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UFRN – CCHLA - LETRAS - Lingüística Românica

PROFESSOR: Alzir Oliveira

O SURGIMENTO DA ROMANÍSTICA

A Lingüística Românica é o estudo comparado das línguas românicas e é uma


conseqüência do método histórico-comparativo.

ANTES DO SÉCULO XIX: PRENÚNCIOS

1) Séc. XIV - No De vulgari eloquentia, Dante já menciona a afinidade entre o francês, o provençal, o
italiano e o espanhol.

2) Séc. XV - Elio Antonio de NEBRIJA escreve a Arte de lengua castellana, a primeira gramática de uma
língua românica.

3) Séc. XVI

a) Stephanus (Robert Estienne) escreve o Dictionarium latino-gallicum, o primeiro dicionário


francês;
b) MEIGRET escreve o Tretté de la gammere françoese;
c) SCALIGERO (final do século) agrupa francês, espanhol e italiano, devido a suas afinidades.

4) Séc. XVII
a) Celso CITTADINI escreve o Trattato della vera origine della nostra lingua (1601);
b) NICOT, o Thresor de la langue françoyse (1606) e
c) Gille MENAGES, o Dictionaire étymologique de langue française (1650) e Origini della lingua
italiana (1669).

5) Séc. XVIII - Histórias das literaturas românicas:

a) RIVET => Histoire littéraire de la France (1763);


b) TIRABOSCHI => Storia della letteratura italiana (1772).

NO SÉCULO XIX: CONSTITUIÇÃO DA CIÊNCIA

1) Nos albores do século XIX, começam a frutificar os ideais do romantismo, cujo interesse precípuo se
concentrava nos temas exóticos (como o sânscrito) e, principalmente, em temas medievais e
populares. Assim, as antigas literaturas românicas passam a ser objeto de crescente investigação,
especialmente na Alemanha.
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2) O interesse filológico é despertado ao mesmo tempo que o lingüístico. De um lado, inicia-se a


publicação de textos, de outro, ativa-se a pesquisa de idiomas românicos e suas relações.

3) Da edição dos monumentos literários incumbem-se franceses e alemães. Já em 1815 Jakob GRIMM
organiza uma coletânea de antigos romances espanhóis, a Silva de romances viejos.
4) O progresso lingüístico é também patente, desde o início do século.

5) Em 1804, Fabre d’Olivet, na Dissertation sur la langue occitanique, já esboça uma teoria que antecipa
a do provençalista RAYNOUARD, pois considera o francês, o espanhol e o italiano oriundos do
provençal.

6) Mas é François RAYNOUARD (1761-1836) quem dedica ao provençal estudo exaustivo, tanto à língua
como à literatura. Pelo mérito de sua obra, mereceu de DIEZ o título de “pai da filologia românica”,
embora possamos reconhecê-lo apenas como precursor, devido à sua teoria errônea da “língua
romana”.

7) Frederico DIEZ (1794-1876) iniciou a fase científica dos estudos românicos, aplicando-lhes o método
histórico-comparativo, usado por Franz BOPP e Jakob GRIMM. Era de formação clássica, mas cedo
revelou interesse pelas línguas neolatinas. Começou suas atividades no campo filológico com um
estudo sobre romances do espanhol arcaico.

8) Depois de Diez, começa a aliar-se ao interesse pelo estudo da língua escrita também o da língua viva
e dos dialetos. Como reação ao predomínio do estudo literário, surge a Dialetologia, especialmente na
Itália, país marcado pelos contrastes lingüísticos. Com Graziadio Isaia ASCOLI (1829-1907) inicia-se a
dialetologia científica. Dos seus trabalhos destacam-se Saggi ladini - estudo dos dialetos réticos, e os
Schizzi franco-provenzali.

Mas sua obra fundamental é de caráter lingüístico: a Gramática Comparada das Línguas Românicas e
o Dicionário Etimológico.

9. O austríaco Hugo SCHUHARDT (1842-1927) foi aluno de Diez em Bonn, porém não confinou suas
atividades ao campo românico, antes dedicou-se à lingüística geral. Como romanista escreveu na
juventude um livro sobre o vocalismo do latim vulgar, aliás seu único livro. Mas, mesmo nas questões
gerais que abordou, procurou aduzir exemplos românicos, e seus estudos sobre os dialetos crioulos,
especialmente do português, têm grande interesse para a romanística.

10. Os neogramáticos constituíram a escola alemã que defendeu, nos fins do século passado, o princípio
de que as leis fonéticas não têm exceção (ressalvados os casos de empréstimos e formações
analógicas). Composta essencialmente por indo-europeístas, como Osthoff, Brugmann e Leskien
(eslavista) deixou, todavia, reflexos no campo românico, visíveis em particular na obra de Meyer-
Lübke.

11. Seu programa afrontava ostensivamente as posições comparatistas da época, voltando-se para a
pesquisa das línguas vivas. O extremo rigor de suas pesquisas levou-os ao estabelecimento das leis
fonéticas, cometendo, assim, o erro de considerar absoluta a regularidade da mudança lingüística.
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12. Wilhelm MEYER-LÜBKE (1861-1936) foi, no dizer de Tagliavini, o maior teórico da lingüística românica,
após Diez. Renovou a obra deste, mormente na parte já ultrapassada, qual seja, a fonética, tão
explorada na época. Sua obra fundamental consiste na Gramática das Línguas Românicas e no
Dicionário Etimológico Românico, que atualizam os de Diez, não se limitando, como aqueles, às
línguas literárias, mas dando atenção também aos dialetos.

O MÉTODO HISTÓRICO-COMPARATIVO

1. Usado largamente na Linguística indo-européia e nos seus vários ramos, tem sido básico na
Romanística para a reconstrução do latim vulgar.

2. À vista da existência de inúmeros vocábulos que não coincidem, total ou parcialmente, com os latinos
de igual sentido, busca-se, pela comparação das línguas neolatinas, chegar a uma forma que teria
existido no latim vulgar. Obtemo-la mediante a aplicação de leis fonéticas extraídas do confronto
(efetuado o maior número de vezes possível).de determinado fenômeno.

3. Assim, na Fonética, da verificação, multiplamente atestada, da síncope da vogal postônica em


inscrições, textos menos cuidados e mesmo em listas de erros freqüentes (como o Appendix Probi),
estabelece-se uma lei pela qual se admite como normal essa queda no latim vulgar (cf. *oricla, *auricla
para o provençal, *ispeclu, *veclu etc. ).

Exemplos do Appendix Probi


idem non ide
apicula non apicla
articulus non articlus
olim non oli
lancea non lancia
ansa non asa
passim non passi
nurus non nura
nobiscum non noscum

4. Outro exemplo poderá ser o da evolução do grupo -ct-; feito o levantamento das palavras que o
encerram, verifica-se qual foi a evolução nas várias línguas românicas e se chega a idêntica linha de
tratamento em cada uma. Pode-se então formular esta lei: “No grupo -ct- o elemento velar palataliza-
se na România Ocidental; labializa-se no Romeno e assimila-se à dental no italiano, dalmático e sardo”

A DIREÇÃO DIALETOLÓGICA: A GEOGRAFIA LINGUÍSTICA

1. Com Ferdinand de SAUSSURE, valoriza-se o estudo sincrônico, realçando-se o aspecto social. . A


Geografia Lingüística evidencia que a língua não é um organismo autônomo, mas sim dependente do
homem, sujeita, portanto, a alterações resultantes dos contatos dos indivíduos na sociedade.

2. A Geografia Linguística constituiu-se na França, com o suíço Gilliéron, que lhe assentou as bases
com a elaboração do Atlas Lingüístico da França (ALF), representando cartograficamente as
variedades dialetais encontradas.
Constitui como que uma reação aos excessos dos neogramáticos, segundo os quais as leis fonéticas
não têm exceções, podendo os fatos lingüísticos explicar-se por leis naturais.
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3. Um ensaio escrito por Graziadio Isaia ASCOLI sobre o italiano, o rético e o franco-provençal abriu o
caminho para os estudos dialetais, mas por tratar-se de mero levantamento de vocábulos, sem a
análise e interpretação dos dados, não conseguiu ir adiante.

4. À Geografia Lingüística coube:


a) recolher o máximo de material de língua viva;
b) procurar explicar as diferenças locais, as alterações semânticas, as preferências lexicais
devidas a fatores psicológicos, à homonímia, às “doenças e curas” das palavras.

5. Ao tentar delimitar os dialetos alemães, Georg WENKER (1881) não consegue provar a validade das
leis fonéticas; algumas isoglossas se mostram irregulares, atestando a inexistência de fronteiras
dialetais. Seu insucesso foi devido à crença exagerada nas leis fonéticas e ao fato de não levar em
conta fatores de ordem social nas alterações lingüísticas.

6. Gustav WEIGAND elabora o Atlas Linguístico do território daco-romeno (1895). Apesar de valer-se
apenas do critério fonético, traz a vantagem da inquirição direta.

7. Júlio GILLIÉRON (1854-1926) é o fundador da Geografia Lingüística. Interessa-se pelo estudo dos
dialetos franceses ameaçados pela influência da língua literária.

a) A pesquisa foi feita in loco.


b) O questionário tinha 1920 perguntas, abrangendo fonética, morfologia, léxico e até sintaxe.
c) O inquiridor foi Edmond Edmont, um caixeiro viajante.
d) Foram visitadas 639 localidades, excluídos os grandes centros, de 1897 a 1901.
e) Os resultados foram anotados em mapas.

8. RESULTADOS DO ALF
8.1. As palavras migram e em seu percurso lutam por sobreviver, podendo:
a) vencerem, o que constitui uma taumaturgia lingüística;
b) serem vencidas: =>por mutilação fonética, necessitando de uma terapêutica;
=>por substituição por outras de maior prestígio.

8.2 Não existem limites dialetais, mas apenas limites de fenômenos lingüísticos.

8.3 Gilliéron realça o valor do elemento humano e social a que está associada a linguagem.

Atesta ainda que, além da analogia e dos empréstimos, fatores psicológicos perturbam a
ação das leis fonéticas, salientando-se a homonímia e a etimologia popular.

Exemplos:
=> No gascão, -ll- evoluiu para -tt- (-ll- > -tt-); assim gallu e gattu evoluíram ambas para
gat, gerando a necessidade de diferenciação. Por isso, gat (de gallu) é substituída por bijey
(vicaire)) ou azã (faisan).
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=> O latim clavus e clavis evoluíram no francês, respectivamente, para clou e clef; no
provençal, porém, evoluíram ambas para claus, o que forçou a mudança do primeiro para
clavel (< clavellus).

Exemplos de etimologia popular em português:


 bar(ri)guilha (de barriga) por braguilha; * cuspido e escarrado por insculpido e
encarnado
 falar francês como uma vaca espanhola (um basco espanhol); * missa de libra e
meia (de libera me)

9. O grande prestígio da Geografia Lingüística fez surgir muitos atlas e as críticas à obra de
Gilléron provocaram melhorias que foram introduzidas por seus discípulos, tais como:
a) uso do critério etnográfico;
b) confecção de atlas regionais
c) novas soluções para a pesquisa, ditadas pela experiência, quanto:
 ao processo de coleta dos dados (direto / indireto = in loco / por correspondência);
 ao questionário: número e distribuição das perguntas por áreas semânticas;
 aos inquiridores: número (um ou equipe), profissão (lingüista ou não) ,origem (do
local ou não);
 aos informantes: origem (do local), profissão (agricultor), idade (entre 30 e 50 ou 50 e
70,);
 à transcrição: impressionista (reproduz o que se ouve, sem ajustes), fonética ( pelo
alfabeto fonético), normalizante (baseada na pronúncia média do lugar).

10. Apesar dessa indiscutível aceitação, o método cartográfico não é exclusivo no estudo dos
dialetos. À projeção dos elementos dialetais no mapa deve-se aliar o seu levantamento em
glossários, fundamento da Dialetologia tradicional.

Entretanto, convém não estabelecer franca oposição entre geografia lingüística e dialetologia:
são apenas modalidades distintas do estudo dialetal, uma vez que têm ambas o mesmo objeto
- estudo das falas populares - e diferem só pelo modo de apresentar os resultados, em carta
geográficas (Geografia Linguística) ou em glossários (Dialetologia).

CORRENTES ASSOCIADAS À GEOGRAFIA LINGUÍSTICA

1. Palavras e coisas (Wörter und Sachen), de Meringer e Schuchardt. Estudo das palavras
tendo em vista o seu verdadeiro sentido, recorrendo-se à história do vocábulo. Exemplo: a
palavra mamão tem sua origem explicada pela semelhança com a mama e por causa do látex,
que se assemelha ao leite; a palavra fígado, que em latim era iecur, só se explica pela expressão
“iecur ficatum”, i. é, fígado cevado com figos, como era costume entre os romanos.
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2. Onomasiologia - estudo dos diferentes nomes atribuídos a um objeto ou ser, em uma ou


mais regiões. Exemplo: partes do corpo, animais, alimentos, diversões etc.

3. Estratigrafia (ou geologia lingüística) - estudo das várias fases (estratos) por que passou
uma palavra e dos vestígios de sua sobreposição. Exemplo: Saturni dies foi suplantado pela
palavra sabbatum, mas esse estrato permaneceu no inglês Saturday

4. Neolinguística (ou lingüística espacial) - estudo que estabelece as chamadas normas


areais, cuja função é auxiliar a leitura das cartas geográficas, estabelecendo as relações
cronológicas entre palavras, iniciado por Matteo Bartoli (1925). São normas areais:
a) a região mais isolada conserva a forma mais antiga;
b) a área lateral também conserva a forma mais antiga;
c) em território mais extenso igualmente se encontra a palavra mais antiga;
d) a fase mais antiga permanece também em territórios de romanização tardia;
e) de duas fases consideradas, a desaparecida é mais antiga.

O IDEALISMO LINGUÍSTICO

1. Considera a língua como uma manifestação do espírito, ressaltando nela o aspecto


individual e o valor da intuição. Karl VOSSLER e outros adeptos baseiam-se na Estética de
Benedetto CROCE e no precursor W. HUMBOLDT.

Principais idéias de Wilhelm von HUMBOLDT (1767-1835)

A linguagem não é érgon (objeto, produto), mas enérgueia (atividade do espírito) que
sempre se renova, criação contínua, representa o que se passa na mente do falante.

Há, portanto, uma forma lingüística interior (innere Sprachform) subjetiva e que revela a
mentalidade do indivíduo e do povo, e uma forma lingüística exterior (äussere Sprachform),
instrumento de comunicação de idéias; compreende elementos formadores da língua: fonética,
morfologia, sintaxe etc.

2. Benedetto CROCE (1866-1952) é o inspirador dessa corrente. Para ele, o conhecimento


humano é intuitivo e intelectivo. A língua é considerada uma arte, visto que é expressão da alma.
A lingüística se identificaria assim com a estética.

3. Karl VOSSLER (1872-1949) opõe-se ao positivismo, apelando para a intuição. Para ele,
toda manifestação lingüística é uma criação do espírito, individual, subjetiva. A criação lingüística,
no entanto, pode ser restringida pela evolução.
Admite um positivismo metodológico, enquanto estudo apoiado em fatos rigorosamente
coligidos; rechaça, porém, o positivismo doutrinário, enquanto explicação dos fenômenos
estudados nos próprios fatos, em vez de buscá-los no espírito humano.
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5. São importantes seguidores do idealismo lingüístico:


Giulio BERTONI (1878-1942) que praticou um idealismo eclético;
Eugen LERSCH (1888-1952) que trabalhou com a sintaxe do francês;
Leo SPITZER (1887-1960) que, fugindo aos excessos dos outros idealistas, evita deter-se
numa só língua ou em um só aspecto. Dedicou-se à Estilística.

VIRTUDES E DEFEITOS DO IDEALISMO

1. Defeitos:
a) considerar a língua alógica;
b) exagerar o papel do elemento estético do idioma e as relações língua/sociedade;
c) atribuir totalmente ao espírito humano as transformações fonéticas;
d) insistir demais no aspecto individual da língua.

2. Virtudes:
a) ênfase no fator psíquico e individual da linguagem, contra o mecanicismo anterior;
b) novo realce à língua escrita, abandonada pelo entusiasmo dedicado ao estudo dos dialetos;
c) atribuição da devida importância à estilística e à sintaxe.

Síntese elaborada com base em:


MIAZZI, Maria Luísa Fernandez. Introdução à Linguística Românica. São Paulo, Cultrix/EDUSP,
1972.