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UM CRISTÃO NO MONTE

UM TRATADO PURITANO SOBRE A MEDITAÇÃO

Por Thomas Watson


A Christian of the Mount; or a Treatise concerning Meditation
By Dr. Thomas Watson

Traduzido por Tiago Cunha (cap. 1 ao 12 ) e Juliana Fontoura (cap.


13 ao 18)

1ª Edição em Português: Abril de 2018


SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
A abertura das palavras e a proposição afirmada
CAPÍTULO 2
Mostrando a natureza da meditação
CAPÍTULO 3
Provando que a meditação é um dever
CAPÍTULO 4
Mostrando como a meditação difere da memória
CAPÍTULO 5
Mostrando como a meditação difere do estudo
CAPÍTULO 6
Mostrando o assunto da meditação
CAPÍTULO 7
Mostrando a necessidade da meditação
CAPÍTULO 8
Mostrando a razão por que há tão poucos bons cristãos
CAPÍTULO 9
Uma reprovação para aqueles que não meditam na lei de Deus
CAPÍTULO 10
Uma santa persuasão à meditação
CAPÍTULO 11
Resposta a objeções
CAPÍTULO 12
Sobre as meditações ocasionais
CAPÍTULO 13
Sobre o tempo certo de meditar
CAPÍTULO 14
Por quanto tempo os cristãos devem ocupar-se com esse dever
CAPÍTULO 15
Sobre a utilidade da meditação
CAPÍTULO 16
Sobre a excelência da meditação
CAPÍTULO 17
Contendo os motivos divinos para a meditação
CAPÍTULO 18
A prescrição de regras sobre a meditação.
UM CRISTÃO NO MONTE

UM TRATADO PURITANO
SOBRE A MEDITAÇÃO

“E na sua lei medita de dia e de noite”


Salmo 1:2
CAPÍTULO 1
A abertura das palavras e a proposição afirmada
A graça gera deleite em Deus, e o deleite gera a meditação, um dever
em que consiste a essência da religião e que nutre a sua vitalidade. Para que
o salmista possa mostrar o quanto o justo está habituado e acostumado com
essa bendita atividade da meditação, acrescenta: “Na sua lei medita de dia e
de noite”. Não que, por vezes, não haja intervalo, pois Deus concede tempo
para nosso chamado e permite algum descanso. Porém, quando se diz que o
justo medita de dia e de noite, frequentemente se quer dizer que ele é muito
versado em seu dever.
É um mandamento de Deus que oremos sem cessar (1Ts 5:17). O
sentido não é que estejamos sempre em oração, como sustentavam os
euquitas[1], mas que diariamente devemos separar tempo para orar. Desse
modo Drusio[2] e outros interpretavam a passagem.
Lemos na Lei antiga que a oração era chamada de sacrifício contínuo
(Nm 28:24). Não porque o povo de Israel nada mais fizesse senão
sacrificar, mas sim porque tinha suas horas designadas, em que ofertava a
toda manhã e tarde. Por esse motivo, era chamado de sacrifício contínuo.
Por conseguinte, diz-se que o justo medita de dia e de noite, isto é, sempre
está ativo, não é estranho à meditação.
A proposição que resulta do texto é esta: que um bom cristão é
alguém que medita. “Em teus preceitos meditarei e olharei para os teus
caminhos” (Salmo 119:15); “medita estas coisas” (1 Tm 4:15).
Meditar é ruminar as verdades que ouvimos. Na antiga lei, os animais
que não ruminavam o alimento eram impuros. O cristão que não mastiga e
rumina o alimento pela meditação deve ser considerado impuro. A
meditação é semelhante à irrigação da semente: ela faz os frutos da graça
florescerem.
Para ilustrar o argumento, há diversas coisas a se discutir. Devo
mostrar:
1. O que é a meditação.
2. Que a meditação é um dever.
3. A diferença entre meditação e memória.
4. A diferença entre a meditação e o estudo.
5. O assunto da meditação.
6. A necessidade da meditação.
CAPÍTULO 2
Mostrando a natureza da meditação
Se investigarmos o que é a meditação, respondo:
A meditação é o ato de a alma retirar-se de si mesma para que, por
meio de reflexão séria e solene sobre Deus, o coração seja elevado às
afeições celestiais. Essa descrição tem três divisões.
1. A meditação é a alma retirar-se de si mesma.
Um cristão, quando vai meditar, deve guardar-se com segurança do
mundo, pois ele rouba a meditação. Cristo foi sozinho ao monte para orar
(Mateus 14:23); do mesmo modo, aparte-se quando for meditar. “Isaque
saiu para meditar no campo” (Gênesis 24:63); ele se isolou e se retirou para
que pudesse caminhar com Deus pela meditação. Zaqueu pretendia ver
Cristo e saiu do meio da multidão: “Correndo adiante, subiu a uma figueira
brava para o ver” (Lc 19:4). Da mesma forma, quando formos ver Deus,
devemos nos ausentar da multidão dos assuntos mundanos. Devemos
escalar a árvore pelo retiro da meditação e lá teremos a melhor perspectiva
do céu. A música do mundo ou nos deixará adormecidos ou nos distrairá
em nossas meditações. Quando uma partícula de poeira cai no olho, impede
a vista; quando pensamentos mundanos, como poeira, caem sobre a mente,
que é o olho da alma, ela não pode mais olhar tão firmemente para o céu
pela contemplação.
Portanto, assim como Abraão foi para o sacrifício e “deixou seus
servos e o jumento ao pé do monte” (Gênesis 22:5), também, quando um
cristão está subindo a montanha da meditação, deve deixar todos os
cuidados seculares ao pé dela, para que esteja sozinho e totalmente voltado
para o céu. Se as asas da ave estiverem cheias de lodo, ela não pode voar. A
meditação é a asa da alma; quando um cristão está enlameado com a terra,
não pode voar para Deus nessa asa.
Quando Bernardo de Claraval[3] vinha à porta da igreja, costumava
dizer: “Fiquem aqui todos os meus pensamentos mundanos, para que possa
conversar com Deus no templo”. Desse modo, diga a si mesmo: “Agora
vou meditar. Ó pensamentos vãos, fiquem para trás, não se aproximem”.
Quando for subir ao monte da meditação, tome cuidado para que o mundo
não o siga e o atire para baixo do topo desse pináculo.
Esta é a primeira coisa, a alma retirar-se de si mesma. Tranque e
aferrolhe a porta contra o mundo.
2. A segunda coisa na meditação é um pensar sério e solene sobre
Deus.
A palavra hebraica para meditar significa recoletar e reunir com
intensidade os pensamentos. A meditação não é um trabalho apressado, ter
alguns pensamentos passageiros sobre a religião, como os cães do Nilo, que
bebem rapidamente[4]. Mas deve haver na meditação uma fixação do
coração sobre o objeto, uma maceração dos pensamentos. Cristãos carnais
são como mercúrio, que não se consegue fixar[5], seus pensamentos ficam
perambulando para cima e para baixo e não se alicerçam. São como a ave
que pula de um galho para outro e não permanece em lugar algum.
Davi era um homem apto a meditar: “Firme está o meu coração, ó
Deus!” (Salmo 108.1). Na meditação deve haver uma firmeza dos
pensamentos sobre o objeto. Um viajante, que passa com pressa por uma
cidade ou vila, não se interessa por nada. Mas um artista ou um pintor, que
estão em busca de algo fora do comum, veem todo o seu rascunho e retrato,
observam a simetria e proporção, interessam-se por cada sombra e cor. Um
cristão carnal e inconstante é como o viajante, seus pensamentos viajam
com pressa e não se importam nem um pouco com Deus. Um cristão sábio
é como o artista, observa com seriedade e pondera nas coisas da religião:
“Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração”
(Lc 2.19).
3. A terceira coisa na meditação é o despertamento do coração
para as santas afeições.
Um cristão entra em meditação como uma pessoa entra em um banho
medicinal para que possa ser curada. A meditação cura a alma de seu
definhamento e mundanismo. Porém, mais será dito a esse respeito adiante.
CAPÍTULO 3
Provando que a meditação é um dever

A meditação é um dever que incumbe a todo cristão e não há dúvida


que seja nosso dever. A meditação é um dever: 1. Imposto; 2. Oposto.
1. A meditação é um dever imposto, não arbitrário.
O mesmo Deus que nos intimou a crer nos intimou a meditar: “Não
cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite” (Josué
1.8). Essas palavras, embora faladas a Josué, dizem respeito a todos, do
mesmo modo que a promessa feita a Josué dizia respeito a todos os crentes
(comparar Josué 1.5 com Hebreus 13.5). Portanto, esse preceito dado a
Josué, de que deveria meditar no livro da lei, abrange todos os cristãos. É
característico do hipócrita alargar a promessa e estreitar o preceito. Você
deve meditar nesse livro da lei; a palavra você é indefinida e abrange cada
cristão. Assim como a Palavra de Deus ordena, também sua vontade deve
reforçar a obediência.
2. A meditação é um dever oposto.
Podemos concluir que é um bom dever, porque é contrário à
inclinação da corrupção natural. Como se dizia que se podia saber que a
religião perseguida por Nero era justa, também se pode saber que o dever
ao qual se opõe o coração é um bom dever.
Podemos descobrir, naturalmente, uma estranha aversão à meditação.
Somos prontos para ouvir, mas lentos para meditar. Pensar sobre o mundo,
ainda que seja por todo o dia, é delicioso; mas, quanto à santa meditação,
como disputa e contende o coração contra esse dever! Faz-se dele uma
penitência! Mas verdadeiramente não há necessidade de nenhuma outra
razão para provar que um dever é bom além da relutância de um coração
carnal.
Para exemplificar, temos a autonegação: “Se alguém quer vir após
mim, a si mesmo se negue” (Mateus 16.24). A autonegação é tão necessária
quanto o céu, mas que disputas se levantam no coração contra ela! “O
quê?! Negar minha razão e tornar-me um tolo para que seja sábio? Ora
essa! Não apenas negar minha razão, mas minha justiça? Como?! Lançá-la
fora do navio e nadar para o céu sobre a prancha dos méritos de Cristo?”
Esse é um dever ao qual se opõe e do qual diverge naturalmente o coração.
Esse é um argumento que prova que a autonegação é um bom dever.
O mesmo ocorre com a meditação. A antipatia secreta que lhe devota o
coração mostra que é boa, e isso é razão suficiente para reforçar a
meditação.
CAPÍTULO 4
Mostrando como a meditação difere da memória

A memória (uma gloriosa faculdade), que Aristóteles chama de


escriba da alma, senta-se e escreve todas as coisas que são feitas. Tudo o
que lemos ou ouvimos a memória registra. Portanto, Deus faz todas as suas
obras de maravilhas para que possam ser guardadas na lembrança. Parece
haver alguma analogia e semelhança entre a meditação e a memória. Mas
penso que há uma diferença dupla.
1. A meditação acerca de algo possui mais doçura do que sua
mera lembrança.
A memória é o peito ou o armário onde se tranca a verdade; a
meditação é o paladar para saboreá-la. A memória é semelhante à arca na
qual se pôs o maná; a meditação é como Israel comendo o maná. Quando
Davi começou a meditar sobre Deus, foi-lhe “como tutato e gordura”
(Salmo 63.5). Há tanta diferença entre uma verdade lembrada e uma
verdade meditada como há entre um remédio no recipiente e um remédio
que é bebido.
2. A lembrança de uma verdade sem a séria meditação sobre ela
apenas criará matéria para aflição no outro dia. Que conforto pode trazer ao
homem quando vier a morrer pensar que lembrou de muitos conceitos
excelentes sobre Cristo, mas nunca teve a graça de meditar sobre eles a
ponto de por ele ser transformado? Um sermão lembrado, mas não
ruminado, apenas servirá para aumentar nossa condenação.
CAPÍTULO 5
Mostrando como a meditação difere do estudo

A vida de estudo assemelha-se à meditação, porém, na realidade,


difere dela. A meditação e o estudo diferem de três modos.
1. Em sua natureza.
O estudo é uma obra do cérebro; a meditação, do coração. O estudo
põe a invenção[6] para o trabalho; a meditação põe a afeição para o trabalho.
2. Em seu propósito.
O propósito do estudo é apropriar-se de conceitos; o da meditação, da
piedade. O propósito do estudo é descobrir a verdade; o da meditação, o
aproveitamento espiritual de uma verdade. Um busca o veio de ouro; a
outra cava em busca do ouro.
3. Em desfecho e resultado.
O estudo nunca deixa ninguém nem um pouquinho melhor. É como o
sol no inverno, que tem pouco calor e influência. A meditação deixa
alguém em uma santa disposição; derrete o coração quando está congelado
e o faz derramar lágrimas de amor.
CAPÍTULO 6
Mostrando o assunto da meditação

O quarto tópico a ser discutido é o assunto principal da meditação,


aquilo em que um cristão deve meditar. Agora me intrometi em um vasto
campo, porém devo dar apenas alguns vislumbres das coisas. Farei como os
discípulos: colherei algumas espigas de milho enquanto passo.
Alguns podem dizer: “Ai de mim! Sou tão estéril que nem sei sobre o
que meditar”. Portanto, para ajudar os cristãos nessa bendita obra, devo
mostrar-lhes alguma matéria seleta para meditação. Há quinze coisas na lei
de Deus sobre as quais devemos principalmente meditar.
SEÇÃO 1: Meditem sobre os atributos de Deus
1. Os atributos de Deus são os raios diversos pelos quais a natureza
divina brilha sobre nós. Há seis atributos especiais sobre os quais devemos
fixar nossas meditações.
a) Meditem sobre a onisciência de Deus.
Seus olhos estão continuamente sobre nós. Ele tem uma janela aberta
na nossa consciência; nossos pensamentos estão patentes diante dele. Ele
pode dizer as palavras que falamos “no nosso quarto de dormir” (2Reis
6.12). É descrito com sete olhos, para mostrar sua onisciência. Ele conta os
nossos passos (Jó 14.16). A palavra hebraica para “contar” significa ter um
registro exato. Diz-se que Deus conta nossos passos quando faz uma
observação minuciosa e crítica de nossas ações. Deus estabelece cada
passagem de nossas vidas e, por assim dizer, mantém um diário de tudo o
que fazemos, e tudo registra nesse diário. Meditem bastante sobre essa
onisciência.
A meditação sobre a onisciência de Deus terá os seguintes efeitos:
1. Será como um freio para nos examinar e restringir do pecado.
Roubaria o ladrão quando o juiz estivesse observando?
2. A meditação sobre a onisciência de Deus é um bom meio para
tornar o coração sincero. Deus colocou uma janela no coração de cada
pessoa: “Ou não vê Deus todos os meus caminhos?” (Jó 31.4). Se abrigar o
orgulho e pensamentos maliciosos; se olhar para meus próprios interesses
mais do que para Cristo; se fingir em meu arrependimento, isso tudo o
Deus do céu observará. A meditação sobre essa onisciência tornará o
cristão sincero em suas ações e em seus propósitos. Se alguém for
hipócrita, é porque deve ser um tolo.
b) Meditem sobre a santidade de Deus.
A santidade é o manto enfeitado e belo que Deus usa: é a glória da
Deidade. Ele é “glorificado em santidade” (Êxodo 15.11). É a pérola mais
brilhante da coroa celeste. Deus é o exemplo e padrão da santidade. Ela se
encontra primária e originalmente em Deus, como a luz no sol. Vocês
podem tão bem separar o peso do chumbo ou o calor do fogo, como a
santidade da natureza divina. É por causa de sua santidade que seu coração
se levanta contra qualquer pecado: “Tu és tão puro de olhos, que não podes
ver o mal” (Hebreus 1.13). Meditem bastante sobre esse atributo.
A meditação sobre a santidade de Deus terá o seguinte efeito: será
um meio para nos transformar à imagem e semelhança de Deus. Ele nunca
nos ama até que sejamos como ele é. Há uma história, contada por Pedro
Mártir[7], de um homem deformado que colocou gravuras bonitas e
graciosas diante de sua mulher para que, ao vê-las, pudesse ter filhos
bonitos, e assim aconteceu. O rebanho de Jacó, ao olhar para as varas
descascadas e com riscas abertas, concebia crias semelhantes às varas
(Gênesis 30.38,39). Semelhantemente, enquanto pela meditação estivermos
olhando para os raios de santidade, que são gloriosamente transparentes em
Deus, cresceremos como Ele e seremos santos como Ele é santo.
A santidade é bela (Salmo 110). Ela produz um tipo de brilho
angelical sobre nós; é a única moeda que será corrente no céu. Pela
meditação frequente sobre esse atributo, somos transformados à imagem de
Deus.
c) Meditem sobre a sabedoria de Deus.
Ele é chamado de “o único que é sábio” (1Timóteo 1.17[8]). Sua
sabedoria resplandece nas obras da Providência; ele se assenta no leme,
guiando todas as coisas regular e harmoniosamente. Ele traz a luz das
trevas; pode fazer um traço reto usando um lápis torto; pode usar a injustiça
dos homens para fazer o que é justo. É infinitamente sábio, nos quebranta
pelas aflições e, nos destroços do navio, nos traz em segurança até a praia.
Meditem sobre a sabedoria de Deus.
A meditação sobre a sabedoria de Deus acalmará docemente nossos
corações.
1. Quando vemos as coisas indo de mal a pior nos assuntos públicos,
o Deus sábio mantém as rédeas do governo em sua mão e, seja lá quem
governe, Deus está acima governando tudo. Ele sabe como redundar tudo
em bem; suas obras serão belas, a seu tempo.
2. Quando as coisas nos vão mal, em particular, a meditação sobre a
sabedoria de Deus embalará nossos corações calmamente. O Deus sábio me
colocou nessa condição e, seja na saúde ou na doença, a sabedoria ordenará
as coisas para o meu melhor. Deus fará do veneno um doce, todas as coisas
serão medicinais e curativas para mim. O Senhor ou removerá algum
pecado ou exercitará alguma graça. A meditação sobre essas coisas
silenciará a murmuração.
d) Meditem sobre o poder de Deus.
Esse poder é visível na criação. “Ele faz pairar a terra sobre o nada”
(Jó 26.7). O que não pode fazer o Deus que pode criar? Nada pode
permanecer diante de um poder criador. Ele não necessita de matéria
preexistente para trabalhar; não precisa de instrumentos para trabalhar, pois
pode fazê-lo sem eles. Ele é aquele diante de quem os anjos escondem o
rosto e os reis da terra lançam suas coroas.
Ele é o que “remove a terra de seu lugar” (Jó 9.6). Um terremoto faz
a terra tremer sobre seus pilares, mas Deus pode sacudi-la do seu lugar. Ele
pode, com uma palavra, desprender as rodas e quebrar o eixo da criação.
Pode suspender os agentes naturais, parar a boca do leão, deter o sol e fazer
o fogo não queimar. Xerxes, o rei da Pérsia, atirou correntes ao mar, como
se pudesse agrilhoar as águas desgovernadas. Mas, quando Deus ordena,
“os ventos e o mar lhe obedecem” (Mateus 8.27). Se fala uma palavra, um
exército de estrelas aparece (Juízes 5.20), se pisa com o pé, uma hoste de
anjos se apresenta para a batalha; se levanta uma bandeira e assovia, até
mesmo seus inimigos pegarão em armas para vingar sua causa (Isaías
5.56). Quem provocaria esse Deus! “Horrível coisa é cair nas mãos do
Deus vivo” (Hebreus 10.31). Como um leão “Ele rasga em pedaços seus
adversários” (Salmo 50.22). Meditem sobre o poder de Deus!
A meditação sobre o poder de Deus será grande apoio para a fé. A fé
do cristão pode se ancorar seguramente na rocha do poder de Deus. O
enigma de Sansão foi: “Do forte saiu doçura” (Juízes 14.14). Enquanto
estamos a meditar no poder de Deus, desse forte sai doçura. A igreja de
Deus encontra-se cabisbaixa? Ele pode “criar um louvor de Jerusalém”
(Isaías 65.28). Sua corrupção é forte? Deus pode quebrar a cabeça desse
Leviatã. O coração está endurecido? Há uma pedra fincada lá? Deus pode
dissolvê-lo: “O Todo-poderoso amolece meu coração”. A fé triunfa no
poder de Deus: desse forte sai doçura. Pela meditação no poder de Deus,
Abraão não cambaleou pela descrença (Romanos 4.20). Ele sabia que Deus
podia fazer um útero morto frutificar e seios secos amamentarem.
e) Meditem sobre a misericórdia de Deus.
A misericórdia é uma disposição inata em Deus de fazer o bem,
como o sol tem a propriedade inata de brilhar: “Pois tu, Senhor, és bom e
compassivo; abundante em benignidade para com todos os que te invocam”
(Salmo 86.5). A misericórdia de Deus é tão doce que torna todos os seus
outros atributos doces. A santidade sem misericórdia e a justiça sem
misericórdia são terríveis. Os geógrafos escrevem que a cidade de Siracusa,
na Sicília, está curiosamente situada em lugar onde o sol nunca está fora de
vista. Embora os filhos de Deus estejam debaixo de algumas nuvens de
aflição, o sol da misericórdia nunca está totalmente fora de vista. A justiça
de Deus alcança as nuvens; sua misericórdia, acima das nuvens.
Como Deus é tardio em se irar! Demorou-se mais em destruir Jericó
do que em criar o mundo. Fez o mundo em seis dias, mas levou sete para
demolir os muros de Jericó. Quantos avisos lançou contra Jerusalém, antes
que lançasse a destruição? A justiça anda a passadas, a misericórdia tem
asas. A espada da justiça com frequência repousa muito tempo na bainha e
enferruja, até que o pecado a arranca e a afia contra uma nação. A justiça
de Deus é como o óleo da viúva, que se derrama um pouco e cessa (1Reis
4.6). A sua misericórdia é como o óleo de Arão, que não para na sua barba,
mas desce para as abas de sua veste (Salmo 133.2). Assim o óleo da
misericórdia de Deus não repousa sobre a cabeça de um bom pai, mas é
derramado sobre seus filhos, e assim desce “até a terceira e quarta
geração”, até os limites de uma semente piedosa. Meditem sempre sobre a
misericórdia de Deus.
A meditação sobre a misericórdia será um poderoso ímã para atrair
os pecadores a Deus pelo arrependimento. Seria como uma boia na rede,
que impede o coração de afundar no desespero. Eis aqui uma cidade de
refúgio para onde se pode fugir: “Deus é o Pai das misericórdias”
(2Coríntios 1.3). A misericórdia flui tão naturalmente dele, como o filho de
um pai. Deus se “deleita na misericórdia” (Miqueias 7.18). Crisóstomo diz
que é deleitoso para a mãe ter os seios sugados; e quão deleitoso é para
Deus ter os seios da misericórdia sugados! A misericórdia encontra o pior
pecador. Ela vem não apenas com a salvação em sua mão, mas com a cura
sob suas asas.
A meditação sobre a misericórdia de Deus irá derreter um pecador
em lágrimas. Alguém que lia sobre o perdão enviado a si pelo rei caiu em
choro e irrompeu nestas palavras: “Um perdão fez o que a morte não
poderia fazer, fez meu coração ter alento”.
6. Meditem sobre a verdade de Deus.
A misericórdia faz a promessa, e a verdade a cumpre: “Nem
desmentirei a minha fidelidade” (Salmo 89.33). É impossível que Deus
negue a si mesmo e a sua Palavra. Ele é “abundante em verdade” (Êxodo
34.6). O que isso significa? Significa que, se Deus fez uma promessa de
misericórdia ao seu povo, estará tão longe de falhar com sua palavra que
será melhor que sua palavra. Deus faz com frequência mais do que disse,
nunca menos. Com frequência, move para além o marco da promessa que
estabeleceu, nunca para aquém. Ele é abundante em verdade. Deus pode, às
vezes, adiar uma promessa, mas nunca a negará. A promessa pode repousar
por longo tempo como semente escondida sob o solo, mas está nesse
instante amadurecendo. A promessa da libertação de Israel ficou
quatrocentos e trinta anos sob o solo; mas, quando o tempo chegou, a
promessa não permaneceu nem mais um dia sem seu cumprimento (Êxodo
12.41). “A Glória de Israel não mente” (1Samuel 15.29). Meditem sobre a
verdade de Deus.
A meditação sobre a verdade de Deus será:
1. Um pilar de suporte para a fé.
O mundo se pendura sobre o poder de Deus, e a fé se pendura sobre
sua verdade.
2. A meditação sobre a verdade de Deus nos fará ambiciosos para
imitá-lo.
Devemos ser verdadeiros em nossas palavras, verdadeiros em nossos
relacionamentos. Pitágoras, quando perguntado sobre o que faz os homens
parecidos com Deus, respondeu: “Quando falam a verdade”.
Seção 2. Meditem sobre as Promessas De Deus
As promessas são flores que crescem no paraíso da Escritura; a
meditação, como a abelha, suga-lhes a doçura. As promessas não nos têm
serventia até que meditemos sobre elas. As rosas penduradas no jardim
podem fornecer um aroma suave, contudo sua doce água somente pode ser
destilada pelo fogo. Assim as promessas são doces ao ser lidas, mas a água
dessas rosas, os espíritos e quintessências das promessas, são destiladas na
alma apenas pela meditação. O incenso, quando é batido e moído, exala
com doçura. A meditação sobre uma promessa, como a batida sobre o
incenso, a torna mais odorífera e agradável. As promessas podem ser
comparadas à mina de ouro, que apenas enriquece quando o ouro é
purificado. Pela santa meditação, purificamos esse ouro espiritual que está
oculto em meio à promessa, e assim nos tornamos ricos. Cardano[9] diz que
não há pedra preciosa que não tenha em si alguma virtude escondida. São
chamadas promessas preciosas (2Pedro 1.4). Quando são aplicadas pela
meditação, então sua virtude aparece e se tornam realmente preciosas. Há
três tipos de promessas sobre as quais devemos meditar.
1. Promessas de remissão.
“Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de
mim e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43.25). Ao passo que o
pobre pecador pode dizer: “Ai de mim! Estou profundamente endividado
com Deus; temo que não enchi sua garrafa com minhas lágrimas, mas enchi
seu livro com meus débitos”. Sim, é verdade, mas meditem sobre esta sua
promessa: “Eu sou o que apago as tuas transgressões”. A palavra no
original para “apagar” é uma metáfora que alude a um mercador que,
quando pago por seu devedor, apaga a dívida e lhe dá um comprovante.
Assim, diz Deus, apagarei seu pecado, riscarei o livro de dívidas. Mas
talvez a pobre alma possa dizer: “Pode ser ótimo no início, mas talvez fique
um longo tempo sob as convulsões da consciência; ‘posso até mesmo ser
consumido e minha vida se achegar ao túmulo’” (Salmo 88.9). Não, pois no
hebraico está: “Estou apagando tuas transgressões”. Estou pegando minha
caneta e riscando suas dívidas. Mas talvez o pecador diga: “Não há razão
para que Deus me faça isso”. Bem, mas atos de graça não funcionam por
razão. “Eu apagarei os teus pecados ‘por amor de mim’”. Mas diz o
pecador: “O Senhor não trará à lembrança meus pecados novamente?” Não,
ele promete que se esquecerá: “Não lançarei na tua face teus pecados, nem
te demandarei por um vínculo que foi rompido. Não me lembrarei dos teus
pecados”. Eis aqui uma doce promessa a ser meditada; é uma colmeia cheia
do mel do evangelho.
2. Meditem sobre as promessas de santificação.
É mais difícil que a terra seja inundada por espinhos e abrolhos do
que o coração ser invadido por luxúrias. Mas Deus fez promessas de cura
(Oseias 14.4) e purificação (Jeremias 33.8); promessas de envio do seu
Espírito (Isaías 44.3) que, por sua natureza santificadora, é comparado, às
vezes, à agua que limpa o vaso; outras vezes, ao vento, que é o ventilador
para joeirar e purificar o ar; outras vezes ainda, ao fogo que refina os
metais. Meditem sempre sobre esta promessa: “Ainda que vossos pecados
sejam como a escarlata, se tornarão brancos como a neve” (Isaías 1.18). A
escarlata é um corante tão profundo que nem toda a arte do homem pode
removê-la. Mas contemplem aqui uma promessa: Deus embranquecerá a
alma; ele fará de um pecador escarlate um santo semelhante ao leite
embranquecido. Em virtude desse trabalho refinador e consagrador, um
cristão é feito participante da natureza divina; tem idoneidade e aptidão
para ter comunhão com Deus para sempre. Meditem bastante sobre essa
promessa.
3. Meditem sobre as promessas de remuneração.
“O porto do descanso” (Hebreus 4.9); “a visão beatífica de Deus”
(Mateus 5.8), “as gloriosas mansões” (João 14.2). A meditação sobre essas
promessas impedirá que desmaiemos debaixo de nossos pecados e dores.
Seção 3. Meditem sobre o Amor de Cristo.
Cristo está cheio de amor, como está de mérito. O que além do amor
o levou a nos salvar e não aos anjos? Entre as raridades da magnetita não é
das menos importantes que ela rejeite o ouro e a pérola e atraia para si o
ferro, que é um tipo de metal inferior. Então o que o fato de que Cristo
deixou os anjos – esses espíritos mais nobres, o ouro e a pérola – e atraiu
para si a humanidade proclama a respeito de seu amor? O amor era a asa
sobre a qual ele voou para o ventre da virgem.
1. Como é transcendente o amor de Cristo pelos santos! O apóstolo o
chama de amor que “excede todo entendimento” (Efésios 3.19). É tal qual
o amor que Deus Pai tem por Cristo; o mesmo em qualidade, mas não em
igualdade: “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (Jo15.9). O
coração de um crente é o jardim onde Cristo plantou essa doce flor de seu
amor. É o canal através do qual jorra a corrente áurea de sua afeição.
2. Como é distinto o amor de Cristo! “Não foram chamados muitos
sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre
nascimento” (1Coríntios 1.26). Na antiga lei, Deus preteriu o leão e a águia
e tomou por sacrifício o pombo. Ó profundidade da graça divina, que Deus
tenha preterido tantos de boa linhagem e de posses, e que o quinhão de sua
livre graça tenha caído sobre você!
3. Como é invencível o amor de Cristo! “É forte como a morte”
(Cantares 8.6). A morte pôde pôr fim à sua vida, não ao seu amor. Como a
morte, também o pecado não poderia apagar completamente essa divina
chama do amor. A igreja tinha suas enfermidades, sua sonolência (Cantares
5.2), mas, ainda que enegrecida e manchada, não deixou de ser uma
pomba; Cristo podia ver-lhe a fé e relevar-lhe a falha. O pintor que retratou
Alexandre, visto que havia uma cicatriz em sua face, retratou-o com seu
dedo sobre a cicatriz. Cristo põe o dedo da misericórdia sobre as cicatrizes
dos santos; não lançará fora suas pérolas para cada partícula de sujeira que
encontrar. O que faz esse amor de Cristo ainda mais estupendo é que não
havia nada em nós para provocar ou atrair esse amor. Ele não nos amou
porque fôssemos dignos, mas, ao nos amar, nos fez dignos.
4. Como é imutável o amor de Cristo! “Tendo amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até ao fim” (João 13.1). Os santos são como
letras de ouro gravadas sobre o coração de Cristo, que não podem ser
apagadas. Meditem sobre o amor de Cristo.
1. A séria meditação sobre o amor de Cristo nos fará amá-lo
novamente. “Andará alguém sobre brasas, sem que as suas vestes se
incendeiem?” (Provérbios 6.28). Quem pode pisar pela meditação nessas
brasas quentes do amor de Cristo e seu coração não arder em amor por ele?
2. A meditação sobre o amor de Cristo fará nossos olhos desaguarem
em lágrimas por nossa maldade contra o evangelho. Como podemos pecar
contra tão doce Salvador? Não temos ninguém mais para provocar senão
nosso amigo? Não temos nada para pisar senão as entranhas de amor?
Cristo não sofreu o suficiente na cruz para o fazermos sofrer ainda mais?
Nós lhe daremos a beber mais fel e vinagre? Se algo pode dissolver o
coração em tristeza é a falsidade e maldade ofertadas a Cristo. Quando
Pedro pensou sobre o amor de Cristo por ele, que nada lhe negou, tendo ele
próprio negado Cristo, isso fez seus olhos desabrirem em lágrimas. “Pedro
saiu e chorou amargamente”.
3. A meditação sobre o amor de Cristo nos fará amar nossos
inimigos. Jesus Cristo mostrou amor por seus inimigos. Lemos que “o fogo
caiu do SENHOR ... e ainda lambeu a água que estava no rego” (1Reis
18.38). É comum que a água apague o fogo, mas o fogo secar e consumir a
água, que não era capaz de queimar, isso foi miraculoso! Cristo mostrou
esse milagre; seu amor queimou onde não havia matéria boa para ser
trabalhada, nada, senão pecado e inimizade. Ele amou seus inimigos; o
fogo de seu amor consumiu e lambeu a água de seus pecados. Ele orou por
seus inimigos: “Pai, perdoa-lhes”. Derramou lágrimas pelos que
derramaram seu sangue. Aos que lhe deram fel e vinagre a beber, deu-lhes
seu sangue a beber. A meditação sobre esse amor derreterá nossos corações
em amor aos inimigos. Agostinho diz que Cristo fez da cruz um púlpito, e a
grande lição que ensinou aos cristãos foi amar seus inimigos.
4. A meditação sobre o amor de Cristo será um meio para nos apoiar
caso ele esteja ausente. Às vezes, ele se agrada de retirar-se (Cantares 5.6),
contudo, quando consideramos quão completo e imutável é o seu amor,
isso nos fará aguardar com paciência até que docemente se manifeste a nós.
Ele é amor e não pode esquecer seu povo por muito tempo (Miqueias 7.19).
O sol pode sumir por um tempo de nosso clima, mas retorna na primavera.
A meditação sobre o amor de Cristo pode nos fazer esperar pelo retorno
deste Sol da Justiça: “Ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e
não tardará” (Hebreus 10.37). Ele é a verdade, portanto virá; é amor,
portanto voltará.
Seção 4: Meditem sobre o Pecado
1. Meditem sobre a culpa do pecado. Estamos em Adão como em
uma cabeça ou raiz comum, e, no seu pecado, tornamo-nos culpados: em
Adão, todos pecaram (Romanos 5.12). Por sua traição, nosso sangue é
infectado e essa culpa traz a vergonha consigo como sua irmã gêmea
(Romanos 6.21).
2. Meditem sobre a sujeira do pecado. Não apenas a culpa do pecado
de Adão é imputada, mas o veneno de sua natureza nos é disseminado.
Nossa natureza casta é maculada, o coração é manchado. Como podem,
então, as ações ser puras? Se a água estiver imunda no poço, não pode estar
limpar no balde: “Todos nós somos como o imundo” (Isaías 64.6). Somos
como o paciente nas mãos do médico, que não tem nenhuma parte sã em si:
sua cabeça está machucada; seu fígado, inchado; seus pulmões, mortos; seu
sangue, inflamado; seus pés, gangrenados. Assim somos nós, antes que
venha a graça: na mente há trevas; na memória, esquecimento; no coração,
dureza; na vontade, teimosia. “Desde a planta do pé até à cabeça não há
nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas” (Isaías 1.6).
Um pecador coberto com a sujeira do pecado não é melhor que um
demônio em forma humana. É realmente triste que a aderência ao pecado
esteja depositada assim no coração. O pecado nos é natural; o apóstolo o
chama de “pecado que nos assedia” (Hebreus 12.1), um pecado que não
será facilmente lançado fora. É tão fácil para alguém arrancar a pele de seu
corpo como lhe é arrancar o pecado de sua alma; ele lhe adere fortemente,
como a planta à parede. Não há como arrancar essa serpente até que
morramos. Então, meditem sempre sobre esse contágio do pecado. Quão
forte é esse veneno, de quem uma única gota é capaz de envenenar um mar
inteiro? Quão venenosa e maligna era aquela fruta, de quem uma única
prova envenenou toda a humanidade? Meditem tristemente a esse respeito.
A meditação sobre o pecado fará cair as plumas da soberba; se nosso
conhecimento nos faz orgulhosos, temos pecado o suficiente para nos fazer
humildes. O melhor santo vivo, que seja retirado do túmulo do pecado,
ainda tem o cheiro das mortalhas sobre si.
3. Meditem sobre a maldição do pecado. “Maldito todo aquele que
não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei” (Gálatas 3.10).
Essa maldição é como a praga sobre a fruta, que a impede de se
desenvolver. O pecado não apenas corrompe, mas amaldiçoa. É não apenas
uma mancha no rosto, mas é também uma faca no coração. O pecado nos
entrega nas mãos do diabo, que, como Drácon[10], escreve todas as suas leis
com sangue. O pecado nos ata e nos entrega à ira de Deus, e, então, o que
são todas as nossas diversões terrenas, senão banquetes de Dâmocles[11],
com uma espada dependurada sobre nossa cabeça? O pecado traz o “rolo
escrito com maldições” contra um pecador (Zacarias 5) e é um “rolo
voante”, que vem aceleradamente, se a misericórdia não o impedir. “Com
maldição sois amaldiçoados” (Malaquias 3.9). Assim é até que o vínculo
dessa maldição seja cortado por Cristo. Meditem sobre a maldição devida
ao pecado.
A meditação sobre essa maldição nos fará temer:
1. Guardar pecados. Quando Mica roubou o dinheiro de sua mãe e a
ouviu amaldiçoá-lo, não ousou guardá-lo mais um pouco, mas logo o
devolveu (Juízes 17.2). Ele temia a maldição de sua mãe. O que diremos
sobre a maldição de Deus?
2. A meditação sobre essa maldição nos fará temer acalentar o
pecado. Não iríamos voluntariamente dar as boas-vindas a quem tivesse
uma doença contagiosa. O pecado traz consigo uma maldição, que é a
praga de Deus que se apega ao pecado. O pecado é como a água do ciúme,
que fazia inchar o ventre e descair a coxa (Números 5.22). A meditação
sobre isso nos fará fugir do pecado; enquanto nos sentamos debaixo deste
carvalho, dele sairá fogo e nos consumirá eternamente (Juízes 5.19).
Seção 5: Meditem sobre a Vaidade da Criatura
Quando você peneirar a mais fina farinha que a criatura pode
produzir, descobrirá algo para insatisfazer ou nausear. O melhor vinho tem
suas bolhas; a mais bela rosa, seus espinhos; e os mais puros confortos,
suas borras. Não se pode dizer que a criatura está cheia, a não ser de
vaidade, como a bexiga pode estar cheia de vento: “Na plenitude da sua
abastança, ver-se-á angustiado” (Jó 20.22). Os que pensam em achar
felicidade aqui são como Apolo, que abraçou o loureiro em vez de Dafne.
Meditem sobre essa vaidade. O mundo é como um espelho que representa
um rosto que nele não está.
A meditação sobre a vaidade, 1. Será como cavar em volta das raízes
de uma árvore para desarraigá-la da terra. Essa meditação desarraigará
nossos corações do mundo e será um excelente preservativo contra os
excessos. Que um cristão pense, então, consigo mesmo: “Por que levo tão a
sério a vaidade? Mesmo se todo a terra se transformasse em um globo de
ouro, isso não poderia preencher meu coração”.
2. A meditação sobre a vaidade da criatura nos fará buscar confortos
mais sólidos: o favor de Deus, o sangue de Cristo, as influências do
Espírito. Quando vejo que a vida que tirei da cisterna é vã, irei ainda mais
sedento às fontes principais. Há um tesouro inexaurível em Cristo. Quando
alguém descobre que o galho começa a quebrar, deixa de lado o galho e se
atraca ao tronco da árvore. Assim, quando descobrimos que a criatura é
uma árvore seca, então, pela fé, nos apegaremos a Cristo, a árvore da vida
(Apocalipse 2.7). A criatura é apenas uma vara fina, Deus é a rocha eterna.
Seção 6: Meditem sobre a Excelência da Graça
A graça é, 1. Preciosa em si (2Pedro 1.1), ela é preciosa na fé. A
graça é preciosa, 1. Em sua origem: ela vem do alto (Tiago 3.17). 2. Em
sua natureza: é a semente de Deus (1João 3.9). A graça é o esmalte
espiritual e o bordado da alma; é a própria assinatura e gravura do Espírito
Santo. A graça não perde sua cor; é uma mercadoria que, quanto mais a
guardarmos, melhor será. Ela se transforma em glória.
2. Assim como a graça é preciosa em si, ela também nos faz
preciosos para Deus. É como um rico diamante que adorna os que o usam.
“Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra” (Isaías 43.4). Os
santos que são investidos com a graça são as joias de Deus (Malaquias
3.17); mesmo manchados com censuras, sujos de sangue, são, sim, joias;
todo o mundo em volta é apenas serragem. Eles são as joias e o céu é o
cofre de ouro, onde serão guardados em segurança. Uma pessoa graciosa é
a glória da época em que vive, como Melâncton, que foi chamado de fênix
da Alemanha. Uma alma enfeitada com a graça é tão ilustre aos olhos de
Deus que ele não acha que o mundo seja digno dela: “homens dos quais o
mundo não era digno” (Hebreus 11.38). Por isso Deus chama seu povo
rapidamente para casa, porque são bons demais para viverem neste mundo:
“O justo é mais excelente que seu vizinho” (Provérbios 2.?).
A graça é a melhor bênção; tem excelência e transcendência acima de
todas as coisas. Há duas coisas que brilham sobremaneira em nossos olhos,
mas a graça sobrepuja infinitamente a ambas.
A primeira é o ouro. O sol não brilha mais do que o ouro em nossos
olhos; é um espelho da beleza, pois “o dinheiro atende a tudo” (Eclesiastes
10.19); mas a graça pesa mais que o ouro. O ouro atrai o coração para
longe de Deus; a graça atrai o coração para Deus. O ouro enriquece o lado
mortal do homem; a graça, o angelical. O ouro perece (1Pedro 1.7); a graça
persevera. A rosa, quanto mais plenamente desabrocha, mais rapidamente
desaparece. É um símbolo de todas as coisas, com exceção da graça.
A segunda são os dons. Eles são o orgulho da natureza. Os dons e os
talentos, como Raquel, são belos de se olhar, mas a graça os excede. Prefiro
ser santo a ser eloquente. Um coração cheio de graça é melhor que uma
cabeça cheia de conceitos. Os dons não recomendam ninguém a Deus. Não
é a aparência da maçã que apreciamos, embora vermelhíssima, mas sim o
fruto. Não julgamos um cavalo melhor pelos seus arreios e ornamentos, a
menos que seja forte e veloz. Que são os mais gloriosos talentos, se não
houver o metal da graça no coração? Os dons podem ser concedidos a
alguém para o bem de outros, como os seios da ama lhe são dados em
benefício da criança; mas a graça é concedida para a vantagem eterna de
seu possuidor. Deus pode despedir os réprobos com dons, como Abraão fez
aos filhos de suas concubinas (Gênesis 25.6), mas concede a herança
apenas sobre a graça. Meditem, portanto, sobre a excelência da graça.
A meditação sobre a beleza da graça, 1. Far-nos-á cair de amores por
ela. Aquele que medita sobre o valor de um diamante cresce em amor por
ele. Damasceno chama as graças do Espírito de caracteres e impressões
exatas da natureza divina. A graça é aquela flor de delícia que, como o
vinho na parábola, “alegra o coração de Deus e dos homens” (Juízes 9.13).
2. A meditação sobre a excelência da graça nos fará ávidos em nossa
busca por ela. Cavamos em busca de ouro nas minas, suamos por ele no
forno. Se meditássemos sobre o valor da graça, cavaríamos na mina das
ordenanças por ela. Que suores e lutas em oração não teríamos?
Vestiríamos uma modesta ousadia e não aceitaríamos uma negativa.
Abraão disse: “Que me haverás de dar, se continuo sem filhos” (Gênesis
15.2). Assim a alma diria: “Senhor, o que me darás, visto que continuo sem
a graça? Quem me dará a beber da ‘água do poço da vida’?”.
3. A meditação sobre a excelência da graça nos levará a nos esforçar
para sermos instrumentos para comunicar a graça a outros. “A graça é tão
transcendentalmente preciosa e eu tenho um filho sem a graça? Que eu
seja, então, um meio para comunicar esse tesouro às suas almas!” Li sobre
um rico florentino que, moribundo, chamou todos os seus filhos e lhes
disse estas palavras: “Muito me regozija em meu leito de morte que eu lhes
deixe toda riqueza”. Mas a ambição de um pai deve ser antes comunicar a
santidade, para que possa dizer: “Meus filhos, alegra-me muitíssimo que
lhes deixe com a graça. Conforta-me que, antes que morra, veja Jesus
Cristo vivendo em vocês”.
Seção 7: Meditem sobre seu Estado Espiritual
Adentrem em séria meditação sobre o estado de suas almas.
Enquanto meditam sobre outras coisas, não esqueçam de si mesmos. A
maior obra a fazer está em casa. O conselho de Salomão foi: “Procura
conhecer o estado das tuas ovelhas” (Provérbios 27.23). Conheça muito
mais o estado de sua alma. Por falta dessa meditação, as pessoas são como
viajantes, peritos em outros países, mas ignorantes dos seus. Conhecem
outras coisas, mas não sabem o que se passa em suas almas, se estão em um
bom estado ou não. Poucos há que pela santa meditação adentram em si
mesmos. Há duas razões pelas quais tão poucos meditam sobre o estado de
suas almas.
1. Consciência de culpa. As pessoas demoram-se a perscrutar seus
corações pela meditação, para que não descubram coisas que lhes
perturbarão. A taça está em seu saco (Gênesis 44.12?). Muitos são, nessa
questão, como negociantes que, ávidos por dissipar seu patrimônio, relutam
em verificar seus livros de contabilidade, temendo descobrir que sua renda
já é pouca. Mas não lhe é melhor adentrar em seu coração pela meditação
do que Deus tristemente entrar em julgamento contra você?
2. Presunção. As pessoas esperam que tudo esteja bem. Elas não
confiariam em receber uma terra sem antes avaliá-la, mas confiam em seu
estado espiritual sem qualquer avaliação. São confiantes que sua situação é
boa (Provérbios 14.16). É algo que não é disputado, mas essa confiança é
apenas engano. As virgens tolas, embora não tivessem óleo em suas
lâmpadas, não eram as mais confiantes? Elas vieram batendo; era uma
batida peremptória e confiante; elas não duvidavam que fossem admitidas.
Tantos outros não estão certos de sua salvação, mas, seguros, presumem
que tudo está bem, nunca meditam seriamente se têm ou não óleo. Cristão,
medite sobre sua alma! Veja como está sua situação com Deus. Faça como
os mercadores, calcule suas rendas para que veja qual é o seu valor, se você
é ou não rico para com Deus (Lucas 12.21).
Medite sobre três coisas:
1. Medite sobre suas dívidas. Veja se foram pagas ou não, ou seja, se
seus pecados foram perdoados. Veja se não há contas atrasadas, algum
pecado impenitente em sua alma.
2. Medite sobre sua vontade. Veja se ela já está resolvida. Você abriu
mão de todo interesse em si mesmo? Você entregou seu amor a Deus?
Entregou sua vontade? Isso é resolver a vontade. Medite sobre sua vontade.
Resolva sua vontade espiritual em tempos de saúde. Se adiar essa tarefa até
a época de sua morte, pode ser inútil; talvez Deus não aceite sua alma
então.
3. Medite sobre suas evidências. Essas evidências são as graças do
Espírito. Veja se você tem alguma evidência. Que desejos você tem por
Cristo? Que fé? Veja se não há alguma falha em suas evidências. Seus
desejos são verdadeiros? Você deseja os princípios celestiais tanto quanto
os privilégios celestiais? Medite seriamente sobre suas evidências.
Peneirar seus corações desse modo pela meditação é muito
necessário. Se descobrirmos que nosso estado não é sadio, o erro é
descoberto e o perigo, prevenido. Se o for, nisso teremos conforto. Que
alegria foi para Ezequias, quando pôde dizer: “Lembra-te, SENHOR, peço-
te, de que andei diante de ti com fidelidade, com inteireza de coração e fiz
o que era reto aos teus olhos” (Isaías 38.3). Assim, que conforto indizível
será quando um cristão, após séria meditação e revisão de sua condição
espiritual, puder dizer: “Tenho um interesse visível pelo céu”, “sei que
passei da morte para a vida” (1João 3.14). Como um santo certa vez disse:
“Sou de Cristo, e o diabo nada tem a ver comigo”.
Seção 8. Meditem sobre a pequeno número dos que serão salvos
O oitavo assunto da meditação é o pequeno número dos que serão
salvos. “Poucos são escolhidos” (Mateus 20.16). Entre os milhões de
Roma, apenas alguns eram senadores; entre os enxames de pessoas no
mundo, apenas alguns são crentes. Alguém disse que todos os nomes dos
bons imperadores poderiam ser escritos em um pequeno anel. Não há
muitos nomes no livro da vida. Lemos sobre quatro tipos de solo na
parábola, mas apenas um era bom (Mateus 13). Como são poucos os que
conhecem Cristo! Poucos os que creem nele! “Quem creu em nossa
pregação?” (Isaías 53.1). Como são poucos os que se curvam diante do
cetro de Cristo? Os pagãos idólatras e os muçulmanos dominam quase toda
a Ásia, África e América. Em muitas partes do mundo, o diabo ainda é
adorado. Satanás domina muitos climas e corações. Quantos formalistas
não há no mundo? “Têm forma de piedade” (2Tm 3.5); são como a lã, que
recebe uma tintura leve, não um corante profundo; cuja religião é uma
pintura (que será completamente lavada por uma tempestade de
perseguição), não uma escultura. Parecem-se com as pombas de Cristo,
mas são a ninhada da serpente. Odeiam a imagem de Deus, como a pantera,
que odeia a imagem de um homem.
Meditem sobre a pequena quantidade dos que serão salvos. Essa
meditação nos:
1. Impedirá de marchar na companhia da multidão. “Não seguirás a
multidão para fazeres mal” (Êxodo 23.2). A multidão geralmente faz o
errado; muitos andam “segundo o curso deste mundo” (Efésios 2.2), ou
seja, segundo a luxúria de seus corações e os costumes dos tempos.
Marcham nas fileiras do príncipe do ar. Essa meditação nos fará desviar da
estrada comum.
2. A meditação sobre a escassez dos que serão salvos nos fará andar
com tremor. São poucos os que acham o caminho, e, quando o acham, são
poucos os que andam por ele. Esses pensamentos produzirão santo temor
(Hebreus 4.1), não um medo desesperador, mas um temor zeloso e
cauteloso. Os santos eminentes de Deus tiveram esse temor. Agostinho
disse a respeito de si mesmo que ele batia na porta do céu com a mão
trêmula. Esse temor é associado com a esperança: “Agrada-se o SENHOR
dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia” (Salmo 147.11).
Um filho de Deus teme, pois a porta é estreita, mas espera, pois a porta está
aberta.
3. A meditação sobre a pequena quantidade dos que serão salvos será
um grande incentivo para a diligência. Ela nos disporá a desenvolver nossa
salvação. Se há tão poucos que serão coroados, isso nos fará mais velozes
na corrida. Essa meditação será um alarme para cristãos sonolentos.
Seção 9. Meditem sobre a apostasia final
Pensem que tristeza é, nos assuntos religiosos, começar a construir e
não ser capaz de terminar. Joás foi bom enquanto vivia seu tio Joiada, mas,
depois que este morreu, Joás se tornou mau e toda a sua religião foi
enterrada no túmulo de seu tio. Vivemos na época de queda das folhas;
quantos não caíram em heresias condenadas (2Pedro 2.1)? Meditem
seriamente sobre esta passagem da Escritura: “É impossível que aqueles
que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram
participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os
poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-
los para arrependimento” (Hebreus 6.4-6). Uma pessoa pode ser iluminada,
até mesmo por uma luz dupla, a Palavra e o Espírito, mas esses feixes,
embora irradiantes, não são penetrantes. É possível que tenha um aperitivo
do dom celestial; pode gostar, mas não saborear. Como alguém já disse, um
cozinheiro pode provar a comida que prepara, mas não pode ser nutrido por
ela. Esse aperitivo pode não somente iluminar, mas também refrescar; pode
carregar alguma doçura em si; pode haver algum tipo de deleite nas coisas
espirituais. Tão longe pode alguém ir e, ainda assim, finalmente, apostatar.
Ora, isso será muito triste (sendo pecado que tanto afronta Deus e difama
Cristo): “Sabe, pois, e vê que mau e quão amargo é deixares o SENHOR”
(Jeremias 2.19). Meditem sobre as recaídas finais.
Essa meditação nos fará sérios em nossa oração a Deus:
1. Pela saúde do coração. “Seja meu coração irrepreensível nos teus
decretos” (Salmo 119.80). “Senhor, não me deixe ser um cristão
alquimista[12], opera a obra completa da graça em mim. Embora não seja
lavado perfeitamente, que eu seja lavado completamente” (Salmo 51.2). O
que começa na hipocrisia termina na apostasia.
2. A meditação sobre o destino dos hipócritas nos fará sérios em
oração por perseverança. “Os meus passos se afizeram às tuas veredas, os
meus pés não resvalaram” (Salmo 17.5). Beza[13] orava: “Senhor, sustenta-
me para que eu possa perseverar. Puseste a coroa no final da corrida; que
eu corra a corrida, para que vista a coroa”. Que esta seja também nossa
oração: “Senhor, aperfeiçoa o que começaste em mim, para que não
naufrague quando estiver quase no porto”.
Seção 10: Meditem sobre a morte
Dizemos que todos vamos morrer, mas quem medita seriamente
sobre isso? Meditem:
1. A respeito da certeza da morte. Morrer uma só vez é o destino de
todos (Hebreus 9.27). Isso é um decreto.
2. Meditem sobre a proximidade da morte; ela está próxima de nós.
Estamos quase a pôr os pés no limiar sombrio da morte. Os poetas
pintavam o tempo com asas; ele não apenas cavalga, mas voa, e nos leva
em suas asas. Curta é a corrida entre o berço e o túmulo. A sentença da
morte já foi pronunciada: “Ao pó retornarás” (Gênesis 3.19). De modo que
nossa vida é apenas uma prorrogação da morte que é concedida a um
condenado. “O prazo da minha vida é nada” (Salmo 39.5). Se fosse
possível tirar algo do nada, comparada à eternidade, nossa vida é menos
que nada.
3. Meditem sobre a incerteza do tempo. Não temos certeza alguma de
que não estaremos acabados na próxima hora. Há tantas causalidades que é
um espanto se a vida não for cortada pela morte inesperada. Quão
rapidamente Deus pode nos entregar uma ordem de despejo? Nosso túmulo
pode ser cavado antes do anoitecer. Hoje podemos repousar sobre um
travesseiro de plumas; amanhã podemos estar sobre um travesseiro de pó.
Hoje o sino pode tocar para o sermão; amanhã podem tocar os sinos de
nossa morte.
4. Pense seriamente que morrer é estar acabado para sempre, e depois
da morte nada mais há a ser feito. Se você morrer em sua impenitência, não
há arrependimento no túmulo. Se você deixar sua obra pela metade na
morte, não a poderá terminar no túmulo. “No além, para onde tu vais, não
há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”
(Eclesiastes 9.10). Se uma guarnição se rende no primeiro ultimato, há
misericórdia; mas, se permanece até que a bandeira vermelha seja
levantada, e a guarnição for derrotada, então não haverá misericórdia. Hoje
é o dia da graça, e Deus levanta a bandeira branca da misericórdia para o
penitente. Se permanecermos até que Deus levante a bandeira vermelha e
nos vença pela morte, então não haverá mais misericórdia. Nada resta a ser
feito pelas nossas almas depois da morte. Meditem, portanto, sobre a
morte! Conta-se que a primeira coisa que Seleuco trouxe para sua casa na
Babilônia foi uma lápide. Pense sempre sobre sua lápide.
A meditação sobre a morte terá os seguintes efeitos admiráveis:
1. A meditação sobre a morte porá abaixo as plumas do orgulho.
Você é apenas poeira animada; a poeira e a cinza podem ser orgulhosas?
Você tem um corpo de erva, que logo será removido. “Eu disse, sois
deuses”, mas, para que não ficassem orgulhosos, acrescenta uma correção:
“Todavia, como homens, morrereis” (Salmo 82.6,7). Vocês são deuses
mortais.
2. A meditação sobre a morte será um meio para infligir um golpe
mortal no pecado. Agostinho disse que não há antídoto maior contra o
pecado que a frequente meditação sobre a morte. Por que estou pecando
agora se amanhã posso estar morto? Se a morte me alcançar fazendo a obra
do diabo, isso não me levará a ele para que receba o pagamento em dobro?
Leve os pensamentos sobre a morte como um livro de cabeceira sempre
com você; leia-o e verá que o pecado se enfraquecerá. Deveríamos olhar
para o pecado com dois óculos: os óculos do sangue de Cristo e os óculos
da morte.
3. A meditação sobre a morte servirá de freio para a falta de domínio-
próprio. Devo empanturrar este corpo que repousará na casa da podridão?
Nosso Salvador, em uma festa, irrompeu em menções sobre seu
sepultamento (Mateus 26.12). Alimentar os pensamentos sobre a morte será
um excelente preservativo contra os excessos.
4. A meditação sobre a morte nos fará administrar melhor nosso
tempo e acumular muita obra em pouco espaço. Muitos se encontram nos
bares para dissipar tempo; o apóstolo nos manda redimi-lo. Redima o
tempo. Nossas vidas devem ser como joias que, embora pequenas em
volume, são grandes em valor. Alguns morrem jovens, contudo têm já
cabelos brancos. Devemos ser como a erva do campo: úteis; não como a
erva do telhado, que seca antes de crescer. Viver e não ser útil não é vida,
mas perda de tempo.
5. A meditação sobre a morte nos fará guardar provisões contra esse
tempo. Ela nos estimulará a buscar a santidade. A morte é a maior
saqueadora; breve nos saqueará de todos os nossos confortos exteriores.
Nossas plumas de beleza e honra serão lançadas ao pó, mas a morte não
pode nos pilhar de nossas graças. O Estado de Veneza, em seu brasão, tem
esta inscrição: “Feliz é aquele que em tempo de paz pensa na guerra”.
Aquele que vive a meditar sobre a morte fará provisões para quando ela vir.
Seção 11: Meditem sobre o dia de julgamento
As penas flutuam sobre a água, mas o ouro nela afunda. Cristãos
leves como a pena flutuam na vaidade, não se importam com o dia do
julgamento; as almas sérias, contudo, afundam profundamente em
meditação a esse respeito. A maior parte das pessoas adia demasiadamente
o dia mau (Amós 3.6). Conta-se que os italianos, em uma grande
tempestade de trovões, costumam soar o sino e atirar o canhão, para que o
som dos sinos e o rugido dos canhões afoguem o barulho dos trovões.
Assim o diabo deleita os homens com a música do mundo, para que o seu
barulho afogue os rumores do dia do julgamento e os faça esquecer o som
da última trombeta. A maioria das pessoas é culpada, logo, não gostam de
ouvir sobre os inquéritos judiciais. Quando Paulo pregava a respeito do
julgamento, Félix tremeu, pois tinha uma má consciência. Josefo nos conta
que Félix era um homem mau. A mulher que vivia com ele (chamada
Drusila) havia sido seduzida a abandonar seu marido, e, quando Felix ouviu
sobre o julgamento, temeu sobremaneira. Medite, portanto, sobre esse
último e solene dia! Enquanto outros pensam em como podem ficar ricos,
pensemos em como podemos sobreviver ao dia da vinda de Cristo.
A meditação sobre o dia do julgamento:
1. Nos fará esquadrinhar todas as nossas ações. Cristo virá com seu
abano e sua peneira. A ação que faço passará no teste desse grande dia?
2. A meditação sobre o último dia nos fará trabalhar para confirmar
nossos corações para Deus, o grande juiz e árbitro do mundo. Não importa
o que os homens pensem de nós, mas sim qual a opinião de nosso Juiz
sobre nós. É para ele que ficamos de pé ou caímos. A meditação sobre o dia
do julgamento servirá para nos esforçarmos em ser como Moisés, que era
belo para Deus, como está no texto original. A galáxia, ou Via Láctea,
como a chamam os astrônomos, é um círculo brilhante nos céus, contendo
muitas estrelas. Mas elas são tão pequenas que não têm nome, nem mesmo
são reconhecidas pelos astrônomos. Permita-me aplicar isso. Possivelmente
outros nem mesmo nos notem; somos tão pequenos que nem mesmo temos
nome no mundo, contudo, se somos estrelas verdadeiras e podemos confiar
nossos corações a Deus, firmaremos nossas frontes com ousadia, quando
viermos à presença de nosso Juiz.
Seção 12: Meditem sobre o inferno
1. Meditem sobre a dor da perda: “E a porta estava fechada” (Mateus
25.10). Ver o véu no rosto de Cristo e um eclipse e meia-noite perpétuos
sobre a alma; ser lançado para fora da presença de Deus, em cuja presença
está toda plenitude de alegria; isso acentua e amarga a condição dos
condenados. É como misturar fel com absinto.
2. Meditem sobre a dor dos sentidos. Os fotinianos afirmam não
haver inferno, mas falam em sonho. “Os ímpios serão lançados no inferno”
(Salmo 9.17). Medite aqui em duas coisas.
1. O lugar do inferno. Medite sobre esse lugar. É chamado de “lugar
de tormento” (Lucas 16.28). Há duas coisas principais no inferno para
atormentar.
a) Fogo (Apocalipse 20.15). É chamado de lago de fogo ardente.
Agostinho, Pedro Lombardo e Gregório, o Grande, dizem que esse fogo do
inferno é um fogo físico, embora digam que seja infinitamente mais quente
que qualquer fogo de cozinha. Este é uma imitação de fogo perto daquele.
Desejo que nenhum de nós saiba que tipo de fogo é esse, mas penso mesmo
que o fogo do inferno é parte físico parte espiritual. O fogo físico opera
sobre o corpo, o espiritual tortura a alma. Essa é a ira de Deus, que é tanto
fogo como fole: “Quem conhece o poder da tua ira?” (Salmo 90.11).
Mas pode ser objetado que, se houvesse qualquer fogo físico no
inferno, ele consumiria os corpos que estão lá. Respondo: os corpos
queimarão sem que se consumam, como ocorreu com a sarça de Moisés
(Êxodo 3.2). O poder de Deus silencia todas as disputas. Se Deus, pelo seu
infinito poder, pôde fazer com que o fogo não consumisse, acaso não pode
fazer o fogo do inferno queimar e não consumir? Agostinho fala a respeito
de um estranho sal na Sicília, que, se posto no fogo, flutua. Esse mesmo
Deus, que pode fazer o sal, contrário à sua natureza, flutuar no fogo, pode
fazer os corpos dos condenados não se consumirem no fogo.
b) O verme: “Onde o verme nunca morre” (Marcos 19.44). Homero,
na sua Odisseia, imaginou que o fígado de Tito era comido por dois abutres
no inferno. Esse verme que nunca morre de que Cristo fala é o roer de uma
consciência culpada. Melâncton a chama de fúria infernal. Aqueles que não
ouvem a consciência pregar sentirão a consciência roer; e tão grande é a
intensidade destes dois, o fogo que queima e o verme que rói, que se
seguirá o “ranger de dentes” (Mateus 8.12). Os condenados rangerão os
dentes de horror e angústia. Que tristes iguarias (como diz Hugo Latimer):
o choro é servido como primeiro prato e o ranger de dentes como segundo.
Suportar isso será intolerável; evitar, impossível.
2. Meditem sobre a companhia no inferno, o diabo e seus anjos
(Mateus 25.41). Jó reclama que era companheiro das corujas (Jó 30.29). O
que é isso em comparação a ser companheiro de demônios? Considere:
a) Sua horrível deformação, que faz o inferno parecer mais sombrio.
b) Sua mortal antipatia; eles ardem em fúria contra a humanidade.
Primeiramente são tentadores; depois, atormentadores.
Meditem bastante sobre o inferno. Adentremos o inferno pela
contemplação, para que não o adentremos pela condenação. Como é
intragável a condição dos condenados! Os antigos imaginavam que
Endimião sempre se evadia de Júpiter a fim de dormir. O que não dariam
os condenados no inferno por semelhante licença? Em suas dores, jamais
há intermissão nem mitigação.
A séria meditação sobre o inferno nos fará:
1. Temer o pecado como o inferno. O pecado é o combustível do
inferno; o pecado, como as raposas de Sansão, carrega em sua cauda fogo
devorador.
2. A meditação sobre o inferno será motivo de grande alegria para
um filho de Deus. O temor que um santo sente pelo inferno é como os dois
sentimentos de Maria: “Partiram do sepulcro com temor e grande alegria”
(Mateus 28.8). Um crente pode temer pensar sobre o lugar de tormento,
mas se regozija em pensar que não irá àquele lugar. Quando alguém fica
sobre uma alta rocha, treme olhar para o mar lá em baixo, mas se alegra de
que não esteja lá lutando com as ondas. Um filho de Deus, quando pensa
sobre o inferno, alegra-se com o temor. Não se faz uma prisão para
encarcerar o filho do rei. Um grande naturalista observa que nada apaga
mais rápido o fogo que o sal e o sangue. Estou certo que o sal tempera as
lágrimas de arrependimento, e o sangue de Cristo apaga o fogo do inferno
para um crente. O próprio Cristo sentiu as dores do inferno por você. O
Cordeiro de Deus, tostado no fogo da ira de Deus, por esse holocausto
aplacou agora a animosidade do Senhor para com seu povo. Como devem,
então, alegrar-se os piedosos! “Não há condenação para os que estão em
Cristo” (Romanos 8.1). Quando o Filho de Deus estava na fornalha, o fogo
não fez mal algum aos três jovens (Daniel 3.25). Da mesma forma, por
Cristo ter estado por um tempo na fornalha ardente da ira de Deus, esse
fogo não pode causar danos ao crente. Os santos têm a veste da justiça de
Cristo sobre si, e o fogo do inferno nunca pode chamuscar essa veste.
Seção 13: Meditem sobre o Céu
Do monte da meditação, como do monte Nebo, podemos ter um
vislumbre e uma perspectiva da terra da promessa. Cristo tomou posse do
céu em nome de todos os crentes: “Onde Jesus, como precursor, entrou por
nós” (Hebreus 6.20). O céu deve ser uma gloriosa cidade, visto que tem
Deus por seu construtor e habitante. O céu é a essência e quintessência de
toda bem-aventurança. Lá os santos obterão o que desejam. Agostinho
desejava poder ter visto três coisas antes de morrer: Roma em sua glória,
Paulo no púlpito e Cristo na carne. Mas os santos terão uma visão mais
excelente: verão não Roma, mas o céu em sua glória; verão Paulo, não no
púlpito, mas no trono, e sentarão com ele; verão a carne de Cristo, não
oculta por enfermidade e desgraças, mas em sua tecidura espiritual; não um
corpo crucificado, mas glorificado. Eles “contemplarão o rei em sua
beleza” (Isaías 33.17). Que lugar glorioso será! No céu “Deus será tudo em
todos” (1 Coríntios 15.28): beleza para os olhos, música para os ouvidos,
alegria para o coração; e o será para o mais pobre dos santos, tanto quanto
para o mais rico.
Ó cristão, você que está agora em trabalhos pesados, talvez com as
mãos no arado, você sentará no trono da glória (Apocalipse 3.21). Quinto
Cúrcio escreveu sobre alguém que estava cavando seu jardim quando, de
repente, foi feito rei, e uma veste púrpura ricamente tecida com ouro foi
posta sobre ele. Assim será feito ao mais pobre crente: será tirado de seu
trabalho cansativo e posto à mão direita de Deus, tendo a coroa da justiça
sobre sua cabeça. Meditem sobre a Jerusalém lá do alto.
A meditação sobre o céu:
1. Incitará e apressará a obediência. Servirá de estímulo para nossos
corações preguiçosos e nos “fará abundantes na obra de Deus, sabendo que,
no Senhor, nosso trabalho não é vão” (1Coríntios 15.58). O peso de glória
não nos atrapalhará na corrida, mas nos fará correr mais rapidamente. Esse
peso acrescentará asas ao dever.
2. A meditação sobre o céu nos levará ao esforço pela pureza de
coração, pois apenas “os puros de coração verão Deus” (Mateus 5.8).
Apenas um olho limpo pode olhar para um objeto brilhante transparente.
3. A meditação sobre o céu será um pilar de suporte em todos os
nossos sofrimentos. O céu os reparará todos. Uma hora apenas no céu nos
fará esquecer todas as nossas dores. O sol seca a água; um raio da gloriosa
face de Deus secará todas as nossas lágrimas.
Seção 14: Meditem sobre a eternidade
Alguns dos antigos compararam a eternidade a uma esfera
intelectual, cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em
lugar algum. Milhões de anos equivalem a zero na eternidade e nada
significam. Que palavra maravilhosa é eternidade? Para os piedosos, a
eternidade é um dia sem pôr do sol; para os maus, uma noite que não tem
nascer do sol. A eternidade é um mar que pode engolir todos os nossos
pensamentos. Meditem nesta passagem: “E estes vão para o castigo eterno,
mas os justos, para a vida eterna” (Mateus 25.46).
1. Meditem sobre o castigo eterno. O copo mais amargo que os
condenados beberão nunca lhes passará. Jamais haverá despedida entre o
pecador e a fornalha. O frasco da ira de Deus sempre pingará sobre os
maus. Quando você tiver calculado muitas miríades e milhões de anos, até
mesmo eras, a ponto de ultrapassar os limites de toda aritmética, a
eternidade nem terá iniciado. Esta palavra, eterno, estraçalha o coração. Se
a árvore cai na direção do inferno, lá ela permanece por toda eternidade.
Agora, é o tempo da paciência de Deus; depois da morte, será o tempo da
paciência dos pecadores, quando “sofrerão a vingança do fogo eterno”
(Judas 7).
2. Meditem sobre a vida eterna. A alma que uma vez desembarca na
praia celestial deixa para trás todas as tempestades. A alma glorificada se
banhará para sempre nos rios de delícias (Salmo 16). É isso que faz o céu
ser céu. “Estaremos sempre com o Senhor” (1Tessalonicenses 4.17).
Agostinho diz: “Senhor, contento-me em sofrer quaisquer dores ou
tormentos neste mundo, se um dia puder ver tua face; mas, se fosse apenas
um dia, e então fosse ejetado do céu, seria antes agravamento da
infelicidade. Mas esta palavra, sempre com o Senhor, é muito cumulativa e
constrói a coroa da glória. Um estado de eternidade é um estado de
segurança”.
A meditação sobre a eternidade:
1. Far-nos-á sérios no que fazemos. Quando perguntaram a Zêuxis[14]
por que gastava tanto tempo em uma pintura, respondeu que pintava para a
eternidade. Os pensamentos acerca de uma condição irreversível após a
vida nos farão orar e obedecer pela eternidade.
2. A meditação sobre a eternidade nos fará desprezar as coisas
presentes, que voam e logo passam. O que é este mundo para quem tem em
vista a eternidade? É tão somente a menor parte de um ponto, que, como
diz o matemático, é apenas nada. Aquele que pensa sobre a eternidade
desprezará “os prazeres transitórios do pecado”.
3. A meditação sobre a eternidade será um meio de nos prevenir de
invejar a prosperidade dos ímpios. Aqui eles se enfeitam com suas sedas,
mas o que isso significa diante da eternidade? Enquanto houver algo como
a eternidade, Deus terá tempo o suficiente para considerar todos os seus
inimigos.
Seção 15: Meditem sobre suas experiências
O último assunto da meditação são suas experiências. Examine suas
receitas. 1. Deus não proveu liberalmente para você e lhe concedeu as
misericórdias que negou a outros melhores que você? Eis uma experiência:
“O Deus que me alimentou todos os meus dias” (Gênesis 48.15). Você
nunca se alimentou sem que a misericórdia não lhe tenha preparado a
comida; você nunca foi dormir sem que a misericórdia fechasse as cortinas
e montasse uma guarda de anjos ao seu redor. Tudo o que você tem provém
do erário da livre graça. Eis uma experiência a ser meditada.
2. Acaso Deus não impediu muitos perigos, não montou guarda e
vigilância ao seu redor? a) De quando perigos temporais Deus não o
livrou? A casa do seu vizinho em chamas, e o fogo não queimou na sua
habitação. Outro foi infectado, mas você se safou: veja as penas áureas da
proteção a lhe cobrir. b) De que perigos espirituais Deus o protegeu?
Quando outros foram envenenados com o erro, você foi preservado. Deus
lhe sinalizou uma retirada; você ouviu “uma voz atrás de ti dizendo: Este é
o caminho, ande nele”. Quando você se alistou e se alugou para o lado do
diabo, acaso Deus não o tirou como um tição do meio do fogo? (Zacarias
3.2) Ele não converteu seu coração, e agora você defende a causa de Cristo
contra o pecado? Veja a graça preventiva! Eis aí uma experiência a se
meditar.
3. Acaso Deus não o poupou por um longo tempo? Como então que
outros foram feridos mortalmente no ato do pecado, à semelhança de
Ananias e Safira, e você foi preservado como um exemplo de paciência?
Eis uma experiência: Deus fez mais por você que pelos anjos. Ele nunca
esperou pelo arrependimento deles, mas, por você, esperou ano após ano,
porquanto “o Senhor espera para ter misericórdia de vós” (Isaías 30.18).
Ele não apenas bateu nas portas do seu coração pelo ministério da Palavra,
mas esperou à porta. Quanto tempo seu Espírito não lutou com você, como
um litigante inoportuno que, mesmo após muitas negativas, não desistirá da
causa? Acho que vejo a justiça com uma espada nas mãos, pronta para
atacar, enquanto a misericórdia se adianta em favor do pecador: “Senhor,
tem paciência com ele um pouco mais”. Acho que ouço os anjos dizerem a
Deus, como o rei de Israel certa vez disse ao profeta Eliseu: “Feri-los-ei,
feri-los-ei, meu pai?” Assim penso que ouço os anjos dizer: “Arrancaremos
a cabeça desse bêbado, praguejador, blasfemo?” E a misericórdia parece
responder como o viticultor: “Deixa-o ainda este ano”, para ver se se
arrependerá (Lucas 13.8). Acaso essa não é uma experiência a ser
meditada? A misericórdia transforma a justiça em um arco-íris; o arco-íris é
realmente um arco, mas não tem flechas em si. Que a justiça tenha sido
como um arco-íris sem flecha, que ela não tenha causado sua morte, eis aí
um comprovante de paciência para que se leia e medite sempre.
4. Deus não vem sempre com a graça auxiliadora? Quando ele
ordenou a você que mortificasse um desejo mau, mas você disse como
Josafá “não tenho força para resistir a esse grande exército”, então Deus
veio com força auxiliar, pois “sua graça tem sido suficiente”. Quando Deus
lhe ordenou que orasse por tamanha misericórdia e você se achou
extremamente incapaz; seu coração a princípio estava morto e raso, mas, de
repente, você foi carregado acima de sua própria força, suas lágrimas
caíram, seu amor inflamou-se, Deus veio com a graça assistente. Se o
coração queima na oração, Deus é quem o incendeia. O Espírito é quem
tem afinado sua alma, e agora você produz doce melodia em oração. Eis aí
uma experiência a se meditar.
5. Acaso Deus não derrotou Satanás por você? Quando o diabo o
tentou à infidelidade ou ao suicídio, quando quis fazer você crer que suas
graças eram ficção ou que a promessa de Deus era um juramento
mentiroso, você não foi destroçado pelo tentador porque Deus manteve a
guarnição de seu coração. De outro modo, os dardos ferozes do diabo
teriam penetrado. Eis uma experiência a ser meditada.
6. Acaso você não recebeu muitos livramentos notáveis? Quando
esteve às portas da morte, Deus miraculosamente o recuperou e renovou
suas forças como a da águia. Você não poderia escrever o mesmo que
Ezequias: “Cântico de Ezequias, rei de Judá, depois de ter estado doente e
se ter estabelecido” (Isaías 38.9)? Você pensou que o sol de sua vida estava
no ocaso, mas Deus fez com que esse sol voltasse muitos graus. Eis aí uma
experiência para alimentar a meditação. Quando você esteve aprisionado,
quando seus pés caíram na armadilha, o Senhor quebrou a cilada, e melhor,
fez com que aqueles que a armaram também a quebrassem. Eis aí uma
experiência. Façamos girar sempre na mente nossas experiências. Se
alguém tivesse recebido algumas receitas de remédios, sempre estaria a
examinar suas receitas. Você que recebeu raras receitas de misericórdia,
examine sempre, pela meditação, suas receitas.
A meditação sobre nossas experiências:
1. Eleva-nos à ação de graças. Considerando que Deus construiu
uma cerca de providência à nossa volta, semeou nosso caminho com rosas,
isso não nos levará a tomar a harpa e a viola e louvar o Senhor, e não
apenas louvar, mas registrar nossos louvores (1Crônicas 16.4)? O cristão
que medita guarda um registro ou crônica das misericórdias de Deus, para
que a sua memória não se corrompa. Deus quis que o maná fosse guardado
na arca por muitas centenas de anos, para que a lembrança desse milagre
fosse preservada. Uma alma que medita cuida para que o maná espiritual da
experiência seja mantido a salvo.
2. A meditação sobre nossas experiências ligará nossos corações a
Deus em obediência. A misericórdia será uma agulha para costurar-nos
nele. Clamaremos como Bernardo de Claraval: “Senhor, tenho duas
migalhas: uma alma e um corpo; ambos dou a ti”.
3. A meditação sobre nossas experiências servirá para nos convencer
que Deus não é um senhor cruel. Podemos apresentar nossas experiências
como refutação suficiente contra essa calúnia. Quando estávamos caindo,
Deus não nos segurou pela mão? “Quando eu digo: resvala-me o pé, a tua
benignidade, SENHOR, me sustém” (Salmo 94.18). Quantas vezes Deus
não segurou nossa cabeça e coração, quando estávamos desfalecendo? E
ele é um Senhor cruel? Há algum Senhor além de Deus que esperará por
seus servos? Cristão, convoque suas experiências. Quantas vezes você
falhou? Mas quanta serenidade e paz interior, que nem o mundo pode dar
nem a morte tomar! As próprias experiências de um cristão podem advogar
a favor de Deus contra aqueles que desejam antes censurar Seus caminhos
que testá-los, e que querem antes usar de sofismas que andar neles.
4. A meditação sobre nossas experiências nos fará querer comunicá-
las aos outros. Estaremos dispostos a falar a nossos filhos e conhecidos o
que Deus fez por nossas almas; no tempo em que estávamos no pó e Deus
nos elevou; no tempo que estávamos em deserção e Deus trouxe uma
promessa de lembrança, que redundou em conforto. A meditação sobre a
graciosa maneira de Deus lidar conosco nos fará transmitir e propagar
nossa experiência aos outros, para que as misericórdias de Deus, mostradas
a nós, possam produzir uma abundante colheita de louvor, quando
estivermos mortos e falecidos.
É o suficiente quanto ao assunto principal da meditação. Prossigo
agora para a necessidade de meditar.
CAPÍTULO 7
Mostrando a necessidade da meditação
Não é suficiente carregar o livro da lei de Deus conosco, mas
devemos meditar sobre ele. A necessidade da meditação se evidenciará em
três coisas específicas.
1. O fim para o qual Deus nos deu sua Palavra escrita e pregada foi
não apenas para que a conhecêssemos, mas que meditássemos nela. A
Palavra é uma carta do grande Deus, escrita para nós. Por isso não podemos
correr apressados sobre ela, mas meditar sobre a sabedoria de Deus em
compô-la e seu amor em enviá-la. Por que o médico dá a seu paciente uma
receita? É para que apenas a leia cuidadosamente e a conheça, ou é para
que também a aplique? O fim para o qual Deus comunica sua receita
evangélica para nós é que a apliquemos pela meditação frutífera.
Pensemos: acaso Deus se daria ao trabalho de escrever sua lei com seus
próprios dedos apenas para que tivéssemos uma teoria e noção sobre ela?
Não foi para que meditássemos sobre ela? Ele arcaria com o custo de
enviar mundo afora seus ministros, habilitando-os com dons (Efésios 4),
para que, pela obra de Cristo, encarassem as faces da morte, apenas para
que os cristãos tivessem um conhecimento vazio das verdades publicadas?
Deus visa apenas à especulação e não à meditação?
2. A necessidade de meditação se evidencia pelo fato de que, sem ela,
nunca poderemos ser bons cristãos. Um cristão sem meditação é como um
soldado sem braços ou como um trabalhador sem ferramentas.
a) Sem meditação, as verdades de Deus não permanecerão conosco.
O coração é duro e a memória, escorregadia, e sem a meditação tudo está
perdido. A meditação imprime e fixa uma verdade na mente; é como a
bainha que impede que a roupa desfie. A séria meditação é como gravar
letras em ouro ou mármore, que permanece: sem ela, toda nossa pregação
para vocês é como escrever na areia, como derramar água na peneira, como
atirar um carrapicho em um cristal, que desliza e não permanece. Ler e
ouvir sem meditar é como um remédio fraco, que para nada serve; a falta
de meditação fez muitos sermões de nossa época terem ventre abortado e
seios secos.
b) Sem a meditação, as verdades que conhecemos jamais afetarão
nossos corações. “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu
coração”. Como pode a palavra estar no coração, a menos que seja forjada
lá pela meditação? Como um martelo bate um prego pela cabeça, assim a
meditação introduz uma verdade no coração. Não é o preparo da comida,
mas a digestão que o estômago faz dela, que a transforma em sangue e
fluidos. Da mesma forma, não é o martelar de uma verdade no ouvido, mas
a sua meditação, que é a digestão na mente, que a torna nutritiva. Sem
meditação a Palavra pregada pode aumentar o conhecimento, não a afeição.
Há tanta diferença entre o conhecimento de uma verdade e a meditação
sobre essa mesma verdade como há entre a luz de uma tocha e a luz do sol.
Acenda uma lâmpada ou tocha no jardim e ela não terá nenhuma influência
na iluminação. O sol tem uma doce influência, faz a planta crescer e as
ervas florescerem. Assim também o conhecimento é como uma tocha que
ilumina o entendimento, que tem pouca ou nenhuma influência, não faz o
homem melhor; mas a meditação é como o brilho do sol: ela opera sobre as
afeições, aquece o coração e o torna mais santo. A meditação sobre uma
verdade traz vida. Há muitas verdades que, por assim dizer, repousam em
um coração morto, que, quando meditadas, começam a ter vida e calor em
si. A meditação sobre uma verdade é como a massagem em alguém que
desmaiou: ela traz vida. É a meditação que faz um cristão.
c) Sem meditação nos tornamos culpados de desprezar Deus e sua
Palavra. Se alguém deixa alguma coisa de lado e nunca se importa com ela,
isso é sinal de que a despreza. A Palavra de Deus é o livro da vida; não
meditar sobre ela é desvalorizá-la. Se um rei outorga um edito ou
proclamação e os súditos não se importam com ele, isso é desprezo à
autoridade do rei. Deus outorga sua lei como um edito real; se não
meditamos sobre ela, desprezamos sua autoridade e isso não significa
menos do que desprezar a majestade divina.
CAPÍTULO 8
Mostrando a razão por que há tão poucos bons
cristãos
Aplicação 1. Informação
Essa doutrina dá-nos a verdadeira razão de por que há tão poucos
bons cristãos no mundo, ou seja, porque há raros cristãos que meditam.
Temos muitos que têm ouvidos para a Bíblia, são rápidos para ouvir, mas
lentos para meditar. Esse dever está quase fora de moda. As pessoas estão
com tanta frequência nas lojas que raramente vão ao monte com Deus.
Onde está o cristão que medita? Diógenes, em um mercado lotado, andava
para cima e para baixo, procurando, e sendo perguntado sobre o que
buscava, disse: “Procuro um homem”. O que queria dizer é que procurava
um sábio, um filósofo. Entre a multidão de professantes, poderíamos
igualmente procurar um cristão, ou seja, um cristão que medita. Onde está
aquele que medita sobre o pecado, inferno, eternidade, as recompensas da
retribuição, que tem uma perspectiva diária do céu? Onde está o cristão que
medita? É para se chorar que, em nosso tempo, em que tantos trazem sobre
si o nome de professante, esses mesmos baniram o bom discurso de suas
mesas e a meditação de seus gabinetes. Certamente a mão de Joabe está
nisso[15].
O diabo é um inimigo da meditação. Ele não se importa com o
quanto as pessoas leem e ouvem, nem com quão pouco meditam. Ele sabe
que a meditação é um meio para preparar o coração e trazê-lo a uma
condição graciosa. Satanás contenta-se que vocês sejam cristãos que ouvem
e oram, desde que não sejam cristãos que meditam. Ele pode suportar que
vocês atirem a curta distância, contanto que não usem a munição da
meditação.
CAPÍTULO 9
Uma reprovação para aqueles que não meditam na lei
de Deus
Aplicação 2: Reprovação
Esse assunto serve para reprovar aqueles que realmente meditam,
mas não na lei de Deus. Direcionam toda sua meditação para o lado errado,
como o lavrador que derrama a água de seu moinho, que deveria moer seu
milho, na estrada, onde ela não tem nenhuma serventia. Assim há muitos
que assentam suas meditações sobre outras coisas estéreis, que de modo
algum são benéficas para suas almas.
1. O fazendeiro medita sobre os hectares de terra, não sobre sua alma.
Sua meditação é sobre como pode melhorar um pedaço estéril de solo, não
sobre como pode melhorar uma mente estéril. Ele não deixará sua terra em
pousio[16], mas deixa seu coração em pousio: não há cultura espiritual,
nenhuma semente de graça é cultivada lá.
2. O médico medita sobre suas receitas, mas raramente medita sobre
aquelas que o evangelho prescreve para sua salvação: a fé e o
arrependimento. Comumente o diabo é o médico do médico, tendo lhe dado
um remédio de tal forma estupidificante que a maioria morre de letargia.
3. O advogado medita sobre as leis do país, mas, quanto à lei de
Deus, raramente medita nela dia e noite. Enquanto o advogado medita
sobre as evidências de seu cliente, geralmente esquece das suas próprias.
Muitos que usam a toga ainda carecem de suas próprias evidências
espirituais, quando as deveriam ter prontas para exibir.
4. O comerciante na maior parte do tempo medita sobre suas
mercadorias e especiarias. Sua ocupação mental é em como poderá
aumentar suas rendas e fazer dez talentos virarem cem. Ele está “distraído
com muitas coisas”; não medita no livro da lei de Deus, mas em seu livro
de contabilidade, dia e noite. A longo prazo, vocês verão que essas
meditações foram infrutíferas, descobrirão que são mendigos ilustres e,
quando morrerem, verão que foram enganados com ouro de tolo (Lucas
12.20).
5. Há outros tipos de pessoas que meditam apenas sobre coisas
indignas, “que imaginam a iniquidade” (Miqueias 2.1). Meditam sobre
como difamar e defraudar: “Eles diminuem o efa e aumentam o siclo”
(Amós 8.5). O efa era uma medida usada na compra, o siclo, na venda; eles
sabem como conspirar e usar de sofismas. Cristãos que deveriam servir de
apoio, com muita frequência suplantam uns aos outros. Quantos não ficam
a meditar sobre vingança? Para eles, ela é doce como o mel que derrama,
como diz Homero. “O teu coração se recordará dos terrores” (Isaías 33.18).
O pecador é um criminoso para si mesmo, e Deus o fará um terror para si
mesmo.
CAPÍTULO 10
Uma santa persuasão à meditação
Aplicação 3: Exortação
Minha próxima tarefa é exortar os cristãos a esse dever tão necessário
da meditação. Se pudesse escolher um dever para que sublinhasse a vocês
com toda ênfase e zelo, seria esse, porque uma parte considerável da
vitalidade e essência da religião está contido nele. A planta pode produzir
fruto sem que seja regada e a carne pode nutrir sem digestão tanto quanto
nós podemos frutificar na santidade sem meditação. Deus fornece a carne;
os pastores podem apenas cozinhá-la e temperá-la para vocês, mas é a
meditação que faz a digestão. Por falta dela, vocês podem clamar como o
profeta: “Definho, definho, ai de mim!” (Isaías 24.16). Que me seja
permitido persuadir aqueles que temem a Deus a seriamente considerarem
seu dever. Se você anteriormente o negligenciou, lamente sua negligência e
comece, já, a tomar consciência disso. Tranque-se sozinho com Deus (ao
menos uma vez no dia) pela santa meditação. Suba essa colina e, quando
chegar ao topo, terá uma bela vista: Cristo e o céu estarão diante de você.
Deixe-me pôr em sua mente este dito de Bernardo de Claraval: “Ó
santo, você não sabe que seu esposo, Cristo, é modesto e não ficará
confortável em companhia? Retire-se pela meditação para um lugar
secreto, ou para um campo, e lá você terá os abraços de Cristo”. “Vem, ó
meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias … dar-te-ei
ali o meu amor” (Cantares 7.11,12). Tomara eu pudesse convidar os
cristãos a esse raro dever! Por que é que você não medita na lei de Deus?
Permita-me expor-lhe meus argumentos. Por que razão? Porque ouço
muitos dizerem: “Estamos verdadeiramente convencidos da necessidade do
dever, mas há muitas coisas que atrapalham. Há duas grandes objeções que
se colocam no caminho. Irei removê-las, e depois tenho esperanças
positivas de que o persuadirei a esse dever.
CAPÍTULO 11
Resposta a objeções
Objeção 1: Tenho tantos negócios no mundo que não tenho tempo
para meditar.
Resposta: O mundo é, de fato, o maior inimigo da meditação. É fácil
perder a bolsa de alguém em meio à multidão. Em uma multidão de
empregos mundanos, é fácil perder todos os pensamentos sobre Deus.
Enquanto o coração estiver na Bolsa de Valores, não espere que seja um
Templo. Mas, para responder a objeção, acaso você tem tantos negócios
que não tem tempo para meditação? Como se a religião fosse apenas algo
acidental, uma coisa apenas para as horas de ócio! O quê?! Sem tempo para
meditar! Qual é o negócio de sua vida, senão a meditação? Não falo contra
o esforço na sua vocação, mas digo que esse não é o propósito de sua
missão aqui. Deus nos enviou a este mundo para que nos ocupássemos com
a salvação, e, para que alcancemos esse propósito, devemos usar os meios,
como é o caso da santa meditação. Mas você não tem tempo para meditar.
Como se um agricultor dissesse que tem realmente tantos assuntos para
resolver que não tem tempo para arar ou semear. Ora essa! Qual é a
ocupação dele senão justamente arar e semear? E você? Qual é o assunto
principal de sua vida, senão a meditação?
Tenha cuidado para que, ficando rico, você não seja considerado um
imprestável no final. Tenha cuidado para que Deus não entre contra você
com um pedido de falência, e você se desgrace diante de homens e anjos.
Sem tempo para meditar! Você observará que outros, em tempos passados,
tiveram tantos negócios como você, assuntos públicos para gerir, contudo
foram chamados a meditar. Deus disse a Josué: “Meditarás neste livro da
lei” (Josué 1.8). Josué poderia ter alegado que era um soldado, um
comandante, e o cuidado com a organização do exército recaía
principalmente sobre ele; contudo isso não deveria afastá-lo da religião.
Josué deveria meditar no livro da lei. Deus nunca quis que o grandioso
assunto da religião fosse preterido por causa de uma loja ou de uma
fazenda, ou que um chamado particular atropelasse um chamado geral.
Objeção 2. Mas esse dever da meditação é difícil. Separar tempo
diário para preparar o coração para uma postura meditativa é muito difícil.
Gérson[17] relata a seu respeito que, às vezes, passavam-se três ou quatro
horas antes que pudesse preparar seu coração para uma disposição
espiritual.
Resposta. É esse o obstáculo? Eu lhe darei uma resposta tripla.
1. O preço que Deus estipulou para o céu é o esforço. Nossa salvação
custou o sangue de Cristo e bem pode custar nosso suor. “O reino dos céus
é tomado por esforço” (Mateus 11.12)[18]. É como uma guarnição que se
protege, e o dever da religião é o de apoderar-se dela. Um bom cristão deve
oferecer violência contra si mesmo (embora não contra sua natureza, mas
contra seu pecado). O eu nada mais é do que a carne, como Basílio,
Jerônimo, Teofilato e Crisóstomo bem expõem. A carne grita por alívio, é
libertina, tem preguiça de se esforçar, de orar, de se arrepender; resiste a
pôr seu pescoço debaixo do jugo de Cristo. Mas um cristão deve odiar a si
mesmo, embora homem algum jamais tenha odiado a própria carne
(Efésios 5.29). Mas, nesse sentido que estamos falando, ele deve odiar sua
própria carne, “os desejos da carne”. Deve oferecer violência contra si
mesmo pela mortificação e meditação. Não diga que é difícil meditar;
acaso não é mais difícil arder no inferno?
2. Não argumentamos dessa forma quanto às outras coisas. “As
riquezas são difíceis de adquirir, portanto não vou fazer nada e ficarei sem
elas”. Nada disso, pois a dificuldade é o incentivo da indústria. Acaso os
homens não se aventuram em busca de ouro? E nós, não gastaremos e
seremos gastos por aquilo que é muito mais precioso que o ouro de Ofir?
Pela meditação nós sugamos a quintessência de uma promessa.
3. Embora, quando estejamos nos iniciando na meditação, pareça
difícil, contudo, quando já estivermos iniciados, ela será doce e agradável.
O jugo de Cristo, quando posto pela primeira vez, pode parecer pesado,
mas, quando se ajusta ao pescoço, logo se vê que é leve; não é um jugo,
mas uma coroa. Agostinho disse: “Senhor, quanto mais medito em ti, mais
doce és para mim”. Isso está de acordo com o que disse o santo Davi:
“Seja-lhe agradável a minha meditação” (Salmo 104.34).
Os poetas dizem que o topo do Olimpo sempre foi quieto e sereno. É
difícil escalarmos a colina rochosa da meditação, mas, quando chegarmos
ao topo, haverá uma agradável paisagem e, algumas vezes, pensaremos que
estamos no próprio céu. Pela santa meditação a alma, por assim dizer, toma
café da manhã com Deus todos os dias, e fique certo que seu café da manhã
é melhor que seu jantar. Quando um cristão está sobre o monte da
meditação, é como Pedro sobre o monte quando Cristo foi transfigurado
(Mateus 17). Ele clama: “Senhor, é bom estar aqui”. Ele não tem
disposição para descer a montanha novamente. Se você vier até ele e lhe
falar a respeito de uma compra, ele achará que você lhe oferece algo
prejudicial: que maná secreto a alma agora prova? Como são doces as
visitações do Espírito de Deus? Quando Cristo estava sozinho no deserto,
veio o anjo para o confortar; quando a alma estiver sozinha nas santas
meditações e exclamações, então, não um anjo, mas o próprio Espírito de
Deus vem para confortá-la. Um cristão que se encontra com Deus no monte
não trocaria suas horas de meditação pelas mais brilhantes pérolas ou pelas
mais vistosas belezas que o mundo possa oferecer. Não é de se espantar
que Davi tenha passado o dia inteiro em meditação (Salmo 119.97). E,
como se o dia tivesse passado rápido demais, ele empresta uma parte da
noite também: “No meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito,
durante a vigília da noite” (Salmo 63. 6). Quando os outros estavam
dormindo, Davi estava meditando. Aquele que é muito dado à meditação,
como Sansão, achará um favo de mel nesse dever. Portanto, não deixe que
a dificuldade o desencoraje. O prazer contrabalanceará infinitamente as
dores.
Havendo removido essas duas objeções do caminho, permita-me
reavivar a exortação para “meditar na lei de Deus dia e noite”. E quero
persuadi-lo a atentar para dois tipos de meditação: as ocasionais e as
deliberadas.
CAPÍTULO 12
Sobre as meditações ocasionais
1. Meditações ocasionais são as feitas em qualquer ocasião repentina.
Não há quase nada que ocorra de que não possamos logo derivar alguma
meditação. Assim como um bom perfumista consegue extrair as essências e
quintessências de cada planta, também o cristão pode, de cada emergência
e ocorrência, extrair matéria para meditação. Um coração gracioso, como o
fogo, torna todos os objetos em combustível para meditação. Darei alguns
exemplos.
Quando você olhar para o céu e o vir ricamente decorado com luz,
você pode derivar esta meditação: “Se o escabelo é tão glorioso, o que
dizer do trono em que o próprio Deus se assenta?” Quando você vir o
firmamento enfeitado com estrelas, pense em Cristo, que é a Brilhante
Estrela da Manhã. Mônica, mãe de Agostinho, estando um dia a olhar o
brilho do sol, desenvolveu esta meditação: “Se o sol é tão brilhante, o que
será a luz da presença de Deus?” Quando você ouve uma música que
deleita os sentidos, logo medite sobre como uma boa consciência é
semelhante à música: é o pássaro do paraíso interior, cuja melodia
gorjeadora encanta e arrebata a alma com alegria. Aquele que tiver essa
música o dia inteiro pode pegar o travesseiro de Davi à noite e dizer como
esse doce cantor: “Em paz me deito e logo pego no sono” (Salmo 4.8).
Como é abençoado aquele que pode achar o céu em seu próprio colo!
Quando você estiver se vestindo de manhã, desperte sua meditação e
pense assim: “Mas será que tenho vestido o homem interior do coração?
Tenho olhado meu rosto no espelho da Palavra de Deus? Tenho vestido
minhas roupas, mas tenho vestido Cristo? Conta-se que Abba Pambo[19], ao
ver uma dama se vestir durante toda a manhã ao lado do espelho, lamentou-
se: “Essa mulher passou a manhã vestindo seu corpo, e eu às vezes mal
gasto uma hora vestindo minha alma!” Quando você se assentar para jantar,
que sua meditação seja sobre como são bem-aventurados os que comerão
pão no reino de Deus. Que festa real será essa, que tem Deus por seu
fundador? Que festa de amor, onde ninguém será admitido, a não ser os
amigos!
Quando você se deitar à noite, imagine assim: Logo me despirei das
roupas terrenas de meu corpo e farei minha cama no túmulo. Quando você
vir o juiz indo ao tribunal e ouvir soar a trombeta, pense consigo, como
Jerônimo, que você já está ouvindo esta trombeta estridente ressoando em
seus ouvidos, surgite mortui, “Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao
julgamento”. Quando você vir um homem pobre vagando pelas ruas,
projete esta meditação: “Eis aí uma imagem ambulante de Cristo”, pois
“ele não tinha onde reclinar a cabeça” (Mateus 8.10). “Meu Salvador fez-se
pobre para que eu, por sua pobreza, fosse feito rico”. Quando você for à
igreja, pense assim: “Vou agora ouvir Deus falar, portanto, que eu não faça
surdos meus ouvidos. Se recusar-me ouvi-lo em sua Palavra, logo o ouvirei
falando em sua ira” (Salmo 2.5). Quando você sair para passear em seu
pomar e vir as plantas germinando, as ervas florescendo, pense como é
agradável a Deus ver um cristão vicejando; como são belas as árvores de
justiça quando estão carregadas de frutos, quando abundam em fé,
humildade, conhecimento! Quando você colher um botão de rosa em seu
jardim, faça surgir esta contemplação: “Quão amáveis são as primeiras
manifestações da graça! Deus aprecia um cristão no broto, gosta do
desabrochar da juventude, em vez do derramar-se da velhice” Quando você
comer uma uva do pé da vinha, pense em Cristo, a vinha verdadeira. Como
é precioso o sangue dessa uva! São tão raros os cachos que lá crescem que
os próprios anjos se deleitam em deles provar. Diz-se que Agostinho era
muito afeiçoado a essas meditações extemporâneas. Um coração gracioso,
como a pedra filosofal, transforma tudo em ouro; para um cristão, o ano
inteiro é uma calmaria; ele extrai meditações celestiais de ocorrências
terrenas. Como o químico[20] curioso, quando diversos metais são
misturados, pode por sua habilidade extrair o ouro e a prata dos metais
mais inferiores, assim o cristão, por uma química divina, pode extrair
meditações áureas dos vários objetos que contempla. De fato, é evidência
de um coração espiritual redundar tudo em um uso espiritual. E temos o
próprio exemplo de Cristo para essas meditações ocasionais em João
4.7,10,13,14[21]. Enquanto estava assentado no poço de Jacó, logo medita
sobre isso e irrompe em um discurso muito excelente a respeito da água da
vida. Falamos o suficiente sobre as meditações ocasionais.
Sobre as meditações deliberadas
2. Exorto-o às meditações deliberadas, que são as principais. Separe
algum tempo do seu dia para que converse de modo sério e solene com
Deus no monte. Um homem piedoso é um homem separado (Salmo 4.3),
como Deus o separa pela eleição, assim ele se separa pela meditação.
CAPÍTULO 13
Sobre o tempo certo de meditar
Pergunta 1. Qual é o melhor tempo para a meditação?
Resposta. Quanto ao tempo da meditação, é muito difícil prescrevê-
lo, em virtude dos vários chamados e empregos das pessoas. Mas, se puder
expor livremente meus pensamentos, acho a manhã o melhor tempo para a
meditação. O melhor tempo para conversar com Deus é quando estivermos
mais reclusos, ou seja, antes que as ocasiões mundanas fiquem à porta,
como pretendentes, batendo, pedindo entrada. A manhã é, por assim dizer,
o creme do dia; separe esse creme e entregue-o a Deus. Na destilação da
água-forte[22] a primeira água que é retirada do alambique está ainda mais
cheia de essências, a segunda retirada já é mais fraca. Do mesmo modo, as
primeiras meditações que são destiladas da mente, pela manhã, são as
melhores e as descobriremos como as mais cheias de vida e essências. A
manhã é a hora áurea. Deus amava os primeiros frutos (Êxodo 23.19): “As
primícias dos frutos da tua terra trarás à Casa do SENHOR, teu Deus”. Que
Deus tenha, então, os primeiros frutos do dia! O primeiro de nossos
pensamentos deve ser reservado para o céu. O estudante usa a manhã para
seu estudo. O agiota levanta pela manhã e verifica seus livros de contas;
um cristão deve começar com Deus pela manhã. Davi estava com Deus
antes do romper da manhã: “Antecipo-me ao alvorecer do dia” (Salmo 119:
147).
Pergunta 2: Mas por que a manhã para a meditação?
Resposta 1. Porque pela manhã a mente está mais pronta para os
deveres sagrados; um cristão é mais ele mesmo nesse momento. Quão
cansativa será a devoção à noite, quando uma pessoa ainda está cansado
dos negócios do dia! Ela estará mais pronta para dormir do que para
meditar. A manhã é a rainha do dia, nela a imaginação é mais rápida; a
memória, mais forte; o espírito, mais fresco; o corpo, mais revigorado,
tendo restaurado suas forças no sono. Essa é uma regra segura, aí está o
melhor momento para servir a Deus, quando nos encontramos em maior
sintonia. Pela manhã o coração é como um violino - afinado e em sintonia,
e então faz-se a melodia mais doce.
2. Os pensamentos da manhã permanecem mais tempo conosco
durante todo o dia. A lã pega o melhor corante primeiro e não se desbota
facilmente. Quando a mente recebe a impressão de bons pensamentos pela
manhã, ela guarda melhor esse corante sagrado e, como uma cor arraigada,
não serão facilmente perdidos. O coração mantém o deleite das meditações
matutinas, como uma taça que recebe a tintura e o sabor do vinho que é
colocado pela primeira vez nele, ou como o baú revestido de linho fino, que
mantém o aroma por bastante tempo. Perfume sua mente com pensamentos
celestiais no começo do dia e ela não perderá a fragrância espiritual! Encha
o seu coração com o céu no começo do dia e isso melhorará o decorrer do
dia. Receber pensamentos na mente é como receber hóspedes em uma
pousada, os primeiros que chegam ficarão com os melhores quartos da
casa; se outros chegam depois, pegarão os piores quartos. Assim, quando a
mente acolhe as meditações santas como seus hóspedes da manhã, se
depois os pensamentos terrenos chegarem, eles serão colocados em alguns
dos piores quartos - eles serão hospedados mais abaixo nas afeições. Os
melhores quartos foram ocupados de manhã por Cristo. Aquele que perde
seu coração no mundo de manhã, dificilmente o achará novamente ao
longo do dia.
3. É parte do solene respeito e honra que damos a Deus dar-lhe os
primeiros pensamentos do dia. Damos a pessoas de qualidade a
precedência - deixamo-las tomar o primeiro lugar. Se honramos a Deus
(cujo nome é venerável e santo), deixaremos os pensamentos de Deus
tomarem o lugar de todos os outros. Quando o mundo tem o primeiro de
nossos pensamentos, é um sinal de que o mundo tem lugar mais elevado,
nós o amamos mais. A primeira coisa que uma pessoa avarenta medita pela
manhã é em seu dinheiro, um sinal de que seu ouro está mais perto de seu
coração. Ó cristãos, que Deus tenha suas meditações matinais! Ele vê como
desdém que o mundo seja servido antes dele. Suponha que um rei e um
cavaleiro fossem jantar no mesmo cômodo e sentassem em duas mesas. Se
trouxessem a comida do cavaleiro e o servissem primeiro, o rei tomaria isso
como grande desdém e o consideraria como desprezo feito a sua pessoa.
Quando o mundo for servido primeiro, todos os nossos pensamentos
matutinos serão para ele, e o Senhor será adiado para as escórias do dia,
quando nossos pensamentos começarem a ficar lentos. Não seria isso um
desprezo feito ao Deus da glória?!
4. A equidade requer isso. Deus merece o primeiro de nossos
pensamentos, pois alguns de seus primeiros pensamentos foram para nós.
Nós tivemos um início em seus pensamentos antes de existirmos. Ele
pensou em nós, “antes da fundação do mundo” (Efésios 1: 4). Antes de
cairmos, ele já estava pensando em nos erguer. Nós tivemos a manhã de
seus pensamentos. Que pensamentos de livre graça, que pensamentos de
paz ele teve sobre nós! Ocupamos os seus pensamentos desde a eternidade.
Se nós tivemos alguns dos primeiros pensamentos de Deus, bem que ele
deve ter nossos primeiros pensamentos.
5. Para imitar o padrão dos santos. Jó levantou cedo de manhã e
ofereceu sacrifício (Jó 1: 5). Davi ao acordar estava com Deus (Salmo 139:
17), e de fato, esse é o meio de ter uma manhã abençoada. “Pela manhã,
jazia o orvalho ao redor do arraial” (Êxodo 16:13). O orvalho de uma
bênção cai cedo, é mais provável termos a companhia de Deus nesse
momento. Se você fosse se encontrar com um amigo, você iria pela manhã,
antes que ele tivesse saído. Lemos que o Espírito Santo veio sobre os
discípulos (Atos 2:3, 4), e isso se deu pela manhã, como pode ser visto no
sermão de Pedro, verso 15: era apenas “a terceira hora do dia”[23]. A manhã
é o momento para frutificar: “Na manhã seguinte farás tuas sementes
florescerem” (Isaías 17:11). Pela meditação matutina, fazemos a semente
da graça florescer.
Eu não poderia por isso excluir totalmente a meditação vespertina.
Isaque saiu para meditar ao cair da tarde (Gênesis 24:63). Quando o
trabalho acaba e tudo está calmo, é bom tomar um tempo com Deus à tarde.
Deus tinha seu sacrifício vespertino, bem como o matutino (Êxodo 29: 39).
Como a cobertura é doce no topo, também o é o açúcar no fundo. Em dois
casos a meditação vespertina funciona bem.
1. No caso de ter havido urgência nos negócios, de forma que você
teve tempo apenas para ler e orar. Compense, então, a necessidade da
meditação matinal com a meditação vespertina.
2. No caso de você ser mais inclinado a bons pensamentos à tarde,
pois às vezes há maior ímpeto do coração, uma maior aptidão e harmonia
da mente. Não ouse negligenciar a meditação nesse momento, pois quem
sabe se isso não apagará o Espírito? Não expulse essa pomba de bênção da
arca de sua alma. Nesses casos, a meditação vespertina é oportuna. Mas, eu
digo, se posso dar meu veredito, a manhã é preferida, como o girassol se
abre pela manhã para receber os doces raios do sol, assim abra sua alma
pela manhã para receber os doces pensamentos sobre Deus. É o suficiente
quanto ao momento de meditação.
CAPÍTULO 14
Por quanto tempo os cristãos devem ocupar-se com
esse dever
Pergunta 2. Mas por quanto tempo devo meditar?

Resposta. Quanto ao quandium, “por quanto tempo”, se considerarmos


quanto tempo damos ao mundo, é difícil se não dermos a Deus pelo menos
meia hora todos os dias. Devo dizer, apenas como uma regra geral: medite
enquanto seu coração estiver aquecido por esse dever.
Quando uma pessoa está com frio, você pergunta por quanto tempo ela
pode ficar junto ao fogo? Certamente até que esteja completamente quente
e pronta para seu trabalho. Então, cristão, seu coração está gelado, não há
um único dia, nem mesmo no dia mais quente do verão, que ele não esteja
congelado. Fique agora junto ao fogo da meditação, até que suas afeições
estejam aquecidas e você esteja preparado para o serviço espiritual. Davi
meditou até que seu coração estivesse abrasado dentro de si (Salmo 39:3).
Concluirei com essa excelente fala de Bernardo de Claraval: “Senhor,
nunca me apartarei de Ti sem Ti”. Que essa seja a resolução do cristão: não
deixar suas meditações sobre Deus até que encontre algo de Deus em si,
algum “mover do mais íntimo por Deus” (Cantares 5:4)[24]; alguma “chama
de amor” (Cantares 6:8).
CAPÍTULO 15
Sobre a utilidade da meditação
Tendo respondido essas perguntas, devo mostrar a seguir o
benefício e a utilidade da meditação. Não conheço nenhum dever que traga
maior proveito e rendimento como esse. Diz-se que Tales[25] deixou os
afazeres do Estado para se tornar um filósofo contemplativo. Conhecendo a
vantagem que vem desse dever, nos retiraríamos frequentemente da
confusão e correria do mundo para nos entregarmos à meditação!
O benefício da meditação torna-se visível em sete características.
1. A meditação é um excelente meio para se ter proveito com a
Palavra. A leitura pode trazer a verdade para a mente, a meditação traz a
verdade para o coração[26]. É melhor meditar em um sermão do que ouvir
cinco sermões. Observo muitos que colocam a culpa em nossas
congregações e se queixam de que não conseguem ter proveito na Palavra.
Será que a razão principal não é que eles não mastigam, não meditam no
que ouviram? Se um anjo pudesse vir do céu e pregar aos homens, ou
melhor, se Jesus Cristo mesmo fosse o pregador deles, eles nunca poderiam
tirar proveito sem a meditação. É o bater do leite que o faz se tornar creme
e é isso que fixa a verdade na mente, que a transforma em alimento
espiritual. A abelha suga a flor e então trabalha na colmeia e faz dela o mel.
O ouvir de uma verdade pregada é o sugar da flor; deve haver, então, um
trabalho na colmeia do coração, pela meditação, para que se transforme em
mel. Há uma doença que acomete as crianças chamada hidrocefalia,
quando elas têm cabeças grandes, mas suas partes inferiores são pequenas e
não se desenvolvem. Eu não queria que tantos professantes tivessem
hidrocefalia espiritual: eles têm cabeças grandes, muito conhecimento, mas,
ainda assim, não se desenvolvem em santidade, seus corações são débeis,
seus pés, fracos. Eles não caminham vigorosamente nos caminhos de Deus
e a causa dessa doença é a falta de meditação. A iluminação sem meditação
não nos faz melhores do que os demônios! Satanás é um anjo de luz,
mesmo sendo tão sombrio.
2. A meditação faz o coração solene e então ele é ainda melhor. A
meditação ancora o coração. Quando o navio está ancorado, não será
derrubado pelo vento tão cedo; quando o coração está ancorado com a
meditação, não será derrubado pela vaidade tão cedo. Alguns cristãos têm
corações levianos como os profetas do tempo de Sofonias (Sofonias 3:4).
Um cristão leviano será soprado por qualquer opinião ou vício. Você pode
soprar uma pena para qualquer lugar, e assim há muitos cristãos que são
como plumas. O diabo mal chega com uma tentação e eles já estão prontos
a se incendiar. É a meditação que faz o coração substancial, e Deus fala de
cristãos sérios, como Davi falou da espada de Golias: “Não há outra
semelhante; dá-ma” (1Sm 21: 9). A meditação consolida um cristão; o ouro
sólido é o melhor, assim também o cristão sólido é o único metal que estará
de acordo com Deus. Quanto mais sério o coração se torna, mais espiritual
fica, e, quanto mais espiritual, mais semelhante ao Pai das almas. Quando
um homem é sério, ele é mais adequado para ser empregado. O cristão
sério é mais adequado para servir, e é a meditação que traz o coração a essa
disposição abençoada.
3. A meditação é o pulmão dos afetos. A meditação choca boas
afeições, como a galinha o faz a seus filhotes, ao sentar-se sobre eles. Nós
acendemos a afeição pelo fogo da meditação: “Enquanto eu meditava,
ateou-se o fogo” (Salmo 39: 3). Davi estava meditando na mortalidade e
percebeu como o seu coração foi afetado com isso: “Dá-me a conhecer,
SENHOR, o meu fim e qual a soma dos meus dias, para que eu reconheça a
minha fragilidade” (v. 4). A razão de nossas afeições serem tão geladas e
frias nas coisas espirituais é porque não nos aquecemos mais pelo fogo da
meditação. A iluminação faz de nós lâmpadas brilhantes, a meditação nos
faz lâmpadas em chama. O que é conhecer Cristo pela especulação e não
pela afeição? Este é o trabalho próprio da meditação, animar e explodir
santas afeições. Que brilho de amor tem essa alma! Depois que Davi
meditou na lei de Deus, não pôde fazer outra coisa, senão amá-la: “Quanto
amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” (Salmo 119:97). Quando a
esposa, pela meditação, viu aquelas belezas singulares do amado, alvo e
rosado (Cantares 5:10), ela desfaleceu de amor (v. 8). Galeatius
Caraccialus[27], o famoso Marquês de Vico, quando esteve muito a
contemplar Cristo, irrompeu num sentimento sagrado: “Que lhes pereça o
dinheiro daqueles que estimam mais todo o ouro do mundo do que uma
hora de comunhão com Jesus Cristo”.
4. A meditação nos prepara para os deveres santos. O músico
primeiro afina seu instrumento e só depois toca uma música. Da mesma
forma, a meditação afina o coração, e é então que ele está pronto para
qualquer dever santo. Como as velas são para o navio assim é a meditação
para o dever: ela conduz a alma mais rapidamente.
1. A meditação nos prepara para OUVIR. Quando o solo é amaciado
pela meditação, eis aí um tempo adequado para a semente da Palavra ser
semeada.
2. A meditação nos prepara para a ORAÇÃO. A oração é o pulso
espiritual da alma, pelo qual ela bate fortemente diante de Deus. Não há
viver sem a oração; uma pessoa não pode viver a menos que respire. Da
mesma forma, a alma não pode viver a menos que respire seus desejos para
Deus. A oração abre o caminho para a misericórdia, e a oração santifica a
misericórdia; ela faz a misericórdia ser misericórdia (1Timóteo 4:5). A
oração tem poder diante de Deus (Oseias 12:4). A oração chega como um
mandamus[28] ao céu (Isaías 45:11). A oração é a sanguessuga espiritual
que suga o veneno do pecado para fora da alma. Que abençoado (eu
poderia dizer dever ou) privilégio é a oração! A meditação é uma ajuda
para a oração. Gérson[29] a chama de enfermeira da oração. A meditação é
como o óleo para a lamparina: a lamparina da oração apagará logo, se não
for nutrida e mantida pela meditação. A meditação e a oração são como
duas rolinhas, se você as separar, uma delas morre[30]. Um pescador hábil
observa o tempo e a época quando o peixe morde a isca melhor, e então ele
lança o anzol. Quando o coração está aquecido pela meditação, é o melhor
momento para lançar o anzol da oração e pescar a misericórdia. Depois que
Isaque esteve no campo meditando, estava preparado para a oração quando
voltasse para casa. Quando a arma está cheia de pólvora, está mais
preparada para descarregar. Assim, quando a mente está cheia de bons
pensamentos, um cristão está mais preparado para descarregar pela oração.
Então ele lança uma completa salva de suspiros e gemidos para o céu.
A meditação tem um benefício duplo em si mesma: ela enche e
derrama. Primeiro ela enche a mente com bons pensamentos e, depois,
derrama esses pensamentos na oração. A meditação primeiro fornece
material para orar e, depois, fornece um coração para orar: “Enquanto eu
meditava”, disse Davi (Salmo 39:3), e as palavras imediatamente a seguir
são uma oração: “Dá-me a conhecer, SENHOR, o meu fim” e “considero
nas obras das tuas mãos. A ti levanto as mãos” (Salmo 143: 5-6). A
meditação de sua mente abriu caminho para o levantar de suas mãos em
oração. Quando Cristo estava no monte, ele orou. Da mesma forma, quando
a alma está no monte da meditação, nesse momento, está afinada para a
oração. A oração é a filha da meditação. A meditação lidera a vanguarda e
a oração traz a retaguarda.
3. A meditação ajusta para a humilhação. Quando Davi estava
contemplando as obras da criação, seu esplendor, harmonia, movimento,
prestígio, ele deixou que as plumas do orgulho caíssem e começou a ter
pensamentos humilhantes: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus
dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te
lembres” (Salmo 8:3-4).
4. A meditação é um forte antídoto contra o pecado. A maioria dos
pecados é cometida por falta de meditação: as pessoas pecam por
ignorância e paixão, mas poderiam ser elas tão brutalmente carnais como
são se meditassem seriamente sobre o que é o pecado? Tomariam a cobra
nas mãos se apenas considerassem a picada? O pecado põe um verme na
consciência, uma picada para a morte, um fogo para o inferno. Será que as
pessoas meditam que, depois de todos os pratos de finas iguarias, a morte
trará a conta e eles deverão pagá-la no inferno? Se o fizessem, diriam como
Davi em outro sentido “não coma eu das suas iguarias” (Salmo 141:4). A
maçã do diabo tem dentro de si um caroço amargo. Se as pessoas
meditassem a esse respeito, isso certamente as faria suar frio e seria como
se um anjo tomasse uma espada para assustá-las. A meditação é um escudo
dourado para resistir ao pecado. Quando a patroa de José o tentou a fazer o
mal, a meditação o preservou. Ele disse: “cometeria eu tamanha maldade e
pecaria contra Deus?” (Gênesis 39: 9). A meditação torna o coração como
estopa seca: ele não acenderá com o fogo do diabo.
5. A meditação é a cura para a cobiça. O cobiçoso é como um
idólatra (Cl 3:5). Mesmo que não se ajoelhe diante de um ídolo, ainda
assim ele adora as imagens impressas em suas moedas. Ora, a meditação é
um excelente meio para diminuir nossa estima do mundo. As grandes
coisas parecem pequenas para aquele que se mantém elevado. Se ele
pudesse viver entre as estrelas, a Terra pareceria insignificante. Para um
cristão que se mantém elevado no pináculo da meditação, todas as coisas
mundanas desaparecem e parecem nada! Ele não vê nelas o que as pessoas
mundanas veem. Ele é levado para dentro de sua torre e o céu é sua
expectativa. As Escrituras dizem que Deus “se inclina para ver o que se
passa no céu e sobre a terra?” (Salmo 113:6). Devo referir-me, com
reverência, que o cristão que habita no alto, pela meditação, considera
humilhante e rebaixante olhar para baixo, para a Terra, e contemplar as
coisas feitas nessa região inferior. Paulo, cujas meditações eram sublimes e
fervorosas, olhava para coisas que não se veem (2 Co 4:18). Como ele
pisou no mundo, como o desprezou? Ele dizia: “O mundo está crucificado
para mim” (Gl 6: 14), como se dissesse: olhar para isso é inferior demais
para mim. Aquele que está com as mãos na coroa não pescará carpas, como
Cleópatra disse certa vez a Marco Antônio. Um cristão que é elevado pela
santa meditação não colocará seu coração onde seus pés repousam, ou seja,
sobre a terra.
6. A santa meditação expulsa os pensamentos vão e pecaminosos,
ela purifica a imaginação: “Até quando hospedarás contigo os teus maus
pensamentos?” (Jeremias 4: 14). A mente é a loja ou oficina onde o pecado
é primeiramente forjado. O pecado começa nos pensamentos. Estes são os
primeiros instrumentos e maquinismos do mal. A mente e a imaginação são
palcos onde primeiro se representa a peça do pecado. O homem malicioso
age com pecado em seus pensamentos; ele contempla a vingança. A pessoa
impura age com concupiscência em seus pensamentos, ela contempla a
luxúria. O Senhor nos humilha pela nossa contemplação perversa: “Se
maquinaste o mal, põe a mão na boca” (Provérbios 30:32).
Quanto pecado cometem os homens no quarto de sua imaginação?
Ora, meditar na lei de Deus seria um bom meio de banir esses pensamentos
pecaminosos. Se Davi houvesse carregado consigo o livro da lei e meditado
nele, não teria olhado para Batseba com olhar lascivo (2Sm 2:11). A santa
meditação teria extinguido aquele fogo selvagem da luxúria. A Palavra de
Deus é pura (Salmo 119:140), não apenas subjetiva, mas, efetiva. Ela não é
pura apenas em si mesma, mas, torna puro o que medita nela. Cristo
açoitou os compradores e vendedores para fora do templo (Jo 2:15). A
santa meditação pode açoitar os pensamentos fúteis e ociosos e não os
deixa alojarem-se na mente. Qual é a razão de os anjos no céu não terem
pensamentos vãos? Eles têm uma visão de Deus, seus olhos nunca estão
fora dele. Se o olhar da alma estiver fixado em Deus pela meditação, logo
perecerão os pensamentos vãos e impuros! Quando a mulher estava na torre
(Juízes 9:52), e Abimeleque se aproximou da torre para entrar, ela jogou
uma pedra de moinho nele e o matou; assim também, quando estivermos
alojados na alta torre da meditação, os pensamentos pecaminosos podem se
aproximar para entrar, mas, do alto dessa torre, podemos jogar uma pedra
de moinho neles e destruí-los. E assim você viu o benefício da meditação.
CAPÍTULO 16
Sobre a excelência da meditação
Aristóteles coloca a felicidade na contemplação da mente. A
meditação é altamente recomendada por Agostinho, Crisóstomo e Cipriano
como a enfermeira da piedade. Se Jerônimo a chama de seu paraíso, com
que palavras a determinarei? Os outros deveres são excelentes, mas “tu és o
mais excelente de todos”. A meditação é uma amiga para as graças, ela
ajuda a regar a plantação. Posso chamá-la, na expressão de Basílio, o
tesouro onde todas as graças estão contidas, e, com Teofilacto, o próprio
portão e portal pelo qual entramos na glória. Pela meditação, os espíritos
são erguidos e elevados para um tipo de plano angelical. A meditação
antecipa docemente a felicidade, ela nos leva para o céu antes do nosso
tempo. A meditação junta a alma e Deus (1Jo 3:2).
A meditação são os óculos de perspectiva[31] dos santos, pelos quais
eles veem as coisas invisíveis. Ela é a escada de ouro pela qual eles sobem
ao paraíso. Ela é o espião enviado para procurar a terra da promessa e
trazer um cacho de uvas consigo. Ela é a pomba que é mandada e traz um
ramo de oliveira da paz em seu bico. Mas quem pode dizer quão doce é o
mel a não ser quem o experimenta? Deixo aos cristãos experientes a
excelência da meditação, os quais dirão que o seu conforto é melhor
sentido do que expressado.
Para incitá-los a esse dever tão útil e excelente (posso quase dizer
angelical), permitam-me descrever alguns motivos divinos para a
meditação e quão feliz eu ficaria se pudesse reavivar esse dever entre os
cristãos.
CAPÍTULO 17
Contendo os motivos divinos para a meditação
Motivo 1. A meditação diferencia e caracteriza uma pessoa. Por
ela, essa pessoa pode averiguar seu coração, se é bom ou mau. Permita-me
aludir a isso assim: “Porque, como imagina em sua alma, assim ele é”
(Provérbios 23. 7); como é a meditação, assim é a pessoa. A meditação é o
meio de avaliar um cristão, ela mostra qual é a sua real constituição. Ela é
um índice espiritual; assim como o índice mostra o que há no livro,
também a meditação mostra o que há no coração. Se todas as meditações
de alguém forem sobre como se fortalecer contra o pecado, como crescer
na graça, como ter mais comunhão com Deus, isso mostra o que está em
seu coração, a estrutura de seu coração é espiritual. Pelo batimento desse
pulso, julgue-se a saúde da alma. Disso é feito o caráter de uma pessoa
piedosa: ela teme a Deus e “se lembra do seu nome” (Ml 3: 17). Ao passo
que, se os pensamentos forem ocupados com orgulho e luxúria, como são
os pensamentos assim é o coração. “Os seus pensamentos são pensamentos
de iniquidade” (Isaías 59: 7). Quando pensamentos pecaminosos e vãos
aparecem, as pessoas ocupam-se demasiadamente com eles, preparam-lhes
o quarto, uma refeição e os hospedam.[32] Mas, se um bom pensamento tem
a chance de vir a suas mentes, ele é rapidamente despejado, como um
hóspede indesejado. “Que necessidade temos de mais testemunho”? Isso
demonstra muita falta de integridade do coração. Que isso leve à santa
meditação.
Motivo 2. Os pensamentos de Deus, conforme trazem deleite
consigo, deixam também a paz após si. Essas são as melhores horas gastas
com Deus. A consciência, semelhantemente à abelha, produz mel. Quando
morrermos, não nos entristeceremos por termos gastado nosso tempo em
santos solilóquios e exclamações. Mas qual será a honra do pecador,
quando tiver que perguntar à consciência o mesmo que Jorão perguntou a
Jeú: “Há paz, Jeú”. E a consciência há de responder como Jeú: “Que paz,
enquanto perduram as prostituições de tua mãe Jezabel e as suas muitas
feitiçarias?” (2Re 9: 22). Como será triste esse momento para essa pessoa!
Cristãos, já que vocês desejam a paz, “meditem na lei de Deus de dia e de
noite”.
Sendo o dever da meditação negligenciado, o coração se tornará
selvagem, não será como um vinhedo, mas como uma selva.
Motivo 3. A meditação mantém o coração em bom decoro. Ela
arranca as sementes do pecado, poda os galhos da luxúria, rega as flores da
graça, varre todos os caminhos do coração para que Cristo possa andar por
eles com deleite. Pela falta de santa meditação o coração fica como o
campo do preguiçoso (Provérbios 24: 31), todo coberto por espinhos e
urtigas, pensamentos impuros e mundanos. Ele se parece mais com o
lamaçal do diabo do que com o jardim de Cristo. Ele está como uma casa
caindo em pedaços, que serve só para espíritos impuros habitarem.
Motivo 4. A infertilidade de todas as outras meditações. Há alguns
que expõem seus pensamentos sobre acumulação de bens; suas meditações
são como elevar-se no mundo e, quando chegam a esse estado próspero,
frequentemente Deus dissipa tudo (Ageu 1:9). Preocupam-se em demasia
com seus filhos, mas talvez Deus os leve ou, se viverem, se tornem uma
provação. Outro medita ainda em como satisfazer suas ambições, “Honra-
me [...] diante [...] do meu povo” (1Samuel 15:30). O que é a honra senão
um meteoro no ar, uma tocha acesa pela respiração do povo, que com um
sopro se apaga? Quantos viverão para ver seus nomes sepultados diante de
si? Quando esse sol está no ponto mais alto do céu, logo se esconde em
uma nuvem.
Quão infrutíferas são as meditações que não têm Deus no centro. É
apenas carregar poeira contra o vento. Mas, especialmente na morte, o
homem então verá que todos aqueles pensamentos que não foram focados
em Deus são infrutíferos; “nesse mesmo dia, perecem todos os seus
desígnios” (Salmo 146:4). Faço referência a isso no sentido de que todos os
pensamentos mundanos e vãos, no dia da morte, perecerão e se tornarão
nada. Que bem fará todo o globo terrestre nesse momento? Aqueles que
preencheram seus pensamentos com impertinências serão os mais
perturbados, isso os golpeará no coração para refletirem como teceram um
fio de tolo. Um capitão cita[33], que entregou uma cidade por um gole de
água, gritou: “O que perdi? O que traí?” Assim será com qualquer um que
desperdiçar todas as suas meditações no mundo. Quando vier a morrer,
dirá: “O que perdi? O que traí? Traí minha alma”. Não deveria essa
consideração fixar nossas mentes em pensamentos sobre Deus e sobre a
glória? Todas as outras meditações são infrutíferas, como um campo que
custa muito caro, mas não produz colheita.
Motivo 5. A meditação santa nunca se perde. Deus tem uma caneta
para escrever todos os nossos pensamentos, “um memorial escrito diante
dele para os que temem ao SENHOR e para os que se lembram do seu
nome.” (Ml 3: 16). Assim como Deus tem todos os nossos membros, assim
também todas as nossas meditações estão escritas em seu livro. Deus
registra nossa devoção particular.
Motivo 6. Esse motivo está no texto. Vejam a bem-aventurança
estabelecida para o cristão que medita: “Bem-aventurado o homem”
(Salmo 1:1). Não diga que é difícil meditar. O que você acha da bem-
aventurança? Ofertando recompensas, Licurgo conseguia levar os
lacedemônios[34] a fazer qualquer coisa. Se as pessoas podem meditar com
deleite naquilo que lhes trará maldição, não deveriam então meditar naquilo
que lhes trará bênção? Ou melhor, no hebraico está no plural, bem-
aventuranças; teremos uma bem-aventurança após a outra.
Por último, a prazerosa meditação na lei de Deus é a melhor
maneira de uma pessoa prosperar em seu estado. “Não cesses de falar deste
Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de
fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu
caminho e serás bem-sucedido” (Js 1:8). Deixo essa consideração para
aqueles que têm o desejo de prosperar nesse mundo e que isso sirva como
motivo para a meditação.
A última coisa que resta é estabelecer algumas regras sobre a
meditação.
CAPÍTULO 18
A prescrição de regras sobre a meditação.

Regra 1
Quando você for meditar, seja muito sério nesse trabalho. Permita
que haja uma profunda impressão em sua alma e, para que você seja sério
em meditação, faça estas duas coisas:
1. Coloque-se em uma postura de reverência santa. Atemorize seu
coração com pensamentos sobre Deus e a incompreensibilidade de sua
Majestade. Quando estiver no trabalho da meditação, lembre-se de que está
lidando com Deus. Se um anjo do céu tivesse marcado para encontrar-se
com você em determinada hora, você não se dirigiria com toda a seriedade
e solenidade para encontrá-lo? Contemple aqui alguém que é maior que um
anjo: o Deus da glória está presente, ele tem o olhar sobre você, vê a
conduta do seu coração quando você está sozinho. Pense consigo, ó cristão,
que quando vai meditar, vai lidar em privado com Aquele diante do qual os
anjos adoram e os demônios tremem. Pense consigo, nesse momento você
está na presença daquele diante de quem, em breve, você e todo o mundo
estarão para receber a sentença final. Você partirá, e não sabe o quão cedo,
da sua privacidade para o tribunal.
2. Para que seu coração seja sério na meditação, ocupe seus
pensamentos com a solenidade e grandiosidade do trabalho no qual está
prestes a entrar. Como Davi disse acerca de construir uma casa para Deus,
a obra é grande (1Crônicas 29: 1). Assim deve ser dito acerca da
meditação: a obra é grande e temos que reunir e agrupar todos os poderes
da alma para a obra. Se você se concentrasse em um negócio, do qual sua
vida dependesse, quão sério não seria nesses pensamentos? Na obra da
meditação, sua alma está em jogo, a eternidade depende dela, se é
negligenciada ou desconsiderada por você, sua salvação corre perigo. Se
Arquimedes era tão sério em traçar sua linha matemática que não percebeu
o roubo da cidade, quão sério deve ser um cristão quando está traçando
uma linha para a eternidade! Quando você vai meditar, você está indo
para a obra mais grandiosa do mundo.
Regra 2
Leia antes de meditar. “Não cesses de falar deste Livro da Lei;
antes, medita nele dia e noite” (Josué 1:8). A lei deveria estar nos lábios de
Josué; ele primeiramente a leria e depois meditaria. Paulo diz a Timóteo:
“Aplica-te à leitura” (1Timóteo 4:13), então segue-se o “medita estas
coisas” (v. 15). A leitura fornece a matéria, ela é o óleo que mantém a
lamparina da meditação. A leitura ajuda a ajustar a meditação. Agostinho
falou bem quando disse que a meditação sem a leitura será errônea.
Naturalmente, a mente está contaminada, assim como a consciência (Tito
1:15). A mente forjará os pensamentos e quantas inverdades serão forjadas?
Sendo assim, leia primeiro o livro da lei e depois medite, certifique-se que
suas meditações sejam plantadas na Escritura.
Há uma estranha utopia na imaginação de algumas pessoas, elas
tomam como princípios verdadeiros aqueles que são falsos, e se erram em
seus princípios errarão em suas meditações. Aquele que é da opinião dos
saduceus, de que não há ressurreição, erra em um princípio; enquanto
estiver meditando nisso, será afinal levado na direção do ateísmo. Aquele
que é da opinião dos antinomistas, de que não há lei para uma pessoa
justificada, erra em um princípio e, enquanto estiver meditando nisso, cairá
afinal num escândalo. Assim, tendo a mente caído em princípios errados e
recebido como princípio aquilo que não o é, essa pessoa afinal vai para o
inferno por um erro. Por isso, certifique-se de ler antes de meditar, para que
possa dizer: “está escrito”. Não medite em nada além do que aquilo que
você acredita ser verdade; não acredite que nada seja verdade a não ser
aquilo que mostre suas cartas credenciais da Palavra. Observe essa regra,
permita que a leitura guie a meditação. A leitura sem a meditação é
infrutífera, a meditação sem a leitura é perigosa.
Regra 3

Não multiplique os assuntos da meditação. Isso é, não medite em


muitas coisas de uma vez, como o pássaro que pula de um galho para outro
e não fica em lugar nenhum. Selecione um tópico por vez no qual você
meditará. Muita variedade leva à distração. Uma verdade conduzida pela
meditação afetará mais gentilmente o coração. Um homem que vai atirar
estabelece uma marca que pretende acertar. Quando você estiver para atirar
sua mente acima do mundo pela meditação, estipule uma coisa diante de si
para acertar. Se estiver a meditar sobre a paixão de Cristo, deixe que isso
tome todos os seus pensamentos. Se sobre a morte, confine seus
pensamentos a isso. Um assunto por vez é suficiente. Marta, enquanto
estava ocupada com muitas coisas, negligenciou a mais importante; assim,
enquanto nossas meditações estão tomadas por muitas coisas, perdemos a
coisa que deveria mover nossos corações e nos fazer melhores. Conduza
apenas uma fatia de meditação por vez, mas certifique-se de conduzi-la ao
coração. Aquele que mira em um bando de pássaros não acerta nenhum.
Muitos medicamentos aplicados juntos impedem a qualidade um do outro,
enquanto um remédio só faria bem.
Regra 4
Acrescente à meditação o exame. Quando estiver meditando em
qualquer assunto espiritual, interrogue sua alma e, mesmo que por pouco
tempo, faça-o com seriedade. “Ó minha alma, isso ocorre com você ou
não?” Quando estiver a meditar sobre o temor do Senhor, que é o
“princípio do saber” (Provérbios 1: 17), questione: “Ó minha alma, esse
temor está plantado em seu coração? Você está quase chegando ao fim de
seus dias e ainda não alcançou o princípio do saber?” Quando estiver
meditando sobre Cristo, suas virtudes e seus privilégios, questione: Ó
minha alma, você tem amado aquele que é tão amável e está enxertada
nele? Você é um galho vivo dessa videira viva?” Quando você estiver
meditando sobre as graças do Espírito, questione: “Ó minha alma, você está
adornada como a noiva de Cristo com esse colar de pérolas? Está certa de
estar pronta para o céu?” Quando você não puder mostrar suas graças, não
é hora de procurar por elas? Assim deve um cristão em sua solidão discutir
frequentemente com seu coração.
Pela falta desse exame a meditação evapora e se torna nada. Pela falta
de exame junto com a meditação muitos são estranhos para seus próprios
corações, mesmo que conheçam os outros, morrem desconhecidos para si
mesmos. A meditação é como uma lente pela qual contemplamos os
objetos celestes, mas o autoexame é como uma lente pela qual vemos
dentro de nossas próprias almas e podemos julgar como estamos. A
meditação com o exame é como o sol no relógio solar, que mostra como o
dia vai passando: ela nos mostra como nossos corações são afetados pelas
coisas espirituais.
Regra 5
Encerre a meditação com a oração. Ore pelas suas meditações. A
oração santifica todas as coisas; sem a oração elas são apenas meditações
ímpias. A oração fixa a meditação na alma, a oração é o nó no fim da
meditação, que não permite que ela desate. Ore para que Deus mantenha
aquelas santas meditações na sua mente para sempre, para que o sabor
delas possa continuar em seu coração: “SENHOR, Deus de nossos pais
Abraão, Isaque e Israel, conserva para sempre no coração do teu povo essas
disposições e pensamentos” (1Crônicas 29:18). Oremos então para que,
quando tivermos meditado nas coisas divinas e nossos corações tiverem
sido aquecidos dentro de nós, não sejamos resfriados por esmorecimento e
indiferença pecaminosa, pelo contrário, que nossas afeições possam ser
como o fogo do santuário, sempre queimando.
Regra 6
A última regra é que a meditação seja transformada em prática.
Viva pela sua meditação: “Medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado
de fazer segundo tudo quanto nele está escrito” (Josué 1:8). A meditação e
a prática, como duas irmãs, devem andar de mãos dadas. Cassiano disse
que a vida contemplativa não pode ser perfeita sem a prática. Lemos que os
anjos têm asas e mãos debaixo de suas asas (Ezequiel 1:8). Talvez isso seja
um emblema simbólico desta verdade: os cristãos não devem apenas voar
nas asas da meditação, porém, devem ser ativos em obediência, devem ter
mãos debaixo de suas asas.
O propósito da meditação é a ação. Devemos não só meditar na lei
de Deus, mas andar na sua lei (Deuteronômio 28:9). Sem isso somos como
os gnósticos, dos quais Epifânio reclamou: têm muito conhecimento, mas
são devassos em suas vidas. Os cristãos devem ser como o sol, que não
apenas manda calor, mas faz seu curso ao redor do mundo. Não é suficiente
que as afeições sejam aquecidas pela meditação, mas devemos também
percorrer nosso caminho, isso é, nos mover regularmente na esfera da
obediência. Depois de aquecidos no fogo da meditação, devemos estar mais
aptos para trabalho. A meditação é a vida da religião, e a prática é a vida da
meditação. Em honra a Gregório de Nazianzo é dito sobre ele que vivia
seus próprios sermões. Assim um bom cristão deve viver suas próprias
meditações.
Como exemplo, 1. Quando você tiver meditado sobre pecado, que,
por sua amargura, é comparado a uvas de fel e, por sua capacidade de
condenar, à veneno de serpente, se você começa a queimar em santa
indignação contra o pecado, ponha em prática suas meditações e dê ao
pecado carta de divórcio: “Se lançares para longe a iniquidade da tua mão e
não permitires habitar na tua tenda a injustiça” (Jó 11: 14).
2. Quando você estiver meditando nas graças do Espírito, deixe que
o verdor e esplendor dessas graças sejam vistos em você: viva essas graças,
medite o que é possível que você observe e faça. Foi isso que o apóstolo
Paulo aconselhou a Timóteo: “Exercita-te, pessoalmente, na piedade”
(1Timóteo 4:7). A meditação e a prática são como um compasso, uma parte
do compasso é fixada no centro e a outra parte circunda a circunferência.
Um cristão está fixado em Deus como centro pela meditação e, pela
prática, circunda a circunferência dos mandamentos. Uma pessoa que
permite que seus pensamentos se fixem nas riquezas não as terá apenas na
ideia, mas irá se esforçar para consegui-las. Que sua meditação seja prática;
quando estiver meditando sobre uma promessa, viva a promessa; quando
estiver meditando sobre uma boa consciência, nunca parta até que possa
dizer como Paulo: “Por isso, também me esforço por ter sempre
consciência pura” (Atos 24:16). Amados, aqui está a própria essência da
religião.
Para que essa regra possa ser bem observada considere:
1. É apenas a parte prática da religião que fará uma pessoa
abençoada. A meditação é uma bela flor, mas, como Raquel disse a seu
marido, “dá-me filhos, senão morrerei” (Gênesis 30:1), também a
meditação, se for estéril e não trouxer o filho da obediência, morrerá e se
tornará nada.
2. Se, quando meditar na lei de Deus, você não obedecer sua lei,
ficará aquém daqueles que ficaram aquém do céu. Isso é dito de Herodes
em Marcos 6:20: “Fez muitas coisas”; ele era em muitas coisas um
praticante do ministério de João. Aqueles que meditam na lei de Deus e não
a observam para praticá-la não fazem melhor que Herodes, na realidade
não são melhores do que o diabo. Ele sabe muito, mas, ainda assim, é um
diabo.
3. A meditação sem a prática irá aumentar a condenação da pessoa.
Se um pai escrever uma carta para seu filho e o filho ler essa carta e estudá-
la e, ainda assim, não cuidar de fazer o que o pai escreveu, isso pode servir
como agravante para sua falta e provocará ainda mais o pai contra ele.
Assim, quando meditamos sobre o mal do pecado e a beleza da santidade,
mas ainda assim não nos afastamos do primeiro nem defendemos a
segunda, isso apenas inflamará a Majestade divina ainda mais contra nós e
seremos “punidos com muitos açoites” (Lucas 12:47).

FIM
[1]Os euquitas ou messalianos foram uma seita cristã condenada como herética pela primeira vez em
um sínodo realizado em 383 d.C. O nome “messalianos” vem do siríaco mṣallyānā, que significa
“aquele que ora”. A tradução para o grego, euchitēs, significa o mesmo.
[2] Johannes van den Driesche [ou Drusio] (1550 – 1616) foi um teólogo protestante flamengo.
[3] Bernardo de Claraval (1090 – 1153) foi um abade francês, fundador da ordem dos cistercienses.
[4]Referência a uma das fábulas de Fedro, escravo romano alforriado pelo imperador Augusto. Os
versos são: Dizem que quando os cães vão a beber/ às margens do Nilo, bebem velozmente / Por temor
dos vorazes crocodilos. (N.T.)
[5]
O mercúrio é o único metal que existe no estado líquido, à temperatura ambiente. Fixar o mercúrio é
comprimir sua fluidez e fazê-lo sólido e duro como os demais metais. (N.T.)
[6] Na retórica, a invenção consiste em elaborar o que falar ou escrever, é a criação de conteúdo. (N.T.)
[7]Pedro Mártir Vermigli (1499 — 1562), foi um teólogo calvinista italiano, um dos representantes
da Escolástica Protestante. (N.T.)
[8] Segundo a versão King James. (N.T.)
[9]
Girolamo Cardano (1501 – 1576), polímata italiano. Escreveu mais de 200 trabalhos sobre medicina,
matemática, física, filosofia, religião e música.
[10]
Legislador ateniense, cujas leis se tornaram célebres pela sua rigidez e inflexibilidade. Nelas a pena
para quase todos os tipos de crimes era a morte. No português, o adjetivo draconiano denomina algo
extremamente severo. (N.T.)
[11]
Nas Discussões Tusculanas, Cícero conta que Dâmocles era um cortesão bajulador na corte do
tirano Dionísio, de Siracusa. Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele
também pudesse sentir o gosto de toda esta sorte, sendo servido em ouro e prata, atendido por mulheres
de extraordinária beleza, e servido com as melhores comidas. No meio de todo o luxo, Dionísio
ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de
rabo de cavalo. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, Dâmocles perdeu o
interesse pela excelente comida e pelas belas mulheres e abdicou de seu posto, dizendo que não queria
mais ser tão afortunado. A espada de Dâmocles é uma alusão frequentemente usada para remeter a este
conto, representando a insegurança daqueles com grande poder (devido à possibilidade deste poder lhes
ser tomado de repente) ou, mais genericamente, a qualquer sentimento de condenação iminente. (Fonte:
Wikipedia)

[12]
Ou seja, que se assemelha ao ouro, mas é feito de outra substância inferior. (N.T.)
[13]
Teodoro de Beza (1519 – 1605), teólogo protestante francês e sucessor de João Calvino em
Genebra.
[14] Pintor da Grécia Antiga, do séc. V a. C. (N. T.)
[15] Referência a 2 Samuel 14.19, em que Davi reconhece que, por trás da história que lhe contava a
mulher tecoíta, estava o plano de Joabe de reabilitar Absalão.
[16]
De acordo com o Houaiss, trata-se do período geralmente de um ano em que as terras são deixadas
sem semeadura, para repousarem.
[17] Jean Gerson (1363 – 1429), chamado de Doctor christianissimus, foi teólogo, erudito, educador,
filósofo, pregador, reformador e poeta francês, além de chanceler da Universidade de Paris.
[18] No sermão Esforçando-se pelo Reino dos Céus, Jonathan Edwards ilustra o papel que os puritanos
e seus herdeiros espirituais na Nova Inglaterra davam ao esforço na busca da salvação (cf. em
<http://jonathanedwardsselecionados.blogspot.com.br/2014/01/esforcando-se-pelo-reino-dos-ceus-1-
de-4.html>. Ver ainda, do próprio Watson, o excelente tratado O soldado cristão: conquistando o Reino
dos Céus pela violência (Heaven taken by Storm), disponível em:
<https://www.yumpu.com/pt/document/view/57961733/biblioteca-militar-cristao-vol-07-1-o-soldado-
cristao-thomas-watson>.
[19]Abba Pambo (374? - 386?), foi um dos fundadores do conjunto de monastérios do deserto de Nítria,
no Egito. Em sua juventude, foi discípulo de Santo Antônio.
[20] Literalmente, alquimista.
[21]“Desse modo era com nosso Salvador, Jesus Cristo, pois todos os discursos que ouvia, todos os
acidentes e ocorrências faziam surgir e ocasionavam nele meditações celestiais, como podemos ver por
todos os Evangelhos. Quando esteve junto ao poço, falou da “água da vida” (João 4). Muitos exemplos
poderiam ser dados. Ele, em seus pensamentos, traduzia o livro das criaturas em livro da graça, assim
como o fazia o coração de Adão no estado de inocência. Sua filosofia poderia ser verdadeiramente
denominada teologia, pois via Deus em tudo. Todas as coisas elevavam seu coração à ação de graças e
ao louvor.” (Thomas Goodwin, A Vaidade dos Pensamentos).
[22] Designação primitiva, porém ainda corrente, do ácido nítrico dissolvido em água.
[23] Ou seja, às nove horas da manhã. (N.T.)
[24] Versão do autor.
[25] Filósofo grego, considerado o pai da filosofia. (N. T.)
[26]
Quanto a isso, conferir o excelente tratado de Watson, Como ler a Bíblia, disponível na loja da
Amazon, em formato de e-book.
[27] Trata-se do nome latino de Galeazzo Caracciolo, o Marquês de Vico (1517 – 1586), nobre e
teólogo italiano. De acordo com a New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowlede, Caracciolo
era sobrinho do papa Paulo IV. Em Nápoles, ficou profundamente impressionado após ouvir Juan de
Valdès e Pedro Mártir Vermigli. Após uma viagem à Alemanha, em 1544, dedicou-se aos estudos das
obras de Lutero. Posteriormente, decidiu abandonar a pátria, a posição e as posses e partiu para
Genebra, onde se juntou à comunidade italiana reformada. Apesar das tentativas de levar sua esposa e
filho para Genebra, estes se recusaram a segui-lo. Em um caso emblemático para a época, o consistório
de Genebra concedeu-lhe o divórcio e ele pôde, então, casar-se novamente. A biografia de Caracciolo
foi escrita por Nicola Balbani (Historia della Vita di Galeazzo Caraccioli), traduzida para o latim por
Theodore Beza e publicada em inglês com o título, The Italian Convert: news from Italy of a second
Moses: or the life of Galeacius Caracciolus, the Noble Marques of Vico. Ela pode ser encontrada online
em <https://archive.org/stream/italianconvertne00balb#page/n9/mode/2up>. (N. T.)
[28] Na Common Law, o mandamus abrange a determinação superior que deve ser cumprida em
instância inferior ou por autoridade pública ou privada, visando à realização do que, de direito, se está
obrigado a fazer. A expressão refere-se a uma ordem judicial, com significado semelhante ao do
mandado de segurança, mas não de igual conceito. (N.T.)
[29] Ver nota 17 acima.
[30] Possível referência ao hábito das rolinhas (turtle) de viverem em par. (N.T.)
[31] Instrumento para visualizar a imagem ampliada de impressões e mapas. (N. T.)
[32]
“O profeta compara o coração a alguma casa de hospedagem comum, feita, por assim
dizer, com muitos e amplos cômodos para distrair e hospedar multidões de visitantes. Nela têm franco e
livre acesso, antes da conversão, todos os pensamentos vãos, desprezíveis, maliciosos, profanos e
dissolutos, os quais põem o mundo de cabeça para baixo, como ocorre com os pensamentos de vocês.
Amotinando-se todo o dia, o coração os hospeda; dá-lhes voluntárias e alegres boas-vindas e
entretenimento; acompanha-os; viaja por todo o mundo em busca dos mais requintados prazeres para
alimentá-los; abriga-os; dá-lhes refúgio; e lá eles, como galãs e fanfarrões desgovernados, abrigam-se e
festejam dia e noite, degradando as salas em que habitam com seu lixo e vômito repugnantes. ‘Até
quando’, diz o Senhor, ‘habitarão contigo’, enquanto eu, com meu Espírito, meu Filho, e com as
cadeias de graça ‘permanecemos à porta, batendo’ (Ap 3.20) e não podemos achar admissão?” (Thomas
Goodwin, A Vaidade dos Pensamentos)

[33]
Os citas eram um antigo povo iraniano de pastores nômades equestres que por toda a Antiguidade
Clássica dominaram a estepe pôntico-cáspia, conhecida à época como Cítia. (N. T.)
[34] Habitantes da Lacedemônia, ou Lacônia, unidade regional da Grécia, cuja capital é Esparta. (N.T)