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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM –

Allan

Fabio Luciano Iachtechen – O discurso eugênico através da literatura:


impressões sobre o início do século XX.

Iachtechen introduz o tema de seu texto com o subtítulo Literatura,


Eugenia e a Saúde Perfeita. Ao considerar as relações entre o mito da saúde
perfeita e a literatura que se produziu entre o fim do século XIX e início do
século XX, o autor destaca a perspectiva científica de ultrapassar os limites do
corpo em termos de resistência física e longevidade e como esta noção
coaduna com o discurso eugênico da época.
Segundo o autor, esta aspiração de fazer com que o homem ultrapasse a
própria condição humana remonta ao filósofo Friedrich Nietzsche, com o seu
super-homem. Mais tarde este discurso, embora de forma deturpada, acabou
por influenciar toda a lucubração nazista e também uma classe intelectual e
cientifica que adotou o pensamento eugênico como alternativa para o
desenvolvimento da espécie humana.
A literatura soube captar esta mentalidade da época. Uma obra exemplar
nesse sentido é A Ilha do Doutor Moreau, publicada em 1897 pelo escritor
inglês H. G. Wells. A mesma linha de critica a intervenção genética e ao
discurso eugenista, segundo o autor, pode ser lida no romance A Amazônia
Misteriosa (1925) de Gastão Cruls.
Daí por diante, o autor descreve o romance de Gastão Cruls. Nele, o autor,
alter-ego do próprio Cruls, relata minuciosamente sua expedição científica pela
Amazônia. Em determinado momento, o narrador e mais dois acompanhantes
se perdem em meio à selva e se deparam com alguns povos indígenas que, ao
invés de os ajudarem a encontrar o caminho de volta, os conduzem pela selva
até chegarem as ruinas de uma antiga civilização perdida. Lá, encontram a
figura do dr. Hartmann que, assim como o dr. Moreau, realiza experimentos
com os meninos nascidos em uma sociedade harmônica dominada por
mulheres. Da mesma forma, esses experimentos, ignoravam questões éticas
em nome do progresso cientifico e, consequentemente, geravam criaturas tão
grotescas quanto às descritas por Wells.
Não cabe aqui destacar os pormenores do romance, mas destacar, na
visão do autor, como o imaginário científico nacional brasileiro estava
permeado com a ideologia da eugenia. No Brasil, a eugenia também esteve
estreitamente relacionada com a administração pública, principalmente em
relação às grandes metrópoles, recheadas de cortiços e pobreza que, para os
entusiastas deste tipo de pensamento, eram os responsáveis por boa parte das
mazelas sociais.
Assim, segundo o autor, a genética pode ser considerada um componente
chave para justificar as práticas sociais de segregação que, em nome do
progresso, retiraram a população mais pobre das áreas de convivência comum,
como no caso do centro do Rio de Janeiro.

Bibliografia:

IACHTECHEN, F. L. O discurso eugênico através da literatura: impressões


sobre o início do século XX. In: DENIPOTI, Cláudio; GRUNER, Clóvis M..
(Org.). Nas tramas da ficção: história, literatura, leitura. 1ed.Cotia: Ateliê
Editorial, 2009, v. , p. 77-103.

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