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A POESIA LÍRICA

A maioria das formas líricas têm origem ou na Antiguidade aquele aspecto versificatório. Uma excelente questão, de facto.
Clássica ou no período Renascentista; mas este facto não impli- Recordo, uma vez mais, que a lírica nasceu da oralidade, pelo
ca que estas sejam as únicas formas possíveis. Todos os povos que a língua tem um papel primordial na sua definição.
desenvolveram formas líricas, ou poéticas, ditas tradicionais ou
populares que, apesar de nascidas na oralidade do povo, vêem O Latim era uma língua que utilizava vogais longas e curtas, tal
os seus ritmos serem adoptados por grandes poetas. Estas for- como a língua chinesa utiliza diversos tons para cada vogal.
mas poéticas vivem de uma sonoridade e um ritmo muito liga- Assim, a distribuição dessas vogais, longas ou curtas, era indis-
dos à sonoridade e ao ritmo da própria língua em que são com- pensável à criação de um ritmo poético. A língua portuguesa
postos. Portanto, é normal diferentes povos e diferentes línguas não possui essa diferenciação entre vogais, pelo que outro
desenvolverem formas poéticas diferentes entre si. aspecto versificatório ganhou proeminência.
Um exemplo é a poesia da actualidade portuguesa e a poesia O conteúdo dos textos líricos também varia de acordo com as
da antiguidade latina. Quando perguntados sobre quais são as sociedades e épocas, sendo um espelho não só das preocu-
características básicas da poesia, quase todos referirão, antes pações estéticas como das mentalidades e preocupações soci-
de mais, uma estrutura de versos e estrofes e, embora já não ais, culturais e religiosas entre outras. Por esta razão, os sone-
seja obrigatória em todas as produções poéticas, a rima. Por tos foram uma forma lírica que caiu em desuso tão frequente-
isso, ao olharmos para as poesias de outras sociedades e tem- mente quanto voltou à moda. É por isto que se aconselha aos
pos, esperamos encontrar a mesma preocupação com a organi- construtores de mundos que, se estão interessados em constru-
zação em versos e estrofes e com a utilização de rima. No ir uma literatura para um seu povo, definam primeiro alguns
entanto, e pegando no exemplo latino, os poetas de então não aspectos básicos da língua e da mentalidade desse povo, para
procuravam a rima. O que eles procuravam, de facto, era a cri- que depois poderem delimitar os conteúdos a ser abordados e
ação de versos onde o jogo entre vogais longas e curtas, moldar a forma que a sua lírica irá apresentar.
sílabas tónicas e átonas, criasse um ritmo pré-definido. Hoje,
esse ritmo é ainda utilizado na poesia, mantendo alguma Eis, agora, os vários elementos que constituem as regras da
importância, mas não é de modo nenhum um aspecto de versificação e que dão corpo aos diferentes géneros que a líri-
importância primordial como o era para os poetas latinos. ca inclui, os quais abordaremos mais adiante:
Portanto, uma sociedade (ou conjunto de sociedades que parti- - o verso
lhem uma mesma estética literária) irá definir a importância com - a estrofe
que os diferentes aspectos versificatórios se revestem para a - as sílabas e a métrica
sua poesia de acordo com vários aspectos. A próxima questão - a rima
é quais são esses factores que dão maior relevância a este ou - o esquema rimático

GÉNEROS LÍRICOS
Os textos líricos podem ser agrupados em diferentes géneros, de acor- - Hino
do com o seu tema, assunto e forma. Eis alguns dos géneros mais re- * Celebra uma divindade, uma nação, uma personalidade ou aconte-
presentativos: cimento extraordinários, ou um ideal religioso, cívico ou patriótico.
- Balada * Geralmente, é cantado, não recitado.
* De origem medieval, era um poema acompanhado por música, can- - Ode
tado durante os bailes e festas. * Oriunda da Grécia, começou por referir qualquer tipo de canto, ale-
* A sua forma evoluiu de formas muito diversas de região para região. gre ou triste. Por volta do século VII a.C., passou a designar uma
* Actualmente, refere um poema simples, lírico, que pode ser acom- composição subjectiva, que cantava os sentimentos do sujeito lírico.
panhado musicalmente. Píndaro, no século VI a.C., usou a Ode para cantar as vitórias atléti-
- Canção cas dos festivais, as quais serviam de motivo para o verdadeiro objec-
* De origem medieval: destinado ao canto, era um poema de tom líri- tivo: exaltar os valores morais, os valores da poesia, etc.
co e erudito na época trovadoresca. * Escrita em estilo elevado, é utilizada para temas como:
* Na época Renascentista, adopta novas normas de versificação e é - louvor de cidadãos ou eventos públicos
usada preferencialmente para temas amorosos. - prazeres da vida ou encantos da vida rústica
* Depois do século XV, torna-se um poema simples, usado igual - reflexões morais e filosóficas
mente para temas morais e heróicos. - Tipicamente, é composta por: estrofe, antístrofe e epodo
* Normalmente, a canção é composta por: - Quadra Popular
- introdução - apresenta o espaço e o tempo em torno do sujeito * É a forma lírica mais comum entre o povo; foi também utilizada por
lírico poetas de renome.
- texto - desenvolvimento do assunto * Composta por 4 versos de sete sílabas (redondilha maior), a rima
- cabo ou finda - conclusão e dedicação da canção a uma perso- surge geralmente no 2º verso e 4º versos, sendo os outros dois ver-
nalidade sos brancos (sem rima).
* De acordo com o assunto, pode ser chamada: * A quadra popular pode ser composta por uma única estrofe ou por
- canção amorosa (ou cantiga de amigo e cantiga de amor) várias.
- canção filosófica - Sextina
- canção patriótica * De origem medieval (trovadoresca), possui uma forma complexa de
- canção satírica (ou cantiga de escárnio e maldizer) seis estrofes de seis versos e com a repetição de determinadas
- Cantata - quando a canção se debruça sobre um assunto eleva- palavras de estrofe para estrofe.
do - Soneto
- Madrigal - quando a canção exprime um galanteio * De origem italiana, na época Renascentista, desenvolveu duas for-
- Écloga mas distintas:
* Poema sobre a vida dos pastores e sobre o campo, tendo como - Soneto Italiano - composto por 14 versos (decassilábicos) dis-
cenário uma Natureza idealizada. É um género originário da tribuídos por duas quadras e dois tercetos.
Antiguidade Clássica. - Soneto Inglês - composto por 14 versos distribuídos por três
- Elegia quadras e um dístico.
* Poema que exprime sentimentos tristes, normalmente causados por - Vilancete
acontecimentos como a morte, a prisão, o exílio ou a guerra. * É uma forma poética própria para canto, sendo constituído por:
- Esparsa - mote - dois ou mais versos que serviam de tema para a com
* Pequeno poema medieval de tom melancólico e enigmático. Desen- posição do poema. Muitas vezes não pertencia ao autor.
volve directamente o assunto abordado. - voltas - estrofes que constituem o corpo, ou desenvolvimento,
do poema.
A Poesia lírica - características 1
LEITURA METÓDICA DE UM POEMA
Embora a simples leitura despreocupada de uma poesia - repetição de palavras diferentes mas do mesmo
seja já em si um momento de descontração e prazer, é campo semântico
possível mergulhar ainda mais fundo nas intenções do - presença de palavras de campos semânticos opos-
poema se nos dispusermos a fazer uma leitura metódica. tos
Por outro lado, um construtor de mundos que deseje criar - tempos verbais utilizados
textos líricos para o seu povo, terá todas as vantagens em - palavras associadas ao eu lírico
analisar de facto algumas poesias mais próximas daquilo - recursos estilísticos:
que deseja desenvolver. Eis então os passos essenciais: - pontuação, rima, ritmo
* Leitura atenta do poema - tipos de frases
- uma ou duas leituras do texto - classes gramaticais e sua frequência
- identificação de palavras-chave - graus dos nomes, adjectivos e/ou advérbios
- verificar num dicionário o significado de palavras - conotação e denotação
desconhecidas ou pouco familiares - figuras de estilo:
- ler de novo o texto - a nível fónico (aliteração, assonância...)
- identificar o assunto e o tema - a nível morfossintáctico (enumeração...)
* Análise formal do poema - a nível semântico (metáfora, ironia...)
- verificar o número de versos e de estrofes * Tirar conclusões dos levantamentos realizados
- escandir os versos - estabelecer uma possível divisão em partes
- análise da rima - reflectir sobre a expressividade da forma do poema e
* Fazer o levantamento de palavras e recursos dos recursos estilísticos e o modo como reforçam a
estilísticos que se destaquem mensagem do poema
- repetição de uma mesma palavra * Nova leitura do poema

ELEMENTOS DA POESIA
Quem não conhece um poema? Ou quem já não tentou escolhidas e arrumadas de uma certa forma, de maneira
rimar algumas palavras e apresentá-las como poesia? Ou a soarem bem ao ouvido humano, de maneira a conterem
ainda, quantos, não encontrando a rima em determinada uma certa mensagem, de maneira a despertarem no leitor
poesia, a classificam de menos importante, quando não expectativas contidas e libertarem vontades veladas e
dizem que isso não é poesia? desejos contidos que, por vias normais, não tiveram opor-
O Caboverdeano é tão afeito à poesia que é difícil encon- tunidade de serem veiculadas.
trar alguém que já não tenha tentado rabiscar algumas Em suma, na composição poética o leitor tenta identificar-
linhas e dedicá-las à amada, ou que já não tenha escrito se com a linha de pensamento do poeta, fazendo seus
algumas "quadras soltas", ou que já não tenha tentado esses mesmos pensamentos.
musicar alguns versos e sentir o inusitado prazer de ter O poeta usa palavras para criar imagens ou cenas na
"feito uma morna". mente do leitor. Os adjectivos, advérbios, verbos e subs-
Iremos agora mostrar alguns elementos usados na con- tantivos são escolhidos a dedo para tentar transmitir, com
fecção de uma poesia e assim tentar enriquecer a criação maior fidelidade possível, as ideias do autor ou as ima-
poética daqueles que se interessam por esta arte. gens que se agitam na sua mente.
Escrever poesias pode ser uma actividade totalmente
A Composição Poética natural para certas pessoas, enquanto que para outras a
A composição poética é de natureza essencialmente vontade poética é maior do que a potencialidade literária.
solitária, onde o poeta tenta exteriorizar os seus senti-
mentos mais íntimos eternizando em preto e branco os Elementos de uma poesia
seus pensamentos sobre diversos sectores da vida quo- Assim como toda a obra literária, a poesia tem os seus
tidiana. componentes e os seus aspectos particulares, que
Na poesia as palavras são cuidadosamente estudadas, devem ser observados e levados em conta.

Qualquer um consegue identificar as quatro sílabas que compõem esta palavra: te-le-vi-são. Estas
são as sílabas gramaticais. Mas como é pronunciada a palavra? Em português, será alguma coisa
como "te-le-vi-são", o que de facto coincide com as quatro sílabas gramaticais. Mas o mais comum
é dizer "tle-vi-são". Assim, por muito que a palavra "televisão" tenha quatro sílabas, a palavra pro-
nunciada "tlevisão" tem apenas três. E aqui se vê a importância de distinguir entre sílabas grama-
ticais e sílabas métricas, ou seja, as sílabas que de facto pronunciamos ao falar. Uma vez mais se
recorda que a poesia é escrita não para ficar bonita no papel, mas para atingir um ritmo agradável,
que é apreciado quando se recita o texto poético. Por esta razão, a lírica não avalia o número de
sílabas gramaticais do poema, mas sim o número de sílabas métricas, aquelas que são pronuncia-
das e que, por isso, criam o ritmo dos versos.

A Poesia lírica - características 2


Agora que já vimos a importância das sílabas métricas para a poesia, continuemos com a experiência. Olhemos
para as duas frases que se seguem:
A Ana chegou tarde à escola.
A Lena chegou tarde à cantina.

Analisemos o número de sílabas gramaticais presentes:


A / A/na / che/gou / tar/de / à / es/co/la. = 11 sílabas gramaticais
A / Le/na / che/gou / tar/de / à / can/ti/na. = 11 sílabas gramaticais

Resta agora ler as frases e contar as sílabas métricas que encontrarmos:


A_A/na / che/gou / tar/de_à_es/co/(la). = 7 sílabas métricas
A / Le/na / che/gou / tar/de_à / can/ti/(na). = 9 sílabas métricas

Repara como as vogais de duas palavras diferentes se unem quando estão lado a lado, tornando-se numa única
sílaba métrica. E, se disseres as frases em voz alta, hás-de reparar que, na última palavra de cada frase, as sílabas
átonas finais quase que desaparecem. Por isso, elas não são contabilizadas quando fazemos a contagem de
sílabas métricas.
À contagem do número de sílabas métricas de um verso chamamos escansão (não confundir com escanção, que é
a prova dos vinhos), que possui algumas regras que convém ter presentes:

* A contagem das sílabas métricas realiza-se até à última sílaba acentuada do verso, ocorra ela na última, penúltima
ou antepenúltima sílaba gramatical da palavra (Ex.: mi/nhas / lá/(grimas); meu / de/se/(jo); meu / co/ra/ção).

* Contracção da última vogal de uma palavra com a primeira vogal da palavra seguinte.
- Sinalefa - nome dado à contracção quando a vogal do fim da palavra se transforma numa semi-vogal,
formando um ditongo com a vogal que inicia a palavra seguinte:
Atrasado, ele... = a/tra/sa/du / e/le > a/tra/sa/dwe/le

- Elisão - nome dado à contracção quando a vogal do fim da palavra é completamente assimilada pela
vogal que inicia a palavra seguinte, que desaparece: Ela ouviu... = e/la / ou/viu > e/lou/viu

- Crase - nome dado à contracção quando a vogal do fim da palavra é igual à vogal que inicia a palavra
seguinte, pelo que elas se fundem numa só:
A casa amarela... = a / ca/sa / a/ma/re/la > a / ca/sa/ma/re/la

- Ectlipse - nome dado à contracção quando a vogal do fim da palavra é nasal, perdendo a sua
nasalidade para formar um ditongo com a vogal que inicia a palavra seguinte:
com as colegas... = cõ / as / co/le/gas > cuas / co/le/gas

* Hiato - quando duas vogais tónicas estão lado a lado, não pode haver contracção das duas, pelo que ocorre um
hiato, ou seja, mantêm-se em sílabas independentes mesmo que uma das sílabas tónicas enfraqueça. O hiato diminui
a fluidez do verso, razão porque os autores se esforçam por o evitar (Tu ontem... = tu / on/tem).

* Diérese - Separação de duas vogais seguidas dentro de uma mesma palavra, de modo a que constituam duas
sílabas diferentes (Ex.: sa/u/da/de).

* Sinérese - União de duas vogais, no interior de uma mesma palavra, que originalmente não formavam ditongo, de
modo a que constituam uma única sílaba (Ex.: pie/da/de).

Tal como acontece com as estrofes, também os versos recebem um nome específico de acordo com o número de
sílabas métricas que os constituem:

- monossílabo - uma sílaba


- dissílabo - duas sílabas
- trissílabo - três sílabas
- tetrassílabo - quatro sílabas
- pentassílabo ou verso de redondilha menor - cinco sílabas
- hexassílabo - seis sílabas
- heptassílabo ou verso de redondilha maior - sete sílabas
- octossílabo - oito sílabas
- eneassílabo - nove sílabas
- decassílabo - dez sílabas
- hendecassílabo - onze sílabas
- dodecassílabo ou verso alexandrino - doze sílabas
A Poesia lírica - características 3
Podemos ainda mencionar o verso livre, que surgiu com os poetas modernistas do início do século XX. Este tipo de
verso não está sujeito a regras métricas, o que significa que cada verso pode apresentar uma métrica independente
da dos outros versos da estrofe e do poema. No entanto, o verso livre continua a possuir um ritmo interior.

Independentemente do número de sílabas, os versos de uma composição poética podem ainda ser classificados de
acordo com a sua homogeneidade métrica:
- versos isométricos - quando os versos de uma estrofe ou de um poema apresentam o mesmo número de
sílabas métricas.
- versos heterométricos - quando os versos de uma estrofe ou de um poema não apresentam o mesmo número
de sílabas métricas.

Contagem silábica na poesia

Os versos devem ser contados até a última sílaba tónica. Portanto há três espécies de verso:
a) agudos, terminados em palavra oxítona (em que a sílaba tónica é a última). Exemplo:
"onde canta o sabiá" (Gonçalves Dias)
b) graves, terminados em palavra paroxítona (em que a sílaba tónica é a penúltima). Exemplo:
"Quando junto de mim Teresa dorme" (Álvares de Azevedo)
O verso grave é o mais comum na língua portuguesa, uma vez que a maioria das palavras é paroxítona.
c) esdrúxulos, terminados em palavra proparoxítona (em que a sílaba tónica é a antepenúltima). Exemplo:
"Por entre anémonas,
nadadeiras trémulas" (Cecília Meireles)
O verso esdrúxulo é mais raro na poesia de língua portuguesa, por razão inversa à da preponderância do verso
grave.

Contagem de sílabas no verso

Para a contagem das sílabas num verso usam-se muitas vezes critérios que não os estritamente gramaticais. Em poe-
sia, portanto, leva-se em conta mais o que se ouve do que o que se vê ou lê. Ou seja, importa mais como ouvimos as
vogais do que sua expressão escrita. Basicamente, existem dois preceitos básicos:
1) Primeiro preceito:
Como na fala, em poesia fundem-se ou juntam-se numa única sílaba a terminação vocálica átona (a última vogal átona
de uma palavra) e o início vocálico (a primeira vogal) da palavra imediata. Assim, por exemplo, o verso "chorando
como uma criança" deve ser lido da seguinte forma:
Chorando com'uma criança
(Cecília Meireles)

Dizemos que houve "elisão" ou "absorção" da vogal o. Na verdade, mais do que um fenómeno poético, trata-se de um
fenómeno típico da língua falada. Dificilmente falamos sem absorver ou suprimir vogais.
Sob esse critério (elisão ou junção de vogais), podemos agrupar dois tipos de fenómenos:

a) Crase
Observe:
1 2 3 4 5 6 7 8
"Cho-ra-rei -to-da a-noi-te, en-quan-(to)
per-pas-sa o -tu-mul-to -nos -a-(res)"
1 2 3 4 5 6 7 8
(Cecília Meireles)
Nestes versos ocorre o encontro de vogais átonas. Na quinta sílaba do primeiro verso, a sílaba da (de to-da) e o a do
artigo fundiram-se numa só sílaba: da. O mesmo se deu na sétima: o e da sílaba te (noi-te) fundiu-se com o e da síla-
ba seguinte en (enquanto), do que resultou apenas uma sílaba métrica: ten. Chamamos esse fenómeno de crase, pois
ocorreu entre vogais idênticas.

b) Sinalefa
Se esse encontro acontecesse entre vogais diferentes, então teríamos o fenómeno da sinalefa:
1 2 3 4 5 6 7 8
"A- noi-te- to-da -se a-tor-do-(a)"
(Cecília Meireles)
O encontro de e+a, na sexta sílaba, produz o ditongo "ia" (tal como é pronunciado), sendo ambos os elementos pro-
nunciados com nitidez. Não ocorre aqui elisão ou crase, mas junção de vogais.

2) Segundo Preceito
Os hiatos (encontro de vogais pronunciadas separadamente) podem ser lidos como ditongos (encontro de vogais
pronunciadas como uma unidade sonora). E ditongos, por sua vez, podem ser lidos como hiatos.
A Poesia lírica - características 4
Sob esse segundo critério, podemos identificar basicamente dois fenómenos:
a) Chamamos diérese a transformação de um ditongo em hiato. Trata-se, no entanto, de um recurso pouco
usado. Os poetas, especialmente os de períodos em que a convenção poética tende a ser mais obedecida (como
no Parnasianismo), costumam evitar o hiato.
De todo modo, há autores, mesmo parnasianos, que fizeram uso desse recurso:
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
"A A-ve-Ma-ri-a, as-sim,- no a-zul- pa-re-(ce)”

A palavra Maria, que, na contagem silábica gramatical, possui três sílabas, apresenta-se nos poemas muitas vezes
como tendo apenas duas sílabas (Ma-ria). No entanto, o autor dos versos acima preferiu considerar três sílabas
(Ma-ri-a).
b) Sinérese é a transformação de um hiato em ditongo. A palavra "juízo", por exemplo, é normalmente pronun-
ciada com três sílabas (ju-í-zo). Em poesia, no entanto, pode aparecer com ditongo (juí-zo).

A RIMA
A Rima diz respeito à repetição, integral ou parcial, de sons no final de dois ou mais versos, sendo contabilizada a par-
tir da vogal tónica da última palavra do verso. A rima pode ser classificada de acordo com diferentes aspectos.
Comecemos por avaliar e classificar os próximos versos quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das termi-
nações.
Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Neste excerto de um poema de Cesário Verde, é de notar como tanto as vogais como as consoantes rimam em "ezas"
(note-se que o "s" em burguesas tem valor de "z") e "elas". Este tipo de rima diz-se que é consoante, porque inclui
as consoantes, soante ou perfeita, por incluir todos os sons a partir da vogal tónica.

Ai flores, ai flores do verde pino


se sabedes novas do meu amigo
ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo
se sabedes novas do meu amado
ai Deus, e u é?

Por outro lado, no excerto desta cantiga de amigo de D. Dinis, apenas as vogais rimam, em "i-o" e "a-o". Este tipo de
rima diz-se, por isso, que é vocálica, assoante ou imperfeita.

Outra forma de classificar a rima é quanto à acentuação da última palavra do verso:

Quer'eu en maneira de proençal


Rima Aguda ou Rima Masculina
fazer agora un cantar d'amor
quando o acento tónico recai na última sílaba.
D. Dinis
minha sina e engano
Rima Grave ou Rima Feminina
padecer com tal tirano
quando o acento tónico recai na penúltima sílaba.
Al-Kumait Al-Garbi
No ar lento fumam gomas aromáticas
Rima Esdrúxula
Brilham as navetas, brilham as dalmácias
quando o acento tónico recai na antepenúltima sílaba.
António Gedeão

Pode-se ainda analisar a rima quanto à classe gramatical da palavra da terminação ou quanto à frequência do seu
uso:
* Rima Rica
- quando recorre a palavras de diferentes categorias gramaticais: dizes - felizes (verbo - nome);
perdida - Vida (adjectivo - nome)...
* Rima Pobre
- quando repete uma mesma palavra com frequência
- quando recorre a palavras da mesma categoria gramatical: iria -faria (verbo - verbo);
desejos - beijos (nome - nome)...

Independentemente destas três formas de classificar a rima, pode-se ainda avaliar a estrofe ou poema no que toca
à homogeneidade da rima:

* Verso monórrimo - quando todos os versos de uma estrofe ou de um poema apresentam a mesma rima.
A Poesia lírica - características 5
* Verso polírrimo - quando todos os versos de uma Café coado na hora
estrofe ou de um poema não apresentam a mesma adoçado a rapadura bem escura,
rima.
Este excerto de um poema de Drummond de Andrade
Analisemos agora algumas estrofes para compreender ilustra a rima leonina, um tipo de rima interior onde uma
não só como se utiliza o esquema rimático, mas também palavra no meio de um verso rima com a última palavra
a designação que cada esquema recebe: desse mesmo verso.
Donzela bela, que me inspira a lira,
Naquele pique-nique de burguesas, - A Um canto santo de fremente amor
Houve uma coisa simplesmente bela, - B Ao bardo o cardo da tremenda senda
E que, sem ter história nem grandezas, - A Estanca, arranca-lhe a terrível dor.
Em todo o caso dava uma aguarela. - B
Com esta quadra de Castro Alves, eis-nos perante mais
Nesta estrofe de um poema de Cesário Verde, os versos uma rima interior, desta feita a rima com eco.
rimam alternadamente, seguindo o esquema ABAB. Esta
é a chamada rima cruzada ou alternada, que será, talvez, Falta agora mencionar um outro tipo de rima (ou ausên-
o tipo de rima mais comum. cia de) que se vulgarizou com os poetas românticos do
século XIX: o verso branco ou verso solto, referindo as
Ai flores, ai flores do verde pino - A produções poéticas que não estão sujeitas a rima.
se sabedes novas do meu amigo - A
ai Deus, e u é? - refrão Todas as línguas têm um ritmo próprio que deriva da
Ai flores, ai flores do verde ramo - B acentuação de cada palavra e das próprias frases, de
se sabedes novas do meu amado - B acordo com as suas funções (exclamação, interro-
ai Deus, e u é? - refrão
gação...). Mas, olhando em especial para as palavras,
como é que elas são acentuadas? De um modo muito
Sendo uma cantiga de amigo, uma das mais famosas simples, as palavras dividem-se em sílabas, que podem
escritas por D. Dinis, o excerto deste poema apresenta ser fortes (ditas sílabas tónicas) ou fracas (ditas sílabas
uma estrutura própria. Tipicamente, as cantigas de amigo átonas). O resultado do jogo entre as sílabas fracas e
são constituídas por dísticos e monósticos, sendo que fortes é uma cadência que se quer harmoniosa, um
estes últimos constituem o refrão. No excerto apresenta- pouco como acontece com o jogo entre as notas de uma
do, os dísticos apresentam um esquema AABB. Esta é a melodia.
rima emparelhada, uma palavra que designa dois versos
organizados como uma parelha, ou seja, agrupados aos É desta forma que se cria o ritmo dos versos que formam
pares. um poema. O ritmo do verso é marcado pelo número de
sílabas presentes, pela cadência harmoniosa entre as
Saudade! Olhar de minha mãe rezando - A
sílabas tónicas e átonas e pela presença e localização de
E o pranto lento deslizando em fio... - B
Saudade! Amor da minha terra... O rio - B pausas e cesuras.
Cantigas de águas claras soluçando - A
Olhemos mais atentamente o modo como o número de
Neste poema de Da Costa e Silva estamos perante uma sílabas influi no ritmo de um verso. Menos sílabas signifi-
forma da chamada rima interpolada ou oposta. Neste ca versos mais curtos e, portanto, um ritmo mais rápido e
exemplo, temos dois versos que rimam separados por leve, pelo que são os preferidos para composições popu-
outros dois versos que rimam, num esquema ABBA. No lares. Basta reparar nas típicas quadras populares! Eis
entanto, o termo também se aplica quando dois versos uma de Fernando Pessoa com sete sílabas métricas:
que rimam estão separados por dois ou mais versos que Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
não rimam entre si, num esquema ABCDA.
É um livro de capa negra
Sei de uma criatura antiga e formidável, - A
Onde inda nada escrevi.
Que a si mesma devora os membros e as entranhas - B
Com a sofreguidão da fome insaciável. - A
Dorme que eu velo, sedutora imagem, Por outro lado, versos mais longos são mais lentos e
grata miragem que no ermo vi; solenes. Um bom exemplo é o caso dos versos de dez
Dorme - impossível - que encontrei na vida, sílabas métricas de Os Lusíadas de Camões:
dorme, querida, que eu descanso aqui.
As armas e os barões assinalados
Eis dois casos diferentes da chamada rima encadeada. Que, da Ocidental Praia Lusitana,
No primeiro excerto, de um poema de Machado de Assis, Por mares nunca dantes navegados
estamos perante a forma mais comum deste tipo de rima, Passaram ainda além da Taprobana,
que surge quando dois versos que rimam estão separa-
dos por um verso, num esquema ABA. Mas também se Mas os acentos variam dentro do próprio verso, indepen-
utiliza o termo de rima encadeada quando se fala de um dentemente do número de sílabas métricas. Os versos de
tipo de rima interna, como ocorre no excerto de uma com- dez sílabas métricas, por exemplo, podem ser caracteri-
posição poética de Tomás Ribeiro, quando a palavra final zados como heróicos ou sáficos de acordo com o local
de um verso rima com uma palavra que está no meio do onde surgem as sílabas tónicas. Os versos heróicos são
verso seguinte. utilizados em poemas épicos e em sonetos, onde as
sílabas tónicas ocorrem sempre na sexta e na
A Poesia lírica - características 6
décima sílaba métrica. Vejamos o próximo verso, de Sonho que sou um cavaleiro andante
Camões:
Começa-se a travar a incerta guerra Não podemos esquecer ainda as pausas e as cesuras.
A pausa é uma interrupção mais ou menos breve que
Os versos sáficos, por outro lado, apresentam três marca o final do verso ou da estrofe. A cesura é uma
sílabas acentuadas, na quarta, na oitava e na décima pausa que surge no interior dos versos, e tem como
sílaba métrica. Eis um verso de Antero de Quental: objectivo criar uma divisão entre um grupo de sílabas
métricas que evita que o grupo se torne demasiado longo.

GLOSSÁRIO
Ambiguidade: Apresenta dois sentidos. Em crítica literária, con- (diz-se também encavalgamento)
siste em toda a "nuance" verbal, ainda que ligeira, que dê lugar Escansão: É o processo de divisão dos versos em sílabas
a diferentes reacções ao mesmo fragmento de linguagem. poéticas.
Anagrama: É a transposição de letras. É usado para encobrir a Estribilho (ou refrão): É um conjunto de versos repetidos em
identidade de personagens reais. Diz-se do vocábulo, nomes forma de estrofes ou integrando as estrofes de um poema.
próprios. Estrofe ou estância: É um agrupamento de versos. O número
Arte pela arte: A arte visa exclusivamente a proporcionar pra- de versos agrupados em cada estrofe pode ser variável.
zer estético, ou seja, desconhece fins utilitários, como a moral, Idílio: É uma composição em monólogo, que celebra os encan-
a política, a educação. Essa expressão remonta a Aristóteles, tos da vida bucólica, impregnada quase sempre de sentimento
que recusa admitir propósitos didácticos para o fenómeno amoroso. É uma espécie literária muito ao gosto dos poemas
estético. arcádicos.
Alexandrino: O verso alexandrino é composto de doze sílabas. Lira e Lírica: A palavra lírica tem origem na lira, um instrumen-
Em geral, o verso mais longo, em estrofes isométricas, é o to musical muito utilizado pelos gregos a partir do século VII a.C.
alexandrino. É raramente empregado na poesia moderna. Chamava-se lírica a canção que se entoava ao som da lira.
Balada: Esse termo tem sentido poético e apareceu no século Havia, portanto, entre o som e a palavra uma junção que per-
XIII. É a mais primitiva manifestação poética. Acredita-se que a durou até o século XV, quando os poemas se distanciaram da
balada na Idade Média não seria acompanhada de movimentos música e passaram a ser lidos ou declamados.
coreográficos. É uma forma literária mista, pois reúne elemen- Madrigal: É uma espécie lírica italiana bem antiga. A princípio
tos de poesia dramática e lírica bem como narrativa. apresentava uma forma fixa (verso decassílabo, com dois ou
Cantiga: Eram os poemas contados e acompanhados de instru- três tercetos, acompanhados de um ou dois dísticos; e ainda,
mentos musicais e dança. tercetos com versos heróicos seguidos de um verso isolado, tal
Tipos de cantigas: como na "terzarinha") mas, já no século XVI se encontra o
- Género lírico: cantigas de amigo e de amor; madrigal mais simplificado, constituído apenas por uma estrofe
- Género satírico: cantigas de escárnio e cantigas de maldizer; curta, não ultrapassando, em geral, o número de dez versos, e
- Cantiga de amigo: possui raízes na península Ibérica, sendo o empregando de preferência a redondilha ou a decassílabo alter-
seu tema mais frequente o lamento amoroso da rapariga cujo nado com o heróico quebrado. O madrigal exprime pensamen-
namorado partiu para a guerra contra os árabes; tos graciosos, numa discreta e galante confissão de amor.
- Cantiga de amor: possui raízes na poesia provençal (de Métrica: É a medida dos versos, isto é, o número de sílabas
Provença, região do sul da França), nos ambientes finos e poéticas que apresentam.
aristocráticos das cortes francesas, estando portanto presa a Ode: Em grego significa "canto". Era um cântico composto de
certas convenções de linguagem e de sentimentos; estrofes simétricas, próprio para ser entoado com música e
- Cantiga de escárnio e de maldizer: foi a primeira experiência coros. O ode marca o terceiro período da literatura grega.
da literatura portuguesa na sátira. Não eram tão presas às con- Pé: São os restos quantitativos puros. Pé é a menor partícula
venções como as cantigas de amor e amigo e buscaram um estrutural do verso. Chamam-se versos de pé quebrado aos
caminho poético próprio, explorando diferentes recursos que possuem uma métrice errada ou irregular.
expressivos. Voltaram-se para a crítica de costumes, tendo Refrão: Frase vocal ou instrumental de tamanho e forma deter-
como alvo diferentes representantes da sociedade medieval minados, que se repete a intervalos regulares nas canções e
portuguesa. composições estróficas.
Cesura: Limite rítmico no interior de um verso, teoricamente Rondó: É um poema que apresenta apenas quadras ou
seguido de um descanso. quadras combinadas com oitavas (estrofe com oito versos).
[A cesura corta um verso alexandrino em dois hemistíquios: Soneto: É um poema de forma fixa, isto é, apresenta a mesma
"Nada é tão belo quanto a verdade, só a verdade é amável." estrutura de construção: duas quadras (estrofe com quatro ver-
(Boileau)] sos) e dois tercetos (estrofe com três versos)
Carpe Diem: Colher, gozar o dia. Horácio aconselhou Leucónoe Tropo: São palavras e expressões que se apresentam em sen-
a gozar o momento presente, visto ser incerto o dia de amanhã. tido figurado e não próprio. Entre os tropos estão:
Transposto para o lirismo amoroso, o motivo adquiriu conotação 1) Alegoria
especial: o "eu" poético adverte a bem amada de que a vida 2) Antonomásia
corre ligeira na direcção da morte, e sugere que ambos usufru- 3) Catacrese
am do amor enquanto é tempo. 4) Imagens
Dissonância: Som ou conjunto de sons desagradáveis ao ouvi- 5) Metáfora
do, é a junção de sílabas ou palavras que soam mal. 6) Metonímia
Écloga: Difere do idílio por nele intervirem os diálogos. São 7) Símbolo
poemas dialogados nos quais o poeta cede a palavra a inter- 8) Sinédoque
locutores. Metáfora: É uma comparação elíptica, ou "um símile comprido"
Elegia: Pequeno poema lírico sobre um tema frequentemente (Murry)
terno e melancólico. Na Antiguidade, era uma peça em verso "A vida é combate." (Gonçalves Dias)
composta por hexâmetros e pentâmetros alternados. O verso acima seria comparação se apresentasse o nexo ou
Enjambement: É a passagem para o verso seguinte, de uma conectivo indicador da similaridade: - A vida é como um com-
ou de várias palavras que completam o sentido do precedente. bate.]
A Poesia lírica - características 7
Alegoria: É uma sequência de metáforas, que pode ser pura e "Vida que, eterna, ainda que seja pouca!"
se confunde com o enigma, ou mista quando permite a identifi- Alphonsus Guimaraens
cação do que foi figurado com o significado real. Em literatura, Ironia: É a expressão que sugere o contrário do que significa.
a alegoria integra determinadas espécies genéricas como a "A excelente D. Inácia era mestre na arte de judiar de
fábula, o apólogo e a parábola. crianças." Monteiro Lobato
"A vida é uma ópera e uma grande ópera." Machado de Assis Metonímia: Relação de contiguidade (e não de semelhança)
Aliteração: É a repetição constante de um mesmo fonema con- entre o termo próprio e o termo figurado.
sonântico. O Williams andou muito rápido no Estoril. (Willians pode
Ex.: Brancos bacantes bêbadas o beijam. ser o carro ou o piloto do carro)
(Aliteração em b) Augusto dos Anjos Onomatopeia: "Uuááááá", tenta reproduzir o som de choro de
Assonância: É a repetição constante de um mesmo fonema alguém. Em textos literários, a onomatopeia pode ser bastante
vocálico e de sílabas semelhantes, mas não idênticas. expressiva.
Ex.: Ó Formas alvas, brancas, formas claras Ex.: "Ó rodas, ó engrenagens, R-R-R-R-R eterno!"
(assonância do fonema vocálico |a|) Cruz e Sousa (Fernando Pessoa)
Anáfora: É a repetição da mesma palavra ou expressão no iní- Paranomásia: É a aproximação de palavras com significados
cio de frases, períodos ou versos. diferentes.
"Qual do cavalo voa, que não desce; "Os magnetos atraem o ferro, e os magnatas o oiro."
Qual, co'o cavalo em terra dando, geme; Padre António Vieira
Qual vermelhas as armas faz de brancas; Perífrase: O objecto não é nomeado, mas é facilmente identifi-
Qual co'os penachos do elmo açoita as ancas." cado uma vez que o contexto é conhecido.
Camões O milionário da informática. (Bill Gates)
Anástrofe: É o hipérbato atenuado em que a inversão se dá Personificação: Também chamado de prosopopeia, atribui ca-
entre as palavras relacionadas entre si. racterísticas humanas a seres irracionais ou inanimados.
"Que importa do nauta o berço." "Sinos do Bonfim, por que choras assim?"
Castro Alves Manuel Bandeira
Anacoluto: É a rotura sintáctica entre as partes do período. Pleonasmo: Redundância de termos para dar mais força à
"Eu, não me importa a desonra do mundo." Camilo Castelo mesma ideia.
Branco "e aí dançaram tanta dança,
Antítese: Ocorre quando aparecem dois termos na frase que que a vizinhança toda despertou."
se opõe mas são do mesmo campo semântico. Chico Buarque
"Desceu os pântanos com os tapires, subiu os Andes com Polissíndeto: Uso reiterado de elementos conectivos em coor-
os condores." (Castro Alves) denação.
Antonomásia: É um caso especial de metonímia. Consiste na "Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!"
substituição de um nome próprio por uma circunstância ou qual- Olavo Bilac
idade que a ele se refere intrinsicamente como um epíteto. Quiasmo: Processo estilístico que consiste em formar um
"O genovês salta os mares..." (Castro Alves) antítese, dispondo em ordem inversa e cruzada os elementos
genovês=Colombo que a constituem.
Apóstrofe: É a interrupção que faz o orador para dirigir-se a Ex.: Há pessoas que não comem para viver, mas vivem para
algo ou alguém. comer.
"Deus, oh Deus, onde estás que não respondes?" Silepse: Dá-se na concordância. Consiste em fazer a con-
Assíndeto: É a omissão das conjunções ou conectivos aditivos. cordância de uma palavra ou expressão não directamente com
"E homem, há de morrer como viveu: sozinho! outra expressa, mas com a ideia que esta sugere. É também
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!" chamada concordância semiótica ou figurada.
Olavo Bilac Ex.: género - "Conheci uma criança... mimos e castigos
Catacrese: É o emprego abusivo ou indevido de um termo. É pouco podiam com ele".(Garret)
pela catacrese que se justificam expressões como: embarcar Símbolo: É a imagem que vale por um sinal, ou conforme Hugh
num comboio, sabatina (para qualquer dia da semana), enfiar Walpole, "uma palavra usada referencialmente".
uma agulha no dedo, etc. Ex.: Mitologia grega: Hércules (em referência à força); Narciso
Eco: Sucessão de vocábulos com final semelhante, são as (à vaidade); Baco (ao vinho).
rimas coroadas. Símile: Ou comparação é o confronto de dois ou mais objectos
"Na messe, que enlourece, estremece a quermesse..." em que depreendemos algum ponto de contacto.
(Eugénio de Castro) ex.: "E à tarde, quando o sol - condor sangrento -
Elipse: É a supressão de um termo que o contexto permite iden- No ocidente se aninha sonolento
tificar. Como a abelha na flor..."
"Tristeza não tem fim, felicidade sim." (Castro Alves)
Vinícius de Moraes Sinestesia: É a evocação de impressões sensoriais pela
Eufemismo: São palavras que atenuam outras que comunica- palavra.
riam uma ideia triste. Ex.: "Tarde de olhos azuis e de seios morenos.
"Sino da paixão, pelos que lá vão." Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,
Manuel Bandeira Como uma tone de pérolas e safira.
Gradação: Pode ser chamada de clímax. É a acumulação pro- Ó tarde como quem tocasse um violino..."
gressiva de uma ideia, pensamento ou tema. (Emiliano Perneta)
"Vive só para mim, só para a minha vida. Zeugma: É um tipo de supressão de palavras, que ocorre
Só para o meu amor!" porque esta palavra já foi empregada anteriormente.
Olavo Billac Ex.: "Nosso céu tem mais estrelas,
Hipérbato: É a inversão da ordem directa (sujeito, verbo e com- Nossas várzeas têm mais flores,
plementos) Nossos bosques têm mais vida,
"Que os tribunais não podem rever os actos políticos, não Nossa vida mais amores."
contestei, não contesto." Rui Barbosa (Gonçalves Dias, Canção do Exílio)
Hipérbole: É a figura que engrandece ou diminui exagerada-
mente a verdade.
A Poesia lírica - características 8