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Contrato-promessa de Doação

O código civil português não admite, expressamente, o contrato-promessa de doação.

O regime da doação encontra-se nos art 940º e ss cc. Para estarmos perante um contrato-
promessa de doação, é necessário estarem preenchidos os seguintes requisitos:

 Que haja uma atribuição patrimonial geradora de enriquecimento para o donatário;


 Diminuição do património do doador;
 Espirito de liberalidade.

Este último requisito gera a discussão em torno do contrato-promessa de doação.

O contrato-promessa, encontra-se regulado nos art 410º a 413º, 441º e 442º, e relativamente a
execução especifica no art 830º. E consiste na convenção pela qual alguém se obriga a celebrar
certo contrato.

MC, designa a qualidade de determinado contrato poder ser prometido, ou seja poder ser
objeto de contrato-promessa como prometibilidade. Pode existir:

 Uma promitibilidade fraca: que resulta num contrato suscetível de promessa, mas não
pode ser obtido por execução especifica, na base de uma ação do art 830º
 Prometibilidade forte: o contrato pode ser prometido e executado especificamente.
 Imprometibilidade: o contrato é (atendendo aos valores envolvidos, pela presença de
regras expressas) insuscetível de ser prometido.

Imprometibilidade do contrato-promessa
Parte da doutrina (nacional e estrangeira), tem vindo a pronunciar-se pela inadmissibilidade do
contrato-promessa. Segundo estes autores não se poderá considerar juridicamente
espontâneo um ato que é praticado como cumprimento de uma obrigação jurídica.

MC concorda com esta posição, que nos diz que o contrato de doação é insuscetível de ser
prometido, não podendo resultar numa obrigação de celebrar a doação definitiva. Para além
do argumento principal desta teoria que seria a falta de liberalidade, MC acrescenta ainda em
relação a natureza do contrato-promessa, que de acordo com os mecanismos inerentes ao
sinal e à execução especifica (442º e 830ª), acredita que este regime se aplica apenas a
contratos onerosos e sinalagmáticos, e sendo o contrato de doação um contrato gratuito, dá-se
uma incompatibilidade entre a natureza do contrato-promessa e o de doação.

Indica ainda que o regime de doação, nomeadamente no art 947º, exige mais quanto à forma
de contrato do que em relação à promessa.
(Quanto ao vicio a atribuir ao contrato-promessa de doação, MC diverge em relação aos outros
autores que também propugnam pela tese da imprometibiidade, no sentido em que não,
violando normas imperativas expressas, e tendo o problema mais a ver com a incongruência
dos valores em jogo, a promessa de doação não deve considerar-se nula, mas apenas ineficaz.)

Execução especifica

Esta perspetiva doutrinária rejeita-a, visto que a doação não pode ser sequer prometida.

MC não deixa de mencionar que a desaptação de regimes não ficaria sanada com a exclusão de
execução especifica ficaria sanada uma vez que, em sede de responsabilidade contratual, a
indemnização teria, pelo menos, o valor do bem doado, do qual o donatário foi privado. O
bloqueio da execução especifica não resolve esta situação.

Criticas

 Em relação ao argumento que nos diz que o contrato-promessa pressupõe


obrigatoriamente contratos definitivos, onerosos e sinalagmáticos.

O art 410º\1, não se refere expressamente a contratos onerosos.

 Há ainda que se atender à autonomia privada prevista no art 405º, segundo a qual o
que não é proibido é em principio permitido.

 O art 954\c), vai de encontro com a ideia de que a existência de uma obrigação não irá
contra a dogmática da doação.

Promessa de doação como doação obrigacional


Posição apoiada por Antunes varela. Esta posição acredita que se a promessa de doação for
espontânea, não afeta a espontaneidade da doação, esta promessa é que representa a
liberalidade.

A promessa de doação é admitida, pois tanto o art 940º\c), como o art 954º, a admitem na
modalidade de doação obrigacional.

EX: alguém promete doar, o seu imóvel. Dá-se a questão de saber se estão aqui
presentes os elementos da doação:

 Enriquecimento do donatário,
encontra-se preenchido visto
que o mesmo recebe um dt de
crédito.
 Empobrecimento do doador,
constitui-se uma obrigação na
sua esfera, resultando numa
oneração do seu património.
De acordo com o art 940º\1, pode se qualificar como doação o contrato pelo qual alguém
assume a titulo gratuito, a divida já existente do devedor, em face de terceiro. É igualmente
qualificável como doação o caso em que alguém assume, a titulo gratuito, uma obrigação
inteiramente nova para com o outro contraente. Desta logica se retira que a lei considera que a
promessa de doação será uma verdadeira doação.

(O cumprimento da promessa não se consubstancia no animus solvendi, incompatibizando-se


com o animus donandi? A resposta é negativa, pois:

 A transmissão posteriormente efetuada não é uma segunda doação


 O facto de ser uma atribuição solvendi causa não faz com que se ponham em causa, o
espírito de liberalidade.

O facto de a transmissão posteriormente efetuada, apesar de ser uma atribuição


solvendi causa, não deixa de representar uma disposição gratuita, com espirito de
liberalidade.
Representa uma disposição gratuita, pois é efetuada sem qualquer contraprestação por
parte do donatário.
Não falta o requisito da liberalidade, uma vez que, apesar de não constituir, em si
mesma, uma doação, não impede que integre uma doação, visto que a sua causa está
na promessa, marcada por esse espirito de liberalidade.

Em relação aos bens futuros, a promessa não é uma doação de bens futuros, mas
apenas de bens presentes.)

Forma
Vaz Serra acredita que a promessa de doação é admissível desde que nela se observem certas
formalidades.

É necessário que se distinga as situações em que a promessa incide sobre coisas imoveis ou
coisas moveis.
 Se tivesse por objeto coisas imoveis, teria de ser realizada por escrito assinado pelo
promitente (art 410º\2), dado que a doação de bens imoveis tem que constar de
escritura publica (art 947º\1).

 No caso da doação incidir sobre bens móveis, exigir-se-á na mesma redução a escrito,
uma vez que o art 947º\2, não sendo a promessa acompanhada de tradição sobre a
coisa, exige a forma escrita.

Execução especifica
Esta doutrina acaba por não se pronunciar em relação a este assunto, visto que nesta
visão não existe um verdadeiro contrato-promessa.
Em caso de incumprimento, dá se lugar á responsabilidade nos termos gerais (art
798º).

Criticas
Não se mostra razoável recorrer ao regime do contrato-promessa (art 410º), quando esta
posição afasta, a própria existência de um contrato-promessa.

Doutrina da prometibilidade fraca


Defendida por ML. Segundo esta visão o contrato-promessa de doação seria válido,
mas não é possível haver execução especifica do mesmo:

Aponta-se 3 obstáculos a esta posição:

 As criticas que redigi em relação á imprometibilidade;


 A existência em outras ordens jurídicas com uma dogmática semelhante (a
alemã) da previsão expressa da validade do contrato-promessa de doação.
 Afirma haver na declaração de promessa de doação, o preenchimento de todos
os elementos constitutivos da doação, parecendo concordar com as teses que
defendem a existência de doação obrigacional.
Não parece razoável dizer que existe um contrato-promessa e por outro lado,
uma doação obrigacional.

Como fundamentar esta articulação de regimes e qualificações contratuais?


Está-se perante um contrato atípico misto, de tipo múltiplo de contrato-promessa e
doação. O contrato promessa de doação encontra a sua disciplina na combinação de
elementos e de preceitos do contrato-promessa (art 410º), quanto à forma, e por outro
lado de preceitos da doação, como o art 970.
Para ML não deixa de existir, um exercício da autonomia privada, ainda que em
cumprimento da obrigação anterior, pelo que a espontaneidade (animus donandi),
presente no primeiro contrato, é renovada no segundo.

Ana Prata, resolve este problema dizendo ainda existir um espaço de liberdade no
contrato prometido, estabelecendo uma analogia com a doação remuneratória,
prevista no art 941º.
A vontade de doar deve persistir até ao momento em que obtenha a sua plena eficácia
jurídica, ou seja quando se dê a celebração do contrato prometido.

Execução especifica
Propugna-se pela sua impossibilidade, por tal se opor à natureza da obrigação
assumida ( 830º\1), visto que se tem de estar presente o espirito de liberalidade. No
entanto o incumprimento do contrato-promessa é sujeito ao regime geral de
incumprimento das obrigações, previstos nos art 798º.

MC, descorda com a tese da prometibilidade fraca, uma vez que em sede de
responsabilidade contratual, a indemnização teria o valor do bem doado, do qual o
donatário foi privado, ora o bloqueio da execução especifica não resolve, por via
indemnizatória, a deslocação gratuita, ou seja uma deslocação patrimonial de esfera
jurídica do promitente incumpridor para o do donatário lesado. Contudo, essa
deslocação é configurada de modo diverso, a materialidade, as consequências e o
objeto da prestação são diferentes.

Concluindo

 O contrato-promessa de doação é válido, visto não ser expressamente proibida


pelo legislador (principio da autonomia privada, art 405º)
 A previsão expressa da doação obrigacional por parte do legislador no art 940º
e no art 954º\c), que enfraquece a ideia de incompatibilidade com a
constituição de uma obrigação.

 Encontra-se inserido na modalidade de prometibilidade em sentido fraco, não


podendo haver execução especifica do mesmo.
O art 830\1, exclui este tipo de contratos, a natureza do mesmo é incompatível
com a execução especifica na medida em que há um animus domandi inerente
a toda a prestação. Como deve persistir até ao momento em que se obtenha a
sua plena eficácia jurídica, ou seja, só quando se der a celebração do contrato
prometido.

Animus domandi- Vontade, intenção de dar, ocorrido no meio jurídico para um contrato de
doação.

Animus solvendi- intenção de cumprir.