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Cruzada Popular

Cruzadas

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Estados cruzados | Idade Média | Jihad | Terra Santa

A Cruzada Popular ou Cruzada dos Mendigos foi um movimento extra-oficial da Primeira Cruzada.
Uma peregrinação que reflectiu o misticismo da época, teve o seu início em 1095. Depois do Concílio de
Clermont, o papa Urbano II planeou a partida da Cruzada dos Nobres, composta de homens de armas, para
15 de Agosto de 1096, no dia santo da Assunção de Maria.

Mas meses antes desta cruzada "oficial", um vasto número de plebeus e cavaleiros de baixa estirpe
organizou-se para partir para a Terra Santa de forma independente. Liderados pelo monge Pedro o Eremita
e pelo cavaleiro Gualtério Sem-Haveres, cerca de 40.000 peregrinos1 da Europa ocidental tentaram libertar
a cidade de Jerusalém do domínio muçulmano, mas seriam mortos ainda na Anatólia em Outubro de 10962 .

Índice
 1 Pregação da cruzada
 2 Travessia da Europa
o 2.1 Gualtério Sem-Haveres
o 2.2 Pedro, o Eremita
o 2.3 Perseguição a judeus
o 2.4 Volkmar e Gottschalk
o 2.5 Emico de Flonheim
 3 Em Constantinopla
 4 Na Anatólia
 5 Referências
 6 Bibliografia e ligações externas

Pregação da cruzada

Durante o Concílio de Placência de 1095, ao receber um apelo de ajuda do imperador bizantino Aleixo I
Comneno para a luta contra os turcos, o papa Urbano II viu uma hipótese para acabar com o Grande Cisma
do Oriente e reunir a Igreja cristã sob o domíno papal3 . A 27 de Novembro foi reunido o Concílio de
Clermont, no qual o papa exortou a sua audiência a tirar o controle de Jerusalém das mãos dos
muçulmanos, prometendo que quem morresse na Terra Santa ou a caminho dela, ganharia o seu lugar no
Paraíso - isto é, a indulgência plena. A multidão reunida foi tomada de um tal entusiasmo frenético que
interrompeu o seu discurso gritando «Deus o quer!» (em latim: Deus vult!)4 , frase que seria repetida por
toda a Europa. Durante 1095 e 1096, Urbano continuou a pregar a cruzada pela França e incentivou os seus
bispos e legados a fazerem o mesmo nas suas dioceses da França, Germânia, e Itália.

Europeus de todas as camadas sociais coseram uma cruz vermelha nas suas roupas, o que lhes deu o seu
nome de cruzados. O entusiasmo era tal que muitos venderam ou hipotecaram todos os seus bens para obter
as armas e o dinheiro necessários para a expedição. Nobreza e o povo comum procedente da França, do sul
da Itália e das regiões da Lorena, Borgonha e Flandres, rapidamente formaram cruzadas separadas.

Depois de vários anos em que fora vítima de secas, fome e pestes, parte do povo da cruzada teria visto a
expedição como uma fuga a este sofrimento. Por coincidência, desde o início de 1095 ocorriam fenómenos
naturais que pareciam às pessoas da época serem sinais de uma bênção divina: uma chuva de meteoros,
auroras boreais, um eclipse lunar e a passagem de um cometa, entre outros eventos.

Pedro o Eremita prega a cruzada ao povo (ilustração de Gustave Doré, século XIX)

Um surto de ergotismo, que geralmente propiciava peregrinações em massa, ocorrera pouco antes do
Concílio de Clermont. O milenarismo, a ideia da iminência do fim do mundo popularizada no final do
século X e início do século XI, ganharam popularidade. Deste modo, a resposta ao apelo do papado
ultrapassou as expectativas: Urbano teia contado em reunir alguns milhares de cavaleiros, mas a empresa
tornou-se numa migração de mais de 40.000 pessoas1 .

O papa ainda tentou proibir algumas pessoas (como mulheres, monges e os doentes) de participar na
cruzada, mas isto revelou-se impossível. O apelo tivera sido tão forte que a maioria dos que tomaram a cruz
não foram os nobres, mas sim o povo pobre e mal preparado para a guerra, numa expedição que incluía
mulheres e crianças, apoiados numa forte fé em Deus e na salvação das suas almas1 .

O monge Pedro o Eremita de Amiens foi um dos mais carismáticos entusiastas da expedição, pregando a
cruzada pelo norte da França e pela Flandres. Afirmava ter sido convocado a pregar por Cristo (teria
supostamente uma carta divina para o provar) e é provável que alguns dos seus seguidores pensassem que
ele, não Urbano, era o verdadeiro criador do ideal da cruzada. Alberto de Aquisgrão também relata os casos
de populares acreditarem que uma cabra e um ganso teriam recebido o Espírito Santo, e assim seguiram sob
a liderança destes animais5 6 .

Travessia da Europa

Geralmente o exército de Pedro o Eremita tem sido visto como um grupo de camponeses analfabetos e
incompetentes sem ideia de para onde estavam a viajar, e que acreditavam que cada cidade de determinado
tamanho que foram encontrando pelo caminho era Jerusalém; apesar de isto poder ser a realidade para uma
proporção destes peregrinos, a já longa tradição de peregrinações à Terra Santa nesta época assegurava que
muitos deveriam conhecer bem a localização e a distância até Jerusalém.

O monge Pedro o Eremita em cruzada, montado em um burro (iluminura francesa, c.1270

E enquanto a maioria do grupo não seria composta de guerreiros, alguns dos líderes da expedição eram
cavaleiros de baixa estirpe, treinados nas artes bélicas, tais como o futuro cronista Fulquério de Chartres.
Gualtério Sem-Haveres, tal como indica o seu nome, era um cavaleiro pobre, sem haveres (bens), suserano
ou vassalos, mas com experiência de combate.

Sem disciplina militar, e nas terras estranhas da Europa de Leste, em pouco tempo estes primeiros cruzados
entrariam em conflito com os nativos das nações, ainda cristãs, por onde passaram. Juntamente com as
diferenças culturais, o problema principal da Cruzada Popular foi a falta de planeamento. Tinham saído da
Europa Ocidental antes das colheitas da Primavera, depois de anos de seca e de más safras.
Agora era necessário alimentar uma expedição de milhares de pessoas e, uma vez que estas se viam como
peregrinos a realizar a vontade de Deus, esperavam que as cidades por onde passavam lhes fornecessem
alimentos e outros suprimentos de que necessitassem, ou pelo menos que os vendessem a um preço que os
cruzados considerassem justo.

Mapa de 1888 mostrando a proximidade de Semlin a Belgrado através dos rios Sava e Danúbio

Gualtério Sem-Haveres

Pedro o Eremita juntou o seu exército em Colónia a 12 de Abril de 1096, planejando parar nessa cidade
para pregar aos germânicos e obter mais cruzados. Mas o contingente franco não estava disposto a aguardar
pela chegada destes.

Sob a liderança de Gualtério Sem-Haveres, alguns milhares partiram antes de o Eremita. Chegaram à
Hungria a 8 de Maio, atravessaram este território sem incidentes e alcançaram o rio Sava na fronteira do
Império Bizantino em Belgrado.

Surpreendido pela chegada desta grande massa humana e sem ordens sob como proceder, o comandante da
cidade recusou a entrada aos cruzados, forçando-os a pilhar os terrenos ao redor para obterem alimentos, o
que resultou em escaramuças com os soldados bizantinos.

Em um incidente particularmente marcante, dezasseis homens de Gualtério tentaram pilhar um mercado em


Semlin, na outra margem do rio Danúbio - os dezasseis cruzados foram despojados das suas armaduras e
roupas, que foram penduradas como aviso nas muralhas do castelo7 .

Eventualmente foi-lhes permitida a passagem até Niš, onde as forças imperiais lhes forneceram alimentos,
aguardando ordens de Constantinopla. Seria apenas no final do mês de Julho que alcançariam esta cidade, e
sob escolta bizantina.

Pedro, o Eremita
Pedro o Eremita a liderar os cruzados (iluminura medieval)

Pedro o Eremita manteve-se como o principal líder espiritual do movimento, caracteristicamente montado
em um burro e vestido em roupas simples. Seguido por 40.000 cruzados, partiu de Colónia a 20 de Abril - o
grupo de germânicos sob o conde Emico de Flonheim partiu pouco depois1 . Ao chegarem às margens do
rio Danúbio, parte do exército decidiu descer o rio por barco, enquanto a maioria continuou por terra,
entrando na Hungria em Ödenburg. Atravessaram este país sem incidentes até se reunirem ao contingente
da viagem fluvial em Semlin.

Os cruzados foram recebidos nesta cidade fronteiriça do Império Bizantino, pela visão das dezasseis
armaduras do grupo de Gualtério Sem-Haveres penduradas nas muralhas. Eventualmente uma disputa sobre
o preço de um par de sapatos no mercado levou a um motim, que rapidamente se tornou num ataque à
cidade pelos cruzados (provavelmente contra a vontade de Pedro), no qual 4.000 húngaros perderam a vida.

Ao fugirem, atravessando o rio Sava, os ocidentais chegaram a Belgrado, lutando contra as tropas da
cidade. Os residentes fugiram e os cruzados pilharam e incendiaram Belgrado, e depois marcharam durante
sete dias até chegar a Niš, a 3 de Julho. O comandante desta cidade prometeu fornecer alimentos e uma
escolta para os peregrinos até Constantinopla, se estes partissem imediatamente.

Pedro o Eremita partiu na manhã seguinte, mas alguns germânicos entraram em uma nova disputa com os
locais na estrada e incendiaram um moinho. O conflito escalou até ao ponto de Niš enviar toda a sua
guarnição contra os cruzados. O resultado foi a completa derrota do exército peregrino, que perdeu cerca de
10.000 cruzados, cerca de um quarto do seu total1 . Depois de se reagruparem em Bela Palanka (na Sérvia),
chegaram a Sófia a 12 de Julho. Lá encontraram a escolta bizantina que os conduziria em segurança até
Constantinopla, onde chegaram a 1 de Agosto.

Perseguição a judeus

A Primeira Cruzada desencadeou uma longa tradição de violência organizada contra os judeus, apesar de há
séculos existir anti-semitismo na Europa8 . Primeiro na França e depois no Sacro Império Romano-
Germânico, alguns líderes interpretaram que a guerra contra os infiéis podia ser aplicável não só aos
muçulmanos no Levante - os judeus, vistos como os assassinos de Jesus Cristo, estavam presentes na
maioria das comunidades européias. Muitos cristãos não viam motivo para viajar milhares de quilômetros
para lutar contra os inimigos do cristianismo, quando estes estavam à porta de suas casas.

Judeus sendo mortos por cruzados durante a Primeira Cruzada (iluminura uma Bíblia francesa de 1250)

Também é possível que estas perseguições tenham sido motivadas pela necessidade de dinheiro. As
comunidades judaicas da Renânia eram relativamente abastadas, devido ao seu isolamento e por não
estarem sujeitas à lei papal que proibia a agiotagem. Muitos cruzados tinham sido forçados a vender as suas
posses e a colocar-se a eles mesmos e até aos seus familiares em dívida, de modo a poderem comprar armas
e outro equipamento necessário para a expedição9 . Ao terem de entrar em dívida (muitas vezes para com os
judeus) como consequência de pegarem em armas contra os inimigos da cristandade, muitos
convenientemente racionalizaram a matança de judeus como uma extensão da sua missão de fé.

No passado, mesmo durante o ponto alto do milenarismo, vários movimentos anti-semíticos populares, ou
comandados por nobres e reis (como as conversões forçadas por Roberto II de França, Ricardo II da
Normandia e Henrique II da Germânia no início do século XI), tinham sido travados pelo papado ou pelos
bispos locais8 . Mas agora o zelo da Cruzada tornava a situação mais difícil de controlar. Em 1095
comunidades judaicas foram atacadas na França10 e na Renânia11 , e alguns judeus fugiram para leste para
escapar à perseguição12 . Apesar de o papado acabar por pregar contra a purga de habitantes muçulmanos e
judeus8 , este cenário repetir-se-ia inúmeras vezes durante o período das cruzadas.

O cronista franco Sigeberto de Gembloux escreveu que, para se fazer uma guerra em nome de Deus, era
essencial que os judeus se convertessem; os que resistissem seriam privados dos seus bens, massacrados e
expulsos das cidades10 . O nobre cruzado Godofredo de Bulhão chegou a jurar partir na expedição só após
vingar o sangue de Cristo crucificado, derramando sangue judeu e erradicando a presença deste povo13 .
Depois de informado disto pelo líder da comunidade judaica de Mogúncia, o imperador Henrique IV da
Germânia proibiu esta acção. Godofredo acabou por negar ter a intenção de matar os judeus, mas as
comunidades de Mogúncia e Colónia tinham-lhe enviado um tributo de 500 marcos de prata10 .
Quando os milhares de francos da Cruzada Popular chegaram ao vale do Reno, estavam sem provisões.
Nenhum cronista acusa Pedro o Eremita de pregar contra os judeus, apesar de os seus seguidores, para se
reabastecerem, pilharem propriedades dos judeus, simultaneamente tentando forçar estes a converterem-se
a cristianismo14 ou massacrando as populações locais10 . Em outros casos as comunidades sobreviveram
através do baptismo involuntário, como em Ratisbona, onde uma multidão de cruzados os forçou a entrar
no Danúbio para os baptizar em massa - depois de os cruzados saírem da região, a comunidade voltou ao
judaísmo8 . Muitos judeus que se recusavam a converter-se e ouviam as notícias de massacres perto das
suas casas cometeram suicídios em massa10 .

Pessoalmente, Pedro o Eremita trazia consigo uma carta dos judeus da França para a comunidade de Trier,
solicitando que fornecessem provisões aos seus seguidores. O cronista judeu Solomon bar Simeon escreveu
que estavam tão apavorados ao ver Pedro aparecer aos portões da cidade que rapidamente concordaram a
fornecer-lhe o que precisasse10 .

Rotas dos lideres da Cruzada Popular: Gualtério Sem-Haveres e Pedro o Eremita (francos), Gottschalk,
Volkmar, Emico (germânicos)

Volkmar e Gottschalk
Na Primavera de 1096, alguns pequenos bandos de cavaleiros e populares liderados pelo padre Volkmar
juntaram-se na Saxónia, perseguindo judeus em Magdeburgo e a 30 de Maio em Praga, na Boémia15 . O
bispo desta diocese ainda tentou evitar as conversões forçadas, apoiado pela hierarquia católica da região e
pela maioria dos padres das diferentes paróquias que pregavam contra a violência anti-semita8 .

Mas ao mesmo tempo que o poder secular de nobres e tribunais não mostrava capacidade de debelar a
situação ou prender e julgar os atacantes, o clero também não mostrava capacidade de os desencorajar, não
sendo conhecidos casos de processos de excomunhão, apesar de vários protestos e ameaças neste sentido8 .

Apesar do posição geral do clero, um monge local chamado Gottschalk encorajava o anti-semitismo.
Liderou uma cruzada pela Renânia e pela Lorena, atacando ocasionalmente comunidades judaicas pelo
caminho. No final de Junho de 1096 chegaram à Hungria, onde foram recebidos pelo rei Colomano15 .

Em pouco tempo antagonizaram os húngaros, pilhando, matando e causando distúrbios, pelo que o rei
exigiu que entregassem as armas. Depois de desarmados, a população local enfurecida retaliou e chacinou a
maioria dos cruzados15 . Volkmar e os seus saxões também sofreram um destino semelhante similar às mãos
dos húngaros quando começaram as suas pilhagens e foram acusados de incitar à sedição16 .

Emico de Flonheim

O maior e mais violento grupo no ataque aos judeus da Germânia foi o liderado pelo conde Emico de
Flonheim. No início do Verão de 1096, cerca de 10 000 cruzados percorreram o vale do Reno na direcção
norte (oposta a Jerusalém), e iniciaram uma série de pogroms chamados por alguns historiadores de "o
primeiro holocausto"9 . Depois acabariam por seguir em direcção aos rios Meno e Danúbio para a Hungria.
O contingente incluía oriundos da Renânia, França oriental, Lorena, Flandres e até da Inglaterra.

Iluminura de Colomano da Hungria


No momento no sul da Itália, quando percebeu as intenções desta cruzada o Sacro-Imperador Henrique IV
da Germânia deu ordens para que os seus homens protegessem as comunidades judaicas. Depois do
assassinato dos judeus de Metz, o bispo João de Speyer ofereceu asilo aos judeus da cidade, mas mesmo
assim 12 foram mortos a 3 de Maio10 . O bispo de Worms também tentou proteger os judeus da sua cidade,
mas os cruzados invadiram o seu palácio episcopal e mataram os refugiados a 18 de Maio, e pelo menos
800 judeus foram massacrados em Worms recusaram o baptismo17 .

Tendo sabido das acções de Emico, o bispo Ruthard de Mogúncia recusou a entrada do grupo na cidade a
25 de Maio, ao mesmo tempo que a comunidade judaica local lhes ofereceu um tributo de ouro para
comprar a sua segurança. Mesmo assim, os seguidores de Emico entraram na cidade e massacraram judeus
a 27 de Maio10 . Muitos dos habitantes do burgo, principalmente os comerciantes e o bispo, ofereceram
abrigo aos seus vizinhos judeus (tal como aconteceu também em Praga), e juntaram-se à milícia do bispo e
do burgrave para repelir incursões dos cruzados, mas deixaram de oferecer resistência à medida que os
números destes aumentavam cada vez mais8 .

No entanto, muitos outros habitantes de Mogúncia e de outras cidades participaram das perseguições e
pilhagens8 . Foi na cidade de Mogúncia que a violência atingiu o máximo, com pelo menos 1100 judeus
mortos por um só grupo10 . Um judeu de nome Isaac foi forçado a se converter mas depois sentiu-se
culpado por ter cedido, matou a sua família e imolou-se dentro de casa. Outra judia de nome Raquel matou
os seus quatro filhos para que não fossem mortos pelos cruzados.

A 29 de Maio Emico chegou a Colónia, onde a maioria da população judaica tinha fugido ou se refugiado
em casas de cristãos. Aqui, outros pequenos grupos de cruzados juntaram-se ao contingente levando
consigo bastante dinheiro pilhado aos judeus. Emico continuou na direcção da Hungria, recebendo grupos
da Suábia.

Quando Colomano da Hungria lhes recusou a entrada no seu país, os cruzados cercaram Meseberg, junto ao
rio Leitha. Desta vez o rei preparou-se para fugir para a Rússia, mas entretanto os cruzados foram perdendo
moral e mais uma vez foram massacrados pelos húngaros ou afogaram-se no rio. Alguns dos líderes, entre
os quais o conde Emico, fugiram para a Itália ou para as suas terras nativas16 . Outros eventualmente
juntaram-se aos contingentes de Pedro o Eremita, Hugo I de Vermandois e outros líderes cruzados.

Em Constantinopla
Pedro o Eremita a ser recebido na corte de Aleixo I Comneno (pintura do século XIX)

A capital bizantina era provavelmente a maior e mais rica cidade da Europa na sua época. O contraste entre
a civilização requintada do oriente e o bando de peregrinos pobres do ocidente poderia ter sido a receita
para um terrível conflito, principalmente com a relutância dos primeiros em fornecer provisões aos
segundos.

Desejando obter do ocidente um exército organizado para o auxiliar na luta contra os turcos seljúcidas, o
imperador bizantino Aleixo I Comneno viu-se a braços com uma expedição de peregrinos desordeiros,
cujos próprios líderes não conseguiam controlar. Temendo mais tumultos e com mais cruzados a chegar ou
a caminho de Constantinopla, Aleixo apressou-se a transportar os 30.000 cristãos latinos pelo Bósforo1 18 .

Aleixo avisou o Eremita para não dar batalha aos turcos, que o bizantino acreditava serem guerreiros
superiores a este exército desorganizado, e para aguardarem a chegada das tropas mais bem equipadas que
estavam para chegar na Cruzada dos Nobres. Tem sido debatido se foi de propósito que o imperador não
lhes forneceu guias bizantinos, que conheciam a Anatólia, sabendo que sem guias os cruzados seriam
chacinados pelos turcos; ou se pelo contrário teriam sido os cruzados que insistiram em prosseguir a
viagem pela Ásia Menor apesar dos seus avisos.

Na Anatólia

Pedro reuniu-se aos francos de Gualtério Sem-Haveres e a alguns italianos que chegaram ao mesmo tempo.
Assim que atravessaram o Bósforo para a Ásia, os cruzados começaram a saquear cidades. Ao chegarem a
Nicomédia, as tensões entre francos de um lado, e germânicos e italianos do outro, resultaram em uma
diferença de opiniões sobre como continuar. O exército separou-se então em dois contingentes, o franco
liderado por Godofredo Burel e o germânico/italiano por um italiano chamado Reinaldo.
Iluminura do massacre dos peregrinos da Cruzada Popular na Anatólia

Pedro o Eremita tinha perdido completamente o controlo do cruzada. Os peregrinos desprezaram os


conselhos de Aleixo I Comneno de aguardar pelo exército dos nobres; incentivados uns pelos outros e pela
facilidade com que conseguiam dominar as populações locais, avançavam com cada vez mais ousadia
contra cidades vizinhas, até os francos chegarem junto a Niceia, a capital dos seljúcidas, pilhando os
subúrbios.

Os turcos eram guerreiros experientes e conheciam o terreno, por isso durante cerca de um mês
aguardaram e observaram até ao melhor momento para atacar. Em Agosto de 1096, uma primeira patrulha
de soldados do sultão Kilij Arslan I foi enviada, sem sucesso, para barrá-los.

Para provarem o seu valor igual ou superior aos francos, os germânicos marcharam com 6.000 cruzados
sobre a fortaleza de Xerigordon, que conquistaram a 18 de Setembro, com o objectivo de a poderem usar
como base para atacar o território. Em resposta, Kilij Arslan I enviou um exército de 15.000 turcos liderado
pelo general Elcanes, que cercou Xerigordon17 a 21 de Setembro.

Uma vez que a fortaleza não dispunha de fontes de água, os turcos aguardaram que a sede se encarregasse
de derrotar os inimigos, o que demorou cerca de uma semana. Forçados a beber o sangue dos seus burros e
a sua própria urina19 , os cruzados renderam-se a 29 de Setembro. Alguns foram aprisionados, forçados a
converterem-se ao Islão e enviados para Coração, onde foram escravizados, enquanto outros recusaram-se a
renegar a sua fé e foram mortos20 .

Há várias versões sobre o destino do líder Reinaldo: algumas mencionam que foi morto no início do cerco,
enquanto tentava emboscar o poço de água usado pelos turcos, à frente da fortaleza; outras relatam a sua
morte durante o cerco; uma outra afirma que se converteu ao Islão.
Os sobreviventes da Cruzada dos Mendigos encontram Godofredo de Bulhão na Cruzada dos Nobres
(ilustração de Gustave Doré, séc. XIX)

No acampamento franco de Civitot, dois espiões turcos espalharam o rumor de que os germânicos tinham
conseguido tomar não só Xerigordon como também Niceia, o que incentivou este contingente a apressar-se
para chegar à cidade o mais depressa possível para poder participar do saque. Só mais tarde os cruzados
souberam a verdade de o que acontecera em Xerigordon. Com os cruzados tomados de pânico, Pedro o
Eremita voltou a Constantinopla para obter mantimentos.

Os líderes discutiram se deveriam aguardar por Pedro, que deveria demorar pouco tempo. Na verdade, este
não chegou a voltar: Godofredo Burel, que tinha o apoio popular das massas do exército, argumentou que
seria covardia aguardar, e que deveriam avançar imediatamente contra os muçulmanos. Na manhã de 21 de
Outubro, todo o exército de cerca de 20.000 cruzados marchou em direcção a Niceia, deixando mulheres,
crianças, velhos e doentes no acampamento1 .

O exército turco aguardava em emboscada a cerca de três milhas do acampamento cruzado, em um local
onde a estrada entrava em um vale arborizado e estreito junto à aldeia de Dracon. Ao aproximarem-se do
vale, os ocidentais marchavam lenta e ruidosamente, levantando uma nuvem de poeira. Recebidos por um
ataque de flechas20 que vitimou um grande número de peregrinos, e sem dispor de qualquer protecção,
foram imediatamente tomados de pânico e em poucos minutos bateram em retirada para o acampamento.

O exército cruzado seria massacrado quase na totalidade1 , mas as crianças e os que se renderam foram
poupados. Os milhares de soldados que tentaram resistir foram facilmente derrotados. Para além de alguns
sobreviventes dispersos, apenas cerca de 3.000 peregrinos, incluindo Godofredo Burel, se conseguiram
refugiar num castelo abandonado. Eventualmente uma força bizantina chegou de barco e levantou o cerco
turco para levar os ocidentais de volta a Constantinopla, onde muitos se juntariam à Cruzada dos Nobres.

Primeira Cruzada

A Primeira Cruzada foi proclamada em 1095 pelo papa Urbano II com o objetivo duplo de auxiliar os
cristãos ortodoxos do leste e libertar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano. Na verdade, não foi um
único movimento, mas um conjunto de acções bélicas de inspiração religiosa, que incluiu a Cruzada
Popular, a Cruzada dos Nobres e a Cruzada de 1101.
Começou com um apelo do Imperador Bizantino Aleixo I Comneno ao papa para o envio de mercenários
para combater os turcos seljúcidas na Anatólia. Mas a resposta do cristianismo ocidental rapidamente se
tornou em uma verdadeira migração de conquista territorial no Levante. Nobreza e povo de várias nações
da Europa Ocidental fizeram a peregrinação armada até à Terra Santa, por terra e por mar, e tomaram a
cidade de Jerusalém em julho de 1099, criando o Reino Latino de Jerusalém e outros estados cruzados.

A Primeira Cruzada representou um marco na mentalidade e nas relações de cristãos ocidentais, cristãos
orientais e muçulmanos. Apesar das suas conquistas terem eventualmente sido completamente perdidas,
também foi o início da expansão do ocidente que, juntamente com a Reconquista da península Ibérica,
resultaria na aventura dos descobrimentos1 e no imperialismo ocidental.

Contexto histórico

No ocidente

Reconquista cristã da península Ibérica


Império Bizantino (a vermelho) imediatamente antes da Primeira Cruzada

As cruzadas em geral, e a Primeira Cruzada em particular, tiveram as suas origens em eventos anteriores na
Idade Média. A divisão do Império Carolíngio nos séculos anteriores, e a relativa estabilidade das fronteiras
europeias depois da cristianização dos povos bárbaros, criaram toda uma classe de guerreiros que tinham de
lutar entre si para obter terras e riquezas.

No início do século VIII, o califado omíada tinha conquistado o Norte de África, o Egipto, a Palestina, a
Síria, e invadido a península Ibérica. A Reconquista ganhou uma carga ideológica que pode ser considerado
o primeiro exemplo de um esforço concertado dos cristãos na conquista de territórios aos muçulmanos,
como parte dos esforços de expansão dos reinos cristãos da península Ibérica, apoiados pelas ordens
militares e por mercenários mobilizados por toda a Europa.

Em 1009 o califa fatímida al-Hakim bi-Amr Allah provocou grande indignação por todo o mundo cristão
quando ordenou a destruição da igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém2 . Ao mesmo tempo, com o colapso
dos omíadas, várias dinastias muçulmanas menos poderosas, como os aglábidas e os cálbidas, instalaram-se
na Sicília e no sul da península Itálica.

Os normandos conquistaram a Sicília em 1091. O Reino de Aragão no ocidente, as cidades-estado de Pisa e


Génova na Itália, e o Império Bizantino no oriente travaram longas lutas contra os reinos muçulmanos pelo
controle do mar Mediterrâneo.

A ideia de uma guerra santa contra o Islão parecia aceitável aos poderes seculares e religiosos da Europa
ocidental, bem como do povo em geral - para além do incentivo de conquistar territórios e riquezas, que
ganhou popularidade com os sucessos militares dos reinos europeus, começou a emergir uma nova
concepção política do cristianismo.

A cada vez mais influente Ordem de Cluny estava a estabelecer uma nova organização da religião cristã,
cada vez mais centralizada no papa em detrimento da independência dos seus bispos. Esta ideia foi-se
expandindo até ao ponto de o papado pretender ser o suserano de todos os reinos europeus, sancionando
guerras santas contra as nações heréticas que não aceitassem o domínio da Igreja.

Deste modo não é surpreendente a união dos reinos cristãos sob a orientação papal, e a criação de exércitos
para combater o Islão. As terras que anteriormente à conquista muçulmana tinham pertencido a cristãos, e
partimcularmente as que tinham sido parte do Império Romano ou do seu sucessor Império Bizantino -
Síria, Egipto, Norte de África, Hispânia, Chipre - eram vistas como terras invadidas que deveriam ser
libertadas. Acima de tudo, Jerusalém e a Palestina, onde Jesus Cristo e os seus apóstolos tinham vivido,
eram lugares santos que sofriam a heresia do domínio dos infiéis.

Em 1074, o papa Gregório VII apelou aos milites Christi (soldados de Cristo) para partirem em ajuda do
Império Bizantino no oriente, que sofrera graves derrotas contra os turcos seljúcidas na batalha de
Manziquerta em 1071. Apesar de este chamado ter sido em geral ignorado e até ter recebido oposição,
juntamente com a popularidade das peregrinações à Terra Santa no século XI, concentrou a atenção do
ocidente no oriente.

Pregadores como Pedro o Eremita e Gualtério Sem-Haveres popularizaram rumores de agressões de


muçulmanos aos peregrinos cristãos a Jerusalém e a outros lugares santos do Médio Oriente. Mas foi o
papa Urbano II quem disseminou a ideia de uma cruzada para libertar a Terra Santa. Ao ouvir o seu
discurso dramático e inspirador no Concílio de Clermont, a assistência aderiu com entusiasmo à ideia da
salvação da alma pela penitência da peregrinação e da luta contra os infiéis.

No oriente

O Império Bizantino também professava a fé cristã mas, devido ao Grande Cisma do Oriente, seguiam o
rito ortodoxo. O imperador Aleixo I Comneno governava um território que fazia fronteira com a Europa
Ocidental a norte e a oeste, onde se encontrava em conflito com os normandos, e com a Anatólia a oriente,
recentemente conquistada pelos turcos seljúcidas.

Mais para oriente, Síria, Palestina e Egipto estavam sob o controlo de várias facções de muçulmanos,
herdeiros da fragmentação do império do califado omíada. A Anatólia e a Síria eram controladas pelos
seljúcidas sunitas, antes parte do grande império seljúcida que derrotara o Império Bizantino em
Manziquerta em 1071, mas também fragmentado e em guerra civil desde 1072.

O califado omíada no seu auge, no século VIII


Diferentes governantes, todos de origem seljúcida, governavam de forma independente o Sultanato de Rum
na Anatólia e as cidades-estado Alepo, Damasco e Mossul. Mas estes estados estavam de modo geral mais
concentrados na consolidação dos seus próprios territórios e na conquista dos seus vizinhos do que em
cooperar para lutar contra os cruzados.

O nordeste da Síria e o norte da Mesopotâmia eram territórios dos ortoquidas, que mantiveram a posse de
Jerusalém até 1098. No leste da Anatólia e no norte da Síria foi fundado um estado pelos danismendidas,
descendentes de um mercenário seljúcida. E também na Síria, a Ordem dos Assassinos começava a ganhar
poder.

Até recentemente, os cristãos da Palestina tinham plena liberdade de culto, desde que realizassem os seus
ritos com alguma discrição. Mas desde o início do século XI, começou a ocorrer alguma perseguição
religiosa, não só a cristãos como a judeus e a diferentes ramos do Islão2 . Depois da destruição do Santo
Sepulcro em 1109, a perseguição deu lugar a um imposto pago pelos peregrinos cristãos que pretendessem
entrar em Jerusalém.

Em pouco tempo surgira o poder seljúcida, bárbaros turcos convertidos ao Islão, agressivos e com uma
interpretação estrita da sua fé. As histórias de maus tratos aos peregrinos que chegaram à Europa Ocidental
não desencorajavam muitos dos cristãos latinos, que viam assim a sua peregrinação tornar-se num acto
ainda mais devoto.

Mas o Egipto e a maioria da Palestina ainda eram territórios dos fatímidas, árabes do ramo xiita em conflito
com os seljúcidas. Jerusalém tinha-lhes sido conquistada pelos seljúcidas em 1076, mas depois os
ortoquidas conquistaram a cidade, e em 1098, já durante a marcha da Cruzada dos Nobres, Jerusalém
voltou para as mãos dos fatímidas.

Inicialmente, os fatímidas não consideravam os cruzados como uma ameaça, assumindo que estes tinham
sido enviados pelos bizantinos e que como tal o seu objectivo seria apenas a reconquista da Anatólia e da
Síria aos seljúcidas. E de facto Aleixo I Comneno tinha aconselhado os cruzados a aliarem-se aos fatímidas
contra o inimigo comum, os seljúcidas. A política própria e o zelo religioso dos cristãos ocidentais iria
impedir esta coexistência, o seu objectivo principal era libertar a Terra Santa de quaisquer que fossem os
muçulmanos que estivessem a cometer o sacrilégio de estar na posse dos lugares santos.

Concílio de Clermont

Iluminura do Concílio de Clermont no Livre des Passages d'Outre-mer, c.1490 (Biblioteca Nacional de França)

O papa Urbano II numa gravura do século XIV


Em março de 1095, o imperador bizantino Aleixo I Comneno enviou uma embaixada ao Concílio de
Placência para pedir ajuda ao papa Urbano II contra os turcos. Urbano concordou, com a esperança de, ao
ajudar as igrejas orientais neste momento de grande necessidade, acabar com o Grande Cisma do Oriente
de há 40 anos atrás e reunir a Igreja cristã sob o domíno papal, como «bispo e prelado máximo de todo o
mundo»3 .

Com a autoridade papal reafirmada em Placência, Urbano II convocou o Concílio de Clermont a 27 de


novembro, anunciando que no fim da reunião iria fazer uma proclamação de máxima importância para o
público em geral. A afluência da nobreza, do clero e do povo a Clermont[desambiguação necessária] foi tão grande
que, ao contrário das representações artísticas do evento, este não se realizou dentro da catedral, mas sim ao
ar livre4 .

O sermão apaixonado exortou a sua audiência a tirar o controlo de Jerusalém das mãos dos muçulmanos.
Referiu-se à violência dos nobres europeus que saqueavam terras europeias e lutavam entre si, e que a
solução para este problema era colocar as espadas ao serviço de Deus: «Que os salteadores se tornem
cavaleiros.»3 Ainda anunciou as recompensas que esperavam quem tomasse a cruz, tanto na terra como no
céu, uma vez que a cruzada seria uma expedição de penitência, e quem morresse na Terra Santa ou a
caminho dela, ganharia o seu lugar no Paraíso - isto é, a indulgência plena. Tudo isto o papa prometia
através do poder de Deus que lhe fôra concedido. A multidão reunida foi tomada de um tal entusiasmo
frenético que interrompeu o seu discurso gritando «Deus o quer!» (em latim: Deus vult!)5 , frase que seria
repetida por toda a Europa.

Considerado um dos mais importantes da história da Europa, o sermão de Urbano II deu origem a diversos
relatos, mas estas versões dos acontecimentos foram escritas depois da conquista de Jerusalém, pelo que é
difícil saber o que realmente foi afirmado pelo papa e o que foi acrescentado ou modificado depois do
sucesso da cruzada. No entanto, a resposta do ocidente ao apelo feito a todos sem distinção, pobres ou
ricos, foi claramente superior ao esperado.

Ao pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos (na verdade
muçulmanos, na sua maioria), o papa estava a criar um novo ciclo. Com a campanha de salvação da alma a
todos os mortos em combate contra os infiéis, Urbano não estava só a garantir um grande exército, mas
também um novo foco bélico para as forças que se batiam em lutas internas, perturbando a paz na Europa.

É certo que a ideia não era totalmente nova: há algumas décadas atrás já teria sido declarado que os
guerreiros mortos em combate contra os muçulmanos na Itália mereciam a salvação. Mas desta vez a
salvação não era prometida numa situação excepcional, seria concedida a todos os que participassem do
empreendimento.

Europeus de todas as camadas sociais coseram uma cruz vermelha nas suas roupas, o que lhes deu o seu
nome de cruzados. O entusiasmo era tal que muitos venderam ou hipotecaram todos os seus bens para obter
as armas e o dinheiro necessários para a expedição. Nobreza e o povo comum procedente da França, do sul
da península Itálica e das regiões da Lorena, Borgonha e Flandres, rapidamente formaram cruzadas
separadas.

Cruzada Popular

Pedro o Eremita mostra o caminho de Jerusalém aos cruzados (Iluminura francesa de c.1270)
Durante 1095 e 1096, Urbano continuou a pregar a cruzada pela França e incentivou os seus bispos e
legados a fazerem o mesmo nas suas dioceses da França, Germânia, e península Itálica. O papa ainda tentou
proibir algumas pessoas (como mulheres, monges, e os doentes) de participar na cruzada, mas isto revelou-
se impossível. O apelo tivera sido tão forte que a maioria dos que tomaram a cruz não foram os nobres, mas
sim o povo pobre e mal preparado para a guerra, numa expedição que incluía mulheres e crianças, apoiados
numa forte fé em Deus e na salvação das suas almas6 .

Urbano planeou a partida da cruzada para 15 de agosto de 1096, no dia santo da Assunção de Maria. Mas
meses antes desta cruzada "oficial", um vasto número de plebeus e cavaleiros de baixa estirpe organizaram-
se e partiram para Jerusalém de forma independente, acabando por se juntarem em um contingente liderado
pelo carismático monge Pedro o Eremita de Amiens - a Cruzada Popular ou Cruzada dos Mendigos.

Judeus sendo mortos por cruzados durante a Primeira Cruzada (iluminura umaBíbliafrancesa de 1250

Iluminura do massacre dos peregrinos daCruzada Popular na Anatólia

A Primeira Cruzada também despoletou uma longa tradição de violência organizada contra os judeus,
apesar de já há séculos existir anti-semitismo na Europa7 . Primeiro na França e depois no Sacro Império
Romano-Germânico, alguns líderes de grupos de populares interpretaram que a guerra contra os infiéis
podia ser aplicável não só aos muçulmanos no Levante - os judeus, vistos por alguns cristãos como os
assassinos de Jesus Cristo, estavam presentes na maioria das comunidades europeias.

Muitos cristãos não viam motivo para viajar milhares de quilómetros para lutar contra os inimigos do
cristianismo, quando estes estavam à porta das suas casas. Grupos pertencentes ao contingente de Pedro o
Eremita, ou liderados por outros religiosos como Volkmar e Gottschalk7 lançaram-se em perseguições às
comunidades judaicas dos locais por onde passaram.

A maior e mais violenta destas turbas foi liderada pelo conde Emico de Flonheim. No início do Verão de
1096, cerca de 10 000 cruzados partiram em cruzada, percorrendo o vale do Reno em direcção a norte (na
direcção oposta a Jerusalém), e iniciou uma série de pogroms chamados por alguns historiadores de "o
primeiro holocausto"8 . Mas esta interpretação do ideal da cruzada não foi completamente generalizada,
com vários membros do clero cristão, como o arcebispo de Colónia, a conseguir proteger em parte a
comunidade judaica da sua cidade contra o linchamento do povo. De Colónia, os seguidores de Emico
dirigiram-se para sul. A algumas comunidades era oferecida a escolha da conversão ou da morte. Muitos
judeus que se recusavam a converter-se e ouviam as notícias de massacres perto das suas casas cometeram
suicídios em massa9 . Apesar de o papado acabar por pregar contra a purga de habitantes muçulmanos e
judeus7 , este cenário repetir-se-ia inúmeras vezes durante o período das cruzadas.

Sem disciplina militar, e nas terras estranhas da Europa de Leste, em pouco tempo estes primeiros cruzados
entraram em conflito com os nativos das nações, ainda cristãs, por onde passavam. Juntamente com as
diferenças culturais, o problema principal da Cruzada Popular foi a falta de planeamento. Tinham saído da
Europa Ocidental antes das colheitas da Primavera, depois de anos de seca e de más safras.

Agora era necessário alimentar toda uma expedição de cerca de 40.000 pessoas e, uma vez que estes se
viam como peregrinos a realizar a vontade de Deus, esperavam que as cidades por onde passavam lhes
fornecessem alimentos e outros suprimentos de que necessitassem, ou pelo menos que os vendessem a um
preço que os cruzados considerassem justo.

As discórdias entre cruzados e locais originaram inúmeros conflitos. Seguindo uma rota ao longo do rio
Danúbio, os seguidores de Pedro o Eremita atacaram húngaros, búlgaros e até um exército bizantino em
Nish. Nestas lutas, cerca de 10.000 cruzados terão sido mortos, os restantes chegaram a Constantinopla em
Agosto6 .

A capital bizantina era provavelmente a maior e mais rica cidade da Europa na sua época. O contraste entre
a civilização requintada do oriente e o bando de peregrinos pobres do ocidente poderia ter sido a receita
para um terrível conflito, principalmente com a relutância dos primeiros em fornecer provisões aos
segundos. E com mais cruzados a chegar ou a caminho de Constantinopla, Aleixo I Comneno apressou-se a
transportar os 30.000 cristãos latinos pelo Bósforo6 10 .

Já na Anatólia e devido a conflitos internos, os cruzados separaram-se em dois grupos. Os turcos eram
guerreiros experientes e conheciam o terreno, por isso aguardaram e observaram até ao melhor momento
para atacar. Um dos grupos ainda tomou uma fortaleza perto de Niceia aos seljúcidas antes de serem
cercados, mas depois foram mortos ou convertidos ao Islão e escravizados11 .

O outro grupo, de cerca de 20.000 cruzados, foi atraído para uma emboscada e massacrado quase na
totalidade6 . Para além de alguns sobreviventes dispersos, apenas cerca de 3.000 peregrinos se conseguiram
refugiar num castelo até chegar uma escolta bizantina para os levar de volta a Constantinopla, onde muitos
se juntariam à Cruzada dos Nobres.
Cruzada dos Nobres

Os líderes da Primeira Cruzada (ilustração de Alphonse Marie de Neuville

Em agosto de 1096, partiu a Primeira Cruzada "oficial", chamada de Cruzada dos Nobres, Cruzada dos
Cavaleiros ou Cruzada dos Barões (1096-1099). No total, esta expedição militar organizada, radicalmente
diferente do movimento de peregrinos pobres da Cruzada Popular, consistiria em cerca de 30.000-35.000
guerreiros, incluindo 5.000 cavaleiros.12

Liderada espiritualmente por Ademar de Monteil, legado papal e bispo de Le Puy, a liderança militar era
repartida e disputada principalmente por:

 Raimundo IV de Toulouse, talvez o mais carismático líder no início da expedição, já tinha


participado da Reconquista e era acompanhado pelos cavaleiros da Provença e pelo legado Ademar;
 Boemundo de Taranto, líder dos normandos do sul da península Itálica, velhos inimigos do Império
Bizantino, acompanhado pelo seu sobrinho Tancredo de Altavila;
 Godofredo de Bulhão trazia um exército da Lorena, juntamente com os seus irmãos Eustácio III de
Bolonha e Balduíno de Bolonha, e foi acompanhado por Roberto II da Flandres e os seus
flamengos;
 Hugo I de Vermandois, irmão de Filipe I da França, portador do estandarte papal13 ;
 Roberto II da Normandia (irmão do rei Guilherme II da Inglaterra) e Estêvão de Blois (neto de
Guilherme I de Inglaterra), traziam o contingente do norte da França.
Travessia da Europa

Rotas dos líderes da Cruzada dos Nobres: Hugo I de Vermandois, Godofredo de Bulhão, Boemundo de
Taranto, Raimundo IV de Toulouse, Roberto II da Normandia, via Egnácia, rota em comum

Hugo I de Vermandois comandou o primeiro contingente a chegar a Constantinopla. Saiu da França a


meados de agosto e passou pela Itália, recebendo o estandarte de São Pedro em Roma. No caminho, muitos
dos seguidores do conde Emico juntaram-se-lhe após a derrota que tinham sofrido contra os húngaros. Ao
contrário dos outros exércitos cruzados que viajaram por terra, este atravessou o mar Adriático, partindo de
Bari. Mas uma tempestade ao largo do porto bizantino de Dyrrhachium (atual Durrës) destruiu muitos dos
seus navios. Os sobreviventes foram resgatados pelos bizantinos e escoltados para Constantinopla, onde
chegaram em Novembro.

Godofredo de Bulhão e os seus irmãos seguiram pela "Estrada de Carlos Magno" como, segundo o
cronista Roberto o Monge, Urbano II terá chamado a este trajecto (que passava por Ratisbona, Viena,
Belgrado e Sófia). Ao passarem pela Hungria tiveram alguns conflitos com os locais, que já tinham sido
atacados pelas diferentes vagas da Cruzada Popular. O rei Colomano exigiu um refém para garantir a
conduta correcta dos cruzados, e por isso Balduíno de Bolonha ficou em poder dos húngaros até os seus
companheiros saírem deste território.

Depois de mais algumas escaramuças no domínios do Império Bizantino, os bolonheses foram o segundo
exército a chegar a Constantinopla, em Novembro, e mais uma vez não conseguiram evitar que as suas
forças pilhassem os territórios vizinhos. O imperador Aleixo I Comneno foi forçado a ceder um refém aos
cruzados para repôr a paz, e o escolhido foi o seu filho e futuro imperador João II Comneno, que foi
confiado a Balduíno.

Boemundo de Taranto tinha motivações geopolíticas específicas aos seus domínios para se envolver em
uma expedição até territórios bizantinos. Partiu do sul da Itália assim que as primeiras forças francesas
passaram pelos seus domínios e chegou a Constantinopla em Abril de 1097.

O mais numeroso dos exércitos, encabeçado por Raimundo IV de Toulouse, era acompanhado pelo legado
Ademar de Monteil. Com alguma dificuldade atravessaram a Dalmácia (atual costa croata) durante o
Inverno. Ao chegar a Dyrrhachium (atual Durrës, entraram na estrada romana via Egnácia, que os levou a
Tessalónica e depois a Constantinopla no 21 de abril.

O último grande contingente, sob as ordens de Roberto II da Normandia, saiu de Brindisi e cruzou o mar
Adriático, chegando à capital bizantina em Maio de 1097, dois meses depois da aniquilação da Cruzada
Popular.

Em Constantinopla

Os barões cruzados no palácio imperial de Aleixo I Comneno (ilustração de uma monografia de 1891)

Com escassez de alimentos, os cruzados acampados às portas de Constantinopla esperavam que Aleixo I
Comneno, que tinha solicitado a sua ajuda, alimentasse a vasta multidão, reforçada pelos ainda mais
miseráveis sobreviventes da Cruzada Popular. Outros populares pobres, sem equipamento, armas e
armaduras adequadas para a campanha militar, tinham acompanhado os vários nobres. Pedro o Eremita, que
se juntara à Cruzada dos Nobres em Constantinopla, foi responsabilizado pelo bem-estar destes pauperes,
que assim se organizaram em pequenos grupos, geralmente liderados por um nobre também empobrecido.

O imperador bizantino estava apreensivo quanto a esta multidão, frequentemente hostil, que provocara
incidentes com os povos dos locais por onde passava, para além da sua experiência anterior com os
peregrinos da Cruzada Popular10 . Para além disso, o seu velho inimigo Boemundo de Taranto liderava parte
da expedição.

Pretendendo exercer algum controlo sobre os cruzados, em troca de provisões e transporte para a Ásia
Menor, Aleixo exigiu que os líderes da cruzada lhe prestassem um juramento de vassalagem e prometessem
entregar ao controlo bizantino todas as terras que conquistassem aos turcos. O braço de ferro entre orientais
e ocidentais quase levou a um conflito armado em grande escala na capital do império10 .

Sem alternativa, a maioria dos líderes sujeitou-se ao juramento, que acabariam por não cumprir. Outros,
como Tancredo de Altavila, recusaram-se terminantemente, e Aleixo acabou por ceder em fornecer
provisões e transporte a todos. Raimundo IV de Toulouse terá sido o mais hábil político, evitou fazer o
juramento ao prometer vassalagem ao imperador apenas se este liderasse pessoalmente a cruzada. O
bizantino recusou, mas ambos se tornaram aliados, partilhando uma apreensão em comum sobre a pessoa
de Boemundo.

Na Anatólia

Entrada de Balduíno de Bolonha em Edessa em 1098 (pintura de J.Robert-Fleury, 1840).

Para acompanhar os cruzados através da Ásia Menor, Aleixo enviou um exército bizantino liderado por um
general chamado Tatizius. Conforme o acordado em Constantinopla, o seu primeiro objectivo era a tomada
de Niceia, recentemente conquistada pelos seljúcidas, e agora a capital do Sultanato de Rum. Boemundo de
Taranto tornou-se no principal líder da Primeira Cruzada no percurso de Constantinopla a Antioquia.
Comandou um cerco ineficaz a Niceia, uma vez que não foi possível controlar os movimentos no lago que
bordeava a cidade, e por onde esta continuava a poder receber abastecimentos e fazer comunicações.

O sultão Kilij Arslan I, fora da cidade, aconselhou os seus soldados a renderem-se se a sua situação se
tornasse insustentável. Temendo que os cruzados saqueassem Niceia e a destruíssem, ou que não
cumprissem o seu juramento de lhe entregar as suas conquistas no Levante, durante a noite Aleixo I
Comneno negociou em segredo a rendição da cidade ao Império Bizantino. Na manhã de 19 de junho de
1097 os cristãos latinos surpreenderam-se ao ver o estandarte bizantino nas muralhas da cidade. Proibidos
de saquear, só lhes foi permitida a entrada na cidade de pequenos grupos, sob escolta.

Sentindo-se traídos pelos seus aliados, e depois de coagidos a prestar o juramento de vassalagem, a partir
deste momento os cruzados começaram a sentir-se sozinhos na sua expedição, sem obrigações para com os
bizantinos. Para simplificar o problema dos abastecimentos, o exército cristão dividiu-se em dois grupos: na
vanguarda, Boemundo, Tancredo de Altavila, Roberto II da Normandia e Roberto II da Flandres, ainda
acompanhados de forças imperiais; na retaguarda, Godofredo de Bulhão, Balduíno de Bolonha, Raimundo
IV de Toulouse, Estêvão de Blois e Hugo I de Vermandois14 . Estêvão de Blois escreveu para a sua esposa
neste período, dizendo acreditar que a marcha até Jerusalém demoraria cinco semanas. Na verdade,
demoraria dois anos, e Estêvão abandonaria a cruzada antes disso.

A 1 de julho, o grupo de Boemundo foi cercado nas proximidades de Dorileia. Godofredo e mais alguns do
segundo grupo vieram em auxílio de Boemundo, mas seriam as forças do legado Ademar de Monteil,
provavelmente comandadas por Raimundo de Toulouse, que tornariam a batalha numa vitória decisiva dos
cruzados. Kilij Arslan retirou e os cruzados continuaram quase sem oposição através da Ásia Menor, na
direcção de Antioquia. Pelo caminho conquistaram algumas cidades - Sozopolis, Iconium (atual Konya) e
Cesareia Mazaca (atual Kayseri - apesar de a maioria destas voltar para o domínio otomano em 110115 .
Em pleno Verão, a marcha era difícil, e os cruzados tinham pouca comida e água, pelo que homens e
cavalos morriam em grande número. Apesar de ofertas de alimentos e dinheiro que por vezes recebiam de
outros cristãos na Ásia e na Europa, os peregrinos viam a sua sobrevivência dependente de pilhagens aos
poucos locais com recursos por onde passavam. Ao mesmo tempo, os diferentes líderes continuavam a
disputar a primazia militar da expedição. Apesar de nenhum se conseguir afirmar decisivamente, a
liderança espiritual era universalmente reconhecida no bispo Ademar de Monteil.

Anatólia em 1097, antes do cerco de Niceia e da batalha de Dorileia

Em Heracleia Cibistra, Balduíno de Bolonha e Tancredo de Altavila separaram-se das restantes forças,
entrando em conflito entre si pela posse de Tarso e outras praças que conquistariam aos cristãos arménios,
ambos tentando estabelecer os seus feudos no Levante. Mas a situação nunca passou dee pequenas
escaramuças, tendo Tancredo acabado por continuar a sua marcha para Antioquia.

Depois de se juntar ao exército principal em Marach, Balduíno recebeu o convite de um arménio chamado
Bagrat e seguiu para leste, em direcção ao rio Eufrates, onde tomou a fortaleza de Turbessel. Depois
recebeu outro convite, desta vez de Teodoro de Edessa, um ortodoxo grego em conflito com a ortodoxia
arménia dos seus súbditos. Balduíno foi-se impondo na política deste isolado domínio, depois ameaçou
partir para se juntar aos restantes cruzados, obrigando o governante a adoptá-lo como filho e herdeiro.
Teodoro foi assassinado a 9 de março de 1098 e Balduíno sucedeu-o, tomando o título de conde e assim
criando o primeiro estado cruzado - o Condado de Edessa.

Conquista de Antioquia
O massacre de Antioquia, ilustração de Gustave Doré

Iluminura medieval de Ademar de Monteil (com amitra) empunhando a lança do destino no cerco de
Antioquia

Os cruzados tinham ouvido o rumor que Antioquia tinha sido abandonada pelos turcos seljúcidas, pelo que
se apressaram a tomá-la. Mas ao chegar aos arredores da cidade a 20 de outubro, verificaram que esta ainda
estava ocupada e disposta a oferecer grande resistência, protegida por imponentes muralhas. Para além
disso, a cidade era tão grande que os invasores não tinham homens suficientes a cercá-la eficazmente, pelo
que foi parcialmente abastecida pelo exterior.

Durante os oito meses do cerco, em que tiveram de combater contra um exército de Damasco e outro de
Alepo, os cruzados passaram por grandes dificuldades. Foram forçados a comer até os próprios cavalos ou,
conforme as lendas, os corpos dos companheiros cristãos que não sobreviveram. Estêvão de Blois e Hugo I
de Vermandois abandonaram esta expedição, acabando depois por aderir à Cruzada de 1101 para cumprir o
seu voto. Balduíno de Edessa enviou dinheiro e mantimentos ao exército latino, apesar de não participar
pessoalmente na acção militar.

Face às dificuldades do cerco, Boemundo de Taranto viu a ocasião de tomar um domínio para si.
Imediatamente ameaçou, com o pretexto da demora, voltar à Itália para trazer reforços, mas as suas
capacidades estratégicas e a importância do contingente que o acompanhava eram absolutamente
necessárias à cruzada. Por isso foi-lhe prometido tudo o que quisesse para continuar. Entretanto a partida de
Tatizius, o representante do Império Bizantino, deu-lhe um pretexto para alegar uma traição, o que podia
autorizar os cruzados a considerarem-se livres do seu juramento a Aleixo I Comneno.

Quando chegaram notícias da aproximação de Kerbogha de Mossul, Boemundo pressionou um sentinela


arménio, com quem tinha vindo a trocar comunicações, para permitir a entrada de um pequeno grupo de
cruzados para abrir as portas da cidade ao exército principal. O plano teve lugar a 3 de jJunho de 1098,
seguindo-se o massacre dos habitantes muçulmanos da cidade16 .
Somente quatro dias depois, Kerbogha chegou para sitiar os até ao momento sitiadores da cidade. Devido
ao longo cerco a que tinham sujeitado Antioquia, havia pouco alimento e a peste[desambiguação necessária] alastrava-
se. Aleixo Comneno vinha a caminho para auxiliar os cruzados mas voltou para trás ao ouvir as notícias de
que a cidade já tinha sido retomada.

No entanto estes ainda resistiam, moralizados por um monge chamado Pedro Bartolomeu que afirmou ter
descoberto a lança do destino, que ferira o flanco de Cristo na cruz. Com este novo objecto santo à cabeça
do exército, marcharam ao encontro dos muçulmanos, a quem derrotaram miraculosamente - milagre
segundo os cruzados, que afirmavam ter surgido um exército de santos a combater juntamente com eles no
campo da batalha.

Boemundo pretendeu tomar Antioquia para um seu domínio, mas nem todos os outros líderes concordaram,
particularmente Raimundo IV de Toulouse, e a cruzada atrasou enquanto os nobres criavam partidos e
discutiam. Historiograficamente entende-se que os francos do norte da França, os provençais do sul da
França e os normandos do sul da Itália se consideravam "nações" separadas no todo do exército, e que cada
contingente se unia para ganhar poder sobre os outros. Este pode ter sido um dos motivos para as disputas,
mas a ambição pessoal dos líderes terá também tido um peso muito importante.

Entretanto, a fome e a peste (provavelmente tifo[desambiguação necessária]) alastravam, matando inclusivamente o


único líder incontestado e principal unificador da expedição, Ademar de Monteil. Em dezembro, a cidade
de Ma'arrat al-Numan foi conquistada depois de um cerco, seguindo-se o marcante incidente de um novo
massacre e do canibalismo dos cruzados aos habitantes locais17 18 .

Descontentes, os nobres menores e os soldados ameaçaram seguir para Jerusalém sem os seus líderes mais
notáveis. Sob esta pressão, no início de 1099 Raimundo de Toulouse (o mais carismático devido à sua
crença no poder da santa lança) liderou a marcha para a cidade santa, deixando Boemundo livre para se
estabelecer no seu Principado de Antioquia - o segundo estado cruzado.

Conquista de Jerusalém

]]
A conquista de Jerusalém em 1099, a partir de um manuscrito medieval]]

]]
Eleição deGodofredo de Bulhão como Protector do Santo Sepulcro (iluminura da Histoire d'outremer,
Guilherme de Tiro, c.1280)]]
Em dezembro de 1098/janeiro de 1099, Roberto II da Normandia e Tancredo de Altavila tornaram-se
vassalos do mais poderoso e rico Raimundo IV de Toulouse. Godofredo de Bulhão, apoiado pelo seu irmão
Balduíno de Edessa, recusou-se.

A 13 de janeiro, Raimundo iniciou a marcha em direcção ao sul, descalço e vestido como um peregrino,
percorrendo a costa do mar Mediterrâneo. Os cruzados enfrentaram pouca resistência, uma vez que os
pouco poderosos governantes muçulmanos locais preferiram comprar uma paz com provisões em vez de
lutar. Também é provável que estes, pertencentes ao ramo sunita do Islão, preferissem o controlo de
estrangeiros ao governo xiita dos fatímidas.

A caminho encontrava-se o emirado de Trípoli. Em 14 de fevereiro o conde de Toulouse iniciou o cerco de


Arqa, uma cidade deste domínio. Provavelmente, uma das suas intenções seria fundar um território
independente em Trípoli que limitasse a capacidade de Boemundo expandir o seu principado para sul. Mas
o cerco demorou mais do que o previsto e, apesar de algumas conquistas menores no local, o atraso da
cruzada para Jerusalém fez-lhe perder muito do apoio que ganhara em Antioquia.

A cruzada prosseguiu a 13 de maio, ao longo da região costeira, passando por Beirute no dia 19 e Tiro a 23.
Em Jafa abandonaram a costa e a 3 de Junho alcançaram Ramla, que tinha sido abandonada pelos seus
habitantes. No dia 6 Godofredo enviou Gastão IV de Béarn e Tancredo de Altavila para a bem sucedida
conquista de Belém, e a 7 de junho de 1099 os cruzados chegaram a Jerusalém, acampando no exterior da
cidade. O exército cristão ficara reduzido a cerca de 1.200/1.500 cavaleiros e 12.000/20.000 soldados de
infantaria, carentes de armas e provisões.

Um padre chamado Pedro Desidério ofereceu uma solução de fé: afirmou que uma visão divina lhe tinha
dado instruções para que os cristãos jejuassem e depois marchassem descalços em procissão ao redor das
muralhas da cidade; estas cairiam em nove dias, da mesma forma que a Bíblia relata ter acontecido com
Josué no cerco de Jericó. A procissão realizou-se no dia 8 de julho.

Entretanto, uma frota da República de Génova liderada por Guilherme Embriaco desmantelara os seus
navios para construir torres de assalto com a sua madeira, com as quais foi possível derrubar secções das
muralhas. O ataque principal ocorreu a 14 e 15 de julho (uma sexta-feira santa, sete dias depois da
procissão). Vários nobres reclamaram a honra de terem sido os primeiros a penetrar na cidade. Segundo
uma das crónicas da época, a exacta sequência terá sido Letoldo e Gilberto de Tournai, depois Godofredo
de Bulhão e o seu irmão Eustácio III de Bolonha, Tancredo e os seus homens19 . Outros cruzados entraram
pela antiga entrada dos peregrinos.

Durante a tarde e noite do dia 15 e manhã do dia seguinte, os cruzados massacraram a população de
Jerusalém - muçulmanos, judeus e cristãos do oriente20 21 . Godofredo de Bulhão não terá participado deste
aspecto mais violento18 , Tancredo de Altavila e Raimundo de Toulouse teriam tentado proteger alguns
grupos da fúria assassina, mas na generalidade falharam: a maioria dos relatos só diverge na descrição da
quantidade de cadáveres amontoados ou de sangue que escorria pelo chão - segundo um cronista "Nunca
ninguém tinha visto ou ouvido falar de tal mortandade de gentes pagãs"22 . A estimativa do número de
mortos varia entre 6.000 e 40.000. Segundo o arcebispo Guilherme de Tiro, os próprios vencedores ficaram
impressionados de horror e descontentamento.

Assim que a tomada da cidade foi concluída, era necessário estabelecer um governo. A 22 de julho,
realizou-se um concílio na Igreja do Santo Sepulcro. Raimundo IV de Toulouse foi o primeiro a recusar o
título de rei, talvez tentando provar a sua piedade, mas provavelmente esperando que os outros nobres
insistissem na sua eleição.

Godofredo de Bulhão, que se tornara no nobre mais popular depois das acções do conde de Toulouse no
cerco de Antioquia, aceitou o cargo de líder secular, mas recusou-se a ser coroado rei na cidade onde Cristo
usara a coroa de espinhos23 24 25 . O seu título ficou assim mal definido - teria sido Advocatus Sancti
Sepulchri (Protector do Santo Sepulcro), princeps (príncipe) ou dux (duque). Raimundo terá ficado
desagradado com isto e saiu com o seu exército para acabar por cercar Trípoli.
A 12 de agosto, teve lugar a última batalha da Primeira Cruzada, com a relíquia da cruz na qual Jesus Cristo
teria sido crucificado (descoberta no dia 5) na vanguarda do exército - em Ascalão, Godofredo de Bulhãoo
e Roberto II da Flandres venceram os fatímidas. Depois disto, a maioria dos cruzados, entre os quais
Roberto da Flandres e Roberto da Normandia, considerou os seus votos cumpridos e voltou para a Europa.
Segundo Fulquério de Chartres, apenas algumas centenas de cavaleiros permaneceram no reino recém-
formado.

Cruzada de 1101

Cruzada de 1101 na Anatólia

O sucesso da Cruzada dos Nobres e a necessidade de reforços para a defesa dos novos estados cruzados,
depois do regresso dos peregrinos que consideraram o seu voto cumprido, levaram o papa Pascoal II,
sucessor de Urbano II a incentivar uma nova expedição.

A pressão para partir para a Terra Santa foi ainda maior para os que tinham tomado a cruz mas não tinham
chegado a sair da Europa, ou para os que abandonaram a Primeira Cruzada antes da conquista de
Jerusalém. Objecto de troça ou desprezo pelas suas famílias e ameaçados de excomunhão pelo clero, nobres
como Estêvão de Blois e Hugo I de Vermandois lideraram uma nova peregrinação: a Cruzada de 1101.

Em Nicomédia (atual İzmit), a Estêvão de Blois se juntaram os lombardos de Anselmo IV, arcebispo de
Milão, o conde Estêvão I da Borgonha o duque Odo I da Borgonha e Conrado, condestável do imperador
Henrique IV da Germânia. Os bizantinos do general Tatizius reforçaram o contingente, e a liderança da
expedição passou para Raimundo IV de Toulouse.

Depois de conquistarem Ancara, que ficou em poder de Aleixo I Comneno, cercaram Gangra e depois
tentaram conquistar Kastamonu, onde foram acossados pelos seljúcidas. Depois dirigiram-se para
Mersivan, território dos danismendidas, para tentar resgatar o aprisionado Boemundo I de Antioquia26 . Na
batalha que se seguiu, foram derrotados pelo sultão Kilij Arslan I, aliado às forças de Alepo. Os bizantinos
e os líderes Raimundo de Toulouse, Estêvão de Blois e Estêvão da Borgonha fugiram para Constantinopla.

Pouco depois do primeiro contingente sair de Nicomedia, chegou o exército do conde Guilherme II de
Nevers. Este fracassou no cerco a Iconium e depois foi emboscado por Kilij Arslan I em Heraclea Cybistra,
onde as suas forças foram aniquiladas, tendo sobrevivido apenas o conde e alguns dos seus homens.

As atrocidades dos cruzados (século XIII, Biblioteca Nacional de França)

Depois de Guilherme II de Nevers ter saído de Constantinopla, chegava um terceiro exército, comandado
por Guilherme IX da Aquitânia, Hugo I de Vermandois e Guelfo I da Baviera. Parte destes seguiram para a
Palestina por navio; os restantes repetiram a expedição de Nevers, dirigindo-se para Heraclea Cybistra,
sendo emboscados pelo sultão danismendida e os poucos sobreviventes, entre os quais os três líderes,
fugindo para território bizantino.

Mais uma vez sob a liderança de Raimundo de Toulouse, os sobreviventes reorganizados e reforçados por
mais peregrinos conquistaram Tartuos, com a ajuda de uma frota genovesa, chegando a Antioquia no final
do ano de 1101, e a Jerusalém na Páscoa de 1102.

As derrotas da Cruzada de 1101 tiveram como consequência o estabelecimento do poder danismendida e da


sua capital em Konya, e uma nova atitude dos muçulmanos, que agora sabiam que os cruzados não eram
invencíveis, como parecera durante a Cruzada dos Nobres. Cruzados e bizantinos culparam-se mutuamente
pelo fracasso, que deixava como único trajecto para a Terra Santa o marítimo, que beneficiava as cidades-
estado da península Itálica, os navegadores mais bem sucedidos da época. O Principado de Antioquia
também beneficiou de não haver uma ligação entre os estados cruzados e o Império Bizantino, podendo
assim manter a sua independência.

Análise da Primeira Cruzada

Estados cruzados

[[Imafem:Near East 1135-pt.svg|thumb|upright=1.5|Os estados cruzados no Levante em 1135]] A


consequência geopolítica mais marcante da Primeira Cruzada foi o estabelecimento dos estados cruzados
no Levante: condado de Edessa, Principado de Antioquia, Reino Latino de Jerusalém e Condado de Trípoli,
bem como o fortalecimento de outras unidades políticas cristãs na Anatólia: Império Bizantino e Reino
Arménio da Cilícia.

Quando Godofredo de Bulhão morreu em 1100, o seu irmão Balduíno I de Edessa foi eleito primeiro rei de
Jerusalém. Durante a sua história, este estado foi frequentemente o suserano dos restantes, que apesar disso
mantiveram um elevado grau de independência. O sistema feudal europeu foi adoptado no Oriente, com
algumas alterações.
O sucesso da expedição encorajou mais peregrinos a tomarem a cruz, agora em números menores, não mais
formando vastos exércitos. Os estados cruzados dividiam-se em facções políticas com base nas suas origens
europeias: francos dos domínios directos da coroa francesa, normandos do sul da Itália, Normandia e
Inglaterra, lombardos, provençais, aquitânios, burgúndios, flamengos, germânicos. Os povos anteriormente
presentes nestes territórios - muçulmanos, judeus, arménios e outros cristãos ortodoxos - não possuíam
poder efectivo e foram dominados pelos latinos.

Desde o início da cruzada em conflito com o Império Bizantino, os governantes ocidentais agravaram as
relações com Constantinopla ao renegar os juramentos dos líderes da Cruzada dos Nobres, substituir os
patriarcas da Igreja Ortodoxa Bizantina pelos oriundos da Igreja Cristã Ocidental, e frequentemente atacar
territórios imperiais.

Como minoria entre os muçulmanos e ortodoxos da região, os estados latinos mantinham-se em constante
estado de guerra, construindo castelos e contratando mercenários, pilhando ou conquistando mais territórios
aos seus vizinhos. Por aproximadamente um século, os três poderes acabaram por se manter em um conflito
de guerrilha, com várias alianças pontuais, por vezes opondo muçulmanos ou latinos entre si. Estes últimos
possuíam a cavalaria pesada, mais eficaz num ataque corpo-a-corpo, mas mais lenta que os cavaleiros
muçulmanos, que podiam cavalgar ao redor dos inimigos usando a sua perícia de arqueiros.

Uma vez que três dos quatro estados cruzados localizavam-se no litoral, as frotas das cidades-estado
mercantis italianas, nomeadamente Génova e Veneza, tornaram-se fundamentais para a sobrevivência
destes estados: permitiram a chegada de reforços e a intercepção das esquadras muçulmanas, tornando
novamente o Mediterrâneo num mar navegável para os ocidentais.

Ordens militares

Cruzados, ilustração na Enciclopédia Larousse de 1922

Pouco depois do estabelecimento dos estados cruzados, foram criadas ordens militares: os Hospitalários em
111327 e os Templários em 111828 , na maioria de origem franca; e os Teutónicos de origem germânica29 .
De forma a proteger os territórios cristãos, os líderes dos estados cruzados atribuíram-lhes o domínio de
diversas fortalezas na Terra Santa.

Estas ordens de monges cavaleiros, disciplinadas e tomadas de zelo religioso, reflectiam a nova atitude do
papado, que encarava a guerra santa como penitência pelos pecados. Nascia assim o guerreiro religioso e
reinventava-se o ideal da cavalaria.
Peregrinos

Apesar de se dar o nome de Primeira Cruzada a este conjunto de expedições, deve-se salientar que termo
cruzado foi uma criação do início do século XIII, que surge documentado em latim apenas um século após
a conquista da Cidade Santa. Estes primeiros cruzados viam-se assim simplesmente como peregrinos
(peregrinatores) em viagem (iter), e foram assim referidos pelos cronistas seus contemporâneos.

Ao tomarem a cruz, juravam alcançar o Santo Sepulcro, e se não cumprissem este voto arriscavam a
excomunhão, como aconteceu com Estêvão de Blois. As peregrinações eram abertas a todos os cristãos,
mas mulheres, idosos ou doentes eram desencorajados, apesar de não impedidos. E o facto de usarem armas
para atacar e se defenderem dos infiéis era apenas mais um componente que valorizava a peregrinação.
Assumiam como padroeiro São Jorge da Capadócia, exemplo do cavaleiro cristão, e o seu brasão de armas,
a cruz vermelha num escudo branco. Era assim criado o guerreiro peregrino, com direito à indulgência e ao
estatuto de mártir, se morresse em batalha.

As motivações dos cruzados variavam entre a ambição de criar novos feudos, dever de acompanhar o seu
senhor feudal, redenção dos pecados e bênção espiritual, ou a busca da glória em batalha. A ambição de
ganhos materiais terá tido também alguma influência - uma vez que na Reconquista, da qual participou por
exemplo Raimundo IV de Toulouse, muitos guerreiros conseguiram obter o lucro das pilhagens ou parte das
terras reconquistadas, poder-se-ia esperar lucros semelhantes ou superiores nos mais vastos territórios do
ultramar.

Mas as expedições provaram ser extremamente dispendiosas, mais facilmente suportadas por nobres
poderosos de famílias abastadas, como Hugo I de Vermandois. E mesmo estes foram frequentemente
forçados a vender parte das suas terras para obter verbas, uma vez que era necessário que partissem da
Europa com dinheiro para toda a duração da cruzada. Muitas vezes as vendas eram feitas à Igreja, como fez
Godofredo de Bulhão, o que aumentava ainda mais a piedade dos peregrinos.

Este dinheiro acabava sempre por render menos do que o esperado, uma vez que um grande número de
recém-chegados a terras estranhas, tentando comprar provisões, aumentava a procura em relação à oferta.
Outros endividaram também os seus familiares, ou acabaram por forçar estes a tomar a cruz, de forma a os
sustentar8 . Outros foram proibidos de aderir à cruzada devido às suas responsabilidades na Europa.

O povo e os cavaleiros de menos posses (minores), em oposição aos de alto estatuto (principes), só
poderiam contar com as esmolas que o seu estatuto de peregrinos lhes conferia, para se manterem na
expedição. Em alternativa, podiam colocar-se ao serviço de um príncipe, como fez Tancredo de Altavila
com o seu tio Boemundo de Taranto. As cruzadas seguintes seriam organizadas por reis e imperadores, que
custeavam as suas despesas por meio de um imposto de cruzada aos seus súbditos.
Os sobreviventes que voltavam à Europa Ocidental depois de terem chegado a Jerusalém eram tratados
como heróis. Roberto II da Flandres recebeu o cognome de Hierosolymitanus (o de Jerusalém), Godofredo
de Bulhão tornou-se num personagem lendário que encarnava o ideal da cavalaria, pouco depois da sua
morte. Mas muitas vezes a situação política das terras natais dos nobres cruzados foi afectada pelas suas
ausências: por exemplo, Roberto II da Normandia perdeu o trono inglês para o seu irmão Henrique I da
Inglaterra.

Bizantinos e muçulmanos

Império Bizantino (a vermelho) imediatamente após a Primeira Cruzada

O estabelecimento dos estados cruzados no Levante inverteu por algumas décadas o ascendente bélico dos
turcos seljúcidas frente ao Império Bizantino. Estes conseguiram reconquistar parte do seu território na
Anatólia e usufruir de um período de relativa paz e prosperidade no século XII, até se tornarem nas vítimas
da Quarta Cruzada.

Tal como na Reconquista, o sucesso da Primeira Cruzada deveu-se em grande parte à rivalidade entre os
pequenos estados muçulmanos, que se manteve mesmo face à óbvia brutalidade dos novos invasores.
Posteriormente foi estabelecido um sistema em que cidades-estado como Damasco, ou califados como o do
Egipto, se aliaram ou pagavam um tributo aos estados latinos. Mas os excessos do zelo religioso cristão
acabariam por propiciar a ascensão de carismáticos líderes islâmicos.
Em 1144, depois de unificar a Síria e o norte do Iraque, Imad ad-Din Zengi conseguiu poder suficiente para
derrotar e expulsar os cristãos do Condado de Edessa, o que originaria a fracassada Segunda Cruzada. O
seu filho Nur ad-Din prosseguiria esta política e o sucessor deste, Saladino, reconquistaria a cidade de
Jerusalém em 1187. Por fim, em 1291 os mamelucos erradicariam a presença latina no Levante.

Fontes

Testemunhos medievais

As cruzadas em geral geraram inúmeros relatos, histórias e crónicas medievais. Os barões da Cruzada dos
Príncipes eram acompanhados de um séquito de nobres menores e membros do clero. Muitos destes, que
eram letrados, geraram uma fonte de informações contemporâneas que documentou minuciosamente a
expedição, mesmo tendo em conta a parcialidade dos autores. As comunidades judaicas escreveram sobre
as agressões a que tinham sido sujeitas e os muçulmanos, com uma cultura em geral superior à europeia da
época, deixaram escritos com o seu ponto de vista. De entre estas fontes primárias é possível salientar:

Histórias dos cruzados: Correspondência dos cruzados:

 Historia Hierosolymitanae expeditionis de  Carta de Anselmo de Ribemont a Manasses II,


Alberto de Aquisgrão arcebispo de Reims (1098) (em inglês)
o Texto integral (em latim)  Carta de Estêvão, conde de Blois e Chartres, à
 Dei gesta per Francos de Guibert de Nogent sua esposa Adela 1098 (em inglês)
o The Deeds of God through the Franks,  Daimberto, Godofredo e Raimundo, Carta ao
tradução de Robert Levine (1997) (em papa 1099 (em inglês)
inglês)
 Historia Hierosolymitana e Gesta Francorum Colecções de relatos sobre a primeira cruzada no
Jerusalem Expugnantium de Foucher de site Internet Medieval Sourcebook (em inglês):
Chartres
o A conquista de Jerusalém, 1099 (em  Pedro o Eremita e a Cruzada Popular (em
inglês) inglês)
 Gesta Francorum et aliorum  A viagem dos cruzados a Constantinopla (em
Hierosolimitanorum de autor(es) anónimo(s) inglês)
o Texto integral (em latim)  Os cruzados em Constantinopla (em inglês)
o Excertos (em inglês)  O cerco e a conquista de Niceia (em inglês)
 Historia de Hierosolymitano itinere de Peter  O cerco e a conquista de Antioquia (em
Tudebode inglês)
 Historia Francorum qui ceperint Iherusalem  O cerco e a conquista de Jerusalém (em
de Raimundo de Aguilers, um escrivão do inglês)
exército de Raimundo IV de Toulouse
o Excertos (em inglês) Perspectiva islâmica:
 Chronicon Universale de Ekkehard de Aura
o Sobre o início da Primeira Cruzada  Dhail ou Mudhayyal Ta'rikh Dimashq
(em inglês) (Continuação das Crónicas de Damasco) de
 Gesta Tancredi in Expeditione Ibn al-Qalanisi
Hierosolymitana de Rudolfo de Caen, um  Extratos do Kitab al-Jihad (Livro da Guerra
panegírico a Tancredo da Galileia Santa) de Ali ibn Tahir al-Sulami - Discussão
do conceito da jihad no mundo islâmico,
escrita em consequência da Primeira Cruzada
Perspectiva bizantina: (em inglês)

 Alexíada de Ana Comnena Perspectiva judaica:


o Obra completa no Wikisource (em
inglês)  Emico e o massacre dos judeus da Renânia,
por Alberto de Aquisgrão e Ekkehard de Aura
o Opera Omnia em Migne Patrologia (em inglês)
Graeca (em grego e em inglês)
 Os cruzados em Mainz, ataques ao judaísmo
da Renânia por Soloman ben Samson (em
inglês)

Nas artes e literatura

Os sucessos da cruzada inspiraram também a imaginação literária dos poetas da Europa, e particularmente
da França, que no século XII, começaram a compor canções de gesta a celebrar os feitos dos cruzados, e
particularmente de Godofredo de Bulhão. Algumas, como a Chanson d'Antioche, são semi-históricas,
enquanto outras são competamente ficcionais, descrevendo batalhas contra dragões, ligando os heróis das
cruzadas a lendas já populares. O conjunto destas obras é conhecido como o Ciclo das Cruzadas. Em
séculos posteriores, a Primeira Cruzada continuou a exercer fascínio:

 Em 1580, Torquato Tasso escreveu La Gerusalemme Liberata, uma epopeia altamente


ficcionalizada sobre a conquista de Jerusalém. Handel comporia a ópera Rinaldo baseada nesta
obra.

 No século XIX, o poeta Tommaso Grossi escreveu outro poema épico, I Lombardi Alla Prima
Crociata, também adaptado para a ópera por Giuseppe Verdi.

 Também no século XIX, o ilustrador Gustave Doré criou uma série de gravuras sobre episódios da
Primeira Cruzada.
Cruzada de 1101

A Cruzada de 1101 foi um conjunto de três malogradas expedições cruzadas, organizadas nos anos de
1100 e 1101, que se seguiram ao sucesso da Cruzada dos Príncipes.

Com a conquista de Jerusalém em 1099, a maioria dos peregrinos dessa expedição considerou que tinha
cumprido o seu voto de cruzada ao visitar o Santo Sepulcro, e assim os novos estados cruzados no Levante
perderam a maioria da sua força bélica1 . Atendendo aos apelos dos cruzados ainda na Terra Santa, o papa
Pascoal II, sucessor de Urbano II, incentivou novas expedições.

A pressão para partir para a Terra Santa foi ainda maior para os que tinham tomado a cruz mas não tinham
chegado a sair da Europa, ou para os que abandonaram a cruzada antes da conquista de Jerusalém. Objecto
de troça ou desprezo pelas suas famílias e ameaçados de excomunhão pelo clero1 , nobres como Estêvão de
Blois e Hugo I de Vermandois lideraram expedições desta nova cruzada2 . Tal como na Primeira Cruzada,
os peregrinos não partiram como um único exército, mas sim em vários grupos originários de diferentes
regiões da Europa Ocidental.

Lombardos

Na Europa

Ruínas do palácio imperial de Blaquerna


Anselmo IV de Bovisio, o arcebispo de Milão, foi nomeado pelo papa Pascoal II para liderar esta
expedição. Pregou a cruzada na Lombardia, onde não tinha havido grande aderência à Primeira Cruzadanota 1
, mas o seu apelo despoletou uma resposta entusiasmada. A 15 de Julho de 1100 celebrou o aniversário da
conquista de Jerusalém em Milão, e a 13 de Setembro partiu desta cidade, à frente de um numeroso
contingente (um número referido de 50.000 cruzados3 é muito provavelmente excessivo) de principalmente
camponeses lombardos, incluindo mulheres e crianças, mas também bispos e nobres locais2 .

O exército atravessou a Caríntia, com a permissão do duque Henrique V, e depois a Bulgária, sem
incidentes. Mas ao passaram o Inverno nos territórios do Império Bizantino recorreram a saques, pelo que o
imperador Aleixo I Comneno escoltou-os a um acampamento nos arredores de Constantinopla.
Desagradados com a situação, dirigiram-se até à capital bizantina, onde pilharam o palácio de Blaquerna,
chegando a matar o leão de estimação de Aleixo2 . Com a negociação de Raimundo IV de Toulouse,
experiente e carismático líder da Primeira Cruzada, o imperador apressou-se a transportar os lombardos
através do Bósforo até um campo em Nicomedia1 .

Na Anatólia

Em Maio de 1101 juntaram-se-lhes as forças menos numerosas mas mais bem preparadas de Estêvão de
Blois, conde Estêvão I da Borgonha, duque Odo I da Borgonha e Conrado, condestável do imperador
Henrique IV da Germânia1 . Os mercenários pechenegues do general bizantino Tatizius reforçaram o
contingente, e a liderança da expedição passou para Raimundo IV de Toulouse, agora ao serviço de Aleixo I
Comneno2 .
Rotas das expedições da Cruzada de 1101 na Anatólia

Seguindo a rota usada por Raimundo IV de Toulouse e Estêvão de Blois durante a Primeira Cruzada, no
final de Maio o exército marchou até Dorileia. O objectivo era continuar até Iconium, mas a muito mais
numerosa populaça lombarda estava determinada a libertar Boemundo I de Antioquia, aprisionado pelos
danismendidas2 em Niksar. A oposição de Raimundo a este projecto só tornava os lombardos mais
determinados, uma vez que estes tinham conhecimento da grande rivalidade entre os dois nobres1 .

Os cruzados conquistaram Ancara a 23 de Junho, que cederam ao controlo bizantino, e depois dirigiram-se
para norte. Cercaram a cidade de Gangra, mas como esta estava bem defendida acabaram por levantar o
cerco e continuar para norte, na tentativa de tomar Kastamonu.

Durante várias semanas foram acossados pelos turcos seljúcidas, que foram eliminando quem se afastava
do grupo principal, e em Julho aniquilaram destacamentos que procuravam provisões2 , pelo que
reabastecimento de água e alimentos tornou-se num gravíssimo problema.

Nesta altura os lombardos insistiram em afastar-se da costa do Mar Negro, que lhes poderia oferecer
alguma segurança estratégica, e dirigir-se para os territórios dos danismendidas a leste, para resgatar
Boemundo I de Antioquia. Os nobres e cavaleiros discordaram, mas uma vez que os seus números eram
reduzidos, preferiram seguir a rota dos populares do que se afastarem da segurança numérica que estes
representavam1 .

Batalha de Mersivan
Guerreiro lombardo-toscano de c. 1100 em Vita Mathildis

Ao contrário do que aconteceu durante a Cruzada dos Príncipes, os muçulmanos da região formaram uma
eficaz coligação: no início de Agosto de 1101, seljúcidas ao comando de Kilij Arslan I, danismendidas e
Ridwan de Alepo enfrentaram os ocidentais perto de Mersivan1 . Os cruzados organizaram-se em cinco
exércitos: burgúndios, Raimundo IV de Toulouse e os bizantinos, germânicos, francos, lombardos2 . O
terreno era adequado às tácticas dos turcos — seco, inóspito, aberto, com muito espaço para a cavalaria
ligeira de arqueiros evitar o confronto directo com a cavalaria pesada e a infantaria dos cristãos1 .

A batalha duraria alguns dias. No primeiro, os muçulmanos cortaram o avanço dos exércitos cruzados e
cercaram-nos. No dia seguinte o duque Conrado liderou uma incursão germânica que não conseguiu abrir
as linhas turcas e depois não conseguiu voltar ao contingente principal. Acabando por se refugiar em uma
fortaleza nas proximidades, ficaram sem acesso a provisões, auxílio e comunicações, perdendo a hipótese
de fazer um ataque concertado com os restantes exércitos2 .

No terceiro dia não houve combates intensos, mas no quarto os cruzados tentaram libertar-se do cerco.
Infligiram baixas pesadas aos turcos, mas o ataque foi um fracasso e no final do dia Kilij Arslan recebeu
reforços de Ridwan de Alepo e de outros príncipes danismendidas.

Na vanguarda, os lombardos foram vencidos; os pechenegues desertaram; francos e germânicos foram


forçados a uma retirada. Isolado, Raimundo de Toulouse retirou para uma colina rochosa, onde resistiu ao
inimigo até ser salvo pelos outros líderes cruzados1 . A batalha acabou no dia seguinte, quando o campo
cruzado foi tomado e, em contraste aos ideais da cavalaria medieval, os cavaleiros fugiram, deixando os
restantes peregrinos, incluindo mulheres e crianças, à mercê dos inimigos. A maioria dos lombardos, sem
cavalos, foi morta ou escravizada2 .

Raimundo fugiu para norte, em direcção ao porto de Bafra no mar Negro e depois para Sinop, onde
embarcou para Constantinopla. Estêvão de Blois, Estêvão da Borgonha e outros nobres e prelados também
fugiram para Sinop. Voltariam a Constantinopla por via terrestre, atravessando a região costeira em
território bizantino1 . Todos foram recebidos generosamente por Aleixo I Comneno, que lhes ofereceu
presentes e os sustentou até que pudessem continuar a peregrinação. O arcebispo Anselmo, que também
participou da batalha, acompanhava-os. Os seus ferimentos provocariam a sua morte na capital bizantina,
onde foi enterrado2 .

Guilherme II de Nevers
Miniatura de um arqueiro turco de cavalaria ligeira

Pouco depois de os lombardos saírem de Nicomedia, o conde Guilherme II de Nevers chegou a


Constantinopla com o seu exército. Tendo partido de Nevers em Fevereiro, atravessaram o mar Adriático de
Bari para Avlona e, pela rota seguida por Boemundo de Taranto em 1096, marcharam através da
Tessalónica2 até Constantinopla em estrita disciplina e sem incidentes, ocorrência invulgar para os exércitos
cruzados1 .

Apesar de bem recebido pelos bizantinos, Guilherme apressou-se a sair da capital, provavelmente para
tentar alcançar Estêvão I do ducado da Borgonha, vizinho de Nevers. Quando chegou a Nicomedia, soube
que os lombardos tinham ido para Ancara. Mas ao chegar a esta cidade no final de Julho, ninguém sabia
para onde tinham prosseguido, pelo que acabou por tomar a estrada para sul1 .

Iconium estava protegida por uma forte guarnição seljúcida, pelo que a tentativa de tomar a cidade foi um
fracasso. Inicialmente contando com a chegada de reforços2 , Guilherme percebeu que a sua demora nesta
cidade só atrairia a presença de mais inimigos1 , pelo que prosseguiu para Heracleia Cibistra. Tal como
todos os exércitos cruzados que atravessaram a Anatólia, este sofria com a falta de água e provisões.

Entretanto, Kilij Arslan I e Ghazi ibn Danishmend, alertados sobre esta nova expedição após a sua vitória
sobre os lombardos, e tentando eliminar novas incursões cruzadas, passaram provavelmente por Cesareia
Mazaca para chegar a Heracleia antes dos cruzados1 . Mais numerosos, emboscaram e cercaram os
ocidentais numa batalha curta.

O contingente de Nevers foi completamente aniquilado, com a excepção do conde e de alguns dos seus
cavaleiros, que conseguiram atravessar as linhas inimigas e, após vários dias a atravessar os montes Tauro,
chegar à fortaleza bizantina de Germanicopolis a noroeste da Selêucia Isáurica. Acompanhados por
mercenários pechenegues, em algumas semanas chegaram a Antioquia, mas despidos e desarmados.
Desconhece-se o que realmente aconteceu, os ocidentais afirmaram terem sido saqueados e abandonados
pela sua escolta durante a travessia do deserto1 .

Aquitânios e bávaros
Guilherme IX da Aquitânia, o Trovador (Iluminura do século XIII na Biblioteca Nacional da França)

Na Europa

Depois de Guilherme II de Nevers ter saído de Constantinopla, chegava um terceiro exército, comandado
por Guilherme IX da Aquitânia, rival político de Raimundo IV de Toulouse no sul da França1 . Tendo
partido da Aquitânia na segunda semana da quaresma, entre 12 e 19 de Março, atravessaram o norte da
Itália e a Caríntia, onde se lhes juntaram as forças de Guelfo I da Baviera e Hugo I de Vermandois, que
tinha abandonado a Cruzada dos Príncipes após a conquista de Antioquia2 .

Os exércitos combinados atravessaram a Hungria pacificamente, mas na Bulgária foram assediados por
grupos de pechenegues e cumanos, provavelmente como represália pelos actos das expedições cruzadas
anteriores2 . Eventualmente, os ocidentais pilharam território bizantino no trajecto para Constantinopla, e só
pela intervenção de Guilherme e Guelfo evitaram o confronto directo com os mercenários enviados pelo
imperador para acabar com essa situação1 .

A estadia na capital bizantina arrastou-se por cinco semanas, durante as quais os peregrinos compraram
provisões para a viagem e os líderes se encontraram regularmente com Aleixo I Comneno. Terá
provavelmente sido durante este intervalo que Guilherme de Nevers passou por Constantinopla, mas não se
juntaria aos aquitânios e bávaros2 . Isto talvez possa ser explicado porque o conde de Nevers pretendia
alcançar os borgúndios, mas Guilherme IX da Aquitânia não desejaria juntar-se à expedição lombarda,
liderada pelo seu inimigo Raimundo IV de Toulouse; por outro lado, Guelfo da Baviera era inimigo do
imperador Henrique IV da Germânia, e provavelmente resistiria a juntar-se ao condestável deste, Conrado,
que liderava um contingente germânico nessa expedição1 .

Iluminura de Aleixo I Comneno e Hugo I de Vermandois nas crónicas de Guilherme de Tiro (século XV,
Biblioteca Nacional da França)

Entretanto, o exército bávaro que desconfiava enormemente de Aleixo Comneno, suspeitava


equivocadamente que este tinha forçado os lombardos a penetrar em território inimigo sem lhes permitir
aguardar a chegada de mais reforços; chegavam inclusivamente a temer que o imperador bizantino
estivesse a trair os cruzados, aliando-se aos turcos. Tomados de pânico, os bávaros dividiram o seu
contingente em dois: uma parte seguiu para a Palestina por navio, entre eles o cronista Ekkehard de Aura, e
atracaria em Jaffa ao fim de seis semanas2 ; mas a maioria atravessou o Bósforo o mais rapidamente
possível, acompanhando os aquitânios numa rota semelhante à de Guilherme II de Nevers.

Na Anatólia

O avanço dos bávaros e aquitânios pela Anatólia era lento. Quando chegaram a Dorileia, Guilherme de
Nevers já estava a caminho de Iconium, tendo esgotado os alimentos disponíveis à sua passagem. Ao
mesmo tempo, os turcos tinham secado ou bloqueado os poços para que os diferentes exércitos cruzados
não tivessem acesso a água. Mais uma vez, e equivocadamente, os cruzados culparam os bizantinos por esta
situação1 .

Depois de pilharem Filomélio, que estava vazia, encontraram Iconium sem a guarnição que tinha resistido
ao contingente anterior, mas abandonara a cidade perante este exército mais numeroso, levando consigo
todos os mantimentos da cidade e dos subúrbios1 . Simultaneamente, a cerca de cem milhas de distância,
Kilij Arslan I e Ghazi ibn Danishmend massacravam os homens de Nevers.

Os estados cruzados no Levante em 1135


Na travessia do deserto entre Iconium e Heraclea Cybistra, os cruzados sofriam com fome, sede e ataques
da cavalaria turca aos flancos e aos grupos que se afastavam à procura de mantimentos. No início de
Setembro entraram em Heraclea, também deserta. Do outro lado da cidade encontrava-se um dos poucos
rios caudalosos da Anatólia durante o Verão. Sedentos, os cristãos correram desordenadamente para a água,
mas o exército turco estava emboscado nas margens do rio.

Cercados e desorganizados, os ocidentais não conseguiram reorganizar-se para montar uma resistência
eficaz. Em pânico, cavalaria e infantaria tentavam fugir mas eram massacrados pelo inimigo. Guilherme IX
da Aquitânia conseguiu romper as linhas turcas, fugir para as montanhas vizinhas, e após vários dias
chegaria a Tarso1 . Tancredo da Galileia acabaria por enviar uma escolta de cavaleiros para o levar a
Antioquia2 .

Hugo I de Vermandois, gravemente ferido na batalha, também foi levado por alguns dos seus homens para
Tarso, onde morreria a 18 de Outubro, tendo sido sepultado na igreja de São Paulo desta cidade. Guelfo da
Baviera só conseguiu escapar depois de abandonar a sua armadura, e após várias semanas chegaria a
Antioquia2 .

Juntamente com esta expedição tinha vindo Ida de Formbach-Ratelnberg, mãe do rei Leopoldo III da
Áustria. Desaparecida durante a emboscada, nela terá morrido. Posteriormente uma lenda narraria que teria
sido capturada e colocada num harém, acabando por se tornar na mãe do reconquistador muçulmano do
Condado de Edessa, Imad ad-Din Zengi. Uma vez que Ida tinha 46 anos de idade em 1101, Zengi nasceu a
c.1085 e o seu pai morreu em 1094, esta é uma impossibilidade cronológica.

Consequências

Pintura de Raimundo IV de Toulouse por Merry-Joseph Blondel, c.1840 (Salas das Cruzadas, Palácio de
Versailles)

De volta a Constantinopla, os líderes cruzados despojados dos seus exércitos foram recebidos cortês mas
friamente por Aleixo Comneno1 . Mais uma vez sob a liderança de Raimundo IV de Toulouse, os
sobreviventes reorganizados e reforçados por mais peregrinos ainda conquistaram Tartuos, com a ajuda de
uma frota genovesa2 . Depois a expedição tornou-se numa peregrinação não bélica, chegando a Antioquia
no final do ano de 1101, e a Jerusalém na Páscoa de 1102.

As derrotas da Cruzada de 1101 tiveram como consequência o estabelecimento do poder danismendida e da


sua capital em Iconium. Não tinham sido feitas conquistas importantes ou permanentes na Anatólia, que
permaneceu sob o controlo dos muçulmanos. A atitude destes perante os ocidentais também mudou, agora
sabiam que os cruzados não eram invencíveis, como parecera durante a Cruzada dos Nobres1 .

O Reino de Jerusalém e os restantes estados cruzados perderam os reforços de que tanto necessitavam
depois do fim da Primeira Cruzada. Em vez de receberem novos exércitos de peregrinos, limitaram-se a
acolher mais líderes conflituosos, que agravariam o clima político da região.

Em um crescente agravar de relações, cruzados e bizantinos culparam-se mutuamente pelos fracassos, que
deixavam como único trajecto para a Terra Santa o marítimo, o que beneficiava as cidades-estado italianas,
os navegadores mais bem sucedidos da época. O Principado de Antioquia também beneficiou de não haver
uma ligação entre os estados cruzados e o Império Bizantino, podendo assim manter a sua independência1 .

Segunda Cruzada

A Segunda Cruzada foi uma expedição bélica dos cristãos do ocidente, proclamada pelo papa Eugénio III
em resposta à conquista de Edessa aos cristãos do Levante pelo governador muçulmano Imad ad-Din Zengi
em 1144. Pregada pelo carismático São Bernardo de Claraval, ocorreu entre 1147 e 1149 e foi a primeira
cruzada liderada por monarcas europeus: Luís VII de França, Leonor da Aquitânia e Conrado III da
Germânia.

Revelar-se-ia um fracasso absoluto: os cruzados não reconquistaram Edessa nem nenhuma outra praça e
deixaram o Reino de Jerusalém em uma posição política mais fraca na região; ao atacar a cidade-estado
independente de Damasco que pontualmente se aliava aos ocidentais contra outros líderes muçulmanos
mais poderosos, ajudaram à unificação do mundo islâmico do Levante sob o apelo à jihad. Isto acabaria por
trazer enorme poder a líderes como Nur ad-Din e Saladino, culminando com a conquista de Jerusalém por
este último em 1187.
A única vitória para os guerreiros cristãos nesta cruzada faria parte do movimento da Reconquista da
Península Ibérica, e dever-se-ia à participação de uma frota na conquista de Lisboa em 1147, sob a
solicitação de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.

Conquista de Edessa

Durante a Primeira Cruzada, os nobres peregrinos europeus criaram estados cristãos no Levante, forjados
em terras conquistadas aos povos que dominavam estas regiões: turcos seljúcidas e danismendidas,
arménios, egípcios do Califado Fatímida do Cairo e cidades-estado muçulmanas.

Os estados cruzadosno Levante em 1135

Destes estados cruzados, o Condado de Edessa era o que ficava mais a norte, o único que não possuía
região costeira no mar Mediterrâneo, e também o mais fraco e menos populado; como tal, era menos
defensável e estava sujeito a ataques frequentes dos estados muçulmanos circundantes, governados por
dinastias ortoquidas, danismendidas e seljúcidas1 .
Em 1104, o conde Balduíno II de Edessa e o seu futuro sucessor Joscelino de Courtenay foram aprisionados
após a sua derrota na batalha de Harã, deixando o condado na regência de um rival de Balduíno, Tancredo
da Galileia. Depois de libertados em 1108, Balduíno e Joscelino voltariam a ser capturados em 1122, e
apesar de o poder de Edessa recuperar um pouco após a vitória na batalha de Azaz em 1125, Joscelino
morreria em campanha em 1131.

O seu sucessor Joscelino II foi forçado a aceitar uma aliança com o Império Bizantino, mas em 1143 tanto o
imperador João II Comneno como o rei Fulque de Jerusalém morreram. Uma vez que Joscelino tinha
entrado em conflito com o conde Raimundo II de Trípoli e o príncipe Raimundo de Antioquia, Edessa ficou
sem aliados poderosos na região2 .

Em 1128, o atabei seljúcida Zengi de Mossul conseguira assumir também o governo de Alepo, uma cidade
fulcral para o domínio da Síria e por muito tempo disputada entre os governantes de Mossul e Damasco.
Nas décadas seguintes, Zengi e os reis latinos de Jerusalém centraram muita da sua atenção em Damasco.
Em 1129 Balduíno II foi derrotado pelas forças damascenas aliadas a Zengi2 , mas quando este último
tentou tomar a cidade em 1139 e 1140, foi o rei Fulque de Jerusalém quem se aliou a Damasco3 , em uma
acção de diplomacia conduzida do lado muçulmano pelo cronista Usamah ibn Munqidh4 .

No final do ano de 1144, Joscelino II de Edessa aliou-se aos ortoquidas para atacar Alepo. Aproveitando a
morte de Fulque no ano anterior, e agora a saída do exército da cidade, Zengi cercou Edessa, que tomaria
em cerca de um mês, a 24 de Dezembro. O reino de Jerusalém ainda enviou um exército para ajudar a
cidade a resistir, mas este chegou demasiado tarde.

Joscelino II continuou a governar o que restava do seu condado a partir de Turbessel, mas o território
acabaria por ser tomado pelos muçulmanos, e posteriormente vendido ao Império Bizantino. Aclamado
pelo mundo islâmico como defensor da fé e rei vitorioso, Zengi não pôde continuar as suas conquistas aos
cristãos devido a conflitos com outros líderes muçulmanos, e seria assassinado por um escravo em 14 de
Setembro de 1146, sendo sucedido em Alepo pelo seu filho Nur ad-Din3 . Com Zengi morto, Joscelino II
ainda tentou reconquistar Edessa, mas Nur ad-Din derrotou-o em uma batalha no mês de Novembro.

Proclamação e pregação da cruzada

A notícia da queda de Edessa chegou à Europa ocidental em 1145, trazida primeiro por peregrinos e depois
por embaixadas do Principado de Antioquia, do Reino de Jerusalém e do Reino Arménio da Cilícia. O bispo
Hugo de Jabala (actual Jableh) que relatou o caso ao papa também falou de um rei cristão que poderia
trazer auxílio aos estados cruzados, na primeira menção documentada ao reino do Preste João3 . Em
resposta, o papa Eugénio III emitiu a bula pontifícia Quantum praedecessores (O quanto fizeram os nossos
predecessores em uma tradução livre para o português) a 1 de Dezembro, proclamando a Segunda Cruzada2
e concedendo as mesmas indulgências que o papa Urbano II criara para a Primeira Cruzada5 .
São Bernardo de Claraval prega a Segunda Cruzada em Vézelay

A resposta inicial ao novo apelo de cruzada foi fraca, apesar de Luís VII de França, por iniciativa própria, já
ter considerado montar uma expedição, independentemente da posição do papado, anunciada na sua corte
em Bourges no Natal de 1145. Não há a certeza de Luís VII ter planeado uma cruzada ou simplesmente
uma peregrinação, uma vez que o seu objectivo era cumprir um voto feito pelo seu irmão Filipe de visitar a
Terra Santa, mas que não se concretizou pela morte prematura deste. É provável que o rei da França tenha
feito a sua decisão independentemente da emissão da Quantum praedecessores.

Vários nobres e o abade Suger de Saint-Denis, principal conselheiro do rei, não concordaram com a
participação pessoal de Luís VII na cruzada, o que deixaria o reino com o soberano ausente durante vários
anos. Depois de consultar Bernardo de Claraval, Luís comunicou com o papa, que reemitiu a bula da
cruzada a 1 de Março de 1146, solicitando a São Bernardo a pregação da expedição na França2 .

A 31 de Março da Páscoa de 1146, o abade de Claraval pregou a cruzada em Vézelay, com Luís VII de
França, a sua esposa Leonor da Aquitânia e os restantes príncipes e senhores a prostrarem-se aos seus pés
para receber a cruz de peregrinação. Também o papa Eugénio III acabaria por vir pessoalmente à França
para apelar à cruzada2 . No Sacro Império Romano-Germânico, a popularidade da cruzada aumentava ao
mesmo tempo que surgiam inúmeros relatos de milagres realizados por Bernardo de Claraval. Em Speyer,
Conrado III da Germânia e o seu sobrinho e herdeiro Frederico Barbarossa receberam a cruz das mãos do
pregador6 .

Tal como na Primeira Cruzada, o zelo religioso levou a casos de violência anti-semítica. Um monge francês
chamado Rudolfo terá inspirado massacres de Judeus na Renânia, Colónia, Mogúncia, Worms e Speyer,
com o argumento de que não estavam a contribuir monetariamente para a salvação da Terra Santa. Tal como
os arcebispos de Colónia e Mogúncia, Bernardo de Claraval opôs-se veementemente a estes ataques,
viajando da Flandres para a Germânia para aquietar a turba e silenciar Rudolfo em Mogúncia, ordenando
que se recolhesse ao seu mosteiro2 .

Cruzada contra os eslavos

No sul do Sacro Império Romano-Germânico, muitos atenderam ao chamado de cruzada para a Terra Santa,
mas os saxões do norte informaram Bernardo de Claraval do seu desejo de uma campanha contra os pagãos
eslavos em um Reichstag em Frankfurt a 13 de Março de 1147. Concordando com a acção, a 13 de Abril o
papa Eugénio III emitiu a bula pontifícia Divina dispensatione, que declarava não haver diferença entre as
recompensas espirituais para os participantes de qualquer cruzada.
Limes Saxoniae, a fronteira entre os saxões e os eslavos

Na cruzada contra os eslavos participaram principalmente dinamarqueses, saxões, polacos7 e alguns


boémios. O legado papal Anselmo de Havelberg dirigiu a campanha liderada por famílias saxónicas das
casas nobres de Ascânia, Wettin e Schaumburg8 .

Tendo notícias destas intenções, os eslavos obotritas invadiram Wagria (no leste da Holsácia) em Junho de
1147, mas no fim do Verão a expedição cruzada expulsou-os dos territórios cristãos. Depois, as forças de
Canuto V e Sueno III da Dinamarca, do arcebispo Adalberto II de Bremen e do duque Henrique, o Leão da
Saxónia, atacaram o forte abrodita de Dobin am See, só retirando quando os guerreiros eslavos
concordaram em se submeter ao baptismo.

Finalmente, após o fracasso em um cerco ao forte veleto de Demmin, um contingente de cruzados foi
convencido pelos marqueses a atacar a região cristã da Pomerânia. Mas ao chegar a Estetino, dispersaram
perante o bispo e o príncipe da região.

Segundo Bernardo de Claraval, o objectivo desta cruzada era combater os eslavos pagãos «até que, com a
ajuda de Deus, sejam convertidos ou erradicados». No entanto, a maioria dos eslavos não foi convertida,
apenas se declararam como tal em Dobin e voltaram às suas práticas religiosas originais após a saída dos
exércitos cristãos. Segundo o bispo Alberto da Pomerânia, «Se pretendiam fortalecer a fé cristã... deveriam
fazê-lo pregando, não pelas armas»9 .

No final da cruzada, grande parte da população eslava de Mecklemburgo e da Pomerânia estava morta,
especialmente pelas forças de Henrique o Leão10 . Juntamente com as pilhagens a que foram sujeitos e a
perda dos seus recursos de produção, este facto facilitaria outras vitórias cristãs nas décadas futuras8 .
Reconquista de Lisboa

Na Primavera de 1147, o papa Eugénio III autorizou a expansão da Segunda Cruzada à Península Ibérica no
contexto da Reconquista, equiparando as campanhas contra os mouros à restante cruzada6 . A 19 de Maio
contingentes de cruzados zarparam de Dartmouth, constituídos por flamengos, normandos, ingleses,
escoceses e alguns germânicos, com destino à Terra Santa.

O Cerco de Lisboa por D. Afonso Henriques (pintura a óleo de Joaquim Rodrigues Braga, 1840)

Devido ao mau tempo, a 16 de Junho a armada foi forçada a parar na cidade do Porto, onde foram
convencidos pelo bispo Pedro II Pitões a se encontrarem com D. Afonso Henriques3 . Em troca da ajuda na
conquista de Lisboa, o rei português concordou em oferecer aos cruzados a pilhagem da cidade e o dinheiro
ganho com os resgates de prisioneiros muçulmanos.

O cerco de Lisboa teve início a 1 de Julho e durou até 25 de Outubro, quando os mouros, na iminência de
um assalto cristão em duas frentes e enfraquecidos pelas escaramuças, fome e doenças, capitularam. Só no
dia seguinte o soberano português entraria com as suas forças na cidade, nesse meio tempo violentamente
saqueada pelos cruzados. Segundo a carta-relato De expugnatione Lyxbonensi do inglês Osberno, seguir-se-
iam fortes desentendimentos entre as tropas cruzadas e as portuguesas, por as primeiras acharem
insuficientes o lucro e tempo permitido do saque11 12 . Muitos cruzados acabariam por se estabelecer em
diversas zonas de Portugal, como o bispo de Lisboa Gilberto de Hastings3 .

Ao mesmo tempo que decorria este cerco, Afonso VII de Leão e Castela em coligação com Raimundo
Berengário IV de Barcelona e forças dos reinos de Aragão e Navarra, tomou Almeria, o primeiro porto
mediterrânico do Reino de Castela. Com a ajuda de uma frota das repúblicas italianas de Génova e Pisa, a
cidade foi ocupada em Outubro6 . Depois desta conquista, Raimundo Berengário invadiu as taifas de
Valência e Múrcia. Em Dezembro de 1148 conquistaria Tortosa após um cerco de cinco meses, com a ajuda
de cruzados franceses, anglo-normandos e genoveses. No ano seguinte tomaria Fraga, Lleida e
Mequinenza6 .
Travessia da Europa

Conrado III da Germânia

Iluminura da passagem do exército cruzado de Conrado III de Hohenstaufen pela Hungria

No Sacro Império Romano-Germânico, Frederico, filho de Conrado III da Germânia, foi eleito rei a 13 de
Março em Frankfurt, sob a regência do arcebispo de Mogúncia durante a sua menoridade, apesar de cinco
anos mais tarde o imperador acabar por designar o seu sobrinho Frederico Barbarossa para a sucessão. Os
germânicos tinham planeado partir para a Terra Santa na Páscoa, mas só iniciariam a expedição em Maio3 .

Conrado decidiu seguir uma rota terrestre que atravessava a Hungria e o Império Bizantino, uma vez que o
percurso marítimo era inconveniente devido ao conflito que tinha com Rogério II da Sicília. Acompanhado
do legado papal, o cardeal-bispo da diocese de Porto-Santa Rufina, tencionava reunir-se aos franceses em
Constantinopla. O marquês Otocar III da Estíria juntou-se a Conrado em Viena. Geza II da Hungria, apesar
de inimigo do imperador germânico, permitiu a passagem pacífica da cruzada.

Quando os cerca de 20.000 germânicos chegaram a terras bizantinas, temendo um ataque cruzado Manuel I
Comneno enviou tropas para prevenir quaisquer problemas. De facto, ocorreu uma breve escaramuça com
alguns cruzados nas proximidades de Filipópolis e em Adrianópolis, onde o general bizantino Prosouch
enfrentou Frederico Barbarossa. Para piorar a situação, alguns soldados germânicos morreram durante uma
inundação no início de Setembro, mas no dia 10 chegaram a Constantinopla.

Por esta altura, as relações com Manuel Comneno estavam tão difíceis que os cruzados decidiram passar
para a Ásia Menor o mais rapidamente possível. O bizantino pretendia que Conrado lhe cedesse algumas
das suas tropas para o ajudar a defender-se contra ataques de Rogério II da Sicília, que pilhara cidades da
Grécia, mas o germânico recusou, apesar de também ser inimigo do siciliano3 .

Na Anatólia, Conrado decidiu não esperar pelos franceses. Dividindo o seu exército em duas divisões e
liderando uma delas, marchou sobre Iconium, a capital do Sultanato de Rum. A 25 de Outubro de 1147
ocorreu a segunda batalha de Dorileia6 (a primeira tinha sido uma vitória dos ocidentais na Primeira
Cruzada). Os seljúcidas usaram a sua táctica preferida de simular uma retirada para atrair o inimigo, e
depois voltaram para atacar a pequena força de cavalaria germânica que se separara do contingente
principal para os perseguir.

Com o seu exército quase totalmente destruído na batalha, Conrado iniciou uma lenta retirada para
Constantinopla, durante a qual os germânicos foram acossados diariamente pelos turcos, atacando a
retaguarda e quem se afastava do contingente principal. O próprio imperador chegou a ser ferido em uma
escaramuça. A outra divisão do exército, liderada pelo bispo e cronista Otão de Freising, meio-irmão de
Conrado, marchou para a costa mediterrânica a sul para também ser dizimada no início de 11483 .

Luís VII de França

Luís VII de França recebe a cruz de São Bernardo de Claraval em Vézelay

Na França, o abade Suger de Saint-Denis e o conde Guilherme II de Nevers foram eleitos regentes durante
a ausência do rei. A 16 de Fevereiro de 1147, os cruzados encontraram-se em Étampes para discutir a rota a
seguir. Muitos dos cavaleiros franceses pretendiam evitar a rota por terra que os forçaria a uma travessia do
Império Bizantino, que tantos problemas tinha provocado durante a Primeira Cruzada. Mesmo assim foi
decidido partir a 15 de Junho para seguir este trajecto, o mesmo de Conrado III da Germânia. Esta decisão
ofendeu a tal ponto o rei Rogério II da Sicília, inimigo do imperador germânico, que este acabou por se
recusar a participar da cruzada.

Partindo de Metz em Junho, o contingente liderado por Luís VII de França incluía a sua esposa Leonor da
Aquitânia e cavaleiros como Teodorico da Alsácia, Reinaldo I de Bar, Amadeu III de Saboia e o seu meio-
irmão Guilherme V de Montferrat (pai do futuro rei de Jerusalém Conrado de Montferrat), Guilherme VII
da Auvérnia, e exércitos da Lorena, Bretanha, Borgonha e Aquitânia. Os da Normandia e da Inglaterra
juntaram-se a Luís em Worms. Afonso-Jordão de Toulouse liderou os provençais, preferindo aguardar até
Agosto para fazer a travessia marítima.

A travessia da Europa foi relativamente pacífica. Houve no entanto alguma tensão com o rei Geza II da
Hungria, por Luís VII ter permitido que Boris Kalamanos, pretendente ao trono húngaro e rebelado contra
Geza, se juntasse à cruzada e entrasse na Hungria. Também ocorreram problemas em territórios bizantinos,
onde o contingente da Lorena chegou antes do restante exército e entrou em conflito com um grupo de
germânicos atrasados para se juntarem a Conrado III3 .

Luís VII de França e Conrado III de Hohenstaufen diante dos portões de Constantinopla

As relações de Manuel I Comneno com os franceses eram marginalmente melhores do que com os
germânicos, e Luís VII foi recebido com grandiosidade em Constantinopla. No entanto, depois das
negociações iniciais entre Luís e Manuel, o bizantino tinha assinado uma trégua com o Sultanato de Rum
de modo a libertar as suas tropas para proteger o seu império da passagem dos exércitos ocidentais, que
desde a Primeira Cruzada tinham representado alguma ameaça contra o Império Bizantino. Indignados com
a trégua, parte dos cruzados da França pretendiam uma aliança com o Reino da Sicília para atacar
Constantinopla, mas foram travados por Luís VII3 .

Quando os contingentes da Saboia, Auvérnia e Montferrat se juntaram aos restantes cruzados em


Constantinopla, depois de percorrer a Itália e atravessar o mar Adriático de Brindisi para Durrës, todo o
exército da Segunda Cruzada foi transportado através do Bósforo para a Ásia Menor.

Apesar de encorajado por rumores de que os germânicos tinham conquistado Iconium, Manuel I Comneno
recusou-se a fornecer tropas bizantinas a Luís VII - o império tinha sido invadido por Rogério II da Sicília,
pelo que havia necessidade de colocar o seu exército nos balcãs. Deste modo, os dois exércitos ocidentais
da Segunda Cruzada entraram na Ásia sem uma força bizantina, ao contrário do que acontecera na Primeira
Cruzada. No entanto, Manuel continuou a tradição do seu avô Aleixo I Comneno de solicitar um juramento
aos cruzados para que se comprometessem a entregar ao império qualquer território que conquistassem3 .

Travessia da Anatólia

Mural do século XII na capela de Santa Radegunda em Chinon representando Leonor da Aquitânia a cavalo

Ao chegar a Niceia em Novembro, o exército de Luís VII de França recebeu os sobreviventes do grupo de
Conrado III da Germânia. Seguindo o percurso de Otão de Freising, aproximaram-se da costa mediterrânica
e chegaram a Éfeso em Dezembro, onde foram avisados de um ataque iminente dos turcos. Chegou também
uma embaixada de Manuel I Comneno, com reclamações pelas pilhagens que os cruzados tinham feito por
partes da Anatólia em poder do império; por outro lado, os enviados do imperador não ofereceram garantias
de que os bizantinos iriam auxiliar os cruzados contra os turcos.

Entretanto, Conrado III da Germânia adoeceu e voltou a Constantinopla, recebendo os cuidados pessoais de
Manuel Comneno. Ignorando as informações sobre uma emboscada turca, e pouco depois de sair de Éfeso
com os sobreviventes franceses e germânicos, Luís VII acabaria por vencer um destacamento inimigo3 .

Os franceses chegaram a Laodiceia no início de Janeiro de 1148, e Luís VIII decidiu atravessar a região
montanhosa da Frígia para acelerar a sua chegada às terras cruzadas do Antioquia. Ao subir as montanhas,
os cruzados viram os corpos não sepultados da divisão de Otão de Freising6 .

Ao atravessar o monte Cadmus, o rei francês decidiu liderar a retaguarda, onde viajavam os peregrinos não
combatentes e os comboios de provisões. Sem a lentidão da bagagem, a vanguarda sob o comando de
Amadeu III de Saboia (tio de Luís VII) e Godofredo de Rancon (vassalo de Leonor da Aquitânia) chegou
mais cedo ao cume do monte, onde tinham recebido ordens para montar acampamento para a noite. No
entanto, Godofredo e Amadeu decidiram continuar a marcha até a um planalto próximo do cume, que tinha
melhores condições para montar campo; era uma desobediência, alegadamente comum neste exército
devida à fraca liderança do monarca.
Iluminura medieval da cruzada de Luís VII de França

A meio da tarde, a retaguarda da coluna atrasou-se e o exército ficou dividido. Ocupando o cume do monte,
os turcos que seguiam os cruzados decidiram então atacar o contingente atrasado. Tomados de surpresa e
sem possibilidade de fuga, os cruzados sofreram pesadas perdas, mortos pelo inimigo ou caindo pelo
desfiladeiro.

Mesmo o próprio rei Luís VII apenas escapou por ter sido salvo pela corajosa e experiente presença de
Évrard des Barrès, grão-mestre da Ordem do Templo e que, a partir daí, lhe foi entregue o comando e o
usou com toda a dureza necessária para o seu êxito.

Segundo o cronista Odo de Deuil, Luís VII tinha-se recusado a usar as vestimentas de rei, usando uma
simples túnica de soldado. Ao contrário da sua escolta, que foi trucidada, conseguiu subir a um rochedo e
foi ignorado pelos inimigos, que não o reconheceram. Os restantes cruzados só tiveram descanso ao cair da
noite13 .

Guilherme de Tiro culpou a derrota no volume e na lentidão do comboio de bagagem, composto em grande
parte pelos pertences das mulheres. O rei culpou Godofredo de Rancon, que tomara a decisão de continuar,
e uma vez que este era vassalo de Leonor da Aquitânia, muitos cruzados acreditaram que tinha sido a rainha
a responsável. Ambas as interpretações, e o facto de os aquitânios não terem participado da batalha por
estarem na vanguarda, serviram para impopularizar a duquesa.

Quando os turcos deixaram de atacar, os cruzados continuaram a marcha em direcção a Antália. Com o
exército continuamente acossado a curta distância pelos inimigos, que procederam a uma táctica de terra
queimada para impedir o seu provisionamento, Luís VII decidiu abandonar a rota terrestre e viajar de
Antália para Antioquia por mar6 .

Após um mês de espera devido às tempestades que se faziam sentir, a maioria dos navios prometidos não
chegaram. O rei embarcou com parte das suas forças, deixando o resto do exército em terra (sobretudo os
plebeus sem cavalos), e na marcha destes até Antioquia a maioria morreria às mãos dos turcos ou por
doença3 .

No Levante

Luís VII chegou a Antioquia a 19 de Março mas sem Amadeu III de Saboia, que morrera em Chipre
durante a viagem. O príncipe de Antioquia desde 1136 era Raimundo de Poitiers, tio de Leonor da
Aquitânia, e esperava que esta relação familiar com a rainha de França e duquesa da poderosa Aquitânia
ajudasse a influenciar o rei francês a seu favor.
Raimundo de Poitiers recebe Luís VII de França em Antioquia

Raimundo pretendia que os cruzados o ajudassem a defender Antioquia contra os turcos, e que o
acompanhassem em uma expedição contra Alepo. Esta cidade-estado muçulmana em poder de Nur ad-Din
era estrategicamente importante para a reconquista de Edessa, o objectivo da cruzada por bula pontifícia.

No entanto, Luís VII recusou, mais interessado em concluir a sua peregrinação a Jerusalém do que no
aspecto militar da cruzada14 . Outra explicação pode estar no facto de o rei não ver com bons olhos o
aumento de terras e poder da já poderosa família da sua esposa.

Rei e rainha tiveram uma grave disputa. Raimundo de Antioquia terá chegado a sugerir à sua sobrinha que
se divorciasse se Luís se recusasse a ajudar a cumprir o objectivo militar da cruzada. Luís VII acabaria por
acusar a sua esposa de incesto com o tio, e partiu rapidamente para o Condado de Trípoli com Leonor sua
prisioneira.

Entretanto, Otão de Freising e os sobreviventes do seu exército que continuaram a travessia da Anatólia por
terra chegaram a Jerusalém no início de Abril. Conrado III da Germânia chegou a São João de Acre pouco
depois6 e o patriarca latino de Jerusalém enviou um convite a Luís VII para se lhes juntar. Entretanto
chegava ao Levante a frota que ajudou na reconquista de Lisboa e os provençais, que tinham vindo por via
marítima desde a Europa sob o comando de Afonso-Jordão de Toulouse.

Concílio de Acre

A Segunda Cruzada chegara ao Levante em um período de grande instabilidade para os estados cruzados. O
Condado de Trípoli tinha sido alvo de disputa entre dois pretendentes, e quando Afonso-Jordão morreu em
Cesareia Maritima, antes de chegar a Jerusalém, supostamente envenenado, as suspeitas recaíram em
Leonor da Aquitânia (devido à inimizade entre os duques da Aquitânia e os condes de Tolosa) ou Raimundo
II de Trípoli, sobrinho do tolosano que temia que este pretendesse tomar o condado.

Iluminura do concílio da Segunda Cruzada com Conrado III da Germânia, Luís VII de França e Balduíno
III de Jerusalém, e em baixo o ataque a Damasco
O Reino Latino de Jerusalém tinha sofrido instabilidade pelas discórdias entre o rei Fulque e a rainha
Melisende. Depois da morte de Fulque, Melisende (a herdeira do trono por parte do seu pai Balduíno II)
assumiu o governo sozinha durante a menoridade do seu filho Balduíno III.

Com uma mulher e uma criança como soberanos legais de Jerusalém, a situação política tornou-se tensa: os
estados cruzados a norte foram procurando afirmar a sua independência e não havia um rei para liderar um
exército que lhes impusesse a suserania de Jerusalém, tal como Balduíno II e Fulque tinham feito. Em 1148
Balduíno III já tinha chegado à maioridade e desejava mais autoridade no governo reino, enfrentando
alguma resistência da mãe.

A 24 de Junho de 1148 reuniu-se um concílio nos arredores de Acre para decidir o curso da cruzada.
Estavam presentes os soberanos da França, Germânia e Jerusalém, mas não os do Condado de Trípoli, do
Principado de Antioquia e do Condado de Edessa. Edessa estava firmemente na posse de Nur ad-Din e a
reconquista da cidade parecia um objectivo irreal, pelo que se discutia uma campanha contra Alepo,
Ascalão ou Damasco.

O objectivo de Alepo recebia a oposição de Luís VII de França devido ao desentendimento com Raimundo
de Poitiers; Ascalão não era uma prioridade para Balduíno III de Jerusalém, uma vez que este território
passaria para o Condado de Jafa e Ascalão do seu irmão Amalrico, que apoiava a mãe na disputa contra
Balduíno.

Damasco era cobiçada por Nur ad-Din, e a sua conquista ajudaria a limitar o poder deste emir2 . Por outro
lado, esta era uma cidade importante na história do cristianismo, o que agradava aos cruzados ocidentais15 ,
ao rei de Jerusalém e aos Templários14 . Mas apesar de no momento estar alinhada com Nur ad-Din como
consequência de uma tentativa de conquista por Balduíno III, esta cidade por vezes aliara-se aos estados
cristãos quando surgia um poderoso senhor muçulmano, como Zengi, que poderia ameaçar a sua
independência, ajudando assim a manter o equilíbrio geopolítico na região.

Este objectivo recebeu a oposição de Melisende de Jerusalém, de alguns nobres nativos dos estados
cruzados e de Leonor da Aquitânia, que por este motivo foi mais uma vez aprisionada pelo seu marido. Mas
em Julho os cristãos reuniram-se em um exército de talvez 50.000 homens em Tiberíades para atacar
Damasco3 .

Cerco de Damasco

O cerco a Damasco na Segunda Cruzada


Os cruzados decidiram atacar Damasco a partir do oeste, onde havia pomares que forneceriam alimentos e
água6 . Chegaram a Daraya a 23 de Julho com o exército de Jerusalém na vanguarda, seguido pelos
franceses e depois os germânicos na retarguarda.

No dia 24 os muçulmanos, defendidos por torres e muros, atacaram constantemente os cruzados com
flechas e lanças por entre os caminhos estreitos dos pomares. Depois de um ataque de Conrado III da
Germânia, os latinos perseguiram os inimigos até ao rio Abana e forçaram-nos a entrar na cidade, que foi
imediatamente posta a cerco. Os habitantes de Damasco barricaram as ruas principais da cidade,
preparando-se para um ataque iminente14 , mas também mesmo tempo conseguiram forçar os cristãos a
recuar de volta para os pomares, onde estavam sujeitos a emboscadas e ataques de guerrilha.

Segundo Guilherme de Tiro, a 27 de Julho os cruzados decidiram passar para a planície a leste da cidade,
menos fortificada mas também com pouco acesso ao reabastecimento de comida e água2 . Segundo alguns
relatos, o governador damasceno teria subornado alguns líderes cristãos para passarem para uma posição
menos defensável, simultaneamente com a promessa de desfazer a aliança com Nur ad-Din se estes
levantassem o cerco14 .

Entretanto, o governador de Damasco tinha pedido ajuda aos irmãos Saif ad-Din Ghazi I de Mossul e Nur
ad-Din de Alepo, filhos do conquistador de Edessa. Entretanto, ambos os campos sofriam com intrigas
entre facções. Os damascenos, com razão, temiam que qualquer dos filhos de Zengi tentassem tomar a
cidade assim que se afastasse a ameaça cristã. Os cruzados discutiam sobre qual o nobre que ficaria na
posse da cidade depois de conquistada.

Com a chegada do exército de Nur ad-Din, os cristãos ficavam mais vulneráveis e não conseguiam voltar a
uma posição mais fortificada14 , pelo que os nobres nativos dos estados cruzados se recusaram a continuar o
cerco6 . Deste modo os três reis retiraram então para Jerusalém a 28 de Julho, acossados por arqueiros
seljúcidas16 .

Consequências

O fracasso em Damasco intensificou a discórdia entre os diferentes contingentes cruzados, que se sentiam
traídos uns pelos outros6 . Conrado III chegou a posicionar-se para tomar Ascalão mas os outros dois reis
não enviaram os seus exércitos, pelo que o germânico abandonou a região e voltou a Constantinopla para
reforçar uma aliança com Manuel I Comneno. Luís VII de França permaneceu em Jerusalém até 1149.

A Segunda Cruzada teria consequências desastrosas a longo prazo para os estados cruzados. Damasco
submeter-se-a à soberania de Nur ad-Din em 1154. Balduíno III de Jerusalém conquistou Ascalão em 1153,
agravando o conflito com o Califado Fatímida do Egipto, e os cruzados chegaram a ocupar Cairo na década
de 1160, mas por pouco tempo6 .

Após os fracassos desta cruzada, chegariam poucos reforços da Europa - a travessia da Anatólia ficaria
vedada pelos turcos e a única rota disponível tornou-se a marítima, a bordo de navios das cidades-estado da
Itália. As relações com o Império Bizantino continuaram tensas, marcadas por frequentes alianças, mas
também pela tentativa de domínio bizantino sobre os estados cruzados.

Em 1171, Saladino foi proclamado sultão do Egipto e unificaria este território à Síria, cercando
completamente os territórios cruzados. Depois da morte de Manuel I Comneno em 1180 o Império
Bizantino perdeu muito do seu domínio na região, e Saladino conquistou Jerusalém e a maioria dos
territórios cruzados em 1187, provocando a proclamação da Terceira Cruzada6 .

Reinaldo de Châtillon foi um dos europeus que veio na Segunda Cruzada. Tornou-se príncipe de Antioquia
por casamento depois da morte de Raimundo de Poitiers, e após algumas décadas como prisioneiro dos
muçulmanos voltaria ao Reino de Jerusalém. Seria em larga medida pela sua imprudência, que teria
provocado desnecessariamente os estados muçulmanos ao redor do Ultramar, incitando-os à jihad e a
criarem uma frente comum, que toda a presença ocidental no Levante seria erradicada.

Na Europa, Bernardo de Claraval considerou ser seu dever enviar um pedido de desculpas ao papa,
apontando os pecados dos cruzados como a causa do falhanço17 . Tentaria ainda proclamar uma nova
cruzada. Não conseguindo, tentou desassociar a sua imagem da Segunda Cruzada, e morreria em 11533 .

A cruzada contra os eslavos serviu para enfraquecer as tribos pagãs, mas seguiu-se um período de vários
conflitos na região, também entre os diversos poderes cristãos. A única vitória cristã da Segunda Cruzada
foi assim a participação dos cruzados na Reconquista da Península Ibérica, e em particular no cerco de
Lisboa de 11476 .

Fontes

Testemunhos medievais

De entre as crónicas, histórias e testemunhos contemporâneos da Segunda Cruzada, podem destacar-se:

Histórias dos cruzados: Perspectiva islâmica:

 De expugnatione Lyxbonensi (A conquista de  Dhail ou Mudhayyal Ta'rikh Dimashq


Lisboa), Osberno (em latim) (Continuação das Crónicas de Damasco), Ibn
o Da carta do cruzado sobre a al-Qalanisi (em árabe)
conquista de Lisboa em O Portal da o The Damascus Chronicle of the
História (em português) Crusaders, extracted and translated
o Osbernus. De expugnatione from the Chronicle of Ibn al-Qalanisi
Lyxbonensi. The Conquest of Lisbon (em inglês). H. A. R. Gibb ed.
(em inglês). Charles Wendell Londres: [s.n.], 1932.
David ed. [S.l.]: Columbia University
Press, 1936. Perspectiva bizantina:
o Excertos (em inglês)
 De profectione Ludovici VII in orientem (A  Historia, Nicetas Coniates
expedição de Luís VII no oriente), Odo de o O City of Byzantium, Annals of
Deuil (em latim) Niketas Choniatēs (em inglês). Harry
o De profectione Ludovici VII in J. Magoulias ed. [S.l.]: Wayne State
orientem (em inglês). Virginia University Press, 1984.
Gingerick Berry ed. [S.l.]: Columbia o Trechos (em inglês)
University Press, 1948.  Os feitos de João e Manuel Comneno, João
 Gesta Friderici I Imperatoris (Os feitos do Cinamo
Imperador Frederico I), Otão de Freising (em o Deeds of John and Manuel Comnenus
latim) (em inglês). Charles M. Brand ed.
[S.l.]: Columbia University Press,
o Gesta Friderici I Imperatoris. The 1976.
Deeds of Frederick Barbarossa (em
inglês). Charles Christopher Colectâneas:
Mierow ed. [S.l.]: Columbia
University Press, 1953.  A Segunda Cruzada e consequências, Internet
Medieval Sourcebook (em inglês)

 Quantum praedecessores, Patrologia Latina


(em latim)
Terceira Cruzada

A Terceira Cruzada (1189-1192), pregada pelo Papa Gregório VIII após a tomada de Jerusalém por
Saladino em 1187, foi denominada Cruzada dos Reis. É assim denominada pela participação dos três
principais soberanos europeus da época: Filipe Augusto (França), Frederico Barbaruiva (Sacro Império
Romano Germânico) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra), constituindo a maior força cruzada já
agrupada desde 1095. A novidade dessa cruzada foi a participação dos Cavaleiros Teutônicos.

Antecedentes

Frederico Barbarossa representado como um cruzado (iluminura do século XII).

Acossados por graves lutas internas e ataques dos maometanos ao longo de 25 anos depois da segunda
cruzada, os estados cruzados do Oriente mergulharam numa situação política e militar difícil. Inversamente,
em termos econômicos e patrimoniais, conheceram uma época de desenvolvimento. No século XIII,
redigiu-se o código denominado Assises de Jerusalém (Fundamentos do Reino de Jerusalém), que
estabelecia o sistema feudal na região. Duas ordens militares cristãs, a dos cavaleiros de São João de
Jerusalém e a dos templários, aumentaram seu poderio nesses reinos. O regime feudal difundia-se vários
povos europeus ali estabelecidos. Este clima, no entanto, acicatou disputas entre os estados e os próprios
cristãos. Outro perigo espreitava: Saladino, o sultão do Egito. A Igreja ficou completamente latinizada, e
consolidou-se uma população oriunda de quase todos os países da Europa.

Na década de 1180, o Reino Latino de Jerusalém atravessava uma fase delicada. O rei Balduíno IV estava
sendo devorado pela lepra e desafiado por um baronato cada vez mais manhoso. Os muçulmanos,
pressentindo essa fraqueza, mantinham a pressão no máximo. Qualquer passo em falso seria catastrófico
para os cristãos. E não tardou para que ele fosse dado, pelo cavaleiro Reynald de Châtillon, que atacou uma
caravana na qual viajava a irmã do sultão Saladino. Na confusão que se seguiu, Saladino convocou uma
jihad.

A Batalha de Hattin num manuscrito medieval.


Saladino capturou Damasco em 1174 e Alepo, em 1183. Em 1187, avançou pela Galileia e, nos Cornos de
Hattin, travou a Batalha de Hattin contra um exército cristão. Do lado cristão, as tropas do francês Guy de
Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, e o príncipe da Galiléia Raimundo III de Trípoli. Ao todo, havia
cerca de 60 mil homens - entre cavaleiros, soldados desmontados e mercenários muçulmanos. Já a dinastia
aiúbida, repreentada por Saladino, contava com 70 mil guerreiros. Quando os cruzados montaram
acampamento em um campo aberto, forçados a descansar após um dia de exaustivas batalhas, os homens de
Saladino atearam fogo em volta dos inimigos, cortando seu acesso ao suprimento de água fresca. A cortina
de fumaça tornou quase impossível para os cristão se desviarem da saraivada de flechas muçulmanas.
Sedentos, muitos cruzados desertaram. Os que restaram foram trucidados pelo inimigo, já de posse de
Jerusalém (tomada em em Outubro de 1187). Saladino poupou a vida de Guy, enquanto Raimundo escapou
da batalha com sucesso. Isso desencadeou na cristandade uma nova onda de preocupação com a Terra
Santa. Em 1189, Guy de Lusignan tentou reconquistar a cidade, num conflito que duraria anos e só seria
resolvido com a chegada de um novo personagem: Ricardo Coração de Leão, o rei da Inglaterra.

A Cruzada

A morte de Frederico Barbaruiva, de Gustave Doré (1832-1883)

As disputas entre os estados cruzados e a ameaça do sultão Saladino, que se apoderara de Jerusalém em
outubro de 1187, levaram o Papa Gregório VIII a lançar imediatamente uma nova cruzada, com o apoio de
vários monarcas entre os quais o imperador germânico Frederico Barba Ruiva, Filipe Augusto da França, e
Henrique II da Inglaterra (depois substituído pelo seu sucessor, Ricardo I, Coração de Leão), juntamente
com Guilherme II da Sicília.
Ricardo Coração de Leão.

O imperador Frederico Barba Ruiva, atendendo os apelos do papa, partiu com um contingente alemão de
Ratisbona e tomou o itinerário danubiano pela Europa do Leste e atravessando com sucesso a península da
Ásia Menor. Na Cilícia, ao atravessar o Sélef (hoje Goksu), um dos rios da Anátolia Oriental, Frederico
caiu do cavalo e, não conseguindo se levantar devido ao peso da armadura que vestia, morreu afogado. Da
sua morte resultou, na prática, o fim desse núcleo.

Ricardo Coração de Leão deixa a Terra Santa.

Os franceses e ingleses foram pelo mar em direção à Acre, na costa setentrional da Terra Santa. Em Abril
de 1191 os franceses alcançam Acre, no litoral da Terra Santa, e dois meses depois junta-se-lhes Ricardo.
Ao fim de um mês de assédio, os cruzados tomam a praça da cidade e rumaram para Jerusalém, agora sem
o rei francês, que regressara ao seu país depois do cerco de Acre. Ainda em 1191, em Arsuf, Ricardo
Coração de Leão derrotou as forças muçulmanas e ocupou novamente Jaffa (atual Tel Aviv).

Se Ricardo Coração de Leão conseguiu alguns atos notáveis - a conquista de Chipre (que se tornou um
reino latino em 1197), Acre, Jaffa e uma série de vitórias contra efectivos superiores - também não teve
êxito em massacrar prisioneiros (incluindo mulheres e crianças). Ao garantir a volta da cidade de São João
de Acre para a mão da cristandade, Ricardo conquistou o título de Coeur de Lion (Coração de Leão, em
francês). Com Saladino, teve um adversário à altura, combatendo e travando uma batalha tática. Apesar de
inimigos e de nunca terem se encontrado pessoalmente, Saladino e Ricardo se respeitavam. Trocaram
presentes e honrarias, culminando em 1192, num acordo entre os dois soberanos: os cristãos mantinham o
que tinham conquistado na Palestina e obtinham o direito de peregrinação (desde que desarmados) a
Jerusalém (que ficariaa em mãos muçulmanas). Isso transformou São João de Acre na capital dos Estados
Latinos na Terra Santa. Embora o almejo maior não tenha sido alcançado, que era a conquista da cidade
santa, alguns resultados tinham sido obtidos: Saladino vira a sua carreira de vitórias iniciais entrar num
certo impasse e o território de Outremer (o nome que era dado aos reinos cruzados no oriente) sobrevivera.
Com isso terminou a terceira cruzada, que, embora não tenha conseguido recuperar Jerusalém, consolidou
os estados cristãos do Oriente.

Após a trégua que combinou com Saladino, Ricardo voltou à Inglaterra sem jamais haver entrado na cidade
santa. Naufragou. Foi preso pelo Duque da Áustria, cujo estandarte removera das muralhas de Acre quando
da conquista desta cidade, e vendido ao imperador germânico que o libertou mediante resgate.

Quarta Cruzada

A Quarta Cruzada (1202-1204) foi começada com a intenção de tomar a Terra Santa, então em mãos
muçulmanas, através da conquista do Egito. Entretanto, a cruzada foi desviada de seu intuito original e os
cruzados, junto aos venezianos, tomaram e saquearam Constantinopla, cidade cristã capital do Império
Bizantino. Esse evento levou à fundação do Império Latino e à consolidação do Grande Cisma do Oriente
entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa.

A pregação e a organização

O doge (duque) Enrico Dandolo, de Veneza, pregando a cruzada, de Gustave Doré.

A partir de 1198, o Papa Inocêncio III começou a incitar a cristandade para empreender um novo esforço de
cruzada, tendo tido bastante receptividade junto da nobreza europeia. O prestígio e capacidade de legislação
e de organização eram apanágio deste papa, o que fazia recair sobre o seu pontificado uma enorme aura de
confiança popular.

A Quarta Cruzada foi empreendida por Balduíno IX, Conde de Flandres, e por Bonifácio II, Marquês de
Montferrat. O transporte dos exércitos fez-se a partir de Veneza, república comercial que então vivia numa
tensão crescente com Constantinopla depois do massacre de mercadores daquela cidade italiana em 1182
devido aos privilégios comerciais que detinham. Se por um lado a pretensão papal desta cruzada apontava
para a destruição do poderio muçulmano no Egito, por outro a tensão entre Veneza e os bizantinos acabaria
por influenciar o decurso das operações militares, cujos objectivos se centravam cada vez mais em
Constantinopla, devido à intenção veneziana de vingar o massacre dos seus mercadores. Além disso, o
Egito mantinha boas relações a todos os níveis com Veneza.
As dificuldades financeiras e a tomada de Zara

Enrico Dandolo negocia com Aleixo V, de Gustave Doré.

Os cavaleiros cruzados, liderados por Bonifácio II de Montferrat e Balduíno IX da Flandres, estavam com
dificuldades financeiras para pagar a os 85 mil marcos de ouro que Veneza pedia pela travessia dos barcos e
exércitos para o Egito. Com suas tropas acampadas na ilha do Lido, em Veneza, à espera de uma solução
para o pagamento da travessia, receberam uma proposta do doge (duque) veneziano Enrico Dandolo: em
vez de resgatarem Jerusalém por uma incursão pelo Egito, como era o plano original, tomar, em troca de
um adiantamento, a cidade de Zara (atual Zadar, na Croácia), que havia sido ocupada pelo rei da Hungria,
um cristão. Esta cidade, efectivamente, veio a cair no poder das hostes cristãs em 1202, contra a vontade de
Inocêncio III, que condenava veementemente a secularização da quarta cruzada e excomungou mesmo os
líderes venezianos.

A situação política em Constantinopla

Chegaram notícias de Constantinopla de que o Imperador Isaac II Ângelo fora derrubado pelo seu irmão
Aleixo III Ângelo e fora cegado. Ora o filho de Isaac II, de nome Aleixo IV Ângelo, conseguira fugir e
apelara aos cruzados para o ajudarem: em troca de o colocarem no trono prometia-lhes dinheiro e os
recursos do império para a conquista de Jerusalém. Ainda hoje os historiadores discutem se as coisas se
passaram assim ou se foi uma justificação para o que se iria suceder.

A tomada de Constantinopla

A entrada dos cruzados em Constantinopla, por Gustave Doré.


Em 1204, os cruzados tomam Constantinopla e coroam Aleixo IV Ângelo como imperador bizantino, a par
de seu pai, Isaac Ângelo. Inocêncio III aceita a situação, sonhando com a reaproximação entre a Igreja
Católica e a Igreja Ortodoxa. Com novos impostos a ser lançados para pagar as promessas feitas aos
cruzados, rapidamente a população ficou à beira da revolta.

Entrada dos cruzados em Constantinopla, óleo de Eugène Delacroix (1840). O episódio representado nessa
tela marcou o início do Império Latino de Constantinopla. (Museu do Louvre, Paris).

Contudo, Aleixo foi assassinado pelos bizantinos, o que impele Veneza a tomar novamente o poder no
Bósforo. Para tal, contaram com o apoio dos cruzados, que em Abril de 1204 assaltaram de novo
Constantinopla, submetendo-a a três dias de massacres e pilhagens, dividindo depois os despojos. Estátuas,
mosaicos, relíquias, riquezas acumuladas durante quase um milénio foram pilhadas ou destruídas durante
os incêndios.

Apesar de enfraquecido, o império bizantino não desvaneceu, retomando a sua pujança em 1261, quando
Miguel VIII Paleólogo toma o poder. Entretanto, os cruzados tinham estabelecido uma série de principados
latinos na Grécia, como o ducado de Atenas.

A trégua assinada por Ricardo Coração de Leão em 1191 mantinha-se, apesar da despropositada e
desastrosa quarta cruzada, em pleno século XIII, assegurando a manutenção dos estados latinos do Levante
(Armênia, Jerusalém, Acre, Trípoli e Chipre) e dos próprios cruzados.
O Império Bizantino depois da Quarta Cruzada. O mapa mostra o Império Latino, O Império de Niceia,
Trebizonda e Épiro. As fronteiras são muito incertas.

Quinta Cruzada

A Quinta Cruzada (1217-1221), ocorreu pela iniciativa do papa Inocêncio III, que a propõs em 1215 no
quarto Concílio de Latrão, mas foi somente posta em prática por Honório III, seu sucessor no trono de São
Pedro. O papado havia também contribuído para desacreditar o ideal das cruzadas, quando delas se valeu
para esmagar os cristãos heterodoxos do sul da França, na chamada Cruzada albigense. Mesmo assim, o
papa Honório III conseguiu adesões para uma nova expedição.

A cruzada foi liderada por André II, Hungria; Leopoldo VI, duque da Áustria; João I de Brienne, rei em
título de Jerusalém e Frederico II, imperador do Sacro Império. O imperador Frederico II concordou em
organizar a expedição.

Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém era necessário conquistar o Egito primeiro, uma vez que este
controlava esse território. Em maio de 1218, as tropas de Frederico II se puseram a caminho do Egito, sob o
comando de João de Brienne. Desembarcados em São João D'Acre, decidiram atacar Damieta (Dumyat),
cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Em agosto atacaram Damietta. Depois de conquistar uma
pequena fortaleza de acesso aguardaram reforços. Em junho, foram reforçadas pelas tropas papais do
cardeal Pelágio (também conhecido como Paio Galvão). Homem autoritário, Pelágio não quis subordinar-se
a Brienne e também interferiu constantemente nos assuntos militares.

Depois de alguns combates, e quando tudo parecia perdido, uma série de crises na liderança egípcia,
permitiam os cruzados ocupar o campo inimigo. Porém, numa paz negociada em 1219 com os
muçulmanos, o incrível aconteceria: Jerusalém era oferecida aos cristãos, entre outras cidades, em troca da
sua retirada do Egito. Mas os chefes cruzados, nomeadamente o cardeal Pelágio, recusaram tal oferta,
objetivo máximo da Cristandade: consideravam que os muçulmanos não conseguiriam resistir aos cruzados
quando chegasse Frederico II com os seus exércitos.

Começaram a cercar o porto egípcio de Damieta e depois de algumas batalhas sofreram uma derrota. O
sultão renovou a proposta, mas foi novamente recusada. Depois de um longo cerco que durou de fevereiro a
novembro de 1219 a cidade caiu. A estratégia posterior requeria assegurar o controle da península do Sinai.
Os conflitos entre os cruzados agudizaram-se e perdeu-se tanto tempo que os egípcios recuperaram forças.
Em julho de 1221, o cardeal ordenou uma ofensiva contra o Cairo, mas os muçulmanos foram retirando e
levando os cruzados a uma armadilha; sem comida e cercados acabaram por ter de chegar a um acordo:
retiravam do Egito e tinham as vidas salvas. Tiveram também de aceitar uma trégua de oito anos.

Não obtiveram todos os seus objetivos, já que os reforços prometidos por Frederico II não chegaram, razão
pela qual ele foi excomungado pelo papa Gregório IX. Essa foi a última cruzada para a qual o papado
mandou suas próprias tropas.

Sexta Cruzada

Frederico II (esquerda) dialoga com Malik Al-Kamil.


A Sexta Cruzada (1228-1229), lançada em 1227 pelo imperador do Sacro Império Frederico II de
Hohenstauffen, que tinha sido excomungado pelo Papa, só no ano seguinte ganharia forma.

Frederico, genro de João de Brienne, herdeiro do trono de Jerusalém, pretendia reclamar seus direitos sobre
Chipre e Jerusalém-Acre. Depois que sua frota partiu, o imperador recebeu uma missão de paz do sultão do
Egito, que retardou o seu avanço, e o papa Gregório IX excomungou-o por ter demorado a se engajar na
luta.

Finalmente, no verão de 1228, depois de muita hesitação, acabou por partir ao Oriente para se livrar da
excomunhão que o papa lhe havia imposto, apesar de ser defensor do diálogo com o Islã, religião que o
apaixonava sobremaneira, e preferir conversar em vez de combater. Ao mesmo tempo, o papa proclamou
outra Cruzada, desta vez contra Frederico, e seguiu atacando as possessões do imperador na Península
Itálica. Tanto em Chipre como em Acre, no entanto, suas pretensões não tiveram êxito, sobretudo em
virtude de sua excomunhão.

O minguado exército de Frederico II, auxiliado pelos cavaleiros teotônicos, foi diminuindo com as
deserções, e uma semi-hostilidade das forças cristãs locais devido à sua excomunhão pelo Papa.
Aproveitando-se das discórdias entre entre os sultões do Egito e Damasco, Frederico II conseguiu, por
intermédio da diplomacia, um vantajoso tratado com o Egito de Malik Al-Kamil, sobrinho de Saladino.
Pelo tratado de Jafa (1229), Jerusalém ganhou Belém, Nazaré e Sídon, um corredor para o mar, para além
de uma trégua de dez anos. Em contrapartida, os cristãos reconheciam a liberdade de culto para os
muçulmanos. Por causa disso, o Papa excomunga Frederico II mais uma vez.

Frederico foi coroado rei de Jerusalém. Atacado pela Igreja, receoso de perder seu trono na Germânia e o
trono de Nápoles, regressou à Europa. Retomou relações com Roma em 1230. Mas a derrota dos cristãos
em Gaza fê-los perder os Santos Lugares em 1244.

Sétima Cruzada

Luís IX (São Luís) liderando os cruzados no ataque à Damietta, no Egito


Após o fim dos dez anos da trégua de 1229 (assinada durante a Sexta Cruzada), uma expedição militar
cristã, com poucos homens e poucos recursos, liderada por Ricardo de Cornualha e Teobaldo IV de
Champanhe, encaminhou-se para a Terra Santa, a fim de reforçar a presença cristã nos lugares santos. Não
pôde impedir, entretanto, que, em 1244, Jerusalém caísse nas mãos dos turcos muçulmanos. No ano
seguinte dava-se o desastre de Gaza.

Nesse ano, quando o Papa Inocêncio IV abriu o Concílio de Lyon, o rei da França Luís IX, posteriormente
canonizado como São Luís, expressou o desejo de ajudar os cristãos do Levante. Luís IX levou três anos
para embarcar, mas o fez com um respeitável exército de 35.000 homens. Aproveitou o monarca francês as
perturbações causadas pelos mongóis no Oriente e partiu, de Aigues-Mortes, para o Egito em 1248. Escalou
em Chipre em setembro de 1248, atacando depois o Egito

Em junho de 1249, foi recuperada para os cristãos Damietta, que serviria de base de operação para a
conquista da Palestina. No ano seguinte, quase conquista o Cairo, só não o conseguindo por causa de uma
inundação do Nilo e porque os muçulmanos se apoderaram das provisões alimentares dos cruzados, o que
provocou fome e doenças como o escorbuto nas hostes de São Luís. Ao mesmo tempo, Roberto de Artois,
irmão do rei, depois de quase vencer em Mansurá, foi derrotado devido a sua imprudência.

Perante este cenário, com seu exército dizimado pelo tifo, São Luís bateu em retirada. O rei chegou é feito
prisioneiro em Mansurá, sendo posteriormente libertado após o pagamento de um avultado resgate (800 mil
peças de ouro) e restituição de Damieta, em maio de 1250. Só a resistência da rainha francesa em Damietta,
permitira que se conseguisse negociar com os egípcios.

Livre do cativeiro seguiu para a Palestina em companhia de seu irmão Carlos D'Anjou. Permaneceu quatro
anos na Terra Santa. Só abandonaria a Palestina em 1254, depois de conseguir recuperar todos os demais
prisioneiros cristãos e de ter concluído um esforço de fortificação das cidades francas do Levante
(indiretamente, as invasões mongóis deram o seu contributo). Quando voltou recebeu a notícia do
falecimento da regente, sua mãe, Branca de Castela.
Oitava Cruzada

Em 1265, os egípcios da dinastia mameluca tomaram Cesareia Marítima, Haifa e Arsuf; em 1266,
ocuparam a Galileia e parte da Armênia e, em 1268, conquistaram Antioquia. O Oriente Médio vivia uma
época de anarquia entre as ordens religiosas que deveriam defendê-lo, bem como entre comerciantes
genoveses e venezianos.

O rei francês Luís IX (São Luís), retomou então o espírito das cruzadas e lançou novo empreendimento
armado, a Oitava Cruzada , em 1270, embora sem grande percussão na Europa. Os objetivos eram agora
diferentes dos projetos anteriores: geograficamente, o teatro de operações não era o Levante mas antes
Túnis, e o propósito, mais que militar, era a conversão do emir da mesma cidade norte-africana.

A morte de São Luís.

Luís IX partiu inicialmente para o Egito, que estava sendo devastado pelo sultão Bibars. Dirigiu-se depois
para Túnis, na esperança de converter o emir da cidade e o sultão ao Cristianismo. O sultão Maomé
recebeu-o de armas nas mãos. A expedição de São Luís redundou como quase todas as outras expedições,
numa tragédia. Não chegaram sequer a ter oportunidade de combater: mal desembarcaram as forças
francesas em Túnis, logo foram acometidas por uma peste que assolava a região, ceifando inúmeras vidas
entre os cristãos, nomeadamente São Luís e um dos seus filhos. O outro filho do rei, Filipe, o Audaz, ainda
em 1270, firmou um tratado de paz com o sultão e voltou à Europa. Chegou a Paris em maio de 1271 e foi
coroado rei, em Reims, em agosto do mesmo ano.
Nona Cruzada

Príncipe Eduardo da Inglaterra, depois Eduardo I.

A Nona Cruzada é, muitas vezes, considerada como parte da Oitava Cruzada.

Alguns meses depois da Oitava Cruzada, o príncipe Eduardo da Inglaterra, depois Eduardo I, comandou os
seus seguidores até Acre embora sem resultados.

Em 1268, Baybars, sultão mameluco de Egito, reduziu o Reino de Jerusalém, o mais importante dos estados
cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre. A paz era mantida pelos esforços do rei Eduardo
I, apoiado pelo Papa Nicolau IV.

Em 1271 e inícios de 1272, Eduardo conseguiu combater Baybars, após firmar alianças com alguns de seus
adversários. Em 1272, estabeleceu contatos para firmar uma trégua, mas Baybars tentou assassiná-lo,
enviando homens que fingiam buscar o batismo como cristãos. Eduardo, então, começou preparativos para
atacar Jerusalém, quando chegaram notícias da morte de seu pai, Henrique III. Eduardo, como herdeiro ao
trono, decidiu retornar à Inglaterra e assinou um tratado com Baybars, que possibilitou seu retorno e assim
terminou a Nona Cruzada.