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ISSN: 1981-8963 https://doi.org/10.

5205/1981-8963-v12i01a23523p236-246-2018

Rodrigues DP, Alves VH, Vieira RS et al. A violência obstétrica no contexto do parto...

ARTIGO REVISÃO INTEGRATIVA


A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO CONTEXTO DO PARTO E NASCIMENTO
OBSTETRIC VIOLENCE IN THE CONTEXT OF LABOR AND CHILDBIRTH
LA VIOLENCIA OBSTÉTRICA EN EL CONTEXTO DEL PARTO Y NACIMIENTO
Diego Pereira Rodrigues1, Valdecyr Herdy Alves2, Raquel Santana Vieira3, Diva Cristina Morett Romano Leão4,
Enimar de Paula5, Mariana Machado Pimentel6
RESUMO
Objetivo: analisar as práticas consideradas violentas na atenção obstétrica. Método: revisão integrativa, com
coleta de dados nas bases de dados Web of Science, CINAHL, Scopus, MEDLINE, LILACS e a biblioteca virtual
SciELO, com artigos dos últimos cinco anos, em idioma inglês, espanhol e português, obtendo 13 artigos
selecionados que foram submetidos à técnica de Análise de Conteúdo, na modalidade Análise Temática.
Resultados: foram identificadas as seguintes categorias <<Violência obstétrica: tipologia, definições,
legislação>>; <<A violência obstétrica na percepção da equipe obstétrica>>; <<A violência obstétrica na
percepção das usuárias>>. Conclusão: a violência obstétrica está inserida com as práticas dos profissionais de
saúde, como a episiotomia, a manobra de kristeller, a medicalização do parto, e o cuidado no contexto do
processo de nascimento deve ocorrer de forma respeitosa e, assim, enfrentar atos de violência. Desse modo,
o estudo contribui para o conhecimento acerca das práticas desrespeitosas com a mulher no contexto da
parturição. Descritores: Obstetrícia; Trabalho de Parto; Parto Normal; Violência contra a Mulher; Parto
Humanizado; Direitos Sexuais e Reprodutivos.
ABSTRACT
Objective: to analyze practices considered violent in obstetric care. Method: integrative review, with data
collection in the Web of Science, CINAHL, Scopus, MEDLINE, LILACS databases and the SciELO virtual library
with articles of the last five years in English, Spanish and Portuguese, obtaining 13 selected articles that were
submitted to the Content Analysis technique, in the Thematic Analysis modality. Results: the following
categories have been identified: 'Obstetric violence: typology, definitions, legislation'; << Obstetric violence
in the perception of the obstetric team >>; << Obstetric violence in the perception of users >>. Conclusion:
obstetric violence is inserted with the practices of health professionals, such as episiotomy, kristeller
maneuver, medicalization of childbirth, and care in the context of the birth process should occur in a
respectful way and, thus, face acts of violence. Thus, the study contributes to the knowledge about
disrespectful practices with women in the context of parturition. Descritores: Obstetrics; Labor, Obstetric;
Natural Childbirth; Violence Against Women; Humanizing Delivery; Reproductive Rights.
RESUMEN
Objetivo: analizar las prácticas consideradas violentas en la atención obstétrica. Método: revisión
integrativa, con recolección de datos en las bases de datos Web of Science, CINAHL, Scopus, MEDLINE, LILACS
y la biblioteca virtual SciELO, con artículos de los últimos cinco años, en Inglés, español y portugués lenguaje,
obteniendo 13 artículos seleccionados, que fueron sometidos a la técnica de Análisis de Contenido, en el
modo de análisis temático. Resultados: se identificaron las siguientes categorías << Violencia obstétrica:
tipología, definiciones, legislación >>; << La violencia obstétrica en la percepción del equipo obstétrico >>; <<
La violencia obstétrica en la percepción de las usuarias >>. Conclusión: la violencia obstétrica está inserida
con las prácticas de los profesionales de salud, como la episiotomía, la maniobra de kristeller, la
medicalización del parto, y el cuidado en el contexto del proceso de nacimiento debe ocurrir de forma
respetuosa y, así, enfrentar actos de violencia. De ese modo, el estudio contribuye al conocimiento acerca de
las prácticas irrespetuosas con la mujer en el contexto de la parturición. Descritores: Obstétrica; Trabajo de
Parto; Parto Normal; Parto Humanizado; Violencia contra la Mujer; Parto Humanizado; Derechos Sexuales y
Reproductivos.
1
Mestre, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail:
diego.pereira.rodrigues@gmail.com ORCID iD: http://orcid.org/0000-0001-8383-7663; 2Doutor, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso
Costa/Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: herdyalves@yahoo.com.br ORCID iD: http://orcid.org/0000-0001-8671-
5063; 3Graduada em Enfermagem, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa/Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-
mail: raquel1712@oi.com.br ORCID iD: http://orcid.org/0000-0003-2798-3345; 4Mestre, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso
Costa/Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: divaleao@yahoo.com.br; ORCID iD: http://orcid.org/0000-0001-6711-
0755; 5Especialista em Enfermagem Obstétrica, Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail:
enimar.enfermagem@msn.com; ORCID iD: http://orcid.org/0000-0002-8811-5640; 6Graduada em Enfermagem, Escola de Enfermagem Aurora
de Afonso Costa/Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: anairamdoce@gmail.com ORCID iD: http://orcid.org/0000-
0001-5022-7260

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configurado na assistência à mulher onde, a


INTRODUÇÃO
cada quatro mulheres brasileiras, uma sofre
No Brasil, a implantação do Programa de tratamento desumano e discriminatório.8
Humanização do Pré-Natal e Nascimento
OBJETIVO
(PHPN), em 2000, teve o propósito de atender
às reivindicações sociais pela melhor ● Analisar as práticas consideradas
qualidade da assistência ao parto e violentas na atenção obstétrica.
nascimento, tema que tem sido objeto de
atenção em várias regiões do país. O intuito MÉTODO
era o de promover uma ampla discussão a
Revisão integrativa9 realizada a partir da
respeito.1 Nesse sentido, o referido programa
questão norteadora: <<No processo de parto e
é resultado de um movimento internacional
nascimento, quais práticas assistenciais são
iniciado há cerca de 30 anos contra a
vivenciadas como violência obstétrica?>>. As
utilização, considerada irracional e danosa, de
produções foram localizadas no mês de junho
tecnologias invasivas durante o parto,
de 2016 nas bases de dados Web of Science,
objetivando priorizar a qualidade da interação
Cumulative Index to Nursing and Allied Health
mulher/usuária do serviço e profissional de
Literature (CINAHL), Latin American and
saúde.2-3
Caribbe an Literature in Health Sciences
Mesmo diante dessa elucidação, ainda hoje
(LILACS), Medical Literature Analysis and
é possível constatar que as mulheres passam
Retrieval System Online (MEDLINE), SciVerse
por inúmeras práticas desrespeitosas na
Scopus TopCited (SCOPUS), além da biblioteca
assistência ao parto e nascimento, a saber:
Scientific Electronic Library Online (SciELO),
manipulação desrespeitosa de seu corpo com
utilizando-se os descritores indexados (DeSC-
a medicalização, amniorrexe precoce,
BIREME) Violence Against Women, Humanizing
tricotomia, episiotomia, fórceps obstétrico,
Delivery e Sexual and Reproductive Rights. Na
cesariana e manobra de Kristeller, práticas
sequência, fez-se a expansão semântica para
consideradas prejudiciais à saúde materna e
as palavras-chave Delivery, Obstetric,
do concepto. Essas práticas são realizadas sem
Obstetric violence, todas com
o prévio conhecimento e consentimento da
correspondentes em inglês associadas aos
mulher anulando, com isso, o seu poder
operadores booleanos AND e OR. Durante a
decisório, com o agravante do
busca, adotaram-se as seguintes expressões:
descumprimento das boas práticas do parto
Violence Against Women OR Obstetric violence
normal preconizadas pela Organização Mundial
AND Delivery OR Obstetric OR Humanizing
de Saúde (OMS).1-6
Delivery OR Sexual and Reproductive Rights.
Essas práticas estão em desacordo com o Ressalta-se a delimitação dos últimos cinco
Movimento de Humanização da Assistência e anos como recorte temporal, a partir de 2011,
as Evidências Científicas no campo obstétrico. para a estratégia de busca.
Desse modo, apesar de o conceito de
A seleção das produções foi desenvolvida
humanização do parto e nascimento ser
de modo duplo independente, com vistas a
reconhecido e preconizado por entidades
possíveis vieses nessa etapa. Os critérios de
como a OMS, a Organização Pan-Americana da
inclusão foram: artigos nos idiomas inglês,
Saúde (OPAS), o Ministério da Saúde (MS), o
português ou espanhol. Foram excluídas as
Sistema Único de Saúde (SUS) e conselhos e
produções referentes a: teses, dissertações,
associações da classe médica e de
editoriais, resumos e carta de opinião. Foram
Enfermagem, o processo parturitivo é passível
localizadas 381 produções das quais 13
de ser constituído por iniciativas violentas e
compuseram o corpus deste estudo (Figura 1).
desumanas que desrespeitam os direitos
Salienta-se que as produções que se
humanos e reprodutivos da mulher no parto
apresentaram repetidas foram consideradas
caracterizando a violência obstétrica,
apenas uma vez. Para a extração dos dados
expressão utilizada pelo movimento de
dos estudos selecionados, conforme o
humanização para designar todo ato e/ou
fluxograma da figura 1, utilizou-se um
conduta violenta contra a mulher na
formulário de coleta de dados, elaborado para
perspectiva reprodutiva.1,7
este fim, contendo informações sobre a
Essa modalidade de violência resulta da
identificação do estudo e de conteúdo. A
precariedade do sistema de saúde,2-3 que
síntese final desenvolveu-se na forma
restringe consideravelmente o acesso aos
descritiva, no que se refere aos resultados e
serviços oferecidos além de promover práticas
às conclusões obtidos de cada um dos estudos.
desrespeitosas e desumanas na atenção ao
cuidado da mulher durante o processo de
parto e nascimento.1 Essa violência tem se
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Total de estudos
identificados (381)
Exclusão de duplicatas
Exclusão por data de
(153)
publicação (125)

Seleção por título e


resumos (103)
Excluídos por seleção de
título e resumo (90)
Estudos triados
(13)

Seleção por texto completo


(13)
Excluídos por texto
completo
Amostra para síntese
(n)
(13)
Justificar exclusão

Figura 1: Estratégia de busca para a seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa. Niterói (RJ), Brasil,
2016.

Após sucessivas leituras dos artigos, Ressalta-se que foram respeitados os


realizadas por dois avaliadores, os dados aspectos éticos por meio da citação fidedigna
foram agrupados utilizando-se a técnica de das ideias, conceitos e definições empregadas
Análise de Conteúdo, na modalidade pelos autores das produções utilizadas como
Temática,10 para a compreensão de núcleos resultados neste estudo.
temáticos mobilizados na construção dos
RESULTADOS
problemas de estudo. Após esse
procedimento, os estudos foram categorizados A figura 2 apresenta a síntese dos estudos
em quatro núcleos temáticos que subsidiaram incluídos na revisão integrativa de literatura.
a interpretação e a apresentação dos Para facilitar a identificação ao longo da
resultados da revisão, a saber: 1) A violência discussão, eles foram identificados com os
obstétrica: tipologia, definições e legislação; seguintes pontos: título do estudo; autores;
2) Violência obstétrica na percepção da base de dados do periódico; revista científica;
equipe obstétrica; 3) Violência obstétrica na ano de publicação. Assim, foi realizada uma
percepção das usuárias. análise crítica dos estudos selecionados,
Os estudos selecionados foram classificados apresentando-se os seus resultados em uma
em níveis de evidência (NE): Nível I - as síntese do conhecimento da temática com as
evidências são provenientes de revisão lacunas do conhecimento.
sistemática ou metanálise de todos os Constatou-se que os autores eram filiados a
relevantes ensaios clínicos randomizados campos distintos do conhecimento como
controlados ou oriundos de diretrizes clínicas Medicina, Psicologia, Antropologia, Nutrição e
baseadas em revisões sistemáticas de ensaios Enfermagem. A maioria das publicações
clínicos randomizados controlados; Nível II - (53,8%) foi encontrada em periódicos
evidências derivadas de, pelo menos, um internacionais, em comparação com as
ensaio clínico randomizado controlado bem publicações em periódicos brasileiros (46,2%).
delineado; Nível III - evidências obtidas de No que tange à metodologia, dentre as treze
ensaios clínicos bem delineados sem produções, 46,2% eram baseadas na
randomização; Nível IV - evidências abordagem qualitativa; 30,7%, no método
provenientes de estudos de coorte e de caso- quantitativo; 15,4%, em revisão sistemática de
controle bem delineados; Nível V - evidências literatura e 7,7% dos estudos eram
originárias de revisão sistemática de estudos publicações acerca de relato de experiência.
descritivos e qualitativos; Nível VI - evidências
Observou-se que a maioria dos estudos
derivadas de um único estudo descritivo ou
estava na base de dados Scopus, com cinco
qualitativo e Nível VII - evidências oriundas de
artigos, variando entre 2011 e 2016, com
opinião de autoridades e/ou relatório de
predominância de dois (15,4%) artigos em
comitês de especialistas.11
cada ano referente a 2012, 2013 e 2014. No

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ano de 2015, foram seis (46,1%) publicações, 2016 teve apenas uma (7,7%) publicação.
com o maior quantitativo, enquanto o ano de
Título do Autores Método N Bases de Ano
estudo E dados
La gineco- Maria Raquel Análise VI Web of 2016
obstetriciaen Pozzio antropológica e Science
México: entre el de gênero
“parto humanizado”
yLa
violenciaobstetrica
Microaggressions Vania Smith-Oka Estudo V Scielo 2015
and the etnográfico
reproduction of
social inequalities
in medical
encounters in
Mexico
Violência obstétrica Simone Grilo Estudo reflexo VII Scopus 2015
como questão para Diniz, Heloisa de
a saúde pública no Oliveira
Brasil: origens, Salgado, Halana
definições, Fariade Aguiar
tipologia, impactos Andrezzo, Paula
sobre a saúde Galdino Cardin
materna e de Carvalho,
propostas para sua Priscila
prevenção Cavalcanti
Albuquerque
Carvalho,
Cláudia de
Azevedo Aguiar,
Denise Yoshie
Niy
Violencia obstétrica Carlota J Estudo IV Scopus 2015
desde la Pereira, Alexa L prospectivo e
perspectiva de la Domínguez, descritivo
paciente Judith Toro
Merlo
Mistreatment of Raquel Jewkes, Revisão V Web of 2015
Women in Loveday Penn- sistemática Science
Childbirth: Time for Kekana
Action on This
Important
Dimension of
Violence against
Women
Prevalence of Mirjam Lukasse, Estudo IV Scopus 2015
experienced abuse Anne- Mette transversal
in healthcare and Schroll, Helle
associated obstetric Karro, Berit
characteristics in Schei, Thora
six European Steingrimsdottir
countries , An-Sofie Van
Parys, Elsa Lena
Ryding & Ann
Tabor On Behalf
Of The Bidens
Study group
“Daí você nasceu Jaqueline Fiuza Estudo reflexivo VII Scielo 2015
minha filha”: da Silva regis,
análise discursiva Viviane de Melo
crítica de uma carta Resende
ao obstetra
Violência obstétrica Michelle Relato de VII LILACS 2014
na visão de Gonçalves da experiência
enfermeiras Silva, Michelle
obstetras Carreira
Marcelino, Lívia
Shélida Pinheiro
Rodrigues,
Rosário
Carcaman Toro,
Antonieta Keiko
Kakuda Shimo
Facilitators and Meghan A. Revisão V Web Of 2014
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barriers to facility- Bohren; Erin C. sistemática Science


based delivery in Hunter; Heather
low- and middle- M. Munthe-Kaas;
income countries: a João Paulo
qualitative evidence Souza; Joshua P.
synthesis Vogel; Metin
Gülmezoglu.
Violencia Pablo Terán, Estudo IV Scielo 2013
obstétrica: Carlos prospectivo,
percepción de las Castellanos, descritivo,
usuárias Mireya González transversal
Blanco, Damarys exploratório
Ramos
Violência Janaina Marques Abordagem VI Scopus 2013
institucional, de Aguiar; Ana qualitativa
autoridade médica Flávia Pires
e poder nas Lucas d’Oliveira;
maternidades sob a Lilia Blima
ótica dos Schraiber
profissionais de
saúde
Grado de Josmery Estudo IV Scopus 2012
conocimiento de Faneite, descritivo
violencia obstétrica Alejandra Feo, transversal
por elpersonal de Judith Toro
salud Merlo
Transtornos de Glauce Cristine Estudo VI LILACS 2012
adaptação no pós- Ferreira Soares, descritivo
parto decorrentes Daniela de exploratório
do parto: estudo Almeida
descritivo Andretto,
exploratório Carmem Simone
Grilo Diniz,
Nádia Zanon
Narchi
Figura 2. Síntese dos estudos sobre as práticas na assistência obstétrica na perspectiva da violência
obstétrica. Niterói (RJ), Brasil, 2016.

DISCUSSÃO abandono, negligência ou recusa de


assistência; detenção nos serviços (anulação
 A violência obstétrica: tipologia, da liberdade e autonomia) e imposição de
definições e legislação intervenções obstétricas não consentidas sem
A violência obstétrica tem sido objeto de bases científicas.3,5,15
estudo em diversas pesquisas3,5,12-16 que Como mencionado, a Venezuela foi o
retratam os sofrimentos das mulheres na primeiro país a garantir, por meio de
assistência ao parto e nascimento. Trata-se de legislação específica, os direitos das mulheres
temática abordada desde o final da década de a uma vida sem violência. Essa legislação foi
80 decorrente das atitudes discriminatórias e aprovada no dia 25 de novembro de 2006, em
desumanas na assistência ao parto. Então, a comemoração ao Dia Internacional de Não
terminologia violência obstétrica é utilizada Violência Contra a Mulher, da Lei Orgânica
para descrever as diversas formas de violência sobre o Direito das Mulheres a uma Vida Livre
ocorridas na assistência à gravidez, parto, de Violência, e publicada no Diário Oficial
pós-parto e ao abortamento.5 n.°38.647 da Venezuela, de 19 de março de
A tipologia da violência obstétrica, na 2007. O documento estipula dezenove tipos de
última década, tem sido abordada em diversos violência contra a mulher, dentre elas, a
países, principalmente na Venezuela, país violência obstétrica, motivo desse termo legal
precursor de legislação específica para o constituir-se em nova nomenclatura de
enfrentamento da questão. Mais violência, sendo visto como um importante
recentemente, a Organização Mundial de mecanismo para a garantia de uma assistência
Saúde (OMS) caracterizou essa modalidade de obstétrica livre de violência e promovendo
violência como sendo a apropriação do corpo uma estratégia para o enfrentamento da
da mulher considerando-o patológico com o violência obstétrica por parte dos profissionais
abuso da medicalização, perda da autonomia de obstetrícia e serviços de saúde.5,13-14
e poder de decisão. Também caracterizou a Em uma pesquisa realizada em 2010, a
violência obstétrica em sete categorias respeito do conhecimento dessa legislação de
relacionadas com abuso físico; cuidado não proteção à mulher, foi constatado que 87% dos
consentido; abuso verbal; discriminação; profissionais de saúde afirmaram que

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detinham conhecimento a respeito, mas, obstétrica para a criação de estratégias e


dentre estes, somente 45,7% conheciam a programas para reduzi-la ou eliminá-la.16
existência da Lei Orgânica sobre o Direito das Deve-se destacar que o México tem discutido
Mulheres a uma Vida Livre de Violência e 13% muito a respeito da violência obstétrica,
não tinham conhecimento da referida lei,13 todavia, há carência no país tanto de
mostrando que grande parte dos profissionais definição, como de legislação específica a
de saúde da Venezuela não tem conhecimento respeito.
da tipologia como a definição e as medidas No Brasil, também são utilizados diversos
para o enfrentamento da questão por meio termos para designar o fenômeno: violência
dos recursos legislativos. de gênero no parto e aborto; violência no
Em estudo realizado em 2011, no mesmo parto; abuso obstétrico; violência institucional
país, foi observado que as principais de gênero no parto e aborto; crueldade no
transgressões à Lei Orgânica sobre o Direito parto; assistência desumana/desumanizada;
das Mulheres a uma Vida Livre de Violência violações dos direitos humanos das mulheres
aconteceram por meio de trato desumano em no parto; desrespeito e maus-tratos durante o
66,8% dos casos (21,6% dos quais em razão das parto.5 Essas definições permitem a procura
críticas aos gritos durante o parto; 19,5% pela de estudos que abordem a temática e
proibição de perguntar algo e/ou manifestar contribuam para a formulação de estratégias
seus medos e inquietudes; 15,3% pelas piadas para o enfrentamento da violência obstétrica,
acerca da sua condição, com comentários como a de promover uma legislação em que
irônicos e desclassificatórios) e a realização sejam garantidos os direitos das mulheres na
de procedimentos médicos sem consentimento parturição.
prévio em 49,4% dos casos (dos quais 37,2% A violência na assistência à saúde vem
pela realização de toques vaginais repetitivos sendo evidenciada no poder e na autoridade
e por múltiplos examinadores).14 Tais fatos médica com a mulher em processo de
representam uma violação dos direitos legais parturição, avaliando-a como um sujeito em
das mulheres na assistência obstétrica, situação de fragilidade necessitando de
especificamente para as venezuelanas. cuidado, incapaz de tomada de decisões e
Enquanto na República Mexicana, em 2012, reconhecimento de suas necessidades.3 Então,
dados da Comissão de Direitos Humanos um dos pontos cruciais para a promoção da
indicaram que 45% dos nascimentos foram por violência obstétrica é o exercício da
cesárea, corroborando o imaginário do parto autoridade e do poder dos profissionais de
como sendo um ato cirúrgico em uma saúde que empregam práticas desumanas e
dimensão do modelo biomédico, cultura discriminatórias no contexto do parto e
perpetuada pelos profissionais de saúde e nascimento.3,5 Há restrição à presença do
propagada junto à sociedade que permite acompanhante de livre escolha da mulher,
considerar o corpo da mulher como máquina durante o trabalho parto, parto e pós-parto,
que necessita ser manipulada, além da garantida pela Lei 11.108, de 07 de abril de
utilização de práticas violentas e 2005, seja no SUS ou na rede privada.
institucionalizadas, como o uso de fórceps A propósito, a Organização Mundial de
abusivamente, medicação do corpo no Saúde (OMS) recomenda, desde 1985, que a
processo natural do parto, episiotomia, dentre mulher tenha um acompanhante tendo em
outros procedimentos percebidos como vista os benefícios que esta prática oferece à
marcos da assimetria de poder que culminam mulher e ao bebê. Nesse contexto, pesquisa
em atos desumanos que configuram a realizada em 2010 constatou que 24,5% das
violência obstétrica. 5,13-16 mulheres entrevistadas não puderam usufruir
No México, a Lei Vera Cruz e a norma 007- desse direito. Esta porcentagem significou que
SSA do Ministério da Saúde Mexicano 55,6% das mulheres tiveram indícios de
promoveram questões importantes para a transtornos de adaptação no pós-parto,
saúde reprodutiva propondo que fossem decorrentes do parto, e mostra a importância
discutidas. Contudo, as queixas relacionadas do acompanhante no evento do trabalho de
com as condutas médicas junto às mulheres parto e nascimento, garantindo suporte
eram evidências de práticas desumanas e emocional contínuo à parturiente, sensação
discriminatórias comprovadas pela Comissão de segurança e proporcionando uma
de Direitos Humanos que começou a experiência de parto com maior satisfação.12
considerar essas condutas inadequadas para Assim, os estudos mostraram a necessidade de
essa modalidade de violência, pois tais uma conceituação da temática cujo foco deve
legislações não abordavam a temática estar no direito da mulher, com mecanismos
estudada. A partir deste cenário, considerou- legais a fim de que contribuam para o
se necessário definir e especificar a violência enfrentamento da violência obstétrica. Então,
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faz-se necessária uma ampliação das Outro pressuposto que prevaleceu em


discussões a respeito da temática, tanto relação às mulheres foi o de que sua
quanto uma fundamentação da problemática, sexualidade era desenfreada e havia
visto que os estudos avaliados ainda carecem hiperfertilidade considerando suas pacientes
dessas abordagens. muito promíscuas, suposições baseadas em
 Violência obstétrica na percepção da classe e impressões gerais das pacientes como
equipe obstétrica multíparas, caracterizando estereótipos
perfeitos. A falta de cooperação, ou melhor,
Em estudo acerca da análise antropológica,
de seguir as ordens, pois cooperar implicaria
foi percebido o significativo e aparente
alguma igualdade ou propósito comum, mas,
paradoxo entre a feminização da
na realidade, era a de seguir e respeitar as
obstetrícia/ginecologia e a problematização
ordens médicas, tornando o processo mais
da violência obstétrica, no qual foi possível
fácil (para os médicos). Foi observado que
classificar as posições dos ginecologistas ao
esta percepção pareceu justificar não só as
questionarem seus próprios conhecimentos e
repreensões verbais, mas o tratamento físico
práticas; aqueles que procuraram uma solução
e as intervenções que podem ter alguma
negociada entre poder, autoridade e
justificação médica, mas que, para a mulher,
conhecimento e os direitos das mulheres e
traduziram-se muito bem como aspectos
aqueles que se apoiaram resistindo a uma
punitivos. A hierarquia e a autoridade médica
mudança em sua prática profissional quando
a exames vaginais repetitivos por parte dos
questionados em relação a um parto
médicos e também dos residentes contra a sua
humanizado. Os profissionais mais jovens
vontade,17 pois a hierarquia e a autoridade
demonstraram maior flexibilidade e interesse
médicas permitem o emprego de rotinas
nas boas práticas para o parto humanizado, ao
institucionais, em consonância com o serviço
contrário dos detentores de uma cultura
de saúde, que estabelece como lei todos os
obstétrica mais antiga, demonstrando maior
atos vivenciados.3,16
resistência a mudanças de paradigmas no
cuidado à saúde da mulher e respeito à sua A trajetória profissional permite vivenciar
situações desrespeitosas e, muitas vezes,
autonomia, pois, quanto a essas práticas e sob
violentas e que existe diferença entre os dois
esse ponto de vista, a fluência do discurso e a
percepção de normalidade serviram como um tipos de assistência ao parto: a obstetrícia
baseada em evidências, que oferece
sinal de naturalização da violência obstétrica,
apoiando a ideia de que a mesma está assistência, apoio e proteção, com o mínimo
de intervenções, e o modelo hospitalar
intimamente enraizada na especialidade. O
tradicional tecnocrático, o que demonstra a
estudo evidenciou que, mesmo com o
aumento do número de mulheres na área, o necessidade de mudanças no modelo da
assistência obstétrica desde a formação dos
campo não se tornou mais feminino, mas, sim,
que as mesmas eram as que tinham as práticas profissionais em Obstetrícia para a
diferenciação da formação médica
mais abusivas, tornando-se autoras de um
tradicionalista, fato este que acontece ao
processo violento em sua forma de negociar,
compreender, reagir e promover as suas longo dos anos. O despreparo, a negligência e
a imperícia na prática de profissionais de
práticas equivocadas como da utilização da
saúde constituem um cotidiano “comum” nas
manobra de Kristeller, como forma de ajudar
maternidades. A falta de preparo institucional
a paciente e acelerar o processo, e a
hospitalar, em diversas variantes (estrutura
institucionalização da violência obstétrica.16
física, estrutura com pessoal capacitado e
Estudo realizado em uma maternidade no
estrutura de diretrizes assistenciais), pode
México analisou as “microagressões” e as
influenciar aspectos de violência contra a
frustrações dos médicos, incluindo a raiva
mulher, além da utilização de termos
para com as mulheres, o tratamento
depreciativos com a utilização de frases
impaciente, os comentários irritados, o
violentas e desrespeitosas.15
desprezo em relação às mesmas,
demonstrando uma violência de cunho verbal. Dentre as queixas dos profissionais, a
sobrecarga de demandas, as condições
Comentários negativos sugerindo que as
mulheres deviam mudar ou se adequar para estruturais e a precariedade de recursos
materiais e humanos foram apontadas como
ser mães, depreciando a sua condição
materna, as “microagressões” contra as mães, dificuldades enfrentadas cotidianamente. E as
seja por sua condição social ou econômica em consequências vão desde a falta de
anestesistas de plantão para analgesias de
que, muitas vezes, são alvo de críticas como
forma de as envergonhar e moralizar sobre as parto, proibição de acompanhantes homens,
configuração da imagem da mulher com
práticas de nascimento.3,16
alguém ignorante, com dificuldades de
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compreensão do que é explicado, com uma ou étnica, desrespeito à autonomia e


sexualidade difícil de ser controlada pelo negligência no atendimento constituem atos
número de filho e pouca idade, sem contar a de violência perante a conduta do profissional
agressividade de algumas pacientes com os de saúde.3
profissionais, que eles atribuem à sua Um estudo demonstrou a necessidade de
condição econômica e social, ignorância, à uma assistência respaldada no direito da
violência no meio social,3 onde seus achados mulher em que, durante a assistência à
corroboram o estudo17 em que a imagem das mulher, todo procedimento e plano de
mulheres atendidas é permeada pela cuidado tem de ser explicado e esta
ridicularização da mulher, com uma mulher explicação, ofertada pelo profissional de
ignorante, hiperestimulada em sua saúde, culmine em um Termo de
sexualidade e agressividade por conta de sua Consentimento Livre e Esclarecido, que
condição socioeconômica, perpetuando o constitui um direito da mulher e que cabe a
preconceito e atos de violência. ela recusar ou concordar com as práticas que
Esse estereótipo de mulheres que são serão empregadas na sua assistência. As ações
pacientes difíceis, aquelas que não características de violência obstétrica não são
colaboram, não cumprem as ordens, não bem distinguidas pela equipe de saúde.
fazem força quando ordenadas, são rudes no Igualmente, os mecanismos de reclamação e
trato, que recusam ou dificultam o exame agências de assistência às mulheres vítimas de
vaginal,3 perpetua uma imagem das mulheres violência obstétrica e violência em geral são
que permitem atos de violência obstétrica, desconhecidos pelos integrantes da equipe de
pois rompe com o protagonismo médico saúde.13
perante o desrespeito da autoridade e poder  Violência obstétrica na percepção das
médico exercidos na assistência ao parto e ao usuárias
nascimento.3,16-17 Nessas situações, os
Em um estudo com puérperas, foi
profissionais utilizam uma conduta “mais
observado que 51% das mulheres analisadas
ríspida”, com ameaças e “aumentam a voz”
foram submetidas à cesárea, uma proporção
de maneira a forçar a paciente a “colaborar”.
quase duas vezes e meia maior que o índice
Essas ações de uso corriqueiro são
de 15% estipulado pela Organização Mundial
consideradas como necessárias para legitimar
da Saúde e que, dessas, 24,5% não puderam
o exercício da autoridade como, também,
ficar com acompanhante durante o trabalho
ameaças de abandono e banalização do
de parto, parto e pós-parto imediato, em
sofrimento da paciente que não “colabora”,3
desacordo com a Lei n.º 11.108/2005. Esse
pois a negligência e imperícia permanecem
fato rompe com os direitos sexuais,
com prática para a punição das mulheres.15
reprodutivos e humanos no parto e
O reconhecimento de maus-tratos e nascimento e com as expectativas das
desrespeitos é percebido e nomeado como
mulheres quanto ao seu direito de escolha.
violência. Já em outra situação, estas Para a avaliação de Transtornos de Adaptação
condutas são necessárias como parte do
(TA) no pós-parto decorrentes do parto, faz-se
exercício da autoridade profissional: o que necessário lembrar que uma combinação de
difere é o julgamento moral ao qual a fatores biológicos, obstétricos, sociais e
paciente é submetida, da intensidade do ato e
psicológicos é apontada na determinação de
do contexto da situação. Estes exibem uma transtornos e depressão pós-parto. Ambas as
dificuldade de reconhecer a violência na
questões (a do acompanhante e a do tipo de
assistência à saúde pelo entendimento de parto) se relacionam especialmente ao atual
alguns profissionais de saúde de que a modelo de atenção obstétrica prevalente na
violência provocaria uma maior gravidade do
maior parte das instituições de saúde,
ato, causador de dano físico ou emocional rompendo com os direitos legais e o
propositalmente, humilhação intencional e
protagonismo das mulheres no processo de
preconceito. No entanto, frases irônicas, parto e nascimento que não têm sido
igualmente moralistas e preconceituosas, prioridade.12,18
frequentemente ditas em tom de
Outro estudo demonstrou que 49,4% das
“brincadeira”, foram vistas como uma forma
mulheres manifestaram algum tipo de trato
de humor,17corrobando um estudo16 que
desumano por parte dos profissionais de
estabelece que os profissionais de saúde não
saúde, com práticas de descuidado para a
reconhecem que essas práticas constituem
mulher expressando condutas de violência
atos de violência. Além disso, o desrespeito, o
obstétrica, com 66,8% de mulheres
tratamento grosseiro, com imposição de
submetidas a procedimentos médicos sem o
valores ou julgamento moral, quebra de sigilo,
seu consentimento; 36,7% perceberam que
invasão de privacidade, discriminação social
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foram violentadas e 20,5% não reportaram ter institucionalizada em que o agir profissional
sofrido algum tipo de prática violenta durante acontece de forma desrespeitosa e violenta.
a sua assistência. Com relação tipo de trato Estudo multicêntrico realizado em países
desumano, 23,8% relataram que foram da Europa para avaliar a assistência recebida,
impedidas de ter contato com o recém- de acordo com a opinião das mulheres,
nascido e 21,6% receberam críticas por chorar constatou que uma em cada cinco grávidas
e gritar durante o trabalho de parto; 19,5% que frequentaram a rotina de cuidados no
sentiram que era impossível manifestar suas parto e nascimento relataram ter havido
ansiedades e inquietações com medo de algum tipo de abuso. As mulheres afirmaram
represálias.14,19 que os profissionais alegavam certeza de que
Ao relacionar o tipo de violência com o seu sabiam o que era melhor para a mulher, mas
causador, observou-se que, para todos os acabavam adotando posturas e atitudes que as
tipos, a enfermeira foi vista como a causadora desagradavam porque eram vistas como
de maior frequência e, em segundo lugar, o desumanas perante a sua condição feminina e
médico. Em relação ao tipo de procedimento faziam com que se sentissem privadas de sua
realizado sem consentimento, 37,2% autonomia e dos seus direitos.20,21
reportaram a realização de toques vaginais
CONCLUSÃO
dolorosos e repetitivos; 31,3% descreveram a
administração de medicamentos para acelerar Práticas no cuidado na assistência
o parto; 24,9% afirmaram que foram obrigadas obstétrica como episiotomia; manobra de
a permanecer em decúbito dorsal, sem Kristeller; proibição de movimento; imposição
liberdade de movimentação, e apenas 12,7% da posição ginecológica ou litotômica;
receberam explicação sobre o consentimento proibição de acompanhante durante o
informado. Outro ponto percebido foi que trabalho de parto e parto e pós-parto; toda e
27,3% das mulheres reconhecem a expressão qualquer ação ou procedimento que seja
violência obstétrica, mas apenas 19,3% sabem realizado sem o consentimento da mulher e
onde denunciá-la, o que significa um pequeno que não seja baseado em evidências
grupo em comparação com o empenho das científicas atuais, sejam de caráter físico,
autoridades em divulgar o entendimento das psicológico, sexual, institucional, midiático e
medidas punitivas aos profissionais de saúde material, são consideradas violência
frente ao descumprimento da Lei Orgânica obstétrica. Vale ainda ressaltar que tanto as
para o Direito das Mulheres a uma Vida Livre usuárias, quanto os profissionais apontaram
de Violência.14,19 Os resultados mostram a para a ineficiência dos hospitais, cuja
gravidade do quadro de violência obstétrica estrutura física não fornece às mulheres um
que anula os direitos das mulheres, além de ambiente propício, acolhedor, seguro para
romper com o protagonismo de cada uma no que elas tenham seus filhos de forma digna e
parto e nascimento. onde sejam desenvolvidas as boas práticas
Em outro estudo, foi observado que as para o trabalho de parto e nascimento. Torna-
mulheres percebem como desnecessários os se necessária uma capacitação dos
exames vaginais repetitivos e a episiotomia e profissionais de saúde para promover uma
consideram essa prática desconfortável e assistência humanizada e adequada para o
desumana. Já a cesariana é vista como cuidado à saúde da mulher.
antinatural por elas, que acreditam que esse Portanto, há a necessidade de estudos que
procedimento vem sendo utilizado de forma destaquem a temática junto aos profissionais
indiscriminada. Em relação a ter ou não da área de saúde, com ênfase nas boas
confiança na equipe de saúde, relataram que práticas nela inclusas e a observância e o
há desconfiança em relação aos profissionais cumprimento das legislações, punições e
sob a justificativa de que a maioria deles não formas de denúncia, a fim de promover uma
tem o devido preparo e é considerada reflexão junto aos mesmos, tendo em vista
incompetente quanto à assistência ao parto uma possível transformação em sua prática
de forma natural. As mulheres também apresentando formas não violentas, não
relataram que foram submetidas a abuso físico impostas de estabelecer a autoridade
e verbal, a um tratamento rude, profissional por meio da criação de um vínculo
desrespeitoso, insultante e raivoso por parte baseado no respeito mútuo e na segurança
de equipe de saúde, inferindo-se que os maus- quanto às técnicas utilizadas durante o
tratos ainda ocorrem de acordo com a período, seja ele no trabalho de parto, no
condição socioeconômica e nível de parto ou no puerpério.
19-20,21-22
escolaridade da mulher, prática essa De igual forma, faz-se necessária a
do cotidiano das maternidades cujo propósito realização de pesquisas que empoderem a
é o de expressar uma cultura mulher por meio de conhecimento a respeito
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da violência obstétrica: suas definições, leis, from:


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Submissão: 11/08/2017
Aceito: 13/11/2017
Publicado: 01/01/2018
Correspondência
Diego Pereira Rodrigues
Rua Desembargador Leopoldo Muylart, 307
Bairro Piratininga
CEP: 24350-450  Niterói (RJ), Brasil

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