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IMAGENS

DE FAZER CRESCER
ÁGUA NA BOCA
NÃO GOSTA DE COZINHAR, MAS ADORA FOTOGRAFAR COMIDA.
TANTO, QUE ATÉ FEZ DISSO PROFISSÃO. CRISTINA VAZ, FOTÓGRAFA
DE GASTRONOMIA, É A NOSSA CONVIDADA DESTA EDIÇÃO.

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PELA OBJETIVA DE... Cristina Vaz

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4Canon 5D MK II . Canon 100mm f/2.8L Macro IS .
100mm . f/2.8 . 1/60” . ISO 100

e lhe disséssemos que os modelos das fotografias de Cristina Vaz que acontece dentro ou fora do prato não dá para ser espontâneo. Não

S acabam sempre por ser comidos, provavelmente o leitor desatava a


gritar: “Fujam que vem aí o Hannibal Lecter!”.
Claro que o pânico havia de desaparecer logo que explicássemos qual
dá para estar a improvisar. Mas não sei como se capturam os sabores.
Tem a ver com o nosso olhar. Olhamos para a fotografia e vemos se
realmente nos abre o apetite ou não.
era o seu trabalho: fotógrafa de gastronomia. É que a Cristina Vaz tem a
seu cargo a dura – ou talvez suculenta – tarefa de fazer sair bem na A comida é um modelo que dá luta? Ou é colaborante?
fotografia pratos de comida. Tem dias. Por vezes dá luta. Principalmente porque há alimentos que
Sejam eles bruschetta, panna cottas, ou pratos de fast-food como ham- não são fotogénicos. Por muitas voltas que tentemos dar, não ficam
búrgueres, ou mesmo clássicos da cozinha tradicional portuguesa, como bem na fotografia. Há pessoas que dizem “Ah, fico sempre mal nas
o pouco fotogénico ensopado de borrego, todos eles passam pela sua fotografias” e há alimentos que também ficam mal nas fotografias.
objetiva, antes de irem para a mesa. Por exemplo, o ensopado de borrego ou as tripas à moda do Porto. Em
Além de fotógrafa, Cristina é também food stylist, o que a coloca em contraste, o morango e todos os frutos vermelhos são muito fotogéni-
vantagem em relação outros fotógrafos, uma vez que mexe no prato. cos.
Sem esquecer a experiência como designer que lhe apurou o sentido
do gosto e a fez descobrir a paixão pela fotografia, curiosamente impul- Qual foi o alimento mais difícil de fotografar, até hoje?
sionada por um presente do marido. Os ensopados de borrego não são fotogénicos. Não é que sejam difíceis
O fiel companheiro que faz de tudo: desde a direção criativa até ao de fotografar, mas aquilo está dentro do prato, damos uma voltinha e é
olhar clínico, determinante para evolução de Cristina como fotógrafa. o que é. As coisas mais difíceis são, talvez, os hambúrgueres, porque
têm de estar as camadinhas todas direitinhas e as coisas todas posi-
Nunca teve a sensação de que fotografa sempre em ambiente con- cionadas para terem coerência. E depois há outras coisas difíceis de
trolado? fotografar, como o chocolate a derreter, o borbulhar de uma cerveja,
Não há fotografias espontâneas quando estamos a fotografar em estúdio aquelas tostas mistas com queijo a derreter.
e quando se trata de comida. Por muito que se tente que a fotografia Normalmente, quando fotografamos, no início, tudo tem de ser planea-
pareça espontânea, nunca pode ser. Mesmo aquele chocolate a derreter do – e estou-me a contradizer, em relação ao que disse no início – mas
ou o queijo a derreter, obviamente que nunca vai ser espontâneo. às vezes tem de haver aqueles happenings, ou seja, quando nós colo-
Agora, nós tentamos que pareça. camos o chocolate temos de tirar várias fotografias, para fazer a sequên-
cia e apanhar a melhor.
Como é que se capturam os sabores com a câmara? Mas tem de haver aquele happening, aquilo aconteceu naquele
Nós nunca conseguimos prever o que vai acontecer. Quando se momento espontâneo e depois, se não correr bem, vamos ter de fazer
começa a preparar um prato é tudo planeado ao ínfimo detalhe. Mas o tudo de novo.

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PELA OBJETIVA DE... Cristina Vaz

4Sony a700 . 50mm . f/16 . 1/60” . ISO 100 4Sony a700 . 50mm . f/10 . 1/60” . ISO 100

Todos temos uma história de amor com a fotografia. A sua é? aprender. E pronto, inscrevi-me no curso do IPF do Porto e tirei então o
Eu não tenho bem uma história de amor pela fotografia. Quando leio curso profissional de fotografia.
entrevistas de outros fotógrafos, eles dizem sempre que foi desde
pequenino que começaram a ter uma paixão pela fotografia porque E foi lá que fez a parte mais importante da sua formação?
alguém na família fotografava ou tinham lá em casa imensas câmaras e Sim, estive no IPF dois anos. Mas, como eu na altura trabalhava com
gostavam imenso daquilo. Eu não tenho esse back- freelancer, na área de design, eu tinha uma visão
ground. Não há ninguém na minha família que muito comercial. Eu sabia para o que ia. Não ia tirar
fosse fotógrafo nem nunca tive relação nenhuma fotografias simplesmente para expor numa galeria
com fotógrafos. Tem a ver com eu ser licenciada POR VEZES ou fosse onde fosse. Queria fotografias comerciais
em design e haver uma sensibilidade para os detal- porque queria fazer da fotografia a minha vida.
hes que faz com que eu gostasse de fotografia, de DÁ LUTA. Portanto, tinha que ser uma coisa para o lado mais
mostrar às outras pessoas aquilo que eu vejo e que comercial. E quando estava a tirar o curso era
sei que as pessoas muitas vezes não reparam. PRINCIPALMENTE engraçado porque, no início, eu dizia às pessoas
que queria tirar fotografia porque queria fazer
Mas foi a estudar, ou já no curso de design que PORQUE fotografia de comida. E as pessoas achavam muito
começou a relacionar-se com a fotografia?
Quando estava a estudar tive a disciplina de
HÁ ALIMENTOS estranho, porque ninguém tinha essa sensibilidade.
Diziam: fotografia de comida? Mas quê? Vais
fotografia que não me interessou particularmente.
Tirava as fotografias que toda a gente tira e gostava
QUE NÃO SÃO fotografar camarões? Toda a gente achava imensa
piada e ninguém via o potencial. Tanto que, hoje
de fotografar mas não era por aí além. Houve um
aniversário em que o meu marido – na altura ainda
FOTOGÉNICOS. em dia, no curso do IPF, se está a dar uma parte de
uma disciplina já virada para a comida. E acho que
namorado – me ofereceu uma câmara fotográfica foi a partir da altura em que tirei lá o curso que eles
daquelas semiprofissionais e eu comecei a tirar ficaram sensibilizados para essa disciplina.
fotografias e a achar que era o máximo e que tinha imenso potencial. Eu
queria começar logo a concorrer a todos os concursos e o meu marido Viver da fotografia, em Portugal, já é coisa complicada. Agora, viver
chamou-me um bocado à realidade… que é uma coisa que ele gosta só da fotografia gastronómica é algo que, decididamente, não é
muito de fazer. Começou a dizer-me que, se calhar, eu devia aprender, para qualquer um. Qual é o segredo?
que não era bem assim, ter uma câmara fotográfica e já estar a concor- Engraçado perguntar-me isso, porque toda a gente nos faz essa pergun-
rer a todos os concursos. E eu cai um bocadinho em mim e pensei: se ta. Há pessoas que olham para mim e perguntam: mas há fotógrafos de
eu gosto de fotografia e se quero fazer alguma coisa com fotografia, vou comida? Quando vão aos restaurantes do centro comercial e olham

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4Sony a700 . 50mm . f/2.8 . 1/60” . ISO 100 4Sony a700 . 50mm . f/8 . 1/25” . ISO 100

para aquelas fotografias, não sei de onde é que as pessoas acham que acho que é isso que dá o sabor às minhas fotografias.
aquelas fotografias saíram e acham que não há fotógrafos de comida. Eu
não tenho nenhum segredo para isto ter tido o sucesso que teve. Acho A iluminação é importante na sua fotografia?
que tem a ver com a minha dedicação e com o amor que tenho por Sim. Já me falaram que a minha iluminação é muito característica. Às
aquilo que faço. E pronto, ter disponibilidade e ser muito persistente. vezes as pessoas ficam abismadas quando assistem às minhas sessões.
Realmente, hoje em dia é preciso trabalhar e eu acho que, mais do que Olham para o set e depois, quando olham para o computador, dizem
trabalhar, é preciso gostar do que se faz e quando se gosta daquilo que “Ah não tem nada a ver”. E isso, claro, tem a ver com a iluminação.
se faz só temos que ter sucesso.
Edição de imagem é um bocadinho como o sal, não é? Se abusar-
Qual é o seu mercado em Portugal? mos dela, estraga tudo?
Basicamente, as marcas. Marcas de restaurantes de shopping, grandes Concordo que, se abusarmos da edição, estraga. Mas na área em que eu
marcas como hipermercados… Quando eu comecei a querer tirar estou, na fotografia comercial, às vezes temos de ‘abusar’ mas sempre
fotografia, eu queria ir ao pequeno restaurante, dali da esquina, porque com conta peso e medida. Como eu venho da área do design, para
eu na altura já fazia design para a pequena empresa e eu queria era mim o tratamento de imagem é fundamental. Além de que, eu quando
fazer fotografia para a pequena empresa, porque achava que toda a estou a fotografar, já estou a ver o resultado final com o tratamento.
gente tinha que ter direito a isso e queria fazer isso. Só que, com a atual Muitas vezes nós temos de sensibilizar o cliente: “cuidado que esta
situação que temos em Portugal, os pequenos restaurantes não têm fotografia ainda não está tratada, mas quando ficar tratada vai ficar com
dinheiro para investir. Portanto, eu acabei por trabalhar para grandes outro aspeto”. E nesta área tem mesmo que ser assim.
marcas e para grandes restaurantes.
Já percebemos que a fotografia de Cristina Vaz não seria a mesma
Já sabemos que não gosta de cozinhar, mas gostávamos de saber sem a parceria com o Luís. Em que medida ele é importante no seu
qual é o condimento principal da sua fotografia? Aquilo que lhe dá trabalho?
aquele “sabor” inconfundível? Ele é mais importante do que tudo. Sem ele eu não conseguiria chegar
Acho que é a obsessão que eu tenho pelos detalhes, estar sempre insa- onde eu estou. Para além de ser a pessoa que me apoia e sempre me
tisfeita com o resultado, querer sempre melhorar. Em relação ao food- tem apoiado em todo o processo, também é a pessoa que mais critica o
styling, com o que está à volta de mesa, tem a ver com a escolha dos meu trabalho. E sem as críticas dele, eu não evoluiria tanto como tenho
acessórios que têm alma. Eu tenho imensas coisas da minha avó Emília evoluído. Ele está sempre comigo nas sessões e, como também é
que fui buscar e que gosto de usar porque dá aquele toque especial. E designer, faz direção criativa das fotografias.

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PELA OBJETIVA DE... Cristina Vaz

4Sony a700 . 50mm . f/3.2 . 1/60” . ISO 100

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4Canon 5D MK II . Canon 24-105mm f/4L IS .
58mm . f/22 . 1/50” . ISO 100

Aquela peça do seu equipamento sem a qual não pode frutos vermelhos e com o molho a escorrer… aquele tipo de
mesmo viver é… fotografia muito apetitosa. Ora, a panna cotta é uma coisa
Tenho três e são completamente diferentes. Uma é o meu muito difícil de fazer e nós tentamos contornar a coisa.
marido [risos], outra é a minha pinça porque estou sempre Comprámos uma gelatina de coco, que era branca também,
com a pinça na mão – e a perdê-la também – para mexer tentamos fazer com iogurte congelado mas não con-
no prato. Obviamente não mexo com as mãos. Uso-a para seguimos fazer aquilo de maneira nenhuma.
acertar aqueles detalhezinhos. Ao nível da fotografia, obvia- Entretanto, o Luís desistiu e eu comecei a olhar e tinha uma
mente seria a minha objetiva macro. É com ela que trabalho tigela que era exatamente a forma da panna cotta. Então o
mais e é ela que me satisfaz mais. É uma 100mm da Canon. CRISTINA VAZ que eu fiz foi pegar na tigela, meti no prato, meti o molho
35 anos | Portalegre
PROFISSIONAL
por cima, os morangos, pus tudo direitinho, criei a fotografia,
Tem ideia de qual foi a sua primeira câmara? mostrei-lhe e diz ele: “Ah, como é que conseguiste? Está fan-
Foi uma Nikkon mas já foi digital. Eu não sou do tempo do EQUIPAMENTO tástico!”.
Canon EOS 5D Mark II,
analógico. E agora tenho uma Canon [EOS 5D Mark II]. Canon EF 100 mm f/2.8L
Antes de olhar para o set, ele viu a fotografia e achou que
Macro, estava mesmo apetitoso. E, quando foi ver, ele não queria
Resposta de pergunta obrigatória e não adianta estar Canon EF 24-105mm acreditar que era uma tigela de porcelana, branca, que estava
F/4L,
com rodeios que ninguém escapa a ela. Toda a gente Tripé Manfrotto;
ali. Nós hoje em dia contamos muitas vezes esta história.
tem histórias divertidas, incidentes, pequenas trapa- Porque eu adoro esta história e as pessoas quando
lhadas que aconteceram quando fotografava. Conte lá Estúdio Portátil Bowens: começam a olhar é que se apercebem realmente do que é.
2xCompact Flash
qual foi a sua? Monolights Gemini
Mas antes de contarmos a história dizem “ai que comida
Foi uma fotografia que eu estava a fazer para a brochura do 500R, apetitosa”.
“Vazio Studio” e queríamos tirar algumas fotografias para nos Softbox 60x80, 2 x
Softbox 80x100;
apresentarmos. Entretanto, como nós não cozinhamos, ten- MacBook Pro 15”
Se a sua câmara falasse. O que diria ela?
tamos sempre contornar a coisa de modo a chegarmos ao … e algumas malas Eu já estou com o meu marido no “Vazio Studio” há cerca de
resultado final sem termos de estar a cozinhar muito. Sem cheias de truques e dois anos. Já fizemos aí uns 50 mil quilómetros porque nós
acessórios.
ter que estar com aqueles malabarismos todos que os co- somos um estúdio que vai ao domicílio. Eu não consegui
zinheiros fazem. contar os cliques da minha câmara, mas acho que a única
Então, nós queríamos fotografar uma panna cotta com os www.vaziostudio.pt coisa que ela diria era “deixa-me descansar”.

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PELA OBJETIVA DE... Cristina Vaz

A bruschetta
Gosto particularmente desta fotografia pelo facto de ter sido uma das problemas que, por entusiasmo e alguma destreza, facilmente ultra-
primeiras que produzi e ainda considerar o registo bastante atual. passei.
Como já referi não gosto de cozinhar, mas não quer necessaria- Primeiro, pensar como resolver a preparação do produto a fotografar.
mente dizer que não gosto de comer. Sou fascinada por comida itali- Neste caso, como os ingredientes não precisavam de ser confe-
ana e influenciada pela dieta mediterrânea e os ingredientes que a cionados, concentrei-me em escolher os mais apetitosos em qual-
compõem. Adoro comida despretensiosa, realista e que qualquer quer mercearia.
pessoa consiga fazer, até eu. Na altura, como ainda não tinha cabeças de flash, recorria apenas a
Neste caso, tudo gira à volta de uma simples bruschetta, poucos luz natural, espelhos e refletores. Em contrapartida, tinha a sorte de
ingredientes mas muito Apetite Appeal. ter uma cozinha com grandes janelas, o que me facilitava o trabalho.
Na altura estava a desenvolver o “Desculpas para Cozinhar” e a O maior desafio foi de agilizar e conciliar tudo para conseguir pro-
pesquisar ideias para o livro. A vontade de produzir esta fotografia duzir a fotografia sozinha pois, na altura, o Luís ainda trabalhava a
surgiu depois de um almoço que tive com o meu marido, o Luís, em tempo inteiro. Depois de tudo montado, iluminação, refletores,
que nos serviram uma bruschetta pouco apetitosa. Fiquei com von- câmara, foco, tomate cherry e orégãos, com uma mão na câmara e
tade de a enaltecer sendo merecedora de atenção pelo seu enorme outra na garrafa de azeite, disparei. A luz estava perfeita, adicionei
potencial. É simples e simplesmente perfeita. apenas um pouco de sharpen e está pronto a servir!
Tecnicamente, para produzir esta fotografia deparei-me com diversos
4Sony a700 . 50mm . f/2.8 . 1/320” . ISO 100

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