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Os Sofrimentos

eo
Caos deste Final de Século
(Suas verdadeiras causas e a restauração,
possível, da justiça e da paz)

Jorge Boaventura

A presente obra, que damos a público neste momento, é de autoria de


um brasileiro cuja trajetória tem como marcas evidentes, a coerência e a
coragem das idéias que defende, com a nobreza do desinteresse e da
conseqüente independência com que o faz. Colaborador da grande imprensa
do país, em veículos dos quais são exemplos a “Folha de São Paulo” e o
“Estado de São Paulo”. Tem publicado numerosos livros e ensaios,
marcados pela profundidade de um pensamento que, de há muito,
ultrapassou as nossas fronteiras, o que explica as numerosas condecorações
e outras dignidades que lhe têm sido conferidas. A despeito da oposição de
forças a serviço da degradação e da ruína e que têm, por todas as maneiras,
tentado anular-lhe a voz, tem recebido o pensador e publicista Jorge
Boaventura, elogios de vultos como, entre outros, Gilberto Freyre, o imortal
autor de “Casa Grande e Senzala”.
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PREFÁCIO

O Professor Jorge Boaventura, homem de grande cultura e visão,


procurou (como não poderia deixar de ser), no seu brilhantismo, dar uma
explicação clara e concisa dos acontecimentos atuais concernentes à
evolução dos tempos. E tenta faze-lo por intermédio de um bosquejo histórico
em que ficam evidentes, segundo sua visão, as raízes profundas de fatos só
divulgados de maneira superficial. Em conseqüência, expõe ao leitor alguns
aspectos das mais avançadas fronteiras do pensamento científico que, longe
de afastarem a hipótese da existência de um Deus criador, torna-a quase de
aceitação imperativa. A tal ponto que, autores por ele citados, do mais alto
gabarito nos domínios da filosofia e da ciência, concordam na necessidade de
uma metalógica capaz de responder ao meta-realismo que nasce na nova
visão científica do universo. Numa terceira parte de sua exposição, faz um
apanhado resumido e isento de algumas das mais importantes correntes
religiosas dos nossos dias. Finalmente expõe suas idéias acerca do caminho
a ser seguido para a superação dos dias incompreensivelmente trágicos
vividos pela humanidade neste final de século. Desejo ressaltar ainda que a
obra cujo prefácio me pediu que fizesse retrata coragem e profundidade de
que não temos conhecimento tenha encontrado paralelo em obra do mesmo
gênero publicada em nosso país. Tais que me fizeram lembrar palavras de
meu avô, que transcrevo em seguida: “Consagrei a minha existência, desde
os primeiros passos a certo número de verdades e deveres, e tenho sido fiel a
esses deveres e a essas verdades”.

J. V. RUY-BARBOSA
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AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todos quantos, direta ou indiretamente, contribuíram


para que se tornasse clara em nosso espírito, a visão das causas fundamentais
dos sofrimentos que vêm, desde há muito, atormentando a humanidade, bem
como do caos que se tem acentuado neste final de século. Visão que
oferecemos à consideração dos leitores, a quem caberá julgar da validade, ou
não, das idéias propostas à sua análise e avaliação, ao mesmo tempo em que
lhes pedimos, encarecidamente, que não as façam sem ler, armando-se de
paciência, todas as partes de que se compõe este trabalho, que exprime um
conjunto articulado e interdependente delas, mesmo quando, em certos
momentos, possa não parece-lo.
Agradecemos, ainda a coragem da Ed. Presença, nas pessoas do Dr.
Gregório Dobrinescu e de sua filha Margareth, que se dispuseram a dá-lo a
lume e a quem, bem como aos leitores, pedimos desculpas por falhas de
revisão que não nos foi possível realizar adequadamente, dadas as
circunstâncias especialíssimas do período em que escrevemos este livro.

O Autor
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ESCLARECIMENTOS INDISPENSÁVEIS

No momento em que iniciamos este novo esforço, na longa sucessão dos que nos
temos disposto a levar a cabo ao curso de décadas, nossa intenção, nosso propósito
dominante, é oferecer à atenção e à análise dos que vierem a ler as páginas que se seguirão,
pontos capitais da nossa maneira de ver as circunstâncias e dados componentes dos dias
sombrios e crescentemente atormentados pelos quais a humanidade atravessa neste final de
século. Não para tentar sugerir que a nossa visão é, pelo simples fato de acreditarmos em
seu realismo, em sua verdade, necessariamente verdadeira e realista. O julgamento não nos
pertence, mas aos leitores destas páginas, que não escrevemos motivados pela esperança de
recompensa pessoal, como quer que ela possa ser imaginada ou concebida. Fazemo-lo por
compulsão do íntimo da nossa consciência, a cuja voz não é possível fugir, sem o
sentimento da omissão e da recusa a Algo em que acreditamos e diante de Quem não
podemos recusar-nos ou omitir-nos. Trata, se, assim, de serviço. De pesado serviço, tanto
mais quanto pretendemos registrar, sem rebuços, o que nos parece verdadeiro ou, no
mínimo, digno de ser conhecido pela maioria, à qual muita coisa tem sido sonegada, de
modo a impedir que sejam expostas as idéias básicas sobre as quais, acreditamos, poderá
vir a realizar-se a única, verdadeira e definitiva Revolução, aquela capaz de trazer aos
homens a paz, a harmonia e a felicidade com que todos sonhamos. Em esforço anterior,
intitulado “O Mito da Caverna”, utilizamos o que, para outros fins, imaginara Platão, ao
descrever os homens confinados em uma caverna, mantidos de costas para a entrada da
mesma, e iluminados pelas chamas de uma fogueira, não tendo, pois, acesso direto ao
mundo exterior, do qual só lhes era dado ver as sombras deformadas e projetadas sobre o
fundo do lugar onde estavam. Usando a imagem acima descrita, acrescentamos que, nos
dias que correm, vive a maioria dos nossos semelhantes encerrada também em uma espécie
de prisão, cujas paredes são constituídas, não de pedras, mas de preconceitos e idéias tantas
vezes falsas, porém sustentados por poderosos interesses, geralmente inconfessáveis. Não é
nosso propósito magoar, ferir ou ofender quem quer que seja. Ou competir, ou disputar o
que quer que seja, no sentido menor que o egoísmo tantas vezes sugere, ainda que,
freqüentemente, disfarçado em pretextos que sirvam ao mascaramento da sua face,
denunciadoramente desagradável. Prepare-se, pois, o leitor para um relato que, em muitos
aspectos, haverá de parecer-lhe surpreendente e, em alguns casos, verdadeiramente
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chocante. E creia que, em qualquer das hipóteses, estaremos procurando transmitir-lhe


aquilo que julgamos de nosso dever fazê-lo, para que seja julgado pela sua inteligência e
pela voz íntima da sua consciência. Até para responder, além do apelo interior a que
fizemos referência no início deste ESCLARECIMENTO, também aos numerosos que
temos recebido, de semelhantes nossos que não conhecíamos pessoalmente, e que, de
variadas maneiras, nos interpelam, cobrando o reaparecimento da mensagem que
pressentiam em nossa voz e que, segundo eles, lhes foi, subitamente, sonegada. No que
está ao nosso alcance, aqui vai a resposta: primeiro, segundo a nossa consciência, a Quem
nos criou e a Quem todos devemos tudo, inclusive a vida; segundo aos que, mais
claramente, ou menos claramente do que nós, já sentiram, ou irão sentir, o irrecusável
chamado de Sua voz. O Autor
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I PARTE

A DEGRADAÇÃO QUE ESTÁ EM MARCHA


Aparências epidérmicas e motivações profundas
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1 PARTE

A DEGRADAÇÃO QUE ESTÁ EM MARCHA


Aparências epidérmicas e motivações profundas

I.1 - A balbúrdia que torna possíveis perigosas manipulações

Reiterando o propósito que acaba de ser registrado no “Esclarecimento


Indispensável” com que iniciamos mais esta tentativa visando a divulgação de idéias em
cuja validade acreditamos, mas sobre as quais parece-nos existir um esforço enorme no
sentido de impedir cheguem ao conhecimento geral, cabe aos que vierem a ler este livro o
julgamento sobre elas e sobre a utilidade de divulgá-las, segundo os apelos que temos
recebido. De fato, não nos supomos proprietários de verdades irrecusáveis, nem inclinados
a desrespeitar a inteligência e a consciência alheias, como tantos, com surpreendente
desenvoltura, dispõem-se a fazê-lo, em um exclusivismo que usando linguagem mais
contundente do que a que preferimos utilizar, o ensaísta e poeta inglês Pope descreveu
dizendo que, “somente os tolos conseguem pisar firmemente, em terrenos onde os anjos, às
vezes, mal ousam tocar com as pontas de suas asas”. De nossa parte, preferimos imaginar
que o referido poeta teria sido mais feliz se tivesse dito, em lugar de tolos, imprudentes.
Sobretudo tomando-se em conta o ritmo frenético da vida que todos levamos, ritmo que
dificulta, quando não impede, os momentos de reflexão, indispensáveis à percepção do
significado, do valor do que, em uma espécie de sarabanda alucinatória, nos fere os
sentidos, partindo dos veículos de mídia, dos letreiros e cartazes, tantas vezes, em sua
concepção, como que derivados daquela sarabanda que se derrama continuamente, sem
limites e sem peias reais. O que caba de ser apontado talvez seja a causa de haver
afirmado Michael Novak, em sua obra muito promovida e bastante recente, “O espírito do
Capitalismo”, que uma das coisas mais preocupantes dos dias atuais era, para ele a
prevalência das idéias sobre os fatos, mesmo quando estes as desmentem de maneira
frontal.

Não sejamos, portanto, ferinos nem presunçosos; mas não sejamos, também,
covardes, deixando de assinalar o que nos pareça deva ser assinalado, mesmo que isso
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possa causar controvérsia ou, até, escândalo. Escândalo com que não nos comprazemos,
mas que pode ser necessário, quando a alternativa seja escamotear do conhecimento dos
que nos honram com a sua leitura, o que nos pareça útil submeter à consideração da sua
inteligência e da sua consciência. A avaliação realista das nossas limitações, e o respeito
aos nossos semelhantes não significam, pois, covardia e, esperamos, no correr das páginas
que irão seguir-se, ao longo da caminhada que, neste momento, estamos apenas iniciando,
surgirão fatos e interpretações quase sempre mantidos sob pesado véu de silêncio, que
supomos suficientes para comprovar a veracidade do que acaba de ser afirmado.

É bastante possível que muitos dos que estejam lendo estas linhas tenham
dificuldade em aceitá-las como realistas, em um clima em que, à exaustão, e bilhões de
vezes, repete-se que é sagrada a liberdade de expressão. E poucos conseguirão dar-se conta
da diferença existente entre algo que se afirma e reafirma como conceito, e a sua realização
prática. A inexistência da diferença apontada suporia, como condição, que o que temos
designado como “centros de irradiação de prestígio cultural” como, entre tantos outros que
procuraremos analisar em outra parte desta obra, são os veículos da mídia, fossem, todos,
absolutamente isentos e totalmente comprometidos com a fidelidade, na ordem prática, ao
que, como conceito, quase todos louvam e buscam promover. Acha o leitor que, realmente,
é o que acontece? E os interesses de ordem econômico-financeira, serão ficções? E as
pressões decorrentes de opções políticas, não existem? E, caso existam, quais serão as mais
tenazes e mais persistentes na ação: as de cunho ideológico ou as que não o têm e, em
alguns casos, orgulham-se de não tê-lo? Das duas, qual será, na prática, a mais eficaz? Será
mera coincidência, ou simples acaso que, com raríssimas exceções, no campo cultural, os
nomes, de longe, mais promovidos e, por isso mesmo, famosos, são os que integram ou,
pelo menos, de algum modo são úteis a determinadas tendências ideológicas? Ou será
razoável supor que existem causas genéticas que compatibilizem, inexoravelmente, o
talento com as teses fundamentais de determinadas idéias, nada obstante o seu fracasso
objetivo o que, nem por isso impede os seus simpatizantes de continuarem a merecer os
rótulos de “progressistas”, ou “avançados”, ou “modernos”?

Vamos repetir uma vez mais: nós temos consciência das nossas limitações; e, com
toda a sinceridade, podemos afirmar que o que estamos assinalando, ainda de maneira
perfunctória, que procuraremos aprofundar bem mais adiante, fazemo-lo em homenagem
aos que venham a ler-nos e para honrar o compromisso assumido, de responder a apelos
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dos que nos têm apoiado em nossa trajetória e ao imperativo da nossa consciência, que nos
aponta a necessidade de cumprir o que se nos afigura de nosso dever. Sem mágoa alguma,
disponíveis para servir. Não nos sentimos credores diante do dom da vida, mas devedores,
Àquele que no-lo concedeu. Portanto, apenas como exemplo concreto, que julgamos possa
ser útil ao leitor, por acaso surpreendido diante do que registram algumas das linhas acima,
citaremos o cartão que nos enviou o prefaciador de obra nossa, que redigíramos há quase
vinte anos, muito tempo, portanto, antes da “perestroika”, da “glasnost” e da célebre queda
do “Muro de Berlim”. A obra, cuja l.º edição surgiu em S. Paulo, denominava-se “Ocidente
Traído”, lançada pela editora “Impres”. O referido prefaciador, à diferença da nossa
insignificância, foi o grande e saudoso Gilberto Freyre, autor da mais importante e
conhecida obra de cunho sociológico jamais escrita por um patrício nosso, “Casa Grande e
Senzala”, e o cartão, redigido e assinado de próprio punho, com que nos remeteu o
prefácio, e que guardamos até hoje, com carinho, era do seguinte teor: “Caro Jorge
Boaventura, colega ilustre1 vai o prefácio. O seu livro vai ser um acontecimento - mesmo
contando com silêncios atualmente tão da maior parte da nossa imprensa e da nossa
"crítica”.2

Um abraço de renovada admiração”


Gilberto Freyre

1. Designação devida, seguramente, à generosidade de Mestre Gilberto Freyre.


2. Grifo do Autor
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Na obra em questão, entre outras coisas, havíamos realizado uma crítica sistematizada de
todos os aspectos fundamentais da cosmovisão do Materialismo Dialético, promovido, a
nosso ver artificialmente, entre nós, em único modo não alienado, de interpretar o
universo, a vida, o ser humano, a sociedade...

Como pode verificar o leitor, já àquela altura, registrava o grande mestre a


existência de silêncios, que grafou entre aspas, e, para usar suas próprias palavras, “tão da
maior parte da nossa imprensa e da nossa “crítica”, palavra grafada igualmente entre aspas.
Isso, há cerca de vinte anos. Portanto, supomos, de fato existem concepções e idéias
“malditas”, cujo trânsito deve ser bloqueado, bem como em conseqüência boicotados
devem ser os que ousem defendê-las e tentar difundi-las - o que nos parece mais simples e
fácil de aceitar, do que as hipotéticas razões genéticas a que deveríamos recorrer, no caso
de considerar inverosímil a idéia de que existe, usando vocábulo mais simples, cujo
emprego tentam fulminar como correspondendo a algo fantasioso e que é o famoso
“patrulhamento”. Algo assemelhável, por seus efeitos, à censura oficial que, não somente
eles, mas com especial veemência, os que chamaríamos de “patrulhadores”, condenam. É
que gostam de passar, por motivos facilmente compreensíveis, por democratas e liberais
sinceros e, mais do que isso, pelos representantes das alas mais “avançadas” e
“progressistas”, do universo político.

Voltando, porém, às expressões do generoso prefaciador do nosso “Ocidente


Traído”, chamou-lhe certamente a atenção o feitio minudente, ordenado e, supomos, difícil
de contestar, do que foi exposto nas páginas daquele livro, acerca de falhas - ao menos
segundo o nosso entendimento - clamorosamente patentes nos próprios alicerces da
elaborada tentativa de, pela primeira vez na História, organizar a sociedade com base na
negativa necessária e impositiva 3 da existência de Deus ou de algo além, ou fora da
matéria. Sobre aquelas falhas, sobre o caráter materialista da ideologia marxista, em
qualquer de suas nuanças e variedades - eis que o materialismo é a pedra angular de toda a
cosmovisão a que nos estamos referindo, não um aspecto aleatório ou ancilar da mesma -
terá se baseado o mestre para afirmar que a obra, apesar das dificuldades por ele mesmo
apontadas, seria um acontecimento.

Acontecimento que, entretanto, não foi. E não foi, a despeito de - observe o leitor -
3. Grifos do Autor
cerca de vinte anos atrás, as páginas do acontecimento que não foi, registrarem,
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textualmente, o seguinte: “Também não desejamos falar da social-democracia européia, em


especial a alemã, que desaguando de certo modo na República de Weimar, acabou por
permitir a ascensão ao poder do "Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”,
nome por extenso da organização política com que, pela via do sufrágio universal direto,
alcançou Hitler o referido poder, obtendo-o na própria e exclusiva fonte que, segundo a
melhor doutrina do liberalismo, ele deve provir.

“Igualmente não falaremos da I Internacional, ou da III, mas buscaremos, isto sim,


focalizar por alguns momentos a atenção sobre a II Internacional dos nossos dias, a
congregar os “socialismos democráticos” europeus, do tipo dos defendidos por Olof Palm,
Mário Soares, Willy Brandt, Golda Meir e outros.4

“E a razão da preferência está em que, segundo entendemos, os dias do socialismo


radical da União Soviética e dos seus parceiros ideológicos estão contados”... Seguem-se,
na página da obra que estamos citando, algumas razões para o que, no momento em que a
redigíramos, nos parecera uma avaliação mas que hoje, transcorridos cerca de vinte anos,
até a nós nos surpreende, pela dimensão do que, àquele tempo incrivelmente “retrógrado” e
“ alienado” - segundo os que continuam, “malgré tout”, sendo promovidos como
“progressistas” e “avançados” - soa agora como profético, ao menos para os que, não tendo
tomado conhecimento do acontecimento que não foi, possivelmente não poderão julgar,
com propriedade, quem era, afinal “alienado”: nós ou os “progressistas” para quem não
existem manipulação, filtragem nem patrulhamento...

Relendo o que acabamos de escrever, sentimos a necessidade de pedir desculpas a


quem, porventura, se sinta magoado. E esperamos ser compreendidos porque o relato que
estamos fazendo é factual e motivado pelo desejo de alertar os que venham a ler estas
linhas, para a realidade de manipulações que, possivelmente, a maioria ignora existirem.
Nunca para negar o direito de pensar como pareça melhor a quem quer que seja, ou para
tisnar a intenção com que, por vezes, lutam tantos que não pensam como nós,
denodadamente, na defesa daquilo em que acreditam. O ritmo alucinatório das notícias e
das informações, nem sempre verazes e isentas, face ao trepidar frenético das ocupações de
que depende a sobrevivência da maioria esmagadora das pessoas, obviamente, queiramos
ou não, representam conjugação que recomenda prudência por parte de quantos não se
desejem transformar em massas de manobra dos que, por detrás do contexto complexo e
4. Em nosso país, os Partidos que correspondem à II Internacional são: o PSDB e o PDT
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confuso a que acabamos de referir-nos, introduzam distorções difíceis de perceber, mas


capazes de influenciar juízos e condutas. Tudo isso, porém, representa apenas uma espécie
de registro de aparências tão ostensivas que, acreditamos, já não existe quem não as
perceba. As divergências, assim, não se referem à presença, ou não, da balbúrdia, mas à
maneira, ou às maneiras, de interpretá-la.

Alguns, por exemplo, tendem a atribuí-la ao que designam como moderno, e


aceitam-na, sem perceberem que o fazem pela sinonímia falsa que se estabelece entre os
vocábulos moderno, ou novo, e o vocábulo bom. De fato, nem tudo que se supõe moderno,
ou novo, representa progresso. Por exemplo, quando as nossas jovens são levadas à
exibição, a cada dia maior, dos próprios corpos, chegando ao “top less” e ao chamado “fio
dental”, com que se expõem por longas horas ao sol causticante das nossas latitudes,
estarão, como diziam os pretextos inicialmente empregados para induzi-las a tanto, sendo
inovadoras e modernas, além de mais sábias na defesa da própria saúde? O que nos diz a
Ciência, de fato, sobre os “benefícios” da exposição prolongada da pele aos raios solares?
Quanto à inovação e ao modernismo, serão tão “avançadas” e “modernas” as nossas irmãs
silvícolas que desde tempos imemoriais andam praticamente desnudas usando, em muitos
casos, um “fio dental”, quando se banham nos rios, ainda que por motivos bem diferentes,
e feito com material, como cipós disponíveis, gratuitamente, em seu “habitat”? E, ao que
informam os que conhecem os hábitos de nossos indígenas, não se deleitam com expor-se
por horas a fio, aos raios solares que poderiam prejudicar-lhes a saúde, a despeito da
proteção que possuem, representada pelo tom azeitonado das suas peles. Nem tudo,
portanto, rotulado como novo, ou moderno, é de fato digno do rótulo; e quando o seja,
como justificar a sinonímia entre novo e bom? O que, de fato, seja novo - e acabamos de
ver que nem tudo que recebe tal rótulo faz jus a ele - deve primeiro ser testado para que se
verifique se, de fato, é bom e, em tal sentido, representa progresso. Isso é o que recomenda
a prudência, filha do bom senso, justificado pela razão. A açodada aceitação de tudo
quanto é promovido, no bojo confuso de uma massa de estímulos e informações,
interferidas por propaganda tantas vezes não explícita, e cada vez mais levada a cabo por
intermédio de técnicas de sofisticação e eficácia crescentes, não representa
necessariamente tendência a avanço, progresso, modernismo mas, por duro que seja dize-lo
e, para muitos, aceitá-lo, não é mais do que imprudência.
E isso para não sermos tão contundentes quanto o foi o poeta Pope, ao qualificar os
que pisam firmemente em terrenos tão delicados e perigosos que, neles, os anjos mal
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ousam tocar com as pontas das suas asas. E merece ser registrado que a maioria, sentindo a
impossibilidade de situar-se, pela via da reflexão, diante dos fatos, das imagens e das
informações que lhe contundem a sensibilidade, entrega-se, à tentação representada pelo
comodismo, ou pelo que muitos designam como “lei do menor esforço”, e busca “adaptar-
se” a coisas que, bem no fundo, as consciências dos que a integram dizem ser perigosas. E
isso sob a alegação, tantas vezes repetida e tão conhecida, de que “hoje em dia é assim”.
Claro que o leitor, inteligente, percebe que a mesma representa, tão somente, uma
constatação; nunca uma justificativa. “Hoje em dia é assim”, mas poderia, quem sabe, ser
de outra maneira.

Não devemos perder de vista que, até aqui, estamos buscando ser fiéis ao propósito
de, principalmente por meio de exemplos, defender a realidade da existência, em nossa
vida cotidiana, de uma balbúrdia, para a maioria, praticamente inextricável, de notícias,
imagens, informações, cujo fantástico lampejar torna difícil a compreensão de muitos dos
seus significados, sobretudo pelo ritmo frenético, já assinalado, das atividades que
geralmente somos levados a desempenhar, na busca da nossa e da sobrevivência das nossas
famílias.

Não bastasse a modalidade de equívocos de que procuramos dar, ou sugerir, alguns


exemplos, e outros, ainda mais dramáticos, podem ser apresentados. São os expressos pela
violência crescente que, a cada dia que passa, nos vai enclausurando em nossas próprias
casas, enquanto o chamado “crime organizado” aumenta o seu poder nos quadrantes do
mundo e, o que a alguns terá passado despercebido até agora, sobretudo no chamado 1o
Mundo, para o qual, dando apenas um parâmetro em favor do que acaba de ser afirmado,
dirigem-se todas as rotas do tráfico maldito das drogas, só ele, segundo estimativas
geralmente dadas como idôneas, movimentando qualquer coisa em torno de 700 bilhões de
dólares por ano! No 3o Mundo, sobretudo na África, na Ásia, no Oriente Médio, na
América Latina, e em algumas outras regiões de pobreza, amontoam-se populações de
miseráveis e famintos, outras expressões de inominável violência, diante da opulência que,
em lugar de dispor-se, enérgica e desinteressadamente, a ajudar, de maneira efetiva e
permanente, na redução e eliminação dessas nódoas vergonhosas de brutal injustiça, limita-
se geralmente, a sugerir a redução da natalidade, ignorando que, de fato, o planeta em que
vivemos, “tem recursos para todos, embora possam parecer insuficientes para a desmedida
ganância de alguns”.
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Em nosso próprio país, p. ex., de extensão continental, por que, cada vez mais
cresce o número de pobres, de desamparados, de desabrigados e, cada vez mais
claramente, apresentam-se as prioridades indecorosamente indicativas da falta de
sensibilidade e de amor aos nossos semelhantes, de cambulhada com a incompetência, com
a demagogia, com a ausência total, ou quase total, de escrúpulos, quando se trata de
conquista do poder, que a tantos fascina e a muitos parece enlouquecer? Sem querer
privilegiar uma. componente mística da observação do quadro deplorável que estamos, em
pinceladas resumidas e toscas, tentando oferecer à reflexão dos que venham a honrar-nos
com a leitura desta obra, não parece descabida menção à incidência crescente de
pronunciamentos de líderes religiosos de diferentes tendências, convergindo na visão de
uma espécie de rápida aproximação do que seria o final dos tempos ou, pelo menos, o final
de um ciclo da existência dos homens sobre a Terra.

Vejamos, como exemplos a serem avaliados pela profundidade da consciência do


leitor, o que nos diz o “ apóstolo dos gentios”, em sua 2a carta a Timóteo (a citação que é
feita neste ponto, deve-se ao fato de ser a sociedade brasileira de predominância religiosa,
ainda que de religiosidade pouco nítida, mas majoritariamente ligada à tradição judaico-
cristã, alicerçada nas Sagradas Escrituras) - “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá
um período difícil. Os homens se tomarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos,
rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis,
inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de
Deus, ostentando a aparência de piedade mas desdenhando-a na realidade. Dessa gente,
afasta-te!...”

E ainda do mesmo apóstolo Paulo, em sua epístola aos Gálatas: “Recomendo, pois,
deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfaçais aos apetites da carne. Porque os desejos
da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros.
É por isso que não fazeis o que quereríeis. Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não
estais sob a Lei. Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem,
idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos,
invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes.
“Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão
o reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência,
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afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra essas coisas, não há lei.”
As epístolas citadas, foram-no nos trechos expressivos de situação assemelhável à que,
cada dia mais nitidamente, se vai impondo às sociedades atuais, principalmente às mais
sujeitas à massa colossal de estímulos, sugestões explícitas ou subliminares, notícias de
veracidade não assegurável em todos os casos, tudo no ritmo já mencionado, que torna
praticamente impossível à maioria, deter-se para analisar o que suscita a sua atenção e lhe
fere a sensibilidade. Veja o leitor como as explicações que sentimos necessárias à citação
de dois trechos bíblicos, figuram em texto que, como este, visa o público que continua a
ser considerado integrante do que, em meados deste século, era freqüentemente designado
como “civilização ocidental cristã”, designação que, aliás, serviu como “slogan” principal,
em termos da necessidade de salvá-la, na 2a Guerra Mundial, travada contra a brutal
violência do Estado totalitário nazista. Guerra em que morreram muitos milhões de jovens
do mundo inteiro, inclusive patrícios nossos, convencidos de que a estavam, de fato,
salvando, por ser algo precioso e digno de seu sacrifício. Hoje, repetimos, sentimos a
necessidade de justificar a citação de dois trechos do Novo Testamento, precisamente o
característico da vertente cristã, da tradição cultural judaico-cristã, de que somos parte,
embora sob o esforço destruidor, desfigurador, degradador a que nos estamos referindo e
que, confrangedoramente, se patenteia diante dos olhos de todos.

Em obra anterior nossa, “O Mito da Caverna”, tomamos a liberdade de lançar mão


de célebre alegoria de Platão, que para outros fins, ligados à sua maneira de ver a aquisição
do conhecimento pelo ser humano, descreveu uma caverna imaginária, em cujo interior,
homens atados de maneira a não poderem voltar-se para ver diretamente o mundo exterior,
eram iluminados pela luz bruxuleante de uma fogueira, que lhes permitia enxergar, daquele
mundo, apenas as sombras projetadas e pouco nítidas que apareciam sobre o fundo da
caverna, que lhes ficava fronteiro. Na oportunidade a que nos referimos, arriscamos dizer
que hoje todos, ou quase todos, vivemos como aquele grupo humano da alegoria de Platão:
apenas, em nossos dias, as paredes da “caverna” não são de pedra, mas de idéias
deformadas ou francamente falsas, sustentadas por interesses inconfessáveis. Por isso, ao
nos aproximar-nos do final das considerações até aqui submetidas à avaliação dos que
venham a lê-las, queremos reiterar, com base nelas, a necessidade da prudência, em lugar
do açodamento, que podendo vitimar a todos, vitima sobretudo a juventude que, em sua
inexperiência, desejo de auto-afirmação e arrojo, compreende menos as vantagens de não
aceitar de pronto, quanto seja apresentado como “moderno” ou “avançado”. Para ela será
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sempre mais difícil, aceitar como dignas de exame, as idéias que este escriba registrou em
pequeno ensaio, editado pelo mesmo bravo editor deste livro, sob o título: “Democracia ou
Paganização?”. Ou outras idéias de mesma índole, possivelmente mais expressivas do que
as nossas. Finalmente: até aqui, indícios epidérmicos da balbúrdia. Daqui para diante,
ainda na I Parte desta obra, uma tentativa de análise de suas motivações profundas. Antes
de passar a ela, porém, seja-nos permitido transcrever palavras de um eminente sacerdote,
o arcebispo D. Luciano Cabral Duarte, doutor em Filosofia pela Sorbone, nas quais se
verifica que, não apenas nós, percebemos a gravidade do que vem se passando em
conseqüência da balbúrdia a que, até aqui, fizemos propositalmente, reiteradas referências.

Passemos, porém, à transcrição das palavras de D. Duarte, nas quais se inserem


alguns aspectos da busca das causas profundas da trágica degradação que está em marcha,
busca a que pretendemos dedicar-nos, sem presunção, agressividade ou petulância mas,
também, sem covardia ou timidez, pois desejamos fazê-lo em espírito de serviço,
atendendo a apelos de muitos e ao imperativo da nossa própria consciência, como de resto
já ficou registrado anteriormente: “... Esta pobreza espiritual, este vazio que se procura
ocultar com a agitação e o barulho exterior” 5, tudo isso não está aí por acaso. Estamos
colhendo os frutos da nossa civilização secularizada. O secularismo é o coroamento do
esforço do coração humano, rendido ao “poder das trevas”, para construir uma sociedade
de onde Deus, e mesmo qualquer remanescência do sagrado, desapareceram.

“O mundo, entendido como humanidade, é sempre um lugar ambíguo, onde o Bem


e o Mal travam o seu infindável combate. Existem séculos marcados pela prevalência do
Bem. Há também períodos onde o mal assoma, com o ímpeto insolente de um presumido
vencedor. Este melancólico final de século que vivemos é sem dúvida, um dos capítulos da
História onde a escuridão prevalece.6

“Na esteira das conquistas científicas que surgiram depois da 2a Guerra Mundial, o
homem traçou, mais claramente do que nunca, o seu próprio destino: o progresso sem
limites, arrancando da Terra seus tesouros inesgotáveis. A História contemplou, com uma
centelha de ironia em seus olhos cansados, o homem tentando mais uma vez ser o deus do
homem. Porque esta é a filosofia subjacente ao pensamento moderno: o homem é, ao
mesmo tempo, princípio e fim de si próprio. Quando eu começo a ter consciência de mim
5. Grifos do Autor
mesmo, não
6. Grifos do sei
Autorde onde venho. Isto não tem importância: eu só começo, realmente, quando
17

sou consciente. E quando a consciência desabotoa em mim, sou eu que me torno


consciente de mim mesmo, através do conhecimento do mundo. Sujeito e objeto de sua
existência, a geração atual vive, mais uma vez o sonho de Protágoras, na marcha da
humanidade: “O Homem é a medida de todas as coisas”.

"Pergunto-me onde poderia surpreender o âmago deste mundo moderno,


radicalmente secularizado, despojado de toda ambição de transcendência, lambuzando-se
de prazer numa sociedade consumista, sociedade onde o “ter” prima sobre o “ser”, e onde
o espírito que está em cada um de nós, entra num estado de anemia perniciosa, do qual,
aparentemente, não há volta. A filosofia da “sociedade afluente”, da humanidade do
consumo, é o prazer, exprimindo-se no trevo em que, a cada uma das três folhas,
corresponde uma das tentações permanentes do homem: a concupiscência da carne, a
concupiscência dos olhos e a soberba da vida (Epístola de S. João, cap 1 - ver. 16). E nesta
pesquisa, tudo o que tenho lido, nesses últimos tempos, me conduz na direção dos nossos
infelizes jovens drogados 7. Parece-me que é nos efeitos da droga, no seu paroxismo, nos
seus estertores, na ponta desta flecha maldita, que vou encontrar a resposta. A humanidade
secularizada e consumista, pela boca dos jovens drogados revela o fundo do seu coração:
ela quer evadir-se da consciência moral, cuja voz pretende sufocar; ela quer evadir-se do
mundo moderno, repleto de bens de consumo e por isto mesmo vazio; ela quer evadir-se de
uma sociedade onde Deus está morto”.

Na mesma matéria, após muitas outras considerações, recomenda o arcebispo d.


Duarte, como saída para os problemas e males apontados, uma conversão “que revire nossa
vida na direção de Deus e de um compromisso com os homens, nossos irmãos”. Algo
equivalente ao que foi assinalado por Arnold Toynbee, em seus diálogos com o professor
Wakaizumi, da Universidade de Quioto, Sangyo, quando afirmou a sua convicção de que a
humanidade estava necessitando de uma verdadeira revolução, de natureza e profundidade
religiosa. Não nos adiantemos, porém, de vez que, parece-nos, no mundo de hoje, não é
bastante afirmar: é necessário fornecer ao que se afirma, o suporte de fatos e de
argumentos que possam dar consistência ao afirmado. Vamos, portanto, tentar a
identificação das motivações profundas dos males de que temos feito menção até aqui.

I.2 – As motivações profundas


7. Grifos do Autor
18

O leitor, certamente, já tomou conhecimento da expressão “visão holística dos


problemas”, expressão cada vez mais difundida como algo indispensável à compreensão do
que se passa em torno de nós, desde quando, cada vez mais claramente, se vai impondo a
concepção de que nós e o universo de que somos parte, representamos um vasto processo,
em que cada integrante é influenciado e influencia o todo, sendo ilusória a visão de
isolamento e de independência, que, entretanto, muitos imaginam sustentável, entre outras
razões, por não serem facilmente perceptíveis interações que, por isso mesmo, imagina-se
que não existem.

A questão mencionada tem implicações muito sérias, fundamentais mesmo, para a


verdadeira vanguarda do conhecimento humano cuja tendência, que julgamos seja
intuitiva, à síntese, foi e, de certo modo continua a ser, perturbada, em conseqüência do
crescimento muito rápido das características dos fenômenos e das suas relações imediatas
de causas e efeitos. Tem sido este o domínio da Ciência, desde quando convenceram-se os
homens de que deveriam debruçar-se sobre o mundo sensível em que nos integramos, de
preferência a buscar, pela via do pensamento contemplativo e pelo emprego do método
dedutivo, o conhecimento do seu íntimo e das suas relações com o Criador, tido então
como de existência incontestável. Existência imprecisa e confusa no politeísmo, do que
constituiu-se em exceção o povo judeu, por isso mesmo conhecido como “povo eleito”, já
monoteísta durante os milênios que precederam a vinda do Messias esperado, e anunciado
ao menos pelos seus profetas. Vindo o Messias, na pessoa de Jesus, embora rejeitado
naquela qualidade pela maior parte dos judeus, seus contemporâneos, e combatido como
blasfemo pelos líderes religiosos, inclusive os de alta hierarquia, componentes do Sinédrio,
que exigiram a sua condenação à morte, foi a sua ressurreição, sua vitória sobre ela, que
manteve acesa a mensagem da Nova Aliança, a qual, embora como luz bruxuleante,
continua presente passados quase dois mil anos.

Sobre problemas desse gênero, ligados à transcendência, aparentemente, como


muitos continuam supondo, inapelavelmente diferentes do mundo acessível à pesquisa
realizada pelos nossos sentidos, diretamente ou com o auxílio de instrumentos
amplificadores da sua capacidade de perceber, de distinguir, de medir, de comparar, com
apoio principalmente, embora já hoje, não exclusivamente, no método indutivo, a atividade
inquiridora do espírito humano haveria de progredir lentamente no conhecimento do
19

mundo dos fenômenos da natureza e das suas relações imediatas, pelos menos aparentes,
de causa e efeito.

Por isso, a ciência e a tecnologia, durante toda a antigüidade e até, praticamente, o


começo do século 18, progrediram muito devagar; por isso, os eruditos, àquele tempo,
podiam ter uma visão global, significativa, ainda que não minuciosa, de todo o acervo de
conhecimentos acumulados pela humanidade. Embora havendo diferentes linhas de
pensamento dentro daquele acervo, qualquer proposição representativa de flagrante
disparate em relação a ele, seria fácil e generalizadamente identificada como tal, pelo
menos no citado círculo de eruditos. A situação que acaba de ser descrita modificou-se
radicalmente, a partir de uma corrente epistemológica, surgida à altura do século 14,
especialmente pela influência de um monge católico, William Ockham, em conseqüência,
ou como reação, aos excessos da escolástica, que caracterizaram o período final de
decadência da Idade Média. É que, segundo a referida corrente, somente teriam existência
real, no universo, os objetos singulares, de fato apreensíveis pelos nossos sentidos.

Os conceitos universais teriam, existência, apenas, no mundo mental de quem os


concebia, de vez que não existiam “objetos universais”. Não seriam mais do que “sons
vazios”, ou “flatus voces”, como designara Ruscelino, os referidos “conceitos universais”.
Os excessos da escolástica antes mencionados, diziam respeito aos extremos a que haviam
sido levados os realismos aristotélico e platônico, a ponto de alguns escolásticos chegaram
a negar a existência do mundo que, hoje, a maioria considera, como o, de fato, objetivo,
consistente, irrefutável. Consideração, de resto, que pretendemos analisar, muito adiante,
nesta obra.

A questão, como bem percebe o leitor, é nitidamente filosófica e, embora o monge


Ockham haja sido figura polêmica em sua Ordem, discutindo, inclusive, a pertinência da
autoridade, para fins civis, do Papa, na época João XXII, não é considerado um
Nominalista extremado. O fato, porém, é que a sua visão epistemológica desencadeou,
repitamos, a célebre “querela dos universais”, que marcou o ocaso definitivo do período
medieval, que tantos insistem em designar como “Idade das Trevas”.

Sem querer realizar um esforço para a reabilitação de todos os aspectos do


medievo, desejamos, neste exato momento, tentar despertar a curiosidade do leitor isento,
20

para o fato de, com tanta insistência, repetir-se que foi ele um período “de trevas”. Qual
quer fato vergonhoso pela perversidade, pela injustiça, pela brutalidade, pela ignorância,
acompanha-se, geralmente, do comentário: parece coisa da Idade Média, feito, quase
sempre, por alguém que, sobre ela, de fonte idônea, não sabe nada, ou pouquíssimo sabe.

De nossa parte, queremos, igualmente, reconhecer que o leitor que anteriormente


não haja tido a oportunidade de ocupar-se com assuntos de índole filosófica, tem todo o
direito de se estar perguntando: mas, afinal, a que vem toda essa complicação do
Nominalismo, e a ponderação acerca das críticas desfavoráveis ao medievo, que de fato
são praticamente generalizadas? O que têm a ver, tais assuntos, com as causas profundas
dos dramas e sofrimento dos dias atuais? E não apenas reconhecemos o direito do leitor de
fazer tais indagações, como as consideramos auspiciosas. E, também, neste momento, nos
comprometemos a responde-las, de maneira a que possam perceber, todos os que tenham
as mesmas curiosidades, que os assuntos, à primeira vista complexos, ou chocantes, por
contrariarem pontos de vista dominantes - especialmente os relativos às “trevas medievais”
- são na verdade bem simples e inteligíveis, além de denunciadores, no caso das supostas
“trevas”, de distorções que seria imprudente considerar, todas, meramente casuais e
destituídas de intencionalidade. É que já foi citada a opinião de Michael Novak, para
quem um dos fatos mais preocupantes dos dias atuais, é o da prevalência de idéias sobre
realidades concretas, mesmo quando estas as desmentem de maneira frontal. No caso da
“treva medieval”, repare o leitor que se tornou algo que, para a maioria, praticamente “já
transitou em julgado”.

Os próprios compêndios de uso escolar respaldam a hipótese que, não obstante, não
corresponde à opinião de um único medievalista. Antes mesmo de recorrer ao chamado
“argumento de autoridade”, é razoavelmente conhecido que a instituição universitária, a
Universidade, é uma criação, precisamente, do medievo. Nele foram criadas a
Universidade de Paris que, à altura do século XIII, já contava com cerca de l0 mil
integrantes, entre professores e alunos. Também criações medievais foram as universidades
de Salamanca, de Pádua, de Viena, de Cracóvia, de Oxford, de Cambridge, de Bolonha, de
Praga, de Heidelberg todas, ainda hoje, reputadas e famosas. O leitor já teria pensado
nisso? Qual foi o filósofo, no Ocidente, incluídos os da antigüidade clássica, que teria
produzido obra mais importante do que a de S. Tomás de Aquino? Qual foi o poeta lírico
21

de maior expressão, na literatura ocidental, do que Petrarca? Qual a obra literária mais
importante do que “A Divina Comédia”, de Dante?

Quanto a Petrarca, vale acentuar que, conhecendo, durante a Semana Santa, em


cerimônias religiosas realizadas no enclave de Avignon, à época sede do Papado, a jovem
Laura, presentes, ambos, à igreja de Santa Clara, foi ela a sua única musa, durante 40 anos.
E todos sabemos que, do ponto de vista físico, é pouco provável que uma mulher conserve
os seus atrativos durante tanto tempo. É que a expressão amor, aplicada ao sentimento
entre um homem e uma mulher, não era ainda sinônimo de conjunção carnal, ou cópula,
em que se vai tentando transformá-lo, como algo “moderno”, “avançado” “não
preconceituoso”, e quejandos. São algumas ponderações que julgamos útil oferecer à
análise dos que venham a percorrer estas linhas. E por que o fazemos? Por ser indício de
que, efetivamente, é possível manipular, por meio de desinformação sistemática, a maioria
das pessoas, o que vem sendo realizado desde há muitos séculos, e hoje, torna-se ainda
mais exeqüível, face a formidável penetração dos meios de comunicação, em especial os
eletrônicos, a cujo serviço podem ser postas as técnicas, cada vez mais sofisticadas, de
transmissão de mensagens explícitas, ou não, a um público recipiendário que não dispõe,
geralmente, de tempo para refletir sobre a validade do que lhe fere a atenção.

Pensamos não ser demasia repetir o que acabamos de mencionar, embora já o


houvéssemos feito anteriormente. É que se trata de alguma coisa a que atribuímos a maior
importância. Para que se tenha um exemplo, dramático, de quanto tem sido possível
distorcer a verdade, diremos, certos de que haverá de surpreender a muitos, que é bastante
difundido o conhecimento de que imperadores romanos, muitas vezes ofereciam em seus
espetáculos na maior e mais importante de suas arenas, a do Coliseu, em Roma, cristãos
para serem devorados por leões famintos, quando não, embebidos em alcatrão, queimarem
vivos os seguidores do Cristo, transformados, assim, em trágicas tochas. Entretanto,
imaginamos que, em virtude da desinformação a que nos estamos referindo, a maioria
conhece a realidade que acaba de ser mencionada, mas tendo a sua atenção voltada só para
a crueldade e o extremado despotismo dos tiranos por ela responsáveis; poucos terão
refletido que os referidos déspotas não tinham como objetivo tornarem-se impopulares. Ao
contrário, faziam-no para divertir o povo que enchia o Coliseu. E por que o povo conseguia
comprazer-se com tão terríveis espetáculos? Não apenas pela razão que vamos mencionar
mas, sem dúvida, também por ela: é que o primeiro historiador de um certo realce que não
22

se referiu aos cristãos, ou à “seita dos nazarenos”, não para elogiá-la ou aos seus
seguidores, mas para dizer que não tinha indícios concretos de que se compunha de
perversos fanáticos, perturbadores da ordem legal, e envenenadores de fontes, na prática de
homicídios indiscriminados, foi Plínio, o Moço, já no século IV da nossa era. Como pode
ver o leitor, durante cerca de 4 séculos, todos os cronistas e historiadores que se referiam
aos cristãos, faziam-no para caracterizá-los da maneira que, não para desmenti-la, mas para
pôr em dúvida a sua veracidade, escreveu Plínio, o Moço. Já àquele tempo, portanto,
interesses revestidos de poder, conseguiam manejar a desinformação, e usar inverdades
para iludir a boa fé do povo8. Aliás, não fora a sua ressurreição, sublinhemos, e a passagem
do Cristo pela Terra teria, talvez, sido esquecida. Ressurreição, de resto, da morte na cruz,
exigida pelos mais poderosos do povo para o qual, especificamente viera ao mundo,
exigência que contou com o apoio da maioria, desinformada e induzida a erro, na consulta
plebiscitária realizada diante do pretório de Pilatos...

Em linhas anteriores, demos precedência a fatos que nos parecem indicar a


conveniência da reflexão sobre a validade da “verdade indiscutível” das trevas medievais.
Temos, porém, consciência acerca de nossas limitações. Por isso, e como afirmamos que
os medievalistas não concordam com aquela “verdade”, seja-nos permitido citar alguns
deles. Dentre os franceses, Régine Pernoud, cuja obra de maior repercussão foi a que teve
como título “Lumière du Moyen Àge”, como verifica o leitor, “Luz da Idade Média”.
Sobre a referida obra, vale a pena esclarecer que sua autora a escreveu sob o impacto da
surpresa que lhe causou a verificação da enorme diferença entre o que sobre o famoso
“período de trevas” a que nos estamos referindo corria generalizadamente em seu país,
como nos livros em que havia estuda do em sua formação escolar, como no sentido das
preleções que sobre o assunto, ouvira dos seus professores, e os fatos. É que Régine
Pernoud não era uma historiadora, ou estudante de História, quando se defrontou com a
experiência que relata no livro a que estamos nos referindo. Ela, estudante de
Biblioteconomia, recebera como tarefa relacionada às suas obrigações como estudante
daquela especialidade, examinar, para classificar, documentos dos arquivos franceses,
relativos ao período medieval. Como pode verificar o leitor, informações de primeira mão,
pois tratava-se de documentos autênticos, elaborados no referido período; não de
comentários, ou opiniões sobre ele expendidas. E, segundo ela, compulsando os
documentos de irrefutável idoneidade, do conteúdo dos mesmos foi sendo revelada para
ela uma outra Idade Média, de maneira geral, totalmente diferente de tudo quanto, sobre a
8. Tanto que da data do século IV a proibição das perseguições aos cristãos, determinada pelo imperado
Constantino, pelo Edito de
Milão, ano 313 da nossa era. A capital do Império foi transferida paraBizâncio, na Ásia Menor, cujo nome, em honra do
imperador, passou a ser Constantinopla, hoje Istambul. (Nota do Autor)
23

mesma, havia aprendido e lido até então. Não temos a pretensão de constituir-nos em
reformulador do conceito sobre o medievo, pois estamos conscientes de nossas limitações
e, também, do objetivo fundamental, neste momento, desta obra, que é o de evidenciar que,
realmente, é possível e tem sido utilizado no correr dos tempos e continua a sê-lo, e ainda
com maior eficácia, nos dias presentes, o engano em grande escala, da opinião pública, em
matérias, por vezes de capital importância, desde que o referido engano seja de utilidade
para poderosos interesses que costumam agir, por motivos óbvios, geralmente na sombra.
A autora que estamos citando, fazemo-lo em primeiro lugar, pela isenção com que revelou
a sua enorme surpresa, diante dos documentos compulsados, e produzidos no medievo. A
mesma autora publicou outras obras sobre o mesmo período e, quanto a ele, um seu
patrício é tido também, como grande autoridade, o Sr. Henri Pirenne. Realmente, para não
nos estendermos em demasia, repetiremos que, entre os especialistas no assunto, não há
quem respalde a lenda das “trevas medievais”.

Outra autoridade, porém, que merece ser citada, é o Sr Henry R. Loyn, Professor
Emérito de História Medieval, da Universidade de Londres, que recentemente publicou a
obra que, no original, recebeu o título: “The Middle Ages - A Concise Encyclopédia”. A
apresentação da tradução para nossa língua, tradução levada a cabo pelo Sr. Álvaro Cabral,
Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade
Clássica de Lisboa, foi redigida pelo Sr. Franklin de Oliveira, sobre o qual não nos consta
haja sido associado, jamais, o qualificativo de “conservador”, “obscurantista” ou
“reacionário”. Eis como ele deu início à apresentação da edição brasileira - “A grande
maioria dos brasileiros continua prisioneira do preconceito forjado9 pelos historiadores
liberais do século XIX, que definiam a Idade Média como um “período de trevas”. É
preciso soterrar, de vez, equivoco tão grosseiro 10. O Medievo não significa somente a
fundação da Europa em suas bases cristã e romana11. No bojo da Idade Média, gerou-se o
mundo moderno. Lá, com Ockham, Oresme e outros, surgiram os fundamentos da ciência
contemporânea12, como tão claramente comprovou Pierre Duhem”. E segue-se copiosa
argumentação apresentada pelo Sr. Franklin de Oliveira, em favor da existência dos
equívocos em que se têm constituído os conceitos sobre o medievo, difundidos por todos
os meios e modos disponíveis, e não a partir de agora, mas desde há muito tempo. Estamos
evitando citar medievalistas brasileiros, para não correr o risco de, involuntariamente,
omitir o nome de algum.

9. Atenção ao termo empregado. (Nota do Autor)


10. Por que teria sido forjado? Casualmente? (Nota do Autor)
11. Não acontecera, ainda, à época, a Reforma. (Nota do Autor)
12. Em seus aspectos positivos e negativos. (Nota do Autor)
24

Afirmamos, porém, que do pensamento dos estudiosos patrícios do assunto de que


tomamos conhecimento, consta a aceitação da deformação da realidade histórica medieval,
como de resto, de outras realidades históricas, tudo compondo, em nosso entender, a
procedência do esforço que estamos realizando, no sentido de alertar as inteligências dos
que nos leiam para as armadilhas com que pretendem ludibria-las.

Queremos, também, deixar claro que a propagação das inverdades a que nos
estamos referindo não é realizada, sempre, de modo consciente e intencional. Ao contrário,
é de inteira justiça registrar que, na maioria das vezes, a referida propagação é feita por
quem “ouviu falar” sobre o assunto e, sem reflexão, o repete, de maneira obviamente
imprudente e cujos efeitos maléficos não imagina que possam existir. Sobretudo quando
repetir “o que se ouviu”, sintoniza com o “hoje em dia é assim”, ou para o caso, “hoje em
dia todo mundo sabe que é assim”, principalmente, quando “estar na moda”, não ser
“conservador”, parece vantajoso, pelo menos por ser simpático e “inteligente”.

Feita a ressalva, parece-nos conveniente insistir no assunto dos erros a que a


maioria adere, embora, na origem, tais erros tenham sido postos em curso e prestigiados,
por servirem a determinados propósitos que a referida maioria está longe de conhecer ou
de admitir que existem. No que tange à conotação da palavra “trevas”, com ignorância, no
sentido acadêmico, o fato da Universidade ter sido uma instituição criada no período
medieval, do que foram dados os exemplos concretos constantes anteriormente deste texto,
parece que fica desmascarado o equívoco. Mas existem outras imputações infamantes
como, por exemplo, a frase cunhada, se não nos falha a memória, pelo irreverente e nada
religioso autor de “La Sorcière”, “A Bruxa”, Michelet, e que buscava acentuar o que,
segundo ele, teria sido a extrema falta de higiene medieval: “Mil ans; pas un bain!” - Mil
anos; nem um único banho! Ora, é bem sabido que no hemisfério norte o clima, sobretudo
no inverno, não é tão exigente de banhos quanto, especialmente nas zonas ou regiões
tropicais e subtropicais acontece.

O que não deixa de ser uma maneira, pelo menos mais delicada, de explicar certas
insinuações maldosas que, entre nós brasileiros, circulam acerca do amor não muito
ardente à água, observável, ainda hoje, entre os compatriotas do irreverente autor de “A
Feiticeira”.
25

Somem-se ao fato as precariedades tecnológicas e científicas da época e, talvez, ao


menos em parte, já possa o leitor entrever algo correspondente a uma crítica mais racional
do que apaixonada. Mas não é só; a Sra. Régine Pernoud, com base, não em preconceitos,
que não os tinha, a não ser contrários ao período medieval, mas em testamentos feitos
durante a Idade Média, por pessoas que nela viveram e morreram, declara o seu espanto ao
verificar que, entre os bens legados aos herdeiros, era freqüente a menção a banheiras. A
falta de higiene pessoal, portanto, não parece ter sido particularmente acentuada no
medievo.

O que de irrealista circula sobre ele, entretanto, sem levar em conta as


circunstâncias da época, insiste nas conseqüências trágicas da, perdoem-nos os leitores,
“porcaria medieval”. E é aí que entra a questão de que se faz ampla propaganda: a famosa
“peste negra”. Já não se divulga tanto que não houve apenas um surto da referida peste.
Segundo o professor Loyn, anteriormente citado, ela teria assumido caráter epidêmico nos
primórdios do medievo, à altura do século VI da nossa era, oriunda da Etiópia. O segundo
surto ocorreu, ainda segundo o professor da Universidade de Londres, já em pleno século
XIV oriundo da Ásia Central. Refere-se o professor aos períodos mais devastadores da
pandemia que, entretanto, segundo ele, perdurou endêmica, desde o 2o surto até a metade
do século XVII13. Para os leitores que não saibam, a “peste negra” apresentava-se em duas
modalidades: a bubônica, que geralmente levava à morte em seis dias; e a pneumônica, que
podia fazê-lo na metade daquele tempo.

O agente produtor de ambas as modalidades, só foi identificado no final do século


passado, e os seus transmissores são pulgas transportadas pelos ratos em que se hospedam.
Claro que não estamos desejando significar que as conseqüências das terríveis pandemias
nada tiveram a ver com as condições de precária higiene daqueles tempos em que,
inclusive, ninguém possuía a mínima noção acerca de micro-agentes produtores de
moléstias, por afirmar cuja existência foi tão ridicularizado, tantos séculos depois, o grande
Louis Pasteur.

O que queremos realçar é que aquelas condições precárias não foram uma
peculiaridade medieval, período em que, ao contrário, segundo Régine Pernoud,
surpreendeu-a o número de testamentos em que figuravam banheiras legadas aos herdeiros,
como já vimos.

13. Grifos do Autor.


26

Ainda que, no desdobramento dos assuntos que pretendemos submeter à análise dos
que venham a ler este livro, do ponto de vista da cronologia histórica, não tenha chegado o
momento de fazermos referências ao que costuma ser cognominado de “Rei Sol”, o
construtor do imenso palácio de Versailles, com suas centenas de cômodos, Luís XIV,
parece-nos oportuno registrar que, no referido palácio, nenhum daqueles cômodos foi
projetado pelos seus arquitetos, para servir como sala de banho.

E mais: segundo alguns cronistas e biógrafos do chamado “Rei Sol”, tomou ele, em
toda a sua existência, um único banho! É bem verdade que não tendo vivido mil anos, não
poderia dizer dele o “imparcial” Michelet - “mil ans; un seule bain!” Mas há outros dados,
que registramos, não na intenção de, por pura irreverência, toldar a imagem daquele rei.
Ocorre que há cronistas da época que afirmam que as audiências reais, concedidas como
especialíssimo favor, aos que as requeriam sem serem poderosos ou recomendados por
personagens que o fossem suficientemente, eram realizadas “com o rei sentado em sua
cadeira”. E esta não era o trono... Ainda mais: é verdadeira a imputação a S.M. da frase
que se tornou célebre: “l'État cest moi! “, “O Estado sou eu!”.

Os dados citados que, reconhecemos, referem-se a período


histórico muito posterior ao que estamos analisando, entretanto, supomos, são úteis à
avaliação pelos leitores, da existência de muito mais falsificações da verdade e falsas
reputações, do que a sua boa fé teria, quem sabe, imaginado até agora. Voltando, porém, às
“trevas medievais”, é quase certo que o leitor já ouviu falar do infamante “direito de
pernada”, segundo o qual o servo da gleba, ao casar-se, seria obrigado a ceder a noiva ao
seu senhor, para que fosse por este desvirginada. Trata-se, segundo afirmam os
medievalistas, de algo possivelmente difundido com especial vigor, a partir da peça de
Beaumarchais, “Le Mariage de Figaro”, mas que não teve origem no medievo, mas no
“direito de formariage”, que teria durado até o século X, e que consistia no direito que
tinha o senhor de impedir que um seu servo se casasse com cônjuge de outro domínio.

Como se tratasse, porém, de prerrogativa que atentava contra a família, foi abolida
e substituída por uma indenização a ser paga pelo servo da gleba, ao senhor do domínio a
que pertencia e ao qual, se integrava, voluntariamente14. As relações entre servos e
senhores eram muito diferentes das que existem hoje, entre patrões e empregados. Eram
relações de lealdade e proteção e os privilégios não eram exclusividade dos senhores.

14. Grifo do Autor.


27

Todos eram titulares de, digamos, privilégios, não por estarem estabelecidos, de cima para
baixo, em conseqüência de leis e normas de direito positivo, mas como coisas ditadas pelos
costumes, constituindo-se, por isso mesmo, em regras do direito consuetudinário da época.
O leitor, inteligente, percebe que tais ou quais daquelas regras, apreciadas na sociedade de
hoje, podem parecer absurdas e injustas, como ò chamado “direito de séquito”, que dava ao
senhor a faculdade de obrigar o servo que houvesse deixado o seu domínio sem o seu
consentimento, a regressar ao mesmo, ainda que contra a vontade. O que o costume gera,
porém, obviamente sanciona e, por isso, cria menos descontentamentos, animosidades e
conflitos. Talvez a razão, porque a Inglaterra medieval era conhecida como “merry
England”, feliz Inglaterra.

Por outro lado, servo da gleba contém a expressão “servo”, que, em pleno clima de
animosidade hoje reinante entre patrões e empregados, para muitos soa de maneira
desprimorosa. Quando se trata, porém, de quem se dedica, ou diz dedicar-se, ao serviço de
Deus, a expressão servo de Deus passa a ser nobilitante. Claro que o patrão ou o senhor
feudal não podem ser comparados a Deus. O que queremos dizer, apenas, é que a
expressão servo não é, em si mesma, aviltante. Um outro exemplo, imaginamos,
esclarecerá o que queremos significar.

Como podem ser designados, sem nenhum desdouro, os que trabalham para o poder
público, senão servidores públicos? Não haverá, na conotação, mais do que pejorativa, às
vezes aviltante, que se estabelece com a expressão servo, alguma contribuição do orgulho?
De outra parte, o chamado “direito da mão morta”, este representava, de fato, um costume
abusivo. Consistia ele no privilégio que tinha o senhor, falecido o servo, de apropriar-se de
bens móveis por ele adquiridos em vida. Por outro lado, entretanto, convém esclarecer,
existia a norma designada como “glebae adstritio”, segundo a qual estabelecido o vínculo
entre o servo e o senhor, não podia este retirar a terra demarcada para que o primeiro a
cultivasse; nem mesmo quando da transferência do domínio para outro senhor, poderia o
servo ser privado do solo com que se sustentava, sustentava os seus dependentes, além de
pagar, com uma parte da produção, o seu direito de cultivá-lo e de nele permanecer bem
como os seus herdeiros, depois que ele morresse.

Como se vê, o servo, como de resto também o senhor do domínio, não era o
proprietário da área em que vivia ou, no caso do senhor, sobre a qual exercia a sua
28

autoridade. O titular da propriedade imobiliária, era, menos um proprietário, no sentido


atual, do que um administrador do que os costumes consideravam basicamente existente
em favor da família. A cota de produção que o servo entregava ao seu senhor, variava com
as diferentes regiões que, como é sabido, apresentam-se, pela topografia como pela
fertilidade da terra e, por outras circunstâncias, reconhecidamente influentes sobre o valor
das safras, e as áreas adjudicadas. aos servos deviam levar isso em conta, bem como a
parte a ser entregue ao senhor, as suas necessidades de manutenção bem como as de sua
família. Algo, em certo sentido, de inspiração assemelhável à que atualmente, é tão
freqüente designar-se como “módulo familiar”, quando se fala de reforma agrária.
Também deve ser acrescentado que o servo, ou seus familiares, não eram convocáveis para
atividades bélicas, de vez que a sua segurança passava a ser da responsabilidade do senhor.

Danos eventualmente acarretados à terra que cultivava, como conseqüência


daquelas atividades, deviam ser reparados, igualmente, pelo senhor. Quanto ao vínculo
entre o senhor do burgo e os seus vassalos, a situação era semelhante. O vínculo era
estabelecido por iniciativa do vassalo, e o pacto de vassalagem era firmado de público, por
meio de um beijo que se trocavam senhor e vassalo. O burgo, a residência do senhor feudal
era, ao tempo a que nos estamos referindo, fortificada e construída em lugar adequado do
ponto de vista militar, e seus interiores despojados e austeros, nada tinham de parecido
com o fausto que, bem mais tarde, começou a caracterizar os aposentos dos palácios.
Cumpridas as obrigações livremente pactuadas, vassalos e servos nada tinham de
assemelhável aos escravos que, até o século passado, nós mesmos admitíamos em nosso
país.

Eles não eram propriedade dos seus senhores, suseranos, vassalos, ou mesmo do
rei. Eram livres para fazer tudo quanto não lhes fosse vedado pelo acordo que,
voluntariamente, haviam celebrado. A esta altura, convém reiterar o que afirmamos desde
o início destas ponderações: não nos propomos ser advogados do período medieval, nem
pretendemos insinuar que, nele nada houve de deplorável ou condenável. Permitimo-nos,
apenas, em espírito de serviço, assinalar que os fatos, costumes, acontecimentos, devem ser
analisados no contexto cultural em que ocorreram. Não fora assim, como qualificar certos
episódios constantes das Sagradas Escrituras, sobretudo do Antigo Testamento? Ademais,
quando se fala de Medievo, a referência é feita a um extenso período de muitos séculos,
sobre cujo início e cujo final, não concordam sempre os autores. Quanto ao início,
29

obviamente não deve ser situado antes do esboroamento do Império Romano, à altura do
século V da nossa era; quanto ao seu final, seria impróprio, situá-lo além do século XV. E
cumpre realçar que em período tão longo houve - eis que nada é estático no mundo - fases
muito distintas umas das outras.

Assim, sem querer descer a detalhes, como exemplos, citaremos as manifestações


de nítidas alterações culturais, que muitos designam como proto-renascimentos. Desejamos
sublinhar com clareza que estamos nos referindo, até aqui, a aspectos que corresponderam
a traços dominantes e peculiares ao período medieval, não aos dos seus primórdios nem às
conseqüências da sua desfiguração, logicamente precursora, segundo pensamos, da sua
substituição pelo que, em geral, os historiadores designam como Renascimento. Supor
características peculiares à sociedade medieval dados, digamos, do século XV, não nos
parece adequado, pois seria tentar descrevê-la, pelos aspectos que ela apresentou quando já
estava, praticamente, agonizante. Sim, porque, embora não haja perfeita concordância
quanto ao início e ao final da Idade Média, parece não haver discrepâncias quanto à
chamada Renascença ter tido seu começo no século XVI. O que desejamos é ser realistas, e
ainda assim almejando, apenas, que o leitor, com sua inteligência e em sua consciência,
julgue sobre a propriedade e validade, ou não, de nossas ponderações.

De nossa parte, parece-nos muito inadequado ao esclarecimento da verdade ou,


pelo menos, a uma maior objetividade em sua busca, o radicalismo, que gera a intolerância,
tantas vezes, ambos, alimentados pela ignorância e pela imprudência. É falar-se em
medievo e, imediatamente, vêm à baila os servos da gleba e as fogueiras da Inquisição.
Quanto aos primeiros, já tivemos a oportunidade, pouco antes, de informar algumas coisas,
que poderiam ser aceitas mais facilmente, se nos lembrássemos do valor central que, no
período mais típico e peculiar do medievo, era dado à família. A tal ponto, que o
proprietário da terra, como já foi visto, fosse ele suserano, vassalo ou rei, não o era tanto,
como hoje, em sentido individual. Menos do que uma autoridade, ele era o chefe de uma
família, o administrador de patrimônio e privilégios que a ela, mais do que a ele,
pertenciam.

Este foi aspecto que de fato, fizemos aflorar anteriormente, mas que convém repisar
por ser, segundo entendemos, o que torna verosímil o fato de, mesmo o servo da gleba, ter
garantida a sua permanência na referida gleba, bem como os seus descendentes, por
30

ocasião de sua morte ou, antes dela, pela transferência do domínio a outro senhor. De resto
este, suserano ou vassalo, poderia passar a vida crivado de dívidas, sem ter ameaçado o
patrimônio, como vimos, menos dele do que da família. A não ser que a sua inadimplência
fosse devida a procedimentos indignos os quais, mesmo quando não relacionados a
pecúnia podiam, eles sim, levar ao extremo da transferência dos seus privilégios a alguém
considerado mais digno. As normas de comportamento eram, àquele tempo, sobretudo no
que tangia a valores éticos e morais, muito rígidas. Daí, ser a distorção que apontamos
anteriormente, do chamado “direito de formariage” no aviltante “direito de pemada”,
inimaginável em uma sociedade do tipo e da feição da que estamos descrevendo.

O outro fato, que com freqüência é mencionado quando se fala na “Idade das
Trevas”, como vimos há pouco, são as fogueiras da Inquisição. Que realmente existiram e,
hoje, seriam inadmissíveis como penas legais, tal como ocorreu, nos reinos de Aragão e da
França, que incluíram as referidas penas em legislação secular, após a realização do 4o
Concílio de Latrão, isso no século XIII. No século XII, pela bula “Ab Abolendum”,
tornou-se obrigatório para os bispos, que ordenassem uma investigação, ou inquisição,
anual em suas dioceses e excomungassem, não só os heréticos (segundo fossem por eles
assim considerados) e as autoridades que não tivessem agido ou não agissem contra os
mesmos, depois de, daquela maneira, taxados. Anteriormente, haviam sido queimados
cerca de 15 clérigos e monjas, e os membros de uma comunidade religiosa, na Itália, cujos
integrantes pela forma com que cultuavam o Espírito Santo, sentiam-se no dever de não
comer carne e de não cumprirem os seus deveres conjugais com as esposas. Mas é falar-se
em Idade Média e, prontamente aparece quem mencione os horrores cometidos por
Torquemada, talvez pelo que o seu nome, de certo modo, sugere. Poucos dão-se,
entretanto, ao incômodo de saber quando, onde viveu e quem era o referido “incendiário”.

Seu nome era Tomás de Torquemada, sacerdote dominicano, nascido em


Valladolid, na Espanha, e nomeado inquisidor-geral ou Grande-Inquisidor depois que o
papa Sixto IV a pedido do rei Fernando e de sua esposa, Isabel, a católica, criou o tribunal
de Inquisição na Espanha. Mas, quando teria ocorrido essa criação? Em 1480.
Torquemada, realmente com singular crueldade (ah! os males do fanatismo !) exerceu as
funções para as quais fora nomeado, durante 14 anos, até 1494; ou seja, atuou durante o
século XV e, mais, na parte final do citado século que não foi, pelas razões já expostas,
característico do medievo, senão que dos seus estertores. Veja o leitor se não cabem as
31

nossas reiteradas afirmações, quando tão profunda é a convicção de muitos acerca de


inverdades com que, inconsciente ou deliberadamente, são desrespeitadas as inteligências
do próximo. Mas, para que fique ainda mais clara a conveniência de buscarmos apreciar e
avaliar os fatos no contexto da época em que ocorreram, vamos lançar mão de um exemplo
que julgamos elucidativo, pelo menos, da conveniência apontada e da existência de dois
planos da História.

Assim, se relatassem ao leitor que alguém, altamente situado na sociedade a que


pertencia, no caso, o duque de Aveiro, foi condenado à pena de ser “supliciado” na roda,
em cadafalso alto, de madeira, a fim do suplício poder ser visto pelo povo e, com o
condenado ainda vivo, ser incendiado o cadafalso de modo à vítima da sentença ser
queimada, antes de morrer; e se perguntassem ao leitor quando foi proferida tal sentença e
outra, que mandou queimar na fogueira, como herege, um sacerdote considerado como tal,
o jesuíta Malagrida, qual seria o seu impulso, aliás perfeitamente compreensível, à luz do
que temos exposto até aqui? Seria o de responder que, certamente, no período das “trevas
medievais”. Pois, pasme, não foi; foi na segunda metade do “século das luzes”, o século
dezoito. A sentença primeiramente descrita, não chegou a ser consumada por decisão de d.
Maia I, rainha de Portugal, à época ainda lúcida, e conhecida pelo seu feitio compassivo.

Tão compassivo que exercitou-se em desfavor do seu protegido, responsável pelas


sentenças, pasme de novo o leitor, o marquês de Pombal, de quem, certamente, ou quase
certamente, sempre terá lido referências elogiosas, como grande e progressista
administrador, a que Lisboa deveu a reconstrução, depois do terrível terremoto de que fora
vítima. Como se vê, já na segunda metade do “século das luzes”, a mentalidade reinante
ainda ensejava episódios do gênero descrito. Por que, então, fazer o grande público
acreditar que somente no medievo ela teria existido? São aparentes “mistérios” desse tipo o
que, permitindo-nos Deus, tentaremos decifrar ao longo desta obra. Por intermédio de
dados e argumentos que, repetimos mais uma vez, cabe à inteligência e à consciência dos
leitores, julgar quanto à procedência e à validade.

E, para acrescentar mais um dado contundente, acerca dos perigos de avaliar sem
análise ou reflexão, não será prova deles o horror manifestado contra as fogueiras que,
como acaba de ser visto, não foram apenas medievais, quando, todas juntas, não podem ser
comparadas, em termos do mesmo horror, às incinerações de duas cidades japonesas,
32

Hiroshima e Nagasaki, nas quais, além das dezenas de milhares de vítimas humanas
indefesas e inocentes sacrificadas, foi calcinado tudo quanto respirava ou, simplesmente,
vivia além dos que, ainda que distantes das duas fogueiras sem precedentes, foram
atingidos pelas radiações conseqüentes às explosões nucleares que as realizaram, e vieram
a morrer depois, de câncer, e cujos descendentes continuam, em muitos casos, a padecer as
conseqüências do ocorrido, seja por serem portadores de anomalias físicas devidas a
alterações genéticas, seja pela incidência, estatisticamente maior entre eles, do que na
média da população do seu país, da terrível moléstia há pouco mencionada?

Claro que não estamos desejando significar que como, muito depois da “idade das
trevas”, e mesmo em nossos dias, ocorreram coisas horríveis, crueldades medievais tenham
deixado de sê-lo. Foram-no, sem dúvida, ainda que em contexto cultural e mentalidade
dominante, que não devem ser desprezadas, quando se tente avaliá-las. Mas, sobretudo,
nesta fase da obra em que ainda estamos, o que queremos é despertar a atenção dos que nos
leiam para a, digamos, suspeitíssima divulgação de interpretações truncadas e
vetorialmente, ou preferencialmente, dirigidas contra o medievo. Entendemos que, por
causa da imprudência, do ritmo frenético da vida que nos impede de analisar e refletir, e
por causa de fatores que dispõem dos meios adequados ao aproveitamento da balbúrdia, a
maioria, ao contrário do que imagina, longe de respeitada, é enganada pelos manipuladores
daqueles meios. Não fora, segundo pensamos, a existência de dois planos da História, e
tudo dependesse da intencionalidade inspirada na natureza decaída dos homens, talvez
ainda tivéssemos hoje a escravidão, em sua forma explícita, e continuassem a existir, no
direito positivo, penas de morte na fogueira.

Ao condená-las, menos por piedade (como, supomos, o demonstra o episódio das


incinerações de duas cidades, sem que suas vítimas fossem julgadas ou, sequer acusadas),
o outro plano da História foi tornando cada vez mais difícil a prática ostensiva da
crueldade. O mal, porém, recalcitra, e socorre-se da hipocrisia, do engodo, da demagogia.
Por isso é que, não nós, que somos tão insignificantes, mas Suzane Langer, Professora
emérita de Filosofia do Conecticut College, USA, em trabalho intitulado “Civilização
Científica e Crise Cultural”, apresentado em 1961, à “Associação Japonesa Pró-Filosofia
da Ciência”, em reunião realizada em Nikko, no Japão; professora que, segundo nossa
opinião, é um dos mais expressivos vultos do pensamento filosófico americano moderno,
fez constar do citado “paper” as seguintes expressões: “Toda vida humana apresenta uma
33

subcorrente de sentimento que lhe é peculiar. Cada indivíduo expressa este padrão
contínuo de sentimento naquilo que chamamos de sua “personalidade”; refletida no
comportamento, na fala, na voz e mesmo no porte físico (parado ou andando), como seu
estilo individual. Em escala maior, toda sociedade humana tem sua subcorrente de
sentimento que não é individual mas geral.

Todas as pessoas a partilham em um certo grau, e desenvolvem sua própria vida do


sentimento dentro do quadro “do estilo preponderante do seu país, em sua época”.
Atenção, agora, leitor, para o trecho que irá seguir-se, do mesmo “paper”: “Quase em toda
parte do mundo, hoje em dia, a subcorrente do sentimento está confusa, incerta, tensa. Há
muito orgulho nela, mas sob o orgulho, há medo; há uma grande fé na Ciência, e ao mesmo
tempo um irracionalismo que trai a vacilação de tal fé; há um crescente senso de sociedade
mundial, direitos humanos e igual dignidade de toda a humanidade, e no entanto,
prevalecem a hostilidade e o ciúme (são os dois planos da História a que nos temos
referido repetidamente)15 que tornam a situação política do mundo uma prolongada “
guerra fria”, na qual toda a sociedade acaba por se envolver. O sentimento básico da
maioria das pessoas hoje em dia parece ser de profunda confusão em moral, fins, valores
e motivos” 16.

Haverá quem possa negar a validade, o realismo, das observações da Sra. Langer?
Quanto à “ guerra fria” a que ela fez referência, não nos parece consistisse na existência do
simbólico “Muro de Berlim”, então ainda de pé, como símbolo, para muitos dos que
continuam a dizer-se “progressistas” e “avançados” além, é claro, de democratas, da
barreira entre o resto da humanidade e a fração que representaria o seu inexorável futuro.

Segundo supomos, referia-se a ilustre figura do moderno pensamento filosófico


americano, mais especialmente, e para repetir as suas próprias expressões, ao fato “do
sentimento da maioria das pessoas hoje em dia, parece ser de profunda confusão em moral,
fins, valores, e motivos”. Como observa o leitor, trata-se de lutas que se travam no íntimo
de cada um, com reflexos dentro dos lares, das oficinas, por toda a parte. Uma guerra de
causas profundas de cuja natureza e de cuja própria existência, procuram manter afastadas
as consciências das pessoas, enquanto os egoísmos as afogam na confusão e na balbúrdia,
em que apenas surgem pretextos pueris e análises epidérmicas, sustentando a perplexidade
geral, que faz a maioria, no mínimo ficar paralisada pela referida perplexidade, causada

15. Comentários do Autor.


16. Grifos do Autor.
34

pela diferença entre o que se diz e o que se faz, prevalecendo, segundo Michael Novak, já
por nós tantas vezes citado, idéias sobre realidades que as desmentem. A compreensão do
porquê se sustenta quadro tão desalentador, entretanto, exige um mergulho ainda mais
profundo na História que, esteja certo o leitor, nos pouparíamos de fazer, como
pouparíamos a sua paciência, caso nos parecesse possível a identificação dos motivos reais
de tanto sofrimento, sem a realização do mergulho em causa.

I.3 – Aprofundando, ainda mais, o mergulho

Quando mencionamos o problema dos limites do medievo, embora não existindo


rigorosa concordância entre todos os autores, admitimos que não seria possível situar o seu
início antes do esboroamento do império romano, ocorrido no século V da era cristã; nem
além, no máximo, do século XV da mesma era, eis que o início do chamado Renascimento,
todos concordam em situar no século seguinte.

Reportemo-nos, portanto, ao quadro que seguiu-se ao esfacelamento do poder do


grande império, ao menos nos aspectos que, de mais perto, importam aos objetivos desta
obra.

Todos sabemos da eficácia da administração romana, cujas estradas, por exemplo,


ainda hoje, causam admiração pela diligência com que foram construídas e que se
constituíram nas artérias principais de circulação de pessoas e de mercadorias na Europa
daqueles dias. Com a queda do grande império, porém, daquelas artérias desapareceu o
gládio das Legiões, que igualmente diligentes, garantiam com o seu poderio, a segurança
nas áreas sob sua vigilância e responsabilidade. De outra parte, é necessário mencionar,
que ainda ao tempo do poder romano, quando as suas Legiões partiam para dar combate a
forças inimigas, atrás delas, como das referidas forças, marchavam os que, não sendo parte
nas motivações do conflito, desejavam, apenas, negociar com umas e com outras. E
comerciar, como em nossos dias, visando lucrar nas transações realizadas. Desaparecido o
poderio do império, tribos germânicas começaram a deslocar-se do norte para o sul do
continente. Tais tribos, do ponto de vista dos cidadãos da Roma imperial, bárbaras, eram
de notória belicosidade e não traziam projetos de mudanças de sentido civilizacional
35

renovador, mas apenas o desejo de apoderar-se dos espaços e riquezas que já não tinham a
barreira do poderio militar que acabara de desaparecer.

Por outro lado, ninguém ignora que o Cristianismo, que surgira no Oriente Médio,
mais precisamente na área hoje representada pelo Estado de Israel (tudo isso sem
preocupação de grande rigor, mas apenas para situar, geograficamente, em grandes linhas,
o que queremos expor à consideração dos leitores), ao tempo a que nos estamos referindo
ao aludir ao deslocamento das tribos germânicas, já iniciara a sua obra de expansão
evangelizadora, deslocando-se em sentido contrário, do sul para o norte do continente
europeu. E os evangelizadores foram tão bem inspirados que, longe da tentativa de
eliminar a aptidão e o gosto para o manejo das armas dos seus catecúmenos, cuidaram de
coloca-los ao serviço da nova ética e da nova moral, conseqüentes ao sentido fundamental
da mensagem da nova fé, no cumprimento da missão de “propagá-la por toda a Terra”.

Assim, guerreiros germânicos, agora cristãos, passaram a colocar as suas lanças e


as suas espadas a serviço da nova ética e dos novos sentimentos a que haviam aderido as
suas mentes e os seus corações. Em torno das suas residências, portanto, começaram a
surgir áreas de tranqüilidade e segurança, em que buscavam abrigar-se com suas famílias,
agricultores e pastores, de vez que, desaparecida a ordem imposta pelas legiões, em
número crescente, pululavam bandos de malfeitores e salteadores, diante dos quais os
pobres camponeses não tinham defesa. Os malfeitores, porém, sabiam que a residência do
cavaleiro cristão, atrás de cujos muros muitas vezes passaram a viver outros tantos
convertidos à nova fé, dispunha de meios e de vontade, que trariam, certamente, risco às
suas empreitadas criminosas. E já agora, é possível que o leitor comece a perceber o que
queríamos dizer, quando falávamos, anteriormente, de vassalagem e, até, de servidão,
voluntárias, em um tipo de relação, predominante, de lealdade e proteção.

Mas, e a cota da produção que o servo da gleba era obrigado a entregar ao seu
senhor? Entende-se agora que, basicamente, destinava-se à manutenção dos cavalos deles,
das suas armas, da sua subsistência e da de seus irmãos de armas e de fé. Nenhum homem,
sabemos, é perfeito; mas estamos nos reportando aos primórdios do Cristianismo, e a
personagens convertidos pelo que ele representava. Haverá, pois, algum absurdo em supor
que, embora não perfeitos, as suas motivações eram, do ponto de vista do coração,
compatíveis com o quadro que, em largas pinceladas, estamos expondo à análise de quem
36

venha a ler estas linhas? Lembra-se o leitor de que, anteriormente, fizemos alusão ao
interior despojado dos castelos medievais, bem diferente do fausto de palácios de épocas
posteriores, que não são criticadas de modo tão sistemático e tão rigoroso?

Então, retomando o fio da nossa exposição, as primeiras aglomerações começaram


a formar-se em torno das habitações dos cavaleiros cristãos e constituíam-se, de início,
quase que exclusivamente, de camponeses. Rapidamente, porém, juntaram-se a eles
pessoas de maiores haveres, de vez que, por tal motivo, haviam passado a ser alvos
preferenciais dos assaltantes da época. Com o correr do tempo, porém, os rudes
camponeses começaram a verificar que as atividades comerciais a que se dedicavam
aquelas pessoas eram mais rendosas e menos, muito menos, sacrificantes, do que o amanho
da terra e o apascentar dos rebanhos.

Mas, quem eram aquelas pessoas, e que tipo de comércio realizavam? Elas eram, ou
seus descendentes ou discípulos, os que, anteriormente, haviam seguido as tropas em
marcha para confronto militar, sem optar por nenhum dos litigantes, desejosos, apenas, de
fornecer-lhes o de que necessitassem, auferindo lucros pessoais nas transações realizadas.
Por isso, eram mais ricas; por isso, corriam agora mais riscos, por parte dos salteadores ;
por isso, buscavam abrigar-se à sombra, ou nas proximidades dos muros das residências
dos cavaleiros cristãos os quais, detentores da força, representavam o que poderíamos
chamar de “poder político” que, mais tarde, bem mais tarde, viria a concentrar-se no
Estado, único titular do poder coercitivo sem o qual, o direito consignado nas leis não tem
eficácia. Àquele tempo, não podemos falar de Estado; nem mesmo de Íeis mas, sobretudo,
de costumes: uns, sancionados pela nova ética; outros, por ela condenados. Entre estes, os
que pretendiam legítimo ou, melhor dizendo, justo, que o comerciante, comprando algum
bem, conseguisse vendê-lo, sem nenhuma modificação, a um seu semelhante, por preço
maior do que aquele que havia pago, surpreendendo a ingenuidade do comprador ou, pior
ainda, aproveitando-se de alguma sua necessidade urgente e aflita.

Na hipótese em causa, a ética do cavaleiro e dos seus irmãos de fé, viam a imagem
dos vendilhões do templo, contra os quais se revoltara o próprio e amoroso Jesus. Ainda
uma vez, queremos repetir que não estamos julgando, mas apenas submetendo à apreciação
do leitor, informações que, deliberadamente, ou não, são sonegadas do seu conhecimento.
37

Tratava-se, de fato, no que tange às maneiras de apreciar as atividades comerciais,


não apenas de divergências superficiais, mas do próprio modo de ver o fato econômico, em
suas funções e em sua natureza. Acreditavam os garantidores da nova fé, na necessidade
moral e social de submeter as atividades econômicas a princípios da ética a que haviam
aderido as suas consciências e os seus corações. É que, crendo verdadeiramente que o
homem era criatura de Deus, “feita à Sua imagem e semelhança”, tiravam daí a origem e a
grandeza da sua dignidade. Para eles, o homem era, segundo teólogos medievais, menção
feita por Hughes, em sua obra extraordinária “Ascensão e Decadência da Burguesia”, “a
moeda espiritual do reino de Deus, pois que o seu valor provinha de trazer o cunho da
imagem do Criador”. Hoje, é claro, tal “moeda” poderá parecer distante das realidades que
a maioria considera práticas.

Propomos, porém, as seguintes perguntas à inteligência de quem no momento nos


lê : Parece prudente a desvinculação do mundo das atividades econômicas, dos alicerces de
uma ética nobilíssima, de origem fantasiosa, ou não, para entregá-las ao entrechoque dos
egoísmos, açulados, exclusivamente, para a conquista do ter e do ter cada vez mais? Não
parece razoável levar em conta, que a capacidade do homem desejar, querer, ambicionar, é
praticamente ilimitada, sendo, porém, muito restrita, a capacidade de efetivamente, possuir
o que venha a ter? Será pouco sensato supor que a felicidade é uma sensação, não uma
coisa objetivamente mensurável? Será insensato imaginar que as tensões e os conflitos
existentes em um mundo interior sacudido pela tempestade de paixões abalam, como o
disse Suzanne Langer, a subcorrente de sentimento que todos temos, e de cuja paz depende
a tranqüilidade de cada um? E será absurdo imaginar que a tranqüilidade é componente
importante, senão indispensável, da sensação de felicidade?

São perguntas sobre cujas respostas, supomos, vale a pena refletir. Sobretudo em
uma situação ou, melhor dizendo, em um período da história da civilização a que
pertencemos, em que o que temos chamado “espaço cultural” se encontra sob o que
costumamos designar como “interferência cultural”, por analogia ao que acontece a um
receptor de rádio cujo seletor de freqüências esteja defeituoso. A partir daí, o referido
receptor passa a amplificar, não sons harmoniosos, agradáveis e compreensíveis, mas uma
algaravia de ruídos, silvos, estrondos, guinchos, ininteligíveis e incômodos. Daí, a
perturbação da subcorrente de sentimento a que se refere Suzanne Langer, por nós citada
anteriormente, e cuja perturbação constitui-se em fator de desarmonia, de perplexidade, de
38

insegurança, tudo isso contribuindo, como componentes subjetivos, para o aumento de


sofrimentos que, indiscutivelmente, são, hoje, muito mais intensos e extensos, do que
poderiam ser.

No que tange ao medievo, alguns aspectos de cujos primórdios estamos neste


momento oferecendo à consideração do leitor, mencionamos, anteriormente, o caráter
suspeito de atribuir-se, especialmente a ele, ângulos deploráveis da conduta humana que,
como já ficou evidenciado por meio de alguns exemplos recentes e muito expressivos, não
foram peculiares ou exclusividade dele, como tantos, por falta de informações isentas,
imaginam. Por nos ocorrer neste instante, acrescentaremos mais um desses exemplos: o
caso de Giordano Bruno, condenado à fogueira, como herege, pela Inquisição. Muito
provavelmente a maioria esmagadora dos que já ouviram mencionar o nome dessa vítima
do fanatismo, supõe ter sido ele supliciado na Idade Média; e não sabe que o intelectual
rebelde e brilhante, talvez o pensador filosófico de maior brilho da Renascença, não do
medievo17, pois morreu em Fevereiro de 1600, portanto, nos primeiros meses do século
XVII, antes de ser considerado herético e defensor do panteísmo, fora monge dominicano.
Espírito audaz e homem corajoso, dissentiu de aspectos que diziam respeito à Filosofia e à
maneira de entender a religião defendidos pela Magistério da Igreja a que pertencia e,
rebelde, preferiu deixá-la, abraçando o calvinismo - para, pouco tempo depois, dissentindo
também, de certos aspectos do pensamento do ascético, severo e ortodoxo Calvino, ter se
sentido obrigado a deixar a Suíça.

Brilhante, rebelde, corajoso, o fanatismo inquisitorial o queimou - mas isso,


repetimos, no início do século dezessete. Aliás, o fanatismo será sempre perigoso, pelo
radicalismo e imprudência da conduta dos que se deixam fanatizar. Assim, fato que é
pouco divulgado, entre outros, foi queimado por ordem de Calvino 18, o brilhante e rebelde
intelectual Miguel Serveto, que com ele não concordava.

Se nos for permitido, gostaríamos de realçar fato de todos conhecido, no seio de


nossa cultura, mas ao qual não se tem dado o necessário realce, como elemento
indispensável a uma visão holística da realidade, como a que, a despeito das nossas
limitações, estamos nos esforçando por oferecer à análise dos que venham a ler esta obra.
Assim, páginas atrás, foi realçado, nos alicerces da cultura a que pertencemos - embora a
esta altura, já gravemente desfigurada - está o episódio da Queda, constante do livro do

17. Grifos do Autor.


18. Grifos do Autor.
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Gênese, em conseqüência da qual, a natureza do homem passou a ser palco de uma


contradição permanente, entre o Bem e o Mal. Aquela que, em sua epístola aos Gálatas, o
“apóstolo dos gentios”, caracteriza dizendo: “os desejos da carne são opostos aos do
espírito, e estes aos da carne; pois são contrários, uns aos outros”, e passa, depois a
descrevê-los.

Ora, os cavaleiros cristãos do início da Idade Média, evidentemente os possuíam, a


uns e a outros. Mas a conversão os fazia, é claro, esforçar-se, em sua atuação, para
realizarem o que, supunham, os salvaria, os faria dignos do sacrifício do Cristo ou, pelo
menos, não tão indignos dele. A ambição, a avareza, o apego às riquezas que “a ferrugem
destrói, e as traças comem” tinham muito a ver com a atividade econômica centrada no
lucro, e não no atendimento das necessidades do seu agente ou das de seus dependentes ou
dos seus semelhantes em geral. Mas, dissemos linhas atrás, que desaparecido o gládio das
legiões das estradas da Europa, e, em sentido mais amplo, a ordem imposta e temida que
ele representava, as áreas de maior segurança passaram a ser as das vizinhanças das
residências dos cavaleiros feudais, que rapidamente começaram a povoar-se com
agricultores e pastores, aos quais se juntaram, prontamente, os comerciantes que
continuaram a exercitar as suas atividades, no mesmo espírito com que eles ou
antepassados deles as haviam exercitado, no tempo dos exércitos que marchavam para se
darem combate: a obtenção de lucros, os maiores possíveis. Tudo isso já foi mencionado
anteriormente.

O que queremos acrescentar agora é que, pelos motivos vistos, estabelecia-se, desde
então, uma oposição de interesse entre tais comerciantes e os que passaram a aumentar-
lhes o número, também já mencionados, e a autoridade que estava nas mãos dos senhores,
adeptos da nova ética e daqueles que os haviam convertido à fé de que ela era resultante.
Chegou, pois, o instante de repetir, qual era a designação dada às residências dos
cavaleiros, em que iam surgindo as primeiras aglomerações humanas, mais tarde
constituindo-se em vilas e cidades. Chamavam-se “burgos” e, dai, provem a palavra
“burguesia”, cuja conotação econômica, em nossos dias, não é feita referindo-se a
lavradores, pastores, assalariados, mas aos que exercitam a atividade econômica, visando
essencialmente o lucro. Isso, em uma visão que, parece-nos, não deve ser minudente, de
vez que as minúcias nos levariam à necessidade de digressões que nos afastariam, neste
trecho da nossa exposição, da linha central em que nos estamos concentrando, e que é a de
40

deixar entrever alguns dados que, segundo supomos, são importantes para que se possa
compreender a demolidora crítica orientada, e nem sempre com realismo, para o fim de
atribuir a um dado período da História da civilização ocidental, o caráter de período
trevoso, sinistro, perverso, do Ocidente.

É que, desde o início, a propósito do fato econômico, estabeleceu-se uma antinomia


de tendências e de interesses, entre os que desejavam exercita-lo sem peias, que lhes
pareciam contrárias à satisfação do que desejavam ter, e os detentores do poder coercitivo,
enfeixado nas mãos dos cavaleiros convertidos e dos seus mentores espirituais, os
sacerdotes que os haviam levado à conversão. Estes últimos, sacerdotes católicos eram,
àquele tempo, os únicos sacerdotes cristãos existentes, de vez que a Reforma, de Luthero e
de Calvino, só veio muito mais tarde, à altura, já, do século dezesseis. Claro que a
antinomia apontada, a princípio foi algo surdo, subterrâneo, face mesmo ao fanatismo
religioso que, como vimos, durou até muitos séculos depois. Quantas idéias, tendências e
sugestões, porém, surgissem, capazes de enfraquecer a autoridade que embaraçava o “livre
exercício das atividades comerciais” - e se vê já aí, fala-se de “liberdade”, não de ambição
ou ganância - observação que fazemos, não na intenção de defender o irrealismo de que a
Economia pode desenvolver-se na ausência de qualquer expectativa de vantagem pessoal -
mas na de entremostrar como terá sido, e continua a ser, difícil defender o bem comum,
quando tal defesa, ao menos à primeira vista, supõe, em certa medida, a prevalência do
altruísmo contra o egoísmo - e quando em favor deste último falam, para usar a linguagem
do apóstolo Paulo, “os apetites da carne”, tão próximos e tão vigorosos, que o próprio
grande apóstolo, queixa-se deles, quando diz: “Ai de mim, que nem sempre faço o que
quero, mas o que os meus membros exigem!”

O leitor, inteligente, já entendeu que, no contexto da oposição surda de interesses a


que nos estamos referindo, de fato, tudo quanto contribuísse para enfraquecer o poder
coercitivo que já mencionamos, constituir-se-ia em algo cuja divulgação, embora lenta e
perigosa, pareceria útil aos agentes da atividade econômica, partidários do móvel central
no lucro; e seria facilitada por poder realizar-se, quase sempre, em nome da liberdade...

De fato, pelos exemplos, já citados, do grande apóstolo que, mesmo ele, queixou-se
da pressão dos apetites próprios da natureza carnal, é muito compreensível que, tudo
quanto a eles tente contrapor-se, oferece ensejo para que se estabeleça uma conotação entre
41

tais tentativas, e uma disposição, pouco simpática, de restringir a liberdade. Mas, uma
coisa é a liberdade como conceito em plano, digamos, metafísico, em que o referido
conceito é precisamente o que tem como atributo característico, o de não sofrer restrições.
No plano, porém, da realidade concreta, é fácil entender que o quadro é bem outro. A
sociedade, que é indispensável ao pleno desenvolvimento das potencialidades humanas,
impõe, para que seja harmoniosa, limites bem nítidos ao seu exercício. Além disso, no
quadro da nossa cultura, como conseqüência da base que, essencialmente, a fez brotar, o
referido exercício deve ter um sentido de finalidade. Porque, como todos sabemos, no
citado quadro se inscreve uma diferença perfeitamente nítida entre o Bem e o Mal.
Diferença que se tem tentado toldar, para colocar em lugar dela um relativismo moral
extremamente perigoso, como o advertem as Escrituras, ao dizerem: “Sejamos homens
livres; mas não como os que falam de liberdade para ocultar a própria malícia”.

O exercício da liberdade é nobilíssimo e diz respeito à dignidade essencial da


criatura humana que, não fora a Queda, a que já nos reportamos mais de uma vez, e está
consignada no livro do Gênese, dispensaria a limitação que estamos submetendo à
consideração pela inteligência do leitor, de vez que, aí sim, a natureza humana não
conheceria a existência do Mal, não podendo, consequentemente, ser atraída e pressionada
pelos seus apelos. Talvez para a surpresa de muitos, e no cumprimento do que, em espírito
de serviço, nos comprometemos a tentar fazer, obviamente com as limitações impostas
pelas nossas precariedades, citaremos, a propósito do tema neste momento em discussão,
um autor medieval, que viveu e produziu no século XII - bem adiante dos primórdios do
medievo que estamos enfocando, mas ainda bem dentro dele, que às vezes tentam
prolongar, absurdamente, até o final do século XV senão ainda mais adiante. O autor em
questão, João de Salisbury, nascido na Inglaterra, no início do século XII, possivelmente
entre 1115 e 1120, foi um dos mais ilustres intelectuais da época, tendo sido, entre outros,
discípulo de Abelardo, de Alberico de Reims, Roberto de Melun, Guilherme de Conches, e
Simon de Poissy. Dentre suas obras, as mais importantes do ponto de vista histórico e
filosófico, foram, sem dúvida, o “Metalogicus” e o “Policraticus”.

Neste último trabalho, figuram os seguintes, e, para nós, muito expressivos


conceitos: “A não ser a virtude” 19, nada existe mais esplêndido do que a liberdade, se é que
de fato se pode separar a liberdade da virtude... A virtude nunca pode ser plenamente
atingida sem a liberdade, e ausência de liberdade significa carência de virtude em toda a

19. Grifos do Autor.


42

sua perfeição. Por conseguinte, o homem é livre na proporção das suas virtudes, e à medida
em que ele é livre, determina o que suas virtudes podem realizar”.

Como se vê, trata-se da idéia, não de restringir, em sentido negativo, o exercício da


liberdade; mas de enobrecê-lo, subordinando-o à virtude. O que nos parece, salvo melhor
juízo, inteiramente compatível com os fundamentos da nossa cultura, e garantia maior de
que o referido exercício, descompromissado com a noção de Bem, a que se relaciona a
virtude, o que acontece quando a concepção de liberdade é tida como um ideal que se
esgota em si mesmo20, uma espécie de pretexto para que, em seu nome, indiferentes à
distinção entre o Bem e o Mal, possam os homens dar expansão a todos os seus apetites,
mesmo os mais egoísticos.

A célebre expressão que em uma espécie de tentativa frustra de justificar a


“malícia”, a que se referem os Evangelhos, tantos usam: “a liberdade de cada um acaba
onde começa a liberdade do outro”, que, no fundo, exprime, em termos jurídicos, a ainda
mais conhecida “o direito de cada um acaba onde começa o direito do outro”, um instante
de reflexão evidencia que são, ambas, em profundidade, destituídas de consistência. Basta
que se pergunte, por exemplo, em qualquer dos dois casos: E onde começa a liberdade, ou
o direito, do outro? O leitor percebe que não haverá resposta racionalmente aceitável, a não
ser: onde acaba a do primeiro, a qual, como é fácil perceber, deixa o problema dos limites
absolutamente intocado. Como intocado permanece, ao menos na cultura a que
pertencemos e na qual todos somos viajantes efêmeros em busca de uma existência
espiritual eterna, cuja conquista depende da observância, inclusive no que toca à liberdade,
da regra básica de toda a ciência moral: o Bem deve ser praticado; o Mal deve ser evitado.

Qual Bem e qual Mal? Os que, sempre referindo-nos aos alicerces da cultura a que
pertencemos ou que, ainda insistimos em dizer que pertencemos, apontam e ensinam.
Assim como se o Criador, em Sua misericórdia, à criatura que fez à Sua imagem e
semelhança, a despeito da desobediência do primeiro casal, quisesse apontar o caminho
para a sua restauração. Portanto, por aceitar como verdadeira a visão a que nos estamos
referindo, o pensamento característico do período medieval supomos possa ser resumido,
no que tange ao exercício da liberdade, em admiti-lo prioritariamente existente, não para
que os indivíduos em suas efemeridades, busquem usa-lo para a consecução dos seus
objetivos egoísticos, mas para a realização dos pertinentes ao Bem, cuja fonte era, àquele

20. Grifos do Autor.


43

tempo a maioria acreditava, a Providência. Ainda uma vez - e perdoem-nos a monotonia,


repetimos que estamos tentando expor. A validade das idéias e hipóteses expostas, pertence
aos leitores julgar. Não que tentemos escusar-nos de assumir, na dimensão pessoal, que as
aceitamos como válidas. Apenas não levamos a nossa presunção ou a nossa prepotência ao
ponto de imaginar que o que supomos adequado ou verdadeiro, o seja obrigatoriamente,
pelo simples, fato de nós o supormos tal.

Todos somos seres dotados de razão, e também por sermos, segundo supomos,
filhos de um mesmo pai, devemo-nos mutuamente, entre outras coisas, respeito.

Mas, voltando ao fio anterior desta exposição, chegamos a assinalar, no ponto em


que o interrompemos que, devido à ética dos primeiros tempos do medievo, em que
prevalecia o direito costumeiro, manifestou-se, prontamente, uma oposição de interesses
entre os que entendiam que a atividade econômica, para possuir sentido, incentivo e
expandir-se, devia ter como móvel central a obtenção de lucro por parte dos que a
praticavam em posição, digamos, de liderança, e os que julgavam pecaminosa tal
motivação. Estes últimos, já vimos, representados por quem detinha o poder decisório, e a
capacidade de, pela força, se necessário, fazer obedecidas as decisões tomadas. O referido
poder e a citada capacidade, também já dissemos, estavam enfeixados em mãos dos
moradores dos burgos e dos seus mentores espirituais, representados, somente, antes do
século XVI, no qual verificou-se o cisma do Cristianismo do Ocidente, pelos sacerdotes
católicos, obedientes ao papado. E sublinhamos que, nada obstante os riscos de fazê-lo, e a
precariedade dos meios de propagação das idéias, quantas parecessem contribuir para
enfraquecer a capacidade de coagir, representariam fatores coincidentes com os interesses
que se sentiam prejudicados.

Vejam os leitores que não estamos tentando dar dimensão individual aos atores do
que operava no seio da História daqueles tempos. Inclusive, também já ficou registrado
que o rigorismo excessivo, por utópico, de uma época de fundamentalismo religioso,
realmente constituía-se em entrave ao desenvolvimento das atividades de cunho
econômico. Os que as exercitavam, é razoável imaginar, não estavam tocados por tal ardor
fundamentalista e, sem dúvida, acreditavam sinceramente, que eles tinham aptidão
particularmente eficaz, para o desempenho de ações, cuja amplitude lhes era cerceada. A
propósito, parece caber aqui, mais uma vez, a ponderação sobre as inconveniências do
44

radicalismo, pois que, na outra extremidade do que acabamos de apontar, está o exagero da
desvinculação daquelas ações, de compromissos com valores inatos, ou prévios, que viriam
a ser negados como algo existente, pelo “pai do empirismo”, John Locke, por sua vez um
dos inspiradores do ceticismo de Hume e, sem dúvida, um dos maiores vultos do
liberalismo, pela influência do seu pensamento sobre o de Thomas Jefferson, o principal
líder da Revolução Americana de 1776; bem como pela que exerceu sobre o de Jean-
Jacques Rousseau, tão importante sobre a Revolução Francesa de 1789.

São dados citados com tão grande antecipação, para que a paciência do leitor seja
aliviada, no sentido da orientação do nexo existente entre os fatos e tendências mais
recuados e outros, mais recentes e mais facilmente ligados aos disparates dos nossos dias,
em que uma capacidade enorme de produzir bens materiais e melhorar a qualidade de vida
dos homens, coexistem com a miséria extrema reinante em muitas áreas do mundo - uma
forma de violência que muitos se negam a aceitar como tal - e com as formas mais
evidentes e explícitas dela, bem como com a degradação moral que vem destruindo a
instituição familiar, multiplicando as taras e os vícios e orientando as rotas do tráfico
sinistro das drogas, do 3o para o 1o mundo, que o é, apenas no sentido material. Coisas
assim é que estamos tentando - e Deus sabe com quais sacrifícios - oferecer à análise dos
que venham a ler-nos. Para contribuir, na medida que esteja ao nosso alcance, para que nos
previnamos todos dos efeitos de análises epidérmicas e pueris, e por isso mesmo tantas
vezes geradoras de ilusões.

E como se não bastasse a superficialidade a que acabamos de referir-nos e que


contribuem para a sua periculosidade, acrescentam-se interesses que prosperaram à sombra
de equívocos que, é compreensível, a prosperidade assim constituída não deseja ver
elucidados. E não é só; há também o que chamaríamos de “passionalismo ideológico”, de
índole política, filosófica, religiosa, em qualquer caso, gerador de preconceitos que
dificultam a objetividade das interpretações.

Linhas acima, repetimos o que já havia sido assinalado anteriormente, sobre o dado
consistente no poder coercitivo do medievo estar em mãos dos cavaleiros feudais e dos
sacerdotes católicos que lhes haviam incutido a nova fé. O que eqüivale dizer que, em
diferente medida, no largo período medieval, misturam-se as autoridades secular e
religiosa, no sentido clerical, em qualquer das duas expressões, objetivamente
45

representadas por seres humanos, com as suas fraquezas, os seus erros, os seus acertos, os
seus vícios, como as suas virtudes. Os vícios e maldades, sempre mais veementemente
criticados, de maneira desfavorável, nos que se revestem do múnus sacerdotal. Os
cavaleiros medievais que ao tempo da nossa infância e da nossa adolescência, povoaram as
lendas mais douradas, regiam-se pelo Código da Cavalaria.

Este, mesmo através da caricatura que de seus heróis romanceados, foi objeto da
obra do romancista Miguel de Cervantes, na celebrada figura de D. Quixote, deixa entrever
que o louco “Cavaleiro da Triste Figura”, ao confundir as atividades da camponesa que
estaria, como é usual dizer-se em nossos dias, “fazendo amor”, em circunstâncias insólitas,
com algo que se seus olhos viram, mas o seu coração não percebeu, trai o idealismo, sem
dúvida exagerado, mas não indigno, de cujo idealismo não participava, a figura prosaica e
terra-a-terra de Sancho Pança. O exercício do poder, como se sabe, é desvirtuador das
melhores intenções humanas. Não terá sido por outra razão, talvez, que quando o “Pai da
Mentira”, tentou corromper o próprio Jesus, fê-lo, segundo o relato bíblico, levando-o a
subir a um alto monte, de cujo cimo mostrou-lhe o esplendor de todos os reinos da Terra,
oferecendo-os ao Salvador se este, prostrado, o adorasse. Por isso, pelo exercício do poder
temporal compartilhado por cavaleiros e sacerdotes, ao longo de cerca de mil anos21, não é
difícil imaginar quantos pretextos, muitos válidos, se ensejaram aos que pretendiam
debilitar o poder que não estava em suas mãos: os que, no fundo, a par dos pretextos,
mesmo quando procedentes, o que desejavam era livrar-se da ameaça que lhes parecia
embaraçante de suas atividades econômicas.

Hoje, por exemplo, é comum a suposição, inteiramente em desacordo com a


verdade histórica, de que o papado detinha um poder tão absoluto e incontrastável, que a
sua intolerância, no domínio, por exemplo, cultural, exercida por intermédio do famoso
“índex”, proibitivo da leitura e circulação de obras consideradas impróprias pelo
Magistério da Igreja, era evidência do seu gosto pelo exercício abusivo e despótico do
poder. Na verdade, desde os primeiros tempos, surgiram no seio do Cristianismo
tendências que o referido Magistério considerava conseqüentes a doutrinas falsas, quando
não heréticas. E foram muitas, tantas que seria, supomos, inoportuno tentar enumerá-las
todas, no momento em que o que desejamos significar é que o papado não desfrutava de
situação tão confortável, em termos de poder, a ponto de fazer crer que seria desnecessário
o referido “índex”; e, mais tarde, o célebre “imprimatur”.

21. Grifos do Autor.


46

Geralmente, os que mencionam o que imaginam a “desnecessária censura”, entre


tantas e tantas dificuldades para manter acesa e fazer crescer, a àquele tempo, luz
bruxuleante do Cristianismo, não mencionam a influência do império otomano, pujante
militar e culturalmente, em largo período do medievo, a ponto de, em vasta manobra de
pinças, colocar pé na Eurásia - a Turquia, mesmo européia, bem como tantas das ex-
repúblicas soviéticas, ainda hoje são de população predominantemente muçulmana - sendo
que, no braço da pinça a que nos estamos referindo, as forças do Islam só foram parar nas
planícies de Moacz, na hoje Hungria, e o próprio castelo de St. Ângelo, não escapou de
bombardeio sarraceno. No outro braço da colossal manobra, a bandeira islamita, como é de
conhecimento geral, triunfou na península ibérica, sendo que por cerca de cento e
cinqüenta anos, o Mediterrâneo transformou-se em uma espécie de lago onde só
navegavam em segurança, as embarcações permitidas pelas galeras da esquadra
maometana. Mas, inicialmente, dissemos que o poderio do império otomano não era só
militar, mas também cultural; e uma das heresias combatidas pela hierarquia católica, foi a
denominada “averroísmo”, designação tirada do nome de grande estudioso árabe de
Aristóteles, estudioso cujo nome por extenso, era Abu-al-Walid Ibn Ahmad Ibn Mohamed
Ibn Rushd.

Tão extenso que, foi abreviado, possivelmente por facilidade fonética, para
Averróis; e, daí, averroísmo. Pois saiba o leitor que, por acaso ainda não esteja informado a
respeito, que o estudioso de Aristóteles a que nos estamos referindo, esforçou-se por
afeiçoar o pensamento do filósofo de tão grande influência entre os eruditos católicos
daquele tempo, às características do seu próprio e peculiar modo de ver o mundo e o ser
humano. E foi assim que desagradou, tanto aos católicos quanto aos muçulmanos, ao
defender a eternidade da matéria e a não imortalidade da alma. Por tal motivo, o califa AI
Mansor o condenou à pena de exílio no Marrocos. Antes de falecer, pediu Averróis para
ser sepultado em sua terra, a Espanha 22, mais particularmente, na cidade de Córdoba em
que nascera. Mas, oriundas do próprio paganismo, já se haviam manifestado no mundo
cristão tendências consideradas perigosas ou heréticas, como o gnosticismo, designação a
que correspondiam várias doutrinas e práticas religiosas, propagadoras de idéias segundo
as quais existiriam conhecimentos ocultos, ou herméticos, quase sempre marcados por uma
visão panteísta do mundo. Tratava-se, talvez, do pensamento pitagórico, bem como do
panteísmo neoplatônico, de feição emanatista, sobretudo presente na obra de Plotino e de
Amônio Sacas.

22. Grifos do Autor.


47

Assim, longe de tranqüila a manutenção e a expansão da fé cristã, era ela ameaçada


por “idéias subversivas”, e por poderio militar adverso, ameaças, em certos aspectos, talvez
mais perigosas do que as existentes em forma aguda, em nossos dias, sobretudo ao tempo
da chamada “ guerra fria”. E, na medida em que cresciam as aglomerações urbanas, e
aumentava o número dos que se sentiam oprimidos por uma ética, para eles, abusiva e
prejudicial, um dos aspectos para caracterizar a opressão, foi o que Mac Fadden, em sua
obra “A Filosofia do Comunismo”, designou como “liberalismo intelectual”. No que
consistia ele ? Naquele que, aos olhos de hoje, justificar-se-ia plenamente: o livre exame de
textos, independentemente da avaliação da Igreja católica; inclusive daqueles do
paganismo, considerada a lentidão das transformações daquela época, ainda muito
próximo. E a reivindicação, é claro, podia ser feita, em nome da liberdade.

Ocorre, porém, que hoje, com a vantagem que o tempo transcorrido oferece, em
termos de perspectiva histórica, de sua amplitude e da isenção que enseja e propicia, não é
difícil entender que, com o chamado “livre exame” dos textos pagãos, a par do
enfraquecimento de autoridade que até ali fora capaz de impedi-lo, seria impossível negar
que tomaram novo impulso no seio do Cristianismo, concepções que contribuíram para
fortalecer dúvidas capazes de gerar outros tantos questionamentos à autoridade do
Magistério da Igreja, questionamentos e dúvidas a que o autor que citamos há pouco, Mac
Fadden, denominou de liberalismo religioso o qual não tardou a produzir frutos que o
mesmo autor designou como liberalismo político. Por que? Porque, como já foi exposto
antes, a autoridade, primeiro dos senhores feudais, depois dos reis - com a observação de
que somos, no curso deste trabalho, obrigados às vezes, a saltos muito grandes no tempo,
deixando registrados, apenas, os dados que nos parecem essenciais ao cumprimento da
tarefa que nos propusemos, de realizar um esforço, a ser apreciado quanto à sua validade,
pelos que venham a ler-nos - sofria um abalo.

O “liberalismo intelectual”, via enfraquecimento da fé, e da autoridade,


transformava-se no “liberalismo político” - sempre nos utilizando da linha de raciocínio e
das expressões de Mac Fadden. Claro que liberalismo, aí, não tem as características
formais dos nossos dias. O que se quer dizer é que, como a autoridade dos senhores dos
feudos e dos reis, era legitimada e tornava-se incontestável pela sanção da autoridade
religiosa, na medida em que se enfraquecia a fé, enfraquecida ficava a autoridade
eclesiástica e com tal enfraquecimento, como que se introduziam, sutilmente, fendas nos
48

tronos reais. É em tal sentido, supomos, que Mac Fadden fala dos “liberalismos”
mencionados anteriormente, inclusive o designado, com as ressalvas expostas, como
“liberalismo político”.

Nós, particularmente, admitimos conforme menção anterior, a existência de dois


planos da História: um, o que resulta da natureza decaída do homem, com a sua
concupiscência, seu egoísmo, suas injustiças, e as lutas e sofrimentos que resultam de tudo
isso; outro, é o plano da Providência, às vezes difícil de discernir, pelo menos por olhos
distraídos ou toldados pelo fanatismo ou pelos preconceitos. Assim, quando em sua ânsia
de lucro, tantas vezes a qualquer preço, muitos buscaram enfraquecer a fé, e com ela a
autoridade que os incomodava, fizeram-no, sempre que possível, divulgando e
prestigiando, não somente inverdades e fantasias mas, também sempre que possível, falhas
e erros que outros praticavam, a pretexto de defender idéias nobres, porque já se haviam
deixado embriagar pelo exercício do poder, aquele mesmo com que Lúcifer tentara
corromper e perverter o próprio Messias. Assim, ninguém ignora o quanto o orgulho pode
tornar despótico o poder dos soberanos e deturpada e cruel, a virtude de tantos sacerdotes.

O Grande Inquisidor da Espanha, Torquemada, homem do século XV, mas


símbolo, para muitos, da “crueldade medieval” - crueldade que, em exemplo que citamos
anteriormente, perdurou até a segunda metade do “século das luzes”, o século XVIII - em
seu delírio de poder e em seu fanatismo religioso, chegou ao ponto de apontar como
suspeitos de heresia, nada menos do que figuras como as de Therezinha de Jesus e Inácio
de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus, ambos hoje ocupando a honra dos altares,
canonizados como vieram a ser pela Igreja a que pertencia, e julgava defender
adequadamente, o terrível inquisidor. Então, não temos dúvidas quanto à existência de
desvios e abusos de que se valeram para os seus próprios fins, não propriamente para
corrigi-los, os adoradores inconscientes na maioria das vezes, do Bezerro de Ouro. Mas
não temos dúvida, também, de que as suas atividades de denúncias de erros e abusos
cometidos, em outro plano, dificultaram o exercício das práticas denunciadas, com isso
tendo continuidade, ainda que à custa de sofrimentos que poderiam ser evitados, o
propósito da Providência. Repare o leitor que na visão que acabamos de expor à sua
consideração, fizemo-la preceder da ressalva de representar ela algo em que pessoalmente
cremos.
49

E por isso conseguimos manter a esperança, ainda que diante do quadro


constrangedor do mundo em que estamos vivendo neste final de século.

O fato, porém, é que se abusos e equívocos não houvessem acontecido, o


estabelecido pelos costumes continuaria a ser aceito com maior naturalidade, menos
ressentimentos e menos conflitos do que os que vieram a multiplicar-se e a agravar-se, ao
mesmo tempo em que começava, sutil, a instalar-se o ceticismo. Claro que, em face deste,
os impulsos decorrentes da natureza animal do homem, pelo menos em termos relativos,
tomavam-se mais fortes. É que o citado ceticismo começava a fazer empalidecer, na mente
e no coração daqueles em que se havia introduzido, a noção do pecado e do castigo que
poderia ser eterno, em que anteriormente as pessoas acreditavam firmemente. Sendo assim,
com o pensamento dos grandes filósofos pagãos, especialmente os produzidos pela Grécia
e por Roma, começava a acentuar-se a sedução dos costumes que imperaram ao tempo do
esplendor das duas culturas, de sentido fortemente lúdico e hedonista, já agora visto com
menos temor, pelos que começavam a ter abalada a fé anteriormente abraçada, e em
virtude da qual, antes haviam aceitado, sem relutância, a ordem vigente e as decisões das
autoridades que a mantinham. Com menos palavras, e por mais chocante que seja dize-lo,
começavam a ser, a pouco e pouco, reintroduzidos no Ocidente, as inclinações e hábitos do
paganismo.

A despeito de nossas reiteradas advertências acerca de que estamos relatando o que


nos parece historicamente mais verdadeiro, seja-nos permitido, a esta altura, como indício
de ausência de facciosismos, recorrer a um autor declarada e manifestamente liberal, o Sr.
Pennigton Haile, em sua obra “Raízes Filosóficas da Democracia e do Comunismo”. A
coincidência de visão é tão grande, que mesmo a nós nos surpreendeu quando em busca,
conscientes da nossa insignificância, fizemos, para atenuar o impacto que, sobre muitos,
sentimos que haverão de causar algumas das idéias expostas, em frontal contradição com
arraigados preconceitos e, nos deparamos, no autor e obra citados, com as seguintes
expressões: “Pois dentro do período histórico da Era Cristã, tem o homem ocidental vivido
à luz de três grandes visões. Primeiro, o sonho confortador do período medieval, no qual as
esperanças do homem se concentravam no céu, e seus temores no inferno23.

“Rebelando-se contra ele no “Século das Luzes”, a visão brilhante e estimulante de


uma sociedade fundada na liberdade pessoal. Nessa sociedade o homem guiado pela luz da

23. A liberdade com sentido finalístico. (Nota do Autor)


50

razão, e liberto de qualquer autoridade predeterminada, eclesiástica ou civil 24, haveria de


decidir qual o grau e natureza do controle político necessário à proteção da liberdade. Foi à
luz desta visão que se formaram os Estados Unidos da América”.

Como pode verificar o leitor, maior franqueza não seria possível, na confissão
subjacente da visão de Protágoras, que queria o homem como medida de todas as coisas.
Igualmente, subjacente, como seria de esperar-se, a prevalência do direito positivo sobre o
direito natural, a rejeição de qualquer autoridade predeterminada, que o próprio pagão
Cícero criticou em “De Legibus”, dizendo que “se todo o Direito fosse constituído, apenas,
das leis, elaboradas sem quaisquer compromissos superiores externos à sua elaboração,
isso equivaleria à atribuição aos legisladores da faculdade de transformarem a virtude em
vício, o erro em verdade, o crime em ação meritória”; da mesma maneira como, para citar
autor mais recente, o professor Radbuch, de Heidelberg que, positivista do Direito,
converteu-se ao jusnaturalismo ao verificar, no problema da anterioridade entre o Estado e
as leis, que algo devia existir, fora e acima de um e de outro, como tem assinalado Mestre
P. Galvão de Sousa, grande jusnaturalista patrício.

E parece-nos curioso verificar que a, ao menos para nós, chocante franqueza com
que se exprimiu Pennigton Haile, ele não o fez de maneira leviana ou em conseqüência da
falta de informações. Ao contrário, muito longe de primária ou caricata, como é tão
comum identificar entre imprudentes que lembram muito as expressões do poeta Pope, a
análise de Pennington Haile se aprofunda de modo arguto e competente, até o pano de
fundo, ou o alicerce, sobre o qual existiu a sociedade medieval que, diga, se de passagem,
em seus cerca de mil anos de duração, representou período de tempo aproximadamente
duas vezes maior do que o transcorrido desde o chamado Renascimento, até os nossos
dias25. Segundo Haile, o extremado idealismo de Platão, que minimizava a importância dos
objetos do mundo apreensível pelos sentidos ou, melhor dizendo, das sensações obtidas a
partir do mesmo, em relação ao mundo das idéias, onde a razão permitia chegar a formas
perfeitas, sobre, por exemplo, Beleza, Justiça, Amizade, Amor, serviu para à concepção
que, no domínio da especulação filosófica, os doutores da Igreja estavam lutando para
introduzir no Ocidente, da existência de um mundo perfeito e imutável, o reino dos céus,
em contraste com o reino deste mundo, cheio de precariedades e imperfeições.

24. A liberdade como ideal que se esgota em si mesmo, com os perigos conseqüentes e já manifestados claramente. (Nota do Autor)
25. Grifos do Autor.
51

Como, porém, o platonismo nunca conseguiu esclarecer de maneira satisfatória, as


relações entre o mundo das sensações e o das idéias, tomava-se difícil estabelecer uma
explicação para os nexos entre o mundo em que vivemos, e o reino celestial. Daí, a
influência que, à altura do século XIII, vieram a ter as idéias, expressas principalmente na
“Summa Theologica”, de S. Tomas de Aquino, estudioso profundo de Aristóteles, cujas
concepções como que superavam as do platonismo, como harmonização entre as
imperfeições do mundo e o que pode ser concebido pela razão. Não existiria uma diferença
intransponível entre o que os sentidos podiam perceber e o que aquela pode elaborar.
Ademais, era básica, em Aristóteles, a convicção da existência de uma “finalidade” no
Universo. Para o estagirita, não havia como aceitar a concepção de Demócrito para quem,
tudo quanto acontece no referido universo é resultado de acaso e da necessidade. Acaso e
necessidade, seja-nos permitida a digressão, que serviu de título a uma obra publicada na
França, no começo da década de 70, por um cientista de nome Jacques Monod. O referido
cientista, professor no “Collége de France” dirige, ou dirigia na época, o serviço de
Bioquímica Molecular, por ele criado no Instituto Pasteur.

Em 1965, havia Jacques Monod recebido, em virtude de trabalhos realizados no


domínio de sua especialidade, o Prêmio Nobel de Fisiologia e de Medicina, que
compartilhou com dois outros cientistas, André Lwoff e François Jacob. E por que nos
permitimos fazer a menção, fora, ao menos, da cronologia da exposição que estamos
tentando oferecer à análise dos que nos leiam? A razão é que, convém não perder de vista,
uma das teses centrais desta obra, é a do cuidado que todos devemos ter, para que, por
imprudência, não sejamos manipulados pelo ocultamento de informações e, até, por vezes,
pela mais clara desinformação. O cientista que acabamos de citar, ademais de sê-lo, dos de
mais alto gabarito em sua especialidade, era militante destacado do Partido Comunista
Francês, que abandonou, e o fez público na obra há pouco citada, por entender que a
natureza dialética de todos os seres, como explicação para a atividade observada no
universo, base do Materialismo Dialético, alicerce de todos os socialismos de inspiração
marxista, era falsa. E tal entendimento não foi conseqüente a uma conversão espiritualista,
mas aos resultados a que chegou em suas atividades como cientista.

Entre outras conclusões, a de que a célula nervosa funciona “como uma máquina no
mais estrito sentido cartesiano”, sendo a mensagem nervosa transmitida “em um único
sentido”, não havendo como conceber-se a referida transmissão em sentido oposto. Além
52

do que, em virtude da “lei dos contrários”26, nega a Materialismo Dialético o “princípio da


identidade”, mas a Física moderna afirma a absoluta identidade entre dois átomos que
estejam no mesmo estado quântico, sendo esse, um dos seus postulados fundamentais.

O autor, repitamos, não abandonou o materialismo. Ao contrário, a sua obra, a que


fazemos referência neste momento, o que não significa a sua apologia, é de reafirmação da
sua convicção acerca da existência exclusiva da matéria. Ele repudiou o materialismo
dialético, exatamente a base que dava aos seus devotos a convicção de serem os únicos
possuidores da interpretação correta do universo, da única e insubstituível postura
científica, o que reduzia os demais, ainda cegos para tão maravilhosa “verdade”, a
alienados, facilmente transformáveis em “instrumentos da reação”. Acreditamos não estar
exagerando, ao dizer que, dada a importância do Sr. Monod, e as suas convicções
filosóficas anteriores, o aparecimento do seu livro “Le Hasard et la Necessité”, deveria ter
repercutido intensamente entre nós, com larga divulgação. Mas não foi o que aconteceu.
Algum tempo depois, surgiu a tradução para o português editada por uma conhecida
empresa editorial, mas o significado da “heresia” do Sr. Monod passou, praticamente, em
brancas nuvens. Bem mais tarde, temos a esperança de oferecer à consideração dos leitores
no que consiste a chamada estratégia de Antonio Gramsci.

Por enquanto, fica o indício comprobatório das distorções que efetivamente existem
e podem dificultar, ou mesmo impedir, uma apreciação correta da realidade e dos
acontecimentos que nos cercam, mesmo às pessoas mais argutas e mais inteligentes, não
somente, mas principalmente ensejada por aquela estratégia. Encerrada a digressão,
entretanto, esperamos, não tão inútil quanto deverá ter parecido à primeira vista, voltemos
ao medievo e, nele ao pensamento de Aristóteles e à influência que, no campo da Filosofia,
exerceu sobre a “Filosofia Perene”, de S. Tomás de Aquino. Víramos há pouco, que para
Aristóteles, existiria uma “finalidade” para tudo de que se constituía o universo. A referida
“finalidade”, estaria inscrita no âmago de todos os seres, e o estagirita a designava como
“forma”, que encontra resistência, na inércia da matéria, o que a impede de realizar a sua
finalidade de maneira perfeita. Para o filósofo grego, os seres se hierarquizam, na medida
em que neles se realize a sua finalidade interior. Nos que não possuem vida, tal realização
se encontra no grau mais baixo de uma escala ascendente, em cujo topo se encontra o
homem, que é dotado de consciência e cuja alma, tem noção de qual seja a sua finalidade,
daí advindo para os seres humanos uma responsabilidade de natureza moral.

26. O Universo, com os seres criados que o integram, é dialético. Não, porém, como o Materialismo Dialético afirma, dialético em
sentido de oposição e de luta, mas no sentido de cooperação ou complementação. (Nota do Autor)
53

Bem mais adiante, nesta obra, é nossa intenção expor aos que nos leiam, algumas
das mais avançadas concepções da ciência moderna, e nexos patentes com concepções, até
o momento, apenas afloradas. Mas, prossigamos em nossa caminhada ao longo da História,
desde já sinalizando, aos que possam estar com a sensação de que estamos sendo pouco
“objetivos”, ou pouco “práticos”, que cada um de nós é sempre, querendo, ou não, “a
última palavra do passado e a primeira do futuro”. Na ignorância do contexto a que
pertencemos e que não nasceu conosco nem foi criado por nós, como entender o presente,
desprezando o passado de que ele resultou? E como prever e planejar para o futuro, com
um mínimo de propriedade, sem entender com a clareza possível, o significado do
presente? A não ser que não atribuamos importância alguma aos riscos dos enganos e
engodos de que, ao menos em grande parte, resultam os problemas e os sofrimentos dos
quais, entretanto, todos nos queixamos - o que, supomos, não seria coerente ou sensato.

Retomemos, entretanto, a idéia de que todos os seres se hierarquizam em escala


crescente, indicativa do grau, cada vez maior, em que aproximam-se do propósito, ou
finalidade, da “forma” interior, presente em todos; escala, como vimos, em que o homem
situa-se no topo, de vez que a alma, que nele representa a “forma”, tem consciência da sua
finalidade, decorrendo disso, a existência da nossa responsabilidade moral, inexistente nos
demais seres. Na linguagem tomista, representativa do que poderíamos considerar como
um refinamento da concepção hierarquizante de Aristóteles, a “forma”, ou princípio de
finalidade, significaria que todas as coisas, por sua própria natureza, estão referidas a
Deus27. De tal modo, deixava de existir o fosso intransponível, conseqüente ao idealismo
platônico para, diferentemente de supor-se a separação absoluta entre o reino dos céus e
este mundo imperfeito, o que era razoável inferir-se era que o Criador está, em tudo e em
todos os momentos, a revelar a própria presença. Já o dissemos um pouco antes, mas não
nos parece descabido repeti-lo uma vez mais: certos aspectos da Física moderna servem de
indícios, ou, quem, sabe, de evidência, do que acaba de ser afirmado.

Convém acrescentar, porém, que embora possa parecer a alguns, que se trata de
concepção panteísta, na verdade não se trata de panteísmo. Cada coisa, porém, a seu
tempo. Neste ponto da exposição, o que desejamos realçar é o que foi realçado pelo
próprio autor que estamos citando, ao dizer que a percepção do sentido finalístico das
coisas é apreensível pela inteligência limitada do homem e, portanto, está ao alcance da sua
razão. Mas não perfeita e totalmente, nem igualmente por todos os homens. O que, em

27. Grifos do Autor.


54

sentido amplo, não possa ser apreendido pela razão humana, poderá sê-lo pela fé e pela
Revelação. Desse ponto, já teríamos chegado a um passo da aceitação de que a percepção
da finalidade pela via racional, era mais acessível, em tese, aos homens instruídos,
enquanto aos iletrados torna-se mais rica a estrada da fé.

Não que, necessariamente, a instrução, no sentido de preparo acadêmico, seja, por


si só, garantia de facilidade para a percepção do Criador, nas coisas por ele criadas;
freqüentemente, pelo contrário, pode tornar-se entrave ou dificuldade, sobretudo pela via
do Orgulho; como também a ignorância não é, por si só, algo garantidor da percepção da
“forma”, a que se referia Aristóteles. O que desejamos fazer entrever ao leitor é que, a
compatibilização do Criador com o mundo por ele criado, e por intermédio do qual pode
ser percebida a Sua presença e o Seu propósito ou finalidade, não implicava em nivelar
todas as criaturas mas, ao contrário, em aceitar a existência de diferenças de percepção e
de, em termos humanos, responsabilidade moral. Embora na visão da Filosofia Perene,
todas as almas sejam iguais perante Deus, os homens não seriam iguais entre si, em sua
existência neste mundo. Como se vê, como a Igreja católica era, àquele tempo, a fonte da
difusão da fé entre os simples e, ao mesmo tempo, a guardiã da racionalização do que
ensinava junto aos eruditos, o tomismo era o fundo filosófico mais adequado à ordem
medieval, de que era a Igreja incontestável baluarte.

Mas, anteriormente, já tivemos a oportunidade de mencionar que, à luz da ética dos


primeiros séculos, estabelecera-se uma oposição entre ela e os agentes da atividade
comercial, desejosos de fazer motor central desta a obtenção de lucro; e como o poder de
impor o que parecesse adequado estivesse em mãos dos senhores feudais, adeptos da nova
fé, e dos seus catequizadores, tudo quanto surgisse, capaz de semear a dúvida e, com ela, o
entibiamento da fé e do poder que dela e de seus agentes, leigos ou clericais resultava,
passou a ser objeto de empenho em divulgar e em promover. Estamos, ainda uma vez,
repetindo idéias já mencionadas; e queremos explicar que não o fazemos pelo prazer de ser
maçantes, mas por entender que o tema é vasto e complexo, convindo aos que nunca
tenham cogitado antes de problemas do gênero, facilitar-lhes a tarefa de entendê-los,
repetindo, ao menos alguns dos pontos focais para a percepção do conjunto. O Sr.
Penningtos Haile, por exemplo, e este é um exemplo da importância de certas motivações
reais, não apenas alegadas28, com a sua habitual franqueza, admite, o que é inteiramente
verdadeiro, que Aristóteles jamais condenou a escravidão.

28. Grifos do Autor.


55

De nossa parte, diremos que ele, não apenas não a condenou, como julgou-a
indispensável à democracia - o que não impede, note o leitor, a freqüência com que,
explorando o étimo da palavra, tantos continuem a afirmar, solenes e enfáticos, que “a
democracia nasceu na Grécia” acrescentaremos que o mesmo Sr. Haile, assim textualmente
se exprime, em outro trecho de sua obra: “A concepção medieval dava aos homens uma
base racional para a convicção de que o universo existe para um fim29 e que o homem é o
representante de Deus na Terra. É de suma importância observar, ainda, que ela fornecia da
natureza do homem um conceito que acentuava significação a cada um, um papel a
desempenhar no grande drama cósmico da existência de cada indivíduo; pois a cada qual
era dado progredir da melhor maneira que lhe fosse possível, sabendo que tinha por tríplice
palco a Terra, o Céu e o Inferno.

“Nunca teve o homem melhor alicerce para uma consciência acerca de sua
importância no universo e da sua responsabilidade no cumprimento da finalidade inerente
a todas as coisas30. A despeito de tudo quanto ganhou em termos de conhecimento
científico, e de domínio técnico sobre o ambiente, algo se perdeu quando desapareceu a
concepção medieval do universo, algo que havia dado ao homem um senso interior de
segurança, quase insubstituível”. Nem pense o leitor que o Sr. Haile é um adepto de idéias
medievais que, segundo ele, teriam representado um sonho, substituído por outro sonho,
simbolizado, dizemos nós, pela estátua que se ergue à entrada do porto de Nova Iorque: a
estátua da Liberdade, que não está ordenada a um fim externo ao homem e aos impulsos de
sua natureza contraditória, no dizer de um poeta, algo como uma mistura de lama e de luz.
E para que não se pense que estamos interpretando equivocadamente o pensamento do
autor em questão, citemos novo trecho de sua importante e, sobretudo, reveladora obra:
“Leão XIII continuava fiel à concepção aristotélico-tomista.

“É óbvia sua oposição a qualquer outra atitude. Mas o importante nestas suas
afirmativas é que os princípios que tão firmemente denuncia são exatamente aqueles nos
quais cremos tão apaixonadamente, nos quais se funda nossa nação e em defesa dos quais
seríamos capazes de morrer 31”. Os princípios criticados por Leão XIII e que Haile apoiou
com tanta veemência, após transcrevê-los em seu livro, são os seguintes: “Esse pernicioso
e deplorável amor das novidades que o século XVI viu nascer, depois de haver primeiro
transtornado a religião cristã, em breve, por inclinação natural, passou à Filosofia e da
Filosofia a todas as camadas da sociedade civil. É a tal fonte que cumpre fazer remontar

29. Grifos do Autor.


30. Grifos do Autor.
56

esses princípios modernos de liberdade desenfreada 32 (...) Eis aqui o primeiro de todos
esses princípios: todos os homens, já que são da mesma raça e da mesma natureza, são
semelhantes e, portanto, iguais entre si, na vida prática. Cada homem é de tal maneira
senhor de si mesmo que, de modo algum, está sujeito à autoridade de outrem; pode, com
toda a liberdade, pensar o que quiser sobre qualquer assunto (...) Numa sociedade baseada
em tais princípios a autoridade é apenas a vontade do povo 33 (...)”(Encíclica Imortale
Dei).

O leitor julgará livremente da prudência dos princípios pelos quais o Sr. Haile é
capaz de dar a própria vida. De nossa parte, estamos expondo, não criticando e, portanto,
julgando. Em qualquer caso, parece adequado citar textualmente, como estamos fazendo
sempre, o autor, ao referir-se a alguns dos resultados já presentes, ao menos como
tendência, no período que seguiu-se ao medievo e que os historiadores costumam designar
como Renascimento: “Desapareceram a docilidade medieval na aceitação da autoridade 34
e a delícia medieval das complicadas e elaboradas explicações. Na literatura três novas
tendências são de se notar: interesse por este mundo mais do que pelo céu e pelo inferno;
uma apaixonada insistência em abordar todos os assuntos ; e um acentuado ceticismo em
relação à autoridade estabelecida. A todos era comum aquele carimbo da Renascença - a
determinação do homem de pensar por si mesmo 35.”

E, mais adiante, sempre textualmente transcrito: “Soprava sobre o mundo ocidental


uma fresca aragem de inquietação. Suas conseqüências foram múltiplas. Mas,
fundamentalmente, todas elas se achavam vinculadas ao nosso próprio planeta, sua
amplidão e beleza e as possibilidades de uma vida melhor em sua superfície. Havia muitos
motivos para esta evolução do interesse do homem, do céu, que se cria estar lá em cima,
para a Terra que sabia achar-se em torno deles36.

“Houvera, em primeiro lugar a partir dos começos do século XV ou antes, a


redescoberta da arte antiga, com o seu vivo e franco amor da beleza terrena, cujas
conseqüências invadiram rapidamente a Renascença... A beleza da carne, da paisagem
floresce na pintura...37”

... “Paralelamente, haveria de se tornar inevitável uma certa inquietação frente à


autoridade estabelecida, e a discussão de todos os postulados até então admitidos”.
32. Grifos do Autor.
33. Grifos do Autor.
34. Grifos do Autor.
57

Como pode verificar o leitor, um autor entusiasticamente liberal, claramente


concorda com o espírito de rebeldia e a exaltação da razão humana, que já não queria
submeter-se a princípios preestabelecidos. Tudo isso, segundo ele, como características do
clima cultural do Renascimento.

Anteriormente, havíamos dito, e mais de uma vez, que já na fase característica do


medievo, se estabelecera uma oposição de interesses, no domínio das atividades
econômicas, entre os que as pretendiam livres de “qualquer princípio preestabelecido”,
valendo-nos das expressões de Haile, exatamente os que embasavam a ética dos que
tinham autoridade e a capacidade de faze-la obedecida em suas decisões. Diremos agora
que, à medida em que progredia o ceticismo, fortaleciam-se os interesses dos que,
compreensivelmente, queriam libertar-se do que julgavam prejudicial ao progresso de suas
atividades. E foi assim, na presença da tensão a que nos estamos referindo, que surgiu o
Nominalismo de William Ockham, a partir do qual intensificou-se a célebre “querela dos
universais”, também já antes mencionada, e que se tornara possível face aos inegáveis
exageros da escolástica, muitos de cujos adeptos chegavam ao ponto de negar a existência
dos seres constitutivos do universo que nos cerca, para supervalorizar os conceitos
universais elaborados pela nossa mente, por intermédio, sobretudo, da introspecção e do
pensamento contemplativo.

O Nominalismo, a cuja menção estamos voltando neste momento, para os leitores


que nunca se tenham ocupado anteriormente de assunto dessa natureza, haverá de parecer
algo por demais abstrato para ter qualquer importância ou efeitos sobre o que, em nossos
dias, tantos imaginam que seja, com exclusividade, prático. A esses, pedimos paciência e,
desde logo, garantimos que para outros, tem a referida visão epistemológica tal
importância, que chegam a dizer que, sobre a moderna civilização a que pertencemos, ele
representou algo mais importante do que o uso da pólvora, a invenção da imprensa e a
Reforma de Calvino e Luthero.

É que, embora em si mesma, a visão epistemológica nominalista de William


Ockham, um sacerdote inglês, de resto considerado moderada e, por muitos, mais
adequadamente designável como Conceptualista, negava os conceitos universais tão
valorizados pelos escolásticos, como coisas que não compunham o universo dos objetos
perceptíveis pelos sentidos humanos, de vez que não existem “objetos universais” na
58

realidade em que vivemos, suscetíveis de apreensão pelos referidos sentidos. Seriam,


assim, “os conceitos universais”, algo existente apenas na mente de quem os concebia.

De nossa parte, embora não com o propósito de influenciar a opinião do leitor,


mesmo porque temos humildade suficiente para entender a nossa insignificância, diríamos
que, como sempre, os radicalismos, menos ajudam do que dificultam a percepção dos
significados que expressam com tanto ardor, como algo que, necessariamente, todos devam
aceitar como verdadeiro. Será assim no plano das relações entre a criatura e o Criador em
que, supomos e não hesitamos em confessá-lo mais uma vez, torna-se indispensável a
Revelação. Permita-nos, porém, não aprofundar, neste instante, a ponderação que
acabamos de fazer. Apenas para acrescentar, a propósito da alegada inexistência de
“objetos universais”, perceptíveis pelos sentidos, que nominalistas radicais, como
Ruscelino, considerava “flatus voces”, sons vazios, que não nos parece justificável tirar daí
a conclusão de não terem importância os “conceitos universais”, para nós muito maior do
que os nomes, as palavras, que os expressam. Lembramo-nos, neste momento, da obra
“Duas Cidades - Dois Amores”, em que Gustavo Corção, engenheiro por formação
acadêmica, politicamente socialista em sua juventude, mais tarde convertido ao
catolicismo, ao comentar a corrente epistemológica a que nos estamos referindo dizia,
entre outras coisas, que como conceito de validade universal, no campo da geometria
euclidiana, a palavra círculo designa o lugar geométrico de todos os pontos eqüidistantes
de um ponto comum, denominado centro.

Com tais características e outras, que lhe são conseqüentes, como o valor da
relação, em qualquer círculo assim conceituado, entre ele e o seu diâmetro, ser sempre o
mesmo e representar é pi (n) constante cuja expressão numérica aproximada é 3,1416, com
tais características, jamais será possível produzir um objeto material, perceptível pelos
sentidos, por maiores que sejam os cuidados empregados em sua fabricação. Tal objeto
poderá aproximar-se muito do conceito geométrico que expusemos de maneira resumida,
nunca igualá-lo. Mas, com base no universal que corresponde a ele, foram possíveis
grandes avanços em geometria, inclusive com as aplicações práticas que resultaram deles.
Então, longe de meros “sons vazios”, os universais têm papel insubstituível no
desenvolvimento do conhecimento humano. A querela, entretanto, dados os excessos,
sobretudo dos escolásticos radicais, despertou a atenção de muitos coevos, para a
importância, igualmente inquestionável, de aplicar-se o homem ao conhecimento do
59

mundo exterior, dos seus fenômenos, e das relações imediatas de causa e efeito, que, em
tais termos, os produzem.

Ora, o nominalismo e a “querela dos universais” que ele suscitou, datam do século
XIV. A partir daí, o pensamento contemplativo, a introspecção e o método dedutivo de que
principalmente lançava mão, começaram a perder terreno para a extroversão das atenções
em direção ao mundo que nos cerca, passando a ser o melhor instrumento para conhecê-lo,
a observação direta dos seus fenômenos, cujas relações de causa e efeito, há pouco
mencionadas, deveriam ser estabelecidas, por intermédio da observação, servida do
método indutivo. Com isso, a preocupação dominante dos homens, de conhecerem o
próprio íntimo, partindo da concepção inquestionada da existência de uma vida que
transcendia a vida material, e que era de duração eterna, tudo decorrente da vontade de um
Criador, que a cada ser dera uma finalidade, e perante o qual seríamos todos responsáveis
quanto ao tipo de existência transcendente, de duração eterna - que poderia ser de
inenarrável bem-aventurança, ou de indizível sofrimento, aos privados da contemplação de
Deus - tudo isso empalidecia pela dúvida acerca do que até então fora aceito praticamente
sem relutância. Dúvida aliás, cada vez mais fortalecida pelos rápidos sucessos
conquistados pela humanidade, no campo do conhecimento do chamado universo material.

O ceticismo a que acabamos de referir-nos, se o somarmos aos erros e abusos


decorrentes da gradual desfiguração da conduta e dos propósitos de autoridades temporais
e eclesiásticas, a servirem de pretextos para os que desejavam, exatamente, enfraquecer-
lhes o poder, pode oferecer uma explicação para o caminho de transformações em que se
constituiu o século XVI, no qual teve início o chamado Renascimento. A figura de reis,
que a Igreja canonizou, como S. Luiz, que não foi outro senão Luiz IX, rei de França; de S.
Fernando, que não foi outro senão Fernando III, rei de Espanha, ou a do legendário rei
Arthur com os seus Cavaleiros da Távola Redonda (redonda porque, àquele tempo, o rei
era tido como “primeiro entre iguais”), foi sendo substituído pela de outros soberanos, não
tão virtuosos.... Hoje, certas mesas do poder, já tendem mais para a forma
aproximadamente elíptica, cabendo a cabeceira a personagens em direção aos quais
dirigem, se numerosas atenções, tantas vezes sorridentes... A existência de reis exemplares,
já fora substituída, como vimos, por outros tendentes ao exercício despótico do poder de
que dispunham, e com cujo despotismo, nem sempre, mas muitas vezes, compactuavam
hierarcas eclesiásticos.
60

Tornava-se, é claro, cada vez mais simples, ou mais fácil, o crescimento da


influência dos que supunham não dever ater-se a atividade econômica, senão à obtenção
de lucros, quanto maiores, melhor. A autoridade religiosa, até ali, na Europa e no mundo
cristão, em mãos do catolicismo, sofreu no século XVI, a ruptura que resultou no grande
cisma do Cristianismo do Ocidente, ruptura expressa pela crítica contundente de Luthero e
pela do severo asceta João Calvino. Claro que a motivação de um como de outro, tudo
indica ter sido nitidamente religiosa. O que os levou à rebelião contra o papa e contra o
Magistério da Igreja que o apoiava, foi, principalmente, a visão de ambos de que a pureza
essencial do Cristianismo não estava sendo mantida adequadamente, mas posta a serviço
de uma intercalação abusiva entre as Escrituras e o povo, pelos que, delas, se pretendiam
exclusivos intérpretes autorizados e competentes. Não é este o lugar para analisar as razões
ou sem razões dos líderes da Reforma, nem teríamos nós autoridade ou procuração para
tanto.

O que parece fora de dúvida e importa à linha de raciocínio que estamos oferecendo
à consideração do leitor é que se as disposições das autoridades seculares, e as virtudes de
eficácia evangelizadora dos sacerdotes dos primeiros tempos, se tivessem mantido em
nível constante, os costumes sobre as quais se havia estabelecido o que de melhor houve na
ordem social do medievo, teriam se mostrado mais resistentes à influência, sempre
crescente, dos que pretendiam localizar como motivação central de suas vidas, a atividade
econômica visando essencialmente o lucro. Influência cada vez maior na sociedade,
inclusive, a ponto de suplantar a expressão fundiária da riqueza, base em que assentava o
poder dos senhores feudais. Crescia, assim, o poder financeiro, representado pela
acumulação dos lucros obtidos nas transações que os tinham como objetivo principal;
acumulação, por sua vez geradora de uma nova capacidade de pressão social, exercitada
pelos que, senhores daquele poder, estavam em situação de socorrer, tanto senhores feudais
necessitados eventualmente daquele tipo de apoio, quanto, mais tarde, até reis.

Estes representavam o Estado, resultante do declínio da autoridade típica do


feudalismo e do crescente poderio de cidades, com privilégios peculiares, resguardadores
dos interesses que, à altura em que nos estamos situando, já eram, nitidamente, da índole
do que, no período áureo do medievo, fora condenado e combatido. Uma reflexão um
pouco mais atenta verifica que o Estado era algo situado acima dos barões feudais
61

representativos, àquele tempo, do que, em linguagem dos nossos dias, seria considerado
reacionário e conservador.

As observações, obviamente nada minudentes ou precisas, foram feitas com o


objetivo de fortalecer a linha de raciocínio adotada por nós até aqui, com os dois objetivos
principais, de alertar para a possibilidade, real, da existência do fenômeno da
desinformação, por um lado; por outro, como certos valores fundamentais do Cristianismo,
serão tanto mais eficazes quanto maior for a fé, a convicção na existência de um Criador,
que a toda criação, a todos os seres que a integram, atribui um propósito, uma finalidade.
Propósito e finalidade que, o Homem, feito, segundo o relato das Escrituras que constituem
a base da civilização a que pertencemos, à Sua imagem e semelhança, sabe existir. Por
sabê-lo, aliás, é que existem para ele, como tivemos oportunidade de assinalar antes, as
exigências da moralidade, assentes em sua lei fundamental: “o Bem deve ser praticado; o
Mal deve ser evitado”. Bem e Mal, como pode perceber o leitor, que não são objetos
perceptíveis pelos sentidos, mas noções que, no fundo da consciência, a criatura humana
reconhece como verdadeiras.

Sobre como levar uma vida na observância, o mais satisfatória possível, das
exigências dessa realidade, é o que se constitui em dificuldade, tão bem retratada nos
trechos que utilizamos anteriormente, em que o grande “apóstolo das gentes” estabelece as
características do que ele designa como obras da carne e as das que denomina obras do
espírito, depois de afirmar que os apetites de uma e de outro, opõem-se entre si. Trata-se de
conflito que o apóstolo citado confessa existir em seu próprio íntimo, ao lamentar que nem
sempre conseguia fazer o que desejaria, face ao clamor das exigências dos seus membros.
Ora, em tal terreno, a Ciência não tem o que dizer ou, ao menos, não tinha, até
pouquíssimo tempo. Cuidando de examinar os fenômenos do mundo material que nos
cerca, e de estabelecer as suas relações aparentes de causa e efeito, não pertence ao seu
domínio, ensinar, ou esclarecer como devem ser utilizadas, no plano moral, as leis
descobertas e o domínio sobre os fenômenos, que elas ensejam.

As cogitações de ordem metafísica é que podem elucidar tais problemas; mas,


como vimos, a maneira pela qual o fez o Cristianismo dos primeiros tempos, contrariou
interesses que já mencionamos e que respondiam, em tal ou qual medida, a apetites da
carne, ligados à avareza, forma de concupiscência, de maneira a que tais interesses
62

puderam lutar, e muito freqüentemente, em nome da liberdade, a qual, alegada como ideal,
era apenas uma arma em mãos dos que pretendiam a adesão popular à conquista dos
objetivos egoísticos que alimentavam e aos quais servia de camuflagem a mencionada
liberdade.

Não se tratava da liberdade a que se refere a passagem do Evangelho que, de


maneira limpidamente clara, como vimos, ensina: “Sejamos homens verdadeiramente
livres; não como aqueles que falam de liberdade para ocultar a malícia”.

Neste momento, desejamos realçar que os que combatiam a existência de um


propósito em todos os seres, que a consciência humana sabe existir, nem sempre o faziam
ou, melhor dizendo, geralmente não o faziam, conscientes do significado profundo da sua
posição. Eles estavam apenas, agindo sob a pressão dos próprios objetivos, que julgavam
justos e que, em certa medida, efetivamente o eram. Mas o prestígio dado a quanto
enfraquecesse autoridade prevalecente no período característico do medievo, e, já no época
do seu acentuado declínio, contando com numerosos pretextos válidos, não podia deixar de
exaltar o Nominalismo. Disposição que, ao estimular o estudo dos fenômenos da natureza,
a ser feito pela observação direta de suas características, observação a gerar hipóteses
explicativas, estabelecer relações de causa e efeito, tudo tendo como principal mecanismo
de elaboração o método indutivo, inegavelmente foi algo que acelerou de maneira
estupenda o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia, que hoje caracterizam a
civilização a que pertencemos. A civilização, não tanto a cultura, esta sob os efeitos
atordoadores do fenômeno a que aludimos em passagem anterior desta obra, denominando-
o “interferência cultural”.

É que os rápidos avanços científicos e tecnológicos, ao mesmo tempo em que


ampliavam com velocidade vertiginosa o campo de cada ciência, obrigava à subdivisão de
cada uma em especialidades que, por sua vez, continuam a subdividir-se, acarretando, a par
dos progressos sem paralelo desde então desencadeados, a perda de visão de conjunto,
anteriormente possuída pelos eruditos, do acervo global dos conhecimentos conquistados
pelos antepassados; mas, além disso, tais e tantos e, em muitos casos, tão maravilhosos
foram os progressos, que passou a desenvolver-se o Orgulho humano, que tão bem seria
expresso por Immanuel Kant, em sua “Crítica da Razão Pura”: “A humanidade alcançou,
por fim, a maioridade. O homem já não necessita de nada que não tenha sido elaborado
63

pela sua razão!” Ora, embora lamentando a falta de detalhes e o saltar inevitável de etapas
que não seriam indispensáveis à compreensão do fio do que estamos desejando propor à
consideração pelas inteligências e o íntimo das consciências dos que venham a ler estas
linhas, a superestimação da capacidade da razão humana, embora não eqüivalendo nem
significando uma negativa formal acerca da existência de qualquer coisa transcendente à
matéria, e à existência de um Criador que atribui um propósito, uma finalidade, a cada
uma de suas criaturas 38, nitidamente visava dispensar a aceitação de quanto resulte da
Revelação.

De outra parte, todos sabemos que o Iluminismo, sobretudo o francês, teve a marca
desse racionalismo. Que a Enciclopédia, por intermédio de várias de suas mais importantes
personalidades, sofreu a influência do indutivismo de Francis Bacon, introduzido no
continente europeu, sobretudo por vultos como Diderot, d'Alembert, d'Holbach, entre
outros; que a Revolução Francesa de 1789, tomou-se possível face a injustiças consagradas
na lei, que atribuía aos membros da aristocracia e do clero católico, privilégios que eram
negados a todos os demais: aos plebeus, não clérigos, que constituíam o chamado Terceiro
Estado. Ocorre, porém, que os plebeus não eram apenas os marginalizados, os pobres, os
miseráveis. Também eram plebeus os ricos burgueses que, no decorrer dos séculos, e pelas
razões centrais já expostas, haviam combatido o feudalismo. Ao tempo a que acabamos de
referir-nos, os burgueses, após conquistarem definição social e influírem na formação das
cidades e dos privilégios que deviam corresponder às suas características econômicas,
deram início, por intermédio delas, ao embrião dos futuros Estados, a serem dirigidos por
reis a que deviam submeter-se os senhores feudais, tão incômodos.

Ocorre, porém, que os referidos reis, tal é a nítida e dramaticamente retratada “pelo
apóstolo das gentes”, natureza humana, fechados nos círculos de sangue de suas dinastias,
recorriam ao dinheiro dos burgueses que o tinham, mas não lhes deferiam a consideração,
o respeito e, mais ameaçador que tudo, o acesso direto ao poder político. O projeto de
debilitamento da capacidade da ordem feudal entravar-lhes ou criar-lhes dificuldades ao
desembaraçado exercício das suas atividades centralizadas no objetivo da obtenção de
lucros, em certo sentido tivera sucesso. A crescente influência da ordem financeira, porém,
ao mesmo tempo em que minava o estatuto social da feudalidade, consolidava e fortalecia
a posição dos monarcas, cujos favores, que não eram sancionados pela ética social
remanescente, dependiam dos empréstimos de que necessitavam os representantes de

38. Grifos do Autor.


64

importantes dinastias para a sustentação do seu fausto e dos conflitos que freqüentemente
travavam entre si. Tratava-se, pois, de sucesso instável, cuja consolidação passava a
depender de uma sanção moral inviável dentro da estrutura e dos conceitos predominantes
na sociedade medieval.

Persistia, portanto a despeito do novo “status” dos dedicados à atividade financeira,


das cidades que, de certo modo, haviam dominado os núcleos em torno dos quais se
haviam formado, dos Estados conseqüentes a elas, e dos reis sobre os quais podiam exercer
influência na forma já vista, persistia, repetimos, a necessidade da sanção moral, acima
mencionada. Como a inviabilidade de tal sanção devia-se à visão ética de origem religiosa
característica do feudalismo, acerca da natureza e finalidades das atividades econômicas,
supomos, e submetemos a suposição à apreciação do leitor, que já se pode identificar a
índole de uma tremenda revolução da qual, imaginamos que os contemporâneos não
tinham plena consciência, e que implicava na desvinculação da ordem social, de
compromissos eficazes com idéias e conceitos de índole religiosa. Começava aí, a
gestação de uma cultura fundamentalmente leiga 39. Bem sabemos que a exposição feita até
aqui, complexa pela sua própria natureza, lacunosa pela extensão do período histórico que
se propôs abranger, padecente das insuficiências do autor, entretanto, esperamos, já
entremostra ao leitor que o que lhe parecera, talvez, não pertinente, ou pouco objetivo, na
verdade representa o mínimo absolutamente indispensável à compreensão, em
profundidade, do caos e dos sofrimentos, tantas vezes desnecessários, presentes neste final
de século.

Acrescente-se, ainda, que a extroversão dos esforços dos sábios, a partir, sobretudo
do Nominalismo, a par dos extraordinários benefícios que trouxe 40, em virtude do domínio
crescente dos fenômenos e das forças naturais, postos a serviço da produção de bens com
os quais os homens jamais haviam sequer sonhado; dos avanços da medicina, tanto
preventiva quanto curativa, que ensejam hoje uma maior e melhor expectativa de vida e
dão, no sentido material, uma feição absolutamente sem precedente nos milênios
transcorridos desde as mais remotas profundidades dos tempos históricos, até o início do
século XVIII; a par de tantos e tão brilhantes resultados, entretanto, o Orgulho41 trouxe à
civilização hodierna, paralelamente, a falsa sensação de independência e autonomia, tão
enfaticamente traduzida nas expressões citadas e constantes da “Crítica da Razão Pura”.

39. Grifos do Autor, a trecho que considera de capital importância.


40. Grifos do Autor.
65

Daí, dessa perigosa euforia, o fenômeno antes apenas mencionado, quando falamos
da “interferência cultural” a que vem sendo submetido o Ocidente em geral, e as demais
áreas do globo, sujeitas à sua influência. É que, embora não o confesse expressamente, a
civilização ocidental moderna, desde há muito sofreu a superposição, aos valores
fundamentais que lhe deram origem, da secularização, da atitude de latitudinarismo que, na
prática, mostra-se indiferente, e cada vez mais contraditória, em relação a critérios que, de
fato, despreza ou pelo menos, não acha que deva obedecer. Usamos tal expressão,
“interferência cultural”, pelos efeitos assemelháveis ao que acontece a um receptor de
rádio cujo seletor de freqüências esteja defeituoso. A partir de então, o referido receptor já
não amplificará mais sons inteligíveis e harmoniosos, mas apenas silvos, guinchos e
estrondos ininteligíveis e incômodos. Em termos de cultura, a contradição entre o que se
confessa e o que se pratica, instalou a “interferência”, da qual resulta tamanha confusão,
que poucos se dão conta, p. ex., do absurdo representado pela pacífica aceitação do termo
“Renascimento” para designar o período que se seguiu, no Ocidente, à Idade Média. Sem
precisar voltar a argumentos anteriormente citados a propósito do medievo, basta
considerar que, com suas virtudes e seus defeitos, foi ele sem dúvida o período em que
princípios cardiais da mensagem cristã, mais influíram na ordem social.

Isto posto, cabe indagar: o que é que renasce, senão o que esteve morto ou
mergulhado em profunda letargia? Então, como a civilização que continua a dizer-se cristã,
pode aceitar sem discussão e repetir ao infinito, que depois das “Trevas Medievais”, o que
as sucedeu representou um renascimento? Sobretudo quando já mencionamos, e o leitor
julgará se com propriedade, ou não, os interesses que se opunham às exigências da ética
cristã - ressalvadas, é claro, as circunstâncias da época - ressalva que fazemos para que não
se possa supor que estamos desejando insinuar uma volta, hoje, em condições
profundamente diferentes, do modelo medieval. Mencionadas foram, também, . sobretudo
nas expressões insuspeitas de um liberal convicto, como Pennington Haile, o sentido
hedonista que, realmente, marcou o que se usa denominar Renascimento. Para reprisar
alguns exemplos, os Cavaleiros medievais, tão cruelmente caricaturados em d. Quixote,
ainda que sem a exagerada exaltação de suas virtudes e façanhas, feita nos romances que
levaram à loucura o “Cavaleiro da Triste Figura”, esforçavam-se por pautar a sua conduta
pelo exigente e generoso Código da Cavalaria, que os induzia a colocar as suas armas,
sempre a favor da justiça, na defesa do fraco contra o forte.
66

Na Renascença italiana, os “Cavaleiros Andantes”, a que acabamos de referir-nos,


foram substituídos pelos “condottieri”, mercenários sempre dispostos a colocarem as suas
armas, não a serviço das causas mais nobres, porém ao de quem pagasse mais. Certas
jovens infelizes que se dedicavam ao exercício da profissão que alguns afirmam ser a mais
antiga do mundo, e que no medievo italiano eram designadas como “peccatrice”,
pecadoras, passaram a ser chamadas de “cortiggiani”, por entender o povo que o
comportamento delas assemelhava-se muito ao de diversas senhoras da Corte.

Uma obra literária daquele período que constituiu-se no que, guardadas as devidas
diferenças, seria classificado hoje como “best-seller”, foi de autoria de um certo Sr. De
Valla, e o título de tal obra, muito expressivo, era “De Voluptate”. Realmente, foi um
período de liberação de impulsos que, de fato, integram a natureza do homem42. Por isso,
foi sempre mais fácil aos interessados em reduzir a influência religiosa - e, depois da
Reforma, já não mais apenas da Igreja Católica, fazê-lo apresentando-se como defensores
da liberdade. Liberdade que, não estando dirigida a um fim externo e superior aos impulsos
contraditórios da natureza humana, como os ligados às várias expressões da
concupiscência, constitui-se em uma espécie de absurda e perigosa carta sem endereço e,
mais absurdo ainda, sem texto. Era o clima adequado aos interesses de quantos vissem uma
ameaça na forma pela qual se exercia a autoridade, sempre que estivesse ela fora do seu
controle e pudesse prejudicá-los. Em termos de obra política do Renascimento italiano,
todos conhecem o primor de cinismo, em nossos dias transformado no eufemismo
“realismo político”, mesmo quando se trata, não apenas de realismo, mas da utilização do
termo, como eufemismo para justificar a amoralidade, que se contém no “O Príncipe”, de
Nicoló Macchiavelo.

Em tal cinismo, não é difícil identificar a influência de Ulpiano, jurista pagão, para
quem “a vontade do príncipe é justa por ser a vontade do príncipe”. Já o “trevoso”
aquinatense, ao revés, séculos antes, do “renascido” Macchiavelo, havia afirmado: “Não é
o reino que pertence ao rei; é o rei que pertence ao reino”. E já vimos, em passagem
anterior desta obra, que um monarca posterior a Macchiavelo, Luiz XIV foi o autor da
célebre frase - “O Estado sou eu!”. O Renascimento, portanto, representou, não apenas,
mas certamente, em certa medida, a reintrodução do paganismo no ambiente cultural do
ocidente cristianizado. As próprias artes, não tanto a pintura, pois na antigüidade clássica
não se havia desenvolvido ainda a produção das tintas indispensáveis, mas a escultura e a

42. Por motivos que serão expostos em parte ulterior desta obra. (Nota do Autor).
67

arquitetura, de fato ganharam novo impulso e novas influências, sobretudo relacionadas ao


corpo humano. Da antigüidade clássica do Ocidente, sobretudo da Grécia e de Roma, são
comumente divulgadas mais encômios do que restrições. Pelo menos, ninguém, supomos,
será capaz de afirmar que deles são realçadas mais os defeitos do que as qualidades que
tiveram, ou a elas, nem sempre com justiça, se atribuem.

Assim, quem já não ouviu dizer, ou leu, que “a democracia nasceu na Grécia?”
Mas, ao que saibamos, os filósofos do esplendor da civilização helênica e, de maneira mais
ampla, os grandes pensadores daquela civilização, à exceção, talvez, de Aristóteles e
Platão, não se ocuparam, detidamente, com as questões relacionadas à organização política
da sociedade. Ao menos não parece terem se ocupado com elas os grandes vultos da
“Escola Itálica”, como Pitágoras, como Lisis, como Arquita de Tarento; ou os chamados
jônicos antigos, como Empédocles, ou Heráclito, ou Anaxágoras; ou os jônicos modernos,
como Anaximandro e Anaxímenes; ou os sofistas, como Protágoras ou Górgias. De fato, os
grandes nomes do pensamento político da civilização helênica foram Aristóteles e Platão,
com as suas famosas “Política” e “República”, respectivamente. E antes de que algum
leitor, que não tenha tido interesse, ou oportunidade, para informar-se melhor acerca de
certos aspectos da evolução político-social da Grécia e, por isso, possa imaginar que a
democracia - tal como ela é promovida hoje - nasceu ali, seja-nos perdoado fornecer alguns
dados, ainda que resumidamente, do que, efetiva e objetivamente, a História pode
informar-nos a respeito.

Nas primeiras cidades gregas, o governo foi monárquico, fato que perdurou em
Esparta que, no particular, e em certos termos manteve-se fiel por muitos séculos, às suas
origens. Àquele tempo, os reis exerciam a sua autoridade sobre clãs e pequenas
comunidades. A ilha de Ítaca, segundo observa Latapié, em sua “Consideraciones sobre la
Democracia”, era dividida em doze Reinos, sendo que Mecenas, Argos e Salamina
formavam reinos independentes. Com o passar do tempo, os reis de influência sobre
súditos mais numerosos, e que dispunham de maior poder, acabaram por impor a sua
autoridade sobre os mais fracos, que passaram a ser meros feudatários deles. De fato, e
Latapié o assinala na obra há pouco citada, Homero afirma que Ulisses era “rei dos reis de
Ítaca”, enquanto o legendário Teseu o era dos de Ática.
68

Mas havia os grandes proprietários de terra, os latifundiários como seriam


denominados hoje, e que, à época, eram chamados eupátridas. Tais personagens, em geral,
eram descendentes de antigos chefes de clãs e, embora reunidos em torno do rei da cidade
que correspondia às suas origens, achavam-se colocados em camada social inferior à que
lhes coubera anteriormente. Por esse motivo, sentiram-se motivados para coligarem-se
contra os reis os quais, ameaçados pelo poder dos eupátridas, buscaram aliar-se aos
trabalhadores assalariados e aos pequenos artesãos, que antes viviam afastados de qualquer
participação cívica. A despeito disso os reis foram vencidos pelos eupátridas, sendo
organizado, na ocasião, um governo nitidamente aristocrático, ainda que de feição
republicana. Foram criados, então, os cargos de Polemarca - que detinha o comando do
poder militar - e o de Arconte, magistrado chefe da vida civil. Mais adiante, nomearam-se,
ainda, seis Thesmotetes, encarregados, especificamente, da administração da Justiça.
Criou-se ainda, o “Colégio de Arcontes”, integrado por todas as autoridades que acabamos
de citar. Fenômeno parecido difundiu-se rapidamente, e a maior parte das cidades gregas
passou a reger-se por regimes nitidamente oligárquicos.

Eram repúblicas aristocráticas que se mostraram, segundo a obra clássica de


Croiset, “Les démocraties antiques”, “mais duras para os pobres do que haviam sido os
antigos reis, já que estes, detendo poder que pairava sobre todos, podiam desempenhar a
função de moderadores entre os interesses e defender a justiça”. Mais uma vez, vemo-nos
compelidos a pedir que, por favor, leve-se em conta que estamos apenas relatando
realidades que constam de fontes idôneas. O juízo sobre a validade do que elas possam
significar, cabe ao leitor. A observação, que mais uma vez reiteramos, visa corrigir
interpretações que não corresponderiam às nossas intenções, já em mais de uma
oportunidade sublinhadas, nem, portanto, ao respeito devido aos que nos lerem. As nossas
opiniões pessoais, quando absolutamente indispensável, as explicitaremos, com a ressalva
de que são pessoais - e ninguém é proprietário da verdade.

Segundo as “Consideraciones sobre la Democracia”, Latapié, diga-se a bem da


verdade, não se mostra favorável ou, ao menos não se mostra incondicionalmente
favorável a esse mito dos dias de hoje. Por tal razão, supomos, ousa acrescentar que com o
desenvolvimento do comércio marítimo - hoje dir-se-ia, com a ampliação e diversificação
do mercado - foi crescendo e se fortalecendo uma classe burguesa - na acepção em que
procuramos mostrar como, mais tarde, aconteceu, pela concentração de comerciantes em
69

torno dos burgos - a “burguesia”, a que neste instante, nos estamos referindo sentia-se
prejudicada pela prepotência das autoridades da forma de república aristocrática que, em
traços gerais, descrevemos há pouco e, buscando aliar-se, muitas vezes, aos assalariados -
tal como haviam feito os reis ao se verem ameaçados pelos eupátridas, agora senhores do
poder nas repúblicas aristocráticas que sucederam as monarquias - geraram tantos conflitos
que a situação tornou-se insustentável. Para pôr termo à extrema violência reinante, as
autoridades constituídas e as lideranças “burguesas” chegaram a um acordo, segundo o
qual Sólon, um eupátrida, foi nomeado “Arconte”, a suprema autoridade civil, como já
vimos, comprometido com a elaboração de leis capazes de restabelecer a paz, tão abalada e
perturbada. A subida de Sólon ao poder, ocorreu, segundo registra a História, no ano 592
a.C. As famosas leis de Sólon puseram termo aos privilégios da aristocracia de sangue que
resultara da revolta dos eupátridas, ainda que a forma de governo por eles adotada, não
fosse monárquica, mas republicana.

A esta altura, para que o leitor julgue da procedência, ou não, do que vamos
registrar, ousamos dizer que, em ambas as transformações institucionais, a motivação real,
embora não confessada, foram interesses contrariados. No caso da segunda mudança, que
resultou, cm um primeiro momento, na legislação de Sólon, núcleo da famosa e tão
decantada democracia ateniense, ousaríamos sugerir a similitude, em certos aspectos, com
a revolução de 1789, na França, que tantos, até hoje imaginam teria sido impulsionada e
tornada vitoriosa pelos esmagados e oprimidos... É a liberdade-pretexto ou ferramenta, a
serviço, no plano do homem decaído, não tanto da Justiça, quanto do egoísmo.

No final do parágrafo anterior, tocamos em um dos pontos mais delicados da


História moderna, qual seja o significado mais profundo daquele movimento, que tem sido
muito deformado perante a opinião pública, e não de hoje, mas desde há muito tempo.
Pretendemos, permitindo Deus, voltar a esse tema específico, para propor à análise pela
inteligência e pela consciência dos que nos lerem, dados e perspectivas que, geralmente,
não são objeto de divulgação, e sobre os quais pesa, ao contrário, um pesado e, ousaríamos
dizer, suspeitável silêncio.

Por enquanto, e para que se entenda melhor, voltemos ao que, com tanta
generosidade, costuma ser designado como “Constituição de Sólon”. De fato, resultante de
um acordo entre partes desavindas, menos interessadas, segundo supomos, na realização da
70

justiça, do que na defesa do que parecia precioso aos impulsos egoísticos de seus
integrantes, resultou das leis de Sólon, a divisão dos cidadãos em quatro classes, conforme
o montante dos bens materiais de que eram possuidores 43. Às três primeiras, foram
reservados os postos mais altos da sociedade; mas é verdade, que à última, composta pelos
mais pobres, foi garantido o direito, pela primeira vez na Grécia, de tomar parte na
Assembléia e nos Tribunais.

Na verdade, dos órgãos plurais que levam tantos, até hoje, a imaginar quase como
um absurdo, dizer-se que a democracia não nasceu na Grécia, ao menos segundo Plutarco,
tinha representação permanente do povo, apenas o Senado, composto inicialmente por
quatrocentos membros, cem por cada uma das quatro tribos. Mais adiante, de acordo com a
reforma introduzida por Clístenes, considerado, juntamente com Efialtes, líder de maior
“abertura”, como talvez se dissesse atualmente, o Senado passou a ser integrado por
quinhentos membros, porque Clístenes, admitindo a existência de não apenas quatro, mas
de dez tribos, reduziu a representação de cada uma, de cem para cinqüenta, resultando um
aumento do número total de integrantes do único órgão permanente, dentre os três
existentes, conforme visto. Para Plutarco, entretanto, o que Sólon pretendeu foi evitar que a
tumultuada Assembléia pudesse conhecer algum assunto, antes deste ser sido objeto da
apreciação do Senado...

De qualquer maneira, da Assembléia podia fazer parte qualquer cidadão da polis, e


para maior facilidade de compreensão, daqui para diante, solicitamos ao leitor que quando
nos referirmos à organização política que, ainda hoje, tantos consideram como berço da
democracia, estaremos nos reportando ao modelo ateniense, que teria alcançado o seu
apogeu ao tempo do governo de Péricles. Quanto à observação que consta dos comentários
de Plutarco, acerca da restrição de não poder a Assembléia discutir qualquer assunto, antes
de que, sobre ele, já se tivesse manifestado o Senado, deveu-se ao fato de que, embora na
Assembléia, que costumava reunir-se na praça do Mercado, a famosa Ágora ateniense, e
mais tarde, no teatro de Dionísio, no sopé da Acrópole, todos tivessem o direito de falar, na
prática só o faziam os chefes de partidos e facções, os demagogos e os oradores
profissionais. Talvez por tal razão foi que, segundo Heródoto, quando procurado por
embaixadores de Esparta, que queriam convencê-lo a atacar a democracia grega, teria
respondido Ciro, o Grande, que não o preocupavam os povos que determinavam uma praça
para que os cidadãos nela se reunissem, para o fim de tentarem se enganar uns aos outros.

43. Grifos do Autor.


71

Apenas relatando, não julgando, parece fora de dúvida ser historicamente


verdadeiro que, embora Demóstenes, o grande orador, tivesse reiteradamente tentado
convencer a Assembléia, da necessidade da preparação de Atenas, para enfrentar a ameaça
de Filipe da Macedônia, memoráveis discursos que integram as “Filípicas”, a Assembléia
manteve-se insensível até quando, já demasiadamente tarde, e já se tendo tornado
impossível negar a existência do perigo há tanto proclamado pelo grande orador,
atabalhoadamente dispôs-se a tomar medidas que se mostraram ineficazes, diante de Filipe
e de seu filho Alexandre, que derrotaram as mal preparadas forças de Atenas e Tebas
coligadas, na batalha de Queronea. A multidão que se reunia na Ágora, pelo clima
tumultuado e confuso que ali reinava, deixava-se sensibilizar mais facilmente pelos temas
que diziam respeito, não a um abstrato bem comum, mas pelos que, ao menos
aparentemente, trouxessem vantagens materiais para os cidadãos, considerados
individualmente.

Claro que tais vantagens, em última instância, com o correr do tempo, haveriam de
ameaçar as finanças públicas e foi assim que se criou a “eisfora”, uma espécie de imposto
sobre a renda, antes só existente, em caráter excepcional, em tempos de guerra, e que agora
passava a adquirir caráter permanente, estendida como fora, para os tempos de paz. Mesmo
o caráter permanente da “eisfora” não representou aumento de receita suficiente para
equilibrar as finanças; e como os gastos destinados às festas e diversões não puderam
jamais ser reduzidos, as despesas relativas à segurança foram sendo progressivamente
diminuídas o que, seguramente, além do talento guerreiro de Filipe e de Alexandre da
Macedônia, contribuiu para explicar a sua vitória em Queronea, confirmada mais adiante
pela alcançada por Alexandre, em Cranon. Quem sabe, explicava, também, as expressões
de desprezo que teriam sido proferidas por Ciro, o Grande, diante dm embaixadores de
Esparta.

O leitor há de lembrar-se de que, certos aspectos de realidades do período que, com


base no étimo da palavra, levam muitas pessoas a aceitar como verdadeira a afirmação de
que “a democracia nasceu na Grécia”, foram por nós anunciados, depois de afirmar que,
até onde saibamos, dentre os grandes vultos do pensamento grego, apenas Platão e
Aristóteles ocuparam-se, detidamente, com analisar os assuntos relacionados à organização
política da sociedade. Mencionamos, também, os mais proeminentes de várias escolas e
tendências, que àquela temática não se dedicaram. Deixamos, de mencionar, dentre tais
72

tendências, a chamada “atomista”, atribuída a Demócrito e Leucipo. É que, na verdade,


acerca das concepções originais de Demócrito, nada chegou ao conhecimento dos pósteros,
a não ser na versão a elas atribuídas pelo poeta latino Tito Lucrécio Caro, em seu poema
“De Rerum Natura”, que igualmente não se ocupa com os problemas sobre os quais,
detidamente, se debruçaram Platão e Aristóteles. E fizeram-no em espírito que não
coincide com o entendimento que, hoje, é relacionado à palavra “democracia”.

Se não, vejamos: Na “Política”, do grande estagirita, considera ele, ser


indispensável ao funcionamento da sociedade, a existência de escravos, de vez que os
cidadãos que deviam incumbir-se dos complexos problemas de responsabilidade dos
ocupantes dos altos postos de condução dos assuntos da cidade não poderiam,
simultaneamente, ocupar-se com a realização de tarefas braçais exaustivas e
impossibilitadoras da reflexão demorada exigida para o trato adequado daqueles
problemas. Ademais, os trabalhadores braçais, exatamente pela natureza das tarefas que
deviam executar, exigentes de aptidão física, mas não de refinamento intelectual, por falta
deste, não seriam úteis, do ponto de vista social, caso devessem resolver sobre questões
que seriam pouco capazes de entender. Chega o grande filósofo ao ponto de considerar os
escravos como “instrumentos de trabalho”, que ele divide em duas categorias: a dos
instrumentos inanimados, como um machado, uma pá, e outros de mesma natureza, e os
“animados”, representados pelos escravos. Assim, para o autor de “Política”, os escravos
seriam propriedade dos seus donos, exatamente como as ferramentas ou instrumentos
inanimados a que foi feita referência.

De resto, no texto da obra a que nos estamos referindo, ao comentar os diferentes


tipos possíveis de organização política, classifica a democracia como uma “forma
deturpada de república”. Se ainda não bastassem os dados que acabam de ser mencionados,
é notória a maneira mordaz e nada elogiosa com que outro grego ilustre, Aristófanes, em
suas comédias, refere-se à democracia. Democracia, porém, tal como ele a via e analisava -
não na acepção em que a palavra é utilizada atualmente. Por isso, temos insistido tanto e
tão reiteradamente, em que as situações e, até, o significado das palavras, devem levar em
conta a época a que nos estamos reportando, quando as mencionamos e, principalmente,
quando pretendemos criticá-las. No que tange a Platão, na sua obra “República”, o que
transparece é uma concepção de ordem social que nada tem a ver com o que, hoje, se pode
entender como democrática. Para Platão, o poder decisório deveria caber, com
73

exclusividade, aos filósofos. A educação das crianças seria incumbência privativa do


governo por eles exercido, o qual destinaria os cidadãos para tais ou quais atividades, das
quais eles não poderiam jamais afastar-se, para adotar outra. Isso porque, segundo ele, o
exercício continuado e exclusivo de um mesmo ofício, seria a melhor garantia da eficácia
das tarefas dos trabalhadores, dotados de tão longo tirocínio.

As crianças nascidas defeituosas ou demasiadamente débeis, em lugar de educadas


e destinadas a tais ou quais ofícios, simplesmente, seriam suprimidos para que não viessem
a constituir-se em peso morto para o conjunto da sociedade. Os educandos mais robustos,
mais impetuosos e bravos, mais velozes e aptos à violência exigida nos combates corpo-a-
corpo, seriam os “guardiões da Cidade”, mantidos por ela. As mulheres seriam propriedade
comum de tais guerreiros, sobretudo para que o problema da paternidade fosse sempre
sujeito a dúvida, de maneira a facilitar a entrega dos recém-nascidos ao governo dos
filósofos para que, como já vimos, fossem por eles “educados”. O leitor percebe que, na
República de Platão, não haveria mobilidade social, nem sequer horizontalmente, e o
assassínio dos bebês portadores de deficiências físicas já é algo, mais do que suficiente,
para que se possa ver que não se tratava de nada assemelhável ao que, em termos de
cultura cristã, se possa classificar como democracia. Por que, então, a insistência
desarrazoada, em afirmar-se que “a democracia nasceu na Grécia?” O chamado “século de
ouro”, da civilização ateniense, correspondeu ao período em que viveu e influenciou o
poder, o pensamento de Péricles.

Este, entretanto, na verdade foi uma espécie de ditador populista que, hábil
diplomata, conseguiu organizar e liderar a chamada Confederação de Delos, cujos
componentes, com o correr do tempo, passaram a sustentar com seus tributos, o populismo
do ditador, e o brilho sem precedente que deu a Atenas. Prestigiou ele as artes e
manifestações culturais em geral, sem que os atenienses sentissem o peso dos encargos,
que eram grandemente financiados pelos “aliados”, transformados em tributários os quais,
se relutavam em pagar os tributos que lhes eram cobrados pelo autor da Confederação de
Delos, sofriam expedições militares punitivas que lhes tiravam, à força, o que, por bem, se
haviam recusado a pagar. De outra parte, o governo ateniense que se exercitou sob a
orientação de Péricles, pelo esplendor material de Atenas, e pelo prestígio dado à cultura,
de resto já mencionado, contou ainda, como seus contemporâneos, com vultos como, entre
outros, os de Sócrates, Platão, Heródoto, Xenofonte, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Fídias.
74

Tudo isso levou os historiadores a designar o século em que viveu o governante ateniense
de que estamos tratando, repetimos, como “século de ouro”, de Atenas.

Já não se dá tanta ênfase a determinados aspectos da sociedade daqueles dias como,


por exemplo, a redução do número de cidadãos que podiam, de fato, participar da Ágora.
Da cidadania, foram excluídos, além dos que já o estavam, como as mulheres e os
escravos, também os “metecos”, que eram os habitantes de Atenas, nela nascidos, mas não
filhos de pai e mãe atenienses. Para que se possa fazer uma idéia do que era, de fato, a
democracia ateniense, Montesquieu, em “O Espírito das Leis” relata que Demetrius de
Falero, cerca de um século após o período considerado áureo, a que acabamos de referir-
nos, mandou realizar um censo em Atenas e encontrou os seguintes resultados: vinte e um
mil cidadãos, dez mil estrangeiros e “metecos” e, pasme o leitor, quatrocentos mil
escravos. Como só aos cidadãos era concedido o privilégio de, de alguma maneira,
participar dos negócios administrativos da cidade, a “democracia” ateniense, segundo o
citado censo, só admitia a participação de algo da ordem de 5% dos habitantes de Atenas, e
isso mesmo se desprezarmos a fração não mencionada como excluída, correspondente às
mulheres e, compreensivelmente, às crianças.

Fatos dessa natureza é que, talvez, tenham levado Blanc de Saint Bonnet a assinalar
que “não devemos lançar palavras às multidões, sem explicar-lhes o sentido”.

Daí a nossa preocupação de, embora correndo o risco da monotonia, insistirmos,


reiteradamente, na observação de que a significação dos gestos, dos fatos, e até, dos
vocábulos, em sua avaliação, deve levar em conta, a época, o período, a que se refere a
análise. Cada período sofre a influência dos conceitos e preconceitos a ele correspondentes
- o que enseja uma magnífica oportunidade para confundir o entendimento das pessoas de
boa-fé, sobre coisas, às vezes da maior importância, cuja compreensão se deseje ver
adulterada e deformada. Hans Kelsen, em sua conhecida obra, que muitos consideram
fundamental para a defesa da democracia dos dias atuais, “ La Démocratie. Sa nature. Sa
valeur”, afirma que, em seu emprego corrente, a palavra democracia perde a sua
significação precisa, adotando as mais diversas, e, por vezes, contraditórias acepções, até
“degradar-se à categoria das fórmulas convencionais”. Como exemplo, observe o leitor
que, até bem pouco, muitas sociedades de regimes marxistas se definiam como
“democracias populares” fato que, em obra de nossa autoria, “As raízes da crise”, tivemos
75

a oportunidade de comentar, dizendo que a expressão “democracia popular”, corresponde a


uma dupla impropriedade: a de natureza substancial e a de natureza formal, consistente em
adjetivar-se como popular, um regime que se diz democrático.

De outra parte, e voltando ao rumo central da marcha que nos propusemos realizar,
desde as linhas do “Esclarecimento Indispensável” com que a iniciamos, embora não tão
louvada quanto a civilização helênica, mas citada com admiração, sobretudo quando as
referências dizem respeito ao pragmatismo da política externa dos seus governantes, e às
suas leis, Roma não costuma ser objeto de tão sistemático vilipêndio quanto a malsinada
“Idade das Trevas”. E isso, em nossos dias, quando são reclamados com tanta insistência
os direitos humanos. Pois bem; no esplendor de Roma, os direitos dos seus cidadãos não
vinham do fato de serem eles “seres humanos”; mas do fato de serem “cidadãos de Roma”.
Cassada que lhes fosse a cidadania, eles passavam a poder ser vendidos como escravos e os
seus donos a terem sobre eles direito de vida e de morte. De outra parte, respeitava-se a
norma designada como “sexagenarius de pontu”, segundo a qual, os filhos podiam lançar
os próprios pais às águas do Tibre, para que nelas se afogassem, tão logo atingissem os 60
anos de idade. Uma outra norma, aceita com naturalidade, era designada como “arae
perusinae”, em acordo com a qual tomou-se possível cevar doze patrícios romanos para
serem sacrificados em praça pública, em honra ao “divino” Júlio César.

Por que, então, só o medievo teria sido de trevas? Não haverá algum motivo para
que o leitor medite no que estamos tentando, exatamente, propor à consideração pela sua
inteligência e pela sua consciência? Não haverá alguma procedência na hipótese de que
opor resistência, não a tal ou qual denominação religiosa, mas à ética do Cristianismo, em
seus aspectos contrários ao exercício de atividades econômicas, que se desejava pudessem
desembaraçar-se dos entraves opostos por ela, não era difícil fazer-se em nome da
liberdade? Afinal, a avidez pelo lucro, pela riqueza material, não exprime os reclamos que,
em linguagem religiosa, são descritos conto os reclamos da carne? Não que estejamos
tentando impor uma visão religiosa a quem, por acaso, não seja religioso. Mas, olhando ao
nosso derredor, o que é que, quase sempre em nome da liberdade, está produzindo,
concretamente, objetivamente, ostensiva e vergonhosamente, os frutos que cada um de nós
pode ver, no sofrimento, na dor, na fome, nos vícios, na degradação que se vão espalhando
pelo mundo “prático”, “objetivo” e “livre” em que vivemos? Será, de fato, prático, fechar
os olhos à palpável e contundente realidade, preferindo embalar-nos com o enunciado de
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frases pomposas, ou mentirosas - quando contrariem, não as nossas preferências, mas a


verdade em manifestação que em nada honra o nosso livre arbítrio e o nosso sentimento de
solidariedade, para que em tal clima de “viagem” alucinatória, em que os que se dizem
realistas, recusam-se a ver a realidade? Em todo caso, não nos anima o propósito de julgar,
mas o de expor dados que não têm, segundo nos parece, merecido uma divulgação isenta e
equânime, para que o leitor os analise.

I.4 – Ordenando idéias, para prosseguir

Nós somos os primeiros a reconhecer que a alusão a fatos históricos, distantes de


nós, às vezes por milênios, e entre si, freqüentemente, de muitos séculos, é tarefa hercúlea
a que nos abalançamos, não por superestimação das nossas tão limitadas forças, mas pelo
reconhecimento sincero e profundo, de que a humanidade, a cada dia que passa, torna-se
mais fácil de ser desviada dos caminhos mais desejáveis para a construção da harmonia e
da paz que todos, no íntimo, desejamos. Os motivos da crescente facilidade de fazer
dominantes idéias e conceitos deturpados ou falsos, já foram vistos desde o início desta
caminhada: de um lado, o trepidante ritmo da vida que somos levados a ter, indispensável à
nossa própria manutenção e à dos que de nós dependem; de outro, a multiplicação de
informações e desinformações, por intermédio de veículos de penetração tão extensa e tão
eficaz, como não fora possível conceber, há bem poucas décadas. A serviço dos referidos
veículos, técnicas de comunicação, cada vez mais sofisticadas, diante das quais
dificilmente o homem apressado e pressionado tem a chance de decidir algo além de
aceitar o hábito de fazer “o que todo mundo faz”, de achar “o que todo mundo acha”, de
“pensar como todo mundo pensa”.

E o leitor julgará se tudo o que acabamos de dizer é ou não procedente, ao menos


em grande parte e, se é, se constitui, ou não um risco imenso a que todos estamos
submetidos. Sobretudo se levarmos em conta que, ainda que a maioria não perceba, na
verdade há uma revolução em marcha, responsável pelo declínio da civilização a que
pertencemos, declínio que, praticamente, todos os grandes pensadores contemporâneos que
se têm preocupado com o problema, verificam como existente, ainda que expressando tal
concordância à sua própria maneira de analisar os fatos e de interpretá-los. Assim, não nos
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pareceu viável tentar oferecer uma contribuição de alguma valia, mesmo que muito
modesta, a um aguçamento da visão crítica daquele homem apressado e aflito, aturdido e
enganado, não porque lhe falta inteligência, mas porque lhe falta tempo, sem ser por
intermédio de retrospecto histórico extenso e inevitavelmente lacunoso. Claro que o
retrospecto em causa, a despeito dos esforços por reduzi-lo, em termos de extensão, ao
mínimo possível, ainda assim, resulta em leitura exigente de tempo e de atenção.

Entretanto, como oferecer ao leitor uma visão das forças que, realmente, movem os
acontecimentos, sem procurar as suas origens? Como oferecer exemplos de falsificação do
relato histórico oferecido com grande ênfase ao público recipiendário das versões
adulteradas com que nos tentam enganar, sem recuar a épocas anteriores aos primórdios da
era cristã? Quanto a esta, como deixar de assinalar a oposição de interesses entre os que
desejavam preservar a visão da ética cristã dos primeiros tempos, em matéria de atividade
econômica, dos interesses dos que desejavam dedicar-se àquela atividade motivados
essencialmente pelo lucro a ser obtido na mesma? Como deixar de registrar que, segundo
as bases da tradição judaico-cristã das quais brotou a civilização a que pertencemos, o ser
humano, em virtude do pecado original, passou a abrigar tendências contraditórias, umas
ligadas aos apetites carnais e outras às suas inclinações espirituais? Sem o realce dado a
essa realidade, como compreender que quanto se tente em favor dos apetites carnais, que
falam tão alto e são tão exigentes, pode ser feito sob a alegação de que se trata de uma luta
“pela liberdade”? Como entender a grosseira falsificação acerca da Idade Média sem,
recuando até ela, mostrar que os comerciantes que se aglomeraram em torno dos burgos,
buscando a segurança que lhes era oferecida pelos cavaleiros cristãos que neles viviam e
que, movidos pelos ideais da fé que haviam abraçado, combatiam as tropelias dos
salteadores, aprovavam a segurança, mas rebelavam-se contra normas que lhes
contrariavam os interesses?

Como, sem descer a alguns detalhes sobre aquele período, desmistificar a fantasia
que tantos acreditam verdadeira, sobre a existência de uma posição de tranqüila pujança da
Igreja católica quando, na verdade, pululavam ameaças contra a mensagem do
Cristianismo de que ela foi única depositária, até o século XVI, quando surgiu a Reforma?
Na verdade, desde os primeiros passos da introdução do Cristianismo na Europa, surgiram
tendências a desvios no campo cultural, em conseqüência de diferentes interpretações da
mensagem evangélica, bem como ameaças militares devidas à força do império otomano,
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em plena expansão o qual, em manobra de pinças, penetrou pelo sudeste europeu e


avançou até as planícies de Moacz e, no oeste da Europa, ocupou por largo tempo a
península ibérica, nada obstante a derrota sofrida diante dos Francos, na batalha de Poitier.
Por cerca de século e meio, o Mediterrâneo foi um lago muçulmano, tendo a península
itálica sofrido suas incursões.

O Cristianismo nascente, portanto, durante muitos séculos, esteve ameaçado, e


gravemente ameaçado. Mas como a ortodoxia dos detentores do poder daquele tempo,
enfeixado nas mãos dos cavaleiros medievais e nas dos sacerdotes católicos, seus mentores
espirituais, do ponto de vista dos que viam os seus interesses de lucrar o máximo possível,
sem os freios que pretendiam impor-lhes aqueles detentores do poder, deviam eles ser
enfraquecidos. Assim, quanto surgisse capaz de debilitar a fé, no que dependesse dos que
se sentiam prejudicados em seus interesses que, visivelmente, eram muito mais ligados aos
apetites da carne do que às aspirações do espírito, era por eles prestigiado e difundido
dentro, é claro, das limitações de meios da época. Meios, hoje, muitíssimo mais poderosos
e, por isso mesmo, muitíssimo mais eficazes e em certo sentido, perigosos. De tudo isso, a
importância que emprestamos ao chamado Nominalismo, em razão do qual desencadeou-
se a célebre “querela dos universais”, que marcou, como vimos bem antes, o fim dos
excessos e exageros da escolástica.

Com essa tendência epistemológica, à época prestigiada ao máximo pelos interesses


a que nos estamos referindo, os estudiosos, os homens de pensamento, inclinaram-se,
muito mais do que em qualquer época anterior, à extroversão das suas capacidades
intelectuais, que agora procuravam debruçar-se sobre as realidades externas, componentes
do universo sensível, com os seus fenômenos e as suas características. A introversão, o
pensamento contemplativo, a busca do homem por conhecer melhor a sua realidade íntima
e as suas relações com o Criador, cuja existência era aceita sem restrição, era substituída
pelo conhecimento dos fenômenos naturais, das suas relações de causa e efeito, ao menos
imediatos, suas características mensuráveis, e assim por diante. Data daí, fora de qualquer
dúvida, o início da aceleração da Ciência. De fato, o Nominalismo, a “querela dos
universais”, dele resultante, ocorreu à altura do século XIV quando a decadência da
sociedade medieval, os excessos e abusos dos detentores do poder, leigos ou clérigos
ofereciam pretextos, cada vez melhores e mais abundantes, a quantos tivessem interesse
em seu desaparecimento ou em seu enfraquecimento, solo propício e vigorosamente
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fertilizado pelas inquestionáveis conquistas científicas, que, tendo encontrado ali o ponto
de partida da sua aceleração, cada vez mais avançavam e diversificavam os seus campos de
atuação.

As conquistas científicas, porém, realizavam-se no domínio que lhe é próprio: o dos


fenômenos da natureza que, extraordinariamente importante como é, não preenche outro
gênero de indagações do ser humano, relativas à sua componente espiritual. Estas,
anteriormente, tinham sido objeto de esforços, sobretudo por intermédio da introspecção,
do pensamento contemplativo e do método dedutivo. E como, por sua índole, não se
ocupavam fundamentalmente com o mundo sensível, com o mundo dos fenômenos
naturais, sobre este perdurou longamente, espessa ignorância. E não é difícil entender que,
à medida em que, a princípio lentamente, mas, com o correr do tempo, cada vez mais
rapidamente, foram se acumulando os sucessos e a utilidade do domínio dos referidos
fenômenos se tornando evidente, a tarefa dos que desejavam libertar-se de exigências de
fonte religiosa, tomava-se mais fácil. E é aí que, ao menos segundo a nossa interpretação,
começa a revelar-se sutilmente, a verdadeira índole da revolução que lateja no seio da
civilização a que pertencemos, promovendo a decadência, o caos e os conseqüentes
sofrimentos que, ainda segundo o nosso entendimento, poderiam ser evitados e podem ser
corrigidos.

Continuemos, porém, o resumo ordenador e esclarecedor que, esperamos, haverá de


tomar-se cada vez mais nítido, à medida em que possamos expor à consideração da
inteligência do leitor, o desdobramento do que acaba de ser dito linhas acima. De fato, a
grande revolução que, há séculos, vem produzindo as injustiças e desarmonias apontadas
pelos grandes nomes que têm registrado a decadência do Ocidente, foi a que se iniciou com
o estímulo a tudo quanto desobrigasse os homens de levar em conta, prioritariamente, a
necessidade, entretanto, imprescindível, do arrimo da Revelação, que lhes oriente os passos
no vasto domínio em que as conquistas da Ciência, pelo menos até determinadas
concepções da Física Quântica, nada tinha a dizer-lhes, por não ser objeto das suas
atividades. O que queremos significar é que à Ciência pertence o domínio da investigação,
por exemplo, das condições de obtenção da fissão ou da fusão nucleares, a avaliação da
energia liberada em um e em outro caso, o encadeamento de tais fissões ou fusões, até a
liberação de quantidades fantásticas de energia, a tecnologia adequada à obtenção desse
encadeamento, de que não prescindem as bombas de utilização militar.
80

Mas nem a Ciência, nem a Tecnologia, têm como orientar os homens acerca da
liceidade do emprego desses engenhos terríveis, em conflitos entre povos desavindos.
Sobre problemas dessa natureza, a Ciência não tem nada a dizer. Por isso, os estudiosos
que apontam o declínio da civilização moderna, assinalam o descompasso entre os
magníficos avanços conquistados pela investigação dos fenômenos da natureza, e a
balbúrdia, o caos, os sofrimentos, a degradação de costumes, havendo os que se referem,
explicitamente, a um processo como que de desumanização crescente, tão parecido com os
“frutos da carne”, descritos em mais de uma passagem das Escrituras, sobretudo no Cap. 5,
da epístola de S. Paulo, ao Gálatas. Ressalvados os exageros e excessos do radicalismo e
do fanatismo prepotentes, não nos resta dúvida - mas ao leitor cabe julgar da procedência
da observação que se vai seguir - de que, sempre pretextando lutar pela liberdade, na
verdade o que se estava fazendo e continua a ser feito, é a liberação de apetites, cada vez
mais instintivos e carnais, e cada vez menos espiritualizados, altruístas e justos - na
perspectiva valorativa da visão cristã, qualquer que seja a denominação em que esse
vocábulo seja empregado com isenção e competência 44. As “revoluções”, descritas em
seus aspectos de formas institucionais, são aspectos epidérmicos da grande revolução,
repitamos, para nós consistente no que foi deflagrado pelos que se rebelavam contra os
empecilhos opostos aos seus interesses.

Difundido o ceticismo, em matéria da validade da Revelação, não foi difícil


conduzir o núcleo da civilização ocidental moderna, à superestimação da capacidade da
razão humana de tomar-se independente de algo que não fosse por ela elaborado e
conquistado45. Foi em tal clima, que prosperaram as idéias e atitudes de homens como
Jean-Jacques Rousseau, John Locke, Voltaire e outros, prosperidade que encontrava muito
bons pretextos nas flagrantes injustiças da época, os famosos privilégios de que, de fato,
desfrutavam a aristocracia e o clero católico. Tais pretextos ensejaram a continuidade do
mito criado em tomo da revolução francesa de 1789 que, até os nossos dias, muitos
imaginam levada a cabo pelo povo oprimido, quando na verdade, este foi o instrumento de
que se valeu a fração do chamado Terceiro Estado, constituído pelos plebeus, fração
integrada também pelos burgueses ricos e poderosos pelo dinheiro que, tinham ajudado a
derrocada da ordem feudal. Desaparecida esta com o surgimento dos Estados, governados
por reis que, imaginavam, contribuiriam para a libertação de seus interesses mas, na
verdade, ainda que em número menor do que o dos senhores feudais, passaram a constituir-

44. Grifos do Autor.


45. Grifos do Autor.
81

se em novos entraves, eis que a sua investidura continuou a depender da legitimação da


autoridade religiosa, interessavam-se agora por derrubar a realeza.

E foi assim que, da mesma maneira como, durante tantos séculos, prestigiaram o
mito da “Idade das Trevas”, passaram a manter o da derrubada da Bastilha, prisão em que,
imaginam as vítimas desse engodo, estariam encerrados, quem sabe, centenas de presos
políticos, oprimidos pelo rei e pelos seus imaginados sequazes. A verdade histórica, porém,
é bem outra: a 14 de Julho de 1789, quando os “sans culottes”, como eram com ironia,
denominados pelos nobres, os de fato pobres, estes, instigados adequadamente, tomaram a
Bastilha, havia em seu recinto 7 (sete) prisioneiros, dois dos quais estavam ali, não por
desgostarem o poder constituído, mas por serem doentes mentais, abrigados para que não
morressem de fome ou de frio, sobretudo quando chegasse a estação invernosa. Antes de
que alguém possa supor que estamos tentando ocultar os aspectos positivos que aquela
revolução trouxe para a humanidade, no que respeitava, não ao uso, mas ao abuso ou
abusos de elites decadentes; ou que estamos fazendo a apologia dessa ou daquela forma
institucional, para nós, aspectos epidérmicos de uma revolução mais profunda 46,
reiteramos que, na verdade, dava um passo mais à frente, não a rebeldia contra injustiças
que não desejamos negar existissem, mas a rebelião contra qualquer ordem comprometida
com valores que transcendessem os desejos do homem que, entretanto, segundo pensamos,
tanto podem ser bons quanto maus.

Os defensores incondicionais do mito que estamos tentando desmitificar, falam dos


aspectos positivos da revolução de 89 - e sempre, notem, de maneira muito significativa,
em sentido libertário. Mas já não se mostram tão claros que ou - que é mais freqüente -
simplesmente omitem a verdade histórica de que, quando vitimado pela máquina
“humanitária” inventada pelo Dr. Guillotin, foi decapitado Robespierre, o líder do partido
jacobino, havia mais de quatrocentos mil prisioneiros políticos na França 47 e mais
milhares e milhares de suspeitos, mantidos em prisão domiciliar, aguardando a instrução
dos seus processos, ainda pendentes de julgamento. Assim, a revolução da “liberdade,
igualdade, fraternidade”, tão influenciada pelo intelectual ativista J. J. Rousseau,
promovido à categoria de filósofo, não teve como melhores virtudes o bom senso e a
coerência. No famoso “Contrato Social”, por exemplo, como no “ Discurso sobre a origem
da Desigualdade”, inspiraram-se, principalmente, os redatores da famosa “Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão”, cujo artigo 1o reza: “Os homens nascem e permanecem

46. Grifos do Autor.


47. Grifos do Autor.
82

livres e iguais em direitos. As distinções sociais não podem ser fundadas senão sobre a
utilidade comum”.

Talvez por acreditar na validade do famoso princípio, foi que Graco Babeuf
divulgou o “Manifesto dos Iguais” - e, pasme o leitor que por acaso não o saiba, a
conseqüência foi que a cabeça de Babeuf rolou sob a lâmina da “piedosa” máquina do Dr.
Guillotin. É que, ousamos supor, aos autores reais da revolução, a igualdade deveria ser
apenas de direitos, algo que não era tão concretamente contrário aos seus desejos, muito ao
revés, quanto fora a acepção que lhe dera Babeuf, quem sabe inspirado no “filósofo” que,
em seu “Discurso sobre a origem da desigualdade” consignou: “o primeiro que, cercando
um terreno, afirmou: este terreno é meu ! E encontrou gente bastante ingênua para
acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras e
mortes, de quantas misérias e horrores não teria poupado o gênero humano, aquele que
tivesse gritado, alto e bom som: não dêem crédito a esse impostor! Estaremos todos
perdidos se nos esquecermos de que os frutos pertencem a todos e que a terra não é
propriedade de ninguém!“ Se tivesse conhecido e levado em conta o que a “Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão” - denunciando quem, de fato, levara a cabo a revolução
de 89, - estabelece quanto à propriedade privada, quem sabe teria sido Babeuf mais
cauteloso.

É que, na referida “Declaração”, a propriedade privada é considerada “um direito


sagrado e inviolável”, sendo “direito natural e imprescritível do Homem”. Tudo isso são
fatos, verdadeiros, documentados, irrecusáveis - mas que não “interessa” divulgar. Assim,
precisamente quando tanto se fala - oportunamente, aliás, de cidadania e de direitos
humanos - escamoteiam-se dados que, se fossem do conhecimento geral, tornariam muito
mais difícil senão inviável, a manipulação em grande escala da opinião pública. Os
aspectos aparentes, ostensivos, os mecanismos e formas institucionais, que a maioria
imagina serem o que de mais importante deva ser analisado, com a finalidade de descobrir
as raízes mais profundas dos problemas e as maneiras de resolvê-los, na verdade, já são
frutos daquela grande revolução que lateja no seio da civilização, ao menos em suas
origens, cristã, e que a está conduzindo à decadência a que tantos grandes vultos do
pensamento contemporâneo se têm referido 48.

48. Grifos do Autor.


83

Essa a razão pela qual o pensador cristão Jean Madiran considerou a “Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão”, aprovada em 1789 e promulgada pela Assembléia
Nacional Francesa em 1791, como algo da mais grave significação, sobretudo pelo seu
artigo 6o, que reza: “A lei é a expressão da vontade geral”. Desprezando aspectos como,
por exemplo, como aferir, autenticamente, a “vontade geral”, na verdade o que significa
essencialmente esse artigo 6o, é que os homens a partir de então, decidiram constituir-se na
fonte exclusiva da lei 49, em sentido amplo, pela qual deveriam reger-se. O latitudinarismo,
o ceticismo, impulsionados pela sensação de compreensível euforia oriunda dos
estupendos progressos da Ciência, adubados pelos erros e injustiças perpetrados por falsas
elites ou por elites decadentes e degradadas, já a partir daquele momento, tomavam as
rédeas da condução do processo sócio-cultural do Ocidente. Estamos, nos referindo, neste
momento, ao final do século XVIII, o tão exaltado “século das luzes”, pelos mesmos
interesses e tendências que, até agora, continuam a falar do medievo, como “Idade das
Trevas”...

Ainda que, como tantas vezes temos repetido, não nos consideremos proprietários
da verdade, alimentamos a esperança de que o leitor que tenha percorrido, até aqui, estas
linhas, comece a perceber que as teses que elas pretendem propor à sua consideração, de
fato não são absurdas como lhes teriam parecido, talvez, de início. A ética que se desejava
tornar inoperante, e cuja fonte era, adequadamente interpretada, ou não, a Revelação,
estava praticamente superada como obstáculo válido a certos ímpetos nascidos de
desmedida ambição. E os autores e beneficiários de tal conquista não foram, certamente, os
“sans cullotes”...

Indício veemente da verdadeira autoria, encontramo-lo em uma das primeiras


providências dos vitoriosos revolucionários: foram extintas as “Corporações de Ofício”,
instituições originárias do medievo, sem que nada fosse criado para substituí-las. É que a
exaltação, enganosa a nosso ver, da importância política de cada ser humano, não tolerava
qualquer intercalação, entre o cidadão e o Estado; nada, portanto, de instituições
intermediárias entre um e outro.

E foi assim que os verdadeiros promotores da “liberdade”, “igualdade” e


“fraternidade”, sem necessidade de comprometer-se com nada que não fosse produzido
pela razão humana, exatamente o que Kant diria em sua “Crítica da Razão Pura”, pouco

49. Grifos do Autor.


84

tempo depois, ao afirmar que a humanidade tinha, finalmente, alcançada a maioridade,


produziram o quadro confrangedor dos primórdios da revolução industrial. Quadro de
brutais injustiças, de desapiedada exploração do trabalho de menores e de mulheres, tiradas
do lar para que, com a oferta maior de mão de obra, fosse possível manter baixos níveis de
remuneração. Claro que isso não era promovido assim, mas em nome da “libertação” da
mulher. Como se pode ver, sempre a liberdade como pretexto, a cujo sucesso serviam de
arrimo as injustiças praticadas contra as filhas e esposas, por pais e maridos despóticos.
Mas, fossem a libertação e a justiça os móveis verdadeiros, como explicar a miséria
reinante em lares de trabalhadores, e a indiferença diante do atentado que se praticava
contra a instituição familiar, a que já não podiam dedicar-se as insubstituíveis mães de
família? E foi em semelhante ambiente que começaram a surgir as organizações de
trabalhadores, os sindicatos e “Trade Unions”, em lugar das Corporações de Ofício, que a
revolução francesa prontamente extinguira.

Mas, agora, as organizações operárias que surgiram, faziam-no em um contexto de


luta e de ódio entre patrões e empregados, com confrontos sangrentos e, em nosso
entendimento, absurdos, irracionais e perfeitamente evitáveis, não fosse a presença surda e
camuflada da verdadeira revolução que está erodindo todas as sociedades inclusive as do
chamado 1° mundo, referto de bens materiais, mas indigente em termos de valores
espirituais. É que, já “maiores de idade”, os que de fato dirigem os acontecimentos, sempre
usaram como principal alegação, a ampliação do exercício da liberdade, e isso ao longo
dos séculos. Claro que, por motivos a esta altura já compreensíveis, para o leitor atento,
rejeitando uma finalidade para o referido exercício. E, em tal rejeição, vêm os homens
repetindo a rebeldia, e a desobediência que, em linguagem religiosa, as Escrituras, a
Revelação, descrevem como “pecado original”, de que resultou a Queda.

I.5 – Começando a Usar Uma Lente “Zoom”

Já no capítulo anterior deixamos registrado o nosso reconhecimento sobre o fato de


que se constitui em tarefa hercúlea, tentar realizar uma exposição abrangente de milênios
da História, ainda que de maneira imperfeita, nada detalhista, lacunosa e, em certos
momentos pelo menos, de leitura fastidiosa, por aparentemente desvinculada dos dias em
85

que estamos vivendo, com os seus problemas, as suas angústias e as suas brutais injustiças.
É que aquilo que os alemães designam como “zeitgeist”, espírito do tempo, impõe à
maioria de nós, a impressão de que só é útil, ou prático, o que tiver, em visão imediatista,
de natureza utilitária, clara significação. Entretanto, supomos não ser demasiado otimista a
esperança de que, já a esta altura, o leitor que tenha lido quanto ficou registrado até agora,
estará apercebido de que, quanto à maneira de expor, quanto ao estilo da exposição, algo
teria sido feito bem mais satisfatoriamente, por outro autor, com mais talento do que o
desta obra. Nada obstante, parece-nos perfeitamente razoável alimentar a convicção de que
já se tornou patente que, sem um esforço da amplitude deste que estamos fazendo, nós ao
redigirmos, e os leitores ao lerem o que tem estado ao nosso alcance oferecer-lhes, não será
possível entender a natureza real e mais profunda do que está causando à humanidade,
tanta dor e tantos problemas.

Por isso, e para que se torne ainda mais patente que, de fato, não é inútil tanto
trabalho e tanta boa vontade, sobretudo dos destinatários desta obra, parece-nos chegado o
momento de usar o que, em fotografia, é chamado de “lente zoom”, de modo a aproximar
certos aspectos do mergulho ao passado, por vezes tão remotos, para acontecimentos mais
próximos de nós. Assim, a Revolução Francesa de 1789, fruto do “século das luzes”, e que
tantos consideram absurdo afirmar que teve virtudes, mas teve também os inevitáveis
defeitos, frutos dos equívocos do Racionalismo, representou, na longa luta contra a
existência de um propósito, de uma finalidade, em todos os seres, expressão política que,
de certa maneira, substituísse a sanção moral de que necessitava a burguesia, para livrar-se
das peias da ética cristã. Naturalmente, quando usamos o vocábulo Racionalismo, não o
fazemos no sentido de desmerecer o uso da razão, por parte de seres racionais, como
somos todos; mas no sentido em que a expressão foi consagrada, e que marcou o famoso
Iluminismo, sobretudo francês, correspondente à superestimação da razão como atributo
capaz de dispensar o que quer que fosse, desde que não elaborado por ela ou sancionado
pelos seus critérios e mecanismos.

Tal foi o sentido mais profundo da Revolução Francesa: o de tornar dispensáveis os


deveres da observância pelo Homem de quanto se tentasse impor-lhe por ter sido revelado
em domínio estranho a ele e aos seus mecanismos racionais. Por isso é que Jean-Jacques
Chevalier, no 2o volume de sua obra “História do Pensamento Político”, insere a citação
das expressões que se seguem, por ele atribuídas a P. Hazard: “Deu-se então uma crise na
86

consciência européia; entre o Renascimento, donde ela promana diretamente, e a


Revolução Francesa, que ela prepara, nada ocorreu mais importante para a história das
idéias”50. Como pode verificar o leitor, levando em conta, inclusive, que o professor
Chevalier é professor honorário das Universidades de Grenoble e de Paris, bem como do
Instituto de Estudos Políticos de Paris, ainda que descontando o que, para nós, representa
um exagero, ao dizer P Hazard que o que ele designa como crise da consciência européia,
cuja origem situa no Renascimento e cujo resultado assevera sido a Revolução de 89, nada
ocorreu de mais importante para a história das idéias; mesmo feito o citado desconto,
parece flagrante a coincidência entre o nosso e o pensamento do ilustre mestre, no que
tange à magnitude da referida crise.

A divergência estaria, entre o pensamento deste humilde escriba e o dele, no


sentido e no valor a serem atribuídos a esse 47 Grifos do Autor. estuário em que, à altura
do século XVIII, desaguavam as verdadeiras forças que, discretas mas constantes,
influíram na mudança de rumos do processo civilizacional do Ocidente. De fato, para nós,
quando da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, aprovada em 1789, e
promulgada pela Assembléia Nacional Francesa em 1791, atingiu a cultura ocidental uma
espécie de “turning point” de dramática importância pois, como foi visto em capítulo
anterior, ao estabelecer a citada “Declaração” que a lei, “é a expressão da vontade geral”,
consagrou a exclusiva validade do Direito positivo, desvinculando a sua elaboração de
qualquer coisa além do que designou como “vontade geral”. Ou seja, os homens voltavam
as costas à hipótese da existência de um Deus e de uma Sua lei. Não que o fizessem
frontalmente, pois tal passo viria um pouco mais tarde, com o Manifesto Comunista de
1848, de autoria de Marx e Engels. Em tal sentido, ainda que esse projeto não fosse, ao
menos no plano consciente, o do “Partido dos Filósofos”, diríamos que, em termos de
Europa, o 14 de Julho, com suas conseqüências, constituíram-se na ante-sala da Revolução
de Outubro de 1917.

À primeira vista, poderá parecer chocante o que acabamos de afirmar.


Considerando, porém, o fio central da exposição, desde o feudalismo, em que o governo
temporal estava fortemente influenciado e hauria a sua legitimidade da sanção da
autoridade religiosa, até a “Declaração de Direitos” acima mencionada, parece-nos muito
evidente a laicização crescente da sociedade, sobretudo francesa, e, muito em especial, dos
seus vultos de influência cultural maior. Influência que, tal como em nossos dias acontece,

50. Grifos do Autor.


87

não era conseqüente a uma competição em termos de igualdade, mas do apoio e da


divulgação dados, preferencialmente, às idéias e aos vultos que as concebiam, sempre que
coincidentes com interesses que, discretos, mas poderosíssimos, de fato orientavam os
acontecimentos. E faziam-no, não necessariamente visando contestar a existência de um
Deus criador de todas as coisas. Ao contrário, como se tratava de pessoas, digamos,
“práticas”, não lhes interessavam questões que, ao menos aparentemente, não tinham
relação perceptível com a “visão contábil”, como costumamos designa-la, neles dominante.
Os próprios enciclopedistas, dentre eles, destacados membros do “Partido dos Filósofos”,
se não todos, muitos deles, afirmavam a sua crença em Deus.

A rebeldia que manifestavam era dirigida à autoridade religiosa, de vez que, para
tais intelectuais ativistas, nada devia sobrepor-se à Razão, superestimada como já vimos.
Nem foi por motivos diferentes que o “clima” reinante no que veio a ser denominado como
Iluminismo, é também conhecido como de Racionalismo.

Vejamos, porém, como voz mais autorizada do que a nossa, analisa o que há pouco
admitimos o que parecerá, no mínimo, surpreendente a muitos leitores. Trata-se de Jean-
Jacques Chevalier, em sua “História do Pensamento Político”, já citada anteriormente:
“Mas eis que surge, em reação à Idade Média, o Renascimento. O indivíduo, por pouco
que seja dotado da “virtude”51, cara a Maquiavel, liberta-se fulgurantemente da longa
disciplina católica, embrenha-se voluptuosamente na selva social e aspira a emancipação
em todos os domínios. No seio de uma exígua elite de excepcionais exemplares humanos,
muitas vezes guerreiros, artistas e sábios, ao mesmo tempo, não raro, amorais e ferozes,
vemos a paixão da descoberta, a exigência crítica, o espírito de livre exame, a exaltação do
orgulho humano, aliarem-se à vontade de poder, à glorificação da carne, como da arte sob
suas formas mais pagãs, o que será suficiente para impressionar mais tarde - inclusive no
século XX - de forma singular, as imaginações, não sem adornar e embelezar, graças às
influências românticas, os aspectos inumanos dessa super-humanidade.

“Entretanto, a emancipação econômica do indivíduo via-se também favorecida pela


reação da época contra a organização medieval, considerada tradicional e estática, já que
alicerçada em princípios mais morais do que econômicos. O espírito do tempo milita a
favor de uma organização dinâmica, a qual adota o critério da utilidade, determinada em
função da satisfação de necessidades e obtida através do enriquecimento máximo do

51. A “virtude”, para o autor de “O Príncipe”, não corresponde à virtude, no plano moral. Talvez corresponda mais a uma noção de
qualificação adequada.. Grifos do Autor.
88

indivíduo. Essa organização está dirigida para a obtenção de uma produção sem limites, o
que se harmoniza perfeitamente com o caráter insaciável do novo apetite de riqueza. Sem
esquecer que esse indivíduo, em via de emancipação econômica, dominado pelo instinto
aquisitivo e pelo espírito de iniciativa, esse “mercador” (palavra que engloba tanto os
fabricantes e financistas quanto os comerciantes ou negociantes propriamente ditos),
encontrará, durante um longo período, um valioso aliado no Estado moderno - emancipado
paralelamente como unidade política moderna” 52. De nossa parte, ousaríamos acrescentar:
cujas sociedades, sujeitas coercitivamente às leis nelas vigentes, teriam-nas elaboradas
somente pelos legisladores, sem obediência a qualquer referencial fixo de valores, capaz
de, o mais e o melhor possível, aproximar a Lei da Justiça. Como vimos em outra parte
desta obra, em “De Legibus”, o próprio Cícero, pagão, assinalou os riscos que tamanha
amplitude de influência concedida aos legisladores encerrava.

O orgulho, porém, é mau conselheiro e, por isso, se adequadamente manipulado,


pode funcionar como excelente ferramenta para a defesa de interesses, sobretudo quando
lhes é fácil manejá-la em nome, repitamos uma vez mais, da liberdade...

Para os que depositam toda a sua confiança, em termos de assuntos do dia-a-dia de


todos nós, apenas no que lhes parece palpável, concreto e, por isso, real e digno de atenção,
gostaríamos de ponderar que, se não existissem, no íntimo de cada um de nós, tendências
boas e más; ou, em linguagem religiosa, se não fossemos carne e espírito, e se os desejos
de um e de outro não fossem opostos; se, ainda lançando mão da mesma linguagem, não
tivessem os nossos antepassados, os nossos primeiros pais, Adão e Eva, cometido o pecado
original, ao comerem, desobedecendo proibição que haviam recebido do Criador, do fruto
da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, os perigos apontados, já pelo pagão Cícero,
não existiriam. Entretanto, pela razão fundamental que, na visão religiosa característica da
nossa cultura, teve a origem acima resumida, os perigos existem e aceita-los, parece-nos,
constitui-se, de fato, em rematada imprudência. E para verificá-lo, não nos parece
indispensável a aceitação da hipótese religiosa descrita nas Escrituras como tendo sido o
motivo da expulsão do primeiro casal, do Paraíso em que viviam, enganados como teriam
sido pela “Pai da Mentira” desde o início, quando os convenceu, pela via do orgulho, que
nenhum mal lhes adviria se comessem do fruto proibido. Proibido, segundo o tentador a
que nos estamos referindo, não para protegê-los, mas para que eles não se tornassem iguais
àquele de onde proviera a proibição 53.

52. Grifos do Autor.


53. Grifos do Autor.
89

Não se tornassem iguais a Deus, ao Pai que os criara. Mais claro exemplo da
manipulação do orgulho para induzir o ser humano ao erro, será difícil encontrar.
Entretanto, não é indispensável aceitar como verdadeiro o significado essencial do relato
que as Escrituras nos oferecem. Aos céticos, aos de “espírito prático”, nos permitimos
sugerir duas linhas que, supomos, lhes parecerão mais concretas: com realismo e
honestidade, um exame introspectivo da nossa realidade interior só nos mostra boas e
generosas tendências, socialmente capazes de implementar uma ordem justa e pacífica?
Ou, na referida introspecção, nos defrontaremos com disposições de natureza antagônica e
contraditória muitas das quais não temos coragem de encarar, nem no recôndito silêncio
das nossas consciências? Em tal experiência, não é necessário senão verificar o que acaba
de ser dito.

Por outro lado, a desvinculação da Lei - em seu sentido mais amplo - a quaisquer
compromissos inamovíveis a que devam sujeitar-se legisladores, homens como nós, será,
do ponto de vista racional, prudente? Como decidir sobre a resposta adequada à questão
proposta? A sociedade humana vai bem? No que depende das leis e das decisões adotadas
no âmbito da nossa precariedade de seres limitados e imperfeitos, tem sido implementada a
Justiça, condição indispensável da Paz? Da paz verdadeira, não de uma sua aparência, que
pode ser estabelecida pela imposição da força, mas será sempre incapaz de realizar a
felicidade que, no fundo, em última instância, todos desejamos? E que é uma sensação,
não uma “coisa concreta” 54? E o que é a Justiça, senão um indicador do amor existente
entre os homens? Então, na medida em que haja amor entre os homens, se não na esfera
preferível do sentimento, ao menos como opção da vontade - opção, esta sim, se nos
permitem os que se julgam práticos, evidentemente prática, pelos frutos que será capaz de
produzir - haverá a paz, condição do verdadeiro progresso e da possibilidade de desfrutar
de suas conquistas.

Sendo, entretanto, como somos todos nós, misturas contraditórias de boas e de más
tendências, será tão irrealista supor que a “Declaração” promulgada em 1791 pela
Assembléia Nacional Francesa, que resultou, como assinalamos anteriormente, na
consideração exclusiva, como fonte da lei, a “vontade geral”, reproduziu, em escala
ampliada, a figura do pecado original, novamente usando como ferramenta o orgulho?
Afinal, qual foi, segundo o relato bíblico, o brado com que Lúcifer expressou a sua
rebeldia diante de Deus? “Não servirei!“ Claro que o leitor não está obrigado a aceitar
90

como verdadeira a versão religiosa que usamos como símile entre o “espírito do tempo”,
no “século das luzes”, na plêiade dos realizadores da Enciclopédia, dos entusiastas
exaltados da Razão, e aquela versão, no que tange à manipulação do orgulho, para induzir
os homens ao erro.

Para o “espírito do tempo” dos nossos dias, sugerimos as seguintes indagações:


libertados, ou supostamente libertados os homens, de compromissos com um referencial de
valores, de caráter permanente que, por sua natureza, tivesse eficácia no que tange à
compatibilização da lei com a justiça, quais têm sido os resultados obtidos até agora?
Referimo-nos aos resultados dependentes da elaboração humana, tão precária a despeito de
tão orgulhosa. A restrição feita, “dependentes da elaboração humana”, é conseqüente à
nossa convicção sobre a existência de dois pianos da História: um, resultante daquela
elaboração; outro, resultante do propósito do Criador. Assim, quando os convictos da
existência exclusiva da matéria, e da luta como motor indispensável da História,
afirmavam, sobretudo por intermédio dos veículos de propriedade dos seus “inimigos de
classe”, que “o mundo marcha para o socialismo”, o que nos parecia e continua a parecer, é
que ele marcha para a justiça 55. Aquela a que nos referimos anteriormente, e a que
voltamos a fazer alusão, como opinião pessoal.

Mas, dentre as pessoas “práticas”, entre as quais se contam as que têm talento
empresarial e aptidão administrativa, parece “prático” desempenhar as suas atividades no
domínio econômico, em clima de oposição e de luta? Não lhes parece que entre capital e
trabalho deve existir cooperação leal e sincera, não por temor ou medo de confrontos?
Afinal, em realidade, não são todos, trabalhadores e patrões, atores do mesmo processo
produtivo, de cujo rendimento, no espírito de sincera cooperação a que nos estamos
referindo, dependerá a prosperidade geral? O que é indispensável para que esse clima se
realize? Que, havendo sinceridade de propósitos, não se olhem, capital e trabalho, com a
desconfiança que atingiu a sua expressão antológica, no conceito já mencionado de
“inimigos de classe”. Essa “inimizade de classe” parece honrar ou desmerecer a
inteligência humana? Mas, para que haja cooperação sincera, não parece indispensável,
que não seja suprimido o propósito de remuneração justa do esforço, do talento, do risco
dos engajados no processo produtivo? Mas o que será considerado justo, se tudo for
deixado aos azares dos embates entre as boas e as más tendências de que somos todos
portadores? A vontade dos homens, como fonte exclusiva do Direito, ao longo do tempo -

55. Grifos do Autor.


91

e a realidade o tem demonstrado - conduz a uma marcha no rumo da liberação dos instintos
e apetites provenientes do componente animal da nossa natureza, adulterada quando da
queda.

Como tais apetites pressionam continuamente, e como a oposição a tais pressões


pode tornar-se incômoda para muitos, tudo quanto vá, a pouco e pouco, se introduzindo
nos costumes, passa também, a pouco e pouco, a constituir-se em presunções de direito. E
como este não tem, na prática, senão o que resulta da elaboração legislativa, as leis,
freqüentemente, são injustas ou, em sentido profundo, ameaçadoras e imprudentes, pelos
resultados que produzem. Foi assim, no domínio do processo produtivo, sobretudo nos
primórdios da revolução industrial. Vem se mantendo assim, no momento, sobretudo no
campo das relações internacionais, cada vez mais reguladas, no que depende dos homens,
por uma ordenação que, em certos aspectos, violenta frontalmente a vontade da maioria, e
o faz pela pressão e, às vezes pelo uso explícito da força.

Claro que os frutos produzidos por erros tão crassos, são amargos e dolorosos, e
foram estes que mudaram para melhor, ainda que em clima de desnecessária e estúpida
tensão, as relações de trabalho, sobretudo nas sociedades mais ricas. É o outro plano da
História, que temos mencionado por mais de uma vez. Mas, será o processo mais prático
para a fabricação de uma roda, fazê-la primeiro quadrada para que, depois, aos “trancos e
barrancos”, com as respectivas inconveniências, vão sendo desbastados os ângulos vivos,
em penosa marcha de aproximação do formato desejado? Ou as pessoas de boa vontade
não serão capazes de refletir, ao menos como hipótese a ser analisada, que a instigação da
vaidade e orgulho humanos, pode de fato ser feita em nome da liberdade, mas de uma
liberdade que freqüentemente é mencionada como “pretexto para ocultar a malícia”?
Tentemos a menção a uma outra realidade que está patente aos olhos de todos: a famosa
liberdade sexual. O impulso genésico efetivamente existe e depende dele a continuidade da
espécie. Mas os seres humanos, à diferença dos demais seres da criação, são dotados de
imaginação, de vontade e de livre arbítrio. Por isso, para nós existe a responsabilidade
moral, enquanto os irracionais, procedendo no compasso de suas naturezas, não estão
sujeitos a ela. Daí que, para os homens, o impulso a que nos estamos referindo não é para
ser suprimido, mas disciplinada a sua satisfação a condições que a enobreçam.
92

Entregue a conjugação carnal aos limites estritos do prazer, ou da compensação


sensorial que ela possa dar, escancaram-se as portas às variações, mesmo às mais
claramente anti-sociais, bem como aos desvios e taras que opõem-se, não a tais ou quais
preconceitos, mas à própria perpetuação da espécie. Permitam-nos um símile, para que se
torne mais clara a exposição do nosso pensamento: suponhamos uma queda d'água; como
tal, simplesmente como uma massa de água que se despenca de altura considerável, ela
produz, além de barulho, imponente pelo volume, compensação estética apreciada pelos
milhões de turistas que, ao longo dos anos, têm acorrido às mais famosas, entre as quais as
nossas Cachoeiras de Iguaçu. Mas se, for, não impedida, mas disciplinada a massa de água
que cai, de modo a percorrer trajetos adequados ao acionamento de turbinas que geram
energia elétrica, capaz de iluminar milhões de lares, acionar maquinaria que aumenta a
produção de bens e a geração de empregos, que garantem o funcionamento de tantos
equipamentos que contribuem para a saúde e a vida humana, todos podemos perceber que,
o que antes era pouco mais do que barulho e fugaz compensação estética, enobreceu-se.

Pois o exercício do sexo, corresponde à queda d'água. A subordinação do impulso


genésico, formidável energia, se considerarmos o conjunto dos milhões e milhões de seres
humanos, for, não suprimido, mas condicionado, por exemplo, à formação da célula
fundamental de qualquer sociedade, como o é a família, com as configurações que assume
conforme as culturas consideradas, tal condicionamento é a barragem. A união estável
entre dois seres que se completam, se respeitam, se amam, não apenas se desejam56, é o
início do grupo familiar, que representa o pequenos universo onde se exercita a autoridade
legítima, que é aquela que visa, sinceramente, não o próprio benefício, mas o benefício dos
que a ela estão subordinados. É a autoridade fundada no amor sincero que, normalmente,
os pais nutrem pelos filhos que, geralmente, os respeitam, os amam e admiram, exatamente
por perceberem, ainda que não necessariamente de modo consciente, que a união entre os
pais é algo que existe, para a vida e para a morte, para a alegria e para a tristeza, para a
saúde e para a doença; não algo de sentido apenas lúbrico, a desfazer-se tão logo surjam
alternativas, de mesmo gênero, porém mais tentadoras, quando mais não seja, por
significarem novidades.

Alimentos, roupas, remédios, podem ser distribuídos por cupons de racionamento.


Amor verdadeiro, porém, que é o que alimenta uma família bem constituída, este jamais
poderá ser distribuído por cupons do mesmo gênero. Lembramo-nos bem, a tanto vai a

56. Grifos do Autor.


93

capacidade do ser humano de deixar-se enganar, às vezes apenas para “estar na moda”, que
em diálogo com uma jovem e inteligente senhora, dizia-nos ela que tais idéias eram de
origem meramente cultural, influências externas, não impulsos que estão em harmonia com
alguma ordem natural das coisas. Não resistimos, naquele momento, à tentação de
confessar à nossa brilhante interlocutora, estarmos perplexos por não entender quem teria
introduzido nas cabecinhas não muito ajuizadas das galinhas que cuidam das suas
ninhadas, o desvelado carinho com que o fazem...

Entretanto, repisemos mais uma vez, não nos julgamos proprietários da verdade,
nem ignoramos os casos de anomalias e desvios que, sem dúvida existindo, não constituem
a regra. O leitor, porém, julgará o que, à luz da sua inteligência e da sua consciência, lhe
pareça mais consistente, mais tranqüilizador e mais verdadeiro. A nós, particularmente, o
que parece muito claro é que, cada vez mais pujantes, campeiam o egoísmo nas relações
interpessoais e inter-grupais, a licenciosidade crescente dos costumes, de que é prova
incontestável, o aumento vertiginoso do uso de alucinógenos, a promoção das taras sexuais
e da promiscuidade, no espetáculo constrangedor de uma civilização que, embriagada por
uma liberdade que não se define quanto a contornos e quanto a limites, vai tendendo a
degradar-se em licenciosidade, eis que a satisfação de todos os apetites, logo transformados
em presunções de direito, ao longo do tempo, segundo a conveniência de legisladores sem
compromissos com qualquer referencial fixo de sentido axiológico, se vão traduzindo em
direito positivo, por intermédio de leis que lhes garantem o exercício.

Repare o leitor, se ainda não o fez, como está no ar, compondo a licenciosidade
rotulada como “avanço”, “modernismo” e “progresso”, a tendência à “liberação” do
aborto, da prática da eutanásia, da “descriminalização” do uso de drogas, tudo, é claro, a
princípio, de maneira tímida, no sentido da restrição a certos casos. Mas, observemos a
curva tendencial dessas disposições. Estamos longe da pretensão de analisar,
detalhadamente, cada caso. A nós, o que importa é oferecer à consideração do leitor, o que
chamamos de curva tendencial dessas disposições, para apreender-lhes o sentido mais
geral, o significado mais amplo, de rebeldia contra os fundamentos da nossa cultura, até
algumas décadas anunciada como tão valiosa, que justificaria o holocausto de milhões e
milhões de jovens, do mundo inteiro, chamados a derramar seu sangue nos campos de
batalha da Europa na 2a Guerra Mundial, de resto fruto da brutalidade e do egoísmo.
94

Brutalidade e egoísmo que não são aspirações do espírito mas, exatamente, da


componente animal da nossa realidade, que se pretende cada vez mais “livre”.

Aos que se julgam mais “práticos” e mais “objetivos”, pedimos que considerem,
também, se o impulso genésico a que nos estamos referindo, considerados os bilhões de
seres humanos de ambos os sexos que hoje habitam o nosso planeta, representa, ou não, de
fato, formidável energia, cuja orientação adequada tem reflexos sociais e econômicos de
enorme importância, ou se ao afirma-lo, estamos fantasiando, por “sonhadores” ou
“retrógrados”, como alguns nos rotulam. Se é verdade que indústrias derivadas daquela
fonte de energia, como as que se ligam à vaidade, dentre as quais, para citar apenas alguns
exemplos, a dos cosméticos, a das jóias, a dos perfumes, a dos salões de ginástica e de
massagens, a de modas, não fossem planejadas e levadas a cabo, de qualquer maneira,
inclusive, como é compreensível em quem não se preocupa com a visão holística da
realidade, a que pareça de “mais pronto retorno dos capitais investidos” ; mas, ao contrário
tendo-se sempre o cuidado de levá-las a cabo, de modo a não aviltar a natureza do interesse
entre um homem e uma mulher, não contribuindo para a identificação daquele interesse
apenas à sua dimensão lúbrica, como se seres humanos fossem idênticos aos irracionais no
cio, não se estaria conciliando o espírito prático à sabedoria? Sim, porque, com tal visão do
problema, não nos parece absurdo imaginar que houvesse a possibilidade de se auferirem
lucros contábeis.

Para não falar de outros como, por exemplo, os representados pela noção do papel
que empresários talentosos, por parte das suas próprias consciências e do conceito em que
a sociedade passaria a ter a respeito deles, como “doublés” de homens de negócios e de
pedagogos esclarecidos, contribuintes, com o talento de que dispõem, para o
fortalecimento da família, a “barragem” do símile que empregamos linhas acima. Qual tem
sido, até agora, o custo social do enfraquecimento, cada vez maior, da referida “barragem”,
em termos de desorientação de jovens, cuja desgraça alimenta os lucros dos traficantes de
drogas, multiplica o poder do chamado crime organizado, impõe os custos da manutenção
de clínicas especializadas, os gastos, particulares e públicos, para diminuir a insegurança,
cada vez maior, em que vivemos? E tudo isso são apenas detalhes, de um clima gerador de
problemas de altíssimo custo social, em verbas e em dor, resultantes de um conceito
imprudente, para dizer o mínimo e o menos contundente e capaz de magoar, acerca da
liberdade, concebida como ideal que se esgota em si mesmo, espécie de carta sem endereço
95

e sem conteúdo, incompatível, como já o dissemos antes e estamos repisando, com os


fundamentos, os alicerces da cultura judaico-cristã de que somos parte.

Imprudência resultante dos equívocos dos intelectuais ativistas de maior influência


no chamado “século das luzes”, dentre os quais avultou o papel da dupla J. J. Rousseau e
John Locke, no fundo de mesma inspiração. O primeiro, como já o dissemos
anteriormente, de influência predominante na Revolução Francesa de 1789, cujo sentido
tem sido deformado pela exaltação, apenas, do que nela foi positivo; e pelo ocultamento,
intencional ou por ignorância, do que de mau e errôneo ela trazia em seu bojo. Quanto ao
segundo, grande inspirador de Thomas Jefferson, a quem se deve, principalmente, a
famosa Declaração da Independência, principalmente por ele redigida, com a única
alteração, segundo tudo indica, sugerida por Benjamin Franklin, a quem não agradaram as
expressões iniciais do documento, que estaria redigido com base em verdades sagradas e
incontestáveis, substituídas por auto-evidentes57. Para usar as palavras na língua em que
foram escritas, as expressões “sacred and undeniable”, foram substituídas por “self-
evidents”. Não se conclua daí ter sido Locke ateu ou agnóstico. Ao contrário, considerava-
se ele inequivocamente cristão.

Apenas, amigo como foi de Isaac Newton, e vivendo em um século de exaltação da


razão colocava-a como última instância para que algo transcendente pudesse ser aceito por
um ser humano, para ele uma “substância mental”, que chegava ao mundo como uma folha
de papel inteiramente em branco, a ser preenchida no contato com o meio circundante,
segundo os critérios aceitos pela razão de cada um. Nada de propósitos ou finalidades
prévias a serem observadas. Apenas, como cria em Deus, cria também que o uso adequado
dos mecanismos racionais, ao analisarem as experiências adquiridas e registradas, nas
folhas de papel inicialmente em branco, levariam à conclusão da existência do Criador.
Semelhante conclusão, porém, o leitor verifica que, efetivamente, em última instância,
dependeria da razão. Uma marca inconfundível do Racionalismo, do Iluminismo,
sobretudo francês. Quanto a implicações de outra ordem, resultantes da hipótese de todos
os homens, as “substâncias mentais” como os conceituava Locke, virem ao mundo
exatamente nas mesmas condições, como as “folhas de papel em branco” a que fizemos
referências anteriormente, a serem preenchidas pelas interações com o ambiente e as
maneiras de elaborá-las por intermédio dos mecanismos racionais, não nos parece

57. Grifos do Autor.


96

necessário sublinhar, certos como estamos de que o leitor já pode identificar onde
encontraria suporte a afirmação de que “o homem é o produto do meio”.

Não que nos pareça cabível negar a influência do meio sobre a criatura humana.
Influir, porém, é uma coisa; outra, bem diferente, é supor, abdicando do livre arbítrio, da
capacidade de optar entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, que o meio determina a
conduta humana, é coisa profundamente diferente, diferença que acarreta gravíssimas
conseqüências. De outra parte, já vimos, também, que Rousseau, de certa maneira, pode
ser considerado discípulo de Locke, o mesmo acontecendo ao virtual autor da Declaração
da Independência, de tão grande repercussão na França onde, apenas treze anos depois,
ocorria a tomada da Bastilha.

Cabe, portanto, aqui, uma indagação do leitor: se o substrato intelectual das duas
revoluções era tão semelhante, como se explicaria a diferença entre os cursos que
tomaram? Como se sabe, a segunda, acarretou o banho de sangue que a História consigna
como “o Terror”, as perseguições mais impiedosas, o morticínio de religiosos, sobretudo
na Vendéia, onde foram assassinados, segundo se avalia, algo como vinte e cinco mil
padres e freiras, a perseguição e a execução de cientistas, entre os quais Lavoisier, pois “a
revolução não precisa de sábios” - expressão atribuída a Robespierre - e tantos e tantos
disparates, entre os quais a extinção das Corporações de Ofício, sem que nada fosse
providenciado para substituí-las finalmente, desaguando no retorno à monarquia e
surgimento de Napoleão Bonaparte, o general de gênio que desejava unificar a Europa sob
o seu domínio, tendo se feito coroar imperador. Na América, porém, os frutos da
revolução, de fundamentos teóricos tão semelhantes aos da francesa, foram completamente
diferentes. É que, no caso da revolução americana, durante muitos e muitos anos, o curso
dos acontecimentos de dependeu muito menos daqueles fundamentos, do que dos valores
cultivados pelos puritanos, que para lá se haviam dirigido, valores como o amor à família,
o amor ao trabalho, a fidelidade à palavra empenhada e outros, oriundos da Revelação, na
conformidade da fé que professavam 58. Sobre tais valores foi construída a grandeza da
nação americana.

No caso da França, bem ao contrário, o espírito dominante era o da rebeldia, da


exaltação da razão, da ridicularização, não tanto desta ou daquela denominação religiosa,
mas da própria religiosidade, da irreverência e da mordacidade, que fizeram de Voltaire
97

um dos ídolos daqueles tempos agitados. A atitude irreverente e rebelde não é a que se
coaduna às pessoas que confessam os valores, na prática predominantes, nos primeiros
tempos da construção da grande potência do Norte. Mas era a que dominava o clima dos
intelectuais ativistas e de uma massa, por eles induzida à imitação das disposições de
espírito dos seus líderes. Daí, os cursos profundamente diferentes que tomaram as duas
revoluções. No caso da americana, porém, os equívocos permaneceram na lei fundamental
e, ao longo do tempo, foram manifestando os seus efeitos. Tanto mais quanto, a aspiração
por liberdade, no sentido, sobretudo, de livrar-se de perseguições religiosas de que tinham
sido alvo na Inglaterra, transmitiu-se dos primeiros habitantes da América aos seus
descendentes, de maneira, a princípio, lenta e gradual, mas cada vez menos semelhante
àquela que seus antepassados haviam estimado tanto. A pouco e pouco, passou a insinuar-
se e a dominar um ideal de liberdade que não tinha compromissos com valores
previamente estabelecidos, aquele cuja estátua ornamenta a entrada do porto de Nova
Iorque e que, assim, sem destinação preliminar, temos caracterizado como uma espécie de
absurda carta sem destinatário e sem conteúdo que, tal é a realidade do ser humano, acaba
por degradar-se em licenciosidade, em seu mais amplo e ameaçador sentido.

Como nos esforçamos para manter a consciência da nossa insignificância, pedimos


ao leitor, sobretudo se ele está na faixa dos adultos e, ainda melhor, já na terceira idade,
que procure lembrar-se, como um exemplo simples e concreto do declínio a que acabamos
de referir-nos, que há bem poucas décadas, nada obstante a inexistência de uma censura
oficial - que a lê emenda constitucional tornaria impossível - comissões de mães e de pais
de família protestavam eficazmente contra certos espetáculos, sobretudo filmes de cinema,
que lhes parecessem atentatórios à decência e à família. O resultado era que, no tempo a
que nos estamos referindo, os filmes “audaciosos”, “picantes” ou, de alguma outra
maneira, chocantes do ponto de vista dos que se mantivessem fiéis aos valores
fundamentais da cultura judaico-cristã a que pertencemos, eram geralmente filmes
europeus. Os “picantes”, sem querermos ser desprimorosos, buscando apenas descrever
uma realidade de que darão testemunho os leitores já adultos ao tempo a que nos estamos
referindo, eram na maioria das vezes, franceses. “Filme francês” era expressão que, já de
si, insinuava o sentido “audacioso” a que nos estamos referindo.

Em segundo lugar, vinham os italianos, que preferiam, entretanto, para situar-se


entre os “de vanguarda”, a temática social, segundo a visão, muitas vezes, do Materialismo
98

Histórico. Hoje, porém, como estão os filmes americanos? Primam pela observância dos
valores estimados por aquelas comissões de pais e de mães de família há pouco
mencionadas, ou mostram-se, digamos, talvez ainda mais “audaciosos” e “de vanguarda”
do que os filmes europeus de algumas décadas? Aí está um exemplo da superposição, aos
valores dos primeiros cidadãos americanos, e a quem a América deve a sua prosperidade,
dos que decorrem dos equívocos que, resumida e simbolicamente, estão representados na
famosa estátua da Liberdade. E, vejam, não estamos atribuindo ênfase ao fenômeno da
exibição crescente do relacionamento sexual entre homens e mulheres ou, mesmo, à
permissividade em torno de insinuações claras a certos desvios e taras. O que nos parece
mais relevante é a maneira segundo a qual desvios teóricos conduzem a erros práticos.

O modo e a velocidade com que o fazem, depende de variadas circunstâncias e de


peculiaridades das sociedades em que tais erros se instalam e representem a lei. Em
sociedade de pouca resistência cultural e de múltiplos problemas de ordem material
resultantes de pauperismo e da mais confrangedora miséria, claro que tais erros podem
manifestar, rapidamente, os resultados maléficos que deles podem ser extraídos.
Resultados que os que deles não são vítimas, mas beneficiários, rapidamente se põem em
campo para afirmar que tudo resulta da falta de exercício, de prática no manejo de
instituições que, assim, devem ser mantidas a qualquer preço, de vez que representam o
que, com grande freqüência, gostam de designar como “normalidade institucional” ou
“normalidade democrática”. No campo da realidade concreta, porém, não nos parece difícil
compreender que, como existem grandes diferenças entre sociedades nacionais distintas,
não é suposição das mais sensatas a que aceita a existência de um modelo institucional
aplicável a todas; e que os desajustes verificados tão freqüentemente, haverão de ter como
causa, sempre, a “falta de prática” no uso do pretensamente universal modelo. Isso, por um
lado. Por outro, como as diferentes sociedades nacionais são realidades mutáveis, não nos
parece, igualmente, sensato supor a existência de um modelo que, além de uso universal,
tem, ainda, a propriedade de ser eterno. Nada obstante, não faltam os teóricos do “fim da
História”, como já houve, e têm ainda alguns adeptos irredutíveis, os da afirmação segundo
a qual “Deus morreu”.

Por enquanto, entretanto, e dando por encerrado este capítulo em que nosso
objetivo foi tentar aproximar da observação do leitor, fatos e circunstâncias que, tendo suas
raízes em séculos distanciados dos dias em que vivemos, possam ter parecido pouco
99

objetivos ou fora de propósito, tentaremos no capítulo que irá seguir-se, expor o


significado de algumas expressões por nós usadas e que, nem sempre, são, no que
representam, do conhecimento do leitor.

I.6 – Esclarecendo o entendimento que temos acerca de expressões


apenas mencionadas

Antes de mais nada, seja-nos relevado repetir, uma vez mais, que de nossa parte,
não alimentamos o propósito de desmerecer idéias, movimentos, tendências, camadas ou
grupos sociais, denominações religiosas e, muito menos, pessoas. O nosso objetivo é
oferecer aos que venham a ler estas páginas, como nós, em um extenso bosquejo histórico,
interpretamos o nexo entre fatos aparentemente desvinculados e, na máxima medida ao
nosso alcance, transcrever o pensamento de grandes vultos do processo de que somos
todos, queiramos ou não, “a última palavra do passado, e a primeira do futuro”. O
julgamento da verosimilhança da nossa interpretação de fatos que, segundo pensamos,
marcam os balizamentos de rumos que, em nossos dias, longe de conduzirem a um
progresso harmonioso, ao contrário, no que depende da natureza decaída do homem 59, está
desaguando na clareira de cinzas em que campeiam disposições e hábitos que,
invariavelmente, marcaram o período de declínio, não de ascensão, de civilizações que nos
precederam, tal julgamento pertence ao leitor. E de, quanto a isto, pedir-lhe que leve em
conta, os perigos da superestimação da capacidade dos pobres seres contingentes que
somos, ao nos imaginarmos senhores absolutos do nosso destino.

Por outro lado, como o bosquejo extenso que intentamos realizar, abrange
circunstâncias por vezes profundamente diferentes, vocábulos originados em dada época,
podem mudar de sentido. Exemplo típico é a palavra “burguesia”, nascida no medievo, e
relacionada às primeiras aglomerações surgidas em torno das residências feudais,
denominadas burgos. Na História contemporânea, porém, a maioria das pessoas conotam o
seu significado ao que lhe emprestou a visão do Materialismo Histórico em que ela adquire
um sentido, digamos, pejorativo, eis que associado ao capital, conseqüência, naquela visão,
da exploração do trabalho, por intermédio do que designa como “confisco da mais valia”.
Usamos o mesmo vocábulo quando nos referimos à revolução dos “eupátridas” que levou
100

Sólon ao poder, embora os acontecimentos em causa tivessem ocorrido antes da nossa era
e, portanto, antes do período medieval. É que, naquela ocasião, como mais tarde, muito
mais tarde, na revolução francesa de 1789, os maiores interessados na mudança da ordem
de coisas que lhes prejudicava os interesses, não representavam o maior número dos que
levavam a cabo as referidas mudanças, nem eram em número suficiente para que elas se
tornassem vitoriosas.

Por isso, os que queiram entender determinadas atitudes das massas, é nossa
opinião que devem cuidar da existência de motivos reais, pretextos válidos, e atrativos
suficientes60 para que os pretextos sejam confundidos com os motivos, e a energia das
massas seja colocada a serviço dos que, quase sempre ocultando os motivos, dispõem dos
meios necessários para promover e acionar pretextos e atrativos. Também parece-nos útil
chamar a atenção para o fato de que, segundo a obra clássica de Sorel, “Refléxions sur la
Violence”, será sempre mais fácil realizar uma, “jacquerie” por uma bandeira, do que por
um pedaço de pão. A observação nos parece útil, exatamente porque, em nome do que
consideram “espírito prático”, têm sido descurados os mecanismos subjetivos presentes na
realidade do ser humano. Talvez por isso, tantos insistem na resistência a uma verdade tão
simples quanto a que se refere a ser a felicidade uma sensação, não uma coisa61, ainda que
o atendimento de certas necessidades essenciais, representadas por coisas, seja necessário
para que não se torne inviável, ou extremamente difícil, a sensação de felicidade.

Por incrível que pareça, o revolucionário que operacionalisou com maior nitidez
noções como as acima mencionadas, foi um materialista confesso, um ateu militante, de
nome Wladimir Illitch Ulianov, mais comumente conhecido como Lénine, codinome que
usou em razão do nome do rio em cuja proximidade vivera os primeiros anos de sua
existência. Foi ele o homem de ação, que realizou o que fora concebido por Marx, e seu
mais íntimo colaborador, Engels, e que, resumidamente, foi dado a público em 1848.
Repare o leitor como, da revolução francesa de 1789, até a publicação do Manifesto
Comunista a que acabamos de aludir, transcorreram apenas 59 anos. Levando em conta
que a dinâmica dos acontecimentos no século passado era muito menor do que a que hoje
pode ser observada, esperamos que já possa, no espírito do leitor, parecer menos
disparatada a afirmação registrada anteriormente e cujo sentido nos estamos propondo
esclarecer melhor no presente capítulo. Referimo-nos à afirmativa de que a revolução
francesa foi uma espécie de ante-sala da revolução de Outubro de 1917, na Rússia, que,
101

aliás, entre tantas outras coisas, acarretou a derrubada da monarquia, e o trucidamento do


“czar” e de toda a sua família, inclusive do “czarevitch”, pobre criança hemofílica, cuja
doença foi o motivo da grande influência na Corte, da figura enigmática e sinistra de
Rasputine.

É que este, segundo relatos da época, fazia estancar as hemorragias a que estava
sujeito o herdeiro do trono, cuja genitora, a “czarina”, sentia-se, como mãe, dele
dependente de maneira dramática. Este, porém, é um pequeno “flash”, mencionado apenas
para evidenciar a proximidade histórica entre a Queda da Bastilha e o Manifesto
Comunista e a diferença entre pretextos atraentes e conseqüências chocantes, facilmente
verificável nas duas revoluções; ainda mais importante e convincente sobre a existência da
seqüência que estamos tentando tornar mais clara para o leitor, é que a chamada
“revolução belchevique”, não começou como tal, mas como uma revolução democrática 62
de moldes análogos aos que inspiraram a revolução francesa. De fato, tratar-se-ia, apenas,
de abolir os privilégios aristocráticos e os seus abusos, em nome da liberdade e da
igualdade de todos, revolução que se tornou vitoriosa e levou ao poder, em um primeiro
instante, o Sr. Kerenski, um político tão hábil, que seria capaz de conciliar os antagonismos
entre os revoltosos de Petrogrado, e a Duma de Moscou... O resultado, todos sabemos, foi
que a minoria bolchevique dominou a maioria menchevique e, rapidamente, tornava-se
vitorioso o “slogan”: “todo o poder aos “sovietes”.”

Quanto à habilidade de Kerenski, na verdade é a maneira generosa com que, entre


outras, pessoas destituídas de convicções suficientemente sinceras e firmes para
impulsionarem ações, designam a aptidão para administrar, como é usual dizer-se entre
políticos do gênero que estamos figurando no momento, divergências e discordâncias entre
partes desavindas. Aptidão, de resto, de fato louvável e imprescindível, no dia-a-dia das
atividades do trivial relacionado ao funcionamento dos mecanismos institucionais em
vigor; nunca quando se trate da opção entre grandes e divergentes concepções acerca da
natureza e do destino dos seres humanos e da sociedade em que eles vivem; nesse domínio,
a “habilidade” transforma-se na vacuidade em que se perderam Kerenski e a revolução que
ele imaginava liderar. É que os “bolcheviques”, em face da questão que tantos “espíritos
práticos” consideram irrelevante, a questão da transcendência do destino dos homens, da
existência ou da inexistência de um Deus criador, de uma Sua lei e da nossa
responsabilidade perante a Sua Vontade, tinham uma opção firme pela negativa. E criam
102

nela que, articulada na amplitude de uma cosmovisão, que se propunha responder, e


efetivamente respondia, a todas as indagações do espírito humano (se o fazia de maneira
adequada, ou não, já é um outro problema que acontecimentos recentes se incumbiram de
elucidar), funcionava como uma espécie de humanismo sem Deus ou mesmo, segundo
alguns, como uma ilógica “religião sem Deus”.

Os contemporâneos de Kerenski e, até hoje, por efeito da “inércia histórica das


idéias”, os que se dizem liberais, como acontece, não apenas entre políticos mas também
entre burgueses, preferem abster-se de responder à magna e fundamental questão, desde
1789, considerada descartável, eis que todo o Direito deveria depender, exclusivamente, da
“vontade geral”, expressa pelos “representantes do povo”. O homem, portanto, já não
necessitava de nada além da sua própria realidade e dos critérios da sua própria razão. Por
que, então, comprometer-se com uma resposta “que não teria nada a ver”, como dizem os
jovens. E qual é o homem de “espírito prático”, sobretudo quando o dedica às atividades
que, desde o período medieval, os que as praticavam preferiam fazê-lo livres de
empecilhos éticos irremovíveis, por resultarem do referencial axiológico fixo por provir de
revelação divina; qual deles, hoje, não propende para a mesma disposição? Aqui, cabe
esclarecer que não nos estamos referindo à maneira pela qual o espírito de tal ou qual
época histórica interpretava aquele referencial, no que tange à sua aplicação a esse ou
àquele tipo de atividade, para aplaudi-la ou contestá-la. A questão central, ou originária, é
saber-se se existe ou não um Deus criador, uma Sua vontade e uma Sua providência.

E o que é que, potencialmente, envolve menos risco: é responder com clareza, ou


abster-se? Na visão que tantos consideram prática, e no horizonte próximo marcado pelo
imediatismo que, na realidade ela representa, a resposta é óbvia: é abster-se. Na vida
pessoal e na intimidade, a questão se inverte: torna-se mais vantajoso não negar
frontalmente ou, sequer, confessar que se abstém por considerar irrelevante o problema. E
se, por acaso, a resposta afirmativa for a correta? Não poderão advir daí conseqüências
desfavoráveis numa outra vida, “quem sabe”, existente? Mas alguém, cujos mecanismos
psicológicos são do tipo que estamos supondo, é capaz de entusiasmos ou, de preferência,
de acomodações que signifiquem, no mínimo, ausência de riscos supostamente evitáveis?
Mas Lénine acreditava na cosmovisão a que aderira a sua consciência. E, espírito prático,
polarizado não pela esperteza que acomoda, mas pela noção de que, no que tange aos
grandes rumos da História, ser “oportunista” e “esperto”, é ser omisso e medíocre, tendo
103

adotado o caminho que lhe fora sugerido pela sua natureza decaída, concebeu o que lhe
pareceu operativo para dar conseqüências objetivas à cosmovisão distorcida cuja base
assentava na convicção de ser a luta entre os homens, divididos entre explorados e
exploradores, o motor necessário, indispensável, da História.

A feição dialética, de fato presente em todas as coisas, fora interpretada por Marx
como uma dialética de luta, conseqüente aos contrários internos de que se constituem todos
os seres e que, por serem contrários, contrariam-se, conferindo a cada ser e ao conjunto de
todos os seres a atividade observável no universo inteiro, onde operam os contrários
internos a que acabamos de referir-nos, e os contrários externos, existentes entre seres
distintos, tudo tornando dispensável a hipótese de um Deus, responsável pela atividade
universal, que não pode ser negada. Em largos traços, o que estamos, neste momento
tentando, é oferecer ao leitor que, por acaso, não tenha tomado ainda conhecimento do que
se contém de mais fundamental na Filosofia marxista da Natureza, a primeira das suas
“leis”, precisamente conhecida como “lei dos contrários”. No que tange à sociedade, os
contrários, como já foi dito, estão representados por patrões e empregados, os “inimigos de
classe”, de cuja oposição de interesses, eis que, por definição, são contrários, resultarão as
lutas sem as quais o quadro das explorações dos primeiros sobre os segundos, não se
atenuarão ou, ainda menos, desaparecerão.

Como o capital possuído pelos patrões, resulta do “confisco da mais valia”, parte da
riqueza produzida pelo trabalhador e que não compõe o seu salário, a continuar assim a
situação, haverá um número cada vez maior de capitalistas, cada vez detentores de capitais
maiores, e um número crescente de operários até que, inexoravelmente, ocorrerá o “salto
qualitativo”, conceito que, no plano das transformações sociais, corresponde à “lei”
estabelecida em Filosofia marxista da Natureza, nos seguintes termos: “aumentos
quantitativos adequados produzem, por salto brusco, transformações qualitativas”. Assim,
quando o número de proletários for adequadamente maior do que o de capitalistas, por
salto brusco, a sociedade capitalista burguesa transformar-se-á em outra, em que o poder se
transferirá para as mãos dos operários, desaparecendo o “confisco da mais valia”, e a
propriedade privada, sobretudo de natureza fundiária, deixará de existir - o que, diga-se de
passagem, realizaria o que Rousseau sugeriu na passagem do seu “Discurso sobre a
Desigualdade”, transcrito em outra parte desta obra. Observe-se ainda que, para que o
104

“salto qualitativo” possa ocorrer, é necessário que, além da numérica, já assinalada,


estejam presentes outras “condições objetivas”.

Tudo isso, registre-se, em uma exposição extremamente resumida dos fundamentos


de uma cosmovisão, resumo feito apenas para assinalar o método revolucionário leninista,
como instrumento viabilizador de uma transformação social que tardaria muito, caso viesse
a depender de proselitismo de massa, extremamente difícil, face ao caráter profundamente
complexo do chamado Materialismo Dialético, espinha dorsal da cosmovisão marxista,
espécie de coroamento de um longo trajeto histórico, abrangente de muitos séculos mas
que, como temos tentado evidenciar desde o início do esforço que este livro representa,
claramente deixa patente uma ilusória libertação da humanidade do que seria o jugo
alienante da religião ou, melhor dizendo, da religiosidade, da admissão da transcendência
do destino humano, a projetar-se em termos de infinito e de eternidade. Daí, a expressão
que seguramente o leitor conhece, pois tem sido, ou vinha sendo, largamente promovida,
de que a religião, ou a religiosidade, seriam “o ópio do povo” no sentido de que ele não se
desse conta da realidade da exploração cruel de que era vítima.

Ainda que não sendo possível, neste momento, entrar em detalhes acerca dessa
sinistra aventura consistente em, pela primeira vez na História, tentar organizar a sociedade
com base na negativa frontal e necessária da existência de qualquer coisa fora ou além da
matéria63, do pouco que foi dito, supomos, fica evidente a marca de uma disposição que,
oposta à do amor entre os homens, como corolário de sua irmandade por serem filhos de
um mesmo Pai, que os criou, não para que se odiassem mas para que se compreendessem e
se amassem, pregava a luta como motor indispensável da História.

Como, entretanto, dizíamos, linhas acima, seria muito difícil fazer as massas
aceitarem pela via da razão, o que representava o oposto, não apenas a tudo quanto elas
haviam admitido como sagrado até então, mas a quanto restava em todos que as
compomos, da nossa verdadeira natureza, no que ela tem de melhor e de mais generoso, e
que certamente não aponta para a necessidade da desconfiança e da luta. Daí, o que temos
designado como método de ação revolucionária leninista pregar, exatamente, não a ação de
proselitismo direto e explícito, a nível de massa. Realmente, quando aquele revolucionário
de gênio, em congresso realizado no início deste século, após ter exposto as suas idéias a
respeito, o número dos que as apoiaram era tal, que todos couberam em um único

63. Sobre a cosmovisão do Materialismo Dialético, existe copiosa literatura, tanto de autores a ela favoráveis, quanto de outros que, ao
105

automóvel. E no que consistiam as referidas idéias? Na necessidade da criação de um


partido comunista, composto, segundo expressões atribuídas ao seu próprio autor, por uma
minoria, uma elite tão devotada à obra de derrubada do capitalismo burguês, que poderia
ser caracterizada como uma espécie de grupo de “mortos em férias”, de vez que as vidas
dos seus componentes seria inteira e totalmente dedicada a realizar a “revolução do
proletariado”, do qual seriam eles a “vanguarda”.

E tudo isso expressava uma enorme contradição com respeito à visão básica do
“Materialismo Histórico”, aplicação aos fatos de índole Histórica, do seu fundamento, a
cosmovisão do Materialismo Dialético. E por que seria assim? Porque, como já vimos
anteriormente, segundo aquela visão do processo histórico, no âmago das transformações
sociais pulsa, como seu verdadeiro motor, a luta de classes, resultante de serem os
“contrários” do, digamos assim, “ser social”, os explorados e os exploradores; contrários
esses que, de uma ou de outra maneira, vão produzindo a dinâmica das mudanças sociais,
em cujo contexto todas as ideologias não representariam mais do que reflexos da “infra-
estrutura econômica” com as características dos seus métodos e suas relações de produção.
Idem, idem, com relação às “superestruturas institucionais”. E, dadas as características
inevitáveis da empresa capitalista, fundada na apropriação da “mais-valia”, fonte
inexorável da acumulação do capital em um número cada vez menor de mãos, com o
crescimento, igualmente inevitável, do número de proletários cada vez mais pobres,
fatalmente chegaria o momento da presença das condições objetivas, propícias ao “salto
qualitativo”, na forma já mencionada anteriormente.

A serem todas essas coisas verdadeiras - e sabemos concretamente que não são, ao
menos como dados inexoráveis das transformações históricas, - a sociedade comunista
resultante do “salto qualitativo” seria algo a acontecer fatalmente, dispensando, portanto
um partido incumbido de levar a cabo o que, afinal, não dependia da vontade dos atores do
processo, mas das “leis internas” que o impulsionariam, inexoravelmente, para o que,
supunham, seria a magnífica sociedade comunista do futuro na qual
“de cada um seria exigido conforme a sua capacidade e a cada um seria dado conforme a
sua necessidade”. É bem verdade que nunca ficou claro a quem caberia avaliar a
capacidade e a necessidade de cada um... No momento, porém, o que desejamos realçar é
que, nos que criam nessa espécie de “religião sem Deus”, haveria de parecer disparatada a
106

idéia de Lénin, apresentada no congresso realizado no começo do século, na cidade de


Zimmerwald, na Suíça, a que fizemos menção anterior.
O argumento do grande revolucionário, porém, era que a “vanguarda” de lúcidos
conhecedores da dialética marxista, que os demais ignoravam, “dopados” como estariam
por ideologias fantasiosas - especialmente as de natureza religiosa, que ao suscitar
esperança em uma vida futura, esvaziaria o ânimo de revolta contra o opressor - daí a
expressão já citada: “religião é o ópio do povo” - os quais oprimidos, entretanto, em sua
curta visão de “ alienados”, identificavam apenas problemas imediatos e tinham aspirações
de mesma índole, que não conseguiam resolver ou conquistar, exatamente porque, as
razões mais profundas de tais “contradições”, escapavam ao entendimento de quantos não
integravam ainda a “vanguarda”. Estes, porém, com a sua sofisticada e elaborada visão,
devidamente infiltrados em contextos potencialmente promissores, poderiam identificar as
“contradições” neles existentes e, sem a necessidade de qualquer compromisso com os
complexos fundamentos do Materialismo Dialético, levantar como bandeiras as referidas
“contradições”, emprestando dinamismo a uma massa até ali, insatisfeita, mas sem rumo
definido de ação.

Desencadeada esta, porém, os elementos da “vanguarda”, no curso do processo, o


iriam orientando para o alvo ou para a meta que só eles conheciam. Ditas assim as coisas,
reconhecemos não ser fácil ao leitor que não tenha conhecimento anterior e mais detalhado
da temática neste momento abordada, apreender a formidável potencialidade do método
concebido pelo futuro líder da revolução bolchevique. Permitir-nos-emos, então, imaginar
alguns exemplos que contribuam para a concretização do entendimento acerca do que
estamos expondo. Não há dúvida nenhuma de que a realização de uma política agrária bem
intencionada, ainda que não consistindo apenas nisso, passa necessariamente pela garantia
da atribuição de terra aos que saibam e queiram cultiva-la. A propriedade privada,
sobretudo da terra, porém, do ponto de vista do marxismo é um verdadeiro absurdo, de vez
que, para aquela visão, a propriedade privada, sobretudo de natureza fundiária, é a raiz de
todos os males e de todas as injustiças sociais. Mas, veja o leitor: qual é o maior número de
pessoas na sociedade brasileira: o dos que possuem terras, ou o dos que não a possuem? A
resposta, óbvia, é que é muitíssimo maior o número dos que não possuem terra.

Assim, os elementos de “vanguarda” não hesitaram um só momento, ao tempo das


famosas “reformas de base”, tão mencionadas no governo João Goulart, em empunhar a
107

bandeira da “reforma agrária”, cuja reivindicação consistia, exatamente, em atribuir a


propriedade fundiária aos que desejassem tê-la para cultivá-la. Mas quais terras deveriam
ser distribuídas? Preferencialmente as que correspondessem aos latifúndios. As por acaso
devolutas e de propriedade da União, estas não deviam ter prioridade, por serem mal
situadas, ou de solo não adequado à exploração, etc. Tudo isso pode ser entendido e
discutido com tranqüilidade e honestidade de propósitos. Mas quando lideranças marxistas
se lançam, como então se lançavam, à frente das reivindicações que, como já vimos,
diziam respeito à atribuição da propriedade privada do solo ao maior número possível de
pessoas, e tudo em clima de tumulto e de improvisação, estava mais do que claro que o
objetivo real não era reconhecer a justiça da atribuição da propriedade da terra aos
lavradores que não a possuíam. O que se queria era desmoralizar o conceito da
intocabilidade da propriedade privada, que a lei reconhecia.

E, naquele clima, desmoralizada essa intangibilidade, os pobres agricultores que


recebessem os seus “títulos de propriedade”, sem os demais amparos sobre os quais pouco
ou nada se falava, dentro de muito pouco tempo descobririam que a sua situação de penúria
não se havia modificado, a não ser, talvez, para pior, porque a animosidade entre
“explorados” e “exploradores”, teria se exacerbado com agravantes que só quem não
conhece a nossa confrangedora realidade rural ignora. Por exemplo, o nosso lavrador, nas
épocas ruins em que a lavoura é tão pródiga, sabe que o seu “banco” é o vendeiro que lhe
fornece a crédito, por conhecê-lo de há muito, o que o livra da fome, até que venha a
próxima colheita. Instalado um clima de desconfiança e ódio no campo, como se
comportaria essa realidade?

É bem verdade que, no exemplo que estamos imaginando, o mal-estar a que


acabamos de aludir, sofreria nova transformação. É que a “vanguarda do proletariado” teria
chegado à sua verdadeira meta, em uma segunda etapa, caso já estivesse no poder, onde
não toleraria “a raiz de todos os males”, representada pela propriedade fundiária. Assim,
rapidamente, lavradores que haviam recebido títulos de propriedade em um contexto em
que um dos argumentos centrais havia sido que esta nada tem de intocável, tomariam
conhecimento de que as autoridades, para o bem da agricultura e dos agricultores, tornava
nulos os títulos de propriedade privada antes distribuídos, para a organização das “fazendas
coletivas”, as mesmas que na URSS revelaram tanta “produtividade”.
108

Nos EUA, a potência rival da União Soviética, enquanto esta existiu e foi tão
devotadamente servida pelas “vanguardas” a que nos estamos referindo, seria muito difícil,
até bem pouco tempo, “mobilizar o proletariado” em torno da temática tão rica em outras
sociedades, relacionada a salários insuficientes, para não dizer francamente miseráveis
como é, por exemplo, o nosso caso; é que o operário americano acreditava que ele era o de
melhor remuneração no mundo. Mas lá, havia cidadãos pretos e brancos, e havia
discriminação racial. Aí estava a grande “contradição” a ser explorada - e toda a
“vanguarda” americana lançou-se à exacerbação dos ressentimentos que ela ensejava e
que, ao tempo da “guerra iria”, e até hoje, tantos problemas e dificuldades têm trazido à
administração e à sociedade americanas. São estes, exemplos do que designamos como
“método leninista” de ação revolucionária. Como ficou dito, a idéia básica assenta sobre a
conveniência, para acelerar o advento da sociedade comunista do futuro, de não ser tentado
o proselitismo de massa, difícil pela complexidade de uma cosmovisão chocantemente
diferente da que, durante tantos séculos, dominara o Ocidente (estamos falando, no
momento, do contexto sócio-cultural do Ocidente), e tão exigente de meios que não
estavam à disposição da “vanguarda” de “mortos em férias”, como descrevera os seus
integrantes ideais, o Partido cuja formação propunha Lénine.

Sim, porque se os integrantes do referido partido que, diga-se de passagem, sempre


teve dois tipos de quadros, os ostensivos e os clandestinos, mesmo que não houvesse
legislação que proibisse as suas atividades, fossem bastante competentes, as paralisações
sucessivas do trabalho, com as previsíveis seqüelas no processo produtivo; o acirramento
crescente da animosidade entre patrões e empregados; a denúncia dos abusos do poder
contra as lideranças dos trabalhadores; a desmoralização dos políticos que ousassem supor
a existência de intencionalidade política, em movimentos grevistas que deveriam referir-se
a problemas relacionados às condições e às relações de trabalho; as denúncias sobre
escândalos no seio da alta administração; tudo isso poderia levar, e efetivamente levava, a
um descontentamento crescente, em grande escala, canalizado habilmente para a conquista
do poder, sob lideranças que jamais mencionavam a natureza dos seus verdadeiros ideais,
mas outras bandeiras e “slogans” de aceitação fácil por parte da maioria. Bandeiras como
“justiça social”, “liberdade”, “democracia”, etc., etc.. Mas a “vanguarda” tinha que ser
competente o bastante, para conduzir o “processo”, até que estivessem configuradas as
“condições objetivas” para a ocorrência do “salto qualitativo”.
109

Nem tinham os seguidores desse método a ilusão de fazer as suas etapas sempre
iguais, ainda quando as sociedades a serem conquistadas fossem diferentes em seus usos e
costumes políticos, sociais, ou distintas as suas economias e as condições de vida da
maioria dos seus integrantes. Não; ao contrário, entre outras fontes que poderiam ser
citadas, no “Manuel sur le Marxisme - Léninisme”, editado pelo Instituto de Línguas
Estrangeiras, de Moscou, ainda na década de 70, encontramos a expressa observação sobre
o fato de que a marcha para a construção de uma sociedade socialista deveria seguir os
caminhos que fossem considerados mais adequados, conforme as características e
peculiaridades das sociedades a serem conquistadas. Assim, ainda mais especificamente,
assinalava: nas sociedades de arraigadas tradições parlamentares, os parlamentos deviam
ser usados como fontes da transformação desejada. Mas como estamos tentando apenas
descrever, relatar, não opinar acerca da propriedade, ou não, dos fatos descritos, um
exemplo mais concreto poderá esclarecer melhor a essência do método usado pelos
“parteiros da História”, eis que, como já vimos, a sua atividade não visava produzir um
resultado que, para eles, era inexorável, como conseqüência da operação das “forças
internas” da História, os “contrários” que o leitor já sabe o que significam. A “vanguarda”
atuava apenas para acelerar o “parto” em questão.

Vamos, porém, ao exemplo prometido: Quando foi instaurado em nosso país, o


“Estado Novo” sob a liderança do Sr. Getúlio Vargas, todos os partidos políticos foram
extintos, e os considerados de extrema direita ou esquerda, passaram a ser perseguidos pela
polícia política. O Sr. Luís Carlos Prestes, que a “vanguarda” costumava designar como
“Cavaleiro da Esperança”, foi encarcerado. Deposto Vargas, em conseqüência do final da
2a grande guerra com a derrota do Eixo, consta que uma das exigências de Stálin, feita
quando da realização da famosa Conferência de Ialta, consistiu em que os EUA se
comprometessem a restaurar a democracia, na área sob a sua influência, como era o caso
da América Latina. E a democracia a que se teria referido o ditador soviético, não era do
tipo “popular”, como vieram a ser chamadas várias das situadas sob a influência de
Moscou. Tratava-se da que a “vanguarda” designava como “democracia capitalista” ou
“democracia burguesa”. Realmente, tão logo o Sr. Prestes foi libertado do presídio em que
se encontrava, e a despeito de ter sido apregoado durante muito tempo pelos seus
seguidores, que a esposa dele, grávida, teria sido devolvida à Alemanha nazista, para um
destino que, evidentemente, seria doloroso e trágico, a despeito de tudo, os muros da
110

cidade, e possivelmente, não apenas do Rio, em que estivera encarcerado, mas em várias
outras do país, apareceram cobertos pelos seguintes dizeres: “Constituinte com Vargas”.

E os ardentes militantes da “vanguarda” eram os notórios autores da propaganda.


Sabe o leitor por que? Porque Vargas, como é sabido, a despeito de ditador, era um líder
popular de incontestável prestígio; e porque os comunistas desejavam em seu afã em
acelerar o “parto” a que fizemos referência, não desgostar a massa, conquistar as franquias
que as Constituições democráticas estabelecem, e isolar quanto possível “a burguesia” e os
“seus aliados de classe média”, que se haviam mostrado sempre em oposição à ditadura
populista do líder político gaúcho. De resto, não há registro de país em que, não estando a
“vanguarda” no poder e, ao contrário, nela esteja instalado um regime autoritário ou
ditatorial, em que a referida vanguarda não se bata, denodadamente, pela democracia. Pela
democracia, é claro, que é vista por eles, como uma etapa intermediária e muito útil, da
meta que, efetivamente, visam alcançar64. A observação não é nossa apenas mas, como
integra a lógica do método revolucionário de que estamos tratando, tem sido registrada por
numerosos autores. Entre eles, podemos citar o Sr. Jean François Revel, para quem as
democracias têm como que uma vocação suicida, ao garantirem aos seus inimigos mais
perigosos, todas as franquias de que eles necessitam para destruí-la.

E, ainda mais surpreendente, o Sr. Raymond Aron, um dos maiores nomes da


Ciência Política contemporânea, na penúltima obra que publicou, sob o título “Em Defesa
da Europa Decadente” (título que não exprime a sua concordância com a alegada
decadência que outros apontam), entretanto assevera em uma das primeiras páginas da
citada obra: “As democracias conduzem as sociedades para o socialismo marxista com a
mesma tranqüila inexorabilidade com que os rios conduzem as suas águas para o mar”.
Claro que o livro em questão foi escrito e publicado antes da queda do muro de Berlim. A
citação é feita para caracterizar a fria objetividade com que os adeptos do método
revolucionário de que estamos tratando manobram, sempre lançando mão do que lhes
pareça mais operacional, em termos de promover o engajamento da massa. A esta altura,
porém, o leitor já poderá estar se perguntando, e com toda a razão, como podem tão poucos
- eis que as “vanguardas” a que nos estamos referindo são quase sempre numericamente
inexpressivas - influir tanto e causar tantas preocupações, a ponto de políticos que não as
integram e, até, capitalistas que são vistos por elas como os “inimigos de classe” a serem
excluídos no futuro, cortejarem-nas, sempre que lhes é possível?
111

Neste ponto, ocorre-nos à memória, imagem que usamos em certa oportunidade em


que falávamos a um público jovem, respondendo a indagação de um dos presentes,
precisamente da natureza da que acabamos de registrar.
64. Grifos do Autor.

Naquela oportunidade, dissemos o seguinte: Diz a sabedoria popular que “se força e
tamanho fossem “documentos”, o elefante é que seria o dono do circo”. Na realidade,
porém, longe disso, o que se observa é que o pequenino domador, tão frágil diante do
elefante, estala o chicote e o enorme paquiderme, por exemplo, senta-se em um tamborete;
ou equilibra-se sobre as patas dianteiras, “plantando uma bananeira”. Enfim, dócil, pratica
todas as manobras mais ou menos ridículas que o domador deseja, para deleitar o público.
É que, no cérebro obnubilado do enorme animal, parece altamente vantajoso obedecer,
porque, na fase do seu treinamento, a toda obediência corresponde um torrão de açúcar; e a
toda recalcitrância, a ausência da guloseima, quando não uma chibatada. O elefante,
concluímos, representa o conjunto dos “alienados”; o domador, a “vanguarda” dos que
“sabem o que estão fazendo”. A imagem acima foi, naquela oportunidade, muito bem
recebida, embora restasse a dúvida sobre a quem pertence o chicote do domador e porque
pode ele utilizá-lo livremente. E é aqui que desejamos esclarecer mais um ponto apenas
mencionado no capítulo anterior. Referimo-nos ao que ali foi designado como “estratégia
de Gramsci”.

Antonio Gramsci foi um militante marxista italiano de gênio que, prisioneiro em


seu país, ao tempo da ditadura de Benito Mussolini, escreveu as famosas “Cartas do
Cárcere”, em que tece considerações acerca das circunstâncias e condições que, em 1917,
tornaram possível o sucesso da revolução bolchevique. Para Gramsci, a “sociedade
política”, composta pela aristocracia, pela oficialidade das forças armadas e por algumas
poucas e insuficientes organizações da sociedade civil, suas aliadas, representava na
Rússia, um sistema de forças muito frágil, incapaz de sustentar a autoridade no momento
de crise que se configurava, diante da pobreza da maioria do povo e das sucessivas derrotas
militares na frente ocidental, especialmente os grandes fracassos sofridos ante as tropas
prussianas nos lagos Mansurianos. O brio nacional ferido; a corte desprestigiada, os
quadros militares subalternos se insubordinando, o pretexto de uma mudança não tão
dramática quanto a que, realmente, se estava tramando, o surgimento do “habilíssimo”
112

Kerenski, tudo ensejou à minoria bolchevique o sucesso da “revolução de Outubro”, os


famosos “dez dias que abalaram o mundo”.
Na Europa ocidental, porém, ao tempo em que escreveu Gramsci, era opinião dele,
o quadro da realidade já era muito diferente do da Rússia czarista. Agora, a chamada
“sociedade civil” se robustecera extraordinariamente, pelo fortalecimento das instituições
que a compunham e, longe de hostilizar a “sociedade política” de seus países, no fundo era
dela aliada, estando disposta a sustenta-la, mesmo diante das mais graves crises que se
pudessem apresentar. As divergências, pois, entre as modernas “sociedades civis” e as
“sociedades políticas” respectivas, eram apenas, superficiais, em torno de disputas
menores, ressalvada, sempre, a ordem institucional, que a todos interessava. Assim, para
Antonio Gramsci, a “sociedade política” representava como que uma fortaleza central cuja
defesa era feita por numerosos fortins, constituídos pelas instituições da sociedade civil,
interessadas na incolumidade do forte que a todos importava defender. Como proceder,
então? Neste ponto, parece-nos oportuno esclarecer o sentido de mais uma expressão de
que já nos valemos anteriormente, consistente no que designamos como “centros de
irradiação de prestígio cultural”. São múltiplos esses “centros”.

Para citar alguns que nos parecem muito importantes, as colunas de crítica literária,
teatral, musical, no sentido de música popular ou erudita, o jornalismo político, de
imprensa escrita, televisada ou radiofônica, as cátedras universitárias, especialmente as
destinadas à formação de profissionais de imprensa e à formação de professores de nível
médio, as equipes de reportagem credenciadas nas Casas Legislativas, as colunas de crítica
no campo das artes plásticas, etc., etc. Trata-se de trabalho de infiltração que, como bem
compreende o leitor, com o correr do tempo, embora não utilizando massas consideráveis
de militantes, lança mão daqueles que Lénine designara como “mortos em férias”,
esclarecidos sobre as “verdadeiras forças e verdadeiros rumos da Historia”. Certos,
também, de que, desde que respeitados determinados limites, referentes aos interesses da
maioria dos proprietários dos veículos de mídia, estes poderiam ser utilizados pelos
infiltrados, ainda que não fossem deles os proprietários 65.

Aqui, talvez seja útil lembrar a imagem do elefante e do domador, há pouco


utilizada, e o, ao menos para nós, perigoso equívoco de anunciar-se a liberdade como um
ideal que se esgota em si mesmo, sem compromissos com qualquer referencial axiológico
que, longe de limitar-lhe o exercício, na verdade o enobrece, como procuramos
113

exemplificar com a massa de água que, só produzindo barulho e, em certos casos,


compensação estética, se for, não impedida de fluir, mas condicionada a fazê-lo em
determinados canais, pode acionar as turbinas que geram energia elétrica que ilumina, que
movimenta máquinas que produzem e ensejam empregos, e assim por diante. Na maneira
pela qual tão nobre exigência da natureza humana foi concebida por Locke e por Rousseau,
sem limites claros e sem objetivos de índole nitidamente conhecida, ela é o que mais
importa aos que, quando não estão no poder, exigem-na. Pois é ela que, ocupados por
infiltração, os “centros de irradiação de prestígio cultural”, transforma os infiltrados no
“domador” e, ainda por cima, por irrisão, lhes coloca nas mãos o chicote e os torrões de
açúcar com que fazem-se obedecidos pelo elefante, de cujo corpo são integrantes, tantas e
tantas vezes os proprietários dos veículos sem os quais o “domador” não teria nenhuma
possibilidade de influenciar.

É que, quando alguém, no domínio das artes, na imprensa, na ação parlamentar, na


direção dos veículos que lhes pagam os salários, ousa coibir-lhes a ação, funciona o chicote
representado pelos apodos de: radical, intolerante, conservador, antidemocrático,
reacionário. A princípio, supomos, tudo isso exigia um planejamento centralizado; já
agora, o sucesso estrondoso da manobra criou como que uma “cultura”, caracterizada pela
equivalência entre permissividade e espírito progressista, moderno, de vanguarda, que são
os torrões de açúcar à disposição do domador. Assim, fazem-se e desfazem-se reputações.
Assim, barram-se os caminhos de quantos, por quaisquer motivos, defendem valores que
não se encontram em coincidência com os desejados pelos iniciadores, dirigentes e
admiradores dos resultados da máquina que estamos descrevendo em suas linhas mais
significativas. Gramsci sabia de tudo isso. E sua arguta visão pode perceber que a “aliança”
entre a sociedade civil e a sociedade política dos nossos dias não permitiria a utilização da
manobra além dos limites capazes de pô-la em risco.

Nem mesmo, como já vimos, em situações de grave crise. Assim, o que ter-se-ia
que fazer era a adoção de estratégia consistente em utilizar, de tal maneira, os recursos
disponíveis que, sem necessidade de menção a projeto político-institucional alternativo, se
fosse cavando um fosso de tamanha profundidade entre os integrantes dos “fortins” da
sociedade civil e os seus dirigentes, entre as novas gerações e as mais antigas, que haveria
de separar os “fortins” da “fortaleza central”, pois a visão crítica dos detentores do
controle, em ambos os casos, impediria o exercício eficaz do poder de que eram detentores.
114

Lembram-se os leitores da canção popular que dizia” “não confie em ninguém que tenha
mais de trinta anos?” O que significa a sinonímia que se vai impondo entre “amor” e
“cópula”? O que é que tem sido designado como “contracultura”? Por que existe, ou
existiu, um “Centro Internacional de la Canción Protesta”, em Cuba?

De novo cabe lembrar, e o fazemos sem hipocrisia, que estamos relatando coisas,
cuja avaliação será feita pelos que venham a ler estas linhas. Para nós - e aí vai uma
opinião pessoal - o problema não está nos fatos que estamos relatando. Eles possivelmente
não existiriam, nem se falaria da decadência da civilização ocidental, não fora a laicização
crescente das sociedades ocidentais, que atingiu o seu apogeu com a vitória dos princípios,
possivelmente concebidos bem intencionadamente pelos seus autores, muito em especial,
como já dissemos e repetimos, J. J. Rousseau e John Locke. A revolução bolchevique de
1917, resultou do desdobramento, racionalizado e a nível de cosmovisão, de tendência que
vinha de muito antes, e que tentamos descrever em parte anterior deste livro, visando o
afastamento dos homens dos seus compromissos com a hipótese da existência de um Deus
Criador, diante do qual todos prestaremos contas um dia. Os adeptos do Materialismo
Dialético, aderiram à ideologia que, corajosa ou atrevidamente, racionalizou e afirmou de
maneira categórica a negação, que em muitos se exprime na duplicidade consistente em
não refutar explicitamente, mas “na prática”, proceder como quem ignora a hipótese citada.

E já houve quem dissesse que não há forma mais expressiva de negar, do que
ignorar, não levar em conta; atitude que, sobre parecer mais prudente, traz ainda a
vantagem dos “torrões de açúcar” a que foi feita referência anteriormente. Também foi
assinalada antes a diferença entre as duas revoluções, a americana e a francesa. E
mencionamos, na ocasião que, segundo pensamos, a diferença resultou do fato de, no
começo, os princípios oriundos do pensamento de Locke não terem conseguido sobrepujar
aqueles em que criam os primeiros cidadãos americanos, predominantemente puritanos.
Com o correr do tempo, porém, a má semente começou a dar os frutos que seriam de
esperar-se, e que no caso francês mostraram de pronto o seu amargor. Por isso, neste
instante, temos diante dos olhos despacho internacional cujo autor, citando alta autoridade
do governo de Cingapura, textualmente, assinala: “A sociedade americana está
desmoronando e se desintegrando. Nos últimos trinta anos houve um aumento de 560%
dos crimes violentos; de 419% de nascimentos ilegítimos; 300% de crianças que vivem
em lares com só um dos pais, e uma queda de 80 pontos nos testes de aptidão escolar”.
115

A esses impressionantes números, e como indício da promoção da contracultura a


que fizemos referência linhas acima, perguntaríamos de novo aos leitores de meia idade ou
da terceira idade: lembram, se de quando os jovens de tinta ou quarenta anos atrás se
referiam a algum filme “picante”, este era sempre francês ou, quando muito italiano, sendo
que o cinema italiano do pós-guerra enfatizava mais a temática social, dentro, já como
resultado de quanto vimos dizendo neste capítulo, da visão do Materialismo Histórico e da
luta de classes? Nos EUA não existia censura. Esta partia da própria sociedade, sobretudo
por pressão das chamadas “Ligas” ou “Comissões da Decência”. E hoje, como estão os
filmes americanos? Vejam: primeiro, o cinema francês, depois o americano. Observe o
leitor a cronologia e considere a hipótese, para nós convicção, de que a contracultura não é
o resultado de algum fenômeno cósmico inexorável, como parecem pensar os que dizem:
“hoje em dia é assim”. São “os novos tempos...” Está sendo assim, sem dúvida. Mas, como
tivemos oportunidade de afirmar em capítulo anterior, isso é uma verificação; não uma
explicação. E acrescentáramos, “hoje em dia está sendo assim, mas poderia ser diferente”.

Também parece-nos indispensável assinalar que, uma vez deflagrada a


contracultura, os que passam a alimentá-la não se constituem, apenas, do núcleo de que ela
resultou, quando se tratava de atuar dentro do que alguns têm designado como “fase
destrutiva” da sociedade a ser conquistada. Erigidos os modismos, nos “torrões de açúcar”
da imagem de que estamos lançando mão, o número de promotores, não engajados, da
contracultura, passa a superar, de muito, o dos que deram partida ao processo. E este torna-
se praticamente incontrolável, em sociedades em que todo o Direito é elaborado sem
compromisso com valores fixos. Observe o leitor se o que estamos registrando está, ou
não, ocorrendo em nossos dias e como, a despeito do desmoronamento do Muro de
Berlim, não ocorreu o colapso do que, em tal ou qual nível de adesão ou de participação,
teoricamente seria de esperar-se. Ao contrário, como demonstram os números relacionados
a aspectos alarmantes da sociedade americana, há pouco citados, a contracultura, ou o que
estamos designando como contracultura, continua ovante, em seu poderio cada vez maior.
A explicação desse fenômeno, aparentemente paradoxal, deixa de sê-lo, quando se levam
em conta duas concepções já utilizadas anteriormente: a “inércia histórica das idéias”, e a
prática identidade entre os que afirmam a existência exclusiva da Matéria, e tiram daí as
conseqüências a que tal afirmação conduz; e os que, simplesmente, desconsideram o
problema, por julgá-lo irrelevante.
116

Os dois, no fundo, representam as duas faces de uma mesma moeda. Não fora
assim, como explicar a larga utilização de veículos que pertencem aos segundos, por
agentes dos primeiros, que o fizeram na colossal escala que resultou na contracultura a que
nos estamos referindo? Para reforçar a afirmação, à primeira vista, difícil de entender e,
ainda mais, de aceitar, permitam-nos lançar mão de outro conceito, já por nós usado
anteriormente nesta obra e, ao longo de muitos anos, na tribuna, na imprensa e no livro: o
que designamos como “visão contábil”, nas transações que, em numerosos casos, podem
ser lucrativas para as partes diretamente envolvidas; mas que, vistas na que chamamos de
“dimensão histórica”, podem representar algo muito diferente. Foi o caso assinalado em
outra parte desta obra, em que, em nota de rodapé de um livro de autoria do assessor para
assuntos internacionais do ex-presidente Jimmy Carter, um especialista em relações leste-
oeste afirmou que, de 1917 a 1937, a maior parte dos recursos financeiros e da tecnologia
que serviram ao reequipamento do parque industrial soviético e do exército vermelho,
foram-lhes fornecidos pelo Ocidente. Claro, repitamos, que as empresas que forneceram os
referidos recursos, do ponto de vista contábil, devem ter realizado excelentes negócios; do
ponto de vista histórico, porém, o mundo viveu, até pouco tempo, o pesadelo de uma
hecatombe nuclear.*

Para citar um exemplo concreto, matéria recente distribuída por agência


internacional, deu-nos conta de que a viúva do deputado americano Mac Donald, morto no
avião da KAL por míssil disparado por avião de combate soviético, que derrubou aquele
aparelho de transporte de passageiros, protestou publicamente contra o que considerava
absurdo, afirmando que o míssil citado tivera a tecnologia para a sua fabricação, vendida
por fabricante americano de armas. Para este, o leitor entende claramente, na “visão
contábil”, ótimo negócio. Para a viúva do parlamentar morto, a visão já era outra; e a
loucura ou absurdo a que ela se referiu em seu protesto só não mostrou a sua verdadeira e
trágica dimensão porque o desmoronamento da União Soviética impediu o confronto entre
os aviões de combate daquela potência militar, e os da OTAN entre os quais, fatalmente,
estariam os da Força Aérea Americana.

De outra parte, parece oportuno repisar que não é intenção do autor, desmerecer,
em sentido menor, a posição de tais ou quais correntes de opinião; ainda menos, as pessoas
que a elas se filiam, por tais ou quais motivos. Não nos compete julgar. Mas parece-nos
117

indispensável, relatar e dizer o que pensamos quando e onde couber, para não nos
incorporarmos à legião que nos parece suficientemente numerosa, dos que, menos
informam, do que desinformam; dos que menos expõem, do que mascaram; dos que mais
se omitem do que cumprem o dever que as Sagradas Escrituras registram quando dizem:
“Não se acende uma lâmpada para ocultar a sua luz; mas para pô-la bem alta, de maneira a
que todos a vejam”. Assim, parece-nos que a liberdade de que tanto se fala, sem
comprometê-la com qualquer propósito que subordine o seu exercício, propósito externo à
tão celebrada “vontade geral”, que não podendo ser “a de todos”, deverá ser, ao menos, “a
da maioria”; e não podendo ser manifestada por esta diretamente, deverá sê-lo pelos seus
representantes, escolhidos como todos sabemos; tal liberdade é claramente filha do
Orgulho que a menciona como pretexto para funcionar como armadilha, cuja isca é a
satisfação dos impulsos da concupiscência, que busca justificar-se em nome do pretexto
liberdade a qual por isto mesmo, segundo a falácia a que nos estamos referindo, não deve
ter compromissos prévios e exteriores que possam disciplinar o que brota da natureza
decaída do homem.

Observem, por favor, os leitores, como todos, ou quase todos os “torrões de açúcar”
a que nos temos referido, ou são claramente referentes a costumes licenciosos ou, pelo
menos, à imperiosa necessidade de não criticá-los desfavoravelmente, nem às fontes de
onde parte a difusão dos mesmos, em nome, é claro, da citada liberdade...

Mas, nos dias em que estamos redigindo este trecho que está sob os olhos do leitor,
o noticiário internacional está sendo dominado pelo terrível atentado a um prédio do
governo federal americano, em Ocklahoma. O abalo foi tão grande que, aparentemente,
tornou-se impossível bloquear inteiramente a difusão de certos aspectos da realidade
americana, muito diferentes do que se poderia supor. E do que poderia ser imaginado pelos
que acreditam que as instituições ali vigentes, não apenas são irretocáveis, como seriam de
uso universal, benéficas para quaisquer sociedades, por mais diferentes que possam ser as
suas realidades e as suas necessidades. O exemplo do violento atentado mostra-nos que ele
pode ocorrer em um país do 1o Mundo, sob regime democrático ininterruptamente em
exercício há mais de duzentos anos. Como fica, então, o valor dos argumentos em favor
dos descalabros em que estamos vivendo, consistentes na afirmação de, que eles são
conseqüentes à “falta de exercício” do regime?
118

Também torna-se nestes dias, mais fácil entender a estrondosa vitória do Partido
Republicano que, hoje, detém a maioria nas duas Casas do Capitólio, maioria que estivera,
por quarenta anos, sob o domínio do Partido Democrata. Pelo que já ficou assinalado em
partes anteriores desta obra, o leitor entende que o Partido Republicano nos Estados
Unidos simboliza, mais que o Democrata, os valores sobre os quais foi construída a
grandeza da América e que correspondiam melhor aos ideais de seus fundadores e
primeiros cidadãos, que amavam a liberdade, mas não para transformá-la na licenciosidade
que acaba por acontecer, quando ela é entendida como ideal que se esgota em si mesmo.
Ideal nascido, como já repetimos tantas vezes, do Orgulho, tão característico do
Iluminismo, sobretudo francês, sendo de notar-se que a estátua da Liberdade, monumento
erigido àquele ideal a que acabamos de referir-nos foi oferecido aos EE.UU. exatamente
pela república francesa...

Nunca será demasiado repetir que o ideal de organizarem-se os homens sob a égide
de instituições que, o mais e o melhor possível, representem os anseios justos e as
aspirações legítimas daqueles que as referidas instituições irão jurisdicionar é, realmente,
insubstituível e, por isso, universal e permanente. Nele está, supomos, o espírito, a essência
do que deve ser entendido como democracia. Repare, porém, o leitor, que ao lançarmos
mão das expressões “anseios justos e aspirações legítimas”, estamos tornando evidente a
necessidade da existência de um referencial fixo, de conteúdo axiológico, ao qual deve
subordinar-se a legislação, de maneira a, o melhor possível, aproximar o Direito positivo,
da Justiça que, no fundo, ele deve exprimir. Em nossa cultura, o referencial fixo a que
acabamos de referir-nos, é o que provém das Escrituras que, escritas sob a inspiração do
Criador, não sendo em si mesmas toda a verdade, são o farol que enseja aos homens buscá-
la, a despeito da Queda e da ignorância que se introduziu em sua realidade, como
conseqüência da tentação, ensejada pelo orgulho, pela concupiscência. Os mesmos,
supomos, que continuavam a alimentar o caos, a violência, a injustiça que,
paradoxalmente, vêm aumentando a cada dia, a despeito dos avanços da Ciência e da
Tecnologia.

É que estas, como os frutos materiais que produzem, representando redução da


ignorância há pouco referida, na verdade reduzem-na em seu aspecto externo, deixando
intocado, e quem sabe, acrescentando novos véus, que dificultam a percepção da existência
da ignorância interna, ou espiritual que, assim, não se tem reduzido; quem sabe, por isso é
119

que se inscrevem nas Escrituras já tantas vezes mencionadas, as expressões: “supondo-se


sábios, tornaram-se estultos”. Ora, bem sabe o insignificante autor deste livro que palavras
e expressões, como "Escrituras inspiradas", "ignorância espiritual" e outras correlatas, são
objeto de subestimação pelos que integram as duas faces da mesma moeda, o
Materialismo, como já vimos, representadas pelos que negam explicitamente a existência
de Deus e de uma Sua lei, e pelos que, não ousando tanto, negam-na na prática, ao
considerar irrelevante essa questão. Os primeiros, porém, cuja expressão mais elaborada
foi a construída pelo marxismo-leninismo, exatamente pelo ateísmo, sua pedra angular, não
admitiam a existência de referencial que não estivesse contido na própria Matéria. De
qualquer maneira, porém, sentiram e expressaram a necessidade de algo que servisse ao
propósito de diferenciar a verdade do erro.

Para eles, de maneira coerente com a cosmovisão do Materialismo Dialético,


concebido por Marx e seu mais íntimo colaborador, Engels, o único critério de verdade era
a prática: o que, na prática, se mostrasse útil ao avanço, segundo supunham, inexorável, da
sociedade no rumo apontado pelas “leis internas” que a levariam à sociedade comunista do
futuro, leis, como vimos em trecho anterior desta obra, fundadas em uma dialética de
oposição e de luta, comprovaria a validade das idéias, teorias ou proposições sobre as quais
pairassem dúvidas. Não cabe aqui, supomos, mostrar a consistência de tal critério de
verdade, com relação ao conjunto do Materialismo Dialético e do Materialismo Histórico
em que ele se insere. O que importa é a verificação do reconhecimento da necessidade da
existência de um referencial fixo, garantidor da manutenção do rumo da humanidade, na
rota e para a consecução do fim que supunham haver identificado e que, ardentemente,
desejavam se realizasse. Aos que compõem o outro lado da moeda, abstendo-se de
examinar a questão da existência, ou não, da transcendência e, em termos da cultura a que
pertencemos, da existência da Revelação feita aos homens, sob a inspiração de Deus,
diríamos que, nela, registram-se as expressões: “Pelos frutos os conhecereis”.

Sem nenhuma irreverência, gostaríamos de indagar dos que, por julgarem-se


“práticos”, consideram irrelevantes questões da índole das que estamos submetendo à
consideração pela inteligência e pela consciência dos que nos leiam, se consideram bons os
frutos produzidos até agora por um anúncio de liberdade, sem menção à finalidade a que o
seu exercício deve destinar-se e sem, em conseqüência, o estabelecimento de contornos e
limites mais nítidos para o referido exercício, pois é a tal liberdade que se refere a bela
120

estátua oferecida pela República Francesa aos Estados Unidos, e que, enorme, se situa à
entrada do porto de Nova Iorque. Quanto aos frutos amargos que, desnecessariamente, tem
produzido, já foi feita referência anterior, inclusive no que se refere ao resultado das mais
recentes eleições Parlamentares daquele país, das quais saiu amplamente vitorioso o
partido que, nele, segundo pensamos, representa, ainda que de maneira pouco nítida ou
francamente confusa, ideais mais compatíveis com os que alicerçaram a sociedade
americana em seus primórdios. O partido que, durante quatro décadas, conseguira maioria
nas duas Casas do Congresso, simboliza melhor e afina mais com as tendências que
defluem da imprecisão do conceito de liberdade, sem definição quanto à finalidade do seu
exercício.

É tal indefinição que tem delegado a formulação de leis às conveniências de quem


legisla, tal como assinalara Cícero, milênios antes do suposto modernismo, da
contracultura cujos frutos todos conhecemos. Perguntamos então: não seria o caso de
repensar a realidade, inclusive a nossa realidade interior que, muito longe de
tranqüilizadora, revela a presença de boas e de más inclinações, nela introduzidas pelo
grande inimigo de quanto represente a verdade, a harmonia e a paz? O resultado de
semelhante introspecção, supomos, longe de representar algo fantasioso e arbitrário,
evidenciará a verdade da existência, no íntimo de cada um, sem exceção, da presença de
impulsos e de inclinações que algo, em nossa realidade, nos diz serem boas ou más.

Esse algo que distingue em nosso íntimo, entre o Bem e o Mal, é o resultado, na
visão religiosa, do chamado Pecado Original, ou Queda, ter introduzido as tendências que
conduzem à desarmonia e ao sofrimento, que o Criador não desejara em seu propósito
original, que Lúcifer perturbou, mas não conseguiu eliminar. Daí, segundo a mesma visão,
a natureza contraditória do homem, em cujo interior instalou-se, desde a Queda, a
permanente batalha entre o Bem e o Mal, batalha da qual, em última instância, são
projeções as que, no plano material, se configuram nos conflitos e violências de toda a
ordem, que se vêm prolongando ao longo da História. Daí, em passagem bem anterior
deste livro, termos assinalado a, digamos, superioridade, do pensamento de Aristóteles
sobre o de Platão, no sentido de que o estagirita afirmava a existência do que chamou
“forma”, correspondente à finalidade, ou propósito, existente em todo o Universo. Tal
forma não conseguiria expressar-se plenamente, por esbarrar na inércia da matéria. Daí, a
preferência do pensamento aristotélico, por S. Tomás de Aquino, para quem, à “forma”,
121

corresponderia a alma humana, em maior ou menor medida, apta a compreender a


finalidade presente em todos os seres, em todo o universo criado, pelo seu Criador. Nos
seres humanos, ainda que em diferentes medidas, tal finalidade ou propósito podiam ser
compreendidos, o que ensejava, no plano da Filosofia, o respaldo para a mensagem
religiosa do Cristianismo, a ligação entre a criação, em suas manifestações sensíveis, e o
Criador de todas as coisas, com todas as implicações e conseqüências que o leitor pode
conceber.

De tudo isso, a nossa opinião acerca do absurdo em que se constitui o anúncio de


uma liberdade como ideal que se esgota em si mesmo, sem qualquer preocupação
finalística, a carta sem destinatário e, até, sem conteúdo, a que já nos referimos,
possivelmente por mais de uma vez, em passagens anteriores desta obra. Assim colocado,
face o conflito que, permanentemente, todos abrigamos em nosso interior, ela haverá de
degradar-se em licenciosidade, como manifestamente se vem degradando, licenciosidade
que estimula a prática de todas as imprudências sugeridas pelo egoísmo, fonte de tantas
injustiças, de tantos ressentimentos e dos disparates brutais que resultam da natureza
decaída da humanidade, desde o primeiro casal que, pela via da desobediência ao Criador,
abrigou em seu seio e contaminou a sua descendência, o que lhes transmitiu aquele que, ao
rebelar-se contra Deus, assim se expressou, segundo o relato das Escrituras: “Non
serviam!“, “Não servirei!”.

No sentido religioso, a verdadeira liberdade, a que pacifica e traz felicidade, só é


possível quando, conhecida a finalidade para a qual fomos criados, conseguimos dominar
os déspotas dos impulsos instintivos correspondentes à nossa natureza decaída, colocando-
os ao serviço daquela finalidade. Essa, como assinalamos acima, a visão compatível com
os fundamentos da cultura a que pertencemos. É também aquela a que adere a nossa
consciência - o que certamente pesa pouco como argumento. Já não é assim, quando, sobre
a existência de um propósito, e sobre a suposta contradição que existiria entre Religião e
Ciência, que tem alimentado o Orgulho, e sustentando a laicização crescente que dele, ao
menos em certo sentido, vem resultando, pretendemos oferecer à consideração pela
inteligência e pela consciência dos que nos lerem, alguns aspectos da ciência moderna.
Tais aspectos parecem-nos - e os leitores julgarão se estamos, ou não, equivocados -
indicativos de que chegou a hora de evidenciar que, longe de se contradizerem, Religião e
122

Ciência, no momento, tendem a fundir-se, em um mesmo contexto, mais generoso e mais


amplo, do conhecimento. É o que começaremos a tentar, já no capítulo seguinte.

I.7 – A Ciência atual e a questão da cognoscibilidade da realidade

Parece fora de cogitação, qualquer dúvida sobre o fato de que, no domínio da


Filosofia, o problema dos mecanismos de aquisição do conhecimento da realidade, coloca-
se como que em uma posição central, dividindo-se, em função dela, em dois grandes
grupos as principais correntes do pensamento filosófico: as que se situam no campo do
Idealismo e as que pertencem ao domínio da visão materialista da realidade. Naturalmente
que, em cada um dos campos citados, existem diferenças, cuja exposição obviamente
exigiria extensão que, não apenas seria excessiva para os propósitos desta obra, como não
ajudaria muito no esclarecimento do seu escopo central. Basta, parece-nos - e que nos
desculpem os filósofos a simplificação que nos atreveremos a fazer - assinalar que, ao
menos em suas expressões mais radicais, a própria divisão a que acaba de ser feita
referência, indica a admissão, por muitos, de uma diferença essencial e irredutível, entre
mente e objetos sensorialmente perceptíveis, ou, em outra dimensão, entre Espírito e
Matéria.

Também parece fora de dúvida que, no campo do Materialismo, a expressão mais


elaborada foi a que se apresentou na feição dialética que lhe deram Marx e seu mais
próximo colaborador, Engels. Este último, referindo-se à teoria do Conhecimento,
expressamente considerou-a como “a grande questão fundamental de toda a Filosofia”. A
dicotomia fundamental entre espírito e matéria, que domina a visão da maioria não
implica, assinale-se desde logo, na divergência, em todos os seus pontos e aspectos, acerca
da teoria do Conhecimento por parte de integrantes dos dois grandes campos do
pensamento filosófico a que já foi feita menção. Assim é que Mac Fadden, autor já citado
anteriormente, e cuja tese de doutorado versou a filosofia do comunismo, teve a referida
tese considerada por Fulton Sheen, autor também por nós citado no correr desta obra, como
o melhor trabalho já realizado sobre aquela filosofia. A tese em questão, consumiu quatro
anos de estudos e esforços ao seu autor, sendo oportuno esclarecer que, ambos os autores
citados, respeitados eruditos católicos-romanos, filosoficamente situam-se no campo dos
123

que, em tal ou qual medida, revelam-se tomistas. Pois bem; textualmente, são de Mac
Fadden as seguintes afirmações: “Contra todas as formas de ceticismo e agnosticismo, o
marxismo afirma que a mente humana pode chegar ao conhecimento verdadeiro da índole
da realidade.

Tal atitude está em completa conformidade com o espírito da Escolástica. Além


disso, o marxista define o ato do conhecimento como “identidade de pensamento e ser”, o
que nos recorda a afirmação, tantas vezes repetida por S. Tomás: “a mente converte-se
naquilo que conhece”.

“O marxismo defende que a matéria e a mente são ativas; que a imagem, reflexo da
realidade objetiva, produz-se no cérebro, em virtude de uma experiência sensorial e que a
mente “trabalha” sobre essa imagem até chegar ao conhecimento pormenorizado do objeto.
O tomista concede tudo isto”.

“O marxismo condena o pragmatismo por destruir a base objetiva do conhecimento


e ser uma forma viciosa de idealismo. O tomista também o condena”.

“A doutrina do marxismo sobre o “caráter relativo do conhecimento”, é


inteiramente aceita pelo filósofo escolástico. Este sempre afirmou ser proporcionalmente
minúscula a parte do nosso conhecimento que representa a realidade objetiva na sua
totalidade e sem mistura de erro. O que significa ser muito reduzido o conhecimento
absoluto, eterno e imutável. A escolástica sempre proclamou esta doutrina e refere-se a ela
todas as vezes que fala do “caráter incompleto do conhecimento humano” - como se
contém na “Summa Contra Gentiles” e como se refere ao assunto J. Maritain, em “Os
graus do conhecimento”.
“Marxistas e escolásticos juntamente se insurgem contra o relativismo moderno. Os
seguidores do Aquinatense combatem denodadamente o relativismo, quando ensinam que
tem de existir uma base imutável da verdade e que aquilo que é verdadeiro será verdadeiro
para sempre”66.

E mais adiante: “Em geral, podemos afirmar que atualmente, há muito poucas
teorias do conhecimento tão vizinhas do tomismo, como a marxista”.
124

O mesmo autor, Mac Fadden, entretanto, textualmente assinala o que


transcrevemos a seguir: “Contudo, também há muitos aspectos da teoria do conhecimento
onde tomismo e marxismo não estão de acordo. E não será preciso dizer que se trata de
66. O significado que atribuímos à questão do conhecimento será melhor esclarecido quando da exposição de alguns aspectos da
aspectos
Ciênciaimportantes;
Moderna.(Nota do são pontos vitais para toda a Filosofia. O filósofo escolástico não
Autor).

pode admitir:
a) Que se suprima a distinção entre mente e matéria, isto é, que em última análise
toda a realidade seja material;

b) Que uma “mente” material possa chegar ao verdadeiro conhecimento da índole


da realidade, através dum processo de análise e síntese;

c) Que o conhecimento seja de caráter essencialmente ativo, quer dizer, que


necessariamente tenha de acabar na ação;

d) Que se negue o conhecimento contemplativo; e

e) Que o critério de verdade seja a prática objetiva.

“O estudo destas cinco falácias do marxismo mostra-nos que todas derivam de um


erro fundamental. Tal erro, por parte do marxismo, é não ter chegado a compreender que a
imaterialidade é a base de todo o conhecimento”.

Neste ponto, parece-nos oportuno sublinhar que, a própria existência de dois


campos, pretensamente distintos, entre o que se tem entendido por matéria e o que se tem
entendido como espírito, em outros termos, entre o que seria físico e o que pertenceria ao
domínio da metafísica; e, mais do que isso, a prevalência do físico, que, segundo
pensamos, começou a acentuar-se a partir do século XIV com o Nominalismo, prestigiadas
as conseqüências e resultados a que ele conduziu, nos campos da Ciência e da Tecnologia,
tudo isso, pelos motivos já vistos, servia aos interesses dos que não viam vantagem alguma
em manter aceso o prestígio da religião e, mesmo, da religiosidade, ainda quando não
referida a tal ou qual maneira de expressá-la. E foram tais e tantos os sucessos alcançados
nos campos citados, que a pouco e pouco se foi como que desvanecendo o ardor da fé, da
“certeza acerca do que não vemos”, substituída por um ceticismo crescente tal, que já no
125

século XVI, começaram a surgir os sinais da grande revolução, para nós representada pela
gradual secularização da sociedade.

O Iluminismo, a Enciclopédia, a Revolução Francesa de 89, a triunfante expressão


usada por Kant, cujos termos asseveraram ter a humanidade atingido, enfim, a maioridade,
já não necessitando de nada que não fosse produzido pela sua própria razão, tudo isso
acabaria desaguando, pouco mais de meio século depois, no famoso Manifesto Comunista,
de Marx e Engels, surgido em 1848, como expressão revolucionária decorrente do
Materialismo Histórico, por sua vez expressão, no domínio que lhe é próprio, da
Cosmovisão do Materialismo Dialético. De tudo isso, aliás já mencionado anteriormente,
em outros trechos desta obra, desejamos sublinhar, mais uma vez, o quanto é importante
levar em conta o sentido do que acima chamamos de “grande revolução”, representada pela
secularização crescente a que acabamos de referir-nos. E que, face aos estupendos e
valiosos resultados das conquistas da Ciência e da Tecnologia, é fácil entender como,
simultaneamente, se foi afirmando a convicção acerca da existência de uma diferença
irredutível, entre matéria e espírito. E de vez que as coisas espirituais não se mostravam
acessíveis à investigação experimental, igualmente se pode compreender que o que não
podia ser comprovado experimentalmente passava a ser olhado com ceticismo. Ocorre,
entretanto, que o que desejamos seja considerado pelo leitor não é a hipótese da volta a
uma atitude devocional, em tantos casos, expressa de maneira desfavoravelmente
criticável.

Apenas desejamos assinalar que a diferença irredutível acerca de matéria e espírito,


fundava-se, no domínio do pensamento, por duas noções já hoje, aparentemente,
insustentáveis: uma relativa ao entendimento do que seria material, ou concreto, ou
palpável, dominante até o princípio deste século que se vai aproximando do seu final;
outra, acerca da possibilidade do conhecimento sobre a matéria, cujos aspectos ainda
ignorados, seriam, ao menos em tese, conhecíveis, à medida em que prosseguissem as
investigações científicas e avançassem os progressos tecnológicos a serem colocados à sua
disposição. Hoje, à luz de concepções decorrentes, no domínio da ciência, dos avanços da
Física Quântica, estamos chegando a conclusões como as que transcreveremos adiante,
devidas a Jean Guitton, um membro da Academia Francesa, que por muitos é considerado
talvez o maior pensador cristão dos nossos dias, com base em reflexões e indagações
propostas à consideração de dois eminentes físicos, Igor e Grischka Bogdanov, acerca das
126

fronteiras da vanguarda do pensamento científico, sobre questões de magna importância.


Transcrevamos trecho que consta do “Prefácio”, ao teor dos diálogos que, a pedido dos
físicos acima citados, travou com eles.
Acrescente-se ainda que o ilustre membro da Academia Francesa, representa nome
do nível de Bergson, de Heidegger e de outros vultos do pensamento contemporâneo.
Vejamos o que, no momento, desejamos transcrever do referido “Prefácio”: “Cada ano traz
uma colheita de reflexões teóricas sobre estas linhas fronteiriças que balizam a nossa
realidade: o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. A teoria quântica como a
cosmologia fazem recuar sempre para mais longe os limites do saber, até roçarem o
enigma mais fundamental que o espírito humano enfrenta: a existência de um Ser
transcendente, simultaneamente causa e significação do grande universo.

“E afinal de contas, não encontramos na teoria científica a mesma coisa que na


crença religiosa? O próprio Deus não é, daqui para a frente, sensível, referenciável, quase
visível67, no fundo último do real que o físico descreve?”

Mais expressivas, ainda, as afirmações de J. Guitton, na “Advertência”, de sua


autoria, que precede os “Diálogos” propriamente ditos: “Com os últimos anos do milênio,
uma longa época termina: entramos, como cegos, num tempo metafísico. Ninguém ousa
afirmá-lo: fazemos sempre silêncio sobre o essencial, que é insuportável.

“Mas uma grande esperança se levanta para aqueles que pensam 68. E nós
desejamos fazer ver, nos nossos diálogos, que se aproxima o momento de uma
reconciliação fatal entre os sábios e os filósofos, entre a ciência e a fé. Vários mestres do
pensamento, animados por um espírito profético, tinham anunciado essa aurora: Bergson,
Teilhard de Chardin, Einstein, Broglie, e muitos outros.
“... O que eu quero mostrar com os irmãos Bogdanov apoiando-me sobre a parte
científica do seu saber, é que neste fim de milênio os novos progressos das ciências
permitem entrever uma aliança possível, uma convergência ainda obscura entre os saberes
físicos e o conhecimento teológico, entre a ciência e o mistério supremo.69”

Levando em conta as novas conquistas do pensamento científico, esperamos que se


tenha tornado mais compreensível o título que procuramos dar a este capítulo, no qual
usamos as expressões cognoscibilidade da realidade e não, cognoscibilidade do real. É que,
127

antes das noções que se vão impondo na Física Quântica, forçoso é admitir, usando
expressões de J. Guitton, que “em um universo, mistura de certezas e de idéias absolutas, a
ciência só se podia dirigir à matéria. Por esse caminho, ela levava mesmo a uma espécie de
“ateísmo virtual”: uma fronteira “natural” erguia-se entre Deus e a ciência, sem que
ninguém ousasse - ou mesmo imaginasse - pô-la em causa”. Nós, a despeito da nossa
insignificância, não seríamos tão categóricos quanto o ilustre Mestre. E alimentamos a
esperança de que o leitor, a esta altura, estará entendendo, cada vez mais claramente, a
importância que demos ao Nominalismo e às suas conseqüências. Entre elas, a sensação
enganosa da onipotência da ciência, posta ao serviço de uma razão correspondente à
maioridade do ser humano que, como um dia imaginou Kant, já não necessitaria de nada
que não fosse elaborado por ela... Hoje, segundo as conquistas da Física Quântica e das
concepções mais atuais da cosmologia, está se tornando forçoso reconhecer que há limites
físicos ao conhecimento e que a realidade, toda ela, não é apenas não conhecida ainda, pela
ciência, como não é conhecível.

E, mais, certas conclusões, repitamos ainda uma vez, alcançadas pela ciência,
mostram-se incompatíveis com todos os mecanismos lógicos conhecidos, exigindo como
que uma metalógica, capaz de atender a algo que poderia ser chamado como meta-
realismo. As noções de espaço, de tempo, de matéria, diferem radicalmente das que, até os
primeiros anos deste século, pareciam sólida e definitivamente estabelecidas, alimentando
ilusões, imprudências e orgulhos que, agora, revelam-se descabidos. Há, porém, dois
planos distintos da História, a que já nos temos referido tantas vezes, na imprensa, na
tribuna e no livro: um, decorrente da ação do homem, com base em sua natureza decaída;
outro, o da Providência, que encaminha o processo para o destino que Ela determinou, a
despeito da ação constante que a desobediência dos nossos primeiros pais permitiu se
introduzisse no que fora destinado à harmonia, à felicidade e à paz. Acreditamos, portanto,
que, a despeito de todas as dores, pelo caminho da ciência, começa a encontrar a
humanidade boas e consistentes razões para, abatendo o orgulho que durante tantos séculos
a tem iludido, rever o seu ceticismo, orgulho que, no final deste, começa a ser
desmascarado.

Ao leitor cabe, entretanto, avaliar se temos ou não razão no que acabamos de


afirmar; para tanto, continuaremos a expor as surpreendentes razões científicas, inclusive
as referentes à ordem que reina em fenômenos considerados casuais, desordenados,
128

aleatórios, algo semelhante à própria história dos homens, com os seus conflitos, as suas
brutalidades, as suas injustiças, mas de cujo conjunto, cada vez mais claramente, ao menos
segundo pensamos, já se pode entrever o plano providencial, de que um aspecto capital
está representado pela união, em irresistível convergência, de Ciência e Religião.
De fato, desejamos desde logo propor à consideração do leitor as surpreendentes
revelações de um cientista de vulto, o bioquímico Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de
Química, para quem a desordem não é um estado natural da matéria, mas um estágio que
precede a emergência de uma ordem mais elevada. Permita-nos o leitor, a despeito da
nossa insignificância, que a observação de Prigogine, longe de incompatível, parece ter
muito a ver com os dois planos da História - o resultante de atividades do homem decaído,
e o que resulta da Providência divina.

Os cientistas surpreendidos com as concepções de Prigogine teriam, pelo menos


alguns deles, tentado silenciar a sua voz perturbadora, tal o absurdo que a ela atribuíam.
Ocorre, porém, que o bioquímico a que nos estamos referindo, assentava as suas
concepções em dados experimentais, conhecidos pela designação de “instabilidade de
Bénard”. É bem conhecida a expressão “movimento browniano”, para designar a
movimentação desordenada das moléculas de um líquido, a “agitação térmica” que, sendo
aparentemente caótica, é empregada em tom humorístico para designar, exatamente, a
atividade frenética, mas palpavelmente desordenada e que, por isso mesmo, não conduz a
nenhum resultado prático. Pois bem; a “instabilidade de Bénard” consiste na verificação
por ele feita de que, se tomarmos uma dada porção de água e a aquecermos, as moléculas
de que ela se compõe, e que estariam em movimento desordenado, apenas acelerado pelo
aquecimento, agrupam-se na formação de conjuntos hexagonais, semelhantes aos que
aparecem em certos vitrais, revelando a existência de uma “ordem”, onde se supunha
reinar apenas o caos. Ora, poderá se perguntar o leitor, o que tem a ver a “simetria de
Bénard”, com questões como as que dizem respeito às diferenças entre idealismo e
realismo, entre materialismo e espiritualismo, entre a diferença, irredutível ou não, entre
espírito e matéria?

Seguramente o leitor já terá, inúmeras vezes, se defrontado com o dilema entre


criacionismo e evolucionismo. O homem teria sido, ou não, criado por Deus? Não
seríamos o resultado da evolução no reino animal? Em tal hipótese, está superado o
transformismo de Lammarck segundo o qual, por exemplo, as girafas teriam o pescoço
129

exageradamente comprido porque, em certo período da existência do nosso planeta, a


alimentação vegetal de que dependia a sua sobrevivência foi sendo, cada vez mais
dependente de folhas de plantas cada vez mais altas e assim, as girafas passaram a
esforçar-se por alcançá-las e, as mais aptas a fazê-lo, conseguiram sobreviver, com
pescoços cada vez mais longos. O leitor, inteligente, percebe que a hipótese em questão
supõe a afirmação de que caracteres adquiridos, transmitem-se por hereditariedade.
Infelizmente, os fatos desmentem o que acaba de ser enunciado, para não falar que os
carneiros, cujo alimento é a erva dos campos, são animais de pescoço curto e que, sabe-se,
são contemporâneos das girafas. Gritantes falhas do gênero, levaram à superação do
Transformismo acima visto, pela “seleção das espécies”, dependente da “struggle for life”,
a luta pela vida, que Herbert Spencer transpôs para o domínio da Sociologia, onde veio a
idéia a expressar-se, no Materialismo Histórico, pela malfadada “luta de classes”, que
tantas dores e tantos sofrimentos tem produzido no mundo.

O evolucionismo darwiniano, depende, para a sua comprovação científica, da


descoberta do famoso “elo perdido”, que continuava hoje tão perdido quanto estava, ainda
ao tempo de Erasmus Darwin e Conte de Buffon. Em que consiste o referido “elo”? Na
comprovação de que, de uma geração para a geração seguinte, uma fêmea de uma dada
espécie deu à luz um ser humano. Daí, sempre insistindo na visão evolucionista corrente -
para nós limitada e falsa, por ignorar os planos diferentes a que temos aludido
reiteradamente - a idéia de que a transformação das espécies seria devida às chamadas “
grandes mutações”, assinalada pelo botânico holandês De Vries. De fato, conhecem-se
anomalias genéticas grandes, as “grandes mutações” a que acabamos de referir-nos.
Nenhuma delas, porém, até agora, com sentido aperfeiçoador mas, ao contrário,
nitidamente deformador. Para citar um exemplo, é o caso do nascimento de um bezerro
com duas cabeças, ou cinco patas, de que, de quando em quando, faz alarde a imprensa.
Nada obstante, essas concepções limitadas do processo evolutivo o são, porque,
aparentemente, o entusiasmo que as anima decorre da suposta diferença irredutível entre
matéria e espírito, entre ciência e religião. Voltemos, portanto, à “instabilidade de Bénard”,
e às idéias de Prigogine.

É que, nada obstante a divulgação para o grande público se faça insistindo sempre
em algo de algum modo correspondente ao evolucionismo darwiniano, com imagens que,
ao insinuá-la verdadeira, como que excluem a hipótese criacionista - eis que esta, no
130

contexto da nossa cultura judaico-cristã, nos remete ao livro do Gênese - na verdade,


quando se trata da insistência em excluí-la na dimensão da cosmologia, costuma fazer-se
menção ao “caldo” de que teria resultado a Vida, esse mistério sobre o qual dizia Claude
Bernard, há cerca de um século, ser o que existe de mais obscuro, dentre quantos enigmas
a curiosidade do homem tenta decifrar. Para os que, previamente, excluem a hipótese da
criação, usando os métodos de investigação científica, tão úteis à redução do que, em
passagem anterior desta obra, denominamos do “ignorância externa”, precisamente por
referir-se, não à dimensão espiritual mas a, até há pouco tempo, admitida como
irreconciliável com ela, representada pela matéria, o referido “caldo” primitivo, compor-
se-ia dos elementos essenciais da célula viva, como o hidrogênio, o nitrogênio, o carbono,
o oxigênio e o fósforo.

Tais elementos, “ao acaso”, no transcorrer de milhões e milhões de anos, foram se


juntando nas partes de que se constituem as células, as mesmas que, com singular
desenvoltura, antes dos recentes avanços da Biologia Molecular, os excludentes da
hipótese criacionista, mencionavam, para, na sustentação da tese da “complexificação
crescente”, até o homem, usar expressões como as que se seguem: “complexificação a
partir da formação casual de organismos extremamente simples”, constituídos por uma ou
por poucas células. É que não sabiam ainda que o que supunham “extremamente simples”,
no caso de uma bactéria, fabrica, ou produz, a cada instante, milhares de produtos químicos
diferentes, enquanto uma célula integrante do organismo de um animal superior, fabrica,
também a cada instante, centenas de milhares daqueles produtos. Como se vê, algo que
será impróprio descrever como “extremamente simples”. Ainda hoje, Jean de Rostand
refere-se à Vida, como sendo “o problema dos problemas”. Autor citado anteriormente,
Jacques Monod, opta pelo acaso e a necessidade, fora de que, tudo seria “puro animismo”,
que ele condena, mas admite que a simples existência de seres vivos “aparece como um
verdadeiro desafio”.

Que nos perdoem os leitores, mas para que fique mais explícita a noção da extrema
complexidade que se evidencia no que se relaciona aos seres vivos, segundo a revela a
Biologia Molecular a qual, entretanto, não está em condições de definir ou de desvendar a
essência da Vida, seja-nos permitido oferecer a seguir, alguns dados desse ramo da ciência,
com o perdão dos especialistas, entre os quais não tem este humilde autor a pretensão de
ser incluído, por tais ou quais imprecisões que, de boa-fé, viermos a cometer. Assim,
131

diremos inicialmente, que além de numerosas outras substâncias, como metais, não metais,
açúcares ou oses, ácidos graxos, os seres vivos contêm duas grandes categorias de
substâncias químicas, denominadas ácidos nucléicos e proteínas. Os primeiros constituem-
se de moléculas gigantes, resultantes da associação de moléculas menores, denominadas
“nucleotídeos”, associadas umas às outras pelas extremidades, do que resulta a formação
de cadeias. Dentre os ácidos nucléicos, há um do qual, seguramente, o leitor sabe da
existência: o ácido desoxirribonucléico ou, abreviadamente, o famoso ADN. Em tais
ácidos, os “nucleotídeos” compõem-se de um açúcar, a desoxirribose, um fosfato e uma
dentre um grupo de quatro bases nitradas, que têm afinidade química, duas a duas.

Isto posto, diremos que a estrutura de um ADN, apresenta-se como o resultado da


ligação entre os fosfatos dos “nucleotídeos”, no sentido vertical. No sentido horizontal, a
ligação é feita por intermédio das bases que tenham afinidade. A estrutura sumariamente
descrita assemelha-se a uma espécie de escala na qual as marcas são constituídas por duas
bases nitrogenadas que tenham afinidade, já mencionadas. São possíveis quatro tipos
diferentes de marcas, cuja sucessão ou, melhor, cuja ordem de sucessão, constitui uma
espécie de linguagem codificada, escrita com um alfabeto de quatro letras. Em nosso
alfabeto, o número de letras é bem maior; mas da ordem em que elas sejam acopladas,
resultam as palavras de que se constitui a nossa linguagem escrita. Analogamente, a ordem
em que as dispõem o que chamamos de “marcas de uma escala”, caracteriza um dado ácido
nucléico, a sucessão de cujas “marcas” determina as propriedade químicas e fisiológicas
desse ácido. Em tal “linguagem codificada”, um grupo de três marcas corresponde a uma
“palavra”, na linguagem dos especialistas, um “codon”. Pois bem; dentro de tal
“linguagem”, “frases” compostas de várias “palavras”, constituem os famosos “genes”, os
quais podem grupar-se no que se denomina “operons”, que correspondem, digamos, aos
capítulos em nossa linguagem escrita.

Como os ADN são macromoléculas, contendo milhares de “letras”, constituem


“volumes”, ou livros, nos quais são descritas todas as operações químicas e fisiológicas
que a célula é capaz de realizar. Como se vê, nada “extremamente simples” como até tão
pouco tempo se supunha.

Os seres vivos, porém, como sabemos, constituem-se, além de outras substâncias,


de dois tipos fundamentais delas: os ácidos nucléicos, de que acabamos de descrever
132

alguns aspectos essenciais, e as proteínas, das quais procuraremos tratar em seguida. São
elas também constituídas por macromoléculas, compostas por ácidos aminados
pertencentes a vinte tipos diferentes, os quais, acoplados pelas extremidades, conferem às
proteínas o caráter de “codificadas”, segundo a ordem em que se acoplam os referidos
ácidos. São elas, portanto, uma espécie de “linguagem escrita”, com um “alfabeto” de vinte
letras. Cada uma, portanto, é dotada de uma especificidade definida por sua “linguagem
codificada” ou, simplesmente por seu “código”. Com as sumárias noções acerca dos ácidos
nucléicos e das proteínas, vejamos agora alguns dados sobre o “núcleo celular”. Sua
composição assemelha-se à da célula, e possuem um “suco nuclear”, revestido por
membrana, no qual estão presentes “organitos”, que são corpúsculos permanentes, além de
corpúsculos de funções ainda não perfeitamente esclarecidas. Quanto aos “organitos”, sua
composição e funções, salvo casos acidentais, são invariáveis, constituindo-se no material
genético, nos cromossomos de existência tão freqüentemente mencionada em nossos dias.

Acrescentemos agora que, cada cromossomo, é constituído por uma macromolécula


de ADN. Dentro do núcleo os cromossomos associam, se em pares de cromossomos quase
idênticos, sendo o número de pares, característico de cada espécie. Na nossa espécie, na
espécie humana, o número de pares é de 23, correspondendo a 46 cromossomos. Diríamos,
assim, que o número de pares sendo, em nossa espécie 23, 46 cromossomos são
encontrados em todas as células do indivíduo que se considere, à exceção de suas células
reprodutoras, que têm 23 cromossomos. A afirmação vale, tanto para as “células fêmeas”,
quanto para as “células macho”. A associação de uma “célula fêmea” a uma “célula
macho”, na formação do ovo, reconstitui o número 46 de cromossomos, característicos de
nossa espécie, diríamos que se N é o número de pares de dada espécie, 2N será o número
de cromossomos que a caracteriza.

Cabe agora tentar esclarecer o papel fisiológico dos cromossomos, cuja significação
na hereditariedade já de há muito era reconhecida, como de há muito já se conhecia que o
desenvolvimento do organismo, a partir do ovo, se dava por sucessivas divisões celulares.
Hoje, entretanto, conhecem-se mais detalhes. Sabe-se, por exemplo, que o papel da
“linguagem codificada” do ADN é o de dirigir e realizar as sínteses das proteínas, das
quais, umas vão constituir os diferentes tecidos, enquanto outras provocam, catalisam e
controlam, no sentido amplo do termo, todas as reações químicas da célula. Igualmente,
sabe-se hoje que cada um dos genes do núcleo tem por função (diríamos nós, missão),
133

realizar a síntese de uma proteína, na conformidade do seu próprio código. De fato, cada
“codon” de um gene seleciona, dentre todos os produtos armazenados na célula, o ácido
aminado que lhe corresponde, de modo a que o gene provoque o grupamento linear dos
ácidos aminados dentro da ordem que corresponde ao seu código, os quais parecem unir-se
espontaneamente, por intermédio de suas funções ácido e amina, em síntese que não é
igual às usadas pelos químicos em seus laboratórios.

Pedimos, agora, particular atenção aos leitores: um especialista em Informática


diria, do exposto, que cada gene dispõe da informação necessária à síntese de uma
proteína, e que o núcleo contém toda a informação necessária à construção do indivíduo
inteiro, a partir do ovo. Certos detalhes de mecanismo podem parecer contraditórios,
embora não o sejam. Assim, dissemos antes que a síntese das proteínas realiza-se no
citoplasma, por intermédio do que designamos como “organitos”. Na verdade, o ADN
produz um intermediário, que é uma espécie de réplica parcial dele mesmo. Tal réplica é
outro ácido nucléico, o ácido ribonucléico, abreviadamente conhecido como ARN, que tem
o mesmo código da fração de ADN de que se origina, ARN que funciona como um
“mensageiro”, cujo papel é ir ao citoplasma para ali provocar as sínteses correspondentes
ao seu “código”. Mas há outros fatos, tão, ou ainda mais surpreendentes, como a presença
dos chamados ARN de “transferência”, os quais fixam os ácidos aminados ao longo dos
“codons” do ADN e os transportam para os “codons” do ARN “mensageiro”. E há mais
ainda; existem “genes operadores”, que podem ser reguladores, repressores, controladores,
sincronizadores, os quais produzem proteínas específicas capazes de acionar, de reter, de
regular e de sincronizar a síntese das proteínas de estrutura, à medida em que se constituem
os tecidos do embrião, a partir do ovo.

Como se não bastasse, cumpre assinalar que todos os produtos químicos


necessários às operações vitais são sintetizados, em tempo útil, dentro das células, salvo os
ADN dos cromossomos do núcleo, porque eles preexistem no ovo e as únicas
transformações que sofrem, durante o desenvolvimento do embrião e de toda a vida do
indivíduo, são desdobramentos que, salvo acidentes, produzem dois cromossomos
idênticos ao cromossomo desdobrado. Registremos, pois, que a célula inicial pode dividir-
se - inclusive com o aparecimento de membranas necessárias a cada núcleo - seja em duas
células, seja em quatro do tipo destinado à reprodução, já mencionadas anteriormente. A
divisão celular constitui, portanto, o mecanismo fundamental da construção de cada
134

indivíduo a partir do ovo, do seu crescimento e da manutenção do adulto. De capital


importância, também, é sublinhar que, salvo casos acidentais e esporádicos, os
cromossomos são os únicos componentes químicos estáveis e invariantes do indivíduo,
tanto no que toca à composição, quanto no que se refere à estrutura. E a observação tem
muitíssimo a ver com a evolução, tanto à visão do darwinismo original, quanto na do
chamado neo-darwinismo, uma vez que fica claro que é aos cromossomos que se deve a
hereditariedade.

Daí, aliás, o falar-se tanto nos modernos testes de paternidade, baseados,


precisamente, na invariância dos referidos cromossomos. Os acidentes aleatórios do
maravilhoso e preciso mecanismo do qual nos atrevemos a dar um esboço, sem dúvida
incompleto - e que por isso, ou por outras razões, nos perdoem os especialistas em cujo rol,
inicialmente, confessamos não pertencer - são, por isso mesmo que aleatórios,
imprevisíveis, de vez que permanecem ignoradas as leis que regem porventura o seu
surgimento. Aplicam-se a tais incidentes as leis das probabilidades e cálculos realizados,
até agora demonstram que, por intermédio das mutações que eles representam, já não
diríamos para o surgimento de um novo indivíduo, mas de um novo órgão, significaria a
necessidade de um tempo muito superior ao que a ciência atribui à existência do planeta
em que vivemos. Parece oportuno registrar também, que o Transformismo de Lammarck,
sobre o qual já fizemos observação anterior, não se sustenta porque caracteres adquiridos
não se transferem hereditariamente: sem o desejo de fazer “blague”, mas de dar um
exemplo simples e muito claro, o filho de um halterofilista, de um praticante de
musculação, não nascerá mais musculoso porque o seu pai, ou seus pais, fizeram aumentar
o volume das suas musculaturas, adquirindo o aumento mencionado por intermédio de
exercícios praticados durante as suas vidas.

Tais exercícios em nada influem na composição e na estrutura dos cromossomos de


que a hereditariedade de fato depende.

Do que ficou dito até aqui, imaginamos útil extrair o seguinte resumo de
conclusões, ou observações, de magna importância:
a) a incrível complexidade das estruturas e operações vitais, maravilhosamente
ordenadas e sincronizadas, presentes nas células que o orgulho, despercebido da
135

ignorância em que se apoiava a respeito delas, costumava designá-las como


realidades “extremamente simples”;
b) o papel fundamental do ADN em todas as operações vitais;
c) os mecanismos químicos do papel fisiológico do ADN;
d) a invariância do ADN durante toda a vida do indivíduo, em virtude do processo
de “cópia fiel”, de que as mutações representam exceções de incidência
aleatória quanto à freqüência com que ocorrem, com as implicações já vistas
anteriormente;
e) a correlação entre a complexidade orgânica de um ser vivo e a do seu material
genético, correlação decorrente do fato de existir uma relação direta entre o
número de genes do material genético e o número de proteínas sintetizadas
dentro da célula, número que será tanto maior quanto maior seja o número de
tecidos e de órgãos do indivíduo considerado; e
f) um caráter adquirido por um indivíduo não modifica o núcleo de nenhuma
célula reprodutora, em conseqüência do que, não será transmitido
hereditariamente.

As novas técnicas da “engenharia genética”, fundam-se na possibilidade de alterar o


núcleo de células reprodutoras, o que, eventualmente conseguido, acarretará uma mutação,
não representando, portanto, a transmissão hereditária, de caráter adquirido pelo indivíduo.
Daí, já pode o leitor pressentir as formidáveis e perigosas implicações das pesquisas em
curso, e as suas correlações com outros campos da realidade humana, inclusive aqueles que
não integram os domínios da ciência e da tecnologia. Também pode compreender melhor a
razão dos fenômenos de rejeição de tecidos implantados em um organismo, oriundos de
outro organismo; bem como a maravilhosa singularidade de cada ser humano.

Por tais razões, não hesita este autor em confessar, por ser verdade, que sempre
resistiu à aceitação, como verdadeira, da hipótese de ser o homem o resultado de uma
evolução processada ao longo do tempo, evolução que trazia, no fundo, a negação da
hipótese criacionista, eis que tudo dependeria do acaso cego, ocorrido no plano da matéria,
ou o do que tantos supõem seja ela e sua diferença do que, sendo transcendente a ela, de
novo o orgulho supõe fantasioso e irreal. Hoje, admitimos a existência de dois planos
segundo os quais os acontecimentos ocorrem. Temos mencionado a existência deles, ao
menos segundo nossa presente maneira de ver as coisas e tentar entendê-las. E é aqui que
136

nos parece chegado o momento de voltar à “instabilidade de Bénard”, e às idéias


revolucionárias de Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química. Segundo elas, a desordem
não é um estado natural da matéria mas, ao contrário, um estágio, que precede a
emergência de uma ordem mais elevada o que, supomos, já foi por nós assinalado
anteriormente. É que o cientista em questão recusava-se a aceitar a hipótese de que o
universo e a vida haviam brotado, casualmente, de um caos primordial. Tal convicção,
como já mencionamos antes, assentava em algo experimental, a acima de novo assinalada
“instabilidade de Bénard”, o qual observara que as moléculas de um líquido, da água, por
exemplo, em aparente movimento desordenado e caótico, o conhecido “movimento
browniano”, à medida em que se eleva a temperatura da amostra esta, longe de mostrar, tão
somente o aumento de velocidade das moléculas, misteriosamente apresenta retículos
hexagonais em que elas se agrupam, de maneira surpreendente, à partir do aparente caos
que marcava a sua movimentação. E Prigogine passou então a questionar-se se o que
acontece com a dinâmica dos líquidos, segundo as observações de Bénard, não seria
válido, também, nos domínios da Química e da Biologia.

Segundo entende este insignificante autor, fica clara aí, a hipótese de dois planos, a
que nos temos referido reiteradamente, não apenas neste texto, como registramos tantas
vezes em veículos da mídia, bem como na tribuna.

Quanto foi visto em dados que buscamos fornecer acerca da Biologia Molecular, ao
menos para nós, sugere claramente a existência de algo capaz de ordenar, controlar,
realizar de modo atordoadoramente complexo e harmonioso, as substâncias químicas que
dão realidade e expressão material aos organismos vivos, em sua variedade enorme, em
sua especificidade e em sua singularidade. E isso para não falar nas características
interdependentes dos ecossistemas, de que a menos maravilhosa não é a homeostase, capaz
de recompô-los, caso não ultrapassados certos limites de agressão daquela
interdependência harmoniosa. Voltando ao pensamento de Prigogine, e o leitor, esperamos,
concordará com a oportunidade da menção à homeostase, e ao “feed-back” tão conhecido
nos domínios da cibernética, devemos admitir que ele supõe que as coisas que se
encontram à nossa volta comportam-se como sistemas abertos, trocando matéria, energia e
informação com o ambiente. Esses sistemas abertos mantêm-se em perpétua atividade, mas
variam regularmente ao longo do tempo, devendo ser considerados, ao menos à falta de
melhor expressão, como flutuantes. Tais flutuações podem tornar-se tão acentuadas, que a
137

harmonia com que funcionam, não pode suportá-las sem se transformar. Diante do limiar
representado pela capacidade do sistema de suportar as flutuações sem se transformar,
segundo Prigogine, duas hipóteses apresentam-se como alternativas: ou o sistema é
destruído, ou admite uma nova ordem interna, caracterizada por um nível superior de
organização. E aqui se apresenta a essência do pensamento revolucionário de Prigogine: a
Vida assenta sobre estruturas ativas de caráter dissipativo, cujo papel consiste,
precisamente, em dissipar o influxo de energia, de matéria e de informação capaz de
acarretar uma flutuação.

Como se vê, as concepções de Prigogine baseiam-se na idéia de sistemas abertos,


não valendo para eles o estabelecido pelo 2o princípio da Termodinâmica, o princípio de
Carnot, segundo o qual, em um sistema material isolado, ou fechado, toda transformação
espontânea acarreta um aumento da entropia do sistema o que vale dizer, que aumenta a
desordem nele reinante. Algo como se o universo ordenado que conhecemos, mantivesse
permanente luta contra a desordem crescente, luta de que seriam expressão as
transformações nele observadas. Seria o quadro de um universo em contínua degradação,
em oposição às concepções evolucionistas sustentadas dentro dele e, contra as quais, além
de razões menores, colocava-se, confessamos anteriormente, a voz deste humilde autor.
Ainda não havíamos percebido a existência dos dois planos dos acontecimentos, a nível
das transformações históricas, existência que, parece-nos, encontra respaldo na nova visão
que adquirimos dos mecanismos revelados pela Biologia Molecular e, fora mesmo dos
fenômenos ligados à vida, no cenário ainda mais amplo do universo em geral, pelas
concepções de Ilya Prigogine. Para ele, existe uma trama contínua que une o inerte.
Trata-se, como se pode ver, do ressurgimento de concepções evolucionistas
defendidas por correntes religiosas muito antigas originárias do Oriente, que as
sustentavam sem preocupação de fazê-lo com base científica e que agora, ao menos em
nossa visão, começam a encontrar respaldo científico, tanto nos fenômenos relacionados à
formação e crescimento dos organismos vivos como, agora, a partir principalmente das
experiências de Bénard, Prigogine explicita, maravilhado, talvez estupefato diante da
onipresença de uma ordem subjacente ao caos aparente da matéria, ao declarar: “O que é
espantoso é que cada molécula sabe o que farão outras moléculas ao mesmo tempo que ela,
e a distâncias macroscópicas. As nossas experiências mostram existência de comunicação
entre elas. Toda a gente aceita esta propriedade nos sistemas vivos, mas ela é, no mínimo,
inesperada nos sistemas inertes”.
138

Já vimos que uma célula viva depende, em sua estrutura, do acoplamento de vinte
ácidos aminados. O exercício das funções desses ácidos aminados, por sua vez, sabe-se
hoje, depende de cerca de dual mil enzimas especificas, que devem ordenar-se em uma
maneira própria. Cálculos probabilísticos deixam evidente que, ainda no transcorrer de
muitos bilhões de anos, a probabilidade de que apenas um milhar dessas enzimas,
ordenadas na seqüência adequada, se reunam para a formação de uma célula viva, é da
ordem de um para dez elevado a mil. Ou seja, como disse Francis Crick, descobridor do
ADN, o que lhe deu o Prêmio Nobel de Química, o surgimento da vida, à luz do que a
ciência até agora conhece a tal respeito, parece ter algo a ver com milagre.

Ainda na mesma linha de considerações, cita Jean Guitton, em seu livro “Deus e a
Ciência”, as palavras de um dos interlocutores do diálogo que manteve com dois físicos, no
presente caso Grischka Bogdanov, que assim se expressou: “Para que o agregado de
nucleotídeos levasse “por acaso” a uma molécula de ARN utilizável, teria sido necessário
que a natureza multiplicasse os ensaios às apalpadelas, pelo menos durante dez elevado a
quinze anos, ou seja, cem mil vezes mais tempo do que a idade admitida para o universo.
De tudo isso, e de mais que poderia ser acrescentado, atreve-se este escriba a julgar muito
clara a união, a convergência, entre as duas vias adotadas pela humanidade para a
dissipação das duas modalidades de ignorância em que foi mergulhada, desde a
desobediência e a Queda: a interna, por meio da religião; a externa, representada pela
ciência, que, pelos motivos expostos, ao menos segundo a nossa opinião, acentuou-se, a
partir do século XIV com o surgimento do Nominalismo, componente fundamental da
célebre “querela dos universais”. Dicotomia que, segundo pensamos, começa a apresentar
indícios claros da unificação, em um só caminho, cuja verdade, afinal, começa a impor-se,
neste final de século.

No correr desta obra, nem sempre pudemos dispor de uma parte de documentos e
livros, por motivos sobre os quais não tivemos nenhuma ingerência ou responsabilidade,
que integram a nossa biblioteca que nunca esteve reunida, completa, em um só local. Por
isso, nem sempre pudemos fazer citações textuais e acompanhadas, além da menção da
autoria, que sempre procuramos fazer, das relacionadas à editora, data da edição, local da
edição, etc. Entretanto, sobre as observações contidas nos diálogos mantidos por Jean
Guitton com os físicos Igor e Grischka Bogdanov, é-nos possível, daqui para diante,
139

sempre que pareçam oportunas, fazê-lo de maneira textual, fornecendo, além do título da
obra em que foram compendiados, a menção da editora, como é nosso dever, a Editorial
Notícias, Lisboa, feita de tradução do original francês, de 1991. É que a referida tradução,
cujo título completo, que antes registráramos de memória, como “Deus e a Ciência”, na
verdade acrescenta ainda, (para um meta-realismo), de vez que o título da edição francesa,
de Grasset e Frasquelle, é “Dieu et la science (vers le metaréalisme)”. A citação que segue,
portanto, é textual. Vejamos como se expressou Jean Guitton: ...”Que existe, então, para
além da sua substância sólida? Antes de dar a palavra à ciência de hoje, quero falar de dois
grandes pensadores que, cada um à sua maneira, responderam a esta questão: o primeiro
chamava-se Bergson.

“Num belo dia de Maio de 1921, decidi ir à Academia de Ciências Morais e


Políticas. Aí, pela primeira vez, encontrei (ou antes, contemplei de longe, no claro, escuro
de uma sala que cheirava a madeira velha e a cera) o grande Bergson. Desse primeiro
encontro, restam-me hoje duas coisas: um desenho do seu rosto de que eu rabisquei à
pressa um perfil; para além da imagem, a impressão indelével, profunda, do seu
pensamento. Nesse dia, verifiquei que ele tinha uma opinião puramente espiritual da
Matéria. Para melhor a compreender, temos que recordar em 1912 a um jesuíta, o padre
Tinquédec.

“As considerações expostas no meu ensaio "Matière et Memoire", fazem tocar com
um dedo, espero-o, a realidade do espírito. De tudo aquilo, destaca-se naturalmente a idéia
de um Deus criador e livre gerador, simultaneamente, da matéria e da vida”.
“Como teria ele chegado a uma tal certeza? Muito simplesmente apoiando-se na
idéia de que, na origem do universo, há um impulso de pura consciência, uma ascensão
que, num instante, se interrompeu e “caiu”. Foi essa queda, essa “recaída” da consciência
divina que engendrou a matéria, tal como nós a conhecemos. Nada de espantoso, portanto,
que essa matéria tenha uma memória “espiritual”, ligada às suas origens.

“Agora, algumas palavras sobre uma segunda personagem que, também ela, contou
muito na minha vida: o padre Teilhard de Chardin. Ele tinha sido companheiro do meu tio
Joseph que, desde sempre, me falou dele. Acabei por encontrá-lo um dia, em 1928, no
decurso de um retiro. Ele estava todo inteiro nessa primeira aparição, marcado por aquela
gravidade que nunca o abandonou. Disse-se muito, escreveu-se muito sobre esse grande
140

pensador; mas o essencial de sua filosofia exprime-se menos (como sem razão se pensa) na
visão que ele tinha da evolução biológica do que na idéia muito pessoal que ele tinha da
matéria. Essa idéia impôs-se-lhe bruscamente, quando tinha sete anos. Um belo dia, ele
tinha afagado com a sua mão de criança a relha de um arado; de repente, ia perceber o que
era o Ser: qualquer coisa de duro, de puro e de palpável. Mas sobretudo, no momento em
que os seus pequenos dedos pousaram sobre o aço liso e frio da ferramenta, sua mãe pôs-
se-lhe a falar de Jesus Cristo. Então, nessa criança, as duas extremidades do Ser, a matéria
e o espírito, esses dois pólos que freqüentemente opomos, juntaram-se para sempre ” 70.

O trecho transcrito, em nosso entendimento, se não exprime o que, exatamente,


sobre o assunto, escreveria este autor, entretanto, parece-nos, exprime, claramente o fato de
que em data distante, já anteviam pensadores da estatura de Bergson, de Teilhard de
Chardin e do próprio Jean Guitton, sobre a convergência, linhas acima mencionada, dos
dois caminhos aparentemente distintos, percorrendo os quais buscam os homens dissipar as
duas espécies de ignorância que resultaram do pecado original: os caminhos da religião e o
da ciência que, pensamos, dissemos e vamos repeti-lo uma vez mais, tendem a unir-se, a
fundir-se em uma, só grande e majestosa realidade.

O pensador que estamos citando, em outro trecho da sua obra, assinala... “Essa
nova teoria parece-me desembocar numa abordagem verdadeira do real: o fundo das
coisas, o substrato último não é material, mas sim abstrato: uma idéia pura cuja silhueta só
é compreendida indiretamente através de um ato matemático.

“A este respeito, faço notar que a ciência rectriz, aquela que nos faz penetrar nos
segredos do cosmos, não é tanto a Física, mas a Matemática, isto é visível no destino de
dois sábios ilustres que, um e outro, cruzaram a minha vida por diversas vezes: os dois
irmãos Broglie. O mais velho, o duque Maurice, era antes de mais, físico; mas o seu jovem
irmão Louis, matemático de formação, fez mais descobertas frente ao seu quadro negro
que Maurice no seu laboratório. Por que? Provavelmente porque o universo esconde um
segredo de elegância abstrata, um segredo no qual a materialidade pouco representa”.

Nós reconhecemos que os conceitos de natureza científica já estão ocupando uma


extensão consideravelmente grande, cuja leitura não é das mais fáceis para os que nos
estejam concedendo generosamente a sua atenção, mas não tenham tido formação - e
141

ninguém tem a obrigação de possuí-la - nos campos a que aqueles conceitos se referem.
Desculpem-nos, portanto. É que a magnitude do assunto é tamanha que não pudemos
evitar a sua exposição - sempre com a ressalva sobre o óbvio, relativa à nossa convicção
sobre nossas limitações pessoais. Além dela, insistiremos mais uma vez em que, sobre as
matérias expostas, a decisão sobre o que elas representam em conteúdo de verdade, cabe
aos leitores, à consideração de cujas inteligências e consciências as remetemos.

De qualquer maneira, a despeito da extensão até aqui dedicada a dados de natureza


científica, alguns outros nos parecem indispensáveis, para uma compreensão mais
completa acerca da convergência, cada vez mais clara, entre espírito e matéria, entre
religião e ciência. Quando, em partes anteriores desta obra, nos dedicamos a mostrar uma
razão fundamental da preferência dada por S. Tomás de Aquino, ao pensamento de
Aristóteles sobre o de Platão, assinalamos o fato do primeiro admitir em todos os seres a
presença de uma "forma", cuja explicitação crescente seria a base da hierarquização entre
eles, cujo patamar mais alto caberia ao homem. Sem desejar voltar a detalhes já
mencionados naquela oportunidade, lembraremos apenas a circunstância da existência de
um propósito, idéia que não é compatível com a defendida, como já mencionado, por
Jacques Monod, para quem todo o universo conhecido seria o resultado do acaso e da
necessidade. Diremos agora que para o físico inglês David Bohm, o que pode parecer
aleatório e casual, na verdade é conseqüência da nossa incapacidade de apreender a
presença de uma ordem de grau muitíssimo mais elevado. Para ilustrar o que queremos
dizer, mencionemos a questão, que os físicos conhecem perfeitamente, das chamadas
“franjas de interferência”. Como podem elas ser obtidas? Intercalando-se uma placa dotada
de duas fendas paralelas entre uma fonte luminosa e uma chapa fotográfica. A fonte
luminosa, por sê-lo, permite enviar fótons em direção à placa. Considerado cada fóton
isoladamente, não há como prever qual das duas fendas será por ele atravessada, antes de
alcançar a chapa fotográfica.

A opção, por uma ou por outra, parecerá inteiramente aleatória, devida ao acaso.
Entretanto, depois do bombardeio com um número suficientemente grande de fótons, a
figura observada na chapa fotográfica nada tem de aleatória, mas corresponde às citadas
“franjas de interferência”, em tais termos, perfeitamente previsíveis em sua configuração.
O que parecia casual, na verdade obedecia a uma ordem subjacente que, ao menos à
primeira vista, não parecia existir. Acaso? O que será, realmente, o acaso, senão uma
142

incapacidade transitória para perceber uma ordem superior, que criou e mantém todo o
universo?

Como pode, esperamos, ver o leitor, estamos tentando oferecer-lhe à consideração,


algo de tão grande importância que nos atreveremos a expor ainda alguns aspectos,
geralmente não divulgados em escala adequada, colhidos pela própria investigação
científica, sobretudo a partir do início deste século que vai se aproximando do final em
meio a claros, claríssimos, sinais de desagregação e de ruína. Os que se locupletam delas,
ou julgam locupletar-se, ao menos em parte são responsáveis pelo desconhecimento da
maioria acerca de circunstâncias que, difundidas e objeto de análise e reflexão, quem sabe
produziriam situação diferente, barrando os caminhos do orgulho impenitente que, ele
próprio tantas vezes ignorando certas coisas, não hesita em tripudiar sobre o
desconhecimento alheio. Assim, não contentes em afirmar uma diferença irredutível entre
matéria palpável, perceptível pelos sentidos materiais, e transcendência, ainda insistem em
difundir que a primeira é a única de fato existente, sendo tudo quanto possa ser classificado
como metafísico, apenas fantasia que as pessoas, realmente “objetivas”, não devem
considerar, a ponto de perder seu tempo com ela.

Nada obstante, ainda hoje, as pessoas que freqüentaram os cursos de grau médio, e
mesmo as de meia idade que tenham sido instruídas a nível do que hoje se denomina de 3o
grau, excetuadas as que se especializaram ou se formaram em cursos em que muito
acentuadamente foram atribuídas grandes cargas horárias ao estudo das propriedades da
matéria, em sua maioria, estamos certos, imaginam que, se realmente o que sugere o étimo
da palavra átomo (aquilo que não pode ser dividido), não corresponde à realidade, tal
como supunham filósofos da escola jônica, como Demócrito e Leucipo, imaginam
existirem apenas três partículas subatômicas, prótons, nêutrons e elétrons, os dois
primeiros constituindo os núcleos dos átomos, em torno dos quais girariam os elétrons. Na
verdade, hoje sabe-se que coisas menores que os átomos não são três apenas, mas centenas,
cujo número não pára de crescer. E mais surpreendente ainda para a maioria das pessoas
não especializadas, será atentarem para o fato que chegamos a mencionar muitas páginas
atrás, denominando-o “complementaridade”, segundo o qual os fenômenos elementares
devem ser considerados como algo que é, simultaneamente, corpúsculo e onda.
143

Lembramo-nos bem de quando, ainda muito jovem, chamou-nos a atenção um


artigo publicado em uma revista científica inglesa, em que um dos maiores vultos da Física
do nosso século, Erwin Schrödinger, afirmava justamente isto: que os elétrons deviam ser
concebidos como algo, simultaneamente, partícula e onda. A natureza simultânea de duas
concepções distintas, pareceu-nos indicativa de uma realidade fugidia, cujo caráter de
corpúsculo e de onda, haveria de depender do gênero de observação a que fosse submetida.
Pois bem, ainda hoje, tantos anos passados e tantas surpresas acrescentadas, sobretudo pela
chamada Física Quântica, e ainda persistem tantas “certezas inabaláveis”, na verdade
outras tantas imprudências. E não o dizemos com intenção pejorativa, mas pesarosos, pelo
custo que tantas delas têm trazido ao nosso mundo, criado, segundo pensamos, para a
harmonia, a felicidade e a paz. Realmente, até o surgimento da mencionada Física
Quântica, não se cogitava da existência de limites além dos quais o conhecimento humano
não pode avançar. Tais limites indicam, repitamo-lo, não domínios ainda não conhecidos,
mas domínios insuscetíveis de virem a sê-lo.

Um deles é o “quantum de ação”, de pequenês inimaginável, uma vez que


representado por fração em que o numerador é expresso por alguns dígitos, enquanto o
denominador é a trigésima quarta potência de dez. Esse valor inconcebivelmente pequeno,
expresso em joules-por-segundo, representa a menor ação mecânica concebível. Ela marca
o limite extremo da divisibilidade da radiação, o que vale dizer, o limite extremo de toda a
divisibilidade. Entretanto, tal valor ínfimo não é igual a zero. O que haverá para além dele?
No estágio atual da ciência é algo que, em seu domínio, parece inatingível para sempre.
Por outro lado, é muito provável que o leitor já tenha ouvido falar, como hipótese
explicativa da origem do universo que a ciência assegura estar em contínua expansão, da
“Grande Explosão”, o “Big-Bang” inicial, explicativo da expansão a que acabamos de nos
referir. A Terra, o planeta em que habitamos, possivelmente o Éden a que se referem as
Escrituras, tem sua idade cientificamente avaliada em algo como quatro bilhões e meio de
anos. Outra fronteira do conhecimento científico, cumpre mencionar neste ponto, está
representada pela chamada “barreira de Planck”, a fração de um segundo dividido por dez
elevado à quadragésima terceira potência de dez.

Ou seja, um período de tempo em que a unidade aparece precedida de mais de


quarenta zeros. Entretanto, não se trata do tempo zero, em que nada existiria. Pois, na
diferença infinitesimal entre zero e a fração inimaginavelmente pequena de segundo
144

referida acima, estaria concentrado tudo quanto hoje existe, ou sabemos existir, todos os
astros, todas as galáxias, todos os sóis, todas as plantas, todas as flores, todos os animais,
todas as plumagens, todas as simetrias das asas de todas as borboletas, todo o equilíbrio de
todos os ecossistemas, a homeostase de todos eles, os seres humanos, tudo, tudo, sugerindo
uma origem vertiginosamente potente, para a qual o tempo comumente conhecido, e que a
própria Física clássica incumbiu-se de evidenciar como algo dependente do referencial em
que foi medido, abalando a noção da simultaneidade de acontecimentos, de ocorrências
aferidas em referenciais que se movem, uns em relação aos outros, tudo isso teria
dependido do acaso? Por tais razões, talvez, é que o físico John Wheeler, apud J. Guitton,
op. cit., teria expressado a sua impressão acerca do que estaria por detrás, o que existiria
antes da “barreira de Planck”, nos seguintes termos: “Tudo o que nós conhecemos encontra
a sua origem num oceano infinito de energia, que tem a aparência do nada”.

Que significa, porém, ter a aparência do nada? Existe o nada? Assim, atrevemo-nos
a dizer que nada, aí, exprime apenas impotência diante daquilo para o que os instrumentos
de investigação, e os mecanismos lógicos aceitos até agora não têm aptidão; por isso,
também, é que ousamos dizer que estamos nos aproximando da convergência inexorável,
entre os caminhos interno e externo que os homens, como que tocados pela saudade da
harmonia que um dia conheceram, buscam reencontrá-la, trilhando, para dissipar os dois
tipos de ignorância que neles foi introduzida pela desobediência, duas vias: a interna, ou
espiritual, e a externa, relacionada às coisas do Criador de todas elas.

Este livro, o leitor bem o sabe, não tem a pretensão de transformar-se em um


tratado de índole científica. Nem seu autor a presunção de ser proprietário de verdades que
ele aceita como tais, pretendendo apenas expô-las para que sejam avaliadas pelas
inteligências dos que venham a lê-lo. Com o surgimento, no início do século, como vimos,
da Física Quântica, já representando algo novo em relação às idéias da teoria da
Relatividade, foi apenas nos meados dele que começaram a surgir os esforços baseados na
convicção de que a descrição completa do que chamamos matéria, implicava na fusão da
Física relativista com a Física Quântica, no que vem sendo chamado de “teoria quântica
dos campos”. E por que teriam surgido essa novas concepções? Pelo simples prazer de
complicar a descrição dos atributos da matéria, suas características, propriedades e
qualidades? Claro que não; tal como este autor não se vem detendo em assuntos que
reconhece complexos, pelo simples prazer de fazê-lo. Mencionamos anteriormente que as
145

chamadas “partículas elementares”, sobre não serem tão poucas como a maioria dos
homens comuns continua a supor, imaginando que sejam apenas três, ou pouco mais,
tivemos oportunidade de dizer que, a esta altura, contam-se por algumas centenas, que,
entretanto, não compõem “átomos” razoavelmente compactos, mas coisas muitíssimo
distantes, umas das outras, os “átomos”, por sua vez extremamente distantes entre si,
constituintes dos objetos sólidos, como nos parecem, e que os nossos sentidos percebem
como tais.

A rigor, trata-se, no caso da referida percepção, de um problema de escala, de vez


que o que percebemos compacto, palpável, visível, em outra escala, na realidade representa
algo tão vazio quanto, digamos, os espaços siderais, muitíssimo maiores do que os corpos
celestes, em tal sentido, extremamente dispersos, de cuja presença nos dá conta a
Astronomia. Além disso, já o dissemos, nas interações elementares, algo pode ser uma
coisa, e outra bem diferente, simultaneamente. O terreno supostamente seguro da matéria,
na verdade não o é tanto, como anteriormente se supunha. A existência simultânea de duas
coisas diferentes, a “complementaridade”, também já mencionada, e que não se compadece
com as exigências da lógica, exigindo uma metalógica, deve-se, segundo admitem os
cientistas, ao fato de que uma partícula não é conhecida por ela mesma, mas apenas por
intermédio dos efeitos que produz, de acordo, pensamos, com os meios usados na tentativa
de observá-la, e da interpretação, dependente dos nossos esquemas intelectuais. Hoje, de
quanto foi dito até aqui, a própria noção de “partícula”, como algo pequenino mas
correspondente à noção do que “vale a pena ser investigado” por ser, supostamente, algo
do que imaginavam caracterizador da matéria, já não se mostra sustentável. Cada vez mais,
o “palpável”, quando se busca a realidade última da matéria, torna-se impalpável,
imaterial.

As últimas parcelas da “realidade”, tal como entendida até tão recentemente,


aparece como algo cuja percepção representa, não “coisas”, mas interações entre o que,
não sendo “coisas”, por intermédio das referidas “interações”, produzem determinados
efeitos fugazes, por meio dos quais chegamos a saber que existem. O conjunto de tais
efeitos é o que se denomina “campo”. Assim, os objetos que nossos sentidos apreendem
parecem ser resultado de um conjunto de “campos”, como o eletromagnético, o
gravitacional, o protônico, o eletrônico 71. O que, em sentido corrente, constitui a realidade
do ambiente em que vivemos, na verdade parece ser o resultado da contínua interação entre
146

“campos” aos quais não se pode atribuir nenhuma substância. Coloca-se, então, segundo
entendemos, uma grande questão: bem no fundo, como acabamos de ver, não há “coisas”,
mas efeitos perceptíveis de interações entre campos que não têm substância. Entretanto,
aqueles efeitos perceptíveis, em nossa escala produzem as coisas com que lidamos, com
suas formas, as suas qualidades, as suas propriedades. Coisas aparentemente estáveis,
inertes, estáticas, que, entretanto, resultam de um incessante número de interações entre
campos, que produzem efeitos apreensíveis também como partículas em fantástico
turbilhonar, que em relação às suas próprias dimensões, estão extremamente distanciadas
umas das outras.

O que fará com que desse aparente caos resulte, por exemplo, a serena e palpável
(para nós), existência de uma flor, com a sua beleza e o seu aroma, reprodutíveis em outras
de sua mesma espécie, a qual se perpetua em virtude da interação dual entre estame e
pistilo, em uma espécie de dialética, não de oposição e de luta, mas de cooperação, uma
dialética que de fato pode ser descrita como de dar e receber? Será o acaso que produz tudo
isso, e o faz em caráter repetitivo? A nós parece que, ao contrário, é mais inteligível a
suposição da existência de algo que subjaz ao caos aparentemente existente, uma ordem
superior, que nossa insuficiência de seres contingentes, ao não percebê-la, rotula como
acaso. Sem nenhuma intenção pedante, asseguramos ao leitor que outras, muitas outras
considerações, e cada vez mais abstratas e perturbadoras, poderiam ser acrescentadas como
as que conduzem ao conceito de simetria perfeita que teria existida atrás da “barreira de
Planck”, antes do momento da grande explosão, do “Big-Bang” que teria marcado o
surgimento do universo em expansão em que vivemos; simetria primordial, de caráter
absoluto, que segundo a idéia do “Big-Bang”, como instante inicial, começou a manifestar-
se por intermédio dos chamados “glúons”, que evoluíam quatro a quatro, seriam
destituídos de massa, sendo todos rigorosamente semelhantes, exprimindo, assim, o que os
físicos designam como simetria.

Qual será, entretanto, o sentido de atribuir-se substância, no sentido corrente, à


simetria a exprimir-se, no início, nos glúons destituídos de massa? Parece-nos, portanto
que o que já foi dito, talvez até com demasiada extensão, já é bastante para que se possa
perceber o que, no fundo, desejamos realçar: nos dias atuais, não podendo a Ciência provar
a existência de um Deus criador de todas as coisas, de uma Sua lei, de uma Sua ordem, de
uma finalidade, de um propósito, para toda a criação, como que já alcançou uma linha
147

fronteiriça em que começa a impor-se a realidade da existência inexorável da


convergência, a que já nos temos referido por mais de uma vez, entre Ciência e Religião,
entre o físico e o metafísico. E quanto o radicalismo gerador de convicções inarredáveis,
fundadas em terreno movediço, tem prejudicado a busca da verdade e, em termos atuais,
tentado perturbar a Simetria Primordial, a Sabedoria e o Amor primordiais, de cujo Amor
somos, os seres humanos, o objeto principal, no universo de que ele é a fonte que o criou e
o sustém. Esta a nossa opinião. A do leitor, entretanto, nem é necessário dize-lo, dependerá
da análise pela sua inteligência e pela sua consciência, às quais estamos destinando esta
obra.

Perdoem-nos a pretensão de que, nada obstante a extensão, que pareceu-nos


indispensável à compreensão de assuntos tão graves e importantes, pudemos fazê-lo
evitando, quanto possível, a menção de números e expressões matemáticas, a não ser o
valor numérico de duas ou três das fronteiras do mundo físico. Encerrando, diríamos que,
hoje, matéria e energia, admitidos como intercambiáveis, desde os primórdios da
Relatividade restrita, devem ceder, no que tange à interpretação do universo, lugar ao que
parece mais importante e majestosamente presente, traduzível, talvez pela expressão
“esquemas de informação” o que, na limitação semântica que resulta da nossa
contingência, insinua, claramente, a presença, a um só tempo, aterradoramente grande e
indescritivelmente consoladora de um pensamento, de uma Mente Original, que criou o
universo com um propósito, que nos conhece a cada um de nós, seus filhos, objetos do
amoroso impulso que O levou a criar-nos. Acaso? Já vimos o que, ao menos para nós
significa esse rótulo72.
Agora, correndo o risco da impropriedade e impertinência do que iremos registrar,
queremos referir-nos ao saudoso mestre por cujas mãos iniciamos a nossa atividade de
professor universitário, professor Werner Gustav Krauledat, alemão de ascendência
finlandesa, que se transferiu para o Brasil ainda adolescente, adotando a cidadania
brasileira, que passou a ser a sua verdadeira pátria, protestante de denominação batista,
formado em Medicina e em Química, exerceu com zelo exemplar as suas atividades
docentes, na qualidade de catedrático, por concurso, tendo a tese de sua livre docência,
conquistada anteriormente, a formulação de uma nova Tabela Periódica dos elementos,
baseada, não no chamado “número atômico” mas na noção de “elétron diferenciador”,
sendo dispostos os elementos segundo os orbitais em que os referidos elétrons se situavam.
Homem metódico e extremamente estudioso, dedicando-se aos livros, toda as noites, até o
148

começo da madrugada - e isso já quando em idade avançada e sem degraus a subir na sua
carreira - chamava-nos a atenção o fato de, em termos de medicina, ser apreciador da
homeopatia objeto, àquele tempo, de muitas restrições e de não poucas suspeitas acerca de
sua validade. O autor deste livro não é medico, nem pode alimentar a pretensão acerca de
discussão a ser sustentada por quem tenha conhecimentos especializados para fazê-lo.

Estamos mencionando o assunto porque nós mesmos ficávamos estupefatos diante


do mestre que, sendo formado em medicina e em química, não podia ignorar o fato, para
citar um único exemplo, e não dos mais eloqüentes, de o remédio de Sulphur (enxofre), da
30a dinamização, mesmo na chamada escala decimal, já não poder conter absolutamente
nada de enxofre. É que, para nós, existia algo como o “átomo-grama” daquele elemento, e
que valia 32g. Na escala decimal, à primeira dinamização corresponde a concentração de
um grama da substância medicamentosa, em um volume de 10 cm3 do remédio. A 2a
dinamização já seria realizada partindo de um cm3 da solução anterior e diluindo para l0
cm3, ou l0 ml (a diferença entre o centímetro cúbico e o mililitro é insignificante para os
propósitos do que estamos expondo); a 3a dinamização já será feita sobre um cm3 da
anterior, depois de diluída para dez. E assim, sucessivamente, até à trigésima dinamização,
na escala decimal. Fosse na centesimal, seria tudo isso, partindo-se de um ml para cem, na
primeira, de um ml da primeira, para cem, para a obtenção da segunda, e assim por diante.

Mesmo adotando a escala de concentrações maiores, a massa presumível ou


melhor, calculável, da substância medicamentosa já será menor do que a que era atribuída
ao elétron. Ou seja: a substância química enxofre, de há muito deixara de estar presente.
Nada obstante, assegurava o professor Werner, a experiência comprova a eficácia do
remédio, quando aplicado adequadamente. É que, em nossa ignorância, raciocinávamos
com partículas dotadas de substância, por detrás do que situava-se a distinção, hoje
inaceitável, nos termos vistos, entre o físico e o metafísico. Estávamos nós ainda longe das
noções de campos, de interações entre eles, de simetria, e de tudo quanto, anteriormente
nos esforçamos por submeter à apreciação dos que venham a ler-nos. As linhas acima são
um relato factual: não, repitamo-lo, uma apologia de tal ou qual escola terapêutica, para o
que faltam-nos os requisitos indispensáveis. Requisitos relativos a uma formação médica
que não possuímos. De qualquer maneira, fica mencionada uma correlação acessível à
compreensão do leigo e do não iniciado nos domínios da Física, entre muito do que ficou
dito até aqui sobre aspectos revolucionários das realmente avançadas e modernas
149

concepções da investigação científica, apontando, parece-nos, para o surgimento, em


termos filosóficos, de um meta-realismo e de uma metalógica.

Ao mesmo tempo, supomos, fica também bastante clara, ao menos para nós, a
inconveniência, já mencionada, de radicalismos e de intolerância, de suspeições e de
preconceitos fundados em pressupostos que se esboroam, tudo indicando a presença de
influência perturbadora, estranha à harmonia existente, na linguagem da Física atual, no
que Era, para além da “barreira de Planck”, e no Que existiam todas as coisas. Influência
que perturba, dificulta, mas não pode impedir, supomos, o propósito que se exprime, na
linguagem bíblica, assim: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o
Verbo era Deus”.

Assim, damos por encerrada a I Parte desta obra, dedicada ao que acreditamos
sejam as causas profundas, verdadeiramente importantes, dos sofrimentos e do aparente
caos reinantes neste final de século. A identificação dessas causas, e os esforços por
erradicá-las, é que poderão contribuir para o estabelecimento de uma paz verdadeira entre
os homens. Os aspectos a que, comumente, se atribui tanta importância, geralmente ligados
a atividades de pessoas, de facções, de grupos de pressão, todos, ou quase todos, movidos
por motivações ligadas ao poder, à sua conquista e ao seu usufruto, podem ser causas
imediatas, apenas aparentes, dos problemas e dos sofrimentos a que foi feita menção. As
causas mediatas e profundas que as acarretam não estão naquelas pessoas, facções ou
grupos, na maioria das vezes ensandecidos pela ambição, sob o acicate de apetites
desaçaimados. O universo de harmonia, equilíbrio e beleza, não casuais, mas contidos já
no que Era, para além da “barreira de Planck”, não teria sofrido e continua sofrendo a
interferência do que, em linguagem bíblica é caracterizado como “o pai da mentira”, no
qual não existe nada de bom? O leitor julgará, não nós que não nos consideramos,
conscientes da nossa imperfeição, donos da verdade, que à consciência do leitor cabe
identificar. Atrevemo-nos, apenas, a sublinhar mais uma vez, que a disposição
preconceituosa, a presunção de suficiência fundada em conceitos que, quem sabe,
mereceriam ser reexaminados, são véus que, longe de ajudarem, tentam abafar a voz da
consciência. Ouvi-la, parece-nos, é mais compatível com o livre arbítrio com que o Criador
nos dotou de maneira irrevogável.
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INTERVALO ENTRE AS 1 a e 2a PARTES

Já no próprio título deste livro, estão claramente enunciadas as duas etapas em que
ele seria dividido essencialmente: “Os Sofrimentos e o Caos Reinantes Neste Final de
Século” - (Suas verdadeiras causas e a restauração, possível, da Justiça e da Paz). Assim
sendo, cumprir-nos-ia, dada como encerrada a 1a Parte, com o final dos 7 capítulos em que
ela foi desdobrada, iniciar a fase seguinte, destinada à exposição de idéias concernentes à
restauração, que julgamos possível, da Justiça e da Paz. Pareceu-nos, entretanto,
necessária, a intercalação deste breve “Intervalo”, para destacar alguns pontos que nos
parecem, além de essenciais, capazes de facilitar ao leitor a compreensão do significado e
da contribuição em que desejamos este livro venha a constituir-se, para a compreensão da
realidade desnecessariamente conflitual e geradora de sofrimentos que, como um vendaval
funesto, vem vitimando a humanidade, ainda que de diferentes maneiras, extensões ou
gravidades. Supomos, por exemplo, ilusória a noção de que os sofrimentos a que acabamos
de referir-nos, estejam presentes apenas no chamado 3o Mundo, assim classificado por
constituir-se de povos e regiões de carência, de pobreza ou de miséria. Na verdade, fora
assim, a verdade, tão singela, como responder à pergunta: foram os povos do 3o Mundo e
as suas lideranças, responsáveis pelos morticínios das duas Grandes Guerras?

Estão no 3o Mundo as sociedades que mais fazem uso de drogas? Foram elas que se
incumbiram da difusão dos costumes “fáceis”, da promiscuidade sexual e das taras e
desvios sexuais? Foi delas que se originou o chamado “crime organizado”? Foi delas que
brotou a idéia de que o único e indispensável motor da História era a luta de classes? Foi
nelas que surgiu a idéia, hoje consagrada, de celebrar o Trabalho a 1o de Maio, data de
sangrentos conflitos de rua, ocorridos em importante cidade dos EUA, como conseqüência
do espírito de oposição, inimizade e rancor que, necessariamente, deveriam existir entre
patrões e empregados, para que fosse realizada justiça nas relações de trabalho? Patrões e
empregados, tanto uns quanto outros, alimentando desconfianças recíprocas, envenenados,
ambos, por aquela visão inspirada no ressentimento, entre participantes do mesmo
processo produtivo.

Foi nas áreas do 3o Mundo que foram concebidas e fabricadas as armas mais
mortíferas de que se tem memória? Foi nelas que surgiu e prosperou a idéia de
151

“desenvolvimento”, como algo sinônimo de crescimento econômico a qualquer custo,


inclusive o do brutal desrespeito aos ecossistemas, para muito além dos limites em que se
mantém a eficácia da homeostase? Foi nelas, especialmente em suas áreas mais pobres,
que se originou a idéia de torná-las livres ou independentes, mas, na prática, apenas para
atribuir-lhes os encargos que cabiam às antigas metrópoles (estamos nos referindo às áreas
até bem pouco, colônias) metrópoles que não ignoravam a pobreza de recursos humanos
capacitados das colônias que libertavam, nem que, praticamente na generalidade dos casos,
os respectivos territórios eram habitados por populações de culturas tribais diferentes, por
vezes pertencentes a etnias diferentes, usando diferentes línguas ou dialetos, e
freqüentemente hostis entre si? Territórios que tinham sido demarcados pela cobiça dos
colonizadores, sem levar em conta diferenças do tipo assinalado? E que agora, com os
recursos locais eventualmente valiosos economicamente, sob o controle dos mesmos que
os exploravam antes, ou, em alguns casos, arruinados pela incapacidade local de fazê-lo
adequadamente, tornaram-se, na “visão contábil” a que já fizemos referência, valiosos,
levada em conta a diminuição das despesas públicas, anteriormente a seu encargo?

Se as populações, por tal modo “libertadas”, pudessem antever os quadros


dantescos de inenarrável sofrimento que, de vez em quando, a mídia eletrônica nos mostra,
em rápidos e raros momentos, não teriam sido mais prudentes em relação a lideranças
locais e aos que, tantas vezes espontaneamente, os “libertavam”, a partir das metrópoles?

De nossa parte, e já o registramos por mais de uma vez em páginas anteriores,


achamos que, felizmente, existem dois planos bem diferentes da História: um, resultante da
natureza decaída do homem, induzida pelo “Pai da Mentira”, no qual nada existe de bom.
É o plano marcado pelo ódio, e pelos conflitos e sofrimentos que ele gera, de vez que a
fonte de que tais conflitos e sofrimentos resultam, é a que tem e teve, “desde o princípio”,
o propósito de rebelar-se contra Aquilo que, além da “Barreira de Planck”, deu origem às
maravilhas de harmonia que a ciência começa a tocar. E cujo poder prevalecerá, de vez que
a natureza original do homem, Sua obra mais perfeita, objeto de Seu amor infinito, não foi,
nem poderia ter sido, destruída. Vem sendo, apenas, perturbada, seduzida, tornada cega e
surda, ante o clamor da nossa natureza corpórea, que brada pela voz dos instintos açulados,
cuja significação profunda não escapa à percepção do que, ainda quando incapaz de resistir
ao mal, sabe distingui-lo do bem. Por isso temos repetido tantas vezes que o que o homem
faz, depende do que ele pensa e sente. Se ele está impotente diante do mal, deixa-se levar
152

por ele, que se projeta nos males que mencionamos. Ocorre, porém, que, hoje, já não pode
ser aceita de maneira incontrovertida, a escravatura, como ocorria em civilizações
passadas, mesmo nos períodos do seu maior esplendor.
E se, hoje, as antigas lideranças, formais ou de fato, das antigas metrópoles, não
têm nada a oferecer em efetivo socorro dos nossos irmãos que gemem, além de
recomendar que tenham menos filhos, ou que deixem de ter filhos, o plano da Providência
segue o seu caminho, varrendo da consciência de todos a possibilidade da aceitação do
“direito” que teriam alguns povos de submeter outros, ao seu domínio. Pelo menos as
tentativas em tal sentido já não podem ser feitas de maneira explícita com que o faziam o
barão Marschall von Bilberstein e Sir Edward Fry, principais porta-vozes das grandes
potências, na famosa Conferência de Haia encontrando, já então, quem se opusesse à sua
tese, na pessoa do grande Rui Barbosa que, representando o Brasil, impediu, ou contribuiu
para que não se tornasse vitoriosa a corrente que pretendia negar a igualdade de direitos
entre as nações mais fracas e as mais fortes.

A prevalência da Força sobre o Direito, significava o oposto da desejável


prevalência do Direito sobre a Força, no campo das relações internacionais. Bem mais
tarde, com outras alegações e vestindo roupagem diferente, ressurgiria, como tentou o
nazismo, na forma do “lebensraum”, “espaço vital”, que seria a justificativa para a
anexação, pela força, se necessário, de territórios sob a jurisdição de outras soberanias. Nos
dias atuais, embora muitos não o percebam, passou a exercitar-se por intermédio da própria
Organização das Nações Unidas que, na defesa do que pareça conveniente ou adequado ao
grupo de apenas cinco Estados que detêm o chamado “direito de veto”, “direito” que é
privilégio exclusivo do pequenino grupo, integrante do tão falado Conselho de Segurança
da ONU, em caráter permanente e sem qualquer possibilidade prevista de rotatividade.
Qualquer voto, dentro do reduzido Conselho de Segurança, ou mesmo todos os votos dele
e da própria Assembléia Geral, serão completamente invalidados, bastando para tanto que
um único membro dos que detêm o mencionado “direito de veto”, o exercite.

E, acrescente-se, não representam os cinco Estados privilegiados uma dada


homogeneidade de interesses ou de filosofias que, por acaso pudesse, se não justificar, pelo
menos explicar a sua existência, como a de uma corrente vitoriosa de pensamento acerca
da concepção sobre quais devem ser as finalidades da atividade do homem, das sociedades
em que vivem e das normas de convívio internacional entre os diferentes Estados. Ao
153

contrário, dele fizeram, e continuam a fazer parte os Estados mais fortes que, em comum o
que têm é o seu poderio. Até bem pouco, ilustrando o que acabamos de dizer, gozavam do
estranho privilégio, os EUA, a Inglaterra, a França, a União Soviética e China Vermelha.
É o mal, que sabendo-se inevitavelmente derrotado, estertora e se agita.
Entendemos, entretanto, que já não pode fazê-lo, senão mascarando a sua verdadeira face
por detrás de pretextos que, tão freqüentemente insinceros e hipócritas, através mesmo da
insinceridade e da hipocrisia com que busca proceder, revela, ao mesmo tempo, que o seu
aparentemente imbatível poder, de fato representa o campo perdedor, e a existência dos
dois planos a que temos feito menção reiteradamente: o que resulta da natureza decaída do
homem, e o providencial que, sutil mas cada vez mais claramente, se vai impondo aos
olhos de quem queira ver. Por exemplo, os que pretendem executar uma política
discriminatória, que mal consegue esconder a cupidez insaciável, sua verdadeira fonte, em
termos de realização prática, têm que usar pretextos que nada têm a ver com aquela fonte.
Falam, assim, de integração econômica e de aproximação entre os povos que, caso fosse
tão poderoso o que está, de fato, derrotado, não teriam necessidade de alegar.

Ao fazê-lo, em seu plano, o que pode, supõem, aplacar as exigências do inspirador


do caos, vão conformando o curso da História ao projeto original de Quem, ao menos
segundo nossa opinião, a conduz. No passado, antes da vinda de Jesus Cristo e da difusão
da Boa Nova de que foi portador, a imposição da força não necessitava de disfarces,
justificativas ou, melhor dizendo, pretensas justificativas: exercia-se sem rebuços, de
maneira direta e brutal. Para usar exemplo de fácil percepção, os gladiadores ao
penetrarem nas arenas em que, para divertir as multidões, sabiam que, vencidos, poderiam
morrer, faziam-no por lhes parecer um risco aceitável. E o déspota que, de sua tribuna,
mostrava o polegar para baixo, decretando a morte do vencido, por ter sido vencido,
geralmente buscava e conseguia o aplauso da massa que se comprimia nas arquibancadas.
Hoje, o leitor bem o sabe, tais cenas seriam possíveis? Para nós, a grande questão sobre
quem vai ser o vencedor no grande drama da história humana depois da Queda, já está
claramente posta diante dos nossos olhos; o grande problema é saber-se como vai
explicitar-se a sua vitória, cada vez mais próxima, sobretudo diante da convergência,
dramaticamente esclarecedora, entre ciência e religião, os dois caminhos em que, tateando,
tem caminhado a humanidade a partir da Queda.
154

Claro que, neste momento da nossa exposição, os leitores cuja benevolência lhes
tenha permitido acompanhar-nos até aqui, sabem que estamos submetendo à consideração
das suas inteligências e consciências o que, nós supomos, seja a verdade. E haverão de
lembrar-se igualmente, de que, sempre que o fizéssemos, haveríamos, de assinalá-lo, como
o estamos fazendo neste instante. Quanto à convergência das duas vias segundo as quais
buscam os homens dissipar a dupla ignorância neles introduzida desde a desobediência a
que foram levados os nossos primeiros ancestrais, por aquele que rebelou-se revelando a
índole da motivação da sua rebeldia no brado que as Escrituras lhe atribuem, “Não
servirei!“, em capítulo anterior da l.º parte tentamos evidenciá-la à luz de alguns aspectos
da Ciência, surgidos já na segunda metade deste século, com a chamada teoria quântica dos
campos. Parece-nos oportuno, neste instante, oferecer à consideração dos leitores, ao
menos dois, dentre numerosos exemplos, já agora, não no domínio da ciência, sobre a
mesma convergência. Os exemplos em causa foram tirados dos escritos inspirados, ao
menos para os que crêem, por Deus, por intermédio do Espírito Santo. Hão de lembrar-se
os leitores atentos, dos dados registrados sobre os avanços da Biologia Molecular, sobre o
ADN e o seu significado, sobre a hereditariedade e os cromossomos, e sobre a
impossibilidade de admitir-se que, em tal terreno, tudo teria acontecido “por acaso”.

Vejamos agora o que nos diz o salmo 138, em seus versículos 13 a 16: “Fostes vós
que plasmastes as entranhas do meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe .

Sêde bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso,

Pelas vossas obras tão extraordinárias,

Conheceis até o fundo a minha alma.

Nada da minha substância vos é oculto,

Quando fui formado ocultamente,

Quando fui tecido nas entranhas subterrâneos” 73.


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Considerando que o texto acima foi escrito dezenas de séculos antes das recentes
conquistas da Biologia Molecular, não parece ter algo a ver com o que esta última nos
ensina em nossos dias sobre ADN, cromossomas, hereditariedade?

Por outro lado, vimos também como está se tornando patente que o que tem a
aparência de casual, aleatório, na verdade exprime aspecto de uma ordem de nível mais
73. Grifos do Autor.
alto do que aquele que podemos alcançar; por isso, parece-nos casual o que, em realidade,
não o é. Expusemos à consideração pela inteligência do leitor as idéias de Ilya Prigogine,
como as chamadas “franjas de interferência”, que surgem regularmente, de fótons que,
individualmente considerados, comportam-se de modo, aparentemente, aleatório.
Mencionamos o conceito de complementaridade, observável nas interações elementares,
quando impõem-se noções como a de que o que conhecemos como elétron, por exemplo,
deve ser concebido como algo que, simultaneamente, representa duas coisas diferentes.
Assinalamos, também, que as que até relativamente pouco tempo, eram consideradas as
menores partes da matéria, em número de apenas três, contam-se hoje por centenas, ao
mesmo tempo em que se vai, rapidamente, desvanecendo a distinção, que tantos continuam
imaginando irredutível, entre o que é material e o que não é, entre o físico e o metafísico,
entre um universo imaginado como uma gigantesca máquina e o que, cada vez mais, se
assemelha a um pensamento.

Tudo isso foi exposto anteriormente, e seria inoportuno acrescentar outros dados
que figuram na parte desta obra a que estamos fazendo menção. Acrescentaremos, apenas,
a existência de fronteiras do universo alcançável pela investigação científica. Barreiras
que, admite a ciência, são intransponíveis. Dentre elas, a que designamos como “barreira
de Planck”, aquele tempo inimaginavelmente pequeno, expresso, em segundos, pela
unidade precedida de quarenta e dois zeros. Mas, vimos também, por detrás dela existe o
que, segundo a hipótese do “Big-Bang”, já continha tudo quanto, com a colossal explosão
que teria dado origem ao universo em que vivemos, representa todas as suas
características, de vez que o acaso parece não representar senão um rótulo dado pela nossa
ignorância, a respeito do que observamos e não podemos entender ainda. Este é um
resumo, do reduzidíssimo resumo que fizemos sobre o assunto, na I Parte deste livro.
Vejamos, agora, o que têm a dizer-nos as Escrituras, em nosso entendimento, em
perceptível e surpreendente correlação com ele: para tanto permitir-nos-emos lançar mão
do que se pode ler no livro do Eclesiástico, um dos livros denominados deuterocanônicos,
156

que com tal designação, a Igreja católica inclui entre os componentes do Antigo
Testamento.

A religião judaica não o aceita como parte dos escritos inspirados, como não aceita
os que não tenham sido encontrados em seus textos escritos em hebraico. No particular, as
denominações cristãs protestantes os acompanham. Feita a observação acima, vejamos o
texto a que nos estamos referindo. Trata-se do cap. 23, versículos 28 e 29, do livro
deuterocanônico citado: “Ele não sabe que os olhos do Senhor são muito mais luminosos
do que o sol, que examinam por todos os lados o procedimento dos homens, as
profundezas do abismo, e investigam o coração humano até em seus mais íntimos
esconderijos.

Pois o Senhor Deus conhecia todas as coisas antes de as ter criado, e as vê todas,
depois que as completou" 74.

Parece-nos que, sobretudo entre o trecho grifado e o que estava por detrás da
“barreira de Planck”, associado à idéia de que não existe o acaso, a não ser para as
limitações de seres contingentes como somos, ambas concepções elaboradas pela ciência,
há uma correlação mais do que surpreendente. Assim, em sentido pessoal, reiteramos ser
nossa opinião a de que, efetivamente, a busca da verdade, pelos caminhos da religiosidade
e da ciência, convergem nos dias de hoje, forçando a derrubada das barreiras da
intransigência e do preconceito. Em todo caso, não é nosso propósito, e já tantas vezes o
temos dito, substituir pela nossa, a visão crítica dos que venham a honrar-nos com a sua
leitura. Já dizia Bergson que a aquisição do conhecimento não se realiza, tão somente, por
intermédio do intelecto, à luz de evidências que satisfaçam os seus mecanismos. Também a
intuição participa daquela aquisição o que, mesmo antes de conhecer o papel, ou a
importância atribuídos por aquele grande filósofo, à intuição, já nos chamava a atenção o
fato de que, entre duas teses defendidas com propriedade equivalente, segundo as
exigências do intelecto; e, mais, mesmo quando uma delas parece reunir um número maior
de dados a seu favor, de comprovação acessível à verificação direta, mesmo em tais casos,
é freqüente a inclinação de alguns em favor de uma das teses, e de outros em favor da
outra.
157

Claro que, neste momento, estamos abandonando o rigorismo de certas expressões


e de certos conceitos, para mencionar que, quaisquer que sejam as exigências a respeito,
sempre haverá quem se incline por uma e quem se incline pela outra. E tudo isso, em
comentário acerca da intuição a que se referia Bergson, e sem levar em conta as
surpreendentes conquistas que, já nos dias atuais, vão surgindo, quando não impondo, a
admissão de um meta-realismo e a necessidade de uma metalógica. Tudo isso levado em
conta e, ainda, levadas em conta limitações deste autor, de fato parece-nos adequada a
orientação que estamos adotando desde o início deste livro, de submeter à análise pelos
que venham a lê-lo, a adesão, ou não, a certas maneiras de interpretar o que estamos
expondo. Entretanto, tal disposição não implica na renúncia ao dever de dizer a nossa
opinião pessoal, quando e onde couber, tal como tem sido nosso compromisso com o
leitor, desde o “Esclarecimento Indispensável” com o qual iniciamos esta caminhada. Por
isso, quando ela vai chegando ao final deste “Intervalo Esclarecedor”, queremos registrar
que, em nossa opinião pessoal, a intolerância que se expressa em prévias rejeições do que
se nos afigura diferente daquilo que constitui a nossa convicção, simplesmente por parecer-
nos diferente dela, não representa disposição construtiva.
Também aderimos à idéia de que a fé, em sentido transcendente, não é algo que se
possa adquirir pela via do intelecto que, para nós, não representa a totalidade da capacidade
humana para adquirir conhecimento, correspondendo os mecanismos puramente
intelectuais, a apenas uma parte da mente. Por isso mesmo a referência feita mais de uma
vez, aos dois grandes caminhos segundo os quais os homens têm buscado dissipar os dois
tipos de ignorância que nos afligem. Acreditamos, também, que de todas as qualidades
humanas a mais nobre é a bondade - embora não seja a única. Há outras necessárias ao
exercício adequado do impulso que ela representa. Acreditamos, também, na existência de
dois planos da História, nos termos mencionados em mais de uma passagem anterior deste
trabalho. Por isto mesmo, nos propusemos oferecer aos que venham a ler-nos, a maneira
pela qual vemos, se não todas, ao menos, as que nos parecem as causas mais profundas dos
males, do caos aparente e dos absurdos sofrimentos presentes neste final de século. Final
marcado, em termos de conquistas científicas e tecnológicas, por um esplendor sem
qualquer paralelo com épocas anteriores da História, o que indica, para nós, um
desequilíbrio profundo entre os progressos alcançados pelas duas vias de dissipação da
ignorância humana: a espiritual, ou interna, e a física, ou externa.
158

Duas vias representadas até aqui, essencialmente, pela religião e pela ciência. Daí a
importância por nós atribuída à convergência a que nos temos referido e em favor da qual
buscamos apresentar à consideração dos leitores um resumo de dados e informações que
nos parecem de extraordinária importância. Afinal, e tantas vezes temos repetido, “a
desordem que reina na sociedade, reinou primeiro no coração e na mente daqueles que a
compomos”. Daí também as reiteradas menções feitas a uma observação de Michael
Novak para quem um dos aspectos mais preocupantes dos dias atuais é o da prevalência
das idéias sobre os fatos, mesmo quando estes as desmentem de modo frontal.

Problemas como o da existência, da índole e da origem do Bem e do Mal, são


problemas relacionados à ignorância interna, ou espiritual, sobre os quais a ciência, como
tal, não se ocupa com responder. As suas investigações, entretanto, tão verdadeira nos
parece a existência de dois planos da História, está chegando ao ponto em que, como
vimos antes, cada vez mais se impõe a união entre os dois caminhos. Assim, na segunda
parte deste trabalho, dedicada à restauração, que nos parece possível, da justiça e da paz
“entre os homens de boa vontade”, procuraremos oferecer aos que nos leiam, alguns
aspectos fundamentais de concepções religiosas, no âmbito da cultura judaico-cristã a que
pertencemos - o que, pelas nossas limitações e por todos os outros motivos que podem ser
inferidos do que ficou dito até aqui, não terá nenhuma veleidade crítica. O leitor julgará,
segundo a sua inteligência, a sua intuição ou, para nós, segundo a voz íntima da sua
consciência. De nossa parte, em termos confessionais, procuraremos ater-nos ao que
ensinou o grande “apóstolo das gentes”, S. Paulo, passagem que citaremos em seguida, de
sua I Epístola aos Coríntios, cap. 3, 4-15: “Quando existe entre nós, um que diz: Eu sou de
Paulo”, e outro: “Eu, de Apolo”, não é isto modo de pensar inteiramente humano?

“Pois, quem é Apolo? E quem é Paulo? Simples servos, por cujo intermédio
abraçastes a fé, e isto conforme a medida que o Senhor repartiu a cada um deles: eu,
plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem fez crescer. Assim nem o que planta é alguma
coisa, nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais;
cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.

“Nós somos operários com Deus. Vós sois o campo de Deus, o edifício de Deus.
Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto, lancei o fundamento, mas outro
159

edifica sobre ele. Quanto ao fundamento ninguém pode pôr outro diverso daquele que já
foi posto: Jesus Cristo.

“Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro ou com prata, ou com
pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá.
O dia do juízo demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o
trabalho de cada um. Se a construção permanecer, o construtor receberá a recompensa. Se
pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira
através do fogo”.

De nossa parte, reconhecendo os problemas e dificuldades com que se defrontam os


doutos em Teologia, por isso mesmo, igualmente doutos em exegese bíblica, entre os quais
temos bastante autocrítica para não nos pretendermos incluídos, fizemos acima, menção à
lição em que o grande apóstolo, ex-perseguidor dos cristãos, pareceu-nos de uma clareza e
amplidão de vistas, o melhor possível, desestimuladora de disposições que desunem, em
lugar de unir.

Não é nossa intenção, pois, colaborar para a obra de desconfiança, ressentimento e


rancor até, que podem brotar, e tantas vezes têm brotado, de radicalismos intolerantes, que
se imaginam fidelidades, os quais tantas vezes propendem mais para “enxergar o argueiro
que está no olho do seu irmão, do que a trave que está em seus próprios olhos”. Por isso
temos repetido tanto que, especialmente em nossos dias, em que idéias difundidas com
amplitude e penetração suficientes podem prevalecer sobre fatos que as desmentem,
amplitude e penetração tais que, somadas a refinadas técnicas de comunicação, direta ou
indireta, ostensiva ou subliminar, postas a seu serviço, deixam os homens, aturdidos pelo
frenesi do ritmo da luta pela vida, à mercê de muitas manipulações. Manipulações que
podem encontrar, e têm encontrado, preciosos auxiliares nos preconceitos e rejeições
prévias de idéias que, porventura, pareçam contrárias aos interesses dos que, falando quase
sempre de liberdade, tantas vezes o fazem “para ocultar a malícia”. Por isso, geralmente os
que mais condenam qualquer censura, praticam-na de maneira tão ampla e tão impiedosa
como jamais as que se exercitaram em regimes autoritários (não totalitários), souberam,
puderam ou se atreveram a fazer.
160

Referimo-nos à existência de um “patrulhamento” excludente, no que lhe esteja ao


alcance, de quanto não colabore para que prossigam as ações da obra de desagregação e de
ruína, possivelmente não desejada pelos que a levam a cabo - pelo menos conscientemente
- e cujo verdadeiro inspirador, segundo pensamos, é o Pai da Mentka, aquele em quem
“não existe nada de bom”.

Assim, que nos desculpem os que se imaginem atingidos por expressões usadas por
nós. A nossa intenção não é ferir, ofender, magoar, depreciar quem quer que seja - mas
contribuir, quanto nos esteja ao alcance para, sem preconceitos, oferecer a nossa
contribuição, cuja propriedade, oportunidade e verdade serão, digamo-lo uma vez ainda,
julgados pela voz intima que a todos nos fala em silêncio, cuja voz o tropel dos instintos e
apetites não consegue anular.

Passemos, agora, finalmente, à 2a Parte deste trabalho.


161

II PARTE

A RESTAURAÇAO, POSSÍVEL, DA JUSTIÇA E DA PAZ

II.1 - As contribuições da Ciência e da Religião

Segundo nosso entendimento, a Justiça representa uma exigência e uma medida


do amor entre os homens. Amor que, quando não seja possível existir como sentimento,
deve existir, pelo menos, como uma opção da vontade. Aos que, pela suposição, para nós
equivocada, de que formulações como a que acaba de ser feita são apenas pieguices
destituídas de valor prático, submetemos a seguinte ponderação: poderá existir paz
verdadeira, onde não haja justiça? Não serão os homens seres racionais, que não podem
sentir-se bem, quando se sintam injustiçados, maltratados por seus semelhantes? Não terá
sido esta a razão pela qual as Escrituras consignam que o Cristo assim se expressou: “Um
mandamento vos deixo - amai-vos uns aos outros como eu vos amei”?.

Supondo embora os que não crêem, que Jesus Cristo foi um homem como os
demais, em todos os sentidos, negando a missão messiânica que os cristãos, de qualquer
denominação, lhe atribuem, parece difícil imaginá-lo como alguém alienado e pouco
prático, com visão precária da realidade, se em apenas três anos, no período transcorrido
entre os trinta e os trinta e três anos de sua curta existência, marcou indelevelmente a
História, hoje tão freqüentemente dividida em duas eras distintas, a.C. e d.C., sobretudo
quando se leva em conta que ele veio ao mundo em lar pobre e em longínqua e, segundo os
padrões correntes do mundo, insignificante província do grande império romano. Sem a
pretensão de fazer prevalecer a nossa opinião sobre a de quem quer que seja, na verdade
raciocinamos como acaba de ser dito. Ou seja, ainda que convencidos da missão e caráter
divinos do Messias anunciado desde a profundidade dos séculos, por intermédio dos
escritos inspirados que falaram da Sua vinda, mesmo que não o estivéssemos, não
poderíamos avalia-lo senão como alguém absolutamente extraordinário, em termos de
lucidez e de visão de incomparável profundidade.
162

De outra parte, o que parecerá mais prático, para a consecução de uma sociedade
pacífica: a animosidade alimentada pela desconfiança, ou a disposição de entender que,
realmente, no fundo, bem no fundo, somos todos irmãos? Outra pieguice alienada? Mas,
será dela que têm resultado as guerras e as violências, de variada modalidade, mas sempre
expressões de injustiças, que não se nutrem senão de egoísmo? No sentido material,
conquistamos muito - mas estaremos nos sentindo bem?

Parece que a resposta à indagação que acaba de ser feita, é óbvia: a despeito,
como já vimos, de todas as conquistas feitas pela humanidade no domínio físico, com todas
as possibilidades e benefícios que as acompanharam, os dias em que vivemos não serão
descritos com realismo, se o forem como dias marcados pela harmonia e pela felicidade.
Ao contrário, como que sopram de todos os quadrantes ventos de discórdia, multiplicando
mal-estares e conflitos, violências e sacrifícios absurdamente em desacordo com a extensão
alcançada pelas conquistas acima mencionadas. É que elas se vêm realizando,
especialmente, no âmbito físico da realidade e o homem não é, ao menos segundo
pensamos, apenas corpo, mas uma dualidade consubstancial em que, juntamente com
aquele, com suas necessidades, está presente o espírito, que por intermédio dele se exprime
e atua no plano em que vivemos. Espírito que tem, também, as suas necessidades, que o
impelem, como que movido pela saudade difusa, imprecisa de um passado de harmonia e
de beleza de que desfrutaram os nossos primeiros antepassados e que as tiverem
profundamente perturbadas, com a perda da beatífica felicidade que agora busca a
humanidade reencontrar.

Não fora, pensamos, a presença da saudade difusa a que acabamos de referir-nos,


como teríamos a noção do sofrimento e da infelicidade? Infelicidade não significa o oposto
da felicidade? E esta é algo existente no domínio físico, algo perceptível pelos sentidos do
corpo? Algo audível, visível, degustável, aromático, tateável? Na I Parte deste trabalho,
buscamos oferecer à consideração dos que venham a tomar conhecimento do seu conteúdo,
uma abordagem histórica cujo objetivo foi o de expor como que uma pista para o
entendimento de certos aspectos da problemática social dos nossos dias que, tantas vezes
expressa em números, índices, indicadores, todos relacionados a fatos mensuráveis, no
fundo tem como fonte geradora o egoísmo, a ausência de empatia, a incapacidade de
comover-se com a dor do próximo, egoísmo que faz de cada um algo como uma ilha
163

ilusória, que impede a visão, para nós, ela sim realista, de que tais ilhas, caso existissem,
não seriam compatíveis com a realização da felicidade, objetivo de todos.

“Pelos frutos os conhecereis”. Reparem quais têm sido os frutos resultantes das
disposições egoísticas, tantas vezes rotuladas como “espírito prático”.

Mas, a par do bosquejo histórico a que acabamos de referir-nos, com as falhas e


lacunas involuntárias que, por mais de um motivo, ele apresenta e, entre tais motivos, sem
dúvida os decorrentes das insuficiências do autor, tratamos, também, com os reparos de
mesmo gênero, cabíveis, de expor alguns aspectos conceituais e conceptuais da Física
moderna. Aspectos por tal forma revolucionários que, se não chegam a provar a existência
de um Deus criador e mantenedor de todas as coisas, como que chegam quase a tateá-lo -
com o perdão à impropriedade da expressão usada - para algo que não sabemos como
exprimir, exatamente por ser perturbadoramente novo - ao deixar patente a precariedade de
noções até bem pouco tidas como indiscutíveis, como a que supunha a existência de
irredutível diferença entre o físico e o metafísico. Impõe-se, também, tão surpreendentes as
conquistas científicas expostas na I Parte, que figuras do mais alto gabarito, ali citadas,
tanto no domínio da Física quanto no da Filosofia, entendem indispensável a concepção de
um meta-realismo, exigente de uma metalógica. De qualquer maneira, para nós, surge,
límpida, a realidade de uma convergência, de urna união conceptual que haverá de fundir
religião e ciência, como dois caminhos não divergentes, mas confluentes, quando vistos
como esforços visando a dissipação da dupla ignorância que tem levado os homens a
buscar, tateando, a felicidade perturbada pela Queda, mas que eles sentem que um dia
conheceram.

Ao leitor caberá avaliar se estamos devaneando, ou não. De qualquer modo,


realcemos que, da I Parte, constam os dados que julgamos indispensável submeter à
consideração dos leitores, acerca de aspectos relevantes do processo histórico e do
desenvolvimento científico. Torna-se imprescindível, agora, oferecer alguns dados que
julgamos igualmente fundamentais, relacionados à via religiosa em que os homens, em
nossos dias, vêm buscando restaurar a felicidade de que, segundo pensamos, estão
saudosos. Aqui, o terreno torna-se ainda mais delicado de vez que, não nos considerando
teólogo e não possuindo, em conseqüência, autoridade própria, buscaremos expor aspectos
importantes de esforços que se vêm realizando pela via da religiosidade, no âmbito da
164

civilização e da cultura judaico-cristã em que nos integramos. E começaremos por um que,


não pretendendo constituir-se em uma religião, claramente representa esforço situado no
âmbito da busca da justiça, da paz e da felicidade, pela via da citada religiosidade. Trata-se
do movimento de Rearmamento Moral, criado por um americano de ascendência suíça,
Frank Buchman, um de cujos antepassados traduzira o Alcorão para o idioma alemão. A
sua família emigrou para a América em 1740, estabelecendo-se na Pensilvânia.

Outro de seus antepassados combateu sob as ordens de George Washington, tendo


sido ainda outro o primeiro voluntário nas tropas de Lincoln, quando da guerra de
Secessão. Em 1921, foi convidado para assistir à Conferência do Desarmamento, realizada
na capital dos EUA. Durante as sessões da referida conferência, cada vez se fortalecia mais
em seu espírito a idéia de que os planos cogitados para a paz mundial eram insuficientes,
de vez que, segundo crescia em sua mente, os homens de Estado devem reconhecer, antes
de mais nada, a necessidade de uma transformação da natureza humana 75. E foi assim,
segundo as informações que estamos colhendo em publicação daquele que foi, talvez, o
seu mais íntimo colaborador, Peter Howard, que Frank Buchman decidiu-se a iniciar uma
transformação fundamental da realidade mundial, partindo, porém, da própria
transformação individual 76. A publicação a que acabamos de referir-nos, consta de livro
impresso pelo “Rearmamento Moral”, sob o título: “Para a Crise Mundial, uma Resposta”.
Segundo, ainda, a mesma fonte, a trajetória do esforço de Buchman iniciou-se
praticamente, a partir de contatos que manteve com estudantes sul-africanos, que conheceu
em Oxford. E foi a partir daí que começou a ser conhecido em veículos de imprensa o que
era designado como “Grupo de Oxford”.

Poucos anos mais tarde, por volta de 1930, o que nascera como “Grupo de
Oxford” alcançava âmbito mundial, tendo Carl Hambro, presidente da então Liga das
Nações, declarado algum tempo depois: “Onde nós fracassamos, vocês tiveram êxito; não
soubemos transformar a política, vocês souberam transformar os homens e lhes ensinar
uma nova maneira de viver”. Em 1938, surgia do “Grupo de Oxford”, inspirado pelas
idéias de Frank Buchman, o programa do Rearmamento Moral. Contra ele levantou-se
imediatamente a oposição das ideologias totalitárias, pois o que fascistas e comunistas
mais temiam, era ver unida ao poder industrial e militar das democracias, a força poderosa
de uma ideologia superior. Desde o início, Frank Buchman foi violentamente atacado por
todos aqueles que se opunham a ver implantar-se no mundo uma ideologia moral 77. Os

75. Grifos do Autor.


76. Grifos do Autor.
165

comunistas procediam de acordo com a sua técnica habitual: chamar fascistas aqueles que
temiam. Os nazistas diziam que o seu trabalho “fornece aos cristãos os seus alvos
democráticos mundiais... Opõem-se, claramente ao Nacional-Socialismo" 78. Já àquele
tempo, dizia Buchman, que “a solução esperada encontra-se numa ideologia moral e
espiritual79 capaz de remediar as fraquezas da nossa civilização e, por seu dinamismo,
ganhar a adesão das massas que reclamam, em toda parte, com justiça, uma mudança”.

Importantes e numerosos líderes de projeção mundial referiram-se a Buchman e


ao trabalho que realizava, de maneira elogiosa. Assim, o mahatma Ghandi, de quem foi
amigo; Robert Schuman, então Ministro do Exterior Francês, mais tarde Primeiro Ministro,
autor do “Plano Schuman”, prefaciando uma edição das conferências de Buchman,
escreveu: “Se me fosse apresentado um novo plano para a prosperidade pública, ou outra
qualquer teoria, eu me mostraria cético. Mas o que o “Rearmamento Moral” nos traz é uma
filosofia de vida posta em ação... é o começo de uma transformação da sociedade a longo
prazo, cujos primeiros passos já foram dados”. O Dr. Adenauer, Chanceler da Alemanha,
referiu-se ao “Rearmamento Moral” nos seguintes termos: “A menos que a obra
“Rearmamento Moral” se difunda, a paz mundial não poderá ser preservada”. O Chanceler
alemão considerou o “Rearmamento Moral”, como “uma força invisível, mas efetiva”, na
conclusão de acordos internacionais. O ex-Primeiro Ministro da Itália, De Gasperi,
expressou a sua convicção de que o programa do “Rearmamento Moral”, “indo à raiz dos
males do mundo, trará a compreensão entre os homens e nações que todos almejam”. O
Marquês de Salisbury, falando na Câmara dos Lordes, disse: “A causa da situação cm que
se encontra o mundo não é econômica, é moral”.

E mais adiante: “se me permitirem empregar uma frase freqüentemente usada por
um importante movimento que se desenvolve atualmente neste país e em outros lugares, o
que necessitamos é de pessoas guiadas por Deus para criarmos nações dirigidas por Deus,
a fim de criar um mundo novo. Todas as outras idéias de reformas econômicas são
demasiado estreitas para atingirem o âmago do mal” 80. Também manteve contato com
Sun-Yat-sen, o fundador da República da China, entre tantos e tantos outros líderes
políticos, sindicalistas, empresários. Diplomata com larga experiência, referiu-se ao
“Rearmamento Moral”, no tempo do “apartheid”, na África do Sul, e, com relação à África
em geral, assim se expressou: “Na África, hoje, os africanos perguntam em toda parte aos
brancos: “quando vocês se retirarão?” Mas aos homens e mulheres do Rearmamento

78. Grifos do Autor.


79. Grifos do Autor.
166

Moral, eles dizem: “Quão rapidamente vocês podem vir?” Richard Tegström, o brilhante
cinegrafista de Walt Disney, que foi à África filmar “Liberdade”, falou dos filmes a que
assistiu naquele continente. Disse que: “Das telas brancas, a escória dos filmes produzidos
pela civilização ocidental, é derramada, noite após noite, sobre a juventude africana
indefesa. Quanto à programação difundida pelas telas de TV que penetra em milhões de
lares, preferimos não comentar".

Este cinegrafista foi o mesmo que filmou a película “A Experiência Culminante”,


que foi inspirada na vida de Mary Mac Leod Bethune, filha de pais escravos, que chegou
ao posto de conselheira de vários presidentes na Casa Branca e que disse a respeito do
Rearmamento Moral: “Fazer parte desta grande força unificadora
de nossa era é a experiência culminante de minha vida”.

Cumpre esclarecer, neste momento, que todas as referências e citações sobre o


movimento do Dr. Buchman foram tiradas da publicação já mencionada, sendo que
algumas, como foi assinalado, referem-se a depoimento do seu, talvez, mais íntimo
colaborador, Peter Howard. Outras, constantes da mesma publicação, são de trechos ali
consignados como de palestras do próprio fundador do Movimento. Daqui para diante,
serão citados, já como caracterizadores do pensamento de Frank Buchman, exclusivamente
trechos de pronunciamentos de sua autoria, constantes da publicação que estamos
utilizando, de maneira fiel e isenta, editada pelas “Edições Rearmamento Moral”, Rio, Cx.
Postal 984. Vejamos: “A sabedoria humana falhou.

“O mundo moderno - desiludido, caótico, desnorteado - exige


uma solução adequada para curar essa desordem”.

“Os atuais problemas internacionais são, no fundo, problemas


pessoais de egoísmo e medo”.

“Para solucionar os problemas é preciso que as vidas sejam


transformadas. A paz no mundo só poderá brotar da paz nos corações
dos homens”.
167

“Fazendo a experiência dinâmica da liberdade do Espírito


divino, os homens encontrarão a solução para os antagonismos
regionais, a depressão econômica, os conflitos raciais e as dissenções
internacionais”.

“Deus no comando, eis a nossa necessidade primordial”.


(Genebra, janeiro de 1932)

“Por ocasião do primeiro Pentecostes, Deus falou a um grupo


de homens comuns. Eles mudaram o curso da História. Será possível
que hoje Ele não tenha um plano capaz de resolver os problemas de
um mundo atormentado?”.

“O Espírito Santo é a mais inteligente fonte de orientação no


mundo de hoje. Ele tem a solução a todos os problemas. Onde quer
que os homens O deixem agir, Ele lhes ensina a maneira certa de
viver”.

“O mundo precisa de um milagre. Os milagres da ciência


constituem as maravilhas da nossa época, mas não trouxeram paz nem
felicidade às nações. Um milagre do Espírito, eis o que é preciso”.

“É preciso que apareça uma energia espiritual dinâmica,


capaz de reconstruir homens e nações. É preciso que apareça uma
autoridade espiritual que seja aceita por todos em toda parte. Somente
assim a ordem surgirá do caos nos negócios nacionais e
internacionais”.

“Para que esse milagre se realize no mundo, alguma nação


deverá mostrar o caminho. É preciso que uma nação encontre seu
destino no cumprimento da vontade de Deus e escolha fara seus
representantes, no país e no estrangeiro, pessoas livres da escravidão
do medo, da ambição e que sejam dóceis à direção do Espírito
Santo” 81.

81. Grifos do Autor.


168

“Tal nação conhecerá a paz dentro de suas fronteiras e será


portadora da paz no seio da família das nações. Será essa a sua
nação?”.

(Alocução proferida no castelo de Hamlet, Elsinore,


Dinamarca, Pentecostes de 1935, perante cerca de dez mil
escandinavos.)

“A crise é fundamentalmente, uma questão moral. As nações


devem rearmar-se moralmente. A recuperação moral é essencialmente
precursora da recuperação econômica. Imaginem uma onda crescente
de honestidade absoluta e de altruísmo absoluto expandindo-se por
todos os países! Qual seria o efeito? O que dizer dos impostos?
Dívidas? Economias? Uma onde de altruísmo absoluto através de
todas as nações significa o fim da guerra”.

“Se cada um cuidasse bastante do próximo, se cada um


repartisse o bastante, não haveria o suficiente para todos? Há no
mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a
ganância de alguns”.

“Somente um novo espírito nos homens poderá trazer um


novo espírito à indústria”.

“A indústria poderá ser pioneira de uma nova ordem, na qual


o planejamento industrial seja baseado na direção de Deus. Quando o
Trabalho, a Administração e o Capital tornarem-se sócios, sob a
direção de Deus, então a indústria ocupará o seu verdadeiro lugar na
vida nacional”.

“Não aprendemos, ainda, a captar as vastas fontes criadoras


da Mente de Deus - Deus tem um plano e a união das forças morais e
espirituais da nação pode descobrir esse plano”.
169

(Londres, junho de 1938, alocução proferida no Town Hall,


East Ham, diante de 60 prefeitos e conselheiros.)

“Não se deve fazer propaganda quando se quer construir


alguma coisa? Acaso a propaganda deve ser reservada somente para a
destruição?”.

(Visby, Suécia, agosto de 1938.)

“Onde estão, em cada nação, os homens que se erguerão para


aceitar a soberania de Deus, para combater por sua pátria, engajando-
se sob a bandeira do Rei dos reis e para satisfazer o anseio de uma
humanidade sedenta de paz em busca de um mundo novo?

(Interlaken, setembro de 1938)

“O Pensamento de uma nação está em ruínas, bem antes de


uma nação se arruinar”.

“A América não conservou devidamente o patrimônio moral


que recebeu por herança”.

“Se a América não reencontrar seu legítimo ideal, é o caos


que nos espera. Nosso destino é obedecer à direção de Deus”.

“O verdadeiro combate no mundo de hoje não se situa entre


as classes, nem entre as raças. O combate é entre Cristo e o Anti-
Cristo”.

“Escolhei hoje mesmo aquele a quem quereis servir” 82.

(Mackinac Island, julho de 1943)

82. Grifos do Autor.


170

“As nações falham, porque tentam, desesperadamente,


combater a apatia moral com planos econômicos. A ameaça terrível de
um fracasso econômico enche de pavor o coração de cada um,
estadista ou simples cidadão. Entretanto, a crise material pode
esconder a causa, o materialismo e a derrota moral de que a crise
provém, e por isso, não sabem como solucioná-la”.

“O problema não é, tão somente, uma cortina de ferro que


separa uma nação da outra, mas o egoísmo férreo que separa um
homem de outro homem, e todos os homens da autoridade de Deus. O
ferro da cortina do egoísmo e o aço, se derretem quando os homens
escutam a Deus e lhe obedecem”.

“A natureza humana pode ser transformada: esta é a solução


fundamental. A economia das nações pode ser transformada: este é o
fruto da solução. A história do mundo pode ser transformada - este é o
destino da nossa época” 83.

(Caux, Suíça, 1947.)

“A desunião é a característica dos nossos tempos. Desunião


nos corações, desunião no lar, desunião na indústria, desunião na
nação, desunião entre povos”.

“A união é a nossa mais urgente necessidade”.

“A divisão resulta das paixões humanas: do orgulho, do


ódio, do medo, da cobiça”.

“A divisão é o traço marcante do materialismo”.

83. Grifos do Autor.


171

“A união é a graça que acompanha o renascimento.


Desaprendemos a arte de nos unir porque esquecemos o segredo da
transformação e da renascença”.

“Católicos, judeus, protestantes, hindus, muçulmanos,


budistas e confucionistas - todos descobrem que podem transformar-se
naquilo que é necessário e juntos seguir este bom caminho”.

“Deus está chamando homens, de toda parte, para tornarem-


se instrumentos de união. A união não é fruto de conferências, de leis,
de resoluções ou de esperanças piedosas, mas é o fruto da
transformação”.

“A transformação é o âmago da ideologia superior”.

(Los Angeles, Junho de 1948.)

“Em nossa época, uma idéia que exclui quem quer que seja,
é mesquinha demais”.

(Nova Delhi, janeiro de 1953, em palestra realizada para as


duas Casas do Parlamento Indú.)

“O que falta à nossa democracia é uma ideologia. Dizemos


que somos democratas e que não necessitamos de ideologia. Julgamos
que falar em ideologia é quase um sinal de fraqueza.

“Assim sendo, face ao objetivo e à paixão comum às


ideologias estrangeiras, nada mais encontramos para enfrentá-las
senão conversa fiada em que exaltamos grandes ideais. Em último
recurso, usamos a força. E esperamos continuar a viver como sempre
vivemos – egoísta, confortável e tranqüilamente”.
172

“Esquecemos a eterna luta entre o Mal e o Bem, e que a


vitória deste último traz as bênçãos da segurança e da prosperidade. A
derrota, porém, neste embate, ou mesmo a ignorância da existência
dele, traz-nos a pobreza, a fome, a escravidão e a morte”.

(Los Angeles, junho de 1948.)

II.1.a – O caminho pelo “Rearmamento Moral”

Ao tratarmos, no que tange ao caminho religioso para a busca da felicidade que


acreditamos terem desfrutado os nossos primeiros antepassados, antes da desobediência e
da Queda, começamos pela transcrição de textos editados pelo próprio “Movimento”, em
sua maior parte de autoria do seu fundador, Frank Buchman, ou do seu colaborador Peter
Howard. Abstivemo-nos, por motivos que não nos parece necessário explicitar, de
comentá-los no mérito. Agora, para que possa o leitor avaliar melhor a visão do Dr.
Buchman - sobre cuja personalidade e trabalho nos permitimos incluir opiniões de grandes
personalidades internacionais, registradas na mesma fonte a que foi feita referência -
desejamos esclarecer o que entendia o fundador do “Rearmamento Moral” como sendo o
caminho adequado para a realização concreta dos seus ideais. E por que teríamos incluído
aquelas opiniões? Não, certamente, para trazer à baila algo de presença dispensável, mas
para que o leitor se disponha a conceder atenção a um assunto que, à primeira vista,
poderá, parecer-lhe produto dos devaneios de um homem “pouco prático”. Por favor,
acredite o leitor que, de nossa parte, as explicações que acabam de ser dadas não têm
propósito apologético ou restritivo, sendo expressão de um critério que, em outros casos,
buscaremos igualmente observar.

Assim, para o Dr. Buchman, o caminho parte da observância sincera, pelos homens,
de 4 princípios que passem, efetivamente, a reger a sua conduta e orientar as suas decisões
e as suas atitudes. São eles: honestidade, pureza, altruísmo e amor absolutos. Comentando
os princípios enumerados, assim se exprimiu ele:
173

“De início, considerai a honestidade. O que encontrais na


nação? O que dizer de indivíduos desonestos, digamos, em contratos
de guerra? O suborno e o mercado negro mantêm numerosas pessoas
ocupadas e custam milhões de dólares. Antigamente ninguém
aprovava a desonestidade. Agora, os vigaristas bem sucedidos são
quase premiados”.

“Falemos da pureza. Talvez digais que se trata de um


assunto pessoal. Mas o que está acontecendo à nação? São raras as
pessoas que tentam introduzir uma grande força purificadora em sua
nação. O que acontece a uma nação se ninguém trouxer a cura? Lares
desfeitos, crianças inseguras, a decadência da cultura, a sementeira da
revolta”.

“Quanto ao altruísmo e ao amor, ninguém pretende ser


altruísta, nem tão pouco, ter amor”.

“Pôs-se de lado os quatro critérios, como coisas arcaicas,


do tempo das diligências. Assim sendo, é á última coisa em que se
pensa para as nações. É por isso que o mundo está nestas condições”.

“A Sociedade das Nações nunca esteve alicerçada em


Deus”.

(Mackinac Island, julho de 1943.)

“Precisamos dar ênfase aos princípios morais, e também


ao poder de salvação de Jesus Cristo. Sentireis então a força dinâmica,
quase esquecida - o Espírito Santo - que vos guiará mostrando
exatamente o que se deve fazer, como um apelo direto de Deus”.

(Mackinac Island, julho de 1943.)


174

“Haverá um remédio que cure o indivíduo e as nações, e


traga a esperança de um restabelecimento rápido e satisfatório?”.

“O remédio poderá consistir no retorno àquelas singelas


virtudes caseiras que muitos de nós aprenderam nos joelhos de nossas
mães e muitos esqueceram ou negligenciaram - a honestidade, a
pureza, o altruísmo e o amor”.

(Londres, junho de 1938.)

“Suponham que amanhã de manhã, vocês se levantem um


pouco mais cedo para tentar escutar a Deus. Por que não convidar sua
família para fazer o mesmo?”.

“Podemos pôr-nos a escutar todos os dias. Se o fizermos e


obedecermos aos pensamentos que nos venham, pode ser que, juntos,
preparemos o caminho para a maior revolução de todos os tempos,
pela qual a Cruz de Cristo transformará o mundo”.

(Londres, agosto de 1936.)

“Essa oportunidade se nos oferece diariamente: escutar a


Deus e receber Seu programa para o dia”.

“Mas é necessário respeitar as condições. A primeira é


escutar honestamente tudo que possa vir até nós, e, se somos
inteligentes, o escreveremos. A segunda condição é a de pôr à prova,
os pensamentos que nos chegam para ver quais os que, realmente,
vêm de Deus”.

“A Bíblia é um dos meios de verificar. Ela está


impregnada da experiência secular de homens que, sob o efeito da
revelação divina, ousaram fazer a experiência de deixar-se dirigir por
Deus. Nela encontramos - sendo seu ponto culminante a vida de Jesus
175

Cristo - o desafio moral e espiritual mais alto: a honestidade, a pureza,


o altruísmo e o amor absolutos”.

“Outro excelente meio de controle é o de ouvir o que


dizem outras pessoas que também escutam a Deus. É um princípio
inerente ao espírito de equipe. É também uma prova decisiva da nossa
obediência ao plano de Deus. Ninguém pode estar inteiramente
submisso a Deus se trabalha sozinho”.

“É no seio de um grupo de homens e mulheres dedicadas e


livres que Deus fala com mais clareza. E é por meio de homens
governados por Ele que um dia Deus governará o mundo”.

(Birmingham, julho de 1936. )

“Ora, constato isso: Quando não sabemos como fazer,


Deus nô-lo mostra, se assim o quisermos. Quando o homem escuta,
Deus fala. Quando o homem obedece, Deus age. O segredo está em
ser governado por Deus - não queremos dar ordens a Deus, queremos
receber Suas ordens. E Ele as dará”.

“O Grupo de Oxford está convencido de que se quisermos


uma solução para os problemas do mundo atual, é melhor
começarmos conosco mesmo. Essa é a primeira e fundamental
necessidade” 84.

“O segredo é ter Deus no comando. As únicas pessoas


sensatas neste mundo insensato são aquelas que aceitam a direção de
Deus. Os indivíduos dirigidos por Deus produzirão nações dirigidas
por Deus. Esse é o alvo do Grupo de Oxford”.

(Dinamarca, Páscoa de 1936.)

84. Grifos do Autor.


176

Assim, sem apreciar no mérito, o que foi registrado sobre o “Rearmamento Moral”
proposto pelo Dr. Frank Buchman, personalidade e obra das quais buscamos dar dados que
supomos expressivos, quanto ao significado místico e a importância do esforço por ele
realizado em vida, passaremos, em seguida, com toda a isenção, a expor dados referentes à
posição fundamental da Igreja Católica Apostólica Romana, no que tange ao papel que se
atribui de única representante autêntica de Jesus Cristo na Terra, papel que lhe teria sido
concedido pelo próprio Salvador, quando da Sua passagem pela terra.

II.1.b - O caminho da Igreja Católica Apostólica Romana

A Igreja Católica Apostólica Romana reivindica para ela o papel e a


responsabilidade de única representante da verdade cristã, sem mescla de erro, baseada
essencialmente, segundo o seu Magistério, em passagens das Escrituras, tais como as tem
interpretado a Tradição, passagens que, podem ser lidas em Bíblias impressas com o “Nihil
Obstat”, e o “Imprimatur”, conferidos por organismos e autoridades eclesiásticas
competentes.

Assim, do Evangelho de S. Mateus, em exemplares das Escrituras em que figuram


as autorizações acima, consta o relato sobre a pergunta feita por Jesus a Pedro, e a resposta
dele, no sentido de que o Mestre era o Cristo, o filho do Deus vivo. Diante da resposta de
Pedro, Jesus lhe afirmou que ele era feliz porquanto a sua resposta não lhe fora revelada
pelo sangue e a carne mas pelo seu pai (pai de Jesus), que está nos céus. E acrescentou: Tu
és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares na terra
será ligado nos céus.

Em exemplares de Bíblias católicas de impressão oficialmente autorizada também


figura observação sobre o fato de que a tradição da igreja romana assenta naquela
promessa a autoridade conferida a Pedro e aos seus sucessores de, ligando na terra, ligar no
céu; desligando na terra, desligar no céu.
177

Em fontes igualmente autorizadas pelas autoridades eclesiásticas competentes,


menciona-se que a tradição reforça sua convicção sobre a suprema autoridade da igreja
romana, em passagem que figura em apêndice do evangelho de S. João, na qual o Salvador
reitera por três vezes a Pedro a pergunta sobre se este o amava, obtendo sempre resposta
afirmativa, diante da qual ordenava Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. Admitem fontes
católicas ser de notar-se a coincidência entre o número de perguntas do Cristo e das
respostas de Pedro, e as três vezes que o grande apóstolo o negara.

Fontes de idoneidade equivalente admitem que as passagens que foram citadas


acima, não integram o texto de S. João, mas um apêndice acrescentado possivelmente por
um de seus discípulos.

Por favor, estamos nos atendo ao domínio factual. Supomos que a bagagem
intelectual de uma Igreja que já dura cerca de vinte séculos e que, ao menos no Ocidente,
até o século XVI, tinha a principal responsabilidade de manter acesa a chama da
mensagem do Cristianismo - e isto em condições como as descritas no bosquejo histórico
que figura na I Parte deste trabalho; Igreja da qual brotaram obras, para citar apenas duas
dentre numerosas outras, como as S. Tomás e Sto. Agostinho; em respaldo aos pontos de
vista transcritos acima, atribuídos à Tradição, certamente possui uma cópia imensa de
argumentos em favor daqueles pontos. Na realização deste trabalho, o objetivo, porém, é o
de nos mantermos no domínio factual. Com base na formidável bagagem filosófica,
teológica, exegética que seus doutores produziram ao longo do tempo, na realidade a Igreja
Católica reivindica que, com ela, estão as chaves da interpretação correta das Escrituras e
da Verdade que nelas se encerra. Também nos parece que, em matéria de doutrina social,
numerosos documentos pontificais como, entre outros, encíclicas como a “Rerum
Novarum”, a “Quadragésimo Ano”, a “Libertas”, do mesmo pontífice autor da “Rerum
Novarum”, Leão XIII, da “Divini Redemptoris”, da “Octogesimo Adveniens”, da “Mater
et Magistra”, da “Laborem Exercens”, da “Humanae Vitae”, etc., etc., têm representado
algo considerado geralmente como contribuição excepcionalmente respeitável no domínio
dos estudos sobre a problemática social do nosso tempo.

É igualmente matéria factual a variedade de aspectos segundo os quais atuam, tanto


o clero quanto o laicato católicos. Assim, para citar, não todas, mas as mais conhecidas,
começaremos por assinalar que o seu clero divide-se basicamente em dois tipos: o clero
178

secular e o clero regular. O segundo, representado pelos sacerdotes que ingressam nas
diferentes Ordens em que a sua maneira de exercer o sacerdócio pode encontrar maior
afinidade com a vocação de cada um. Estamos nos referindo, por exemplo, e novamente
para citar apenas alguns exemplos, à Ordem de S. Bento, à Ordem de S. Francisco, à
Ordem de S. Domingos, à Companhia de Jesus, à Ordem dos Carmelitas, etc. A cada uma
delas corresponde uma dada disciplina, uma dada estrutura organizacional, uma dada
maneira de viverem os seus integrantes, a fé que abraçaram.

Uns, mais afeitos à contemplação e à oração; outros, sem desprezar esses aspectos
básicos da vida monástica, mais afeitos às cogitações intelectuais a respeito dos
fundamentos daquela mesma fé. Os sacerdotes seculares são os que, consagrados
sacerdotes, não optaram pela vida monástica e exercitam as suas atividades nos templos em
que oficiam a Missa, batizam, crismam, casam, de um modo geral ministram a eucaristia e
os outros sacramentos, ouvem em confissão, etc. Não vivem, porém, reclusos, mas em
contato mais direto e freqüente com os fiéis. Estão sujeitos, entretanto, como, atualmente,
todos os sacerdotes da Igreja Católica Romana, ao celibato, e são obrigados, entre outros, a
fazerem o voto de castidade. Nesse aspecto, a orientação da Igreja a que nos estamos
referindo, mostra-se muito rigorosa e não faz concessões. Não se dispõe a abolir o celibato
dos sacerdotes, não aceita o divórcio, não admite o aborto, não aceita métodos
contraceptivos, não aceita a chamada fecundação “in vitro”, etc. Claro que o leitor entende
que nos estamos referindo a aspectos doutrinários da posição de Roma. As transgressões de
que são acusados membros do seu clero, referem-se, quando procedentes, a falhas
humanas, que o magistério não incluiu na sua orientação e doutrina. E não teriam sido
poucas, ao longo de tanto tempo, diante de um ascetismo que, ainda hoje, não se atenuou,
muito pelo contrário, nos documentos de orientação doutrinária.

Também é necessário mencionar as freiras, com seus trajes mais recatados do que
os em moda em nossos dias, atuantes de diferentes maneiras, embora não investidas do
“munus” sacerdotal, conforme as disciplinas e pastorais que escolheram. As denominadas
“Irmãs de S. Vicente de Paulo”, que se voltam para a assistência aos doentes, são exemplo
frisante do que estamos expondo à consideração do leitor. Há as que se dedicam à
assistência à infância, p. ex., nos orfanatos, etc. etc. A despeito de tudo isso, sobretudo a
partir do Concílio Vaticano II, além de problemas relacionados a desvios pessoais de
sacerdotes que foram apontados como transgressores das normas de comportamento que
179

decorreriam de sua fidelidade a votos feitos, surgiram problemas formais, de índole ritual
ou litúrgica, que foram uma fonte de divergências entre sacerdotes, os quais passaram a ser
vistos como classificáveis em dois grandes grupos: o dos “progressistas” e o dos
“conservadores”. Face à questão social, agravando ainda mais os problemas, surgiu a
chamada “teologia da libertação”, cujos vultos mais mencionados foram, entre nós, um
franciscano que acabou abandonando a Igreja, um outro sacerdote que envolveu-se de
modo surpreendente do ponto de vista “conservador”, como assessor de uma importante
liderança política, para não falar de estrangeiros, igualmente muito conhecidos dos que
acompanharam esses problemas.

No passado, numerosas vezes, até pela grande influência que tinha sobre os
detentores do poder temporal, o clero cometeu equívocos, que o papa João Paulo II, de
público, admite como lamentáveis, e por eles pede perdão. Levando em conta que a
sociedade dos nossos dias exalta, na prática, o direito que teriam os homens de deixar
expandir livremente os seus impulsos instintivos, tão poderosos que, de seu poderio, dele
queixou-se até o grande “Apóstolo das Gentes”, as vocações sacerdotais escasseiam,
sobretudo para o ingresso em denominação de tão rígidas exigências, e que, por isso
mesmo, incomoda quantos vêem nessa rigidez uma censura subliminar, ao que decorre do
conceito em que têm a liberdade e o seu exercício. E essas observações, ao contrário do
que possa parecer à primeira vista, não são opinativas - o que seria incompatível com o
nosso compromisso de isenção. As estatísticas comprovam e não apenas em nosso país,
que as vocações sacerdotais têm diminuído, sobretudo se comparado o número de jovens
que procuram os seminários com as frações que eles representam em relação ao
crescimento populacional85. É que, repisemos ainda uma vez, o “espírito da época”,
nitidamente, exalta a satisfação dos sentidos a tal ponto, que quanto a ela se oponha, passa
a ser confundido com obscurantismo inaceitável, quando não com “violação dos direitos
humanos”.

E como, realmente, a preocupação de Michael Novak, acerca da predominância de


idéias sobre os fatos, ainda que estes as desmintam da maneira mais flagrante, é uma
realidade incontestável dos nossos dias, ao menos em certo período e em muitos casos, as
exigências para a formação de sacerdotes passaram a ser atenuadas o que, como seria de
esperar-se, erodiu em alguma medida, o nível da referida formação. Ressalvados os casos,
que em alguns meios afirma-se terem existido, sobretudo ao tempo da “guerra fria”, da

85. Observa-se, atualmente, o início de inversão da tendência assinalada, sobretudo nas regiões em que tem prosperado o pentecostalismo da
“Renovação Carismática Católica”. (Nota do Autor).
180

infiltração de moços que, impregnados pela cosmovisão do materialismo dialético,


procuravam ordenar, se para, por dentro, comprometer e criar problemas para o que
avaliavam como uma fonte de alimentação do “ópio do povo” - conceito em que tinham a
religião em geral - ainda assim, a realidade mostrou que, face as desigualdades sociais,
muitos, levados por sua inclinação para a prática da justiça e pelo sentimento de caridade,
inclinaram-se para exercitá-la por intermédio da participação na problemática social.
Problemática sobre a qual nem sempre estavam bem informados e, ainda quando não lhes
faltassem conhecimentos adequados, pelo menos em termos de “praxis”, não a tinham
eqüivalente a de agentes preparados especificamente para ela.

As conseqüências são bem conhecidas, e sua avaliação nem sempre tem sido feita
com a indispensável isenção. Em período ainda recente da nossa história, as autoridades
eclesiásticas não proibiam a participação direta de sacerdotes na vida político-partidária o
que, do ponto de vista daquelas autoridades, não se mostrou conveniente. Igualmente,
organização como a JUC (Juventude Universitária Católica), e a JOC (Juventude Operária
Católica), praticamente deixaram de existir.

Tudo isso, porém, tem sentido factual e refere-se a um determinado período da


trajetória de instituição que tem perdurado ao longo de quase vinte séculos, durante os
quais já conheceu muitas crises, e algumas de acentuada gravidade. Por isso mesmo, os
que se dispõem a defendê-la, encontram nas citadas crises e nos motivos que as
determinaram, um argumento em favor da tese da marca divina da igreja de que estamos
tratando. Realmente, dizem aqueles defensores, o número e a profundidade de tais crises,
bem como o número dos que, a pretexto delas, têm tentado anular-lhe a influência, sem
consegui-lo, são a evidência de que ela é depositária da promessa registrada em passagem
anterior, tal como é o ponto de vista da Tradição e manda a isenção dizer que os
protestantes afirmam que o Apóstolo Paulo, em mais de uma passagem, contraria tal
interpretação. De qualquer maneira, parece-nos que seríamos também injustos por
omissão, se não nos dispuséssemos a lembrar os mártires da Igreja, e figuras de vidas
exemplares, bem como a contribuição dos seus místicos e pensadores. Entre eles Francisco
de Assis, o moço rico que renunciou à riqueza e aos prazeres deste mundo, para
transformar-se em figura tão doce que nem os mais ferrenhos adversários do catolicismo
romano criticam desfavoravelmente.
181

Também Vicente de Paulo, que em meio a indizíveis sacrifícios e dificuldades,


dedicou sua vida aos que sofriam em seus leitos de dor, e tantos e tantos outros que a
instituição a que pertenceram canonizou, elevando-os à honra dos altares, como vidas
exemplares, espíritos de eleição, a serem imitados em suas virtudes. Quanto aos místicos,
um pelo menos, nos permitiremos destacar: S. João da Cruz. Quanto a pensadores, já
mencionamos antes as figuras e as obras de S. Tomás de Aquino e a de Sto. Agostinho,
como citaremos agora Sta. Catarina de Siena, que nem por ser desprovida do que o mundo
considera erudição, deixa de ser tida como doutora da Igreja. De novo, cumpre realçar que
os dados, em número ínfimo em relação ao do conjunto de tantos outros que mereceriam
ser citados, não têm sentido opinativo, sendo de natureza factual. Como de sentido
igualmente factual é a perda do ardor evangelizador e missionário de outros tempos - e aí
estão, em nosso país, figuras como a de Anchieta e dos que realizavam no sul do país a
obra das Missões, de que hoje são vestígios as ruínas das edificações que ainda se mantêm
de pé; e, nos EUA, a famosa Missão Dolores, à qual dedicou a vida a figura exemplar de
frei Junípero Serra.

Perda de ardor que não sendo total, de vez que a igreja católica romana continua a
enviar missionários a áreas do mundo que carecem de apoio espiritual e de assistência
sobretudo a doentes, do que foi exemplo notícia que correu o mundo, acerca de duas freiras
brasileiras que haviam desaparecido e foram devolvidas à liberdade, durante a ação
missionária que, silenciosamente, realizavam em uma das regiões mais sofridas do planeta.
Também é factual, porém, que à perda de ardor referida, correspondeu uma evidente, como
que burocratização da atividade sacerdotal, nos templos, mais nitidamente exercitada em
aspectos rituais ou litúrgicos, do que na ênfase dada ao esforço pelo fortalecimento da fé e
pela conversão. O que, pelo menos segundo pensamos, não desmente a eficácia do
consolo, para os que crêem, da absolvição de Deus das culpas de que se arrepende o fiel,
intermediada pelo sacerdote que lhe ouve a confissão, no exercício do que, em linguagem
corrente, de natureza científica, denomina-se catarse. Realiza-se, porém, a referida catarse,
para quem crê, em patamar que a ciência não alcança, que é o do arrependimento. Não
alcança, registre-se, por não ser do âmbito do seu campo de atividade levar a
arrependimento, de mesma índole e de implicações análogas ao que a expressão adquire
em sentido religioso. Quanto ao valor que, para o fiel, tem o sacramento da eucaristia, nem
é necessário enfatizar que a ciência não se propõe oferecer algo correspondente.
182

Ao mencionarmos os dados e circunstâncias apontados até aqui, é notório que o


próprio magistério da igreja lhes reconhece a procedência, em sentido amplo, descontadas
eventuais impropriedades involuntariamente cometidas pelo autor em face de suas
deficiências e do imperativo da concisão que se impõe por mais de uma razão. E ainda que
não existissem as vozes que, de público, se têm feito ouvir, o fato de, em um país de
população majoritariamente católica, estarem crescendo, vertiginosamente, outras
denominações religiosas, inclusive não cristãs, aponta para a angústia que, não
encontrando alívio de outra natureza, busca-o na transcendência. O que, face ao
esmorecimento do ardor que registrávamos acima, oferece vasto campo para a semeadura
dos que, com maior ou menor propriedade, esforçam-se por substitui-lo. Por isso se tem
falado tanto no crescimento dos que, na maioria das vezes, são designados como
“evangélicos”.

II.1.c - A Reforma, o Pentecostalismo e outras influências menores

No decurso da primeira parte desta obra, no trecho dedicado a dados históricos


oferecidos à análise pela inteligência e pela consciência dos leitores, mencionamos, dentro
da linha interpretava ali adotada, com base em citações constantes do próprio texto, como,
baseados no que lhes parecia impróprio quanto à “praxis” das atividades do papado, e
quanto ao próprio modo de interpretar as Escrituras, levantaram-se em protesto as vozes de
maior expressão dos descontentamentos reinantes, de Luthero e de Calvino. Claro que as
teses dos grandes vultos do cisma do Cristianismo do Ocidente foram, à época, e
continuam a sê-lo, objeto de extensas controvérsias, desenvolvidas por teólogos de um lado
e de outro, dos campos a que nos estamos referindo. Seria impraticável expô-las, mesmo
apenas em suas linhas mais fundamentais. Parece-nos igualmente impróprio tentar fazê-lo
em seus aspectos mais, digamos, populares. Assim, Permitir-nos-emos, sempre dentro do
compromisso que, entre outros motivos, nos é imposto pelo respeito que devemos aos que
venham a ler estas linhas, manter a orientação de prevalência do factual, campo em que
acabou de ser registrado um aspecto: a Reforma, marcou a quebra da unidade do
Cristianismo do Ocidente, em termos confessionais. Por isso, já no final do tópico
dedicado a dados sobre o catolicismo romano, usamos as expressões: “Por isso se tem
183

falado tanto do crescimento dos que, na maioria das vezes, são designados como
“evangélicos”.
Como se vê, a palavra evangélicos, naquela oportunidade, foi grafada entre aspas,
cuja razão de ser, cumpre-nos agora explicar. É que, sem discutir, no mérito, os motivos e
argumentos dos que foram os vultos mais proeminentes da Reforma, a Igreja romana,
quaisquer que possam ser as suas falhas e as suas deficiências, ninguém dirá que repudiou
a mensagem do Salvador. De outra parte, pertence também ao domínio factual que, sem
colocar em dúvida a sinceridade de propósitos e a religiosidade ardente dos dois grandes
nomes da Reforma, a divisão, em termos confessionais do Cristianismo, não se limitou a
duas ou, quando muito, três frações denominacionais. Ao contrário, ela prosseguiu e, hoje,
em nosso país como em outros, as divisões e subdivisões têm se multiplicado sem parar,
enquanto denominações que já agora passam a ser designadas como tradicionais, v.g., a
Luterana, a Presbiteriana, a Batista, a Metodista, obviamente evangélicas, não têm
crescido, sobretudo as duas primeiras, no mesmo ritmo. O que se nos afigura, de fato, mais
próprio, é falar do fenômeno do pentecostalismo, presente e aparentemente responsável
pelo dinamismo que tem faltado às igrejas que não o praticam.

Por tal razão, dispomo-nos, neste momento, a registrar alguns dados a ele,
pentecostalismo, referentes. Comecemos pela passagem que figura nos Atos dos
Apóstolos, cap. 2, versículos 1 a 28, onde se narra que, no dia de Pentecostes, no local em
que estavam reunidos os apóstolos, após soprar um vento forte, surgiram umas línguas de
fogo que se dividiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram, então, todos cheios do
Espírito Santo, e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes
concedia que falassem. Passou, então, muita gente a ouvi-los e maravilhavam-se de que
cada um os ouvisse como se estivessem falando em sua própria língua. É que sabiam que
os que falavam eram todos galileus e os ouvintes pertenciam a numerosos povos sendo
muitas as suas línguas maternas. O fato os deixara perplexos, e se perguntavam uns aos
outros: “Que significam estas coisas?” Outros, porém, zombeteiros, diziam: “Estão todos
ébrios de vinho doce”.

Os apóstolos, então, se levantaram e Pedro, em alta voz, dirigindo-se aos presentes


e a todos os habitantes de Jerusalém, exortou-os a que prestassem atenção às suas palavras.
Estes homens não estão bêbados, afirmou, visto não ser ainda a terceira hora do dia86.
Cumpre-se neste momento o que foi dito pelo profeta Joel, por intermédio de quem Deus

86. Grifos do Autor.


184

falou, anunciando que nos últimos dias derramaria do Seu Espírito sobre todo ser vivo, e
então profetizarão os vossos filhos e vossas filhas. Os vossos jovens terão visões, e os
vossos anciãos sonharão. Sobre os meus servos e servas derramarei naqueles dias do meu
Espírito e profetizarão. Acontecerão prodígios no céu e milagres embaixo na terra: sangue,
fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas e a lua em sangue, antes que venha
o grande e glorioso dia do Senhor. E então, todo o que invocar o nome do Senhor será
salvo". A profecia a que aludira Pedro refere-se a Joel 3, 1-5.

Prosseguindo, disse Pedro aos israelitas que "Jesus de Nazaré, de quem Deus deu
testemunho com milagres, prodígios e sinais que realizou por intermédio dele, em meio aos
israelitas, como estes sabiam, foi entregue, segundo determinado desígnio e presciência de
Deus, por israelitas que o mataram, crucificando-o por mãos de ímpios. Entretanto, Deus o
ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em
seu poder". E citou-lhes o que dissera Davi sobre a esperança na ressurreição, no Salmo
15, 8-11.

Sobre os carismas e dons espirituais, o apóstolo Paulo afirma a sua existência, a sua
diversidade, a sua fonte comum, o Espírito Santo, a diversidade de ministérios e operações,
mas um só Deus, que opera tudo e em todos. Menciona, entre outros, o dom de curar
doenças, o de profetizar, o de ciência, o de línguas, o de interpretação das línguas, o da
sabedoria. Mas tudo em um sentido de unidade e de cooperação, "pois todos os que crêem,
quaisquer que sejam as funções que desempenhem e os dons e carismas que possuam são,
todos, membros de um mesmo corpo, que é o corpo de Cristo, não se justificando
dissenções, como os diferentes órgãos de um mesmo corpo, para que este exista como tal,
embora diferentes, devem colaborar, cada um com sua função, para que se mantenha a
harmonia do todo".

Na sociedade humana deste final de século, maltratada por todas as manifestações


do egoísmo, desiludida por “elites” que consideram avançado ou elegante a
desconsideração em que têm, tantos dos que as integram, por obrigações decorrentes de
valores e leis ditadas por um Criador em que não crêem, as denominações religiosas cujos
representantes desincumbem-se do ministério que lhes cabe, de maneira pouco
comunicativa, mantêm-se pela graça da fé dos seus fiéis, ou pelo frio automatismo de
quem contenta-se com aspectos ritualísticos ou litúrgicos, aceitando-as como verdadeiras,
185

por definição. Os que têm dúvidas e, dentre eles, os que estejam sofrendo, em si mesmos,
ou na pessoa de entes queridos, vão sendo atraídos por um pentecostalismo fortemente
devocional, que aceita que os dons do Espírito Santo não se manifestaram apenas durante
pouco tempo, nos primórdios do Cristianismo, mas continuam a ser derramados pelos que,
com disposição sincera e coração contrito, tentam socorrer-se da misericórdia de Deus,
eternamente fiel, que criou-nos a todos para que fôssemos objetos do seu amor, a
manifestar-se segundo os desígnios de Sua providência, infinitamente sábia, e os ditames
de Sua vontade, sempre orientada para o bem, embora nem sempre seja possível às Suas
criaturas entendê-la.

O comentário feito nas linhas acima, não foi redigido com sentido apologético, mas
descritivo, no que tange ao fenômeno do pentecostalismo que não é uma exclusividade de
denominações cristãs que não seguem o catolicismo romano mas, pelo contrário, quase
todas resultaram das divisões que se vêm multiplicando desde as origens do chamado
protestantismo. Por exemplo, o referido catolicismo tem como uma de suas características,
igualmente não exclusiva, a diversidade de atividades e instituições que abrigam os fiéis,
clérigos ou leigos, segundo as suas propensões e inclinações, como mencionado
anteriormente. Pois, segundo estamos informados, do laicato brotou o movimento talvez
mais dinâmico do catolicismo atual, representado pela chamada “Re novação Carismática
Católica”. É de justiça registrar que o ponto de partida ocorreu há cerca de vinte anos, em
virtude de um sacerdote católico, que exercia o seu ministério junto a uma universidade
dos EUA, ter aceitado convite para assistir ao culto em uma igreja pentecostal, a que
compareceu acompanhado por um grupo de estudantes da mencionada universidade. O que
viram os impressionou por tal maneira que, pouco depois, realizaram reunião semelhante,
em sua própria igreja.

Dali para cá, a Renovação Carismática Católica tem crescido extraordinariamente,


os chamados “Grupos de Oração” que a integram estando presentes em muitas dezenas de
países do mundo inteiro, e sendo o número dos que participam das suas reuniões estimado
a esta altura em algo como 4 milhões de fiéis. A hierarquia da Igreja, como seria de
esperar-se e é do seu modo de conduzir os assuntos afetos à sua responsabilidade, mantém-
se em atitude prudente e não recomenda oficialmente a validade da “Renovação
Carismática”, nem a repudia. As reuniões do ramo do laicato de que estamos tratando, são
realizadas geralmente nos salões paroquiais dos templos cujos párocos não se oponham a
186

tal utilização, sendo freqüentes as cerimônias religiosas, como a celebração da Missa,


evidenciarem a presença de um maior número de fiéis do que a média observada no
mesmo templo, antes do funcionamento de um “Grupo de Oração”, consentido pelo
pároco. Maior número e participação muito mais intensa.

O movimento de que nos estamos ocupando, em matéria de doutrina, de hierarquia,


de ritual, de liturgia, em nada se diferencia, ou declara desejar diferenciar-se das
recomendadas oficialmente pela igreja, que não tem o propósito de hostilizar ou combater.

De qualquer maneira é fato inconteste, em nossa sociedade, que as denominações


evangélicas, sobretudo as de caráter pentecostalista, bem como a Renovação Carismática
Católica, vêm contribuindo para um afervoramento da fé cristã, sendo ostensiva a
participação, sobretudo das primeiras, na promoção pública do nome de Jesus, e da sua
qualidade de salvador dos homens. E isso para mencionar ações diretamente praticadas, de
cunho evangelizador, inclusive por intermédio da utilização, crescente, de veículos de
mídia eletrônica. Indiretamente, esse esforço está despertando a ação da hierarquia católica
no Brasil a qual, acordando para a realidade de que o crescimento do protestantismo
pentecostalista, em número de fiéis, obviamente significa decréscimo correspondente ao
número dos que se diziam e se consideravam católicos, começa a inclinar-se para aumentar
os seus esforços e dar maior atenção ao uso da mídia eletrônica do que a que vinha dando
até há pouco tempo. Naturalmente o crescimento rapidíssimo de denominações
protestantes tem sido feito às expensas da qualidade da formação dos seus ministros.
Entretanto como o público atingido é, em sua grande maioria, constituído por pessoas
sofridas e muito simples, em termos de preparo intelectual, é de justiça assinalar que a
simplicidade de mesmo tipo de seus pastores, constitui-se em fator que favorece a
comunicação.

E como o esforço é centrado na exaltação da fé, do ponto de vista de certos


aspectos da problemática social, relacionados a desvios, por vezes, muitos graves, de
conduta, a conversão e conseqüente aceitação de valores fundamentais da mensagem
cristã, vem se constituindo em contribuição positiva para a redução do número dos que se
vinham desviando. Naturalmente o leitor já percebeu que estamos nos referindo ao quadro
da nossa realidade, da realidade do nosso país. A observação é feita para que não se tirem,
por inadvertência, conclusões simplistas e apressadas. Por exemplo, as que imaginam que,
187

em toda parte e em todas as sociedades, a multiplicação de denominações cristãs ou o


protestantismo em geral, apresentam-se como, nos aspectos assinalados, o fazem entre nós.
Observe o leitor como as grandes rotas do tráfico de drogas orientam-se, sempre, do
hemisfério sul para o hemisfério norte, do Terceiro para o Primeiro mundo. Nem todas as
sociedades nacionais do Primeiro Mundo são protestantes; a maioria, porém, constitui-se
de protestantes ou de adeptos de opções diferentes, fora do âmbito do Cristianismo.
Também a legitimação de práticas abortivas, contraceptivas, a disseminação, rotulados
como “progresso”, dos chamados “costumes fáceis”, é de notar-se, sobretudo a partir da
segunda metade deste século, seguem rotas de direção oposta à do tráfico de drogas.

As chamadas guerras totais, abrangentes das populações civis, inclusive as de


concentrações urbanas indefesas, foram registradas no hemisfério norte e entre sociedades
nacionais do Primeiro Mundo. Por exemplo, as duas carnificinas designadas como Grandes
Guerras, ocorridas neste século. Talvez se possa assinalar que - e estamos nos restringindo
ao campo do Cristianismo - a causa principal da eclosão desenfreada do egoísmo, dos
apetites e injustiças que flagelam a humanidade, parece mais ligada ao absenteísmo, à
indiferença religiosa, do que às formas confessionais com que se expressa a religiosidade.
Em todo caso, é a que acabamos de registrar, apenas uma opinião ou, melhor, uma
impressão pessoal que ao leitor cabe julgar quanto à justeza que possa ser a ela atribuída.

Também, no campo da via religiosa para a dissipação da ignorância que, segundo a


visão judaico-cristã da nossa civilização, resultou da Queda ou Pecado Original, seria
injusto omitir o Espiritismo, codificado por Charles Rivail, mais conhecido pelos seus
seguidores como Alan Kardec, nome, segundo Rivail, do espírito desencarnado e muito
evoluído, que lhe revelou a mensagem de que ele passou a ser porta-voz e arauto. Entre
nós, o Espiritismo Kardecista, ou “de mesa” teve um surto considerável nas primeiras
décadas do século que vai chegando agora ao seu final, surto perturbado, segundo nossa
opinião, especialmente por dois outros fenômenos: os dos cultos religiosos afro-brasileiros,
e o dos desenvolvimentos de estudos de fenômenos que foram classificados como do
domínio da Parapsicologia, cujos pesquisadores, alguns, sacerdotes católicos, têm buscado
designar os fenômenos objetos de seus estudos, como decorrentes de potencialidades ainda
pouco conhecidas da mente, fenômenos que seriam paranormais, e deveriam ser tidos
como preternaturais, mas não, sobrenaturais. Na parte do esforço em que se tem
constituído para nós esta obra, dedicada à ciência, como via de dissipação da ignorância
188

que designamos como “externa”, à diferença da via religiosa que a humanidade tem
procurado palmilhar para a redução da ignorância que denominamos “interna”, ou
espiritual, a relutância de parapsicólogos à aceitação de alguma coisa que possa ser de
índole sobrenatural, reflete a aceitação, ainda hoje generalizada, entre o físico e o
metafísico como domínios irredutível e essencialmente distintos. Naquela parte dedicada à
ciência, sem confusão com o panteísmo que uma observação desatenta possa supor, vimos
que cada vez mais se esbate e desvanece aquela distinção. Feita a observação, parece-nos
justo também mencionar a presença entre nós de igrejas que, não sendo conseqüentes ao
protesto de Luthero e de Calvino, não têm seguido a orientação do papado. São igrejas
ditas do catolicismo ortodoxo, que não sofreu influência predominante do ocidente, e que,
em sua maioria, separou-se do catolicismo romano em meados do século XI. A razão
principal da ruptura foi a excomunhão, pelo papa Leão IX, do patriarca Miguel Cerulário, a
propósito de divergências de natureza teológica, a respeito da Terceira Pessoa da
Santíssima Trindade, o Espírito Santo.

A partir daí, ficou o Cristianismo dividido em dois ramos: o da cristandade


representada pelo Catolicismo Romano, no ocidente; e a cristandade representada pela
Igreja Ortodoxa, oriental. Por isso, ao nos referirmos à Reforma, na primeira parte desta
obra, assinalamos que ela marcou o grande cisma do Cristianismo no Ocidente. Há,
também, um catolicismo ortodoxo que se manteve fiel a Roma, preservando, entretanto,
algumas particularidades litúrgicas. Em todo caso, como o número dos fiéis ortodoxos em
nosso país, ligados à feição assinalada, e a outras que não chegaremos a mencionar, é
relativamente pequeno, ficaremos, apenas, com este registro. Os sumaríssimos dados que
acabamos de fornecer visam, assim, essencialmente, evitar uma omissão que por mais de
um motivo não seria justa. Inclusive pela respeitabilidade do extraordinário acervo cultural
do Cristianismo oriental.

O leitor, paciente e atento, terá percebido que, ao menos do ponto de vista deste
autor, há, no campo da religiosidade, dois dados que ressaltam com muita evidência: o que
designamos como pentecostalismo, atraindo multidões de criaturas aflitas, em busca de
alívio e de esperança pela via religiosa; e o fato, ao menos em nossa sociedade, do
extremado ecletismo - de resto garantido pela Constituição, cuja letra assegura o direito ao
exercício das convicções religiosas, não podendo ninguém ser discriminado em virtude de
tais ou quais opções, como não podendo sê-lo em conseqüência de convicções políticas ou
189

de diferenças raciais. As garantias constitucionais a que acabamos de referir-nos, de resto


respondem à realidade de uma população maciçamente propensa à religiosidade, embora
de feição pouco definida em face de múltiplos fatores da ordem social em que vivemos, e
dos quais, seguramente faz parte uma falta claríssima de instrução e orientação a nível
adequado. Por isso, funcionam livremente entre nós, locais de cultos que não precisam
esconder o tipo de atividades exercitadas em seus rituais. Fala-se, abertamente, em “magia
branca” e de “magia negra”, de “trabalhos para o bem ou para o mal”, sem que ocorra
qualquer perseguição realizada por autoridades legalmente constituídas.

As discriminações e perseguições de que algumas se queixam, referem-se a


rivalidade entre diferentes denominações a que, por vezes, fazem eco determinados setores
da mídia. Nada, entretanto, parece-nos, do porte da de que foi alvo uma denominação,
designada como “Igreja do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial”.

II.1.d – A Igreja do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo


Mundial

A referida igreja encontra seu fundamento teológico no volume em que está


compendiado o que foi até agora expresso pelo seu fundador, o Rev. coreano Dr. Sun
Myung Moon, a respeito do fundamento a que se refere. O redator do referido compêndio,
intitulado “Princípio Divino”, foi um seu seguidor, reconhecidamente erudito em Teologia,
de cuja redação resultou trabalho realmente muito complexo e, sem dúvida, insuscetível de
ser, de modo honesto e isento, objeto de crítica desrespeitosa. É bem verdade que ele
contém concepções surpreendentes que, como até agora temos buscado fazer, mostraremos
de maneira isenta, cabendo ao leitor julgar do seu valor, no que tange ao mérito. A esta
altura, o referido leitor, poderá estar se perguntando o motivo, ou os motivos, pelos quais
lhes serão fornecidos os dados e informações, a serem analisados pela sua consciência e
pela sua inteligência, no trecho que irá seguir-se do presente trabalho.

Linhas acima, destacamos a importância do pentecostalismo, e antes já havíamos


mencionado que todas as tendências pentecostais estão centradas no Espírito Santo e nos
carismas e dons por Ele distribuídos, segundo o relato, que nos permitimos fazer com
190

fidelidade comprovável, constante dos Atos dos Apóstolos e da I epístola do apóstolo


Paulo aos Coríntios. Na verdade, a Igreja fundada pelo Rev. Dr. Sun Myung Moon, tem
peculiaridades marcantes e não se assemelha a outras denominações evangélicas ou ao
Movimento de Renovação Carismática Católica. Não há como ocultar, entretanto, que em
sua própria designação, destaca o Espírito Santo e anuncia o propósito de promover a
unificação do Cristianismo mundial. No particular da união, em lugar da divisão, de certo
modo assemelha-se mais, dentre as que foram expostas neste livro, às idéias do Dr. Frank
Buchman, das quais muitas bastante significativas, foram explicitadas quando tratamos do
movimento por ele fundado, o “Rearmamento Moral”, cujo fundador e cujas idéias centrais
foram objeto de calorosa apreciação, inclusive quanto à sua operacionalidade e por sua
oportunidade, por vultos dos de maior projeção dentre os que tem conhecido o nosso
século.

Mas, antes mesmo de iniciar a exposição de aspectos fundamentais do “Princípio


Divino”, devemos dizer que, há cerca de quinze anos, foi a igreja que nele se baseia, de
fato objeto da mais demolidora campanha de que jamais tivemos conhecimento entre nós,
ao ponto de excitar os ânimos de muitas pessoas que, sem se aperceberem que estavam
sendo lideradas por alguns a quem possivelmente interessava impedir a expansão da, já
então, rotulada como “seita Moon”, no interior de cujas sedes passar-se-iam coisas sinistras
e criminosas, dispuseram-se a depredá-las, todas, ou quase todas, do norte ao sul do nosso
país. E isto a despeito das garantias à liberdade de culto constantes da Constituição em
vigor, àquele tempo, como continua garantida no texto atual da nossa Carta Magna.

Ora, o fato em si, de ter sido levada a cabo tão extensa e violenta perseguição
contra uma determinada instituição religiosa, a ponto de ser efetivada, em numerosos
casos, por intermédio da prática de violência física contra o patrimônio, representada por
arrombamentos de portas, de armários, gavetas, de sedes invadidas por grupos
aparentemente enfurecidos, levou-nos como, julgamos, a qualquer observador isento e
desapaixonado, a sentir que algo muito estranho, estaria por detrás de tudo isso. É que se
tratava de comportamento em absoluto desacordo com os hábitos de tolerância religiosa de
nossa gente, tolerância a que foi feita referência anteriormente, no curso deste trabalho. O
fundador do movimento religioso, alvo de tão surpreendente e insólita reação do nosso
povo, geralmente pacato, vinha sendo descrito como um aventureiro sinistro e desonesto,
cujos adeptos eram conquistados por meio de lavagens cerebrais praticadas contra jovens
191

incautos, para serem transformados em mão-de-obra praticamente escravizada a qual, por


intermédio de exaustivas jornadas de trabalho, vendendo flores, bombons e outras
miudezas, garantia o dinheiro que tão suspeita, para não dizer criminosa, organização,
necessitava.

A hipótese sobre a falta de escrúpulos e os propósitos desonestos do fundador,


cujos adeptos “robotizados”, designavam como “Pai”, era robustecida por abundante
noticiário acerca da sua condenação, nos EUA, por crime de sonegação fiscal.
Naturalmente não eram mencionadas prisões anteriores do mesmo personagem que, como
viemos a saber posteriormente, por fonte insuspeitável de facciosismo favorável a ele, já
estivera em campos de concentração e trabalhos forçados, ou campos de extermínio,
segundo alegam os seus adeptos, em virtude das condições de ausência do mínimo
indispensável a uma sobrevivência prolongada por parte dos aprisionados em tais campos.
Quem sabe essas passagens pela prisão não se encaixavam na imagem do trapaceiro cruel,
que agia motivado pela avidez por dinheiro, como era o personagem descrito, situando-o
no domínio dos criminosos comuns. É que aqueles campos eram situados na Coréia do
Norte, como se sabe, governada pelos adeptos do comunismo ou, melhor dizendo, pelos
adeptos do Materialismo Dialético, a forma mais dinâmica do materialismo, aquela cujo
principal autor, Karl Marx, certa vez mencionara, ao dizer que a Filosofia, até então, se
ocupara em descrever, ou interpretar, o mundo; e que era indispensável que, dali para
diante, fosse capaz de transformá-lo.

Referia-se sem dúvida ao fato de que a cosmovisão de que fora o arquiteto genial,
incluía necessariamente a negação de qualquer coisa fora ou distinta da matéria - portanto a
negativa da existência de um Deus criador - além de incluir, entre numerosas outras coisas,
a existência de leis internas da matéria, que operavam e eram o motor também da História,
e que o conhecimento humano deságua, inevitavelmente, na ação. Ora, ao tempo da
perseguição a que nos estamos referindo, em nada interessava a certo tipo de ativismo,
revelar que o seu alvo estivera detido, como prisioneiro, em campos de concentração, em
conseqüência de pregação religiosa que contrariava, obviamente, a quantos entendessem
que religião, qualquer que ela seja, constitui-se em “ópio do povo”, no sentido de que, ao
acenar para a existência de uma outra vida, de duração eterna, cujo transcorrer será ditoso,
na dependência da conduta humana, marcada pela resignação, pela tolerância e pelo amor
ao próximo, atenua os sentimentos que se constituem no combustível da “luta de classes”.
192

Tanto mais quanto, os acontecimentos a que nos estamos reportando neste momento,
ocorreram ainda ao tempo dos governos presididos por generais, não convindo, no caso da
perseguição movida contra a organização fundada pelo Rev. Dr. Sun Myung Moon,
descrevê-lo senão como um criminoso comum.

É que, supomos, muitos entendiam àquela época, que o referido Dr. Moon combatia
o comunismo, no sentido político, social e econômico em que os seus perseguidores, ou
adversários, entendiam o vocábulo. Não cogitavam da hipótese de que, no comunismo ele
pudesse ver, em primeiro plano, o materialismo, a negação da transcendência, o que outras
correntes filosóficas igualmente faziam, mas não com a mesma formidável
operacionalidade dos impregnados pela visão da luta como motor insubstituível da
História, por detrás dos quais estava a URSS, com o seu formidável poderio militar, o seu
suposto exemplo de sociedade igualitária e justa, a meta dos sonhos dos militantes de todos
os partidos que, sob tais ou quais designações o acalentavam. A esta altura, muitos leitores
estarão se perguntando sobre se esquecemos o compromissos da imparcialidade.87
Entretanto, até aqui estamos descrevendo e citando fatos que, se necessário, poderemos
provar que, no que porventura corrijam aspectos da imagem do Sr. Moon e dos seus
seguidores, em favor dos mesmos, foram obtidos de fontes contrárias a ele e às suas
atividades. Por exemplo, haverão de ter notado que o líder religioso coreano vem tendo o
seu nome precedido neste texto pela abreviatura “Dr.”.
87. Ao contrário, porém exatamente pelo compromisso com a imparcialidade, registre-se que a
sonegação fiscal, em conseqüência da qual foi condenado o líder religioso Dr. Sun Myung
Moon, é algo factual, não opinativo. Por esta razão, sentimo-nos na obrigação de nos
deter sobre fato tão grave, sobretudo quando se trata do perfil de quem se apresenta
como líder religioso, liderança cuja natureza é incompatível com práticas de
desonestidade e corrupção. Assim, para que o leitor possa, ele sim, avaliar a questão,
oferecemos à sua análise, os seguintes dados factuais:
1) O líder religioso em questão chegou aos Estados Unidos em 1971.
2) A Igreja por ele estabelecida naquele país passou a existir, do ponto de vista
jurídico, a partir de 18 de setembro de 1961.
3) A importância a que se referiu o processo em que foi condenado à prisão o Dr. Moon
era de US$ 7.300.
4) O processo em questão foi iniciado cerca de l0 anos após a prática da sonegação a
que se referia, cujo montante, acrescido de multas e juros correspondentes aos anos
transcorridos, totalizava US$ 25.000.
5) Aproximadamente na mesma época em que se deu a condenação do Reverendo coreano, a
Sra. Geraldini Ferraro, que fora acusada de sonegar cerca de US$ 29. 709, foi
condenada ao pagamento de multa, não à prisão. Também o Sr. George Bush, por falta
análoga, relativa a uma importância de US$ 129.000, foi condenado à pena pecuniária,
tal como a Sra. Ferraro, que chegou a candidatar-se à vice-presidência do seu país
pelo partido Democrático. Em ambos os casos, admitiram as autoridades competentes
que as sonegações não haviam sido praticadas com dolo - e daí, a sanção pecuniária,
não prisional.
6) A pena de prisão imposta ao Dr. Moon foi de 18 meses, da qual o condenado cumpriu
13, tendo sido beneficiado por indulto (?) concedido pela entidade AMICAS CURIAE.
7) A pena de prisão, imposta a um estrangeiro que, presumivelmente, nem sequer dominava
o idioma inglês ou, menos ainda, conhecia perfeitamente a legislação fiscal
americana, foi considerada, no mínimo como fruto de intolerância (bigotry), termo
usado em seu idioma, por jornalista da importância do Sr. Carl Sherwood. O citado
jornalista goza da reputação de ser um dos mais competentes repórteres
investigativos americanos, do que parece fazer prova o fato de ser talvez o único de
193

seu país, portador dos prêmios Pulitzer e Peadoby, cuja importância não precisa ser
realçada. O referido repórter publicou, como produto do seu trabalho sobre o
processo em que foi condenado à prisão o Dr. Moon, um alentado volume de cerca de
700 páginas, nas quais trata do que lhe pareceu um conjunto de irregularidades
processuais, fruto de perigosa intolerância.
Os dados desta nota são factuais, não opinativos. Cabe ao leitor, não a nós, julgar. Mantemos, assim, o nosso compromisso de
isenção que, obviamente, não deve implicar em omissão de informações pertinentes. (Nota do Autor

É que fontes contrárias a ele registram que ele possui o título de “doutor honoris
causa” da Universidade Católica de La Plata, Argentina. É verdade que segundo as
mesmas fontes, embora sem relação com a personalidade agraciada, autoridades
eclesiásticas do Vaticano fizeram restrições ao fato - ainda que o texto, para a finalidade,
considerado por nós insuspeito - não nos parecesse suficientemente claro no que dizia
respeito a restrições não referentes ao beneficiário do título honorífico a que nos estamos
referindo. De resto, o fundador da Igreja da Unificação - que é como os seus seguidores
abreviadamente a designam, - é formado em Eletricidade pela Universidade de Waseda, no
Japão. Outra informação surpreendente para quem considere o Dr. Moon uma espécie de
espertalhão reles, embora de sucesso invulgar no mundo dos negócios, citaremos para
apreciação pela inteligência do leitor, o fato de ter tido ele a oportunidade de falar perante
a Assembléia Geral das Nações Unidas, a cujo plenário foi apresentado pelo Sr. H. E.
Stoyan Ganev, Presidente da referida Assembléia, a 13 de Maio de 1993.

Em seu discurso de apresentação o Sr. Ganev, entre muitas outras considerações


acerca do papel da ONU como instrumento de promoção do ideal de paz entre os povos,
usou das seguintes expressões: “Portanto, nós das Nações Unidas, estamos dispostos
realmente a aceitar e aplaudir todos os esforços para a paz, das Igrejas e dos líderes
religiosos de todas as Religiões e das fontes filantrópicas de todas as partes do mundo.

“Nesse contexto, na reunião desta noite lança uma mensagem específica religiosa
de paz, o fundador do Movimento da Unificação, que é para ser comentada e merece
nossos elogios”.

E, mais adiante, acrescentou o mesmo Presidente da Assembléia Geral da ONU, Sr.


Ganev, ... “Contudo, freqüentemente no passado e mesmo neste século, indivíduos têm
sido perseguidos por possuir diferentes pontos de vista religiosos. Similarmente, diferenças
religiosas e filosóficas têm estado na raiz de vários conflitos que ocorreram através da
História e neste século. Se a paz deve prevalecer, todas as religiões e credos devem estar
livres e a tolerância universal deve ser uma regra.
194

“O Reverendo Sun Myung Moon tem dado contribuições construtivas em inúmeros


campos da diligência humana. Ele tem defendido a liberdade religiosa. Ele tem se oposto a
todas as formas de racismo e discriminação. Grupos de minorias, em toda parte do mundo
reconhecem suas contribuições. Durante os últimos cinqüenta anos ele tem trabalhado
arduamente para a paz e a união do mundo. Nessas últimas duas décadas, o Reverendo
Moon trabalhou nos Estados Unidos como se fosse o seu próprio pais, enfatizando o papel
da América no avanço da causa da paz, da liberdade e da justiça social.

“Seus méritos e conquistas teriam menos conseqüências se o Reverendo Moon não


fosse como ele é, um homem dedicado à paz e à união e, acima de tudo, uma pessoa
totalmente dedicada a Deus. Em palavras e prática, ele tem enfatizado a necessidade de
colocar Deus no centro de toda diligência humana. Para ele, Deus não é um conceito
filosófico, mas a fonte de uma existência significativa. Eu sei que uma das mais
importantes motivações para a apresentação desta noite é nos fornecer noções mais
profundas de seus esforços para promover a paz e a união mundiais.

“Portanto, todos nós o cumprimentamos e eu particularmente estou muito contente


por fazer isso e saudá-lo como um renomado líder religioso, um dedicado trabalhador da
paz mundial, e para lhe dar as boas vindas ao pódio”.

Na noite em que o Rev. Dr. Moon ocupou o pódio da Assembléia Geral da ONU,
estava acompanhado da Sra. Hak Ja Han Moon, sua esposa, e de um diplomata latino-
americano, designado pelo Sr. Ganev como Embaixador José Maria Chavez.

Ainda no aspecto factual, para os que imaginavam ser o Rev. Dr. Moon, na melhor
das hipóteses, um anti-comunista, no sentido já anteriormente assinalado, parecerão ainda
mais surpreendentes alguns trechos das declarações sobre ele feitas, pelo então “premier”
soviético, Sr. Gorbachev, antes da derrocada da poderosa URSS. As referidas declarações
foram feitas por ocasião de uma reunião promovida, em Moscou, de centenas de
representantes da mídia internacional, ex-chefes de governo de diferentes países,
parlamentares de diversas procedências, no ensejo da XI Conferência Mundial da Mídia,
patrocinadas, esta e as anteriores, pelo Rev. Dr. Moon. Aqui vão palavras do Sr. Mikhail
Gorbatchev: “Gostaria de agradecer pessoalmente ao Sr. Rev. Dr. Moon, do fundo do meu
coração, porque através desta conferência, a mídia internacional poderá mudar seu
195

conceito sobre determinados pontos que prejudicaram o desenvolvimento das relações da


União Soviética com o resto do mundo. Por o sr. ter criado esta oportunidade, Rev. Moon,
eu lhe agradeço do fundo do meu coração... “Tenho informações sobre seu incrível
fundamento mundial, Rev. Moon...” "Espero que, através de todo o fundamento econômico
que o Movimento da Unificação Internacional possui em muitos países, possa haver uma
contribuição, direta ou indireta, para o desenvolvimento da União Soviética”.

Em fontes contrárias à Unificação almejada pelo Rev. Dr. Moon, nos Estados
Unidos são mencionadas tantas personalidades e tantos episódios, que seria
demasiadamente extenso arrolar. Mencionaremos apenas o jornal que seu Movimento
possui em Washington, o Washington Times, que apoiou a eleição de Ronald Reagan,
candidato dos republicanos à Presidência e que, segundo uma daquelas fontes, teve um dos
seus jornalistas nomeado para funções tão elevadas na Casa Branca, que muitos círculos da
capital americana passaram a tê-lo como o “ghost writer” dos discursos do presidente.
Hoje, o nome do citado jornalista, tem aparecido no noticiário como pretendente à
indicação, pela Convenção do Partido Republicano, como candidato à próxima sucessão. A
fonte que nos falou do que acabamos de mencionar, avalia que, a serem verdadeiros os
rumores em questão, serão mínimas as chances de vitória do suposto candidato, sobre o
candidato que a mesma fonte considera, de longe, o favorito dos convencionais daquele
Partido. Fica o registro, a ser avaliado pelo leitor sob os diferentes ângulos em que a
avaliação pode ser feita.

Os dados até aqui arrolados e oferecidos à sua consideração, referem-se,


principalmente, à dimensão da obra da Unificação, posta em marcha pelo Rev. Dr. Moon,
bem como à maneira pela qual, ela e o seu impulsionador e criador, têm sido avaliados por
vultos da maior expressão do cenário internacional. Acrescentaremos, apenas, pela
extensão que já começa a ameaçar os limites sugeridos pelo editor para a extensão desta
obra, que estamos informados, igualmente, de que o presidente da Coréia do Norte o tem
hoje, não mais como um inimigo, mas como alguém sinceramente devotado à obra da paz
mundial. Da mesma maneira, o governo de Beijing, ou Pequim, como é mais conhecida
entre nós a capital da China continental o progresso da Igreja da Unificação, e o Rev.
Moon pensa em dar partida a uma linha de montagem de pequenos automóveis populares,
de marca comercial “Panda”, que se propõe produzir cerca de 1 milhão desses carros de
baixo preço, anualmente. Igualmente, sempre dentro da idéia central de aproximação de
196

povos, raças e culturas, já iniciou um projeto de ligação, por túnel, entre a Coréia e o Japão
cujos povos se têm olhado com desconfiança e ressentimento, ao longo da História.

Quanto às idéias desse líder religioso, que se anuncia como o Messias do Segundo
Advento, ficou dito que estão fundamentalmente compendiadas sob o título “Princípio
Divino”, obra extensa e muito complexa, mas que contém, de início, um extrato, um
“resumé”, que nos permitiremos transcrever na íntegra88, para que o leitor possa lê-lo e
avaliá-lo, conforme a sua inteligência e a sua consciência. Aqui vai ele, sob o título que lhe
é atribuído no compêndio a que nos estamos referindo - "Introdução Geral".

INTRODUÇÃO GERAL

Todos, sem exceção, estão lutando para alcançar a felicidade. O primeiro passo
para atingir esta meta é superar a presente infelicidade. Desde pequenos assuntos
individuais até os acontecimentos globais que fazem história, tudo são expressões das
vidas humanas, em sua luta para alcançar a felicidade. Como, então, a felicidade poderá ser
alcançada?

Toda pessoa se sente feliz quando seu desejo é satisfeito. A palavra “desejo”,
porém, é apta a ser mal interpretada. A razão disto é que todos estão agora vivendo em
circunstâncias que podem levar o desejo para a direção do mal, em vez da direção do bem.
O “desejo” que resulta em iniqüidade não vem da “mente original do homem”, isto é, o seu
ser íntimo, que se deleita na lei de Deus. O caminho da felicidade é alcançado quando a
pessoa supera o desejo que leva para o mal e segue o desejo que procura o bem. A mente
original do homem sabe que o desejo mau levará somente para a infelicidade e o
infortúnio. Assim é a realidade da vida humana; o homem está tateando nas trevas da
morte, procurando a luz da vida.

Por acaso já houve algum homem que, seguindo o caminho do desejo mau, tivesse
conseguido encontrar a felicidade, em que sua mente original pudesse se deleitar? A
resposta é “não”. Sempre que o homem atinge o objeto de seus maus desejos, sente a
agonia de uma consciência ferida. Existem, porventura, pais que ensinem seus filhos a

88. A transcrição que irá seguir-se foi devidamente autorizada, na forma exigida pelo editor do “Princípio Divino”, no Brasil. (Nota do
Autor).
197

fazer o mal, ou professores que instruam seus estudantes a seguir o caminho da iniqüidade?
Mais uma vez, a resposta deve ser “não”. É da natureza da mente original do homem odiar
o mal e exaltar o bem.

Nas vidas dos homens religiosos podem-se observar muitas tensas e implacáveis
lutas para atingir o bem, seguindo apenas o desejo da mente original. Contudo, desde o
começo dos tempos, nenhum homem jamais conseguiu seguir completamente sua mente
original. Por esse motivo, a Bíblia diz: “Não há um justo, nenhum sequer; não há ninguém
que entenda; não há ninguém que busque a Deus” (Rm 3.10-11).

O Apóstolo Paulo, que teve de enfrentar tal maldade do coração, diz em


lamentação: “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus, mas vejo em
meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende
debaixo da lei do pecado que está em meus membros. Miserável homem que eu sou”(Rm
7.22-24).

Existe uma grande contradição no homem. Dentro do mesmo indivíduo o poder da


mente original, que deseja o bem, está em violenta guerra contra o poder da mente má, que
deseja o mal. Toda vida, toda matéria, estão fadadas à destruição, enquanto contiver tal
contradição. Todos os homens que tiverem tal contradição dentro de si mesmos, estão
vivendo à beira da destruição.

Será possível que o homem tenha sido criado com tal contradição? A resposta mais
uma vez é “não”. Nada na criação poderia ter sido criado com tal contradição inerente.
Portanto, a contradição deve ter-se desenvolvido no homem depois da criação. No
Cristianismo, esse desenvolvimento tem o nome de “Queda do Homem”.

Devido à “Queda” o homem sempre se encontra à beira da destruição. Por isso ele
faz esforços desesperados para remover a contradição, seguindo o bom desejo de sua
mente original e repelindo o mau desejo de sua mente má.

Para a tristeza da humanidade, a resposta última à questão do bem e do mal ainda


não foi atingida. Com respeito às doutrinas de teísmo e ateísmo, se uma for julgada boa, a
outra deverá ser má. No entanto ainda não conseguimos uma teoria absoluta com respeito à
198

questão do bem e do mal. Além disto, muitas pessoas continuam em total ignorância a
respeito de respostas a muitas questões fundamentais, tais como: o que é a mente original,
a fonte do bom desejo? Qual foi a origem da mente má, que causou o desejo mau? Ou, o
que foi a causa fundamental da queda, que possibilitou ao homem conter tal contradição?
Antes de poder levar uma vida boa, seguindo o desejo bom da mente original e repelindo o
desejo mau, é necessário superar a ignorância e saber distinguir entre o bem e o mal.

Observada do ponto de vista do conhecimento, a queda humana significa a descida


do homem à escuridão da ignorância. Já que o homem contém dois aspectos, o interno e o
externo ou o espiritual e o físico, há também dois tipos de conhecimento, interno e externo
e dois tipos de ignorância, interna e externa.

Ignorância interna, no sentido religioso, significa ignorância espiritual, isto é, a


ignorância das respostas de questões tais como: qual é a origem do homem? Qual é a
finalidade de sua vida? Será que Deus e o mundo futuro existem? Que são o bem e o mal?

Ignorância externa é a ignorância da realidade física, isto é, a ignorância com


respeito ao mundo natural, que inclui o corpo humano, como também a ignorância de
questões tais como: qual é a base do mundo material? De acordo com quais leis naturais
ocorrem todos os fenômenos físicos?

Desde o primórdios da história até o presente, os homens, constante e


assiduamente, têm procurado a verdade, com a qual possam superar esta ignorância e
restaurar a luz do conhecimento. O homem tem lutado para descobrir a verdade interna
através do caminho da religião. A ciência tem sido a trilha seguida para a descoberta da
verdade externa.

A religião e a ciência têm sido métodos de procurar os dois aspectos da verdade, a


fim de superar os dois aspectos da ignorância e restaurar os dois aspectos do
conhecimento. O dia há de chegar quando a religião e a ciência hão de caminhar em um só
caminho, para que o homem possa desfrutar da felicidade eterna, completamente liberto da
ignorância, dirigindo-se para o bem, que a mente original deseja. Então haverá de vir a
compreensão mútua entre os dois aspectos da verdade, o interno e o externo.
199

O homem tem se aproximado de uma solução para as questões fundamentais da


vida, seguindo dois cursos diferentes. O primeiro curso é procurar a solução dentro do
mundo material. Aqueles que seguem esta rota, pensando ser uma trilha sublime, rendem-
se à ciência, orgulhando-se de sua onipotência e procuram a felicidade material. Contudo,
será que o homem pode desfrutar da felicidade total se ele limita sua busca às condições
materiais externas centralizadas no corpo físico? É possível à ciência criar um ambiente
social agradável, no qual o homem possa desfrutar de máxima riqueza, mas tal ambiente
poderia satisfazer os desejos espirituais do homem interior?

As alegrias passageiras do homem que se deleita nos prazeres da carne não são
nada quando comparadas com a felicidade experimentada por um homem que se devota a
Deus. Não foi somente Gautama Buda que, deixando a glória do palácio real, tomou a
longa jornada da vida à procura do caminho. Sua meta era o lar perdido do homem, o seu
estado antes da queda, o seu domicílio permanente, embora não soubesse onde encontrá-lo.
Assim como o homem é completo e sadio quando sua mente está em harmonia com seu
corpo, assim também acontece com a alegria. A alegria do corpo torna-se completa e sadia
quando está em harmonia com a alegria da mente.

Qual é o destino da ciência? Até agora, o objetivo da pesquisa científica não incluía
o mundo interno da causa, mas somente o mundo externo do efeito; não o mundo da
essência, mas somente o mundo dos fenômenos. Hoje a ciência está entrando numa
dimensão mais alta; não se preocupa somente com o mundo externo do efeito ou dos
fenômenos, mas começa a examinar também o mundo interno da causa e da essência.
Aqueles que tomaram a trilha da ciência estão agora chegando à conclusão de que sem a
verdade relativa ao mundo espiritual da causa, isto é, a verdade interna, o homem não pode
atingir a finalidade última da ciência, isto é, a descoberta da verdade externa, que pertence
ao mundo externo do efeito.

O marinheiro que se puser a viajar no mar do mundo material, levado pelo barco da
ciência à procura dos prazeres da carne, talvez encontre o litoral do seu ideal, mas logo
descobrirá que aquilo nada mais é do que um cemitério preparado para sua carne. Mas,
quando o marinheiro, depois de ter completado sua viagem à procura da verdade externa
no barco da ciência, vier a encontrar a rota marítima da verdade interna, no barco da
200

religião, ele será capaz de terminar sua viagem no mundo ideal, que é a meta do desejo da
mente original.

O segundo curso do esforço humano tem sido na direção da solução das questões
fundamentais da vida no mundo essencial da “causa”. A filosofia e a religião, que
percorreram esse caminho, fizeram contribuições substanciais. Por outro lado, tanto a
filosofia como a religião se encontram sobrecarregadas de muitos fardos espirituais. Em
sua própria época, os filósofos e santos do passado foram pioneiros na abertura do caminho
da vida, mas suas realizações freqüentemente resultaram no acréscimo de outros fardos
sobre o povo da época atual.

Consideremos este assunto objetivamente. Será que já existiu um filósofo que tenha
sido capaz de pôr fim ao sofrimento humano? Existiu alguma vez um santo que nos tivesse
mostrado claramente o caminho da vida? Os princípios e as ideologias até agora
apresentados à humanidade deram origem ao ceticismo, criaram muitos temas que devem
ser desemaranhados e numerosos problemas que devem ser resolvidos. As luzes
renovadoras, com as quais todas as religiões iluminaram suas respectivas idades,
desapareceram com o decair de sua idade, deixando apenas pavios de faíscas
enfraquecidas, brilhando tenuemente nas trevas que se aproximam.

Estudemos a história do Cristianismo. Por quase 2000 anos o Cristianismo cresceu,


professou a salvação da humanidade e estabeleceu um domínio mundial. Mas, o que é do
espírito cristão que projetou uma luz de vida tão brilhante que, mesmo nos dias da
perseguição sob o Império Romano, levou os romanos a ajoelharem-se perante Jesus
crucificado? A sociedade feudal medieval enterrou o Cristianismo vivo. Contudo, mesmo
em seu túmulo, a tocha da reforma religiosa cristã brilhou de novo sobre as trevas
ameaçadoras daquela idade. Não lhe foi possível, porém, virar a maré daqueles dias
obscuros.

Quando o amor eclesiástico expirou, quando o desejo agitado da riqueza material


varreu a sociedade da Europa e incontáveis milhões de pessoas das massas esfomeadas
gritavam amargamente nas favelas industriais, a promessa de salvação veio, não do Céu,
mas da terra. Seu nome era Comunismo. O Cristianismo, embora professasse o amor a
Deus, transformou-se no corpo sem vida do clero arrastando chavões vazios. Era, pois,
201

natural que uma bandeira de revolta fosse levantada contra um Deus aparentemente
impiedoso. A sociedade cristã tornou-se o foco do materialismo. Extraindo adubo deste
solo, o comunismo, a ideologia mais materialista de todas, cresceu rápida e
desenfreadamente.

O Cristianismo perdeu a capacidade de superar a prática do comunismo e não foi


capaz de apresentar uma verdade que pudesse sobrepujar a teoria comunista. Os cristãos
observam o comunismo crescer dentro de seu próprio meio, expandindo o seu domínio
sobre o mundo todo. Os cristãos, que ensinam e crêem que todos os homens são
descendentes dos mesmos pais, não gostam de sentar-se com irmãos e irmãs com pele de
cor diferente. Este é um exemplo representativo do Cristianismo de hoje, que é destituído
da força vital para praticar a palavra de Cristo.

Virá, talvez, o dia em que tais tragédias sociais terminarão, mas existe um vício
social que está além do controle de muitos homens e mulheres do dia de hoje: o adultério.
A doutrina cristã afirma que este é o maior de todos os pecados. Que tragédia não poder a
sociedade cristã de hoje bloquear este caminho de degradação para o qual tantas pessoas
correm cegamente.

O que esta realidade representa para nós é que o Cristianismo de hoje está em
estado de confusão, dividido pela túrbida maré da presente geração, incapaz de fazer coisa
alguma pelas vidas das pessoas que foram atraídas pela fúria do redemoinho da
imoralidade de hoje. Será, porventura, o Cristianismo incapaz de alcançar a promessa
divina da salvação para a era atual da humanidade? Qual seria o motivo pelo qual até agora
os homens de religião têm sido incapazes de realizar suas missões, mesmo tendo lutado
com empenho e devotamento em busca da verdade interna?

O relacionamento entre o mundo essencial e o mundo fenomenal é semelhante ao


que existe entre a mente e o corpo. É o relacionamento entre causa e efeito, interno e
externo, sujeito e objeto. Assim como o homem pode atingir a perfeita personalidade
somente quando sua mente e seu corpo estiverem harmonizados em perfeita unidade, assim
também o mundo ideal poderá ser realizado somente quando os dois mundos, o da essência
e o dos fenômenos, estiverem juntos em perfeita unidade.
202

Como acontece no relacionamento entre a mente e o corpo, assim também não pode
haver mundo fenomenal separado do mundo essencial, nem pode haver mundo essencial
separado do mundo fenomenal. Do mesmo modo, não pode haver um mundo espiritual
separado do mundo físico, nem pode haver felicidade espiritual separada da felicidade
física. A religião até agora tem colocado pouca ênfase no valor da realidade diária; tem
negado o valor da felicidade física a fim de enfatizar a consecução da alegria espiritual.
Mesmo fazendo extremos esforços, o homem não pode cortar-se da realidade, nem
aniquilar o desejo de ter a felicidade física que, como uma sombra, sempre o segue. Na
realidade, o desejo de ter felicidade física persistentemente se apodera dos homens de
religião, conduzindo-os aos vales da agonia. Tais contradições existem mesmo na vida dos
líderes espirituais. Muitos líderes espirituais tiveram um triste fim, dilacerados por tais
contradições. Aqui está a principal causa da fraqueza e inatividade da religião de hoje : a
fraqueza se encontra na contradição, que ainda não foi superada.

Também outro motivo tem conduzido a religião ao declínio fatal. O homem


moderno, cuja inteligência está muito desenvolvida, exige provas científicas para todas as
coisas. A doutrina religiosa, porém, que permanece inalterada, não interpreta as coisas
cientificamente, isto é, a interpretação da verdade interna pelo homem (religião) e sua
interpretação da verdade externa (ciência) não estão em acordo entre si.

A finalidade máxima da religião só pode ser realizada, primeiro, crendo na verdade,


depois, praticando-a. Contudo, hoje não pode haver verdadeira crença sem conhecimento e
compreensão. Nós estudamos a Bíblia para confirmar nossa crença através do
conhecimento da verdade. A realização de milagres por Jesus e a revelação de sinais eram
para levar o povo a saber que ele era o Messias, tornando possível que eles cressem nele. O
conhecimento vem da cognição e, hoje, o homem não pode ter cognição de coisa alguma
que não tenha lógica e nem prova científica. Para compreender alguma coisa, primeiro
deve haver cognição. Assim, a verdade interna também requer prova lógica. A religião tem
caminhado, através do longo percurso da história, para uma idade na qual ela deve ser
explicada cientificamente.

A religião e a ciência começaram com as respectivas missões de eliminar os dois


aspectos da ignorância humana. Em seus cursos, estas duas áreas de pensamento e
investigação têm, se encontrado em um conflito aparentemente irreconciliável. Para que o
203

homem possa atingir a boa finalidade do desejo da mente original, deve vir uma época em
que uma nova expressão da verdade venha a existir, tornando a humanidade capaz de unir
estes dois assuntos sob um só tema unificado. Estas duas matérias são a religião, que tem
se aproximado da ciência, e a ciência, que está cada vez mais perto da religião.

Talvez desagrade a crentes religiosos, especialmente aos cristãos, aprenderem que


deve surgir uma nova expressão da verdade. Acreditam que a Bíblia que agora têm é
perfeita e absoluta em si mesma. A verdade, logicamente, é única, eterna, imutável e
absoluta. A Bíblia, porém, não é a própria verdade, senão um livro de textos que ensina a
verdade. Naturalmente, a qualidade do ensinamento, o método e a amplitude da verdade
dada, devem variar de acordo com cada idade, pois a verdade é dada a povos de épocas
diferentes, cujos níveis espirituais e intelectuais são diferentes. Portanto, não devemos
considerar um livro de textos como absoluto em todos os detalhes.

A religião veio a existir como um meio de realizar a finalidade do bem, seguindo o


caminho de Deus, de acordo com a intenção da mente original. A necessidade de variadas
espécies de conhecimentos obrigou a aparição de várias religiões. As escrituras das
diferentes religiões variaram de acordo com a missão da religião, com o povo que as
recebeu e com a idade em que vieram. A escritura pode ser comparada a uma lâmpada que
ilumina a verdade. Sua missão é espalhar a luz da verdade. Quando uma luz mais brilhante
aparece, extingue-se a missão da antiga. Todas as religiões de hoje falharam em conduzir a
presente geração do vale escuro da morte para o brilho da vida, de forma que deve agora
surgir uma nova verdade, que possa espalhar nova luz.

Muitas passagens da Bíblia dizem que novas palavras de verdade serão dadas à
humanidade nos “Últimos Dias”.

Qual será a missão da Nova Verdade? Sua missão será apresentar, sob um só tema
unificado, a verdade interna, que a religião tem buscado, e a verdade externa, procurada
pela ciência. Deve também procurar superar tanto a ignorância interna como a externa do
homem e oferecer-lhe o conhecimento interno e externo. Deve eliminar a contradição
interna do homem, que é receptivo tanto ao bem como ao mal, ajudando o homem decaído
a resistir ao caminho do mal e a alcançar a finalidade do bem. Para o homem decaído, o
conhecimento é a luz da vida e tem a força da revivificação; a ignorância é a sombra da
204

morte e a causa da ruína. Nenhum sentimento ou emoção pode ser derivado da ignorância;
nenhum ato de vontade pode surgir da ignorância. Por isso, quando o conhecimento, a
emoção e a vontade não funcionam devidamente no homem, não vale mais a pena viver.

Já que o homem foi criado para ser incapaz de viver separado de Deus, como a vida
deve ser infeliz, quando ele se encontra na ignorância sobre Deus! Contudo, será que o
homem pode conhecer a Deus claramente, mesmo que diligentemente consulte a Bíblia?
Além disso, como poderá o homem vir a conhecer o coração de Deus? A Nova Verdade
deve ser capaz de nos informar sobre Deus como uma realidade. Deve também ser capaz
de revelar Seu coração e sentimento de alegria por ocasião da criação, Seu coração partido
e sentimento de dor ao lutar para salvar o homem decaído que se rebela contra Ele.

A história humana, tecida com vidas de homens que se inclinam tanto para o bem
como para o mal, está repleta de narrativas de lutas. Estas lutas têm sido batalhas externas
com respeito a propriedade, terras e homens. Hoje, porém, a luta externa está diminuindo.
Povos de nações diferentes vivem juntos sem racismo. Lutam pela realização de um
governo mundial. Os vencedores das guerras procuram libertar suas colônias, dando a elas
direitos iguais aos direitos dos grandes poderes. Relações internacionais, anteriormente
hostis e discordantes, são harmonizadas em tomo de problemas econômicos semelhantes,
ao moverem-se as nações para a formação de sistemas de mercado comum em todo o
mundo. Enquanto isso, a cultura está circulando livremente; o isolamento das nações está
sendo superado e a distância cultural entre o Oriente e o Ocidente está sendo interligada.

Resta, portanto, uma guerra final diante de nós, ou seja, a guerra entre as ideologias
da Democracia e do Comunismo. Estas ideologias em conflito interno estão agora em
preparação para outra guerra externa, estando ambos os lados equipados com armas
terríveis. As preparações externas são, na realidade, para a luta de uma guerra interna
(espiritual) final e decisiva. Quem haverá de triunfar? Todo aquele que acredita na
realidade de Deus responderá: a Democracia. Contudo, a democracia de hoje não está
equipada com uma teoria ou prática que seja suficientemente poderosa para conquistar o
Comunismo. Por isso, para que a providência da salvação de Deus seja completamente
realizada, a Nova Verdade deve levar toda a humanidade a um novo mundo de bem
absoluto, através da elevação do espiritualismo defendido no mundo democrático a uma
nova e mais alta dimensão, finalmente até mesmo assimilando o materialismo. Desta
205

maneira, a verdade deve ser capaz de unir, em um só caminho absoluto, todas as religiões
existentes, como também todos os “ismos” e idéias que existiram desde o início da história
humana.

Algumas pessoas, de fato, se recusam mesmo a acreditar na religião. Não acreditam


porque não conhecem a realidade de Deus e do mundo futuro. Contudo, mesmo que usem
toda sua força para negar a realidade espiritual, é da natureza do homem aceitar e crer
naquilo que é provado de maneira científica. É também uma manifestação da natureza
inerente do homem sentir-se vazio, fútil e apreensivo consigo mesmo se tiver colocado a
finalidade máxima de sua vida no mundo externo das coisas diárias. Quando uma pessoa
passa a conhecer Deus através da Nova Verdade, compreende a realidade espiritual e
percebe que a finalidade fundamental da vida deve ser colocada não no mundo externo da
matéria, mas no mundo interno do espírito. Todos os que estão percorrendo este caminho
único haverão de encontrar-se um dia como irmãos e irmãs.

Já que toda a humanidade deverá encontrar-se desta maneira, como irmãos e irmãs,
num destino único por meio desta Verdade única, como seria o mundo fundado sobre esta
base? Seria o mundo em que toda a humanidade teria formado uma só grande família sob
Deus. A finalidade da verdade é buscar e alcançar o bem, e a origem do bem é o próprio
Deus. Por isso, o mundo realizado através desta verdade seria o mundo em que toda a
humanidade viveria em maravilhoso amor fraterno sob Deus como nosso Pai. Quando o
homem perceber que, ao fazer de seu próximo uma vítima para seu próprio benefício, o
sofrimento que lhe advém do remorso da consciência é maior do que as vantagens que
obtém de seu ganho injusto, descobrirá que lhe será impossível prejudicar seu próximo.
Por isso, quando o verdadeiro amor fraterno aparecer no fundo do coração do homem, ele
não poderá fazer nada que venha a causar sofrimento a seu próximo. Como isto se aplicaria
mais ainda a homens que vivessem em uma sociedade, na qual tivessem experiência do
sentimento real de que Deus é seu Pai, transcendente de tempo e espaço, que observa todas
as suas ações, e que este Pai quer que nós nos amemos uns aos outros a cada momento? O
novo mundo, que será estabelecido pela nova verdade, introduzirá uma nova idade em que
a história pecaminosa da humanidade será liquidada. Deverá ser um mundo no qual pecado
algum jamais poderá existir. Na história humana até agora, mesmo os que acreditam em
Deus cometeram pecados. Sua fé em Deus tem sido na forma de conceito, em vez de ser na
forma de uma experiência viva. Se o homem sentisse a presença de Deus e conhecesse a lei
206

celeste de que os pecadores são mandados para o inferno, quem então ousaria cometer
pecado?

O mundo sem pecado poderia ser chamado de “Reino do Céu”, mundo este que
todos os homens decaídos há muito têm buscado. Sendo este mundo estabelecido como
realidade na Terra, poderá ser chamado de “Reino de Deus na Terra”.

Podemos assim chegar à conclusão de que a finalidade máxima da providência da


salvação de Deus é estabelecer o Reino de Deus na Terra. Já ficou claro, da exposição
anterior, que o homem caiu da graça e que a queda humana veio depois da criação do
homem. Do ponto de vista da realidade de Deus, torna-se evidente a resposta à questão
sobre que tipo de mundo Deus originalmente desejava na criação. Podemos aqui dizer,
contudo, que este mundo é o Reino de Deus na Terra, no qual a finalidade da criação de
Deus é realizada.

Por causa da queda, porém, a humanidade não tem sido capaz de realizar este
mundo. Ao invés, o homem produziu o mundo do pecado e caiu na ignorância. Por isso, o
homem decaído tem lutado incessantemente para restaurar o Reino de Deus na Terra, o
qual Deus originalmente desejava. Ele tem feito isto, superando a ignorância interna e
externa, para buscar o bem máximo no decurso de todos os períodos da história humana. A
história da humanidade, portanto, é a história da Providência de Deus na qual Ele pretende
restaurar o mundo em que a finalidade de Sua criação é realizada. Para restaurar o homem
decaído de volta ao seu devido estado original, a nova verdade deve ser capaz de revelar a
ele o seu destino final no curso da restauração, ensinando-lhe a finalidade original da
criação, para a qual Deus criou o homem e o universo. Muitas questões devem, pois, ser
respondidas.

Será que o homem caiu pelo ato de comer o fruto da Árvore da Ciência do Bem e
do Mal, como diz a Bíblia literalmente? Se assim não foi, qual é a causa da queda humana?
Como poderia o Deus de perfeição e beleza criar o homem com a possibilidade de cair?
Por que razão Deus não pôde impedir que o homem viesse a cair, já que Ele, sendo
onipotente e onisciente, devia saber que a queda viria a acontecer? Por que Deus não pôde
salvar o homem pecaminoso em um só instante, sendo Ele todo poderoso? Estas e muitas
207

outras questões têm desassossegado a mente dos profundos pensadores e devem ser
resolvidas pela Nova Verdade.

Quando se observa a natureza científica do mundo pode-se concluir que Deus, o


criador, é a própria origem da ciência. Já que a história humana é a providência de Deus
para restaurar o mundo à sua finalidade original da criação, deve ser verdade que Deus, o
mestre de todas as leis, tem dirigido a história providencial com um plano e uma ordem.
Por isso, é nossa tarefa urgentíssima descobrir como foi que a história pecaminosa da
humanidade começou, que tipo de curso ela deve seguir, de que maneira será concluída e a
que tipo de mundo a Providência finalmente conduzirá a humanidade. A Nova Verdade,
pois, deve ser capaz de resolver todas as questões da vida. Com o esclarecimento de todas
estas questões, a realidade de Deus, como um ser absoluto que planeja e guia a história,
não pode ser negada. Quando a verdade for conhecida, todos virão a compreender que os
acontecimentos históricos que o homem viu e experimentou são as reflexões do coração de
Deus, lutando para salvar o homem decaído.

Além disto, a Nova Verdade deve ser capaz de estudar claramente todos os difíceis
problemas do Cristianismo, porque o Cristianismo tem um papel importante na formação
da esfera cultural mundial. As pessoas intelectuais não podem satisfazer-se apenas ouvindo
que Jesus Cristo é o filho de Deus e o Salvador da humanidade. Muitas controvérsias
surgiram nos círculos teológicos no sentido de entender o significado mais profundo das
doutrinas cristãs. Assim, a Nova Verdade deve ser capaz de esclarecer o relacionamento
entre Deus, Jesus e o homem, à vista do princípio da criação. Além disso, as difíceis
questões da Trindade devem ser esclarecidas. A questão sobre o motivo por que a salvação
da humanidade por Deus foi possível apenas através da crucifixão de Seu filho, deve ser
respondida. Quando vemos que nenhum pai pode jamais gerar um filho sem pecado, com
direito ao Reino do Céu, sem redenção por um salvador, não é isto boa prova de que os
pais ainda transmitem o pecado original a seus filhos, mesmo depois de seu próprio
renascimento em Cristo? Esta investigação conduz a mais uma pergunta: até que ponto
houve redenção pela cruz?

Tem sido vasto o número de cristãos, durante os 2000 anos de história cristã, que
tinham plena confiança de terem sido completamente salvos pelo sangue da crucifixão de
Jesus. No entanto, na realidade, nenhum indivíduo, lar ou sociedade foi estabelecido sem
208

pecado. Na verdade, o espírito cristão tem estado na trilha do declínio dia após dia. Por
isso, restam muitos problemas difíceis, conduzindo a uma contradição central entre a atual
realidade do Cristianismo e a crença da redenção completa pelo resgate da cruz. A Nova
Verdade que buscamos deve explicar todas estas questões clara e completamente. Há mais
questões como: por que Cristo virá de novo? Quando, onde e como virá? De que maneira a
ressurreição dos homens decaídos será realizada? Qual é o sentido das profecias bíblicas
que dizem que o céu e a terra serão destruídos por fogo e outras calamidades naturais? A
Nova Verdade deve fornecer a chave de todos estes difíceis mistérios bíblicos, que estão
escritos em parábolas e símbolos e deve fazer isto em linguagem clara, de modo que cada
um possa entender, como Jesus disse em João 16.25.

Mediante estas respostas e somente mediante verdades claras, todas as


denominações serão unidas à medida que as divisões causadas por diferentes interpretações
das passagens bíblicas forem eliminadas.

Esta Nova Verdade, máxima e final, porém, não pode vir nem da pesquisa sintética
das escrituras ou da literatura, feita por algum homem, nem de cérebro humano algum.
Como diz a Bíblia: “Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas
e reis” (Ap. 10.11). Esta Nova Verdade deve aparecer como uma revelação do próprio
Deus. Esta Nova Verdade já apareceu!

Com a plenitude do tempo, Deus enviou Seu mensageiro para resolver as questões
fundamentais da vida e do universo. Seu nome é Sun Myung Moon. Por muitas décadas ele
vagou em um vasto mundo espiritual à procura da verdade última. Neste caminho ele
suportou sofrimentos ainda não imaginados por pessoa alguma na história humana.
Somente Deus se lembrará disto. Sabendo que ninguém pode encontrar a verdade última
para salvar a humanidade sem passar pelas mais amargas provas, ele lutou sozinho contra
uma multidão de forças satânicas tanto no mundo espiritual como no mundo físico e,
finalmente, triunfou sobre todas elas. Desta maneira ele entrou em contato com muitos
santos no paraíso e com Jesus, revelando assim todos os segredos celestes mediante sua
comunhão com Deus.

O Princípio Divino revelado neste livro é apenas parte desta Nova Verdade. Nós
registramos aqui o que os discípulos de Sun Myung Moon até agora ouviram e
209

testemunharam. Nós acreditamos com alegre expectativa que, com o passar do tempo,
partes mais profundas da verdade serão continuamente reveladas. É nossa oração mais
sincera que a luz da verdade rapidamente encha toda a Terra.

EM CONCLUSÃO

Sem nenhuma presunção sugerida pela falta de modéstia, acreditamos ter sido
mantido o compromisso inicial relativo à isenção. Isenção inspirada no respeito que quem
se comunica com o grande público deve a quem lhe concede a sua atenção; respeito que
supõe, igualmente, sinceridade e coragem. Assim, de quanto foi exposto até agora, em que
vamos terminando este esforço, e somente nós e Deus sabemos o quanto de sacrifício ele
representou para quem se abalançou a levá-lo a cabo, nas circunstâncias especialíssimas
em que o fizemos, queremos dizer que estamos convencidos desde há muito - quem
conhece a nossa obra que tem enfrentado, além das limitações pessoais, as que são
impostas muitas vezes por tantos dos que “falam de liberdade, mas para ocultar a malícia”
- sabe que nunca aceitamos que o Universo possa ser entendido como obra do acaso e da
necessidade. Que sempre nos pareceu mais razoável a aceitação da existência de algo
capaz de explicar-lhe a atividade e a harmonia, atividade que a tão conhecida “lei dos
contrários”, estabelecida em Filosofia marxista da Natureza, alicerce sobre o qual,
principalmente, foi erigida a cosmovisão do materialismo dialético, não pode explicar. Por
mais de uma vez, e desde há muitos anos, pareceu-nos que à idéia de oposição ou de luta,
que o materialismo dialético supunha existente, na verdade era superposta a uma realidade
que sugeria a concepção dual como, em exemplo simples, os eletrodos em um elemento
galvânico, que a nosso ver, como que cooperavam, não se opunham ou contrariavam.
Livros escritos, ou talvez, como outros desejariam, “perpetrados”, por nós, há décadas,
registravam o caráter a nosso ver, arbitrário, da interpretação que Engels daria acerca do
funcionamento do mesmo elemento galvânico. De outra parte, parece-nos bastante claro
que o preconceito e a intolerância, não apenas geram mal-estares e conflitos, como não
são, seguramente, as melhores disposições para que se possa entender o objeto da nossa
análise, a propósito de idéias eventualmente diferentes daquelas por nós conhecidas e
aceitas anteriormente. Assim, fica explicada a insistência das nossas referências, em
210

palestras, artigos, livros, acerca de pensamento de Stuart Mill relativo ao fato de que o que
os homens fazem, depende do que eles pensam, a que nós sempre nos atrevemos a
acrescentar - “e do que eles sentem”. Da mesma maneira como sempre repetimos o que se
depreende do pensamento de Fulton Sheen, correlacionando a desordem que reina na
sociedade, com a que reina em nosso íntimo, de nós todos que a compomos. Também
julgamos indispensável declarar que, para nós, a fé é uma graça, não algo a que se chega
por intermédio de um silogismo; não nos consideramos gnósticos, mas compreendemos
que, nos dias de hoje, chegar a ela será mais fácil sobre a base de explicações que não se
nos afigurem ininteligíveis, ou que ao menos não estejam presentes em número
desnecessariamente elevado. Com Arnold Toynbee, e com tantos outros, entendemos ainda
que, sem uma revolução interior, de natureza filosófica e religiosa, capaz de mudar a
ordem das prioridades, de fato, dominantes - a despeito dos mantos com que procuram
esconder a sua verdadeira face, - podem mudar os métodos, os processos e as dimensões da
motivação de que elas se originam, mas não desaparecerão os sofrimentos e o caos
presentes em nossos dias e que, tudo indica, tendem a acentuar-se, no plano do que os
homens fazem desastradamente, como mariposas atraídas pela lâmpada cujo calor irá
mata-las. Exemplo claríssimo desse desatino, podemos ter na maneira, por vezes
grosseiramente intolerante, com que adeptos de diferentes correntes religiosas se atacam
uns aos outros. Às vezes, facções ou correntes de uma mesma religião. Quando se trata de
denominações cristãs, parecem incapazes de entender a explícita condenação que o
apóstolo Paulo faz, acerca de divisões, para ele motivadas por questões puramente
humanas. Nem a relevância que dá à caridade, como a mais importante das três virtudes
teologais. Em virtude do radicalismo intolerante, a ignorância, não humilde para
reconhecer-se como tal e, confundindo falhas humanas com erros doutrinários, encontra
pretexto para dar vazão a atitudes que não chega a perceber que desmentem a própria
essência do espírito cristão. Cumpre esclarecer que o vocábulo ignorância refere-se ao seu
sentido lato e não, apenas, à acepção em que ele é comumente empregado, de falta ou
insuficiência de escolaridade.

Por outro lado, ao transcrever, na íntegra, o “resumé” do “Princípio Divino”, que


compendia, como já dissemos, o que até agora foi ensinado pelo Rev. Dr. Sun Myung
Moon, fizemo-lo por considerar a Igreja do Espírito Santo para a Unificação do
Cristianismo Mundial, algo baseado em afirmações que a distinguem, nitidamente, do
Catolicismo Romano, como do Catolicismo Ortodoxo, bem como das denominações
211

protestantes e do pentecostalismo em geral, protestante ou relativo à chamada Renovação


Carismática Católica. De resto, diferencia-se também, em muitos aspectos, de outras
grandes religiões, fora do campo do Cristianismo.

O fundador da Igreja da Unificação, cumpre informar, a despeito de oriental,


coreano como é, do ponto de vista confessional, foi, como seus pais anteriormente
convertidos, cristão Presbiteriano.

O “Princípio Divino”, embora não sejamos o melhor juiz para julgar, revela a
preocupação de quem o ditou, de conciliar, visando a unificação do Cristianismo,
diferenças até aqui tidas como insuperáveis, por intermédio de reinterpretação de
determinadas passagens do Antigo, como do Novo Testamento - além de conceitos novos
fundados, segundo quem se anuncia como o Messias do 2o Advento - em revelações que
lhe teriam sido feitas ao longo de uma vida de orações, devoção e sacrifícios. De nossa
parte, queremos dizer que, no conjunto, pareceram-nos os objetivos enunciados, e a
argumentação desenvolvida, os mais inteligíveis dentre quantos, de mesma natureza,
conhecemos. A própria hipótese da adulteração da linhagem humana, que figura no texto
completo do “Princípio Divino”, como conseqüência de conjugação sexual entre Lúcifer,
simbolizado na Serpente, e Eva; conjugação realizada, não com base no amor, como o
concebera Deus, mas na lascívia, parecerá menos absurda quando nos lembremos dos
relatos do medievo, referentes a íncubos e súcubos, sobretudo os segundos, tão conhecidos
e divulgados como “Pombas-Giras”, que se fariam presentes em locais de cultos afro-
brasileiros.

Entretanto, reconhecendo a nossa dupla insignificância, em qualidades espirituais e


em conhecimentos teológicos, e admitindo que a fé sobrenatural não pode ser,
inevitavelmente, conquistada, mas é uma graça a ser buscada também na misericórdia de
Deus, acreditamos já ter dito, com franqueza, lealdade e respeito aos que lerem este livro,
tudo quanto, neste instante em que damos por encerrado o seu texto, podemos dizer com
segurança1.

Que aquela misericórdia possa vir em socorro da luta está presente, no nosso, como
no íntimo de todos os seres humanos, como esteve no íntimo do próprio apóstolo Paulo,

1. Por dever de consciência e respeito aos leitores, devemos acrescentar que a segurança assinalada resultou da leitura do “Princípio
Divino” o qual, a nosso juízo, enfrenta e projeta intensa luz sobre pontosnodais de dúvidas que têm alimentado divergências, que,
certamente, não são prazerosas para a fonte de todo o amor. Lemos, também, atentamente, sobre os referidos pontos, as opiniões
212

segundo o seu lamento, registrado nas Escrituras. Luta da qual são projeções, ampliadas, os
conflitos e violências que tanta dor têm trazido à humanidade.

E que Deus nos proteja a todos.


213

ÍNDICE

Prefácio................................................................................................. 2
Agradecimentos.................................................................................... 3
Esclarecimento Indispensável.............................................................. 4

I – PARTE
A DEGRADAÇÃO QUE ESTÁ EM MARCHA
Aparências epidérmicas e motivações profundas................................. 7
I.1 – A balbúrdia que torna possíveis perigosas manipulações............ 7
I.2 – As motivações profundas............................................................. 18
I.3 – Aprofundando, ainda mais, o mergulho...................................... 34
I.4 – Ordenando idéias, para prosseguir............................................... 76
I.5 – Começando a usar uma lente “ zoom”..................................... 84
I.6 – Esclarecendo o entendimento que temos acerca de expressões
apenas mencionadas..................................................................... 99
I.7 – A Ciência atual e a questão da cognoscibilidade da realidade..... 122
Intervalo entre as I e II Partes............................................................. 149

II – PARTE
A RESTAURAÇÃO, POSSÍVEL, DA JUSTIÇA E DA PAZ 161
II.1 – As contribuições da Ciência e da Religião................................. 161
II.1.a – O caminho pelo “Rearmamento Moral”.................................. 172
II.1.b – O caminho da Igreja Católica Apostólica Romana................. 176
II.1.c – A Reforma, o Pentecostalismo e outras influências menores.. 182
II.1.d – A Igreja do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo
Mundial.................................................................................... 189
INTRODUÇÃO GERAL..................................................................... 196
EM CONCLUSÃO.............................................................................. 209