Você está na página 1de 7

GT3- Política Social e Serviço Social

A PRECARIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL NO MUNICÍPIO


DE JOÃO PESSOA-PB E SUA RELAÇÃO COM O AVANÇO DAS POLÍTICAS
NEOLIBERAIS

Fátima Rafaella Silva Amaral 1


Maria Gessiane de Oliveira Silva 2
Priscila Maria da Silva 3
Rafael Nicolau Carvalho 4

RESUMO: A pesquisa buscou levantar o número de serviços municipais oferecidos no


âmbito da saúde mental, na cidade de João Pessoa-PB, a fim de analisar como as
políticas de cunho neoliberal tem incidido no sucateamento e insuficiência dos serviços
de saúde mental oferecidos para a população pessoense. Pois, desde a conjuntura
iniciada pelo expressivo avanço do neoliberalismo no Brasil, no período da
implementação do SUS, direitos sociais têm sido solapados através da lógica de
mercantilização e focalização das políticas sociais, defendida pelos neoliberais. Dessa
forma, a descaracterização do SUS legal refletiu diretamente na forma como os serviços
de saúde se apresentam atualmente. Para tanto, utilizamos como recurso, dados e
documentos disponibilizados no site da Prefeitura Municipal de João Pessoa. Ao todo
foram encontrados 4 (quatro) Centros de Atenção Psicossocial, a saber um de cada tipo;
2 (duas) Residências Terapêuticas, sendo uma direcionada apenas ao acolhimento
feminino; e um serviço de Pronto Atendimento em Saúde Mental (PASM), com
funcionamento integral. Diante da dimensão populacional do município, os serviços

1
Graduanda do curso de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba e Bolsista do Programa Institucional
de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq/UFPB). Email: rafaellamaral6@gmail.com
2
Graduanda do curso de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba. Email: mgessiane.o@gmail.com.
3
Graduanda do curso de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba e Bolsista do Programa
Institucional de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq/UFPB). Email: pcila10@gmail.com.
4
Doutor em Sociologia e professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da
Paraíba (UFPB). Vice-lider do Setor de Estudos e Pesquisas em Saúde e Serviço Social (SEPSASS). Email:
rafaeljp.carvalho@gmail.com.

ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275


demonstram-se insuficientes para atender as demandas da população. Aliada as
condições de trabalho precárias das equipes que compõem os CAPS, há também a
limitação imposta pela estrutura da própria instituição, que acaba delimitando o número
de usuários que podem ser atendimentos naquele espaço. Este fato torna os princípios
da universalidade e equidade preconizados no SUS irrealizáveis. Os serviços de saúde
mental que deveriam possibilitar o acesso para todos, tornam-se focalizados e restritos,
seguindo a lógica das políticas neoliberais.
Palavras-chave: Serviços de Saúde Mental, Políticas Neoliberais, Precarização do
Trabalho.

1. INTRODUÇÃO

Antes de apresentar os serviços encontrados no âmbito da Saúde Mental no


Município de João Pessoa-PB e o nível de abrangência dos mesmos, faz-se necessário
voltar ao período de implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), visto que a
forma como se deu este processo, trouxe rebatimentos sobre a forma como os serviços
se apresentam atualmente.
A implementação do SUS se deu numa conjuntura bastante adversa, haja vista
ter acontecido sob a tutela de um governo neoliberal e que estava em vias de iniciar um
ferrenho processo de contrarreforma que iria incidir diretamente sobre as políticas
sociais, na qual se encontra a política de saúde.
Desse modo, o texto constitucional em relação à Saúde que estabelecia o SUS
como um sistema “integrando todos os serviços públicos em uma rede hierarquizada,
regionalizada, descentralizada e de atendimento integral, com participação da
comunidade” (BRAVO et al 2001, p. 26), somando-se a isso o princípio da
universalidade, no momento de sua implementação teve tais características solapadas.

ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275


O Pacto Conservador subsidiado pelos ideais neoliberais recai negativamente
sobre a política de saúde, exclusivamente sobre as Leis Orgânicas da Saúde (8.080 e
8.142/90).
O avanço da contrarreforma corroborou na distinção entre o SUS da constituição
e o que foi implementado na sociedade, visto que as políticas defendidas pelo
neoliberalismo são altamente excludentes, vistas sob a ótica privatista e de
mercantilização. Pois, a ofensiva realizada pelo capital não defende um sistema público
com acesso universal, mas sim, seletista e focalizado. Ou seja, defende-se que o Estado
ofereça minimamente, serviços apenas para as pessoas que não possuem condições de
acessá-los por meio do mercado. Haja vista a lógica de privatização e mercantilização
dos direitos sociais.
Diante deste quadro tem-se a problemática relação no SUS entre o público e o
privado, que de acordo com o texto da constituição “a participação do setor privado no
sistema de saúde deverá ser complementar (...), sendo vedada a destinação de recursos
públicos para subvenção às instituições com fins lucrativos” (BRAVO et al, 2001, p.
26). Mais uma característica que não foi e não é obedecida, pois o que se viu e continua
até hoje é a promoção e investimento dos serviços na rede privada de saúde por parte do
Governo Federal, Estadual e Municipal, inclusive privatizando instituições públicas,
enquanto que o SUS sofre com o sucateamento decorrente do desvio de verbas da saúde
e a falta de investimento.
Segue-se a lógica de “satanização” da coisa pública em prol da promoção e
qualidade dos serviços privados, mais uma das artimanhas implementadas pelo grande
Capital, para que se tenha a contínua desvalorização e desqualificação dos serviços e
instituições públicas. Assim, enquanto o SUS padece com a falta de recursos,
proveniente do subfinanciamento que “(...) não estaria garantindo a implantação dos
princípios constitucionais, que deveriam garantir tanto a universalização do acesso
quanto à ampliação da rede prestadora, esta última condição para a primeira”
(MENICUCCI, 2006, p. 74), o setor privado se mantém próspero as custas do dinheiro
público.

ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275


Desse processo de contrarreforma e avanço dos ideais neoliberais que
consubstanciaram a Reforma Gerencial do Estado no governo FHC, resultou a
descaracterização do SUS legal, a qual vem incidindo sobre a forma como os serviços
brasileiro de saúde pública se apresentam. Ou seja, programas focalizados,
subfinanciados e essencialmente focados em um modelo de atenção centrado na doença.

2. OS SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL NO MUNICÍPIO DE JOÃO


PESSOA

A partir da Política Nacional de Saúde Mental a atenção em Saúde Mental é


oferecida pelo SUS, através: dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); Os Serviços
Residenciais Terapêuticos; Os Centros de Convivência e Cultura; As Unidades de
Acolhimento e os Leitos de Atenção Integral em Hospitais Gerais.
Cabe dizer, que os CAPS surgiram como um programa voltado para a
desinstitucionalização e humanização do serviço de saúde no âmbito da Saúde Mental,
tendo como objetivo prestar acolhimento e atendimento às pessoas que apresentam
transtorno mental grave e/ou persistente, mas também àquelas oriundas do uso de
substâncias químicas. Com isso, busca-se permitir aos usuários enquanto recebem
tratamento, permanecerem junto às suas famílias e a comunidade que residem. Assim,
pretende-se que nos CAPS o tratamento prestado seja mais humanizado, que trabalhe o
resgate da cidadania, da autonomia e da qualidade de vida dos usuários.
No que diz respeito aos serviços no âmbito da Saúde Mental no município de
João Pessoa, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), oferta-se em
quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) os serviços de atendimento,
acolhimento e diagnose dos quadros e das pessoas com transtornos mentais. E no intuito
de seguir o programa Antimanicomial, foram criadas duas residências terapêuticas,
visando acabar com a internação das pessoas que possuem transtornos mentais severos e
lhes prestar um atendimento mais humanizado, além de buscar ajuda-las a se reinserir
na sociedade e reestabelecer laços familiares. Há ainda o pronto-atendimento vinte e
ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275
quatro horas para os casos de crises, que fica localizado no complexo do Ortotrauma.
Somando-se os serviços relativos a área da Saúde Mental, temos no município de João
Pessoa ao todo a oferta de sete serviços destinados às pessoas com transtornos mentais.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do ano
de 2010, existiam em João Pessoa cerca de 11.005 mil pessoas com transtornos mentais,
numa população com total de 732,514 mil. Ainda segundo o IBGE, estimasse que a
população no ano de 2016 estaria em torno de 801.718 mil habitantes, diante desse
aumento da população pessoense, estima-se que assim como a população cresceu, o
número de pessoas com transtornos mentais também tenha crescido. Principalmente,
quando levamos em conta a atual conjuntura de crise. Nesse sentido, os sete serviços
disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde são ínfimos diante do grande
número de pessoas que necessitam de cuidados e tratamentos para suas enfermidades.
Os números disponibilizados no site da Prefeitura Municipal de João Pessoa
(PMJP), apesar de datados no ano de 2014, já demonstravam a insuficiência dos
serviços em atendar as pessoas que apresentavam algum tipo de transtorno mental.
Segue no quadro abaixo os dados colhidos no site da PMJP:

TIPO do CAPS Nº de Usuários Nº de Inscritos


CAPS III 750 2.000
CAPSAD 576 1.408
CAPS II 460 1.800
CAPSi 390 690
Quadro 1. Relação do número de usuários e inscritos nos CAPS5
Decorridos três anos, os serviços descritos acima no quadro continuam sendo
ofertados na mesma quantidade. Apesar do município estar seguindo as normas da
Portaria GM nº336/2002, que estabelece a existência dos quatro tipos de Centros de
Atenção Psicossocial em municípios com mais de 200 mil habitantes. Estes serviços não

5
Disponível em: http://www.joaopessoa.pb.gov.br/centros-de-atencao-psicossocial-tem-mais-de-48-
mil-usuarios-cadastrados/

ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275


são suficientes para atender a demanda de uma população com mais de 800 mil
habitantes, como é o caso da cidade de João Pessoa. Diante de tal dimensão
populacional, tais serviços tornam-se paliativos e seletistas, visto que seu atendimento
fica restrito a um pequeno número, tornando o princípio da universalidade inexistente.
O que evidencia o cunho neoliberal na política de saúde mental no município de João
Pessoa.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Aliado ao baixo número de serviços oferecidos no município de João Pessoa,


tem-se a ineficiência dos mesmos. Visto que além das condições de trabalho das
equipes que compõem os CAPS serem precárias, há também a limitação imposta pela
estrutura da própria instituição, que acaba delimitando o número de usuários que podem
ser atendimentos naquele espaço.
Outro fator importante é que no Brasil o modelo de atenção à saúde sempre foi
mais centrado na doença e por mais que o Programa Saúde da Família tenha sido criado
no intuito de mudar isso, muito pouco se é feito. Haja vista a focalização desses
programas e a falta de profissionais com especialização em áreas distintas da saúde.
Com isso o atendimento na Saúde Mental que deveria começar na atenção básica,
quando não é feito – por falta de um profissional da área – é mal realizado. Da mesma
forma acontece nas instituições da média e alta complexidade, quando os profissionais
ao “identificar” um possível fator de ordem psíquica logo encaminham para os CAPS.
Isso além de sobrecarregar os serviços e demandar a presença de mais profissionais nos
CAPS, afeta a qualidade dos serviços, os quais já sofrem devido ao baixo financiamento
que recebem.
A lastimável desconstrução do SUS legal no momento de sua implementação
continua incidindo negativamente sobre os programas e serviços da saúde pública
brasileira, pois pouco se tem feito no intuito de propiciar a população brasileira serviços
que atendam às suas demandas de forma universal, integral e equânime. Ao contrário, o
ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275
que se observa é um maior sucateamento no que diz respeito a saúde pública, a
cooptação da verba destinada à saúde para o pagamento de dívidas do Governo,
inclusive aumentando os cortes sobre o tímido financiamento da saúde e o
fortalecimento da lógica da mercantilização dos serviços de saúde e das políticas sociais
como um todo, impetrada pelo grande Capital através da ideologia neoliberal.

4. REFERÊNCIAS

1 BRAVO, Inês Souza, et al. Capacitação para Conselheiros de Saúde. Texto de


Apoio. Rio de Janeiro, 2001.

MENICUCCI, Telma Maria Gonçalves. Implementação da Reforma Sanitária: a


formação de uma política. In: Saúde e Sociedade. Volume 15, n.2. 2006. P. 72-87.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estimativas


populacionais por municípios em 2015. Disponível em:
<http://cidades.ibge.gov.br/xtras/temas.php?lang=&codmun=250750&idtema=130&sea
rch=paraiba%7Cjoao-pessoa%7Cestimativa-da-populacao-2016-> Acesso em:
16/02/17.

PREFEITURA MUNICIPAL DE JOÃO PESSOA. Plano de Metas João Pessoa 2013-


2016. Disponível em:
<https://www.nossasaopaulo.org.br/portal/arquivos/programasdemetas/plano-de-metas-
joao-pessoa-2013-2016.pdf> Acesso em: 12/10/16.

ANAIS DA III JORNADA NE DE SERVIÇO SOCIAL 2017 – ISSN 2358-0275