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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ FEDERAL DA __ VARA DA

SEÇÃO JUDICIÁRIA DE TERESINA - PIAUÍ

Proc. Nº...

JOSÉ LARÁPIO DO LIVRAMENTO, comerciante, residente e domiciliado


na Rua do Sol nº 234, bairro Santo Antonio, na cidade de Parnaíba-PI, por seu
procurador infra-assinado (ut procuração em anexo), advogado regularmente
inscrito na OAB/PI sob nº ...., e com escritório na Rua .... nº ...., nesta cidade, onde
recebe intimações e notificações, respeitosamente vem à presença de Vossa
Excelência, requerer

RELAXAMENTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE

Com fulcro no art. 5º, LXV, da Constituição Federal e art. 310, I, do Código
de Processo Penal, pelos motivos fáticos e jurídicos a seguir expostos:

ESCORÇO FÁTICO
O Requerente foi preso e autuado em flagrante em 08/04/2016, como
suposto autor do delito previsto no art. 334, inciso IV do Código Penal. Encontra-
se atualmente recolhido em uma das celas da Central de Flagrantes da capital
Teresina-PI.

Não sendo a oportunidade e meio para discussão acerca da análise do


mérito, impende salientar alguns aspectos essenciais que retiram a ilicitude
atribuída à conduta do Requerente, tal como a exigência da habitualidade para a
correta tipificação do crime em tela, sendo inadmissível, por conseguinte a prisão
em flagrante.

INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE POLICIAL PARA PRESIDIR A LAVRATURA


DO ATO DE PRISÃO EM FLAGRANTE
A lei adjetiva penal não confunde as figuras da autoridade que preside o
flagrante, do condutor e das testemunhas. Essas figuras não podem se confundir
na mesma pessoa, principalmente, as do presidente (autoridade competente, leia-

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se delegado) e a do condutor (autoridade policial), pois, isso contraria o
estabelecido no artigo 304, caput, do Código de Processo Penal, constituindo vício
insanável.

INOBSERVÂNCIA DA ORDEM DOS DEPOIMENTOS NO ATO DE PRISÃO


EM FLAGRANTE
Verificou-se, em complemento, outra irregularidade quanto ao procedimento
formal consagrado no art. 304 do referido dispositivo. Há inquestionável inversão
da ordem comum de depoimentos, que por força legal exige que o indiciado seja
ouvido por último, pois é apenas através de suas declarações, corroboradas com
o depoimento do condutor e das testemunhas, que irá se verificar se o fato foi
praticado ou não na situação concreta. É pacífico o entendimento que tal
sequência é imprescindível, e sua não observância é caso de nulidade da prisão
em flagrante.

COMUNICAÇÃO DO FLAGRANTE À AUTORIDADE JUDICIÁRIA


Verifica-se que até a presente data, a prisão em flagrante não foi
comunicada ao Poder Judiciário, conforme se demonstra na certidão negativa da
distribuição dos feitos criminais (doc. anexo). Assim como não foi dada a
oportunidade de comunicação ao seu advogado, importando em flagrante violação
ao teor do art. 306, §1º, do Código de Processo Penal (com redação dada pela lei
nº 12.403/2011) e art. 5°, LXII, da Constituição Federal.

AUSÊNCIA DE NOTA DE CULPA


Verifica-se, por oportuno, que não lhe foi expedida a nota de culpa no
prazo legal (24 horas), a contar da data da prisão em flagrante, em total
desrespeito ao preceituado no artigo 306, §2º, do Código de Processo Penal.
Referida omissão da autoridade policial importa em violação a mais simplória
garantia fundamental da pessoa humana, em tomar ciência do real motivo de sua
prisão. Por esse motivo, também merece ser relaxada a prisão em flagrante.

Nesse sentido, já decidiram os tribunais pátrios:

“Nulo é o auto de flagrante presidido e lavrado pelo próprio condutor, que


ouviu a sí próprio” (TACRIM-SP - RT - 427/413). “A autoridade que
preside o flagrante não pode cumular as posições de testemunha e
presidente do auto de flagrante” ( JTACRIM - SP - 63/242 ).

“NULIDADE. INVERSÃO DOS ATOS. O auto de prisão em flagrante,


consoante preceitua a lei adjetiva penal, obedece a uma sequência
obrigatória e ditada pela lógica. Por primeiro, é ouvido o condutor, depois
as testemunhas e a vítima, se encontrada, por fim o indiciado. É
indispensável que este seja o derradeiro a falar nos autos e sua
manifestação será balizada pelo que afirmarem as testemunhas e o

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ofendido” (TACRIM-SP-RT 489/380).

“HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. ART. 334-A DO CÓDIGO


PENAL. CIGARROS. PRISÃO EM FLAGRANTE. CONVERSÃO EM
PREVENTIVA. REQUISITOS. LIBERDADE PROVISÓRIA. MEDIDAS
CAUTELARES ALTERNATIVAS. FIANÇA. VALOR. 1. Ausentes
elementos concretos a ensejar o decreto de prisão preventiva do
paciente. 2. A jurisprudência desta Corte entende, nos casos de
contrabando e descaminho, pela possibilidade de concessão de
liberdade provisória, mediante o arbitramento de fiança, mesmo nas
hipóteses em que o agente apresente antecedentes pela prática da
conduta delitiva, relevando-se a situação pregressa na fixação do
quantum da fiança, de forma a fortalecer o vínculo entre o paciente e o
Juízo. 3. Na fixação do valor da fiança, deve-se fazer o cotejo entre o
valor das mercadorias objeto do delito e a capacidade financeira do
acusado, compreendida no contexto de coautoria e de potencialidade
econômica em que foi cometido o delito.” (TRF-4 - HABEAS CORPUS
HC 50216178820144040000 5021617-88.2014.404.0000)

“HABEAS CORPUS. CASA DE


PROSTITUIÇÃO. DESCAMINHO. PRISÃO EM FLAGRANTE. -
Tratando-se de delito habitual próprio é inadmissível a prisão em
flagrante, por outro lado, ainda que admitida a possibilidade da medida,
apresentando-se ilegal a prisão efetuada nos autos pela falta de
evidências de prática do fato típico pelo indiciado. - Ilegalidade
do flagrante que também se desvela no tocante ao delito
de descaminho, porquanto integra a figura típica do artigo 334, § 1o,
letras c e d do Código Penal a elementar da prática das condutas
puníveis no exercício de atividade comercial ou industrial, condição que
não se apresenta induvidosamente presente na pessoa do paciente. -
Ordem concedida.” (TRF-3 - HABEAS CORPUS 14634 HC 9811 SP
2003.03.00.009811-4)

PRESSUPOSTOS DA LIBERDADE PROVISÓRIA


Ademais, o Requerente, conforme se comprova através dos inclusos
documentos, é primário e tem profissão definida, nada tendo que venha a
desabonar sua conduta; sendo exemplar chefe de família, consoante comprovado
pelos documentos inclusos (docs. 2, 3 e 4). Não estão presentes, portanto,
nenhum dos pressupostos que admitem a decretação de prisão preventiva, de
acordo com o exposto no artigo 313 do Código de Processo Penal (caput com
redação dada pela lei nº 12.403/2011).

O Requerente está atualmente residindo na Rua do Sol nº 234, bairro Santo


Antonio, na de Parnaíba-PI (doc. anexo), e se compromete a comparecer perante
este Juízo, sempre que for necessário, caso assim não entenda Vossa Excelência,
que seja concedida a liberdade provisória (com ou sem fiança).

PEDIDO

3
Diante do acima exposto, após manifestação do Douto Representante do
Ministério Público, requer seja RELAXADO O FLAGRANTE, diante do manifesto
descumprimento das formalidades legais, determinando, em consequência, a
expedição do competente Alvará de soltura em favor de JOSÉ LARÁPIO DO
LIVRAMENTO.

Termos em que, pede Deferimento.

4
Teresina, 30 de abril de 2016

RICARDO HENRIQUE FARIAS DA SILVA


Advogado
OAB/PI XXX