório seria um
estado ou condição em que as almas daqueles que já morreram permanecem
aprisionadas, até que sejam purgados pecados remanescentes que impedem sua
ascensão ao paraíso. As ações em favor das almas que sofriam no purgatório incluíam
tanto missas em sua intenção, quanto a aquisição dos títulos de indulgência, os quais
acelerariam o processo. Embora esse conceito tenha sido defendido por alguns dos Pais
da Igreja, os reformadores foram unânimes em condená-lo, defendendo o ensino bíblico
de que a justificação do pecador diante de Deus só é possível em virtude da graça
divina, sendo, portanto, ineficaz qualquer esforço humano.
Contra a venda das indulgências, Lutero apregoava em suas teses: “O
verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus.”
(Tese nº 62).
Segundo Joel Beeke, “Lutero insistia que um pecador é incapaz de prover ou
mesmo de se apropriar da salvação. Ao dizer isso, Lutero atacou o sistema de
indulgências, peregrinações, penitências, jejuns, purgatório e mariolatria da Igreja
Católica. Ele percebeu que a única maneira de derrotar o sistema baseado em obras da
Igreja Católica era atingir a raiz da controvérsia: graça gratuita versus livre-arbítrio.”
(Vivendo Para a Glória de Deus, Editora Fiel).
De fato, o ensino bíblico acerca da salvação como graça de Deus, abalou o
sistema religioso que fazia da salvação um produto que devia ser adquirido com o
esforço pessoal e o pagamento em dinheiro.
Os reformadores redescobriram e proclamaram uma doutrina inequivocamente
sustentada pela Palavra de Deus!

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. A graça de Deus é a base da salvação


A graça de Deus tem duas manifestações distintas: a primeira é chamada “graça
comum” e se refere às bênçãos experimentadas, indistintamente, por todos os homens; a
segunda, chamada “graça especial”, “é a graça pela qual Deus redime, santifica e
glorifica o seu povo. Ao contrário da graça comum, que é dada universalmente, a graça
especial é outorgada somente àqueles que Deus elege à vida eterna, mediante a fé em
seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo.” (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja
Cristã, Vida Nova, p.217). A afirmação reformada “Sola Gratia” aponta para a
manifestação da graça especial.
Conforme já foi visto no texto central deste estudo, a Bíblia afirma
explicitamente que a salvação do pecador é uma expressão da graça divina, em virtude
dos méritos de Cristo, e não depende das obras humanas (Ef 2.4-9). Em Romanos 11.6,
Paulo argumenta: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não
é graça.”
Sempre existiu na mente humana a ideia de que a salvação é uma conquista que
se dá pelo esforço próprio. Muitos julgam que merecem ser salvos em virtude das
coisas erradas que evitam fazer e das coisas boas que fazem. Mas, à luz da Bíblia, é
impossível o homem fazer por merecer sua justificação (Gl 5.4).
Conforme o Catecismo Maior de Westminster, “Justificação é um ato da livre
graça de Deus para com os pecadores, no qual Ele os perdoa, aceita e considera justas
as suas pessoas diante dEle, não por qualquer coisa neles operada, nem por eles feita
mas unicamente pela perfeita obediência e plena satisfação de Cristo, a eles imputadas
por Deus e recebidas só pela fé.” (At 10.43; Rm 3.21-28; 4.4-8; 5:17-21; II Co 5.21; Ef
1.3-10).
O ensino bíblico de que a justificação é obra da graça de Deus é apresentado de
forma explícita em II Timóteo 1.9 e 10. Nesse texto, Paulo afirma que somos
salvos “não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça
que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo
aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como
trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho.”

2. O impacto da graça divina na vida do pecador


Antes da Reforma, prevaleceu uma religião ameaçadora, manipulativa e
condenatória. A Igreja exigia sacrifícios e promovia a cegueira espiritual. De maneira
geral, os líderes falharam em sua função de despenseiros da multiforme graça de Deus.
Porém, a Reforma promoveu a redescoberta do caminho da graça, o caminho aberto por
Cristo.
Joel Beeke ressalta que “a graça nos chama (Gl 1.15), nos regenera (Tt 3.5), nos
justifica (Rm 3.24), nos santifica (Hb 13.20-21) e nos preserva (I Pe 1.3-5).
Precisamos de graça para nos perdoar, nos converter a Deus, curar nosso coração
corrompido e nos fortalecer em tempos de tribulação e conflito espiritual. Somente por
meio da graça gratuita e soberana de Deus podemos ter um relacionamento salvífico
com ele. Somente por meio da graça, podemos ser chamados à conversão (Ef 2.8-10), à
santidade (II Pe 3.18), a servir a Deus (Fp 3.12) ou a sofrer (II Co 1.12).” (
A graça de Deus é o que nos faz nascer para uma nova vida. A graça de Deus é
que nos sustenta no dia a dia e nos preservará até à manifestação da glória de Deus,
pois, como afirma Paulo aos filipenses, "aquele que começou boa obra em vós há de
completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." (Fp 1.6). Fomos salvos pela graça e vivemos
pela graça.
O profeta Isaías descreve a miserável condição do pecador, bem como a obra
graciosa de Deus que o transforma em um vaso novo: “todos nós somos como o imundo,
e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a
folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam. Já ninguém há que
invoque o teu nome, que se desperte e te detenha; porque escondes de nós o rosto e nos
consomes por causa das nossas iniquidades. Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós
somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.” (Is 64.6-8).
“Pela graça sois salvos”! Somente pela graça.

3. As evidências da graça divina na vida do salvo


Após afirmar que a salvação é pela graça, mediante a fé, Paulo conclui, dizendo
que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de
antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10).
Na carta escrita a Tito, Paulo fala sobre as evidências da graça na vida do
redimido: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens,
educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no
presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a
manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si
mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si
mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” (Tt 2.11-14).
A graça transforma o coração do crente e o dispõe a buscar a santificação.
Também o motiva ao serviço cristão, por meio das boas obras, mantendo nele a bendita
esperança quanto à manifestação da glória de Cristo. É esse o resultado inevitável na
vida daqueles que, verdadeiramente, foram alcançados pela graça de Deus.
A ideia de que a graça pode levar ao comodismo e ao relaxamento na vida
cristã é combatida por Paulo em Romanos 6: “Que diremos, pois? Permaneceremos no
pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos
ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.1,2).
A graça divina opera de maneira poderosa na vida do pecador, levando-o ao
rompimento com a vida pecaminosa. Também desestimula a autojustificação baseada na
pretensa observância das obras da lei. Enfim, de maneira eficaz e irresistível, a graça
habilita o pecador a exercitar a fé, a buscar a santificação, a realizar boas obras e a
viver para a glória de Deus.

DISCUSSÃO

Que práticas religiosas, comuns em nossos dias, contrariam o ensino bíblico de que é
somente pela graça que o homem pode ser salvo?
11 - “Sola Fide” – Somente a Fé
Romanos 3.21 a 31

LEITURA DA SEMANA
SEG - Mateus 25.31-46
TER - Romanos 5.1-11
QUA - Romanos 6
QUI - Gálatas 2
SEX - Gálatas 3
SAB - Efésios 2.1-10
DOM - Tiago 2.14-26
A justificação pela fé tornou-se o ponto central da Reforma Protestante.
A tradição reformada sempre deu muito valor ao ensino bíblico da justificação.
Exemplo eloquente é o Catecismo de Heidelberg, que, em resposta à pergunta: “Como
você é justo para com Deus?” responde: “Só pela fé em Jesus Cristo. Mesmo que me
acuse a consciência de haver pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus,
e de não haver jamais guardado qualquer deles, e mesmo que eu esteja ainda inclinado
a todo pecado, não obstante, sem merecer de forma alguma, só pela sua graça, Deus me
assegura e credita a mim a perfeita expiação, justiça e santidade em Cristo, como se eu
nunca houvesse pecado ou sido pecador, como se eu tivesse sido perfeitamente
obediente, como Cristo foi obediente por mim. Tudo o que preciso fazer é aceitar o
dom de Deus com um coração crente.”
Na definição dos teólogos de Westminster, a “justificação é um ato da livre
graça de Deus para com os pecadores, no qual ele perdoa todos os seus pecados, aceita
e considera as suas pessoas justas aos seus olhos, não por qualquer coisa neles operada
ou por eles feita, mas unicamente pela perfeita obediência e plena satisfação de Cristo,
a eles imputados por Deus e recebidos só pela fé.” (Catecismo Maior de Westminster,
questão nº 70 ).
Segundo J. I. Packer, “o interesse pela justificação varia de acordo com o valor
atribuído à insistência bíblica de que o relacionamento entre Deus e o homem é
condenação. Os teólogos medievais posteriores levavam isto mais a sério do que
quaisquer teólogos desde o período apostólico; eles, no entanto, procuravam a
aceitação mediante as penitências e as boas obras meritórias. Os reformadores
proclamavam a justificação pela graça apenas por meio da fé, exclusivamente no
fundamento da justiça de Cristo, e incorporavam a doutrina de Paulo em declarações
confessionais pormenorizadas. Os séculos XVI e XVII foram o período clássico da
doutrina.” (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vida Nova, p.391).

TÓPICOS PARA REFLEXÃO


1. A base bíblica da justificação pela fé
A palavra “fé”, associada a “justificação”, aponta para o que os teólogos
denominam “fé salvadora”. Segundo Joel Beeke,“na regeneração, o Espírito Santo dá
aos pecadores a fé para receberem a justiça de Cristo, para a salvação (Jo 1.12-13). A
fé, em si mesma, não merece a salvação, de modo algum, mas ela recebe a transferência
da justiça de Cristo. A fé não cria, ela apenas recebe. Como disse Calvino: ‘A fé
justifica quando nos introduz na participação da justiça de Cristo." (Vivendo Para a
Glória de Deus, Editora Fiel).
Escrevendo aos gálatas, Paulo explica com todas as letras que é impossível ao
homem justificar-se diante de Deus pelas obras da lei: “E é evidente que, pela lei,
ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não
procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos
resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque
está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de
Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o
Espírito prometido.” (Gl 3.11-14).
Essa não é a única passagem bíblica que trata desse assunto. Na verdade, são
abundantes os textos bíblicos que fundamentam a doutrina da justificação pela fé. Por
exemplo: Habacuque 2.4; Romanos 1.17; 3.28; Gálatas 2.16; Filipenses 3.9; Hebreus
10.38.

2. O efeito psicológico da justificação pela fé


Escrevendo aos romanos, Paulo afirma: “Justificados, pois, mediante a fé,
temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem
obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-
nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas
próprias tribulações.” (Rm 5.1-3).
Paz, firmeza e esperança, mesmo em meio às tribulações da vida, são
experiências vivenciadas por aqueles que são agraciados com o dom da fé. Segundo
João Calvino, essa paz decorrente da justificação pela fé “significa serenidade de
consciência, a qual tem sua origem na certeza de haver Deus nos reconciliado consigo
mesmo. (...) Ninguém que não tenha o temor de Deus se manterá em sua presença, a não
ser que se refugie na graciosa reconciliação, pois enquanto Deus exercer a função de
Juiz, todos os homens devem encher-se de medo e confusão. (...) A conclusão de Paulo
tem por base o princípio de que as almas desditosas estarão sempre desassossegadas, a
menos que repousem na graça de Cristo.” (Romanos, Edições Parakletos, p.180). O
evangelho promove a nossa reconciliação com Deus, produzindo a verdadeira paz (Rm
5.10).
A fé nos faz firmes na graça de Deus e nutre nossa inabalável esperança.
Conforme Calvino, “pelo termo firmes ele quer dizer que a fé não é persuasão fugaz de
um dia, senão que se acha tão radicada e submersa em nossa mente, que o seu
prosseguimento se faz seguro ao longo de toda nossa vida. (...) embora os cristãos
sejam agora peregrinos na terra, não obstante, por sua confiança, se elevam acima dos
céus, de modo que afagam em seu peito sua futura herança com tranquilidade. (...) A
esperança da glória de Deus nos resplandece do evangelho, o qual testifica que seremos
participantes da natureza divina, pois quando virmos a Deus face a face então seremos
como ele é [2 Pe 1.4; 1 Jo 3.2]” (op. cit., p.181).
É oportuno lembrar aqui as palavras de Pedro: “Bendito o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma
viva esperança...” (I Pe 1.3-9).

3. A justificação pela fé e o lugar das obras


No texto base deste estudo, Paulo afirma categoricamente que ninguém é
justificado por obras (vv.27 e 28). Porém, deve-se compreender que a fé não exclui as
obras; pelo contrário, ela produz boas obras. A fé salvadora é operosa, como atestam
estes textos bíblicos: Efésios 2.10; Tito 2.14; Tiago 2.14-26.
As obras não tem caráter meritório, sendo, portanto, ineficazes como meio para
a justificação diante de Deus. Entretanto, elas são uma expressão confirmadora da
verdadeira fé. Nem todos os que praticam boas obras têm a fé salvadora; mas, todos os
que têm a fé salvadora, inevitavelmente, se dedicarão à prática das boas obras – “Mas
alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com
as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18).
Jesus desafia seus discípulos à prática das boas obras (Mt 5.16)

4. A justificação pela fé e a vida consagrada


No texto base, Paulo argumenta que a justificação é pela fé. Porém, ele conclui
o texto, com uma afirmação que não pode passar despercebida: “Anulamos, pois, a lei
pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.” (v.31).
A fé não é contrária à lei. Na verdade, a fé nos motiva a cumprir a lei. Os atos
provenientes da fé genuína não conflitam com a lei; pelo contrário, eles se coadunam
com as exigências da lei. A fé salvadora educa o cristão para a vida piedosa, a
santificação pessoal, a retidão, o amor, o serviço.
A justificação pretendida mediante o cumprimento da lei produz escravos
condenados. Já a justificação pela fé, produz servos livres – “Porque o pecado não terá
domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça. (...) Agora, porém,
libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a
santificação e, por fim, a vida eterna.” (Rm 6.14,22).
A justificação pela fé é a base para uma vida inteiramente consagrada a Deus!
Até à Reforma, o povo estava sendo submetido à escravidão espiritual. Exigia-
se a prática de penitências, o culto às relíquias, a compra dos benefícios sacramentais,
a compra da própria salvação por meio das indulgências. A justificação do pecador
tornara-se um produto monopolizado pela Igreja. Cabia ao pecador, com muito esforço,
trilhar o caminho das obras humanas, a fim de pagar pela sua própria justificação. Mas,
pela graça de Deus, os reformadores bradaram alto bom som: Sola Fide – Somente a
fé!
A doutrina da justificação pela fé foi o golpe mais violento contra aquele
sistema opressor.
“E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo
viverá pela fé.” (Gl 2.11). Diante disso, só nos resta dizer como Paulo: “Graças a Deus
pelo seu dom inefável!” (II Co 9.15).

DISCUSSÃO

Na condição de justificados, você acha que temos cumprido satisfatoriamente Tito


3.14?
12 - “Soli Deo Gloria”
Romanos 11.33 a 36

LEITURA DA SEMANA
SEG - I Crônicas 29.1-22
TER - Salmo 19
QUA - Salmo 104
QUI - Salmo 148
SEX - Efésios 1
SAB - I Pedro 1.3-21
DOM - Apocalipse 21.9 – 22.5

Em Êxodo 20.1 a 5, está escrito: “Então, falou Deus todas estas palavras: Eu
sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás
outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança
alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da
terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus
zeloso...”
Por meio do profeta Isaías, o Senhor declara: “Eu sou o Senhor, este é o meu
nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de
escultura.” (Is 42.8).
Quando tentava a Jesus no deserto, o diabo, de forma indevida, reivindicou
adoração. “Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a
ele darás culto.” (Lc 4.8).
No período que antecedeu a Reforma, esse mandamento estava sendo
afrontosamente desrespeitado, visto que o sistema eclesiástico fazia prevalecer a
pompa e o sacramentalismo (sistema de fé centrado em atos religiosos, como se eles
pudessem, em si, conferir a graça de Deus à pessoa que os realiza). A hierarquia
eclesiástica se colocava acima dos demais mortais, em especial o Papa, que era
designado como o pontifex maximus (lit. “supremo construtor de pontes”),
supostamente dotado de infalibilidade. O culto aos santos, especialmente a Maria, era
amplamente incentivado e praticado. A veneração das relíquias era oficialmente
promovida entre o povo, tendo se tornado um lucrativo negócio. Homens e objetos
haviam usurpado um lugar que pertence exclusivamente a Deus. Daí, o brado
altissonante dos reformadores: Soli Deo Gloria – Glória somente a Deus!

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. Deus é glorificado pelo que Ele é e por suas obras


A palavra “glória” significa excelência, honra, esplendor. Deus é, por natureza,
um ser glorioso (Rm 11.36). A glória de Deus é manifesta por meio de seus atributos.
Ele é glorificado nos atos da criação, na obra da providência e na manifestação da sua
graça. Jesus é a expressão da glória de Deus aos homens (Jo 1.14; Hb 1.3).
O salmista declara: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento
anuncia as obras das suas mãos.” (Sl 19.1). No Salmo 111.3, ele diz mais: “Em suas
obras há glória e majestade, e a sua justiça permanece para sempre.”
Como bem afirma Joel Beeke, “a glória de Deus é a beleza de suas perfeições
multiformes, bem como o esplendor admirável que emana dessas perfeições. A
excelência moral de Deus resplandece em grandeza e magnificência em seus atos de
criação, providência e redenção (Is 44.23; Jo 12.28; 13.31-32). Ao contemplarem essa
excelência, os adoradores de Deus lhe dão glória por meio de louvor, ações de graça e
obediência (Jo 17.4; 21.19; Rm 4.20; 15.6,9; I Pe 4.12-16).” (Vivendo para a glória de
Deus. Editora Fiel)

2. O fim principal do homem é glorificar a Deus


Todos são conclamados a glorificar a Deus: “Glória e majestade estão diante
dele, força e formosura, no seu santuário. Tributai ao Senhor, ó famílias dos povos,
tributai ao Senhor glória e força. Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; trazei
oferendas e entrai nos seus átrios; adorai o Senhor na beleza da sua santidade.” (I Cr
16.29).
No primeiro capítulo da Carta aos Efésios, Paulo afirma que Deus nos escolheu,
nele [em Cristo], antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis
perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de
Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua
graça... a fim de sermos para louvor da sua glória” (Ef 1.4-6, 12).
“A teologia reformada vai além de outros conceitos, contudo, ao enfatizar três
verdades:
1) O objetivo de Deus em tudo o que faz é a sua glória, no sentido de: a)
demonstrar sua excelência moral a suas criaturas; b) evocar delas o louvor pelo que
veem e pelo benefício que lhes traz (cf. Ef 1.3).
2) O objetivo do homem em todas suas ações deve ser a glória de Deus, no
sentido de doxologia em palavra e ação.
3) Deus assim nos fez para que possamos experimentar o dever da doxologia
como nosso supremo prazer, para o nosso próprio e mais elevado bem. Essa
coincidência de dever com interesse e de devoção com satisfação é, aliás, o que está
classicamente formulado no primeiro ensino do Catecismo Menor de Westminster: “O
fim principal do homem é glorificar a Deus e nele deleitar-se para sempre.” (Novo
Dicionário de Teologia, Hagnos, p.454).
Em 20 de abril de 1996, a Aliança de Evangélicos Confessionais, formada por
pastores, professores e líderes de organizações paraeclesiásticas de linha reformada,
lançou um documento denominado “Declaração de Cambridge”, no qual se afirma:
“Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha
sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi
por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo
o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de
hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em
entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em
sentir-nos bem, e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a
Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.
Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de
consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em
Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é
soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em
nossos próprios impérios, popularidade ou êxito. (...) Reafirmamos que, como a
salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos
glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a
autoridade de Deus, e para sua glória somente.”
Na condição de redimidos por Cristo, somos chamados a contemplar e a refletir a
glória de Deus (II Co 3.18). Todo labor humano, seja religioso ou secular, deve ser
feito para a glória de Deus. É precisamente isso que ensina Paulo em Colossenses 3.17:
“E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor
Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.”
Em I Coríntios 10.31, Paulo adverte no sentido de que ninguém deve se
vangloriar na presença de Deus. Tudo deve ser feito para a glória de Deus: “Portanto,
quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de
Deus.” (I Co 10.31).
Com toda a sinceridade, devemos fazer nossas as palavras do salmista: “Não a
nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da
tua fidelidade.” (Sl 115.1)

3. Na consumação, tudo convergirá para a glória de Deus


O texto de Romanos 11.36 – “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas
as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.” – indica que tudo culmina com a glória de
Deus. Ele é o princípio e o fim de todas as coisas.
Deus é glorificado nas obras da criação (Sl 104.31) e também na execução do
seu juízo (Sl 119.137); é glorificado na manifestação de sua graça para a salvação (Rm
9.22,23) e também na aplicação de sua justiça para a condenação dos ímpios (II Co
2.14-16). Nada, absolutamente, é capaz de ofuscar a glória de Deus.
Nós glorificamos a Deus na pessoa de Cristo (Fp 2.9-11; Hb 13,15).
Escrevendo aos efésios, Paulo afirma que Deus fez “convergir nele [em Cristo], na
dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra;
nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito
daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos
para louvor da sua glória.” (Ef 1.10-14).
Na visão que teve da Nova Jerusalém, João constatou a beleza da glória de
Deus e a glorificação dos redimidos: “A cidade não precisa nem do sol, nem da lua,
para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua
lâmpada. As nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua
glória. As suas portas nunca jamais se fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite.
E lhe trarão a glória e a honra das nações.” (Ap 21.23-26).
Soli Deo Gloria.

DISCUSSÃO

Você acha que há na igreja evangélica, hoje, práticas que tentam roubar a glória que é
devida somente a Deus?
13 - “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est” –
Igreja Reformada sempre se reformando
Romanos 12.1 e 2

LEITURA DA SEMANA
SEG - Mateus 5.13-16
TER - Mateus 7.15 a 27
QUA - II Tessalonicenses 2.13-17
QUI - Tiago 2.14-26
SEX - Tiago 2.19-27
SAB - I Pedro 1.1-12
DOM - I Pedro 1.13-25
À luz de Romanos 12.1 e 2, pode-se dizer que, a Igreja Reformada que
está sempre se reformando, é como um sacrifício que queima continuamente perante o
Senhor: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso
corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional...”
(v.1). Também é uma igreja que não se conforma com este século e busca
continuamente a transformação segundo a vontade do Senhor expressa em sua Palavra:
“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
(v.2).

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. Redefinindo o conceito de “Igreja Reformada”


As igrejas reformadas têm características peculiares, que as distinguem da
Igreja Católica e dos segmentos genericamente denominados “evangélicos”.
Nesta época de pluralismo religioso é importante ter consciência clara do que
significa ser um cristão reformado. Em síntese, pode-se dizer que as igrejas reformadas
possuem:
Raízes históricas na Reforma do século XVI – Essa é a primeira
distinção. Como já foi visto nesta série de estudos, a Reforma foi um movimento
amplo, com várias vertentes. De forma geral, reformados são os que têm raízes
nesses movimentos históricos. Porém, o termo “reformado” praticamente tornou-se
sinônimo de “calvinismo”, devido à grande influência da teologia calvinista;
Zelo quanto à doutrina cristã – Firmada na tradição apostólica e dos
Pais da Igreja, revisitada pelos reformadores, a igreja reformada preza a doutrina,
por entender que ela é necessária para orientação da fé cristã. Daí a valorização,
no meio reformado, das confissões de fé. A doutrina estabelece parâmetros que
contribuem para a unidade e o fortalecimento da igreja. O desprezo à doutrina leva
ao caos. Em sua segunda Carta aos tessalonicenses, Paulo afirma: “Entretanto,
devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque
Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do
Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso
evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, pois,
irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja
por palavra, seja por epístola nossa.” (II Ts 2.13-15);
Zelo quanto à prática cristã – Ser um cristão reformado significa buscar
a coerência entre uma teologia biblicamente fundamentada e a vida de pureza e
santidade. Estão equivocados aqueles que associam a postura reformada ao puro
academicismo. Aquele que é genuinamente reformado busca a excelência no
estudo da Palavra de Deus, mas tem compromisso com a piedade cristã. Foi em
virtude disso, que os reformadores deram tanto valor à disciplina eclesiástica.
Para o cristão reformado, a Bíblia é a única regra de fé e prática (Mt 7.24-27;
23.1-12; Tg 1.22-25). Ela deve ser profundamente conhecida e amplamente
praticada;
Zelo quanto ao serviço no mundo – A igreja reformada tem consciência
de sua missão no mundo: servir como sal, luz e fermento (Mt 5.13.16; II Ts
2.16,17). É reconhecida a contribuição do movimento reformado para as
conquistas nas áreas de educação, saúde, direitos humanos, etc.

2. Assumindo a condição de “igreja reformada que está sempre se


reformando”
O prof. João Alves dos Santos, do Centro Presbiteriano de Pós Graduação
Andrew Jumper, observa que a máxima acima referida [Ecclesia Reformata et Semper
Reformanda est ] tem mais de uma versão, qualquer que seja a sua fonte original. A
versão mais completa é: Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum
Dei (“A igreja reformada está sempre se reformando – ou sendo reformada – conforme
a Palavra de Deus”). Essa nos parece a versão mais adequada ao espírito da Reforma
do século 16. Mesmo a reforma da igreja, quando necessária, precisa ser feita segundo
a Palavra de Deus. É ela o padrão pelo qual toda declaração de fé precisa ser
averiguada e conferida.” (Fides Reformata XIX, nº 01, 2014).
A reforma contínua, a que a igreja é desafiada a se submeter, é uma reforma
orientada pela Escritura. Não se trata, portanto, de simples adequações ao tempo e ao
lugar em que a igreja está, pois isso seria mera secularização. A reforma proposta é
segundo os padrões da Escritura Sagrada. Toda vez que a igreja começa a se desviar, é
chamada a voltar às Escrituras. Portanto, pode-se dizer que a igreja reformada que está
sempre se reformando é uma igreja, antes de tudo, bíblica. Nesse sentido, vale recordar
a exortação apostólica: “Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele,
nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo
em ações de graças. Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs
sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não
segundo Cristo.” (Cl 2.6-8).

3. Fé reformada e compromisso
Para que serve a fé reformada? É possível que muitos respondam rapidamente e
de forma acertada: para promover a glória de Deus. De forma geral, isso é verdadeiro.
Porém, há outros aspectos que confirmam a relevância da tradição reformada e
precisam ser considerados.
É fato que a igreja reformada tem lastro histórico. Além disso, é submissa ao
Espírito e tem consciência de sua vocação. Por isso, sua contribuição se torna não
apenas relevante, mas indispensável. Os reformadores do século XVI fizeram uma
leitura correta de sua época, identificaram os anseios da sociedade e, à luz da
Escritura, detectaram os desvios da Igreja. Por isso, sua obra se tornou tão relevante, a
ponto de revolucionar o mundo e ecoar até hoje.
Para se mostrar relevante, é imprescindível que a igreja se mantenha conectada
com a nossa época. Não podemos ceder à tentação de nos refugiarmos nos castelos
seguros da história e da teologia do século XVI, ignorando os desafios do século XXI.
Uma das principais evidências de que somos uma igreja verdadeiramente
reformada é a nossa relevância para o tempo e o lugar em que nos encontramos. Deus é
glorificado na adoração da igreja, mas o é também no seu serviço ao mundo através da
missão. É precisamente isso que o Senhor Jesus ensina, conforme Mateus 5.13 a 16.
Disse ainda Jesus: “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos
tornareis meus discípulos.” (Jo 15.8).
Ser igreja reformada, apenas no sentido de se guardar uma tradição, pode levar
à estagnação e à negação deste princípio vital da Reforma: Igreja reformada e sempre
se reformando conforme a Palavra de Deus.
A igreja verdadeiramente reformada não recua ante ao desafio de ser também
contemporânea. Firmada na Palavra, apoiando-se em sua teologia e guiada pelo
Espírito, ela cumpre de maneira eficaz o seu papel neste mundo.
Concluindo, podemos afirmar acerca da igreja reformada que está sempre se
reformando:
Tem raízes históricas, mas vive no mundo atual – O amor à Bíblia e o
apego à tradição reformada, sem a conexão com o tempo atual, podem levar a uma
deformação. A igreja não pode negar o tempo atual e ignorar seus desafios e
oportunidades;
Tem ousadia para considerar, à luz da Bíblia, as questões atuais, a
fim de oferecer respostas aos problemas do nosso tempo – Suas raízes
históricas e o seu apego às Escrituras devem lhe dar vitalidade e inspiração para
encarar os problemas de hoje, apresentando respostas para os anseios e
necessidades desta época;
Não teme as tensões do tempo atual nem as incertezas do futuro – As
tensões resultantes deste tempo, marcado por tantas transformações, e de um futuro
incerto, não podem intimidar a igreja. Ela não pode recuar, buscando conforto e
segurança entre suas quatro paredes, que podem ser tanto de alvenaria quanto de
uma teologia descompromissada. A igreja reformada não está aprisionada ao
passado e não teme o tempo atual nem o futuro, pois, “se Deus é por nós, quem
será contra nós?” (Rm 8.31).

DISCUSSÃO:
A sua comunidade é reformada? O que confirma isso?
Quais são os desafios a serem enfrentados hoje pela igreja reformada? Como enfrentá-
los?
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

A Heroica Ousadia de Lutero. Steven J. Lawson. Editora Fiel.


A História Ilustrada do Cristianismo. Justo L. González, Vida Nova.
A igreja Cristã na História. Franklin Ferreira. Vida Nova.
A Igreja no Império Romano (Col. História da Igreja). Martin N. Dreher. Sinodal.
A Tradição Cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina. Jaroslav Pelikan.
Vida Nova.
A Vida de João Calvino. Alister E. Mcgrath. Cultura Cristã.
A vida e a morte de João Calvino. Teodoro de Beza. LPC.
Atlas Vida Nova da Bíblia e da História do Cristianismo. Vida Nova
Breve História da Reforma da Igreja de Cristo na França. A. Van der Jagt. Os
Puritanos.
Calvino – O potencial revolucionário de um pensamento. Armando Silvestre. Editora
Vida.
Calvino – Sua vida e sua obra. Vicente Temudo Lessa. CEP.
Calvino e sua influência no mundo ocidental. (Org. Stanford Reid). Cultura Cristã.
Calvino, Genebra e a Reforma. Ronald Wallace. Cultura Cristã.
Calvino: Vida, Influência e Teologia. Wilson Castro Ferreira. LPC.
Cartas de João Calvino. Cultura Cristã.
Conhecendo os Pais da Igreja. Bryan M. Litfin. Vida Nova.
Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: ASTE/Simpósio.
Dogmática Reformada. Herman Bavinck. 04 volumes. Cultura Cristã.
Enciclopédia do Protestantismo. Pierre Gisel e Lucie Kaennel. Hagnos.
Grandes Teólogos. Gerald R. McDermott. Vida Nova.
História da Igreja Cristã. Jesse Lyman Hurlbut, Editora Vida.
História da Igreja Cristã. Robert Hastings Nichols, Cultura Cristã.
História do Cristianismo ao alcance de todos. Bruce L. Shelley. Vida Nova.
História do Cristianismo: para compreender melhor nosso tempo. Editora WMF
Martins.
História e Teologia da Reforma – Introdução. Wilhelm Wachholz. Sinodal
História Ecumênica da Igreja. Paulus, Sinodal, Edições Loyola.
João Calvino – 500 anos. Hermisten Maia Pereira da Costa. Cultura Cristã
João Calvino era assim. Thea. B. Van Halsema.
John Knox – O Patriarca do Presbiterianismo. Waldyr Carvalho Luz. Cultura Cristã.
Martinho Lutero. Uma Coletânea de Escritos. Vários autores. Vida Nova.
Melanchthon – Uma biografia. Heinz Scheible. Sinodal.
O Cristianismo Através dos Séculos. Earle E. Cairns, Vida Nova.
O Pensamento de João Calvino. Vários autores. Mackenzie.
Patrística. J. N. D. Kelly. Vida Nova.
Pilares da Fé. Franklin Ferreira. Vida Nova.
Sou eu, Calvino. Elber M. Lenz Cesar. Ultimato.
Teologia dos Reformadores. Timothy George. Vida Nova.
Vivendo para a glória de Deus. Joel Beeke. Editora Fiel
FILMES SUGERIDOS:

Ben-Hur – Uma história ambientada na Jerusalém do século I.


A Paixão de Cristo – Baseado nos relatos dos Evangelhos, retrata com realismo a
crucificação de Cristo.
O Nome da Rosa – Mostra como era a vida no interior de um monastério da Idade
Média e como o clero mantinha o monopólio do conhecimento.
O Conclave – Um drama historicamente exato, ambientando no séc. XV, que permite um
vislumbre da alma escura e perigosa do renascimento do Vaticano.
As Cruzadas – Esse filme, de 1935, retrata a terceira Cruzada. As Cruzadas eram
expedições de caráter militar, organizadas pela Igreja, para combater os inimigos do
Cristianismo e libertarem a Terra Santa (Jerusalém) das mãos dos infiéis: os
muçulmanos (árabes e turcos). O movimento estendeu-se desde os fins do séc. XI até
meados do século XIII.
Cruzada – Conta as aventuras de um jovem ferreiro na Idade Média, durante as
cruzadas do séc. XII.
A Outra – Retrata os envolvimentos amorosos de Henrique VIII, que culminaram com o
rompimento dos laços do rei com a Igreja Católica, e consequentemente, o surgimento
da Igreja Anglicana.
Elizabeth – Analisa a Inglaterra absolutista de Elizabeth I, que subiu ao trono em 1558
para tornar-se a mulher mais poderosa do mundo. Valorizando o conteúdo calvinista,
Elizabeth pressionava a nobreza (de maioria católica), ao mesmo tempo em que obtinha
apoio da burguesia (de maioria calvinista).
Giordano Bruno – Mostra a execução do matemático, astrônomo e filósofo italiano
Giordano Bruno em uma fogueira da Inquisição, no século XVII.
Sombras de Goya – Narra parte da trajetória do pintor espanhol Francisco Goya, e
mostra como funcionava o radicalismo da Inquisição Espanhola no período que
antecedeu a Revolução Francesa.
Arquivos Secretos da Inquisição – Baseado em documentos inéditos e pesquisas que
revelam inúmeros segredos do Vaticano, a minissérie “Arquivos Secretos da
Inquisição” foi destaque do The History Channel. A produção de quatro horas foi
rodada na Itália, França e Espanha. Retrata as passagens mais obscuras de mais de 600
anos da Igreja Católica em sua luta para ser a exclusiva representante do Cristianismo
no mundo. A Inquisição foi um sistema de terror em massa, composto por cortes
secretas. Tratava-se de uma instituição que ultrapassou fronteiras geográficas e
históricas.
John Wycliffe – Estrela da Manhã – Conta a história do pré-Reformador inglês, que
viveu no séc. XIV.
John Hus – O Mártir – Conta a história do pré-Reformador Johs Huss, morto na
fogueira pela Inquisição, no séc. XV.
O Fora da Lei de Deus – Conta a história do reformador inglês, William Tyndale, que
viveu no séc. XVI.
Martinho Lutero – De 1953, conta a história do monge agostiniano que se tornaria o
principal nome da Reforma. Cobre o período de 1505 a 1530.
Lutero – Produzido em 2003, com base em ampla pesquisa histórica, apresenta a
história do famoso Reformador, que se tornou o ícone da Reforma.