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NOTA RESEARCH NOTE 469

“Tava morta e revivi”: significado de maternidade


para adolescentes com experiência de vida nas
ruas

“I was dead, but came back to life”: the meaning


of motherhood for adolescent girls with a history
of living in the streets

Daniela T. Gontijo 1
Marcelo Medeiros 2

Abstract Introdução

1 Departamento de Terapia
The discovery of sexuality by adolescent girls No Brasil, muitas adolescentes provenientes de
Ocupacional, Universidade
Católica de Goiás, Goiânia, living in the streets generally involves lack of famílias marcadas pelo processo de exclusão
Brasil. knowledge about their own bodies, often result- social fazem das ruas seu espaço de sobrevivên-
2 Faculdade de Enfermagem,
ing in risk behaviors for sexually transmitted cia 1 e descoberta da sexualidade. Geralmente
Universidade Federal de
Goiás, Goiânia, Brasil. diseases and pregnancy. This study aimed to introduzidas na vida sexual de forma violenta
identify the meanings ascribed to motherhood e precoce 2, demonstram passividade diante
Correspondência
by teenage girls with a history of living in the desta submetendo-se aos acontecimentos na
D. T. Gontijo
Departamento de Terapia streets and who chose to assume the care for rua. Em meio ao desconhecimento do próprio
Ocupacional, Universidade their children, off the streets. Based on a quali- corpo, desvencilham o sexo do desejo e prazer
Católica de Goiás.
tative methodology, data were collected from arriscando-se a contrair doenças sexualmente
Rua 15 887, Goiânia, GO
74150-120, Brasil. the adolescent mothers at a nongovernmental transmissíveis (DST/AIDS) e/ou a vivenciar a
danigontijo@hotmail.com shelter and analyzed according to the content gravidez 3,4.
danielatgontijo@gmail.com
analysis modality. The results were discussed Apesar da gravidez ser tradicionalmente ca-
using the category “new life: mother & child”, racterizada na Saúde Pública como “um proble-
showing that the adolescents ascribed a positive ma” ou como “risco” para a adolescente e seu
meaning to motherhood, with the child seen as filho, atualmente estudos têm apontado con-
both a “savior” from the mother’s certain death trovérsias nestas concepções 5,6. Considerando
on the streets and a repository for the mother’s esses aspectos, este estudo objetivou identificar
expectations for a better future. The article con- o significado da maternidade para adolescen-
cludes by analyzing motherhood as an opportu- tes-mães abrigadas, com experiência de rua.
nity for establishing new ways of being in (and Entendemos que este estudo detém um ca-
relating to) the world, with the construction of ráter transdisciplinar e contribui para o debate
this motherhood process as a potentially fertile entre profissionais e responsáveis pela elabo-
ground for intervention by health professionals. ração e implementação de políticas públicas,
visando a melhorias da qualidade de vida de
Homeless Youth; Pregnancy in Adolescence; Life adolescentes e suas famílias em situação de ris-
Change Events co social.

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Percurso metodológico desconhecimento sobre os comportamentos do


bebê e sobre as atitudes a serem tomadas, as-
Pesquisa de abordagem qualitativa 7 realizada em sim como também constatou Kreutz 10. Nesses
uma “casa-lar”, de caráter não-governamental, momentos, a ajuda de educadores do abrigo é
que abriga concomitantemente a adolescente reconhecida pelas adolescentes como de im-
com experiência de vida na rua e seu(s) filho(s). portância vital.
No período de coleta de dados, a instituição abri- Ainda nessa situação, uma das entrevista-
gava sete adolescentes das quais quatro, com das faz referência ao processo de construção
idades de 17 a 23 anos e que se tornaram mães do vínculo afetivo com o filho, desmitificando
entre 15 e 17 anos, participaram do estudo. a natureza instintiva do amor materno 11, ao re-
Os dados foram coletados usando-se entre- velar que inicialmente percebia seu bebê como
vistas semi-estruturadas, em que abordamos a um desconhecido com o qual, aos poucos, foi
experiência da gravidez na rua e o significado da construindo uma relação de afeto, tal como ob-
maternidade. As entrevistas gravadas por meio servamos no relato “...aí o tempo foi fazendo eu
digital foram transcritas e analisadas seguindo gostar dele” (E-1). Assim como observado em
uma aproximação à análise de conteúdo, moda- outros estudos 5,6,10, entendemos que a vivência
lidade temática 8, por meio da qual foram iden- da maternidade é percebida pela adolescente
tificadas duas categorias temáticas. Neste texto como um aumento da responsabilidade e como
analisamos de modo preliminar, a categoria “a fator de amadurecimento.
nova vida: mãe & filho”. As adolescentes, com o nascimento do filho,
A pesquisa obteve aprovação do Juizado da passam a estruturar a sua vida em torno das ne-
Infância e Juventude do Estado de Goiás e do Co- cessidades destes. As dificuldades nesse proces-
mitê de Ética do Hospital das Clínicas da Univer- so não podem ser atribuídas somente ao nasci-
sidade Federal de Goiás (parecer nº. 082/04). mento e cuidados necessários aos filhos, pois
acostumadas a viver de acordo com o ritmo do
próprio corpo e das ruas, que não se organiza
Resultados e discussão com base em horários e rotinas, a vida no abrigo
e o cuidado dos filhos, estruturados justamente
De modo geral, os relatos nos trazem a complexi- com base nestes fatores, exigem um grande es-
dade de ser adolescente, mãe, ex-menina de rua, forço de adaptação por parte das adolescentes
mulher e abrigada, ao mesmo tempo. Durante deste estudo.
as entrevistas, observamos diferentes reações Por outro lado, podemos perceber como o
das adolescentes, como hesitações, mudanças papel de mãe possibilitou e possibilita a reali-
na expressão e postura corporal que revelaram zação pessoal das adolescentes, que se mostram
uma maior dificuldade em falar de suas vidas no orgulhosas do desenvolvimento de seus filhos, e
período anterior à vinda para o abrigo. Percebe- de serem reconhecidas por eles como mãe, sen-
mos que esse período, marcado pelo processo de do esta satisfação no exercício da maternidade
exclusão social de suas famílias, uso de drogas e também identificada por outros autores 5,6,12.
a vivência de situações de extrema violência, faz No entanto, esses relacionam a satisfação de ser
parte de um passado que preferem não lembrar. mãe apresentada pelas adolescentes muito mais
Por outro lado, quando abordávamos a materni- ao aspecto de reconhecimento social do que o
dade, a vida no abrigo ou as expectativas futuras, desempenho que este papel traz. Neste estudo,
as adolescentes demonstravam uma maior dis- estamos percebendo que a satisfação das mães
ponibilidade para a conversa. estava mais relacionada à formação de um vín-
Para a maioria das adolescentes a gravidez culo de afeto genuíno com o filho.
não fora planejada, mas decorrente de relaciona- Essa diferença na “fonte” de satisfação talvez
mentos pouco duradouros e de vínculos frágeis possa ser atribuída às características diversas
com o parceiro, fatos que refletiram na perda do das amostras entre os estudos. Em sua maioria,
contato com estes durante a gravidez e a não as- os estudos sobre maternidade são realizados por
sunção em relação à paternidade, corroboran- meio de serviços de saúde 5, com adolescentes
do valores historicamente construídos em que o que apesar de viveram em risco, apresentam a
controle da contracepção e o cuidado das crian- preservação de alguns dos vínculos sociais (fa-
ças são atribuídos às mulheres 9. mília, escola, companheiro). Neste estudo, as
Apesar de considerarem as dificuldades adolescentes se caracterizam por vivenciarem
dessa decisão, as adolescentes de nosso estudo um processo de ruptura intensa dos vínculos
optaram por assumir seus filhos. Os primeiros sociais, para as quais identificamos que a per-
cuidados, como amamentar e dar banho são cepção de como se dá uma relação social base-
permeados por sentimentos de insegurança e ada no afeto (mãe-filho) antecede a satisfação

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A MATERNIDADE PARA ADOLESCENTES COM EXPERIÊNCIA DE VIDA NAS RUAS 471

proveniente do reconhecimento social desta Algumas considerações


relação.
As adolescentes relatam o desejo de propor- De uma forma geral, pudemos perceber que a
cionar para si e para os filhos oportunidades pa- vivência da maternidade para estas adolescentes
ra a construção de um futuro melhor, sustenta- tem semelhanças com o que encontramos na li-
das por uma maior escolaridade. Além disso, as teratura em relação às mães adolescentes de uma
adolescentes expressam claramente a esperança forma geral. No entanto, devemos pontuar algu-
de que o filho não se envolva com a cultura da mas particularidades apresentadas pelas adoles-
rua, pois o futuro na rua se resumiria à morte. centes de nosso estudo.
É importante ressaltarmos que a possibilidade Consideramos que nos moldes no qual se es-
da construção de expectativas futuras para essas trutura esta instituição, a adolescente é estimu-
adolescentes está intimamente relacionada à ida lada a desvencilhar-se dos padrões de compor-
para o abrigo, pois nas ruas elas “não pensavam tamento adotados anteriormente, e a construir
em nada” (E-1), buscando a sobrevivência dia- juntamente com os educadores, as outras adoles-
riamente. centes e seus filhos novas formas de se relacionar
Finalmente, podemos ressaltar dois signifi- e estar no mundo. Assumindo responsabilidade,
cados atribuídos pelas adolescentes aos filhos. O aprendendo a desempenhar o papel materno,
primeiro remete o filho à condição daquele que fazendo novas escolhas essas adolescentes con-
irá acabar com a solidão, com o abandono vi- tinuam escrevendo a sua história de vida, agora,
venciado pelas adolescentes. Esse significado se em um contexto, que lhes dá suporte na constru-
sustenta pela crença de uma relação duradoura, ção de sua independência e autonomia.
sendo o filho considerado a única forma de dar Ao possibilitar que a adolescente conviva
e receber amor, de forma genuína, conforme o com seu filho, este abrigo abre espaço para uma
depoimento de uma das entrevistadas afirman- ruptura do círculo de quebras de vínculos que ca-
do que “de nenhuma outra pessoa a gente vai dar racterizam suas vidas. A vivência da maternidade
amor e receber amor, porque de outra pessoa (...). abre espaço para que elas se reconheçam e sejam
Não, a gente não sabe o que vem das outras pes- reconhecidas com base nas suas capacidades
soas” (E3). como mãe, favorecendo a conquista ou resgate
O segundo significado atribuído ao filho foi de sua auto-estima e configurando-se como um
a visão do filho como “salvador” de uma mor- campo fértil para intervenção dos profissionais
te certa nas ruas, representando a possibilidade da saúde.
de construção de um futuro, que para acontecer Enfim, a partir de nossas considerações não
implica a saída da adolescente do espaço da rua. buscamos defender a ocorrência da gravidez na
Essa afirmação se apresenta em um dos relatos adolescência, no entanto, uma vez que ela acon-
em que a adolescente afirma: “Ele [filho] veio pra teça, buscamos entendê-la do ponto de vista das
mudar minha vida, se não fosse (...) eu acho que adolescentes que a vivenciam, que muitas vezes
eu já tinha morrido” (E1). não trazem a concepção de um acontecimento
de “risco” e sim de uma experiência desejada, sa-
tisfatória e até mesmo salvadora.

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Resumo Colaboradores

A descoberta da sexualidade entre as adolescentes que Ambos os autores contribuíram substancialmente para
fazem das ruas seu espaço de sobrevivência geralmente a concepção e design da proposta de pesquisa, assim
é permeada pelo desconhecimento do próprio corpo, o como na coleta, análise e interpretação dos dados. Tam-
que resulta, muitas vezes, em comportamentos de risco bém foi conjunta a construção dos rascunhos e revisão
para a contaminação por doenças sexualmente trans- crítica do texto.
missíveis e para a gravidez. O objetivo desta pesquisa
foi identificar os significados atribuídos à maternida-
de por adolescentes com experiência de vida nas ruas
que optaram por assumir o cuidado dos filhos fora das
ruas. Com base na abordagem de pesquisa qualitativa,
os dados foram coletados junto a adolescentes-mães
abrigadas em uma instituição não-governamental, e
analisados segundo a modalidade temática da aná-
lise de conteúdo. Os resultados foram discutidos por
meio da categoria “a nova vida: mãe & filho”, mostran-
do que a experiência da maternidade é significada de
forma positiva pelas adolescentes, sendo o filho enten-
dido como o “salvador” de uma morte certa nas ruas,
depositando nele as expectativas de um futuro melhor.
A título de considerações finais, observamos no exer-
cício da maternidade uma oportunidade de estabe-
lecimento de novas formas de estar e se relacionar no
mundo, sendo o processo de construção dessa materni-
dade terreno fértil para a intervenção de profissionais
da saúde.

Menores de Rua; Gravidez na Adolescência; Aconteci-


mentos que Mudam a Vida

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(2):469-472, fev, 2008