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TEOLOGIA

SISTEMÁTICA
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA

Uma perspectiva pentecostal

J.RODMAN

WILLIAMS

Vida
©1988, 1990, 1992, 1996, de J. Roman Williams

(s/
Vida
Título original
Renewal Theology
edição publicada por
Z oN D E R V A N P u B L I S H I N G H o U S E
E d it o r a V id a (Grand Rapids, Michigan, EUA)
Rua Isidro Tinoco, 70 Tatuapé
CEP 03316-010 São Paulo, SP ■
Tel.: 0 xx 11 2618 7000 Todos os direitos em língua portuguesa
Fax: 0 xx 11 2618 7030 reservados p o r Editora Vida.
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P r o ib id a a r e p r o d u ç ã o po r q u a isq u e r m e io s ,
SALVO EM BR E V ES CITAÇÕES, COM INDTCAÇÃO DA FONTE.

As citações bíblicas foram extraídas de cinco versões


brasileiras Nova Versão Internacional [iW7], Bíblia Viva
[B V ], Nova Tradução na L inguagem de H oje [N T H L ], Bíblia
de Jerusalém [B J ], Cartas p ara H oje [C H ], A lm eida Edição
C ontem porânea [A E C ], A lm eida Revista e Atualizada [ARA],
A lm eida Revista e C orrigida [ARC] e Bíblia na L inguagem de
H oje [B L H ], todas indicadas pelas siglas acima, e de outras
Editores responsáveis: Sônia Freire Lula Almeida dez versões em inglês sem correspondência no Brasil. Essas
e Marcelo Smargiasse dez versões foram livremente traduzidas para esta obra e estão
Editor-assistente: Gisele Romão da Cruz Santiago relacionadas em “Abreviaturas”.
Tradução por Sueli Saraiva e Lucy Hiromi Kono Yamakami

Revisão de tradução: Daniel Oliveira e Judson R. Canto
Revisão de provas: Josemar de Souza Pinto Todas as citações bíblicas e de terceiros foram adaptadas
Diagramação: Claudia Fatel Lino e Karine dos Santos Barbosa segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado
Capa: Arte Peniel em 1990, em vigor desde janeiro de 2009.

L edição: jul. 2011

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Williams, J. Rodman
Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal / J. Rodman Williams;
[tradução por Sueli Saraiva e Lucy Hiromi Kono Yamakami]. — São Paulo:
Editora Vida, 2011.

Título original: Renewal 'Theology


ISBN 978-85-383-0203-2

1. Pentecostalismo 2. Teologia sistemática I. Título.

11-03311 CDD-230.0462

índices para catálogo sistemático:


1. Teologia sistemática : Perspectiva pentecostal: Cristianismo 230.0462
Sumário

Abreviaturas ............................................................................................................................................................................................... 7

Volume 1

Prefácio .................................................................................................................................................. 11

1. I n t r o d u ç ã o .................................................................................................................................................................................. 13
2. O c o n h e c i m e n t o d e D e u s ...................................................................................................................................................25
3. D e u s ............................................................................................................................................................................................... 4 0
4. A s a n t a T r i n d a d e ....................................................................................................................................................................71
5. C r i a ç ã o .........................................................................................................................................................................................81
6. P r o v i d ê n c i a ............................................................................................................................................................................. 101
7. M il a g r e s ............................................................................................................................. 121
8. A n j o s .......................................................................................................................................................................................... 14 6
9. H o m e m ...................................................................................................................................................................................... 17 0
10. P e c a d o ........................................................................................................................................................................................191
11. O s e fe ito s d o p e c a d o .......................................................................................................................................................... 21 1
12. A l i a n ç a ......................................................................................................................................................................................2 3 7
13. A e n c a r n a ç ã o .........................................................................................................................................................................2 6 3
14. E x p i a ç ã o ......................................................................................................................................................................... 305
15. A e x a lta ç ã o d e C r i s t o ......................................................................................................................................................... 3 2 9

Volume 2

Prefácio .................................................................................................................................................................................................... 361


1. C h a m a d o ..................................................................................................................................................................................3 6 3
2. R e g e n e r a ç ã o ........................................................................................................................................................................... 381
3. J u s ti f i c a ç ã o ..............................................................................................................................................................................4 0 4
4. S a n t if ic a ç ã o .............................................................................................................................................................................4 2 3
5. P e r s e v e r a n ç a ..........................................................................................................................................................................4 5 5
6. O E s p ír ito S a n t o .................................................................................................. ;.............................................................. 4 7 2
7. O E s p ír ito c a p a c i t a d o r ...................................................................................................................................................... 4 8 8
8. A v i n d a d o E s p ír ito S a n t o ...............................................................................................................................................511
9. O f e n ô m e n o d a s l í n g u a s ...................................................................... 536
10. A m is s ã o d o E s p ír ito S a n t o ............................................................................................................................................. 561
T e o lo g ía s is te m á tic a : u rn a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

11. O r e c e b im e n to d o E s p ir ito S a n to ........ .........................................................................................................................5 9 2


12. O s e fe ito s d a v i n d a d o E s p i r i t o .................................................................................................................................... 6 2 5
13. O s d o n s d o E s p ir ito S a n t o ...............................................................................................................................................6 3 8
14. A m a n i f e s t a ç ã o n ó n u p l a ................................................................................................................................................. 6 6 0
15. V id a c r i s t ã ................................................................................................................. 719

Volume 3

Prefácio .................................................................................................................................................................................................... 7 5 3

Pa r t e 1 — A i g r e j a .........................................................................................................................................................................7 5 4

1. D e f i n i ç ã o ....................................... ........................................................................................................................................ 7 5 5
2. E s c o p o ....................................................................................................................................................................................... 7 6 3
3. S í m b o l o s ................................................................................................................................................................................... 7 8 4
4. F u n ç õ e s .................................................................................................................................................................................... 8 1 5
5. M i n i s t é r i o .................................................... 879
6. O r d e n a n ç a s ............................................................................................................................................................................ 9 3 5
7. A ig r e ja e 0 g o v e r n o c iv il................................................................................................................................................. 9 7 3

Pa r t e 2 — Ú l t i m a s c o i s a s ........................................................................................................................................................9 9 2

8. O R e in o d e D e u s .................................................................................................................................................................. 9 9 3
9. O r e t o r n o d e Je su s C r i s t o ............................................ 999
10. S i n a i s ....................................................................................................................................................................................... 1 0 1 6
11. A f o r m a d o r e t o r n o d e C r i s t o .................................................................................................................................... 1075
12. O p r o p ó s i t o d o r e t o r n o d e C r i s t o .............................................................................................................................. 1085
13. O M i l ê n i o .............................................................................................................................................................................. 1 1 0 6
14. O ju íz o f i n a l .......................................................................................................................................................................... 1 1 2 7
15. A c o n s u m a ç ã o ..................................................................................................................................................................... 1 1 5 5

Bibliografia ..........................................................................................................................................................................................1181
índice de assuntos........................................................................................................................................................................... 1 1 9 9

6
Abreviaturas

AB Anchor Bible
AEC Edição Contemporânea da tradução de João Ferreira de Almeida ("Editora Vida,)
ARA Edição Revista e Atualizada da tradução de João Ferreira de Almeida
ARC Edição Revista e Corrigida da tradução de João Ferreira de Almeida
ASV American Standard Version
AT Antigo Testamento

BAGD Bauer, Arndt, Gingrich & Danker, Greek-English Lexicon ofthe New Testament

BDB Brown, Driver & Briggs, Hebrew-English Lexicon o f the Old Testament

BDF Blass, Debrunner & Funk, A Greek Grammar ofthe New Testament

BJ Bíblia de Jerusalém
BLH Bíblia na Linguagem de Hoje
EBC Expositors Bible Commentary
EDT Evangelical Dictionary o f Theology
e.g. exempli gratia (por exemplo)
EGT Expositors Greek Testament
HNTC Harpers New Testament Commentary
IB Interpreters Bible
ICC International Criticai Commentary
IDB Interpreters Dictionary ofthe Bible
i.e. id est (isto é)
ISBE International Standard Bible Encyclopedia, Revised Edition
KJV King James Version
LCC Library ofChristian Classics
LXX Septuaginta (Antigo Testamento em grego)
NASB New American Standard Bible
NCBC New Century Bible Commentary
NEB New English Bible

7
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

NICNT New International Commentary ofthe New Testament


NICOT New International Commentary ofthe Old Testament
NIDNTT New International Dictionary ofNew Testament Theology
NIGTC New International Greek Testament Commentary
NIV New International Version
NT Novo Testamento
NTC New Testament Commentary
NTLH Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI Nova Versão Internacional (Editora Vida)
RSV Revised Standard Version
TB Tradução Brasileira
TDNT Theological Dictionary ofthe New Testament
TNTC Tyndale New Testament Commentary
TOTC Tynàale Old Testament Commentary
TWOT Theological Wordbook o f the Old Testament
UBS United Bible Societies Greek New Testament
WBC Word Bible Commentary
WBE Wydijfe Bible Encyclopedia
ZPEB Zondervan Pictorial Encyclopedia o f the Bible

8
Volume 1

Teologia sistemática:
uma perspectiva pentecostal
,
Deus o mundo e a redenção
Prefácio

Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal é um estudo sobre a fé cristã. Ela trata de assuntos
básicos como Deus e seu relacionamento com o mundo, a natureza do homem e a tragédia do pecado e
do mal, a pessoa e a obra de Jesus Cristo, o caminho da salvação, a vinda do Espírito Santo, os dons do
Espírito e a vida cristã. Essas e muitas outras áreas afins serão consideradas com cuidado.
O presente volume culminará com o estudo da pessoa e obra de Cristo conforme apresentadas na
encarnação, expiação e exaltação.
O texto da Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal tem como base, em primeiro lugar,
a teologia ensinada a partir de 1959 em três instituições; Austin Presbyterian Theological Seminary,
em Austin, Texas; Metodyland School of Theology, em Anaheim, Califórnia e, atualmente, na Regent
University, em Virginia Beach, Virgínia. Em cada um desses lugares tem sido minha responsabilidade
cobrir todo o campo da teologia: as doutrinas básicas da fé cristã. Por conseguinte, o que se escreve em
Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal brota, em grande parte, da experiência em salas de
aula: a preparação regular para o ensino, o intercâmbio com os alunos e o diálogo com os professores
da faculdade. Em anos recentes, boa parte do material que agora se encontra nesta obra tem sido usada
para instrução em sala de aula e carrega as marcas, creio, da comunicação viva.
Minha preocupação em toda a obra é apresentar a fé cristã de maneira que seja interativa — um
tipo de fala escrita. Em um livro anterior intitulado Ten Teachings [Dez ensinos] (1974), que surgiu tan­
to da pregação como do ensino, fiz uma tentativa preliminar muito mais breve. Agora, minha esperança
é que todos os que lerem estas páginas — estudantes de teologia, pastores ou leigos — reconheçam este
discurso pessoal a eles.
O outro aspecto dos bastidores para a escrita de Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal
é minha participação, desde 1965, no movimento de renovação espiritual na igreja antes descrita como
“neopentecostal” e, mais recentemente, como “carismática”. Muitos envolvidos nesse movimento tratam-
-na hoje apenas como “a renovação”. Anos atrás, tentei tratar de certas características da renovação por
meio de três livros: The Era o f the Spirit [A era do Espírito] (1971), The Pentecostal Reality [A realidade
pentecostal] (1972) e The Gift o f the Holy Spirit Today [O dom do Espírito Santo hoje] (1980). Em Teologia
sistemática: uma perspectiva pentecostal, meu interesse é muito mais amplo, ou seja, tratar de todo o leque
da verdade cristã. Ainda assim, será uma “teologia da renovação”, i.e., uma teologia sistemática na perspec­
tiva pentecostal, porque escrevo como alguém posicionado dentro do contexto da renovação.
Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal é, em certo sentido, uma expressão de revitalização.
Quando cheguei à renovação, em 1965, a linguagem do “Deus está morto” era corriqueira. O que aconte­
ceu no meu caso e no caso de muitos outros foi a própria resposta de Deus: uma autorrevelação poderosa.
Em The Era ofthe Spirit escrevi: “Talvez ele tenha parecido ausente, distante, até inexistente para muitos de

li
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

nós antes, mas agora sua presença manifesta-se de maneira viva” (p. 10). João Calvino declarou muito tem­
po atrás que o conhecimento de Deus consiste “mais em viva experiência do que em vazia e leviana especula­
ção” (As institutas ou tratado da religião cristã, 1:10.2). Agora que houve uma intensificação de “experiência
viva” em minha vida, brotou um novo zelo no ensino da teologia em suas muitas facetas. Como disse mais
tarde em The Era ofthe Spirit: “Liberou-se uma nova dinâmica que revitalizou várias categorias teológicas”
(p. 41). Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal é uma expressão dessa revitalização teológica.
Na maioria das páginas que se seguem, haverá pouca diferença em relação àquilo que se pode
encontrar em muitos livros de teologia. Isso ocorre especialmente neste primeiro volume em que os
tópicos em geral seguem os padrões tradicionais. Entretanto, o que espero que o leitor capte nas entre­
linhas é o fascínio e o entusiasmo com a realidade das matérias discutidas. A velha existência renovada
é algo com que se entusiasmar!
Contudo, Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal também representa uma tentativa
de reforçar certas afirmações bíblicas que têm sido muito negligenciadas ou recebido atenção insufi­
ciente. Em harmonia com o cenário desta teologia dentro da renovação contemporânea, também há
uma profunda preocupação em relacionar ênfases renovadas relevantes com as categorias mais tra­
dicionais. Já que minha convicção é de que a tradição e a teologia da igreja têm em geral deixado de
dar tratamento adequado ao aspecto da obra do Espírito Santo que pode ser chamado de “pentecos-
tal” e “carismático”, haverá uma tentativa diligente de trazer essas questões à luz. O volume 2 tratará
especialmente dessa área; mas, em muitos outros pontos de Teologia sistemática: uma perspectiva
pentecostal haverá uma coloração pentecostal/carismática.
Por fim, a preocupação de Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal em cada área de estu­
do é a verdade. Isso não é uma tentativa de promover uma causa particular, mas compreender em sua
totalidade o que proclama a fé cristã. Não é apenas uma questão de doutrinas específicas, mas também
de toda a extensão da verdade cristã. Com isso em mente, é meu desejo e oração que o “Espírito da
verdade” guie “a toda a verdade” (Jo 16.13) em cada ponto.
Estendo minha gratidão a vários colegas do corpo discente da Regent University que leram o ma­
terial no todo ou em parte e ofereceram muitas sugestões valiosas. Sou especialmente grato ao dr. John
Rea e ao dr. Charles Holman do departamento de estudos bíblicos, pelo auxílio nesse sentido. Também
apresento minha gratidão a Mark Wilson, assistente da Regent University, pela edição inicial de todo
o material. Estendo igualmente meu apreço aos assistentes de graduação Helena 0 ’Flanagan e Cynthia
Robinson, pelo trabalho de referências, e às digitadoras Ruth Dorman e Juanita Helms. Ao trazer este
material para ser publicado, também agradeço o agradável relacionamento cooperativo com Stanley
Gundry, Ed van der Maas e Gerard Terpstra, da Zondervan Publishing House.
Acima de tudo, sou profundamente grato a minha esposa, Jo, pelo incentivo e auxílio em todo o
longo processo de chegar à conclusão desta obra.
Encerro este prefácio com as palavras desafiadoras de Paulo a Tito: “Você, porém, fale o que está de
acordo com a sã doutrina” (Tt 2.1). Pela graça de Deus, creio que o que se encontra nas páginas a seguir
seja “sã doutrina”. Não tenho nenhum desejo de ensinar outra coisa.

12
1
Introdução

Este capítulo de abertura trata do assunto básico da A teologia trata da verdade. Isso significa, em pri­
teologia. Qual sua natureza, função e método? Have­ meiro lugar, uma explicação fiel e precisa do conteúdo
rá referências à relevância da renovação, mas a ênfase da fé cristã — assim, ser fiel à substância da fé. Signi­
principal estará na questão da teologia em si. fica, em segundo lugar, por causa da convicção de que
a fé cristã é a verdade acerca de Deus, do homem, da
1. A NATUREZA DA TEOLOGIA
salvação etc., que a teologia se preocupa em ser mais
Uma proposta de definição: o conteúdo da fé cris­ que exata: preocupa-se com a verdade enquanto con­
tã conforme apresentado em exposição ordenada pela formidade com a realidade última.
comunidade cristã. Vários aspectos dessa definição de O centro da teologia é Deus. Embora a teologia
teologia serão considerados nas páginas a seguir. trate de todo o campo da verdade cristã, o ponto fo­
cal é Deus: sua relação com o Universo e o homem.
A. O conteúdo da fé cristã
A palavra “teologia” deriva de theos e logos> aquela
A teologia apresenta o que a fé cristã ensina, afir­ significando “Deus” e esta, “palavra”, “fala”, “discur­
ma, considera verdadeiro: suas doutrinas. so”; portanto, “palavra acerca de Deus”, “fala acerca de
A fé cristã possui princípios definidos, e o cam ­ Deus”, “discurso acerca de Deus”. No sentido mais es­
po é vasto; e.g., o Deus trino, Criação, providência, treito, como indica a etimologia, a teologia não trata ou­
pecado, salvação, santificação, a igreja, sacramentos, tro assunto senão do próprio Deus: seu ser e atributos.
“últimas coisas”. A teologia trata do que é verdade em Entretanto, como costuma acontecer agora, a palavra
sua totalidade. é usada em referência não só a Deus, mas também a
Desde seus primórdios a comunidade cristã tem todas as suas relações com o mundo e o homem. Na teo­
um compromisso profundo com a doutrina ou o en­ logia, nunca deixamos a área do falar acerca de Deus: a
sino. A primeira coisa que se disse acerca dos cris­ teologia é teocêntrica do começo ao fim.
tãos primitivos era que “se dedicavam ao ensino dos Deve-se acrescentar que a teologia não é nem lou­
apóstolos”1 (At 2.42). Em todo o NT há muitas re­ vor nem proclamação, que seriam ou falar para Deus
ferências à importância da doutrina2 — i.e., da “sã ou falar de Deus. Antes, limita-se ao discurso: falar
doutrina”.3 Tal preocupação diz respeito tanto a dou­ acerca de Deus. A teologia, por conseguinte, cumpre
trinas específicas como a “toda a vontade de Deus” (At sua tarefa não na primeira ou na segunda pessoa, mas
20.27). Essa preocupação continua até os dias de hoje.
na terceira pessoa. Ao discursar acerca de Deus, a teo­
A comunidade cristã é uma comunidade de ensino.
logia pressupõe louvor e proclamação, e existe com o
propósito de definir o conteúdo deles. A teologia é,
Ou “doutrina” (ARA). A palavra grega é didachê, em geral pois, serva da fé cristã.
traduzida por “ensino”.
A palavra “teologia” é também com frequência
: V., e.g., Efésios 4.14; lTimóteo 1.3; Tito 2.10. A palavra
empregada como um termo totalmente abrangente
grega é didaskalia.
“Sã doutrina” é citada em lTimóteo 1.10; Tito 1.9; 2.1 que diz respeito ao estudo de qualquer assunto que se
(v. tb. 2Tm 4.3). refira à Bíblia, à igreja e à vida cristã. Uma “escola de

13
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

teologia” é onde se estudam muitas disciplinas: Bíblia, conhecimento e a ordenação dela.4 É um modo de
história da igreja, ministérios práticos. Nenhum des­ amar a Deus com todo o entendimento (Mt 22.37)
ses estudos, como tais, procuram explicar o conteúdo e, assim, um trabalho mental de amor que procura
da fé cristã; mas todos são estreitamente ligados uns apresentar da maneira mais convincente possível os
aos outros e ao conteúdo da fé. Neste sentido amplo, caminhos de Deus com o homem. O teólogo nunca
uma pessoa teologicamente bem instruída e treinada ostentará ou empregará demais a razão, pois embora
está habilitada nessas disciplinas afins. não consiga, por meio de sua razão, compreender nem
elucidar plenamente a verdade cristã, ele é chamado a
B. Em exposição ordenada
expressar com a maior clareza possível o que é decla­

A teologia não é apenas doutrina, mas a articulação rado nos mistérios da fé. A teologia, por conseguinte, é

de relações e ligações entre várias doutrinas. A preo­ “fé em busca do entendimento”.5

cupação é que “toda a vontade de Deus” seja apresenta­ Se a exposição ordenada é o método da teologia,

da de maneira compreensível e ordenada. podemos agora acrescentar que ela é teologia sistemá­

A verdade da fé cristã é um todo arquitetônico. tica. A palavra “sistema” indica o caráter entrelaçado e
Ela forma uma estrutura, um padrão de harmonia interdependente de todas as doutrinas que formam a

entrelaçada em que todas as partes se encaixam e se teologia. Sob certos aspectos a expressão “teologia sis­

misturam entre si: Criação e providência, aliança e temática” é uma tautologia, pois a teologia em si é uma

salvação, dons espirituais e escatologia, e assim por explicação ordenada e, assim, implica procedimentos

diante. E mais, já que o cenário de toda reflexão teo­ sistemáticos. Entretanto, a expressão passou a ser lar­

lógica é o Deus vivo em relacionamento com a cria­ gamente utilizada para diferenciá-la da “teologia bíbli­

tura viva, a teologia procura expor a doutrina cristã ca”, da “teologia histórica” e da “teologia prática”. Elas

como uma realidade viva. Não é, portanto, a arquite­ podem ser brevemente explicadas quanto à sua relação

tura de cimento e pedras inanimadas nem a estrutura com a teologia sistemática.

de uma catedral linda, mas sem vida; trata-se, antes, A teologia bíblica é a organização e explicação or­

da articulação da verdade viva em toda a sua maravi­ denada dos ensinos da Bíblia. Ela pode ser subdividi­

lhosa variedade e unidade. da em teologia do AT e teologia do NT e, ainda mais,

Isso significa também que cada doutrina — como por exemplo, em teologia paulina e joanina. A teologia

parte do todo — deve ser apresentada da maneira histórica apresenta de maneira ordenada como a igre­

mais clara e coerente possível. Isso deve ser feito com ja, ao longo dos séculos, tem recebido e articulado a

base em muitos aspectos; e.g., seu conteúdo, contex­ fé cristã em credos, confissões e outras formulações.

to, intenção básica, relevância. A doutrina deve tor- A teologia prática é um estudo ordenado da maneira

nar-se compreensível ao máximo. Uma vez que todas pela qual a fé cristã é praticada: por meio da pregação,

as doutrinas cristãs dizem respeito a Deus, que está ensino, aconselhamento, e assim por diante. A teologia

totalmente acima de nossa compreensão, é inevitável sistemática é em geral colocada depois das teologias

que haja algum elemento de mistério, ou transcen­


dência, que não pode ser reduzido ao entendimento 4 E.g., a “bío-logia” trata do conhecimento acerca da vida
orgânica (bios); a “psico-logia”, acerca da mente ou alma
humano. Ainda assim, dentro desses limites, é preci­
(psyche) etc.
so prosseguir com o esforço teológico.
3 Anselm o (teólogo medieval) fez dessa expressão a base de
A teologia é uma disciplina intelectual. É uma sua obra teológica. Seu famoso Proslógio era originalmen­
“-logia” e, portanto, a reflexão sobre certa área do te intitulado Fé em busca do entendimento.

14
Introdução

bíblica e histórica, já que a fé cristã, que tem suas raízes dogmática seja sistemática, nem toda teologia sis­
na Bíblia, vem atravessando séculos. E ela é colocada temática é dogmática; ela pode ser mais bíblica ou
antes da teologia prática porque fornece o conteúdo mesmo mais filosófica."
daquilo que deve ser posto em prática. A área da apologética deve ser mencionada a seguir.
A expressão “teologia doutrinai” é muitas vezes É a disciplina teológica que apresenta argumentos e
usada em referência essencialmente à mesma área que evidências em favor da validade da fé cristã. Em 1Pe­
a “teologia sistemática”. Uma vez que a teologia trata dro 3.15, estão as palavras: “Estejam sempre preparados
da articulação dos conteúdos da fé cristã (as doutrinas, para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão
portanto), ela é tanto sistemática como doutrinai. Uma da esperança que há em vocês”. Observe também 2Co-
vez que a palavra “sistemática” expressa a articulação e ríntios 10.5: “Destruímos argumentos e toda pretensão
a palavra “doutrinai”, o conteúdo, os termos podem ser que se levanta contra o conhecimento de Deus, e leva­
usados de maneira intercambiável. mos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente
Outra expressão, particularmente comum no a Cristo”.8 O apologista procura prover, na medida do
cenário europeu, que precisa ser relacionada à teo­ possível, uma defesa racional da fé cristã. A apologéti­
logia sistemática, é “teologia dogmática” A teologia ca está voltada para o mundo da incredulidade e tenta
dogmática (ou simplesmente “dogmática”) refere-se estabelecer certos aspectos da fé cristã — por exemplo,
em especial à teologia conforme apresentada nos a veracidade das Escrituras, a existência de Deus, a dei-
dogmas, credos e pronunciamentos da igreja. Os dade e ressurreição de Cristo e a imortalidade da alma
dogmas dizem respeito a doutrinas aceitas pela igre­ — como verdades, baseada exclusivamente em evidên­
ja ou por uma igreja em particular — o que é aceito cias racionais e empíricas. Não se faz nenhum apelo à
e crido. Assim, a teologia dogmática procura expor fé ou à Escritura, mas simplesmente ao que uma mente
aquelas doutrinas com a maior clareza possível. A racional e aberta consegue compreender. A apologética,

teologia dogmática, por conseguinte, mantém um portanto, não é teologia no sentido direto de estabelecer

relacionamento estreito com a teologia histórica por o conteúdo da fé sem argumentos ou defesa. Entretanto,

se concentrar em formulações históricas da fé. Ela é a apologética pressupõe essa fé e é bem sistemática em

semelhante à teologia sistemática por procurar eluci­ suas tentativas de estabelecer as razões da fé.

dar e estabelecer as formulações aceitas de maneira A ética é outra área que precisa ser considerada.

ordenada para a igreja contemporânea.6* A teologia A ética, a disciplina que trata da conduta moral, pode

sistemática, ainda que relacionada com as formu­ ser uma busca totalmente secular — por exemplo, no

lações históricas, opera de maneira mais livre em estudo da ética aristotélica. Mas, desde que a ética

relação a elas. Para concluir: embora toda teologia seja ética cristã, há uma ligação vital com a teologia.
Para o cristão, a fé volta-se não só para o amor a Deus,
mas também para o amor ao próximo. Sempre que o
6 A teologia dogmática tem ligação mais estreita com as formu­
lações da igreja na Igreja católica romana do que nas igrejas
protestantes. Por exemplo, Karl Barth, um teólogo protes­ 7 Teologia sistemática, de Paul Tillich , é um exemplo de
tante europeu, ainda que intitule Dogmática eclesiástica sua teologia sistemática abertamente filosófica em sua orienta­
principal obra, fala do caráter não restritivo dos credos e con­ ção. Sua base não é a Palavra de Deus, mas a filosofia exis­
fissões (v. Barth, Dogmatics in Outline, p. 13). Ainda que tencialista.
se considere teólogo da igreja na tradição reformada e alguém 8 Paulo fala de modo semelhante em relação ao “bispo” ou
que escreve no contexto dos credos clássicos e das afirmações “supervisor” (gr. episkopos) como alguém apto não só para
confessionais da Reforma, Barth afirma estar atado acima de “encorajar outros pela sã doutrina”, como também para “re­
tudo à Palavra de Deus na Escritura. futar os que se opõem a ela” (Tt 1.7,9).

15
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

assunto é a relação com o próximo, estamos no cam­ Por fim, deve-se acrescentar que, embora a teolo­
po da ética. O cristianismo está ligado tanto à fé como gia seja uma função da comunidade cristã, ela muitas
à moral; uma sem a outra é teologia truncada. Nesse vezes desempenha sua tarefa teológica por meio de
sentido, a ética é idêntica à teologia em sua dimen­ assembléias, concílios e comissões especiais particular­
são moral. Mas também à medida que a ética cristã mente dedicadas à elaboração dos fundamentos da
se torna mais concreta em sua aplicação a problemas fé cristã. Aqui o papel do teólogo como especialista
contemporâneos como guerra, relações raciais, ordem em questões doutrinárias é altamente significativo.
econômica, comportamento sexual e ecologia, passa a Ele pode ser influente por sua contribuição a uma
auxiliar a teologia. Assim como a apologética, a ética assembléia que esteja tentando definir uma doutri­
pressupõe a substância da teologia e serve como uma na ou simplesmente por meio de seus escritos que
aplicação concreta dela. recebam crédito na comunidade cristã. De qualquer
forma, quer o trabalho de teologia seja realizado por
C. Pela comunidade cristã uma grande assembléia, um grupo pequeno ou um
indivíduo, a questão da participação continua tendo
A teologia é uma função da comunidade cristã,
importância crucial
tendo exercido várias funções desde os primeiros dias.
Além de se dedicarem ao “ensino dos apóstolos” que II. A FUNÇÃO DA TEOLOGIA
já observamos, os primeiros cristãos também se de­
dicavam “à comunhão, ao partir do pão e às orações” A teologia possui algumas funções. Entre elas estão
a clarificação, a integração, a correção, a declaração e
(At 2.42). Em termos gerais, as principais funções po­
o desafio.
dem ser descritas como adoração, proclamação, ensi­
no, comunhão e serviço. Quando a comunidade cristã A. Clarificação
procura estabelecer seu entendimento básico — seus
ensinos — de maneira ordenada, isso é teologia. É importante estabelecer com a maior clareza
Já que a teologia é uma função da comunidade possível o que afirma a comunidade cristã. Isso ser­

cristã, é evidente que a teologia não pode ser um exer­ ve basicamente para as pessoas da comunidade que

cício de observação neutra; antes, ela só pode ser feita precisam ser instruídas na fé. Muitas vezes há falta

pelos que são participantes genuínos.9 Obviamente, de entendimento em várias áreas doutrinárias. A par­

muito se pode escrever sobre Deus e seus rumos (e isso ticipação na experiência cristã é, claro, algo impres­

até poderia parecer adequado e verdadeiro), mas sem cindível, mas isso não traz pleno entendimento de

participação há uma percepção inadequada do que se maneira automática. É preciso uma instrução com ­

está falando. A teologia legítima brota da vida da co­ plementar para que possa ocorrer um esclarecimento
cada vez maior da verdade.10
munidade cristã, explorando assim as profundidades e
É triste que muitos cristãos sejam tão inseguros
alturas que, de outro modo, estariam fechadas para o
quanto ao que creem. Eles precisam de instruções so­
entendimento ordinário.
bre aquilo em que creem — e muitas vezes as desejam.
Eles clamam por um ensino mais adequado. Essa é a
9 “A teologia pode ser definida como um estudo que, por meio
tarefa que a teologia é chamada a cumprir.
da participação na fé religiosa e reflexão sobre ela, pro­
cura expressar o conteúdo dessa fé na linguagem mais clara
e coerente possível” ( M a c q u a r r i e , John. Principies of 10 A intenção dessa instrução é que o indivíduo cristão se tor­
Christian Theology, p. 1). O papel da participação é de ne “como obreiro que não tem do que se envergonhar e que
importância crucial. maneja corretamente a palavra da verdade” (2Tm 2.15).

16
Introdução

6. Integração Além disso, uma heresia pode começar como uma falha
honesta na compreensão de certa verdade que, porém,
A teologia deve ajudar a juntar tudo, integrando
mantida por algum período, torna-se cada vez mais dis­
uma verdade com outra. A teologia não trata só de clari­
torcida.11 Ou — e isto é muito mais sério — por causa
ficar as doutrinas isoladas, mas também de demonstrar
do esforço constante das forças malignas para seduzir
como elas se encaixam formando um desenho comple­
a comunidade cristã, afastando-a da verdade, os falsos
to. Já mencionei que a verdade da fé cristã é um todo
ensinos abraçados podem tragicamente ser “doutrinas
arquitetônico. No ensino da teologia, há o esforço contí­
de demônios" (H m 4 .1 ).12
nuo de mostrar como uma parte se relaciona com outra.
Em tudo isso a função da teologia é de impor­
O propósito de outra disciplina, a filosofia, é às ve­
tância crucial. Há uma “unidade da fé” (E f 4.13) que
zes descrito como “ver a realidade e vê-la por inteiro".
afasta erros periféricos. Ao articular isso com maior
Isso é ainda mais aplicável à teologia, em que a reali­
clareza, as pessoas não serão jogadas “para cá e para
dade não é apenas vista, como também experimenta­
lá por todo vento de doutrina” (E f 4.14); antes, cres­
da e, portanto, pode ser declarada em sua totalidade.
cerão até a plena maturidade. Dificilmente seria exa­
A integração é importante em tudo o que diz respeito à
gerada a ênfase na urgência do ensino teológico para
vida e, decerto, isso é verdade na área da fé cristã.
proteger a fé dos cristãos.
Para muitos cristãos não há necessidade de inte­
grar a leitura da Bíblia e seu estudo, para formar um D. Declaração
quadro unificado da verdade. Em muitas áreas não é
fácil relacionar uma doutrina com outra. Isso também Outra função da teologia é fazer conhecido publi­

ocorre na relação do ensino de um livro com o de ou­ camente o que defende a comunidade cristã. Dizemos

tro. Entre muitos cristãos também há necessidade de ao mundo: “Esta é a bandeira sob a qual nos levanta­

integrar a verdade que receberam com vários aspectos mos; esta é a verdade que proclamamos para que todos

da própria experiência deles. Isso acontece tanto em re­ ouçam”.13 Paulo escreve: “A intenção dessa graça era

lação à experiência cristã deles como também em rela­


ção à sua experiência cotidiana com o mundo ao redor. 11 A crítica de Jesus contra os fariseus e escribas é oportuna:
Em geral, eles ignoram como tudo se encaixa. “Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam
às tradições dos homens” (Mc 7.8). V. a preocupação de
C. Correção Paulo com os cristãos que se submetiam cada vez mais aos
“mandamentos e ensinos humanos” (Cl 2.20-23).
A teologia serve como corretivo para desvios da 52 Pedro também alerta: “surgirão entre vocês falsos mestres.
verdade. Ao articular da maneira mais clara possível Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras” (2Pe
2.1). V. alerta semelhante de Paulo em Romanos 16.17 e 1Ti­
as várias verdades da fé cristã, indiretamente, ela pro­
móteo 1.3-7. V. tb. Hebreus 13.9.
cura remediar desequilíbrios ou erros que possam ter
53 Um exemplo pertinente disso é a Declaração de Barmen,
ocorrido. É essencial para a saúde da fé cristã que seja de 1934, quando representantes das igrejas reformada, lu­
afastada desses desvios. terana e de outras igrejas protestantes da Alemanha decla­
Infelizmente, a participação na fé e na experiência raram sua fé no senhorio de Jesus Cristo contra a ascensão
cristã não é uma garantia contra a entrada furtiva de he­ do Terceiro Reich e de Adolf Hitler. O teólogo Karl Barth
resias. Aliás, a maior parte das heresias que têm afligido estava nos bastidores de sua redação. Nessa importante de­
claração, por meio de algumas afirmações teológicas, essas
a igreja tem surgido não de oponentes de fora, mas de
igrejas protestantes alemãs expressaram publicamente sua
equívocos em seu interior. Às vezes isso se deve à ênfa­ posição em contraponto ao nazismo. Não se tratava de uma
se exagerada em certa doutrina que assim fica inflada declaração teológica completa, mas de uma declaração que
de modo desproporcional à sua devida importância. tratava de uma situação particularmente urgente.

1
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

que agora, mediante a igreja, a multiforme sabedoria está a verdade e estabelecê-la de modo claro e coerente.
de Deus se tornasse conhecida dos poderes e autori­ Algumas diferenças podem ser reconhecidas como
dades nas regiões celestiais” (E f 3.10). Evidentemente, questões principalmente de semântica; outras são mui­
a igreja declara a sabedoria de Deus na pregação do to mais substantivas em caráter. De qualquer modo, a
evangelho; mas, em particular, é em sua expressão teo­ teologia enfrenta esse desafio sempre presente.
lógica que a multiformidade da verdade divina é apre­ O desafio também pode ser visto de outra maneira,
sentada para os que queiram ouvir. a saber, explorar as áreas da verdade cristã que ainda
Pela ordem das prioridades, o primeiro alvo da teo­ não foram suficientemente esquadrinhadas.14 Em nos­
logia é a própria comunidade cristã. A clarificação, a sos dias, isso é especialmente verdadeiro na área do
integração e a correção já descritas estão obviamente Espírito Santo. A vinda do Espírito Santo, os dons es­
relacionadas com o benefício e fortalecimento daque­ pirituais, o lugar da renovação carismática na vida da
les que participam da fé e da experiência cristãs. En­ comunidade cristã — tudo isso representa uma área
tretanto, há a declaração, essa função orientada para o que recebeu apenas um mínimo de atenção teológica
mundo, cuja importância não deve ser menosprezada. no passado. É certamente dominante entre os desafios
No mínimo, ela representa um tipo de responsabilida­ teológicos de nosso tempo.
de pública, uma razão de ser para a comunidade cris­
III. O MÉTODO DA TEOLOGIA
tã. E isso — quaisquer que sejam os resultados — não
deixa de trazer por sua vez algum benefício para a co­ Como desempenhar a tarefa de articular a teologia?
munidade cristã. Há valor indubitável, tanto comunal
A. Buscar a direção do Espírito Santo
como pessoal, em tornar pública uma posição.
Por fim, ainda que a teologia não seja proclama­ É só por meio da orientação contínua do Espírito
ção ao mundo, pode servir de maneira indireta como Santo que se pode realizar o trabalho teológico. “Quan­
um convite a investigações posteriores. Quando os do o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a ver­
cristãos declaram sua posição com firmeza e o fazem dade” (Jo 16.13). Essas palavras de Jesus expressam o
de modo responsável e articulado, o fator de credi­ fato fundamental de que o Espírito Santo é o guia para

bilidade é aumentado. Além disso, se essa teologia é toda a verdade. A comunidade cristã, para quem veio

escrita sob a unção do Espírito Santo, é muito mais “o Espírito da verdade”, o Espírito Santo, possui o Guia

capaz de preparar o caminho para o testemunho di­ em seu interior. Esse mesmo Espírito “lhes ensinará

reto que leva à vida e à salvação. todas as coisas” (Jo 14.26).


O Espírito Santo, além disso, foi prometido não só
E. Desafio para estar com os cristãos, mas também nos cristãos:
“ele vive com vocês e estará em vocês” (Jo 14.17). As­
A teologia move-se para dentro de áreas do pen­
sim, a comunidade cristã possui o Guia em seu interior,
samento cristão que muitas vezes se mostram confu­
o Mestre, como uma presença residente. A questão es­
sas, até divisivas, procurando descobrir a verdade. Há
sencial, portanto, é permitir que a realidade interna, o
diferenças de doutrina dentro de várias comunidades
Espírito Santo, conduza a toda a verdade.
cristãs, chegando com frequência a separá-las umas
Aprofundando: o fato básico de o Espírito Santo
das outras. No passado, desenvolveram-se extremos
ser o Espírito da verdade e ser residente significa que a
em questões como a soberania de Deus e a liberdade
humana, a divindade e a humanidade de Jesus e a na­
14 Num sentido, isso é uma questão de “avançar para a maturi­
tureza dos sacramentos. No presente, os extremos são
dade” (v. Hb 6.1). O desafio, por conseguinte, é “prosseguir”
particularmente evidentes na área da escatologia. É a (.AEC) para além dos “ensinos elementares”, para o âmbito
tarefa desafiadora da teologia procurar descobrir onde maior das questões teológicas.

18
In tro d u ç ã o

v e rd a d e ; d h a b ita d e n tro d a c o m u n id a d e c ristã . “V ocês E ssa o ração a n tig a ao E sp írito S anto b e m p o d e ser
têm u m a u n ç ã o q u e p ro ced e do Santo, e to d o s vocês tê m a o raç ã o c o n tín u a p o r trá s d e to d o esforço teológico.
co n h ecim en to ” (1J0 2.20).15 A u n ç ã o do E spírito Santo,
0 E sp írito d a v e rd a d e , p o is, significa q ue, q u a n d o o Es-
B. Confiança nas Escrituras
p írito g u ia a to d a a v e rd ad e, tra ta -s e n a re a lid a d e d e As E scritu ras do AT e d o N T são in sp irad as p o r
tra z e r à to n a o u ev o car 0 q u e já se co n h ece. A v e rd a d e D eus e d evem receb er p len a confiança ao se desenvolver
e sp iritu a l e stá im p líc ita e é ex p lic ita d a p o r m eio d a di- a tarefa d a teologia. Elas a p re se n ta m e m fo rm a escrita a
reção in te rio r d o E sp írito Santo. d eclaração d a v erd ad e d iv in a e assim são a fonte e m ed i-
T udo isso significa q u e 0 tra b a lh o d a teologia, a in -
d a objetiva p a ra to d o 0 tra b a lh o teológico. As E scritu ras
d a q u e seja feito n o n ível d a reflexão, ex plicação e a rti-
em to d a a su a extensão p ro v eem os d ad o s m ateriais p a ra
cu lação d a v e rd a d e c ristã , n ã o e stá lid a n d o co m a ver-
a d o u trin a cristã e a su b seq u en te fo rm u lação teológica.
d a d e c o m o se ela fosse e s tra n h a o u e x te rn a . O p ró p rio
As palavras d e 2T im óteo 3.16,17 são b e m ad eq u a-
teólogo, c o m o p a rte d a c o m u n id a d e c ristã , co n h ece
das: “T oda a E sc ritu ra é in sp irad a p o r D eus e ú til p a ra
im p lic ita m e n te a v erd ad e. P or m eio d o E sp írito im a-
0 en sin o [d o u trin a], p a ra a rep reen são , p a ra a co rreção
n e n te q u e leva a to d a a v e rd ad e, a q u e la v e rd a d e p a ssa
e p a ra a in stru çã o n a justiça, p a ra que 0 h o m e m de
a se r in v estig ad a d e m o d o a in d a m ais p leno. E sse é 0
D eus seja apto e p len a m en te p re p a ra d o p a ra to d a b o a
m e sm o E sp írito q u e “s o n d a to d a s as coisas, até m esm o
obra”. D e aco rd o com essa declaração, a to talid ad e das
as coisas m ais p ro fu n d a s d e D eus” (1C 0 2.10), e que,
E scritu ras é “so p ra d a p o r D eus” (o sen tid o literal de
p o rta n to , s o n d a as v e rd a d e s p ro fu n d a s d a fé cristã.
“in sp irad a”)17 e, assim , d a d a d ire ta m e n te p o r D eu s.ÍS
O teó lo g o tra b a lh a d e ssa b a se e sp iritu a l e p ro c u ra apli-
A ssim , existe n a E sc ritu ra u m a a u to rid ad e q u e n ão per-
c a r seu s m e lh o re s p e n s a m e n to s e reflexões p a ra o rd e-
tence a p e n sam e n to s o u palavras h u m an o s, n ão im p o rta
n a r e a p re s e n ta r o q u e é dado.
q u a n to são g uiados pelo E spírito Santo. Os p en sam e n to s
E sse esforço c o n tín u o d e se g u ir a d ire ç ão do E spi-
e as p alav ras do h o m e m n ão são “in sp irad o s p o r D eus”
rito S anto n ã o im p lica, d e m o d o alg u m , q u e a v erd a-
e, p o rta n to , sem p re n ecessitam d e “rep reen são ” e “corre-
de seja in ev ita v e lm e n te d e c la ra d a . N em a ig reja n e m
ção”. P or conseguinte, a teologia deve voltar-se p rim e iro
0 teó lo g o são infalíveis; e rra r é h u m a n o . M as q u a n to
p a ra as E scritu ras ao c u m p rir su a tarefa.
m ais a d ire ç ã o d o E sp írito Santo, 0 E sp írito d a v e rd ad e,
E ssa in sp iração d as E scritu ras refere-se a am b o s: o
é b u s c a d a e seg u id a, ta n to m ais a d e q u a d o é o d esen -
AT e o NT. As p alav ras d e P aulo em 2 T im ó teo p o d e m
v o lv im en to d o tra b a lh o d a teologia
ser co n sid erad as com o referências só ao AT, já q u e 0 NT,
obviam ente, ain d a n ão estava com pleto. E n tretan to , que
Vem , Santo Espírito, nossa alm a inspirar,
os escritos de Paulo, b e m com o alguns o u tro s, foram
E ilu m in a r com fogo celeste;
És o E sp írito que unge,
Q uem teus séptuplos dons p artilh a.16 17 A palavra grega é theopneustos, de theos>“Deus”, e pneõ,
cc ‫יי‬
s o p ro .
18 Esse caráter im ediato da inspiração não reduz nem elim i-
15 Ou “sabeis tudo”, conforme traduz a ARC. Manuscritos anti-
na, de modo algum, o fator humano. De acordo com 2Pedro
gos tornam possíveis ambas as leituras do texto. Em harmo- 1.21, “homens falaram da parte de Deus, im pelidos pelo Es-
nia com João 14.25,26 e 16.13, a leitura “sabeis tudo” parece p írito Santo” Isso se refere aos profetas do A T que, ao falar
preferível. Qualquer que seja a maneira correta de ler 0 texto, e escrever, foram de tal maneira movidos pelo Espírito de
a mensagem básica é a mesma: a verdade habita dentro da Deus que suas palavras eram de Deus. Assim , não há nada
comunidade de fé. mecânico na inspiração. A Escritura é o resultado do toque
16 Estrofe in icial do hino latino do século XIX: “ Vem, Creator íntim o de Deus — seu “mover” (A R A ), seu “soprar” — sobre
Spiritus”. aqueles que apresentam sua verdade.

19
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

desde cedo reconhecidos como Escrituras evidencia-se É importante, além disso, aprender tudo o que for
nas palavras de 2Pedro 3.15,16, que, depois de falar das possível acerca do pano de fundo, composição e formas
cartas de Paulo, faz referência às “demais Escrituras!19 literárias da Bíblia e, com isso, saber como estudá-la e
Assim, a questão básica para a teologia é: “Que diz compreendê-la melhor. Questões como o contexto his­
a Escritura?”.20 Pois só ela é a regra objetiva da verdade tórico e cultural, o propósito de determinado livro e o
cristã. Decerto, o Espírito Santo conduz a toda a ver­ estilo da escrita (e.g., história, poesia, parábola, alego­
dade, e a comunidade cristã conhece profundamente ria) são essenciais para a compreensão a fim de se che­
as coisas de Deus por meio da habitação do Espírito: gar à devida interpretação. Além disso, é importante
há, porém, a necessidade contínua da autoridade das não ler a passagem isolada, mas vê-la em seu contexto
Escrituras Sagradas. Sem ela, por causa da falibilidade mais amplo e, se o significado não é claro, compará-la
humana, a verdade logo se compõe com o erro. “Que com outras passagens que possam lançar mais luz. Todo
diz a Escritura?” é a pergunta crucial que deve subli­ o campo da hermenêutica — a saber, os princípios da
nhar todo o trabalho teológico. interpretação bíblica — exige compreensão plena para
Deve-se acrescentar de imediato que não pode
que se realize um trabalho teológico sério.
haver uma diferença básica entre a verdade que a co­
O mais importante é que haja imersão contínua na
munidade cristã conhece por meio da habitação do
Escritura. Timóteo foi elogiado por Paulo: “desde crian­
Espírito Santo e a apresentada na Escritura. Uma vez
ça você conhece as Sagradas Letras” (2Tm 3.15). Quem
que toda Escritura é “inspirada por Deus” (que signi­
deseja ser “homem de Deus [...] apto e plenamente pre­
fica “com o Espírito de Deus”)21 ou dada pelo Espírito,
parado para toda boa obra” (v. 17), o que inclui o tra­
é o mesmo Espírito Santo em ação tanto na Escritura
balho da teologia, precisa aumentar o conhecimento
como na comunidade. Mas, em termos de qual possui
de todas as “Sagradas Letras” ao longo de toda a vida.
autoridade e, portanto, qual é normativa, o que está es­
As palavras do próprio Jesus são de importância cru­
crito na Escritura sempre recebe primazia. Ela testa e
cial: “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra
julga cada afirmação de fé e doutrina.
verdadeiramente serão meus discípulos E conhecerão a
Devem-se observar mais algumas questões im ­
verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.31,32). As pala­
portantes:
vras de Jesus são o coração das Escrituras, e conhece­
1. Há uma grande necessidade de um conhecimen­
mos a verdade quando permanecemos e vivemos nelas.
to crescente das Escrituras — de todas elas. O ideal é
Decerto, o Espírito Santo é o guia para o entendimento,
que haja um conhecimento instrumental das línguas
originais. Uma tradução interlinear é valiosa, especial­ mas só quando estamos imersos na Palavra do Senhor.
mente quando usada em conjunto com léxicos. Com­ 2. Nunca podemos ir além da Escritura na busca da

parar várias versões é também útil na obtenção de uma verdade. Paulo ordena aos coríntios: “Aprendais a não ir

perspectiva mais completa. além do que está escrito [i.e„ a Escritura]” (ICo 4.6).22 Isso
fala contra qualquer fonte extrabíblica como tradição, vi­
são pessoal ou suposta nova verdade apresentada como
19 Ou “outras Escrituras” (ARC); a expressão grega é tas loipas
algo complementar ou superior ao que está registrado nas
graphas. A questão do cânon (a lista dos livros aceitos como
Escrituras Sagradas) não será questão discutida em Teologia Escrituras Sagradas. A doutrina sadia estabelecida por
sistemática: uma perspectiva pentecostal. Vamos operar um trabalho teológico genuíno não pode depender de ou­
com base nos 66 livros (39 no AT, 27 no NT) reconhecidos tras fontes primárias que não sejam as Escrituras.
como autorizados por todas as igrejas (eles não incluem vá­
rios livros apócrifos aceitos nas tradições católica romana e 22 Essa é a tradução da ARC. Literalmente o grego traz “não
ortodoxa oriental). [ir] além do que está escrito”. “O que foi escrito” significa
20 Essas são as palavras de Paulo em Romanos 4.3 e Gaiatas 4.30. Escritura, como, e.g., em lCoríntios 1.19,31 e 3.19. A RSV
21 “Respiração” e “espírito” são iguais em grego: pneuma. traduz “o que está escrito” em lCoríntios 4.6 por “escritura”.

20
in tr o d u ç ã o

Além disso, precisamos considerar as palavras que falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria
alertam contra interpretações individuais e distorções humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito,
das Escrituras. Em 2Pedro, lemos, primeiro, que “ne­ interpretando verdades espirituais para os que são es­
nhuma profecia da Escritura provém de interpretação pirituais” (ICo 2.13).23 Sem o Espírito há cegueira na
pessoal” (1.20). Trata-se de um alerta urgente contra leitura das Escrituras; com o Espírito há iluminação no
a falha de não ficar sob a autoridade da Escritura — entendimento das coisas de Deus
ainda que se possa alegar submissão externa — mas
submetê-la à própria interpretação. A verdade, porém, C. Familiaridade com a história da igreja
fica severamente ameaçada quando, embora a Escri­
Para que a teologia consiga realizar adequadamente
tura seja respeitada da boca para fora, prevalece a in­
seu trabalho, é também necessária uma familiaridade
terpretação particular e a Escritura é esvaziada de seu
com a história da igreja. Isso significa que as afirma­
verdadeiro significado. Um alerta semelhante é dado
por Pedro acerca das cartas de Paulo e “as demais Es­ ções dos concílios da igreja, seus credos e confissões

crituras” que “os ignorantes e instáveis torcem, como contêm a maneira pela qual ela tem, em várias épocas,
também o fazem [...] para a própria destruição deles” expressado sua doutrina. Os escritos dos pais da igreja
(2Pe 3.16). A distorção da Escritura, que tem ocorrido primitiva, de teólogos reconhecidos (os “doutores” da
com frequência na história da igreja, é uma questão igreja), de comentaristas bíblicos de renome e, assim,
ainda mais séria que a interpretação particular, pois o pensamento cristão ao longo dos séculos — tudo isso
toma toda a verdade divina e a muda. é proveitoso para a teologia.
A teologia possui uma função crucial a desempe­ O período da igreja primitiva com seus escritos
nhar em ambas as situações. Mencionei previamente pós-apostólicos e patrísticos e também os concílios
que uma das funções da teologia é a correção. É triste, ecumênicos representando a igreja inteira são espe­
mas comum, o vasto número de interpretações par­ cialmente importantes. O Credo apostólicoyo Credo ni-
ticulares e distorções que se perfilam sob o nome de ceno, o Credo de Calcedônia — para mencionar alguns
“verdade bíblica”. O pensamento cristão deve ajudar
dos grandes credos universais primitivos — contribuí­
a expô-las, ao mesmo tempo que procura com afinco
ram muito para estabelecer o padrão da fé cristã orto­
não cair no mesmo erro.
doxa através dos séculos. As confissões que brotaram da
3. Por fim, não pode haver um entendimento ver­
Reforma, como a de Augsburgo (luterana) e Westminster
dadeiro da Escritura sem a iluminação interna do Es­
(reformada), ainda que não ecumênicas, são também
pírito Santo. Já que toda a Escritura é “inspirada por
Deus”, é só quando essa inspiração de Deus, o Espírito muito importantes. As formulações católicas romanas,

de Deus, move-se sobre as palavras que seu significado como os decretos do Concilio de Trento e dos concílios
pode ser verdadeiramente compreendido. A resposta a
“Que diz a Escritura?” é mais que uma questão de co­ ;; O texto grego de “interpretando verdades espirituais para os
nhecimento da informação nela contida, mesmo que que são espirituais” é pneumatikois pneumatika synkrinontes,
obtida pela exegese mais cuidadosa, consciência da traduzido de várias maneiras por “comparando as coisas es­
pirituais com as espirituais” (ARC), “conferindo coisas espi­
situação histórica, apreciação das formas linguísticas
rituais com espirituais” {ARA). A BLH traz “explicamos as
etc. A Escritura só pode ser compreendida em profun­
verdades espirituais aos que são espirituais”, bem semelhante
didade mediante iluminação do Espírito Santo.
à NVI, citada acima. Do próprio texto grego e à luz dessas
isso significa, por conseguinte, que a comunida­ várias traduções, o conteúdo básico da mensagem de Paulo
de cristã é a única qualificada de maneira definitiva parece claro: verdades espirituais (pneumatika), tais como
para compreender as Escrituras. Paulo escreveu aos as que Paulo estava escrevendo, só podem ser compreendidas
coríntios a respeito de sua mensagem: “Delas também por pessoas espirituais (pneumatikois).

21
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta i

Vaticano I e II representam outras formulações doutri­ que se encontra a comunicação. Vivemos numa era de
nárias significativas. A maioria das igrejas protestantes comunicação multimídia — televisão, rádio, impren­
tem algum tipo de declaração doutrinária e pode ser sa — , e isso exige especialização cada vez maior para
útil tomar conhecimento de algumas. Seria um erro que a mensagem fique clara. O homem moderno, tanto
lamentável desconsiderar quase dois mil anos de his­ dentro como fora da igreja, é tão bombardeado por in­
tória da igreja ao se empreender o trabalho da teologia. formações esparsas, propagandas, conversas de vende­
Somos riquíssimos por conta do trabalho de formula­ dor etc. que não é fácil refletir sobre a verdade cristã ou

ção de doutrinas, credos e confissões realizado antes tomar tempo para uma reflexão teológica séria. Além

de nós. Isso não significa que algumas dessas formu­ disso, é muito comum os teólogos serem maus comu­

lações estejam no mesmo nível de autoridade que as nicadores: a linguagem deles é de difícil compreensão

Escrituras;24 entretanto, é preciso ouvi-las de maneira e raramente têm a brevidade por ponto forte. Há ne­

respeitosa e lhes conceder lugar secundário na reflexão cessidade de escritos teológicos muito melhores e mais
contemporâneos.
teológica. Se o Espírito Santo de alguma maneira veio
Em certo sentido, toda obra teológica implica tra­
agindo na igreja através dos séculos25 (e decerto po­
dução. Isso quer dizer que a escrita deve ser feita de
demos crer que isso é verdade), então devemos espe­
modo que a verdade antiga se torne compreensível
rar sua marca em muito do que foi formulado. Assim,
para o leitor do século XXL O uso excessivo de ex­
somos chamados a ter discernimento espiritual, re­
pressões latinas e gregas ou de termos arcaicos, de
conhecendo que todas essas formulações são falíveis,
palavras sesquipedais (!) dificilmente comunica bem
mas fazendo todo o uso possível do que o Espírito vem
a mensagem. O teólogo, sempre que possível, deve
dizendo na igreja ao longo dos séculos.
expressar conceitos difíceis em linguagem clara e até
D. Consciência do cenário contemporâneo perm itir que o leitor tenha prazer em compreender o
que se diz! Tudo isso significa tradução com a conse­
Quanto mais a teologia é informada daquilo que quente compreensão.26
está ocorrendo na igreja e no mundo, tanto mais re­ Em segundo lugar, a teologia precisa ter consciên­
levante e oportuno será o escrito teológico. Há neces­ cia do estado de espírito da época. Para muitos hoje,
sidade, em primeiro lugar, de conhecer a situação em tanto dentro como fora da igreja, Deus não é real.
Isso não significa necessariamente que não creem em
24 Falo aqui como protestante. Os ortodoxos orientais e católi­ Deus, mas muitos não sentem sua realidade. O estado
cos romanos investem de muito mais autoridade as fórmulas de espírito que prevalece é de que ele é distante, abstra­
confessionais. Para os católicos romanos, pronunciamentos
to ou tenha até desaparecido.27 Deus não se encontra
papais anunciados como dogmas (tais como os dogmas da
em lugar algum. Ou, se há algum contato com Deus,
Imaculada Conceição e da Assunção da Virgem Maria) ale­
gam infalibilidade; assim, eles têm autoridade igual ou supe­
rior à Escritura. A atitude adequada, devo insistir, é que cada 26 Deve-se acrescentar que a tradução implica dois perigos:
formulação doutrinária, num credo, confissão ou teologia, primeiro, de diluir a mensagem; segundo, de transformá-la
seja colocada à prova de todo o conselho de Deus na Escritu­ em outra coisa. O conteúdo, porém, deve permanecer igual,
ra Sagrada. nem diluído nem transformado.
25 Infelizmente, há os que consideram a história da igreja nada 2/ A expressão “Deus está morto” do passado recente é um
mais que uma história do erro. As “eras das trevas” persisti­ símbolo trágico obviamente não da morte de Deus, mas da
ram de ponta a ponta. Por conseguinte, nada temos de po­ morte da fé para muitos. Mesmo quando essa linguagem a
sitivo a aprender do passado. Essa atitude é uma afronta ao respeito de Deus é deliberadamente evitada ou até consi­
Espírito Santo e a Cristo, o Senhor da igreja. derada blasfema, há com frequência uma sensação de tal

22
In tro d u ç ã o

parece tão ocasional e incerto que a vida segue prati­ atividade de Deus. Sem dúvida, há muita coisa nega­
camente igual sem ele. Agora, não significa, de modo tiva: por exemplo, humanismo e ateísmo, feitiçaria e
nenhum, que isso seja verdade para todos; mas, desde ocultismo, imoralidade e bestialidade — tudo está au­
que o clima de incerteza e irrealidade existe, a teologia mentando. Alguns afirmam que vivemos numa civili­
tem uma função criticamente importante a preencher. zação “pós-cristã”. Entretanto, junto com o lado escuro,
Também, diz-se com frequência que vivemos há também um quadro muito promissor de ressurgi­
numa “era de ansiedade” Há ansiedade sobre relações mento evangelical, atividade missionária cada vez
humanas, segurança econômica, saúde e proximidade maior e reavivamento espiritual. Nesse último ponto, a
da morte, a situação do mundo — e agora tudo é enco­ renovação carismática dentro do grande leque de igre­
berto pela possibilidade iminente de aniquilação nu­ jas históricas — católica romana, ortodoxa oriental e
clear. Assim, há muita insegurança e temor profundo protestante — é altamente significativa.
que afetam os cristãos e também os que não afirmam Deixe-me falar de modo mais específico. Tenho
ter fé. Além da ansiedade, pode-se pensar em outros convicção de que a renovação contemporânea, que
males como solidão, estresse e tensão, confusão, até possui raízes profundas na realidade do Espírito San­
um senso de vida sem sentido para muitos. Se esse é o
to, representa um movimento sem precedentes do Es­
sentimento que prevalece, pelo menos em parte, a teo­
pírito de Deus desde os tempos do NT. Deus em sua
logia digna desse nome deve considerar essa situação.
soberania está dando seu Espírito em poder, e muitos
Ainda, para muitos, tanto dentro como fora da
de seu povo estão recebendo esse dom. Assim, estão
igreja, há um forte senso de desamparo e impotência.
surgindo em nosso tempo comunidades cristãs do Es­
Muitos se sentem incapazes de lidar com as forças que
pírito que representam uma força espiritual tremenda
os atingem; enfrentá-las tornou-se questão crítica.
no mundo. É nesse ponto que a teologia hoje tem um
A falta de recursos suficientes para atender às deman­
trabalho importante a desenvolver: expressar à igreja e
das da vida ou para ser um cristão efetivo perturba
ao mundo o que tudo isso significa.
profundamente a muitos. De novo, a teologia deve en­
contrar meios de lidar com esse sentimento de desam­ E. Crescimento na experiência cristã
paro e impotência. Há respostas,2* e é urgentemente
importante declarar quais são algumas delas. Por fim, é essencial que haja crescimento contínuo

Em terceiro lugar, há a necessidade de consciência na experiência cristã para que a teologia desempenhe

daquilo que Deus está fazendo no nosso tempo. Nes­ bem o seu papel. Podemos observar aqui alguns pontos.

te ponto transpomos um pouco do estado de espírito Primeiro: a tarefa da teologia exige que tudo seja

que acabamos de descrever para afirmar que muitos feito numa atitude de oração. Só numa atmosfera de

dos “sinais dos tempos”29 apontam para a presença e comunhão persistente com Deus é realmente possí­
vel falar de Deus e de seus caminhos. A teologia, com

distância de um Deus ausente, que resulta numa sensação de certeza, é escrita na terceira pessoa; é um “falar acer­
que ele está morto. ca de Deus”. Entretanto, sem um constante “eu-tu”,30
28 Paul Tillich fala da teologia sistemática como “teologia um relacionamento de oração em segunda pessoa, o
responsiva”: “Ela deve responder às perguntas implícitas
trabalho teológico torna-se frio e impessoal. A oração
na situação humana geral e na situação histórica especial”
“no Espírito” é particularmente importante, pois, por
(Systematic Theology, v. 1, p. 31). Não concordo que a
teologia seja só isso; mas ela não deve deixar de dar respostas
para os problemas humanos. 30 Linguagem usada no pequeno livro Ich und Du, de
29 Mateus 16.3 Martin Buber .
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

ela, como diz Paulo, a pessoa “pronuncia mistérios no o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e
Espírito” (ICo 14.2),31 e esses mistérios, interpretados de todo o seu entendimento” (Mt 22.37), aplica-se com
pelo Espírito, podem levar a uma compreensão mais particular força ao trabalho da teologia. A teologia, con­
profunda das verdades apresentadas na Escritura. forme já observado, é um jeito de amar Deus com a
A vida de oração, constantemente renovada e sempre mente, mas deve ser feita no contexto de um amor total
em busca da face do Senhor, é fundamental num tra­ a Deus. A teologia é algo apaixonante: é reflexão nas­
balho teológico significativo. cida da devoção. Para a comunidade cristã, os que co­
Segundo: deve haver um senso cada vez mais pro­ nhecem o amor de Deus e Cristo Jesus — “Deus tanto
fundo de reverência. É de Deus que a teologia fala. amou o mundo que deu...” (Jo 3.16) — , esse amor cada
Ele é o assunto do começo ao fim, seja o que for que vez mais intenso faz da teologia uma resposta, uma
se possa falar acerca do Universo e do homem. Esse oferta de louvor e ação de graças. Esse amor para com
Deus é aquele que deve ser adorado em santa disposi­ Deus é também inseparável do amor pelo próximo,
ção, aquele de quem o nome deve ser honrado, aquele pois as palavras do Grande Mandamento continuam:
cuja própria presença é um fogo consumidor. A teolo­ “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mt 22.39).
gia, percebendo que fala daquele diante de quem toda Quanto maior o amor pelo próximo, tanto maior o
boca deve primeiro calar-se, só pode exercer sua fun­ desejo de suprir suas necessidades. No trabalho teo­
ção num espírito de reverência contínua. Há o perigo lógico, isso significa expressão com tal clareza, objeti­
sempre presente de, ao discursar sobre coisas santas, a vidade e preocupação que o “próximo” seja edificado.
pessoa tornar-se irreverente e displicente. Nesse caso, A teologia, se for verdadeiro discurso sobre Deus, é um
a realidade divina é profanada, e a teologia torna-se discurso de amor.
um empreendimento que só merece o julgamento de Quinto, e da maior im portância: todo o traba­
Deus e a desaprovação dos homens.32 lho de teologia deve ser feito para a glória de Deus.
Terceiro: exige-se uma pureza de coração cada vez A comunidade cristã precisa pôr diante de si, cons­
maior. Isso é consequência da palavra anterior sobre tantemente, o alvo de glorificar Deus em todos os
reverência, pois o Deus da teologia é Deus santo e jus­ empreendimentos teológicos. Nas palavras de Jesus:
to. Falar dele e de seus caminhos (e falar a verdade) “Aquele que busca a glória de quem o enviou [o Pai],
exige um coração que passa por purificação constante. este é verdadeiro; não há nada de falso a seu respei­
“Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a to” (Jo 7.18). Mesmo assim, o alvo da comunidade
Deus” (Mt 5.8) aplica-se com peso extraordinário ao em cada expressão teológica, tanto de modo coletivo
teólogo. Ora, ele deve ver para escrever, e não se pode como por meio de seus especialistas, não deve ser a
ver com olhos turvos e coração impuro. glória própria, mas dar glória constante a Deus. Nes­
Quarto: a teologia deve ser feita num espírito de se espírito, a teologia pode ser uma testemunha fiel
amor crescente. O Grande Mandamento, “Ame o Senhor, do Deus vivo.

31 Paulo, nesse versículo, na realidade diz que é falando “numa


língua” que a pessoa anuncia esses mistérios. Entretanto,
conforme mostra o contexto maior, isso é “orar com o espíri­
to” ou “orar no Espírito”. Para uma discussão mais detalhada
do assunto, cf. o v. 2 desta obra.
32 A verdadeira teologia é “o ensino que é segundo a piedade”
(lTm 6.3). É ensino piedoso, pois brota de uma profunda
reverência e piedade.

24
2
O conhecimento de Deus

A questão básica da teologia é a do conhecimento de como o interesse maior. Esse interesse pode ficar es­
Deus. Na teologia, falamos continuamente de Deus. A fé condido por um tempo em meio aos muitos afazeres
cristã afirma ter conhecimento de Deus — não fantasia, do mundo e às preocupações egocêntricas do homem,
imaginação ou conjectura, mas conhecimento. Qual a mas a questão não passa. Algo no homem, ao que pa­
base de tal afirmação? Como se conhece Deus? rece, clama por esse conhecimento supremo; e, a m e­
Lidamos aqui com a área da epistemologia — o nos que deseje reconhecê-lo e buscá-lo,2 a vida jamais
estudo das premissas, método e limites do conhe­ alcança sua satisfação mais plena.
cimento. A epistemologia é “o discurso acerca do
conhecimento”,1 e no campo teológico é o discurso so­ B. As Escrituras
bre o conhecimento de Deus. Vamos nos concentrar
A questão do conhecimento de Deus é um tema
basicamente em como se conhece Deus.
contínuo em toda a Bíblia. Do lado humano, por exem­
I. A IMPORTÂNCIA DESSE CONHECIMENTO plo, há o lamento de Jó que diz: “Se tão somente eu
soubesse onde encontrá-lo e como ir à sua habitação!”
Precisamos reconhecer de início que nunca é de­ (Jó 23.3). Ou ouvimos as palavras de Filipe: “Senhor,
mais destacar a importância desse conhecimento. Esta­ mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (Jo 14.8). O clamor
mos tratando de uma questão de importância suprema.
do coração é por encontrar Deus, contemplá-lo e che­

A. Reflexão humana gar em paz à sua presença.


Do lado divino, as Escrituras retratam Deus supre­
Ao longo de toda a história da raça humana as pes­ mamente desejoso de que seu povo o conheça. Uma
soas vêm levantando várias e várias vezes a questão das grandes passagens é Jeremias 9.23,24: “Assim diz
acerca do conhecimento de Deus. A importância desse o Senhor : £Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem
assunto é evidenciada pela busca humana universal o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas
em que o conhecimento de Deus tem sido a preocupa­ quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e
ção maior. A reflexão humana volta-se invariavelmen­ conhecer-me, pois eu sou o Senhor e ajo com lealdade,
te para além da questão do conhecimento do mundo com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas
e do homem para a questão: “Como conhecemos a coisas que me agrado’, declara o Senhor ”.
Deus?” Múltiplas religiões, todas representando a má­
Compreender e conhecer Deus — e gloriar-se nis­
xima lealdade e compromisso da raça humana, são, em
so — é o alvo supremo e final. Isaías declara profetica­
essência, tentativas de encontrar a resposta; e muitas
mente que virá o dia em que “a terra se encherá do co­
filosofias têm-se voltado para o conhecimento do que
nhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar”
é definitivo como o objetivo supremo e final.
Assim, repetimos, a reflexão humana volta-se inva­
2 João Calvino escreve que “todos os que não dirigem todos
riavelmente para a questão do conhecimento de Deus
os pensamentos e atos de sua vida para esse fim [o conheci­
mento de Deus] não conseguem cumprir a lei da existência
1 De epistemêy “conhecimento”, e logos, “discurso”. deles” (Institutas, 1:6.3, trad. Beveridge).
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

(Is 11.9). Essa é a consumação do desejo e da intenção nós é sobre o caminho desse conhecimento: “Como
divina: que todo o mundo chegue um dia a conhecê-lo. Deus pode ser conhecido?”.
Por outro lado, a falta de conhecimento genuíno
A. O mistério de Deus
de Deus é mostrada nas Escrituras como algo trágico.
Nas palavras de abertura da profecia de Isaías, existe Todo conhecimento deve ser prefaciado pela cons­
este lamento: “Ouçam, ó céus! Escute, ó terra! Pois o ciência de que o próprio Deus não pode ser conhecido
Senhor falou: *[...] O boi reconhece o seu dono, e como são conhecidas outras coisas ou pessoas. Ele está
o jumento conhece a manjedoura do seu proprietário, totalmente velado em relação à percepção humana.
mas Israel nada sabe, o meu povo nada compreende ” Ele é o Deus que habita em “nuvem escura” (IR s
(1.2,3). Em consequência dessa falta de conhecimento, 8.12). Deus é o mysterium tremendum ,3 um vasto
o povo de Israel “carregado de iniquidade Aban­ mistério não passível de compreensão por qualquer
donaram o Senhor ’’ (1.4); “a terra [...] está devasta­ meio ordinário. O fato de Deus ser Deus, e não homem,
da, suas cidades foram destruídas a fogo” (1.7). Outro significa mistério e singularidade de todo conheci­
grande profeta, Oseias, exclama: “A fidelidade e o amor mento relacionado a ele.
desapareceram desta terra, como também o conheci­ Assim, tudo o que Deus faz carrega em si um ca­
mento de Deus. [...] Por isso a terra pranteia [...] Meu ráter de mistério. Paulo fala acerca do “mistério da
povo foi destruído por falta de conhecimento” (Os sua vontade” (Ef 1.9), do “mistério de Cristo” (3.4), do
4.1,2,6). As consequências trágicas de não conhecer a “mistério do evangelho” (6.19). Há mistério no próprio
Deus são males de todos os tipos — e destruição. Deus e em todos os seus caminhos.
O que o Senhor deseja de seu povo? Novamen­ Quando focalizamos de novo a questão do conhe­
te de Oseias: “Desejo misericórdia, e não sacrifícios; cimento, torna-se evidente que há basicamente dois
conhecimento de Deus em vez de holocaustos” (6.6). problemas no conhecimento de Deus.
E certamente virá um dia, declara o Senhor por meio Primeiro, e básico: o problema do conhecimento de
de Jeremias, em que “ninguém mais ensinará ao seu Deus repousa no fato de Deus ser infinito e o homem,
próximo nem ao seu irmão, dizendo: 'Conheça ao finito. Deus não existe da mesma maneira que uma
Senhor ’, porque todos eles me conhecerão, desde o entidade criada, pois tudo o que é criatura e, portanto,
menor até o maior” (Jr 31.34). finito, pode ser verificado e especificado em alguma
Não deve haver dúvidas de que o conhecimento de medida. Mas Deus não pode ser descoberto, não im­
Deus é de suprema importância de acordo com as Escri­ porta quão diligente seja o esforço. Será que o homem
turas. Devemos nos alegrar com isso acima de todas as consegue “desvendar Deus por meio da investigação”?4
coisas, muito acima de todas as outras glórias da terra. A resposta é não, pois a investigação é desproporcional
Sua falta leva à multiplicação do pecado e da iniquidade, ao investigador. O finito não é capaz do infinito. Os fei­
do distanciamento de Deus e desolação. Mas Deus dese­ tos mais elevados da mente e do espírito humanos fi­
ja ser conhecido. Um dia todos o conhecerão, e a terra cam longe de alcançar o conhecimento de Deus. Deus
ficará repleta desse conhecimento glorioso. sempre permanece além.5 Nas palavras de Eliú, no

II. O CAMINHO DO CONHECIMENTO


3 Expressão de Rudolf Otto em referência a Deus (The Idea
of the Holy).
Já que é evidente, tanto pela reflexão humana como
4 “Você consegue perscrutar os mistérios de Deus? Pode son­
pelas Escrituras, que o conhecimento de Deus é uma
dar os limites do Todo-poderoso?” (Jó 11.7).
questão do máximo interesse do homem, bem como 5 As palavras de Cale Young Rice no poema “The Mystic”
intenção de Deus, a pergunta crítica agora diante de [0 místico] expressa isso de maneira viva:

26
0 c o n h e c im e n to o e D eus

livro de Jó, “fora de nosso alcance está o Todo-poderoso” Segundo: o problema do conhecimento de Deus
(37.23). O motivo dado em Isaías é inconfundível: “ ‘Os reside no fato de Deus ser santo e o homem, pecador.
meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, Esse é o problema ainda mais profundo: os pecados do
nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara homem levantam uma barreira ao conhecimento de
o Senhor . ‘Assim como os céus são mais altos do que a Deus. O homem não consegue ver através deles. Ou, em
terra, também os meus caminhos são mais altos do que outras palavras, seus pecados o alienaram tanto de Deus
os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que o conhecimento fica muito distante. Isaías fala que
que os seus pensamentos ” (55.8,9). Deus é Deus, e não Deus “está escondendo o seu rosto da descendência de
homem. E há uma vasta diferença entre conhecer as coi­ Jacó” (8.17), e esse esconder, conforme mostra o contex­
sas deste mundo e as coisas do Todo-poderoso e Eterno.6 to, devido ao pecado de Israel e sua alienação de Deus,
Assim, é um fato incontroverso da existência hu­ impede que o conhecimento ocorra. Deus é ainda mais
mana: o homem finito não pode conhecer por si a misterioso para o homem pecador e alienado.
Deus. A sabedoria humana é totalmente insuficiente Assim, por causa da condição pecaminosa do ho­

para alcançar esse alvo elevado. “O mundo não o co­ mem, mesmo que a finitude humana não impusesse

nheceu por meio da sabedoria humana” (ICo 1.21), um problema para se conhecer Deus, não haveria ca­

declara o apóstolo Paulo. O mundo pode ter uma ideia minho para o homem vir a conhecer Deus. Embora

de Deus, muitas noções de Deus, mesmo tentativas de seja verdade que o finito não é capaz de conhecer o In­

provar sua existência;7 mas tudo isso pertence ao finito, é verdade ainda mais contundente que o homem
pecador não é capaz de conhecer o Deus santo e justo.
campo da hipótese. Deus permanece essencialmente
Aceito, portanto, o mistério de Deus e o duplo fato da
misterioso e desconhecido.
finitude e da pecaminosidade do homem, qual o cami­
nho possível para o conhecimento de Deus? Como pro­
Já cavalguei o vento,
Já cavalguei o mar, cedemos? Essa resposta deve se seguir: Se é necessário
Já cavalguei a lua e as estrelas, haver conhecimento de Deus, ele mesmo deve concedê-
Já finquei os pés no estribo -lo. Deve vir da parte dele, de dentro de seu mistério,
De um cometa cruzando Marte, atravessando o abismo da finitude e do pecado.
E em todos os lugares,
Por terra e por ar, B. Revelação
Meu pensamento voa, calçado por um relâmpago,
Chega a um lugar em que conferindo o passo Todo conhecimento de Deus vem por meio da reve­
Clama: “Deus está além”. lação. O conhecimento de Deus é conhecimento revela­
6 Kierkegaard, filósofo do século XIX, fala da “distinção qua­ do; é ele quem o dá. Ele transpõe a lacuna e desvenda
litativa infinita entre tempo e eternidade” (v. L i v i n g s t o n ,
o que deseja. Deus é a fonte do conhecimento acerca
James C. Modern Christian Thought From the
dele mesmo. Seus métodos, sua verdade. Só por Deus é
Enlightenment to Vatican II, p. 322). Embora essa ex­
pressão se refira a uma diferença temporal, também indica possível conhecer Deus. O conhecimento de Deus é real­
a distância total entre Deus e o homem. mente um mistério desvendado pela revelação.
7 Por exemplo, as cinco “provas” do teólogo medieval Tomás A palavra “revelação” significa “ato de remover o
de Aquino. Suas “provas”: do movimento para o Primeiro véu”. A palavra grega é apokalypsis, um “descobrir”.-
Motor, do efeito para a Primeira Causa Eficiente, da contin­
Um bom exemplo de revelação encontra-se na narrativa
gência para o Ser Necessário, dos graus de bondade para a
Bondade Absoluta e da ordem nas coisas para a Inteligência
Suprema. Elas podem ser encontradas em sua Summa 8 Apocalypsis deriva de apo, “afastar”, e de kalyptein, “cobrir"
Theologica, livro I. Daí, uma remoção da cobertura.
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

bíblica em que Simão Pedro declara que Jesus é o por revelação” (Ef 3.3) e fala do “mistério que esteve
Cristo, o Filho de Deus. A resposta de Jesus é: “Feliz é oculto durante épocas e gerações, mas que agora foi
você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi re­ manifestado10 a seus santos” (Cl 1.26). Qualquer que
velado9 por carne ou sangue, mas por meu Pai que está seja o mistério de Deus (e tudo acerca de Deus e seus
nos céus” (Mt 16.17). Declara-se que o conhecimento caminhos contém mistério), ele se faz conhecido por
de que Jesus é o Filho de Deus é dado por revelação: sua própria revelação ou manifestação.
o véu é removido, o mistério é revelado pelo próprio
Deus Pai e o conhecimento de Jesus como seu Filho
7. Revelação geral
é captado. O conhecimento da filiação divina de Jesus É importante observar que há uma revelação ge­
não foi alcançado por meios humanos, nem poderia; ral de Deus. Isso significa que, em todos os lugares,
veio somente de Deus.
Deus concede conhecimento dele mesmo. Por conse­
Na linguagem popular, a palavra “revelação” pas­
guinte, isso não é limitado a nenhum povo ou tempo
sou a ser usada para denotar desfechos admiráveis de
na História.
muitos tipos. Surgiu alguma percepção nova, talvez de
caráter surpreendente ou impressionante (“Foi uma a. Local. A revelação geral ocorre, antes de tudo,
revelação para mim”). Apareceu uma nova verdade ou por intermédio dos céus e da terra. Deus se manifesta
um novo entendimento, quando antes nada se sabia a nas maravilhas dos céus — Sol, Lua e estrelas — e nos
respeito. Ora, isso obviamente tem algum paralelo com prodígios da terra — céus e mares, montanhas e flores­
uma revelação vinda de Deus; mas a diferença é bem tas, tempo de plantio e colheita. Em termos da estru­
grande. A revelação acima descrita pode ter vindo por tura do Universo: “Os céus declaram a glória de Deus;
algum outro meio que não um desvendar impressio­ o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia
nante; pode ter ocorrido, por exemplo, por meio do fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite”
estudo ou de várias experiências humanas. Mas, em (SI 19.1,2). E, de novo: “Desde a criação do mundo os
princípio , o conhecimento de Deus e de sua verdade atributos invisíveis de Deus [as suas coisas invisíveis’,
só pode vir por revelação. Ora, revelação, nesse senti­ ARC]n [...] têm sido vistos claramente, sendo com­
do estrito, não é o surgir de algum conhecimento novo preendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1.20).
no mundo dos homens ou da natureza, por mais im ­ O quadro é de fato variado, pois seja o menor áto­
pressionante ou surpreendente que seja tal ocorrido. mo, seja a mais vasta galáxia, a mais diminuta forma
Refere-se, antes, à própria manifestação de Deus. Re­ de vida ou a mais desenvolvida, alguma revelação de
velação no sentido pleno é a que vem de Deus. Deus por meio de suas obras está sendo manifestada.
Anteriormente, fez-se referência a expressões bí­ Em termos de bênçãos da terra, “Deus não ficou sem
blicas como “o mistério de sua [de Deus] vontade”, “o testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva
mistério de Cristo” e “o mistério do evangelho”. Agora do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes
podemos observar melhor que há uma relação bíblica
estreita entre mistério e revelação. No AT, por exem­ 10 A palavra aqui é ephanerõthè, “foi manifestado”, portanto
plo, “o mistério foi revelado a Daniel” (Dn 2.19); foi só “foi revelado”.
assim que Daniel veio a conhecer a verdade de Deus.
11 A ARC é mais próxima do original grego que a NV1 com
“os atributos invisíveis de Deus”. O texto grego refere-se
No NT, Paulo diz: “o mistério [...] me foi dado a conhecer
simplesmente a seus aorata, literalmente “coisas invisí­
veis”. “Coisas invisíveis” incluem tanto sua natureza como
9 Grego apekalypsen. deidade como seu atributo de poder.

28
0 c o n h e c im e n to d e D eus

sustento com fartura e um coração cheio de alegria” história do Universo. Gênesis 1— 11 relata Deus lidan­
(At 14.17). Assim, Deus dá algum testemunho de si do com o mundo em geral antes do chamado de Abraão
mesmo na provisão contínua para sustento e cuidado e da história de Israel. Dali em diante, ainda que Israel
da humanidade. O Universo como um todo, o macro- seja o centro específico, outras nações são mostradas sob
cosmo, tanto em sua estrutura como em seu funcio­ o governo e comando de Deus. Por exemplo: “Eu tirei [...]
namento, é um canal de autodesvendamento de Deus. os filisteus de Caftor e os arameus de Quir” (Am 9.7).
Segundo: no próprio homem Deus é também re­ A história de todas as nações representa algum des­
velado. De acordo com a Escritura, o homem é feito à vendar de Deus em ação.
“imagem” e “semelhança” de Deus: “Façamos o homem
b. Conteúdo. O conteúdo dessa revelação geral são as
à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn
“coisas invisíveis” de Deus, que se percebem13 claramen­
1.26). Assim, o homem é um espelho ou reflexo de Deus.
te por meio de sua criação visível. Primeiro: como Paulo
Em seu alto posto de domínio sobre o mundo; em sua
passa a dizer, o poder e a deidade eternas de Deus são
capacidade de pensar, imaginar e sentir; em sua liber­
manifestadas. O vasto poder divino é visto com clareza
dade de ação e muito mais, o homem é feitura singu­
na estrutura e operação de todo o Universo e nas forças
lar de Deus. A isso se deve acrescentar o fato do senso
que atuam no homem e na História. Sua deidade (sua
humano do certo e do errado, o mover da consciência
qualidade de “Deus”), sua realidade como Deus e o fato
interna — que o NT chama “as exigências da Lei [...]
de sua existência brilham através de todas as suas obras.
gravadas em seu coração” (Rm 2.15). Por meio desse
Tudo proclama: Deus! Assim, o Deus todo-poderoso
senso moral no homem, Deus também está revelando
declara-se em tudo e por meio de tudo.
um pouco daquilo que ele próprio é. Aliás, a religiosi­
De novo, a benevolência e o cuidado de Deus são
dade universal do homem — a criatura que cultua e ora,
demonstrados em sua provisão de tudo o que o ho­
que constrói santuários e templos, que busca Deus de
mem necessita para viver na terra. “Os olhos de todos
várias maneiras — mais uma vez indica o toque de Deus
estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no de­
sobre toda a existência humana.
vido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de
Terceiro: Deus se manifesta nas obras da História.
todos os seres vivos” (SI 145.15,16). Há um que se im ­
A História possui um caráter teológico: toda ela car­
porta, não só em suprir as necessidades humanas, mas
rega a marca da atividade divina. Deus é revelado na
também em manter a própria vida.
História em geral, principalmente mediante a ascen­
Por fim, a justiça de Deus é manifestada na histó­
são e queda de nações e povos, mostrando assim que
ria de povos e nações e também na consciência moral
a justiça por fim prevalece sobre a injustiça.12 “Como é
da humanidade. O fato de que “a justiça engrandece a
feliz a nação que tem o Senhor como Deus” (SI 33.12).
nação” (Pv 14.34) aponta para a justiça de Deus. O fato
As Escrituras primeiro retratam Deus em ação na
da consciência, o senso interno do certo e do errado,
insinua um legislador divino. Aliás, diz Paulo, a verda­
12 J. A. F roude, historiador reconhecido, escreve: “Uma lição,
deira situação é que os homens em geral conhecem os
só uma, pode-se dizer que a História repete de maneira cla­
decretos de Deus (Rm 1.32) a respeito do justo castigo
ra que o mundo é de algum modo construído sobre funda­
mentos morais: o que no longo prazo é bom para os bons no
longo prazo é ruim para os perversos” (In: Seldes, George |:' As aorata (“coisas invisíveis”) são kathoratai (“percebidas
(Org.). The Great Quotations, p. 264). Esse mesmo fato claramente”). Observe o jogo de palavras aqui. Talvez a tra­
indica que a História é uma manifestação de algo acerca da dução para mostrar isso seja “as coisas imperceptíveis são
natureza de Deus. claramente percebidas”.

29
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

pela perversão. Assim, Deus é revelado de maneira ge­ da supressão do conhecimento de Deus é que o pensa­
ral no conhecimento interno do certo e do errado. mento das pessoas, o poder de raciocínio delas, torna-
-se fútil e vão. Elas deixam de ser capazes de pensar de
c. Recepção. A recepção dessa revelação geral é
fato em Deus; só conseguem se entregar à especula­
distorcida e turvada por causa do pecado do homem.
ção. E o coração delas fica tão obscurecido que já não
Há um tipo trágico de retrocesso do lado humano.
conseguem realmente sentir ou perceber a presença
Podemos observar vários estágios conforme são deli­
de Deus. Assim, por causa do pensamento vão e fútil,
neados em Romanos 1.18ss.
voltam-se para idolatrias de muitos tipos (v. 22,23).
O início desse retrocesso é a supressão da verdade. Por causa do coração obtuso e turvo das pessoas, Deus
Paulo diz: “O que de Deus se pode conhecer é manifes­ as entrega à lascívia que agora se agita dentro delas (v.
to entre eles, porque Deus lhes manifestou” (v. 19). Em 24ss). Os seres humanos, suprimindo a gloriosa verda­
outras palavras, está à disposição de todas as pessoas de de Deus, tornam-se idólatras e lascivos.
um conhecimento de Deus claro, evidente e inques­ Agora, todo esse retrocesso trágico no conheci­
tionável que o próprio Deus exibe de maneira visível. mento de Deus é o resultado do fato de que as pessoas
Entretanto, no versículo precedente Paulo declara: deliberadamente “trocaram a verdade de Deus pela
“A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impie­ mentira” (v. 25). As pessoas já não queriam conhecer
dade e injustiça dos homens que suprimem a verdade Deus, muito menos vê-lo no caminho da perversidade
pela injustiça” (v, 18). As pessoas em todas as partes delas; elas “não se sentiam adequadas para reconhecer
suprimem a verdade que está aberta à vista e é dada Deus”,17 de modo que agora possuem “sentimento per­
por Deus. A injustiça delas é tamanha que o conheci­ vertido [reprovável* AEC]” (v. 28). A mente humana,
mento de Deus é suprimido ou refreado. por conseguinte, já não se qualifica18 ou não é adequa­
O próximo passo é o de desonra e ingratidão para da para pensar em Deus e em sua verdade.
com Deus: “Tendo conhecido a Deus, não o glorifica­
ram14 como Deus, nem lhe renderam graças” (v. 21). d. Sumário. Embora Deus se revele na natureza, na
humanidade e na História e por meio delas manifeste
As pessoas conhecem naturalmente Deus, mesmo que
sua deidade, poder, benevolência e justiça, de modo que
a verdade seja suprimida; portanto, a desonra e a in­
todas as pessoas conheçam basicamente Deus, esse co­
gratidão não brotam da ignorância. Trata-se, antes, de
nhecimento é suprimido. Em vez de levá-las a glorificar
um ato voluntário e flagrante de afastamento da verda­
Deus e serem gratas a ele — o que ocorreria se a hu­
de que foi dada quando deixam de glorificar e honrar
manidade não tivesse dado as costas para Deus — , esse
Deus ou de agradecer a ele por suas bênçãos.
conhecimento é desdenhado pelas pessoas, de forma
A conclusão é a da futilidade no pensamento e
que todo pensamento acerca de Deus torna-se vão e fú-
obscuridade no coração : “Os seus pensamentos [ou
til. Elas já não conseguem conhecer Deus por meio de
raciocínios]15 tornaram-se fúteis e o coração16 insen­
sua revelação geral; a mente delas está “desqualificada”
sato deles obscureceu-se” (v. 21). O resultado trágico
e só permanece a confusão. Alguma consciência de Deus
permanece, algumas agitações de consciência, algum
14 Ou “honraram”, como na RSV. O verbo grego edoxasan
conhecimento confuso — mas nada positivo permanece.
(de doxazõ) é com frequência traduzido por “glorificar” ou
“louvar”.
15 A palavra grega é dialogismois. h A expressão grega é ton theon echein en epignõsei; literal­
16 Em vez de “mente”, como na NTLH. A palavra grega é kardia, mente “ter Deus no conhecimento”.
literalmente “coração”, embora seja possível a tradução se­ 18 A palavra traduzida por “reprovável” ou “pervertido” acima é
cundária “mente”. adokimon, que mais literalmente significa “não qualificado”.

30
0 c o n h e c im e n to d e D e ^s

0 vinho do conhecimento de Deus tornou-se um vina­ conhecimento básico e objetivo de Deus que pode ser
gre de confusão humana. explicado e que qualquer pessoa racional desejosa de
Ora, em tudo isso as pessoas são indesculpáveis. Elas pensar claramente chegará a essa verdade. Assim, a
não podem atribuir a falta de conhecimento de Deus teologia natural, embora admita limites naquilo que
a uma simples ignorância ou mesmo à falta de capaci­ possa atingir, alega possuir valor positivo. Em espe­
dade.19 Isso porque Deus continua a manifestar-se com cial, é o que se diz, ela é valiosa num mundo que dá
tanta clareza na criação que, como Paulo afirma de for­ prioridade à razão sobre a revelação.
ma tão direta, “tais homens são indesculpáveis” (Rm Em contraponto, a teologia natural não consegue
1.20). Há ignorância, decerto, mas é ignorância volun­ reconhecer dois fatos básicos. Primeiro: conforme
tária — pessoas que não querem ter Deus no conheci­ já se observou, o conhecimento de uma pessoa é, no
mento. Portanto, são indesculpáveis. Voltando-se para o mínimo, desproporcional ao conhecimento de Deus:
próprio caminho, a perversidade delas é a raiz da falta ela pode ter idéias acerca de Deus, mas não passam
de conhecimento. Assim, são culpadas e inescusáveis. de construtos humanos extrapolados ao infinito. De
A única esperança para as pessoas é que Deus de­ modo que a capacidade humana de conhecimento é
seja de algum modo chegar a elas de maneira graciosa, insuficiente para se chegar a um conhecimento pleno de
numa revelação especial, dando a conhecer a verdade Deus. Segundo: ainda que haja uma revelação geral
acerca de si mesmo e de seus caminhos. Com isso, ele de Deus na natureza, na humanidade e na História, ela
pode iluminar o conhecimento dele próprio manifes­ está tão pervertida por causa do pecado da humani­
tado na natureza, na humanidade e na História; aliás, dade que a mente das pessoas é fútil e incapaz de dis­
Deus até pode ir muito além. É o testemunho da fé cernir o que Deus está revelando. Se as pessoas fossem
cristã que Deus de fato vem dando esse passo de graça. piedosas e justas, então certamente o que Deus revela
Agora ele pode ser realmente conhecido. por meio da revelação geral poderia fornecer uma base
para a teologia natural. Mas, uma vez que se afastaram
de Deus, elas não conseguem conhecer Deus por meio
EXCURSO: A QUESTÃO
do entendimento natural.
DA "TEOLOGIA NATURAL"
Deve-se acrescentar, porém, que quando Deus che­
Teologia natural é o esforço de construir uma dou­ ga à humanidade em sua revelação especial e uma pes­
trina a respeito do conhecimento de Deus sem apelo soa realmente a recebe, então seus olhos são mais uma
à Bíblia ou à revelação especial, utilizando apenas os vez abertos para o conhecimento de Deus no Universo,
dados que podem ser extraídos da natureza, existên­ na existência humana e em toda a História. Em última
cia humana, história etc. Essa teologia natural pode análise, só a pessoa que tem fé pode afirmar: “Os céus
ser buscada como uma substituta da teologia revela­ declaram a glória de Deus”. Assim, a teologia cristã
da (teologia firmada na revelação especial) ou como não é baseada na teologia natural, mas na revelação
uma fonte de base racional para ela.20 Em ambos os especial, o que inclui muito mais do que tudo o que a
casos, a premissa da teologia natural é que há certo teologia natural jamais poderia empreender.

19 As limitações naturais do homem por ser finito já foram dis­


cutidas nas p. 26-27. 2. Revelação especial
20 Como, por exemplo, no sistema teológico de Tomás de
Aquino e, por conseguinte, na teologia católica romana Passamos agora a considerar o que Deus fez de ma­
tradicional. neira graciosa em sua revelação especial. Deus chega

31
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

às pessoas em sua labuta e divulga uma revelação es­ de Deus em revelar-se de um modo específico aos fi­
pecial de si mesmo. Como afirma um escritor: “Para lhos de Abraão: que eles sejam um canal de bênçãos
salvar-se da loucura gadarena para a qual seu orgulho o para todos os outros. Por meio deles os povos de todas
impele, o homem necessita de mais do que uma revela­ as partes conhecerão Deus.
ção geral: Deus em sua misericórdia concedeu uma re­ A revelação especial, em segundo lugar, é progressi­
velação especial de si mesmo”.21 Vamos agora considerar va. Há uma revelação de Deus que se vai desvendando
essa revelação especial de várias perspectivas. no testemunho da história bíblica. Há um desvenda-
mento crescente do próprio Deus em sua verdade no
a. Seu caráter. A revelação especial é, antes de tudo,
particular. Deus revela a si mesmo para um povo es­ relato do AT e do NT. É o mesmo Deus do começo ao
pecífico, o povo que forma a história bíblica. Deus é fim, mas ele se acomoda ao lugar em que está seu povo.

conhecido de maneira adequada e verdadeira, não por Isso não significa que a revelação especial se move da

meio de um estudo geral da criação, da humanidade inverdade para a verdade, mas de um desvendar menor
e da História, mas por meio de sua relação com um para um desvendar mais pleno. Deus não muda de cará­
povo “escolhido”. Esse “povo de Deus” são os filhos de ter, de modo que (como se dá a entender às vezes) ele é
Abraão por descendência quer natural, quer espiritual. santo e raivoso no AT, mas amoroso e misericordioso no
Foi dito para o Israel do AT: “O Senhor , o seu Deus, NT. Ele é revelado como o mesmo Deus santo e amoroso
os escolheu dentre todos os povos da face da terra para do começo ao fim, mas com uma declaração cada vez
ser o seu povo, o seu tesouro pessoal” (Dt 7.6), Para mais profunda e ampla do que significam essa santidade
a igreja do NT declarou-se uma palavra semelhante: e amor. A revelação da Lei do AT não é substituída pela
“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, na­ revelação do Evangelho, mas é nela completada. Como
ção santa, povo exclusivo de Deus”22 (lP e 2.9). E é para diz Paulo: “A Lei foi o nosso tutor até Cristo” (G13.24).25
esse povo de Deus do AT e do NT que Deus deu o co­ Assim, “olho por olho, dente por dente” (Êx 21.24), no
nhecimento dele mesmo. As palavras do salmista: “Ele AT, não é a palavra final de Deus, mas a ela deve-se
[Deus] manifestou os seus caminhos a Moisés, os seus acrescentar: “Não resistam ao perverso” (Mt 5.38,39).
feitos aos israelitas” (Sl 103.7) aplicam-se ao povo de A última completa a primeira. A revelação especial,
Deus sob ambas as alianças.
pois, deve ser compreendida de maneira progressiva.
Por que essa particularidade?23 Será que isso signi­
Em terceiro lugar, a revelação especial é salvadora.
fica que Deus confina o conhecimento dele a um povo
Por meio da revelação geral Deus concede conheci­
específico? Não: uma vez que o conhecimento dele foi
mento dele mesmo em sua criação, em seu cuidado
pervertido e obscurecido pela maldade universal da
providencial e em seu julgamento na História, mas sua
humanidade, ele agora escolhe um povo a quem e por
obra salvadora não é manifestada. Ele é revelado como
meio de quem vai declarar-se. Para Abraão foi dada a
Criador e Juiz, mas não como Redentor. A revelação
palavra original: “Por meio de você todos os povos da
geral não possui poder salvador.
terra serão abençoados” (Gn 12.3).24 Esse é o propósito
Aliás, conforme observamos, o problema da hu­
manidade é que, apesar da revelação universal de Deus
21 Richardson, Alan. Christian Apologetics, p. 129.
e do conhecimento que as pessoas receberam, elas
22 A expressão grega é laos eis peripoiêsin, literalmente “um
povo de possessão”.
23 Às vezes ela é chamada “o escândalo da particularidade”. 25 A palavra traduzida por “tutor” é paidagõgos. Encontra-se
24 A RSV traz “abençoarão a si mesmos”; mas a margem traz “aio” na AEC, ARC e ARA. A analogia é a de um professor,
“serão abençoados”. A leitura da margem é preferível (cp. guia e guardião para supervisionar e dirigir uma criança até
ARCt NVI). ela chegar à maturidade.

32
0 c o n h e c im e n to d e D eus

suprimem essa verdade. O problema delas não é mera em todas as partes suprimem o conhecimento de Deus
finitude, mas perversidade — tão profunda que todo o na revelação geral, já não percebem nada claramente.
conhecimento de Deus é turvado e torcido. Portanto, A palavra de Deus na revelação especial vem, pois, não
se houver uma revelação especial que as pessoas consi­ para suplementar o que já sabem, mas para corrigir o
gam receber, ela precisa ser algo que transponha a con­ que está distorcido e turvado e para apresentar uma
dição pecaminosa delas e comece a fazer brotar uma nova verdade.
mudança radical dentro delas. Assim é que o discurso O caráter verbal da revelação especial é de altís­
de Paulo sobre revelação geral em Romanos 1 conduz sima importância. Há, com certeza, uma revelação
passo a passo a um desvendar da obra salvadora de especial que é mais que uma linguagem,2" mas nunca
Deus em Romanos 3.26 É apenas quando a perversida­ é menos. A linguagem é o meio de comunicação que
de da pessoa é alterada radicalmente por Jesus Cristo Deus deu à humanidade, e pela linguagem as pessoas
que Deus pode voltar a ser de fato conhecido. comunicam-se especificamente com outras pessoas.
A revelação especial no AT também contém uma Deus fala — de maneira audível, direta, concreta —
qualidade profundamente redentora. Deus se declara para que as pessoas possam ouvir e responder.
o Salvador de Israel: “Pois eu sou o Senhor , o seu Assim, a palavra de Deus dirige-se a seu povo no
Deus, o Santo de Israel, o seu Salvador” (Is 43.3). AT e no NT. Ele comunica o que deseja que saibam e
Pois Israel era um povo “redimido”, tirado “do Egito, façam. É também uma palavra para todos os povos,
da terra da escravidão” (Êx 20.2). Assim, ainda que pois Deus é Senhor sobre toda a terra.
a Lei fosse importante depois daquilo, ainda mais Em quinto lugar, a revelação especial é pessoal
significativos eram os sacrifícios. Esses ritos para a Deus não só fala, mas também se revela. Ele entra em
expiação do pecado indicavam o caminho para Jesus cena e se faz conhecido. Deus visitou Moisés na sarça
Cristo, um redentor não da escravidão no Egito, mas ardente e lhe revelou o próprio nome (Êx 3.1-14); ele

da escravidão do pecado. falou com Moisés “face a face, como quem fala com

A revelação especial é, pois, considerada progressi­ seu amigo” (33.11); apareceu a Samuel (ISm 3.21).

va e também salvadora. Mas que é salvadora do início Isso continuou em todo o AT, com muitos encontros e
ao fim é inegável. revelações pessoais.

Em quarto lugar, a revelação especial é verbal O clímax dessa revelação pessoal é Jesus Cristo, pois

Deus se revela por meio de sua palavra: ele comunica nele “a Palavra tornou-se carne” (Jo 1.14). Na pessoa

mediante a voz de pessoas vivas. Em sua revelação ge­ de Jesus Cristo, Deus estava confrontando as pessoas

ral, “um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela de maneira imediata e decisiva. Jesus mesmo declarou:

a outra noite”; mas “sem discurso nem palavras, não “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14.9), e assim declarou o

se ouve a sua voz” (SI 19.2,3). De modo que a revela­ cumprimento da revelação de Deus Pai em sua pessoa.28

ção na Criação não usa palavras e, portanto, é indireta.


Mas, quando Deus se comunica por sua palavra na re­ 27 V. a seguir a discussão sobre a revelação especial como algo
pessoal.
velação especial, o geral torna-se concreto; o indireto,
28 William Temple escreve: “Por dois motivos o evento em que
direto; o inaudível, audível. De fato, como as pessoas
a plenitude da revelação é dada deve ser a vida de uma pes­
soa: a primeira é que a revelação é para pessoas que podem
26 Essa obra de salvação é a manifestação de Deus (Rm 3.21) compreender plenamente só o que é pessoal; a segunda é
do mesmo modo que a criação era uma manifestação dele que a revelação é de um ser pessoal que não pode ser reve­
(1.19). O mesmo verbo, phaneroõ, é empregado em ambos lado em nada que não seja personalidade” (Nature, Man,
os versículos. and God, p. 319).

33
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Tudo isso, deve-se acrescentar, vai muito além da desvendava a revelação especial. Assim, o papel sin­
revelação geral em que, conforme observamos, Deus gular do profeta do AT é inegável.
revela seu poder e deidade, sua benevolência e justi­ Deus, porém, também não teria se revelado por
ça invisíveis. Mas Deus permanece a certa distância, e meio de outros que não os profetas do AT — por exem­
tudo isso parece um tanto impessoal. Na realidade, por plo, Moisés, o legislador, e Davi, o rei? Decerto, mas já
causa da perversidade dos homens, mesmo essa reve­ que a palavra “profeta” pode ser empregada de modo
lação geral fica encoberta. Deus parece ainda mais dis­ mais amplo, incluindo todos os que declaram a palavra
tante, e o mundo é considerado por muitos não como de Deus,31 ela pode ser referência ao leque mais amplo
uma arena da benevolência de Deus, mas como uma do testemunho do AT. De maneira que, quer fosse um
arena de uma natureza “de dentes e garras vermelhos”. Moisés anunciando o mandamento divino em termos
Na revelação especial, Deus vem pessoalmente, e tudo de leis e ordenanças, quer um Davi proclamando o
volta a encontrar sua devida proporção. nome divino na beleza do cântico e da poesia, quer um
Isaías declarando a majestade e compaixão divina, por
b. O meio. O meio da revelação especial é, primeiro,
meio da voz deles pronunciou-se a palavra de Deus.
os profetas do AT. Um aspecto vital dessa revelação é
Isso significa também que o profeta é não só um
que ela foi mediada por pessoas específicas levantadas
intérprete de fatos na história de Israel, mas também
por Deus. Elas foram porta-vozes de Deus.29 A posi­
alguém que declara a palavra de Deus de muitas m a­
ção singular do profeta é declarada por Amós: “Cer­
neiras e formas. Seja na lei, seja na história, seja na
tamente o Senhor , o Soberano, não faz coisa alguma
poesia, seja na parábola, seja na literatura sapiencial,
sem revelar o seu plano aos seus servos, os profetas”
seja nos chamados “profetas maiores” e “menores”, a
(Am 3.7). Os profetas eram escolhidos por Deus para
palavra de Deus está sendo proclamada.
serem os comunicadores de sua revelação especial.
Contudo, por fim, a revelação especial por meio
A importância do profeta deve ser observada, em
dos profetas do AT era só um preparativo para a reve­
primeiro lugar, porque por meio dele os eventos da
lação maior que viria em Jesus Cristo. Mesmo quando
história de Israel eram vistos da perspectiva divina.
o discurso profético prenuncia isso, há nele uma falta
0 que a um indivíduo comum pode parecer simples
de clareza e algumas indefinições. Há dimensões de al­
fatos históricos — por exemplo, a posse da terra pro­
tura, profundidade e largura ainda não pronunciadas.
metida, o estabelecimento do reinado, o cativeiro na
Há a Palavra de Deus ainda por vir.
Assíria e na Babilônia — são todos interpretados pe­
O meio da revelação especial é, em segundo lugar,
los profetas como revelações especiais da promessa
Jesus Cristo. “Deus falou muitas vezes e de várias ma­
de Deus, seu governo, seu julgamento, e assim por
neiras aos nossos antepassados por meio dos profetas,
diante. Sem os profetas, evidentemente Deus ainda
mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho”
estaria agindo em todos esses acontecimentos, mas
(Hb 1.1,2). Eis a revelação especial em seu ápice: Deus
não haveria conhecimento nem compreensão. Era ape­
falando, não por meio das palavras de profetas, mas
nas na combinação de evento e interpretação30 que se
verdadeiramente por meio do próprio Filho.
Agora, Deus estava falando diretamente com as
29 A palavra “profeta” é tomada de duas palavras gregas, pro ,
pessoas em Jesus Cristo. O profeta do AT podia, no
“por”, e phêmi, “falar”, assim, “falar por” Deus. A palavra he­
braica que significa “profeta”, nãbu também deriva de um
verbo que significa “falar”. revelador por meio da palavra do profeta. A revelação é
30 Emil B r u n n e r fala disso como “ato revelador e palavra tanto ato como palavra.
reveladora” (Revelation and Reason, p. 85). Essa é uma 31 Moisés fala de si mesmo como profeta em Deuteronômio
declaração valiosa que protege contra qualquer ideia de que 18.15: “0 Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus
o fato deva ser algo apenas natural que assume um caráter próprios irmãos um profeta como eu”.

34
0 c o n h e c im e n to d e D eus

máximo, falar de Deus de maneira distante; com eles tornar conhecido o significado do fato e com isso com ­
era: “Assim diz o Senhor ”. Com Jesus era: “Eu digo a pletar a revelação divina.
vocês”. Nas palavras do próprio Jesus, as pessoas eram Além disso, fatos complementares como o derra­
confrontadas diretamente com as palavras do Deus mar do Espírito Santo, a formação da igreja, os dons
vivo. “Ninguém jamais falou da maneira como esse do Espírito e a inclusão dos gentios com os judeus re­
homem fala” (Jo 7.46), pois as palavras soavam com a presentam, todos, um período subsequente à revelação
garantia da presença imediata de Deus. histórica em Cristo. Quanto à questão de judeus e gen­
Agora, Deus estava falando decisivamente com as tios, Paulo trata como um mistério dado por revelação:
pessoas em Jesus Cristo. A palavra do profeta do AT era “Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens
preparatória, às vezes parcial e transitória. A palavra de doutras gerações, mas agora foi revelado pelo Espírito
Jesus Cristo era definitiva e possuía autoridade. “Vocês aos santos apóstolos e profetas34 de Deus, significando
ouviram o que foi dito aos seus antepassados [...]. Mas que, mediante o evangelho, os gentios são co-herdeiros
eu lhes digo” (Mt 5.21,22).32 Porque Jesus é o cumpri­ com Israel” (E f 3.4-6). Trata-se de fato de uma reve­
mento da Lei e dos Profetas, dali em diante Deus será lação importante de Deus declarando que o povo de
compreendido de modo decisivo só nele e por meio dele. Deus já não estava limitado a uma nação, mas incluía
Agora, Deus estava falando plenamente às pessoas todos os que são unidos em Jesus Cristo.
em Jesus Cristo — por meio de seu discurso, seus atos, Para concluir, a revelação especial de Deus, que se
sua presença. Ele era o Mestre com “uma sabedoria per­ concentra em Jesus Cristo, só foi completada e recebeu
feita em todas as suas partes”33 Seus atos exemplifica­ forma final mediante o testemunho apostólico. Agora
vam suas palavras; o que falava, fazia. Se eram: “Amem era possível declarar “todo o conselho de Deus” de um
os seus inimigos”, ele os amou até o amargo fim. Se era modo que nem os profetas do AT nem mesmo o próprio
preciso orar: “Seja feita a tua vontade”, era a oração con­ Cristo puderam proclamar. Porque os apóstolos rece­
tínua dele. Se era preciso “negar-se”, ele se negou de tal beram a revelação do entendimento mais profundo do
maneira que entregou a vida na cruz. Sua própria pre­ propósito de Deus em Cristo, eles puderam estabelecer a
sença era tal que ele não só disse a verdade e praticou verdade em suas dimensões máximas e significado final.
a verdade; as pessoas souberam que ele era a verdade.
Aliás, ele proclamou: “Eu sou o caminho, a verdade e a c. Conteúdo. O conteúdo da revelação especial é pri­
meiramente o próprio Deus. A revelação especial é uma
vida” (Jo 14.6). O discurso e os atos fluíam da realidade
remoção do véu, de modo que Deus se faz conhecer.
de uma presença tão rica e plena que as pessoas viam
nele a própria Palavra de Deus encarnada. Trata-se, acima de tudo, da automanifestação de Deus.

Agora, Deus se revelava de maneira direta, decisiva No AT, ocorrem muitas manifestações dessas; por

e plena; ele o fez na pessoa de Jesus Cristo. exemplo, Deus a Abraão: “O Senhor lhe apareceu e dis­

O meio da revelação especial é, em terceiro lugar, se: ‘Eu sou o Deus todo-poderoso’ ” (Gn 17.1). Deus apa­

os apóstolos. A Palavra que se “tornou carne” em Jesus receu a Jacó em Betei, e o resultado foi que Jacó depois

Cristo, ainda que imediata, decisiva e total, não era a


revelação final sem o testemunho apostólico. Uma vez 31 “Apóstolos e profetas” indica que o meio dessa revelação foi
mais que os apóstolos. E decerto foi assim, pois havia outros
que a vinda de Cristo incluía sua vida, morte e ressur­
(incluindo alguns escritores do NT) que não eram apóstolos
reição, ficou reservada para os apóstolos a tarefa de
e completaram a revelação especial. Usei a palavra “após­
tolo” porque o nome designa o grupo original a quem foi
Também observe Mateus 5.27,28,31-34,38,39,43,44. confiado o evangelho e porque também pode significar um
•' Calvino, Institutas (2:15.2, trad. Beveridge). círculo amplo de “enviados”.
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construiu um altar “porque ali Deus havia se revelado a contexto dessa autorrevelação de Deus em Jesus que
ele” (35.7). Deus se revelou a Moisés na sarça ardente, viriam as revelações posteriores de Deus.
dizendo: “Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, É evidente que o coração da revelação especial é o
o Deus de Isaque, o Deus de Jacó” (Êx 3.6). Depois disso autodesvendamento do próprio Deus: Ele “se” revela.
Deus se declarou o grande “Eu Sou o que Sou” (v. 14). A revelação especial, em segundo lugar, contém o
Em todos esses casos, o Deus infinito, o mysterium desvendamento da verdade divina . É a declaração da
tremendum , está se revelando a pessoas finitas. verdade acerca de Deus, sua natureza e caminhos, e
Deixe-me acrescentar que permanece o mistério seus modos de lidar com o mundo e as pessoas. Aliás,
na autorrevelação de Deus. Deus não se revela ple­ a revelação especial inclui qualquer verdade que Deus
namente a ninguém, pois isso seria a destruição para queira que as pessoas saibam. Em suma, a revelação
um homem mortal. Assim, Deus disse mais tarde a especial, dessa perspectiva, é verdade revelada.
Moisés: “Você não poderá ver a minha face, porque A revelação divina, por conseguinte, é um autodes­
ninguém poderá ver-me e continuar vivo” (Êx 33.20). vendamento significativo.35 Deus não vem num mis­
Mas ele se mostra até o ponto que a pessoa é capaz de tério ininteligível; antes, ilumina a mente e o coração
receber sua autorrevelação. Mas em tudo isso perma­ para que compreendam e então comunica sua verdade.36
nece como o Deus de mistério inefável — o grande “Eu Isso ocorre em todos os casos já mencionados de au­
Sou o que Sou”. torrevelação divina para Abraão, Jacó e Moisés: Deus
A maravilha da revelação especial é que as manifes­ também revelou coisas que desejava que soubessem.
tações divinas (ou teofanias) do AT culminam na vinda Outra ilustração clara disso encontra-se nas palavras a
de Jesus Cristo como autorrevelação pessoal de Deus,
respeito de Samuel: “O Senhor continuou aparecendo
pois a Palavra que estava “com Deus”, a Palavra que “era
em Siló, onde havia se revelado a Samuel por meio de
Deus” “tornou-se carne e viveu entre nós [...] cheio de
sua palavra” (ISm 3.21). Há tanto a autorrevelação
graça e de verdade” com uma consequência maravilho­
de Deus (“O Senhor continuou aparecendo”) como
sa: “Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo
a revelação em palavras (“por meio de sua palavra”).
do Pai” (Jo 1.1,14). Como são verdadeiras as palavras de
Jesus aos discípulos: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14.9)!
35 Carl F. H. Henry escreve: “A revelação de Deus é comuni­
Mesmo no auge da autorrevelação de Deus em Jesus
cação racional transmitida em idéias inteligíveis e palavras
Cristo, a maravilha, até mistério, de Deus de modo al­ significativas, ou seja, em forma conceptual-verbal” (God,
gum desaparece. Isso é demonstrado com nitidez no Revelation, and Authority, v. 2, tese 10, p. 12). Henry
monte em que Jesus “foi transfigurado diante deles. preocupa-se em salientar que, embora a revelação seja “sin­
Sua face brilhou como o sol, e suas roupas se torna­ gularmente pessoal” (tese 6), é também inteligível e signifi­
cativa. Apesar de eu hesitar em usar a expressão “comuni­
ram brancas como a luz” e os discípulos “prostraram-
cação racional”, creio que Henry está inteiramente correto
-se com o rosto em terra” (Mt 17.2,6). Deus permanece
ao descrever a revelação também como significativa. A reve­
Deus — temível, misterioso, glorioso — em sua autor­ lação especial de Deus não é só sua revelação de si mesmo,
revelação por meio de seu Filho. mas também de quaisquer verdades que ele deseje que as
Para o apóstolo Paulo, a revelação de Deus era tam ­ pessoas conheçam.
bém basicamente sua autorrevelação em Jesus Cristo. 36 O misticismo em algumas de suas formas sustenta que a
relação de seus devotos com Deus é tão intensa que pode
Paulo escreve a respeito de Deus: “Lhe agradou revelar
não haver comunicação. O inteligível é transcendente na
o seu Filho em mim” (G11.16); e no relato dessa revela­
unidade entre Deus e as pessoas; assim, não há nada para
ção: “De repente brilhou ao seu redor uma luz vinda do dizer ou declarar. Esse tipo de misticismo é contrário à ideia
céu” e uma voz disse: “Eu sou Jesus” (At 9.3,5). Era no de revelação como desvendamento da verdade divina.

36
0 c o n h e c im e n to d e D eus

Mais um exemplo é esta interessante afirmação em (1.9,10). A maneira pela qual Deus pretende realizar
Isaías: wO Senhor dos Exércitos declarou isto aos meus essa convergência de todas as coisas em Cristo é mos­
ouvidos” (Is 22.14, AEC), seguida de uma mensagem trada em muitos outros textos do NT. O que é impor­
de Deus. A revelação especial é também a revelação da tante salientar nessa conjuntura é que Deus está m o­
verdade divina. vendo todas as coisas em direção ao alvo máximo, e ele
É também evidente que a Lei no AT é declarada deseja que seu povo saiba o que ele pretende.
revelação especial de Deus. Tanto é sua autorrevelação A revelação especial é, em seu ápice, a mensagem de
de justiça que veio no contexto de uma teofania divina Deus acerca do cumprimento final de todas as coisas.
no monte Sinai: “0 Senhor tinha descido sobre ele em Glória a Deus!
chamas de fogo” (Êx 19.18) — depois do que foi dada
a Lei (20.1-17). É a expressão do próprio Deus; é sua 3. Revelação subordinada
verdade que todos devem ouvir e receber; é intensa­
Além da revelação especial que é completada com
mente reveladora. Com alguma variação, o evangelho
o testemunho apostólico, Deus se revela aos que estão
é a autorrevelação máxima da graça de Deus em Jesus
na comunidade cristã. Essa revelação é subordinada ou
Cristo. Como diz Paulo: “Não o recebi de pessoa algu­
secundária à revelação especial atestada nas Escrituras.
ma nem me foi ele ensinado; ao contrário, eu o recebi
Para começar, Deus deseja dar ao cristão uma re­
de Jesus Cristo por revelação” (G 11.12). A verdade da
velação ampliada de seu Filho. Paulo ora pelos efésios:
justiça e do amor de Deus é finalmente desvendada na
“O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai,
revelação de Jesus Cristo.
lhes dê espírito de sabedoria38 e de revelação, no ple­
Em suma, a revelação especial não é só um auto-
no conhecimento39 dele” (Ef 1.17). Assim, é por meio
desvendamento de Deus; é também a verdade de Deus,
desse “espírito de sabedoria e de revelação”, graciosa­
qualquer que seja a forma que venha a assumir.
mente dado, que se receberá um conhecimento pro­
0 conteúdo da revelação especial, por fim, é a de­
fundo e pleno.40 Esse é o dom do “glorioso Pai”, que das
claração do propósito maior de Deus. Deus deseja que
as pessoas conheçam seu plano para o mundo — o
38 A palavra “espírito” também poderia ser interpretada como
fim para o qual tudo se move. Há limites, claro, tan­
“Espírito” (como na NVIy nota), portanto não o espírito
to por causa da compreensão e capacidade finitas do humano, mas o Espírito Santo. Paulo pode de fato estar se
homem, como porque os próprios caminhos de Deus referindo ao Espírito Santo que produz a sabedoria (e.g., a
estão muito além da compreensão humana. Ainda as­ “palavra de sabedoria” é um dom do Espírito Santo [ICo
sim, Deus afasta o véu e aponta inegavelmente para a 12.8]) e revelação (e.g., das “coisas mais profundas de Deus”
[ICo 2.10]). Estou optando por “espírito”, mas não sem um
consumação final.
forte senso do envolvimento do Espírito Santo.
A revelação de Deus por meio da linguagem de
39 A palavra grega é epignõsei. De acordo com o Expositor’s
Paulo em Efésios contém uma esplêndida declaração Greek Testament, nessa passagem a palavra epignõsis
do propósito maior de Deus. De acordo com Paulo, “o “significa um conhecimento que é verdadeiro, preciso,
mistério da sua [de Deus] vontade, de acordo com o seu completo e, portanto, pode ser considerado conhecimento
bom propósito que ele estabeleceu em Cristo” é “fa­ pleno’ ” (v. 3, p. 274). O Amplified New Testament traz
“conhecimento profundo e íntimo”.
zer convergir37 em Cristo todas as coisas, celestiais ou
411 Michael Harper escreve sobre um momento desses na sua
terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos”
própria vida: “Sabedoria e entendimento foram derramados
na minha mente [...]. Fui forçado em mais de uma ocasião a
0 verbo é anakephalaiõsasthai, literalmente “encabeçar” ou pedir que Deus parasse; eu tinha chegado ao ponto de satu­
"iuntar” ração”. V. sua autobiografia, None Can Guess (p. 21).

37
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

riquezas de sua glória revela esse conhecimento de seu que não acrescenta nada de essencial ao que Deus já
Filho. Essa revelação torna mais glorioso o caminhar deu a conhecer.
do fiel com Cristo. Contudo, jamais se deve negar que há uma revela­
Além disso, Deus dá revelação a um indivíduo para ção subordinada. Por meio dessa revelação Deus dese­
a edificação da comunidade cristã. Paulo diz à igreja ja tanto abrir para seu povo aspectos mais amplos da
de Corinto: “Quando vocês se reúnem, cada um de vo­ experiência cristã como fortalecer a vida da comuni­
cês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma dade cristã. É um meio pelo qual Deus, pelo seu Espí­
revelação, uma palavra em uma língua ou uma inter­ rito, leva-nos a uma compreensão sempre crescente de
pretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja” sua graça e verdade.
(IC o 14.26). Com isso ele afirma o lugar contínuo da
revelação. Isso diz respeito especialmente (como Paulo
C. Fé
passa a mostrar) à profecia, um dom do Espírito Santo Deus se faz conhecido aos que recebem sua revela­
(12.10), pelo fato de a profecia na comunidade cristã
ção pela fé. A fé é o instrumento pelo qual esse conheci­
ocorrer por revelação divina.41 A revelação, por conse­
mento ocorre. Nas palavras do livro de Hebreus; “Ora, a
guinte, é a base do anúncio profético.
fé é a certeza42 daquilo que esperamos e a prova das coi­
Deus, o Deus vivo, é o Deus da revelação. Ele está
sas que não vemos” (11.1). Deus mesmo, seus caminhos
pronto para conceder, por meio de seu Espírito, um es­
e seus propósitos pertencem à categoria das “coisas que
pírito de revelação e sabedoria para um conhecimento
não vemos”, mas pela fé há convicção e certeza.
mais profundo de Cristo e também a falar a seu povo
É importante destacar isso ao refletir sobre o co­
por meio da revelação e da profecia. Deus não mudou
nhecimento de Deus, pois, embora Deus saia de seu
em seu desejo de comunicar-se diretamente com os
mistério e se revele, se não houver recipiente, o co­
que lhe pertencem.
nhecimento é inexistente. A fé pode ser comparada a
Agora preciso ser firme em salientar que toda
uma antena pela qual se recebe a revelação de Deus.
essa revelação está totalmente subordinada à revela­
Se a antena não estiver no lugar ou não estiver funcio­
ção especial. A revelação especial foi dada por meio
nando, a revelação que está no ar, seja no Universo em
dos profetas do AT, de Jesus Cristo e dos primeiros
geral, seja nos atos especiais de Deus, não pode ser co­
apóstolos. Essa revelação, centrada na Palavra encar­
nhecida. Quando a fé está presente, as coisas de Deus
nada foi preparada pelos antigos profetas e comple­
tornam-se manifestas.
tada pelos primeiros apóstolos. Não há nada mais a
Nesse caso, que é fé? Algumas afirmações relacio­
acrescentar: a verdade divina foi plenamente decla­
nadas com o que se disse previamente podem ajudar a
rada. Portanto, o que ocorre na revelação dentro da
indicar uma resposta. Fé é mais que uma questão de re­
comunidade cristã não é nova verdade que vai além
conhecer Deus e suas obras; é uma resposta tal à revela­
da revelação especial (nesse caso é espúria, e não di­
ção divina que a aceita sem hesitação nem reserva. A fé
vina). Trata-se apenas de uma apreciação mais pro­
é inteiramente oposta à supressão da verdade; é o grato
funda do que já foi revelado ou de um desvendar de
reconhecimento dela. Fé é bem o contrário de desonrar
alguma mensagem para a situação contemporânea,
Deus e ser ingrato para com ele; é, antes, glorificar Deus
e lhe agradecer por sua manifestação. Fé é totalmente
41 Paulo escreve em lCoríntios 14.29,30: “Tratando-se de
diferente de trocar a verdade divina por uma mentira; é
profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidado­
samente o que foi dito. Se vier uma revelação a alguém que
está sentado, cale-se o primeiro”. 42 A palavra grega é elenchos, “convicção”, “certeza”, até “prova”.

38
0 c o n h e c in r.e r,;:'

a afirmação sincera do autodesvendamento de Deus. Fé criação volta a ser percebida. Por conseguinte, o co­
é dizer sim a Deus em tudo o que ele é e faz. nhecimento é alcançado como um resultado do fato
Isso, portanto, significa reagir em total afirmação de que o ato poderoso da graça de Deus na redenção
à autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. O homem do mundo por meio de Jesus Cristo foi recebido pela
em seu pecado e alienação de Deus tornou-se cego à fé. Assim, é pela fé, e somente pela fé, que Deus é co­
revelação de Deus no mundo em geral, na vida hu­ nhecido como Criador e também como Redentor.
mana e na História. Jesus é “o caminho, a verdade e Por fim, qualquer revelação de Deus — quer na
a vida” (Jo 14.6); assim, só pelo compromisso de fé criação, quer na redenção, quer na vida da com uni­
em Jesus, por parte de um indivíduo, que Deus pode dade cristã — se faz conhecer aos que têm fé. “Sem fé
ser agora realmente conhecido. Quando isso ocorre, é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6), mas aos que
há um grato reconhecimento de Deus, glória e ação têm fé Deus se agrada em se fazer conhecido em toda
de graças a ele, de modo que sua revelação em toda a a maravilha de sua majestade e graça.
3
Deus

I. A REALIDADE DE DEUS precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles
que o buscam”. Crendo que Deus existe e buscando-o
A realidade de Deus é o fato fundamental. Deus
com sinceridade, a pessoa aproxima-se de Deus e ga­
existe. Essa é a base para tudo o mais. A existência de
nha convicção de sua realidade.
Deus é a afirmação básica da teologia cristã.
Há em todas as pessoas um profundo anseio e sede

A. O relato bíblico que só podem ser saciados pela existência de Deus.


Nas famosas palavras de Agostinho: “Tu nos fizes­
É evidente que a realidade de Deus é atestada em te para ti, e o nosso coração não descansa enquanto
toda a Escritura. Desde “no princípio Deus” (Gn 1.1) não repousa em ti”2 Assim, fé não é, como às vezes se
até “vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20), o relato é da exis­ insinua, pensamento positivo, mas a consequência da
tência e atividade de Deus. A questão nunca é se Deus resposta de Deus ao coração que o busca. Fé não é ver,
existe,1mas quem é ele e o que faz. A Bíblia é principal­ mas, lembrando Hebreus, é “a prova das coisas que não
mente o registro dos atos grandiosos de Deus: criação, vemos” (11.1). As “coisas” de Deus — sua realidade,
redenção, glorificação. A realidade de Deus é a pres­ seus atos, seu propósito — não são vistas, a menos que
suposição indubitável de todo o testemunho das Es­ ele as ilumine e com isso faça brotar a fé. Fé, por con­
crituras. Deus pode ser questionado, sua justiça pode seguinte, não é um “salto no escuro”, um tipo de crença
ser discutida, alguém pode sentir-se abandonado por contra as evidências, mas uma dádiva de Deus para o
Deus, mas o fato de sua existência jamais é realmente coração humano faminto.
colocado em dúvida. Também preciso destacar que a fé é a resposta a
O povo de Deus, no AT e no NT, entendia que devia uma ação anterior de Deus. Deus está sempre buscan­
toda a existência a Deus. Não que fossem pessoas pe­ do o homem, mesmo quando o homem gostaria de se
culiarmente religiosas, “voltadas para Deus”, mas sa­ afastar dele. Assim, clama o salmista: “Para onde po­
biam que toda a razão da existência repousava na reali­ dería eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia
dade e ação de Deus. Aliás, seria mais fácil duvidarem fugir da tua presença?” (SI 139.7). Não há escapatória.3
da própria existência do que da existência de Deus. Quando uma pessoa se rende, nasce a fé.
Assim, todo o relato bíblico é um testemunho só­
lido da realidade de Deus.
2 Confissões (livro I, cap. 1).
3 O poema “The Hound of Heaven” [O cão de caça do céu], de
B. A convicção de fé
Francis Thompson, retrata isso de maneira viva:
“Fugi dele, pelas noites, pelos dias;
A realidade de Deus é uma afirmação de fé, pois,
Fugi dele, pelos arcos dos anos [...]
de acordo com Hebreus 11.6, “quem dele se aproxima
Daqueles Pés fortes que perseguiam, perseguiam”
Mas o Cão continua perseguindo “numa caça sem pressa
' A única insinuação na Bíblia da possível inexistência de e passo imperturbável, velocidade deliberada,
Deus é a do “tolo”. “Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não instância majestosa [...]” Não há escapatória.
existe ” (SI 14.1; 53.1; cf. 10.4). (Tradução livre.)

40
C. O testemunho do Espírito Santo três elementos: ele é um Deus vivo, ele é totalmente
pessoal e sua natureza é espírito.
0 testemunho interno do Espírito Santo con­
cede garantia complementar da realidade de Deus. A. Deus é vivo
0 cristão é aquele que disse sim à ação de Deus em
Deus é o Deus vivo. Esse é um tema apresentado com
Jesus Cristo: Deus trabalhou a fé dentro dele. Por
frequência nas Escrituras. Por exemplo, Israel ouve “a
isso ele crê. Daí Deus age para enviar o Espírito
voz do Deus vivo falando de dentro do fogo” (Dt 5.26), e
Santo ao coração do crente. Paulo escreve: “Porque
“tão certo como vive o Senhor” é uma expressão comum
vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu F i­
nos votos do AT (ISm 14.39,45, AEC, et al.), mostrando
lho ao coração de vocês” (G14.6). O resultado é que o
assim uma forte consciência de Deus como o Deus vivo.
Espírito clama “Aba, Pai” (4.6; v. Rm 8.15). Por con­
No NT, a grande confissão de Simão Pedro acerca de
seguinte, o crente fica ainda mais seguro da realidade
Deus, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16),
de Deus, porque o que tem é mais que uma convic­
mostra a contínua consciência de Deus como Deus vivo.
ção de fé: torna-se um testemunho interno do Espí­
Outros exemplos podem ser multiplicados: “somos san­
rito Santo. Isso é o que pode ser chamado de “plena
tuário do Deus vivo” (2Co 6.16), o monte Sião é cha­
convicção de fé” (Hb 10.22) dada pelo Espírito Santo.
Para fazer uma breve alusão ao cenário contempo­ mado de “a cidade do Deus vivo” (Hb 12.22), e um anjo

râneo: um dos aspectos mais significativos da renova­ no céu leva “o selo do Deus vivo” (Ap 7.2).

ção espiritual presente é uma percepção ampliada da Deus como o Deus vivo, primeiro, é o que se colo­

realidade de Deus. Para muitos, Deus antes parecia ca em oposição a toda idolatria e imagens esculpidas,

distante. Havia pouca experiência de sua presença; ídolos de qualquer tipo, por serem inanimados — “são

mas agora, pela atividade interior do Espírito Santo, incapazes de falar, e têm de ser transportados porque

vem ocorrendo uma nova abertura de comunicação não conseguem andar” (Jr 10.5) — colocam-se contra

espiritual — um “Aba, Pai” expresso com profundida­ o Deus vivo. “Mas o Senhor é o Deus verdadeiro; ele é

de. Que Deus é real é o principal testemunho da reno­ o Deus vivo; o rei eterno” (Jr 10.10). Assim, cultuar um

vação dos dias de hoje.4 ídolo é cultuar um objeto morto e profanar o Deus vivo.
Aliás, qualquer imagem esculpida (Êx 20.4), mesmo
II. A IDENTIDADE DE DEUS que seja uma tentativa de retratar o Deus verdadeiro, é
também uma abominação porque o Deus vivo não pode
Chegamos agora à questão de quem é Deus. Como
ser reduzido a uma imagem inanimada dele mesmo.
ele se identifica em sua revelação? O que as Escritu­
Prosseguindo, observamos em segundo lugar que a
ras declaram acerca dele? Aqui podemos observar
ação de Deus em todo o drama da Criação, redenção e
glorificação é o daquele que, sendo vivo, dá vida e fôle­
4 Meu livro The Era of the Spirit começa com as seguintes
go a todas as coisas, devolve a vida ao que está morto e
palavras: “Vamos falar primeiro dessa consciência renovada
da realidade de Deus. Ele pode ter parecido antes ausente, renova constantemente a vida que foi restaurada. Além
distante, até inexistente para muitos de nós, mas agora sua disso, o alvo para o qual movem todas as coisas é a con­
presença é vividamente manifesta. De repente, Deus não está sumação final em que há vida eterna. É Deus, o Deus
lá no sentido de uma onipresença vaga, mas de uma presença
vivo, que faz que tudo isso ocorra.
incisiva [...]. É como se a pessoa conhecesse pela primeira vez
Dizer que Deus é o Deus vivo não significa, porém,
a maravilha de uma atmosfera tão carregada da Realidade di­
vina, que tudo em volta se torna glorioso com a consciência da que haja identidade entre Deus e vida. É uma falsa
presença inefável de Deus” (parte 1, cap. 1, p. 10). equação dizer que Deus = Vida, ou entender que Deus

41
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

é um tipo de “força de vida” que opera no Universo. Deus possui essa vida no máximo grau possível, pois
Qualquer que seja a vida, no mundo ou no homem, tal medida seria quantitativa e totalmente inaplicável.
é de Deus, mas não é Deus. Deus também não deve Antes, a vida divina é imensurável, ilimitada, trans-
ser compreendido como a base ou a matriz da vida, de bordante. Sua vida é um genuíno rio que continua­
modo que só se possa dizer simbolicamente que Deus mente faz brotar correntes de água viva. A vida plena
vive. Antes, Deus é a própria essência da vida e, como não é só a vida de Deus, mas também a vida de tudo o
tal, gera vida em outro lugar. Também seria errado as­ que vem dele.7
sumir que o Deus vivo é pouco mais que uma fantasia O fato de que Deus é o Deus vivo também signifi­
da imaginação humana, um tipo de projeção da vida ca que ele é o Deus contemporâneo. Sua vida não é a
do próprio homem a uma dimensão extrema em que de um evento passado, como se tivesse vivido em al­
o infinito é investido de realidade viva. Não é porque o guma outra época e agora tivesse deixado de existir.
homem vive que se concede vida a Deus; antes, é por­ Qualquer um que por acaso afirme a morte de Deus8
que Deus vive, que o homem tem alguma vida. Porque pronuncia com isso sua própria condição de morto
Deus vive, o homem também pode viver. e confessa que já não é capaz de ver e conhecer aquele
Como o Deus vivo, ele possui vida em si mesmo.5 que é a própria essência da vida. Deus está intensa e
Sua vida não veio de outra fonte. Não existe uma “não intensivamente vivo — agora!
vida”, alguma semente primitiva da qual emergiu Além disso, todas as atitudes que dão a entender
a vida divina. Deus também não é o gerador de sua explícita ou implicitamente que os encontros vivos de
própria vida, como se houvesse alguma vasta entidade Deus com as pessoas pertencem a um tempo remoto
inanimada que de alguma forma evocasse sua própria ou que suas obras grandiosas realizadas em tempos bí­
existência viva. A vida do mundo não é essencial para a blicos não podem ocorrer hoje estão longe da verdade.
vida de Deus. Além disso, Deus não está em progresso,6 Essas atitudes, não distantes do pensamento da “morte
como, por assim dizer, uma divindade crescente que, de Deus”, tentam confinar Deus ao passado.
com cada desenvolvimento de vida no Universo, vê de­ Do mesmo modo, contrárias ao Deus vivo são to­
senvolver sua própria vida. Deus, tendo vida em si, não das as formas de adoração que se tornaram em grande
possui suplementação nem necessita disso. Tudo o que parte mecânicas e mortas: todas as afirmações de fé
é processo e crescimento no Universo deve-se à vida quase vazias, palavras repetitivas; todos os cultos a ele
que Deus faz brotar cada vez mais. prestados que sejam enfadonhos, monótonos, rotinei­
Além disso, Deus é o Deus vivo no sentido de ser o ros. O Deus vivo e contemporâneo deve ser honrado
possuidor da plenitude. Deus vive não só no sentido de em culto e obediência vivos.
ter plena existência animada, mas também no de que
sua vida é uma vida de riqueza e vitalidade. Não é que B. Deus é pessoal

Deus em sua revelação declara ser o Deus pessoal.


5 “0 Pai tem vida em si mesmo” (Jo 5.26). Assim também com
Ele deseja ser conhecido por nomes pessoais; ele se mos­
o Filho, mas ele possui vida que vem do Pai: “Ele concedeu
tra como alguém que mantém relações pessoais com o
ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26). Uma discussão
mais completa da relação entre o Pai e o Filho encontra-se
no capítulo seguinte sobre “A santa Trindade”. Assim também o Filho, que também possui “vida em si mes­
6 Como na filosofia e teologia do processo. Veja uma crítica mo”, dá vida abundante a outros: “Eu vim para que tenham
prestimosa do pensamento do processo em: Henry, Carl F. vida, e a tenham plenamente” (Jo 10.10).
H. A Critique of Process Theology. In: E rickson, Millard J. 8 Como fizeram Friedrich Nietzsche no século XIX e os teólo­
(Org.). The Living God. gos da “morte de Deus” no século XX.

42
D eus

homem: ele se revela de maneira singular na pessoa de desde o dia da criação do homem; quando fala ao povo,
Jesus Cristo; e seu caráter é profundamente pessoal. ele o faz como um “eu”, não um “isto”; ele firma uma
Deus é, antes de tudo, pessoal no fato de possuir no­ aliança com as pessoas, tratando-as como parceiras. Em
mes e títulos pessoais. Ele não deseja ser chamado ape­ todas essas relações, Deus é totalmente o Deus pessoal.
nas de “Deus”, mas ser conhecido também, por exemplo, Assim, qualquer concepção de Deus que o veja
como “Javé” ou “o Senhor”.9 Essa é sua autodesignação como uma ideia ou absoluto impessoal acima dos seres
pessoal quando se prepara para tirar seu povo da escra­ humanos, ou talvez como algum princípio ou lei a que
vidão no Egito. Deus é também de maneira variada “rei” o homem está sujeito, interpreta muito mal a identi­
(e.g., ISm 12.12), “juiz” (e.g., Jz 11.27), “pastor” (e.g., SI dade de Deus. Seria difícil dizer o que está mais longe
80.1) e “marido” (e.g., Jr 31.32) — todos epítetos pes­ da verdade: Deus como o Absoluto desinteressado, um

soais. A designação máxima, porém, é a de “Pai”, um isto sem nenhum traço pessoal, ou Deus como uma
termo intensamente pessoal, e os que compõem o povo lei coerciva, um isto que incomoda constantemente a

de Deus são considerados seus filhos. humanidade com suas restrições frias e impessoais.

Seria um erro entender que esses nomes e títulos Decerto há leis e absolutos, mas são sempre expressões

pessoais são meras acomodações à condição humana, da vontade pessoal de Deus; ele é mais que leis e abso­
lutos. Deus sendo pessoal, sem ser falso para consigo
enquanto Deus mesmo na realidade está acima do pes­
mesmo, pode alterar seus rumos, ir além das próprias
soal. Às vezes se insinua que Deus pode ser retratado
leis. Aliás, o âmbito dos milagres é sobretudo esse âm­
de modo muito mais adequado como o inominado, o
bito do Deus pessoal que aparece como um inconfor­
abismo sem fundo, o chão escuro ou até, quem sabe,
mado com os caminhos aceitos dele mesmo!
o não ser ou o Nada. Deus, então, é compreendido em
Deve-se acrescentar uma breve palavra sobre os
sua deidade (onde, presume-se, repousa sua real es­
chamados antropomorfismos que ocorrem com fre­
sência divina) como não pessoal. Entretanto, deve-se
quência nas Escrituras. Não só Deus é retratado na
replicar, qualquer concepção de Deus que o conside­
Bíblia como alguém que pensa, sente e deseja (todas
re impessoal ou não pessoal é uma distorção. É muito
atividades bem humanas); como alguém que ri, se en­
melhor dizer simplesmente que Deus é pessoal e em
furece, se alegra, sofre (talvez ainda mais humanas);
correspondência a isso (de modo algum como uma
mas há também referências à sua “face”, “braço”, “pés”,
questão de acomodação) atribui a si mesmo designa­
até “costas” — referências que parecem talvez ter che­
ções pessoais. A variedade dessas designações serve
gado perto demais do homem, no fato de Deus ser
para declarar que Deus é tão plenamente pessoal que
descrito também como possuidor de características fí­
um único nome ou título jamais seria suficiente.
sicas. Duas coisas, porém, devem ser ditas em respos­
Além disso, Deus é pessoal no fato de ser mostra­
ta. Primeiro, Deus, ainda que seja espírito (v. a seção
do como aquele que entra em relacionamentos pessoais
seguinte), não é amorfo,10 pois isso significaria caos,
com o povo. Ele tem comunhão com seres humanos
desorganização e anarquia; assim, o antropomorfismo
expressa que Deus tem existência singular. Segundo, as
Deus, que se declarou a Moisés como o grande “Eu Sou o que
frequentes referências a traços físicos são expressões
Sou”, acrescentou: “Diga aos israelitas: OSenhor [ YHWHou
vivas do entendimento bíblico de que Deus é pessoal.
Yahweh], o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão,
o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, enviou-me a vocês. Esse
é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembra­ 10 A respeito de Moisés, Deus diz: “Com ele falo face a face
do de geração em geração” (Êx 3.14,15). O nome Yahweh, o claramente, e não por enigmas; e ele vê a forma do Senhor"
Senhor, ocorre 6.823 vezes no AT. (Nm 12.8; v. SI 17.15; Ez 1.26; Jo 5.37).

43
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

Quanto a este último ponto, os autores das Escrituras O nome Pai, por exemplo, não é uma projeção fanta­
sabem muito bem que Deus não possui corpo literal, siosa pela qual as pessoas tentam humanizar Deus;13
mas também atestam que Deus é plenamente pessoal: pelo contrário, o nome Pai é que permite aos homens
ele vê pessoas humanas, ele se dirige a elas e as aconse­ serem chamados pais e estabelecerem famílias sobre
lha; nesses sentidos ele possui “olhos”, “mãos” e “pés”. a terra. “Deus pessoal”, portanto, não é um termo
Evitar antropomorfismos seria deixar de retratar Deus simbólico que designa alguém que talvez possa ser
em sua realidade viva e pessoal. descrito de modo mais adequado como o fundamen­
Deus se mostra pessoal de maneira singular em to do ser;14 antes, sua própria essência é completa­
sua autorrevelação em Jesus Cristo. Uma vez que Deus mente pessoal. Ele é o Deus único que é Pai, Filho e
se encarnou na pessoa de Jesus Cristo, isso afirma que Espírito. Por trás dessas diferenciações pessoais não
a realidade pessoal é a verdadeira expressão do ente se esconde um ser impessoal.
divino. Deus não chega ao homem basicamente pelo Por fim, Deus é pessoal no fato de que o aspecto
discurso de Cristo, nem mesmo por sua ação, mas central de seu caráter é o amor. Amor é um termo va­
pela totalidade de sua pessoa. No ministério de Jesus zio e sem sentido se não for compreendido como algo
Cristo, cada contato dele com as pessoas era extrema­ que procede de alguém que é pessoal. O amor não é
mente pessoal. Sua vida consistiu em entrar em co­ uma entidade neutra, um tipo de termo abstrato para
munhão, suprir as pessoas em suas necessidades mais certo relacionamento, ainda que seja o mais elevado
profundas, identificar-se com elas até a própria morte e depurado imaginável. Trata-se, pelo contrário, de
na cruz. E mais, Jesus instruiu os discípulos a chamar uma palavra completa e profundamente pessoal; ela
Deus de Pai e retratou a própria relação e a relação dos expressa como nenhuma outra palavra o significado
discípulos com Deus como a de filhos. Assim, Deus é interior da realidade pessoal. Aquele que ama com ­
pessoal em si e para com os outros. pletamente é completamente pessoal. Já que Deus é
Devemos tam bém observar que Deus é aquele amor, ele é Pessoa.
cuja unidade é a de Pai, Filho e Espírito Santo.11 En­ Esse entendimento de Deus como pessoa é mais
tre outras coisas, isso, sem dúvida, afirma que Deus do que relevante hoje. Para começar, as pessoas preo­
é ricamente pessoal — até tripessoal. Ele não pode cupam-se muito em saber se a realidade última, qual­
ser descrito simplesmente como Pai; ele é também quer que seja sua definição, é realmente pessoal. Se há
Filho e Espírito Santo. Se “Espírito” soa menos pes­ um Deus, ele é algo mais que um tipo de energia impes­
soal, vamos logo observar que, especialmente no NT, soal ou destino cego? Será que Deus realmente “ouve” as
o Espírito é com frequência referido em termos pes­ orações? (A energia ou o destino certamente não ouvi­
soais — como “eu” ou “ele”.12 Deus, o Senhor, pois, é a ríam.) Será que ele é de fato um Deus que tem interesse
plenitude da pessoalidade.
pessoal em sua criação? Essas questões expressam as
Não há na Palavra de Deus nenhum indício de
preocupações profundas, muitas vezes angustiadas, de
que ele seja pessoal em virtude de o homem tê-lo de­
muitos; assim é importante ser capaz de afirmar de ma­
signado como tal. É sempre exatamente o oposto: o
neira clara e convincente a realidade pessoal de Deus.
homem é pessoal por decisão divina. Deus não é uma
realidade personificada; antes, ele é quem personaliza.
13 Como entendia Freud, em Totem and Taboo: “Em suma,
Deus nada mais é do que um pai exaltado” (p. 147).
11 V. o capítulo seguinte, sobre “A santa Trindade”. 14 Paul T i l l i c h , em Systematic Theology, fala de Deus como
12 V. um desenvolvimento mais detalhado no capítulo seguinte, “o fundamento do ser” (e.g., v. 1, p. 235). “Deus pessoal”,
“A santa Trindade”. acrescenta mais tarde, “é um símbolo confuso” (p. 245).

44
D e -5

Em seguida, o entendimento de Deus como pessoa é àquele cuja existência é espiritual. Uma vez que Deus
importante num mundo em que a existência humana é espírito, sua existência não é algum tipo de matéria
está se tornando cada vez mais despersonalizada. Um rarefeita, ou, como que alguma forma de energia. O es­
indivíduo muitas vezes torna-se um nome sem rosto, pírito não é a substância de Deus, pois o espírito não é
um dente da engrenagem, um número num cartão de substância nem matéria, mas a realidade divina. Deus
ponto. Ele se relaciona cada vez mais com coisas — não é material, não importa quanto seja refinado ou a
máquinas, instrumentos, o mundo material — e só forma em que tal matéria possa estar. Deus é espírito.
secundariamente com pessoas. Assim, por sua vez, ele Segue-se que Deus que é incorpóreo é também
tende a tratar os outros não como pessoas, mas como invisível.18 Ele é aquele “a quem ninguém viu nem

coisas — coisas que devem ser manipuladas, usadas e pode ver” ( l l m 6.16). Ele não possui a visibilidade

abusadas para seus próprios fins. De modo que há uma corporal do homem. Uma vez que a existência divina

necessidade desesperada de recuperar a dimensão do não é informe, sua forma pode ser vista por meio de

pessoal. A resposta, em última instância, está em Deus sua autorrevelação. Entretanto, sua forma é invisível,

voltar a ser compreendido como pessoa, pois é no exceto aos olhos da fé, e Deus em sua realidade essen­
cial (sua “face”) não pode ser visto por homem algum.
relacionamento pessoal com ele que todos os relacio­
Assim, contemplar Deus é impossível enquanto o ho­
namentos são personalizados. Conhecer Deus como
mem está em seu estado corpóreo presente; aliás, isso
pessoa é redescobrir a maravilha da existência pessoal
seria sua destruição.19 A visão da “face” de Deus está
— na comunhão com Deus, no companheirismo com
reservada para a ordem final da existência no novo
o próximo e na própria existência.
céu e nova terra.211 Nesta vida presente Deus perm a­
C. Deus é espírito nece como o Deus invisível.
Uma vez que Deus é incorpóreo, sua existência é
“Deus é espírito” (Jo 4.24).15 Como tal, ele é incor-
também simples, indivisa, não composta. Deus não
póreo; é o Deus atuante; é o Senhor da liberdade.
é composto de partes, de modo que esteja parcialmen­
Deus como espírito é, acima de tudo, incorpóreo.
te no céu e parcialmente na terra, ou de modo que uma
Ele não é “carne e sangue”16 Isso tem vários signifi­
parte de seu ser seja o Pai, outra o Filho e outra o Es­
cados. Primeiro: a existência de Deus é imaterial: sua pírito Santo, ou de modo que possua um corpo de vá­
realidade é totalmente espiritual. Assim, sua forma rias partes. As referências bíblicas aos “olhos”, “mãos”,
pessoal (v. seção anterior) não é material,17 pois mate­ “pés” etc. de Deus, que afirmam a existência pessoal
rialidade é um aspecto da condição de criatura; antes, de Deus, de modo algum pretendem indicar que ele é
Deus é espírito pessoal. Todos os antropomorfismos uma realidade composta. Se nas Escrituras só se veem
bíblicos, por conseguinte, devem ser compreendidos as “costas” de Deus21 ou sua “forma”, porém não sua
como algo que dá particularidade e especificidade

18 “Ao Rei eterno, o Deus único que é imortal e habita em luz


“Deus é espírito” (e não “um espírito”, KJV) é a tradução inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A ele sejam
também na AEC, ARA, ARC e NTLH. 0 texto grego traz honra e poder para sempre. Amém” (lTm 1.17).
pneuma ho theos. 19 Deus disse a Moisés: “Você não poderá ver a minha face,
“Um espírito não tem carne nem ossos” (Lc 24.39). porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo” (Êx
“Sobre o trono, havia uma figura que parecia um homem” 33.20).
(Ez 1.26). Na visão de Ezequiel, vê-se a forma de Deus. 20 Apocalipse 22.4: “Eles verão a sua face”.
É como uma forma humana, mas é evidente que não é uma 21 De novo, Deus disse a Moisés: “Você verá as minhas costas:
forma humana. mas a minha face ninguém poderá ver” (Êx 33.23).

45
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

“face”, não é que o homem vê uma parte de Deus. Sig­ fazer o que quer. Não há obstáculos ou impedimentos
nifica mais que Deus não pode ser visto plenamente de nenhuma espécie nele. Deus não é bloqueado por
por nenhum ser humano. O que a pessoa vê pela fé é o nenhuma luta interna, não é conduzido por nenhuma
Deus total que, em sua autorrevelação, ainda é o Deus necessidade interior. Ele é livre para expressar-se, li­
encoberto. Deus é espírito. vre para amar, livre para cumprir seus propósitos. Sua
Segundo: Deus como espírito é o Deus atuante. existência é a máxima espontaneidade, e ele é comple­
Deus não é um ser que também age, mas é aquele cuja tamente autodeterminado. O espírito de Deus, o Senhor,
existência é de ação, pois o espírito é totalmente dinâ­ é o espírito de liberdade.23
mico. Também Deus não é aquele que fala e também Deus é livre também em relação ao Universo que
deseja; antes, sua fala e seus atos são uma coisa só:22 ele criou. Não é como se Deus tivesse formado um mundo
é a palavra em ação. Não faz sentido, pois, pensar que e agora estivesse preso a ele — por suas leis, estruturas
por trás da ação de Deus há alguma outra dimensão e seus limites. Deus como espírito move-se livremen­
de existência, presumidamente mais profunda. Deus é te dentro da ordem criada. E, caso queira, Deus pode
quem ele é em atividade. mover-se para além dele. Deus, por conseguinte, não
Para ilustrar, se Deus age para criar um mundo, é limitado, de modo nenhum, por sua criação. Pelo
Deus está totalmente nessa ação. Ele é o Deus Criador, contrário, por ser criação dele, ela serve não para res­
e não há Deus acima, ao lado ou complementar àquele tringir, mas para cumprir sua vontade. Deus, o Senhor
que cria. O ato da Criação é Deus em ação. Evidente­ livre, não é restringido.
mente, o que Deus cria — o mundo e os seres huma­ Deus é livre também em seu trato com a huma­
nos — não é Deus nem alguma parte dele. Entretanto, nidade. Ele não pode ser coagido a alguma atividade
não se segue que, por causa da distinção entre o ato em particular pela situação humana. Se, por exemplo,
da Criação e o que é criado, há uma diferença entre ele age de modo criativo ou redentor, não é porque é
Deus e seu ato. Deus como espírito, o Senhor atuante, obrigado, mas porque deseja fazê-lo. Se ele é generoso
é o Criador, e não há deidade de algum modo colocada com as pessoas, não é porque as pessoas o compelem a
fora ou além daquilo que é feito. isso ou porque elas merecem, mas porque Deus deseja:
Deixe-me acrescentar logo que essa identidade a graça é graça livre. Isso não significa que os atos de
entre existência e ação não significa que se Deus não Deus sejam arbitrários, pois ele é Deus santo, amoroso
criasse ou redimisse ou renovasse não seria Deus. Essa e veraz. Assim, ele age de acordo. Deus não age de ma­
concepção faria que a realidade de Deus dependesse neira diversa daquilo que é; ele é totalmente confiável.
da totalidade de seus atos. Mas isso inverteria o qua­ Mas seus atos não são coagidos. Deus é o Senhor livre.
dro, pois não é que a ação seja Deus, mas que Deus Tudo o que se disse acerca de Deus como espiritual,
é ação. Assim, embora ele esteja totalmente em cada quer em termos de sua existência incorpórea, quer em
ação, Deus ainda é Senhor sobre o que faz e pode agir termos de sua existência em ação ou sua liberdade es­
de maneiras diferentes das que já deu a conhecer. sencial, é importante para que o homem entenda Deus
Terceiro: Deus como espírito é livre. O espírito é e a si mesmo. Se Deus é espírito, só pode ser cultuado
ilimitado, irrestrito, irreprimido; Deus não conhece no espírito24 que ele deu ao homem. Ele só pode ser
limites de espécie alguma. Ele é livre, primeiro, para

23 “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor,


22 E.g., no ato da criação: “Disse Deus: ‘Haja luz’, e houve luz ’ ali há liberdade” (2Co 3.17).
(Gn 1.4). A fala de Deus (ou palavra) não precedeu o ato: foi 24 “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o
uma coisa só. adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).

46
D eu s

servido por uma vida de atividade devotada, não pela indicar que Deus é infinitamente distinto de tudo o
recusa a um envolvimento. E ele só pode ser manifesto que é finito.
naqueles que vivem em completa liberdade. Quando Uma passagem extraordinária no livro de Jó retrata
as pessoas realmente entendem que Deus é espírito e a ilimitabilidade de Deus em termos de altura, profun­
agem de acordo com isso, a vida ganha um significado didade e largura. Zofar questiona Jó: “Você consegue
mais rico e pleno. perscrutar os mistérios 27 de Deus? Pode sondar os li­
mites do Todo-poderoso? São mais altos que os céus!
III. A TRANSCENDÊNCIA DE DEUS O que você poderá fazer? São mais profundos que as

Nossa preocupação a seguir é com afirmações profundezas! O que você poderá saber? Seu compri­

acerca de Deus que indicam sua transcendência. Há mento é maior que a terra e a sua largura é maior que o

atributos que pertencem a Deus como Deus. Eles não mar” (11.7-9). Não só Deus é mais alto que as alturas,
ele é também mais profundo que as profundezas. Ele
são partilhados de modo algum com o homem nem são
excede os níveis mais profundos da existência, a estru­
comparáveis a algo que exista no mundo. Às vezes
tura básica do Universo. Deus não deve ser entendido
são descritos como “atributos incomunicáveis”.25 São
como o “espírito do mundo” ou a “alma do mundo”,
atributos do Deus transcendente.
pois isso seria vê-lo como algum tipo de dimensão pro­
A. Deus é infinito funda da existência criada. Deus também não deve ser
compreendido em termos de largura, pois ele é mais
Deus é ilimitado, irrestrito. Os seres humanos são
amplo que a amplitude de tudo o que existe. Essa é
finitos, confinados no espaço. Com Deus não há con-
a vastidão de Deus. Nada, quaisquer que sejam suas
finamento, não há limitação. Ele transcende tudo em
dimensões de altura, profundidade ou largura, apro-
sua criação.
xima-se da realidade divina. Deus está muito além das
O retrato bíblico da infinitude de Deus é com
dimensões máximas da existência criada, assim como
frequência o de sua exaltação. Ele é o Senhor “alto e
está além de seus aspectos mais óbvios e imediatos.
exaltado” (Is 6.1). Ele é exaltado acima de tudo o que
Às vezes se pensa que Deus pode ser alcançado
é terreno e humano. Seu trono está acima do mais alto
pela elevação das aspirações humanas ou pela son­
céu. Na linguagem do rei Salomão: “Os céus, mesmo dagem das profundezas da existência, ou pela busca
os mais altos céus, não podem conter-te” (lR s 8.27). da vida em sua amplitude multifacetada. Às vezes as
Deus é “Deus Altíssimo” (Gn 14.18-22).26 A represen­ pessoas imaginam que se alguém conseguisse alcançar
tação espacial de altura é obviamente inadequada, já elevação suficiente por meio de alguma forma de êxta­
que Deus transcende tudo o que existe, mas serve para se religioso ou se aprofundar o suficiente por meio da
meditação, chegando ao âmbito mais íntimo do espí­
25 Sobre os atributos incomunicáveis, v. e.g.: B e r k h o f , L. rito, ou se estender o suficiente para abraçar a vida em
Systematic Theology, v. 6, p. 57-63; v. tb.: B a v in c k , H.
sua expressão mais plena, finalmente daria com Deus.
Our Reasonable Faith, p. 50-51. Um “atributo incomuni­
O esforço humano pode acabar levando à vizinhança
cável” é aquele “para o qual não há nada análogo na criatura”
(B e r k h o f , p. 55). Outros nomes às vezes dados a esses atribu­
tos são “absolutos” e “imanentes”, por pertencerem somente a 2/ Ou “profundidades” (NASB). Em seu Commentary on the
Deus e dizerem respeito ao fato de ser Deus. Trata-se de atri­ Old Testament, K e il e D e l i t z s c h comentam: “A natureza
butos que pertencem total e unicamente à deidade. de Deus pode ser sondada, mas não pode ser descoberta;
26 O hebraico é el elíôn, nome que designa Deus (“El”), apare­ e o fim de Deus é inatingível, pois ele é ambos: o Perfeito.
cendo várias vezes no AT. absolutus, e o Infinito, infinitus” (v. 4).

4
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do divino, de forma que a pessoa fique suficientemente se gloriará no Se n h o r ” [SI 3 4 . 2 ]); caso contrário, 0

perto por si, ou então para que Deus se manifeste. Essa homem é chamado para andar em humildade. Aquele
pressuposição contém uma falha lamentável, pois, por que se exalta — e assim tenta desempenhar o papel de
mais elevada, profunda ou ampla que seja a jornada, a Deus — com certeza será envergonhado. “Os olhos do
pessoa permanece no âmbito das criaturas: Deus não arrogante serão humilhados e o orgulho dos homens
fica mais perto que antes. Podem-se realizar grandes será abatido; somente 0 Se n h o r será exaltado naquele
esforços, muitas vezes diligentes e prolongados, mas dia” (Is 2.11). Em contraposição, aquele que procura
Deus permanece além. viver de tal maneira que 0 nome de Deus seja exaltado
Deus é infinito em si. Ele não se submete a nenhu­ é a pessoa a quem Deus eleva: “Todo aquele que a si

ma medida finita, por mais extensa, e nenhum aspecto mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23.12). Esse é 0

dele deve ser identificado com o finito. Concepções de estranho paradoxo da verdadeira vida cristã.

Deus que o veem como finito-infinito (o Deus infinito


B. Deus é eterno
que incorpora o finito), ou como o finito em certos as­
pectos de seu ser, ou como o finito que se move para o Deus é 0 Deus eterno .28 Ele não tem início nem fim.
infinito, estão igualmente longe da verdade. Onde quer Os seres humanos são criaturas temporais cujos dias
que haja o finito, há uma criação de Deus — mas não sobre a terra são limitados em número. Com Deus não
Deus em si. Deus seria plenamente Deus se o finito não existe tal limitação. Assim, de novo, Deus transcende
existisse: ele é o Senhor Infinito. tudo em sua criação.
Voltando ao vocabulário da exaltação — Deus “alto Deus é 0 grande “Eu Sou”. Ele fala a Moisés: “É isto

e exaltado” — , vamos observar, primeiro, que sua exal­ que você dirá aos israelitas: Eu Sou 29 me enviou a vo­

tação exige como resposta uma verdadeira adoração. cês” (Êx 3.14). Deus é 0 contemporâneo eterno, 0 agora

Deus deve ser igualmente exaltado pelos louvores de que dura para sempre .30 Palavras semelhantes são ditas

seu povo: “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus! Sobre por Jesus, 0 Filho de Deus: “Eu lhes afirmo que antes de

toda a terra esteja a tua glória!” (SI 57.5). Mesmo aí Abraão nascer, Eu Sou!” (Jo 8.58). Não “antes de Abraão

o nome de Deus está acima de todo o louvor terreno: nascer, Eu Era”, mas “Eu Sou”. Assim, 0 Filho de Deus,
como 0 Pai, habita, digamos, numa eternidade que
“Bendito seja o teu nome glorioso! A tua grandeza está
transcende 0 tempo.
acima de toda expressão de louvor” (Ne 9.5). Entretan­
Deus é a única realidade que não possui início,
to, o coração do culto é bênção e louvor, pois por inter­
meio nem fim. “Antes de nascerem os montes e de cria­
médio dele o povo de Deus proclama a exaltação de seu
res a terra e 0 mundo, de eternidade a eternidade tu és
Deus. Quando as pessoas exaltam juntas o nome dele,
ele é honrado da maneira que merece. Além disso, é
28 Outro dos nomes do Senhor no AT é el Õlam, “Deus, 0 eter­
só quando as pessoas exaltam Deus e a seu nome que
no”, ou “0 Deus da eternidade”. Em Berseba, Abraão “invocou
são mantidas afastadas das tendências autodestrutivas
0 nome do S e n h o r , o Deus Eterno [el Õlam]” (Gn 21.33).
de cultuarem coisas do mundo e a si mesmas. Quando 29 “Eu Sou” (ou “Eu Sou 0 que Sou” — as palavras preceden­
Deus é verdadeiramente exaltado, todas as coisas se tes), relacionado com 0 nome de Deus, YHWH, ou Yahweh, e
acomodam em perfeita harmonia. em geral traduzido por “S e n h o r ”, deriva do verbo hebraico
hãyâj “ser”.
Segue-se também, em segundo lugar, o reconheci­
30 A repetição do “Eu Sou” — “Eu Sou 0 que Sou” — “insinua
mento de que só Deus deve ser exaltado, que a atitude
a ideia de continuidade ininterrupta e duração ilimitada”
adequada do homem é a de humildade. O orgulho só (K e i l ; D e l i t z s c h . Commentary on the Old Testament,
faz sentido quando é orgulho do Senhor (“Minha alma v. l,p. 442-443).

48
D eus

Deus” (SI 90.2) — não “do passado ao futuro és Deus”, existe acima do temporal. Deus é aquele que “se assen­
mas “de eternidade a eternidade”. Não há progressão ta no seu trono, acima da cúpula da terra” (Is 40.22),
temporal: não há “tu foste” ou “tu serás” mas “tu és”.31 portanto acima de todos os assuntos dos homens e das
Não há nem início dos dias nem fim dos anos: Deus é. nações. Já que Deus é supratemporal, não há nele pro­
Dizer que “Deus é” não significa que ele habita gressão interna do passado para o futuro e ele contem­
no presente, pois uma palavra como “presente” é lin­ pla o fim desde o princípio. “De fato, mil anos para ti
guagem temporal e aponta necessariamente para um são como o dia de ontem que passou, como as horas da
passado precedente e um futuro vindouro. Deus trans­ noite” (SI 90.4). Deus será depois do tempo. Quando o
cende o tempo; assim ele transcende o presente, bem tempo não existir mais e os céus e a terra do presente
como o passado e o futuro. Ele não é confinado pela passarem, Deus continuará sendo. E ainda, em algu­
ordem do tempo em que vivemos. “Deus é” (ou a de­ mas belas palavras do salmista: “No princípio firmaste
claração dele mesmo “Eu Sou”) significa basicamente: os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas
“Eu sou o Eterno”.32
mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhe­
Assim, Deus vive eternamente. Ele é “o Alto, o Su­
cerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e
blime, que habita na eternidade” (Is 57.15, AEC). Isso
serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os
quer dizer: seu ser não só é exaltado e, portanto, trans­
teus dias jamais terão fim” (SI 102.25-27).
cende todo espaço, mas também é eterno e transcende
Nada disso pretende insinuar que Deus não tem re­
todo o tempo. “Habitar” ou “morar” na eternidade não
lação nenhuma com o tempo. Ao contrário, já que Deus
é falar de algum lugar eterno, mas indica seu modo de
fez o mundo de espaço e tempo e ama sua criação, ele
existência como algo além de tudo o que seja temporal.
tem muito interesse por todos os assuntos temporais.
Deus é — eternamente.
Ele não se mantém distante na eternidade, mas está
Da perspectiva do tempo, porém, podemos falar
agindo constantemente em todas as ocasiões huma­
do Deus pré-temporal, supratemporal e pós-temporal.
nas. Ele não é, de modo algum, o Deus do pensamen­
Aqui a linguagem de Apocalipse 4.8 é bem relevante:
to deísta — a saber, aquele que existe em isolamento
“o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de
esplêndido e suprema indiferença. Aliás, o coração da
vir”. Antes de tudo o mais, Deus era. Jesus orou a Deus
fé cristã é que Deus na pessoa de seu Filho realmente
Pai: “E agora, Pai, glorifica-me junto a ti, com a glória
entrou em nosso tempo e viveu por uns trinta e três
que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo
anos sobre a terra que havia criado. O tempo não é
17.5). Assim, Pai e Filho existiam antes que houvesse
uma sombra passageira da eternidade, portanto, irreal
um mundo com suas dimensões de espaço e tempo.
para Deus. Antes, ele veio na plenitude do tempo e o
Isso não significa que houve um tempo antes do tem ­
viveu ao máximo.
po em que Deus existia, mas que Deus é eterno. Deus
Dizer que Deus é eterno e o mundo e temporal
pode parecer implicar que Deus é estático e inativo,
31 Isso, da perspectiva eterna. Observamos brevemente que, da
perspectiva do tempo, as Escrituras de fato trazem verbos no enquanto o mundo é ativo e móvel. Isso está longe da
passado, presente e futuro. verdade; uma vez que Deus é eternamente o Deus vivo,
32 Também pode significar “Eu sou aquele que é presente”, re­ há atividade contínua mesmo que não seja temporal.
ferindo-se particularmente à presença de Yahweh na relação
Há a geração eterna do Filho, a eterna processão do
de aliança com Israel. Outra tradução possível: “Eu Serei o
Espírito, o movimento eterno dentro da Deidade .33
que Serei” (como nas margens da RSV, NIV e NEB em Êx
3.14), transmite de modo menos adequado a nota da reali­
dade presente e sempre viva de Deus. 33 V. a discussão no capítulo seguinte.

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De fato, há riqueza e plenitude dentro dessa atividade Em Deus há confiabilidade e constância em seu ser,
eterna que nossa atividade finita e limitada não conse­ atos e propósitos. O AT às vezes fala de Deus “arrepen­
gue começar a se aproximar. dendo-se” ou mudando de ideia (e.g., Êx 32.14). Com
Por fim, o conhecimento de que Deus é eterno dá base no quadro geral,36 o aparente “arrependimento”
àqueles que confiam nele um grande senso da exis­ não significa uma mudança na atividade divina, mas
tência ilimitada e infinita de Deus. Estas palavras da apenas sua reação confiável ao comportamento huma­
Escritura assumem um significado vivo: “O Deus eter­ no. Deus age invariavelmente do mesmo modo: quan­
no é o seu refúgio, e para segurá-lo estão os braços do o homem desobedece, ele pune; quando o homem
eternos” (Dt 33.27). O tempo pode nos carregar com confessa seu pecado, ele perdoa. Deus “se arrepende”;
rapidez evidentemente cada vez maior; mas os que co­ ou seja, ele muda de direção.

nhecem o Deus eterno habitam nele e têm seu suporte Portanto, o “arrependimento” de Deus, na realidade,

e força; e mais, uma vez que entrou no nosso tempo e não é uma mudança em Deus, mas Deus trazendo outro

espaço em Jesus Cristo, o Deus eterno trouxe sua pró­ aspecto de seu ser e natureza para responder à situação

pria eternidade para dentro de nosso coração. Temos humana. Deus permanece absolutamente o mesmo.

vida eterna. Quando o tempo deixar de existir, vamos É importante não ver a imutabilidade de Deus

continuar vivendo com ele para sempre. como uma imobilidade dura e impessoal. Deus não
é como uma estátua, fixa e fria, mas muito pelo contrá­
C. Deus é imutável rio. Ele se relaciona com as pessoas. Ele não é o “Motor
imóvel” ;37 antes, move-se constantemente sobre e entre
Deus é aquele que não muda. O Universo está em
homens e nações. O fluxo e o fluir da vida não estão
constante transição de um estágio para outro, e a exis­
distantes dele. Pelo contrário, ele se envolve espontanea­
tência humana é marcada por alterações contínuas.
mente na vida de um povo instável e inconstante para
Com Deus não existe essa mutabilidade. “De fato, eu,
cumprir seu propósito, e na encarnação ele mergulhou
o Se n h o r , não mudo” (Ml 3.6). Assim, mais uma vez
totalmente no redemoinho dos eventos humanos. Deus
Deus transcende tudo em sua criação.
em sua própria imutabilidade experimentou todas as
Deus é a Rocha .34 Ele não flutua de um aconteci­
vicissitudes da existência humana. Esse é o Deus que —
mento para outro. Há constância e estabilidade em
longe de ser imóvel e distante — não muda.
tudo o que ele é e faz. Assim, ele não está evoluin­
Essa verdade acerca de Deus é importantíssima
do de um estágio para outro. Não há movimento de
num mundo em que as pessoas são muitas vezes so­
alguma natureza “primordial” para uma natureza
brecarregadas por mudanças contínuas, pela turbu­
“resultante” 35 em nenhum aspecto de seu ser. Deus não
lência dos eventos, pela instabilidade da vida. De fato,
é um Deus em formação, um Deus em crescimento:
“não temos aqui nenhuma cidade permanente [ou
Deus não muda. Ele é o “Pai das luzes, que não muda contínua, KJV]” (Hb 13.14). Tudo parece ir e vir, es­
como sombras inconstantes [lit. em quem não há lu­ tar aqui num momento e sumir logo depois. Há mui­
gar para mudanças’]” (Tg 1.17). Assim também, o NT ta necessidade de perceber que em meio a isso tudo
declara que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e Deus permanece imutável, e que nele e somente nele
para sempre” (Hb 13.8). Deus, seja o Pai, seja o Filho, há constância e força. “Mudança e decadência em
seja o Espírito, é aquele que não muda.

36 E.g., Números 23.19: “Deus não é homem para que minta,


34 Deuteronômio 32.4 e outras passagens. nem filho de homem para que se arrependa”.
35 V. W h i t e h e a d , A. N. Process and Reality. 37 Designação dada por Aristóteles à divindade.

30
D eus

tudo que vejo à volta; ó tu que não mudas, permanece subir ao Se n h o r ”, senão o Senhor os fulminaria (v. 24).
comigo”.38 Nessa atitude de oração e segurança toda a Assim, todo o Israel ficou profunda e forçosamente im ­
vida ganha estabilidade e certeza. Deus é a Rocha em pressionado com a santidade de Deus. Deus é um Deus
todos os nossos anos passageiros. pessoal, mas jamais deve ser tratado de maneira negli­
Deus é o Deus que não muda. gente, pois ele é Deus extraordinário e santo.
O Deus que é revelado em Jesus Cristo é o mes­
IV. O CARÁTER DE DEUS
mo Deus da santidade. Ainda que seus discípulos e as
Como é Deus? Observamos sua identidade e sua multidões não tivessem pronta consciência disso, os
transcendência. Agora precisamos refletir sobre seu ca­ demônios com sua percepção sobrenatural não hesita­
ráter, ou seja, sua natureza moral. Essa consideração do vam em gritar de imediato: “Ah!, que queres conosco,
caráter de Deus fica bem no centro da doutrina de Deus. Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu
és: o Santo de Deus!” (Lc 4.34). Mais tarde, Pedro pôde
A. Deus é santo
dizer por si e pelos outros: “Nós cremos e sabemos que

Deus é basicamente o Deus da santidade; esse é o és o Santo de Deus” (Jo 9.69). Jesus é Deus em pessoa,

fato fundamental acerca de Deus. “Eu sou o Se n h o r , o santo Senhor.

o seu Deus, o Santo de Israel” (Is 43.3). Essa declaração Às vezes se entende que o AT retrata um Deus de
por meio de profetas do AT soa constantemente no tes­ santidade, enquanto o NT retrata um Deus de amor.
temunho bíblico. Deus é santo, aliás três vezes santo: Trata-se de um engano infeliz, pois o Deus do NT é o
“Santo, santo, santo é o Se n h o r dos Exércitos” (Is 6.3). mesmo Deus santo. “Eu sou santo” é a linguagem tan­
A santidade é o fundamento da natureza divina;39 é o to de Levítico 11.44 como de 1Pedro 1.16. Também,
pano de fundo para tudo o mais que podemos dizer os apóstolos de Jesus eram “santos apóstolos” (Ef 3.5),
acerca de Deus. Deus é “o Santo”.40 a vocação cristã é uma “santa vocação” (2Tm 1.9), e a
É significativo observar que quando Deus se de­ nova Jerusalém é “a Cidade Santa” (Ap 21.2). Em uma
clarou pessoalmente a Israel como Javé (o Se n h o r ), a das passagens mais vividas no NT (Hb 12.18-29), faz-se
preparação para isso foi a revelação de sua santidade. ligação entre os israelitas postados diante do Deus santo
Ele primeiro falou a Moisés de dentro da sarça ardente: no monte Sinai e os cristãos colocados simbolicamente
“Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar diante do monte Sião, “a cidade do Deus vivo” (v. 22),
em que você está é terra santa” (Êx 3.5). Só foi quan­ sendo a declaração culminante: “O nosso Deus é fogo
do Moisés já estava consciente da santidade de Deus consumidor!”. Não há diferença entre o Deus do Sinai e
que Deus anunciou sua identidade pessoal (v. 13-15). o Deus de Sião: ele é “fogo consumidor” neste e naquele.
Mais tarde, no monte Sinai, preparando-se para dar a Aliás, dimensões mais profundas de sua santidade divi­
Lei, “o Se n h o r tinha descido [...] todo o monte tremia na são mostradas no NT. Toda a maravilha da redenção,
violentamente” (19.18). Ninguém, exceto Moisés e seu que é o coração do evangelho, só pode ser compreendi­
irmão Arão, teve permissão de subir a montanha “para da à luz do Deus santo que não é capaz de tolerar o pe­
cado. A morte de Jesus é a revelação maior da santidade
Palavras do hino “Abide With Me” de Henry F. L y t e . de Deus em seu fogo consumidor contra o conjunto da
De acordo com Gustav A u l è n , The Faith of the Christian
malignidade e falta de santidade do mundo.
Church, “a santidade é o fundamento sobre o qual repousa
Vamos agora observar em mais detalhes a impor­
toda a concepção de Deus” (p. 103).
4N Deus é assim designado cerca de 30 vezes na profecia de tância da santidade de Deus. Basicamente, ela apon­
Isaías. ta para o aspecto maravilhoso e majestoso de Deus.

51
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

Deus é Deus, e não homem. Todo o seu ser é, pois, to­ ver o mal” (Hc 1.13). No centro da majestade divina
talmente outro ,41 tão maravilhoso, tão majestoso, que está a luz branca e brilhante de sua máxima pureza.
domina o homem. Jacó, num sonho, viu o Senhor e os Em Deus não existe absolutamente nenhuma man­
anjos de Deus subindo e descendo uma escada entre cha de algo sujo ou impuro. No tabernáculo do AT, a
o céu e a terra e despertou clamando: “Temível é este arca da aliança, representando a presença divina, era
lugar! Não é outro, senão a casa de Deus; esta é a porta recoberta de ouro puro — tanto o propiciatório como
dos céus” (Gn 28.17). Josué caiu com o rosto em ter­ os querubins. Foi de cima do propiciatório e dentre os
ra e adorou quando ouviu a mesma palavra que antes querubins que Deus deu seus mandamentos a Moisés
viera a Moisés: “Tire as sandálias dos pés, pois o lugar (Êx 25.10-22). O ouro puro simbolizava a presença do
em que você está é santo” (Js 5.15). João, na ilha de Deus puro e santo de Israel. Mais tarde, Salomão cons­
Patmos, viu o Senhor majestoso: “Sua face era como o truiu o templo. Seu Lugar Santo foi recoberto de ouro
sol quando brilha em todo o seu fulgor [...] caí aos seus puro, e seus candelabros, pias e outros móveis também
pés como morto” (Ap 1.16,17). Relatos como esses de­ foram feitos de ouro (lC r 3 e 4). Antes, os israelitas
m onstram a m áxim a m ajestade de Deus e a reação haviam recebido muitos rituais e cerimônias de puri­
de completo temor evocado em sua presença. ficação para sacerdotes e o povo (e.g., v. o Código de
O “temor do Senhor”, uma expressão bíblica fre­ Santidade de Lv 17— 26). Qualquer coisa que contami­

quente, aponta em direção à atitude correta diante do nasse uma pessoa, quer externa, quer internamente, a

Senhor. “Temor” nesses contextos não está relaciona­ impedia de aproximar-se de Deus e sua morada. Tudo

do com terror ou apreensão, ou seja, ter medo de Deus, isso era para demonstrar que o Deus puro e santo de

mas à atitude de profunda reverência e respeito diante Israel convocava seu povo para manifestar sua própria

de Deus. O temor do Senhor não é uma atitude que cabe pureza completa. Deve-se mencionar mais uma coi­

apenas ao pecador, uma atitude que desaparece quan­ sa: o cordeiro pascal devia ser sem defeito (Êx 12.5).

do ocorre a salvação. Antes, esse temor deve continuar Isso foi transportado para o NT, onde Cristo “nosso

por toda a vida. Paulo fala do temor do Senhor em sua Cordeiro pascal” (IC o 5.7) foi sacrificado; ele era “um

própria vida: “Uma vez que conhecemos o temor ao cordeiro sem mancha e sem defeito” (lP e 1.19). Tudo

Senhor, procuramos persuadir os homens” (2Co 5.11), isso mostra de maneira cada vez mais clara a pureza e
santidade de Deus.
e ele diz aos crentes que “ponham em ação a salvação
O povo de Deus, portanto, deve ser um povo puro
[...] com temor e tremor” (Fp 2.12). Aliás, além desta
e santo .42 Entretanto, isso deve ser muito mais que
vida, os santos em glória cantam: “Quem não te teme­
uma pureza externa. Aliás, Jesus foi veemente contra
rá, ó Senhor? Quem não glorificará o teu nome? Pois
aqueles que “limpam o exterior do copo e do prato,
tu somente és santo” (Ap 15.4). De fato, o temor do
mas por dentro eles estão cheios de ganância e co­
Senhor é a atitude correta do homem tanto agora como
biça” (Mt 23.25,26). Jesus veio proclamar que o que
na eternidade.
Deus desejava era pureza de coração: “Bem-aventura­
A santidade de Deus também indica a pureza divi­
dos os puros de coração, pois verão a Deus” (5.8). E é
na. Os olhos de Deus “são tão puros que não suportam
o sangue de Jesus, por fim, que purifica de tal m anei­
ra do pecado interior que as pessoas podem voltar a
41 A conotação básica de santo e santidade no AT é a de se-
contemplar o Deus puro e santo.
paração/distinçao em relação a coisas comuns, profanas,
mundanas do cotidiano. Isso caracteriza Deus em sua dis­
tinção total, e também pessoas e coisas separadas para ele 42 A igreja, a “noiva” de Cristo, deve ser “santa e inculpável”
e para o seu serviço. (Ef 5.27).

52
D eus

Em seguida, e em estreita ligação com a santidade santidade, então o fundamento desse trono é a retidão
de Deus, vem a sua retidão ou justiça. Primeiro: isso se e a justiça. A justiça emerge da retidão,44 não como
refere ao que Deus é em si. Deus é um Deus de total in­ descrição de Deus em si (como retidão faz em parte),
tegridade e retidão. “Bom e justo é o Se n h o r ” (SI 25.8). mas em seu relacionamento com o homem, pela qual
A natureza divina é de retidão absoluta. A injustiça é ele é antes de tudo justo e equânime em tudo. Com
estranha à sua vida e ação. “A justiça irá adiante dele Deus há imparcialidade em seu relacionamento com
e preparará o caminho para os seus passos” (85.13). todas as pessoas. Paulo, falando sobre como Deus trata
Assim, a retidão (sua honestidade, ou justiça) é um as­ com equidade tanto judeus como gentios, acrescenta:
pecto de sua santidade que destaca a dimensão moral. “Em Deus não há parcialidade” (Rm 2.11). Os israe­
Segundo: a retidão aplica-se à maneira pela qual litas, com certeza, eram o povo escolhido de Deus,
Deus se relaciona com o homem. Deus espera que mas isso não significava que ele tivesse “favoritismo”
seu povo demonstre justiça; aliás, “a retidão prote­ por eles. Aliás, eles tinham sido designados por Deus
ge o homem íntegro” (Pv 13.6). Para que seu povo para serem exemplos de sua justiça diante de todos os
possa conhecer o que implica sua retidão, Deus lhe deu povos: “Não pervertam a justiça nem mostrem parcia­

suas leis e ordenanças.43 Quando o povo se afasta de seus lidade. Não aceitem suborno, pois o suborno cega até

caminhos, deve haver punição, pois a justiça de Deus os sábios e prejudica a causa dos justos. Sigam única e

não pode tolerar nenhuma injustiça no homem. exclusivamente a justiça” (Dt 16.19,20). O Deus justo

A suprema demonstração da retidão de Deus repousa e imparcial exige justiça em cada prática.

na cruz, onde a justa ira de Deus foi derramada sobre E mais, Deus em sua justiça retribui a cada pessoa

todo o mal da humanidade carregada vicariamente de acordo com as obras desta. Deus é “o Juiz de toda a

por Jesus Cristo em sua morte. terra” (Gn 18.25)45 e, por conseguinte, distribui tanto

Uma vez que Deus é justo, o povo de Deus é o que penalidades como recompensas: “Ele dará vida eterna

continua buscando a justiça: “Bem-aventurados os aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória,

que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação
para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e se­
(Mt 5.6). Esse chamado à justiça excede em muito a
guem a injustiça” (Rm 2.7,8). Paulo chama isso “justo
observância da Lei do AT; torna-se o caminho da justi­
julgamento” de Deus (v. 5). A verdadeira salvação é por
ça interior resumida no Sermão do Monte. Em última
meio da fé, mas o julgamento é de acordo com as obras.
análise, o chamado é: “Sejam perfeitos como perfeito
Por conseguinte, haverá um dia do julgamento quan­
é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48). Deus não deseja
do todas as pessoas ficarão diante do trono de Deus e
nada menos de seu povo.
receberão de acordo com o que fizeram. Mas em tudo
Por fim, temos de considerar a justiça de Deus. A re­
haverá justiça total, pois Deus é justo, e seu Filho Jesus,
lação estreita entre isso e a retidão pode ser observada
que enfrentou julgamento, será, ele próprio, o Juiz.
na afirmação: “A retidão e a justiça são os alicerces do
Além disso, Deus em sua justiça está particular­
teu trono” (SI 89.14; 97.2). Se Deus está entronizado na
mente interessado nos oprimidos e explorados da
terra: “Sei que o Se n h o r defenderá a causa do neces­
43 Evidencia-se como é estreita a relação entre a santidade
sitado e fará justiça aos pobres” (SI 140.12). Àqueles
e a justiça no relato sobre a santidade de Deus no monte
Sinai, com os alertas a Israel para que não colocasse os pés
no monte (Êx 19) e com o estabelecimento dos Dez Man­ 44 Pode-se falar da justiça como a execução da retidão.
damentos e das ordenanças depois disso (cap. 20—23). 45 Observe as palavras de Abraão: “Não agirá com iustiça o Tuiz
A santidade flui em retidão. de toda a terra?”.

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cujos direitos são violados pelos poderosos da terra inexplicável é o amor de Deus. É também evidente que
encontram em Deus o defensor. O Senhor é o Vindica- esse amor de Deus não era baseado em nada digno de
dor; ele “faz justiça e defende a causa dos oprimidos” mérito em Israel: eles eram “o menor”, e a isso se pode
(SI 103.6), pois é sua vontade, como aquele que é justo acrescentar que certamente não eram mais retos que
e reto em tudo, ver que todas as pessoas participam os outros. Deus amou porque sua natureza é amor, não
das coisas boas que ele provê e são tratadas como ir­ porque Israel fosse um povo peculiarmente merecedor.
mãos uns dos outros. Assim também, Deus convoca Esse amor de Deus, portanto, é o contexto para o li­
seu povo para partilhar de seu interesse por toda a hu­ vramento do povo de Deus do Egito. A passagem acima
manidade. Nas palavras majestosas ditas por meio do continua: “[Porque o Se n h o r os amou] ele os tirou com
profeta Amos: “Corra a retidão como um rio, a justiça mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão” (Dt
como um ribeiro perene!” (Am 5.24). 7.8). Em outra parte, o Senhor falou por meio de Moisés
O fato fundamental acerca do caráter de Deus é aos israelitas: “Vocês viram o que fiz ao Egito e como os
que ele é santo, reto e justo em si e em todos os seus transportei sobre asas de águias e os trouxe para jun­
caminhos. to de mim” (Êx 19.4). O amor e o cuidado afetuoso de
Deus por Israel é daí em diante apresentado de maneira
B. Deus é amor
bela e memorável. Mais tarde na história de Israel, Deus
Deus é predominantemente o Deus de amor. O falou por meio do profeta Isaías: “Visto que você é pre­
amor é a própria essência da natureza divina: “Deus cioso e honrado à minha vista, e porque eu o amo, darei
é amor” ( ljo 4.8). O Deus que se revelou aos profetas homens em seu lugar, e nações em troca de sua vida”
e apóstolos e, de modo supremo, em Jesus Cristo, é o (Is 43.4 ) .47 Por fim, uma das passagens mais tocantes
Deus de amor. fica em Oseias: “Quando Israel era menino, eu o amei,
No AT, o amor de Deus é declarado desde cedo e do Egito chamei o meu filho [...]. Mas fui eu quem
em sua escolha de Israel para ser seu próprio povo ensinou Efraim a andar, tomando-o nos braços [...]. Eu
e no livramento que lhe concedeu da escravidão no os conduzi com laços de bondade humana e de amor”
Egito. Para o fato de ter escolhido Israel não há ex­ (11.1,3,4). Então o Senhor clamou em meio à idolatria
plicação fora do amor de Deus: “Vocês são um povo e iminente julgamento de Israel: “Como posso desistir
santo para o Se n h o r , o seu Deus. O Se n h o r , o seu de você, Efraim? Como posso entregá-lo nas mãos de
Deus, os escolheu dentre todos os povos da face outros, Israel?” (v. 8 ).
da terra para ser o seu povo, o seu tesouro pessoal. No NT, esse amor de Deus que não é baseado em
O Se n h o r não se afeiçoou a vocês nem os escolheu nenhum mérito é aumentado e intensificado ainda mais
por serem mais numerosos do que os outros povos, pois na pessoa e obra de Jesus Cristo. Como no relato do AT,
vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi por­ há um amor especial de Jesus por aqueles a quem ele
que o Se n h o r os amou” (Dt 7.6-8). escolheu. No cenáculo, Jesus lavou os pés dos discípu­
A isso se acrescenta que Deus está honrando a alian­ los, pois “tendo amado os seus que estavam no mundo,
ça que firmou com os pais deles.46 Mas o fato central e amou-os até o fim” (Jo 13.1). Mais tarde ele acrescentou,

46 Mas mesmo a aliança firmada com eles brotou do amor ele­ descendentes deles, escolheu entre todas as nações, como
tivo de Deus, conforme Deuteronômio afirma adiante: “Ao hoje se vê” (10.14,15). Observe também a continuação desse
S e n h o r , o seu Deus, pertencem os céus e até os mais altos amor nas palavras que se seguem: “A vocês, descendentes
céus, a terra e tudo o que nela existe. No entanto, o S e n h o r deles, escolheu entre todas as nações, como hoje se vê” (v. 15).
se afeiçoou aos seus antepassados e os amou, e a vocês, 47 V. tb. Isaías 63.7-9 (esp. o v. 9).

54
D eus

ao referir-se à própria morte que se aproximava: “Nin­ de Jesus demonstra, é um amor, uma compaixão, que
guém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida se estende para todas as pessoas: o pobre, o aleijado,
pelos seus amigos” (Jo 15.13). Nenhum dos discípulos o cego. “Tenho compaixão desta multidão” (Mt 15.32)
merecia esse amor, mas Jesus continuou amando-os — aliás, não como uma massa de pessoas, mas como
por completo, chegando à morte na cruz. Entretanto, a indivíduos sobrecarregados de necessidades. Ele até
grandeza desse amor não pode ser medida só pela dis­ ensinou as pessoas a amar os inimigos e a orar pelos
posição de Jesus para morrer por seus “amigos”, pois próprios perseguidores (5.44). Na sua própria vida e
isso poderia significar nada mais do que ter sofrido a morte, Jesus demonstrou isso de maneira brilhante.
morte de um mártir. O amor de Deus em Jesus excede Enquanto sofria e morria na cruz, Jesus orou por seus
isso em muito. Como o NT proclama de tantas manei­ torturadores: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34).
ras, era uma morte por pecadores sem mérito: “Cristo O amor de Deus, agapê no NT, é totalmente diferen­
morreu pelos ímpios [...]. Deus demonstra seu amor te do amor que procura a própria satisfação. Os gregos
por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda tinham outra palavra para isso — a saber, eros. Eros
éramos pecadores” (Rm 5.6,8). As plenas dimensões (palavra jamais usada no NT) é basicamente um amor
desse amor, porém, podem ser apreciadas só no apaixonado que deseja outra pessoa; este busca satis­
conhecim ento de que em sua m orte pelos pecado­ fação no outro. Eros pode erguer-se além do nível sen­
res ele estava tam bém levando vicariam ente todo o sual para uma paixão por muitas coisas como a músi­
peso da punição deles. Por amor ele sofreu no lagar ca, arte e beleza. Em alguns pensamentos místicos é o
da ira do Deus Santo derramada em julgam ento pe­ impulso da alma para além do mundo dos sentidos e
los pecados do mundo inteiro. Ainda em amor, ele per­ da razão para buscar o verdadeiramente real. Mas, em
correu todo o caminho. Tão vasto, tão imensurável,48 todo caso, eros é o amor que so se da porque encontra
tão inimaginável é o amor de Deus em Jesus Cristo!
satisfação ou valor naquilo que e amado. Não há nada
É evidente, portanto, que o conteúdo da afirma­
propriamente errado com eros; e o amor natural em
ção de que Deus é amor só pode ser compreendido à
muitos níveis. Mas é totalmente diferente de agapê:
luz dessa revelação final na cruz de Cristo. Aliás, pouco
o amor que ama, sem buscar nenhuma satisfação; o
depois da declaração em ljoão de que “Deus é amor”
amor que não se baseia no mérito do objeto; o amor
a passagem continua: “Nisto consiste o amor: não em
que ama o não amável o não belo, até o repulsivo; o
que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele
amor que nada recebe em troca, exceto a crucificação —
nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos
o amor espantoso, estarrecedor de Deus .49
nossos pecados” (4.10). O amor de Deus pelo povo de
Agora é importante acrescentar que o amor de Deus
Israel apontava nessa direção, mas antes da morte do
em Cristo expande-se de um amor particular para o
Filho de Deus no Calvário não seria possível conhecer
amor por todo o mundo. Embora no AT seja eviden­
a plenitude de seu amor.
te que Deus tinha interesse por todas as nações,50 seu
O amor de Deus é ativo, é um amor que busca, que
se dá — sem nenhuma relação nem com o mérito nem
4g Para uma exposição abrangente sobre como esses dois amo­
com a reação daqueles a quem Deus ama. Seu amor
res estão relacionados, v. N y g r e n , Anders. Agape and
cuida de tudo, suporta tudo, sofre tudo. Como a vida
Eros. Em nível mais popular, v. L e w is , C. S. Os quatro
amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Lewis discute o
48 Lutero certa vez o descreveu como “uma fornalha e chama amor em termos de afeição, amizade, eros e caridade.
de a m o r tã o g ra n d e q u e p ree n c h e céu e terra” (L u t h e r , 50 Por exemplo, no chamado inicial de Abraão, Deus prometeu
Works, p. 36, 424. Apud B r u n n e r , E., The Christian uma bênção não só sobre Abraão, mas por meio dele para
Doctrine of God, p. 185). “todas as famílias da terra” (Gn 12.3, AEC).

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amor concentrava-se em Israel. A palavra “amor” jamais possa ser entendido de modo abstrato, por muitas
é usada em relação a Deus no AT para ninguém, exceto definições e cálculos. 0 conteúdo deve ser tomado da
Israel.51 Mas no NT tudo isso se expande universalmen­ ação; supremamente no que Deus fez em Jesus Cristo.
te; o amor de Deus é claramente dirigido a toda a huma­ “Nisto consiste o amor” (1 Jo 4.10).
nidade. O versículo-chave, decerto, é: “Deus tanto amou Quinto: o amor de Deus é incomensurável. Depois
o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo de falar tudo acerca do amor de Deus, ainda perma­
o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo necemos com sua qualidade incomensurável. Paulo,
3.16). O centro tornou-se “o mundo” e, com uma inten­ depois de orar para que os efésios fossem “arraigados
sidade muito além de qualquer coisa dirigida a Israel, em amor” e que pudessem “juntamente com todos os
Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho unigênito. santos, compreender a largura, o comprimento, a al­
Vamos agora resumir alguns aspectos do amor tura e a profundidade” acrescenta: “conhecer o amor
de Deus. Primeiro: é da natureza de Deus amar. Não de Cristo que excede todo conhecimento” (Ef 3.17-19).
é preciso ir atrás de algum ato de amor e perguntar A vasta extensão do amor de Deus, e de seu caráter,
por que Deus o realizou. Uma vez que Deus é amor, que excede o conhecimento, em Jesus Cristo indica a
o amor é sua autoexpressão. Observamos que Deus natureza ilimitada e insondável do amor divino.
é santo, até três vezes santo; mas jamais se diz que Isso nos leva agora a alguns outros termos que
Deus é santidade. O amor é a própria essência de Deus. são expressões do amor de Deus. O primeiro deles
Não é que o amor seja Deus (uma declaração idóla­ é graça. No AT, Deus declarou-se um Deus gracioso
tra), mas que Deus é amor. ao dizer a Moisés: “Terei misericórdia de [ou: serei
Segundo: o amor de Deus é espontâneo. Deus ama gracioso com] quem eu quiser ter misericórdia [ou:
porque o amor é sua própria natureza; o mundo não o ser gracioso]” (Êx 33.19). Mais tarde, no monte Sinai,
força a esse amor, pois Deus em si é amor eternamente onde Moisés recebeu novamente os mandamentos,
— a mutualidade do amor entre Pai, Filho e Espírito Deus falou mais acerca de si: “ Se n h o r , Se n h o r , Deus
Santo. Ele não precisa de um mundo para expressar compassivo e misericordioso” (Êx 34.6). Muitas vezes
esse amor. Ele não criou o mundo e o homem para dali em diante o Senhor é descrito como “compassivo
ter algum objeto necessário para expressar seu amor. e misericordioso ”.52 Entretanto, a palavra “graça” em
Deus é amor — com ou sem um mundo. Seu amor é si é especialmente ligada à vida e m inistério de Jesus
espontâneo e livre. Cristo. No NT a palavra aparece pela primeira vez no
Terceiro, e isso é uma consequência lógica: o amor prólogo do evangelho de João :53 “A Palavra tornou-se
de Deus nunca busca a autossatisfação, mas é sempre carne e viveu entre nós [...] cheio de graça e de verda­
altruísta. Ele não ama um povo em particular ou a hu­ de [...]. Todos recebemos da sua plenitude, graça so­
manidade em geral porque “obtém alguma vantagem” bre graça” (Jo 1.14,16). No livro de Atos e no restante
disso. Trata-se totalmente de um amor que continua se do NT, a palavra ocorre mais de 120 vezes. Com fre­
dando, sem considerar o mérito ou a resposta do objeto. quência é “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo” (e.g.,
Quarto: o conteúdo do amor divino só pode ser Rm 16.20), ou “graça, misericórdia e paz da parte de
compreendido na ação de Deus. Não é um amor que Deus Pai e de Cristo Jesus, o nosso Senhor” (e.g., lTm
1.2). Assim, “graça sobre graça” é particularmente

51 Uma possível exceção a isso é Isaías 48.14: “0 amado do


S e n h o r ”. 0 contexto pode indicar Ciro, o rei persa; entre­ 52 E.g., v. Salmos 103.8; 145.8.
tanto, as palavras também podem fazer referência a Israel 53 Ela não se encontra nenhuma vez nos Evangelhos sinópticos
(cf. v. 12). nem em outra parte do quarto Evangelho.

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D eus

associada a Jesus Cristo e aponta tanto para seu modo Em seguida podemos observar a benevolência [i.e.,
de vida como para sua morte sacrificial. o fato de ele ser cheio de amor] de Deus. No AT, Deus é
A palavra “graça” fala da maneira pela qual Deus com frequência mencionado como aquele que é “cheio
em Cristo tem sido condescendente conosco. Ela real­ de amor”. As palavras de Deus a Moisés que começam:
ça aquele aspecto do amor de Deus que se refere ao seu “ Se n h o r , Se n h o r , Deus compassivo e misericor­
altruísmo que não considera o mérito. Por conseguin­ dioso, paciente, cheio de amor55 e de fidelidade, que
te, ela aponta para o caminho pelo qual Deus em seu mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade,
amor foi além de sua revelação da Lei a Moisés para a rebelião e o pecado” (Êx 34.6,7). Essa benevolência
trazer a salvação em Jesus Cristo, “pois a Lei foi dada de Deus está especialmente ligada com a aliança que
por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram Deus firmou com seu povo. Ele declara nos Dez Man­
por intermédio de Jesus Cristo” (Jo 1.17). A Lei dada damentos: “Trato com bondade até mil gerações aos
por meio de Moisés, apesar de toda a majestade moral que me amam e obedecem aos meus mandamentos”
ao estabelecer a vontade de Deus para seu povo, não foi (Êx 20.6; Dt 5.10). Estas palavras “ Se n h o r , Se n h o r ”
guardada por Israel. Israel não tinha o “coração” dedi­ são faladas quando Deus entrega novamente as tábuas
cado a ela; o povo desobedecia continuamente e, por da Lei. Deus é “o Deus fiel, que mantém a aliança e a
fim, seguiu para o cativeiro. Em Jesus Cristo veio aque­ bondade por mil gerações daqueles que o amam e obe­
la “graça sobre graça” pela qual Deus trouxe esperança
decem aos seus mandamentos” (Dt 7.9). Assim, essa
e salvação para todos os homens em sua desobediência
benevolência do Senhor é constante, inabalável, dura­
e perdição. “Vocês são salvos pela graça” (Ef 2.8) é uma
doura para os que respondem em amor e obediência a
declaração gloriosa do NT.
seus mandamentos. Em tudo isso é pressuposta uma
A misericórdia está estreitamente relacionada com a
mutualidade de relacionamento entre Deus e seu povo.
graça. Isso já foi observado no AT e na expressão “graça,
A afirmação mais notável dessa benevolência, desse
misericórdia e paz” do NT. A misericórdia engloba em
amor persistente, encontra-se no refrão de cada ver­
si especialmente a compaixão, a paciência e o perdão.
sículo do salmo 136. Começando com o próprio Deus,
Deus é aquele que em misericórdia livra seu povo de
depois suas maravilhas na criação e, por fim, a reden­
seus inimigos, supre suas necessidades e tem longani-
ção de seu povo, o salmista conclui: "Deem graças ao
midade em sua relação com ele.54 Ele se lembra de sua
Deus dos céus. O seu amor dura para sempre!” (v. 26).
aliança com o povo e vem ao seu socorro em muitas
Essa benevolência de Deus e transportada para o NT
situações. Jesus muitas vezes demonstrou misericórdia
com declarações como: "Quando, da parte de Deus, nos­
curando enfermos, alimentando famintos, até ressus­
so Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos
citando mortos. Mas no centro da misericórdia está o
homens [...] ele nos salvou” (Tt 3.4). Isso, de novo, está
perdão (v., e.g., Mt 18.23-35) e a dádiva divina da sal­
ligado à aliança de Deus: isso foi “para mostrar sua mi­
vação. “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande
sericórdia aos nossos antepassados e lembrar sua santa
amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo,
aliança” (Lc 1.72). A palavra “misericórdia” nesse con­
quando ainda estávamos mortos em transgressões —
texto transmite a ideia do amor persistente de Deus e
pela graça vocês são salvos” (Ef 2.4,5). Com o salmista
podemos com certeza clamar: “Muitas, Se n h o r , são as
-• A palavra h esed é de longe o termo mais comum para de­
tuas misericórdias; vivifica-me, segundo os teus juízos”
signar o amor no AT. Uma forma de declaração. “O S e n h o r
(SI 119.156, ARA).
é muito paciente e grande em fidelidade [ou ‘benevolên­
cia, hesed\n é repetida com frequência. V. Números 14.18;
-4 A misericórdia pode ser entendida como a graça em ação. Salmos 86.15; 145.8; Jl 2.13; Jn 4.2.

57
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de sua bondade para com seu povo. Em Jesus Cristo, o minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.14,15). Quanta bon­
povo de Deus encontra esse amor contínuo e duradouro dade: conhecer de modo pessoal e íntimo os que lhe
tanto agora como para a eternidade. pertencem! Quanta misericórdia: entregar a vida por
A palavra final para expressar o amor de Deus é aqueles que se desviaram para bem longe! Jesus, o
“bondade”.56 Que Deus é bom é uma afirmação no­ Bom Pastor, é a encarnação da bondade do Pai.
tória em todo o testemunho bíblico: “Deem graças Essa bondade de Deus deve ser afirmada contra
ao Se n h o r porque ele é bom” (SI 118.1); “Louvem o qualquer ideia que insinue algum mal na pessoa de
Se n h o r , pois o Se n h o r é bom” (SI 135.5). O Senhor é Deus ou que ele seja o autor ou causa do mal. Não

bom em si. Além disso, sua bondade é constantemente existe tal lado obscuro em Deus, alguma qualidade

manifesta a suas criaturas. “O Se n h o r é bom para to­ nebulosa que precipita meios ou atos de violência ou

dos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas” alguma força demoníaca interna que às vezes o fisga.

(SI 145.9). Assim, como expressão de sua bondade ina­ Ora, qualquer que seja o mal existente no Universo (e
de fato há muito em múltiplas formas e expressões),
ta, ele transborda em bondade externada, ou benevo­
não pode vir de Deus, que é totalmente bom. Deve ha­
lência, para toda a criação.
ver outras explicações .57 Podemos confiar totalmente
A bondade de Deus está claramente relacionada
na bondade de Deus.
com sua graça, misericórdia e benevolência. A respeito
Aliás, uma das grandes afirmações do NT é que
da graça, o salmista clama: “Louvem o Se n h o r , pois
“Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o
o Se n h o r é bom; cantem louvores ao seu nome, pois
amam” (Rm 8.28). Assim, qualquer que seja o infortú­
é nome amável” (Sl 135.3). A respeito da misericórdia
nio, sofrimento ou perda, qualquer que seja o mal que
como perdão, ele diz: “Tu és bondoso e perdoador”
possa sobrevir ao crente, Deus está trabalhando para o
(Sl 86.5). A respeito da benevolência, ele proclama:
bem por meio de tudo isso. A bondade de Deus, não im­
“Pois o Se n h o r é bom e o seu amor leal [i.e., sua bene­
portam as circunstâncias exteriores, prevalecerál
volência] é eterno” (Sl 100.5). A “bondade do Senhor”
Assim, podemos dar o devido fecho a esta discus­
é uma expressão simples, mas tocante, que reúne mui­
são sobre o amor de Deus com as belas palavras do
tas facetas da natureza de Deus.
salmista: “Provem, e vejam como o Se n h o r é bom” (Sl
Jesus mesmo é, no máximo grau, a encarnação da
34.8). A bondade do Senhor é um prazer a ser provado
bondade divina. Isso é manifesto particularmente na — agora e sempre.
figura do pastor. De acordo com o Salmo do Pastor,
“bondade e misericórdia certamente me seguirão to­ C. Deus é um Deus da verdade
dos os dias da minha vida” (23.6, ARC). Essa bonda­
Chegamos por fim ao reconhecimento de que Deus
de e misericórdia encontram-se de maneira suprema
é o Deus da verdade.58 Ele é o único Deus verdadeiro:
em Jesus, pois ele diz: “Eu sou o bom pastor; conheço
ele é aquele de completa integridade, confiabilidade e
as minhas ovelhas, e elas me conhecem [...] e dou a
fidelidade e ele ordena que toda a humanidade ande
em sua verdade.
56 Em alguns tratados teológicos, a bondade de Deus é conside­ Deus é, em primeiro lugar, o único Deus verdadei­
rada um atributo genérico de Deus que inclui amor, graça e
ro. Há muitos chamados deuses, mas só há um “Deus
misericórdia. Ainda que seja possível tal arranjo, parece difícil
vivo e verdadeiro”. Paulo escreveu aos tessalonicenses:
considerar o amor uma subcategoria da bondade. As Escritu­
ras afirmam que Deus é amor (jamais que Deus é bondade);
assim, parece melhor considerar a bondade sob o título de 37 Isso será considerado num capítulo posterior.
amor, mesmo como a declaração final que a sintetiza. 38 V. Isaías 65.16 — “o Deus da verdade”

58
D eus

"Vocês [...] se voltaram para Deus, deixando os ídolos não há encobrimento da verdade, não há declarações
a fim de servir ao Deus vivo e verdadeiro” (lTs 1.9). abrandadas nem declarações exageradas; há integrida­
O AT é bem enfático: “ O Se n h o r é o Deus verdadei­ de total em tudo.
ro” (Jr 10.10); e no NT Jesus orou ao Deus Pai como “o Por conseguinte, Deus convoca seu povo para o
unico Deus verdadeiro” (Jo 17.3). Há, de fato “muitos mesmo tipo de integridade e honestidade. Não deve
deuses e muitos senhores5, para nós, porém, há um haver nenhum engano, nenhuma hipocrisia, nenhu­
unico Deus, o Pai” (IC o 8.5,6). Essa é uma afirmação ma dissimulação em nenhuma de suas palavras e atos.
vigorosa de fé bíblica e cristã. Descuido nas palavras e exageros nos fatos não são
O Deus verdadeiro foi plenamente revelado em coerentes com o andar cristão. “Seja o seu sim, sim 5
Jesus Cristo e em nenhum outro. A Palavra que se tor­ e o seu não5 não5; o que passar disso vem do Maligno”
nou carne era “cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). (Mt 5.37). Injúrias, mexericos e falsos testemunhos são
Em cada momento de sua vida e ministério, Jesus es­ impensáveis para qualquer um que sirva ao Deus da
tava desvendando a plenitude da verdade. Assim, ele integridade total. Num mundo de propaganda, anún­
podia dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. cios enganosos e ações secretas, é difícil a igreja e o
Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14.6). Jesus cristão viverem com integridade. Mas Deus chamou
Cristo é a encarnação do Deus vivo e verdadeiro. a igreja para ser “coluna e fundamento da verdade”
Assim, não ousamos renunciar no mínimo grau (lTm 3.15). O Deus da verdade não aceita nada menos.
que seja ao Deus revelado no AT como o Senhor e tor­ O Deus da verdade e, em terceiro lugar, o Deus da
nado carne em Jesus Cristo. Não há outro Deus vivo completa confiabilidade. O mundo que ele fez com sua
e verdadeiro. Considerar os “deuses” das religiões do revolução regular em torno do Sol, suas leis e estrutu­
mundo idênticos a Deus é completamente errado, pois ras, seus dias e estações e um mundo confiável e cer­
“todos os deuses das nações não passam de ídolos” (SI to. Pode-se confiar nele porque Deus é um Deus em
96.5). O Deus da fé cristã é o único Deus verdadeiro. quem se pode confiar. Sua palavra é certa; tudo nela é
Deus como o Deus da verdade é, em segundo lu­ fidedigno e confiável. Aiem disso, suas promessas são
gar, o Deus de completa integridade. Por ser a própria igualmente certas; nenhuma pode falhar. Pode ser que
fonte da verdade, não pode haver nele nada inverídi- nem sempre se cumpram como se espera; pode ser
co. Ele é verdadeiro em seu ser, atos e palavras; não que demorem a chegar a rruição, o futuro delas é certo.
há absolutamente nenhum engano nem falsidade. Pode-se contar invariavelmente com Deus.
O que se descobre em sua revelação geral é verdade, Estreitamente ligada a confiabilidade há um quarto
ainda que muitas pessoas o suprimam .59*Além disso, o atributo — a fidelidade. Um dos grandes temas da Bíblia
que ele estabelece em sua revelação especial por meio é a fidelidade de Deus. Observamos as palavras memo­
de sua palavra é verdade: “[...] então o povo saberá ráveis de Deus a Moisés, que começam com “ Se n h o r ,
que eu dizia a verdade” (SI 141.6, NTLH). Deus nada Se n h o r " e incluem “cheio de amor e de fidelidade” (Ex
faz que seja falso; uma mentira é impossível para sua 34.6,7)7 A fidelidade de Deus, ainda que associada com
natureza. “Deus não é homem para que minta” (Nm seu amor (ou “misericórdia5, ARA), carrega a ideia do
23.19); de novo: “Seja Deus verdadeiro, e todo homem compromisso inabalável de Deus em manter sua relação
mentiroso” (Rm 3.4). Com Deus não há dissimulação, com seu povo: permanecer com ele nos bons e nos maus

59 Deve-se lembrar de que os homens, pela injustiça, “supri­ 50 A AEC e ARC trazem “verdade”. A fidelidade de Deus, esta­
mem a verdade” (Rm 1.18) da revelação de Deus na criação; mos observando, é um aspecto de sua verdade. Deus é fiel a
não obstante, o que Deus revela é verdade. seu povo e continuará com ele.

59
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momentos. Por causa de sua fidelidade e verdade, Deus Deus é verdade e nos ordena que andemos todos
não romperá sua relação de aliança. Ele nunca deixará em sua verdade. Deus é nossa Luz: “Venha, ó descen­
nem abandonará seu povo. Ele pode lhe levar punição dência de Jacó, andemos na luz do Se n h o r !” (Is 2.5).
e sofrimento por causa de seus pecados; às vezes, pode Jesus Cristo é “a luz da vida” (Jo 8.12); vamos andar
até parecer abandoná-lo totalmente, mas em tudo isso em sua luz e em sua verdade. Por fim, o Espírito Santo
Deus permanece fiel e verdadeiro. Um dos grandes é “o Espírito da verdade” que, segundo Jesus promete,
testemunhos da fidelidade de Deus encontra-se em La­ “[nos] guiará a toda a verdade” (Jo 16.13).
mentações, o livro de lamúrias e queixumes por causa Deus é o Deus da verdade.
da desolação de Jerusalém. Jeremias havia clamado em
desespero: “Lembro-me da minha aflição e do meu de­ V. AS PERFEIÇÕES DE DEUS
lírio, da minha amargura e do meu pesar” (Lm 3.19).
Nesta seção, vamos considerar a onipotência, onis-
Então o profeta acrescentou: “Todavia, lembro-me tam­
ciência e onipresença de Deus — ou o Deus que tem
bém do que pode me dar esperança: Graças ao grande
todo o poder, todo o conhecimento e está presente em
amor [ou “misericórdias”, ARA] do Se n h o r é que não
todos os lugares. Esses atributos de Deus podem ser
somos consumidos, pois as suas misericórdias são ines­
denominados “suas perfeições” por representarem a
gotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a sua fideli­
perfeição, ou totalidade, daquilo que o homem conhe­
dade!” (3.21-23). Grande éa tua fidelidade!
ce e experimenta em sua vida. O homem é limitado em
O mesmo tipo de fidelidade é visto no NT. Em Jesus
seu poder, sabedoria e presença; Deus não. Esses três
Cristo, Deus estabeleceu uma nova aliança e, diz Paulo,
atributos, por conseguinte, representam as perfeições
“ele os manterá firmes até o fim, de modo que vocês
divinas.62
serão irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus
Cristo. Fiel é Deus” (IC o 1.8,9). A maravilha é que, não A. Deus é onipotente
importa nossa infidelidade, ele não nos renega: “Se so­
mos infiéis, ele permanece fiel” (2Tm 2.13). Em Jesus Deus é todo-poderoso. Em toda a Escritura, é ates­

Cristo, temos um Deus fiel; nele temos esta promessa tado continuamente que Deus é o Deus de todo o poder

segura: “Eu estarei sempre com vocês, até o fim dos e força. Ele se mostra poderoso em sua criação: “Ah!

tempos” (Mt 28.20).


Em tudo isso, a fidelidade de Deus é um aspecto do para continuarem apesar do próprio fracasso e lhes preenche
o coração de esperanças felizes, mesmo quando têm profun­
fato de ser o Deus da verdade. A declaração citada ante­
da consciência de que perderam os direitos a todas as bên­
riormente, extraída de 2Timóteo, conclui: “[...] pois não
çãos de Deus” (Systematic Theology, p. 70).
pode negar-se a si mesmo” (2.13). Deus é fiel à sua alian­ 62 Evidentemente Deus é também perfeito em seu caráter
ça, fiel a suas promessas, fiel a seu povo; caso contrário — sua santidade, amor e verdade. Uso aqui o termo “per­
estaria contradizendo a si mesmo como o Deus da ver­ feições” em referência não ao caráter, mas aos atributos de
dade. O Deus verdadeiro permanece fiel em tudo, para
qualidade não morais. Em certo sentido, também são atri­
butos de transcendência como a infinitude, eternidade e
sempre. Nisso podemos regozijar-nos muitíssimo!61
imutabilidade. Entretanto, diferentemente desses atributos,
eles representam aquilo que o homem possui em parte — a
61 Berkh o f expressa isso muito bem: “A fidelidade de Deus é saber, poder, sabedoria e presença espacial (ele não partilha
da máxima importância para o povo de Deus. É a base para da infinitude, eternidade e imutabilidade). Se a expressão
sua confiança, o fundamento de sua esperança e a causa de não parecesse estranha, seria possível fazer referência aos
seu regozijo. Ela os guarda do desespero a que sua própria “oni” como as totalidades de Deus. Vamos permanecer com
infidelidade os pode levar facilmente, ela lhes dá a coragem “perfeições” como o termo mais conveniente.

60
D eus

Soberano Se n h o r , tu fizeste os céus e a terra pelo teu poder para cumprir sua aliança de bênção; certamente
grande poder [...]” (Jr 32.17). Ele é poderoso em sua ati­ ela se cumprirá. No livro de Apocalipse, o Deus que
vidade providencial pela qual sustenta o Universo, “sus­ reina sobre toda a história e em cujas mãos o futuro é
tentando todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hb certo é o Senhor Deus todo-poderoso. O uso mais fre­
1.3). Ele é poderoso ao redimir Israel: “ Se n h o r , a tua quente do termo “todo-poderoso”, porém, é no livro de
mão direita foi majestosa em poder. Se n h o r , a tua mão Jó66, onde Deus em seu poder assombroso é apresenta­
direita despedaçou o inimigo” (Êx 15.6). Ele é podero­ do como alguém muito além da compreensão de Jó .67

so na salvação dos que creem por meio do evangelho: Uma vez que Deus é o Todo-poderoso, nada é tão

"É o poder de Deus para a salvação de todo aquele que difícil que não possa realizar; nada está acima de sua

crê” (Rm 1.16). Ele é poderoso na vida do crente. Paulo capacidade. Deus declara acerca de si mesmo: “Existe

fala do “seu poder em nós63 que cremos” (Ef 1.19). Ele alguma coisa impossível para o Se n h o r ?” (Gn 18.14).

e poderoso na ressurreição e exaltação de Cristo: “[...] Jó, após seu longo e árduo embate com o Todo-pode­
roso, disse ao Senhor: “Sei que podes fazer todas as
conforme a atuação da sua poderosa força. Esse poder
coisas” (Jó 42.2). Jeremias, o profeta, disse ao Senhor:
ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e fa­
“Nada é difícil demais para ti” (Jr 32.17). O anjo Gabriel
zendo-o assentar-se à sua direita, nas regiões celestiais”
declarou a Maria: “Nada é impossível para Deus” (Lc
(1.19,20). Ele será poderoso na era vindoura: “ 'Eu sou o
1.37). E Jesus mesmo disse aos seus discípulos: “Para
.Alfa e o Ômega’ diz o Senhor Deus, o que é, o que era e
Deus todas as coisas são possíveis” (Mt 19.26). Deus
o que há de vir, o Todo-poderoso’ ” (Ap 1.8).
é verdadeiramente o Deus da onipotência — tanto na
É significativo que o termo “todo-poderoso” ocorre
realidade como na possibilidade.
com frequência nos livros de Gênesis e Apocalipse64 —
Mas aqui devo logo acrescentar que não se trata
o início das relações entre Deus e os patriarcas Abraão,
de onipotência no sentido de mero poder, pois o Deus
Isaque e Jacó e o auge de todas as coisas, quando leva­
todo-poderoso é o Deus cujo caráter é santidade, amor
rá esta era à consumação. Em Gênesis, a revelação de
e verdade.68 Assim, ele faz e fará só aquilo que está
Deus todo-poderoso está ligada à aliança abraâmica:
em harmonia com o que ele é. Dizer que é impossí­
“Eu sou o Deus todo-poderoso; ande segundo a minha
vel Deus cometer um erro ou fazer o mal não limita
vontade e seja íntegro. Estabelecerei a minha aliança
sua onipotência, assim como não a limita dizer que é
entre mim e você” (17.1,2).65 Assim, Deus tem todo o
impossível Deus desejar a própria inexistência. Essas
são contradições morais e lógicas à própria existência
^ Ou “para com” {ARA; gr. eis hèmas). e natureza do Deus todo-poderoso. Nas Escrituras, ve­
M Seis vezes em Gênesis, nove em Apocalipse. A expressão
zes sem conta, a onipotência de Deus é associada com
hebraica em Gênesis é el sadday, “Deus todo-poderoso”.
seu caráter. Para ilustrar: o Todo-poderoso não agirá
(“Todo-poderoso” é a tradução comum, ainda que recente­
mente tenha surgido entre muitos a interpretação de sadday
como “montanha”, assim, “Deus da montanha” [v. TWOTy 66 Trinta e uma das 48 vezes no AT. “Todo-poderoso” é en­
v. 2, p. 907]. Não creio que as evidências garantam essa contrado dez vezes no NT, sendo em 2Coríntios todas as
tradução.) Em Apocalipse, a palavra traduzida por “todo- ocorrências fora de Apocalipse.
-poderoso” épantokratõr (também em outras partes do NT). 67 “O Todo-poderoso” é expressão comum em Jó. É o nome
65 Essas palavras ditas a Abraão contêm a primeira referência usado por Jó, bem como por seus amigos — Elifaz (5.17),
a Deus como el sadday. Quanto a Isaque, v. Gênesis 28.3; Bildade (8.3), Zofar (11.7) e Eliú (32.8). O nome é por fim
Jacó, Gênesis 35.11; 43.14; 48.3; 49.25. Deus mais tarde disse usado por Deus mesmo: “Aquele que contende com o Todo-
a Moisés: “Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como o Deus -poderoso poderá repreendê-lo?” (40.2).
todo-poderoso” (Êx6.3). 68 Lembre-se da seção anterior.

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de modo injusto. “Acaso Deus torce a justiça? Será carece de poder, de modo que, mesmo desejando todo
que o Todo-poderoso torce o que é direito?” (fó 8.3). 0 bem do homem, não é de todo capaz de fazer cum ­
O Todo-poderoso é um refúgio compassivo de seus fiéis, prir esse bem. Por outro lado, também não significa
pois “aquele que habita no abrigo do Altíssimo e des­ que existe algum obstáculo fora de Deus que possa im ­
cansa à sombra do Todo-poderoso” (SI 91.1) receberá a
pedir sua livre expressão. Há um Satanás, decerto, que
proteção de Deus. Mais uma vez no livro de Apocalipse,
é “o deus [d minúsculo] desta era” (2Co 4.4), mas seu
o Deus todo-poderoso é o Deus totalmente santo: “Santo,
domínio e atividade de modo algum circunscrevem ou
santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso” (4.8);
tolhem o poder abrangente de Deus .70 Há a vastidão e
“Sim, Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos
são os teus juízos” (16.7).69 No último livro da Bíblia, o complexidade de um Universo fora de Deus, carregado

nome de Deus como o Todo-poderoso pode ser associa­ de poder e energia, mas tudo está subordinado ao po­
do com ira e destruição — e.g., “o furor da ira do Deus der controlador de Deus. Nas palavras do salmista, “o
todo-poderoso” (19.15). Mas isso de modo algum sig­ poder pertence a Deus” (62.11). Não há absolutamente
nifica poder destruidor inescrupuloso; é o Deus tripla­ nenhuma limitação para ele: ele tem todo o poder.
mente santo, o Deus da verdade e da justiça, cuja fúria Mais uma palavra: Deus, o onipotente, é o Deus
está prestes a irromper. O Deus que pode fazer todas as de milagres. Ao mesmo tempo que seu grande poder
coisas é o Deus de santidade, amor e verdade.
é manifesto, conforme vimos, nas obras da criação e
Há outra questão que deve receber ênfase: a onipo­
providência, salvação e consumação, esse mesmo
tência de Deus não deve ser identificada com “onicausa-
poder está trabalhando de outras maneiras extraor­
lidade”. Não é porque Deus pode fazer todas as coisas
dinárias. Deus é plenamente capaz de ir além de suas
que ele de fato fa z todas as coisas, excluindo-se as ex­
pressões inferiores de poder. Na concepção panteísta, atividades ordinárias na natureza para realizar o ex­

Deus é em última análise o único agente, de modo traordinário, o sobrenatural. Ele pode fazer que o mar
que todas as energias e ações são dele. Da perspectiva se abra para que o povo possa atravessá-lo por terra
bíblica, porém, o mundo é criação de Deus, não sua seca (Êx 14.22), um dia se prolongue além das vin­
expressão, e, como tal, possui poder próprio genuíno, te e quatro horas usuais (Js 10.12-14), desça fogo do
dado por Deus. Aliás, o poder tanto latente como ativo céu para consumir uma oferta queimada (lR s 18.38),
no Universo é vasto na amplidão de inúmeras galáxias
uma pessoa fisicamente morta ressuscite (2Rs 4.18-36
e estrelas e na minúcia dos incontáveis átomos e molé­
e outros), um ventre estéril e um ventre virgem pos­
culas. No próprio homem, ainda que finito e limitado,
sam conceber (Lc 1 e 2), doenças e enfermidades “in­
há poderes que continuam a se desenvolver à medi­
curáveis” sejam curadas (Lc 5.22-26 e outros), e assim
da que ele manifesta a imagem de Deus em domínio
por diante .71 Deus é o Deus todo-poderoso para quem
cada vez maior sobre o mundo criado por Deus.
Qualquer concepção de Deus, devo acrescentar, nada que deseje fazer é impossível.

que o veja com poder limitado é totalmente errada.


Isso significa, por um lado, que não há, dentro do pró­ 7U Na narrativa de Jó Deus diz a Satanás: “Pois bem, tudo o que
ele [Jó] possui está nas suas mãos” (1.12). Mas isso é um
prio Deus, barreiras à expressão total de seu poder e
evidente poder delegado, pois, qualquer que fosse a devas­
força. Não é que ele simplesmente tem todo amor, mas
tação infligida por Satanás a Jó, Deus estava no controle de
toda a situação. Lembre-se das palavras finais de Jó a Deus:
69 V. Apocalipse 15.3: “Grandes e maravilhosas são as tuas “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos
obras, Senhor Deus todo-poderoso. Justos e verdadeiros são pode ser frustrado” (42.2).
os teus caminhos”. 1 V. cap. 7, “Milagres”.

62
D eus

A onipotência de Deus tem muita relação com a vida Podemos concluir esta seção sobre a onipotência
de fé. Primeiro: há a garantia de que nada está acima de Deus de modo adequado com a memorável oração
do poder e controle do Deus todo-poderoso. Se é fato de Davi: “Teus, ó Se n h o r , são a grandeza, o poder, a
que “confiamos em Deus” então não precisamos temer glória, a majestade e o esplendor, pois tudo o que há
nada mais, pois “aquele que habita no abrigo do Altíssi­ nos céus e na terra é teu. Teu, ó Se n h o r , é o reino; tu
mo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer estás acima de tudo” (2Cr 29.11).
ao Se n h o r : ‘T u és o meu refugio e a minha fortaleza ”
6. Onisciência
í SI 91.1,2). Para o crente, Deus é refúgio e fortaleza
inexpugnável, que nenhum outro poder no céu ou na Deus sabe todas as coisas. Em muitos sentidos as
terra consegue vencer. Segundo: por mais cansados ou Escrituras atestam a onisciência de Deus. Seu conheci­
desanimados que fiquemos, o vasto poder de Deus está mento é universal: “Deus [...] sabe todas as coisas” (1 Jo
sempre à disposição dos que o buscam. Nas palavras 3.20). Seu conhecimento é perfeito: ele “tem perfeito
contundentes de Isaías: “Ele fortalece o cansado e dá conhecimento” (Jó 37.16). Não há limites: “É impos­
grande vigor ao que está sem forças [...] aqueles que es­ sível medir o seu entendimento” (SI 147.5). De fato,
peram no Se n h o r renovam as suas forças [...] correm e “o Se n h o r é Deus sábio” (ISm 2.3) — Deus de todo o
não ficam exaustos, andam e não se cansam” (40.29,31). conhecimento.
Quando olhamos para o Senhor, como é vasto o poder O conhecimento de Deus é imediato. Ele contempla
à nossa disposição! Terceiro: já que os crentes experi­ todas as coisas: “Os olhos do Se n h o r estão em toda
mentaram o poder extraordinário de Deus no novo nas­ parte” (Pv 15.3). O conhecimento de Deus não é aquele
cimento, antes “estávamos mortos em transgressões”, adquirido por meio de raciocínio e reflexão, nem acu­
mas agora “deu-nos vida com Cristo” (Ef 2.5), podemos mulado por meio de experiência e verificação. Deus
aguardar com grande esperança que Deus vença todos não é aprendiz. O profeta pergunta retoricamente:
os dias os resquícios de pecado e carnalidade em nossa “Quem lhe ensinou o conhecimento ou lhe apontou o
vida. Quarto: o fato mais extraordinário acerca dos cren­ caminho da sabedoria?” (Is 40.14). A resposta é obvia­
tes é que o Deus todo-poderoso fixou residência neles. mente “ninguém”. Isso não significa que Deus seja au­
Assim, há um poder latente impossível de compreender todidata, mas que sua mente engloba todo o conheci­
ou medir por completo. Paulo declara que Deus “é capaz mento. Além disso, já que Deus é o criador de todas as
de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos coisas no Universo — da menor partícula num átomo
ou pensamos, de acordo com o seu poder que atua em à maior das estrelas, do menor ser vivo aos seres hu­
nós” (Ef 3.20). O cristão (Deus, nos ajude a compreen­ manos feitos à sua imagem, ele conhece cada aspecto
der isso!) é um dínamo de possibilidade divina. Quinto: de sua criação. Ele contempla tudo, como aquele que
podemos esperar que Deus aja com poder não só nos deu existência a tudo e conhece de maneira imediata
eventos ordinários da vida diária, mas também na reali­ e direta toda a atividade deles.
zação de obras miraculosas. Pelo dom de seu Santo Es­ A onisciência divina inclui o futuro. Deus conhe­
pírito aos que creem e o recebem, há entrada para toda ce de antemão tudo o que ainda está por acontecer.
a esfera de obras poderosas de Deus. O “poder do alto” Por meio do profeta Isaías, Deus declarou: “Vejam!
(Lc 24.49) está à disposição de todos os cristãos: o poder As profecias antigas aconteceram, e novas eu anuncio;
do Deus onipotente para conduzir as pessoas à salvação, antes de surgirem, eu as declaro a vocês” (Is 42.9). As
para realizar milagres de cura e livramento, para des­ “novas” os futuros reis, Deus pode declarar agora
truir todas as forças que vêm contra a obra de Deus. porque os vê todos, antes que ocorram. Deus conhece

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de antemão nossa existência humana — nossas pala­ ção, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descober­
vras, nossa vida, nossos dias. Isso é expresso na bela to e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos
declaração do salmista: “Antes mesmo que a palavra de prestar contas” (4.13). Deus conhece toda a nossa
me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, existência em cada aspecto do bem e do mal. Escon­
Se n h o r [...]. Os teus olhos viram o meu embrião; to­ der-se do Senhor, como Adão e Eva tentaram fazer de­
dos os dias determinados para mim foram escritos no pois de comerem o fruto proibido, é impossível. Isaías
teu livro antes de qualquer deles existir” (139.4,16). diz a seu povo; “Por que você reclama [...] ‘O Se n h o r

Que afirmação extraordinária! A presciência divina não se interessa pela minha situação’?” (Is 40.27). Isso

é manifesta, portanto, tanto nos eventos da História 72 é impossível, porque “sua sabedoria é insondável” (v.

como na vida humana .73 Deus conhece todas as coi­ 28). Ainda, nas palavras de Jesus: “No dia do juízo, os

sas, incluindo o futuro .74 homens haverão de dar conta de toda palavra inútil

Voltando para o presente, é evidente que a onisciên- que tiverem falado” (Mt 12.36). Cada palavra que ago­
ra se fala é vivamente presente para Deus.
cia de Deus está relacionada de maneira bem signi­
Não é só uma questão de Deus ver ações externas
ficativa com o bem e o mal no mundo. A declaração
e palavras pronunciadas: ele tam bém enxerga bem
“Os olhos do Se n h o r estão em toda parte” conclui
no fundo da mente e do coração. “Eu sou o Se n h o r
com “observando atentamente os maus e os bons” (Pv
que sonda o coração e examina a m ente” (Jr 17.10).
15.3). De acordo com Hebreus: “Nada, em toda a cria-
Essas palavras foram ditas em referência ao cora­
ção, “mais enganoso que qualquer outra coisa e sua
72 Quanto a fatos específicos no AT, dois, entre vários, podem
doença é incurável” (v. 9). Deus não pode ser enga­
ser citados: ISamuel 23.1-14 e Jeremias 38.14-23. No primei­
ro, Davi recebeu informações do Senhor a respeito de uma nado. E ainda, Deus disse para os iníquos: “Ó nação
vitória futura sobre os filisteus e também especificamente de Israel, [...] eu sei em que vocês estão pensando”
sobre o que “os homens de Queila” fariam. No segundo, (Ez 11.5). Deus não precisa esperar até que ocorra
Jeremias, falando em nome do Senhor, disse ao rei Zede- alguma ação; ele já sabe o que está vindo na mente.
quias que, se capitulasse diante do rei da Babilônia, sua vida
Como Deus é diferente do homem! O Senhor falou
seria poupada e a cidade, salva. De outro modo, haveria
a Samuel que estava procurando um sucessor para
completa perda e destruição.
/3 Em relação à vida humana, a presciência divina, especial­ Saul: “ O Se n h o r não vê como o homem: o homem
mente no NT, faz referência especial à salvação: “Aqueles que vê a aparência, mas o Se n h o r vê o coração” (ISm
de antemão conheceu, também os predestinou para serem 16.7).75 Deus realmente conhece cada pensamento
conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29). Pedro fala dos da mente, cada sentim ento do coração.
que foram “escolhidos de acordo com o pré-conhecimento
A onisciência divina pode parecer ameaçadora
de Deus Pai” (IPe 1.1,2). (Quanto à relação entre presciência
(por causa do que se disse anteriormente), mas de ou­
e predestinação, cf. o v. 2, cap. 1, “Chamado”)
74 Pode-se acrescentar uma citação de Isaías com respeito à tra perspectiva pode ser uma maravilha e uma bênção.
presciência de Deus: “Eu sou Deus, e não há nenhum ou­ O salmo 139 (já citado abreviadamente) começa assim:
tro; eu sou Deus, e não há nenhum como eu. Desde o início “ Se n h o r , tu me sondas e me conheces. Sabes quando
faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda me sento e quando me levanto; de longe percebes os
virá. [...] O que eu disse, isso eu farei acontecer” (46.9-11).
meus pensamentos” (v. 1,2). Para o salmista, o conhe­
Uma vez que Deus declara: “Desde o início faço conhecido o
cimento penetrante de Deus, momento a momento,
fim”, ele vê cada momento da História — passado, presente
e futuro — com igual clareza e objetividade. A presciência,
portanto, na realidade não é presciência, mas conhecimento 75 Pedro, mais tarde, falou de Deus como quem “conhece os
ilimitado pelo tempo, que é criação de Deus. corações [lit. o conhecedor de corações’]” (At 15.8).

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D eus

é causa de admiração (v. 6 ) e, mais tarde, de louvor e ráveis a particularidade do interesse de Deus, ao dizer:
ação de graças: “Como são preciosos para mim os teus “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados”
pensamentos, ó Deus!” (v. 17). Tudo isso denota tanto (Mt 10.30).7 Com tal conhecimento íntimo e pessoal
admiração com o conhecimento total de Deus como que Deus Pai possui, como pode haver alguma ansie­
felicidade decorrente de tal intimidade divina. dade ou preocupação?
O conhecimento totalmente abrangente de Deus Agora podemos também observar que a onisciên-
também pode ser fonte de conforto e segurança. cia divina é um desafio à vida de justiça. O salmista
Moisés lembrou aos israelitas ao final de seus quarenta declara: “Obedeço a todos os teus preceitos e teste­
anos de peregrinação pelo deserto: “O Senhor teu Deus munhos, pois conheces todos os meus caminhos”
te abençoou em toda a obra das tuas mãos. Ele sabe (119.168). Uma vez que Deus não é, de modo algum,
que andas por este grande deserto. Estes quarenta anos um Deus distante e invisível, mas, ao contrário, ele vê
o Senhor teu Deus esteve contigo, e coisa nenhuma te todos os nossos caminhos, devemos estar ainda mais
faltou” (Dt 2.7, AEC). O Senhor “sabe que andas”, fa­ interessados em fazer o que ele mandou. Nesse sen­
lando do conhecimento que Deus tem de cada passo tido, as palavras de Davi a Salomão são apropriadas:
do caminho de uma jornada longa e perigosa, é de fato “Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e
uma mensagem de conforto. Jó, em meio a grande dor serve-o com um coração íntegro e alma voluntária, pois
e sofrimento, afirmou sobre Deus: “Mas ele conhece o o Senhor esquadrinha todos os corações, e penetra
caminho por onde ando ; 76 se me puser à prova, apare­ todos os desígnios e pensamentos. Se o buscares, será
cerei como o ouro” (Jó 23.10). Essa percepção de que achado de ti; mas se o deixares, rejeitar-te-á para sem­
Deus “conhece o caminho” da vida de uma pessoa, não pre” (lC r 28.9, AEC). Se é verdade que o Senhor busca
importa quão difíceis as circunstâncias, só pode fazer e compreende dessa maneira, não só o de Salomão, mas
brotar uma profunda calma e segurança interior. “todos os corações” e “todos os desígnios e pensa­
Jesus mesmo deu grande ênfase à importância de mentos”, então devemos nos devotar constantemente
viver tendo consciência constante do conhecimento a cumprir sua vontade e propósito.
pessoal de Deus para com seus filhos. Ele ensinou no Antes de concluir esta seção sobre o conheci­
Sermão do Monte que não devemos ficar preocupados mento de Deus, devo acrescentar uma palavra acerca
com comida, bebida e roupas, acrescentando: “Os pa­ de sua sabedoria. A sabedoria não é uma perfeição
gãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial distinta de Deus; antes, pode ser considerada um co­
sabe que vocês precisam delas” (Mt 6.32). Ter consciên­ rolário do conhecimento .78 Por exemplo, tanto a sa­
cia de que Deus nosso Pai conhece cada necessidade bedoria como o conhecimento são declarados juntos
nossa e certamente nos proverá é ser liberto de muita nesta exclamação de Paul: “Ó profundidade da rique­
ansiedade. Isso significa também que não temos de za da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão
"correr atrás” dessas coisas terrenas, por mais essenciais
insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os
que sejam para a existência. Antes, podemos buscar “em
seus cam inhos!” (Rm 11.33). A sabedoria e o conhe­
primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”, reconhe­
cimento seguem juntos; entretanto, é útil também
cendo que “todas essas coisas [...] serão acrescentadas”
ív. 33). Mais tarde, Jesus afirmou em palavras memo-
'' Isso vai além da “contagem” dos passos (n. 76) chegando aos
cabelos da cabeça de alguém!
Até mesmo do número de passos, conforme pergunta Jó /8 B e r k h o f chama isso “a perfeição de Deus pela qual ele
mais tarde: “Não vê ele os meus caminhos, e não considera aplica seu conhecimento para atingir seus fins de modo que
cada um de meus passos?” (31.4). mais glorifique a si próprio” (Systematic Theology, p. 69

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observar brevemente o testemunho bíblico acerca da primazia da sabedoria na criação de todas as coisas é
sabedoria divina. declarada de modo marcante.
As Escrituras declaram de forma especial a sabe­ A sabedoria de Deus é também manifestada no
doria de Deus nas obras da Criação. Por exemplo: “Por decorrer da História. Daniel louva Deus da seguinte
sua sabedoria o Se n h o r lançou os alicerces da terra” maneira: “Louvado seja o nome de Deus para todo o
(Pv 3.19): “Foi Deus quem fez a terra com o seu po­ sempre; a sabedoria e o poder a ele pertencem. Ele
der, firmou o mundo com a sua sabedoria e estendeu muda as épocas e as estações; destrona reis e os es­
os céus com o seu entendimento” (Jr 10.12; 51.15).79 tabelece [...]. Revela coisas profundas e ocultas” (Dn
Um dos quadros mais vivos e memoráveis da obra de 2.20-22). A sabedoria de Deus é particularmente des­
Deus na Criação, tanto ao fazer como ao manter to­ tacada em todo o drama da história da redenção, cujos
das as coisas, é a encontrada no salmo 104. Versículo primórdios antecedem a própria Criação. Paulo escre­
após versículo, apresenta-se Deus fazendo os céus e a veu nesse sentido: “A sabedoria de Deus, do mistério
terra, as montanhas e os vales, as plantas e as árvores, que estava oculto, o qual Deus preordenou, antes do
e provendo para todas as suas criaturas. O clímax vem princípio das eras, para a nossa glória” (IC o 2.7). Além
no versículo 24: “Quantas são as tuas obras, Se n h o r ! disso, é propósito de Deus que “mediante a igreja, a
Fizeste todas elas com sabedoria!”. Outra passagem ex­ multiforme sabedoria de Deus se tornasse conheci­
traordinária acerca da sabedoria divina é Provérbios da” (Ef 3.10). A sabedoria de Deus — misteriosa em
8.22-31, em que a sabedoria é retratada pessoalmen­ sua profundidade, multiforme em sua operação — é
te presente com Deus antes da Criação: “Fui formada manifesta em toda a História, mas especialmente em
desde a eternidade ,80 desde o princípio, antes de existir relação à história da salvação.
a terra” (v. 23) e na Criação: “[...] quando determinou Aqui, deixe-me acrescentar com ênfase que a es­
as fronteiras do mar para que as águas não violassem tatura da sabedoria divina não é mostrada nem nas
a sua ordem, quando marcou os limites dos alicerces maravilhas da Criação nem na supervisão da História,
da terra, eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto” 81 mas na cruz de Cristo, que é o desvendar máximo. Não

(v. 29,30). Com essa personificação 82 da sabedoria, a tanto que a sabedoria divina esteja além da compreen­
são (ainda que assim seja), mas que é diferente da

/9 Nas citações de Provérbios e Jeremias, as passagens conti­ compreensão natural do homem, pois essa sabedoria
nuam com a declaração de que “com o seu entendimento” aos olhos do mundo em geral é absurda, tola. Nas pa­
os céus foram “estendidos” ou “estabelecidos”. Assim, na­ lavras de Paulo: “Pregamos a Cristo crucificado, o qual,
quilo que entendimento equivale a conhecimento, o cará­ de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os
ter inseparável da sabedoria e do conhecimento deve ser
gentios” (IC o 1.23). Que a morte de uma pessoa sobre
mais uma vez reconhecido.
uma cruz permite a salvação do mundo é grande toli­
811 Heb. mê olãm.
81 Ou “artesão” (NIV, heb. amõn). ce e absurdo para a sabedoria da mente natural. Mas
82 “Personificação” pode não ser a melhor palavra à luz da aqui “a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria
revelação posterior do NT de Cristo como a sabedoria en­ humana” (v. 25): é a “loucura” que redime um mundo
carnada de Deus. Cp. o texto de Provérbios com lCorín- perdido. Nenhum homem sábio jamais sonharia com
tios 1.24: “Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus”.
isso; é a sabedoria suprema.
(Também lembre o prólogo de João acerca de Cristo como
Podemos concluir de modo adequado com as pa­
a Palavra eterna e como aquele por quem todas as coisas
foram feitas (1.1-3). Cristo é considerado não tanto uma lavras de Paulo na carta aos Romanos: “Ao único Deus
personificação da sabedoria, mas aquele que encarna eter­ sábio seja dada glória para todo o sempre, por meio de
namente a sabedoria (junto com o poder).) Jesus Cristo. Amém” (16.27).

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0 Deus de todo conhecimento é o Deus de toda todas as plantas e árvores do mundo.87 Não há nenhum
sabedoria. lugar em que Deus não esteja; ele está em toda parte .88
Segundo: segue-se que Deus é imediatamente pre­
C. Deus é onipresente sente para cada ser humano. Nas palavras de Paulo:
“[...] embora não esteja longe de cada um de nós.
Deus está presente em todos os lugares. 0 último
‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos' ” (At
dos “oni-” aponta para a presença de Deus em todos os
17.27,28).89 Não é que Deus possua sua existência em
lugares e para todas as pessoas.
nós ,90 mas que toda a nossa vida e atividade, nossa
Primeiro: Deus está presente em todo o Universo própria existência, está “nele”. Em cada momento e
criado. De acordo com Isaías, Deus declara: “O céu em cada situação, estamos inextricavelmente envol­
é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés” vidos com Deus. Uma pessoa pode estar desligada
(66.1 ) .83 Isso fala da presença de Deus como algo que de Deus; pode estar espiritualmente longe de Deus
se estende do céu à terra. Antes Isaías testificou: “Eu e, portanto, Deus estar longe dele. Mas mesmo uma
vi o Se n h o r assentado num trono alto e exaltado, e a grande distância espiritual não anula o fato de que

aba de sua veste 84 enchia o templo” (6.1). Assim, com Deus está sempre imediatamente próximo.
Com certeza, nenhuma passagem da Escritura
palavras levemente diferentes, declara-se a presença
demonstra de modo mais vivo a onipresença de Deus
de Deus tanto no céu como na terra. A presença de
com o homem do que salmos 139.7-12. Vamos recor­
Deus é também apresentada por meio de Jeremias.
dar as palavras de abertura:
Logo depois da pergunta: “Poderá alguém esconder-
-se sem que eu o veja?” o Senhor faz outra pergun­ Para onde podería eu escapar do teu Espírito?
ta: “Não sou eu aquele que enche os céus e a terra?” Para onde podería fugir da tua presença?
(23.24).85 Essa declaração em Jeremias destaca em Se eu subir aos céus, lá estás;
particular a presença de Deus em todo o Universo: se eu fizer a minha cama na sepultura,
também lá estás.
Deus, o Senhor, preenche o céu e a terra.
Se eu subir com as asas da alvorada
Onipresença significa que Deus é totalmente pre­
e morar na extremidade do mar,
sente em todas as partes da criação. Assim, não pode­ mesmo ali a tua mão direita me guiará
mos entender Deus espacialmente disperso por todo o e me susterá.
Universo, de modo que uma parte dele está aqui, outra
parte ali.86 Deus preenchendo o céu e a terra significa,
porém, que ele está total e igualmente presente em todos 87 Pode-se lembrar do ditado: “Deus é um círculo cujo centro
os lugares. Ele está tão presente num único átomo, como está em toda parte e a circunferência, em lugar nenhum”.
88 Claro que essa afirmação não deve ser confundida com o
na estrela mais distante; numa única semente, como em
panteísmo. No panteísmo, Deus não só está em toda parte,
mas ele também é idêntico a tudo o que existe, i.e., o mundo
83 V. Atos 7.49, em que Estêvão repete essas palavras. é Deus ou uma extensão de Deus. Essa concepção mistura
84 “0 seu séquito” (ARC). o Criador com a criação e, na realidade, nega a onipresença.
85 Incidentalmente, podemos observar aqui uma relação es­ 89 A parte posterior da declaração de Paulo é em geral atri­
treita entre a onisciência e a onipresença. buída a Epimênides, poeta grego. A citação é seguida em
86 As figuras do “trono” e “estrado”, de “trono” e “aba” não Atos pelas palavras de Paulo: “[...] como disseram alguns
devem ser levadas ao extremo de inferir que uma parte de dos poetas de vocês”.
Deus está no céu onde fica seu trono e outra parte na terra. 90 Isso seria panteísmo.

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Não há fuga possível de Deus; não há altura ou pela fé em Cristo “morada de Deus por seu Espírito”
profundidade em que ele não esteja presente; não há (Ef 2.12,22). A habitação do Espírito de Deus, tanto na
nenhum lugar distante demais 91 onde sua mão não comunidade de fé como nas pessoas94 de fé, é um fato
esteja estendida. maravilhoso conhecido na experiência cristã. A oni­
Terceiro: a presença de Deus assume uma nova presença torna-se, com isso, presença viva: estar “sem
dimensão de significado para o cristão. O Deus que é esperança e sem Deus no mundo”, no sentido de estar
onipresente veio em carne humana, de modo que na cego à presença de Deus, transforma-se em plenitude
encarnação ele era “Deus conosco” — Emanuel (Is 7.14; de esperança da realidade irresistível de Deus.
8 .8 ).92 O Deus que está presente em todos os lugares, A onipresença de Deus é um fato: Deus está em
mas que de modo algum é sempre assim reconheci­ toda parte e está presente para todas as pessoas. Mas

do, veio em Jesus Cristo para revelar-se de maneira o conhecimento pessoal do fato e a experiência dessa

mais plena. Ele não era tão onipresente na encarnação, presença 95 são o que no fim realmente contam.

mas estava pessoal e definitivamente “com” o povo.


EPÍLOGO: A GLÓRIA DE DEUS
Entretanto, após a ressurreição, a presença de Deus
por meio de Jesus Cristo tornou-se ainda mais intensa. A palavra final a ser dita sobre Deus é que ele é o
Para começar, a presença de Cristo já não se limita aos Deus da glória .96 As Escrituras estão repletas de de­
que o conheceram em carne, mas está com todos os clarações sobre a glória de Deus. No livro de Salmos,
que pertencem a ele: “Eu estarei sempre com vocês, até encontram-se, por exemplo, expressões como estas:
o fim dos tempos” (Mt 28.20). Isso não significa que por sua glória fica “sobre os céus” (8.1, AEC); “Os céus de­
meio de Cristo Deus está presente de modo mais pleno claram a glória de Deus” (19.1); “O Senhor dos exérci­

agora (isso seria impossível, já que ele é onipresente), tos, ele é o rei da glória” (24.10); “Sê exaltado, ó Deus,

mas, com as cortinas do pecado removidas pela obra de acima dos céus! Sobre toda a terra esteja a tua glória!”

redenção de Cristo, sua presença contínua por meio do (57.5); “O Se n h o r [...] se manifestará na glória que ele
Espírito Santo93 pode ser experimentada em profundi­ tem” (102.16); “A sua majestade está acima da terra e

dade. Assim, a presença de Deus tem significado cres­ dos céus” (148.13). Mas isso é só o começo; a glória de

cente para todos os que são verdadeiramente cristãos. Deus é atestada ao longo de toda a Escritura.

Aliás, precisamos dar mais um passo, reconhecen­ O que é, então, a glória de Deus? Talvez a melhor

do que o Deus onipresente está presente de maneira resposta seja dizer que a glória divina é o esplendor ra­

singular por meio da habitação do Espírito nas pes­


diante e a terrível majestade do próprio Deus. A gló­
ria não é tanto um atributo particular que pertence à
soas de fé. Jesus disse sobre o Espírito Santo: “Ele vive
com vocês e estará em vocês” (Jo 14.17). Paulo mais
tarde atestou que tanto os gentios (“sem esperança e 94 A comunidade é o tema principal de Efésios 2. Paulo tam­
bém fala, e de modo bem específico, do Espírito Santo ha­
sem Deus no mundo”) como os judeus tornaram-se
bitando em indivíduos: “Acaso não sabem que o corpo de
vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês,
91 Jonas teve de aprender isso. Ele tomou um navio, “fugiu que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mes­
da presença do S e n h o r , dirigindo-se para Társis” (Jn 1.3). mos?” (ICo 6.19).
Não adiantou: o Senhor em pessoa trabalhou com ele nos 9:> Podemos dizer “a prática dessa presença”. O pequeno tra­
eventos que se seguiram. tado de Irmão L o u r e n ç o , A prática da presença de
92 A palavra hebraica é ‘immãnü el. Deus, vem-me à mente.
93 Já que Cristo agora foi exaltado “à direita de Deus” (At 2.33), 96 A expressão “o Deus da glória” foi assim usada por Estêvão:
do Pai, ele está presente por meio do Espírito Santo. “O Deus glorioso apareceu a Abraão” (At 7.2).

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D eus

sua identidade, transcendência, caráter ou perfeições ,97 (ou majestoso) em santidade. O esplendor radiante e a
mas o fulgor do esplendor e majestade que brilha atra­ terrível majestade de Deus permeiam todas as coisas.99
vés do ser e da ação de Deus. A glória de Deus, por conseguinte, é o foco do
Primeiro: em consideração ao ser de Deus, a glória mais sublime louvor. Assim, Davi exortou o seu povo
de Deus é semelhante a uma auréola que emana dele a dar glória a Deus: “Atribuam ao Senhor , ó seres
e o circunda. O profeta Ezequiel, em sua visão inicial celestiais, atribuam ao Senhor glória e força. Atri­
de Deus, fala de “uma luz brilhante” ao redor dele. buam ao Senhor a glória que o seu nome merece;
Depois, acrescenta: “Tal como a aparência do arco-íris adorem o Senhor no esplendor do seu santuário” (SI
nas nuvens de um dia chuvoso, assim era o resplendor 29.1,2; v. lCr 16.28,29). Mais adiante, no mesmo salmo,
ao seu redor. Essa era a aparência da figura da glória encontram-se estas palavras: “No seu templo todos
do Senhor ” (E z 1.27,28). De modo semelhante, João clamam: ‘Glória!’ ” (v. 9). No NT, uma multidão de
em Patmos, levado ao céu pelo Espírito, vê alguém no anjos clamou por ocasião do nascimento de Jesus:
trono e acrescenta: “Aquele que estava assentado era “Glória a Deus nas alturas” (Lc 2.14). Paulo louva
de aspecto semelhante a jaspe e sardônio. Um arco- Deus dizendo: “Dele, por ele e para ele são todas as
-íris, parecendo uma esmeralda, circundava o trono” coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém” (Rm
(Ap 4.3). Um arco-íris circundando o trono, uma auré­ 11.36). Multidões no céu cantam: “Aleluia!, pois reina o
ola divina de resplendor e beleza — essa é a aparência Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-

da glória de Deus. Tudo isso, porém, é só uma “seme­ -nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória!” (Ap 19.6,7).

lhança”; a realidade é muito, muito mais grandiosa. As O louvor da glória de Deus é o louvor mais sublime

palavras são insuficientes em sua tentativa de descre­ possível, pois mediante tal louvor Deus é engrandeci­

ver o inefável. Deus é infinitamente glorioso. do no esplendor e majestade de seu ser e ação.

Segundo: Deus é glorioso em sua ação de tal modo Mais do que isso, e é maravilhoso relatar, é o dese­

que sua glória se manifesta em tudo o que ele faz. Por jo de Deus de que a sua glória encha a terra. Embora

exemplo, depois que Deus libertou Israel do faraó, ele não vá dividir a sua glória com mais ninguém 100

Moisés e os israelitas cantaram: “A tua destra, ó Senhor , (pois nenhum outro é Deus), o seu propósito é que a
criação manifeste essa glória. Dessa forma, Deus dis­
é gloriosa98 em poder; a tua destra, ó Senhor , despeda­
se a Moisés: “Tão certo como eu vivo, e como toda
ça o inimigo. Na grandeza da tua excelência derrubaste
a terra se encherá da glória do Se n h o r ” (N m 14.21,
os que se levantaram contra ti” (Êx 15.6,7, ARA). Deus é
ARC).m Esta é uma grande promessa — que o es-
glorioso em seu poder. A glória e a majestade de Deus
resplandecem mediante a demonstração de seu grande
99 Deus é glorioso também no nome: “este nome glorioso e
poder. O cântico prossegue com estas palavras: “Quem
terrível” (Dt 28.58; v. lCr 29.13; Ne 9.5; Sl 72.19; Is 63.14);
entre os deuses é semelhante a ti, Senhor ? Quem é
em sua presença: “sua presença gloriosa” (Is 3.8); sua casa,
semelhante a ti? Majestoso em santidade, terrível em habitação e trono são gloriosos: “meu glorioso templo” (Is
feitos gloriosos, autor de maravilhas?” (v. 11). A ênfase 60.7); “tua habitação elevada, santa e gloriosa” (Is 63.15);
se desloca para a santidade, mas é a majestade de Deus “um trono glorioso” (Jr 17.12); sua graça é gloriosa: “para o
louvor da sua gloriosa graça” (Ef 1.6).
e seu caráter tremendo que resplandecem. Portanto,
100 Isaías 48.11: “Não darei minha glória a nenhum outro”.
Deus é ao mesmo tempo glorioso em poder e glorioso
101 A NVI traduz assim: “[...] juro pela glória do S e n h o r que en­
che toda a terra” Essa tradução desloca a ênfase do futuro para
97 Como foi discutido nas seções anteriores. o presente e correspondería a Isaías 6.3: “A terra inteira está
98 Ou "majestosa” (NVI). cheia da sua glória”. Entretanto, existe também a ênfase no

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plendor e a majestade de Deus serão manifestados nossos corações, para iluminação do conhecimento da
por toda a terra. Podemos ter certeza absoluta de que glória de Deus na face de Cristo” (2Co 4.6). Portanto,
ela se cum prirá.102 para o cristão existe mais do que Moisés foi capaz de
O homem, deve-se acrescentar agora, encontra sua receber durante sua vida. Mas, mesmo para os que co­
mais elevada realização na glória divina. Há um pro­ nhecem Cristo nesta vida, existe ainda a consumação
fundo desejo na natureza humana de romper as lim ita­ da glória no mundo por vir. Pois ali finalmente o mais
ções da finitude e compreender Deus como ele é em si profundo anseio da humanidade por ver o próprio
mesmo.103Moisés clamou certa vez a Deus: “Peço-te que Deus se realizará de maneira gloriosa: “Eles verão a
me mostres a tua glória” (Êx 33.18). A despeito de tudo sua face” (Ap 22.4) por toda a eternidade!
o que Moisés tinha visto acerca de Deus,104 ele ansiou Deus é o Deus da glória. Vivamos sempre para o
por ir ainda mais alto e mais longe. louvor dessa glória.
Quando Cristo veio à terra, diz o quarto Evangelho,
“Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo
do Pai” (Jo 1.14). Paulo declarou que Deus “brilhou em

futuro em Salmos 57.5: “Sobre toda a terra esteja a tua glória’


e em Salmos 72.19: “Bendito seja o seu glorioso nome para
sempre; encha-se toda a terra da sua glória. Amém e amém”.
102 A discussão disso pertence ao tema das “Últimas coisas”.
103 “O fim principal do homem é glorificar a Deus e deleitar-se
nele para sempre.” Essa resposta dada à primeira pergunta
no Catecismo menor de Westminster (“Qual é o fim
principal do homem?”) contém uma profunda verdade.
O fato de muitas pessoas — ou a maioria delas — não
viverem para esse objetivo significa uma negação de sua
verdadeira humanidade e um fracasso em conhecer a mais
elevada realização da vida.
104 Lembre as referências mais antigas à vitória sobre o faraó,
quando Moisés e todo o Israel viram que Deus é “glorioso
em poder” e “majestoso em santidade”. Também Deus fa­
lou com Moisés “face a face” (Êx 33.11) como a nenhum
outro homem.

70
4
A santa Trindade

Chegamos agora ao mistério central da fé cris­ mundo pagão com seus muitos deuses, Israel — apesar
tã — a doutrina da santa Trindade ou a doutrina de suas recaídas na idolatria e no politeísmo — procla­
do Deus trino. Aqui nossa consideração é com Deus mava seu monoteísmo radical.
como Trindade ou o Deus trino — “três em um” ou O NT não é menos enfático. Jesus mesmo reafir­
“um Deus em três pessoas” A última é expressão de mou a unicidade de Deus na linguagem do AT: “Ouve,
muitas confissões cristãs e hinos da igreja. A fé cristã
ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único
é a fé no Deus trino.
Senhor” (Mc 12.29). Também devemos observar a
I. UM DEUS oração de Jesus em que ele se dirigiu ao Pai como “o
único Deus verdadeiro” (Jo 17.3). Isso também não
A fé cristã apega-se inequivocamente à fé em um e
muda no restante do NT, por exemplo: “Há um úni­
único Deus. Isso precisa receber grande ênfase porque,
co Deus, o Pai” (ICo 8.6); “Deus, porém, é um” (G1
por mais que se fale acerca da trindade divina ou de
3.20); “um só Deus e Pai de todos” (Ef 4.6); “ao Rei
sua existência em “três pessoas”, nunca é demais afir­
eterno, o Deus único, imortal e invisível” (lTm 1.17).
mar sua unidade ou unitariedade.
Muitas outras referências poderíam ser citadas.
Em meio a um mundo que cultuava muitos deuses,
Independentemente de tudo o que se possa ou
Israel proclamava um monoteísmo radical. Moisés disse
aos israelitas quando se preparavam para entrar na terra deva falar acerca da trindade divina (o fato de ser

prometida: “Reconheçam isso hoje, e ponham no cora­ “três pessoas”), é importante destacar a afirmação bí­
ção que o Se n h o r é Deus em cima nos céus e embaixo blica e cristã da unicidade de Deus. Às vezes se pensa
na terra. Não há nenhum outro” (Dt 4.39). Pouco depois que a fé cristã é uma diluição do monoteísmo radical
Moisés voltou a declarar: “Ouça, ó Israel: O Se n h o r , o de Israel ou que hoje somente o judaísmo presta tes­
nosso Deus, é o único Se n h o r ” (Dt 6.4).1Essa afirmação temunho ao Deus único, o único Senhor. Entretanto,
vigorosa da unidade de Deus, junto com as palavras que isso não ocorre de modo algum. Com o judaísmo, o
se seguem, passou a ser denominada Shemá (“ouça”) cristianismo está firmemente plantado no terreno do
e era recitada duas vezes por dia. Assim, dia após dia, monoteísmo radical.
Israel declarava sua forte fé monoteísta. Isso continuou Aliás, deve-se acrescentar que aqui também existe
em todo o AT, destacando-se especialmente em algumas uma semelhança básica com a fé islâmica. A primeira e
das profecias de Isaías: “Eu sou o primeiro e eu sou o mais importante crença do islamismo está na unicidade
último; além de mim não há Deus” (Is 44.6); Eu sou
de Deus, “Alá”. Uma confissão de fé ou lema simples
0 Se n h o r , e não há nenhum outro” (45.5,6). Contra um1
repetido diariamente por todo muçulmano fiel é: “Só
há um Deus, e Maomé é seu profeta”. Assim, apesar
1 Ou “O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um” (a AEC, ARA
de outras diferenças, o cristianismo, judaísmo e o is­
e ARC dão a mesma ideia que a NVI). O hebraico é YHWH
*élõhênü YHWH ’e h ã d , literalmente “Javé, nosso Deus, lamismo estão juntos ao afirmar a unicidade de Deus.
Javé, um”. Que as três grandes religiões do mundo ocidental estão

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unidas nesse ponto contra todo o politeísmo é um fato existente em três pessoas”.3 O pleno entendimento de
importantíssimo para nosso tempo. Deus é grandemente enriquecido pelo entendimento
A unicidade de Deus possui grande significado de sua realidade tripessoal.
para a vida do homem. Em termos de culto, isso signi­
A. Cada um é uma pessoa
fica que a atenção e devoção podem ser concentradas
num único ponto. Nas palavras seguintes do Shemá: No AT, não há referência distinta à existência de
“Ame o Se n h o r , o seu Deus, de todo o seu coração, Deus em três pessoas. Indicações disso, porém, podem
de toda a sua alma e de todas as suas forças” (Dt 6.5). ser encontradas, primeiramente, no nome de Deus
Se o culto é oferecido a várias deidades, não pode ha­ como Elohim. “No princípio Deus [Elohim] criou” (Gn
ver concentração na devoção. Dedicar “todo” o cora­ 1.1). Elohim é um substantivo plural e, ainda que não
ção, alma ou força a mais de um Deus é tão impossível contenha nenhuma declaração específica à Trindade, é
quanto dedicá-los, no nível humano, a mais que uma bem possível que esteja implícita uma pluralidade de
pessoa. Também, em termos de significado prático, o pessoas.4 Também o palavreado de Gênesis 1.26: “faça­
reconhecimento de um e somente um Deus permite mos o homem à nossa imagem, conforme a nossa seme­
unidade tanto na vida pessoal como na vida comunitá­ lhança” insinua, ainda mais, uma pluralidade em Deus.
ria. A pessoa para quem o único Deus, o único Senhor, Observe também as palavras semelhantes de Gênesis
é o centro possui dentro de si uma força que pode uni­ 3.22: “Agora o homem se tornou como um de nós”; e
ficar toda a vida em sua multiplicidade de relaciona­ Gênesis 11.7: “Venham, desçamos”. Não se declara ne­
mentos e atividades. Do mesmo modo, uma nação que nhuma triunidade de pessoas como tal, mas a ideia de
alega existir “sob Deus” ou que afirma “Confiamos em pluralidade parece estar implícita de maneira clara.
Deus” possui um princípio dinâmico de unidade que Indicações mais claras de uma distinção de pessoas
ajuda a mantê-la unida como nação. Nas Escrituras, a encontram-se em relatos em que o “anjo do Se n h o r ”
afirmação de que há “um Deus e Pai de todos nós” é tanto é distinto do Se n h o r como identificado com ele.
completada com as palavras: “que é sobre todos, por A história de Hagar (Gn 16) é notável nesse sentido.
meio de todos e em todos” (Ef 4.6). Assim, em rela­ Também é relevante a história da visita feita a Abraão
ção ao povo de Deus, o único Deus que é sobre todos, por três homens que se revelaram dois anjos e o Se n h o r
por meio de todos e em todos é o elo de sua unidade (Gn 18 e 19). Talvez o último relato chegue mais perto
essencial.2 A unicidade de Deus, portanto, tem muita de uma indicação da Trindade divina. Outras passagens
importância para todos os aspectos da vida humana. no AT dão a entender duas personagens divinas; por
exemplo, Salmos 45.6,7: “0 teu trono, ó Deus, subsiste
II. EM TRÊS PESSOAS
para todo o sempre; por isso Deus, o teu Deus, esco­
À medida que se desenvolve o testemunho das lheu-te dentre os teus companheiros ungindo-te com
Escrituras, evidencia-se que Deus é revelado como al­ óleo de alegria”.5 Também observe em Salmos 110.1:
guém que existe em três pessoas — a saber, Pai, Filho
e Espírito Santo. Calvino fala disso como “um conhe­ 3 Institutas, 1:13.2 (trad. Beveridge).
4 O nome elõhim é às vezes considerado um “plural majestáti-
cimento mais íntimo de sua natureza”, pois “enquanto
co” ou um “plural intensivo”. Isso podería indicar que toda a
proclama sua unidade, ele se estabelece diante de nós
plenitude da divindade está concentrada nele.
5 No livro de Hebreus, declara-se que a primeira dessas refe­
2 É óbvio que há muita falta de unidade na igreja; entretanto, rências a Deus diz respeito ao Filho: “A respeito do Filho, diz:
isso não invalida sua unidade essencial dada por Deus. ‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre ” (1.8).

72
A s a n ta T rin d a d e

“ 0 Se n h o r disse ao meu Senhor: 'Senta-te à minha Santo é, porém, afirmada com clareza no quarto
direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado Evangelho, onde Jesus diz: “O Espírito Santo, que o Pai
para os teus pés ”.6 Há também trechos no AT em que enviará em meu nome, [ele]10*lhes ensinará todas as
a palavra de Deus ou a sabedoria de Deus é personifi­ coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse”
cada (e.g., v. SI 33.4,6 e Pv 8.22-31); assim, há suges­ (Jo 14.26), e então acrescenta que “o Espírito da verda­
tões de um segundo ao lado de Deus. Por fim, e talvez de que provém do Pai, ele testemunhará a meu respei­
de modo mais significativo, duas passagens em Isaías to” (15.26). Assim, com a declaração da pessoalidade
contêm referências claras a três pessoas ou entidades: do Espírito, todas as três pessoas agora manifestam-se
“E agora o Soberano, o Se n h o r , me [o Messias] en­ com clareza: Pai, Filho e Espírito Santo.
viou, com seu Espírito” (48.16); também “0 Espírito Muitas outras passagens no NT falam de manei­
do Soberano, o Se n h o r , está sobre mim [o Messias], ra variada de três pessoas. Por exemplo: “Vão [...]
porque o Se n h o r ungiu-me para levar boas notícias batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espíri­
aos pobres” (61.1).7Embora essas passagens não retra­ to Santo” (Mt 28.19). Também Paulo escreve que “há
tem especificamente um Deus em três pessoas, apon­ diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo.
tam nessa direção. Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor11 é o
Quando nos voltamos para o NT, observamos que o mesmo. Há diferentes formas de atuação, mas é o mes­
agrupamento de três é ainda mais pronunciado, espe­ mo Deus [...]” (ICo 12.4-6). Em sua bênção tríplice,
cialmente nos nomes Pai, Filho e Espírito Santo e por­ Paulo diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de
que cada um é uma pessoa. Vamos observar algumas
Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos
passagens. Em preparação para o ministério, Jesus
vocês” (2Co 13.14).
foi batizado no rio Jordão e, imediatamente depois,
Vamos tecer mais algumas considerações sobre a
“Jesus viu o céu se abrindo, e o Espírito descendo como
pessoalidade do Espírito Santo. Há muitas outras refe­
pomba sobre ele. Então veio dos céus uma voz: 'Tu és o
rências no NT que retratam o Espírito Santo atuando
meu Filho amado; em ti me agrado1” (Mc 1.10,11).8Há
como uma pessoa. Algumas poucas podem ser men­
três envolvidos: um que fala do céu, um que vem como
cionadas: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra
uma pomba e um sobre quem vem a pomba e que
a que os tenho chamado” (At 13.2); “O próprio Espí­
escuta a voz. O Espírito e o Filho são ambos mencio­
rito intercede por nós” (Rm 8.26); “Não entristeçam o
nados especificamente, e a voz é, sem dúvida, do Pai.
Espírito Santo” (Ef 4.30); “O Espírito e a noiva dizem:
Pai e Filho são inequivocamente pessoas. Entretanto,
‘Vem!’ ” (Ap 22.17). Há muitas outras referências se­
aqui não se diz que o Espírito (ou Espírito Santo) é
melhantes que retratam o Espírito Santo como uma
uma pessoa, embora se possa inferir isso da expressão
pessoa. Portanto, é importante não pensar no Espírito
“descendo como pomba”.9 A pessoalidade do Espírito
Santo como um mero atributo de Deus, como o poder.
Há passagens que podem dar a entender que o Espí­
6 Jesus citou essas palavras como referência parcial a si pró­
rito é o poder de Deus na Criação (e.g., Gn 1.2) ou
prio (Mc 12.35-37).
7 Jesus citou essas palavras no início de seu ministério (Lc
4.18). 10 É significativo observar que embora “Espírito Santo” seja
8 V. os paralelos em Mateus 3.16,17; Lucas 3.21,22 e João neutro no grego (to pneuma to hagion ), a palavra ekeinos,
1.33,34. traduzida por “esse” na ARA, é masculina.
9 0 próximo versículo, que começa com “Logo após, o Espíri­ 11 “Senhor”, aqui, refere-se, sem dúvida, a Jesus, pois Paulo aca­
to o impeliu para o deserto” (v. 12), dá fortes indicações da bava de falar sobre Jesus como Senhor: “Ninguém pode dizer:
pessoalidade do Espírito. ‘Jesus é Senhor, a não ser pelo Espírito Santo” (ICo 12.3).

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na regeneração (e.g., Jo 3.5) ou em Pentecoste, onde o nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9), e assim por diante.
Espírito Santo é prometido e os discípulos recebem po­ Em muitos ensinos e parábolas Jesus retratou o cuidado
der para testemunhar e ministrar (At 1 e 2). O fato de paternal de Deus. Mas, mais que isso, os discípulos vie­
terem sido “cheios do Espírito Santo” (At 2.4; v. 4.31) ram a experimentar Deus como Pai ao participar com
pode soar mais como terem sido carregados de energia Jesus de seu crédito, segurança e confiança na vontade
do que de uma pessoa. Mas em todos esses casos o que de Deus. Era cada vez mais uma vida dominada pela
é importante reconhecer não é que Espírito é igual a realidade de Deus como Pai.
poder, mas que onde está o Espírito de Deus, há po­ Assim também, o restante do NT dá testemunho
der. Além disso, devemos compreender que ser “cheio de Deus como Pai. Não há necessidade de dar indica­
do Espírito Santo” não é simplesmente ser preenchido ções bíblicas, de tantas que são. Mas um versículo em
com uma substância ou força, mas ser plenamente do­ especial pode ser mencionado: “Porque vocês são fi­
minado pelo Espírito Santo, o Espírito pessoal de Deus. lhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de
Por fim, a pessoalidade do Espírito Santo não é só vocês, e ele clama: Aba, Pai’ ” (G14.6). O conhecimento
uma questão de relato bíblico, mas é também confir­ íntimo de Deus como Pai brota no coração do crente
mada na experiência cristã. Para quem conheceu o Es­ por meio do testemunho interno do Espírito Santo.
pírito Santo clamando dentro do coração “Aba, Pai” (G1 Por fim, é importante observar que “Pai” não é só
4.6), ou intercedendo “com gemidos inexprimíveis” um nome para Deus. A palavra indica uma realidade
(Rm 8.26), ou sendo manifestado em um de seus dons, de relacionamento. Ser pai significa ser alguém que
tais como profecia ou línguas (ICo 12.14), não há dú­ gera outro; caso contrário, não há paternidade. Deus
vidas acerca do fato de o Espírito ser uma pessoa real. como Pai, por conseguinte, assume um novíssimo sig­
Na renovação espiritual (ou “carismática”) de nosso nificado no NT em dois aspectos. Primeiro: diz-se que
tempo, um dos testemunhos mais notáveis é de como Deus é Pai de Jesus Cristo num sentido ímpar: “Deus
o Espírito Santo tornou-se real e pessoal para muitos e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15.6; 2Co 1.3 e
indivíduos. Assim, a experiência cristã aprofundada outros trechos). Isso é compreendido não simplesmen­
confirma de modo maravilhoso o relato bíblico. te no sentido temporal, mas como um relacionamento
eterno (v., e.g., Jo 17.1-4). Segundo: ele é também
B. Cada pessoa é Deus
“Deus nosso Pai” (Rm 1.7; ICo 1.3 e outros trechos),
E afirmação cristã que todas essas três pessoas são designação indicativa de que em virtude de termos
Deus. Vamos estudar uma de cada vez. “nascido de novo” somos seus filhos, fomos adotados em
Não pode haver dúvida, primeiro, de que “o Pai” é sua família. Repetindo, “Deus o Pai” não é apenas um
Deus. No AT, o profeta Isaías clama: “ Se n h o r , tu és o nome possível entre outros: é a designação sem igual
nosso Pai” (Is 64.8). A designação de Pai, como tal, é que declara seu relacionamento tanto com Jesus Cristo
rara no AT: entretanto, fica muitas vezes implícita em como com todos os que chegaram à vida nele.
afirmações como: “Assim diz o Se n h o r : Israel é o meu Em seguida, observamos o testemunho bíblico de
primeiro filho” (Êx 4.22); “Quando Israel era menino, que o Filho é Deus. No AT a referência mais direta ao
eu o amei, e do Egito chamei o meu filho” (Os 11.1). Filho encontra-se em Salmos 2.7: “Proclamarei o decre­
Entretanto, é com o advento de Jesus que o enten­ to do Se n h o r : Ele me disse: ‘Tu és meu filho; eu hoje
dimento de Deus como Pai torna-se dominante. Jesus te gerei’ ”. Isso é citado várias vezes no NT como refe­
falou de Deus como seu Pai, usava com frequência a rência a Cristo. Falando da superioridade do Filho em
frase “seu Pai que está nos céus” (e.g., Mt 5.45) ao falar relação aos anjos há as seguintes palavras: “Pois a qual
às multidões, disse aos discípulos que orassem: “Pai dos anjos Deus alguma vez disse: ‘Tu és meu Filho; eu

74
A s a n ta T rin d a d e

hoje te gerei'?” (Hb 1.5).12Esses versículos como tais não diante tratada como o Filho: “Aquele que é a Palavra
afirmam que o Filho é Deus; porém, nos versículos 11 tornou-se carne [...]. Vimos a sua glória, glória como
e 12 do mesmo salmo lemos: “Adorem o Se n h o r com do Unigênito vindo do Pai” (v. 14). Assim, o Filho, a
temor; exultem com tremor. Beijem o filho, para que ele Palavra encarnada, é Deus. Isso surge de novo alguns
não se ire e vocês não sejam destruídos de repente”. É versículos adiante: “Ninguém jamais viu a Deus, mas o
inquestionável que isso implica divindade para o Filho.13 Deus Unigênito,16*que está junto do Pai, o tornou co­
O caso em Hebreus é ainda mais enfático quando traz: nhecido” (v. 18). O “Unigênito”, aqui chamado de Deus,
“A respeito do Filho, diz: ‘O teu trono, ó Deus, subsiste é o Filho, conforme especificado em João 3.16: “Deus
para todo o sempre [...]. Deus,14 o teu Deus, escolheu- tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito”.
-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo O Filho é Deus. Isso, conforme já observamos, é tam­
de alegria ” (v. 8,9). O Filho é indiscutivelmente cha­ bém afirmado em Hebreus 1.8: “A respeito do Filho, diz:
mado “Deus”. A última citação é tomada do salmo 45, ‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre ”.
que, apesar de dirigir-se ao “rei” (v. 1) e o Filho não ser Há muitos outros textos que, sem uso direto da
mencionado como tal, é um salmo messiânico, indi­ terminologia do “Filho”, falam de Jesus Cristo como
cando igualmente o Filho (de novo, v. SI 2). Isso o NT Deus. Por exemplo: “Cristo, que é Deus acima de todos,
deixa bem claro. Fora de Salmos, no livro de Isaías, a re­ bendito para sempre!” (Rm 9.5);^ “a gloriosa manifes­
ferência mais proeminente ao Filho como Deus no AT é tação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”
encontrada nas palavras bem conhecidas: “Um menino (Tt 2.13);18 “a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus
nos nasceu, um filho nos foi dado [...]. E ele será cha­ Cristo” (2Pe 1.1).19 Jesus Cristo como “Deus sobre to­
mado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso” (9.6). dos” e como “Deus e Salvador” aponta claramente para
O Filho será “Deus Poderoso”. o fato de ele ser Deus. A esses textos podem-se acres­
No NT Jesus Cristo é com frequência designa­ centar João 20.28, em que Tomé disse a Jesus: “Senhor
do “o Filho de Deus”. Desde a introdução de Marcos meu e Deus meu!” e Filipenses 2.6, em que se diz que o
1.1, “princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho Cristo pré-encarnado era “em forma de Deus” (AEC).
de Deus”, ao longo dos Evangelhos e das Epístolas, a Não pode sobrar muita dúvida de que o Filho de Deus,
expressão é recorrente. Além de sua designação como Jesus Cristo, é reconhecido como Deus no NT.
“o Filho de Deus”, muitos versículos falam dele dire­
tamente como Deus. O prólogo do evangelho de João muitos versículos seguintes — e.g., v. 6: “Surgiu um homem
começa com as seguintes palavras: “No princípio era enviado por Deus [para theou]n; v. 12: “filhos de Deus [tekna
theou]; v. 18: “Ninguém jamais viu a Deus [simplesmente
aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus”
theon]”. “Um deus” perde todo o significado de João 1.1.
(1.1 ).15A Palavra assim identificada com Deus é daí em 16 Versão da NVI. O grego, tanto no texto de Nestíe como no
da UBS é monogenés theos, literalmente “Deus unigênito”. A
12 V. tb. Atos 13.33 e Hebreus 5.5. ARC e NTLH trazem “Filho unigênito” e “Filho único”. A AEC
13 “Beijar o Filho” é “homenagear o Filho” (como traduz a NASB), e ARA, semelhantes à NIV, trazem “Deus unigênito”. As evi­
implicando a mesma veneração dedicada ao “Senhor” dências dos manuscritos favorecem essa leitura do texto.
14 A RSV traz uma leitura marginal: “Deus é teu trono”. F. F. 17 Assim também na NASB e NIV. A NIV, creio, poderia tradu­
Bruce considera essa leitura “pouco convincente” (Hebrews, zir ainda melhor o texto grego aqui.
NICNT). 18 Aqui a KJV pode confundir, traduzindo por “o grande Deus e
15 Não “um deus”, conforme se encontra na Tradução do Novo nosso Salvador Jesus Cristo”. A AEC e ARA têm em essência
Mundo da organização Testemunhas de Jeová. A palavra a mesma leitura da NIV.
grega é apenas theos, sem artigo, de modo que superficial­ 19 De novo, a KJV segue o padrão anterior, lendo “a justiça de
mente poderia ser traduzida por “um Deus” Entretanto, theos, Deus e nosso Salvador Jesus Cristo”. A AEC, ARA e ARC cor­
significando apenas “Deus”, é encontrada sem artigo em respondem à NIV.

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Contudo, o que é preciso acrescentar agora é que sim, ele é Salvador e também Deus. Elas também en­
esse fato bíblico foi essencialmente uma questão de tregaram toda a vida a ele e ele, continua liderando-as
revelação e experiência pessoal. O que é afirmado no em vitória. Assim, ele é Senhor e também Deus. Que o
versículo inicial do evangelho de Marcos e no prólo­ Filho é Deus é uma verdade suprema.
go de João brotou do encontro dos primeiros discípu­ O Espírito Santo também é Deus. No AT, não se en­
los com Jesus. Precisamos lembrar que os primeiros contra a expressão “o Espírito Santo”. O mais próximo
discípulos eram todos judeus com fé radicalmente disso é “teu Santo Espírito” (SI 51.11) e “seu Espírito
monoteísta (como já se descreveu) e, portanto, colo- Santo” (Is 63.10,11). Entretanto, expressões como “o
cavam-se quase rigidamente contra qualquer ideia de Espírito de Deus”, “o Espírito do Se n h o r ” ou simples­
que Deus fosse outro, senão o Senhor exaltado. Mas, à mente “o Espírito” são comuns. Gênesis declara que “o
medida que conviviam com Jesus, começaram a per­ Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (1.2).
ceber que, por mais humano que Jesus fosse (coisa O Espírito do Senhor vinha com frequência sobre líde­
que não duvidavam de modo algum), havia algo de res escolhidos por Deus (juizes, profetas, reis e outros).
misterioso a seu respeito, algo que as categorias huma­ É o mesmo Espírito Santo, não importa essa variedade
nas não podiam conter. Jesus fazia coisas que só Deus de formas de tratamento.
podia fazer ou que só ele tinha o direito de fazer. Ele No NT, as variações do AT — “Espírito”, “Espírito
perdoava pecados; ele acalmava as ondas do mar; ele de Deus”, “Espírito do Senhor” — continuam. Entre­
ressuscitava mortos. Os discípulos se viram (para nós tanto, em acréscimo, há o “o Espírito do Pai de vocês”
é difícil imaginar como aquilo era assombroso) judeus (Mt 10.20), “o Espírito de Jesus” (At 16.7), “o Espírito
ortodoxos dirigindo-se a Jesus como Senhor20 e pros- de Cristo” (Rm 8.9), “o Espírito de seu Filho” (G1 4.6)
trando-se diante dele em adoração,21 convencidos de
e “o Espírito de Jesus Cristo” (Fp 1.19). Todas elas são
sua ressurreição depois de ter sido levado à morte.22
reunidas na expressão “o Espírito Santo”, que ocorre
Eles passaram a conhecê-lo também como Salvador,
em todo o NT. E em todos esses casos ele é “o Espírito
pois receberam seu perdão pela graça após uma noite
Santo de Deus” (Ef 4.30).
terrível de traição e negação e encontraram vida nova
Será, porém, que essas referências do AT e do NT
em seu nome. Como poderiam duvidar? Ali realmente
demonstram claramente que o Espírito Santo é Deus?
estava Deus em alguém que se denominava “o Filho do
Já vimos que o Espírito Santo é pessoal. Então o Es­
homem”; não era ele também verdadeiramente o Filho
pírito não seria uma simples manifestação pessoal de
de Deus — até mesmo Deus?
Deus? Não, pois, à medida que se desenvolve a revela­
Que Jesus Cristo, o Filho, é Deus continua sendo até
ção bíblica, torna-se cada vez mais evidente que o Es­
hoje a afirmação genuína da fé cristã. A Bíblia, decerto,
pírito Santo é Deus. O “Espírito do Pai de vocês” é o
presta testemunho desse fato, mas o que incontáveis
“Espírito da verdade” que procede do Pai (Jo 15.26) e
pessoas têm encontrado por meio da experiência pes­
é Deus; o “Espírito de Cristo” é o Espírito “derramado”
soal é que Jesus prova ser tudo o que as Escrituras di­
(At 2.33) por meio de Cristo e é Deus. Quando na igre­
zem. Elas sabem que ele operou a salvação no coração
ja primitiva Ananias foi acusado de ter mentido “ao
delas e que ninguém, exceto Deus, pode fazer isso. As­
Espírito Santo”, Pedro declarou: “Você não mentiu aos
homens, mas sim a Deus” (At 5.3,4). O Espírito Santo é
20 V. Lucas 5.8.
21 E.g., Mateus 14.33.
Deus na pessoa do Espírito.
22 Na realidade, foi só depois da ressurreição de Jesus que bro­ É importante salientar que o Espírito Santo como
tou a convicção plena de sua deidade (v. Jo 20.28). Deus era um fato bem vivenciado na igreja primitiva.

76
A s a n ta T rin d a d e

Tendo conhecido o Espírito Santo no Pentecoste e vi­ i.e., heresias — que poderiam estragar ou mesmo
vendo dia a dia em meio “aos atos do Espírito Santo” destruir a verdadeira fé.
(como registra o livro de Atos), os crentes estavam Vamos tentar apresentar com reverência e de ma­
afirmando uma realidade existencial quase devasta­ neira ordenada a fé da comunidade cristã, segundo a
dora. Os homens eram muitas vezes descritos como qual existe um Deus em três pessoas. Devemos fazer
“cheios do Espírito” (At 6.3,5; 7.55; 11.24); missioná­ isso principalmente com base no testemunho bíblico,
rios eram comissionados pelo Espírito Santo (e.g., mas sem deixar de esquematizar em nível secundário a
At 13.1ss); os apóstolos e presbíteros podiam dizer: reflexão da igreja e a sua experiência com ela.
“pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28);
A. Todas as pessoas da Divindade são Deus
o Espírito Santo mudou o itinerário de Paulo na Ásia
(At 16.6-8), e um profeta declarou: “Assim diz o Espí­ O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é
rito Santo” (At 21.11). Em suma, o Espírito Santo era Deus. Portanto, existe um ser, uma realidade. Não exis­
a realidade orientadora e sempre presente na igreja tem três Deuses, mas um só. A fé cristã não é triteísta.
apostólica. Os primeiros cristãos sabiam que ele era O Pai é o único Deus e, de igual modo, o Filho e o Es­
Deus de um modo quase devastador. pírito Santo. Assim, o Pai é totalmente Deus, o Filho é
Na renovação espiritual contemporânea, tem havi­ totalmente Deus e o Espírito Santo é totalmente Deus:
do uma consciência semelhante da presença e poder não existe profundidade, largura ou comprimento da
de Deus no Espírito Santo. Para muitos, ocorreu um realidade divina que não seja plenamente Pai, Filho
novo derramar pentecostal do Espírito na vida, de e Espírito Santo. A Divindade, por conseguinte, não é
modo que o que talvez fosse antes um tanto nebulo­ algo que fica por trás (ou que é a origem) do ser do Pai,
so tornou-se realidade viva. A declaração: “O Espírito do Filho e do Espírito Santo.
Santo não é mais um ‘fantasma ”,23 representa o que Portanto, Pai, Filho e Espírito Santo são a mesma
muitos têm experimentado. O Espírito Santo é o Deus essência. Usando a linguagem do Credo niceno (325
real em sua presença e atividade pessoais dinâmicas. d.C.), eles são homoousios,24 Dessa forma, embora o
Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam diferentes como
III. UM DEUS EM TRÊS PESSOAS
pessoas, não são diferentes na essência.25 A inteira
Agora que discutimos o fato de que existe um Deus, essência, indivisa, pertence a cada uma das três pes­
e um somente, mas também três pessoas, cada uma soas. Para usar uma expressão latina, eles são una
das quais é Deus, surge a pergunta: “Como se deve en­ substantia, “uma substância”: são “consubstanciais”.
tender isso? Como pode existir um Deus em três pes­ Existe certo perigo de palavras como “essência” e
soas?”. É aqui que nos confrontamos com o mistério do “substância” implicarem que Deus é impessoal. A in­
Deus trino. Embora tentemos, não podemos esperar tenção, porém, é simplesmente dizer que o ser con­
compreendê-lo plenamente. creto do Pai, do Filho e do Espírito Santo é o mesmo:
A igreja nos primeiros séculos lutou em especial eles são idênticos em seu ser.
com o problema de como declarar isso e finalmente
chegou a algumas afirmações. No mínimo era um es­ 24 Homo = “mesmo”; ousios = “essência”.
25 Embora homoousios seja usado no Credo niceno somente
forço da igreja não só por tornar claro o seu próprio
para descrever Cristo em relação ao Pai (“de mesma essên­
entendimento, mas também por eliminar desvios —
cia que o Pai”), foi aplicado mais tarde também para o Espí­
rito Santo. 0 Credo niceno afirmou a plena divindade de
23 Palavras de um testemunho pessoal. Cristo, mas não fala isso em relação ao Espírito Santo.

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T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

Portanto, seja o que for que se diga sobre o Pai ge­ eterno, santo, amoroso, todo-poderoso, onisciente —
rando o Filho e o Espírito procedendo do Pai, não se se aplica igualmente ao Pai, Filho27 e Espírito Santo.
deve entender como se o Filho e o Espírito recebessem Por fim, eles são um nas obras: o único e mesmo Deus
a sua essência ou o seu ser do Pai. O que é gerado ou opera na criação, redenção e capacitação. O que o Pai
procede não é a essência, mas a pessoalidade. A gera­ faz, o Filho faz e o Espírito Santo faz. Ou, expressando
ção e a processão são eternas; desse modo, o relacio­ isso de modo um pouco diferente, não há obra do Pai
namento é inerente à realidade divina única. Isso é às que não seja obra do Filho e do Espírito Santo. Todas
vezes designado como perichoresis (ou “coinerência”) as obras do Deus trino são indivisíveis.28
das pessoas, e então se diz que as três pessoas estão Isso é altamente significativo para a vida cristã. Por
uma nas outras e se interpenetram mutuamente. Cada exemplo, ao adorar o Filho ou o Espírito Santo, não es­
uma das pessoas, por conseguinte, contém a totalidade tamos com isso cultuando alguém menor que Deus ou
da Divindade e é o único e indiviso Deus. só uma parte de Deus, tampouco estamos desonrando
Outro modo de descrever essa unidade do Deus as outras pessoas. Se oramos: “Senhor Jesus, te adoro”,
trino é entendê-la como uma união superpessoal de a atenção é dirigida à pessoa do Filho, mas não é que
três pessoas divinas — Pai, Filho e Espírito Santo — Deus em sua totalidade esteja sendo desconsiderado.
de uma modalidade tão intensa que existe somente Se nos voltamos para o Espírito Santo em busca de po­
um Deus. Uma vez que o amor é a natureza essencial der para testemunhar e vivenciar os dons do Espírito,
estamos contando que Deus em seu todo (Pai e Filho
de Deus, e amor (agapê) significa doar-se a outro, en­
também) estará envolvido.29 Se falarmos sobre a obra
tão Deus é em si mesmo uma totalidade tal de autodo-
do Deus Pai na criação, não estamos com isso descon­
ação que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são unidos
siderando o Filho e o Espírito Santo,30porque cada um
como um Deus. Como um escritor descreveu isso:
está plenamente envolvido. Também não podemos
“Deus é em si mesmo não uma simples unidade, mas
considerar o Pai de alguma maneira mais santo que o
um ser complexo e multifacetado, a união e comunhão
Filho, ou o Filho mais amoroso do que o Pai,31 ou o Es­
de três pessoas divinas”.26 Portanto, a linguagem técni­
pírito mais preocupado que ambos com o viver cristão.
ca da perichoresis assume um significado vivo na união
Em tudo na vida cristã louvamos e reconhecemos o
sobrenatural de amor.
único Deus em cada pessoa. É bom saber que em todas
Uma vez que Pai, Filho e Espírito Santo são da mes­
as nossas relações com o Pai, Filho e Espírito Santo,
ma essência ou ser, cada um deles deve ser adorado
estamos lidando com o único e verdadeiro Deus.
e honrado como o único Deus. O Credo de Constan-
tinopla (381 d.C.), que afirmou a plena divindade do
27 Não estamos falando aqui do Filho encarnado, para o qual
Espírito Santo (Niceia já havia feito isso em relação a
havia limitação na essência de alguns desses atributos (v.
Jesus Cristo), fala do “Espírito Santo [...] que com o Pai discussão mais completa no cap. 13, “A encarnação”).
e o Filho é conjuntamente adorado e glorificado”. Eles 28 A expressão latina tradicionalmente usada para isso é omnia
têm também os mesmos atributos. Seja o que for que opera trinitatis indivisa sunt.
se diga sobre Deus — por exemplo, que ele é infinito, 29 Quanto aos dons, isso é apresentado de forma linda em
lCoríntios 12.4-6.
30 Isso será observado com mais detalhes no capítulo seguinte,
26 L o w ry , Charles. The Trinity and C h ristian D evotion, sobre a Criação.
p. 104. Lowry adverte da visão de unidade ou unicidade 31 Como, por exemplo, em algumas concepções de expiação
concebida em termos de abstração matemática. O melhor que retratam o “Pai santo” exigindo punição e o “Jesus amo­
modelo é “a analogia de um organismo complexo, animado roso” interpondo-se entre o Pai e nós. Ambos, Pai e Filho, são
por um princípio ou centro organizador singular, mas cons­ santos e amorosos. Discutiremos isso com mais detalhes no
tituído de diversos elementos” (p. 102). cap. 14, “Expiação”.

78
A s a n ta T rin d a d e

B. As pessoas da Divindade são distintas meras manifestações de um Deus. A Trindade não é só


uma em manifestação, mas também uma em essência.
0 Pai não é o Filho, e o Filho não é o Espírito Santo.
Deus, como Deus, à parte qualquer manifestação exte­
De fato, nenhum dos três é um outro: existem três pes­
rior, é um ser em três hipóstases permanentes — um
soas. O Pai é uma pessoa distinta, assim como o Filho e
Deus em três pessoas.
o Espírito Santo. As três pessoas existem eternamente;
A seguir observamos que há uma distinção de
os termos “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo” não são me­
“propriedades” pessoais dentro do ente divino. O termo
ras figuras de linguagem ou títulos (portanto mutáveis
“propriedades” significa características que pertencem
e temporários), tampouco são expressões das várias às três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo — e, por
maneiras pelas quais Deus se revela. A fé cristã não é conseguinte, são exclusivas de cada uma. Vamos con­
modalista; i.e., não sustenta que esses termos são sim­ siderá-las em sequência.
plesmente nomes dados aos diferentes modos de ação A propriedade de Deus Pai é geração. O Pai, que
do único ser divino (os modos não teriam, assim, exis­ “não é gerado”, “gera” eternamente o Filho.34 Isso não
tência ontológica).32 O Pai, o Filho e o Espírito Santo é uma obra da vontade do Pai, mas uma propriedade
são e permanecem eternamente pessoas distintas. de sua natureza. Assim, essa geração eterna não é uma
Usando a linguagem mais técnica desenvolvida obra de criação (o Filho não é criado), mas de gera­
pela igreja primitiva, existem três “substâncias” ou “hi- ção. Deus não seria Deus sem essa geração eterna.
póstases” dentro de uma única essência divina. Isso A propriedade do Filho é 3.filiação. Ele recebe sua sub­
quer dizer que existem distinções permanentes (não sistência pessoal, mas não sua essência divina, do Pai e
divisões) dentro da Divindade. Cada substância (ou é eternamente o Filho. Portanto, ele é subordinado ao
hipóstase) é a essência no seu todo e, contudo, cada Pai, não em existência, mas em relacionamento. A pro­
uma delas retém sua própria característica distintiva. priedade do Espírito Santo é a processão. O Espírito
A “triplicidade”, portanto, não é removida na “unici- Santo procede eternamente do Pai.35 Nunca houve um
dade”: Pai, Filho e Espírito Santo foram, são e serão
eternamente substâncias ou pessoas33 distintas dentro 34 Jesus é chamado “unigênito” em várias partes dos escritos de
da unidade da Divindade. João: ele é “o Unigênito rindo do Pai” (Jo 1.14), “o seu Filho
Unigênito” (Jo 3.16; 1Jo 4.9), “o Filho Unigênito de Deus”
Tudo isso é importante para alertar contra qual­
(Jo 3.18). A palavra traduzida por “unigênito” é monogenês.
quer ideia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são
De acordo com TDNT, sempre que é encontrado no NT,
monogenês “significa ‘unigênito’ ” e no caso de Jesus signi­
32 Esse foi o erro de Sabélio (séc. III), repetido hoje pelas igre­ fica uma “geração eterna” (cf. v. 4, p. 739-741). Essa gera­
jas pentecostais unicistas. ção eterna é também indicada na linguagem de João 1.18
33 A palavra “substância”, a despeito de seu sabor altamente — “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que
técnico, pode servir como prevenção contra qualquer ideia está junto do Pai”. A leitura “o Deus unigênito” tem se tor­
de que os três são pessoas no sentido comum do termo. Para nado cada vez mais aceita, tendo a melhor sustentação em
nós, a palavra “pessoas” normalmente significa três indi­ manuscritos. V., e.g.: Morris, Leon. The Gospel According
víduos separados, não importa quão intimamente estejam to John, NICNT, p. 113; Bruce, F. F. The G ospel o f John,
relacionados uns com os outros; por isso, usar o termo para p. 44-45. Evidentemente, a “geração eterna” não se refere
Deus poderia sugerir três deuses, ou triteísmo. Entretanto, a um início na eternidade, de modo que tenha havido um
embora “substâncias” (ou “hipóstases”) possam servir me­ tempo em que o Filho não existia. Ele, como Filho do Pai,
lhor para evitar tendências triteísticas, existe outro perigo sempre foi, é e será o Filho de Deus.
talvez maior de atenuar o aspecto pessoal. Creio que tanto o 35 No evangelho de João, Jesus fala do Espírito Santo como “o
termo técnico como o pessoal são necessários. Espírito da verdade que provém do Pai” (15.26). O contexto

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tempo em que essa processão não estava ocorrendo; o criação (assim como da pessoalidade do Filho). Dele
Espírito Santo, pois, não existe pela vontade de Deus, surgiu tudo o que existe fora dele. Isso não significa
mas, como o Filho, é uma propriedade de sua natureza. que o Filho e o Espírito não participam também do
Tudo isso — por demais vasto e misterioso para ato da Criação (como se observou), pois o Pai cria por
nossa compreensão — pode ser descrito como um meio do Filho e do Espírito. Entretanto, o Pai é Criador
processo de vida em que o Pai se objetiva eternamente num sentido especial; foi ele que deu existência a todas
no Filho e produz sua plenitude no Espírito Santo. Para as coisas.38 O segundo ato é o da encarnação do Filho.
usar uma linguagem mais bíblica, é possível ver as re­ O Filho eterno, a Palavra de Deus tornou-se carne.
lações internas como o Pai glorificando-se eternamen­ Sem deixar de ser Deus, ele se tornou homem. O Pai e
te no Filho36 e o Espírito Santo sondando eternamente o Espírito Santo também participaram da encarnação:
as profundezas da Deidade.37 Por fim, uma vez que o Pai deu o Filho, e o Filho foi concebido na carne pelo
Deus é amor, podemos ver o todo — as propriedades Espírito Santo. Entretanto, foi o Filho (não o Pai ou
de geração, filiação e processão — como as realizações o Espírito) que se tornou ser humano. O terceiro ato é o
internas do amor. O amor não é amor se não houver da vinda do Espírito Santo. O Espírito Santo, terceira
um objeto (o Pai ama o Filho), nem se não houver um Pessoa da Trindade, veio sobre39 as pessoas. O Espírito,
transbordar (a processão do Espírito). Todas as figu­ que procede eternamente da Divindade, foi enviado
ras caem por terra, porém, quando se tenta elucidar as pelo Pai por meio do Filho. Assim, embora ele fosse o
propriedades e relações internas daquele que é o Deus Espírito do Pai e do Filho, foi o Espírito Santo quem
único e misterioso — que é Pai, Filho e Espírito Santo. veio pessoalmente. A criação pelo Pai, a encarnação
Além das propriedades internas do Deus trino, há do Filho e a vinda do Espírito Santo: cada um é um
também os atos externos. Trata-se de atos de poder em ato peculiar de uma Pessoa divina; mas todos são atos
que Deus se estende para fora de si. O primeiro ato é o poderosos de um único Deus.
da criação por Deus Pai. O Pai é a fonte e a origem da Agora que elaboramos tudo isso acerca do Deus
trino, precisamos confessar que estivemos trabalhan­
imediato dessas palavras é o de Jesus enviando o Espírito: do, do começo ao fim, no campo do mistério. Não há
“Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da par­ caminho pelo qual nós, os seres humanos, possamos
te do Pai, o Espírito da verdade”. Jesus é o Mediador; mas, a
compreender de maneira adequada o significado de
fonte original é o Pai — “que provém do Pai” Embora se possa
um Deus em três pessoas. Fazemos bem em encerrar,
argumentar que Jesus não está falando de processão eterna,
isso parece estar implícito. Aliás, em harmonia com isso, a for­ pois, não em reflexão, mas em devoção, entoando de
mulação do Credo de Constantinopla, da Igreja ortodoxa, coração algumas palavras do hino de Reginald Heber:
declara: “Cremos [...] no Espírito Santo, Senhor e Vivificador,
que procede do Pai”. (O Concilio de Toledo, em 589, acrescen­ Santo! Santo! Santo!
tou “e do Filho” \filioque]. Esse termo, filioque, parece inade­
Cantam de manhã nossas vozes com ardor.
quado porque, ainda que tenha sido enviado pelo Filho [e o
Santo! Santo! Santo! Justo e compassivo!
Pai — v. Jo 14.26], a processão, conforme afirma João 15.26,
És Deus trino, excelso Criador!40
é só do Pai.) A processão eterna do Espírito continua sendo
afirmada pela igreja em geral até o presente.
36 Palavras na oração de Jesus indicam essa glorificação eter­ 38 O Credo apostólico o expressa bem: “Creio em Deus Pai
na: “Pai, glorifica-me junto a ti, com a glória que eu tinha Todo-poderoso, Criador do céu e da terra”.
contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.5). 39 Podemos acrescentar “e vem sobre” porque a vinda do Espí­
37 “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais rito Santo é uma vida recorrente. Isso será discutido no v. 2.
profundas de Deus” (ICo 2.10). 40 Tradução de João Gomes da Rocha.

80
5
Criação

Na doutrina da criação, vemo-nos no início dos atos Criação seja logicamente anterior à eleição de Israel,
poderosos de Deus que se relacionam com o Universo a revelação e a compreensão da verdade sobre ela é
constituído e o homem. “No princípio criou Deus...” posterior à da eleição.
A verdade da Criação pertence, por conseguinte, à
I. BASE
arena da fé. Ela foi aberta a uma linhagem de pessoas
A base da doutrina da criação é a revelação divina. que, apesar de todos os seus erros e falhas, era um povo
A Criação é um vasto mistério, incompreensível à de fé. Por exemplo, lembre-se das palavras em Hebreus
mente humana e, portanto, uma verdade que o pró­ 11: “Pela fé o povo atravessou o mar Vermelho” (v. 29).
prio Deus tornou conhecida. A verdade é apresentada Acima deles, sobressaía como uma torre um gigante da
na revelação especial ao povo de Deus no AT e no NT. fé como Moisés (v. 23-28), para quem é bem provável
A Criação pertence — junto com outros mistérios que tenha sido revelado todo o drama da Criação, de
como a eleição, a redenção e a consumação final — à modo que o livro de Gênesis é chamado tradicional­
autorrevelação de Deus. mente de “o primeiro livro de Moisés”.
Na ordem real da autorrevelação, o ato divino da É, por conseguinte, bem significativo recordar as pa­
Criação deve ter se seguido à eleição.1No AT, Deus se lavras anteriores sobre a Criação em Hebreus 11: “É pela
revelou primeiro aos patriarcas e a Israel como aque­ fé que entendemos que o Universo2 foi criado5pela pala­
le que os chamou e escolheu para uma missão espe­ vra de Deus” (v. 3). Dali para a frente, essa fé é ilustrada
cial. Ele era o Senhor a quem Israel devia a própria por referências a muitos como Noé, Abraão e Moisés, e o
existência. Depois, ele é de novo o Redentor de Israel, próprio povo de Israel (exatamente como observamos).
que o tirou da servidão no Egito. Portanto, essa reve­ Mas, uma vez que o livro de Hebreus foi escrito para os
lação de Deus como Senhor e Redentor precedeu a cristãos, isso significa que pela fé nós também entende­
sua autorrevelação como Criador. De fato, a primeira mos que o Universo tem um Criador divino.
preparou o caminho para o que veio depois. Aque­
le que era o Senhor absoluto de Israel foi também o 2 Substituí “mundo” por “Universo” (como na NVI e ARA).

Criador de todas as coisas. Ele não poderia ser o Senhor A palavra grega é aiõnas (lit. “eras”); entretanto, como diz
F. F. B ruce , uo que se designa é o Universo de espaço e
de um povo se não fosse Soberano sobre todos os po­
tempo” (Hebrews, XICNT).
vos — desde o início da raça humana. Ele não pode­ 3 A palavra grega é katêrtisthai. É traduzida por “criado” na
ria ter feito recuar as águas do mar Vermelho se não AEC e NTLH. Qualquer uma dessas é possível, assim como
fosse o Senhor de todos os mares (e de tudo o mais na “formado”. Entretanto, creio que “criar” é a ideia essencial,

criação) — desde o início do mundo. Porque Deus é mas não sem um sentido de continuação da existência,
como outras traduções sugerem. Weymouth, em New
0 Senhor absoluto, não havendo nenhum outro igual,
Testam ent in M odern Speech, traduz: “O mundo veio à
ele é o Criador dos céus e da terra. Portanto, embora a
existência e ainda existe” e acrescenta numa nota de roda­
pé: “Tudo isso é expresso por uma palavra grega no tempo
1 V. uma discussão sobre “Eleição” no v. 2, cap. 1, “Chamado”. perfeito grego [katêrtisthai]”.

81
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Como o crente em Cristo sabe disso? Ele entende Por conseguinte, procurar interpretar a doutrina da
em grande medida do mesmo modo que os israelitas criação para o incrédulo também tem pouca utilida­
entenderam, ou seja, em virtude do chamado e elei­ de. “O homem natural [...] não é capaz de entendê-las”
ção de Deus e de sua ação como o Senhor e Salvador. (ICo 2.14); deve haver olhos da fé iluminados pelo Es­
Entretanto, isso se dá num nível muito mais profundo pírito Santo. Isso se aplica à doutrina da criação exata­
do que qualquer coisa no AT, pois em Jesus Cristo o mente como a qualquer outra área da fé cristã.
crente e, portanto, a comunidade cristã conhecem um A base final para a doutrina da criação é a Escri­
milagre muito maior que a redenção do Egito. Pela fé, tura. Se parece surpreendente que a Escritura seja
os cristãos ouviram a Palavra de Deus, receberam a vida mencionada em terceiro lugar, isso não significa em
e escaparam da morte, e encontraram um novo Senhor. absoluto minimizar a importância da Bíblia, pois as
Ele deriva de Deus toda a sua existência cristã. Se Cristo, Escrituras são normativas e têm autoridade em toda a
a Palavra Viva de Deus, trouxe à existência uma nova sua extensão. A questão, porém, é que sem uma apre­
criação na vida do crente mediante a fé, este é preparado ciação da revelação e da fé e uma participação na fé, as
para entender o fato de que toda a criação veio da mes­ Escrituras são um livro fechado. É até possível estru­
ma Palavra. De novo, na linguagem de Hebreus: “Pela turar uma doutrina da criação que procure do começo
fé entendemos [a comunidade dos crentes em Cristo] ao fim ser totalmente direcionada por textos bíblicos
que o Universo foi formado pela palavra de Deus”. e ainda assim não haver vida nem entendimento. Mas
A pessoa que pela fé já experimentou o milagre da nova onde houver revelação e fé (como ela foi descrita), to­
criação entende, mediante essa mesma fé, que toda a das as Escrituras relevantes assumem novo significado.
criação tem sua origem em Deus e sua Palavra. As Escrituras, portanto, apesar de toda a sua im­
Outro versículo significativo da Escritura pode ser portância, não são a razão primária para se crer na
observado aqui. Paulo, numa linda passagem sobre a Criação ou na obra divina da criação. A revelação e a
fé, fala de Deus como aquele que “dá vida aos mortos e fé têm precedência.4 Portanto, a afirmação de que al­
chama à existência coisas que não existem” (Rm 4.17). guém crê no milagre da Criação “porque a Bíblia diz”,
O mesmo Deus que levanta da morte para a vida foi embora possa ser uma declaração válida e verdadeira,
quem do nada deu existência ao Universo. Embora precisa de um embasamento mais profundo da fé. An­
cronologicamente este fato seja anterior àquele, a pes­ tes da declaração: “Pela fé entendemos que o Universo
soa que nasceu de novo pela fé é quem pode entender o foi formado pela palavra de Deus”, vêm as palavras:
nascimento ou a criação de todas as coisas pelo mesmo “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova5
Deus que opera milagres. das coisas que não vemos” (Hb 11.1). A fé contém a
É muito importante que tudo isso seja destacado convicção sobre a criação — “coisas que não vemos”
ao lidarmos com a doutrina da criação. Sem os olhos Sem tal convicção e fé, a doutrina da criação carece de
da fé — a fé pela qual a nova criação é uma realida­ solidez e profundidade.
de — e a iluminação do Espírito, não há como real­
mente entender a criação de todas as coisas. Portanto, 4 Contudo, ler as Escrituras também pode despertar fé
Gênesis 1 e 2, como tudo o mais nas Escrituras, deve (v.Rm 10.17).
5 A palavra grega é elenchos, traduzida por “prova” na NVI.
ser lido da perspectiva da fé. Não adianta ler simples­
A ARA traz: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam,
mente com o entendimento natural, como se fosse um
a convicção de fatos que se não veem”. A ideia de certeza é
tratado sobre a Criação para ser lido e compreendido bem fundamentada e salienta que a afirmação da Criação
de igual modo tanto por crentes como por não crentes. diz respeito à certeza da fé.

82
C ria ç ã o

A importância da Escritura está no fato de que nela animais selvagens e os rebanhos domésticos, todos os
temos um registro autorizado e normativo, que nos dará demais seres vivos e as aves” (v. 7-10).
direção e orientação. A fé, embora contenha convicção, O aspecto importante em tudo isso é que a cria­
até mesmo certeza, não é um guia seguro. A Bíblia, ção deve ser motivo de regozijo para todas as criaturas
dentro do contexto da revelação e fé, é a única regra in­ de Deus, que louvam e bendizem o seu Criador. Não é
falível de fé para todo o nosso entendimento da doutrina como Deus criou, mas o fato de ter feito isso. Precisa­
da criação. mos reconhecer que todo o vasto panorama do Uni­
verso e todas as coisas que nele há devem fazer ressoar
II. ATITUDE
louvor ao Criador.
A atitude primária diante da doutrina da criação Outra atitude, bem semelhante, diante da doutri­
é de adoração e louvor. Talvez o melhor lugar para co­ na da Criação é de admiração e assombro. Quem teve
meçar seja com o salmista, que inicia uma bela e longa seus olhos abertos pela fé começa agora a apreciar
meditação sobre a Criação com as seguintes palavras: ainda mais as maravilhas do que Deus fez na Criação.
“Bendiga o Se n h o r a minha alma! Ó Se n h o r , meu O salmista clama: “Meditarei no glorioso esplendor
Deus, tu és tão grandioso!” (SI 104.1). Daí em diante da tua majestade e nas tuas maravilhas” (SI 145.5,
ele se dirige a Deus: “Ele estende os céus como uma ARA). Quanto mais se medita no mistério e milagre
tenda [...]. Firmaste a terra sobre os seus fundamentos da Criação, tanto mais cresce o sentimento de assom­
para que jamais se abale; com as torrentes do abismo a bro diante do que Deus fez.
cobriste, como se fossem uma veste; as águas subiram “No princípio Deus criou” — só essas palavras de
acima dos montes. Diante das tuas ameaças as águas abertura da Bíblia já assombram a imaginação. Não
fugiram [...]. Quantas são as tuas obras, Se n h o r ! Fizes­ havia nada fora do próprio Deus — Pai, Filho e Espíri­
te todas elas com sabedoria!” (v. 1,2,5-7,24). E então to Santo; e então Deus projetou o Universo. Quem não
vem o clímax: “Cantarei ao Se n h o r toda a minha vida; ficaria totalmente maravilhado? Além do mais, somos
louvarei ao meu Deus enquanto eu viver” (v. 33). Essas privilegiados por fazer parte disso e perceber a criação
palavras expressam a abordagem primária à Criação, em todo o seu reflexo da glória de Deus. Verdadeira­
ou seja, regozijar-se com o que Deus fez e lhe dar louvor mente, “Os céus declaram a glória de Deus; o firma­
e ação de graças por tudo isso. mento proclama a obra das suas mãos” (SI 19.1).
Outra passagem bonita é o salmo 148, em que o Portanto, achegar-se à doutrina da criação com
salmista dessa vez não oferece louvor ele mesmo, mas um sentimento de assombro com a maravilha do que
convida a criação de Deus a render louvor ao Senhor. Deus fez é totalmente correto e adequado. Não é uma
“Louvem-no sol e lua, louvem-no todas as estrelas questão de buscar entendimento, mas de permitir que
cintilantes. Louvem-no os mais altos céus e as águas a grandeza da ação criativa de Deus preencha cada vez
acima do firmamento. Louvem todos eles o nome do mais a nossa existência. Como és grande, ó Deus!
Se n h o r , pois ordenou, e eles foram criados” (v. 3-5). Uma terceira atitude diante da doutrina da criação
Depois de convocar as hostes celestiais para louvar o — uma atitude que decorre das outras duas — é a de
Senhor, o salmista chama a seguir as coisas da terra: profunda humildade. Na presença do grande ato cria­
“Louvem o Se n h o r , vocês que estão na terra, ser­ tivo de Deus, só podemos perceber como é ínfimo o
pentes marinhas e todas as profundezas, relâmpagos que nossa mente é capaz de apreender e como é grande
e granizo, neve e neblina [...] todas as montanhas e nossa necessidade de sermos ensinados por Deus, sua
colinas, árvores frutíferas e todos os cedros, todos os Palavra e seu Espírito. As palavras de Jó são adequadas:

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T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

“Escute isto, Jó; pare e reflita nas maravilhas de essencialmente à criação do nada7 — ou seja, origi­
Deus. Acaso você sabe como Deus comanda as nuvens nalidade absoluta.
e faz brilhar os seus relâmpagos? Você sabe como fi­
A propósito, a afirmação bíblica da creatio ex
cam suspensas as nuvens, essas maravilhas daquele
nihilo era totalmente estranha à compreensão filo­
que tem perfeito conhecimento?” (37.14-16).
sófica e religiosa antiga. Por exemplo, na filosofia de
Na presença do grande ato da Criação, por mais Platão, entendia-se que o mundo fora criado de al­
que nos empenhemos para compreender, é muito guma matéria primai. O “demiurgo”, ou o “Criador”
pouco o que conseguimos captar de todo o seu mis­ de Platão, moldou o mundo do que já havia, mas não
tério. Precisamos, pois, de humildade para permitir o criou.8 Seria um contrassenso supor que o mundo
que Deus nos ensine mediante sua própria revelação veio do nada, pois “do nada nada surge”.9 Na mito­
o que ele deseja que saibamos. logia babilônica, que contém o mais elevado quadro
da Criação do mundo antigo: o deus Marduque lu­
III. DEFINIÇÃO
tou contra Tiamate, o monstro do caos, e o matou;
A Criação pode ser definida como o ato pelo qual o mundo foi composto de fragmentos de sua carca­
Deus deu existência ao Universo. É fazer surgir o que ça. Aqui, de novo, não é uma criação do nada, mas
não existia. A linguagem de Hebreus 11.3, logo de­ com base em algo. O mundo foi feito, mas não criado.
pois da declaração acerca do Universo ter sido criado Qualquer concepção desse tipo é totalmente contrá­
pela palavra de Deus, são as palavras: “De modo que ria ao quadro bíblico, a saber, que todo o movimento
aquilo que se vê não foi feito do que é visível”, quer da Criação não partiu do preexistente para o existen­
dizer, de nenhuma realidade preexistente.
te, mas do nada para a existência.10
A Criação, por conseguinte, é absolutamente
original O que foi criado por Deus não surgiu de
7 “Bãra [...] jamais está ligada a uma declaração do mate­
um material preexistente. É creatio ex nihiloy“cria­ rial” (ibid.). Isso não significa necessariamente que não se
ção do nada”. “No princípio Deus criou os céus e a implica nenhum material; por exemplo, Deus que criou o
terra” — assim diz Gênesis 1.1. Não há nenhuma homem (v. adiante) usando pó (barro). Entretanto, Deus
declaração sobre algum recurso material de que introduziu algo totalmente novo na situação. “A prin­
cipal ênfase da palavra bãra está na novidade do objeto
Deus se tenha valído. O que se aponta aqui não tem
criado” ( TWOT, v. 1. p. 127). E rickson escreve que bãra
paralelos6 na experiência humana, porque a ativida­
“jamais aparece com um acusativo denotando um objeto
de criativa humana sempre envolve a moldagem de sobre o qual o Criador trabalha para formar algo novo”
material já existente. Com Deus, porém, é totalmen­ (C h ristian Theology, p. 368).
te diferente: só ele cria de fato — do nada. A palavra 8 V. Tim aeus, de Platão.
hebraica que significa criar, bãrã\ como em Gênesis 9 Ex nihilo nihil fit — a expressão filosófica em geral colocada
contra creatio ex nihilo. Algumas filosofias contemporâneas
1.1, é uma palavra jamais usada nas Escrituras com
falam de Deus criando do “não ser” (e.g., Berdyaev e Tillich),
outra pessoa, senão Deus, por sujeito, referindo-se
em que se considera que o “não ser” possui algum tipo de con­
dição semirreal. Entretanto, isso ainda é contrário ao quadro
6 Isso está “totalmente acima de todo entendimento [...] bíblico de originalidade absoluta. “Nada” não é “algo”, não im­
o que conhecemos por criação sempre é a moldagem de porta o refinamento ou a definição.
algum material” (B runner , E. The C h ristia n D o ctrin e 10 0 movimento básico da Criação é “não da matéria informe
o f C rea tio n and R ed em ption , p. 11). Trata-se de uma para o objeto formado, mas do não existente para o exis­
“atividade criativa que em princípio não possui analogia” tente” (Gilkey , L. M aker o f H eaven and E arth , p. 53).
(R ad, G. von. G enesis, p. 47). Gilkey também fala disso como “originalidade absoluta”.

84
C ria ç ã o

Nesse mesmo contexto, pode-se destacar que espaço e do tempo — todo o Universo espaço-tempo-
creatio ex nihilo nega indiretamente tanto o dualis­ ral (ou o continuum de espaço, tempo e matéria) —
mo metafísico como o panteísmo. O dualismo, em que Deus transcende infinitamente. Deus existia antes
vários aspectos, entende que o mundo ou alguma e além do princípio: Deus é o Criador do espaço e do
outra realidade (como na filosofia de Platão e na tempo e de tudo o que existe fora dele.
mitologia babilônica) existe eternamente junto com A Criação não é apenas absolutamente original; é
Deus ou mesmo lutando contra ele.11 Da perspecti­ também uma obra completa de Deus. “No princípio
va bíblica, isso nega Deus como Criador e também Deus criou”, e a palavra “criou” refere-se a algo que
como Senhor, pois se algo sempre existiu à parte de foi completado. Isso não significa que tudo foi feito
Deus e junto dele, ele obviamente não é o Criador; se de uma vez, pois Gênesis 1 retrata a Criação prolon-
isso permite alguma oposição112 eterna a ele, ele não é gando-se por um período. Além disso, a palavra final
Senhor de tudo. O panteísmo, em qualquer forma,13 é Gênesis 2.1 — “Assim os céus, a terra e todo o seu
ao identificar Deus e o mundo de algum modo, tam­ exército14 foram acabados” (AEC). Foram seis “dias”
bém é uma negação da Criação. O panenteísmo é em em que tudo isso foi completado. Além disso, a pa­
essência um monismo em que Deus e o mundo são lavra “criou” ( bãrã0 é usada não só em Gênesis 1.1,
eternamente um: eles são inseparáveis um do outro. mas também em 1.21 (em referência ao quinto dia)
Todas as filosofias de emanação, em que se considera e em 1.27 (em referência ao sexto dia). Entretanto,
que o mundo flui eternamente de Deus (e talvez volte com o ato final da Criação, tudo está feito. Portanto,
para ele), são igualmente panenteístas e contrárias Deus não continua criando o Universo ou novas coi­
à criação. O mundo não é formado de Deus nem de sas dentro dele. Não é uma creatio continua (“criação
matéria preexistente. Deus é o Senhor! contínua”), ainda que, claro, haja um número espan­
É urgente afirmar que o Universo é criação de toso de aspectos, formações e atividades que pare­
Deus. O Universo nem sempre existiu. Nas belas pala­ cem novos na vastidão dos céus e da terra. Mas Deus
vras do salmista: “Antes de nascerem os montes e de completou seu trabalho de criação: tudo foi dado —
criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tempo, espaço, energia, vida, homem — que sempre
tu és Deus” (SI 90.2). “No princípio”, portanto, não é existirão neste Universo presente.15
uma declaração acerca de Deus, como se em seu início
o mundo tivesse sido criado (pois essa afirmação, de 14 Alguns comentaristas entendem que “exércitos” significa
anjos. Assim, além dos céus e da terra, Deus criou “o exérci­
novo, faz voltar a concepções filosóficas e mitológicas
to dos anjos”. Por mais que os anjos sejam criaturas de Deus
erradas). O “princípio” refere-se, antes, ao início do
e, pois, feitas por ele, Gênesis 2.1 parece mais apontar para
toda a esfera do Universo físico, portanto, os céus e a terra
11 Aristóteles falou da coexistência do mundo e Deus. No e tudo neles (como esboçado em Gn 1). Em Deuteronômio
zoroastrismo, o grande Deus Mazda, o deus da luz, tem 4.19, Moisés alerta Israel: “Quando levantares os teus olhos
em Ahriman, o deus das trevas, seu eterno antagonista. aos céus, e vires o sol, a lua, as estrelas, e todo o exército
Mazda luta eternamente contra Ahriman para vencê-lo. dos céus, não sejas seduzido a inclinar-te e adorar coisas...”
12 Satanás, na fé bíblica e cristã, não é um adversário eterno. Ele (AEC). Nesse caso, “exército” refere-se claramente à tota­
é uma criatura, ainda que decaída, e sua destruição é certa. lidade do Universo visível ao homem, e não a anjos (v. tb.
13 Isso inclui uma forma modificada de panteísmo chamada Dt 17.3; SI 33.6). Parece que Gênesis 2.1 está apontando na
“panenteísmo”, que considera Deus em parte idêntico ao mesma direção.
mundo. As filosofias que retratam Deus ao mesmo tem­ 15 Na terminologia científica, essa é a lei da conservação da
po como infinito e finito são panenteístas: Deus idêntico a massa, a saber, que ainda que a matéria possa mudar quanto
“tudo” (pan), mas também “em” (en) tudo. a tamanho, estado e forma, a massa total continua a mesma.

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Esse entendimento do Universo, a propósito, é con­ A. A fonte da criação é Deus


trário às chamadas concepções de estado estacionário
“No princípio Deus criou”. Ou, usando as palavras
do Universo, que sustentam que há uma contínua cria­
de Gênesis 2.4, a fonte é “o Se n h o r Deus”; “Quando
ção de matéria nova (átomos de hidrogênio) em todo
o Se n h o r Deus fez a terra e os céus”. Deus é Elohim, o
o espaço, Essa matéria recém-criada se condensa para
Se n h o r Deus é Yahweh Elohim.
formar novos corpos celestes (estrelas, galáxias etc.) em
Isso significa pelo menos duas coisas. Primeira: o
meio aos antigos; assim, há um estado estacionário ou
Deus majestoso, todo-poderoso, a saber, Elohim, que é
uma densidade espacial constante. Nessa concepção,
Soberano sobre todas as coisas, é o Criador do Universo.
agora cada vez mais antiquada, o Universo não tem
Ele é chamado “Deus Altíssimo [ElElyon\yCriador dos
início nem fim. Ele se cria e se renova continuamente.
céus e da terra” em Gênesis 14.19,22. Segundo, aquele
Além disso, um entendimento de que a criação
que cria é também Yahweh, o Se n h o r , o nome de Deus
está completa é bem diferente da concepção filosófica
peculiarmente pessoal, associado à aliança (que mais
e religiosa que vê na criação só uma expressão do rela­
tarde seria revelado em seu significado pleno a Moisés
cionamento entre Deus e o mundo. Schleiermacher,16
[Êx 3.15]). Gênesis 1 retrata Elohim majestoso e augus­
por exemplo, sustentava que a doutrina da criação é
to, mas quase distante e impessoal, Criador do Universo
uma expressão da absoluta dependência do homem a
e do homem; Gênesis 2 mostra Deus Yahweh plantando
Deus. A doutrina de modo algum indica o real princí­
pessoalmente um jardim, soprando no homem o fôlego
pio do Universo (que, no entender de Schleiermacher, da vida, fazendo uma aliança com ele e formando ho­
pode ser um tema da ciência ou da filosofia, mas não mem e mulher um para o outro. Assim, a criação de to­
tem relação alguma com a esfera da religião), mas ao das as coisas por Elohim (ou El Elyon) e Yahweh Elohim
fato de um relacionamento entre Deus e o homem é um retrato magnífico de Deus, tanto todo-poderoso
que é o centro de tudo no mundo. Tal concepção, re­ e majestoso como pessoal e comprometido mediante
petindo, é estranha à perspectiva bíblica da Criação aliança. É esse o Deus Criador de todas as coisas.
como um evento que ocorreu no passado. É claro que Uma vez que a fonte da criação é Deus, isso can­
o relacionamento entre Deus e o homem está no cen­ cela várias concepções errôneas. Isso significa, para
tro da fé; mas esse relacionamento pressupõe um ato começar, que o Universo não é um incidente casual
anterior de criação.17 A Criação é a origem absoluta e ou acidente; não aconteceu simplesmente. De novo, o
completa do Universo por ato de Deus. mundo não é obra de algum artífice menor que Deus
(como, e.g., o demiurgo de Platão). Além disso, o Uni­
IV. FONTE
verso nem sempre existiu (como na concepção do “es­
Passamos a seguir para uma consideração da fonte tado estacionário” do Universo ou na concepção “osci­
da criação. lante”, em que se entende que o Universo se expande e
se contrai para sempre, num ciclo de bilhões de anos).
Isso significa que não está acontecendo nenhuma criação ou Mais uma vez, o Universo não é autoexistente, como se
destruição de matéria em nenhum lugar do Universo. tivesse passado a existir ou se fizesse existir continua­
16 Teólogo alemão do início do século XIX. V. sua principal mente por geração espontânea.
obra, The C hristian Faith, a seção “Creation”.
17 “A Criação fala primeiro de uma base que está além desse B. A fonte da criação é o Deus trino
relacionamento e o torna possível; uma criação singular
e voluntária do céu e da terra por vontade e ato de Deus” O nome de Deus como Elohim contém não só a
(B a r t h , C hurch D ogm atics, v. 3,1.14). ideia da deidade majestosa e onipotente, mas também

86
C ria ç ã o

que aquele que cria é uma pluralidade nele mesmo. criação.21 Pertence a ele, de modo peculiar, o ser o
“Elohim” é às vezes chamado “plural majestático”, mas Criador; é seu ato externo.22 Assim diz o Credo apostó­
seria melhor descrevê-lo como um plural peculiar que lico: “Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do
contém uma diferenciação interna. Elohim poderia ser céu e da terra”.
chamado “a Deidade”;18assim, é a Deidade que fala em Assim, a criação deriva não de alguma fonte im­
Gênesis 1.26 — “Façamos o homem [...]”. E, embora pessoal, mas de alguém que é Pai. O próprio título
não haja referência trinitária19 explícita em Gênesis “Pai” sugere alguém que se importa, alguém intensa­
1, há insinuações indicando que Elohim, a Deidade, mente interessado em sua criação e todas as suas cria­
é trino. Isso é também insinuado em Gênesis 1 pela turas. Trata-se de uma verdade importante que deve
operação de três forças: Deus, sua palavra falada e o ser conhecida e afirmada à luz da questão muitas vezes
Espírito. Há Elohim que cria (v. 1), o Espírito de Deus levantada: “Existe ‘lá em cima’ alguém que se impor­
que se move “sobre a face das águas” (v. 2) e a palavra ta?”. Será que ele, em moldes deístas, fez o Universo
falada: “Disse Deus [...] e houve” (v. 3 e várias vezes e o abandonou à própria sorte? Não, Deus o Criador
na sequência). A palavra falada em Gênesis pode soar é Pai. O Universo é a criação daquele que está muito
um pouco distante de uma realidade pessoal; mas no mais interessado do que qualquer pai terreno em seu
NT é evidente que é a Palavra (com “P” maiusculo), o filho ou filhos.
Filho eterno, a pessoa por intermédio de quem Deus
2. Deus Filho
criou todas as coisas (Jo 1.1; Hb 1.2). Assim podemos
considerar a fonte da criação, lendo Gênesis 1 à luz do Deus Filho foi o instrumento da Criação. Foi por
NT, como o Deus trino. meio do Filho, a Palavra eterna de Deus, que o Univer­
so veio a existir. Usando a linguagem de Gênesis: “Disse
1. Deus Pai
Deus [...] e houve”, é evidente que Deus falou e deu exis­
Deus Pai é peculiarmente o Criador. No AT, ain­ tência ao Universo. Assim, foi por meio da palavra de
da que o nome “Pai” para Deus não seja frequente, há Deus que o Universo e tudo nele foram feitos. Isso tam­
uma referência clara a Deus como um Pai que criou: bém é lindamente retratado pelo salmista: “Mediante a
“Não é ele o Pai de vocês, o seu Criador,20 que os fez e palavra do Se n h o r foram feitos os céus [...]. Pois ele fa­
os formou?” (Dt 32.6; cf. Ml 2.10). Um exemplo no NT lou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu” (SI 33.6,9).
é a declaração: “Para nós [...] há um único Deus, o Pai, A palavra foi o instrumento ou agente da Criação.
de quem vêm todas as coisas” (ICo 8.6). Isso, claro, é ainda mais evidente no NT. No magní­
Deus Pai é aquele “de quem” vêm todas as coi­ fico prólogo do evangelho de João, lemos: “no princípio
sas. Por conseguinte, ele é a fonte (a fons et origo) da era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era
Deus [...]. Todas as coisas foram feitas por intermédio23
18 De acordo com W. E ichrodt, estudioso do AT, elohim é “um
plural abstrato que corresponde à nossa palavra ‘Deidade1” 21 Assim como ele, antes de toda a criação, é a fonte na Trin­
(Theology o f th e O ld Testam ent, v. 1, p. 185). dade: o Filho sendo eternamente gerado, e o Espírito proce­
19 Lembre-se da discussão a esse respeito no cap. 4. “A santa dendo eternamente dele.
Trindade”, p. 77-78. 22 V. o cap. 4, “A santa Trindade”, p. 79-80
20 A AEC traz “adquiriu” em lugar de “criou”. Qualquer que 23 A palavra grega é dia. A ARC traz “por”, o que é enganoso.
seja a melhor tradução, o versículo (conforme também mos­ “Por” insinua que o Filho é o próprio Criador. Nas duas pas­
tra a AEC) continua com o tema da Criação: “[...] que os fez sagens que se seguem — ICoríntios 8.6 e Colossenses 1.16
e os formou”. — em que a NVI traz “por meio” e “por” (conforme citado),

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dele” (1.1,3)- Também, podemos agora continuar com Mais uma reflexão sobre a criação de todas as
a passagem previamente citada que começa com: “[...] coisas por meio da Palavra pode ser relevante. Já que
para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem “Palavra”, por definição, significa “discurso racional”,
vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só a Criação por meio da Palavra também sugere que o
Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas Universo feito por Deus é um lugar de ordem e sen­
as coisas e por meio de quem vivemos” (ICo 8.6). Ou­ tido. O Universo, por conseguinte, possui “estrutura-
tra passagem muito relevante é a seguinte: “Nele [Cris­ -Logos”; é um lugar de padrão e coerência, de direção
to] foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as e propósito. Com a palavra falada, aquilo que é sem
visíveis e as invisíveis [...] todas as coisas foram criadas forma e vazio (Gn 1.2) ganha estrutura: luz, firma­
por ele e para ele” (Cl 1.16). O Filho foi o instrumento mento, terra seca etc. (1.3ss). Tudo move do caos
— observe: “por meio” — de toda a Criação. para o cosmo,24 da falta de forma primeva para uma
É linguagem popular, mas enganosa, falar do Filho forma e complexidade cada vez maiores. A criação
como aquele que fez o mundo. Por exemplo, a Bíblia por intermédio da Palavra indica o maravilhoso ca­
Viva parafraseia João 1.3 — “Ele [a Palavra] criou tudo ráter ordenado e significativo que mantém a unidade
o que há — não existe nada que Ele não tenha feito”. essencial do Universo em todos os seus componentes.
Mas isso é dar ao Filho a função ou atividade que per­ É possível que o NT faça referência à mesma coisa ao
tence a Deus Pai. Com certeza, uma vez que o Filho é dizer do Filho: “Ele é antes de todas as coisas, e nele
também Deus, e Deus é o Criador, ele esteve totalmen­ tudo subsiste” (Cl 1.17).25 A Palavra de Deus é que faz
te envolvido na Criação. Mas sua função não era ser de tudo um Universo: um único vasto sistema de for­
fonte da criação. Antes, foi o meio ou o instrumento ças, de átomos e moléculas, que é essencialmente um.
por quem Deus Pai realizou sua obra criativa.
3. Deus Espírito Santo
Ora, tendo feito essa distinção importante, po­
demos nos alegrar corretamente no fato de que tudo Deus Espírito foi quem forneceu a energia da
vem por meio do Filho. Isso significa que o mesmo Criação. Isso significa, por um lado, que ela ocorreu
que nos redimiu foi o canal por quem todas as coisas por sua atividade dinâmica. No livro de Jó, estão estas
vieram a existir. Assim, podemos nos alegrar ainda palavras: “O Espírito de Deus me fez; o sopro do To-
mais porque o que estiver distorcido ou quebrado no do-poderoso me dá vida” (33.4). Palavras semelhan­
Universo, seja o que for (e muito foi estragado por tes encontram-se em Salmos: “Quando sopras o teu
obra de Satanás e pelas consequências do pecado e fôlego, eles [referindo-se particularmente a todos os
do mal), está sujeito ao seu cuidado redentor. Por­ seres vivos] são criados” (104.30). Pode-se observar
tanto, uma vez que o Filho é tanto o Redentor como mais um versículo, fazendo uma ligação estreita
o canal da criação, é propósito e plano de Deus (ouça
isto!) reconciliar consigo “por meio dele [...] todas as 24 “O pensamento teológico em todo o cap. 1 move-se não
coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão tanto entre os polos do nada e da criação, mas entre os po-
los do caos e do cosmo” (Von Rad, Genesis, p. 49). Von
nos céus, estabelecendo a paz pelo seu sangue derra­
Rad não está, de modo algum, negando a crea tio e x n ihi-
mado na cruz” (Cl 1.20).
lo, a que se refere ao comentar o versículo 1, mas, tendo a
criação do nada como certa, o restante da narrativa que
a AEC e ARC trazem “pelo qual” em ICoríntios 8.6 e “por” começa com o versículo 2 move-se do caos, ou carência de
em Colossenses 1.16; a ARA traz respectivamente “pelo forma, para o cosmo, ou a ordem.
qual” e “por meio”. Uma vez que a palavra grega é dia em 25 Melhor que a KJV, que traz “consiste”. A AECyARA e ARC
ambos os casos, a melhor tradução é “por meio” concordam com a leitura da NVI.

88
C ria ç ã o

entre palavra e Espírito (muitas vezes traduzido por ser um caos de matéria sem vida. Sobre essa mas­
“fôlego” ou “sopro”): “Mediante a palavra do Se n h o r sa, então, o Espírito de Deus moveu-se, levedando
foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro o caos original, estimulando-o com uma vitalidade
de sua boca” (SI 33.6). De passagens como essas fica interna e preparando-o para aquele momento culmi­
evidente que a operação do Espírito está em contato nante quando a palavra falada por Deus levaria tudo
próximo com o que está sendo criado, não simples­ à sua consecução.29
mente uma palavra falada de longe, mas um sopro Por fim, o Espírito Santo é o que dá a vida na
divino imediato que fez surgir o Universo e o ativa. Criação. Agora podemos observar novamente as pa­
Assim, em todo o Universo as forças imensas que es­ lavras em Jó 33.4: “O Espírito de Deus me fez; o so­
tão em atividade nos sóis, estrelas e galáxias recebem
pro do Todo-poderoso me dá vida”. Podemos acredi­
energia do Espírito de Deus. Toda energia e poder es­
tar, então, que o Espírito pairando sobre a superfície
tão ali em virtude do divino Espírito.
das águas estava preparando a terra para a vida que
Segue-se um segundo comentário, a saber, que
mais tarde surgiria. Não seria por acidente que a
o Espírito Santo é também quem fornece a energia
vida vegetal, a vida no mar e no céu, a vida animal
para tudo na terra. Isso deve ser notado em especial
e depois a vida humana seria aquele belo momento
na narrativa da Criação em Gênesis. Logo depois da
da criação do homem, conforme registrado em Gê­
declaração de abertura acerca da Criação (v. 1) está a
nesis 2, quando “o Se n h o r Deus formou o homem
seguinte declaração: “Era a terra sem forma e vazia;
[...] e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o
trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus
homem se tornou um ser vivente” (v. 7). O Espírito
se movia [pairava]26 sobre a face das águas” (1.2).
de Deus, o Sopro divino, é o doador da vida30 em
Assim, no início da Criação, quando, após a criação
inicial, a terra ainda era informe, vazia, uma massa toda a Criação.

escura,27 o Espírito de Deus começou a se mover, a Podemos resumir esta seção sobre o Deus trino e

flutuar sobre as águas. Isso indica que antes de Deus a Criação dizendo que a Criação é do Pai, mediante
falar e a terra assumir forma e significado, o Espí­ o Filho e pelo 31 Espírito Santo. É assim que o Deus
rito divino já estava trabalhando nos elementos da em três pessoas realizou a grande obra da Criação.
Criação. Ele estava presente, fornecendo energia às
vastas potências que permaneciam ocultas na imen­ 29 B. B. Warfield , comentando sobre a função do Espírito
sidão primeva de água.28 Nada estava presente, a não em relação à palavra, é expressivo: “À voz de Deus no céu
dizendo: ‘Haja luz’, a energia do Espírito de Deus pairando
sobre a face das águas respondeu, e eis que houve luz! [...]
26 A ARA traz “pairava”. L. Kõhler (Old Testament Theology,
0 pensamento, a vontade e a palavra de Deus fizeram efeito
p. 88) traduz: “rondava tremendo”. “Incubava” é “o significado
no mundo, porque Deus não só está sobre o mundo, pen­
literal” (IB).
sando, desejando e comandando, mas também no mundo
27 Esse estado de falta de forma, vacuidade e escuridão às vezes
como o princípio de toda atividade, executando” (Biblical
é interpretado como resultado de uma “queda” primeva, tal­
vez de Lúcifer e seus anjos, de modo que a terra foi reduzida and Theological Studies, p. 134).
a essa condição. Concordo com a declaração de Von Rad : 30 A afirmação no Credo de Constantinopla (popular­

“A pressuposição [...] de uma queda da criação, como a de mente conhecido como Credo niceno) é bem adequada a

Lúcifer, de seu esplendor inicial é quase impossível linguísti­ respeito do Espírito Santo: “Cremos [...] no Espírito Santo,
ca e objetivamente” (Genesis, p. 48). Senhor e Vivificador”.
28 Isso poderia incluir a ativação de forças gravitacionais, 31 O Espírito Santo é às vezes chamado “o executivo da Di­
quando a matéria sem forma e estática ganha forma e mo­ vindade” (e.g., Warfield , Biblical and Theological
vimento. Studies, p. 131).

89
Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal

V. MÉTODO deve ter sido indescritível”.32 Imediatamente após esse


clarão enorme de luz e energia, tudo o que constitui
A questão a que nos voltamos agora é o método
o Universo (átomos, estrelas, galáxias) foi ejetado em
pelo qual Deus realizou a obra da Criação. Como ele
todas as direções e desde então continua a se expandir
a executou?
através de bilhões de anos.
A. Série de atos criativos Esse quadro magnífico do início do Universo, se
verdadeiro em termos gerais,33 decerto traz a ciência
Podemos nos concentrar primeiro na narrativa diretamente para Gênesis 1. Houve um princípio do
em Gênesis 1, em que os atos da Criação são apresen­ Universo. Mas a ciência não pode ir além. As pergun­
tados. A palavra “criar” ( bãrã*) ocorre em relação ao tas, de onde veio aquela bola de fogo primordial que
Universo, aos seres vivos e, por fim, ao homem. Vamos o causou e qual o seu propósito, estão totalmente fora
estudá-los em sequência. de sua esfera. Causa e efeito podem ser investigados
e atribuídos a uma causa de origem — a grande ex­
1. O Universo — "os céus e a terra"
plosão —, mas o que está por trás disso não pode ser
O primeiro ato criativo de Deus relaciona-se com certificado pela ciência ou pela filosofia. A resposta da
a totalidade do Universofísico. Já observamos que esse fé bíblica e cristã é: DEUS.34
ato criativo de Deus foi de originalidade absoluta; foi Deus fez surgir o Universo ex nihilo. Foi um ato
creatio ex nihilo. Também vimos que ocorreu em certo completamente incrível: “no princípio”. Daquele
momento: o Universo nem sempre existiu. ato surgiu todo o Universo físico, incluindo a terra
É bem significativo que essa seja uma área em em que habitamos.35
que provas esmagadoras da ciência concordam com Gênesis 1 registra em seguida alguns elementos an­
a afirmação bíblica de um princípio. Concepções do tes do ato criativo seguinte de Deus. A terra, conforme
Universo como algo infinito e eterno (como a teoria
do “estado estacionário” e a do “Universo oscilante”) 32 Robert Jastrow, diretor do Instituto Goddard de Estudos
têm sido cada vez mais substituídas pelo conceito de Espaciais da NASA, em seu livro G od and the A stron o-

um Universo finito e temporal que teve um início espe­ m ers (p. 13).
33 Jastrow afirma: “A ciência tem provado que o Universo sur­
cífico. Agora há um reconhecimento generalizado por
giu de uma explosão em certo momento” (ibid., p. 114). Sua
físicos e astrônomos de que vivemos num Universo em
declaração possui poucos desafiantes reputáveis hoje.
expansão, com todas as galáxias movendo-se para lon­ 34 É importante salientar que nenhuma concepção científica
ge umas das outras em velocidade enorme e crescente. da origem do Universo precisa acreditar em Deus. (Jastrow
Por cálculos baseados nessa expansão, as evidências afirma ser agnóstico: “Sou agnóstico em questões religiosas”
[ibid., p. 11].) A fé cristã sustenta que Deus criou todas as
apontam para um momento definido (com números
coisas, e essa convicção não se baseia, de forma alguma, em
diversos entre 15 e 20 bilhões de anos atrás) em que o
provas científicas. Entretanto, podemos nos alegrar, porque
Universo estava fechado numa massa densa, quase a opinião científica prevalecente reconhece um início de
equivalente a nada. Naquele ponto próximo a zero de nosso Universo. Tanto a Bíblia como a ciência contempo­
tempo e espaço, houve uma explosão colossal (muitas rânea interessam-se pelo que ocorreu “no princípio”. Isso,
decerto, é uma questão de importância extraordinária.
vezes chamada Big Bang) como uma bomba cósmica
35 Cientistas em geral sustentam que a Terra é um recém-che­
de hidrogênio, mas com temperaturas de muitos tri­
gado na cena: aproximadamente 4,5 bilhões de anos atrás.
lhões de graus. Como diz um astrofísico: “O brilho De qualquer modo, a Terra está, sem dúvida, incluída no ato
ofuscante da radiação desse Universo denso e quente criador de Deus dentro do Universo físico que ele formou.

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C ria ç ã o

mencionado antes, ficou por um tempo numa condi­ sobre a terra que, ainda que menos vasta e espetacular
ção sem forma e vazia, como uma imensidão de água.36 que a criação do Universo, é um milagre maravilhoso.
Então ocorreram quatro dias de atividade divina — o O salmista exclama: “Quantas são as tuas obras, S e n h o r !
anúncio da luz, a formação do firmamento, o surgi­ Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de
mento da vegetação e dos luminares celestes (v. mais seres que criaste” (104.24). Muitas das criaturas de Deus
adiante, p. 93-94). são mencionadas nesse salmo: jumentos selvagens, as
aves do céu, gado, bodes selvagens, leõezinhos, peixes
2. Os seres vivos
do mar e o grande Leviatã. Com certeza podemos con­
O segundo ato criativo de Deus relaciona-se com cordar com o louvor do salmista, pois como o mundo
os seres vivos. “Assim Deus criou os grandes animais seria diferente sem a presença e a vida do vasto leque
aquáticos e os demais seres vivos que povoam as divino de criaturas vivas.
águas, de acordo com as suas espécies; e todas as aves,
3. Homem
de acordo com as suas espécies” (Gn 1.21). Eis um ato
totalmente novo de Deus: a criação da vida animal. O terceiro e último ato criativo de Deus é o homem.
A palavra bãra é empregada pela segunda vez. Antes “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de
disso, muita coisa sobre a terra foi anunciada (luz e Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27).
vegetação) e feita (o firmamento e os luminares), mas Nesse ato de Deus, a palavra “criou” ( bãra ) é empre­
nada foi criado depois da criação inicial do Univer­ gada três vezes (a ênfase não poderia ser maior), todas
so. Agora Deus deu outro grande passo adiante, algo relacionadas com o homem ou a humanidade. Aqui,
que nunca antes ocorrera. Ele criou o primeiro nível de novo, há um ato totalmente novo de Deus (quase
de vida animal. Isso significa o alvorecer da existência incrível para considerar), trazendo à existência uma
consciente — criaturas que vivem e se movem — que criatura feita à sua própria imagem.
transcendem em muito tudo o que Deus havia feito Há obviamente uma grande distância entre a cria­
depois da criação original dos céus e da terra. Deus fez ção da vida animal e a formação de tudo o que a pre­
(não criou) as criaturas da terra — animais selvagens,
cedeu, mas eis algo ainda maior: uma criatura feita à
gado e animais rastejantes (1.25). Mas, apesar de toda a
imagem e semelhança de Deus. O homem, nessa po­
importância deles, o totalmente novo era o surgimento
sição elevada, deve ter domínio sobre todo o mundo
das primeiras criaturas que viviam e se moviam.37
animal que o precede. Podemos agora observar as pa­
Aliás, todo o mundo de criaturas vivas é uma ma­
lavras de Gênesis 1.26, ditas logo antes da criação do
ravilha a contemplar. Pois eis aqui uma nova criação
homem: “Façamos o homem à nossa imagem, confor­
me a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do
36 O quadro não é muito distante da concepção científica
mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de
de que a terra começou num estado gasoso e depois evo­
toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se
luiu para o estado líquido; mais tarde tornou-se sólida. V.
Beginnings of Earths History, Encyclopaedia B ritan n ica movem rente ao chão”. Deus, que tem domínio sobre
(Macropaedia, v. 6, p. 10). todas as coisas, deu ao homem esse subdomínio. As­
37 As criaturas terrestres representam um desenvolvimento de sim, sua estatura e lugar em todo o Universo é singular.
seres vivos: a organização e desenvolvimento posteriores do
O milagre da criação do homem parece, de cer­
que já existia. A consciência das criaturas terrestres pode ser
ta perspectiva, menor se comparado ao milagre da
superior à dos seres marinhos e aves, mas não há diferença
qualitativa (como existe entre a mais inferior das vidas ani­ criação dos céus e da terra. Conforme diz o salmista:
mais e a vida vegetal precedente). “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a

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lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o ho­ o dia do calendário de vinte e quatro horas. Essa lei­
mem [...]?” (8.3,4). O homem parece um tanto insig­ tura é possível, mas, sob escrutínio cuidadoso, pouco
nificante diante da vastidão de toda a criação de Deus. provável. A palavra “dia” em si é empregada de modos
“Contudo” — e aqui o salmista passa a dizer: “pouco diferentes na passagem de Gênesis 1.1—2.4. Primeiro:
menor do que Deus38 o fizeste, e de glória e de hon­ refere-se à luz que foi separada das trevas: “Deus cha­
ra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre mou à luz dia, e às trevas chamou noite” (1.5). Segun­
as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus do: refere-se à luz e à escuridão juntas: “Passaram-se
pés: todas as ovelhas e bois, assim como os animais a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia” (também
do campo, as aves do céu e os peixes do mar, e tudo 1.5). Terceiro: refere-se a todos os dias juntos: “Es­
o que passa pelas veredas dos mares” (v. 5-8, AEC). tas são as origens dos céus e da terra, quando foram
O homem, criado à imagem de Deus, recebeu domínio
criados; no dia em que o Se n h o r Deus fez a terra e
sobre tudo o que Deus fez. Assim, ele é o ápice da
os céus” (2.4, ARC). A última declaração é um resu­
criação divina dos céus e da terra.
mo das “gerações” que parecem referir a tudo o que
B. Estágios na Criação precedeu ao longo dos seis dias, assim, a palavra “dia”,
nesse caso, cobre todo o processo da Criação.39 Que a
É evidente que a Criação não ocorreu toda de uma palavra “dia” não se refere a um dia de vinte e quatro
vez. Como observamos, houve três atos criativos suces­
horas do calendário também parece evidente no relato
sivos. Também, conforme mencionamos (e agora pre­
de que o Sol e a Lua não foram feitos antes do quarto
cisamos observar isso mais de perto), houve vários atos
dia. Como poderia haver dias do calendário, com dias
interpostos em que Deus anunciou ou fez outras coisas.
solares iguais, se o Sol ainda não estava presente para
Assim, nem tudo ocorreu simultaneamente; antes, hou­
marcá-los? Por fim, pode-se chamar a atenção para a
ve uma sucessão de atos. Portanto, podemos falar do
declaração do NT: “Para o Senhor um dia é como mil
processo de criação. Há diferenciação e progressão, com
anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3.8).
Deus ativo em cada ponto ao longo do caminho.
Das evidências anteriormente citadas, parece bem
7. Os seis dias provável que “dia” represente um intervalo de tempo,
curto ou longo, em que Deus estava realizando algo.40
De acordo com Gênesis 1.1-24, o processo de cria­
Isso parece concordar melhor também com uma reflexão
ção ocorreu ao longo de um período de seis dias. Duas
questões precisam ser tratadas: primeira: a duração do
39 No mesmo sentido, Gleason L. Archer Jr . diz: “Uma vez
tempo implicado; segunda: o conteúdo dos dias.
que os estágios na criação do céu e da terra acabaram de ser
descritos, é legítimo inferir que o ‘dia’ aqui deve referir-se a
a. Duração do tempo. O entendimento mais óbvio
todo o processo desde o primeiro dia até o sexto” (A Sur-
dos dias seria o de seis ou sete períodos de vinte e qua­
vey o f O ld Testam ent In trod u ction , p. 186) [Merece
tro horas; em outras palavras, o que conhecemos como con fian ça o A ntigo Testam ento? São Paulo: Vida Nova,
1974]. A propósito, outra passagem relevante é Números 3.1,
38 Ou “os seres celestiais”, como na NVI. A ARC traz “os an­ que traz “[...] no dia em que o Senhor falou com Moisés no
jos”, que concorda com Hebreus 2.7 (citando SI 8.6 da LXX). monte Sinai”. Aquele “dia” durou quarenta dias e noites de
A palavra hebraica é elõhim> que, embora tenha por signi­ nosso calendário!
ficado principal “Deus”, também pode ser “deuses” — i.e., 40 Isso se adaptaria, por exemplo, a muitas passagens apocalíp­
“seres celestiais” ou “anjos”, (v. no cap. 9, “Homem”, discus­ ticas da Bíblia que falam da vinda de um “dia do Senhor” em
são mais detalhada.) De qualquer modo, o lugar do homem que ocorrerá uma série de eventos. Há pouca ou nenhuma
no mundo terreno é singular. indicação de que tudo ocorrerá em vinte e quatro horas.

92
C ria ç ã o

acerca do conteúdo de muitos dos seis “dias”. Embora tar muito tempo nos detalhes. De modo breve, porém,
Deus, claro, pudesse realizar atos tais como fazer todas podemos observar que os seis dias podem ser dividi­
as plantas e árvores em um dia de vinte e quatro horas, dos em dois grupos de três, cada um começando com
todos os luminares no céu em outro, todas as feras e o o tema da luz e com vários paralelos entre si.
homem em ainda outro, isso parece pouco provável,
nem parece característico de Deus, que muitas vezes 1 . Luz
2. Firmamento, separação entre mar e céu
trabalha lentamente, durante longos períodos. Assim,
3. Terra, formação da vegetação
à luz das evidências internas, a interpretação preferí­
4. Luzes (Sol, Lua e estrelas)
vel é entender os seis dias da Criação como períodos,
5. Peixes do mar e aves do céu
até eras, em que Deus estava levando o processo criati­
6. Animais selvagens da terra, depois homem
vo a seu ápice no homem.41
Aqui podemos nos voltar novamente em direção à É bem interessante observar que a sequência do
ciência e observar que dados geológicos e biológicos terceiro, quinto e sexto dias é em geral confirmada
dizem quase a mesma coisa. Agora é de reconhecimen­ hoje por pesquisas de paleontologia e biologia. A vida
to geral que antes da chegada do homem ao cenário vegetal surgiu primeiro, seguida pela vida aquática e
houve longos períodos. Por exemplo, a vida vegetal aérea, e depois vieram a vida mamífera e humana. Em
apareceu muito antes da vida animal, e a vida animal, toda parte, são as formas mais simples que aparece­
muito antes da vida humana. Cada um desses “dias” ram primeiro e depois as cada vez mais complexas,
pode ter sido de milhares ou de milhares de milhares com o homem como o último e mais elevado a chegar
de anos (lembre-se de 2Pedro); a duração exata não é em todo o processo. Isso pode até surpreender alguns
importante. O importante é que Deus completou uma estudiosos da Bíblia que há muito vêm ouvindo que há
obra durante aquele período. Sua conclusão, portanto, um conflito entre a Bíblia e a ciência.43 Naturalmen­
é a conclusão de um dia.42 te, a Bíblia, e Gênesis em particular, não é um tratado
científico; entretanto, o que se diz aqui — repetindo
b. Conteúdo dos dias. Gênesis 1 relata o que ocorreu
— é essencialmente o mesmo que a pesquisa científica
em cada um dos seis dias. Assim, não precisamos gas­
moderna tem descoberto.
Os outros dias (primeiro, segundo e quarto) apre­
41 De qualquer modo, a questão não é: quanto tempo levou
sentam mais dificuldades. A mais óbvia é a do apare­
para Deus criar o mundo? Mas: quanto tempo Deus levou para
criá-lo? cimento do Sol, da Lua e das estrelas no quarto dia.
42 Minhas declarações acima de que os dias de Gênesis 1 são Como, por exemplo, poderia haver luz antes do apare­
mais bem compreendidos como períodos longos discorda cimento do Sol? Eu poderia apresentar a seguinte res­
do chamado “criacionismo científico” que afirma um pe­ posta: a luz mencionada é luz “cósmica”, não vinda do
ríodo literal de seis dias. O Instituto de Pesquisa da Criação
Sol, mas do Filho. A luz da criação original do mundo
(San Diego, Califórnia), fundado por Henry M. Morris , é
surgiu por meio da Palavra de Deus, ou seja, o Filho
o principal centro que promove ativamente esse ponto de
vista. Aprecio muito os esforços árduos do instituto contra o
evolucionismo, mas considero lamentável que a batalha seja 43 “Ora, para o estudioso da Bíblia é surpreendente que o plano
travada da perspectiva de seis dias e de uma “Terra jovem” construtor da Criação que nos é mostrado pela pesquisa pa-
Com certeza há lugar para outra perspectiva criacionista que leontológica concorda em todos os aspectos essenciais com
talvez compreenda melhor Gênesis 1, bem como as evidên­ o que é dito em Gênesis acerca do terceiro, quinto e sexto
cias científicas. V., e.g., Davis A. Young, Christianity and dias da Criação.” Assim escreve Karl Heim no livro The
the Age of the Earth. World: Its Creation and Consummation (p. 36).

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de Deus. Isso faz sentido, pois ele é “a luz do mundo” Isso também proveria uma resposta para uma per­
(Jo 9.5). Enquanto o Espírito de Deus estava pairando gunta que às vezes se faz: “Como poderia haver vege­
sobre a superfície das águas escuras, ativando e for­ tação no terceiro dia, antes do aparecimento do Sol e
necendo energia, a Palavra de Deus formou a luz para da Lua no quarto dia?”. Essa pergunta desconsidera a
afastar as trevas. Observe de novo um paralelo com o diferença entre “a luz” (Gn 1.4) e os “luminares no fir­
NT: “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrota­ mamento” (v. 14). A luz era totalmente suficiente para
ram” Jo 1.5). Há tanto vida como luz44 começando a nutrir a vegetação e a vida das plantas antes do sur­
se agitar no primeiro dia da Criação! Assim, o mundo gimento dos luminares no firmamento. É significativo
no início da Criação não precisava da luz do Sol,45 da observar também que o surgimento dos luzeiros no
mesma forma que não necessitará dele a criação final firmamento no quarto dia pertence ao segundo ciclo
(os “novos céus e a nova terra”): “A cidade não preci­ da Criação, rumo à criação da vida animal e huma­
sa de sol nem de lua para brilharem sobre ela, pois a na. O propósito do Sol e da Lua é tanto serem “sinais
glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia. para marcar estações” como para “iluminar a terra” (v.
As nações andarão em sua luz” (Ap 21.23,24). No prin­ 14,15). Isso seria especialmente providencial para uma
cípio, não havia necessidade de Sol nem de Lua, pois terra habitada por criaturas vivas e seres humanos.
essa luz “cósmica”46 irradiava diretamente do Filho, e Outro tipo de pergunta pode ser feita: “Será que o
toda a criação era iluminada por ela.47 relato em Gênesis não declara, contra o entendimento
científico moderno, que a Terra precedeu a formação

44 Tendo por pano de fundo o Espírito incubando ou pairando


do Sol, da Lua e das estrelas?” Em resposta, vamos di­
e, com isso, fornecendo energia para a vida, a Palavra agora zer que não se diz que o surgimento dos luzeiros no
faz surgir a luz. firmamento foi um ato de criação. Já se observou que
45 É interessante o que Calvino escreve: “O Sol e a Lua nos a palavra “criar” ( bãrã) não é empregada antes do dia
suprem de luz; e, por conseguinte, para nossas concepções,
seguinte da Criação (o mundo animal). O que se diz
incluímos neles de tal maneira esse poder de dar luz que,
acerca das “luzes” é: “Haja luminares no firmamento
se fossem tirados do mundo, pareceria impossível perma­
necer alguma luz. Portanto, o Senhor, pela própria ordem do céu para separar o dia da noite [...]. Deus fez os dois
da criação, testifica que ele mantém na mão a luz, que ele grandes luminares [...] fez também as estrelas” (Gn
é capaz de partilhá-la conosco sem o Sol e a Lua” (Com- 1.14,16). Isso poderia significar que Deus moldou e
mentary on Genesis). completou o que já existia,48 mas também a execução
46 Não tentei descrever acima a luz “cósmica”, mas só falo que
de uma nova fase de criação — o material à mão as­
ela vem diretamente da Palavra ou do Filho. Entretanto, a
sumindo uma nova formação.49 Ora, o que isso pode
luz “cósmica” tem sido descrita como luz que consiste em
ondas de éter produzidas por elétrons energéticos. Outra
maneira de apresentar isso é pensar em termos de forças cosmologia do estado estacionário e a predileção pela teoria
eletromagnéticas que foram ativadas pela Palavra, extraindo do Big Bang tem se concentrado na existência da luz cósmi­
com isso luz das trevas. De qualquer modo, isso não faria ca universal antes da luz do Sol ou da Lua” (p. 135).
referência ao Sol, mas à palavra: “Haja luz”. 48 A palavra que significa “fazer”, asâ, diferente de bãrã\ está
47 Carl F. H. Henry escreve: “A luz que rompeu as trevas no relacionada especificamente com dados materiais. “Sua
primeiro dia da Criação não era luz emitida por luminares principal ênfase está na moidagem e formação do objeto en­
celestes (estes foram criados no quarto dia, 1.14-19); era, volvido” (TWOT, v. 1, p. 396).
antes, a luz ordenada por Elohim para negar a escuridão do 49 Bãra, por outro lado, como um ato de criação sempre espe­
caos [...]” (God, Revelation, and Authority, v. 6, parte 2, cifica a absoluta prioridade do novo. Pode haver, como mui­
p. 136). Henry também fala dessa luz como luz “cósmica” e a tas vezes há, o uso de materiais existentes, mas só como um
relaciona com a “teoria do Big Bang”: “Orecente abandono da meio para o novo ganhar existência (v. tb. a nota 7).

94
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significar é simplesmente isto: quando Deus criou os vazia, uma completa imensidão de água e trevas. Ago­
céus e a terra, tudo estava ali em forma elementar, até ra que o Espírito começou a se mover por essa imensi­
mesmo a terra em estado amorfo (“era a terra sem for­ dão, fornecendo energia e a ativando, e a Palavra for­
ma e vazia”) e os céus ainda estavam por ser forma­ mou a luz, separando a luz das trevas, o próximo passo
dos com Sol, Lua e estrelas. Como a terra que havia de Deus foi outra separação, dessa vez das águas em si.
passado por vários estágios de moldagem e formação Mas para onde poderiam ir? (A luz pode aliviar o escu­
(como se mostra nos primeiros três dias da Criação) ro sem necessidade de o escuro “ir” para algum lugar.)
até tornar-se plenamente a terra (terra seca e mar se­ Como isso poderia acontecer? A resposta é que Deus
parados, surgimento da vegetação), assim aconteceu fez o firmamento, ou talvez melhor, a “expansão”,5-1ou
com os luminares nos céus.50 Tanto os luzeiros do mesmo “o céu” ou “os céus”. Por exemplo, o salmista
céu como a terra sofreram um processo de formação; clama: “Bendiga o Se n h o r a minha alma! [...] Estás
portanto, não é tanto a questão de um existir antes do vestido de majestade e esplendor! Envolto em luz
outro, mas de cada um passar de sua condição amor- como numa veste, ele estende os céus como uma ten­
fa elementar para sua formação completa. Tudo isso é da” (104.1,2).53 Os “céus estendidos” são a “expansão”
um processo de “formação” partindo dos elementos (ou “firmamento”); assim também Gênesis 1.8: “[...]
originariamente criados para a realidade plenamente e chamou Deus à expansão Céus” (ARC). O propósito
formada.51 De uma perspectiva como essa, só podemos da expansão é separar as águas entre as “de baixo” e
nos maravilhar com o modo admirável de Deus reali­ as “de cima”. Isso significa que Deus estabeleceu o céu
zar todas as coisas juntas! (céus) e as nuvens, que contêm as águas de cima. Pro­
A sequência dos primeiros três dias deve ser co­ vavelmente isso era um vapor espesso causado pela luz
mentada em seguida. As perguntas em geral concen­ que então brilhava sobre a terra e fazia que estas subis­
tram-se no segundo dia. O que é o firmamento que sem acima da expansão do céu. Ali deviam ficar, não
Deus fez e a separação das águas de baixo das águas de ainda como chuva para a terra, mas como uma nuvem
cima? Para compreender, deixe-me mencionar de novo de vapor protetora que filtrava o calor da luz cósmica.54
que a terra em sua condição primeva era sem forma e Assim, é possível ver a maravilhosa e bela ligação entre
o primeiro, segundo e terceiro dias da Criação. No ter­
50 Após o Big Bang, em que devem ter sido criados todos os ceiro dia, as águas que ainda cobrem a terra — embora
elementos básicos do Universo, seguiu-se um tempo mui­ o firmamento ou a expansão tenha separado grande
to extenso antes de as primeiras estrelas serem formadas.
parte delas — são mais uma vez empurradas, de modo
É provável que tenha sido de matéria pré-estelar em alta
que a terra seca possa agora aparecer e a vegetação
densidade (um tipo de grande nuvem de gás em expansão)
que as estrelas foram constituídas.
5] Considero proveitosa a seguinte declaração: “O material bá­ 52 Assim a ARC. A palavra hebraica rãqia indica algo um pouco
sico não só da terra, mas também do céu e dos corpos celes­ mais nebuloso que “firmamento”.
tes, foi criado no princípio. Se, portanto, os corpos celestes 53 Observe também que a sequência de luz, e depois a extensão
foram criados primeiro ou criados no quarto dia, como luzes dos céus, é a mesma que em Gênesis 1.3 e 1.6. V. tb. Isaías
para a terra [...] as palavras não podem ter outro significado, 44.24; 45.12; 51.13; Jeremias 10.12; Zacarias 12.1.
senão que a criação deles foi completada [grifo nosso] no 54 Alguns estudiosos sustentam que essa nuvem de vapor (ou
quarto dia, assim como a formação criativa de nosso globo “envelope”) contribuiu para um clima subtropical em toda a
foi completada no terceiro; que a criação dos corpos celestes, Terra, polo a polo, muitos anos atrás. Também há os que cre­
pois, sucedeu-se lado a lado e, provavelmente, por estágios se­ em que na época do Dilúvio ocorreu a condensação da nuvem
melhantes, com a da terra” (Kjeil; Delitzch . C om m entary de vapor, e assim choveu continuamente por quarenta dias e
on the O ld Testam ent, v. 1, p. 59). noites, e com isso as águas voltaram a cobrir a face da terra.

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começar a florescer. Então isso ocorria, de acordo com de uma espécie para outra por um processo de “se­
Gênesis 2, “porque o SENHOR Deus ainda não tinha leção natural” e “sobrevivência dos mais aptos”. De
feito chover sobre a terra [...] brotava água da terra e acordo com essa concepção, as variações que ocorrem
irrigava toda a superfície do solo” (v. 5,6). É magnífico são herdadas e formam novas espécies gradualmente.
contemplar Deus lidando com as águas! Assim, toda a linhagem de vida desde a ameba até o
homem é o resultado de um longo e complexo pro­
2. Fixidez e progressão cesso evolucionário em que novas espécies emergi­
ram através de eras incontáveis de tempo. Entretan­
Por fim, vamos observar que tudo no mundo das
to, não há evidências adequadas para justificar essa
plantas e dos animais foi feito “de acordo com as suas
opinião. Há a ausência de formas intermediárias em
espécies” (ou “sua espécie”).55 Vegetação rasteira, plan­
plantas e animais e nenhuma evidência comprovada
tas e árvores frutíferas brotam, produzem sementes,
de transformação de espécies.58
dão frutos, “de acordo com as suas espécies” (Gn 1.11).
Gênesis nada diz acerca de o homem ser feito de
Deus criou monstros marinhos, peixes, aves, cada um
acordo com a “sua espécie”. Isso significa, simplesmen­
“de acordo com as suas espécies” (v. 21). Deus também
te, que, por mais que o homem possa estar relacionado
fez animais selvagens, gado, répteis, cada um “de acordo
com o que o precedeu na Criação, ele é singular. Ele
com as suas espécies” (v. 25). Há uma fixidez em cada
não foi feito “de acordo com a sua espécie”, mas “de
espécie que Deus fez.56 Cada um é livre para multiplicar-
acordo com a imagem de Deus”! Não há permutação
-se e desenvolver-se dentro da própria “espécie”, exibin­
concebível da mais elevada das criaturas vivas em ho­
do variedades e complexidades maravilhosas; mas isso
mem, não só por causa da inviolabilidade das espécies,
não pode ir além do que a Palavra de Deus fixou.57
mas também porque o homem não é simplesmente
Essa verdade bíblica, aliás, está em total oposição
uma espécie mais elevada. Ele é a única realidade em
à teoria da evolução, que defende o desenvolvimento
toda a Criação que é feita à semelhança de Deus e de
acordo com a imagem de Deus.
55 A palavra hebraica traduzida por “espécie” é min, que, se­
Há também uma bela progressão durante toda a
gundo TWOT, “pode ser classificada, de acordo com biólo­
saga da Criação. Ainda que haja uma fixidez nas es­
gos e zoologistas modernos, às vezes como espécies, às vezes
gêneros, às vezes família ou ordem”. Nas páginas a seguir,
pécies, é maravilhoso ver como todas as coisas que
uso “espécies”, mas sem intenção de cancelar outras formas Deus criou ou fez estão relacionadas umas com as ou­
de classificar “espécie” e “espécies”. tras. Fisicamente, o homem é composto dos mesmos
56 V. as palavras de Paulo em ICoríntios 15. Ele diz: “Mas Deus elementos que todo o restante do mundo; e, uma vez
lhe dá um corpo [...] e a cada espécie de semente dá seu cor­ que sua criação foi a última, é cabível dizer que Deus
po apropriado. Nem toda carne é a mesma: os homens têm
estava preparando o caminho para a entrada final do
uma espécie de carne, os animais têm outra, as aves outra, e
os peixes outra” (v. 38,39).
homem no cenário.
57 Esse fato tem sido confirmado de maneira explícita em nos­
sos dias pela descoberta da molécula de DNA, a “molécula 58 T. H. MorKgan, um evolucionista do início do século XX,
da hereditariedade”. De acordo com um autor recente, “o admitiu o seguinte: “Dentro do período da história do ho­
entendimento moderno das extremas complexidades da mem, não conhecemos um único caso de transformação de
chamada molécula de DNA e o código genético nela contido uma espécie em outra” (Evolution and Adaptation, p. 43).
tem reforçado o ensino bíblico da estabilidade das espécies. A situação não mudou até o presente, não há provas segu­
Cada tipo de organização tem sua própria estrutura ímpar ras de mutações de uma espécie para outra. Antes, há uma
de DNA e só pode especificar a reprodução da mesma espé­ persistência assombrosa de espécies, quaisquer que sejam as
cie” (H. M. M orris , The Genesis Record, p. 63). variações dentro de cada espécie.

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C ria ç ã o

É muito importante, porém, destacar que todo o VI. QUALIDADE


padrão de progressão é determinado em tudo pela
Agora passamos do método de criação para ob­
atividade de Deus. Há algo próximo da mágica na
ideia evolucionista de que formas de vida novas e su­ servar sua qualidade. Aqui o relato de Gênesis fala

periores ocorrem de modo espontâneo.59 Isso contra­ bem alto: foi toda boa , aliás muito boa. Desde o pri­
diz o senso comum, o relato bíblico e procedimentos meiro dia da Criação, quando Deus “viu que a luz
científicos genuínos. A lei de entropia fala de uma era boa” (1.4), até o sexto dia, quando Deus fez as
tendência em todas as coisas a uma inércia unifor­ criaturas vivas, há uma declaração recorrente: “Deus
me, à decadência. Os eventos ocorrem de tal maneira viu que ficou bom” (1.10,12,18,21,25). Então, quando
que a ordem desaparece gradualmente. Como pode todo o trabalho de criação estava terminado, “Deus
haver evolução ascendente? A seguinte declaração vai viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito
direto ao ponto: bom” (1.31). Assim, cada coisa feita por Deus era boa,
Teorias da evolução [...] ainda que de boca louvem e tudo visto em conjunto no ápice era muito bom.61
a ciência [...] postulam algo oposto ao princípio bá­ Por conseguinte, cada passo ao longo do caminho
sico de todo pensamento científico — elas postulam foi um bom passo, e tudo o que foi feito era bom. Quer
a criação espontânea, mágica, em completa ausência fosse a luz, quer fosse a terra seca, ou a vegetação, ou
de observadores, de tipos radicalmente novos de or­ os luminares celestes, ou seres vivos — de peixes a aves
ganização: a verdadeira reversão da lei da morfólise e animais — ou por fim o homem, tudo era bom. Por­
[“perda de forma, decomposição”].60 tanto, seria um erro grave considerar algum estágio da
O único meio possível de compreender o movi­
criação falho ou destrutivo. Se houve longas eras pre­
mento ascendente e progressivo — a ocorrência de
cedendo a criação do homem,62não era como se a terra
formas novas e superiores — é reconhecer que tiveram
fosse um lugar de grandes convulsões na natureza e de
origem na palavra e ação de Deus. Do “haja luz” até o
animais selvagens e vorazes.63 O quadro popular de um
“façamos o homem”, Deus foi a única causa suficiente
de tudo o que ganhou existência. O padrão de progres­
61 É interessante o comentário de Calvino: “Na própria ordem
são veio totalmente de Deus o Criador.
dos eventos, devemos ponderar diligentemente na bondade
paterna de Deus para com a raça humana ao não criar Adão
59 0 conhecido físico Carl Sagan escreve em seu livro Cosmos: antes de liberalmente enriquecer a terra com todas as coisas
“Talvez a origem e evolução da vida seja, dado tempo sufi­ boas. Se o tivesse colocado sobre a terra estéril e desapare­
ciente, uma inevitabilidade cósmica” (p. 24). Pode-se pergun­ lhada; se tivesse dado a vida antes da luz, ele poderia parecer
tar: por quê? Como a vida pode surgir da não vida? Como o pouco preocupado com os interesses do homem. Mas agora
inferior pode produzir o superior? “Dado tempo suficiente” que coordenou os movimentos do Sol e das estrelas para o uso
não significa nada, e “inevitabilidade cósmica” é absurdo. do homem, povoou o ar, a terra e a água com criaturas vivas
60 Robert E. D. Clark , C h ristian ity Today, 11 maio 1959, e produziu todos os tipos de frutas em abundância para o su­
p. 5. Podemos acrescentar que “a evolução teísta”, defendi­ primento de comida [...] ele mostra sua maravilhosa bondade
da por alguns que tentam ver Deus envolvido no processo para conosco” (Institutas, 1:14.2, trad. Beveridge).
evolucionário, embora talvez uma concepção melhor que 62 Conforme indiquei antes, entendendo os seis dias como eras.
a causa mecânica ou seleção natural, ainda é uma posição 63 Cabem aqui dois comentários. Primeiro: vale observar que
inadequada. “Evolução” é um termo infeliz, apesar de usado, em Gênesis 1 os animais não são descritos como carnívoros.
indicando falta de fixidez nas espécies e um processo diri­ Deus declarou: “[...] e dou todos os vegetais como alimento
gido por seleção natural. É muito melhor falar de criação a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes
como um processo ou estágios em que Deus é o iniciador animais da terra, a todas as aves do céu e a todas as criaturas
ativo e executor o tempo todo. que se movem rente ao chão” (v. 30). Segundo: de acordo

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mundo pré-histórico de distúrbios terrenos violentos todos os tipos de alimento e a instituição do casamento
e aves e animais predatórios está bem longe do rela­ — é uma mentira contra a boa provisão de Deus.
to bíblico. Pelo contrário, não havia falha na natureza Por fim, a bondade de Deus na Criação deve nos
nem destruição entre as criaturas vivas. Tudo existia despertar vezes sem conta para a alegria e a celebra­
em harmonia, tudo estava em paz — pois tudo o que ção. O salmista declara: “Comemorarão a tua imensa
Deus havia feito era bom, sim, muito bom. bondade e celebrarão a tua justiça [...]. O Se n h o r é
Segue-se que o mundo e tudo o que ele contém é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas
basicamente bom. À medida que Gênesis 2 expõe o criaturas” (145.7,9). De fato, toda a criação manifesta a
quadro, Deus causou uma neblina para regar a terra “imensa bondade” do Senhor. Vamos proclamar nosso
e criou o homem do pó, soprando nele o próprio fôle­ grato testemunho!
go; ele plantou um belo jardim com árvores “boas para
alimento”; e fez a mulher para partilhar a vida com o VII. PROPÓSITO
homem. Em tudo isso não havia nenhum indício de
Por fim, chegamos à questão do propósito da
mal: tudo que saiu da mão de Deus era bom.
Criação. Por que Deus criou o Universo, os céus e a
É importante destacar essa bondade básica de tudo
terra e por fim o homem? Para qual fim todas as coi­
o que Deus fez. Nada neste mundo é intrinsecamente
sas foram feitas?
mau. Essa afirmação é contrária a toda concepção que
Em um sentido, a resposta básica é que a Cria­
considere a matéria má, o mundo criado como a esfera
ção ocorreu porque Deus desejou que assim fosse. De
das trevas, e o corpo do homem corrupto por causa de
acordo com o livro de Apocalipse, os 24 anciãos lan­
sua composição terrena.64 O fato de que o mal — com
çam as coroas diante do trono de Deus e cantam: “Tu
todos os seus efeitos terríveis — logo emergirá na cena
és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória,
(Gn 3 e 4) não deve permitir, de modo algum, distorcer
a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste,
o fato de que o mundo feito por Deus é essencialmente
sim, por causa da tua vontade65 vieram a existir e fo­
bom. O mundo é uma boa criação de Deus.
ram criadas” (4.11, ARA). A vontade de Deus era a
Na prática, para começar, isso significa uma decla­
razão maior para a Criação: era simplesmente, e pro­
ração positiva do que Deus deu na Criação. Paulo falou
fundamente, vontade de Deus criar.66 Gênesis declara
com veemência contra ensinamentos “de homens hi­
pócritas e mentirosos, que têm a consciência cauteri-
65 A expressão grega traduzida por “por causa da tua vontade”
zada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos
é dia to thelema sou. A NVI, AEC e ARC traduzem dia por
que Deus criou para serem recebidos com ação de gra­ “por”. Entretanto, dia também pode significar “por causa de”
ças [...]. Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ou “devido a”, que aqui, creio, é melhor. O New Testament
ser rejeitado, se for recebido com ação de graças, pois in Modern Speech, de Weymouth, traz: “porque era tua
vontade” Também EBC traduz por “por causa de” (e acres­
é santificado pela palavra de Deus e pela oração” (lTm
centa bruscamente: “não ‘por ”). A tradução da KJV, “por
4.2-5), Rejeitar o que Deus deu — suas bênçãos de
teu prazer”, é um tanto enganosa, pois sugere que Deus criou
o mundo para seu próprio deleite. Decerto, Deus pode ter
com Gênesis 2, depois que o homem foi criado, todos os ani­ prazer naquilo que fez, mas isso dificilmente seria o motivo
mais — gado, aves e feras — foram levados para ele lhes para sua criação.
atribuir nomes (v. 19). Não há nenhuma indicação de que 66 Calvino escreveu acerca da vontade de Deus: “Quando [...]
algum deles fosse violento por natureza. alguém pergunta por que Deus assim fez, precisamos res­
64 O gnosticismo, uma heresia cristã primitiva, sustentava es­ ponder: porque ele quis. Mas, se você seguir adiante e per­
sencialmente essa ideia. guntar por que ele o quis, estará buscando algo maior e mais

98
C ria ç ã o

que “no princípio Deus criou”: Deus o desejou — ele causa maior da Criação; assim, é preciso que não
criou — nada mais se diz. Que ele o fez e depois como busquemos uma razão além dela. Entretanto, a von­
ele o fez são declarados, mas não há nenhuma decla­ tade de Deus não é alguma faculdade separada ou
ração sobre o porquê de o ter feito. Assim, é preciso um compartimento de seu ser, mas seu ser todo em
exercer muita austeridade ao seguir adiante, postu­ ação à parte dele. Assim, a Criação era uma expres­
lando o motivo ou propósito. são da glória de Deus, uma vez que a glória de Deus
Aqui uma objeção deve ser interposta com respei­ é o fulgor do esplendor e da majestade que brilha
to à ideia às vezes expressa, a saber, que Deus criou em cada aspecto de seu ser e ação.67 Portanto, a
o mundo por alguma necessidade interior. Por exem­ Criação, como a expressão da vontade de Deus, era
plo, antes da Criação Deus necessitava de uma reali­ a manifestação de sua glória.
dade fora dele mesmo por meio da qual encontrasse Por conseguinte, podemos agora falar da manifes­
autoexpressão e satisfação. Uma vez que Deus estava tação da glória de Deus como o propósito de Deus ao
só, fez um mundo, especialmente o homem, para que criar todas as coisas. Ao demonstrar sua glória, Deus
tivesse alguém com quem ter comunhão. A Criação, desejava ter uma criação a que essa glória fosse ma­
por conseguinte, era basicamente para a autossatis-
nifesta. Era para a manifestação de sua santidade, seu
fação de Deus. Em termos um pouco diferentes, uma
amor, sua verdade, seu poder, sua sabedoria, sua bon­
vez que Deus é amor, o amor demanda um objeto; de
dade68 — aliás, tudo o que Deus é em si mesmo. Deus
outro modo o amor fica frustrado. Assim, de novo, a
desejava ter uma criação a quem pudesse comunicar
Criação era necessária.
sua glória, um mundo para manifestar a glória de seu
Resposta: toda noção de que Deus criou por cau­
ser e natureza eternos. Deus não criou o mundo para
sa de necessidade interior é totalmente contrária ao fato
satisfação própria ou autorrealização, mas para permi­
de que Deus em si contém toda a plenitude. Antes da
tir que toda a criação partilhasse da riqueza, da mara­
Criação, Deus não estava só, pois nele mesmo havia
vilha, da glória dele mesmo.
— e há — a comunhão do Pai, Filho e Espírito Santo.
A criação, pois, é a arena da glória de Deus. Os
Deus é em todos os sentidos completo sem a Criação.
poderosos anjos em volta do trono de Deus procla­
Aqui as palavras de Paulo ditas aos atenienses são bem
mam: “Santo, santo, santo é o Se n h o r dos Exércitos,
próprias: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele
a terra inteira está cheia da sua glória” (Is 6.3). A
há é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em san­
terra, o mundo, está impregnada da glória daquele
tuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por
que criou todas as coisas. Talvez nem sempre veja­
mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque
mos isso como veem os anjos, por causa do pecado
ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coi­
e do mal que entraram na boa criação de Deus, mas
sas” (At 17.24,25). Deus não necessita de nada: ele não
a glória ainda está aqui e algum dia será totalmente
criou para receber, mas para dar.
manifesta, pois Deus mesmo também testificou: “Tão
A declaração anterior de que Deus criou para
dar leva-nos ainda mais adiante no propósito da
67 V. o cap. 3. Epílogo: “A glória de Deus”, p. 68-70.
Criação. Já observamos que a vontade de Deus é a
68 O capítulo sobre a Criação (IV) na Confissão de fé de
Westminster começa assim: “Aprouve a Deus o Pai, Filho
elevado que a vontade de Deus, que não pode ser encon­ e Espírito Santo, para manifestação da glória de seu eterno
trado” (Institutas, 3:16.2, trad. Battles). Embora Calvino poder, sabedoria e bondade, no princípio, criar ou fazer do
tenha afirmado isso em relação à predestinação, seu ponto nada o mundo, e todas as coisas nele [...]”. Isso é, aliás, um
aplica-se igualmente bem à Criação. retrato esplêndido do propósito de Deus na Criação.

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certo como eu vivo, e que a glória do Senhor encherá as riquezas da glória de Deus agora cumpre seu mais
toda a terra [...]” (Nm 14.21, AEC). elevado propósito ao glorificar Deus.
Por fim, uma vez que o propósito de Deus na Com os anciãos em volta do trono de Deus, tam­
Criação era manifestar sua glória, toda a criação é bém cantemos: “Tu, Senhor e Deus nosso, és digno
mais abençoada quando sua resposta é glorificar de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste
Deus. Deus não precisa receber glória, assim como todas as coisas, e por tua vontade elas existem e fo­
não precisa receber amor — ou nada mais de suas ram criadas”. Pois é nessa oferta de louvor a Deus o
criaturas — mas é na oferta de louvor e ação de gra­ Criador que toda a criação conhece sua mais elevada
ças que o círculo se completa. A criação que recebeu bem-aventurança.

100
6
Providência

Na teologia, a doutrina da providência decorre dire­ de Deus numa multiplicidade de formas colocam-se no
tamente da doutrina da criação, pois o Deus que cria é centro da doutrina da providência.
também o Deus que provê para sua criação .1 Por conse­ Deus, portanto, é compreendido na providência
guinte, vamos observar vários aspectos dessa provisão e, como aquele que está intimamente interessado em sua
em relação estreita com eles, considerar questões afins criação. Ele não criou um mundo para depois aban-
como o problema do sofrimento humano, a atuação doná-la à própria sorte .6 As Escrituras dizem que no
de Deus na providência extraordinária (ou milagres) sétimo dia Deus “descansou” de seu trabalho de cria­
e a função significativa dos mensageiros angélicos de ção, mas o descanso de Deus não significa indiferença
Deus.2 A doutrina da providência, portanto, cobre uma ou indolência dali em diante. Muito pelo contrário, o
área vasta e importante, e o conhecimento da providên­ Deus atestado na Escritura é aquele que sustenta o que
cia e a fé no Deus que provê para todas as suas criaturas fez, aquele que se envolve nos interesses dos povos e
são de grande importância para a vida humana .3 das nações e aquele que está dirigindo todas as coisas
até seu cumprimento final.
I. DEFINIÇÃO A providência é muito mais que só um cuidado
geral que Deus tem por sua criação. Com certeza, é
A providência pode ser definida como o cuidado
adequado dizer que Deus tem um interesse benevo­
de Deus como supervisor e guardião de toda a criação.
lente por todas as suas criaturas. Entretanto, da mais
Essa atividade é tão vital que Deus é às vezes denomi­
profunda importância é seu cuidado particular por to­
nado Providência.4 Nas Escrituras, a designação antiga
das elas, uma por uma; pois de fato, conforme declara
de um lugar é “o Senhor proverá”, pois foi ali que Deus
Jesus, até com respeito aos pardais: “Nenhum deles
proveu um carneiro para Abraão, em lugar do sacrifício
cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês”
de seu filho, Isaque.5 O cuidado e a proteção constantes
(Mt 10.29), e com respeito aos seres humanos: “Até
os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados”
! A criação é ex nihilo; a providência trata da relação de Deus
(Mt 10.30). Deus em sua providência está interessado
com aquilo a que ele deu existência.
2 Os dois últimos, milagres e anjos, serão considerados nos nas minúcias de sua criação.
cap. 7 e 8 respectivamente. A doutrina da providência não é uma doutrina de
3 Calvino usa palavras fortes: “Ignorar a Providência é a otimismo superficial. Não é olhar para o mundo atra­
maior de todas as desgraças, e o conhecimento dela é a mais
vés de óculos cor-de-rosa, como se não houvesse nem
elevada felicidade” (Institutas, 1:17.11, trad. Beveridge).
problemas, nem sofrimento, nem mal. Não é dizer que,
4 Na história dos Estados Unidos, a consciência que os primei­

ros peregrinos tinham da providência de Deus ficou consa­


grada na cidade a que deram o nome de Providence, que 6 A crença do deísmo. A doutrina da providência vai contra
mais tarde tornou-se a capital do estado de Rhode Island. qualquer concepção de um Deus distante ou desinteressa­
5 “Abraão deu àquele lugar o nome de ‘O Senhor Proverá do que, tendo estabelecido o mundo sob suas próprias leis
[YHWH yireh]\ Por isso até hoje se diz: ‘No monte do invariáveis e poderes inerentes, não tem necessidade nem
Senhor se proverá ” (Gn 22.14). intenção de se envolver com ele.

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porque Deus provê, a vida nada mais é do que sereni­ agrupados sob os títulos de preservação, companhia e
dade e conforto. “Deus está no céu dele; tudo bem com direção. Deus preserva, acompanha e dirige sua criação.
o mundo”,7 dificilmente seria o entendimento bíblico
da sina do mundo ou do relacionamento de Deus com
A. Preservação
ele. A doutrina da providência está bem longe de um
Deus em sua providência preserva sua criação. Ele
otimismo vazio; ela procura reconhecer a complexida­
preserva, sustenta, mantém. Isso diz respeito particu­
de do mundo que Deus criou, as provações e labutas
larmente à existência daquilo que criou.
nele, e falar de modo realista acerca de como Deus age.
O mundo é preservado em sua existência pelo
É uma doutrina de profundo realismo.
Deus todo-poderoso. Toda a criação encontra-se m o­
Mais um comentário: estamos nos movendo, de
mentaneamente sob ameaça de dissolução. Sua solidez
novo, no campo da revelação e da fé.8 A doutrina da
aparente nada mais é do que o movimento de átomos
providência não é, de modo algum, baseada numa am­
incontáveis que mantêm a regularidade e a ordem por
pla observação da natureza e da História. Há, de fato,
meio de alguma força externa. As estruturas e as leis
indícios da providência divina na benevolência geral de
não passam de sequências contínuas que se rompe­
Deus para com todas as suas criaturas. Conforme diz
ríam sem um poder que as impeça. A rotação da Terra
Paulo: “Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua
em torno do Sol, o giro da Terra em torno do próprio
bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo
eixo, o nível de oxigênio na atmosfera — tudo o que
certo” (At 14.17). Entretanto, o mundo examinado por
existe pelo ato criativo de Deus — se degradaria, dis­
olhos naturais também pode ser visto como um mundo
em que ou o destino ou a fortuna reinam supremos. No solvería, voltaria para o caos se Deus não sustentasse

primeiro caso, em vez de estar sob o cuidado e a guar­ e preservasse . 11 Por intermédio da Palavra de Deus

da providencial de Deus, tudo ocorre em virtude de um foram feitos; por ela ganharam existência; e, por con­

destino ou necessidade9 que a tudo rege e a tudo deter­ seguinte, nela “tudo subsiste” (Cl 1.17).12 De fato, ele
mina; no segundo, tudo o que acontece é uma questão sustenta “todas as coisas por sua palavra poderosa”
de eventualidade ou acaso.10 Essa filosofia especulativa, (Hb 1.3 ) .13 O Universo, 14 o mundo — todas as coisas
em que Deus não tem papel significativo (ou é inexis­
tente), está muito longe da doutrina da providência. 11 Muitos físicos hoje referem-se à “força forte” que, segundo
Entretanto, a doutrina em si não nasce de nenhuma dizem, é uma grande força que mantém coeso o núcleo do
perspectiva humana, nem especulativa nem empírica, átomo. Ela é descrita não como gravidade nem como ele-
tromagnetismo, mas como uma força primai que mantém
acerca da natureza e da História. Ela está firmada na
o próton e o nêutron, e liga porções minúsculas de matéria
revelação divina atestada na Escritura e confirmada de
chamadas quarks. Não fosse pela “força forte”, todos os
muitas maneiras pela experiência da fé. átomos e, portanto, o Universo entrariam em colapso.
12 Isso se diz de Cristo. As palavras do contexto são: “Todas as
II. ASPECTOS
coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as
coisas, e nele tudo subsiste”. (A tradução da KJV, “tudo consis­
Vamos agora estudar os vários aspectos da provi­
te” é possível, porém “subsiste” [como também na AEC, ARA
dência. Para uma explanação mais detalhada, eles serão
e ARC] é mais provável. V. sunistêmi em BAGD.) Deus por
meio de Cristo, a Palavra eterna, sustenta todas as coisas.
7 Linhas de Pippa Passes, de Browning. 13 De novo, fala-se de Cristo, que “é o resplendor da glória
8 Assim como na doutrina da criação (v. comentários no cap. de Deus e a expressão exata do seu ser” e sustenta “todas
5, seção 1). as coisas”.
9 Como no estoicismo. 14 “Todas as coisas” em Hebreus 1.3 é traduzido na NTLH por “o
10 Como no epicurismo. Universo”. Lembre-se das palavras de Paulo em Colossenses

102
P ro v id ê n c ia

— são mantidos pelo poder de Deus. Então louvemps Em seguida, vamos trazer à mente a maravilha de
a Deus nas palavras de Esdras: “Só tu és Senhor. Fizeste Deus preservar continuamente suas criaturas pela pro­
o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e visão regular de suas necessidades. No início da criação,
tudo o que nela há, os mares e tudo o que neles há. Tu Deus proveu alimento para suas criaturas: “E dou todos
os conservas com vida a todos, e o exército dos céus os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego
te adora” (Ne 9.6, AEC). Deus, o Criador de todas as de vida: a todos os grandes animais da terra, a todas as
coisas, conserva tudo o que fez. aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente
Segue-se que essa preservação e sustento é fato ao chão” (Gn 1.30). Também para o homem “o Senhor
também no que diz respeito à existência das criaturas, Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradá­
especialmente a existência humana. O salmista declara veis aos olhos e boas para alimento” (2.9). Assim, Deus
a Deus: “Tu, Senhor , preservas tanto os homens quan­ preservou generosamente o que havia criado. Mesmo
to os animais” (SI 36.6). De novo, “bendizei, ó povos, o quando o homem pecou e a terra foi amaldiçoada, de
nosso Deus [...] o que preserva com vida a nossa alma e
modo que ele tivesse de suar e trabalhar duro para cul­
não permite que nos resvalem os pés” (SI 66.8,9, ARA).
tivá-la, Deus ainda o supriu (v. 3.17,18). Mesmo quando
No livro de Jó, há a seguinte declaração: “Se fosse in­
o mal alcançou proporções tais que Deus enviou um di­
tenção dele [Deus], e de fato .retirasse o seu espírito e o
lúvio para exterminar todos os seres viventes — exceto
seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e
Noé, sua família e os grupos de dois ou sete animais — ,
o homem voltaria ao pó” (34.14,15). Essas Escrituras
Deus depois declarou: “Enquanto durar a terra, plantio
atestam que a vida física é mantida e sustentada de
e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais
modo contínuo e vigoroso pelo grande poder de Deus.
cessarão” (8.22). Tudo isso é uma demonstração da bon­
Precisamos fazer uma pequena pausa para refletir
dosa preservação de Deus.16
sobre a maravilha de nossa existência física contínua.
Essa preservação contínua da criação de Deus é lin­
A batida regular do coração, a circulação do sangue
damente expressa nas palavras do salmista: “Os olhos de
pelo corpo, o transporte literal da vida na corrente
todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no
sanguínea — tudo isso segue de instante em instan­
devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de
te, sem nenhum esforço ou comando de nossa parte.
todos os seres vivos” (SI 145.15,16). A respeito da huma­
Realmente é uma maravilha podermos estar vivos. E só
nidade em geral Jesus declarou: “Ele [Deus] faz raiar o
pode haver uma fonte maior: o Deus vivo, que man­
tém “com vida a nossa alma”, que sustenta o fôlego em seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos

nossas narinas, que dá condições para nosso coração e injustos” (Mt 5.45). Deus sustenta providencialmente

continuar suas batidas vitais .15 Nunca deixemos de tudo. De modo semelhante, Paulo disse a uma audiência

bendizer Deus pela maravilha e prodígio da vida em si. pagã: “[Deus] mostrou sua bondade, dando-lhes chuva
do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes

1.16: “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra,


as visíveis e as invisíveis”. É da vasta criação, estendendo-se até sua criação em nenhum aspecto, como faz o panteísmo.
além do Universo visível, que Deus preserva a existência. A propósito, uma doutrina da criação sem uma doutrina da
15 Deve-se evitar qualquer concepção que identifique Deus providência logo se torna deísmo; uma doutrina da provi­
com a vida humana (ou o mundo, conforme já se descre­ dência sem a criação logo se desvia para o panteísmo.
veu). Deus não é a alma do homem (ou a estrutura do mun­ 16 Às vezes isso é denominado graça comum de Deus, ou seja,
do), ainda que sua providência sustente todos. A doutrina uma graça experimentada em comum por todas as criaturas
da providência, apesar de destacar a imanência de Deus de Deus. Em relação às pessoas, essa graça é conferida igual-
(contra o deísmo; v. p. 101-102), não identifica Deus com mente ao pecador e ao fiel.

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sustento com fartura e um coração cheio de alegria” Essas promessas extraordinárias de proteção divina
(At 14.17). A providência de Deus para todas as pessoas contra perigos físicos são feitas claramente a pessoas
continua através de todas as gerações. que de fato confiam no Senhor. Por outro lado, há
Esse entendimento da preservação infalível de Deus também a garantia de livramento divino dos ataques
deve possibilitar uma vida livre de ansiedades, especial­ inimigos. Nas palavras do salmo 138: “Ainda que eu
mente para aqueles que o conhecem como Pai. Numa passe por angústias, tu me preservas a vida da ira dos
série de declarações memoráveis no Sermão do Monte meus inimigos; estendes a tua mão direita e me livras”
acerca da vida, do alimento, da bebida e das vestes (Mt (v. 7). Essa garantia de livramento é dada a quem disse:
6.25-34), Jesus salientou que Deus Pai conhece todas as “Eu te louvarei, Senhor , de todo o coração; diante dos
nossas necessidades e com certeza as proverá. Se ele cui­ deuses cantarei louvores a ti” (v. 1). Deus o Senhor é o
da dos pássaros do ar e dos lírios do campo, não cuidará protetor daqueles que se regozijam em sua presença.
muito mais de nós? Pois “o Pai celestial sabe que vocês No NT, a observação mais notável sobre a preserva­
precisam delas” (v. 32). O importante é: “Busquem, pois, ção está ligada à proteção divina daqueles que perten­
em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e to­
cem a Cristo, guardando-os de todo o mal. Na grande
das essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não
oração de João 17 a Deus Pai, Jesus diz: “Não rogo que
se preocupem [...]” (v. 33,34). É bom refletirmos sobre
os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno”
o significado desse ensino, especialmente para a vida
(v. 15).17 De modo semelhante, Jesus ensinou seus dis­
cristã. Os que têm experimentado a obra salvadora de
cípulos a orarem ao Pai: “E não nos deixes cair em ten­
Deus em Jesus Cristo e assim conhecem a abundância
tação, mas livra-nos do mal” (Mt 6.13).18 A oração de
da graça de Deus devem ter consciência ainda maior
Jesus e as de seus discípulos são essencialmente iguais:
da bondade de Deus na providência. Se Deus proveu a
intercessão a Deus Pai pedindo guarda e livramento.
grande salvação para nós, pecadores, e foi generoso em
Podemos ter certeza de que tais orações (dos crentes
nos permitir participar de seu favor, quanto mais plena­
mais as de Cristo!) são ouvidas e que Deus certamente
mente que os outros devemos ser capazes de nos regozijar
protegerá. As palavras de Paulo aos tessalonicenses dão
em sua graça comum? Sabemos o que ele fez espiritual­
mais ênfase a esse fato: “O Senhor é fiel; ele os forta­
mente por nós em Cristo; como então podemos de novo
lecerá e os guardará do Maligno” (2Ts 3.3). A proteção
ficar ansiosos acerca de necessidades materiais? De fato,
dos crentes contra o mal (ou contra o Maligno) é uma
como Paulo diz: “O meu Deus suprirá todas as necessi­
dades de vocês, de acordo com as suas gloriosas rique­ verdade profundamente significativa da fé cristã.

zas em Cristo Jesus” (Fp 4.19).


B. Companhia
Por fim, há a maravilhosa realidade da preserva­
ção divina de nossa existência em meio aos perigos e Deus em sua providência acompanha sua criação.
riscos da vida. Por um lado, há a proteção garantida Ele está presente e se envolve com ela. Isso diz respeito
de Deus para aqueles que habitam em sua presença. particular à atividade da criação de Deus.
Todo o salmo 91 é um retrato incisivo da situação da­ Desde o princípio Deus tem-se revelado como al­
quele que “habita no abrigo do Altíssimo e descansa guém envolvido com sua criação. Como o Espírito de
à sombra do Todo-poderoso” (v. 1). Há livramento da Deus, ele se moveu com poder sobre a face das águas,
“peste [...] nenhum mal o atingirá, desgraça alguma gerando com isso vida e ordem (Gn 1.2 ) . 19 E quando
chegará à sua tenda. Porque a seus anjos ele dará or­
dens a seu respeito, para que o protejam em todos os
Ou “do mal” (AEC). O grego é ek tou ponêrou.
seus caminhos [...]. Você pisará o leão e a cobra [...]. 18 Ou “do maligno” (RSV, nota). O grego é apo tou ponêrou.
Porque ele me ama, eu o resgatarei” (v. 6,10,11,13,14). 19 V. a discussão no capítulo anterior.

104
P ro v id ê n c ia

o homem foi feito, “Deus formou o homem do pó da encurtado e um dilúvio fosse enviado por Deus para ex­
terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida” (Gn terminar a raça humana, exceto por Noé e sua família,
2.7).20 Esse envolvimento imediato, até íntimo, de Deus não desistiu: ele continua a atuar em sua criação.
Deus com suas criaturas desde o início não foi uma Não precisamos entrar em nenhum detalhe, pois a
questão momentânea. Com respeito à criação em ge­ narrativa bíblica — AT e NT — é a história contínua do
ral, ele continuou a formá-la e a moldá-la, a aguá-la e a envolvimento de Deus com o homem. O interesse de
prover para ela (Gn 1.2— 3.6). Com o homem ele con­ Deus é sempre por toda a raça humana. Quando Deus
tinuou sua presença ativa, colocando-o num jardim e chamou Abraão e prometeu que ele se tornaria uma
andando, ele mesmo, por ali,21 levando ao homem os grande nação, era em favor de toda a humanidade: “em
seres vivos para que lhes desse nome e tomando uma ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3,
costela dele para formar uma mulher (2.8-25). Assim, AEC). Assim, não é que Deus não tivesse um relaciona­
Deus estava presente desde o início junto de sua cria­ mento com outras nações, pois ele teve ao longo de toda
ção e se envolveu ativamente nela. a História; mas ele trabalhou particularmente com um
Mesmo depois do pecado do homem, Deus provi­ povo para conseguir trazer todos de volta para si.
denciou “roupas de pele” (Gn 3.21) para Adão e sua es­ A presença divina, pois, era conhecida de modo es­
posa. Quando Eva concebeu e gerou seu primeiro filho, pecial por Israel. Abraão, Isaque e Jacó muitas vezes ex­
Caim, tudo ocorreu “com o auxílio do Senhor” (4.1). perimentaram a presença de Deus, como ocorreu com
Apesar de o homem e a mulher terem sido banidos José e Moisés mais tarde. Os próprios israelitas em sua
do Éden e de um relacionamento íntimo com Deus, peregrinação no deserto, apesar dos muitos fracassos,
Deus não os abandonou. Aliás, mesmo depois que conheceram a companhia da presença de Deus. A colu­
Caim assassinou o irmão, Abel, e foi condenado pelo na de nuvem durante o dia, a coluna de fogo durante a
Senhor a ser fugitivo dali em diante, “o Senhor colo­ noite, a teofania de Deus no monte Sinai, a arca da alian­
cou em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a ça no meio do acampamento — tudo significava a pre­
encontrá-lo o matasse” (4.15). Caim então “afastou-se sença maravilhosa de Deus. Assim continua a história...
da presença do Senhor ”, mas não ficou fora do alcance Só para pinçar um relato muito posterior, da época
do cuidado e do interesse providencial de Deus. do cativeiro de Israel na Babilônia: é lindo observar
Essas narrativas antigas retratam de muitas e várias a presença de Deus com os três israelitas amarrados e
maneiras o envolvimento e a presença divina. Tragica­ lançados pelo rei Nabucodonosor na fornalha ardente.
mente, por meio do pecado do homem, houve um afas­ O rei, ao ouvir que ainda viviam, olhou para dentro

tamento da presença divina e, como punição, o bani­ da fornalha e com grande assombro declarou: “Olhem!

mento, mas Deus jamais deixou de estar envolvido com Estou vendo quatro homens, desamarrados e ilesos,

o homem. Logo antes do dilúvio Deus declarou: “Não andando pelo fogo, e o quarto se parece com um filho
contenderá o meu Espírito para sempre com o homem, dos deuses” (Dn 3.25).22 Mesmo na fornalha ardente

porque ele também é carne” (Gn 6.3, ARC). Entretan­ Deus não abandonou seu povo.

to, embora o período de vida do homem tenha sido Aqui podemos nos lembrar das palavras do sal-
mista: “Para onde poderia eu escapar do teu Espírito?

20 V. no cap. 9, “Homem”, uma discussão mais ampla sobre esse


ato de Deus. 22 Referindo-se à presença de Deus em forma angelical.
21 Isso é declarado em Gênesis 3.8 — o homem e sua mulher Nabucodonosor mais tarde acrescentou que “Deus [...]
ouviram “os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim enviou o seu anjo, e livrou os seus servos, que confiaram
quando soprava a brisa do dia”. nele” (v. 28, AEC).

105
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta í

Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir Deus não abandona sua criação; ele está presente e
aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultu­ se envolve com tudo o que fez.
ra, também lá estás” (Sl 139.7,8). Também as palavras
de Isaías vêm à mente: “Quando você atravessar as
C. Direção
águas, eu estarei com você; quando você atravessar
Deus em sua providência dirige sua criação. Ele
os rios, eles não o encobrirão. Quando você andar
guia e governa todas as coisas. Isso se refere em parti­
através do fogo, não se queimará; as chamas não o
cular ao propósito que a criação deve cumprir.
deixarão em brasas” (43.2). Palavras como essas em
Desde o início Deus vem dirigindo sua criação. Ele
salmos e em profecias declaram a maravilhosa reali­
não só preserva e acompanha suas criaturas, mas tam­
dade da companhia da presença de Deus.
bém as governa e guia. Ele não permite que nada fuja
Certamente o NT apresenta de modo ainda mais
de seu controle. Tudo cumpre sua intenção e finalidade.
vivo um quadro da companhia divina. Ora, a própria
A narrativa de abertura em Gênesis mostra que,
encarnação é o milagre de Emanuel — “Deus conos­
apesar da bondade providencial de Deus no Éden, o
co” — em carne humana. Ali havia a presença de Deus
homem desobedeceu à ordem de Deus e por isso foi
por meio de Cristo de um modo muito mais intenso,
condenado à morte. Entretanto, não há indicação de
direto e pessoal do que nunca na história humana ou
que isso tenha frustrado o propósito de Deus, porque,
na história de Israel. Além disso, não era apenas Deus
imediatamente após a desobediência do homem, Deus
com as pessoas; era um participar profundo na vida,
declarou que a serpente, que causou a desobediência,
existência, pecado, culpa e desespero delas — chegan­
teria por fim a cabeça “ferida”,23 e assim o propósito
do até a cruz para obter a salvação humana. De fato,
salvador de Deus seria cumprido. Por conseguinte, a
Deus em Cristo acompanhou suas criaturas desoladas
até as últimas profundezas da perdição para conseguir queda do homem será usada para provocar a destrui­

trazê-las à luz da glória. ção de Satanás, e — conforme fica cada vez mais evi­

Deus também não abandonou os seus depois da­ dente no desenvolver da narrativa da Bíblia — a Queda

quilo. Jesus declarou aos discípulos: “Eu estarei sem­ realçará a maravilha da glória e da graça de Deus.

pre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20). Ele Isso significa, para começar, que Deus é o Senhor

enviou o Espírito Santo para ser a realidade concreta da História. Trata-se de uma história longa e complexa:

da presença contínua de Deus. Deus conosco — aliás, a maldade crescente da humanidade até o Dilúvio; um
Cristo conosco — até o fim do mundo! recomeço com Noé; a dispersão da humanidade depois
Agora, porém, preciso salientar: a realidade da pre­ da torre de Babel; o chamado de Abraão; a servidão no
sença de Deus na vida e na experiência cristã não signi­ Egito; a formação de Israel para ser o povo especial
fica que ele esteja distante das outras pessoas. Conforme de Deus; a dádiva da Lei e dos mandamentos; o go­
o apóstolo Paulo disse aos atenienses: “[Deus] não está verno de juizes e reis; o exílio na Assíria e na Babilô­
longe de cada um de nós” (At 17.27, AEC). Deus de fato nia; a vinda do Messias; sua vida, morte e ressurreição;
está à mão, já que devemos nossa existência a ele (como a vitória sobre Satanás; o estabelecimento da igreja; a
se observou, o homem existe pelo “sopro” de Deus), e proclamação do evangelho; a consumação final e o fim
assim ele cuida de todas as pessoas e sempre procura do mundo. Em tudo isso há a supervisão e direção de
levá-las à verdade. Essas são “as riquezas da sua bonda­ Deus para cumprir seus propósitos.
de, tolerância e paciência” com a intenção de levar ao ar­
rependimento (Rm 2.4). Essa preocupação diz respeito 23 O descendente da mulher, Deus disse à serpente, “[...] lhe
a todas as pessoas em todos os lugares. ferirá a cabeça” (Gn 3.15).

106
P ro v id ê n c ia

É evidente que Deus está interessado na vida e na rapina; de uma terra bem distante, um homem para
história de toda a humanidade. Aliás, como diz o após­ cumprir o meu propósito. 0 que eu disse, isso eu farei
tolo Paulo, “o Senhor dos céus e da terra [...] de um acontecer; o que planejei, isso farei” (46.9-11).
só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a
Assim, a história de Israel está entrelaçada com a
terra, tendo determinado os tempos anteriormente es­
de seus inimigos. Deus cumprirá seu propósito diri­
tabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habi­
gindo “uma ave de rapina” e “de uma terra bem distan­
tar” (At 17.24, 26). Assim, não é por acaso que nações e
te, um homem” para levar adiante sua intenção com
povos vêm se espalhando pela face da terra: Deus mar­
seu povo escolhido.
cou o tempo e o limite deles. E o propósito? Na conti­
Isso ainda significa que Deus faz uso de intenções
nuação das palavras de Paulo, é “para que os homens
malignas para cumprir sua vontade. No caso ante­
o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo”
rior, eram os babilônios que pretendiam nada mais
(v. 27). É interesse de Deus que todas as nações e povos
que pilhagem, destruição e cativeiro. Certamente não
venham a conhecê-lo.
tinham noção de que seus atos eram subservientes a
Nunca é demais destacar o interesse e o propósito
uma intenção divina, mas Deus estava agindo, diri­
universais de Deus. De acordo com o relato do AT, Deus
gindo os atos deles, convocando “uma ave de rapina”.
confundiu a linguagem da humanidade e dispersou as
Um exemplo muito anterior disso encontra-se no caso
nações por toda parte,24 mas isso de modo algum signi­
de José que foi vendido ao Egito por seus irmãos. Em ­
fica que era para excluí-los de seu propósito. Pelo contrá­
bora os irmãos de José tivessem cometido um ato im ­
rio, era para manter sob controle o orgulho arrogante e a
piedosamente mau, aquilo possibilitou a preservação
ambição pelo poder, para fazê-los continuar a buscá-lo
de Israel: “Vocês [disse José aos irmãos] planejaram o
e preparar o caminho mediante a escolha de um povo,
mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que
Israel Deus ainda continua trabalhando com todas as
hoje fosse preservada a vida de muitos” (Gn 50.20).
nações. Uma viva indicação disso encontra-se nas pala­
Tudo isso demonstra que Deus dirige providen-
vras posteriores de Deus por meio de Amos: “Não fiz eu
cialmente a história de povos e nações. Isso não nega
subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor aos filisteus,
nem a liberdade de ação deles nem a maldade de suas
e de Quir aos siros?” (Am 9.7, AEC). Decerto, o AT gira
intenções. Deus cumpre seu propósito por meio de to­
em torno da direção divina da história de Israel, mas ele
dos. Destacam-se tanto a vontade predeterminante de
é Deus de todas as nações — os filisteus, os siros e todos
Deus em cada detalhe, como a liberdade total deles no
os outros — e também dirige o destino deles.
exercício das ações. Isso jamais foi demonstrado com
É também significativo que Deus muitas vezes
maior vigor (agora que passamos para o NT) do que na
emprega outras nações ou povos para cumprir seus
atuação da nação judaica ao levar Jesus à morte. Ouça
propósitos. Aqui podemos relembrar uma passagem
as vozes de Pedro no dia de Pentecoste ao povo judeu:
extraordinária em Isaías:
“Este homem [Jesus] lhes foi entregue por propósito

“Eu sou Deus, e não há nenhum outro; eu sou Deus, determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês,
e não há nenhum como eu. Desde o início faço conhe­ com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregan­
cido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. do-o na cruz” (At 2.23). Mais tarde, numa oração pela
Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo jovem comunidade cristã, isso se destaca de novo: “De
o que me agrada. Do oriente convoco uma ave de fato, Herodes e Pôncio Pílatos reuníram-se com os gen­
tios e com o povo de Israel nesta cidade, para conspirar
24 “[...] ali o Senhor confundiu a língua de todo o mundo. Dali contra o teu santo servo Jesus, a quem ungiste. Fize­
o Senhor os espalhou por toda a terra” (Gn 11.9). ram o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido

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T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

de antemão que acontecesse” (At 4.27,28). Na cruci­ Em outra ocasião, as palavras acerca dos “dez reis” é que
ficação de Jesus, havia tanto a consecução do plano “Deus colocou no coração deles o desejo de realizar o
“determinado” e “predestinado” de Deus como a ação propósito que ele tem, levando-os a concordarem em
de homens “perversos” (gentios e judeus igualmente). dar à besta o poder que eles têm para reinar até que se
Esses agiram com liberdade e maldade — aliás, muito cumpram as palavras de Deus” (Ap 17.17).
mais maldade que qualquer ato registrado em toda a Podemos fechar esta seção estudando brevemen­
História — pois eles cruelmente levaram à morte o Fi­ te a intenção final de Deus na História. Seu propósito
lho de Deus; portanto, a culpa deles era horrenda, pior jamais foi expresso de modo mais veemente que nas
do que tudo o que se possa imaginar. Mas eles também palavras de Paulo: “[Deus] nos revelou o mistério da
estavam cumprindo livremente o plano e o propósito sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que
de Deus: não foi mero acaso. Assim, contemplamos o ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir
mistério incompreensível do propósito divino sendo em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na
cumprido nos eventos humanos e por meio deles. dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1.9,10).
A vida cristã em si é um paradoxo contínuo entre a Esse plano extraordinário inclui os detalhes variados
direção e o governo de Deus por um lado e, por outro, e complexos da História — todos os quais estão nas
a atividade livre de suas criaturas. Há tanto “eleição” mãos “daquele que faz todas as coisas segundo o pro­
como resposta humana: Deus escolheu antes da fun­ pósito da sua vontade” (Ef 1.11). Tudo, pois, move-se
dação do mundo, mas também há a resposta de fé. Ao para o cumprimento glorioso em Jesus Cristo e para a
vê-la primeiro pelo lado humano, ouvimos de Paulo: unidade de todas as coisas nele. A Deus a glória para
“Ponham em ação a salvação de vocês com temor e
sempre e sempre!
tremor” — sem dúvida, um chamado a uma atividade
humana intensa — , mas então o apóstolo acrescen­ III. SOFRIMENTO
ta: “Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer
Na doutrina da providência, chegamos agora à con­
quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele”
sideração da questão do sofrimento humano. A per­
(Fp 2.12,13). Que paradoxo! Isso não se aplica só à sal­
gunta, em geral, é: “Por quê?”. Por que há sofrimento
vação, pois em outra parte Paulo diz: “Sabemos que
e dor no mundo? Por que os justos sofrem? Por que
Deus age em todas as coisas para o bem 25 daqueles que
alguns, aparentemente não mais pecadores que outros,
o amam, dos que foram chamados de acordo com o
sofrem tanta dor? Por que Deus provoca essas coisas
seu propósito” (Rm 8.28).
ou permite que elas aconteçam? Um terremoto ocorre,
Quando chegamos perto da consumação final de
e milhares sofrem e morrem; um furacão varre uma
todas as coisas, Deus continua a fazer com que tudo
área, levando devastação e morte; uma enchente des-
contribua. Destacam-se em particular no livro de Apo­
trói casas e terras, e muitas vidas se perdem. Por que
calipse as maquinações de forças malignas que causam
isso acontece com alguns, e não com outros? Se essas
perseguição e morte dos crentes, mas as forças malig­
nas estão sempre sob o controle de Deus. Por exemplo, ocorrências são “atos de Deus” — conforme são de­

repete-se várias vezes a ideia de permissão26 para que as signados com frequência — , por que Deus age dessa

duas bestas malignas cumpram suas funções diabólicas. maneira? Que dizer do sofrimento e da dor enfren­
tados por muitos em catástrofes pessoais e doenças

2? Ou “Deus faz que todas as coisas contribuam para o bem debilitantes? Por que isso é tão frequente? Essas são

[...]” (NASB). algumas das perguntas que fisgam um número enor­


26 Apocalipse 13.5,7,14,15. me de pessoas.

108
P ro v id ê n c ia

Viemos afirmando que Deus em sua providência inegável do sofrimento humano ?28 Com certeza não
cuida de suas criaturas e as guarda. Mas como esse in­ devemos pressupor que há respostas simples, prontas,
teresse providencial combina com o fato do sofrimen­ à mão, para o problema do sofrimento humano .29 O
to humano? Devemos reconhecer para começar que, livro de Jó, mesmo sozinho, é prova suficiente da com ­
de fato, a concepção cristã da providência não pare­ plexidade do problema .30 Vamos proceder com cuida­
ce oferecer auxílio imediato. Se Deus está realmente do, procurando a orientação da Palavra e do Espírito
presente para preservar, acompanhar e governar suas de Deus. Três afirmações podem ser apresentadas.
criaturas (como dissemos), por que há sofrimentos e
A. O sofrimento deve-se, em parte, ao tipo
dores de todos os lados?
de mundo que Deus fez
Essas perguntas às vezes levam as pessoas ou a du­
vidar da existência de Deus ou a questionar sua capaci­ Começamos com o reconhecimento de que Deus
dade. No primeiro caso, há a incerteza quanto a como colocou as pessoas num mundo sobre o qual elas de­
pode haver um Deus bom e misericordioso quando o vem exercer domínio. A primeira palavra de Deus di­
mundo é repleto de tanto sofrimento, pesar e desgraça. rigida ao homem — homem e mulher — em Gêne­
Talvez faça muito mais sentido considerar o Universo sis 1 foi: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e
um produto do acaso cego e da ocorrência aleatória do subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar,
que afirmar que um Deus benevolente o supervisiona. sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se
O ateísmo, ou pelo menos o agnosticismo, pode ser movem pela terra” (v. 28). Encher a terra e subjugá-la

considerado mais compatível com as coisas do jeito não pode ser uma tarefa menos que árdua, envolvendo

que são do que a crença em Deus. No segundo caso, tanto perpetuar a raça humana como exercer controle

pode haver a questão da capacidade divina. Sua com ­ sobre todos os aspectos da existência terrena. O fato de

petência em lidar com tudo o que acontece. Deus pode que isso exige muita atividade vigorosa implica a pos­

realmente ser bom e amável, até intimamente preocu­ sibilidade de sofrimento, não como uma consequência
negativa, mas como um ingrediente positivo.
pado com suas criaturas, mas talvez não seja capaz de
Vamos examinar isso mais de perto. Em Gênesis 2,
cumprir toda a sua vontade. Assim, devemos ver Deus
mostra-se o homem sendo colocado num jardim, com
de um modo mais limitado .27
É evidente que é necessário um exame muito cui­
28 Pode-se dizer que isso está relacionado com a questão da
dadoso da concepção cristã do sofrimento. Afirmamos
teodiceia. Teodiceia é a tentativa de justificar o governo pro­
de fato a providência divina — quaisquer que sejam
videncial de Deus diante do sofrimento e do mal humano.
as dificuldades que pareçam existir. Além disso, dizer Teodiceia deriva de theos, “Deus”, e dikê, “justificação”. Ain­
providência divina significa providência de Deus, a da que “justificar” Deus possa parecer presunção (e muitas
providência de um Deus que é compassivo e amoroso, teodiceias mostraram-se presunçosas), não há dúvida de
mas também infinito e poderoso. que a teodiceia aponta para um problema profundo. V„ e.g.
Berkouwer, G. C. The Providence of God (cap. 8).
Por que, então — a questão volta insistentemente
2y “O problema mais comum, mais persistente e mais intrigan­
— , à luz da natureza e do interesse de Deus há a realidade
te da humanidade é o sofrimento.” Assim diz a declaração
de abertura do livro The Meaning of Human Suffering.
27 Como, por exemplo, na “filosofia do processo”. Num ramo Esse livro consiste em uma série de preleções proferidas no
mais popular o livro amplamente conhecido do rabino Primeiro Congresso Internacional Ecumênico sobre o Signi­
Harold S. Kushner, When Bad Things Happen to Good ficado do Sofrimento Humano, realizado na Universidade de
People, pode ser mencionado. V. o cap. intitulado God Carit Notre Dame, de 22 a 26 de abril de 1979.
Do Everything [Deus não pode fazer tudo]. 30 V., nas p. 118-119, a discussão sobre }ó.

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a responsabilidade de lavrar a terra e cuidar dela: “O Precisamos ainda reconhecer que para o homem
S e n h o r Deus colocou o homem no jardim do Éden e a mulher foi dada a tarefa de subjugar a terra. 0 ho­
para cuidar dele e cultivá-lo” (v. 15). Esses trabalhos mem possui a responsabilidade básica, mas não sem
de lavrar e manter representam o início da tarefa de a mulher por companheira (Gn 2.18). Isso significa
subjugação estabelecida por Deus — tarefa que por in­ que, funcionando em relacionamento estreito, espe­
tento de Deus deve incluir toda a terra. Já que subjugar cialmente como marido e esposa, eles devem cumprir
significa exercer controle e dominar, há inevitavelmen­ a tarefa que Deus lhes deu. Por conseguinte, precisam
te a possibilidade de sofrimento e dor. Num mundo de de alto grau de sensibilidade um para com o outro e
entidades finitas — quer animadas, quer inanimadas — ,
do aprendizado de como cumprir os papéis que lhes
a ocorrência da dor pode ser um sinal beneficente de
foram atribuídos tanto individual como coletivamente.
limite de capacidades: um tipo de demarcação de lim i­
De novo, essa sensibilidade e aprendizado não podem
tes que podem ser alcançados, mas não ultrapassados.
ocorrer sem os marcos limítrofes da dor. Há, portanto,
Algo tão pequeno como um músculo dolorido é um
“dores crescentes” dentro de um relacionamento hu­
alerta positivo contra o excesso no trabalho e, assim,
mano íntimo, pois o crescimento genuíno muitas vezes
é um indicativo de ações adequadas e equilibradas.
brota do aprendizado do que causa feridas no outro.
A dor sentida não é de modo algum uma punição de
A dor e o sofrimento nesse sentido não são necessa­
Deus por uma atividade errada, mas um sinal positivo
riamente maus; pelo contrário, podem ser um estímulo
das limitações humanas.
e incentivo para níveis mais profundos de entendimento
Aliás, esse é um mundo estabelecido sobre leis
como, por exemplo, a lei da gravidade. Qualquer ação e, com isso, para uma vida responsável.

— como pisar em falso num lugar alto — que descon­ A questão de duas pessoas tornando-se “uma só
sidere essa lei resultará invariavelmente em dor. Mas, carne ” 32 — o mais íntimo de todos os relacionamen­
de novo, a dor é um aspecto da boa criação de Deus em tos humanos — inevitavelmente implicará muitos
sua demarcação de limites dentro dos quais todas os ajustes. O marido precisa aprender o que é a verda­
seres vivos devem operar. Há leis relacionadas à saúde. deira liderança, e a esposa, a verdadeira submissão ,33
No sistema digestivo humano, se houver alimentação mas eles precisam fazê-lo na mutualidade da igualda­
inadequada, pode resultar em dor de estômago. Isso de e da unidade concedidas por Deus. Haverá dores
é um alerta dado por Deus para benefício futuro, para envolvidas no processo contínuo de ajustes, mas a be­
que se lide melhor com a comida. De novo, o fogo é leza é que essas mesmas dores e sofrimentos, em vez
um dos ingredientes originais do mundo criado por de ruins, podem ser aspectos de um relacionamento
Deus. Ele tem sido fonte contínua de calor e luz, mas o que se alarga e aprofunda.
homem logo teve de aprender (e muitas vezes com so­ Além disso, acrescentamos agora, homem e mulher
frimento) que ele pode produzir queimaduras graves.
juntos na tarefa de subjugar a terra têm um vasto desa­
Assim, a dor e o sofrimento causados pela exposição
fio diante deles. Ter domínio “sobre os peixes [...] sobre
ao fogo são uma bênção e uma orientação quanto a
as aves [...] e sobre todos os animais”, ainda que fale
como lidar com um aspecto que integra a criação. Em
suma, a possibilidade de sofrimento pertence ao pró­
Problem of Pain, p. 22) [O problema do sofrimento.
prio mundo criado por Deus.31
São Paulo: Vida, 2006].
32 “[...] eles se tornarão uma só carne” (Gn 2.24).
31 C. S Lewis diz bem: “Tente excluir a possibilidade do sofri­ 33 Na linguagem de Paulo, “o marido é o cabeça da mulher”
mento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbí- e “as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos”
trio envolvem e descobrirá que exclui a própria vida” (The (Ef 5.23,24). Isso exige muito amor e compreensão.

11 0
P ro v id ê n c ia

da alta posição ocupada pela raça humana sob Deus, dos quais podem brotar expressões fluidas de alegria
é também um processo a ser desenvolvido.3435Esse pro­ e tristeza. Ele possui um coração que pode sentir pro­
cesso (como a própria relação mútua crescente deles) fundamente e sofrer muito. Ora, não é como se o senti­
exigirá muito esforço — sem dúvida, experimentos, mento de dor e tristeza, de pesar e sofrimento, fossem
ajustes e persistência — com todo o seu complemento contrários à natureza de Deus; pois Deus mesmo é
de dificuldades, provações e dores. aquele que pode conhecer o desgosto e o sofrimento.
Vamos dar mais um passo. Bem, podemos com­ Diz-se que o Espírito de Deus pode ser entristecido:
preender que a dor não é só um tipo de alerta e fator “Eles [Israel] se revoltaram e entristeceram o seu Espí­
limitante 33 dentro desse processo de obter domínio, rito Santo” (Is 6 3 .10).37 Assim também Jesus: ele ficou
mas também pode ser um desafio positivo a outras “profundamente entristecido por causa do coração en­
atividades. Os seres humanos são presenteados pelo durecido deles [fariseus]” (Mc 3.5). Isso significa que
seu Criador com um mundo que convida a desafios e Deus mesmo tem a capacidade de sofrer e conhecer
aventuras. Há uma vasta terra a ser explorada, mares a a aflição. De novo, Jesus demonstra isso ao ser fadado a
serem navegados, até céus a serem cruzados. Isso exi­ ser “um homem de dores e experimentado no sofri­
girá muito esforço, às vezes privações — sim, até so­ mento” (Is 53.3). Ele chorou junto ao túmulo de Lázaro
frimento. Mas o próprio sofrimento e dor, por sua vez, (Jo 11.35) e pela cidade de Jerusalém (Lc 19.41). E “du­
podem tornar-se parte da urdidura e da trama da vida rante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu ora­
heróica e aventureira. Sofrer, mas vencer; conhecer a ções e súplicas, em alta voz e com lágrimas” (Hb 5.7).
penúria, mas triunfar. Tudo contribui para uma gran­ Se o homem não tivesse a capacidade de sofrer dores
deza verdadeira e duradoura.36 e pesares nem a capacidade de experimentá-los, não
Isso nos leva a mais um fato: o sofrimento, sua pos­ teria a imagem de Deus .38 Mas de fato ele possui essa
sibilidade e realidade, pertence à existência humana capacidade, conforme o demonstra toda a natureza.
no mundo. É muitíssimo significativo que Deus tenha Além disso, a própria capacidade de sofrer é inse­
feito o homem com a capacidade de sentir dor e sofri­ parável da realidade de amar e ter compaixão. Decer­
mento. O homem possui um sistema nervoso sensível to isso também caracteriza o próprio Deus, cujo amor
tanto ao prazer como à dor. Ele possui canais lacrimais pela humanidade só pode ser plenamente medido
no sofrimento de uma cruz. Amar muito para Deus
34 É interessante que o salmista declara a respeito do homem: significa sofrer muito. Será possível isso ser menos
“Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os verdade para as criaturas feitas por ele? O homem é
seus pés tudo puseste: todos os rebanhos e manadas, e até criado para demonstrar amor,39*e no centro do amor
os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e
está a compaixão, significando literalmente “sofrer
tudo o que percorre as veredas dos mares” (SI 8 .6 -8 ). O li­
vro de Hebreus, depois de citar uma parte dessas palavras, junto”. Esse sofrimento, pois, em vez de ser um fator
acrescenta: “Ao lhe sujeitar todas as coisas, [Deus] nada negativo na vida humana, é de fato um dos sinais de
deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda humanidade genuína.
não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas” (2 .8 ). Ainda que eu precise discorrer mais sobre o sofri­
35 Conforme já se descreveu. mento nas próximas páginas, este tanto já fica eviden­
36 Podemos nos lembrar dos pioneiros na América do Norte e
te: o sofrimento ocupa um lugar importante no mundo
suas viagens através do mar tempestuoso, o frio e os inver­
nos rigorosos, os estragos causados por inimigos e a ameaça
da inanição. Ali estavam aqueles cujos próprios sofrimen­ 37 V. Efésios 4.30 — “Não entristeçam o Espírito Santo de Deus”.
tos acabaram por ser as dores de parto de uma nova nação. 38 V. o cap. 9, “Homem”.
Por meio do sofrimento surgiu a verdadeira grandeza. 39 Ibid.

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feito por Deus. Trata-se de um aspecto importante da seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará
ordem providencial de Deus. Entretanto, uma vez que à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a
muitas pessoas sofrem muito e, ao que parece, sem dominará” (v. 16). Por um lado, a punição da mulher
motivo nem razão — , há com frequência o clamor de diz respeito à geração de filhos — dor multiplicada;
angústia para que Deus de algum modo o remova. Não por outro lado, diz respeito à relação com seu marido
conheço melhor resposta que as seguintes palavras: — o desejo dela e a dominação dele.43 Há uma dor fí­
sica imediata na gravidez, não por causa da natureza ,44
O clamor da angústia da terra subiu a Deus, mas como consequência da Queda. Há ainda a situação
“Senhor, remove a dor” [...]. mais geral da relação da mulher com o marido, o que
Então respondeu o Senhor ao mundo que fez: gerará sofrimento em muitos aspectos, emocionais e
“Devo remover a dor? mentais, bem como físicos. As mulheres conhecerão o
E com ela a capacidade de a alma suportar sofrimento da gravidez dolorosa, bem como a domina­
Fortalecida pela tensão? ção da parte do marido .43
Devo remover a piedade que ata um coração a outro
No caso do homem, Deus declarou: “Maldita é a
E sacrificar tudo?
terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará
Perderias todos os teus heróis que elevaram das chamas
dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e
rostos brancos para o céu?
ervas daninhas [...]. Com o suor do seu rosto você co­
Devo remover o amor que redime com um preço
merá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi
E sorrisos em meio a perdas —
tirado; porque você é pó, e ao pó voltará” (Gn 3.17-19).
Podes poupar de tuas vidas as que galgariam à minha
o Cristo em sua Cruz? ” 10 Por um lado, a terra foi amaldiçoada por causa do

B. O sofrimento é também a consequência “A frase seu desejo será para o seu marido, com a recíproca
43

implacável do pecado e do mal ele a dominará, retrata uma relação matrimonial em que o
controle escorrega do âmbito plenamente pessoal para o de
Agora passamos ao reconhecimento de que o sofri­ impulsos instintivos passivos e ativos. Amar e cuidar torna-se
mento muitas vezes ocorre como resultado do pecado ‘desejar e dominar ” (Kidner, Derek. Genesis. TOTC, p. 71).
e do mal no mundo e na vida humana. O sofrimento, 44 E possível entender que o texto “multiplicarei grandemente
o seu sofrimento na gravidez” implica algum sofrimento in­
nesse caso, não se deve ao tipo de mundo criado por
dependentemente do pecado e da queda da mulher. Como
Deus,41 mas é uma punição pelo pecado. Trata-se de um
se pode “multiplicar” o que antes não existia? Entretanto, as
dos tristes efeitos da operação do pecado e do mal.42 palavras seguintes, “com sofrimento você dará à luz filhos”,
Aqui nos voltamos primeiro para o relato de Gê­ parecem dizer claramente que o sofrimento em si na gravidez
nesis 3 sobre as implicações do pecado. Depois de é uma consequência da Queda. Em outras palavras, a dor não
será pouca, mas muita — grandemente multiplicada. Quanto
pronunciar uma maldição sobre a serpente (v. 14,15),
a “multiplicarei grandemente”, v. tb. Gênesis 16.10.
Deus declarou à mulher: “Multiplicarei grandemente o05
4" A mulher foi criada como “adjutora” (Gn 2.18, AEC), de
modo que ela ocupa uma função auxiliar. Conforme se
50 V. Stewart, James S. The Strong Name, p. 156. Não tenho observou, o homem está em posição de liderança sobre a
certeza se o autor do poema é o próprio Stewart. Ele não mulher (“o cabeça da mulher é o homem”, ICo 11.3). Mas
especifica. nem sua posição de auxiliar nem a de liderança dele exi­
4- Discutido na seção anterior. gem dominação. A dominação e o governo são o resulta­
42 Haverá uma discussão mais completa do pecado e do mal do da Queda. Por meio de Cristo acaba essa dominação, e
em capítulos posteriores. Aqui tocamos no assunto só em homem e mulher descobrem o verdadeiro relacionamento
relação ao sofrimento. que Deus lhes concedeu.

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pecado do homem, de modo que ela dará “espinhos e escravidão universal à corrupção junto com os con­
ervas daninhas’; por outro lado — e por causa dessa tínuos gemidos e dores de parto. Essa situação pode
maldição — o homem terá de trabalhar duro e labutar também responder por elementos disparatados como
com o rosto suado para produzir o pão para alimento a ferocidade no mundo animal e a turbulência ma­

diário.46 A punição não era o trabalho — pois o homem nifesta em convulsões da natureza como terremotos,
já fora comissionado para cultivar o jardim — , mas la­ furacões e inundações .30 As dores de parto da criação

buta, fadiga, sofrimento,47 em geral, portanto, estão profundamente relacionadas


com o pecado e o sofrimento humano.
Assim, desses relatos antigos fica evidente que a dor
Tudo isso aponta para um contexto universal de
e o sofrimento são descritos como punições pelo pecado.
sofrimento que é consequência da condição decaída e
Tanto o homem como a mulher são punidos nas áreas
pecaminosa da humanidade. A vida seria gerada com
mais vitais de sua existência,48 e dali em diante a dor e
dor; a existência seria uma luta árdua; e a própria terra
a labuta resultantes vêm afetando toda a humanidade.
teria dores de parto contínuas. Esse é o mundo que a
É também significativo que, por causa do pecado
raça humana vem conhecendo desde a Queda primor­
do homem e da maldição de Deus, a terra em si vem
dial. isso não significa, de modo algum, que não há
lutando igualmente. Paulo escreveu que “a criação fi­
bênçãos, que a boa terra nada mais é do que um lugar
cou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por
de miséria e que a humanidade só experimenta dores.
causa daquele que a sujeitou, na esperança de que
Isso renega o fato da graça contínua de Deus; o mun­
também a própria criação será libertada do cativeiro
do continua sendo seu mundo. Aliás, muitas vezes há
da corrupção 49 [...]. Sabemos que toda a criação geme bênçãos no parto 31 e alegria no trabalho sobre a terra,
como se estivesse com dores de parto até agora” (Rm quer no sentido estrito do cultivo do solo, quer na esfe­
8.20-22). Ali há não só a combinação de “espinhos ra do trabalho em geral. Além disso, o âmbito da natu­
e ervas daninhas”, mas em toda a natureza há uma reza, apesar da ferocidade e turbulência, possui traços
de beleza e prazer. Mas mesmo dizendo isso acerca das
46 V. tb. Gênesis 5.19. Lameque, pai de Noé, falou do “nosso bênçãos no parto, no trabalho do homem e na nature­
trabalho e do sofrimento de nossas mãos, causados pela ter­ za, ainda há a nota contínua de dor que permeia tudo.
ra que o Senhor amaldiçoou”.
Essa é a realidade do sofrimento num mudo que per­
47 É bem significativo que a mesma palavra hebraica é em geral
manece no pecado e seu consequente mal.
traduzida por “dor” com respeito à mulher e “trabalho” em
relação ao homem. A ideia comum é que o trabalho duro será
a sina de ambos, seja na gravidez, seja no cultivo da terra. •H Já se fez referência à designação comum de muitas dessas
48 “A punição da mulher atingiu-a na mais profunda raiz de sua convulsões e turbulências como “atos de Deus”. A razão dessa
existência como esposa e mãe, a do homem atinge a fibra mais terminologia é que na maioria dos casos não se pode atribuir
íntima de sua vida: seu trabalho, sua atividade e provisão para a elas nenhuma causa humana. Entretanto, pode ser mais
sustento” (von Rad, G. Genesis: A Commentary, p. 91). adequado reconhecer que tais atividades violentas são de fato
49 Assim na AEQ ARA e ARC (a NVI traz “decadência”). O “ ca­ demonstrações de uma criação “sujeita à vaidade” e sinais de
tiveiro da corrupção’ é o cativeiro que consiste em corrupção que ela “geme como se estivesse com dores de parto”.
e, já que não é ético em caráter, deve ser entendido no senti­ 51 As palavras de Eva no nascimento de seu primeiro filho:

do de decadência e morte aparente na criação não racional” “Alcancei do Senhor um homem” (Gn 4.1, AEC) bem po­
(Murray, John. The Epistle to the Romans. NÍCNT, p. 304). dem expressar, apesar de sua dor, admiração, até prazer,
Murray também, em relação ao fato de a criação estar “sujeita com o nascimento de Caim. A tradução da NVJ: “Com o
à vaidade”, escreve que “em relação a esta terra isso certamen­ auxílio do Senhor tive um filho homem” o insinua melhor.
te é o comentário de Paulo sobre Gn 3.17,18” (ibid., p. 303). Até os dias de hoje os partos continuam sendo em geral
Interpreto de modo semelhante. uma mistura de dor e alegria.

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Que o pecado traz sofrimento é o testemunho con­ sua condição decaída conhece o sofrimento, é também
tínuo da Bíblia. A primeira criança, Caim, que nasceu fato que nosso próprio pecado e o mal são a raiz de muita
para o homem e a mulher, matou o irmão mais novo, dor e angústia. Com certeza as citações já feitas demons­
Abel, e por conseguinte provou não só a dor de uma tram isso. As palavras de Paulo também vêm à m en­
terra completamente insensível, mas também a dor te: “O que o homem semear, isso também colherá” (G1
de ser fugitivo e errante: “Quando você cultivar a ter­ 6.7). Assim, boa parte do sofrimento que as pessoas en­
ra, esta não lhe dará mais da sua força. Você será um frentam é causada pelo próprio comportamento delas.
fugitivo errante pelo mundo” (Gn 4.12). O sofrimento Enfermidades de diversos tipos afetando corpo, mente
e a destruição universal no Dilúvio têm uma só causa: e espírito são muitas vezes o resultado de um modo de
o pecado. “Viu Deus a terra, e eis que estava corrom­ vida pecaminoso. O salmista declara que “alguns fica­
pida [...]. Então, disse Deus a Noé: ‘Resolvi dar cabo ram doentes53 por causa dos seus pecados e sofreram
de toda carne ” (Gn 6.12,13). O povo de Israel muitas por causa da sua própria maldade” (107.17, NTLH).
vezes sofreu por causa da própria incredulidade em re­ A dor e a angústia que atingem muitas pessoas têm suas
lação a Deus — por exemplo, quarenta anos num de­ raízes em pecados contra Deus, em outras pessoas e
serto hostil: “Seus filhos serão pastores aqui durante até em si próprias. A rebelião contra Deus e suas leis, a
quarenta anos, sofrendo pela infidelidade de vocês” amargura em relações humanas, o cuidado inadequado
(Nm 14.33). Numa ocasião posterior, o salmista ex­ com a saúde — todas essas coisas são errôneas (i.e., pe­
clamou: “Sacudiste a terra e abriste-lhe fendas [...]. cados) e muitas vezes resultam em sofrimento.
Fizeste passar o teu povo por tempos difíceis” (60.2,3). Às vezes ouve-se a reclamação: “Não sei por que
Quando por fim Judá foi levado cativo e Jerusalém foi Deus permite que eu sofra tanto”, como se a falha fos­
saqueada, Jeremias declarou: “Seus adversários são os se de Deus. Mas há anos que existem desordens nas
seus chefes; seus inimigos estão tranquilos. O Senhor relações humanas, talvez maldade ou espírito ranco­
lhe trouxe tristeza por causa dos seus muitos pecados” roso; há contínua submissão aos desejos da carne e
(Lm 1.5). Num quadro dramático do julgamento di­ autocomplacência; quase não há interesse pelo Deus
vino sobre toda a terra, Isaías anunciou: “O mundo vivo, a própria fonte da vida e da saúde. Ansiedade,
definha e murcha [...]. A terra está contaminada pelos confusão emocional, múltiplas doenças — tudo pode
seus habitantes, porque desobedeceram às leis, vio­ surgir, e o sofrimento torna-se ainda mais intenso. Va­
laram os decretos e quebraram a aliança eterna. Por mos deixar bem claro: sim, Deus de fato permite que
isso a maldição consome a terra, e seu povo é culpado. esses sofrimentos ocorram, mas a falha está toda do
Por isso os habitantes da terra são consumidos pelo lado humano. Esse sofrimento, decerto, vem de Deus;
fogo, a ponto de sobrarem pouquíssimos” (Is 24.2-6).32 e, precisamos acrescentar, não só como justa retribui­
O pecado gera sofrimento — o sofrimento de um indi­ ção, mas também como alerta para que haja mudança.
víduo, de um povo, aliás de toda a terra. Aqui observamos de novo o interesse providencial
Permita-me salientar isso de modo pessoal. Embora de Deus. O sofrimento assim descrito representa, sem
seja verdade que nascemos numa raça humana que por dúvida, punição e julgamento divino, mas isso pode

22 O livro de Apocalipse elabora esse tema, especialmente no “Tolos” é a tradução mais comum (como na NVI, AECyARA
derramar das “taças” da ira de Deus (Ap 16); por exemplo: e ARC). Entretanto, as palavras que se seguem, “ficaram com
“Foi dado poder ao sol para queimar os homens com fogo. enjoo diante da comida e chegaram bem perto da morte”
Estes foram queimados pelo forte calor” (v. 8,9). O sofri­ (.BLH)y falam claramente de doença. Observe também o v.
mento pelo pecado e o mal é intenso. 20: “Com a sua palavra, ele os curou e os salvou da morte”.

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levar à justiça. Isaías declara: “Quando os teus juízos para os outros se arrependerem antes que fosse tarde.
reinam na terra, os moradores do mundo aprendem 0 discurso de Jesus também não responde à pergunta:
retidão” (26.9, AEC). Os julgamentos de Deus podem “Por que há sofrimento aqui e não ali?”, mas chega à
contribuir para um sofrimento intenso e generalizado, questão mais crítica, a saber, que todo esse sofrimen­
mas, como convites ao arrependimento e renovação, to e tragédia devem convidar a uma aproximação de
bem podem ser instrumentos da providência divina. Deus em arrependimento genuíno pelo pecado.
Agora, porém, uma palavra de cautela deve ser pro­ Com base no discurso de Jesus, temos uma orien­

nunciada. De modo algum devemos considerar o sofri­ tação e uma resposta para um dos problemas mais

mento simplesmente proporcional ao pecado e mal; ou angustiantes acerca do sofrimento humano. Na si­
tuação descrita por Jesus, a questão não é “por que os
seja, quanto mais sofrimento a pessoa enfrenta, tanto
inocentes sofrem”, pois desde a queda do homem não
pior deve ser ou tantas mais transgressões deve ter co­
há pessoas inocentes ,56 mas, à luz desse sofrimento e
metido. Conforme se observou, há algum sofrimento e
tragédia, a pergunta adequada é: “Por que você não
dor implicados na própria natureza da existência huma­
ouve isso como um convite ao arrependimento antes
na .545Além disso, como acabamos de notar, num mundo
que seja tarde?”. Sim, acontecem terremotos e pessoas
em que as pessoas e a natureza são decaídas, há muitas
morrem; estouram pragas e as pessoas ficam arruina­
vezes um trabalho e uma gravidez penosos. Esse sofri­
das; surgem doenças debilitantes e as pessoas sofrem
mento pode variar muito, sem haver uma correspon­
angústia. O centro da questão é que tudo isso é um
dência simples entre o mal e o sofrimento.
convite ao arrependimento, tanto para os envolvidos5'
Um dos discursos de Jesus (Lc 13.1-5) diz respeito
como para os outros. Há alertas quanto à precariedade
ao erro nessa correspondência direta. Falando de al­
da vida e ao julgamento divino final que um dia recairá
guns galileus que haviam sido torturados por Pilatos, sobre todos que não se arrependerem .58 O alerta, como
Jesus perguntou: “Vocês pensam que esses galileus a Israel nos dias de Ezequiel, é: “Voltem! Voltem-se dos
eram mais pecadores que todos os outros, por terem seus maus caminhos! Por que o seu povo haveria de
sofrido dessa maneira?”. E a respeito de algumas pes­ morrer [...]?” (Ez 33.11).
soas que haviam sido mortas pela queda de uma torre,
ele inquiriu: “Ou vocês pensam que aqueles dezoito C. O sofrimento como um ingrediente da
que morreram, quando caiu sobre eles a torre de Siloé, vida de fé
eram mais culpados do que todos os outros habitantes
Um dos aspectos mais significativos da vida de fé é
de Jerusalém?”. A resposta de Jesus nos dois casos foi que o sofrimento faz parte dela. Aqui não me refiro ao
a mesma: “Eu lhes digo que não! Mas se não se arre­
penderem, todos vocês também perecerão”. Jesus não
56 Assim, o título do livro já mencionado, When Bad Things
insinua de modo algum que os galileus ou os 18 ho­ Happen to Good People [Quando coisas ruins acontecem
mens eram inocentes .1,5 Pelo contrário, haviam sofri­ a pessoas boas], é inadequado. Não há ‘pessoas boas”.
do e morrido sem se arrepender; assim, receberam o ” O livro de Apocalipse está repleto de catástrofes — terre­
justo, o merecido. Mas isso não significava que eram motos, pragas, tormentos diversos —, que são julgamentos
divinos para levar os que os sofrem ao arrependimento.
mais pecadores que os outros a quem tal desastre não
V.,e.g., 9.20,21; 16.8-11.
havia atingido. Antes, aquilo devia servir como aviso
38 Vamos discutir na seção seguinte o sofrimento que pode

igualmente atingir os arrependidos — i.e., os que se voltaram


54 V. a seção anterior. para Deus em verdadeiro arrependimento e fé. Os sofrimen­
55 Então, a questão seria: por que esses justos sofrem? (Essa tos deles, ainda que não dissociados de um convite ao arre­
pergunta será considerada na seção seguinte.) pendimento contínuo, são basicamente para outro propósito.

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sofrimento que resulta do pecado ,59 mas ao que inva­ tribulações, porque sabemos que a tribulação produz
riavelmente acompanha os passos de fé e obediência. perseverança; a perseverança, um caráter aprovado”
Podemos considerá-lo sob três aspectos. (Rm 5.3,4 ).60 Assim, o sofrimento não só testa a fé, como
o fogo testa o metal (para usar a analogia de Pedro),
1. O sofrimento como um meio de
mas também pode ser a forja em que o caráter é mode­
crescimento do crente
lado. Aprendendo a perseverar, a se apegar à fé, quais­

Começamos com o reconhecimento de que o so­ quer que sejam as provas e sofrimentos que possam

frimento pode ser um teste ou prova de fé. Quando advir, a pessoa ganha força de caráter.

surge um sofrimento de qualquer espécie, o crente Com certeza Paulo sabia do que falava a respeito

fraqueja na fé? Pedro, que havia sofrido pessoalmente do sofrimento, perseverança e caráter, pois o grande

em seu serviço a Cristo, escreve: “Nisso vocês exultam, apóstolo era um homem de caráter elevado, conforme

ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser toda a sua vida e escritos demonstram, e em óbvia liga­

entristecidos por todo tipo de provação. Assim aconte­ ção com seu caráter está o fato de que ele havia sofrido

ce para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito. O Senhor Jesus, mesmo antes de Paulo ser co­

muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo missionado como apóstolo, declarou: “Este homem é

que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em lou­ meu instrumento escolhido para levar o meu nome pe­

vor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado” rante os gentios e seus reis, e perante o povo de Israel.

(lP e 1.6,7). O sofrimento, diz Pedro, é um teste “pelo Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome”

fogo”; é um processo de prova, e os que passam por ele (At 9.15,16). E Paulo sofreu — muito .61 Será que tal so­

demonstram a genuinidade de sua fé — uma fé que re­ frimento alguma vez produziu um caráter mais forte?

sultará em louvor e honra quando Cristo for revelado. De novo, o sofrimento pode ser o meio de aprofun­

Essa prova pelo fogo dos sofrimentos não pode dar a obediência. Aqui nos voltamos de Pedro e Paulo

ser considerada uma experiência agradável. Aliás, os para o próprio Jesus, pois ele é o principal exemplo

crentes muitas vezes, especialmente os mais novos, da relação positiva entre o sofrimento e a obediência.

perguntam por que estão enfrentando sofrimentos Destacam-se duas afirmações em Hebreus. A primeira

— especialmente se os incrédulos ao redor parecem diz respeito ao sofrimento: “Durante os seus dias de vida

estar muito bem. Assim o salmista primeiro recla­ na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e

ma dos perversos: “Eles não passam por sofrimento com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte” (5.7).

e têm o corpo saudável e forte [...] não são atingidos A segunda diz respeito à obediência: “Embora sendo

por doenças como os outros homens”, enquanto “o dia Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que

inteiro sou afligido, e todas as manhãs sou castigado” sofreu” (5.8). A agonia de Jesus — “em alta voz e com

(73.4,5,14). Mas é por tal sofrimento que o vigor da fé lágrimas” — no Getsêmani, onde tudo nele clamava:

é testado. “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não

O sofrimento também pode ser um meio de cres­ seja feita a minha vontade, mas a tua”, e “o seu suor era

cimento em caráter. Pela resistência positiva ao sofri­


mento — sem reclamação nem acusação — desenvol­ 6(1A palavra grega dokimên significa “ à qualidade do ser apro­
vado’, portanto caráter ’ (BAGD).
ve-se um caráter forte. Em relação a isso, Paulo chega
61 V., e.g., a crônica de Paulo sobre seus sofrimentos pessoais
a dizer em regozijo no sofrimento: “Nos gloriamos nas
em2Coríntios 11.23-27: “[...] açoitado [...] severamente [...]
exposto à morte repetidas vezes [...] golpeado com varas [...]
Como fiz na seção anterior. apedrejado”, e assim por diante. V. tb. nota 65 adiante.

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como gotas de sangue que caíam no chão” (Lc 22.42,44), jamais chegue a se aproximar do dele, viveremos vito­
ocasionou o teste final e maior de obediência. Por meio riosos na vontade de Deus.
desse grande sofrimento, ele, o Filho de Deus, “apren­
2. O sofrimento como um aspecto
deu a obedecer”, de modo que era capaz de dizer: “Não
presumido do caminhar na fé
seja feita a minha vontade, mas a tua”.
Decerto, o caminho da obediência continua sendo Um dos ensinos mais indubitáveis da Bíblia é que o
o caminho do sofrimento. A obediência — a marca da caminhar na fé implica inevitavelmente o sofrimento,
fé genuína — dificilmente se aprofunda quando a es­ porque tal caminhar é contrário ao rumo do mundo.
trada é fácil e quando dizer sim para a vontade de Deus Paulo escreve de modo seco para Timóteo: “Todos os
causa pouca ou nenhuma dor. Mas quando custa caro que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus se­
cumprir a ordem de Deus, quando a tentação de tomar rão perseguidos” (2Tm 3.12). Não “podem ser”, mas
outro rumo parece quase imperativa e quando nessa “serão”, pois o mundo considera intolerável uma vida
situação alguém ainda diz de coração: “Não seja feita verdadeiramente piedosa. O sofrimento no sentido de
a minha vontade, mas a tua” — esse é o aprendizado perseguição é parte integrante do caminho daquele
da obediência. É também andar no caminho da morte que realmente segue Jesus Cristo.
para si próprio, dando toda a glória a Deus. Aliás, Jesus declarou a seus discípulos: “Se me per­
E podemos acrescentar: o sofrimento é o cami­ seguiram, também perseguirão vocês” (Jo 15.20). Isso
nho da vitória sobre o pecado. Observe esta profun­ aconteceu com os discípulos de Jesus, conforme o rela­
da declaração em 1Pedro 4.1,2: “Uma vez que Cristo to de Atos e a história da igreja primitiva demonstram:
sofreu corporalmente, armem-se também do mesmo todos foram perseguidos, e a maioria morreu como
pensamento ,62 pois aquele que sofreu em seu corpo mártir .64 O sofrimento era simplesmente a consequên­
rompeu com o pecado, para que, no tempo que lhe cia de prestar testemunho de Cristo. Paulo escreve:
resta, não viva mais para satisfazer os maus desejos “Deste evangelho fui constituído pregador, apóstolo e
humanos, mas sim para fazer a vontade de Deus”. Se mestre. Por essa causa também sofro” (2Tm 1.11,12 ) .65
alguém se “arma” com o mesmo pensamento ou dis­ Mas Paulo também inclui outros crentes entre aqueles
posição mental que Cristo teve quando sofreu na car­
ne (do Getsêmani ao Gólgota), isso é parar de pecar.63 64 A tradição afirma que todos os discípulos imediatos de Jesus,
Há pouco ou nenhum lugar para o pecado numa vida exceto João, pagaram o preço maior.
que, em meio a um sofrimento grande e crescente, não Paulo escreveu em outra parte: “não queremos que vocês
desconheçam as tribulações que sofremos na província
se desvia da vontade de Deus. Se estivermos armados
da Ásia, as quais foram muito além da nossa capacidade
com a atitude de Cristo, ainda que nosso sofrimento
de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria
vida” (2Co 1.8). Depois disso, ele falou de seus “sofrimen­
62 A palavra grega ennoian pode ser traduzida por “mente” tos, privações e tristezas; em açoites, prisões e tumultos; em
(KfV), “propósito” (NASB), “atitude” (NIV) ou “disposição trabalhos árduos, noites sem dormir e jejuns” (2Co 6.4,5).
mental” (NEB). “Disposição mental” expressa o significado Mais tarde acrescentou: “cinco vezes recebi dos judeus trin­
de modo particularmente adequado. ta e nove açoites. Três vezes fui golpeado com varas, uma
63 Isso pode parecer contradizer o fato de que o pecado ainda vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite
está presente até na vida dos melhores cristãos. A resposta e um dia exposto à fúria do mar [...]. Trabalhei arduamen­
a isso poderia ser que nenhum de nós se arma totalmente te; muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e
com a mente de Cristo. Entretanto, qualquer aproximação muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez” (2Co
disso significa morrer para o pecado e viver de acordo com 11.24,25,27). É de fato difícil compreender a amplitude dos
a vontade de Deus. sofrimentos que Paulo enfrentou por causa do evangelho.

117
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

que estavam suportando “os mesmos sofrimentos” que Começamos esta seção observando que o caminhar
os apóstolos estavam padecendo (2Co 1.6 ). Pois uma vez na fé, por ser contrário ao rumo do mundo, implica so­
que o mundo é dominado por um espírito totalmente frimento. Agora precisamos acrescentar que pelo fato de
contrário ao Espírito de Cristo, o verdadeiro discípulo “o deus desta era” 67 ser Satanás, o sofrimento dos crentes
vive em oposição a ele. A menos que comprometa a fé, o brota muitas vezes dele. Pedro escreve acerca de Sata­
sofrimento da perseguição certamente ocorrerá. nás*. “Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de
Contudo, agora observamos algo assombroso no vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a
NT, a saber, que tal sofrimento é considerado bênção e quem possa devorar” (lP e 5.8). Então Pedro acrescen­
um convite à alegria. As duas últimas beatitudes pro­ ta: “Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé, sabendo
clamadas por Jesus são ambas pronunciamentos de que os irmãos que vocês têm em todo o mundo estão
bênçãos sobre os perseguidos: “Bem-aventurados os passando pelos mesmos sofrimentos” 68 (v. 9). Tal sofri­
perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino mento, enfrentado por todos os crentes, vem do adver­
dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por sário, o Diabo — o próprio Satanás.
minha causa, os insultarem, os perseguirem e levan­ Aqui podemos fazer uma pausa para lançar um
tarem todo tipo de calúnia contra vocês” (Mt 5.10,11). olhar para longe, no AT, para a história de Jó. Embora
A perseguição por amor a Jesus é uma bênção tão gran­ Jó não fosse crente no sentido cristão, é claro, Deus o de­
de que os que a sofrem devem alegrar-se e regozijar-se clarou justo e temente a Deus. Deus disse a Satanás: “Re­
(v. 12 ) .66 Quando os apóstolos foram açoitados pelo parou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como

conselho judaico por testificarem de Jesus, “os após­ ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e

tolos saíram do Sinédrio, alegres por terem sido con­ evita o mal” (Jó 1.8). Satanás então acusou Jó diante de

siderados dignos de serem humilhados por causa do Deus, dizendo que ele recebia tantos benefícios na vida

Nome” (At 5.41). Que declaração: “alegres” por serem que, se eles fossem removidos, Jó amaldiçoaria Deus.

“considerados dignos de serem humilhados”! O tom de Deus então concedeu a Satanás, o adversário,69 permis­

alegria e bem-aventurança no sofrimento é mais tarde são para sujeitar Jó a uma experiência de sofrimentos

declarado por Pedro (que havia, ele próprio, sofrido sucessivos: a devastação de sua propriedade pelo fogo,

muito): “Alegrem-se à medida que participam dos so­ a morte de seus filhos por um vento forte que destruiu

frimentos de Cristo, para que também, quando a sua a casa em que estavam reunidos e por fim a debilitação

glória for revelada, vocês exultem com grande alegria. do corpo de Jó por úlceras terríveis da cabeça aos pés

Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, (Jó 1.13— 2.7).70 Nada disso era algo que Jó merecia,

felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito


de Deus, repousa sobre vocês” (lP e 4.13,14). Essa é a 6 Essa é a expressão de Paulo em 2Coríntios 4.4.
68 Ou “pelo mesmo tipo de sofrimentos” (NIV). O grego traz
rica herança de todos os que sofrem por amor a Cristo.
literalmente: “os mesmos dos sofrimentos”, to auta tõn
Mais um fato: esse tipo de sofrimento é um dom
panthêmatõn.
gracioso da parte de Deus. Ouça as palavras extraordi­ 69 Esse é o significado da palavra hebraica. Satanás é mostra­
nárias de Paulo: “a vocês foi dado o privilégio de não do como o adversário tanto em Jó como em 1Pedro. Outra
apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele, observação interessante: Satanás é retratado movendo-se
já que estão passando pelo mesmo combate que me vi­ constantemente ao redor da terra: a “perambular pela terra
e andar por ela” (Jó 1.7; 2.2) e como alguém que “anda ao
ram enfrentar e agora ouvem que ainda enfrento” (Fp
redor [gr., peripatei]n (lPe 5.8). E o mesmo adversário que
1.29,30). Privilégio... de sofrer!
traz sofrimento aos que procuram andar na fé e na justiça.
70 O envolvimento direto de Satanás neste último caso é rela­
66 A NEB traz “aceitem com alegria e exultação” (!). tado: “saiu, pois, Satanás da presença do Senhor e afligiu

118
P ro v id ê n c ia

mas Deus permitiu que ocorresse por obra de Satanás, de Satanás — recebe permissão para guerrear (13.7)
que estava determinado a destruir a fé de Jó. Assim, os e matar (v. 15). Em todo o tempo, até o fim, é Satanás
ataques de Satanás contra Jó não eram diferentes dos quem está constantemente no ataque contra os que
que os cristãos enfrentam: sofrimento que resulta, não pertencem a Cristo.
do pecado e do mal na pessoa, mas como um teste do Em conclusão, o sofrimento, sem dúvida, ocorrerá
caminhar na fé. Além disso, na conclusão de sua longa a todos os que andam no caminho da fé. Jesus garantiu
tribulação, Jó estava muito mais próximo de Deus do isso a seus discípulos, pois tanto o mundo como Sata­
que jamais estivera: “Meus ouvidos já tinham ouvido a nás, seu suserano, estão radicalmente opostos a tudo o
teu respeito, mas agora os meus olhos te viram” (42.5). que seja defendido por Cristo. Mesmo assim há grande

Assim também com o fiel cristão que não desiste, ape­ bênção e alegria nessa oposição, mesmo que isso sig­

sar do sofrimento e das tribulações recebidos pelos nifique sofrimento e morte. Lembre-se de que Pedro

ataques do adversário. O verdadeiro crente sai ainda falou do “Espírito da glória” (lP e 4.14) que repousa

mais forte e com uma consciência mais aguda da pre­ sobre os que sofrem acusações por causa do nome de

sença e realidade de Deus. Cristo. Sem dúvida, isso é verdade, pois, aconteça o

No livro de Apocalipse, Satanás é também retrata­ que acontecer, Deus será glorificado.

do de modo vivo como o adversário do crente. Como


3. O sofrimento como uma experiência para
em Jó e lPedro, mostra-se que ele traz sofrimento.
aprofundar o conhecimento de Cristo, a
Em uma das mensagens às sete igrejas, Cristo decla­
capacidade de ser bênção para os outros
ra: “Não tenha medo do que você está prestes a sofrer. e preparo para a glória por vir
0 Diabo lançará alguns de vocês na prisão para prová-
-los” (Ap 2.10). Satanás é retratado como o agente por Podemos observar, primeiro: que por meio do so­
trás do martírio dos crentes.71 Depois que as “duas tes­ frimento o crente chega mais perto de Cristo. Pedro

temunhas” completarem o testemunho, “a besta que escreve: “Para isso vocês foram chamados ,74 pois tam­

vem do Abismo72 os atacará. E irá vencê-los e matá-los” bém Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes

(11.7). Dali em diante Satanás é mencionado como exemplo, para que sigam os seus passos” (lP e 2.21).

“o acusador dos nossos irmãos” ( 1 2 . 1 0 ),73 e por meio Assim, andando no caminho do sofrimento, o cristão

da primeira e da segunda “besta” — representantes percebe que isso é andar no próprio caminho de Cris­
to; há um senso de que Cristo está bem perto. Até mais,
é conhecer uma amizade íntima com Cristo. Paulo fa­
Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça”
(Jó 2.7). lou da “participação em seus sofrimentos” (Fp 3.10 ),75
1 No relato de Jó, Satanás recebeu permissão para devastar as uma comunhão de sofrimentos partilhados em que
propriedades, a família e o corpo de Jó, mas não de lhe tirar a há um relacionamento cada vez mais profundo entre
vida. Pois “O Senhor disse a Satanás: ‘Pois bem, ele está nas
o crente e seu Senhor. Paulo já havia falado da “supre­
suas mãos; apenas poupe a vida delé ” (Jó 2.6). Essa limita­
ma grandeza do conhecimento de Cristo Jesus” (v. 8 ).
ção, porém, não é estabelecida em relação aos cristãos.
72 O contexto insinua que essa “besta” é o próprio Satanás. As
outras duas bestas, em Apocalipse 13, porta-vozes de Sata­ 74 As palavras imediatamente anteriores são: “Se vocês su­
nás (o dragão) saem “do mar” (v. 1 ) e “da terra” (v. 1 1 ), não portam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável
do “poço do Abismo”. diante de Deus” (v. 20).
3 “O acusador dos nossos irmãos, que os acusa diante do nos­ 73 A AEC e ARA trazem “comunhão dos seus sofrimentos”;
so Deus, dia e noite.” Lembre-se de um quadro semelhante a ARC traz “comunicação de suas aflições”. O grego é tên
de Satanás diante de Deus acusando Jó. koinõnian pathêmatõn autou.

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Tanto é assim que foi pela comunhão de participar dos com o outro. Com certeza o sofrimento de Cristo tor­
sofrimentos de Cristo que Paulo entrou naquele co­ na-se ainda mais significativo quando pode ser uma
nhecimento mais profundo. Assim ocorre com todos avenida para alcançar outra pessoa que esteja passan­
os que sofrem por Cristo: só pode haver um aprofun­ do por tantas provas e tribulações. É lindo que, quan­
dado senso de sua presença. to mais plenamente participamos dos sofrimentos de
Segundo: aquele que sofre é com isso capaz de ser Cristo, com tanto mais abundância podemos alcançar
consolo e auxílio para os outros. Paulo escreve: “Ben­ as pessoas e consolá-las!
dito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Terceiro: e o ápice, é quando sofremos com Cristo —
Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que até talvez à morte — que também podemos participar
nos consola em todas as nossas tribulações, para que, ricamente da glória de Cristo na ressurreição. Logo de­
com a consolação que recebemos de Deus, possamos pois de Paulo mencionar a comunhão nos sofrimentos
consolar os que estão passando por tribulações. Pois de Cristo, ele acrescentou que desejava tornar-se “como
assim como os sofrimentos de Cristo transbordam ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a res­
sobre nós, também por meio de Cristo transborda surreição dentre os mortos” (Fp. 3.10,11). Na mesma
a nossa consolação” (IC o 1.3-5). Em paralelo com linha, Paulo escreveu em outra parte que somos “her­
o consolo de Deus em nossa aflição ,76 somos igual­ deiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato78
mente capacitados a alcançar outros, confortando-os. participamos dos seus sofrimentos, para que também
Aliás, quanto mais participamos dos sofrimentos de participemos da sua glória” (Rm 8.17). O caminho do
Cristo, tanto mais podemos alcançar por intermédio sofrimento com Cristo é o caminho para a glória futura.
de Cristo as pessoas em suas dores e aflições. Tudo isso acrescenta uma nota final importante
Devemos salientar a importância desse profundo acerca do sofrimento. O sofrimento por Cristo não só
consolo aos outros, consolo que só pode vir daqueles é conhecer Cristo mais profundamente nesta vida, por
que conheceram sofrimento semelhante na própria mais significativo que isso seja. É também caminhar
vida. Esse é o verdadeiro sentido de compaixão — um com ele através da morte até a ressurreição; é partici­
sofrimento partilhado77 — , em que há profunda empatia par com ele da herança por vir.79

8 Ou “desde que” (RSV).


v Isso não significa que pelo sofrimento conquistamos a res­
surreição e a herança futuras. Essa ideia contradiz a graça
de Deus em Cristo, por quem a morte foi vencida e por
meio de quem conhecemos a vida eterna. Mas isso signi­
fica — citando de novo outras palavras de Paulo — que
“todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus
6 Isso, sem dúvida, refere-se à aflição ou sofrimento que o serão perseguidos” (2Tm 3.12). Se não há perseguição ou
crente conhece da comunhão com Cristo e em que Deus mi­ sofrimento, com certeza fica a pergunta se a pessoa realmen­
sericordiosamente se estende para levar conforto e consolo. te pertence a Cristo, estando, então, pronta para participar
' “Compaixão” deriva de duas palavras latinas: cum, “com”, e com ele da glória por vir. Paulo fala de alcançar a ressurreição,
passio, “sofrimento”. não em conquistá-la — e a diferença é de fato vasta.

120
7
Milagres

Em nossa consideração da doutrina da providên­ curar enfermos, expulsar demônios e ressuscitar mor­
cia, chegamos a seguir ao estudo dos milagres. Os m i­ tos. Exemplos poderiam ser multiplicados; entretanto,
lagres podem ser devidamente considerados aspectos o ponto é que esses eventos implicam uma atividade
da “providência extraordinária ” 1 de Deus, daí sua in­ sobrenatural de Deus e, por meio desses eventos, mani-
clusão sob a doutrina da providência. festa-se o interesse providencial de Deus.
Os milagres, por conseguinte, são eventos que não
I. DEFINIÇÃO
podem ser explicados em termos do andamento usual

O milagre pode ser definido como um evento que da natureza. Normalmente águas do mar não se divi­

manifesta uma atividade divina à parte dos processos dem, não cai maná do céu, cabeças de machado não
ordinários da natureza. Como tal, um milagre é um flutuam, água não se transforma em vinho, tempesta­
ato da providência extraordinária de Deus. Ao rea­ des não se acalmam com palavras e mortos não res­
lizar um milagre, Deus, que supervisiona e governa suscitam. Todos esses eventos são estranhos à “lei na­
todas as coisas, age de modo sobrenatural. Ele vai tural”, ou seja, às sequências regularmente observadas
além das sequências ordinárias na natureza ao se re­ na natureza. Essas leis ou sequências, pode-se dizer,
lacionar com sua criação. pertencem à “estrutura-Logos” 2 do Universo; estão ali
Nas Escrituras, há referências frequentes a milagres. por meio da obra criativa de Deus e são básicas para a
No AT, eles se destacam nos relatos de livramento de ordem e a estabilidade. Mas — e esta é a questão cru­
Israel da sujeição ao Egito — por exemplo, as pragas cial — Deus não está limitado de modo algum por sua
contra o Egito, a travessia do mar Vermelho e a provisão ordem criada, embora ele a mantenha e sustente regu­
do maná no deserto. Eles também aparecem de modo larmente; também não está confinado pelas leis da na­
dramático nas narrativas relacionadas com os profetas tureza, já que não passam de sua expressão ordinária .3
Elias e Eliseu — por exemplo, fogo descendo sobre o Como o Senhor soberano, ele pode operar de maneiras
monte Carmelo, a ressurreição de mortos e a flutuação diferentes do usual e costumeiro. Ele pode mover-se,
do machado. O NT registra muitos milagres realizados e às vezes se move, de um modo extraordinário para
por Jesus, como transformar água em vinho, curar defi­ cumprir seu propósito.
cientes desenganados, multiplicar peixes e pães, andar Posso acrescentar que a dificuldade que alguns têm
sobre o mar, acalmar a tempestade e ressuscitar mortos. com milagres brota da concepção do Universo como
Também, seus discípulos realizaram milagres tais como um sistema fechado. Dessa perspectiva, todas as coisas

1 A Confissão de fé de Westminster (cap. V, seção III) de­ 2 V. o cap. 5, “Criação”, p. 8 8 .


clara: “Na sua providência comum, Deus emprega meios; 3 William Temple escreve: “Nenhuma lei da natureza [...] é
todavia, ele é livre para operar sem eles, sobre eles ou definitiva. É uma declaração geral daquele curso de condu­
contra eles, segundo o seu beneplácito”. A parte posterior ta na natureza que é sustentado pela ação do propósito de
dessa declaração refere-se à providência extraordinária, ou Deus, desde que sirva e enquanto sirva ao seu propósito”
seja, os milagres. (op. cit., p. 267).

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têm causas naturais e a lei natural inclui todas as coisas. como energia e luz; o caráter absoluto do espaço e do
Assim, não há abertura nem espaço para outro tipo de tempo é agora radicalmente questionado pela teoria da
atividade. Uma concepção realmente científica do Uni­ relatividade; e a natureza humana é cada vez mais vista
verso, dizem, exige o reconhecimento de que não há como uma unidade de muitos níveis que não pode ser

lugar para milagres, pois o Universo é autossuficiente, classificada sob categorias da ciência natural. Em suma,

e o homem, autoexistente.4 Em réplica: a ideia do Uni­ o Universo e o que ele contém é visto de modo muito

verso como um sistema fechado com uma lei natural to­ mais aberto. Embora isso de modo nenhum valide os
milagres, pelo menos indica que os milagres já não pre­
talmente inclusiva (um tipo de pancausalismo) já não é
cisam ser considerados tão contrários ao tipo de mundo
um ponto de vista científico aceitável. Aliás, o Universo
em que vivemos.
e nosso mundo nele não são considerados hoje um sis­
Agora, porém, vamos retornar à questão de Deus
tema fechado mecanicista-materialístico (como ocorria
operar de modo diferente do usual e costumeiro. Um
antes), mas como um Universo aberto com realidades e
jeito de descrever isso é dizer que Deus pode agir não
possibilidades múltiplas e dinâmicas. A lei rígida e o de­
só de maneira mediada, mas também de maneira ime­
terminismo foram substituídos por um reconhecimen­
diata, não só usando meios, mas também sem eles. O
to da indeterminação;5 a própria matéria, diferente da
primeiro, nos dois casos, é a providência ordinária, o úl­
proverbial bola sólida de bilhar, é agora compreendida
timo, providência extraordinária. Quando Deus age de
modo mediato, faz uso de um agente, às vezes chamado
4 Rudolf Bultmann em seu ensaio “Novo testamento e mi­ “segunda causa” 6 — ou seja, a causa dentro da ordem
tologia’ (Kerygma and Myth) fala positivamente da
natural. Quando ele age de maneira imediata, como no
“concepção de mundo moldada pela ciência moderna e na
caso de um milagre, ele mesmo atua, sem fazer uso de
concepção moderna da natureza humana como uma uni­
dade autossuficiente imune à interferência de poderes so­ um agente. Isso não significa que Deus age em contradi­
brenaturais” (p. 7). Bultmann, por conseguinte, pede que ção com sua maneira de agir por meio de um agente ou
os milagres (bem como outros elementos sobrenaturais nas segunda causa, pois então estaria em contradição consi­
Escrituras) sejam “demitologizados”, para que haja harmo­ go mesmo.7 Ele pode agir, e decerto age, sem usar meios,
nia com o entendimento científico. Nem preciso acrescentar
não contra eles, senão violaria sua própria expressão na
que essa capitulação a uma concepção particular da ciên­
realidade das criaturas.8 Um milagre, por conseguinte,
cia (que Bultmann considera a concepção) produz um caos
em sua interpretação das Escrituras. Uma ilustração osten­
siva da desconsideração arrogante de Bultmann para com 6 V., e.g., L. Berkhof, Systematic Theology, p. 176.
a autoridade das Escrituras pode ser vista em seu conceito 7 O Logos estaria agindo em contradição com a “estrutura-
de encarnação — que para a fé cristã é o maior de todos -Logos”.
os milagres. Bultmann diz: “Que mitologia primitiva é essa 8 Tenho dificuldades, portanto, com as palavras já citadas da
de um ser divino tornar-se encarnado e expiar os pecados de Confissão de Westminster acerca da ação de Deus “con­
homens por meio do próprio sangue!” (p. 7). Tanto a en­ tra” os meios. “Sem” os meios e “acima”deles, sim; mas “contra”
carnação como a expiação, por causa da suposta concepção coloca Deus em contradição com sua própria agência cria­
científica de Bultmann, devem ser de algum modo reinter- da. Calvino, sem dúvida, é a fonte original, pois escreveu:
pretados (“demitologizados”) em categorias deste mundo. “A Providência de Deus [...] age às vezes com meios, e outras
A fé cristã, afirmo, já não existe. sem meios, e outras contra os meios” (Institutas, 1:17.1).
5 Como, por exemplo, no famoso princípio da indetermina­ Karl Barth observou corretamente que “não pode haver
ção (ou incerteza) de Heisenberg, em que a indeterminação conjecturas de que Deus esteja infringindo ou subverten­
atômica é agora reconhecida como uma característica da do alguma lei real ou ôntica que ocorra entre as criaturas.
natureza. As partículas num átomo não se conformam com Isso significaria que ele não está em unidade consigo mesmo
nenhum padrão consistente de ordem e regularidade. em sua vontade e ação” (Church Dogmatics, v. 3,3.129).

122
M ila g re s

não é uma violação de uma lei da natureza,9 ou uma Mas as águas formando paredes não podem ser ex­
interferência na natureza, 10 mas uma operação em que plicadas por aquilo que ocorreu antes: isso era um ato
Deus age diretamente, sem usar meios. imediato, sobrenatural de Deus. Quando alimentou a
Entre as ilustrações bíblicas de atos imediatos de multidão, Jesus tomou o que tinha à mão — alguns
Deus, estão milagres como o maná do céu, uma cabeça pães e peixes. Portanto, empregaram-se meios, mas
de machado a flutuar e a transformação da água em Jesus foi muito além do que ali havia para alimentar
vinho. Deus, digamos, intervém diretamente; nenhum milhares de pessoas.
agente, nenhuma causa secundária é envolvida. Não Nem precisamos continuar procurando para clas­
há nenhuma fonte natural do maná celestial, nenhuma sificar vários milagres nas categorias “sem mediação” e
propriedade de uma cabeça de machado que pudesse “acima dos meios”. Muitas vezes é difícil discernir nos

fazer que esta flutuasse, nenhum ingrediente na água relatos bíblicos. O ponto importante, porém, não é tal

que por si a transformasse em vinho. Deus em sua sa­ categorização, mas o reconhecimento de que cada m i­

bedoria faz que tais milagres aconteçam sem usar ne­ lagre vai além do natural, entrando no âmbito sobre­

nhum meio criado. natural da atividade imediata de Deus.

É também possível que Deus faça uso de meios,


II. BASE
mas de modo sobrenatural. Ele pode não só atuar sem
usar meios (como discutido); ele também pode atuar A base dos milagres está em Deus: sua liberdade,
acima deles. Portanto, Deus pode empregar algo do seu amor, seu poder. Crer no Deus da Bíblia, o Deus
âmbito natural para realizar um milagre, e assim mes­ da fé cristã, é crer que os milagres são possíveis. 11 Ele
mo o milagre transcende o natural. Uma segunda cau­ é Deus, não homem! É mais fácil compreender os m i­
sa, digamos, é usada, mas a causa é insuficiente para lagres tendo no cenário a liberdade, o amor e o poder.
gerar o resultado. Nesse caso, Deus está agindo tanto Primeiro: vamos considerar a liberdade divina.

de modo mediato como imediato — e nessa ordem. Deus é o Senhor soberanamente livre. Ainda que tenha

Um exemplo é o milagre da travessia do mar Vermelho. criado o mundo e o sustente diariamente, Deus não é

Primeiro, um forte vento soprou do Oriente durante limitado por ele. Deus não está sujeito às estruturas

toda a noite e transformou o leito do mar em terra e leis do mundo; elas estão sujeitas a ele. Ele pode agir

seca. Então as águas tornaram-se paredes, à direita e à sobrenaturalmente porque não é só Deus da natureza.

esquerda, enquanto Israel passava entre elas. O vento Ele é um Deus que está acima e, portanto, pode gerar
outros meios de produzir resultados. Ordinariamente
que causou a terra seca era um meio natural — uma
Deus age por meio das leis da natureza, mas é livre
segunda causa — ainda que divinamente produzido.
para ir além delas. Num sentido real, crer em milagres
é afirmar a liberdade divina.12
9 Muitas vezes os argumentos contra os milagres sào basea­
das na premissa de que os milagres são violações das leis da
natureza. Um exemplo disso é o filósofo do século XVIII, 11 “Quem crê em Deus crerá na possibilidade de milagres”
David Hume (v. uma boa discussão acerca de Hume em (S. V. McCasland, Miracle, IDB, p. 395).
Colin B r o w n , Miracles and the Criticai Mind, cap. 4.) Emil Brunner o expressa bem ao dizer: “Negar a realidade
1(1 Apesar de muitas idéias úteis que encontro no livro de C. S. do milagre seria negar a liberdade de Deus, do Deus de todo
L e w i s , Miracles, fico incomodado com sua declaração no o mundo. Ver esse Deus em ação, o Senhor livre do mundo
começo do livro: “Faço uso da palavra ‘milagre para indicar que ele criou, significa encontrar milagres, quer esses mi­
uma intervenção na natureza mediante poder sobrenatural” lagres de ação divina ocorram por intermédio das leis da
(p. 15). É difícil imaginar Deus fazendo uma “intervenção” natureza, quer à parte delas” (The Christian Doctrine of
na ordem da criação dele próprio. Creation and Redemption, p. 160).

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A oposição à realidade dos milagres pode ter raízes Deus é soberanamente livre. Como o Senhor da
em concepções inadequadas de Deus .13 Por exemplo, criação, ele de modo algum agirá arbitrariamente con­
essa oposição pode advir do panteísmo, que na realida­ tra aquilo que fez — suas formas e estruturas, suas
de não considera Deus livre. Deus é considerado idên­ operações dinâmicas. Aliás, sem uma continuidade e
tico ao mundo. Todas as coisas na natureza, incluindo regularidade básica, tudo seria um caos. (Imagine o
suas leis e operação, são aspectos de seu próprio ser que ocorreria num tempo bem breve, se a Terra deixas­
e ação .14 Uma vez que o Deus do panteísmo de modo se de orbitar em torno do Sol.) Mas, em sua soberania
algum transcende o Universo, a natureza ou o homem, e liberdade, Deus pode mover-se de modo diferente
não é livre para agir em relação a eles, já que se trata do normal e esperado — e sem que nada, de modo
de seu próprio ser. Sua ação é idêntica à causalidade algum, saia do controle. Um Senhor livre e soberano
natural; assim, Deus e os meios ordinários são insepa­ será, quando desejar, um Deus realizador de milagres.
ráveis. Os milagres, como atos de um Deus livre, por­ Segundo: vamos refletir sobre o amor de Deus em
tanto, não ocorrem; aliás, não podem ocorrer .15 relação com os milagres. Ora, Deus não é apenas so­

Contra essa ideia é importante reconhecer que, beranamente livre, ele também é um Deus de amor

embora Deus esteja no mundo, não se identifica com e compaixão. Ele não realiza milagres como ações

ele no todo ou em parte (como sustenta o panteísmo). arbitrárias, i.e., para mostrar que é livre para isso,

Deus, conforme sustenta a Escritura, é o Criador do mas como demonstrações de seu amor. No AT, o m i­

mundo; seu ser é totalmente distinto da criação, de lagre do mar Vermelho ocorreu por amor a seu povo.

modo que é livre para se mover em relação a ele. As Moisés, refletindo sobre o que ocorreu, disse a Israel:

leis do Universo não se impõem sobre ele (apesar de “O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu

ele as ter feito e operar ordinariamente por meio de­ por serem mais numerosos do que os outros povos,

las), uma vez que elas não pertencem à sua essência. pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi
porque o Senhor os amou [...]. Por isso ele os tirou
Assim, a qualquer momento ele pode agir livre e vo­
com mão poderosa e os redimiu da terra da escra­
luntariamente de modo miraculoso, sem suspender
vidão, do poder do faraó, rei do Egito” (Dt 7.7,8).
nenhuma lei natural .16
Outros milagres durante a peregrinação no deser­
to, como maná do céu (Êx 16.14-36), água da rocha
13 Observamos previamente que a oposição aos milagres pode
ser causada por uma concepção inadequada de um Universo (Êx 17.1 - 6 ) e vestes e sandálias que não se estragaram
fechado: lei natural rígida, pancausalismo etc. Aqui estamos por quarenta anos (Dt 29.5) são também manifesta­
interessados em concepções inadequadas de Deus. ções do amor e da misericórdia de Deus. Muitos dos
N Espinosa, no século XVII, desenvolveu um sistema panteísta milagres que ocorreram depois no relato de Elias e
impressionante. Para Espinosa, Deus e a natureza são dois Eliseu são notáveis demonstrações de misericórdia
nomes da mesma realidade. V., e.g., seu Short Treatise on
e amor: Elias alimentado por corvos (lR s 17.1-6),
God, Man, and His Welfare.
a ressurreição do filho de uma viúva (v. 17-24), a
15 Alguns panteístas, incluindo Espinosa, falam de milagres no

sentido de que tu d o é um milagre, ou seja, toda a ordem da


natureza (Deus) é maravilhosa, inspira temor etc. Entretan­ aberto do Universo. Walter M. Horton escreve: “Num
to, conforme bem expressa Macquarrie, “se tu d o pode ser Universo aberto como este, os milagres não são ‘suspensões’
chamado ‘milagre’, a palavra acaba generalizada a ponto de das leis naturais [...] mas ato s volun tários q u e vêm d e u m a d i ­

ficar praticamente desprovida de conteúdo” (op. cit., p. 226). m en sã o a lém d a d im en sã o objetiv a a q u e se co n fin a a ciên cia ”
16 Isso significa, aliás, que ele age além da esfera aberta à (Christian Theology: An Ecumenical Approach, p. 132;
investigação científica, mas que (conforme já se expôs) é grifos do autor). “Atos voluntários” são atos livres do Cria­
indicada pela percepção científica cada vez maior do caráter dor transcendente.

124
M ila g re s

multiplicação do óleo da viúva (2Rs 4.1-7), o inimigo Um Deus de amor e misericórdia é um Deus de
cegado por intermédio das orações de Eliseu (6.18,19). milagres. Nesta conjuntura, devemos mencionar como
Podemos mencionar entre muitas outras duas histó­ isso é diferente de qualquer ideia de Deus que o con­
rias em Daniel: os três jovens hebreus conservados no sidere distante e indiferente. Aqui refiro-me a outra
meio de uma fornalha ardente (Dn 3.16-27) e Daniel concepção 20 de Deus que se opõe aos milagres, a sa­
livrado da boca de leões (6.16-24). São milagres evi­ ber, o deísmo. De acordo com o pensamento deísta,
dentes, e todos são manifestações da misericórdia de Deus é o Criador distante do mundo .21 Ele fez todas as
Deus em tempos de grande necessidade. coisas, incluindo as leis pelas quais operam, mas não
Particularmente no NT, contemplamos o amor e a se envolve e não se importa com a vida e a atividade
misericórdia de Deus manifestos de maneiras miraculo­ contínua do mundo. Como uma deidade muito dis­
sas. O primeiro milagre de Jesus, transformação da água tante, ele não é um Deus de providência (o mundo é
em vinho (Jo 2.1-11), abençoa uma festa de casamento; autossustentado em virtude da maneira pela qual Deus
o segundo, leva cura ao filho de um oficial (4.46-54). o fez originariamente)22, muito menos de “providência
Muitas vezes a palavra “compaixão” 17 ocorre em relação extraordinária”, i.e., milagres. Os milagres são simples­
aos milagres de Jesus. “Teve compaixão deles e curou os mente inimagináveis num mundo feito autossuficien-
seus doentes” (Mt 14.14). Antes de alimentar miraculo- te por Deus. Além disso, do ponto de vista deísta, os
samente uma multidão, Jesus disse: “Tenho compaixão
milagres são também uma afronta à razão porque dão
desta multidão [...]. Não quero mandá-los embora com
ênfase a uma interação misteriosa entre Deus e o mun­
fome, porque podem desfalecer no caminho” (15.32).
do.23 Deus deixou o mundo à própria sorte; ele não é
Em relação a dois cegos, “Jesus teve compaixão deles e
um Deus de ações miraculosas .24 Em suma, o Deus do
tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram
a visão e o seguiram” (20.34). Um leproso gritou para
20 Além do panteísmo (acima).
Jesus, e, “cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, to­
21 Assim, o deísmo é uma concepção bem diferente do pan­
cou nele [...]. Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi teísmo.
purificado” (Mc 1.41,42). Antes de ressuscitar o filho 22 A figura de Deus como um relojoeiro foi usada já no século
de uma viúva, Jesus “se compadeceu dela” (Lc 7.13,14). XIV, por Nicolau de Oresmes. Deus fez o mundo como um
Esses exemplos em que a palavra “compaixão” aparece relógio e deu corda nele. O relógio agora funciona por si.
só ilustram o fato de que os milagres de Jesus sempre O relojoeiro não precisa mais se preocupar.
23 E.g., o livro Christianity not Mysterious, do deísta John
brotavam de um profundo amor e interesse. No livro
Toland, de 1696, expressa no próprio título essa atitude
de Atos a palavra “graça” é empregada em relação aos
deísta. O deísmo floresceu na Inglaterra no século XVIII;
milagres realizados por Estêvão: “Estêvão, homem cheio também teve alguns adeptos notáveis na América antiga,
da graça e do poder de Deus, realizava grandes mara­ como Thomas Jefferson. A Bíblia de Jefferson apaga todos os
vilhas e sinais18 entre o povo” (6 .8 ). No caso de Paulo milagres dos Evangelhos. O pensamento deísta, embora ge­
e Barnabé, o Senhor “confirmava a mensagem de sua ralmente não sob esse nome, continua em qualquer pessoa
graça realizando sinais e maravilhas19 pelas mãos deles” que entende Deus de modo distante, alienado.
24 O deísmo deve ser cuidadosamente distinto do teísmo. O
(14.3). Assim, o amor (compaixão, graça, misericórdia)
teísmo, diferente do deísmo, considera Deus envolvido no
é a fonte de um milagre após outro.
mundo, de modo que os milagres podem ocorrer. O cristia­
nismo histórico é, portanto, teísta, não deísta. O teísmo fica
17 O verbo splanchnizomai significa “ter compaixão” É tam­ a meio caminho entre o deísmo e o panteísmo. O teísmo,
bém às vezes traduzido por “ter dó” como o deísmo, dá ênfase à transcendência de Deus e, como
18 Uma expressão frequente no AT e NT para designar milagres. o panteísmo, dá ênfase à imanência de Deus — mas sem os
19 Uma expressão frequente no AT e NT para designar milagres. extremos de um ou de outro. O deísmo é transcendência

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deísmo não é compreendido como aquele que interage direita26 despedaçou o inimigo” (Êx 15.6). Mais tarde,
com sua criação em termos de amor e compaixão. Moisés disse a Deus: “Eles são o teu povo [...] que tiraste
O Deus livre e soberano, por conseguinte, é também do Egito com o teu grande poder e com o teu braço forte”
o Deus de amor. Como tal, ele realizou o maior de to­ (Dt 9.29). Assim, quer pela “mão direita”, quer pelo “bra­
dos os milagres, o milagre da encarnação: “Porque Deus ço forte” é uma questão do grande poder de Deus que
tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito” (Jo obteve o livramento miraculoso de Israel.
3.16). Aqui realmente está o mistério incompreensível, a Desse modo, além da liberdade de Deus e do amor
maravilha incomparável do Deus eterno assumindo car­ de Deus que são básicos para os milagres divinos, há

ne humana por meio de seu Filho. É o milagre máximo também esta importante questão do poder. Portanto,

do grande Deus de amor e compaixão — e é desse amor em relação ao livramento da escravidão no Egito, Deus

que todos os outros milagres prestam testemunho. em sua liberdade poderia ter decidido seguir um cur­
so diferente do ordinário e em seu amor ele poderia ter
Mais uma palavra: porque Deus é tanto um Deus
sentido uma forte compulsão de redimir seu povo; mas,
livre como um Deus de amor, devem-se esperar mila­
sem poder para executar seu plano, nenhum milagre te-
gres. Em sua liberdade soberana, ele age de modo que
ria ocorrido. Já falamos da liberdade e do amor soberanos
supera o ordinário — o curso corrente do mundo — e,
de Deus, e é a palavra “soberano” que indica seu grande
em seu grande amor, sempre está desejoso de atender
poder. Deus é Senhor — o Senhor todo-poderoso!
às necessidades humanas. Assim, embora os milagres
Vamos nos concentrar por um momento na no­
não sejam, de modo algum, o procedimento usual de
tável demonstração do poder de Deus no milagre do
Deus (uma vez que ele estabeleceu um mundo com leis
nascimento virginal de Cristo. O anjo disse a Maria:
e sequências regulares), ele pode vez ou outra agir de
“O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altís­
modo extraordinário. Um Deus soberano, livre e amo­
simo a cobrirá com a sua sombra” (Lc 1.35). O poder
roso só pode ser um Deus de milagres.
procriador finito do homem será transcendido pelo
Terceiro: passamos agora para o poder de Deus. Cada
poder criativo infinito do Deus Altíssimo, e o grande e
milagre é de algum modo também uma demonstração
extraordinário milagre ocorrerá, ou seja, o nascimen­
do poder divino.25 Quando o salmista relacionou as “ma­
to do Filho de Deus no ventre de uma virgem. “Pois”,
ravilhas” de Deus realizadas no Egito, ele declarou que
conforme acrescentou o anjo no versículo 37, “nada é
isso fora feito para que Deus pudesse “manifestar o seu impossível para Deus .” 27
poder” (106.7,8). É interessante que ao descrever como Nesse milagre estupendo, contemplamos de novo
Deus livrou Israel do Egito, a Bíblia muitas vezes usa a a concomitância de liberdade, amor e poder. Deus em
terminologia vivida da “mão” ou do “braço” de Deus. As­ sua liberdade irrestrita optou por transcender o pro­
sim, Moisés e o povo de Israel, logo depois da travessia cesso biológico usual que inclui tanto a mulher como o
miraculosa do mar Vermelho, cantaram: “Senhor, a tua homem; em seu amor abundante, ele decidiu assumir a
mão direita foi majestosa em poder. Senhor, a tua mão

26 Às vezes a expressão é “forte mão”, como, e.g., “com grande


absoluta (Deus totalmente removido do mundo); o panteís- poder e forte mão” (Êx 32.1). “Direita” e “forte” são, claro,
mo é imanência absoluta (Deus totalmente idêntico ao mun­ intercambiáveis, já que a mão direita é considerada a mão
do). O teísmo conforme expressado na fé cristã afirma tanto de poder e força.
a distinção de Deus como seu envolvimento: ele é Criador e 2 Isso se aplica ao milagre complementar da concepção de
Mantenedor, Produtor e Redentor. João Batista no ventre estéril de Isabel. As palavras citadas
25 V. nossa breve discussão dos milagres nas p. 62-63, sob o são precedidas por estas: “Também Isabel, sua parenta, terá
título “Onipotência” de Deus. Ela começa com a declaração um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril já está em
“Deus, o onipotente, é o Deus de milagres”. seu sexto mês de gestação” (1.36).

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M ila g r e s

carne humana para redimir a humanidade; e em seu vas­ Os milagres, portanto, são maravilhas. No AT, os
to poder permitiu que o ventre de uma virgem concebes­ milagres do êxodo do Egito são muitas vezes chamados
se o eterno Filho de Deus. Que maravilha e que prodígio! de “maravilhas” — maravilhas de Deus. Deus disse a
Outros milagres do AT e do NT são também, cla­ Moisés: “Estenderei a minha mão e ferirei os egípcios
ro, demonstrações do poder de Deus. Vamos observar com todas as maravilhas que realizarei no meio deles”
isso em mais detalhes depois, na discussão dos milagres (Êx 3.20). Depois, em referência às pragas enviadas por
como “poderes”. Por ora, vou fechar esta seção referin­ Deus, as Escrituras trazem: “Moisés e Arão realizaram
do-me a um milagre grande e culminante — a ressurrei­ todos esses prodígios diante do faraó” (11.10). Depois
ção. Havia nos dias de Jesus os que questionavam uma da travessia miraculosa do mar Vermelho, Moisés e o
ressurreição futura, e para eles Jesus respondeu: “Vocês povo de Israel cantaram: “Quem entre os deuses é seme­
[...] não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!” lhante a ti, Se n h o r ? Quem é semelhante a ti? Majestoso
(Mt 22.29). Pelo poder do Deus todo-poderoso, Jesus em santidade, terrível em feitos gloriosos, autor de ma­
estava dizendo: ocorrerá um milagre que um dia fará
ravilhas?” (15.11). Quando, quarenta anos mais tarde,
que até aqueles cujo corpo se decompôs há muito sejam
preparava-se para liderar Israel na travessia do Jordão,
levantados dentre os mortos. A garantia disso, devemos
Josué disse ao povo: “Santifiquem-se, pois amanhã o
acrescentar, repousa no fato da própria ressurreição
Se n h o r fará maravilhas entre vocês” (Js 3.5). No dia se­
de Jesus, um ato grandioso de poder. É “a incompará­
guinte o rio Jordão se abriu, como o mar Vermelho havia
vel grandeza do seu poder [...]. Esse poder ele exerceu
feito na geração anterior. O salmista cantou depois: “Re­
em Cristo, ressuscitando-o dos mortos” (Ef 1.19,20).
cordarei os feitos do Se n h o r ; recordarei os teus antigos
O grande poder de Deus já se manifestou no milagre da
milagres” (77.11). Mas não só apenas as maravilhas do
ressurreição de Cristo; ele finalmente será manifestado
passado, pois o salmista logo depois acrescentou: “Tu és
em toda a criação quando todos os que tiverem morrido
o Deus que realiza milagres” (v. 14). Deus é um Deus
serão ressuscitados no fim da História.
que faz maravilhas — um Deus de milagres.30
III. DESCRIÇÃO No NT, “maravilhas” 31 sempre é usado junto com
“sinais”.32 A conjunção dos dois termos 33 indica que as
Chegando agora para uma descrição dos m ila­
gres, podemos começar falando de um milagre como
surdo e mudo agora ouvindo e falando); Atos 2.12 — “atônitos
uma maravilha. A palavra “milagre” em sua etim o­
e perplexos” (com as pessoas falando em outras línguas).
logia indica algo que causa admiração .2*28 Um fato ou
3(1 A palavra “maravilhas” em várias traduções das Escrituras
evento que não parece ter explicação adequada é um citadas é às vezes traduzida por “milagres”. Milagres são
objeto de admiração. Assim, podemos começar aí maravilhas — maravilhas de Deus que muitas vezes deixam
para descrevê-los, pois, sempre que se diz que m ila­ pessoas maravilhadas.
gres ocorrem nas Escrituras ou em outro lugar, são 31 A palavra grega é terata (feras no singular). De acordo com
objetos de admiração, assombro, deslumbramento e Leon Morris, “a palavra [maravilha] denota um portento, algo
além de explicações, com que os homens só podem ficar mara­
até perplexidade .29 Ao que parece, não há explicações
vilhados” (The Gospel According to John, N1CNT, p. 290).
adequadas para o que ocorreu.
32 A palavra grega é semeia (sèmeion no singular).
33 Isso ocorre 16 vezes no NT: Mateus 24.24; Marcos 13.22; João
2S “Milagre” deriva do verbo latino mirari, “admirar-se”. A for­ 4.48; Atos 2.19,22,43; 4.30; 5.12; 6 .8 ; 7.36; 14.3; 15.12; Roma­
ma substantiva é miraculum, “objeto de admiração”. nos 15.19; 2Coríntios 12.12; 2Tessalonicenses 2.9; Hebreus
2y V., e.g., passagens do NT como Marcos 5.42 — “Isso os deixou 2.4. A ordem pode ser ou “sinais e maravilhas” ou “maravilhas
atônitos” (com a ressurreição da menina); Marcos 7.37 — e sinais”. No AT, a expressão “sinais e maravilhas” ou “sinal e
“O povo ficava simplesmente maravilhado” (com um homem maravilha” (quer singular, quer plural, invariavelmente nessa

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maravilhas são sinais que apontam para outra coisa — semelhante, os fariseus e saduceus “aproximaram-se
na realidade, para a atividade sobrenatural. Por exem­ de Jesus [...] pedindo-lhe que lhes mostrasse um sinal
plo, Barnabé e Paulo falaram “de todos os sinais e m a­ do céu” (Mt 16.1). Um “sinal do céu” seria, claro, um
ravilhas que, por meio deles, Deus fizera” (At 15.12). milagre. O rei Herodes, quando Jesus lhe foi levado em
As maravilhas e os sinais, ainda que realizados por julgamento, ficou alegre “porque havia muito tempo
intermédio de homens, vinham de Deus. queria vê-lo. Pelo que ouvira falar dele, esperava vê-
Vamos considerar melhor a designação de um mi­ -lo realizar algum milagre” (Lc 23.8). Nos Sinópticos o
lagre como um sinal Embora na Escritura a palavra único sinal do qual Jesus falou com respeito a si mesmo
“sinal” possa referir-se a um marco ou prova de cará­ foi “o sinal do profeta Jonas” pois, como ele disse: “Uma
ter não miraculoso ,34 em muitos casos faz referência a geração perversa e adúltera pede um sinal miraculo­
um evento que difere do curso ordinário da natureza. so! Mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal do
Já observamos a ligação estreita entre “sinais” e “ma­ profeta Jonas” (Mt 12.39). Esse único sinal a ser dado
ravilhas”; entretanto, com frequência, quando “sinais” a uma geração incrédula e pecadora será paralelo ao
(ou “sinal”) é empregada só,35 há, sem dúvida, um confinamento de Jonas no ventre da baleia e sua saída
senso do assombroso, do miraculoso em relação a ela. de lá: o próprio sepultamento de Jesus na terra e sua
As pragas no Egito são referidas como sinais (Êx 4.8,9), subsequente ressurreição. Esse era o grande milagre da
assim como os numerosos milagres do período do de­ ressurreição. Além desse único sinal com respeito a si
serto (Nm 14.11), o retrocesso de dez degraus da som­ próprio, Jesus também falou dos sinais de falsos cristos
bra do Sol (2Rs 10.8-11) e muitos outros. No caso da e falsos profetas antes de seu retorno: “Aparecerão falsos
sombra do Sol, tratava-se de um sinal garantindo ao cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e
rei Ezequias a cura divina: “O sinal de que o Senhor maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos” (Mt
vai cumprir o que prometeu é este [...]” (v. 9). Assim, 24.24; v. Mc 13.22). Os milagres, portanto, podem pro­
todos os sinais do AT, como esses mencionados, apon­
vir de forças malignas. Também, de acordo com Marcos
tam além, para Deus e sua ação.
16.17,18,36 Jesus disse: “Estes sinais acompanharão os
Nos Evangelhos, a palavra “sinal” é usada com fre­
que crerem: em meu nome expulsarão demônios; fala­
quência para designar milagres. Os escribas e faraós
rão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem
chegaram para Jesus dizendo: “Mestre, queremos ver
algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; impo-
um sinal miraculoso feito por ti” (Mt 12.38) — em ou­
rão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”.
tras palavras, um milagre de algum tipo que, presume­
-se, validaria sua autoridade. Mais tarde, de modo
36 Esses versículos são do chamado “final longo” de Marcos
(16.9-20). Apesar de se questionar se esses versículos de
ordem) encontra-se em Êxodo 7.3; Deuteronômio 4.34; 6.22; fato pertencem a esse evangelho (alguns manuscritos anti­
7.19; 13.1,2; 26.8; 28.46; 29.3; 34.11; Neemias 9.10; Salmos gos do NT não os contêm), não hesito em considerá-los Es­
105.27; Isaías 8.18; 20.3; Jeremias 32.20,21; Daniel 4.2,3; 6.27. critura válida. De acordo com Stephen S. S hort , IBC, “do
No AT, diferente do NT, “sinais e maravilhas” nem sempre fato de os versículos 9 a 20 estarem relegados à margem
vêm juntos (observe, e.g., que nas citações acima em referên­ da RSV não se deve deduzir que não façam parte da Pala­
cia a “maravilhas” a palavra “sinais” não é empregada). vra de Deus inspirada. A razão pela qual foram relegados à
34 V., e.g., Deuteronômio 6 .8 : “Amarre-as como um sinal nos margem é que é improvável que tenham sido escritos pelo
braços”; Marcos 14.44: “Otraidor havia combinado um sinal próprio Marcos”. A NVI os inclui, com a anotação marginal
com eles”; Romanos 4.11: “Ele recebeu a circuncisão como de que “alguns manuscritos antigos não trazem os versí­
sinal [...] da justiça que ele tinha pela fé”. culos 9 a 20; outros manuscritos do evangelho de Marcos
33 Há muitos exemplos disso tanto no AT como no NT. apresentam finais diferentes”.

128
M ila g re s

As últimas palavras do capítulo são: “Então, os discípu­ seu nome” (2.23); Nicodemos disse a Jesus: “Mestre,
los saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor co­ sabemos que ensinas da parte de Deus, pois ninguém
operava com eles, confirmando-lhes a palavra com os pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo,
sinais que a acompanhavam” (v. 2 0 ). É interessante que, se Deus não estiver com ele” (3.2). De novo, depois de
pode-se acrescentar, nos Sinópticos a palavra “sinal” ou alimentar miraculosamente a multidão, “depois de ver
“sinais” em qualquer de seus usos3' nunca é aplicada aos o sinal miraculoso que Jesus tinha realizado, o povo
milagres de Jesus, quer pelos autores dos Evangelhos, começou a dizer: ‘Sem dúvida, este é o Profeta que de­
quer pelo próprio Jesus.38 Isso também ocorre com a con­ via vir ao mundo’ ” (6.14); e, depois da ressurreição
junção de “sinais” e “maravilhas” :39 elas não dizem respei­ de Lázaro, “muitas pessoas [que carregavam ramos
to a Jesus em si.40 Pode ser que houvesse alguma hesitação de palmeiras, gritando ‘Hosana!’ e chamando-o de o
em aplicar a Jesus uma linguagem que também poderia Rei de Israel’], por terem ouvido falar que ele realizara
adequar-se aos falsos profetas. Além disso, como se ob­ tal sinal miraculoso, foram ao seu encontro” (12.18).
servou, Jesus mesmo nunca tentou realizar milagres para Mas os judeus em geral não acreditaram, apesar de

impressionar incrédulos (como os escribas e fariseus). seus “sinais”: “Mesmo depois que Jesus fez todos aque­

No quarto Evangelho, há muitas referências aos les sinais miraculosos, não creram nele” (12.37). Em

sinais. De acordo com esse evangelho, o primeiro e o dois versículos sintetizadores, o quarto Evangelho traz:

segundo milagres de Jesus na Galileia — a transfor­ “Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos

mação da água em vinho em Caná e a cura do filho do outros sinais miraculosos, que não estão registrados

oficial de Cafarnaum — são chamados “sinais”; “Este neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês
creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo,
sinal miraculoso, em Caná da Galileia, foi o primeiro 11
tenham vida em seu nome” (20.30,31).42
que Jesus realizou. Revelou [Jesus] assim a sua glória”
No livro de Atos, a palavra “sinais” também ocorre
(Jo 2.11). Quanto ao outro milagre: “Esse foi o segundo
com frequência. Numa ocasião — o dia de Pentecoste
sinal miraculoso que Jesus realizou, depois que veio da
— , Pedro fez referência ao próprio Jesus quando disse
Judeia para a Galileia” (4.54). Assim, em contraste com
à multidão reunida: “Jesus de Nazaré foi aprovado por
os Sinópticos, João usa a palavra “sinal” em referência
Deus diante de vocês por meio de milagres, maravilhas
aos milagres de Jesus. Isso ocorre também em várias
e sinais que Deus fez entre vocês por intermédio dele” 43
outras ocasiões. Por exemplo: “Muitos viram os sinais
(2.22). No mesmo dia, depois que milhares se conver­
miraculosos que ele estava realizando e creram em
teram ao Senhor e a comunidade cristã começou a ser
formada, o texto traz que “todos estavam cheios de
3/ Em Mateus 13 vezes, Marcos 7 vezes, Lucas 11 vezes.
temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos
38 Vamos discutir o significado disso mais tarde.

39 Usada apenas em Mateus 24.24 e Marcos 13.22.

40 Isso também ocorre na única referência a “sinais e maravi­ 42 E notável que mesmo nos Evangelhos sinópticos a conjunção
lhas” no quarto Evangelho: João 4.48. de “sinais” e “maravilhas” não está relacionada com os mi­
41 A KJV traduz essa palavra por “milagres”. Os sinais são mila­ lagres de Jesus: “sinais”, sim, mas não “sinais e maravilhas”.
gres, mas a palavra grega, de novo, é semeia. A NVI combina A única vez no quarto Evangelho em que há tal conjunção é
a ideia de sinais e milagres traduzindo a palavra por “sinal a ocasião em que Jesus diz ao oficial e pessoas à sua volta: “Se
miraculoso”. A NASB (nota) traz “milagres atestadores”. vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão” (Jo 4.48).
(A tradução da KJV de sêmeion ou semeia por “milagre” ou 43 Observe que a expressão “maravilhas e sinais” é agora usada
“milagres” é em geral seguida em todo o quarto Evangelho; a em relação a Jesus, pois certamente ele realizou “maravilhas
tradução da NVI como “sinal miraculoso” ou “sinais” ocorre e sinais”, mesmo que nos Evangelhos houvesse hesitação em
regularmente.) usar a expressão em referência a ele (v. as notas anteriores).

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apóstolos” (2.43 ).44 Logo depois do Pentecoste, Pedro Também Paulo escreveu aos coríntios: “As marcas
e João curaram pelo nome de Jesus um homem alei­ de um apóstolo47 — sinais, maravilhas e milagres —
jado e depois deram testemunho acerca de Jesus e do foram demonstradas entre vocês, com grande perse­
evangelho a muitos judeus maravilhados e, mais tarde, verança” (2Co 12.12 ) .48 Na carta aos Tessalonicenses,
ao Conselho Supremo dos judeus diante do qual foram Paulo fala de sinais e maravilhas enganosos que serão
levados. A cura foi um ato reconhecido pelo Conselho realizados pelo “perverso”, logo antes da volta de Cristo:
como “um sinal notório” (4.16, AEC);45 foi um “sinal “A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás,
[ou “milagre”] de cura” (4.22). Em consequência do com todo o poder, com sinais e com maravilhas en­
testemunho dos apóstolos em favor de Cristo, eles fo­ ganadoras” (2Ts 2.9 ) .49 Por fim, em Hebreus, o autor
ram advertidos de não falarem nem ensinarem mais em fala de sinais (e maravilhas) da seguinte maneira: a
seu nome. É notável que não muito depois a comunida­ boa-nova da salvação “primeiramente anunciada pelo
de cristã orou ao Senhor pedindo ousadia para continuar
Senhor, foi-nos confirmada pelos que a ouviram. Deus
testificando, acrescentando: “Estende a tua mão para
também deu testemunho dela por meio de sinais, ma­
curar e realizar sinais e maravilhas por meio do nome
ravilhas, diversos milagres” (2.3,4).
do teu santo servo Jesus” (4.30). Mais tarde Estêvão “rea­
No livro de Apocalipse, os sinais são retratados
lizava grandes maravilhas e sinais entre o povo” ( 6 .8 ) e
ocorrendo apenas por meio de forças malignas. A se­
acabou dando um testemunho que o levou ao martírio.
gunda besta (a besta que “saiu da terra”, também cha­
Depois vem Filipe,46 de quem a Escritura diz: “Quando a
mada “o falso profeta”) “realizava grandes sinais, che­
multidão ouviu Filipe e viu os sinais miraculosos que ele
gando a fazer descer fogo do céu à terra, à vista dos ho­
realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia” (8 .6 ).
mens” (13.13), de modo que por esse e outros sinais os
Em Icônio, Paulo e Barnabé falavam “corajosamente do
habitantes da terra são enganados. De novo, da boca de
Senhor, que confirmava a mensagem de sua graça rea­
um triunvirato maligno do dragão, da (primeira) besta
lizando sinais e maravilhas pelas mãos deles” (14.3).
e do falso profeta saem “espíritos de demônios que rea­
Essas citações evidenciam a larga ocorrência de “sinais”
lizam sinais miraculosos” (16.14) que juntam os reis
no testemunho cristão primitivo.
da terra para a grande batalha do Armagedom. Todos
Passando para as Epístolas, primeiro observamos
são, portanto, sinais de engano, sinais mentirosos. Por
que, na carta de Paulo aos Romanos, ele falou de sinais
e maravilhas no próprio ministério: “[...] daquilo que fim, faz-se referência à destruição da besta e do falso

Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em profeta, “que havia realizado os sinais miraculosos em

ação, a fim de levar os gentios a obedecerem a Deus, nome dela, com os quais ele havia enganado” (19.20).

pelo poder de sinais e maravilhas e por meio do poder Todos eles são sinais ou milagres enganosos (não ver­

do Espírito de Deus. Assim [...] proclamei plenamente dadeiros), pois vêm de Satanás, não de Deus.
o evangelho de Cristo” (15.18,19). Vamos refletir sobre o testemunho bíblico prece­
dente sobre milagres como sinais.

44 V. 5.12: “Os apóstolos realizavam muitos sinais e maravilhas


entre o povo”. 4/ Literalmente “o apóstolo”. Paulo distinguia-se dos “supe-
43 Outras traduções substituem “sinal” por “milagre”: “um rapóstolos” (v. 1 1 , NVI) que (conforme mostra o contexto
milagre notório” (NVI). A tradução literal aqui de sêmeion geral) eram falsos apóstolos.
por “sinal” parece um tanto inadequada; daí as várias op­ 48 A palavra grega dynamesin literalmente significa “poderes”.

ções por “milagre”. 49 A frase semeiois kai terasin pseudous pode ser literalmente

46 Filipe, o evangelista, não o apóstolo. Ele e Estêvão haviam traduzida por “sinais e maravilhas de uma mentira”. A AEC
sido escolhidos pela comunidade cristã para servir às mesas. traz “sinais e prodígios da mentira”.

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M ila g re s

1. É evidente que os milagres apontam para além do Supremo Conselho dos judeus, e assim preparou o
deles mesmos, para a atividade extraordinária, sobre­ caminho para a proclamação do evangelho.
natural de Deus, 5. É claro que eventos miraculosos não se limita­
2. No ministério de Jesus, ele estava muito preo­ ram a Cristo e seus apóstolos, pois após o Pentecoste
cupado, conforme salientam os Evangelhos sinópticos, toda a comunidade cristã orou tanto por ousadia para
em não produzir milagres “por encomenda! Ele não re­ testemunhar como pela realização de milagres. Não há
alizava milagres para provar quem era, condenava todos indicação de que tais milagres só devessem ser reali­
os que andavam atrás de milagres e deixou claro que o zados pelos apóstolos; trata-se de uma oração comu­
único milagre que seria dado aos incrédulos seria o da nitária pela atividade futura da igreja. A oração, por
própria ressurreição. Jesus declarou que o método de rea­ conseguinte, está de acordo com as palavras de Marcos
lizar milagres para conquistar seguidores seria o méto­ 16.17 — “Estes sinais acompanharão os que crerem:
do dos falsos cristos e dos falsos profetas. Assim, ele não em meu nome expulsarão demônios [...]”. Os crentes
queria ser conhecido como um realizador de “sinais e em geral realizariam milagres.
maravilhas”. Desse modo, a expressão não é empregada 6. É significativo que se diz que, depois do Pente­
em relação a Jesus em nenhum dos Evangelhos. coste, muitos milagres foram realizados por dois mem­
3. Ainda assim, sem dúvida Jesus realizou mila­ bros da comunidade que não eram apóstolos. Num dos
gres. E, ao serem chamados de “sinais” (na terminolo­ casos, os milagres precederam, em outro, os milagres
gia do quarto Evangelho), apontavam para sua glória acompanharam o testemunho. Os milagres, portanto,
oculta. Os milagres de Jesus levaram alguns a crerem eram inseparáveis da proclamação do evangelho.
nele. Apesar disso, essa mesma fé nele [como “o pro­ 7. Nas campanhas missionárias dos primeiros
feta”, “o Rei de Israel”] não era necessariamente muito apóstolos (Paulo e Barnabé), Deus confirmou o teste­
profunda. Muitos logo pediriam sua crucificação. No munho do evangelho realizando milagres por intermé­
todo, os milagres dele, mesmo com sua multiplicidade, dio deles. Fica ainda evidente (a partir de Paulo) que a
não levavam a uma fé duradoura. Os milagres de Jesus obediência ao evangelho era levada não só pela palavra
continuam sendo um chamado ao reconhecimento de pregada e pelas ações praticadas (ou seja, pela prega­
quem ele é; eles não compelem à fé, mas são um estí­ ção de Cristo e suprimento das necessidades humanas
mulo e um convite à fé. em vários aspectos), mas também por milagres — “o
4. Na igreja primitiva, é evidente, tanto no Pente- poder de sinais e maravilhas” — com que o evangelho
coste como pouco depois, que a ocorrência de milagres era plenamente pregado. Isso concorda com as palavras
é o cenário para a proclamação de Cristo. Conforme em Hebreus sobre Deus dando testemunho do evange­
observamos, a proclamação inicial do evangelho foi lho por meio de sinais e maravilhas. Além disso, há de­
para uma grande multidão já ciente dos muitos m i­ monstrações claras da verdade nas palavras finais do
lagres que Jesus fizera (“como vocês mesmos sabem” evangelho de Marcos de que, à medida que a pregação
[At 2.22]). Também já não havia nenhuma hesitação avançava, Deus confirmava a mensagem pelos sinais
(como nos Evangelhos) em falar dos milagres de Jesus miraculosos que a acompanhavam. Tudo isso destaca
como “sinais e maravilhas”; aliás, eles foram desta­ a relação vital entre a proclamação do evangelho e a
cados como atestação divina do Filho e, portanto, atestação de milagres na declaração da realidade viva
tornaram-se o pano de fundo para a proclamação da de Cristo50 e no brotar da fé e da obediência.
mensagem de salvação. Logo depois do Pentecoste foi
um milagre de cura da parte de dois apóstolos que pri­ 5t' Gosto muito da seguinte declaração: “Kerygma e charis-
meiro chamou a atenção de muitos outros, até mesmo ma, pregação e milagres, portanto, seguem essencialmente

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T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

8. As marcas de um verdadeiro apóstolo incluem fazem tais maravilhas52 por suas mãos?” (Mc 6.2). Entre­
milagres. Com isso Paulo não quer dizer que só um tanto, um pouco mais tarde a Escritura acrescenta que
apóstolo pode realizar milagres, mas que esses milagres Jesus “não pôde fazer ali obras maravilhosas [...]. E ele se
o diferenciavam definitivamente de um falso apóstolo. admirou da incredulidade deles” (6.5,6. AEC). As “obras
9. A ocorrência de milagres enganosos por forças maravilhosas” — “poder” (dynamis) — são um milagre.
demoníacas — falsos cristos, falsos profetas etc. — se Examinando mais os Evangelhos, observamos Jesus
intensificará no final dos tempos. Os cristãos devem falando de seu próprio dynamis: “Ai de você, Corazim!
estar atentos para não serem enganados, junto com o Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres53 que foram
mundo em geral, por tais milagres. realizados entre vocês o fossem em Tiro e Sidom, há
10. Do lado positivo, há a contínua promessa do NT muito tempo elas teriam se arrependido” (Lc 10.13).54
de que os milagres — verdadeiros, não falsos ou enga­ Em ainda outra ocasião, Jesus falou de modo positivo
nosos — acompanharão os que creem. Assim permane­ de uma pessoa que não o seguia, mas expulsava demô­

cerá a ratificação da validade do evangelho por milagres nios em seu nome: “Não o impeçam [...]. Ninguém que

genuínos de confirmação através das eras, até o fim. faça um milagre55 em meu nome, pode falar mal de mim

Outra designação de um milagre é que se trata de logo em seguida” (Mc 9.39). É também interessante ob­

um poder , ou que os milagres são poderes. No NT a servar que Herodes falou de “poderes miraculosos” 36

palavra dynamis (plural dynameis). Além de ser tradu­ operando em Jesus (Mt 14.2), assim, de novo, mila­

zida por ‘ poder”, é traduzida de maneiras variadas por gres. De igual modo, lemos que, na entrada triunfal de

“obra poderosa”, “poder miraculoso” ou simplesmente Jesus em Jerusalém, “toda a multidão dos discípulos

“milagre”. começou a louvar a Deus alegremente e em alta voz,

Vamos começar com o ministério do próprio Jesus. por todos os milagres57 que tinham visto” (Lc 19.37).

Observamos que, depois de sua provação no deserto, Podemos finalmente observar uma palavra de Jesus
em referência ao dia do Senhor vindouro quando ele
Jesus “voltou para a Galileia no poder do Espírito” 51
dirá a muitos: “Nunca os conheci” (Mt 7.23). Eles re­
(Lc 4.14), e não muito depois de sua volta “o poder
plicarão: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu
do Senhor estava com ele para curar os doentes” (Lc
nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não
5.17). Assim, esse poder capacitava Jesus a curar; nes­
realizamos muitos milagres?” 58 (v. 2 2 ).
se sentido, era um poder de realizar milagres. É inte­
ressante observar, em relação a isso, que, quando uma
mulher tocou a veste de Jesus e foi curada de imediato,
-l2 A palavra grega dynameis aqui é traduzida por “maravi­
lhas” na AEC, ARA e ARC. A NVI e a NTLH traduzem por
Jesus percebeu que “dele havia saído poder” (Mc 5.30).
“milagres”.
Esse poder de realizar milagres ( dynamis) passou a ser - A palavra grega dynameis aqui é traduzida por “milagres” na
identificado com o próprio milagre, de modo que “um NVI, ARA e BLH. A AEC (como a A&4) traz “maravilhas”.
poder” ou “poderes” (qualquer que seja a tradução) ?4 Na passagem paralela do evangelho de Mateus, “milagres”
simplesmente equivale a “um milagre” ou “milagres”. (dynameis) é repetida três vezes. V. Mateus 11.20,21,23.
” A palavra é traduzida por “milagre” na NVI, AEC, ARA e
Uma ilustração antiga disso encontra-se na reação
ARC. A NEB traduz por “uma obra de poder divino”.
de muitos na cidade natal de Jesus, Nazaré: “Como se
?h Isso é “poderes miraculosos” na NVI e AEC; “forças miraculo­
sas” na ARA; “maravilhas” e “milagres” na ARC.
juntos, de acordo com o Novo Testamento. Em ambos Jesus 5/ Essa palavra é traduzida por “milagres” na NVI e ARA; “ma­
Cristo prova ser o Senhor vivo, presente em sua igreja no ravilhas” na AEC e ARC.
Espírito Santo” (O. H o f i u s , Miracle, NIDNTT, v. 2, p. 633). 5H Essa palavra é traduzida por “milagres” na NVI, AEC, ARA e
M A expressão grega é dynamei to pneumatos. NTLH; “maravilhas” na ARC.

132
M ila g re s

Resumindo até aqui, Jesus, sem dúvida, é mostrado está falando acerca dos dons do Espírito Santo a vários
nos Evangelhos como um realizador de milagres. Como crentes e, depois de mencionar palavras de sabedoria
pano de fundo há o poder do Espírito (ou do Senhor). e conhecimento, fé e dons de cura, acrescenta: “[...] a
Seus milagres foram reconhecidos pelo povo de sua ter­ outro, poder para operar milagres” 62 (12.10). Além dis­
ra natal, confirmados por um rei e festejados pela mul­ so, Paulo fala de várias nomeações na igreja: “Assim,
tidão de seus discípulos. Só os milagres de Jesus seriam na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos;
suficientes para levar cidades inteiras ao arrependimen­ em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres;
to, mas elas não se arrependeram. E mais, apesar do re­ depois os que realizam milagres” 63 (12.28). Logo de­
conhecimento de seus milagres por seu próprio povo, na pois, Paulo faz uma pergunta retórica: “Têm todos o
realidade não creram nele e, por causa da incredulidade, dom de realizar milagres?” (12.29). Em segundo lugar,
Jesus não pôde realizar nenhum milagre. Os milagres em 2Coríntios 12.12 já observamos que Paulo fala de
também podiam ser realizados por aqueles que atuavam milagres (ou “prodígios”) como um dos sinais de um
em nome de Jesus, ainda que não fossem verdadeiros apóstolo verdadeiro. Em seguida, passando para Gála-
discípulos seus. A realização de milagres, portanto, não tas, lemos as palavras de Paulo: “Aquele que lhes dá o
era garantia segura de verdadeiro discipulado. seu Espírito e opera milagres64 entre vocês realiza essas
No livro de Atos, conforme já observamos, Pedro coisas pela prática da Lei ou pela fé com a qual recebe­
falou: “Jesus de Nazaré, homem aprovado por Deus en­ ram a palavra?” (3.5). Por fim, em Hebreus, primeiro
tre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus em 2.3,4 (já citado em parte), não só se mencionam
por ele fez” (2.22, AEC). Essas “maravilhas” (dynameis) sinais e maravilhas, como também “diversos” 65 mila­
são, claro, milagres.59 Também já notamos que Filipe, gres: “Esta salvação, primeiramente anunciada pelo
em sua atividade evangelística, realizou muitos “si­ Senhor, foi-nos confirmada pelos que a ouviram. Deus
nais”; agora notamos mais uma palavra dynameis : também deu testemunho dela por meio de sinais, ma­
“[Simão observava] maravilhado os grandes sinais e ravilhas, diversos milagres e distribuições66 do Espírito
milagres60 que eram realizados” (8.13). A declaração Santo de acordo com a sua vontade”. Embora esses
mais contundente acerca de dynameis em Atos diz res­ milagres ou poderes ( dynameis ) sejam mencionados
peito a Paulo: “Deus fazia milagres extraordinários 61 aqui só em relação à proclamação inicial do evangelho,
por meio de Paulo, de modo que até lenços e aventais é digno de nota, em segundo lugar, que em Hebreus
que Paulo usava eram levados e colocados sobre os
enfermos. Estes eram curados de suas doenças, e os es­
62 As palavras gregas são en ergêm a ta d y n a m eõ n . A A E C e A R A
píritos malignos saíam deles” (19.11,12). É bem inte­ trazem “operação de milagres”; A R C traz “operação de ma­
ressante que em Atos passamos de “milagres” para ravilhas”; a N T L H , “poder para fazer milagres”.
“grandes milagres” e depois “extraordinários milagres”! ft3 A palavra é simplesmente dynam eis, “milagres” (como na

A R C ). Entretanto, a implicação é que se refere a pessoas


Voltando-nos para as Epístolas, encontramos refe­
(como sugerem as precedentes “apóstolos”, “profetas” e “mes­
rências a milagres inicialmente em ICoríntios. Paulo
tres”), assim “operadores de milagres” (como na A E C e A R C ).
M A expressão grega energõn dynam eis é literalmente “operação
59 Essa palavra é assim traduzida na N V I e A R A . de milagres”, assim uma operação constante de milagres.
60 Essa é a primeira vez que a R S V traduz d y n a m eis por “mila­ 65 A palavra grega polikilais é traduzida por “vários” na A E C ,

gres” em lugar de “obras de poder”. Esse será o padrão fre­ A R A e A R C . A N V I traduz por “diversos”.
quente daí em diante. A N V I, A E C e A R A trazem “milagres”. 66 Substituí a palavra “dons” por “distribuições” (como na

61 A expressão grega ou tas tuchousas pode ser traduzida por “o A R A ), uma vez que a palavra grega é m erism ois, literalmente

não comum” ou “o não ordinário”. “distribuições” ou “rateios” (v. BAGD).

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6.5 faz-se referência a pessoas que “experimentaram a sua singularidade como na totalidade que se manifesta
bondade da palavra de Deus e os poderes [dynameis] o significado abrangente dos milagres. Um milagre é
da era que há de vir”.607 Essas pessoas, num período um sinal que aponta além, para o campo do sobrena­
posterior, também experimentaram milagres. tural; é uma maravilha que causa assombro e espan­
Num sumário de Atos e das Epístolas, fica eviden­ to; é um poder que provoca resultados que estão além
te, primeiro, que os dynameis de modo algum cessam das capacidades naturais. Uma palavra, sozinha, não
com o ministério de Jesus. Já observamos em Atos é suficiente, mas, na diversidade e unidade das três,
a frequência da palavra “sinal(is)” ou das palavras manifesta-se claramente o significado de milagre.
“sinais e maravilhas” que também se referem a m i­ Há, porém, também outra palavra que, embora
lagres, e, embora dynameis seja menos frequente, o não se refira invariavelmente a milagres, pode ter esse

impacto é bem forte, já que em dois casos a expressão significado. Trata-se da palavra “obras”, erga,6S confor­

(como se observou) não é simplesmente “milagres”, me é utilizada principalmente no quarto Evangelho.

mas “grandes milagres” e “extraordinários milagres” Primeiro, porém, vamos observar uma passagem de

Assim, parece haver uma aceleração de milagres na particular importância nos Sinópticos. Ela começa as­

igreja primitiva. Em segundo lugar, observamos que sim: “Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras 69

os milagres não só ocorrem nos ministérios evan- de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe:

gelísticos de Filipe e Paulo, mas também que Paulo És tu aquele que estava para vir ou havemos de espe­
rar outro?” (Mt 11.2,3, ARA). Que essas “obras” eram
fala de milagres como um dos dons do Espírito San­
milagres, ou pelo menos incluíam milagres, fica claro
to dentro da comunidade da igreja local. Nem todos
na resposta de Jesus: “Ide e anunciai a João o que estais
na comunidade cristã realizam milagres, mas alguns
ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os
sim — e por desígnio divino. Isso não se limita, de
leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos
modo algum, à igreja coríntia, pois Paulo também
são ressuscitados [...]” (11.4,5, ARA).
fala de milagres como uma ocorrência contínua na
Chegando agora ao quarto Evangelho, encontramos
comunidade gálata. Em terceiro lugar, diversos m i­
algumas referências a “obras”, todas as quais indubita­
lagres — milagres em abundância — serviram na
velmente significam “milagres”.70 Logo depois de curar
primeira pregação do evangelho da salvação para
um homem aleijado durante muitos anos, Jesus disse:
confirmar sua verdade. Mas também são manifestos
“0 Pai ama ao Filho e lhe mostra tudo o que faz. Sim,
depois como “poderes da era que há de vir”. Assim,
para admiração de vocês, ele lhe mostrará obras71 ain­
os milagres continuam — ou deviam continuar — ao
da maiores do que estas” (5.20). Nesse evangelho, este
longo de toda a era do evangelho.
é o terceiro dos milagres registrados de Jesus; os dois
Agora que discutimos “sinais”, “maravilhas” e “po­
anteriores foram transformar água em vinho (Jo 2) e
deres” (ou “forças miraculosas”) — semeia, terata e
dynameis — , fica evidente que, embora cada termo
Já fizemos uso da expressão “obras de poder” como forma de
possa de fato ser traduzido por “milagres”, é tanto em
falar de milagres (especialmente em RSV). Entretanto, lem­
bre-se de que “obras de poder” é uma tradução de dynameis,
6 O fato de mais tarde poderem ter cometido apostasia ou literalmente “poderes”. “Obras”, como as estamos agora consi­
caído (v. 6 ) é irrelevante para o argumento de que os mi­ derando, são erga.
lagres realmente ocorreram após a proclamação inicial do 6y A AEC e a ARC trazem “feitos”. “Obras” parece preferível.
evangelho. A expressão “poderes da era que há de vir” tam­ 70 Além das passagens que serão citadas a seguir, outras refe­

bém lança luz sobre milagres como sinais escatológicos, si­ rências são João 7.3,21; 9.3,4; 15.24.
nais da era vindoura. 71 As palavras gregas são meizona erga.

134
M ila g re s

a cura do filho do oficial (Jo 4) .72 Assim, “obras ainda incluiría tudo: desde transformar água em vinho até res­
maiores” irão além das que já ocorreram. Em referência surreição de pessoas fisicamente mortas — e tudo entre
a João Batista, Jesus declarou: “Eu tenho um testemu­ esses dois extremos (como registrado não só no quarto
nho maior que o de João; a própria obra que o Pai me Evangelho, como também nos Sinópticos). Assim, as
deu para concluir [...] testemunha que o Pai me enviou” próprias obras menores de Jesus, bem como suas “obras
(5.36). A respeito de um homem nascido cego e a quem maiores”, estarão incluídas. Ora, isso, para dizer o mí­
Jesus logo curaria, ele disse: “Nem ele nem seus pais nimo, é uma promessa surpreendente de Cristo: os que
pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus creem nele farão (não “podem fazer” ou “talvez venham
se manifestasse na vida dele” (9.3). De novo, em outra a fazer”) suas obras, seus milagres. Todos os milagres
ocasião, Jesus disse: “Mesmo que não creiam em mim, que Cristo realizou em seu ministério terreno serão rea­
creiam nas obras, para que possam saber e entender que lizados pelos que creem nele.
o Pai está em mim, e eu no Pai” (10.38). São semelhan­ Muito mais surpreendente é a declaração com ­
tes às palavras de 14.11: “Creiam em mim quando digo plementar de que os que creem nele também reali­
que estou no Pai e que o Pai está em mim; ou pelo menos zarão obras maiores do que as realizadas por Cristo.
creiam por causa das mesmas obras”. Depois vem uma
Isso, sem dúvida, significa obras além de tudo o que
declaração surpreendente: “Digo-lhes a verdade: Aquele
é mencionado nos Evangelhos, obras até maiores do
que crê em mim fará também as obras que tenho rea­
que as “obras ainda maiores” dele mesmo! Quaisquer
lizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque
que tenham sido os milagres realizados por Jesus so­
eu estou indo para o Pai” (14.12). Assim, os milagres
bre a terra, serão transcendidos pelas obras miraculo­
que Jesus fez e milagres até maiores serão realizados por
sas daqueles que creem nele. Como é possível uma
aqueles que creem nele.
coisa tão assombrosa? A resposta é dada nas próprias
A última passagem citada (Jo 14.12) é surpreen­
palavras de Jesus: “Porque eu estou indo para o Pai”.
dente, acima de tudo, pelo pano de fundo das próprias
Jesus no céu terá poder e autoridade muito maiores
“coisas ainda maiores” de Jesus. Pois, de acordo com
do que teve durante seu ministério terreno 73 e, com
João 5.20 (como observamos), Jesus realizaria “obras
isso, capacitará os que creem nele a realizar obras
ainda maiores” no próprio ministério do que havia
maiores até do que as maiores que ele realizou dentro
realizado previamente, obras que já incluíam a trans­
dos limites de sua existência terrena.
formação de água em vinho, a cura do filho de um
Uma pergunta ainda pode permanecer: como
oficial com o simples pronunciamento de uma palavra
isso acontece, já que Jesus está no céu (com o Pai) e
e a cura de um homem aleijado por muito tempo, já
os crentes estão sobre a terra? A resposta encontra-se
desenganado. “Obras maiores” se seguiriam! Entre
em palavras posteriores de Jesus em João 14.16,17, a
essas obras maiores que ocorreram após isso estão a
saber, que do céu viria o Espírito Santo para tornar
distribuição de pão para 5 mil pessoas (Jo 6 ), a cura
tudo isso possível: “Eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará
de um homem que nasceu cego (Jo 9) e, o ponto alto,
a ressurreição de Lázaro (Jo 11).
Em João 14.12 Jesus disse duas coisas muito extraor­ 73 De acordo com o evangelho de Mateus, o Senhor ressuscita­
do e ascendido (i.e., que retornou ao Pai) diz: “Foi-me dada
dinárias. Primeiro, quem crê nele fará também as obras
toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam
(i.e., os milagres) que ele realizou. Isso evidentemente
discípulos de todas as nações” (28.18,19). Todo esse poder
e essa autoridade dados no fecho do ministério terreno de
72 Os dois primeiros “sinais” são milagres (v. a discussão an­ Jesus reinariam nos anos seguintes no ministério dos que
terior). testemunham em seu favor.

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outro Conselheiro 74 para estar com vocês para sempre, vemos nada de especial que façam além do que os ou­
o Espírito da verdade. [...] ele vive com vocês e estará tros fazem, especialmente porque o dia dos milagres
em vocês”. Mas isso não ocorreria antes de Jesus ir ao passou ’ (grifos nossos ) .75 A ideia de Lutero, porém,
Pai, pois como disse mais tarde: “Se eu não for, o Con­ era que, embora os milagres feitos por Jesus já não
selheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o en­ ocorram, temos algo espiritualmente muito mais sig­
viarei” (16.7). Assim, quando o Espírito da verdade, o nificativo. Depois de falar sobre os “grandes milagres
Espírito Santo, o Ajudador, viesse do céu, seria feita a diante de Deus, tais como ressuscitar mortos, expulsar
ligação entre o céu e a terra, e os crentes realizariam demônios, fazer os cegos verem, os surdos ouvirem,
obras maiores do que as realizadas por Cristo quando os leprosos serem limpos, os mudos falarem”, Lutero
ele estava sobre a terra! acrescentou: “Embora essas coisas talvez não ocorram
Em suma, os milagres não só continuam após o de modo físico, ainda ocorrem espiritualmente na
ministério terreno de Jesus, como serão ainda maio­ alma, onde os milagres são ainda maiores. Cristo diz,
res. E serão realizados não só por apóstolos, profetas e em João XVI: Aquele que crê em mim fará também
pessoas desse nível, mas também por outros que cre­ as obras que eu faço e outras maiores fara ”.7Í1 Esses
em nele. Isso está bem de acordo com Marcos 16.17 (já milagres espirituais ocorrem por meio do testemunho
citado) que começa assim: “Estes sinais [i.e., milagres] do fiel em favor do evangelho pelo qual a Palavra en­
acompanharão os que crerem: em meu nome expul­ tra na pessoa e gera nova vida. Lutero ainda fez uso da
sarão demônios; falarão novas línguas [...]”. Os que palavra “milagres”, mas afastou dela, claramente, toda
crerem farão — pelo Espírito Santo, o Ajudador — as referência física: tais milagres pertencem ao “passado”.
obras terrenas de Cristo e até mais, durante toda a era Lutero salientou ainda com grande ênfase que o
da proclamação do evangelho. meio de vitória contra Satanás não era o poder e a força
miraculosa, mas o sofrimento e a morte. Num parágra­
fo significativo sobre a oração de Jesus no Getsêmani,
EXCURSO: SOBRE A CESSAÇÃO Lutero escreveu: “Que fiquem no passado, porque o Pai
DOS MILAGRES deseja que o Diabo seja derrotado e enfraquecido, não
pela força e pelo poder e por milagres magníficos, como
Um aspecto intrigante em muitos círculos protes­
aconteceu até agora por meu intermédio, mas pela obe­
tantes é a ideia de que os milagres cessaram com o fim
diência e humildade na máxima fraqueza, pela cruz e
do período do NT. Nenhum milagre verdadeiro ocor­
pela morte, por minha submissão a ele e pela renúncia
reu desde então — nem se deve esperar que ocorra.
ao meu direito e poder” 77 (grifos nossos). A implicação
Essa ideia remonta aos líderes da Reforma, no sécu­
é que até mesmo como Jesus, para derrotar Satanás,
lo XVI, Martinho Lutero e João Calvino. Vamos começar
passou dos milagres para o caminho da cruz, assim
ali e analisar brevemente o ponto de vista de cada um.
também devemos, como crentes, renunciar a qualquer
Lutero, ao comentar sobre as obras que Jesus pro­
pensamento de poder miraculoso e percorrer o cami­
meteu que seus discípulos realizariam, disse: “Não
nho da fraqueza: do sofrimento e da morte.
Mais uma palavra sobre Lutero: ele também sus­
4 A palavra vem do grego paraklêton. É traduzida por “Con­
tentava que, nos primeiros estágios do cristianismo,
solador” na AEC, ARA e ARC, por “Conselheiro” na NIV.
“Ajudador” é a tradução preferida em BAGD (“paraklêtos =
Ajudador no quarto evangelho”). Behm escreve: “Paraklêtos 75 Luther’s Works, v. 24, p. 79.
(Paracleto) parece o sentido amplo e geral de ajudador’ ” 6 Works of Martin Luther, v. 4, p. 146.
(TDNT,v.5,p. 804). 7 LutheUs Works, v. 24, p. 192.

136
M ila g re s

Deus fez que milagres visíveis ocorressem para pro­ Mais adiante, nas Institutas, Calvino discute a
mover a fé no evangelho, mas, quando isso já não era imposição de mãos pelos apóstolos e escreve: “Esses
necessário, ele simplesmente os removeu. Com essa poderes miraculosos e obras manifestas, dispensadas
remoção, toda a ênfase, dali para a frente, poderia ser pela imposição de mãos, cessaram; e perduraram de­
dada aos milagres invisíveis muito maiores gerados vidamente só por um tempo, pois era adequado que a
pela pregação do evangelho e a administração dos sa­ nova pregação do evangelho e o novo Reino de Cristo
cramentos. Deve-se acrescentar: até hoje a ênfase lute­ fosse iluminado e engrandecido por milagres inéditos
rana rejeita de modo geral qualquer atividade miraculo­ e extraordinários. Quando o Senhor parou de realizá-
sa diferente da que ocorra por intermédio da palavra e -los, ele não abandonou totalmente sua igreja, mas de­
dos sacramentos. clarou que a magnificência de seu Reino e a dignidade
João Calvino — para quem nos voltamos agora — de sua palavra haviam sido desvendadas com excelên­
viu-se logo atacado pela Igreja católica romana como cia suficiente” 82 (grifos nossos). A posição de Calvino
produtor de uma nova doutrina e, por conseguinte, aqui é clara: os milagres ocorreram nos tempos no NT
desafiado a produzir um milagre para confirmar seus para adornar o evangelho — para iluminá-lo e enalte­
ensinos .78 Em seu prefácio às Institutas da religião cê-lo: assim, quando terminou o aquele primeiro perío­
cristã, Calvino responde: “Ao exigir de nós milagres, do, o Senhor não mais realizou milagres. Os milagres
eles agem de maneira desonesta: pois não cunhamos “perduraram devidamente” só durante as primeiras
um novo evangelho, mas mantemos aquela única ver­ proclamações.
dade confirmada por todos os milagres que Cristo e É bem interessante que Calvino em seu comentário
os apóstolos já realizaram ” 79 A ênfase de Calvino era de Atos83 relacione os milagres com o recebimento do
que, uma vez que seu evangelho não era nada novo, dom do Espírito Santo e depois acrescente que, ainda
mas, de fato, simplesmente o do NT, a única confirma­ que possamos receber o dom hoje, este é “para um me­
ção necessária já fora dada muito antes, a saber, por lhor uso”. Ao discutir Atos 2.38 — “recebereis o dom
meio dos milagres de Cristo e seus apóstolos. Calvino do Espírito Santo” — , Calvino menciona primeiro “a
acrescentou pouco depois: “Nós [...] não carecemos diversidade de línguas” que ocorria quando o dom era
de milagres, milagres verdadeiros, que não podem recebido. Depois acrescentou: “Isso não diz respeito
ser contestados; mas aqueles a que nossos opositores propriamente a nós, pois, como Cristo desejava esta­
recorrem são meras fraudes de Satanás, uma vez que belecer o início de seu Reino com aqueles milagres,
desviam as pessoas do verdadeiro culto a Deus para a eles só duraram um tempo”. Entretanto, a promessa do
vaidade”.80 Para Calvino, esses “milagres verdadeiros”
dom do Espírito “em algum sentido pertence à igreja
são encontrados no NT.81
toda” (grifos nossos). Segue-se esta importante decla­
ração: “Embora não o recebamos [o dom do Espírito],
78 A igreja católica romana, tanto na época como agora, sustenta o poder falar em línguas, o poder curar enfermos, o
que os milagres, entre outras coisas, significam “confirmação
poder realizar milagres; ainda nos é concedido, para
da verdade da revelação cristã e da religião católica” (New
Catholic Encyclopedia, p. 9).
79 Seção 3 (trad. Beveridge). de Calvino nos milagres como ensino original de Cristo e
80 Ibid. seus apóstolos. Ainda — eu acrescentaria — permanece al­
81 A declaração de Calvino, agora citada, poderia ser interpre­ guma ambiguidade nas palavras de Calvino.
tada como se ele próprio tivesse experimentado milagres 82 Institutas, 4, 19, 6 (trad. Battles).
(milagres “verdadeiros” contra as “fraudes” católicas roma­ 83 Commentary upon the Acts of the Aposties, v. 1, p. 121
nas). Entretanto, isso parece bem improvável à luz da ênfase (trad. Beveridge).

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T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

um uso melhor, o poder crer no coração para a justiça, concluir que não foram igualmente comuns em to­
nossa língua poder ser moldada à verdadeira confissão das as eras”. Aqui mais uma ideia — complementar
(Rm 10.10), passarmos da morte para a vida (Jo 5.24) — foi acrescentada, a saber, que os milagres podem
[...]”. Bem notável é a diferenciação que Calvino faz en­ ter continuado por um tempo depois dos primórdios
tre o próprio e o melhor: o “próprio” ligado a milagres, do evangelho, mesmo em eras posteriores, mas que
profecias, cura e milagres; o “melhor”, à salvação! Em raramente ocorriam.
todo caso, Calvino parecia entender que os milagres Recapitulando: a posição de Calvino sobre m ila­
haviam cessado muito tempo antes. De novo, é eviden­ gres é bem complexa. Primeiro: é evidente que, ba­
te que o cessar dos milagres era ato do Senhor: “Cristo sicamente, ele considerava que os milagres haviam
desejava estabelecer o início de seu Reino”. cessado e isso porque eles haviam ocorrido para
Há, porém, outra passagem no comentário de Cal­ iluminar e exaltar os primórdios da proclamação do
vino, a saber, Marcos 16.17,84 que começa assim: “Estes evangelho. Esse cessar dos milagres é de total res­
sinais hão de acompanhar aqueles que creem”, em que ponsabilidade divina: não tem relação alguma com
Calvino injeta uma nota de probabilidade. Ele acaba nenhuma falta ou falha humana. Segundo: os m i­
de escrever acerca do “poder divino de Cristo” como lagres relacionados com o dom do Espírito Santo já
um dom aos crentes; então acrescenta: “Embora Cristo não ocorrem porque o Espírito Santo é agora dado
não declare expressamente se pretende que o dom seja com propósitos de salvação. Terceiro: há a insinuação
temporário ou permaneça perpetuamente na igreja, é de que o cessar dos milagres possa ter resultado de
mais provável que os milagres tenham sido prometi­ algum fator humano, por culpa da ingratidão huma­
dos só por um tempo, para dar brilho ao evangelho,
na .85 Quarto: se os milagres de fato continuaram além
enquanto fosse novo, em estado de obscuridade” (gri-
da proclamação original do evangelho, acabaram não
fos nossos). A questão de dar “brilho ao evangelho” é
muito depois ou têm ocorrido só raramente desde
semelhante ao que já observamos, exceto por Calvino
então. Pode-se logo ver que Calvino não possuía uma
não falar aqui com o mesmo tom de garantia e irre-
opinião rígida acerca dos milagres. Embora susten­
versibilidade. Então Calvino acrescenta de imediato
tasse basicamente que tinham cessado, havia alguma
uma nova possibilidade: “É possível, sem dúvida, que
dúvida quanto ao motivo disso e até a ideia de que os
o mundo tenha sido privado dessa honra por culpa
milagres talvez não tivessem cessado por completo.
de sua própria ingratidão”. Se esse for o caso, então o
Vamos nos voltar agora para John Wesley, no sé­
cessar dos milagres não era ato de Deus pelo fato de
culo XVIII. Como Lutero e Calvino, Wesley falava dos
o evangelho ter recebido brilho suficiente, mas porque
surge o fator humano da “culpa” da “ingratidão” hu­
85 Não fica claro o que Calvino entendia por culpa e ingratidão
mana. Calvino, porém, acrescenta: “Mas penso que o
humana. Uma possibilidade pode ser encontrada no comen­
verdadeiro motivo pelo qual os milagres foram desta­ tário dele sobre Atos 10.46, sobre as línguas. Ali ele fala de
cados foi que nada que fosse necessário para provar o línguas sendo dadas como “um ornamento e culto ao evan­
evangelho devia faltar em seu início”. Depois, a pala­ gelho”. Isso, conforme observamos, era o que Calvino disse
vra de conclusão: “Certamente vemos que o uso deles sobre milagres em geral. Depois Calvino acrescenta: “Mas
a ambição mais tarde corrompeu esse [...] uso, pois desde
[milagres] cessou não muito depois, ou pelo menos
que muitos traduziram em pompa e vangloria o que haviam
que a ocorrência deles era tão rara, que nos permite
recebido para estabelecer a dignidade da sabedoria humana
[...]. Assim, não maravilha que Deus o tenha retomado logo
84 Commentary on a Harmony of the Evangelists, depois de o ter dado, não tolerando que fosse corrompido
Matthew, Mark and Luke, v. 3, p, 389 (trad. Beveridge). mais tempo pelo abuso”.

138
M ila g re s

milagres como se tivessem cessado. Entretanto, essa alguma época da igreja deu espaço para sua convicção
interrupção não ocorreu nos tempos do NT, mas quan­ da contemporaneidade dos milagres.
do o Império Romano se tornou oficialmente cristão. No início do século XX, a pessoa mais poderosa
Então, disse Wesley: “Uma corrupção geral tanto da fé — e em muitos sentidos, a mais influente — a afir­
como da moral infectou a igreja ’ 86 Essa corrupção in­ mar o cessar dos milagres foi Benjamin B. Warfield,
cluía o desaparecimento dos milagres. É evidente que teólogo de Princeton. Em 1918, foi publicado o livro
Wesley não via o cessar dos milagres de modo positivo: de Warfield, Counterfeit Miracles [Falsos milagres]
“corrupção geral” era a causa. (mais tarde reimpresso como Miracles Yesterday and
Wesley instava fortemente em que o cessar dos m i­ Today; True and False). O primeiro capítulo, intitula­
lagres não era, de modo algum, ato da soberania de do “O cessar dos charismata \declarava um tema bá­
Deus e, portanto, não precisava ser permanente. Ele sico acerca dos milagres, a saber, que eles ocorreram
escreveu: “Não sei que Deus tenha de algum modo se como autenticação dos apóstolos; assim, quando ter­
impedido disso, exercendo seu poder soberano, de rea­ minou o período apostólico, os milagres necessaria­
lizar milagres de qualquer tipo ou grau, em qualquer mente também cessaram. Warfield escreve: “A igreja
época, até o fim do mundo. Não me lembro de nenhu­ apostólica era caracteristicamente uma igreja que rea­
ma passagem em que somos ensinados que os milagres lizava milagres”.89 Então Warfield acrescenta: “Eles90
devem ser confinados aos limites ou da era apostólica faziam parte das credenciais dos apóstolos como
ou cipriana; ou a qualquer período posterior, mais agentes autorizados de Deus na fundação da igreja.
longo ou curto, ou mesmo até a restituição de todas as A função deles, portanto, os confinava, de maneira
coisas. Não observei, nem no Antigo Testamento nem distinta, à igreja apostólica e necessariamente desa­
no Novo, indicação nenhuma desse tipo”.87 Trata-se de pareceram com eía”9i (grifos nossos). De acordo com
uma declaração significativa que obviamente vai além Warfield, essa é uma questão “de princípio e de fato;
do ponto de vista de Lutero e de Calvino. o que significa dizer, sob a direção do ensino do Novo
Além disso, Wesley testificou de milagres em suas Testamento quanto à origem e natureza deles e pelo
próprias experiências. “Reconheço”, escreveu, “que te­ crédito das épocas posteriores à sua interrupção”.92
nho visto com meus olhos e ouvido com meus ouvi­ Vamos notar, primeiro, a questão do “princípio”. A
dos várias coisas que, no meu melhor julgamento, não função dos milagres, para Warfield, era a autenticação
podem ser atribuídas ao curso das causas naturais e dos apóstolos, “para autenticar os apóstolos como os
que, portanto, creio, devem ser atribuídas à interpo- fundadores autorizados da igreja”.93 Os milagres, con­
sição extraordinária de Deus’. Se algum homem pode forme já se declarou, eram “credenciais” apostólicas.
escolher chamá-las ‘milagres’ não reclamo”.88 Essa De novo, “os dons extraordinários pertenciam ao
declaração dá a entender que, apesar de Wesley falar ofício extraordinário”.94 Além dos próprios apóstolos,
dos milagres como algo que cessou quando da cristia-
nização formal do Império Romano, não relutava em 89 Counterfeit Miracles, p. 5. Numa nota de rodapé, Warfield
aceitar o nome “milagres” para o que havia visto e ou­ menciona, entre outras coisas, línguas, profecias, curas e res­
surreição de mortos.
vido em seu ministério. A opinião de Wesley de que
90 Referindo-se aos “dons” (ch a rism a ta ) — termo que Warfield
as Escrituras de modo algum confinam os milagres a
usava de forma indistinta com milagres.
91 Wa r f i e l d . Counterfeit Miracles, p. 6.
86 Works, v. 5, p. 706. 92 Ibid.

87 Ibid., p. 328. 93 Ibid., p. 23.

88 Ibid., p. 324-325. 94 Ibid.

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outros a quem ministraram diretamente dos dons pós-apostólica [...]. Os escritos dos chamados pais
conseguiam operar neles. Nesse sentido, Warfield apostólicos não contêm nenhuma alusão clara e certa
cita favoravelmente certo bispo Kaye: “Minha conclu­ à realização de milagres ou ao exercício dos dons ca­
são então é que o poder de realizar milagres não foi rismáticos contemporâneos a si próprios”. 101 Warfield
estendido além dos discípulos a quem os apóstolos o referia-se aqui aos anos entre cerca de 100 e 150 (a
conferiram pela imposição de mãos”9" Assim, eram só época dos pais “pós-apostólicos” ou a época dos “pais
os apóstolos ou “homens apostolicamente treinados ” 96 apostólicos”), imediatamente posteriores ao período
que, em princípio, podiam realizar milagres. Depois apostólico do século I.
que esses homens saíram de cena, já não podia haver Em seguida, Warfield declara que em 155 (meados
milagres. Os milagres “cessaram inteiramente com a do século II), os milagres eram aclamados: “Já naquela
morte do último indivíduo sobre quem as mãos dos data nos encontramos com o início de afirmações gerais
apóstolos haviam sido colocadas”.97 da presença de poderes miraculosos na igreja”.102 Nesse
Com respeito ao “princípio”, Warfield também sentido, Warfield faz referência aos escritos de Justino
sustentava que os milagres já não podiam continuar Mártir (c. 100-165), que “diz em termos gerais que es­
depois do período apostólico por causa da relação dos ses poderes subsistiam na igreja”.103 Esse testemunho de
milagres com a revelação especial. Na realidade, esse Justino, diz Warfield, era confirmado por Ireneu (que

é um “princípio mais profundo”, a saber, “a relação viveu entre c. 130 e 200), “exceto que Ireneu fala um

indissolúvel entre os milagres e a revelação, como sua tanto mais explicitamente e acrescenta uma menção de

marca e credencial”.98 De novo, “a manifestação abun­ duas novas classes de milagres — as de falar em línguas

dante deles [os milagres] na igreja apostólica é a marca e de ressuscitar mortos”. 104 Entretanto, diz Warfield,

da riqueza da era apostólica na revelação; e, quando Ireneu “fala de modo totalmente genérico, sem men­

terminou esse período de revelação, naturalmente o cionar casos específicos, mas atribuindo realizações de

período de operações miraculosas também passou ”.99 milagres a ‘todos que são verdadeiramente discípulos de

Em suma, “não se pode esperar que a obra miraculosa, Jesus’ ”.105 Os milagres, depois disso, são relatados em

que não passa de um sinal do poder revelador de Deus, “uma corrente cada vez maior” até o século IV, mas sem

continue depois de a revelação, da qual é complemen­


to, ter sido completada”. 100 101 Warfield . Counterfeit Miracles, p. 10.
Ibid., p. II. 102
Podemos observar em seguida a questão do “fato”.
103 Essa é outra citação do bispo Kaye, mencionada por Warfield
Warfield também alegava que, na realidade histórica,
de modo positivo.
os milagres não continuaram após o período apostó­ 104 Warfield . Counterfeit Miracles, p. 11.
lico. Ele afirmou que alegações de continuidade dos 108 Ireneu escreveu o seguinte acerca dos “verdadeiros discípu­

milagres no período pós-apostólico são inválidas: “Há los” de Cristo: “Alguns certa e verdadeiramente expulsam
demônios, de modo que aqueles que foram purificados de es­
pouca ou nenhuma evidência de realização de mila­
píritos malignos com frequência tanto creem como juntam-se
gres durante os primeiros cinquenta anos da igreja39
à igreja. Outros têm presciência das coisas por vir: têm visões
e pronunciam expressões proféticas. Outros, ainda, curam en­
93 Warfield . Counterfeit Miracles. fermos impondo as mãos sobre eles, e eles são restaurados.
% Ibid., p. 25. Sim, além disso [...] mortos foram ressuscitados e permane­
97 Ibid., p. 24. ceram entre nós muitos anos. E que mais devo dizer? Não é
98 Ibid. possível nomear a quantidade dos dons que a igreja em todo
99 Ibid., p. 26. o mundo recebeu de Deus” (Contra heresias, livro II, 32.4).
10,1 Ibid., p. 26-27. Warfield não cita essas palavras.

140
M ila g re s

que Justino ou qualquer outro escritor “tenha alegado Isso, devo replicar, é um quadro bem confuso. Se os
haver ele mesmo realizado um milagre de algum tipo milagres eram credenciais apostólicas, então só os após­
ou atribuído realização de milagres por parte de algum tolos poderiam ter realizado milagres, mais ninguém
nome conhecido na igreja”.106 Assim, ainda que houvesse em torno deles ou depois. Warfield, creio, foi forçado a
milagres relatados desde meados do século II (155) até o estender o círculo dos operadores de milagres um pas­
início do século IV (c. 300), generalidades, declara War- so além dos apóstolos porque o NT mostra indiscuti­
field, marcavam todos eles. velmente homens como Estêvão e Filipe (que não eram
De acordo com Warfield, foi no século IV que co­ apóstolos) realizando milagres. Há, claro, a esfera ain­
meçaram a abundar testemunhos de milagres. Esses
da maior de milagres, m encionados como algo que
testemunhos, entretanto, disse ele, não se referiam
ocorria nas igrejas de Corinto (IC o 12.10) e da Galácia
realmente a milagres, mas a maravilhas. Ele declara:
(G1 3.5) — e necessariamente realizados (de acordo
“Quando passamos da literatura dos primeiros três
com argumento de Warfield) por pessoas sobre quem
para as do século IV e séculos seguintes, nós [...] en­
Paulo havia imposto as mãos. Mas isso decerto é uma
tramos em contato com um corpo de escritos simples­
pressuposição gratuita; não há evidências bíblicas para
mente saturados de maravilhas”. 107 “Essas maravilhas,
sustentar esse ponto de vista.
bem diferentes em caráter dos verdadeiros milagres
Agora a questão é: se Warfield desejava estender a
bíblicos” diz Warfield mais adiante, “representam uma
realização de milagres aos que foram ministrados pelos
infusão de modos de pensar pagãos na igreja”. 108 Aliás,
apóstolos, por que parou ali? Por que não incluir uma
de uma longa perspectiva da história da igreja desde
então, vemos que “a grande corrente de operação de geração após outra? Na realidade, a posição de Warfield

milagres que segue pela história da igreja não era ori­ teria sido mais forte se pudesse ter mantido um qua­

ginal para a igreja, tendo penetrado de fora”.109 A partir dro consistente de milagres somente como credenciais

do século IV, Warfield conclui, alegações de milagres apostólicas. Uma vez que não foi capaz de fazê-lo bibli-
de qualquer tipo são inseparáveis da superstição pagã. camente, mas abriu a porta aos não apostólicos, não há
Agora vamos refletir sobre a opinião de Warfield nada que impeça a continuação dos milagres.110
com relação aos milagres em termos — usando sua Segundo, com relação ao “princípio mais profun­
linguagem — tanto de “princípio” como de “fato”. do” de Warfield — da inseparabilidade entre os m i­
Lembre-se de que na questão do “princípio” Warfield lagres e a revelação especial — , de novo, ele não tem
fala primeiro dos milagres como credenciais e auten­
ticações apostólicas — “Os dons extraordinários per­ 1U) Charles H o d g e , antigo teólogo de Princeton, escreveu em
tenciam ao ofício extraordinário”. Assim, os apóstolos sua Systematic Theology: “Não há no Novo Testamento
realizaram milagres como certificação do próprio nada incongruente com a ocorrência de milagres na era pós-
ofício. Também as pessoas sobre as quais os apósto­ -apostólica da igreja [...]. Quando os apóstolos terminaram
seu trabalho, a necessidade de milagres, quanto ao grande fim
los impunham as mãos podiam realizar milagres, mas
que visavam a alcançar, cessou. Isso, entretanto, não im p ed e a
ninguém, em princípio, pôde realizá-los depois deles.
possibilidade d e sua ocorrência, em ocasiões cabíveis, em outras
eras.É mera questão de fato a ser decidida por evidências his­
Counterfeit Miracles, p. 12. De passagem,
106 Wa r f i e l d . tóricas” (v. 3, p. 452; grifos nossos). Hodge, por conseguinte,
Warfield menciona Tertuliano, Orígenes e Cipriano (pais da em princípio não desconsidera os milagres (como Warfield).
Igreja do século III). Com certeza, a necessidade de milagres atestando o “grande
,u: Ibid., p. 37. fim” original (i.e., a proclamação original dos milagres) ces­
108 Ibid., p. 61. sou; mas isso, de acordo com Hodge, em princípio não des­
104 Ibid., p. 74. carta a possibilidade de milagres futuros.

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uma justificativa bíblica adequada. Dizer que, quando acrescentaria — o período de c. 100-150 foi de intensi­
a revelação especial (i.e., o relato do NT) cessou, os dade espiritual muito reduzida em relação aos tempos
milagres necessariamente cessaram porque eram sua do NT, 113 de modo que se esperaria menos referências a
“marca e credenciar’ é uma declaração totalmente in­ milagres e outros dons espirituais. De qualquer modo,
fundada. Qual a relação, por exemplo, entre a realiza­ a opinião de Warfield com respeito à igreja pós-apos­
ção de milagres dentro da igreja de Corinto — “[...] a tólica carece de substanciação.
outro, poder para operar milagres” (ICo 12.10) — e Aliás, a posição de Warfield é ainda mais enfraque­
a revelação especial? Além disso, se as palavras atri­ cida pelo que ele mesmo diz acerca do período que co­
buídas a Jesus em Marcos 16.17,18 e João 14.12 sobre meçou em tom o de 155. Uma vez que ele admitiu que
milagres futuros forem levadas a sério, quais as rela­ duas personagens tão eminentes da igreja primitiva
ções possíveis que esses milagres futuros teriam com como Justino Mártir e Ireneu falaram de modo afirma­
a autenticação da revelação precedente? Há — e isso tivo nos dias deles, isso dificilmente fornece credencial
Warfield parece jamais ter reconhecido — uma rela­ para sua tese de que os milagres cessaram. No m íni­
ção indubitável entre a proclamação do evangelho em mo, as palavras contundentes de Ireneu não podem

qualquer tempo na História e os milagres. Entretanto, os ser descartadas facilmente. Como Warfield poderia

milagres — sinais e milagres de muitos tipos — não são recusar tal testemunho — e o de líderes posteriores

a autenticação da revelação especial mas da verdadeira da igreja? A declaração de Warfield de que tais relatos

pregação do evangelho em qualquer tempo na História. miraculosos eram meras generalidades é decerto um

Voltando-nos agora para opinião de Warfield acerca sinal de fraqueza em sua posição. Além disso, uma vez

do “fato”, a saber, que a História demonstra o cessar dos que não foi antes do século IV, de acordo com War­

milagres, considero mais uma vez fraca sua posição. Sua field, que as intrusões pagãs de maravilhas, portanto
milagres espúrios, entraram, qual a importância das
declaração, em referência aos primeiros cinquenta anos
alegações de milagres antes desse tempo? Warfield de
da igreja pós-apostólica, de que há “poucos indícios” e
modo algum dá a entender que os pais da igreja antes
“nenhuma alusão clara e certa” à realização de milagres
do século IV só estavam testificando intrusões pagãs
naquele período dificilmente indicaria evidências ne­
de maravilhas. Justino, Ireneu e outros estavam mal
gativas firmes !111 Na realidade — em réplica a Warfield
informados ou mentiam — ou o quê?
— , há algumas evidências.112 Mas, mesmo que não hou­
Para concluir, Warfield de modo algum fornece
vesse nenhuma referência a milagres em escritos pós-
prova adequada à tese de que os milagres cessaram
-apostólicos, isso dificilmente provaria que Deus tivesse
com o período apostólico. Nem em princípio nem em
removido soberanamente os milagres porque o período
fato o NT e a história da igreja primitiva ratificam a
apostólico teria terminado. Em muitos sentidos — eu
tese de Warfield.
Vamos agora observar brevemente a opinião de
111 E mais: Warfield salta para “ausência completa” (ibid., p. 12);
Warfield a respeito dos milagres no protestantismo.
entretanto, essa declaração ultrapassa suas palavras anterio­
res, mais hesitantes.
112 Por exemplo, Inácio, em sua Epístola aos esmirniotas 113 H. B. Swete , The Holy Spirit in the Ancient Church,
(antes de 117), escreve em seu prefácio: “Pela misericór­ começa seu prólogo da seguinte maneira: “Quando o estu­
dia de Deus recebestes todos os dons; abundais em fé, e dante da literatura cristã primitiva passa do Novo Testa­
em amor, e não vos falta nenhum dom” (LCC, v. 1, p. 112). mento para os escritores pós-canônicos, ganha consciência
Essas palavras, semelhantes às de Paulo em ICoríntios 1.7, de uma perda de poder tanto literário como espiritual [...].
sem dúvida incluíam referência ao dom de realizar milagres Os gigantes espirituais da era apostólica são sucedidos por
(como as palavras de Paulo; v. ICo 12.10,28,29). homens de menor estatura e capacidade mais limitada”.

142
M ila g re s

Depois de discutir em certa profundidade as afirma­ negar o verdadeiro ensino da Escritura, a presença do
ções católicas romanas de milagres (consideradas por Deus vivo e o poder do evangelho de ser uma testemu­
ele a apoteose da superstição pagã), Warfield passa para nha de Cristo em palavra e atos.
uma discussão das afirmações protestantes de milagres. Warfield era muito mais restritivo quanto aos m i­
Warfield começa sua apresentação citando favoravel­ lagres que seu grande antepassado reformado, João
mente as seguintes palavras: “A história do protestan­ Calvino. Para começar, Calvino jam ais falou de mila­
tismo é um repúdio uniforme de qualquer promessa gres como credenciais apostólicas que necessaria­
nas Escrituras de que os poderes miraculosos deviam mente passaram com a morte dos apóstolos e daqueles
continuar na igreja”11415Essa tese do “repúdio universal” a quem eles ministraram. Conforme vimos, Calvino
porém, caiu em dificuldades quando Warfield de ime­ via mais os milagres como adornos soberanos que
diato passou à consideração de John Wesley que “não já não eram necessários depois da proclamação ini­
admitiría que houvesse alguma base escriturai para cial do evangelho. Assim, qualquer pessoa — não
supor que os milagres haviam cessado”.113 O que fazer só o grupo apostólico — que de início proclamou o
então com o protestante Wesley? Foi o “entusiasmo” de evangelho poderia ter sido o canal para a ocorrência
Wesley, alegou Warfield, que o fez abraçar os milagres de um milagre. De novo, Calvino era muito menos
e outros carismas: “A tais aparentes níveis é possível ser rígido que Warfield em vários sentidos. Para com e­
carregado pelo mero entusiasmo de fé”.116 çar, Calvino fala mais em termos de probabilidade:
O interesse principal de Warfield, depois de Wesley, “É mais provável que os milagres tenham sido pro­
foi demonstrar que as alegações protestantes de realiza­ metidos só por um tempo”. De novo, Calvino insinua
ção de milagres devem-se em grande parte à excitação a possibilidade de os milagres terem cessado não por­
religiosa,117 chegando até a histeria,118 e que o delírio119 que a pregação do evangelho já não precisava de seu
colocava-se na base de muitas de tais experiências. Uma brilho, mas por alguma falha por parte dos homens
das declarações sumárias de Warfield é especialmente (a “culpa” da “ingratidão”). Isso sugere indiretamente
reveladora. Ele falou de novo do “fato de que os dons que, com uma atitude humana adequada, os milagres
miraculosos no Novo Testamento eram as credenciais poderiam ocorrer novamente .121 Por fim, Calvino não
do apóstolo, sendo confinadas àqueles a quem os após­ exclui totalmente a possibilidade de milagres depois
tolos os haviam confiado”; então Warfield acrescenta de do período apostólico, mas declara que os milagres
imediato — “Daí levanta-se uma pressuposição contra a “não seriam igualmente comuns em todas as épocas”.
continuação deles após a era apostólica”.120 Infelizmente, Baseados na concepção de Calvino de que os m ila­
até tragicamente, o “fato” de Warfield, um tanto infac- gres originariamente amplificavam o evangelho e
tual levou a uma pressuposição que coloriu todo o seu que poderiam ocorrer mais tarde, parecería possível
raciocínio dali em diante. O que ele conseguiu fazer foi concluir que Deus, mesmo em nossos dias, poderia
voltar a adornar o evangelho com sinais miraculosos.
114 Sw ete . The Holy Spirit in the Ancient Church, p. 127. Não é bem provável que com a pregação poderosa do
Uma citação de Edinburgh Review, v. 53, p. 302. evangelho do NT Deus a certificaria novamente com
115 V. a discussão anterior acerca de Wesley com respeito aos
milagres de muitos tipos? Warfield só podia dizer
milagres.
não; Calvino, creio, seria aberto à possibilidade.
116 Sw ete . The Holy Spirit in the Ancient Church, p. 129.
117 Ibid. Os camisardos ou “profetas franceses”.

118 Ibid., p. 131. O irvingianismo do início do século XIX. 121 No v. 2, demonstro com algum detalhamento como Calvino fala
119 Ibid., p. 195. Várias práticas de “cura pela fé”. de nosso fracasso em não ter té suficiente como possível base
120 Ibid., p. 193-194. para os dons espirituais não estarem presentes e operantes.

143
T e o lo g ia s is te m á tic a : u m a p e rs p e c tiv a p e n te c o s ta l

Posso ter dedicado mais espaço a Counterfeit hodiernos são considerados falsos, quem os falsifi­
Miracles de Warfield do que o livro de fato merece. ca? A resposta mais rápida é que são obras de falsos
Entretanto, considerei importante fazê-lo em vista de profetas (como, por exemplo, retratadas em Marcos
sua contínua influência em boa parte do pensamento 13.22 — “Aparecerão falsos cristos e falsos profetas
evangélico .122 A posição de Warfield com relação aos que realizarão sinais e maravilhas para, se possível,
milagres é também empregada com frequência em enganar os eleitos”) que operam à maneira do futu­
oposição à renovação carismática contemporânea .123 ro “iníquo” (cujo aparecimento “é segundo a eficácia
Talvez o que escreví acerca de Warfield aqui se mostre de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da
útil quando eu passar para uma discussão mais deta­ mentira” [2Ts 2.9, ARA]).l2i Assim, qualquer que seja
lhada dos milagres no volume 2 desta obra. o lugar ou o tempo em que seja relatado um milagre,
Três observações finais sobre milagres. Primei­ deve estar em ação o demoníaco. Respondendo: sem
ra: fico admirado com os esforços de muitos cristãos dúvida, Satanás está sempre pronto para manifestar
evangélicos para defender os milagres registrados na “sinais e maravilhas” e enganar por meio de seus pró­
Bíblia enquanto, ao mesmo tempo, negam a continua­ prios pseudomilagres, mas isso de modo algum deve
ção deles na igreja. Será que essa própria negação não desconsiderar milagres verdadeiros da parte de Deus.
cai diretamente nas mãos daqueles que consideram os Há algo terrivelmente estranho quando Satanás pode
milagres bíblicos pouco mais que mitologia primitiva, realizar milagres hoje, mas o Deus onipotente não, de
exagero crédulo ou algo parecido? Se o Deus da Bíblia modo algum! Deus nos ajude: vamos esperar e orar
não realiza milagres hoje, será que de fato os realizou para que haja um melhor entendimento da obra de
no passado? De modo algum temos de concordar que Deus em nossa geração.
cada milagre aclamado venha de Deus, pois, sem dúvi­ Terceira: fico empolgado porque a renovação con­
da, tem havido multiformes defesas de falsos milagres. temporânea reafirma vigorosamente a validade dos
Mas essas alegações não devem, de modo algum, ex­
milagres para nossos dias. Essa renovação tem sido
cluir o real. (Será que o falso na verdade não implica
firme em reclamar o dinamismo do NT numa igreja
a existência do válido?) Não devemos permitir que a
em que Deus não só age de modo sobrenatural e, por­
Bíblia se torne um livro arcaico de atos grandiosos di­
tanto, com milagres, para gerar nova vida, mas tam ­
vinos de um passado remoto.
bém realiza milagres de muitos tipos. Participantes
Segunda: fico alarmado de haver alguns em nos­
dessa renovação estão convencidos de que, de acordo
sas igrejas que não hesitam em identificar os milagres
com Marcos 16.17 — “Estes sinais acompanharão os
hoje como “demoníacos”. Obviamente, se os milagres
que crerem” — , o testemunho de crentes verdadeiros
deve ser acompanhado de milagres. Aliás, os m ila­
122 James Oliver B u s w e l l , em A Systematic Theology of
gres são uma demonstração e confirmação visíveis
the Christian Religion, concluindo uma seção que ques­
da verdade da mensagem do evangelho. De novo, os
tiona a continuação dos milagres, declara: “Na opinião do
autor [Buswell], a melhor obra no campo é Counterfeit da renovação atestam com veemência, em harmonia
Miracles, de Benjamin B. Warfield” (p. 182). Anthony A. com ICoríntios 12.28 — “Na igreja, Deus estabele­
H o e k e m a , em seu livro Holy Spirit Baptism, delineia a ceu [...] os que realizam milagres”, que os milagres
posição de Warfield quanto aos milagres (p. 59-65) e ex­
continuam. Nunca se pretendeu que essa designa­
pressa plena concordância.
ção divina de realizar milagres ficasse só nos tempos
123 John F. MacArthur Jr ., em The Charismatics, em pontos
críticos ao discutir milagres, cita sem hesitar Warfield (v. p.
78 e 132) para defender suas posições anticarismáticas. 124 Literalmente “maravilhas de uma mentira”.

144
M ila g re s

apostólicos, mas também na igreja ao longo de toda Aquele que crê fará tanto as obras miraculosas de
a sua história. Assim, o cessar dos milagres jam ais Cristo como mais do que ele fez. Essa promessa sur­
é obra de Deus, antes representando um fracasso da preendente nos leva muito além de concepções nega­
parte do povo de Deus. Por fim, os que participam tivas em relação à continuação dos milagres, para um
da renovação dispõem-se a levar a sério as palavras campo inteiramente novo. Na realidade não se trata
de João 14.12: “Aquele que crê em mim fará também de questionar se os milagres acontecem, mas se co­
as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda m aio­ meçamos a ver acontecer o que Cristo deseja! Será
res do que estas, porque eu estou indo para o Pai”. que nossa fé ainda é muito pequena?

145
8
Anjos

Chegamos, por fim, na doutrina da providência a “santos”,4 “sentinelas ” 5 e “exércitos”, como na conheci­
uma consideração dos anjos. Os anjos são, por defini­ da expressão “o Se n h o r dos Exércitos”.6 Não é de modo
ção, mensageiros 1 e servem de várias maneiras, como nenhum invariavelmente evidente que fazem referên­
seres sobre-humanos, para cumprir os interesses pro­ cia aos anjos. Por exemplo, a palavra “exército” pode
videnciais de Deus em relação ao mundo e ao homem. ainda referir-se a exércitos sobre a terra 7 ou até a cor­
pos celestes .8 Entretanto, nos numerosos trechos em
I. A EXISTÊNCIA DE ANJOS que aparece a palavra “anjo”, não há nenhuma dúvida
de que se referem a um mensageiro celestial.
Os anjos são mencionados muitas vezes no AT e
A existência de anjos é reconhecida em toda a Es­
no NT.2 A primeira ocorrência encontra-se em Gê­
critura. Jesus afirmou inquestionavelmente a existência
nesis 16.7: “O Anjo do Se n h o r encontrou Hagar
deles em muitos de seus ensinos.9 As únicas pessoas, é
perto de uma fonte no deserto”; a última, em Apo­
interessante observar, que se diz negarem a existência de
calipse 22.16: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar
anjos eram os saduceus na época do NT: “Os saduceus
a vocês este testemunho concernente às igrejas”. Há
dizem que não há ressurreição nem anjos nem espíritos”
também no AT algumas expressões às vezes empre­
(At 23.8). Os saduceus, porém, representavam apenas
gadas para designar anjos, a saber, “filhos de Deus”,3
um grupo muito pequeno, em comparação com o tes­
temunho bíblico total. Os anjos eram em geral aceitos
1 A palavra “anjo” em grego é angelos. Pode ser referência a
como parte de todo o quadro da realidade.
um mensageiro humano, como em Marcos 1.2: “Enviarei à
tua frente o meu mensageiro [João Batista]; ele preparará
o teu caminho” (v. Mt 11.10; Lc 7.27); Lucas 7.24: “Depois Tendo em vista as palavras de Jesus de que os anjos não se
que os mensageiros de João foram embora [...]”; Lucas 9.52: casam (Mc 12.25), parece um tanto difícil que Gênesis 6.2
“[...] e enviou mensageiros à sua frente”; Tiago 2.25: “Raabe possa referir-se a anjos.
[...] acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho” 4 Ou “santo”. V. Deuteronômio 33.2; Jó 5.1; 15.15; Salmos

(ARA). Em todas elas, encontra-se alguma forma de ange­ 89.5,7; Daniel 4.13,17,23; 8.13; Zacarias 14.5.
los, representando um mensageiro humano. Entretanto, em * “Santo(s)” também chamados “sentinelas” encontrados em
todos os outros casos no NT angelos refere-se a um mensa­ Daniel 4.13,17,23.
geiro celestial. Naturalmente, é desses mensageiros celestiais 6 Uma expressão usada quase 300 vezes no AT.

que vamos tratar. Em alguns casos “o S e n h o r dos Exércitos” pode referir-se


2 No AT, a palavra hebraica que significa “anjo”, malak, ocorre ao senhorio de Deus sobre as hostes de Israel; entretanto, em
cerca de 114 vezes; angelos, no NT, cerca de 169 vezes. muitos casos, faz-se referência clara ao “exército celestial”,
3 Jó 1.6; 2.1; 38.7; Salmos 29.1; 89.6; v. Daniel 3.25. Nas pas­ ou seja, “o exército de anjos” (v., e.g., lRs 22.19; Lc 2.13).
sagens de Salmos, a NVI traz “seres celestiais”, com a leitura 8 Quanto a hostes de corpos celestes, v., e.g., Deuteronômio

marginal “filhos de Deus”. Os “filhos de Deus” referidos em 4.19: “[...] o sol, a lua, as estrelas, e todo o exército dos céus”
Gênesis 6.2, que se casam com as “filhas dos homens”, são (.AEC).
considerados anjos por muitos; entretanto, é mais provável 9 As referências são muitas para serem alistadas. Há mais de

que seja a linhagem piedosa de Sete (v. Gn 4.25,26) unida 20 nos Evangelhos. Vamos observar algumas delas mais tar­
por casamento com a linhagem ímpia de Caim (v. 4.1-24). de neste capítulo.

146
A n jo s

Às vezes se argumenta filosoficamente que a exis­ não se dispõem, de modo algum, a afirmar a exis­
tência de anjos é provável à luz da hierarquia da tência dos anjos. Os anjos são muitas vezes vistos no
existência. O homem está no ápice da existência ter­ máximo como expressões simbólicas da ação de Deus
rena como um ser racional; mas, uma vez que abaixo ou como retratos mitopoéticos de várias dimensões
dele há uma ampla gradação de formas inferiores de da existência humana . 13*
vida, parece provável que haja outras criaturas numa Numa era científica, diz-se às vezes, há pouco espa­
escala acima dele. Ou, dizendo de outra forma, uma ço (se é que existe) para seres angelicais.1'1 Para muitos
vez que há entidades puramente corpóreas (e.g., pe­ na igreja, embora os anjos possam ser cantados e até
dras) e seres que são tanto corpóreos como espirituais recitados em alguns dos credos, passou a haver um ce­
(homem), bem poderia haver seres inteiramente ticismo crescente a respeito de sua existência real. Em
espirituais 10 — anjos. Além disso, outro argumento: alguns casos, o questionamento acerca dos anjos não
uma vez que o homem, depois da morte e antes da brota tanto de uma atitude antissobrenatural, mas de
ressurreição de seu corpo, é um ser puramente espi­ uma questão de relevância. Será que a fé cristã precisa
ritual sem corpo , 11 parece pelo menos possível que de anjos? Não basta acreditar em Deus, sem aumen­
Deus tenha já criado seres espirituais sem corpo, a tar a superestrutura, acrescentando anjos? Com um
saber, anjos. Esses argumentos, porém, na realidade entendimento adequado de Deus e a própria presença
nada provam. É só pela revelação de Deus na Escritu­ dele, parece a muitos haver pouco espaço ou mesmo
ra que se encontra a verdade acerca dos anjos. Ainda anseio por mensageiros celestiais.
assim, os argumentos mencionados pelo menos indi­ Vamos nos aprofundar um pouco mais nisso. Mesmo
cam que a existência de anjos não é em princípio im ­ entre alguns que aceitam a existência