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THOMAS ICE

A BATALHA DE
GOGUE E MAGOGUE
UMA INTERPRETAÇÃO DE
EZEQUIEL 38 & 39
EBOOK - 1ª EDIÇÃO -
2015
Traduzido do original em inglês: “An Interpretation of Ezekiel 38
& 39”- Série de Artigos Pre-Trib Research Center
El Cajon, CA 92021 – EUA.
Tradução: Jamil Abdalla Filho Revisão: Sérgio Homeni, Ione
Haake, Célia Korzanowski Edição: Arthur Reinke
Capa e Layout: Roberto Reinke Passagens da Escritura segundo a
versão Almeida Revisada e Atualizada – (SBB), exceto quando
indicado em contrário: Nova Versão Internacional - NVI, Almeida
Corrigida e Revisada Fiel – ACF ou Almeida Revista e Corrigida –
ARC.
Todos os direitos reservados para os países de língua portuguesa.
Copyright 2015 Actual Edições
Ebook ISBN - 978-85-
7720-113-6
R. Erechim, 978 – B. Nonoai
90830-000 – PORTO ALEGRE – RS/Brasil Fones (51) 3241-5050 e
0300 789.5152
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ÍNDICE
Introdução
1. Real ou Apenas Imaginário?
2. Ezequiel 38.1-2
3. Ezequiel 38.2
4. Ezequiel 38.2 (cont. 1)
5. Ezequiel 38.2 (cont. 2)
6. Ezequiel 38.2-4
7. Ezequiel 38.4
8. Ezequiel 38.4 (cont.)
9. Ezequiel 38.5-6
10. Ezequiel 38.6
11. Ezequiel 38.7-8
12. Ezequiel 38.8
13. Ezequiel 38.8-9
14. Ezequiel 38.10-12
15. Ezequiel 38.12-13
16. Ezequiel 38.13-16
17. Ezequiel 38.17-19
18. Ezequiel 38.20-23
19. Ezequiel 39.1-3
20. Ezequiel 39.4-6
21. Ezequiel 39.7-10
22. Ezequiel 39.11-13
23. Ezequiel 39.17-20
24. Vários Pontos de Vista
25. Vários Pontos de Vista – (continuação 1)
26. Vários Pontos de Vista – (continuação 2)
27. Vários Pontos de Vista – (continuação 3)
28. Armagedom?
29. No Fim do Milênio?
30. Ezequiel 38 e 39 - Resumindo
INTRODUÇÃO

A batalha contra Gogue e Magogue, descrita


nos capítulos 38 e 39 do livro de Ezequiel, é um dos
aspectos mais debatidos no campo da profecia
bíblica. O comentarista bíblico Ralph Alexander
declarou que “um dos enigmas da profecia bíblica
que ainda perduram é o acontecimento que diz
respeito a Gogue e Magogue descrito em Ezequiel
38 e 39”.[1] Quase todos os aspectos dessa antiga
profecia têm sido objeto de debate, inclusive se seu
cumprimento ocorreu no passado ou se ainda
aguarda um cumprimento futuro. Quais são os
povos envolvidos nessa profecia e que relação eles
teriam com as nações da atualidade? Como devemos
interpretar as armas descritas nesse texto? Caso se
trate de um acontecimento futuro, em que ocasião
do cronograma profético isso deve se cumprir? Aí
está a razão pela qual pretendo fazer uma análise
meticulosa dessa importante passagem bíblica.
1. REAL OU APENAS
IMAGINÁRIO?

Quando se lida com essa ou com qualquer


outra profecia bíblica, um dos primeiros
procedimentos cabíveis é o de verificar se Deus e
Ezequiel pretendiam que tal profecia realmente se
cumprisse na história. Em apoio à nossa convicção
de que todas as profecias da Bíblia foram
enunciadas com o intuito de se cumprirem ao longo
da história, constata-se que não há nada nessa
profecia que sugira o contrário. Entretanto, há uma
corrente de interpretação, principalmente entre os
eruditos liberais, que defende a concepção de que a
passagem de Ezequiel (ou a maioria dos textos
proféticos) não foi pronunciada com o intuito de se
cumprir na história. Tal concepção é geralmente
denominada de idealismo. O idealista não crê que a
Bíblia indique o momento específico dos
acontecimentos, nem acredita que possamos prever
com precisão o tempo exato de sua ocorrência. Por
isso, os idealistas contemplam as passagens
proféticas como se fossem um mestre que ensina
verdades grandiosas sobre Deus, as quais se aplicam
à nossa vida na atualidade. Os idealistas sustentam
que a Bíblia usa passagens proféticas para apresentar
princípios inseridos “numa mensagem que é
universal e imutável. Essa mensagem não se limita a
nenhuma época ou local específico, ainda que seus
termos e expressões retratem cenas de países que
estão ao redor do mar Mediterrâneo, bem como de
outras localidades do Oriente Médio”.[2]
Entre os defensores de uma interpretação
idealista e não-histórica da profecia bíblica,
encontra-se Brent Sandy, como se pode constatar
em seu livro Plowshares & Pruning Hooks (i.e.,
“Relhas de Arado e Podadeiras”).[3] Típico
daqueles que estão sob o feitiço da atual influência
pós-moderna, esse autor supervaloriza o processo
interpretativo à custa de se chegar a uma teologia
definida. A duplicidade de Brent Sandy fica evidente
no seguinte excerto de seu livro: As limitações da
profecia como fonte de informação para o futuro
foram comprovadas através de exemplos extraídos
de várias partes das Escrituras. Ficou bem claro que
o elemento predicativo da profecia é mais
translúcido do que transparente. A profecia é sempre
exata no que pretende revelar, mas raramente
revelam informações que nos permitam saber o
futuro com antecedência. Figuras de linguagem têm
a função de descrever, não os detalhes do que está
para acontecer, mas sim a seriedade do que vai
acontecer.[4]
Numa postura tão típica daqueles evangélicos
que desejam classificar a profecia bíblica dentro de
uma categoria ou gênero literário específico
denominado “apocalíptico”, Sandy declara que “os
intérpretes devem evitar o julgamento de muitos
pormenores da profecia; do começo ao fim das
Escrituras há uma abundância de temas proféticos
inequívocos, centrados na segunda vinda de Jesus, o
Messias”.[5] Então, Sandy, conclui: “Se minhas
conclusões sobre a linguagem da profecia e da
apocalíptica estiverem corretas, todos os sistemas de
escatologia ficam sujeitos a uma reavaliação”.[6]
Isso não deve ser surpresa, uma vez que Brent
Sandy está preso a uma mentalidade pós-moderna
defensora de que a correta interpretação da
mensagem escatológica da Bíblia resulta da
combinação de todos os diferentes pontos de vista
proféticos.[7]
Um aspecto claro na postura de Sandy e no
ponto de vista da “erudição” evangélica emergente é
o de que a profecia não deve ser interpretada
literalmente, como os dispensacionalistas a têm
interpretado. Eles alegam que isso se pode constatar
principalmente porque as porções proféticas da
Bíblia são apocalípticas e seu propósito não era o de
serem interpretadas literalmente. Eles talvez não
sejam capazes de lhe dizer o que esses trechos das
Escrituras realmente significam, mas uma coisa eles
sabem: que profecia bíblica não deve ser
interpretada literalmente (ou seja, de acordo com a
abordagem histórica e gramatical) e que os textos
proféticos versam fundamentalmente sobre
conceitos e princípios, não sobre acontecimentos
históricos que se cumprirão no futuro. “O
entendimento ‘mítico’ dessas nações e da profecia
que as relaciona falha em nos transmitir o sentido de
um acontecimento concreto e literal que parece ser
justificado pelo que é descrito em Ezequiel –
especialmente no que concerne aos capítulos 38–
39”.[8]

VÁRIOS PONTOS DE
VISTA SOBRE A ÉPOCA
EM QUE ISSO SE
CUMPRIRÁ O
ESPECIALISTA EM
PROFECIA BÍBLICA,
MARK HITCHCOCK,
COMENTA O SEGUINTE:
“DE LONGE, A QUESTÃO
MAIS POLÊMICA QUE SE
LEVANTA EM EZEQUIEL
38–39 É A DA OCASIÃO
OU ÉPOCA QUE SE DARÁ
ESSA INVASÃO. É
MUITO DIFÍCIL
PRECISAR O MOMENTO
ESPECÍFICO DA
INVASÃO”.[9]
Não há dúvida de que esse é o maior obstáculo
a vencermos na busca do entendimento dessa
passagem. Na verdade, as diferentes concepções são
denominadas de acordo com o ponto de vista de
alguém acerca da época em que esses
acontecimentos se cumprirão.
Entre os que crêem que a invasão liderada por
Gogue é histórica, há aqueles que acreditam que ela
já se cumpriu. O intérprete preterista Gary DeMar,
por exemplo, declara que “a batalha mencionada em
Ezequiel 38 e 39 é nitidamente um fato
antigo...”[10] Em que momento da história DeMar
acredita que ocorreu essa batalha? Para surpresa
geral, DeMar e apenas alguns comentaristas
persistem na concepção de que os capítulos 38 e 39
de Ezequiel se cumpriram nos acontecimentos
registrados no capítulo 9 do livro de Ester,
aproximadamente em 473 a.C., durante os dias da
rainha Ester da Pérsia.[11] Os outros pontos de vista
que interpretam essa invasão como um
acontecimento histórico situam sua ocorrência num
momento ainda futuro em relação aos nossos dias.
Tim LaHaye e Jerry Jenkins, em seu best-seller
intitulado Left Behind[12] (“Deixados Para Trás”),
situa essa invasão de Israel imediatamente antes do
Arrebatamento da Igreja. O ponto forte dessa
concepção é o de que ela propicia um
esclarecimento para a queima das armas de guerra
por sete anos, conforme menciona o texto de
Ezequiel 39.9. Entretanto, Tim LaHaye me disse
pessoalmente que, apesar de retratar uma
interpretação pré-arrebatamento do texto de
Ezequiel 38 e 39 em seu romance Best-seller, ele
tende a situar esse texto depois do Arrebatamento,
mas antes da tribulação.
O próximo ponto de vista, o qual vem a ser o
que defendo na atualidade, é o de que os
acontecimentos descritos em Ezequiel 38 e 39 se
cumprirão após o Arrebatamento, mas antes da
tribulação. Eles ocorrerão no intervalo de dias,
semanas, meses ou anos entre o Arrebatamento e o
começo da tribulação de sete anos.[13] Essa
concepção proporciona uma harmonização
explicativa para os sete anos mencionados em
Ezequiel 39.9. Sempre tenho considerado que um
dos pontos fortes dessa concepção é a maneira pela
qual ela pode preparar o palco para o cenário bíblico
da tribulação. Se a tribulação fosse prontamente
precedida por uma fracassada invasão regional da
terra de Israel, ou seja, uma invasão empreendida
pela Rússia e seus aliados islâmicos, isso eliminaria
grande parte da atual influência russa e islâmica no
mundo atual, o que permitiria o surgimento de uma
orientação mundial centrada na Europa. Dessa
forma, a tribulação chegaria ao seu fim com um
ataque de todas as nações do mundo contra Israel
em Armagedom. Isso também poderia preparar o
terreno para a reconstrução do templo judeu em
consequência de uma humilhação islâmica.
Talvez a concepção mais amplamente
defendida e divulgada dentro da literatura
dispensacionalista seja a de que essa invasão
ocorrerá por volta da metade do período de sete
anos da tribulação. Essa posição geralmente
identifica a profecia de Ezequiel 38 e 39 como uma
invasão empreendida pelo rei do norte, a qual é
mencionada em Daniel 11.40. Outro importante
argumento baseia-se na afirmação de que “...e todos
eles habitarão seguramente” (Ez 38.8), um
resultado da falsa paz promovida pelo Anticristo na
primeira metade do período da tribulação. Essa
concepção tem muitos aspectos a seu favor.
Um expressivo número de catedráticos da
Bíblia acredita que o acontecimento envolvendo
Gogue e Magogue seja sinônimo daquilo a que o
livro de Apocalipse faz alusão como a Campanha do
Armagedom (Ap 16.16).[14] Uma vez que o
Armagedom será uma enorme invasão do território
de Israel pouco antes da Segunda Vinda de Cristo e
a invasão de Israel, descrita em Ezequiel 38 e 39,
está prevista para o “fim dos anos” (Ez 38.8) e
“nos últimos dias” (Ez 38.16), só pode se tratar do
mesmo acontecimento. Um ponto de vista parecido,
mas com ligeiras diferenças, é o de que a invasão
ocorrerá depois da Segunda Vinda, no intervalo
entre a tribulação e o inicio do Milênio. O principal
argumento em favor dessa concepção é o de que
Israel estaria habitando em segurança (Ez 38.8).
O último dos principais pontos de vista é o de
que a batalha, mencionada em Ezequiel 38 e 39,
acontecerá no final do Milênio. O fundamento dessa
concepção é relevante porque o texto de Apocalipse
20.7-9 faz referência a um conflito no fim do
Milênio, quando Satanás será solto. O versículo 8
afirma: “e [Satanás] sairá a seduzir as nações que
há nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue,
a fim de reuni-las para a peleja. O número dessas é
como a areia do mar”. A força desse ponto de vista
é óbvia, pois Gogue e Magogue são especificamente
mencionados no texto.
Em nosso próximo capítulo, iniciarei um estudo
sistemático do texto de Ezequiel 38 e 39, enquanto
analisamos o assunto que nos ajudará a entender o
que o Senhor queria dizer nesta impressionante
profecia. Maranata!

NOTAS
1
Ralph H. ALEXANDER, “A Fresh Look at Ezekiel 38 and 39”,
publicado no Journal of The Evangelical Theological
Society, vol. 17 (edição de verão, 1974), p. 157.
2
Simon J. KISTEMAKER, “Revelation”, in: New Testament
Commentary, , Grand Rapids: Baker, 2001, p. 43.
3
D. Brent SANDY, Plowshares & Pruning Hooks: Rethinking
the Language of Biblical Prophecy and Apocalyptic,
Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2002.
4
Sandy, Plowshares, p. 197.
5
Sandy, Plowshares, p. 203.
6
Sandy, Plowshares, p. 206.
7
Sandy, Plowshares, p. 250, nota de rodapé 14.
8
Jon Mark RUTHVEN, The Prophecy That Is Shaping History:
New Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA:
Xulon Press, 2003, p. 30.
9
Mark HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis: Radical Islam, Oil
And The Nuclear Threat, Sisters, OR: Multnomah, 2006, p.
178.
10
Gary DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion: Future or
Fulfilled?”, publicado no periódico Biblical Worldview
Magazine, vol. 22, edição de dezembro de 2006, p. 5.
11
Gary DEMAR, End Times Fiction: A Biblical Consideration of
the Left Behind Theology, Nashville: Thomas Nelson, 2001,
p. 12-15.
12
Tim LAHAYE e Jerry JENKINS, Left Behind: A Novel of the
Earth’s Last Days, Wheaton, IL: Tyndale, 1995, p. 9-15.
13
Arnold FRUCHTENBAUM defende este ponto de vista em seu
livro The Footsteps of the Messiah: A Study of the
Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Ministries,
2003 p. 106-125.
14
Esse ponto de vista é defendido por Dave HUNT no livro How
Close Are We?, Eugene, OR: Harvest House,1992.
2. EZEQUIEL 38.1-
2

“Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:


Filho do homem, volve o rosto contra Gogue,
da terra de Magogue, príncipe de Rôs, de
Meseque e Tubal; profetiza contra ele”.

“Esta foi a última mensagem da série de seis


oráculos noturnos anunciados por Ezequiel”,
comenta Ralph Alexander. “O foco central de todas
essas mensagens que Deus lhe revelara à noite era a
posse da terra de Israel. Essa série de oráculos
noturnos foi enunciada a fim de encorajar os
exilados judeus com o fato de que Deus finalmente
removeria esses invasores e devolveria essa terra a
Israel”.[1] Uma mensagem realmente maravilhosa
para aqueles que na atualidade amam o povo de
Israel e ainda aguardam o dia em que ela há de se
cumprir!
Essa profecia se divide em duas partes
principais. Na primeira parte, Ezequiel revela a
invasão da terra de Israel por Gogue e seus aliados
(Ez 38.1-16). A segunda parte dessa profecia revela-
nos o juízo de Deus que sobrevirá a Gogue e seus
confederados (Ez 38.17 – 39.16). Essa
impressionante profecia começa com a menção feita
por Ezequiel de que não fora sua ideia tratar desse
assunto da invasão de Gogue à Israel; pelo contrário,
fora Deus que decretara e comunicara essa profecia
por meio desta revelação verbal: “Veio a mim a
palavra do Senhor, dizendo...”.

“FILHO DO HOMEM...”
Ao longo de todo o seu livro, Ezequiel é
denominado de “filho do homem”. A expressão
“filho do homem” é usada 93 vezes no livro de
Ezequiel em referência ao próprio profeta e sua
primeira menção ocorre em Ezequiel 2.1. Por que
Ezequiel é chamado por Deus de “filho do homem”
tantas vezes nas ocasiões em que estava para receber
alguma revelação da parte do Senhor? Parece que o
termo “filho do homem” ressalta sua humanidade
em relação a Deus. Em outras palavras, Deus é o
Revelador enquanto Ezequiel, na condição de ser
humano, é o receptor da mensagem divina que deve
transmitir aos outros seres humanos. Dessa forma,
Ezequiel nos transmite a infalível profecia desses
dois capítulos, a qual certamente há de se cumprir.

“...VOLVE O ROSTO
CONTRA GOGUE...”
Ezequiel é orientado a voltar seu rosto “contra”
Gogue. O dicionário léxico de hebraico Brown,
Driver & Briggs (BDB) explica que a palavra
hebraica traduzida por “contra” é uma preposição
que indica “movimento para certa direção ou direção
em determinado sentido (seja no plano físico ou
mental)”.[2] O BDB acrescenta ainda que se esse
“movimento para certa direção ou direção em
determinado sentido” for “de caráter hostil dentro do
contexto em que se encontra”, assume uma
conotação negativa e pode ser traduzido pelo termo
“contra”. Ezequiel recebe a ordem de mover o seu
rosto em direção à nação de Gogue, porque o
Senhor é contra ele. Mais adiante na frase, é dito a
Ezequiel: “profetiza contra ele”, ou seja, contra
Gogue. O sentido desse texto é o de que Deus incita
o ataque de Gogue a Israel, todavia o Senhor se
opõe a Gogue e seus aliados. Mas apenas me diga:
Afinal, quem é Gogue? A identidade de Gogue tem
sido um assunto tremendamente debatido.
O nome próprio hebraico Gog (i.e., Gogue)
ocorre 12 vezes no Antigo Testamento Hebraico.[3]
Com exceção de uma, todas as suas ocorrências se
dão nos capítulos 38 e 39 do livro de Ezequiel (Ez
38.2,3,14,16,18; 39.1 (duas vezes), 39.11 (três
vezes) e 15). A única ocorrência fora do livro de
Ezequiel é a de 1Crônicas 5.4, que diz: “O filho de
Joel: Semaías, de quem foi filho Gogue, de quem
foi filho Simei”. Exceto por demonstrar que
realmente se trata de um nome próprio, a referência
bíblica de 1Crônicas não contribui em nada para a
nossa análise desses capítulos de Ezequiel e não tem
nenhuma relação com o Gogue mencionado na
profecia de Ezequiel. A despeito de quem seja
Gogue, o contexto de Ezequiel revela que parece ser
uma pessoa, um líder e um governante contra quem
Ezequiel devia profetizar por ordem de Deus. Em
virtude do uso frequente de “Gogue” nessa
passagem, Mark Hitchcock declara: “concluímos,
portanto, que Gogue é a pessoa ou a nação mais
importante dessa coalizão”.[4]
Essa passagem afirma que Gogue é da “...terra
de Magogue...” Alguns dizem que Gogue é uma
referência ao Anticristo. Porém, Charles Feinberg
está correto ao declarar: “Quanto a isso não há o
menor indício na Bíblia, nem nos escritos extra-
bíblicos”.[5] Alguns sugeriram que Gogue é um
nome “arbitrariamente derivado do nome do país,
Magogue, mas isso não procede, porque o termo
Gogue ocorre em 1Crônicas 5.4”.[6] “O nome
Gogue significa “elevado, supremo, uma elevação
ou uma montanha alta”[7] As únicas referências ao
termo Gogue no livro de Ezequiel ocorrem nessa
passagem profética em estudo e, fora da Bíblia,
praticamente não existe nenhuma informação sobre
Gogue no registro histórico. Entretanto, as
Escrituras declaram que, ao liderar a invasão da terra
de Israel, Gogue virá do “...extremo norte...” (Ez
38.6 – ACF). Louis Bauman cita o que L. Sale-
Harrison escreveu em seu livreto The Coming Great
Northern Confederacy (i.e., “A Futura
Confederação Poderosa do Norte”): “É interessante
observar que a própria palavra Cáucaso quer dizer
‘Fortaleza de Gogue’. Os termos ‘Gogue’ e
‘Chasan’ (i.e., fortaleza) são as duas palavras
orientais das quais deriva o termo Cáucaso”.[8]
Portanto, não parece irrelevante fazer-se referência a
Gogue dentro dos limites territoriais da Rússia, pois
é provável que Gogue proceda dessa região No
entanto, quem seria Gogue, então? Bauman afirma:
“Sem dúvida a Rússia fornecerá o homem – não o
Anticristo – que encabeçará aquela que é conhecida
pela maioria dos estudiosos da Bíblia como ‘a
grande confederação de nações do nordeste’ e a
liderará até o seu trágico destino nos montes da terra
de Israel”.[9] Hitchcock acredita que “a razão pela
qual Gogue foi destacado onze vezes por Deus
nesses capítulos se deve ao fato de que Gogue é o
general que comandará essa coalizão de nações na
sua portentosa campanha militar contra Israel”.[10]
Hall Lindsey declara: “Gogue é o nome simbólico
do chefe da nação e Magogue é a sua terra. Ele
também é o príncipe de povos antigos denominados
Rôs, Meseque e Tubal”.[11] Arnold Fruchtenbaum
nos diz: “A identidade de Gogue só poderá ser
revelada com precisão na época daquela invasão,
porque ‘Gogue’ não é um nome próprio, mas trata-
se de um título que designa o governante de
Magogue, assim como os termos ‘Faraó’, ‘Kaiser’ e
‘Czar’ foram títulos que designavam governantes,
não nomes próprios”.[12]

A TERRA DE MAGOGUE O
TEXTO BÍBLICO AFIRMA
QUE GOGUE, O
COMANDANTE DA
INVASÃO À TERRA DE
ISRAEL, É “DA TERRA
DE MAGOGUE”. O NOME
PRÓPRIO MAGOGUE
OCORRE QUATRO VEZES
NO TEXTO HEBRAICO DO
ANTIGO TESTAMENTO.
[13] O TERMO MAGOGUE
É USADO DUAS VEZES
NESSA PASSAGEM QUE É
OBJETO DE NOSSA
ANÁLISE (EZ 38.2;
39.6) E OCORRE DUAS
VEZES NAS
GENEALOGIAS (GN 10.2
1CR 1.5). O TEXTO DE
GÊNESIS 10.2
DECLARA: “OS FILHOS DE
JAFÉ SÃO: GOMER,
MAGOGUE, MADAI, JAVÃ,
TUBAL, MESEQUE E
TIRAS”. A PASSAGEM DE
1 CRÔNICAS 1.5 É
BASICAMENTE UMA
REPETIÇÃO DA
INFORMAÇÃO
GENEALÓGICA
PROVENIENTE DE
GÊNESIS 10.2. O FATO
DE MAGOGUE OCORRER
NA TABELA DAS NAÇÕES
(CF. GÊNESIS 10)[14]
PROPORCIONA A BASE
PARA SE MAPEAR O
DESLOCAMENTO DE UM
DOS MAIS ANTIGOS
DESCENDENTES PÓS-
DILUVIANOS DE NOÉ.
Parece que Ezequiel usa os nomes dos povos
originalmente mencionados na tabela das nações,
relacionando esses povos ao lugar em que viviam no
sexto século a.C., época esta em que a profecia de
Ezequiel foi enunciada. Dessa forma, se
conseguirmos desvendar onde esses povos se
localizavam no sexto século a.C., seremos capazes
de desvendar quem seriam seus atuais descendentes.
Creio que conseguiremos cumprir esse objetivo, a
fim de sabermos quem estará envolvido nessa
batalha, caso esta ocorra em nossos dias.
É honesto de nossa parte dizer que muitos
estudiosos da Bíblia e especialistas nas profecias
identificariam os descendentes de Magogue com o
antigo povo que conhecemos pelo nome de Citas.
Chuck Missler comenta que uma vasta coletânea de
historiadores antigos “identificou Magogue com os
Citas que habitavam o sul da Rússia no século 7
a.C.”.[15] Entre esses antigos historiadores estão:
Hesíodo, Josefo, Philo e Heródoto.[16] Josefo viveu
no primeiro século d.C. e declarou: “Magogue deu
origem aos “Magogueanos”, assim chamados por
causa dele, mas denominados de Citas pelos
gregos”.[17] Bauman nos diz que, depois do
Dilúvio, Magogue e seus descendentes devem ter
emigrado para o norte e que “os Magoguitas se
desdobraram em duas raças distintas; uma Jafeíta ou
européia e outra Turaniana ou asiática”.[18]
Quem eram os Citas? Edwin Yamauchi
menciona que os Citas se dividiram em dois grupos;
um mais estrito e outro mais amplo. “No sentido
estrito, os Citas eram as tribos que viveram na região
denominada por Heródoto de Citia (i.e., aquele
território situado ao norte do mar Negro)”, comenta
Yamauchi. “No sentido mais amplo, o termo ‘Citas’
pode se referir a algumas das muitas outras tribos
que habitavam nas vastas estepes da Rússia,
estendendo-se da Ucrânia no oeste até a região da
Sibéria no leste”.[19]

NOTAS
1
Ralph ALEXANDER, Ezekiel, Chicago: Moody Press, 1976, p.
118.
2
Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
3
Baseado na pesquisa feita pelo programa de computador
Accordance, versão 6.4.
4
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 16.
5
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 220.
6
FEINBERG, Ezekiel, p. 220.
7
HITCHCOCK, After The Empire, p. 17.
8
Louis S. BAUMAN, Russian Events in the Light of Bible
Prophecy, Nova York: Fleming H. Revell, 1942, p. 23.
9
BAUMAN, Russian Events, p. 26.
10
HITCHCOCK, After The Empire, p. 17.
11
Hal LINDSEY, The Late Great Planet Earth, Grand Rapids:
Zondervan Publishing House, 1970, p. 63.
12
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982) 2003, p. 106.
13
Baseado na pesquisa feita pelo programa de computador
Accordance, versão 6.4.
14
A tabela das nações é um termo usado para descrever o
registro dos descendentes de Noé e de seus três filhos:
Sem, Cam e Jafé. Todo ser humano que se encontra no
planeta Terra descende de Noé e de seus três filhos. Se
conseguíssemos traçar nossa genealogia, a ponto de
retroceder ao máximo no registro, constataríamos que
todos nós descendemos de Noé através de Sem, ou de
Cam, ou de Jafé.
15
Chuck MISSLER, The Magog Invasion, Palos Verdes, CA:
Western Front, 1995, p. 29.
16
MISSLER, Magog Invasion, p. 29-31.
17
Flavius JOSEPHUS, Antiquities of the Jews, vol. 1, vi, i, citado
por HITCHCOCK na obra After The Empire, p. 19.
18
BAUMAN, Russian Events, p. 23.
19
Edwin M. YAMAUCHI, Foes from the Northern Frontier, Grand
Rapids: Baker, 1982, p. 62.
3. EZEQUIEL 38.2

“...Filho do homem, volve o rosto contra


Gogue, da terra de Magogue, príncipe de
Rôs, de Meseque e Tubal; profetiza contra
ele”.

Já vimos que o termo Magogue é uma


referência aos antigos Citas, ancestrais daqueles
povos que posteriormente se estabeleceram ao longo
das regiões leste e norte do mar Negro. “Os
descendentes do remoto Magogue – os Citas –
foram os primeiros habitantes do planalto da Ásia
central e, mais tarde, parte dessa população se
deslocou para a região norte do mar Negro. A terra
natal dos antigos Citas é atualmente ocupada por
repúblicas que constituíam a extinta União Soviética,
tais como a do Cazaquistão, Quirguízia,
Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e
Ucrânia”.[1] Mas quem é “o príncipe de Rôs”?
O ATAQUE A RÔS A
IDENTIDADE DE RÔS É
UM DOS ASSUNTOS MAIS
CONTROVERSOS E
DEBATIDOS DE TODA A
PROFECIA REFERENTE A
GOGUE E MAGOGUE,
EMBORA NÃO DEVESSE
SER ASSIM. CREIO QUE
QUANDO SE CONSIDERA
AS EVIDÊNCIAS, A
ESMAGADORA MAIORIA
DOS INDÍCIOS APONTA
PARA O FATO DE QUE
SEJA UMA REFERÊNCIA
AOS RUSSOS DOS DIAS
ATUAIS. CONTUDO,
PRECISAMOS
PRIMEIRAMENTE
ANALISAR AS
EVIDÊNCIAS ANTES DE
CHEGAR A TAL
CONCLUSÃO.
Como crítico de profecia, o preterista Gary
DeMar argumenta que “em Ezequiel 38.2 e 39.1, a
palavra hebraica ro’sh é traduzida como se fosse o
nome de uma nação. Acredita-se que essa nação
seja a Rússia porque a sonoridade do termo Rôs
assemelha-se à da palavra Rússia”.[2] Em seguida,
DeMar faz a seguinte citação: “Edwin M. Yamaushi,
notável historiador e arqueólogo cristão, escreve que
Rôs pode não ter nada a ver com a atual Rússia”.[3]
Num programa de rádio chamado Bible Answer
Man, que foi ao ar em outubro de 2002, o
apresentador, Hank Hanegraaff, perguntou a Gary
DeMar o que ele achava da postura de Tim LaHaye
em identificar Rôs como Rússia, já que essas duas
palavras soam muito parecido. DeMar respondeu:
“A idéia de se utilizar uma palavra do hebraico, que
soa de modo semelhante a uma palavra em inglês,
para, com base nisso, criar toda uma posição
escatológica é... um absurdo”. Como demonstrarei
mais adiante, essa identificação da palavra hebraica
ro’sh com o nome Rússia não se baseia em
semelhança de sonoridade. Isso não passa de um
frívolo espantalho que DeMar constrói para dar a
impressão de que ele faz uma crítica relevante ao
ponto de vista que defendemos nessa questão. Em
seguida DeMar declara: “A melhor tradução do
texto de Ezequiel 38.2 é ‘o príncipe supremo (i.e.
cabeça) de Meseque e Tubal’”.[4]
No que diz respeito à possibilidade de uma
invasão russo-islâmica contra Israel no fim dos
tempos, Marvin Pate e Daniel Hays afirmam
categoricamente o seguinte: “O termo bíblico Rôs
não tem nada a ver com a Rússia”.[5] Esses autores
posteriormente declaram de forma dogmática que
“essas posições não são bíblicas [...] uma invasão da
terra de Israel por parte de uma coalizão islâmica
liderada pela Rússia não está para acontecer”.[6]
Uma questão crucial no processo de definir se
Rôs é ou não uma referência à Rússia está em
determinar se o termo hebraico ro’sh deve ser
entendido como um nome próprio (i.e., o ponto de
vista que o identifica com a Rússia) ou deve ser
interpretado como um adjetivo (i.e., o ponto de vista
que não o identifica com a Rússia) e ser traduzido
em português pela palavra “chefe”. Trata-se de um
divisor de águas para todo aquele que deseja
entender corretamente esse texto das Escrituras.

RAZÕES PELAS QUAIS


RÔS É UMA REFERÊNCIA
À RÚSSIA AGORA
GOSTARIA DE TRATAR
DAS RAZÕES PELAS
QUAIS RÔS DEVE SER
INTERPRETADO COMO UM
SUBSTANTIVO (I.E.,
UM NOME) EM VEZ DE
ADJETIVO, PARA ENTÃO
CONSIDERAR SE É OU
NÃO UMA REFERÊNCIA À
RÚSSIA. A PALAVRA
HEBRAICA RO’SH
SIMPLESMENTE
SIGNIFICA “CABEÇA”,
“TOPO”, “PRINCIPAL”,
OU “CHEFE”.[7] É UM
TERMO BASTANTE
COMUM, MUITO USADO
EM TODAS AS LÍNGUAS
SEMÍTICAS. ELE
OCORRE CERCA DE 750
VEZES NO ANTIGO
TESTAMENTO,
JUNTAMENTE COM SUAS
RAÍZES E DERIVADOS.
[8]
O problema é que a palavra ro’sh que ocorre
em Ezequiel pode ser traduzida tanto como um
nome próprio quanto como um adjetivo. Várias
versões da Bíblia em inglês traduzem o termo ro’sh
como um adjetivo, ao usarem a palavra “chefe”. O
mesmo ocorre com as versões da Bíblia em
português. As versões Almeida Revista e Corrigida
– ARC, Nova Versão Internacional – NVI, Almeida
Corrigida Fiel – ACF e A Bíblia de Jerusalém
adotam essa mesma linha de tradução. Entretanto, as
versões Almeida Revista e Atualizada – ARA e a
Tradução Brasileira traduzem o termo ro’sh como
um nome próprio que indica certa localização
geográfica. O peso da evidência apóia a tradução
desse termo como um nome próprio, numa
confirmação da opção feita por estas últimas
traduções citadas. Há cinco argumentos em favor
dessa concepção interpretativa.
Em primeiro lugar, os eminentes catedráticos
em língua hebraica, C. F. Keil e Wilhelm Gesenius,
defendem a concepção de que a melhor tradução do
termo ro’sh em Ezequiel 38.2-3 e Ezequiel 39.1 é a
de um nome próprio que se refere a uma localização
geográfica.[9] Gesenius, que faleceu em 1842 e é
considerado pela moderna erudição em linguística
como um dos mais notáveis catedráticos da língua
hebraica, demonstrou sua plena convicção de que o
termo Rôs (do heb. ro’sh), referido em Ezequiel 38,
é um nome próprio que identifica a Rússia. Ele
asseverou que a palavra Rôs, em Ezequiel 38.2,3 e
39.1, é um “nome próprio que designa uma nação
do norte, mencionada junto com Meseque e Tubal;
sem sombra de dúvida uma referência aos Russos,
os quais são citados pelos escritores bizantinos do
século X, sob o designativo os Rôs, que habitavam
ao norte do Tauro [...] vivendo às margens do rio
Rha (i.e., rio Volga)”.[10]
Essa identificação feita por Gesenius não pode
ser tratada com indiferença, como DeMar tenta
tratá-la. Até onde se sabe, Gesenius nem mesmo era
um pré-milenista. Ele não tinha nenhum esquema
escatológico do fim dos tempos ao qual se apegar.
No entanto, Gesenius declara sem hesitar que o
termo ro’sh, mencionado nos capítulos 38 e 39 de
Ezequiel, refere-se à Rússia. Na edição original de
seu léxico, publicada em latim, Gesenius reserva
quase uma página inteira de notas que tratam da
palavra Rôs e do povo de Rôs citados em Ezequiel
38–39. Essa página de notas não consta de nenhuma
das traduções do léxico de Gesenius em inglês.
Aqueles que discordam de Gesenius não
conseguiram refutar o considerável conjunto de
evidências que ele apresentou para demonstrar que
Rôs é a Rússia.[11] Eu não sei o que DeMar diria
acerca dessas evidências, já que em seus escritos ele
nunca comentou a respeito.
Em segundo lugar, a Septuaginta, que vem a
ser a tradução grega do Antigo Testamento, traduz o
termo hebraico ro’sh pelo nome próprio Ros. Tal
fato é especialmente relevante porque a Septuaginta
foi traduzida apenas três séculos depois que o livro
de Ezequiel foi escrito (obviamente muito mais
próximo do original que qualquer tradução
moderna).[12] A tradução errônea que muitas
versões modernas apresentam do termo ro’sh como
um adjetivo (i.e., “cabeça” ou “chefe”) remonta à
Vulgata Latina elaborada por Jerônimo, a qual só
surgiu por volta do ano 400 d.C.[13] James Price,
titulado com um Ph.D. em língua hebraica pela
Universidade de Dropsie que, em termos
acadêmicos, é a mais proeminente universidade
judaica dos Estados Unidos, afirma o seguinte: “A
origem da tradução ‘...príncipe e chefe de Meseque
e de Tubal’ remonta à Vulgata Latina. Os primeiros
tradutores da Bíblia para a língua inglesa
dependeram demasiadamente da versão latina
quando precisavam de ajuda na tradução de textos
mais difíceis. É evidente que eles adotaram a opção
feita por Jerônimo no texto de Ez 38.2,3 e 39.1”.
[14] Price ainda explica a razão dessa tradução
errônea nos seguintes termos: Por volta do segundo
século d.C., a familiaridade com a antiga terra de
Rôs evidentemente diminuíra. O fato de que a
palavra hebraica ro’sh era de uso comum para
designar o conceito de “cabeça” ou “chefe”,
influenciou Áquila a interpretar ro’sh como um
adjetivo, contrariando a LXX [i.e., Septuaginta] e a
normalidade das convenções gramaticais. Jerônimo
adotou o precedente aberto por Áquila e, assim,
restringiu ainda mais o conhecimento da antiga Rôs,
ao remover seu nome da Bíblia Latina.
Por volta do sexto século d.C., a antiga Rôs já se
tornara totalmente desconhecida no Ocidente, de
modo que os primeiros tradutores da Bíblia para o
inglês foram influenciados pela Vulgata Latina na
violação das normas gramaticais hebraicas ao
traduzirem o texto de Ezequiel 38–39. Depois que o
precedente foi aberto em inglês, todas as versões
inglesas subseqüentes o perpetuaram até este século
[i.e., o século vinte], quando algumas versões
modernas se tornaram exceção. Esse antigo e errôneo
precedente não deve ser perpetuado.[15]

Clyde Billington explica o motivo pelo qual


Jerônimo contrariou a esmagadora evidência para
optar por uma tradução que se desvia do padrão de
normalidade: O próprio Jerônimo admite que não
baseou sua decisão em considerações gramaticais!
Ao que parece, Jerônimo percebeu que a gramática
hebraica favorece a tradução “... príncipe de Rôs, de
Meseque e Tubal”, e não dá apoio à própria
tradução por ele feita nos seguintes termos: “...
príncipe-chefe de Mosoch et Thubal”. Contudo
Jerônimo negou-se a traduzir o termo hebraico ro’sh
como um nome próprio porque “não conseguimos
encontrar nenhuma menção do nome dessa raça
[i.e., o povo de Rôs] em Gênesis, nem noutros
lugares das Escrituras, muito menos nos escritos de
Josefo”. Foi esse argumento não gramatical que
convenceu Jerônimo a adotar a opção feita por
Áquila de traduzir o termo ro’sh como um adjetivo
[i.e., “chefe”] em Ezequiel 38–39.[16]
Em terceiro lugar, muitos dicionários e
enciclopédias bíblicos, ao tratarem do termo Rôs,
apóiam a concepção de que se trata de um nome
próprio nas suas ocorrências em Ezequiel 38, a
exemplo do Novo Dicionário da Bíblia, do Wycliffe
Bible Dictionary e da International Standard Bible
Encyclopedia.
Em quarto lugar, o termo Rôs é mencionado,
pela primeira vez, em Ezequiel 38.2, para então ser
repetido em Ezequiel 38.3 e 39.1. Se o termo
hebraico ro’sh fosse simplesmente um título, é muito
provável que fosse omitido nestas duas últimas
ocorrências, visto que, na língua hebraica, os títulos
são geralmente abreviados quando se repetem.

NOTAS
1
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 23.
2
Gary DEMAR, Last Days Madness: Obsession of the
Modern Church, Powder Springs, GA: American Vision,
1999, p. 363.
3
DEMAR, Last Days Madness, p. 363. Citação extraída da
obra de Edwin M. YAMAUCHI intitulada Foes from the
Northern Frontier: Invading Hordes from the Russian
Steppes, Grand Rapids: Baker Book House, 1982, p. 20.
4
DEMAR, Last Days Madness, p. 365.
5
C. Marvin PATE e J. Daniel HAYS, Iraq-Babylon of the End
Times?, Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 69.
6
PATE e Hays, Iraq, p. 136.
7
Francis BROWN, S. R. DRIVER, and C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
8
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 6.4.
9
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido por James Martin, reimpressão,
Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1982, p.
159. Wilhelm GESENIUS, Gesenius’ Hebrew-Chaldee
Lexicon to the Old Testament, reimpressão, Grand Rapids:
Eerdmans Publishing Company, 1949, p. 752.
10
GESENIUS, Lexicon, p. 752.
11
Clyde E. BILLINGTON, Jr., “The Rosh People in History and
Prophecy (Part One)”, publicado no periódico Michigan
Theological Journal 3:1, edição de primavera, 1992, p. 62-
63.
12
As antigas traduções gregas elaboradas por Símaco e
Teodócio também traduziram o termo hebraico ro’sh,
mencionado em Ezequiel 38–39, por um nome próprio.
BILLINGTON, “The Rosh People in History and Prophecy (Part
One)”, p. 59.
13
Clyde E. BILLINGTON, Jr., “The Rosh People in History and
Prophecy (Part Two)”, publicado no periódico, Michigan
Theological Journal 3:1, edição de primavera, 1992, p. 54-
61.
14
James D. PRICE, “Rosh: An Ancient Land Known to Ezekiel”,
publicado no periódico Grace Theological Journal 6:1,
1985, p. 88.
15
PRICE, “Rosh: An Ancient Land”, p. 88.
16
BILLINGTON, “The Rosh People in History and Prophecy (Part
One)”, p. 60.
4. EZEQUIEL 38.2
(CONT. 1) “FILHO
DO HOMEM, VOLVE O
ROSTO CONTRA
GOGUE, DA TERRA DE
MAGOGUE, PRÍNCIPE
DE RÔS, DE MESEQUE
E TUBAL; PROFETIZA
CONTRA ELE”.

Num quinto argumento, a evidência mais


contundente em favor da interpretação do termo
hebraico ro’sh como um nome próprio, é o simples
fato de que tal tradução é a mais precisa. G. A.
Cooke, um catedrático em hebraico, traduz o texto
de Ezequiel 38.2 desta forma: “...o governante de
Rôs, Meseque e Tubal”. Segundo ele, esse “é o
modo mais natural de se traduzir o texto hebraico”.
[1] Por que essa seria a maneira mais natural de se
traduzir o texto hebraico? O termo ro’sh ocorre no
estado construto da sintaxe hebraica na relação com
Meseque e Tubal, formando uma seqüência
gramatical de três substantivos. Alguns preferem
dizer que ro’sh é um substantivo que funciona como
um adjetivo, já que deveria haver uma conjunção
“e” se a intenção fosse a de constituir uma seqüência
de três substantivos. A mesmíssima construção
hebraica ocorre no texto de Ezequiel 38.8, bem
como em 27.13, e nessas passagens os gramáticos
identificam claramente uma sequência de três
substantivos, ainda que originalmente não conste a
conjunção “e” em todos os termos desses dois
textos. As gramáticas hebraica e árabe apóiam o uso
de ro’sh como um substantivo (veja, também,
Ezequiel 38.3 e 39.1). Na realidade, a sintaxe
hebraica exige que o termo ro’sh seja traduzido
como um substantivo. Nunca houve nenhum
precedente na gramática hebraica que possa ser
citado em favor da tradução do termo ro’sh como
um adjetivo. Pelo contrário, na sintaxe hebraica não
se pode quebrar a cadeia de construto dos três
substantivos que se encontram nesse tipo de arranjo
gramatical.[2] Randall Price, outro erudito em língua
hebraica, declara: “tanto no âmbito linguístico
quanto no âmbito histórico, o argumento em favor
de se traduzir o termo ro’sh por um nome próprio
em vez de um adjetivo é sólido e convincente”.[3]
À luz de evidências tão contundentes, não é de
admirar que o catedrático em língua hebraica, James
Price, chegue à seguinte conclusão: Já foi
comprovado que ro’sh era um lugar bem conhecido
na antigüidade, como atestam as numerosas e
variadas referências a esse nome na literatura antiga.
Também já foi demonstrado que a ocorrência de um
adjetivo entre um substantivo no estado construto e
seu nomen rectum é altamente improvável, não
havendo nenhum exemplo claro de tal ocorrência na
Bíblia Hebraica. Além do mais, já ficou provado
que a interpretação de ro’sh como um substantivo
está em perfeita harmonia com a sintaxe e com a
gramática da língua hebraica. Conclui-se, portanto,
que ro’sh não pode ser tratado como um adjetivo
nas referências que são feitas em Ezequiel 38–39,
mas deve ser interpretado como um substantivo. Por
isso, a única tradução adequada da frase que se
encontra em Ez 38.2,3 e 39.1 é: “... príncipe de
Rôs, de Meseque e Tubal”.[4]
Clyde Billington afirma que “os parâmetros da
língua hebraica [...] determinam que ro’sh seja
traduzido como um nome próprio, não como um
adjetivo, [...] Não obstante, é preciso salientar que
os argumentos gramaticais em favor da tradução de
ro’sh como um nome próprio nos capítulos 38 e 39
de Ezequiel são argumentos conclusivos que
realmente não deixam nenhuma abertura relevante
para um debate”.[5] O que Gary DeMar diria sobre
essas evidências? Eu não sei, já que nunca o vi fazer
qualquer referência a tais argumentos. DeMar é
meramente propenso a fazer declarações dogmáticas
contrárias a isso, sustentando sua posição sem
fundamentá-la em evidências concretas.
Portanto, após demonstrar que ro’sh deve ser
traduzido como um nome próprio de âmbito
geográfico, nossa próxima tarefa é definir
geograficamente a que localidade se refere.

EVIDÊNCIAS
HISTÓRICAS E
GEOGRÁFICAS QUE
IDENTIFICAM RÔS COM
A RÚSSIA CLYDE
BILLINGTON ESCREVEU
UMA SÉRIE DE TRÊS
ENSAIOS ACADÊMICOS
PARA UM JORNAL
TEOLÓGICO NOS QUAIS
APRESENTA VASTA
EVIDÊNCIA HISTÓRICA,
GEOGRÁFICA E
TOPONÍMICA[6] DE QUE
O NOME RÔS [DO HEB.
RO’SH] NÃO SOMENTE
DEVE SER, MAS
REALMENTE É
IDENTIFICADO COMO O
POVO RUSSO DA
ATUALIDADE.[7] NA
APRESENTAÇÃO DE SUA
PESQUISA ELE
INTERAGE COM OS
MELHORES COMENTÁRIOS
E COM AS MAIS
DESTACADAS
AUTORIDADES DE
NOSSOS DIAS.
BILLINGTON COMENTA:
“TAMBÉM FICA CLARO
QUE JERÔNIMO, AO
DECIDIR PELA
TRADUÇÃO DE RO’SH
COMO UM ADJETIVO EM
VEZ DE UM NOME
PRÓPRIO, BASEOU SUA
DECISÃO NUM
ARGUMENTO
AGRAMATICAL, A
SABER, QUE UM POVO
DENOMINADO RO’SH NÃO
É REFERIDO NA
BÍBLIA, NEM NOS
ESCRITOS DE JOSEFO”.
[8] CONTUDO, HÁ
CONSIDERÁVEL
EVIDÊNCIA HISTÓRICA
EM FAVOR DO FATO DE
QUE UM LUGAR
DENOMINADO RO’SH ERA
BEM CONHECIDO NO
MUNDO ANTIGO. AINDA
QUE ESSA PALAVRA
OCORRA NUMA
VARIEDADE DE
LÍNGUAS, NAS QUAIS
PODEM OCORRER
DIVERSAS FORMAS DE
GRAFIA, É BASTANTE
EVIDENTE QUE O TERMO
SE REFERE AO MESMO
POVO EM QUESTÃO.
Na realidade, é muito provável que o nome Rôs
derive do nome Tiras, mencionado na tabela das
nações, conforme consta em Gênesis 10.2.
Billington ressalta a tendência acádia de suprimir ou
alterar o som da letra “t” no início de um nome,
especialmente se a sonoridade da letra “t” inicial for
seguida pelo som da letra “r”. Se a letra “t” no início
do nome Tiras for suprimida, restará o termo “Ras”.
[9] É coerente que Ras ou Rôs seja relacionado em
Gênesis 10, uma vez que todas as outras nações
referidas em Ezequiel 38.1-6 já tinham sido alistadas
naquele texto. Isso significa que é errônea a alegação
feita por Jerônimo de que ro’sh não ocorre na Bíblia
nem nos escritos do historiador Josefo. Se Tiras e
seus descendentes são aparentemente o mesmo povo
que, mais tarde, veio a ser denominado de Rôs,
pode-se dizer, então, que Rôs é aludido tanto na
tabela das nações quanto nos escritos de Josefo.
Rôs (ou Ras) é identificado nas inscrições
egípcias como um lugar que já existia em 2600 a.C.
Há uma inscrição egípcia posterior, datada
aproximadamente de 1500 a.C., que se refere a uma
terra chamada Reshu localizada ao norte do Egito.
[10] O nome geográfico Ro’sh (ou seus equivalentes
nos respectivos idiomas) é encontrado pelo menos
vinte vezes em outros documentos da antiguidade.
Ocorre três vezes na Septuaginta (cuja sigla é LXX),
dez vezes nas inscrições do rei Sargão, uma vez no
cilindro de Assurbanipal, dez vezes nos anais de
Senaqueribe e cinco vezes nas inscrições das
tabuinhas ugaríticas.[11] Billington rastreia o povo
de Rôs, desde os seus registros históricos mais
remotos até os dias do profeta Ezequiel, já que tal
povo é mencionado várias vezes durante esse
período histórico.[12]
É evidente que Rôs ou Tiras era um lugar bem
conhecido nos dias de Ezequiel. No século VI a.C.,
época em que Ezequiel escreveu sua profecia, vários
agrupamentos do povo de Rôs viviam numa região
situada ao norte do mar Negro. Ao nos
aproximarmos do século VIII a.C., Billington cita
uma série de referências históricas para demonstrar
que “há evidência sólida de que um dos
agrupamentos do povo de Rôs estava relacionado
com as montanhas do Cáucaso”.[13] Acerca desse
mesmo período de tempo, Billington acrescenta:
“Até existe um documento cuneiforme da época do
reinado do rei assírio Sargão II (o qual governou
entre 722-705 a.C.) que, na verdade, especifica os
nomes de todos os três povos [i.e., Rôs, Meseque,
Tubal] mencionados por Ezequiel nos capítulos 38 e
39”.[14] Billington conclui essa seção de sua
pesquisa histórica da seguinte maneira: Portanto, nos
registros assírios dos séculos IX – VII a.C. há
evidências históricas irrefutáveis em favor da
existência de um povo denominado Rôs/Rashu.
Essas mesmas fontes assírias também mencionam
Meseque e Tubal, nomes estes que aparecem junto
com o nome de Rôs em Ezequiel 38–39. É obvio
que os Assírios tinham conhecimento do povo de
Rôs, assim como Ezequiel os conhecia. Deve-se
salientar que Ezequiel escreveu o Livro de Ezequiel
apenas cerca de 100 anos após a escrita dos textos
assírios que ainda existem e mencionam os povos de
Rôs, Meseque e Tubal.[15]

SERÁ QUE O NOME


RÚSSIA DERIVA DO
NOME RÔS?
O antigo povo de Rôs, que numa retrospectiva
remonta a Tiras, um dos filhos de Jafé (Gn 10.2), e
que migrou para as montanhas do Cáucaso no sul da
Rússia, é uma das fontes genéticas da composição
étnica do povo russo atual. Contudo, será que o
nome Rússia é originário do termo bíblico Rôs
usado em Ezequiel 38.2? Já constatamos que
Marvin Pate e Daniel Hays afirmaram
categoricamente: “O termo bíblico Rôs não tem
nada a ver com a Rússia”.[16] A afirmação desses
dois autores é típica da mentalidade de muitos
críticos atuais. Mas será que o peso da evidência
conduz realmente a tal conclusão? Não creio! Passo
a enunciar as razões pelas quais discordo.
Em primeiro lugar, precisamos estar cientes de
que o Antigo Testamento hebraico foi traduzido
para a língua grega durante o terceiro século a.C.,
tradução essa que ficou conhecida como
Septuaginta (cuja abreviatura é LXX). A
Septuaginta traduziu a palavra hebraica ro’sh em
todas as suas ocorrências no Antigo Testamento pela
palavra grega Ros (ou Rhos). A Igreja em seus
primórdios adotou com muita frequência a
Septuaginta como seu Antigo Testamento preferido.
A Septuaginta até hoje é usada nos países de fala
grega como a principal tradução do Antigo
Testamento. Billington nos diz: “Os primeiros
escritores cristãos ortodoxos gregos, fazendo uso do
modo pelo qual a Septuaginta transliterou o nome
hebraico ro’sh [pelo termo Ros], identificaram o
povo de Rôs, citado nos capítulos 38 e 39 de
Ezequiel, com a etnia Rus localizada no norte da
Rússia e da Ucrânia”.[17] Esses povos seriam
aqueles que viviam próximo, mais precisamente ao
norte, dos povos de fala grega. Tamanha
proximidade pode significar que eles tinham total
clareza acerca de quem identificavam e, de fato,
esses escritores os identificaram como sendo o povo
de Rôs. Maranata!
NOTAS: 1 G. A. COOKE, A CRITICAL AND EXEGETICAL
COMMENTARY ON THE BOOK OF EZEKIEL, THE
INTERNATIONAL CRITICAL COMMENTARY, ORG.,
EDIMBURGO: T & T CLARK, 1936, P. 408-09.
JOHN B. TAYLOR CONCORDA COM COOKE AO AFIRMAR
QUE “SE UM NOME DE LUGAR PODE SER
CONFIRMADO, A MELHOR TRADUÇÃO SERIA, ENTÃO,
‘PRÍNCIPE DE RÔS, DE MESEQUE E DE TUBAL’”.
JOHN B. TAYLOR, EZEKIEL: AN INTRODUCTION &
COMMENTARY, TYNDALE OLD TESTAMENT
COMMENTARIES, ORG. GERAL, E D. J. WISEMAN,
DOWNERS GROVE, IL: INTER-VARSITY PRESS,
1969, P. 244. PORTANTO, ESSA VEM A SER A
TRADUÇÃO POR EXCELÊNCIA. PARA TER ACESSO A
UMA EXPLANAÇÃO MAIS DETALHADA E COMPLETA DO
EMBASAMENTO GRAMATICAL E FILOLÓGICO QUE
FAVORECE A TRADUÇÃO DE RÔS COMO UM NOME DE
LUGAR, VEJA: JAMES D. PRICE, “ROSH: AN
ANCIENT LAND KNOWN TO EZEKIEL”, PUBLICADO NO
GRACE THEOLOGICAL JOURNAL 6:1, 1985, P. 67-
89.
2
Resumo gramatical proveniente da obra de Jon Mark
RUTHVEN, The Prophecy That Is Shaping History: New
Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA: Xulon
Press, 2003, p. 21-23.
3
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra organizada por
Tim LAHAYE e Ed HINDSON, The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p. 190.
4
PRICE, “Rosh: An Ancient Land,”, p. 88-89.
5
Clyde E. BILLINGTON, Jr. “The Rosh People in History and
Prophecy”, Parte 1, publicado no Michigan Theological
Journal 3:1, Edição de Primavera, 1992, p. 56.
6
Toponímico se refere à ciência que estuda os nomes dos
lugares.
7
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 1, p. 55-65; Clyde E.
BILLINGTON, Jr., “The Rosh People in History and Prophecy”,
Parte 2, Michigan Theological Journal 3:2, Edição de
Outono, 1992, p. 144-75; Clyde E. BILLINGTON, Jr., “The Rosh
People in History and Prophecy”, Parte 3, Michigan
Theological Journal 4:1, Edição de Primavera, p. 36-63.
8
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 1, p. 56.
9
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 166-67.
10
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 145-46.
11
PRICE, “Rosh: An Ancient Land”, p. 71-73.
12
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 143-59.
13
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 170.
14
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 170.
15
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 2, p. 172.
16
C. Marvin PATE e J. Daniel HAYS, Iraq – Babylon of the End
Times?, Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 69.
17
BILLINGTON, “The Rosh People”, Parte 3, p. 39.
5. EZEQUIEL 38.2
(CONT. 2)

“Filho do homem, volve o rosto contra


Gogue, da terra de Magogue, príncipe de
Rôs, de Meseque e Tubal; profetiza contra
ele”.

Nos capítulos anteriores já verificamos que a


versão grega do Antigo Testamento traduziu o termo
hebraico ro’sh como um nome próprio e o
identificou com o povo que habitava na região sul da
Rússia e na Ucrânia. Tal tradução indica que os
judeus de fala grega residentes no norte da África
acreditavam que Rôs era um nome próprio e se
referia a um povo conhecido. Após fornecer uma
quantidade impressionante de informações para
defender a concepção de que o antigo povo de Rôs
se identifica com os russos da atualidade, Clyde
Billington declara:
Portanto, é praticamente certo que o antigo povo a
quem os gregos denominavam de Tauroi / Tursenoi era
idêntico ao povo conhecido na Bíblia como “Tiras”.
Esse mesmo povo de Tiras, mencionado em Gênesis
10.2, também era conhecido em outras línguas por
uma variedade de nomes que se baseavam no nome
“Tiras”. Observe, por exemplo, os seguintes nomes:
Taruisha (em língua hitita), Turus / Teresh (em
egípcio), Tauroi Tursenoi (em grego) e Tauri Etruscan
(em latim).[1]

Em segundo lugar, Billington afirma: “A partir


de uma variedade de fontes, sabe-se que um povo
denominado Rôs ou Rus vivia na mesma área
próxima ao mar Negro, onde o povo Tauroi
habitava”.[2] Billington ainda nos diz que “os
primeiros escritores cristãos bizantinos identificaram
o povo de Rôs, mencionado em Ezequiel 38–39,
com um antigo agrupamento populacional do sul da
Rússia ao qual chamavam de Ros”.[3] Além disso,
temos a informação de que “os gregos bizantinos
usaram a grafia da LXX [i.e., da Septuaginta] para
esse nome (i.e., Ros), porque inquestionavelmente
identificaram o povo Ros Rus russo que vivia no sul
da Rússia como o povo Rôs mencionado em
Ezequiel 38–39”.[4]
Em terceiro lugar, “é fato notório que o
primeiro Estado Russo foi fundado por um povo
conhecido como Varegues de Rus”.[5] Muitos
estudiosos da atualidade, como Edwin Yamauchi,
defendem a concepção de que o nome Rus, do qual
deriva o nome Rússia da atualidade, é uma palavra
finlandesa que se refere aos invasores suecos que
vieram do norte, não do povo Rôs que habitava no
sul. Ele afirma que o designativo Rus só foi referido
naquela região a partir da Idade Média, quando foi
trazido pelos Vikings.[6] Entretanto, apesar de
Yamauchi ser um acadêmico respeitado, sua
conclusão dogmática está em franca oposição à
sólida evidência histórica exposta pelo catedrático
em língua hebraica Gesenius, bem como por James
Price e Clyde Billington.
Billington apresentou seis objeções à alegação
feita por Yamauchi de que Rus é originário do norte
e não do sul. Na primeira objeção, o uso bizantino
do termo Rus para se referir àqueles que
posteriormente vieram a ser chamados de russos
antecede em centenas de anos o argumento de que é
oriundo do norte. A segunda objeção baseia-se no
fato de que as fontes bizantinas nunca se referiram a
Rôs como um povo que imigrou do norte para o sul.
Eles “viveram por muito tempo na região do mar
Negro, da Rússia, da Ucrânia e da Criméia, e
nenhuma fonte bizantina faz qualquer menção de
que sua terra natal fosse a Escandinávia”.[7]
Na terceira objeção, uma vez que várias formas
de grafia referentes ao povo de Rôs foram usadas no
decorrer da história e remontam ao segundo século
a.C., é muito improvável que os finlandeses tenham
inventado o nome Rus.
Na quarta objeção, “não há nenhuma razão
plausível que obrigasse o povo de Rôs a adotar o
nome estrangeiro finlandês “Ruotsi”, após migrar
para o sul da Rússia”.[8]
Na quinta objeção, “todos os eruditos da
atualidade concordam que os Varegues nunca se
denominaram “Rôs” (nem foram assim chamados
pelos outros povos) quando viviam perto dos
finlandeses na Escandinávia”.[9]
Na sexta e última objeção, os registros
Bizantinos e Ocidentais indicam que houve um povo
localizado no sul da Rússia que já se denominava
“Rus”, muitos anos antes da invasão de povos
oriundos do norte.[10]
Quando se faz uma análise cuidadosa das
evidências históricas, fica claro que os Varegues que
migraram da Escandinávia para o sul da Rússia eram
denominados de “Rus” e já eram conhecidos por
esse nome muitos anos antes de se mudarem para
aquela região. Billington resume nos seguintes
termos: “como foi demonstrado no argumento
acima, o povo Rus Varegue recebeu esse nome em
decorrência do nome que designava o povo nativo,
chamado Rôs, que em tempos remotos viveu no
território situado ao norte do mar Negro. Em outras
palavras, houve dois povos chamados Rôs: o povo
original Rôs Sármata e o povo Varegue Rus”.[11]
A essa altura, já deve estar claro que o termo
Rôs de fato se refere ao atual povo russo. As
evidências, tanto gramaticais quanto históricas,
foram apresentadas. Essa é a razão pela qual eu
concordo com todas as conclusões de Billington,
quando declara:
1. O texto de Ezequiel 38–39 realmente
menciona um povo chamado Rôs que, nos Últimos
Dias, será aliado de Meseque, Tubal e Gogue.
2. Houve povos denominados Rôs que viveram
ao norte de Israel nas montanhas do Cáucaso e ao
norte dos mares Negro e Cáspio.
3. Um dos povos denominados Rôs que viviam
ao norte de Israel, veio, com o passar do tempo, a se
chamar “Russos”.
4. O nome Russo deriva do termo “Rôs” (do
heb. ro’sh) que se encontra no texto de Ezequiel 38–
39.
5. Portanto, fica claro que, nos Últimos Dias,
os povos russos estarão envolvidos na invasão da
terra de Israel junto com Meseque, Tubal e Gogue.
[12]

QUEM É MESEQUE?
Agora, volto-me para tarefa bem mais fácil de
identificar a quem o termo “Meseque” se refere. O
nome “Meseque” ocorre 10 vezes no Antigo
Testamento Hebraico,[13] o que inclui sua primeira
ocorrência na Tabela das Nações (Gn 10.2). Em
Gênesis 10, Meseque é alistado como um dos filhos
de Jafé. A linhagem genealógica de Gênesis 10 se
repete por duas vezes no livro de Crônicas (1Cr
1.5,17). Além das referências feitas no Salmo 120.5
e em Isaías 66.19, as outras ocorrências do nome
Meseque se encontram em Ezequiel (Ez 27.13;
32.26; 38.2,3; 39.1). Todas as referências feitas nos
capítulos 38 e 39 de Ezequiel agrupam “Rôs,
Meseque e Tubal”, tal como acontece no texto de
Isaías 66.19, todavia numa ordem diferente. Mark
Hitchcock diz o seguinte:
Tudo o que se sabe no Antigo Testamento sobre
Meseque é que ele e seus parceiros, Javã e Tubal,
negociavam com a antiga cidade de Tiro, exportando
escravos e utensílios de bronze em troca das
mercadorias de Tiro. É só isso que a Bíblia menciona
sobre o Meseque da antiguidade. No entanto, a
história antiga tem muito a nos dizer sobre o povo do
Meseque da antiguidade e sua localização.[14]

No passado, alguns estudiosos da Bíblia


ensinaram que Meseque é uma referência a Moscou
e, portanto, diz respeito à Rússia. Esse é o ponto de
vista da Bíblia de Scofield, de Harry Rimmer[15] e
de Hal Lindsey.[16] Sobre Meseque, Rimmer
afirma: “Seus descendentes vieram a ser chamados
de ‘Mushki’, de onde se origina o velho termo
‘Moscovitas’. Com o tempo, este último termo
passou a ser usado para designar todos os russos
oriundos de Moscou e seus arredores”.[17] A
identificação de Meseque com Moscou baseia-se
pura e simplesmente numa semelhança de
sonoridade. Não existe nenhum embasamento real e
histórico que apoie essa concepção, pelo que deve
ser rejeitada.
Em sua dissertação sobre a tabela das nações,
Allan Ross, fundamentado nas informações
históricas e bíblicas, declara:
Tubal e Meseque sempre são mencionados juntos na
Bíblia. Eles são os representantes das nações militares
do norte que exportavam escravos e cobre (Ezequiel
27.13; 38.2; 39.1; 32.26 e Isaías 66.19). Heródoto
situou a localização desses povos na costa norte do
Mar Negro (III, 94). Josefo os identificou como sendo
os Capadócios [...] Meseque deve se localizar na
região dos montes Moschian próxima à Armênia. Seu
movimento migratório ocorreu em direção ao norte, a
partir do leste da Ásia Menor até o mar Negro.[18]

A região situada a sudeste do mar Negro


corresponde na atualidade ao território da Turquia.
Hitchcock comenta: “Em todos os momentos que
marcaram a história do povo de Meseque, eles
ocupavam o território que atualmente pertence à
nação da Turquia”.[19] Não se trata de uma
conclusão polêmica, já que praticamente todos os
especialistas no assunto concordam com esse ponto
de vista.

QUEM É TUBAL?
O nome “Tubal” ocorre 8 vezes na Bíblia
Hebraica[20] (Gn 10.2; 1Cr 1.5; Is 66.19; Ez 27.13;
32.26; 38.2,3; 39.1). Na tabela das nações (Gn
10.2), Tubal é identificado como o quinto filho de
Jafé e irmão de Meseque. Como já foi mencionado
por Ross, todas as vezes que a Bíblia faz referência
a Tubal, o nome deste é relacionado junto com o de
Meseque, tal como se verifica em Ezequiel 28.
Alguns mestres da profecia bíblica têm
ensinado que Tubal é a origem da atual cidade de
Tobolsk na Rússia. Esse ponto de vista se tornou
popular por influência da Bíblia de Scofield e de
vários outros catedráticos. Entretanto, como se deu
no caso de Meseque, tal concepção se desenvolveu a
partir da semelhança fonética entre Tubal e Tobolsk,
carecendo, portanto, de um sólido embasamento
histórico. O registro histórico, à semelhança do que
ocorreu com Meseque, indica que Tubal e seus
descendentes imigraram para a região situada a
sudeste do mar Negro onde hoje se localiza a
Turquia. É evidente que os povos de Meseque e
Tubal formaram a base populacional do país que na
atualidade chamamos de Turquia.
Nos dias atuais, a Turquia é considerada um
país secularizado e laico. Contudo, a história da
Turquia revela um país que durante muito tempo foi
dominado pelo islamismo e que, por centenas de
anos, encabeçou o Império Muçulmano. A Turquia
está apenas a um passo de voltar à sua herança
política islâmica, o que proporcionaria aquele
ingrediente que faltava para se aliar com os outros
países muçulmanos que um dia invadirão Israel.
Maranata!
NOTAS
1
Clyde E. BILLINGTON, Jr., “The Rosh People in History and
Prophecy”, Parte 3, Michigan Theological Journal 4:1,
Edição de Primavera, 1993, p. 42-44.
2
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 44.
3
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 48.
4
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 50.
5
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 51.
6
Edwin M. YAMAUCHI, Foes from the Northern Frontier, Grand
Rapids, MI: Baker, 1982, p. 20.
7
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 52.
8
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 53.
9
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 53.
10
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 52-53.
11
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 57.
12
BILLINGTON, Op. cit., Parte 3, p. 62.
13
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computação Accordance, versão 6.9.2.
14
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 56.
15
Harry RIMMER, The Coming War and the Rise of Russia,
Grand Rapids: Eerdmans, 1940, p. 55-56.
16
Hal LINDSEY, The Late Great Planet Earth, Grand Rapids:
Zondervan, 1970.
17
RIMMER, The Coming War, p. 55-56.
18
Allen P. ROSS, “The Table of Nations in Genesis”,
dissertação apresentada para obtenção do título de ThD,
Dallas Theological Seminary, 1976, p. 204-05.
19
Mark HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis: Radical Islam, Oil,
And The Nuclear Threat, Sisters, OR: Multnomah, 2006, p.
184.
20
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computação Accordance, versão 6.9.2.
6. EZEQUIEL 38.2-
4

“Filho do homem, volve o rosto contra


Gogue, da terra de Magogue, príncipe de
Rôs, de Meseque e Tubal; profetiza contra ele
e dize: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu
sou contra ti, ó Gogue, príncipe de Rôs, de
Meseque e Tubal. Far-te-ei que te volvas,
porei anzóis no teu queixo e te levarei a ti e
todo o teu exército, cavalos e cavaleiros,
todos vestidos de armamento completo,
grande multidão, com pavês e escudo,
empunhando todos a espada”.

Agora que os participantes dessa invasão já


foram identificados no versículo 2, passo a
considerar aquilo que a Palavra do Senhor declara
sobre eles. Na primeira parte do versículo,
constatamos que Ezequiel é orientado a voltar seu
rosto na direção daquela coalizão de nações. Essa
declaração implica que se trata realmente de um
grupo de nações historicamente conhecidas. No final
do versículo 2 temos a informação de que Ezequiel
devia profetizar “...contra ele...”. O pronome “ele”
se refere a Gogue, o líder da invasão. O verbo
hebraico traduzido por “profetizar” é uma palavra de
uso comum e nesse contexto transmite a noção de
que Ezequiel estava para contar antecipadamente a
história futura de Gogue e da coalizão de nações por
ele encabeçada. A preposição hebraica traduzida por
“contra” comunica a idéia de que não se trata de
uma profecia positiva e benéfica para Gogue e seus
aliados. Pelo contrário, tal profecia é contrária a
Gogue porque Deus se opôs a ele, como
confirmaremos gradativamente na continuação desse
texto.

DEUS CONTRA GOGUE NO


VERSÍCULO 3, O
SENHOR DEUS MANDA
EZEQUIEL ANUNCIAR
QUE ELE (I.E., DEUS)
É CONTRA GOGUE. A
PREPOSIÇÃO “CONTRA”,
MENCIONADA NO
VERSÍCULO 3, É
DIFERENTE DAQUELA
QUE É USADA NO
VERSÍCULO 2. AQUI NO
VERSÍCULO 3, A
PREPOSIÇÃO “CONTRA”
COMUNICA A IDÉIA DE
MOVIMENTO, DE MODO
QUE A AÇÃO DESSA
PROFECIA ENUNCIADA
POR DEUS SE DIRIGE
CONTRA GOGUE. AS
DUAS PREPOSIÇÕES SÃO
MUITO SEMELHANTES E
PARECE QUE AMBAS SÃO
USADAS PARA
ENFATIZAR O FATO DE
QUE DEUS ESTÁ CONTRA
GOGUE. COMO
OBSERVAREMOS MAIS
ADIANTE NESSE TEXTO,
É PROVÁVEL QUE GOGUE
PENSE QUE É O GRANDE
ARTICULADOR DESSA
COALIZÃO PARA ATACAR
ISRAEL, MAS, NA
REALIDADE, É DEUS
QUEM, NO FIM DAS
CONTAS, PROMOVE ESSE
TREMENDO
ACONTECIMENTO
(CONFIRA OS
VERSÍCULOS 4 E 8). A
DISPOSIÇÃO DE SE
COLOCAR CONTRA
GOGUE, VERIFICADA
NOS VERSÍCULOS 2 E
3, ABRE O CAMINHO
PARA O CLARO
PRONUNCIAMENTO QUE
DEUS FAZ NO
VERSÍCULO 4.
“ANZÓIS NO TEU
QUEIXO”
A primeira frase do versículo 4 diz: “Far-te-ei
que te volvas...”. A palavra hebraica traduzida por
“volvas” é shuv. Significa basicamente “mover-se na
direção oposta àquela em que antes se movia (...)
virar, voltar”.[1] No contexto teológico, é a palavra
clássica usada no Antigo Testamento para designar a
ação de “arrepender-se”, termo esse freqüentemente
usado por Jeremias. “O verbo, com mais de 1.050
ocorrências, assume a 12ª posição entre as palavras
que ocorrem com mais freqüência no Antigo
Testamento”.[2] O sentido no qual essa palavra é tão
freqüentemente usada no Antigo Testamento
comunica a noção de arrependimento, como no caso
do arrependimento de Israel que abandona seus
pecados e se volta para o Senhor. É o mesmo
sentido no qual arrependimento é usado por
pregadores como João Batista no Novo Testamento.
De fato, no judaísmo ortodoxo da atualidade,
quando um judeu não praticante começa a praticar
sua religião, tal iniciativa é denominada “fazer o
shuvah” ou demonstrar “arrependimento”.
Entretanto, no contexto de Ezequiel 38, a utilização
dessa forma intensiva do termo hebraico shuv (i.e., a
raiz do tempo polel) em relação a Gogue não
significa um arrependimento religioso ou espiritual,
mas se refere a uma mudança nos planos de alguém.
C. F. Keil comenta o seguinte: “Aqui neste capítulo
e em Ezequiel 39.2, o termo significa
desencaminhar ou levar ao desvio da atitude
anterior, a saber, induzir ao erro ou seduzir, no
sentido de instigar para que se tome uma iniciativa
perigosa”.[3] Que iniciativa poderia ser mais
perigosa do que a de entrar em guerra contra Deus e
contra Seu povo, Israel?
Uma vez que Deus expressa o desejo de que
Gogue rume para o sul e desça para atacar Israel, o
verbo hebraico natan é usado para explicar o meio
que Deus empregará para que isso ocorra. O Senhor
vai “por” ou “colocar” anzóis no queixo de Gogue.
Keil afirma o seguinte: “Gogue é retratado como
uma fera indomável que é obrigada a seguir seu líder
(cf. Is 37.29); assim, o conceito transmitido é o de
que Gogue se vê compelido a obedecer ao comando
de Deus contra a sua própria vontade”.[4] Lawson
Younger explica o significado e uso da palavra
hebraica traduzida por “anzol” deste modo: Embora
o significado literal do termo hebraico hah seja
“espinho”, no Antigo Testamento esse termo é
usado metaforicamente para designar um anzol. Na
maioria de suas ocorrências, a palavra hah é usada
no contexto militar para descrever um gancho (i.e.,
argola) que transpassa o nariz ou a bochecha dos
cativos de guerra, como por exemplo: de
Senaqueribe, em cujo nariz Deus poria um anzol
(2Rs 19.28; Is 37.29; de Jeoacaz, que foi levado
com ganchos para a terra do Egito (Ez 19.4); de
Zedequias, levado cativo para a Babilônia com
gancho (Ez 19.9); de Faraó, em cuja mandíbula
Deus engancharia anzóis (Ez 29.4); e de Gogue, em
cujo queixo Deus também poria anzóis (Ez 38.4).[5]
Assim como, ao longo da história, todas as
hostes de inimigos de Israel não quiseram fazer
aquilo que Deus lhes ordenara, assim também
Gogue, a exemplo de Faraó, será levado a cumprir a
vontade de Deus, mesmo que as intenções de Gogue
sejam diametralmente opostas, numa comprovação
da figura do anzol que Deus usa nesse texto. Mark
Hitchcock comenta: “Como uma argola que
transpassa o nariz de um cativo de guerra ou como
um grande anzol enganchado nas mandíbulas de um
crocodilo, Deus desentocará Gogue e seus aliados
para que empreendam essa invasão no exato
momento em que Ele estiver pronto para lidar com
eles. Deus cumprirá o que ordenou e agirá de
acordo com o Seu cronograma”.[6] Arnold
Fruchtenbaum faz um resumo dessa parte do texto,
lembrando-nos do seguinte: Quem está no controle é
Deus; é Ele que promove a invasão. Portanto,
quando se estuda esse texto, deve-se notar a
soberania de Deus nessa invasão. Será o meio pelo
qual Deus punirá a Rússia por seus pecados. O
principal pecado da Rússia é o seu longo histórico
de anti-semitismo, um problema que até hoje
perdura na Rússia.[7]

A MONTAGEM DO PALCO
NA RÚSSIA E NO IRÃ
DE QUE MODO ALGUNS
ASPECTOS DOS
PRIMEIROS VERSÍCULOS
DE EZEQUIEL 38
MONTAM ATUALMENTE O
PALCO PARA O FUTURO
CUMPRIMENTO DESSA
PROFECIA? ENQUANTO
ALGUNS PAÍSES
ALIADOS DE GOGUE
APARECEM DE VEZ EM
QUANDO NOS
NOTICIÁRIOS, A
RÚSSIA E O IRÃ NO
PRESENTE MOMENTO TÊM
FEITO “BASTANTE
BARULHO” E CHAMADO A
ATENÇÃO NO CENÁRIO
GEOPOLÍTICO. ALÉM DO
MAIS, PARA AQUELES
QUE NÃO ESTÃO
ATENTOS AO QUE
ACONTECE NA TURQUIA,
DEVE-SE DIZER QUE O
PARLAMENTO TURCO
ESTÁ NA IMINÊNCIA DE
SER CONTROLADO PELA
ALA MUÇULMANA
RADICAL. SE OS
MUÇULMANOS RADICAIS
CONSEGUIREM SEU
INTENTO, FARÃO COM
QUE A TURQUIA
RETORNE AO DOMÍNIO
ISLÂMICO, O QUE
SIGNIFICA DIZER
ADEUS À DEMOCRACIA.
Mart Zuckerman, editor do U. S. News &
World Report, declarou: “Numa entrevista
concedida há vários anos, o presidente russo
Vladimir Putin criticou a decisão dos Estados
Unidos de entrarem em guerra contra o Iraque e me
disse o seguinte: ‘a verdadeira ameaça é o Irã’. Ele
estava certo, porém a Rússia passou a fazer parte do
problema, não da solução”.[8] Não é nenhum
segredo que a Rússia tem desempenhado o papel de
capacitar o Irã, a ponto de este chegar ao topo do
ranking de países traiçoeiros que ameaçam provocar
uma enorme desestabilização da presente ordem
mundial. “E a Rússia tornou essa ameaça ainda mais
real, pois vendeu as instalações da usina nuclear de
Bushehr ao Irã e assinou contratos para vender mais
equipamentos a fim de angariar recursos que
financiem sua própria indústria nuclear. É como um
diplomata americano declarou: ‘Esse negócio com o
Irã é um tremendo anzol preso no queixo da
Rússia’”.[9] O senhor poderia repetir esta última
afirmação? O diplomata americano reiterou: “Esse
negócio com o Irã é um tremendo anzol preso no
queixo da Rússia”. É exatamente isso! O diplomata
americano utilizou a frase proveniente da profecia
bíblica para descrever o papel que a Rússia
atualmente tem assumido na sua relação com o Irã.
Alguns que desprezam nossa perspectiva da
profecia bíblica já disseram que, em face da queda
do Império Soviético (i.e., a antiga União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas), uma invasão
liderada pela Rússia parece muito pouco provável do
ponto de vista geopolítico. Contudo, é preciso
sempre ressaltar o fato de que essa profecia faz
menção a um ataque contra Israel liderado pela
Rússia, não pela União Soviética. Desde a queda do
Império Soviético, os russos continuam a manter
relações amistosas com a maioria dos países
islâmicos, principalmente com aquelas nações do
Oriente Médio. Do ponto de vista geopolítico, não
seria nenhuma surpresa ver a Rússia se unir aos
países islâmicos, como o Irã, num ataque-surpresa
contra Israel.
Por mais de quinze anos tenho conjecturado se
o “anzol” que Deus usará no queixo de Gogue (para
levar uma Rússia relutante a descer num ataque
contra a terra de Israel) não poderia ser esta situação
hipotética que descrevi para o Hal Lindsey em 1991,
durante uma entrevista em rede nacional de
televisão,[10] no dia em que a primeira Guerra do
Golfo terminou: “Eu posso ver os muçulmanos se
dirigirem aos russos a fim de lhes dizer que os
Estados Unidos da América abriram um precedente
para que uma potência estrangeira invada o Oriente
Médio com o objetivo de corrigir um erro percebido
(os Estados Unidos já fizeram isso de novo em anos
recentes, quando invadiram o Iraque e o
Afeganistão)”. Com base nisso, a Rússia também
deveria ajudar seus amigos muçulmanos, liderando-
os numa invasão avassaladora de Israel, a fim de
resolver o conflito no Oriente Médio em favor dos
países islâmicos. Seria esse o “anzol” no queixo de
Gogue? Só o tempo poderá dizer. Entretanto, algo
está acontecendo no Oriente Médio e parece que as
impressões digitais da Rússia se encontram por toda
parte. O que se sabe pela predição bíblica é que tal
coalizão e invasão ocorrerão somente “... no fim dos
anos” (Ez 38.8).
NOTAS 1 G. JOHANNES BOTTERWECK, HELMER RINGGREN, E
HEINZ-JOSEF FABRY, ORGANIZADORES, THEOLOGICAL
DICTIONARY OF THE OLD TESTAMENT [TDOT], VOL.
XIV, GRAND RAPIDS: EERDMANS, 2004, P. 464.
2
BOTTERWECK, RINGGREN, e FABRY, TDOT, vol. XIV, p. 472.
3
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido por James Martin, reimpressão,
Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1982, p.
161.
4
KEIL, Ezekiel, Daniel, p. 161.
5
Willem A. VANGEMEREN, org. geral, New International
Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis, 5 vols.,
Grand Rapids: Zondervan, 1997, vol. 2, p. 44.
6
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 104.
7
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982), 2003, p. 109.
8
Mortimer B. ZUCKERMAN, “Moscow’s Mad Gamble,”, publicado
no U. S. News & World Report, edição eletrônica, 30 de
janeiro de 2006, p. 1.
9
ZUCKERMAN, “Moscow’s Mad Gamble”, p. 1.
10
No programa de entrevistas “The Praise the Lord”, exibido
pela rede de TV Trinity Broadcasting Network.
7. EZEQUIEL 38.4

“Far-te-ei que te volvas, porei anzóis no teu


queixo e te levarei a ti e todo o teu exército,
cavalos e cavaleiros, todos vestidos de
armamento completo, grande multidão, com
pavês e escudo, empunhando todos a
espada”.

Ao analisarmos com mais profundidade esta


profecia, constatamos que Deus porá anzóis no
queixo de Gogue, príncipe de Rôs, o qual, como já
verificamos, é uma referência à Rússia dos dias
atuais. Nesse caso, Gogue parece ser um indivíduo
russo que vai liderar a nação russa e seus aliados
num ataque ao povo de Israel reagrupado em sua
terra. Essa é a situação que basicamente se pode
vislumbrar no cenário geopolítico da atualidade. O
palco já está montado para tal ataque.
UMA VARA DE
DISCIPLINA?
Talvez alguns argumentem que a invasão
liderada por Gogue já aconteceu na ocasião da
disciplina de Deus sobre Israel no século VI a.C.
Randall Price comenta o seguinte: O papel
desempenhado por Gogue, contudo, é diferente
daquele desempenhado pelos invasores do passado,
tais como os Assírios e Babilônios, os quais foram
denominados por Deus de “a vara da minha ira” (cf.
Isaías 10.5). Por um lado, a decisão intencional de
invadir (Ezequiel 38.11) é motivada pelos próprios
desejos de Gogue (versículos 12 e 13), por outro
lado, Gogue é compelido a invadir (como se fosse
puxado com anzóis presos à sua mandíbula; cf.
versículo 4) a fim de possibilitar uma demonstração
do poder e da intervenção de Deus em favor de
Israel perante as nações (versículos 21 e 23; Ez
39.27), bem como perante o próprio povo de Israel
(Ez 39.28).[1]
Dessa forma, parece improvável que essa
profecia se refira a uma ação disciplinar de Deus no
passado, quando Ele usou outras nações para
castigar Israel, a exemplo do que fez por intermédio
dos assírios (em 722 a.C.) contra o Reino do Norte
[i.e., Israel] e por intermédio dos babilônios (em 586
a.C.) contra o Reino do Sul [i.e., Judá]. Se este
fosse o caso, Deus não interviria em favor de Israel
como Ele o faz nesse texto de Ezequiel. A história
demonstra que, quando Deus utiliza uma nação pagã
para disciplinar Israel, Ele nunca intervém para
proteger o povo judeu durante tais invasões.

“...E TE LEVAREI A
TI...”
À medida que continuamos a olhar mais
atentamente para o texto de Ezequiel 38.4,
percebemos que o Senhor, depois de por anzóis no
queixo de Gogue, há de levá-lo para fora de seu
território. O verbo hebraico traduzido por “...eu
[Deus] te levarei a ti [Gogue]” conjuga-se num
tempo cuja ação é causativa, numa implicação de
que Deus usará o anzol no queixo de Gogue para
desentocá-lo de seu lugar.[2] É preciso reiterar que
Gogue não instigaria tudo isso, se Deus não
interviesse, tirando-o de seu território para levá-lo à
sua destruição final.

O PODERIO BÉLICO DE
GOGUE QUANDO GOGUE
ATACAR ISRAEL, VIRÁ
COM TODO O SEU
“...EXÉRCITO, CAVALOS
E CAVALEIROS...”. A
PALAVRA HEBRAICA
TRADUZIDA POR
“EXÉRCITO” (DO HEB.,
HAYIL) SIGNIFICA
BASICAMENTE “FORÇA
OU PODER”[3],
DEPENDENDO DO QUE É
MENCIONADO NO
CONTEXTO. É O
PRINCIPAL TERMO
HEBRAICO USADO PARA
DESIGNAR “EXÉRCITO”
NO ANTIGO
TESTAMENTO, MAS
TAMBÉM POSSUI O
SENTIDO ABSTRATO DE
“FORÇA”, “RIQUEZA”,
OU, EM TERMOS MAIS
CONCRETOS, “TROPAS
MILITARES”,[4] JÁ
QUE É PRECISO MUITO
DINHEIRO PARA
SUSTENTAR UM
EXÉRCITO PODEROSO NO
CAMPO DE COMBATE. EM
EZEQUIEL 38.15, ESSA
PALAVRA É USADA
NOVAMENTE PARA
DESCREVER GOGUE E
SEUS ALIADOS, DESTA
VEZ ASSOCIADA COM O
ADJETIVO “PODEROSO”.
EM OUTRAS PALAVRAS,
O TERMO HEBRAICO
HAYIL TRANSMITE A
IDÉIA DE PODERIO
MILITAR E SEU CAMPO
SEMÂNTICO NÃO SE
LIMITA AO CONCEITO
DE EXÉRCITO DA
ANTIGUIDADE. UMA VEZ
QUE O TERMO
“TODO(S)” É
EMPREGADO PARA
QUALIFICAR A PALAVRA
“EXÉRCITO”, A
IMPLICAÇÃO É A DE
QUE, NÃO APENAS UMA
PARTE, MAS O
EXÉRCITO INTEIRO
VIRÁ PARA INVADIR
ISRAEL.
A próxima descrição literal é a de que esse
exército invasor contará com “cavalos e cavaleiros”.
O significado de “cavalos” é óbvio, ao passo que
“cavaleiros”, nesse contexto, seriam aqueles
soldados que montam cavalos para fins militares. No
Antigo Testamento, os cavaleiros sempre se
diferenciam daqueles soldados que conduzem bigas
[i.e., carros de guerra atrelados a cavalos]. Charles
Feinberg chega a esta conclusão: “A menção de
cavalos e cavaleiros não pode ser interpretada de
modo restritivo para dar a entender que esse exército
se constituiria total ou essencialmente de cavalaria”.
[5] A afirmação de Feinberg se fundamenta no fato
de que o texto anteriormente menciona “...todo o
teu exército...”, o que incluiria todos os elementos
do poderio bélico daquele que parte para o ataque.
Se este for o caso, é possível que a cavalaria tenha
sido destacada e especificamente mencionada por
ser a força ofensiva mais potente de um invasor nos
dias de Ezequiel. Além disso, cavalos denotam um
meio de transporte, enquanto cavaleiros denotam os
próprios militares.
A última parte do versículo 4 relata o modo
pelo qual os militares estão paramentados: “...todos
vestidos bizarramente, congregação grande, com
escudo e rodela, manejando todos a espada”. Essa
é uma referência aos cavaleiros, os quais na sua
totalidade estão “vestidos bizarramente”. A palavra
hebraica, traduzida nessa versão de Almeida Revista
e Corrigida pelo termo “bizarramente” (do heb.,
miklol), é um vocábulo interessante que ocorre
somente aqui neste texto e em Ezequiel 23.12. Seu
significado é definido de forma variada, como, por
exemplo: “magnificamente”, “com primor” ou “com
todo tipo de armadura”. “Existe pouco consenso
quanto à correta tradução desse termo”, já que ele é
usado apenas duas vezes. “Em ambas as
ocorrências, esse termo é utilizado num contexto
que retrata a esplêndida aparência dos militares.
Uma tradução mais literal poderia ser esta: ‘trajados
por completo’ ou ‘totalmente equipados’”.[6] Ou
seja, esses invasores contarão com o melhor
equipamento bélico disponível naqueles dias; eles
não estarão mal armados para o seu intento. Além
de estarem bem equipados, eles virão em grande
número para o ataque a Israel.
O texto diz que esse imponente exército possui
“pavês e escudo” (ARA) para se proteger. A palavra
hebraica traduzida por “pavês” (do heb., tsinnah) se
refere a “um escudo grande que protege o corpo
inteiro”[7], enquanto o termo traduzido por
“escudo” (do heb., magen) diz respeito a um
“escudo menor ou broquel que o guerreiro maneja
para se defender”.[8] Esses equipamentos bélicos
exemplificam a excelente condição de armamento
que os invasores de Israel terão à sua disposição.
Keil assinala: “Além das armas defensivas, a saber, o
escudo maior e o escudo menor, eles empunharão
espadas na qualidade de armas ofensivas”.[9] A
palavra hebraica herev, traduzida por “espada”,
“pode designar dois armamentos: 1) a adaga de dois
gumes (i.e., fios) ou espada curta (Jz 3.16,21); e 2)
a espada curva de um único fio ou espada longa”.
[10] Uma vez que esses soldados estarão montados
em cavalos, faria mais sentido supor que a espada
descrita nesse texto seja a espada longa, a qual já
tem sido historicamente o armamento predileto da
cavalaria. A espada curta não seria uma arma muito
eficaz ao ser manejada de cima de um cavalo. “O
versículo demonstra que Javé (do heb., YHWH)
está trazendo Gogue totalmente armado”.[11]
Quanto maior o oponente maior a chance de que
Israel reconheça que está encalacrado numa situação
humanamente impossível. Uma situação impossível
requer uma intervenção divina. Assim, Deus será
muito mais glorificado quando destruir por completo
os invasores de Israel.

E QUANTO AOS
ARMAMENTOS?
Os críticos da nossa concepção futurista de
interpretação dessa passagem apontam para o fato
de que o texto afirma que os invasores serão
cavaleiros nas suas montarias, os quais usam, como
armamento, espadas e lanças, “indicadores de uma
batalha antiga da era pré-industrial”,[12] insiste o
preterista Gary DeMar. Sem lidar com outros
detalhes desse texto, DeMar afirma que essa
profecia já se cumpriu e fundamenta seu argumento
apenas nos tipos de arma mencionados na passagem.
“As armas são antigas, porque a batalha ocorreu na
antigüidade”.[13] Mas, em que ocasião do passado
tal profecia se cumpriu? DeMar, aparentando um
semblante sério, persiste em dizer que ela se
cumpriu nos dias de Ester.[14]
John Walvoord admite o seguinte: “Do ponto
de vista bélico moderno, é evidente que são
armamentos antiquados. Isso, certamente, gera um
problema”.[15] Entretanto, sem abandonar os
princípios da interpretação literal, Walvoord sustenta
que há uma solução para esse problema. Ele alista
estas três sugestões propostas: A primeira é a de que
Ezequiel faz uso de uma linguagem que lhe era
familiar – as armas que eram comumente utilizadas
na sua época – com o intuito de prever armamentos
modernos. O que ele está dizendo é que quando
esse exército vier, mostrar-se-á totalmente equipado
com armas de guerra. Tal interpretação também tem
problemas. O texto nos diz que eles [i.e., os
habitantes de Israel] usariam as hastes de madeira
das lanças, os arcos e flechas, como combustível
para acender o fogo. Se essas armas são símbolos,
seria difícil acender fogo de verdade com algo
simbólico [...]
Uma segunda solução sugere que essa batalha seria
precedida por um acordo de desarmamento entre as
nações. Se esse for o caso, seria necessário recorrer
secretamente às armas primitivas de fácil fabricação
para que um ataque-surpresa fosse concretizado. Tal
concepção permitiria que esse texto fosse interpretado
de modo literal.
Uma terceira solução se baseia na premissa de que o
atual uso de mísseis de guerra chegará a tal ponto de
desenvolvimento naqueles dias, que os mísseis
rastrearão e se dirigirão contra qualquer quantidade
considerável de metal. Sob tais circunstâncias, seria
necessário abandonar o uso de armas de metal,
substituindo-as por armas de madeira, tal como está
indicado no texto pelas armas primitivas. Qualquer que
seja a explicação, a interpretação mais plausível é a de
que a passagem se refira a armas reais, colocadas em
uso com urgência por causa das circunstâncias
peculiares daquele momento.[16]
1
NOTAS RANDALL PRICE, COMENTÁRIOS NÃO
PUBLICADOS SOBRE AS PROFECIAS DE EZEQUIEL,
2007, P. 42.
2
Francis BROWN, S. R. DRIVER e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
3
G. Johannes BOTTERWECK e Helmer RINGGREN, orgs.,
Theological Dictionary of the Old Testament, vol. IV, Grand
Rapids: Eerdmans, 1980, p. 349.
4
BOTTERWECK e RINGGREN, TDOT, vol. IV, p. 353.
5
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 220-21.
6
R. Laird HARRIS, Gleason L. ARCHER, Jr., e Bruce K. W ALTKE,
orgs. , Theological Wordbook of the Old Testament, 2
vols., Chicago: Moody Press, 1980, vol. 1, p. 442.
7
BROWN, DRIVER, e BRIGGS, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
8
BROWN, DRIVER, e BRIGGS, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
9
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido por James Martin, reimpressão,
Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1982, p.
162.
10
G. Johannes BOTTERWECK e Helmer Ringgren, orgs.,
Theological Dictionary of the Old Testament, vol. V, Grand
Rapids: Eerdmans, 1986, p. 155.
11
John W. W EVERS, The New Century Bible Commentary:
Ezekiel, Grand Rapids: Eerdmans, 1969, p. 202.
12
Gary DEMAR, Last Days Madness: Obsession of the
Modern Church, Powder Springs, GA: American Vision, p.
367.
13
Gary DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion: Future or
Fulfilled?” Publicado na revista Biblical Worldview
Magazine, vol. 22, edição de Dezembro de 2006, p. 6.
14
DEMAR, Last Days Madness, p. 368-69; veja também, Gary
DEMAR, End Times Fiction: A Biblical Consideration of the
Left Behind Theology, Nashville: Thomas Nelson, 2001, p.
12-15.
15
John F. W ALVOORD, The Nations in Prophecy, Grand Rapids:
Zondervan, 1967, p. 115.
16
W ALVOORD, The Nations, p. 115-16.
8. EZEQUIEL 38.4
(CONT.) “FAR-TE-EI
QUE TE VOLVAS,
POREI ANZÓIS NO TEU
QUEIXO E TE LEVAREI
A TI E TODO O TEU
EXÉRCITO, CAVALOS E
CAVALEIROS, TODOS
VESTIDOS DE
ARMAMENTO
COMPLETO, GRANDE
MULTIDÃO, COM
PAVÊS E ESCUDO,
EMPUNHANDO TODOS
A ESPADA”.

Ao continuarmos a analisar essa descrição do


armamento e do meio de transporte que Gogue e
seus aliados invasores usarão, temos de deixar o
próprio texto nos dizer o que significa. “O ataque
real das tropas russas é retratado numa nítida
imagem”, declara William Hull, que ainda descreve:
“Tanques de guerra excelentes, transportes
mecanizados de tropas, armas poderosas e todo o
equipamento bélico de última geração se movem
como uma onda avassaladora que invade a terra”.
Hull conclui dizendo: “Ezequiel o retrata assim: ‘...
montados todos a cavalo... ’. Aqui, de novo, os
estudiosos da Bíblia se equivocam quando enfatizam
aquilo em que estarão montados, em vez de
enfatizarem o fato de que eles estarão montados”.[1]
Randall Price observa que alguns “consideram tais
termos ‘profeticamente anacrônicos’ (ou
fenomenológicos), já que Ezequiel não tinha
nenhum referencial para descrever armamentos
desta era futura”.[2] Esse é um ponto de vista que
outrora cheguei a defender, como mencionarei mais
adiante.
Gary DeMar faz uma crítica a tal abordagem
interpretativa, quando diz: “Se alguém como Tim
LaHaye for fiel à sua reivindicação de literalidade,
terá de admitir que aquele ataque russo, reproduzido
por ele e Jerry Jenkins na série “Deixados Para
Trás”, devia ser uma representação literal dos
elementos da batalha, tal como foram retratados em
Ezequiel 38 e 39”.[3] DeMar prossegue: “Como é
que Hitchcock, Ice e LaHaye podem saber que isso
era realmente o que o Espírito Santo quis dizer, se
o texto é suficientemente claro em não apresentar
nenhum adereço moderno?”[4] Talvez o que vou
dizer surpreenda a alguns, mas creio que DeMar
esteja fundamentalmente certo ao nos criticar nesse
ponto, apesar de estar comprovadamente
equivocado acerca de tantos outros aspectos da
profecia registrada em Ezequiel 38 e 39.

A INTERPRETAÇÃO
LITERAL BERNARD
RAMM, QUE NÃO SERIA
MUITO SIMPÁTICO À
NOSSA CONCEPÇÃO DE
INTERPRETAÇÃO DA
PROFECIA BÍBLICA,
CITA WEBSTER PARA
DEFINIR O QUE VEM A
SER LITERAL NOS
SEGUINTES TERMOS: “É
A CONSTRUÇÃO E
IMPLICAÇÃO NATURAIS
OU HABITUAIS DE UM
ESCRITO OU
EXPRESSÃO; AQUILO
QUE SEGUE O SENTIDO
COMUM E EVIDENTE DAS
PALAVRAS; O QUE NÃO
É ALEGÓRICO OU
METAFÓRICO”.[5]
CHARLES RYRIE
ELABORA UMA AMPLA
DEFINIÇÃO DO QUE VEM
A SER INTERPRETAÇÃO
LITERAL, ENUNCIANDO-
A DA SEGUINTE FORMA:
ISSO, ÀS VEZES, É
CHAMADO DE PRINCÍPIO
HISTÓRICO-
GRAMATICAL DE
INTERPRETAÇÃO, JÁ
QUE O SIGNIFICADO DE
CADA PALAVRA É
DETERMINADO POR
CONSIDERAÇÕES
GRAMATICAIS E
HISTÓRICAS. ESSE
PRINCÍPIO TAMBÉM
PODE SER DENOMINADO
DE INTERPRETAÇÃO
NORMAL, VISTO QUE O
SIGNIFICADO LITERAL
DAS PALAVRAS É O
ACESSO NORMAL PARA
SUA COMPREENSÃO EM
TODAS AS LÍNGUAS.
TAMBÉM PODE SER
CHAMADO DE
INTERPRETAÇÃO CLARA
E SIMPLES PARA QUE
NINGUÉM TENHA DE
ACEITAR A NOÇÃO
EQUIVOCADA DE QUE O
PRINCÍPIO DE
INTERPRETAÇÃO
LITERAL DESCONSIDERA
AS FIGURAS DE
LINGUAGEM. TODOS OS
SÍMBOLOS, FIGURAS DE
LINGUAGEM E TIPOS
SÃO INTERPRETADOS DE
FORMA CLARA NESSE
MÉTODO E ELES, DE
MODO NENHUM, SÃO
ANTAGÔNICOS À
INTERPRETAÇÃO
LITERAL. AFINAL DE
CONTAS, A PRÓPRIA
EXISTÊNCIA DE
QUALQUER SENTIDO
NUMA FIGURA DE
LINGUAGEM DEPENDE DA
REALIDADE DO
SIGNIFICADO LITERAL
DOS TERMOS
RELACIONADOS. AS
FIGURAS MUITAS VEZES
TORNAM O SENTIDO
MAIS CLARO, GRAÇAS
AO SIGNIFICADO
LITERAL, NORMAL,
SIMPLES E CLARO QUE
ELAS TRANSMITEM AO
LEITOR.[6]
O comentarista E. R. Craven assinala: O
literalista (assim chamado) não é aquele que nega o
fato de que a linguagem figurada e os símbolos são
usados em profecia. Também não é aquele que nega
a realidade de que grandiosas verdades espirituais
estão demonstradas nos textos proféticos; ele
simplesmente mantém a postura de que as profecias
devem ser interpretadas de modo normal (i.e., de
acordo com as leis de linguagem aprendidas) como
qualquer outra declaração é interpretada, ou seja,
aquilo que é nitidamente figurativo sendo
considerado como tal”.[7]
David Cooper apresenta uma definição clássica
do princípio hermenêutico de interpretação literal na
sua “Regra Áurea de Interpretação”, que diz:
“Quando o sentido claro de um texto das Escrituras
se enquadra dentro do bom senso, não procure
outro sentido; portanto, interprete cada palavra em
seu sentido simples, comum, habitual e literal, a
menos que os fatos do contexto imediato, estudados
à luz de passagens correlatas e de verdades
fundamentalmente óbvias, indiquem nitidamente o
contrário”.[8] Em outras palavras, precisa haver
uma base literária no texto de qualquer declaração
para que uma palavra ou frase não seja interpretada
literalmente. Deixa-se o uso da interpretação literal
somente quando se pode demonstrar que uma figura
de linguagem ou uma metáfora faz mais sentido em
determinado contexto do que o sentido simples,
claro e literal. Em suma, o dito de Cooper afirma
que uma palavra ou frase deve ser interpretada
literalmente, a não ser que haja uma razão no texto
para interpretá-la como uma figura de linguagem ou
uma metáfora. Mathew Waymeyer fornece uma
regra prática muito útil ao declarar: “Para que seja
considerada simbólica, a linguagem em questão
precisa apresentar: 1) algum grau de absurdez,
quando interpretada literalmente; e, 2) algum grau
de clareza, quando interpretada simbolicamente”.[9]
O SIGNIFICADO
LITERAL SE OS TERMOS
“EXÉRCITO”, “CAVALOS
E CAVALEIROS”,
“PAVÊS E ESCUDO” E
“ESPADA”,
ENCONTRADOS NESSE
TEXTO, NÃO PARECEM
FIGURAS DE
LINGUAGEM, NEM
SÍMBOLOS, A
COERÊNCIA
INTERPRETATIVA EXIGE
QUE TAL BATALHA SEJA
LUTADA COM ESSAS
ARMAS. ESSES
ARMAMENTOS DE GUERRA
NÃO PODEM SER
INTERPRETADOS COMO
SÍMILES DE
ARMAMENTOS MODERNOS
PORQUE NÃO HÁ
INDICADORES TEXTUAIS
DO TIPO “COMO” OU
“SEMELHANTE A”. NÃO
PARECE HAVER NENHUMA
FIGURA DE LINGUAGEM
QUE DE VEZ EM QUANDO
OCORRA SEM O USO DE
“COMO” OU
“SEMELHANTE A”. POR
EXEMPLO, JESUS
DECLAROU: “EU SOU A
PORTA”, “EU SOU O PÃO
DA VIDA”, ETC. EMBORA
ESSAS EXPRESSÕES EM
SI E POR SI MESMAS
NÃO SEJAM FIGURAS DE
LINGUAGEM, FICA
CLARO, NOS SEUS
RESPECTIVOS
CONTEXTOS, QUE JESUS
AS USAVA
METAFORICAMENTE.
CONTUDO, NÃO HÁ NADA
NO CONTEXTO DE
EZEQUIEL 38 QUE
APONTE PARA O FATO
DE O PROFETA
EZEQUIEL PREVER
ARMAMENTOS MODERNOS,
AINDA QUE USE UMA
TERMINOLOGIA
CONHECIDA DE SUA
ÉPOCA.
Durante a elaboração desta série sobre Ezequiel
38 e 39, enquanto refletia de forma mais crítica
sobre a interpretação literal e sua relação com essa
passagem, passei a discordar da afirmação que eu e
Mark Hitchcock fizemos, quando dissemos o
seguinte: “Ezequiel se expressou numa linguagem
que as pessoas do seu tempo podiam entender. Se
ele tivesse falado de aviões de caça MIG-29, de
mísseis disparados a laser, de tanques de guerra e de
fuzis de assalto, esse texto não faria o menor sentido
até a chegada do século vinte”.[10] Sou forçado a
concordar com DeMar quando diz: “É preciso
forçar demais a leitura e interpretação da Bíblia para
fazer com que o texto de Ezequiel 38 e 39 se
encaixe dentro das realidades militares atuais que
incluem aviões a jato, mísseis, explosivos e
armamentos atômicos”.[11] Apesar de crer que
DeMar esteja certo nessa afirmação, isso não
significa que sua conclusão esteja correta. Ele
declara: “As armas são antigas porque a batalha
ocorreu na antigüidade”.[12] De fato esses
armamentos eram usados na antigüidade, mas alguns
deles são usados até hoje. Além disso, DeMar
ignora muitos fatos textuais ou não interpreta
literalmente aquelas expressões cronológicas como
“depois de muitos dias” (Ez 38.8), sobretudo, “no
fim dos anos” (Ez 38.8) e “nos últimos dias” (Ez
38.16), expressões estas que consideraremos mais
adiante em nossa análise.
Creio que o intérprete futurista Paul Lee Tan
colocou muito bem a questão nos seguintes termos:
Algumas profecias, quando descrevem batalhas
escatológicas, predizem que os armamentos
utilizados nesses combates serão arcos e flechas,
bigas e cavalos, além de lanças e escudos. Seria o
caso de interpretá-las literalmente? Se formos
rigorosamente fiéis ao cenário próprio do estilo
profético, temos de considerar que essas armas são
as mesmas a serem usadas no contexto escatológico.
Elas não podem ser equiparadas aos dispositivos
bélicos modernos que são muito diferentes, a
exemplo da bomba-H ou dos aviões a jato
supersônicos. O interessante é que os equipamentos
bélicos referidos na profecia, apesar de existirem há
séculos, não se tornaram obsoletos. O cavalo, por
exemplo, ainda é usado como arma de guerra em
certos tipos de terreno.[13]
Sem ter a pretensão de ser dogmático nessa
questão, creio que a concepção que mais faz sentido
é a que ouvi do pastor Charles Clough,[14] numa
aula gravada em fita cassete por volta do fim da
década de 1960 ou no início da década de 1970. Na
época, Clough era um meteorologista capacitado e
experiente que sustentava a concepção de que os
acontecimentos do período da Tribulação poderiam
danificar os modernos sistemas de armamento a
ponto de torná-los inoperantes. Mais tarde, Clough
trabalhou por quase 25 anos como meteorologista
do exército dos Estados Unidos, onde pesquisou o
impacto das condições atmosféricas sobre os
sistemas de armamento. Ele ainda defende aquela
mesma concepção até hoje. Price explica o seguinte:
Entretanto, se as condições ou o local do combate
impedirem o uso de uma tecnologia bélica mais
avançada, não há nenhuma razão pela qual essas
armas rudimentares não possam ser usadas numa
batalha futura. Os combates que são travados em
certos terrenos acidentados do Oriente Médio, a
exemplo da região montanhosa do Afeganistão (cf.,
Ez 39.2-4), têm obrigado exércitos da atualidade a
usarem cavalos; outrossim, arcos e flechas
continuam a ser utilizados em vários campos de
combate. Além disso, se a batalha ocorrerá no
período da Tribulação, as condições preditas para
esse momento da história, tais como atividade
sísmica, chuvas de meteoro, aumento dos efeitos
solares, entre outras catástrofes cósmicas e terrestres
(Mateus 24.7; Apocalipse 6.12-14; 8.7-12; 16.8-
9,18-21), poderiam causar tantos transtornos
ambientais que a tecnologia atual (dependente da
orientação por satélite, de sistemas
computadorizados e de estabilidade meteorológica)
falharia por completo. Em tais condições, a maioria
de nossas armas modernas seria inútil e armas mais
rudimentares teriam de substituí-las. De qualquer
forma, não há nenhuma razão para relegar esse texto
ao passado, com base num suposto anacronismo de
linguagem.[15]
NOTAS 1 WILLIAM L. HULL, ISRAEL: KEY TO
PROPHECY, GRAND RAPIDS: ZONDERVAN, 1957, P.
35-36 (A ÊNFASE É DO AUTOR ORIGINAL).
2
Randall PRICE, Comentários não publicados das profecias de
Ezequiel, 2007, p. 42.
3
Gary DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion: Future or
Fulfilled?”, publicado na revista Biblical Worldview
Magazine, vol. 22, edição de Dezembro de 2006, p. 4.
4
DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion,”, p. 6 (a ênfase em
itálico é do autor original).
5
Bernard RAMM, Protestant Biblical Interpretation, 3ª Ed,
Grand Rapids: Baker, 1970, p. 119.
6
Charles C. RYRIE, Dispensationalism, Chicago: Moody,
(1965), 1995, p. 80-81 (a ênfase em itálico é do autor
original).
7
E. R. CRAVEN e J. P. LANGE, orgs. Commentary on the Holy
Scriptures: Revelation, Nova York: Scribner, 1872, p. 98 (a
ênfase em itálico é do autor original).
8
David L. COOPER, The World ‘s Greatest Library Graphically
Illustrated, Los Angeles: Biblical Research Society, (1942),
1970, p. 11.
9
Matthew W AYMEYER, Revelation 20 and the Millennial
Debate, The Woodlands, TX: Kress Christian Publications,
2004, p. 50 (a ênfase em itálico é do autor original).
10
Mark HITCHCOCK and Thomas ICE, The Truth Behind Left
Behind: A Biblical View of the End Times, Sisters, OR:
Multnomah Press, 2004, p. 47.
11
DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion”, p. 4.
12
DEMAR, “Ezekiel’s Magog Invasion”, p. 6.
13
Paul Lee TAN, The Interpretation of Prophecy, Winona
Lake, IN: Assurance Publishers, 1974, p. 223.
14
Naquela época, Charles A. CLOUGH era pastor da Lubbock
Bible Church na cidade de Lubbock, Texas, EUA.
15
PRICE, Comentários não publicados de Ezequiel, p. 42.
9. EZEQUIEL 38.5-
6

“...persas e etíopes e Pute com eles, todos


com escudo e capacete; Gômer e todas as
suas tropas; a casa de Togarma, do lado do
Norte, e todas as suas tropas, muitos povos
contigo”.

Os versículos 5 e 6 completam a relação de


aliados que atacarão Israel sob a liderança de Gogue.
A identidade do primeiro aliado parece estar muito
clara, já que seu antigo nome é amplamente
conhecido ao longo da história, até mesmo nos dias
atuais. Os “persas” eram os habitantes da antiga
Pérsia e constituem a maioria populacional do país
que atualmente se denomina Irã. O consenso entre
os intérpretes futuristas da profecia bíblica converge
para o fato de que a Pérsia histórica corresponde
inequivocamente ao Irã da atualidade. Mark
Hitchcock comenta o seguinte: “O nome Pérsia,
escrito nos anais de toda a história antiga, foi
substituído pelo nome Irã, um termo de uso
estrangeiro, em março de 1935”[1].

IRÃ E RÚSSIA
QUALQUER PESSOA QUE
VEM ACOMPANHANDO O
NOTICIÁRIO DESSES
ÚLTIMOS ANOS ESTÁ
CIENTE DA RELAÇÃO
AMISTOSA E CORDIAL
QUE A RÚSSIA E O IRÃ
TÊM MANTIDO. A
RÚSSIA SE TORNOU A
FORNECEDORA DE
MUITOS DOS ELEMENTOS
QUE O IRÃ PRECISA
PARA DESENVOLVER SUA
BOMBA NUCLEAR. É
EVIDENTE QUE O IRÃ
ALMEJA CONTROLAR
TODO O ORIENTE MÉDIO
PARA QUE POSSA
PROPAGAR SUA
CONCEPÇÃO ISLÂMICA E
CONSIGA ALCANÇAR SEU
OBJETIVO DE UNIFICAR
O MUNDO MUÇULMANO
SOB O GOVERNO DE UMA
ÚNICA AUTORIDADE, UM
LÍDER IRANIANO. EM
VÁRIAS OCASIÕES,
TODOS PUDERAM OUVIR
O EX-PRESIDENTE
IRANIANO, MAHMOUD
AHMADINEJAD,
DECLARAR SEU DESEJO
DE FAZER ISRAEL
SUMIR DO MAPA. NOS
ÚLTIMOS QUINZE ANOS,
TODOS OS GOVERNOS
ISRAELENSES
AFIRMARAM
REITERADAMENTE QUE O
IRÃ É A MAIOR AMEAÇA
A ISRAEL. HOJE EM
DIA, MUITOS SE
PERGUNTAM SOBRE A
POSSIBILIDADE DE
ISRAEL SER FORÇADO A
AGIR
PREVENTIVAMENTE,
TALVEZ COM A
COOPERAÇÃO DOS
ESTADOS UNIDOS, PARA
ELIMINAR O POTENCIAL
NUCLEAR DO IRÃ ANTES
QUE ESSE PROJETO
CHEGUE AO SEU
OBJETIVO CONCRETO DE
PRODUZIR ARMAS
NUCLEARES. A
RESPOSTA CERTA A
ESSA INDAGAÇÃO AINDA
PERMANECE
DESCONHECIDA E É
POUCO PROVÁVEL QUE
ALGUM DOS NOVOS
PRESIDENTES QUEIRA
SE ENVOLVER NUMA
EMPREITADA DESSAS.
Há uma grande probabilidade de que o Irã seja
o aliado-chave da Rússia, quando esta comandar o
ataque de invasão a Israel nos últimos dias. Talvez o
Irã se aproveite dessa nova postura belicosa que o
presidente russo Vladimir Putin demonstra para com
os países do Ocidente, especialmente em relação ao
Estados Unidos. Independente do modo pelo qual
esses acontecimentos se desdobrem no futuro, uma
coisa é certa: os russos e o Irã desenvolvem no
presente momento aquele tipo de relação que pode
facilmente culminar na iniciativa de invadir Israel, tal
como o profeta Ezequiel predisse.[2]

ETIÓPIA A VERSÃO DA
BÍBLIA QUE COSTUMO
USAR NA LÍNGUA
INGLESA, THE NEW
AMERICAN STANDARD
BIBLE, TRADUZ O TERMO
HEBRAICO CUSH POR
ETIÓPIA. MUITAS
TRADUÇÕES DA BÍBLIA
EM INGLÊS APENAS
TRANSLITERARAM O
VOCÁBULO ORIGINAL
PELO TERMO “CUSH”
[N. DO T.: A EXEMPLO
DA ANTIGA TRADUÇÃO
BRASILEIRA QUE
TRANSLITEROU A
PALAVRA ORIGINAL
PELO TERMO “CUS”]. O
VOCÁBULO CUSH OCORRE
29 VEZES NA BÍBLIA
HEBRAICA.[3] O TEXTO
DE GÊNESIS 2.13
MENCIONA UM
TERRITÓRIO
ANTEDILUVIANO QUE SE
DENOMINAVA CUXE. AS
TRÊS OCORRÊNCIAS
DESSE TERMO NA
TABELA DAS NAÇÕES
[CF., GN 10] SE
REFEREM A CUXE QUE
ERA DESCENDENTE DE
CAM. A MAIORIA DAS
OUTRAS OCORRÊNCIAS
SE ENCONTRA NOS
LIVROS DE ISAÍAS E
EZEQUIEL (13 VEZES),
REFERINDO-SE À MESMA
REGIÃO MENCIONADA NO
TEXTO DE EZEQUIEL
28.5. UM DICIONÁRIO
LÉXICO DE HEBRAICO
AFIRMA QUE O TERMO
CUSH DIZ RESPEITO ÀS
“TERRAS DO NILO, AO
SUL DO EGITO,
IMPLICANDO A NÚBIA E
O NORTE DO SUDÃO, O
PAÍS QUE É BANHADO
PELO SUL DO MAR
VERMELHO”.[4]
Outro dicionário declara que Cush “se refere à
região imediatamente ao sul e a leste do Egito,
incluindo a atual Núbia, o Sudão e a Etiópia dos
escritores clássicos”.[5] Dessa forma, a Bíblia
localiza claramente o território de Cuxe ao sul do
Egito, onde se encontra a atual nação do Sudão.
Hoje em dia, o Sudão é um dos países
muçulmanos mais militantes do mundo. Hitchcock
comenta: “A atual nação do Sudão é um dos únicos
três países islâmicos no mundo inteiro que mantêm
um governo muçulmano militante”.[6] Eu fiquei
surpreso ao saber que “o Sudão é o país de maior
extensão territorial do continente africano e que
possui uma população de 26 milhões de habitantes”.
É interessante observar que o Irã e o Sudão se
tornaram aliados muito próximos nos últimos vinte
anos. Esses dois países celebraram acordos
comerciais, fizeram alianças militares e o Irã ainda
coordena bases de treinamento terrorista no
território sudanês.[7] O Sudão foi o país que
protegeu e abrigou Osama Bin Laden no período de
1991 a 1996, antes que ele fosse para o Afeganistão.
[8] Se tomarmos por base esse alinhamento de
nações que vemos nos dias atuais, não seria surpresa
nenhuma conjecturar que o Sudão será um aliado
que vem do sul para invadir a terra de Israel nos
últimos dias, junto com a Rússia, o Irã e outros
povos.

PUTE PUTE É OUTRA


TRANSLITERAÇÃO DO
TERMO ORIGINAL
HEBRAICO E OCORRE
APENAS SETE VEZES NO
ANTIGO TESTAMENTO.
[9] POR DUAS VEZES É
USADO NO REGISTRO
GENEALÓGICO PARA SE
REFERIR AO FATO DE
QUE PUTE É UM DOS
DESCENDENTES DE CAM
(GN 10.6; 1CR 1.8).
NAS OUTRAS CINCO
OCORRÊNCIAS, ESSE
NOME É USADO PELOS
PROFETAS PARA SE
REFERIREM A PUTE
COMO UMA NAÇÃO,
GERALMENTE NO
CONTEXTO MILITAR, A
EXEMPLO DO QUE
ENCONTRAMOS NO TEXTO
DE EZEQUIEL 38. UM
DICIONÁRIO LÉXICO
HEBRAICO AFIRMA: “É
PROVÁVEL QUE NÃO
SEJA O MESMO QUE
PUTE, MAS SE REFIRA
À LÍBIA”.[10]
“PARECE QUE DESDE A
ÉPOCA EM QUE FOI
ESCRITA A ANTIGA
CRÔNICA DA
BABILÔNIA, ‘PUTU’
ERA UMA TERRA
‘LONGÍNQUA’, SITUADA
A OESTE DO EGITO, A
QUAL NA ATUALIDADE
CORRESPONDERIA À
LÍBIA”.[11] “NA
OCASIÃO DESSA
INVASÃO”, ASSINALA
RANDALL PRICE,
“ESSES PAÍSES
ESTARÃO NA COMPANHIA
DE OUTRAS NAÇÕES
(CF., EZ 38.5) QUE
REPRESENTAM AS
OUTRAS TRÊS DIREÇÕES
DA BÚSSOLA, A SABER:
A PÉRSIA (O ATUAL
IRÃ) QUE VEM DO
LESTE; CUXE (O NORTE
DO SUDÃO) QUE VEM DO
SUL; E PUTE (A ATUAL
LÍBIA) QUE VEM DO
OESTE”.[12]
Tal como o Irã e o Sudão, a Líbia é um país
islâmico radical, que, até pouco tempo, foi
comandado por um ditador, o coronel Muamar
Kadafi. Semelhante ao Irã, Kadafi tentou
desenvolver armas nucleares no passado, mas
alegava que já tinha abandonado suas tentativas de
produzi-las. Hitchcock faz a seguinte observação: “A
nação da Líbia tem sido uma fonte ininterrupta de
terrorismo e de problemas tanto para o Ocidente
quanto para Israel. Certamente a Líbia não perderia
a oportunidade de unir forças com o Sudão, o Irã, a
Turquia e com as repúblicas muçulmanas da extinta
União Soviética para esmagar o Estado Judeu”.[13]

EQUIPADOS PARA MATAR


O VERSÍCULO 5
TERMINA COM ESTA
DECLARAÇÃO: “...TODOS
COM ESCUDO E
CAPACETE”. JÁ
VERIFICAMOS NO
VERSÍCULO 4 QUE A
PALAVRA HEBRAICA
TSINNÁ, TRADUZIDA POR
“PAVÊS” [ARA] OU POR
“ESCUDO” [ARC],
REFERE-SE A “UM
GRANDE ESCUDO QUE
PROTEGE O CORPO
INTEIRO”.[14] NO
VERSÍCULO 4 ESTÁ
ESCRITO: “...GRANDE
MULTIDÃO, COM PAVÊS E
ESCUDO...”, PORÉM O
VERSÍCULO 5 AFIRMA:
“...COM ESCUDO E
CAPACETE...”. O TERMO
HEBRAICO KOBÁ SE
REFERE A UM
“CAPACETE” QUE
GERALMENTE ERA FEITO
DE BRONZE.[15] TODAS
AS SEIS[16]
OCORRÊNCIAS DESSE
VOCÁBULO NO ANTIGO
TESTAMENTO HEBRAICO
DENOTAM UM CAPACETE
DE METAL USADO POR
SOLDADOS PARA SE
PROTEGEREM NUM
CONFRONTO MILITAR.
ASSIM, ESSE TEXTO
DESTACA O FATO DE
QUE “TODOS” OS
INVASORES, PORTANDO
ARMAMENTOS BÉLICOS,
ESTARÃO BEM
EQUIPADOS PARA SUA
INVASÃO À TERRA DE
ISRAEL. PRICE DIZ
QUE ESSA PASSAGEM
BÍBLICA RETRATA UM
CENÁRIO NO QUAL
“ISRAEL SE
ENCONTRARÁ INDEFESO,
‘CERCADO’ DE
INIMIGOS POR TODOS
OS LADOS”.[17]
GÔMER O NOME GÔMER,
QUE É UMA
TRANSLITERAÇÃO DO
VOCÁBULO ORIGINAL,
OCORRE CINCO VEZES
NO ANTIGO TESTAMENTO
HEBRAICO,[18] SEM
CONTAR AQUELAS
OCORRÊNCIAS QUE
DESIGNAM A ESPOSA
TEIMOSA E INFIEL DO
PROFETA OSÉIAS. COM
EXCEÇÃO DO USO FEITO
PELO PROFETA
EZEQUIEL, TODOS OS
DEMAIS USOS DO NOME
GÔMER SE ENCONTRAM
NOS REGISTROS
GENEALÓGICOS (CF.,
GN 10.2-3; 1CR 1.5-
6). NA “TABELA DAS
NAÇÕES” (GN 10.2;
1CR 1.5), GÔMER É
MENCIONADO COMO UM
DOS FILHOS DE JAFÉ.
A QUESTÃO É A
SEGUINTE: ONDE OS
DESCENDENTES DE
GÔMER RESIDEM NOS
DIAS ATUAIS? “SEUS
DESCENDENTES SÃO
NORMALMENTE
IDENTIFICADOS COMO
CIMÉRIOS, UM POVO QUE
SOBE AO PALCO DA
HISTÓRIA NO SÉCULO
VIII A.C., ORIUNDO
DO TERRITÓRIO
SITUADO AO NORTE DO
MAR NEGRO”.[19] JON
RUTHVEN ELABOROU UM
MAPA QUE LOCALIZA
GÔMER E SEUS
DESCENDENTES COMO UM
POVO QUE SE
ESTABELECEU NA
REGIÃO AO NORTE DOS
MARES NEGRO E
CÁSPIO.[20] TODAVIA,
OS DESCENDENTES DE
GÔMER FORAM EXPULSOS
DESSA REGIÃO E SE
DIRIGIRAM PARA “...O
TERRITÓRIO DA
CAPADÓCIA, QUE
ATUALMENTE
CORRESPONDE À REGIÃO
CENTRAL E CENTRO-
NORTE DA TURQUIA. O
HISTORIADOR JOSEFO
REFERIU-SE AO POVO
DA GALÁCIA COMO
DESCENDENTES DE
GÔMER. ELE AFIRMOU
QUE O POVO A QUEM OS
GREGOS CHAMAVAM DE
GÁLATAS ERAM OS
GOMERITAS”.[21] HOJE
EM DIA, ESSES
“GOMERITAS” VIVEM NA
PARTE CENTRO-OESTE
DA TURQUIA.
PORTANTO, OS
DESCENDENTES DE
GÔMER, JUNTAMENTE
COM ALGUNS OUTROS
POVOS QUE AINDA
TEMOS DE CONSIDERAR,
APONTAM PARA O FATO
DE QUE A ATUAL
TURQUIA SE TORNARÁ
UM DOS ALIADOS QUE
INVADIRÃO A TERRA DE
ISRAEL.
O texto bíblico afirma: “...Gômer e todas as
suas tropas...”. A partir de declarações
anteriormente feitas nessa profecia, já estava claro
que muitas nações sobrevirão contra Israel e, neste
ponto, fica evidente que os descendentes de Gômer
farão parte dessa aliança invasora. Maranata!
NOTAS 1 MARK HITCHCOCK, AFTER THE EMPIRE: BIBLE
PROPHECY IN LIGHT OF THE FALL OF THE SOVIET
UNION, WHEATON, IL: TYNDALE HOUSE
PUBLISHERS, 1994, P. 72.
2
Para ter acesso a dois livros mais recentes que enfocam os
acontecimentos atuais na sua relação com a invasão
imposta por Gogue e Magogue, veja: Mark HITCHCOCK, Iran
The Coming Crisis: Radical Islam, Oil, And The Nuclear
Threat, Sisters, OR: Multnomah, 2006; bem como, Joel C.
ROSENBERG, Epicenter: Why The Current Rumblings in The
Middle East Will Change Your Future, Carol Stream, IL:
Tyndale House Publishers, 2006.
3
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
4
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
5
R. Laird HARRIS, Gleason L. ARCHER, Jr., e Bruce K. W ALTKE,
organizadores, Theological Wordbook of the Old
Testament, 2 vols., Chicago: Moody Press, 1980, vol. 1, p.
435.
6
HITCHCOCK, After The Empire, p. 79. Pelo menos essa era a
situação em 1994.
7
HITCHCOCK, After The Empire, p. 79-83.
8
HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis, p. 185.
9
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
10
KOEHLER e BAUMGARTNER, The Hebrew Lexicon, versão
eletrônica.
11
HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis, p. 185.
12
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado no The Popular Bible
Prophecy Commentary: Understanding the Meaning of
Every Prophetic Passage, organizado por Tim LAHAYE e Ed
HINDSON, Eugene, OR: Harvest House Publishers, 2006, p.
191.
13
HITCHCOCK, After The Empire, p. 85-86.
14
Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
15
BROWN, DRIVER, e BRIGGS, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
16
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
17
PRICE, “Ezekiel”, p. 191.
18
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
19
HARRIS, ARCHER, e W ALTKE, Theological Wordbook, vol. 1, p.
168.
20
Jon Mark RUTHVEN, The Prophecy That Is Shaping History:
New Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA:
Xulon Press, 2003, p. 81.
21
HITCHCOCK, After The Empire, p. 62.
10. EZEQUIEL 38.6

“Gômer e todas as suas tropas; a casa de


Togarma, do lado do Norte, e todas as suas
tropas, muitos povos contigo”.

Ainda existe uma última etnia alistada entre


aquelas que, junto com Gogue, marcharão para
atacar Israel. A última relacionada nesse texto é
Beth-Togarmah.

BETH-TOGARMAH OU
“CASA DE TOGARMA”
Beth-Togarmah é a transliteração inglesa de
duas palavras do texto original hebraico. Beth é o
termo hebraico normalmente utilizado para designar
“casa” ou “lugar de” e ocorre mais de duas mil vezes
na Bíblia Hebraica.[1] Togarmah é um substantivo
que ocorre 4 vezes na Bíblia Hebraica.[2] O nome
Togarma é usado por duas vezes no registro
genealógico para se referir a um dos filhos de
Gômer (Gn 10.3; 1Cr 1.6). As duas outras
ocorrências desse termo se encontram em Ezequiel
(Ez 27.14; 38.6). O prefixo hebraico Beth só é
usado nessas duas ocorrências em Ezequiel para
formar o termo composto que se traduz por “casa de
Togarma”. O texto de Ezequiel 27.14 se refere ao
comércio desenvolvido por esse povo quando diz:
“Os da casa de Togarma, em troca das tuas
mercadorias, davam cavalos, ginetes e mulos”. Na
verdade, “Heródoto a menciona [i.e., Togarma] pela
fama de seus cavalos e mulas”.[3]
Mark Hitchcock comenta o seguinte: “A
maioria dos estudiosos da Bíblia e da história antiga
relaciona a Togarma bíblica com a antiga cidade
Hitita de Tegarma, um importante centro urbano
situado no leste da Capadócia (atual Turquia)”.[4]
Jon Mark Ruthven concorda, ao declarar:
“Indivíduos da ‘casa de Togarma’ podem ter feito
parte dos dois grandes movimentos migratórios
jafetitas em direção ao extremo norte, ocorridos
respectivamente no segundo e primeiro milênios
a.C., e podem ter sido incorporados à matriz
populacional das atuais Rússia e Turquia”.[5]
Hitchcock traça o movimento migratório de
Togarma da seguinte forma: Togarma era o nome
tanto de um distrito quanto de uma cidade localizada
na fronteira de Tubal, a leste da Capadócia.
Togarma ficou conhecida na história por diferentes
designativos, tais como: Tegarma, Tagarma e
Takarama. Os antigos assírios se referiram a essa
cidade pelo nome de Til-garimmu. Um dos mapas
da The Cambridge Ancient History situa Til-
garimmu na fronteira nordeste de Tubal, a saber, na
região nordeste da atual Turquia. Gesenius, o
erudito em língua hebraica, identificou Togarma
como uma nação do norte, onde cavalos e mulas são
abundantes, localizada na antiga Armênia. O antigo
território da Armênia situa-se atualmente dentro dos
limites territoriais da Turquia.[6]
Hitchcock conclui: “Contudo, ainda que os
eruditos demonstrem uma leve divergência quanto à
localização exata da antiga Togarma, eles sempre a
identificam como uma cidade ou um distrito que se
situava dentro do território nacional da Turquia dos
dias atuais”.[7]
É interessante observar que não há nenhuma
nação árabe entre as nações que se aliarão à Rússia
para invadir Israel. Entretanto, todos esses aliados da
Rússia são países islâmicos ou muçulmanos. O Irã
não é uma nação árabe; pelo contrário, os iranianos
são persas.

“...DO LADO DO
NORTE...”
A passagem bíblica afirma que “a casa de
Togarma” vem “...do lado do norte...”. Essa frase se
compõe de duas palavras no original hebraico. A
palavra traduzida por “norte” significa exatamente
isso, ao passo que a palavra traduzida pela expressão
“do lado do” comunica a idéia de “extremo”, “região
longínqua” ou parte mais distante de qualquer
referencial mencionado no contexto.[8] A
associação dessas duas palavras na mesma frase
ocorre por cinco vezes na Bíblia Hebraica (Sl 48.3;
Is 14.13; Ez 38.6,15; 39.2). Sua ocorrência em
Isaías se encontra numa das cinco afirmações
futuras de Satanás na ocasião de sua rebelião contra
Deus “Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu;
acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e
no monte da congregação me assentarei, nas
extremidades do Norte”. O salmista declara o
seguinte sobre Jerusalém: “Seu santo monte, belo e
sobranceiro, é a alegria de toda a terra; o monte
Sião, para os lados do Norte, a cidade do grande
Rei”. O monte Sião ficava no limite norte da antiga
Jerusalém. Os outros três usos dessa associação de
palavras se encontram nos capítulos 38 e 39 de
Ezequiel. As outras duas ocorrências em Ezequiel
38 e 39 se referem a Gogue nos seguintes termos:
“Virás, pois, do teu lugar, dos lados do Norte, tu e
muitos povos contigo, montados todos a cavalo,
grande multidão e poderoso exército” (Ez 38.15);
“Far-te-ei que te volvas e te conduzirei, far-te-ei
subir dos lados do Norte e te trarei aos montes de
Israel” (Ez 39.2). Por isso, o texto menciona que a
“casa de Togarma” (i.e., Beth-Togarmah) vem das
partes remotas do norte, assim como Gogue, que é a
Rússia dos dias atuais, também virá dessa região.
Hitchcock levanta a seguinte questão: “Se a Rússia é
o ponto geográfico mais distante ao norte de Israel,
será que essa afirmação significa que Togarma
procederá da extinta União Soviética?”. Ele mesmo
responde à sua indagação: “A resposta a essa
pergunta é não. Forçar uma localização geográfica
para Togarma que seja totalmente incoerente com o
testemunho claro da história antiga seria uma grave
distorção das evidências. Além do mais, a Turquia
da atualidade se encaixa nitidamente na descrição
que o texto faz porque se localiza no extremo norte
da Terra Prometida”.[9]

“...E TODAS AS SUAS


TROPAS...”
A última parte do versículo 6 afirma que a casa
de Togarma virá das bandas do norte com “...todas
as suas tropas, muitos povos contigo”. O vocábulo
hebraico traduzido por “tropas” é usado por seis
vezes no Antigo Testamento Hebraico e todas as
suas ocorrências se encontram no livro de Ezequiel
(Ez 12.14; 17.21; 38.6,9,22; 39.4).[10] Com
exceção de dois usos dessa palavra, todas as demais
ocorrências aparecem em Ezequiel 38 e 39. Alguns
eruditos declaram que esse vocábulo diz respeito a
uma “asa” ou um “parâmetro”,[11] porém nesses
contextos citados o termo se refere nitidamente a
tropas militares. Alguns sugerem que essa palavra
pode ter a conotação de tropas no flanco ou nas alas
de uma unidade militar e seria uma expressão
idiomática hebraica para designar todo o contingente
do exército de algum povo ou de alguém. O ponto
relevante é que se alguém leva suas tropas a se
posicionarem até os flancos,[12] isso implica utilizar
todo o contingente de infantaria que alguém poderia
arregimentar. Assim, a tradução mais clara e
coerente dessa palavra original hebraica é “tropas”
(no sentido de forças armadas).
A última frase do versículo 6 deixa claro que a
soma total da casa de Togarma incluirá muitos
povos com ele. Essa frase ocorre outras duas vezes
na Bíblia Hebraica, ambas em Ezequiel 38
(versículos 9 e 15). O versículo 9 se refere à
coalizão inteira que atacará Israel, ao passo que, no
versículo 15, os “muitos povos” se referem aos
países participantes da coalizão que será comandada
por Gogue. O uso da expressão “...muitos povos
contigo...” nos versículos 9 e 15 apresenta uma leve
diferença do versículo 6, pois nos versículos 9 e 15
a construção da frase vem precedida da conjunção
“e”. A frase no versículo 6 não apresenta a
conjunção “e” o que implica em que a expressão
“...muitos povos contigo” se encontra em aposição
[i.e., como aposto] à frase anterior “...e todas as
suas tropas...”. Portanto, a frase “...muitos povos
contigo” é uma descrição das tropas que a casa de
Togarma trará em sua companhia para o ataque a
Israel.

FALANDO FRANCAMENTE
AGORA QUE TERMINAMOS
A ANÁLISE DA RELAÇÃO
DE POVOS QUE SE
UNIRÃO À RÚSSIA NO
ATAQUE QUE ESTA
COMANDARÁ CONTRA
ISRAEL, PERCEBEMOS
QUE QUATRO DOS NOMES
RELACIONADOS NESSE
TEXTO DE EZEQUIEL
SÃO ANCESTRAIS
DAQUELAS ETNIAS QUE
ATUALMENTE
CONSTITUEM A
POPULAÇÃO DA
TURQUIA. TODOS OS
QUATRO, MESEQUE,
TUBAL, GÔMER E A
CASA DE TOGARMA, SÃO
FORTES INDICADORES
DE QUE A TURQUIA
SERÁ UM DOS PAÍSES-
MEMBROS DESSA
COALIZÃO DIABÓLICA.
MAS, DIANTE DO
ALINHAMENTO DAS
NAÇÕES NOS DIAS
ATUAIS, SERIA
POSSÍVEL O
ENVOLVIMENTO DA
TURQUIA NESSA
ALIANÇA?
Hoje em dia, a Turquia não se encontra
alinhada com a Rússia e com o Irã por ter se tornado
tecnicamente um Estado secular com uma herança
muçulmana após o colapso do império Turco-
Otomano no final da Primeira Guerra Mundial. Já
faz tempo que a Turquia se tornou membro da
OTAN [i.e., Organização do Tratado do Atlântico
Norte] e tem expressado o desejo de se identificar
não com a Ásia, mas com a Europa, muito
provavelmente por razões econômicas. A Turquia é
um país cuja menor parte do território se encontra
na Europa e a maior parte está situada na Ásia.
Além disso, a Turquia já solicitou oficialmente o
ingresso como país-membro da União Européia,
onde qualquer pessoa que esteja num dos seus
países-membros pode se deslocar livremente para
outra localidade que se encontre dentro limites
geográficos da União Européia. Os demais países-
membros estão preocupados porque temem que, se
for admitida como membro da União Européia, a
Turquia possa se tornar um canal através do qual os
muçulmanos se deslocariam para inundar o restante
da Europa com a sua presença. Embora a Turquia
continue no processo de cumprir requisitos para
ingressar na União Européia, é praticamente certo
que no fim tal ingresso seja rejeitado. A partir do
momento que forem rejeitados pela União Européia,
os turcos vão buscar alinhamento com a Rússia,
bem como com seus países-irmãos islâmicos.
Nos últimos anos contemplou-se a emergência
de uma maioria islâmica no Parlamento da Turquia e
o seu atual primeiro-ministro é muçulmano. A
dissolução da antiga União Soviética envolveu a
independência destas cinco repúblicas islâmicas:
Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão,
Turcomenistão e Tajiquistão. Hitchcock salienta que
“a Turquia tem sido atraída por essas ex-repúblicas
soviéticas e tem se aproximado delas por razões
econômicas, além de manter fortes laços lingüísticos
e étnicos com tais países. Todos esses países falam
variações do idioma turco, com exceção do
Tajiquistão, onde a língua se assemelha ao farsi
iraniano”.[13] A Turquia se considera o
desenvolvedor econômico dos vastos recursos
naturais que se encontram nesses cinco novos
países, tais como: ouro, prata, urânio, petróleo,
carvão e gás natural. Depois de ser desprezada pela
Europa, a Turquia terá motivos de sobra para entrar
numa aliança com a Rússia e com suas nações-irmãs
muçulmanas, o que deixará o palco preparado para
o cumprimento dessa profecia. Maranata!
NOTAS 1 DE ACORDO COM UMA PESQUISA REALIZADA
ATRAVÉS DO PROGRAMA DE COMPUTADOR
ACCORDANCE, VERSÃO 7.3, ESSE TERMO OCORRE
2.047 VEZES.
2
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
3
S. Fisch, Ezekiel: Hebrew Text & English translation with an
Introduction and Commentary, Londres: The Soncino
Press, 1950, p. 182.
4
Mark Hitchcock, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 63.
5
Jon Mark Ruthven, The Prophecy That Is Shaping History:
New Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA:
Xulon Press, 2003, p. 102.
6
Hitchcock, After The Empire, p. 63-64.
7
Hitchcock, After The Empire, p. 64.
8
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
9
Hitchcock, After The Empire, p. 64-65.
10
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
11
Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
12
C. F. Keil, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão; Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 161.
13
Hitchcock, After The Empire, p. 66.
11. EZEQUIEL
38.7-8

“Prepara-te, sim, dispõe-te, tu e toda a


multidão do teu povo que se reuniu a ti, e
serve-lhe de guarda. Depois de muitos dias,
serás visitado; no fim dos anos, virás à terra
que se recuperou da espada, ao povo que se
congregou dentre muitos povos sobre os
montes de Israel, que sempre estavam
desolados; este povo foi tirado de entre os
povos, e todos eles habitarão seguramente”.

Os seis primeiros versículos da profecia


registrada no capítulo 38 de Ezequiel delineiam
“quem” estaria envolvido numa invasão ao território
de Israel, enquanto os versículos 7 a 9 informam
“onde” e “quando” esse acontecimento ocorrerá.
Essa nova seção (versículos 7-9) começa com uma
provocação da parte de Deus a Gogue e sua
coalizão, a fim de se certificar que eles estejam
realmente prontos para invadir Israel.

DEUS PROVOCA GOGUE O


VERSÍCULO 7 COMEÇA
COM O MESMO VERBO
HEBRAICO USADO DE
FORMA REPETIDA E
CONSECUTIVA NA
FRASE. O VERBO
“PREPARAR” ESTÁ
DISPOSTO DESSA FORMA
NA MESMA FRASE COM A
FINALIDADE DE
INTENSIFICAR SEU
SIGNIFICADO. EM
OUTRAS PALAVRAS,
DEUS ESTÁ AVISANDO A
GOGUE E A SEUS
ALIADOS QUE É BOM
ESTAREM CERTOS DE
QUE SE PREPARARAM AO
MÁXIMO PARA SEU
ATAQUE A ISRAEL,
PORQUE, NO FUNDO,
TRATA-SE DE UM
ATAQUE A DEUS,
SITUAÇÃO ESSA PARA A
QUAL SERES HUMANOS
NUNCA ESTÃO
REALMENTE
PREPARADOS. CHARLES
FEINBERG COMENTA:
“COM NOTÓRIA E
ABSOLUTA IRONIA,
EZEQUIEL SOLICITA
QUE GOGUE ESTEJA
PLENAMENTE PREPARADO
PARA ESSE CONFRONTO
E QUE TOME
PROVIDÊNCIAS PARA
QUE SEUS ALIADOS
ESTEJAM COM TUDO
PRONTO PARA A
OCASIÃO”.[1]
A última frase do versículo 7 diz: “...e serve-
lhe de guarda”. O substantivo hebraico traduzido
por “guarda” significa “sentinela” ou “vigia” e no
modo em que se encontra tem a conotação de
“manter vigilância”, “montar guarda fortemente
armada” e “ficar de prontidão”.[2] O Senhor
provoca Gogue ainda mais, quando o desafia, como
líder da coalizão, a garantir que está vigilante e que
guarda os exércitos que a ele se aliaram a fim de
protegê-los contra qualquer mal que lhes
sobrevenha. É uma sarcástica advertência feita a
Gogue e seus comparsas, porque, apesar de se
reunirem com o propósito de varrer Israel do mapa,
eles é que serão destroçados.

“DEPOIS DE MUITOS
DIAS”
Quando Ezequiel inicia o versículo 8 e diz:
“Depois de muitos dias, serás visitado...”, fica
evidente que a soberania de Deus continua a ser o
tema de maior destaque dessa profecia. Em última
análise, toda essa operação é idéia de Deus e,
conforme Ele mesmo declarou no versículo 4:
“...porei anzóis no teu queixo e te levarei a ti e todo
o teu exército...”, eles serão levados a investir contra
Israel. Agora Ezequiel afirma que Deus está
convocando Gogue e sua coalizão para um ataque a
Israel de modo que se cumpra o propósito do
Senhor. “O coração do homem traça o seu
caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos”
(Provérbios 16.9). A exata expressão hebraica,
traduzida pela frase “depois de muitos dias”, só
ocorre mais uma vez no Antigo Testamento, em
Josué 23.1: “E sucedeu que, muitos dias depois que
o Senhor dera repouso a Israel de todos os seus
inimigos em redor, e sendo Josué já velho e entrado
em dias” (ACF e ARC). Uma vez que o contexto
governa o tempo proposto numa frase adverbial
temporal, fica claro que os “muitos dias”
mencionados no contexto do livro de Josué se
referem a alguns anos, porque todos esses “muitos
dias” se passaram durante o tempo de vida de
Josué. Uma frase hebraica semelhante é usada por
quatro vezes no Antigo Testamento (1Rs 18.1; Ec
11.1; Is 24.22; Jr 13.6); três dessas quatro
ocorrências se assemelham à que é usada em Josué
23.1, porém a que ocorre em Isaías 24.22 se
encontra dentro de um contexto escatológico, nestes
termos: “Naquele dia, o Senhor castigará, no céu,
as hostes celestes, e os reis da terra, na terra.
Serão ajuntados como presos em masmorra, e
encerrados num cárcere, e castigados depois de
muitos dias. A lua se envergonhará, e o sol se
confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar
no monte Sião e em Jerusalém; perante os seus
anciãos haverá glória” (Isaías 24.21-23). C. F.
Keil, ao escrever no século dezenove, afirmou: “A
primeira cláusula traz uma lembrança tão forte de
Isaías 24.22 que a ação nessa passagem dificilmente
poderia ser confundida; de modo que Ezequiel usa
essas palavras no mesmo sentido que Isaías usou”.
[3] O contexto faz nítida referência a um
acontecimento futuro que, até agora, não ocorreu. A
expressão “depois de muitos dias”, que se encontra
no versículo 22, é uma provável referência ao
período de mil anos revelado em Apocalipse 20.2-7.
A duração do tempo, indicada na frase “depois
de muitos dias”, é determinada por fatores presentes
no contexto, os quais claramente apontam para um
período mais longo que o tempo de vida de um ser
humano. Em breve, quando eu fizer uma análise das
outras expressões que indicam tempo nesse
contexto, verificaremos que “o texto é enfático ao
demonstrar que essa invasão e suas consequências
foram previstas muito tempo antes”.[4] Keil
comenta: “a expressão ‘depois de muitos dias’, isto
é, após um longo tempo [...] significa apenas o
decurso de um período prolongado; [...] trata-se do
fim dos dias, do último tempo, não do futuro em
geral, mas do futuro final, daquele período
messiânico em que se concretizará o Reino de
Deus”.[5] Feinberg declara o seguinte: “O
referencial de tempo indicava que o ataque do
inimigo não ocorreria por um longo período de
tempo. Os acontecimentos aqui preditos não deviam
ser esperados para o período da vida de Ezequiel,
nem para os dias de seus contemporâneos”.[6]

“NO FIM DOS ANOS”


A frase “depois de muitos dias” não é o único
indicador da época em que tal invasão ocorrerá. No
texto original hebraico, essa expressão temporal é
imediatamente seguida pela frase “...no fim dos
anos...”. Ambas as frases devem se referir ao
mesmo período de tempo. À semelhança da
expressão anterior, se esta última não está
qualificada por algo como, por exemplo, os últimos
dias da vida de uma pessoa, só pode se referir a todo
o período da história. Uma expressão quase idêntica
é usada no versículo 16 desse mesmo capítulo,
quando Deus declara: “...Nos últimos dias, hei de
trazer-te contra a minha terra...”. Em todo o
Antigo Testamento, a expressão “no fim dos anos”
só ocorre neste texto de Ezequiel. Contudo, se a
expressão “nos últimos dias” é usada no versículo
16 para descrever o mesmo acontecimento, pode-se
concluir com segurança que a expressão “nos
últimos dias”, usada com mais frequência, tem
significado análogo à expressão “no fim dos anos”.
Tal conclusão baseia-se no fato de que as frases
“depois de muitos dias” e “no fim dos anos”
ocorrem atreladas no versículo 8. Feinberg
esclarece: “o referencial cronológico foi claramente
enunciado na expressão ‘no fim dos anos’, que é
equivalente à expressão ‘nos últimos dias’ do
versículo 16”.[7]
Quando se faz uma pesquisa no Antigo
Testamento sobre o uso de terminologia semelhante
à expressão “no fim dos anos”, mencionada em
Ezequiel 38.8, encontramos três outras frases
correlatas.[8] Selecionei dentre essas frases aquelas
ocorrências que possuem significado profético, cujo
cumprimento ainda acontecerá no futuro. A primeira
expressão é “nos últimos dias” (Dt 4.30; 31.29; Is
2.2; Jr 23.20, 30.24, 48.47, 49.39; Ez 38.16; Dn
2.28, 10.14; Os 3.5; Mq 4.1); a outra expressão é
“tempo do fim” (Dn 8.17,19; 11.27,35,40;
12.4,9,13). O fato de Ezequiel utilizar as três
expressões (i.e., “depois de muitos dias”, “no fim
dos anos” e “nos últimos dias”) oferece forte
embasamento para a concepção de que essa batalha
se dará num tempo ainda vindouro. Randall Price
comenta: “Embora a expressão “últimos dias” possa
se referir ao período da Tribulação, não é uma
terminologia técnica específica para designá-la, pois
os parâmetros contextuais e a variedade de usos lhe
permitem ser empregada em diferentes sentidos”.[9]
Assim, as frases que mencionam a expressão
“últimos dias” se referem à septuagésima semana da
profecia de Daniel (a saber, o período da
Tribulação), ao reino milenar de Cristo (i.e., o
Milênio) e também podem se referir a alguns
acontecimentos que hão de ocorrer imediatamente
antes da Tribulação, como, por exemplo, a invasão
de Israel promovida por Gogue e Magogue. Mark
Hitchcock assinala: “Essas frases são usadas no
Antigo Testamento por quinze vezes ao todo.
Sempre são empregadas em referência ao período
da Tribulação (Dt 4.30; 31.29) ou ao Milênio (Is
2.2; Mq 4.1). Ainda que tais expressões não
identifiquem o momento específico dessa invasão,
indicam claramente que tal ocasião acontecerá num
período de tempo que, da perspectiva de nossos
dias, ainda é futuro”.[10]
“TERRA QUE SE
RECUPEROU DA ESPADA”
A próxima frase desse texto declara: “...virás à
terra que se recuperou da espada...”. A terra para a
qual Gogue e seus aliados se dirigirão a fim de
invadir é, sem sombra de dúvida, a terra de Israel. É
interessante que esse texto descreve a terra de Israel
como uma terra que se recuperou da espada. O
termo hebraico traduzido por “recuperou” é um
verbo geralmente utilizado para designar o ato de
“virar-se”, “retornar” ou “arrepender-se”.[11]
Portanto, o sentido no qual aqui se usa o verbo
hebraico shuv é o de aludir a um povo que outrora
estava na terra de Israel; foi removido dessa terra,
mas agora foi trazido de volta à terra de onde é
oriundo. Nesse caso, eles foram trazidos de volta ou
retornaram à terra de Israel. Em toda a história
mundial, sabe-se que os judeus são o único povo
que foi removido de sua terra natal, ficou disperso
entre a maioria das nações e voltou para sua terra
natal. Isso explica a razão pela qual a versão que uso
da Bíblia em inglês (The New American Standard
Bible – NASB) traduziu esse verbo hebraico pela
palavra “restore” [N. do T.: Em português:
“restaurar, recuperar, reconstituir, restabelecer”]. Em
outras palavras, os judeus estão retornando à sua
terra natal, onde essa recuperação tem se cumprido
e onde muitas outras predições bíblicas ainda se
cumprirão. Maranata!
NOTAS 1 CHARLES LEE FEINBERG, THE PROPHECY
OF EZEKIEL, CHICAGO: MOODY PRESS, 1969, P.
221.
2
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
3
C. F. Keil, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin,
reimpressão; Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 162.
4
Jon Mark Ruthven, The Prophecy That Is Shaping History:
New Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA:
Xulon Press, 2003, p. 123.
5
Keil, Ezekiel, p. 163.
6
Feinberg, Ezekiel, p. 221.
7
Feinberg, Ezekiel, p. 221.
8
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
9
Randall Price, Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel, 2007, p. 40.
10
Mark Hitchcock, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 126.
11
Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
12. EZEQUIEL 38.8

“Depois de muitos dias, serás visitado; no fim


dos anos, virás à terra que se recuperou da
espada, ao povo que se congregou dentre
muitos povos sobre os montes de Israel, que
sempre estavam desolados; este povo foi
tirado de entre os povos, e todos eles
habitarão seguramente”.

O verso 8 é o mais longo versículo de Ezequiel


38–39 e descreve o momento em que essa invasão
da terra de Israel acontecerá. Nesse versículo, há um
total de sete frases descritivas que nos informam a
ocasião em que esse episódio ocorrerá. Já
analisamos as primeiras três frases e verificamos que
essa invasão se dará “depois de muitos dias”, “no
fim dos anos” e quando a terra de Israel se
recuperar “...da espada”. É preciso ter em mente o
fato de que esse acontecimento só ocorrerá quando
todos os sete indicadores descritos nessas frases
estiverem presentes ao mesmo tempo.

ISSO SE CUMPRIU NA
ÉPOCA DE ESTER?
O intérprete preterista Gary DeMar propôs
uma interpretação muito esquisita quanto à época
em que a invasão comandada por Gogue teria
ocorrido. Ele argumenta que a batalha descrita em
Ezequiel 38–39 já se cumpriu em 473 a.C., nos dias
da rainha Ester da Pérsia, por ocasião dos
acontecimentos descritos no capítulo 9 do livro de
Ester.[1]
DeMar alega que os paralelos entre a batalha
mencionada em Ezequiel 38–39 e a batalha
mencionada no livro de Ester são “inequívocos”.[2]
Há um monte de problemas nessa concepção e o
menor deles não se encontra nas sete frases de
Ezequiel 38.8. Na comparação da profecia de
Ezequiel com o relato de Ester, certas similaridades
escassas não determinam tal relação de
cumprimento; pelo contrário, o grande número de
diferenças evidencia que a concepção de DeMar é
impossível. Ao que parece, o único motivo para que
DeMar defenda um ponto de vista como esse, é seu
desejo obsessivo de evitar qualquer profecia de
cumprimento futuro referente à nação de Israel. Tal
obsessão cega seus olhos para o claro significado
desse texto.
Abaixo relaciono algumas incoerências mais
evidentes e problemáticas desse ponto de vista:
Ezequiel 38–39: Ester 9:
– A terra de Israel é invadida (38.16) – Os judeus são atacados nas cidades de
por uma coalizão de vários exércitos. todo o império Persa (127 províncias; Et
Os inimigos tombam nos montes de 9.30) por supostas gangues de pessoas
Israel (39.4). Gogue, o líder dessa inimigas, não exércitos, e se defendem
invasão, é enterrado em Israel (39.11). (9.2). Os inimigos são mortos em todo o
Império Persa.
– Durante um período de sete meses, – Não há necessidade de limpar a terra,
os judeus sepultarão os corpos dos porque os cadáveres não se encontram
inimigos invasores para limpar a terra em Israel.
de Israel (39.12).
– Os invasores são destruídos por um – Os agressores são mortos pelo próprio
terremoto arrasador na terra de Israel, povo judeu, auxiliados por governantes
por lutas internas, por pragas, bem locais das províncias (9.3-5).
como por fogo que cai do céu (38.19-
22). Deus destrói os inimigos de Israel
de modo sobrenatural.
– Os invasores vêm do extremo oeste, – O território do Império Persa não
como a antiga Pute (atual Líbia; Ez incluía essas regiões. Sua extensão
38.5) e do extremo norte, como territorial no extremo oeste chegava até
Magogue, a terra dos citas. Cuxe (atual Sudão; Et 8.9) e no extremo
norte chegava até a região situada abaixo
do mar Negro e do mar Cáspio.
– Deus envia fogo sobre Magogue e – Não há nada que se assemelhe a isso
nos que habitam nas ilhas (39.6). em Ester 9.

Uma importante pergunta que podemos


levantar a essa altura é a seguinte: Se o texto de
Ezequiel 38–39 se cumpriu através dos
acontecimentos descritos em Ester 9, por que isso
passou despercebido nos dias de Ester? Por que não
há nenhuma menção desse extraordinário
cumprimento da profecia de Ezequiel no livro de
Ester? A resposta é mais do que óbvia. Os fatos
relatados em Ester 9 não são o cumprimento de
Ezequiel 38–39. Na realidade, um importante
feriado judaico, chamado Purim (Et 9.20-32), foi
instituído a partir do que se passou naquele episódio
mencionado em Ester. É um festivo feriado anual
que celebra o livramento efetuado por Deus para
tirar Israel das mãos de seus inimigos. A celebração
do Purim inclui a leitura pública do livro de Ester,
porém não existe nenhuma tradição desenvolvida,
ou de que se tenha notícia, na qual os judeus façam
a leitura de Ezequiel 38–39 como se houvesse
alguma relação com a observância dessa festa. Se o
texto de Ezequiel 38–39 tivesse se cumprido nos
acontecimentos narrados em Ester, o povo judeu,
sem dúvida, teria desenvolvido uma tradição ritual
de ler também a passagem de Ezequiel nessa
celebração.
Além disso, por que não existe nenhum erudito
judeu que ao longo da história tenha reconhecido tal
cumprimento profético? O consenso entre os
comentaristas judeus sempre foi o de que a profecia
acerca de Gogue refere-se a acontecimentos
previstos para o tempo do fim. Para falar a verdade,
essa batalha é o ponto focal de sua concepção
profética escatológica, a qual, segundo eles, se
cumprirá imediatamente antes da chegada do
Messias. Rafael Eisenberg, um rabino da atualidade,
faz o seguinte resumo da tradição judaica no que diz
respeito à batalha de Gogue descrita em Ezequiel:
Nossos profetas e sábios predisseram que, antes da
chegada do Messias, o Império Perverso, Roma (que,
como já demonstramos, é a Rússia dos dias atuais),
recuperará sua antiga grandeza. Nos dias pré-
Messiânicos, a Rússia se expandirá e conquistará o
mundo inteiro, de modo que seu governante, “o qual
será tão perverso quanto Hamã”, se levantará e
conduzirá as nações do mundo todo até Jerusalém a
fim de aniquilar Israel [...] Naquele momento, os
milagres portentosos que executarão a grande
vingança contra os inimigos de Israel e a destruição
final do Império Perverso, convencerão o mundo de
que somente Deus é o Juiz e Governante do Universo.
[3]

Outra razão simples pela qual podemos


entender que essa invasão ainda se dará no futuro é
o fato de que nenhum acontecimento semelhante
aos que estão descritos em Ezequiel 38–39 já
ocorreu no passado. Apenas considere o seguinte:
Em que ocasião histórica se pode dizer que Israel foi
invadido por todas aquelas nações alistadas no texto
de Ezequiel 38.1-6? Ou ainda: Quando foi que Deus
destruiu um exército invasor dessa natureza, com
fogo e enxofre lançados do céu, com pestes,
terremotos e lutas autodestrutivas entre os soldados
invasores (Ez 38.19-22)?
A resposta é: Nunca. Esse é o motivo pelo qual
Ezequiel descreve uma invasão que ainda acontecerá
no futuro, até mesmo para o nosso referencial de
tempo. Agora passaremos a examinar os últimos
quatro indicadores do versículo 8.
“POVO QUE SE
CONGREGOU DENTRE
MUITOS POVOS”
A quarta frase descritiva afirma: “...ao povo
que se congregou dentre muitos povos sobre os
montes de Israel...”. A expressão “ao povo que se
congregou” é a tradução de um único vocábulo
hebraico, o verbo qabats que significa “reunir”,
“congregar” ou “ajuntar”. Trata-se do termo
geralmente usado para designar a ação de coletar
algo, como, por exemplo, os produtos agrícolas no
tempo da colheita. Nesse texto, o verbo se encontra
flexionado no tempo hebraico Pual [4] e no modo
particípio, o que nesse contexto implica, por elipse,
que Deus é Quem trouxe esse povo de volta e os
congregou na terra de Israel. Mas, de onde Ele os
ajuntou?
Deus os ajuntou dentre muitas nações. A
palavra traduzida por “nações” é o termo hebraico
de uso comum ‘am, usado por cerca de 3.000
vezes[5] no Antigo Testamento e significa
simplesmente “povo, povos, nação ou nações”.[6]
Charles Feinberg ressalva: “Isso não pode ser referir
ao exílio babilônico; pelo contrário, refere-se a uma
dispersão mundial”.[7] C. F. Keil concorda e
acrescenta: “A expressão ‘congregou dentre muitos
povos’ também aponta para uma realidade muito
além do exílio babilônico, a saber, a dispersão de
Israel pelo mundo todo, um fato que só ocorreu
depois da segunda destruição de Jerusalém”.[8]
Esses repatriados se estabeleceriam “...sobre os
montes de Israel”. Jerusalém é uma cidade situada
nos montes de Israel. Por conseguinte, desde 1967 o
novo Estado de Israel assumiu o controle da antiga
cidade conhecida como Jerusalém.

“QUE SEMPRE ESTAVAM


DESOLADOS”
A quinta frase descritiva afirma: “...que sempre
estavam desolados...”. Mas, o que estava em
contínua desolação? Essa frase faz alusão à terra de
Israel que esteve continuamente desolada. O termo
hebraico traduzido por “desolados” ocorre 50 vezes
no Antigo Testamento,[9] com especialidade nos
livros proféticos para se referir às ruínas de
Jerusalém, de Israel e, por vezes, do Egito, como
resultado do juízo de Deus. O advérbio “sempre”
modifica o termo “desolados” e transmite a idéia de
“prosseguir sem interrupção, continuamente”.[10] O
rabino Fisch explica o seguinte: “O termo hebraico
aqui traduzido por ‘sempre’ significa ‘por um longo
tempo’, implicando o período do exílio”.[11]
Porém, que exílio? Seria uma referência aos 70 anos
de exílio na Babilônia ou se refere aos quase 2.000
anos de exílio mundial que a maior parte da
população judaica ainda experimenta? Feinberg
assevera: “Isso diz respeito a um período de tempo
mais longo do que os setenta anos de exílio na
Babilônia”.[12] Keil também comenta que nesse
texto “o termo ‘sempre’ denota um período de
devastação da terra [de Israel] muito mais longo do
que durou a devastação imposta pelos caldeus”.[13]
NOTAS
1
Gary DeMar, End Times Fiction: A Biblical Consideration of
The Left Behind Theology , Nashville: Thomas Nelson
Publishers, 2001, p. 12-15.
2
DeMar, End Times Fiction, p. 13.
3
Rafael Eisenberg, A Matter of Return: A Penetrating
Analysis of Yisrael’s Afflictions and Their Alternatives,
Jerusalém: Feldheim Publishers, 1980, p. 155,citado na
obra de Randall Price, The Temple and Bible Prophecy: A
Definitive Lookat Its Past, Present, and Future, Eugene,
OR: Harvest House, 2005, p. 459. Para uma visão geral
das concepções judaicas sobre a invasão de Gogue a
Israel, descrita em Ezequiel 38–39, veja a obra de Price,
The Temple and Bible Prophecy, p. 458-61.
4
O tempo verbal hebraico Pual denota uma qualidade de ação
intensiva na voz passiva.
5
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
6
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
7
Charles Lee Feinberg, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 222.
8
C. F. Keil, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin,
reimpressão; Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 164.
9
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
10
Francis Brown, S. R. Driver, e C. A. Briggs, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
11
Rabbi Dr. S. Fisch, Ezekiel: Hebrew Text & English
Translation With An Introduction and Commentary,
Londres: The Soncino Press, 1950, p. 254.
12
Feinberg, Ezekiel, p. 222.
13
Keil, Ezekiel, p. 164.
13. EZEQUIEL
38.8-9

“Depois de muitos dias, serás visitado; no fim


dos anos, virás à terra que se recuperou da
espada, ao povo que se congregou dentre
muitos povos sobre os montes de Israel, que
sempre estavam desolados; este povo foi
tirado de entre os povos, e todos eles
habitarão seguramente. Então, subirás, virás
como tempestade, far-te-ás como nuvem que
cobre a terra, tu, e todas as tuas tropas, e
muitos povos contigo”.

As últimas duas das sete frases descritivas que


se encontram no versículo 8 serão analisadas a partir
de agora. Essas frases proporcionam a estrutura que
nos permite apontar com mais precisão a época em
que essa invasão ocorrerá.

“TIRADO DE ENTRE OS
POVOS”
A sexta frase descritiva do versículo 8 declara:
“este povo foi tirado de entre os povos...”. O termo
hebraico vav disjuntivo no início da construção
dessa frase mantém uma relação de contraste com a
frase anterior: “...ao povo que se congregou dentre
muitos povos sobre os montes de Israel, que
sempre estavam desolados...”. No hebraico o
sujeito é feminino e só pode se referir à terra.[1] O
sentido é o seguinte: O povo da terra de Israel (ou
seja, os judeus). Esse sentido apóia a posição
fortemente polêmica de que, na concepção divina, o
povo a quem pertence a terra de Israel é o povo
judeu.
O verbo hebraico yatsa’ é usado mais de mil
vezes no Antigo Testamento e significa “sair de”
(“vir para fora”) ou “ir adiante” (“avançar para
algum lugar”).[2] Neste caso, porém, o verbo se
encontra no tronco verbal hebraico do Hofal, que
implica uma qualidade de ação causativa na voz
passiva e significa que o povo judeu “foi trazido” ou
“foi tirado” de entre as nações, não por si mesmo,
mas por alguém que o trouxe. Quem seria esse
“alguém”? Chega-se à conclusão de que Deus é o
agente da passiva e, portanto, é Aquele que faria
com que os judeus fossem trazidos de volta à terra
de Israel. Nesse texto, a locução verbal “...foi
tirada...” dá apoio à concepção latente de que Deus
controla soberanamente todas as nações – tanto
Israel quanto os gentios. Os gentios são destacados,
no início do versículo 8, como aqueles que, ao
serem “visitados”, receberiam uma convocação para
invadir a terra de Israel. Os judeus, por sua vez, são
destacados nessa frase descritiva, como objeto do
cuidado de Deus, pois é Ele quem, de fato, os traz
de volta à sua Terra Prometida.
No texto hebraico, essa frase descritiva é
formada apenas por três palavras e literalmente
expressa o seguinte: “mas é tirada de entre os
povos”.[3] Ao fazer-se uma leitura disso no seu
contexto, como sempre se deve fazer na leitura de
qualquer texto, percebe-se que a expressão “é
tirada”, da frase literal acima, faz referência à terra
e mantém relação com a segunda parte da frase
anterior, que diz: “...os montes de Israel, que
sempre estavam desolados...”. Nesse caso, de que
maneira a terra de Israel pode ser tirada de entre os
povos ou nações e ser trazida de volta? Isso só faz
sentido se a referência for ao povo que é trazido de
volta à terra, razão pelo que a maioria dos tradutores
da Bíblia acrescenta o termo “povo”, num esforço
de tornar mais claro o sentido do texto original
hebraico.

“E TODOS ELES
HABITARÃO
SEGURAMENTE”
A última frase descritiva declara: “...e todos
eles habitarão seguramente”. No texto original, tal
frase também é formada apenas por três palavras
hebraicas e conclui essa longa sentença. O verbo
hebraico yashav é usado por mais de mil vezes no
Antigo Testamento e, em geral, significa “assentar”,
“permanecer”, “habitar ou morar”.[4] Por isso que
em muitas traduções da Bíblia em inglês se usa o
verbo “viver” (do inglês: to live), para diferenciar
aquilo que alguém faz quando permanece por um
período de tempo em determinado lugar ou território
daquilo que alguém faz quando está apenas
visitando.
A próxima palavra hebraica é o substantivo
betah, traduzido pelo advérbio “seguramente”. Tem
havido muita discussão sobre o exato significado
dessa palavra no contexto em que se encontra. Os
dicionários léxicos da língua hebraica informam que
esse vocábulo, em geral, significa “segurança” ou
“convicção”, e explicam que seu campo semântico
se assemelha ao da palavra “confiança”.[5] No texto
hebraico, esse termo freqüentemente é usado no
“caso construto” com o verbo “habitar”, a exemplo
deste texto de Ezequiel, e ocorre 160 vezes em toda
a Bíblia Hebraica.[6] É usado nos livros de Levítico
e Deuteronômio como uma promessa feita pelo
Senhor de que, se o povo judeu obedecer à Lei de
Deus, Ele fará com que a nação de Israel habite em
segurança na sua terra (Lv 25.18,19; 26.5; Dt
12.10). Esse termo é usado em todos os livros
históricos e proféticos do Antigo Testamento como
um referencial que serve para aferir se Israel está ou
não habitando em segurança na terra. Na realidade,
essa frase é usada em Jeremias 49.31, num contexto
de invasão semelhante ao de Ezequiel 38, onde se lê:
“Levantai-vos, ó babilônios, subi contra uma nação
que habita em paz e confiada, diz o Senhor; que
não tem portas, nem ferrolhos; eles habitam a sós”.
É o mesmo sentido no qual o termo foi usado em
Ezequiel 38.8. “Entretanto, esse sentido geral muitas
vezes apresenta uma amplitude semântica negativa
[...] para indicar uma falsa segurança”.[7] O
contexto apóia a conotação de falsa segurança nesta
ocorrência do termo, em face da iminente invasão.
Por outro lado, é possível que o termo não seja
usado no sentido ilusório de falsa segurança, porque
Deus vai livrar miraculosamente a nação de Israel.
Alguns intérpretes tentaram igualar a noção de
habitar seguramente com habitar pacificamente.
Eles dizem que essa passagem descreve uma
situação na qual Israel se encontra em paz com
todos os seus vizinhos e nenhum destes representa
uma ameaça para os judeus. Não se pode confirmar
essa noção pelo significado da palavra hebraica
betah, nem pelo contexto dessa passagem. Arnold
Fruchtenbaum comenta o seguinte: “Em nenhum
lugar desse texto há qualquer alusão de que Israel
estaria vivendo em paz. Pelo contrário, a descrição é
de que Israel estaria simplesmente habitando em
segurança, o que significa ‘confiança’, a despeito de
quanto dure um estado de guerra ou de paz. Nas
várias descrições que essa passagem apresenta sobre
Israel, pode-se comprovar que todas são verídicas na
realidade do Estado de Israel atual”.[8]
A última palavra hebraica dessa frase foi
traduzida pela expressão “...todos eles...”. A quem
se refere essa expressão? Só pode se referir a todos
aqueles que estiverem vivendo em segurança na
terra de Israel. Todos os que voltaram para os
montes de Israel habitam seguros. Charles Feinberg
conclui: “Por fim eles são retratados como
indivíduos que habitam em segurança; todos eles
vistos assim, sem medo de uma invasão ou de uma
deportação”.[9] Isso prepara o palco para os
comentários do próximo versículo, onde Deus
novamente se dirige a Gogue e a seu exército
invasor.

GOGUE SOBE AO ATAQUE


PERCEBE-SE QUE A
AÇÃO MENCIONADA NO
VERSÍCULO 9 OCORRERÁ
A PARTIR DO MOMENTO
QUE TODAS AS
CONDIÇÕES
ESTABELECIDAS NO
VERSÍCULO 8 SE
CUMPRIREM.
“JUSTAMENTE QUANDO
MENOS SE ESPERA E
SEM O MENOR AVISO, O
INIMIGO DESCERÁ NUMA
INVESTIDA CONTRA OS
EXILADOS QUE
RETORNARAM, COMO UMA
TEMPESTADE
REPENTINA”.[10] O
VERBO HEBRAICO
TRADUZIDO POR
“SUBIRÁS” É MUITO
COMUM E SE TORNA UMA
EXPRESSÃO IDIOMÁTICA
QUANDO É USADO NO
CONTEXTO MILITAR EM
QUE ALGUÉM SOBE PARA
UMA BATALHA OU ,
AINDA, NUMA
REFERÊNCIA À TERRA
DE ISRAEL, QUANDO
ALGUÉM SOBE, A
DESPEITO DA DIREÇÃO
DO MOVIMENTO DESSA
PESSOA.
UMA TEMPESTADE COM
DENSAS NUVENS DUAS
SÍMILES SÃO USADAS
PARA DESCREVER O
MODO PELO QUAL A
INVASÃO LIDERADA POR
GOGUE OCORRERÁ. A
PRIMEIRA SÍMILE É
“VIRÁS COMO
TEMPESTADE”. UM
DICIONÁRIO LÉXICO
HEBRAICO AFIRMA QUE
O USO DA PALAVRA
“TEMPESTADE” NESSE
TEXTO “SIGNIFICA
REALMENTE ‘UMA
TEMPESTADE QUE
IRROMPE DE FORMA
VIOLENTA E
REPENTINA’”.[11]
ASSIM, A INVASÃO DE
ISRAEL POR GOGUE
SERÁ REPENTINA E
INESPERADA COMO UMA
TEMPESTADE QUE SE
FORMA RAPIDAMENTE E,
LOGO EM SEGUIDA,
LIBERA SUA FÚRIA
NUMA IRRUPÇÃO QUE
PEGA MUITA GENTE
DESPREVENIDA.
A segunda símile descreve o tamanho do
exército invasor na sua extensão e amplitude. O
verbo hebraico kassot [forma léxica: kassah] é
usado somente onze vezes na Bíblia Hebraica e
possui a conotação de não apenas “cobrir”, mas
cobrir algo com o propósito de ocultá-lo.[12] Dessa
forma vemos que o tamanho numérico dos exércitos
invasores comandados por Gogue será tão grande
que suas tropas cobrirão a terra a tal ponto de não
ser possível ver o solo sobre o qual elas se movem.
A última frase descritiva do versículo declara:
“...tu, e todas as tuas tropas, e muitos povos
contigo”. O pronome “tu” refere-se ao próprio
Gogue. Como foi descrito no capítulo anterior,
Gogue virá com todas as suas tropas. Em outras
palavras, Gogue não estará sozinho, pois contará
com a expressiva cooperação de diversos povos, já
mencionados anteriormente, como aliados nessa
invasão à terra de Deus, Israel. O rabino Fisch
salienta que a mesma descrição é usada no texto de
Jeremias 4.13, que diz: “Eis aí que sobe o
destruidor como nuvens; os seus carros, como
tempestade; os seus cavalos são mais ligeiros do
que as águias. Ai de nós! Estamos arruinados!”.
Fisch, então, conclui que essa descrição feita no
texto de Ezequiel “é uma figura do poderio e da
aparência pavorosa dos exércitos de Gogue que se
aproximam”.[13] Feinberg afirma que “a terra será
coberta e sufocada pela imensa multidão dos
seguidores de Gogue, tal como uma nuvem que
encobre o território abaixo dela. Gogue tomará todas
as providências para ter muitos aliados e para contar
com um número suficiente de mercenários que lhe
possibilitem concretizar seu plano satânico”.[14] É
possível que Israel seja pego de surpresa, mas o
Senhor Deus de Israel nunca “...dormita, nem
dorme...”. Ele está de guarda e lutará a favor de
Israel quando essa terrível força invasora vinda do
norte surgir de repente na história. Afinal de contas,
o Senhor Deus de Israel é quem dará início a esses
acontecimentos ainda futuros. Maranata!
NOTAS 1 A ÊNFASE EM ITÁLICO É ORIGINAL;
RABINO DR. S. FISCH, EZEKIEL: HEBREW TEXT &
ENGLISH TRANSLATION WITH AN INTRODUCTION AND
COMMENTARY, LONDRES: THE SONCINO PRESS,
1950, P.254-55.
2
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
3
Fisch, Ezekiel, p. 254.
4
Francis Brown, S. R. Driver, e C. A. Briggs, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
5
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica;
bem como, Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon,
versão eletrônica.
6
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
7
G. Johannes Botterweck, e Helmer Ringgren, orgs.,
Theological Dictionary of the Old Testament, vol. II, Grand
Rapids: Eerdmans, 1977, p. 89.
8
Arnold Fruchtenbaum, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982) 2003, p. 117.
9
Charles Lee Feinberg, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 222.
10
Feinberg, Ezekiel, p. 222.
11
Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
12
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica;
bem como, Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon,
versão eletrônica.
13
Fisch, Ezekiel, p. 255.
14
Feinberg, Ezekiel, p. 222.
14. EZEQUIEL
38.10-12

“Assim diz o Senhor Deus: Naquele dia, terás


imaginações no teu coração e conceberás
mau desígnio; e dirás: Subirei contra a terra
das aldeias sem muros, virei contra os que
estão em repouso, que vivem seguros, que
habitam, todos, sem muros e não têm
ferrolhos nem portas; isso a fim de tomares o
despojo, arrebatares a presa e levantares a
mão contra as terras desertas que se acham
habitadas e contra o povo que se congregou
dentre as nações, o qual tem gado e bens e
habita no meio da terra”.

Os versículos 10 a 13 registram as intenções


dos invasores. O Deus da Bíblia não tem a menor
dificuldade de conhecer os pensamentos e intenções
da mente e do coração de uma pessoa (Hb 4.12-13)
para, assim, nos revelar as motivações de alguém.
Ainda que o Senhor ponha “...anzóis no [...]
queixo...” de Gogue para trazer os invasores à terra
de Israel, o processo do pensamento humano se
revela nessa parte do texto.

MÁS INTENÇÕES A
EXPRESSÃO “O SENHOR
DEUS” É UM
DESIGNATIVO QUE
DENOTA “O SOBERANO
SENHOR DAS NAÇÕES”.
[1] A EXPRESSÃO
“NAQUELE DIA” É UMA
REFERÊNCIA AO TRECHO
ANTERIOR QUE
MENCIONA O FATO DE
ISRAEL ESTAR
NOVAMENTE
ESTABELECIDO NA SUA
TERRA, ALÉM DE FAZER
ALUSÃO AO MOMENTO EM
QUE A INVASÃO
OCORRERÁ. É NAQUELE
DIA QUE “...TERÁS
IMAGINAÇÕES NO TEU
CORAÇÃO...”. O TERMO
HEBRAICO TRADUZIDO
POR “IMAGINAÇÕES” É
DAVAR, UM
SUBSTANTIVO MUITO
USADO QUE,
DEPENDENDO DO
CONTEXTO, SE TRADUZ
EM GERAL POR
“PALAVRA”,
“DISCURSO” OU
“COISA”.[2] NESSE
CONTEXTO EM QUESTÃO,
O VOCÁBULO QUE
MELHOR TRADUZ ESSA
PALAVRA HEBRAICA
“NÃO SERIA O TERMO
‘PALAVRAS’, MAS,
SIM, ‘COISAS’ QUE
VÊM À MENTE DELE. OS
VERSÍCULOS 11 E 12
NOS DIZEM QUE COISAS
SERIAM ESSAS”.[3] A
LÍNGUA HEBRAICA NÃO
POSSUI UMA PALAVRA
QUE DESIGNE “MENTE”,
APESAR DE SER ESTE O
TERMO USADO NA
TRADUÇÃO INGLESA
[I.E., THE NEW
AMERICAN STANDARD
BIBLE; O TERMO INGLÊS
“MIND”] DA QUAL FAÇO
CITAÇÕES EM TODOS OS
CAPÍTULOS DESSA
SÉRIE DE ESTUDOS.
ESSE É SEGURAMENTE O
SENTIDO DA PALAVRA
HEBRAICA LEVAV, QUE
FOI TRADUZIDA POR
“MENTE” [N. DO T.:
INCLUSIVE EM ALGUMAS
TRADUÇÕES DA BÍBLIA
EM PORTUGUÊS] E QUE
SIGNIFICA
BASICAMENTE “HOMEM
INTERIOR” OU
“CORAÇÃO”.[4] DESSE
MODO, A ATIVIDADE
INTERNA DE PENSAR
FOI ATRIBUÍDA AO
“CORAÇÃO”. NO
CONTEXTO DESSA
PASSAGEM, O TEXTO
FAZ ALUSÃO A COISAS
QUE SE PASSARÃO NO
HOMEM INTERIOR, AS
QUAIS SERIAM
“PENSAMENTOS”.
O versículo 10 se conclui com a frase “...e
conceberás mau desígnio”. No texto original tal
frase se compõe de três palavras hebraicas.
“Conceberás” é o verbo hebraico hashav que
significa “tecer” e, quando diz respeito ao coração
ou à mente, comunica a idéia de elaborar, maquinar
ou conceber um plano.[5] O substantivo procede
exatamente da mesma raiz do verbo. Nesse caso,
uma tradução literal expressaria a idéia de “conceber
pensamentos”. Contudo, se a terceira palavra dessa
frase é um adjetivo que significa “mau”,[6] não resta
mais dúvida de que o sentido desse texto se refere a
um plano maligno concebido contra o povo
escolhido de Deus, Israel. Portanto, esse versículo
parece nos dizer que, embora a idéia geral de atacar
Israel seja um desdobramento do plano soberano de
Deus (Ez 38.4), os detalhes são concebidos e
desenvolvidos na mente de Rôs e de seus comparsas
invasores. Em virtude de se caracterizar como uma
conspiração ou plano humano, Rôs e seus aliados
agressores são responsabilizados.

A REVELAÇÃO DO PLANO
A TRAMA MALIGNA É
DESVENDADA NO
VERSÍCULO 11. OS
PENSAMENTOS
PERVERSOS DE RÔS
ANUNCIAM: “SUBIREI
CONTRA A TERRA DAS
ALDEIAS SEM MUROS...”.
O VERSÍCULO 11
RELATA A PERCEPÇÃO
DE RÔS ACERCA DO
REAGRUPAMENTO DE
ISRAEL NAQUELE
MOMENTO DA HISTÓRIA.
NÃO HÁ NENHUMA RAZÃO
PARA SE PENSAR QUE A
DESCRIÇÃO FEITA POR
RÔS É INCORRETA. O
VERBO ORIGINAL
TRADUZIDO POR
“SUBIR” É UM TERMO
MUITO COMUM NO
HEBRAICO E QUER
DIZER “ASCENDER,
SUBIR”. É COMUMENTE
USADO EM REFERÊNCIA
A ALGUÉM QUE SE
DIRIGE À TERRA DE
ISRAEL OU À
JERUSALÉM ORIUNDO DO
EXTERIOR. NÃO EXISTE
NENHUMA NUANCE
MILITAR NO CAMPO
SEMÂNTICO DESSE
VOCÁBULO.[7] NESSE
TEXTO, A TERRA DE
ISRAEL É DESCRITA
DESTAS QUATRO
SEGUINTES MANEIRAS:
1) “...TERRA DAS
ALDEIAS SEM MUROS...”;
2) “...OS QUE ESTÃO EM
REPOUSO...”; 3) “...QUE
VIVEM SEGUROS...”; E,
4) “...QUE HABITAM,
TODOS, SEM MUROS E
NÃO TÊM FERROLHOS
NEM PORTAS...”.
A primeira caracterização de Israel como uma
terra de aldeias sem muros implica que eles não
construirão muralhas de proteção ao redor de suas
aldeias como nos tempos antigos. Randall Price
comenta o seguinte: “Só a Cidade Antiga de
Jerusalém tem um muro e a parte moderna da
cidade permanece fora desse muro desde o fim do
século dezenove”.[8] Isso provavelmente significa
que a nação de Israel ficará sem proteção contra
invasores, já que, nos tempos antigos, essa era a
finalidade de se construir muralhas. O rabino Fisch
declara: “Israel não terá feito nenhum preparativo no
sentido de construir muros ao redor das cidades para
se precaver contra algum ataque”.[9]
A segunda frase descreve um povo que está em
repouso. O particípio hebraico shaqat retrata um
povo que está “quieto, calmo, tranqüilo e
descansando”.[10] Esse verbo foi usado com
freqüência nos livros de Josué e Juízes para salientar
a tranqüilidade e o descanso resultantes das vitórias
militares de Israel sobre os cananeus, à medida que
os hebreus conquistavam a terra sob a liderança de
Josué.[11] Tal termo diz respeito a serenar ou
descansar de conflitos militares. O terceiro termo
hebraico é betah que ocorre no versículo 8. Já
verificamos anteriormente que essa palavra se refere
a Israel vivendo em segurança, o que implica
confiança.[12]
A quarta caracterização retrata todos eles
vivendo sem muros, sem ferrolhos e sem portas. Já
vimos antes que viver literalmente sem muros
implica que nenhuma de suas cidades ou vilas terá
aquilo que os antigos construíam para conter um
exército invasor. Essa imagem é reforçada pela
informação de que eles não terão ferrolhos, nem
portas, obviamente porque suas cidades não terão
muros. Ferrolhos e portas eram dispositivos de
defesa muito importantes localizados nas muralhas
das cidades da antiguidade.
O que isso significa em relação à invasão? Em
primeiro lugar, essa passagem apresenta a situação
da perspectiva de Gogue, o qual pensa que Israel
não se encontra devidamente protegido e, por isso,
está vulnerável a um ataque-surpresa. Em segundo
lugar, Price salienta que “a segurança de Israel se
baseia no poderio de suas forças armadas, as quais
são consideradas dentre as melhores do mundo e já
têm defendido o país contra adversidades
avassaladoras em várias invasões ocorridas no
passado”.[13] Em terceiro lugar, tais condições
nunca se concretizaram na história de Israel em
momento algum do passado, de modo que só pode
se referir a um tempo ainda futuro, como já
verificamos pela análise das expressões “depois de
muitos dias” e “no fim dos anos” (Ez 38.8). Keil
assevera: “Esta descrição do modo de vida de Israel
também aponta para tempos posteriores que vão
muito além da época do exílio na Babilônia”.[14]
EM BUSCA DE DINHEIRO
NO VERSÍCULO 12,
DEUS REVELA DUAS
RAZÕES QUE EXPLICAM
A MOTIVAÇÃO DE GOGUE
AO INVADIR ISRAEL NO
FUTURO. TAIS RAZÕES
SÃO INDICADAS POR
ESTAS DUAS ORAÇÕES
ADVERBIAIS DE
FINALIDADE: A
PRIMEIRA É: “...A FIM
DE TOMARES O
DESPOJO...”; A SEGUNDA
É: “...ARREBATARES A
PRESA...”. EM AMBOS OS
CASOS O TEXTO
HEBRAICO UTILIZA A
MESMA PALAVRA POR
DUAS VEZES, A SABER,
UM VERBO NO MODO
INFINITIVO SEGUIDO
POR UM SUBSTANTIVO
CONSTRUTO AO VERBO,
A FIM DE EXPOR O
MOTIVO DE GOGUE PARA
ESSA INVASÃO.
A primeira frase: “...a fim de tomares o
despojo...”, procede da palavra-raiz hebraica shalal
e significa “reunir-se ou ajuntar-se com a finalidade
de roubar ou saquear”.[15] Portanto, uma vez que o
verbo e o substantivo originam-se da mesma raiz
hebraica, seu significado seria algo como “despojar
o despojo”. No entanto, essa construção gramatical
não soa bem em outras línguas. A construção
pleonástica hebraica seria traduzida com mais
propriedade pela expressão “apreender o despojo”,
mesmo que na tradução se perca a noção de que
ambas as palavras originais procedem da mesma raiz
hebraica.
A segunda frase pleonástica hebraica, traduzida
por “...arrebatares a presa...”, procede da raiz
hebraica bazaz e significa “saquear, pilhar, despojar,
roubar”.[16] Dessa forma, o sentido em hebraico
seria: “espoliando o espólio”. O termo original
comunica a idéia de dividir o espólio ou despojo
apreendido num ataque ou conquista militar. Assim,
o motivo claro para essa invasão é de obter riqueza e
bens materiais. Charles Feinberg assinala o seguinte:
“O inimigo, ávido pela riqueza de Israel, embarcará
numa campanha de dominação militar que visa o
lucro”.[17]
O restante do versículo 12 reforça as duas
declarações de abertura referentes à motivação de
Gogue para invadir Israel. Uma terceira oração
adverbial de finalidade afirma: “...para tornares a
tua mão contra os lugares desertos que se acham
presentemente habitados, e contra o povo que foi
congregado dentre as nações, o qual adquiriu gado
e bens...” (Tradução Brasileira). A noção de
“alguém tornar a sua mão contra” projeta a imagem
de uma pessoa que dá uma virada de 180 graus,
mudando da direção em que estava para empreender
um ataque na outra direção. Isso é descrito no
versículo 10, à medida que Gogue elabora um plano
maligno, porém deve ser visto como um instrumento
humano que faz parte de todo aquele processo
originalmente iniciado pelo próprio Deus (Ez 38.2-
4). A imagem retratada na última parte do versículo
12 piora a situação dos maus pensamentos de
Gogue, por fazer alusão ao retorno de Israel à sua
terra, a qual, durante a ausência dos judeus, ficara
desolada e desértica, mas, com o regresso deles, se
torna uma terra produtora de riqueza, a tal ponto de
Gogue e seus aliados invasores quererem invadi-la
para tomar essa riqueza para si. Israel já sobreviveu
mais de 2 mil anos de dispersão entre as nações e
Deus tem trazido os judeus de volta à sua terra, na
qual eles se tornam altamente produtivos e
prósperos, para que Gogue e seus aliados sejam
instigados a atacá-los com o intuito de roubar as
riquezas recém-adquiridas de Israel. Maranata!
NOTAS 1 MERRILL F. UNGER, UNGER’S
COMMENTARY ON THE OLD TESTAMENT,
CHATTANOOGA, TN: AMG PUBLISHERS, (1981)
2002, P. 1578.
2
Francis Brown, S. R. Driver, e C. A. Briggs, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
3
C. F. Keil, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 164.
4
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
5
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
6
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
7
Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
8
Randall Price, Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel, 2007, p. 40.
9
S. Fisch, Ezekiel:Hebrew Text & English Translation With An
Introduction and Commentary, Londres: The Soncino
Press, 1950, p.255.
10
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
11
Ver: Josué 11.23; 14.15; Juízes 3.11,30; 5.31; 8.28.
12
Ver, Thomas Ice, “Ezekiel 38 and 39, Part XIII,” no periódico
Pre-Trib Perspectives, edição de Fevereiro de 2008, p. 6-
7.
13
Price, Comentários Não Publicados de Ezequiel, p. 40-41.
14
Keil, Ezekiel, p. 165.
15
Koehler e Baumgartner, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
16
Brown, Driver, e Briggs, Hebrew Lexicon, edição eletrônica.
17
Charles Lee Feinberg, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 222.
15. EZEQUIEL
38.12-13

“...isso a fim de tomares o despojo,


arrebatares a presa e levantares a mão contra
as terras desertas que se acham habitadas e
contra o povo que se congregou dentre as
nações, o qual tem gado e bens e habita no
meio da terra. Sabá e Dedã, e os mercadores
de Társis, e todos os seus governadores
rapaces te dirão: Vens tu para tomar o
despojo? Ajuntaste o teu bando para
arrebatar a presa, para levar a prata e o
ouro, para tomar o gado e as possessões,
para saquear grandes despojos?”

Por duas vezes o livro de Ezequiel menciona


que Israel e Jerusalém habitam no centro da terra.
“Assim diz o Senhor Deus: Esta é Jerusalém; pu-la
no meio das nações e terras que estão ao redor
dela” (Ez 5.5). O rabino Fisch afirma: “Baseando-se
em Ezequiel, Dante situa Jerusalém no centro do
mundo, tendo o rio Ganges como limite a leste e as
colunas de Hércules como limite a oeste”.[1] Israel e
sua cidade principal, Jerusalém, foram criados por
Deus e posicionados no centro da Terra para que
possam ser uma luz para as nações, conforme o
Senhor expressara o desejo de usar essa nação para
propagar Sua mensagem pelo mundo inteiro. O
rabino Fisch assinala: “Jerusalém foi instituída para
ser o centro de irradiação do conhecimento de Deus
para todos os povos”.[2] É nesse contexto que a
passagem de Ezequiel 38.12 faz alusão ao fato de
que a nação de Israel se situa “...no meio da
terra...”.

ISRAEL: O CENTRO DO
MUNDO NA TRADUÇÃO
QUE COSTUMO USAR DA
BÍBLIA EM INGLÊS, A
THE NEW AMERICAN
STANDARD BIBLE, A
PALAVRA HEBRAICA
TRADUZIDA POR
“MUNDO” É, NA
REALIDADE, O TERMO
GERALMENTE USADO
PARA DESIGNAR
“TERRA”. O TERMO
HÁ’ARETZ OCORRE MAIS
DE 2.500 VEZES NO
ANTIGO TESTAMENTO
HEBRAICO[3] E É
USADO EM CINCO
SENTIDOS BÁSICOS: 1)
SOLO, TERRA; 2) UMA
DETERMINADA ÁREA DE
TERRA; 3) UM
TERRITÓRIO OU PAÍS;
4) TODO O PLANETA
TERRA; 5) AS
PROFUNDEZAS DA TERRA
OU MUNDO
SUBTERRÂNEO.[4]
NESSE CONTEXTO DE
EZEQUIEL TRATA-SE DE
UMA CLARA REFERÊNCIA
À TERRA INTEIRA. É
IMPORTANTE SALIENTAR
QUE O TEXTO ORIGINAL
UTILIZA A PALAVRA
“TERRA” EM VEZ DE
“MUNDO”, JÁ QUE A
PALAVRA “MUNDO” PODE
DENOTAR A DIMENSÃO
POPULACIONAL, NÃO A
DIMENSÃO GEOGRÁFICA
TERRITORIAL. ESSE
TEXTO ENFATIZA O
FATO DE ESTAR
SITUADO NO CENTRO DE
TODA A EXTENSÃO
TERRITORIAL DA TERRA
– O UMBIGO
GEOGRÁFICO. O
VOCÁBULO HEBRAICO
TRADUZIDO POR “MEIO”
OU “CENTRO”
SIGNIFICA
LITERALMENTE “O
UMBIGO”,[5] TAL
“COMO O UMBIGO SE
SITUA NO CENTRO DO
CORPO HUMANO”.[6]
Por que a localização de Israel é mencionada
nesse trecho da passagem? Concordo com esta
opinião do rabino Fisch: “Isso é mencionado para
enfatizar a malignidade do plano de Gogue. Este
habita no extremo norte, a uma grande distância da
terra de Israel, de modo que o povo judeu não
poderia ter nenhum projeto agressivo contra ele”.[7]
C. F. Keil faz eco dessa concepção do rabino Fisch,
descrevendo-a como um dos dois motivos pelos
quais Gogue e seus aliados intentam a invasão: Essa
expressão figurada precisa ser explicada a partir do
texto de Ezequiel 5.5: “...Esta é Jerusalém; pu-la
no meio das nações e terras que estão ao redor
dela”. O umbigo não é o tipo de figura de
linguagem que denote as montanhas, mas significa o
território situado no meio da Terra. Portanto, trata-
se da terra mais gloriosa e mais ricamente
abençoada; por conseguinte, os que lá habitam
ocupam a posição mais exaltada entre as nações.
Nesse caso, o desejo cobiçoso de se apoderar dos
bens do povo de Deus e a inveja de sua posição
exaltada no centro do mundo são os motivos que
impelem Gogue a ingressar na sua empreitada
predatória contra o povo que vive em profunda paz.
[8]
A crença de que Israel possui um status especial
e se encontra numa exclusiva localização global,
elucida esta famosa declaração rabínica, resultante
dessas duas passagens do livro de Ezequiel: Assim
como o umbigo se encontra no centro do corpo
humano, assim também a terra de Israel é o umbigo
do mundo [...] situada no centro do mundo, de
modo que Jerusalém se situa no centro da terra de
Israel; o Santuário se situa no centro de Jerusalém; o
Santo dos Santos se situa no centro do Santuário; a
Arca da Aliança se situa no centro do Santo dos
Santos; e a pedra fundamental diante do Santo dos
Santos, porque a partir dela o mundo foi fundado.
[9]
Muitos comentaristas que já analisaram esse
texto enfatizam que, do ponto de vista humano, o
lucro econômico é o único motivo da invasão
empreendida por Gogue. Entretanto, essa última
frase do versículo 12 deixa claro que eles também
invadirão aquela terra por inveja do status especial
que Deus conferiu a Israel e, por conseguinte, de
sua exclusiva localização geográfica.

SABÁ E DEDÃ QUEM SÃO


SABÁ E DEDÃ? “NÃO É
DIFÍCIL IDENTIFICAR
SABÁ E DEDÃ. ELES SE
LOCALIZAM NO PAÍS
QUE ATUALMENTE SE
DENOMINA ARÁBIA
SAUDITA”.[10] ARNOLD
FRUCHTENBAUM
ESCLARECE: “SABÁ E
DEDÃ SÃO DISTRITOS
SITUADOS NO NORTE DA
ARÁBIA”.[11]
CONFORME É INDICADO
NO CONTEXTO DESSA
PASSAGEM, ESSES DOIS
POVOS ERAM
CONHECIDOS POR SUA
ATIVIDADE COMERCIAL,
DAÍ SEU INTERESSE EM
QUE O VIZINHO ISRAEL
SEJA INVADIDO POR
GOGUE, A SABER,
“...PARA TOMAR O
DESPOJO...”. RANDALL
PRICE LOCALIZA SABÁ
NO QUE HOJE SE
CONHECE COMO IÊMEN,
SITUANDO-O NA REGIÃO
SUL DA PENÍNSULA
ARÁBICA E LOCALIZA
DEDÃ NA ATUAL ARÁBIA
SAUDITA.[12] A
DESPEITO DE SUA
LOCALIZAÇÃO EXATA NA
PENÍNSULA ARÁBICA,
NÃO PARECE HAVER
NENHUMA DÚVIDA DE
QUE SEJA UMA
REFERÊNCIA À ARÁBIA
SAUDITA E TALVEZ A
OUTROS PAÍSES ÁRABES
QUE OCUPAM
ATUALMENTE AQUELA
PENÍNSULA.
TÁRSIS O TEXTO
REVELA QUE SABÁ E
DEDÃ ESTÃO EM
PERFEITA SINTONIA
COM “...OS MERCADORES
DE TÁRSIS, E TODOS OS
SEUS GOVERNADORES
RAPACES...”. O QUE
SIGNIFICA A FRASE:
“OS MERCADORES DE
TÁRSIS”? SEMELHANTE
ÀQUELES DE SABÁ E
DEDÃ, O TEXTO
INFORMA QUE ELES SÃO
NEGOCIANTES OU
COMERCIANTES. MAS
ONDE TÁRSIS SE
LOCALIZAVA?
Ao que parece, Társis era uma rica
comunidade comercial situada num dos extremos do
mundo mediterrâneo. “Társis é o antigo nome de
Tartessos, situada na Espanha dos dias atuais”.[13]
Essa concepção é corroborada por obras clássicas de
referência da língua hebraica.[14] Por exemplo,
Ludwig Koehler e Walter Baumgartner afirmam o
seguinte no seu dicionário léxico da língua hebraica:
“Estes apontam para a Espanha com sua riqueza em
recursos minerais. Társis pode ter sido uma cidade
localizada na região da foz do rio Guadalquivir.
Apesar de algumas variações, esse é provavelmente
o ponto de vista mais aceito na atualidade”.[15]
“Lemos frequentemente no Antigo Testamento a
expressão “navios de Társis”, numa referência a
embarcações de grande porte para navegação em
alto mar (Ez 27.25), que transportavam todo tipo de
carga preciosa, especialmente metais como prata e
ouro (1Rs 10.22; 22.49; 2Cr 9.21; Is 60.9; Jr 10.9;
Ez 38.13), além de ferro, estanho e chumbo (Ez
27.12)”.[16]
O Dr. Barry Fell, professor em Harvard,
elaborou um estudo exaustivo sobre essas questões e
sua relação com as atividades na América pré-
colombiana. O Dr. Fell declara o seguinte: Na Bíblia
temos a informação de que os “navios de Társis”
eram as maiores embarcações marítimas de que se
tem conhecimento no mundo semítico e esse
designativo acabou por ser aplicado a qualquer navio
grande para travessias marítimas [...] os navios de
Társis se tornaram proverbiais como uma expressão
de poderio marítimo [...]
Não é improvável que os mercadores de Társis tenham
alguma relação com a migração transatlântica dos
celtas, quando vieram para a América. Na verdade,
James Whittall, com quem discuti a decifração das
inscrições de Tartessos aqui nos Estados Unidos, acha
que os celtas americanos foram propositalmente
trazidos para cá pelos fenícios, os quais desejavam
fomentar o desenvolvimento de comunidades
mineradoras dedicadas à exploração dos recursos
naturais americanos, para que pudessem comercializar
com essas comunidades. Se essa hipótese estiver
correta, as embarcações de Tartessos certamente
desempenharam um importante papel na migração
dos celtas para a Nova Inglaterra.[17]

Parece ser uma base relevante para dar apoio à


concepção de que os mercadores de Társis estão
relacionados com os navegadores fenícios que
viveram há 3 mil anos. Tais mercadores obviamente
estabeleceram entrepostos comerciais espalhados ao
longo das diversas rotas que percorriam. O Dr.
McBirnie talvez esteja muito certo quando conclui o
seguinte: Foi somente nos últimos seis anos que se
lançou bastante luz sobre a localização histórica da
antiga Társis. Ensaios acadêmicos publicados em
revistas arqueológicas e livros escritos antes disso,
parecem ter valor bastante limitado. Em alguns
casos, confundem mais do que ajudam, apesar do
prestigio de seus autores. As razões da certeza nessa
identificação se encontram nas recentes descobertas
arqueológicas que confirmam o fato de que os
especialistas do passado estavam corretos durante
todo o tempo quando identificaram Társis como
uma potência colonizadora situada na Europa
Ocidental, com sede na Espanha.[18]
Assim, a expressão “mercadores de Társis”
parece se referir à comunidade comercial e marítima
dos fenícios, que há 3 mil anos se situava na
Espanha, durante a época do rei Salomão. Nos
últimos 500 anos, os mercadores de Társis se
desdobraram naquelas que hoje são as nações
mercantilistas da Europa Ocidental, tais como: a
Espanha, a Holanda e a Grã-Bretanha. Hitchcock
conclui nos seguintes termos: “Társis, ou a Espanha
da atualidade, pode ter sido usada por Ezequiel para
representar todas as nações ocidentais com as quais
a Arábia Saudita vai se unir para revelar essa invasão
[...] É muito provável que Ezequiel tenha usado a
longínqua colônia de Társis no extremo oeste para
tipificar o império do Anticristo no final dos
tempos”.[19] Maranata!
NOTAS 1 S. FISCH, EZEKIEL: HEBREW TEXT &
ENGLISH TRANSLATION WITH AN INTRODUCTION AND
COMMENTARY, LONDRES: THE SONCINO PRESS,
1950, P. 25.
2
FISCH, Ezekiel, p. 25.
3
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
4
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
5
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
6
FISCH, Ezekiel, p. 25.
7
FISCH, Ezekiel, p. 25.
8
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 166.
9
Midrash Tanchuma, Qedoshim.
10
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL:Tyndale House
Publishers, 1994, p. 100.
11
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah:A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982) 2003, p. 111.
12
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra de Tim LaHaye e
Ed Hindson, orgs., The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p.191.
13
HITCHCOCK, After The Empire, p. 100-101.
14
Veja: Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, orgs., The
New Brown-Driver-Briggs Hebrew Lexicon of the Old
Testament, Nova York: Oxford University Press, edição
revisada, 1977, p. 1076-77; e Wilhelm GESENIUS, Gesenius’
Hebrew & Chaldee Lexicon, Grand Rapids: Eerdmans
Publishing Company, 1949, p. 875.
15
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
16
R. Laird HARRIS, Gleason J. ARCHER, Jr., e Bruce K. Waltke,
orgs., Theological Wordbook of the Old Testament, 2 Vols.,
Chicago: Moody Press, 1980, II:981.
17
Barry FELL, America B. C., Nova York: Pocket Books, 1976
(1989), p. 93-94.
18
W. S. MCBIRNIE, Antichrist, Dallas: Acclaimed Books, 1978,
p. 62.
19
HITCHCOCK, After The Empire, p. 101
16. EZEQUIEL
38.13-16

“...Sabá e Dedã, e os mercadores de Társis, e


todos os seus governadores rapaces te dirão:
Vens tu para tomar o despojo? Ajuntaste o teu
bando para arrebatar a presa, para levar a
prata e o ouro, para tomar o gado e as
possessões, para saquear grandes despojos?
Portanto, ó filho do homem, profetiza e dize a
Gogue: Assim diz o Senhor Deus: Acaso,
naquele dia, quando o meu povo de Israel
habitar seguro, não o saberás tu? Virás, pois,
do teu lugar, dos lados do Norte, tu e muitos
povos contigo, montados todos a cavalo,
grande multidão e poderoso exército; e
subirás contra o meu povo de Israel, como
nuvem, para cobrir a terra. Nos últimos dias,
hei de trazer-te contra a minha terra, para
que as nações me conheçam a mim, quando
eu tiver vindicado a minha santidade em ti, ó
Gogue, perante elas”.

Ao que parece, Sabá, Dedã e os mercadores de


Társis são claramente uma comunidade comercial
que não está envolvida na invasão, mas questiona,
de fora, a motivação dos invasores. “Vens tu para
tomar o despojo? Ajuntaste o teu bando para
arrebatar a presa, para levar a prata e o ouro,
para tomar o gado e as possessões, para saquear
grandes despojos?” Apesar de todo esse
questionamento, eles também deixam transparecer o
que se passa no seu íntimo e revelam as mesmas
intenções dos invasores, as quais também estão
expressas no versículo 12.

O OBJETIVO DOS
INVASORES UMA VEZ
QUE A MAIOR PARTE DO
LINGUAJAR DOS
INVASORES SE
EXPRESSA NO
VERSÍCULO 12, NÃO
RESTA NENHUMA DÚVIDA
DE QUE, EM TERMOS
HUMANOS, O OBJETIVO
DOS INVASORES É O DE
ROUBAR A RIQUEZA DE
ISRAEL. AO LONGO DOS
ANOS, MUITOS
COMENTARISTAS DA
BÍBLIA TÊM
ESPECULADO SOBRE
AQUILO QUE PERTENCE
A ISRAEL E QUE SERIA
OBJETO DO DESEJO DOS
INVASORES. ALGUNS
DELES JÁ ALEGARAM
QUE SERIA A RIQUEZA
MINERAL DO MAR
MORTO, O
RESERVATÓRIO MAIS
RICO EM SAIS
MINERAIS DO MUNDO.
CONTUDO, ARNOLD
FRUCHTENBAUM,
RESSALVA O SEGUINTE:
“A RÚSSIA TAMBÉM
PODERIA OBTER OS
RECURSOS MINERAIS DO
MAR MORTO SE
INVADISSE A
JORDÂNIA”.[1]
QUAISQUER QUE SEJAM
OS FATORES
ESPECÍFICOS, UMA
COISA É CERTA: A
DESCRIÇÃO CUMULATIVA
DOS VERSÍCULOS 12 E
13 DEIXA CLARO QUE
ISRAEL TEM RIQUEZA E
QUE ELES INVADIRÃO O
TERRITÓRIO DE ISRAEL
PARA SE APODERAREM
DESSA RIQUEZA.
Não há dúvida nenhuma de que Israel é, de
longe, o país mais rico daquela região. Hoje em dia,
o Estado de Israel demonstra ser uma economia
produtiva que cresce através de pesquisa e
desenvolvimento na área de tecnologia. Além disso,
em termos agrícolas, Israel é provavelmente o país
mais produtivo do mundo per capita. Já faz longo
tempo que Israel mantém a hegemonia na
comercialização de diamantes e é o líder mundial na
produção de produtos farmacêuticos genéricos. A
Wikipedia declara que “Israel é considerado um dos
países mais avançados do sudoeste da Ásia no que
se refere ao desenvolvimento econômico e industrial
[...] No ranking mundial das nações que mais
possuem empresas startup [N. do T.: Uma empresa
com custos de manutenção muito baixos, mas que
consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada
vez maiores], Israel classifica-se em segundo lugar
(só perde para os Estados Unidos), além do fato de
ser o país, situado fora da América do Norte, que
conta com o maior número de empresas
participantes da NASDAQ”.[2] Independente dos
atrativos específicos que instiguem tal invasão, esse
texto bíblico deixa claro que Israel será invadido
com o propósito de roubarem suas riquezas.

PROFECIA CONTRA
GOGUE UMA NOVA SEÇÃO
COMEÇA COM OS
VERSÍCULOS 14-16.
DEUS UTILIZOU A
EXPRESSÃO “FILHO DO
HOMEM” POR 93 VEZES
NESTE LIVRO PARA SE
REFERIR AO PROFETA
EZEQUIEL.[3] SEGUNDO
C. F. KEIL, ESSA
EXPRESSÃO “DENOTA O
HOMEM PELA
PERSPECTIVA DE SUA
CONDIÇÃO NATURAL
[...] IMPLICA A
FRAQUEZA E
FRAGILIDADE DO HOMEM
EM CONTRASTE COM
DEUS”.[4] O RESTANTE
DESSE VERSÍCULO É
UMA REPETIÇÃO DE
FRASES QUE JÁ
ANALISAMOS, COM
EXCEÇÃO DE UMA QUE
DIZ: “...NÃO O SABERÁS
TU?” ESSA FRASE É A
TRADUÇÃO DE APENAS
DUAS PALAVRAS
HEBRAICAS. O
VOCÁBULO ORIGINAL
TRADUZIDO POR “NÃO”
OCORRE NO COMEÇO
DESTA FRASE: “ACASO,
NAQUELE DIA, QUANDO O
MEU POVO DE ISRAEL...”.
APESAR DO TERMO
ORIGINAL TRADUZIDO
POR “NÃO” OCORRER NO
MEIO DESSA PASSAGEM,
ESTÁ RELACIONADO
GRAMATICALMENTE COM
A OUTRA PALAVRA
ORIGINAL, OU SEJA, O
VERBO HEBRAICO
“SABER”, E EXERCE A
FUNÇÃO DE NEGÁ-LO.
KEIL EXPLICA COM
PRECISÃO NOS
SEGUINTES TERMOS:
“TU SABERÁS, OU
PERCEBERÁS, QUE
ISRAEL HABITA
SEGURO, LIVRE DE
QUALQUER EXPECTATIVA
DE UMA INVASÃO
HOSTIL”.[5] O RABINO
FISCH FAZ ECO ÀS
PALAVRAS DE KEIL E
DIZ: “A SITUAÇÃO DE
PAZ E CONFIANÇA DE
ISRAEL O DEIXOU
DESPREVENIDO, DE
MODO QUE TU O
ESCOLHERÁS PARA SER
TUA VÍTIMA”.[6]
CHARLES FEINBERG
CONSIDERA A “SUPOSTA
SEGURANÇA” DE ISRAEL
E AFIRMA: “NÃO HÁ A
MENOR DÚVIDA DE QUE
SE TRATA DE UMA
PERGUNTA RETÓRICA. O
SENHOR DEMONSTROU
PLENO CONHECIMENTO
DO FATO DE QUE GOGUE
ESTARÁ CIENTE DA
SITUAÇÃO POLÍTICA DE
ISRAEL, PARA TER A
CERTEZA DE QUE DEVE
ATACAR”.[7]
O Senhor continua a se dirigir a Gogue e
declara: “Virás, pois, do teu lugar...”. Onde é o
lugar de Gogue? Como está registrado no versículo
6, Gogue é oriundo “...do extremo norte...” (cfe.,
Nova Versão Internacional – NVI). Já analisamos
essa frase quando explicamos o versículo 6 e a
expressão hebraica é a mesma tanto naquele
versículo quanto neste, exceto pelo fato de que a
preposição hebraica de origem, traduzida por “do”,
ocorre apenas no versículo 15, ao passo que no
versículo 6 ela está implícita. Essa mesma expressão
ainda aparece no texto de Ezequiel 39.2. Assim, o
texto por três vezes destaca o fato de que Gogue
virá das partes mais remotas do norte. Jon Ruthven
assinala: “É impressionante que uma tribo do povo
‘meschera’, cujo território incluía a área da atual
cidade de Moscou, capital do tradicional povo
‘Rus’, situa-se precisamente ao norte de Israel”.[8]
Se alguém traçar uma linha reta vertical partindo de
Jerusalém em direção ao Polo Norte, passará muito
perto de Moscou. Na realidade, o único país que se
localiza no extremo norte, a partir do referencial
geográfico de Israel, é a Rússia. A região sul da
Rússia começa ao norte do mar Negro, de modo
que a Rússia é o único país cujo território inteiro
está situado ao norte do mar Negro. Já que não
temos muitas opções, “é uma chance em uma”, fica
evidente que Gogue é a Rússia, fato esse que
confirma a outra informação obtida até o presente
momento na análise de Ezequiel 38.
O restante do versículo 15 menciona o fato de
que Gogue virá com um exército enorme que
engloba muitos povos aliados a ele. Eu já analisei
esses termos em versículos anteriores dessa mesma
passagem.

POR QUE EU, SENHOR?


O versículo 16 conclui a seção na qual Deus
esclarece a “razão” pela qual Ele agirá
soberanamente na história para que a invasão de
Gogue a Israel se concretize. Esse versículo deixa
claro que o Senhor Deus de Israel vê essa invasão
liderada por Gogue como um ataque direto contra
Ele mesmo. Deus assevera a Gogue: “...subirás
contra o meu povo de Israel...”; “...hei de trazer-te
contra a minha terra...”; e, ainda, “...para que as
nações me conheçam a mim...” (grifo do autor em
negrito). Gogue descerá para invadir o imóvel de
propriedade de Deus, “como uma nuvem encobre a
terra”. Charles Dyer considera o seguinte: “Esse
espantoso exército passará por cima de todos os
obstáculos sem o menor esforço, tal como uma
nuvem que se move pelo céu”.[9] Essa será a
realidade até que Deus tome a decisão de intervir em
favor do Seu povo e da Sua terra.
Independente do que o mundo pensa e do que
os meios de comunicação vão dizer sobre Israel
naquele dia, o Senhor Deus declara que a nação
invadida é, conforme Suas próprias palavras, “o meu
povo de Israel”. Como o apóstolo Paulo escreve
acerca de Israel no Novo Testamento: “Deus não
rejeitou o seu povo, a quem de antemão
conheceu...” (Rm 11.2). Baseado em quê Paulo
podia fazer tal afirmação? Ele pôde dizer isso
“...porque os dons e a vocação de Deus são
irrevogáveis” (Rm 11.29). No entanto, muitas
pessoas em nossos dias sofrem sob o efeito ilusório
e falso da “Teologia da Substituição”, cuja
concepção propõe que Deus substituiu “o meu povo
de Israel” pela Igreja. É evidente que a Igreja,
composta pelos eleitos de Deus dentre os judeus e
os gentios, também é o povo de Deus na presente
era. Contudo, Deus não extinguiu o Israel étnico e
nacional, pelo contrário, Ele tornará a concentrar
Sua atenção no povo judeu após o Arrebatamento
da Igreja.
O Senhor também chama a terra de Israel de “a
minha terra”. Em outras palavras, Seu povo de
Israel estará vivendo em Sua terra, que também se
denomina Israel, nos últimos dias, quando Gogue e
seu bando descerão para atacá-los. Portanto, esse
texto deixa muito claro que um ataque contra o
povo de Deus e contra a terra de Deus é um ataque
contra o próprio Deus. Essa é a razão pela qual,
apesar de Israel ser pego de surpresa e estar
desprevenido, Deus intervirá para defendê-lo. Com
que finalidade Ele defenderá Seu povo e Sua terra?
Ele os defenderá, segundo Suas próprias palavras,
“...para que as nações me conheçam a mim,
quando eu tiver vindicado a minha santidade em ti,
ó Gogue, perante elas” (Ez 38.16).
Essa seção do texto se encerra com a
declaração do propósito de Deus, que é o alvo final
e supremo, de trazer Gogue para que empreenda um
ataque contra o Seu povo “nos últimos dias” (Ez
38.14). O objetivo de Gogue, do ponto de vista
humano, já foi verificado anteriormente (Ez 38.10-
13), mas o propósito supremo é o de ensinar as
nações a reconhecerem o Senhor. Isso se
concretizará quando Deus Se utilizar de Gogue para
demonstrar Sua santidade perante as nações,
enquanto o mundo inteiro observa. Deus vai
mobilizar Gogue, tal como levantou a Faraó na
ocasião do Êxodo, para mostrar Seu poder e
santidade quando Ele, logo em seguida, o abater.
Fisch declara: “Embora tenhamos a informação de
que o propósito da campanha militar de Gogue seja
motivado pelo desejo cobiçoso de destruir e tomar o
despojo, tal ato foi projetado na sabedoria de Deus
para levar a humanidade à constatação de que Ele é
o Rei do universo”.[10] Portanto, a intenção de
Deus em tudo isso é a de demonstrar não só quem
Ele é, mas também aquilo que Ele valoriza neste
mundo. Ele é um Deus santo que deu aquela terra a
Israel e que conhece a maneira certa de proteger Seu
povo. Que todos nós aprendamos essa lição.
Maranata!
NOTAS 1 ARNOLD FRUCHTENBAUM, FOOTSTEPS OF THE
MESSIAH: A STUDY OF THE SEQUENCE OF PROPHETIC
EVENTS, TUSTIN, CA: ARIEL PRESS, (1982),
2003, P. 111.
2
Wikipédia, acessado em 13 de maio de 2008.
3
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
4
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 47.
5
KEIL, Ezekiel, p. 167.
6
S. FISCH, Ezekiel: Hebrew Text & English Translation With An
Introduction and Commentary, Londres: The Soncino
Press, 1950, p. 256.
7
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 224.
8
Jon Mark RUTHVEN, The Prophecy That Is Shaping History:
New Research on Ezekiel’s Vision of the End, Fairfax, VA:
Xulon Press, 2003, p. 39.
9
Charles H. DYER, “Ezekiel”, publicado no The Bible
Knowledge Commentary: Old Testament, organizado por
John F. W ALVOORD e Roy B. ZUCK, Colorado Springs, CO:
Victor Books, 1985, p. 1301.
10
FISCH, Ezekiel, p. 257.
17. EZEQUIEL
38.17-19

“Assim diz o Senhor Deus: Não és tu aquele


de quem eu disse nos dias antigos, por
intermédio dos meus servos, os profetas de
Israel, os quais, então, profetizaram, durante
anos, que te faria vir contra eles? Naquele
dia, quando vier Gogue contra a terra de
Israel, diz o Senhor Deus, a minha
indignação será mui grande. Pois, no meu
zelo, no brasume do meu furor, disse que,
naquele dia, será fortemente sacudida a terra
de Israel”.

À medida que entramos em mais uma seção


desse texto profético, verificamos que o Senhor se
dirige novamente a Ezequiel para predizer a futura
vitória de Deus sobre Gogue e seus aliados (Ez
38.17-23). Pela quinta e última vez no capítulo 38,
essa profecia é identificada como a palavra do
Senhor. Mark Hitchcock lembra o seguinte: “Em
Ezequiel 38–39 lemos por sete vezes estas mesmas
palavras: ‘Assim diz o Senhor Deus’ (Ez
38.1,10,14,17; 39.1,17,25). O refrão ‘diz o Senhor
Deus’ ainda ocorre por oito vezes. Fica evidente que
Deus não deseja que percamos de vista este fato:
Trata-se da Sua Palavra”.[1] Essa profecia começa
com a pergunta feita pelo Senhor a Gogue. Tal
indagação decorre do versículo anterior (Ez 38.16) e
diz respeito à forma pela qual o próprio Deus
vindicará Sua santidade aos olhos de Gogue e das
nações.

MAS, QUAL É A
PERGUNTA?
É como se Deus estivesse provocando Gogue
com essa pergunta, a qual revela a absoluta
confiança de Deus no resultado desse encontro.
Nessa seção do texto profético (Ez 38.17-23), Deus
responde às perguntas: “O quê?” e “Como?”. A
primeira pergunta, “O quê?”, é respondida nos
versículos 17 e 18, ao passo que a segunda
pergunta, “Como?”, é respondida nos versículos 19
a 23. A pergunta que confronta Gogue é a seguinte:
“Não és tu aquele de quem eu disse nos dias
antigos, por intermédio dos meus servos, os
profetas de Israel, os quais, então, profetizaram,
durante anos, que te faria vir contra eles?”. A
construção gramatical hebraica leva o leitor a esperar
por uma resposta afirmativa.[2] Mas, então, onde se
encontram as outras profecias do Antigo Testamento
às quais o Senhor se refere nesse texto? Randall
Price responde a essa indagação nos seguintes
termos: A declaração introdutória desta derrota (cf.
versículo 17) parece implicar que já havia alguma
predição anterior sobre a invasão liderada por
Gogue nos escritos de outros profetas. Entretanto, a
ambiguidade desta expressão “não és tu aquele...”
(apesar de estar subentendido, desde o versículo 16,
que esse texto se refere a Gogue), proferida por
Deus no passado remoto, revela que a referência
está em aberto para outros “Gogues” típicos, cujas
ações contra Israel incitaram uma poderosa
demonstração de força da parte de Deus. O exército
de Gogue se constituirá de tropas multinacionais e
algumas das nações nele representadas são alvo de
profecias específicas pronunciadas contra elas pelos
antigos profetas de Israel, a exemplo de:
Cuxe/Etiópia (Isaías 18.1-7) e Arábia (Isaías 21.13-
17). Contudo, não há nenhuma necessidade de
qualquer referência direta feita a Gogue por algum
dos antigos profetas de Israel, porque todos os
invasores de outrora foram tipos que apontam para
Gogue e seus aliados como seu antítipo.[3]
No versículo 18, o Senhor continua Sua
resposta à pergunta “O quê?”, referente à invasão da
terra de Israel por Gogue, ao asseverar: “...a minha
indignação subirá às minhas narinas...” [conforme
a Tradução Brasileira]. O Senhor utiliza três
palavras hebraicas para descrever Sua reação a essa
invasão da terra de Israel. Pela ordem em que elas
ocorrem no texto hebraico, verificamos que a
primeira palavra é ‘alah, um verbo hebraico de uso
comum que ocorre mais de 1.200 vezes no Antigo
Testamento Hebraico[4] e significa “ascender,
escalar, exaltar, elevar”,[5] mas nesse contexto se
traduz por “subirá”.
A segunda palavra é o substantivo hebraico
hema’, que significa “calor, peçonha ou veneno (de
animais), fúria, ira, raiva”[6], todavia nessa
passagem é traduzido por “indignação”. Esse
vocábulo ocorre 120 vezes na Bíblia Hebraica e a
maioria das suas ocorrências diz respeito à ira
humana ou divina (110 vezes).[7] O uso de hema’
em referência à ira humana ocorre apenas 25 vezes,
ao passo que esse termo hebraico é usado por 85
vezes para se referir à ira divina e a maioria das
ocorrências se encontra no livro de Ezequiel (31
vezes).[8] Assim, verificamos que ira justa do
Senhor se acumula e é liberada na história como Sua
indignação divina.
A terceira e última palavra hebraica utilizada
pelo Senhor nessa frase é o substantivo ‘af, que
significa “nariz, face, narina, ira”,[9] o qual ocorre
155 vezes no Antigo Testamento Hebraico[10] e se
traduz nessa frase pela expressão “minhas
narinas”. Os substantivos hebraicos ocorrem não
apenas no singular ou no plural, mas também podem
se apresentar na forma dual. “Quando o termo se
refere ao nariz, a forma singular é usada; todavia,
quando ocorre na forma dual, diz respeito à face ou
às narinas”.[11] Aqui nesse contexto, a indignação
do Senhor se expressa pela forma dual, numa
ênfase, portanto, às narinas, as quais se tornam
muito evidentes em alguns animais quando ficam
nervosos e começam a resfolgar pelas narinas,
bufando de raiva. Então, os termos hema’ e ‘af são
classificados juntos em referência a Deus aqui nessa
frase, de forma que a expressão denota o tipo mais
forte da ira de Deus, aquele tipo de indignação que
leva à ação. Keil descreve tal ocorrência como uma
“expressão de antropopatismo, a saber, ‘minha ira
sobe até o meu nariz’ [...] A explosão de ira se
mostra na respiração intensa, quando o homem
encolerizado inspira e expira pelo nariz”.[12] A
nítida mensagem desse texto é a de que Deus
chegou ao limite de Sua paciência e, a partir daquele
momento, Seus atos de indignação jorrarão contra
Gogue e seus aliados.

COMO ISSO VAI


ACONTECER?
A última seção do capítulo 38 (versículos 19-
23) inicia com uma revelação feita pelo Senhor
sobre a atitude que terá para defender Seu povo,
Israel. A primeira parte do versículo 19 declara:
“...no meu zelo, no brasume do meu furor...”. Mais
uma vez, essa frase contém três importantes palavras
hebraicas no texto original, as quais demonstram que
o dicionário léxico não esgotou o campo semântico
dos termos no versículo anterior, quando descreveu
a grande indignação dirigida contra Gogue e os
outros invasores. A primeira palavra é o substantivo
hebraico qin’ah, traduzido por “zelo”, que ocorre 17
vezes no Antigo Testamento Hebraico e a maioria
das ocorrências se encontra em Ezequiel (7 vezes).
[13] Seu significado básico é o de “zelo” por algo
(nesse caso, o zelo de Deus por Sua valiosa
propriedade neste mundo, Israel), bem como o
“ciúme” e a “indignação” que se manifestam quando
outra pessoa tenta invadir e tomar posse daquela
propriedade.[14] Chega-se a uma compreensão mais
clara da atitude do Senhor para com Seu povo e Sua
terra, a terra de Israel, dois capítulos antes, onde se
lê no livro de Ezequiel o seguinte: “Portanto, assim
diz o Senhor Deus: Certamente, no fogo do meu
zelo [i.e., “ciúme”], falei contra o resto das nações
e contra todo o Edom. Eles se apropriaram da
minha terra, com alegria de todo o coração e com
menosprezo de alma, para despovoá-la e saqueá-
la. Portanto, profetiza sobre a terra de Israel e dize
aos montes e aos outeiros, às correntes e aos vales:
Assim diz o Senhor Deus: Eis que falei no meu zelo
[i.e., “ciúme”] e no meu furor, porque levastes
sobre vós o opróbrio das nações” (Ezequiel 36.5-6;
grifo do autor em negrito).
O mesmo ciúme que Deus expressa no capítulo
36 se consuma em Ezequiel 38.19, no que se refere
à esposa de Javé, Israel. Charles Feinberg afirma: “A
paciência de Deus se esgotaria com as repetidas
tentativas dos inimigos de aniquilar Israel. O próprio
Senhor se encarregará da destruição dos inimigos de
Israel, não optando pela ajuda de nenhum agente
secundário por se tratar de um juízo cabal e
irreversível”.[15]
O segundo substantivo que encontramos nessa
passagem é o vocábulo hebraico ‘esh, que significa
“fogo” e foi traduzido por “brasume”.[16] A terceira
palavra do texto hebraico é ‘evrah, que foi traduzida
por “furor”[17] no versículo 19 e está numa relação
de construto com o termo “brasume”. Quando
considerados juntos, esses dois termos formam a
declaração mais forte sobre a ira de Deus que se
pode obter – é ardente, pegando fogo. “Essas
palavras expressam a intensidade da demonstração
de vingança da parte de Deus contra os invasores de
Sua terra (‘meus montes’; Ez 38.21)”.[18]
Mas, então, o que o “brasume do... furor” de
Deus o leva a declarar? Deus “...disse que, naquele
dia, será fortemente sacudida a terra de Israel”. A
expressão “naquele dia” se refere ao dia em que
Gogue e seus comparsas invadirão a terra de Israel.
Nessa ocasião, Deus contra-atacará os intrusos ao
infligir um terrível terremoto na terra de Israel. Price
explica: De acordo com os versículos 19b-21, um
terremoto divinamente decretado será tão severo que
desorientará as tropas multinacionais de Gogue e as
levará a um estado de confusão a ponto de
guerrearem entre si. Ao que parece, esse terremoto
vai deflagrar depósitos vulcânicos naquela região, os
quais lançarão uma chuva de rocha derretida e de
enxofre incandescente (lava vulcânica) sobre o
exército de Gogue, de modo que as tropas inimigas
sejam totalmente destruídas antes que possam
desferir um único ataque a Israel (versículo 22).[19]
Maranata!
NOTAS 1 MARK HITCHCOCK, AFTER THE EMPIRE: BIBLE
PROPHECY IN LIGHT OF THE FALL OFTHE SOVIET
UNION, WHEATON, IL:TYNDALE HOUSE PUBLISHERS,
1994, P. 174.
2
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 168.
3
Randall PRICE, Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel, 2007, p. 42.
4
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
5
Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres, edição
eletrônica.
6
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
7
G. Johannes BOTTERWECK e Helmer RINGGREN, orgs.,
Theological Dictionary of the Old Testament, vol. IV, Grand
Rapids: Eerdmans, 1980, p. 462.
8
BOTTERWECK e RINGGREN, Theological Dictionary, vol. IV, p.
464.
9
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
10
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
11
Willem A. VANGEMEREN, org. geral, New International
Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis, 5 vols.,
Grand Rapids: Zondervan, 1997, vol.1, p. 463.
12
KEIL, Ezekiel, p. 169.
13
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
14
Definição originária de Koehler e Baumgartner, Hebrew
Lexicon, versão eletrônica.
15
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 225.
16
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
17
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
18
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra de Tim LaHaye e
Ed Hindson, orgs., The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p. 193.
19
PRICE, Comentários Não Publicados Sobre Ezequiel, p. 42.
18. EZEQUIEL
38.20-23

“...de tal sorte que os peixes do mar, e as aves


do céu, e os animais do campo, e todos os
répteis que se arrastam sobre a terra, e todos
os homens que estão sobre a face da terra
tremerão diante da minha presença; os
montes serão deitados abaixo, os precipícios
se desfarão, e todos os muros desabarão por
terra. Chamarei contra Gogue a espada em
todos os meus montes, diz o Senhor Deus; a
espada de cada um se voltará contra o seu
próximo. Contenderei com ele por meio da
peste e do sangue; chuva inundante, grandes
pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair
sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os
muitos povos que estiverem com ele. Assim,
eu me engrandecerei, vindicarei a minha
santidade e me darei a conhecer aos olhos de
muitas nações; e saberão que eu sou o
Senhor”.

Em conseqüência do terremoto que ocorrerá na


terra de Israel, já descrito no versículo 19, o
versículo 20 mostra o reflexo da grandiosidade dos
atos poderosos do Senhor por toda parte, tanto nos
céus quanto na terra. Em todas as três esferas de
ação – terra, mar e ar – em toda parte da criação de
Deus, as criaturas saudarão reverentemente a
demonstração do poder do Senhor em favor de Sua
nação eleita, Israel.

TREMOR, ESTRONDO E
DESLIZAMENTO A ORDEM
NATURAL E AMBIENTAL
DO MAR, DA TERRA E
DOS CÉUS SERÁ
GRANDEMENTE
TRANSTORNADA PELA
DEMONSTRAÇÃO DE
PODER DO SENHOR NO
TERRITÓRIO DE
ISRAEL. ESSE TEXTO
CARACTERIZA A REAÇÃO
HUMANA AO QUE DEUS
EXIBIRÁ
PORTENTOSAMENTE NA
TERRA DE ISRAEL,
DESTA MANEIRA: “...E
TODOS OS HOMENS QUE
ESTÃO SOBRE A FACE DA
TERRA TREMERÃO DIANTE
DA MINHA PRESENÇA...”.
CHARLES FEINBERG
ASSINALA: “A
SEQÜÊNCIA SERÁ, EM
PRIMEIRO LUGAR, O
TERREMOTO; DEPOIS
VÊM: A ANARQUIA NAS
TROPAS INVASORAS, A
PESTE E OS DESASTRES
NATURAIS. O VIOLENTO
ABALO SÍSMICO,
PROVOCADO POR DEUS
NA TERRA, AFETARÁ
TODAS AS DIMENSÕES
DA NATUREZA, TANTO A
NATUREZA ANIMADA
QUANTO A INANIMADA”.
[1] GOGUE, ARMADO
ATÉ OS DENTES,
ATACARÁ ISRAEL, MAS
DEUS, COM UMA
“SIMPLES” SACUDIDA
DO SOLO, FARÁ COM
QUE AS TROPAS
INVASORAS SEJAM
TOTALMENTE
EXTERMINADAS. ESSA
PASSAGEM BÍBLICA
DEIXA CLARO QUE A
EXCELÊNCIA DAS
FORÇAS ARMADAS DE
ISRAEL E DE SEUS
MODERNOS ARMAMENTOS
(INCLUSIVE ARMAS
NUCLEARES) NÃO TEM
NENHUMA RELAÇÃO COM
A DESTRUIÇÃO DE
GOGUE E SEUS
ALIADOS.
As últimas três frases do versículo 20
descrevem com mais detalhes o “terremoto na terra
de Israel”. Em conseqüência desse abalo sísmico,
“...os montes serão deitados abaixo, os precipícios
se desfarão, e todos os muros desabarão por
terra”. O texto já tinha feito alusão ao fato de que a
invasão empreendida por Gogue acontecerá
“...sobre os montes de Israel...” (v. 8). Se um
exército inimigo quiser ultrapassar a barreira natural
das montanhas de Israel para entrar no território
israelense precisa, primeiramente, encontrar uma
passagem ou um atalho. Nas guerras que o atual
Estado de Israel teve de enfrentar desde sua
fundação, essa tem sido uma pedra de tropeço para
o exército sírio e de outros países árabes, quando
tentaram atacar o território israelense. Eles têm
enfrentado grande dificuldade de atravessar aquelas
montanhas. Entretanto, nessa invasão predita, Deus,
não as forças de defesa de Israel (em inglês: Israel
Defense Forces – IDF), é Quem destruirá por
completo o inimigo, a partir do momento em que o
terremoto do Senhor literalmente puxar o tapete de
debaixo dos pés daqueles invasores. Não há dúvida
de que isso vai eliminar uma grande parcela das
tropas invasoras.
“FOGO AMIGO”
No contexto das guerras atuais, quando alguém
mata acidentalmente outro soldado do mesmo
exército, tal fato é chamado de “fogo amigo”. Eu li
recentemente que nos campos de combate da
atualidade o percentual de mortes por “fogo amigo”
é de 20 por cento, em virtude do grande poder de
fogo dos exércitos modernos. O versículo 21 deixa
absolutamente claro que a única matança que os
invasores da terra de Israel farão sob o comando de
Gogue será o massacre de seus próprios
companheiros de armas. O Senhor Deus afirma:
“Chamarei contra Gogue a espada em todos os
meus montes [...] a espada de cada um se voltará
contra o seu próximo”. Ao que parece, diante da
confusão gerada no terremoto ordenado pelo Senhor
e do terrível abalo das montanhas de Israel, os
exércitos de Gogue vão amargar uma assombrosa
quantidade de “fogo amigo” naquele momento em
que o Senhor os conturbar, levando-os a se voltarem
um contra o outro.
Imagine o terrível constrangimento e a
humilhação que o povo de Gogue vai amargar na
sua própria terra, quando descobrir que as forças de
defesa de Israel nem precisaram entrar em combate,
porque grande parte dos soldados de Gogue e de
seus aliados se matou mutuamente. Após uma
análise mais aprofundada, os aliados de Gogue vão
constatar que lutaram, na verdade, contra o Deus de
Israel e, por isso, não tiveram a mínima chance! No
entanto, esse não é o único meio que Deus utilizará
para derrotar os invasores.

DEUS PERTURBA GOGUE


O PAI DO CHAMADO
“ROCK CRISTÃO” OU
“MÚSICA EVANGÉLICA
CONTEMPORÂNEA”,
LARRY NORMAN, MORREU
NO ANO DE 2008. EU
COSTUMAVA OUVIR SUAS
MÚSICAS E UMA DAS
MINHAS FAVORITAS SE
DENOMINAVA
SIMPLESMENTE MOSES
[EM PORTUGUÊS:
“MOISÉS”]. A LETRA
DA MÚSICA SE REFERE
À OCASIÃO EM QUE
MOISÉS TIROU OS
FILHOS DE ISRAEL DO
EGITO, CONDUZINDO-OS
À TERRA PROMETIDA.
UMA DAS ESTROFES
DESSA MÚSICA DIZ O
SEGUINTE: MOISÉS
SABIA QUE DEUS
ESTAVA FALANDO COM
ELE.
Por isso, partiu para o Egito com força e vigor; então
Moisés perturbou o Faraó; ele o perturbou e o
perturbou...
até que conseguisse a libertação do seu povo.
Ele usou moscas perturbadoras de verdade![2]

Assim como Deus se utilizou de moscas


perturbadoras para irritar o Faraó na ocasião do
Êxodo, Ele novamente fará uso de “moscas
perturbadoras de verdade”, bem como de peste,
para perturbar Gogue e seus exércitos, só que, desta
vez, com o intuito de proteger Seu povo de uma
invasão. Além do terremoto e do “fogo amigo”, o
Senhor usará outros meios para derrotar os inimigos
de Israel, conforme é mencionado no versículo 22:
“Contenderei com ele por meio da peste e do
sangue; chuva inundante, grandes pedras de
saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre
as suas tropas e sobre os muitos povos que
estiverem com ele”.
O substantivo hebraico traduzido por “peste” é
usado para designar uma epidemia, como, por
exemplo, a “Peste Bubônica”, que pode ser causada
pela picada de um inseto.[3] Contudo, nesse caso,
não seriam as moscas nem os mosquitos que lhes
causariam doenças; pelo contrário: Deus é quem vai
perturbá-los. Junto com a palavra “peste” foi usado
outro substantivo hebraico, traduzido por “sangue”,
que, no contexto em que se encontra, faz alusão a
“sangue derramado violentamente”[4] na ocasião do
juízo de Deus. O verbo principal, que governa todas
as ações mencionadas no versículo 22, é o termo
hebraico traduzido nessa passagem pela palavra
“contenderei”. Portanto, esse texto mostra que toda
a peste, chuva torrencial, granizo, fogo e enxofre
são juízos de Deus contra Gogue e seus comparsas
invasores. A primeira metade do versículo nos diz
que o Senhor contenderá em juízo contra os
invasores, utilizando-se da pestilência que causará o
derramamento de sangue ou a morte do exército de
Gogue. A segunda parte do versículo parece revelar
os diferentes tipos de peste que provocarão a morte
dos inimigos de Deus e de Israel. Assim como no
Êxodo de Israel ao sair do Egito, o Senhor
miraculosamente fará cair do céu a chuva torrencial,
o granizo, o fogo e o enxofre sobre os invasores no
momento em que atacarem Israel. É provável que as
pedras de granizo atinjam exclusivamente os
inimigos de Deus e de Israel, a exemplo do que se
percebe em Apocalipse 16.21, pela reação hostil de
blasfemarem contra Deus. Além disso, não somente
enxofre, mas também fogo cairá do céu para atingir
as pessoas. Fogo e enxofre foram os únicos
elementos usados por Deus para destruir as cidades
de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19.24), porém,
aqui neste caso, o que se tem é uma mistura de fogo
com chuva torrencial. Essa será uma inacreditável
combinação de pragas destruidoras que levarão os
invasores da terra de Israel à morte. Eu me
pergunto: Será que a Organização das Nações
Unidas (ONU) ou algum órgão semelhante vai se
reunir em conselho para votar pela condenação de
Deus por esses atos?
A GLÓRIA DE DEUS
GOGUE ATACARÁ ISRAEL
MOTIVADO PELA VISÃO
ARROGANTE DE
ENALTECER SUA
PRÓPRIA GLÓRIA.
ENTRETANTO, DEUS É
AQUELE QUE VAI
GANHAR A TREMENDA
NOTORIEDADE EM TODOS
ESSES
ACONTECIMENTOS. O
VERSÍCULO 23
DECLARA: “ASSIM, EU ME
ENGRANDECEREI,
VINDICAREI A MINHA
SANTIDADE E ME DAREI A
CONHECER AOS OLHOS DE
MUITAS NAÇÕES; E
SABERÃO QUE EU SOU O
SENHOR”.
O Senhor concretizará três objetivos
específicos ao derrotar essa coalizão de exércitos
que atacará a Sua terra, Israel. Essas três lições
objetivas de Deus são ensinadas com o uso de três
verbos hebraicos. Em primeiro lugar, Deus se
“engrandecerá” através desses acontecimentos,
como expressa o verbo hebraico gadal, conjugado
no tempo hitpael que implica uma ação reflexivo-
intensiva. A raiz da palavra gadal significa “tornar-se
grande”. No tronco hebraico hitpael, tem o sentido
de “magnificar-se” ou “demonstrar que é grande”.
[5] É exatamente isso que o Senhor Deus de Israel
fará, quando derrotar sozinho todo esse enorme
exército que virá contra Israel. Deus acrescentará
mais essa evidência à longa lista de feitos
extraordinários que Ele realizou desde o passado
(por exemplo, a Criação, o Dilúvio, o Êxodo, etc.),
pela qual Deus tem provado historicamente, tanto no
tempo quanto no espaço, a Sua grandeza.
Em segundo lugar, o Senhor utiliza o termo
qadash, outro verbo hebraico no tempo hitpael.
Acredita-se que a raiz da palavra qadash significaria
“cortar”, daí decorre o significado básico de
“separar” para uso especial. O termo “santo” (do
heb. qadosh) tem direta relação etimológica com
qadash e transmite a idéia de separar algo do uso
comum para aplicá-lo em ocasiões especiais. Usado
nesse texto no tronco hebraico hitpael, o termo
significaria “revelar-se ou mostrar-se como santo”.
[6] No contexto dessa passagem o termo notifica
que o Senhor provará ao mundo que Ele é santo,
separado de todos os outros seres de modo especial,
e que Ele é o único e verdadeiro Deus, pois ninguém
é capaz de fazer aquilo que Ele, a essa altura, terá
feito contra os inimigos de Israel.
Em terceiro lugar, Deus se pronuncia com o
termo hebraico yada‘, um verbo muito usado que
significa “saber” ou “vir a conhecer”, em geral
através da experiência ou da interação com alguém
ou alguma coisa. Nesse caso, o termo yada‘ ocorre
no tempo hebraico nifal cujo sentido se expressa na
voz passiva ou reflexiva.[7] Nesse contexto,
portanto, a palavra exprime a noção de que Deus
deseja que o mundo venha a conhecer ou perceba
que Ele é o Senhor Deus de Israel, sob o efeito da
ocorrência desses fatos. Maranata!
NOTAS 1 CHARLES LEE FEINBERG, THE PROPHECY OF
EZEKIEL, CHICAGO: MOODY PRESS, 1969, P. 225-
26.
2
Larry NORMAN, “Moses”, lançada no álbum Upon This Rock,
Nova York: Capitol Records, 1969.
3
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
4
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
5
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
6
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
7
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
19. EZEQUIEL
39.1-3

“Tu, pois, ó filho do homem, profetiza ainda


contra Gogue e dize: Assim diz o Senhor
Deus: Eis que eu sou contra ti, ó Gogue,
príncipe de Rôs, de Meseque e Tubal. Far-te-
ei que te volvas e te conduzirei, far-te-ei subir
dos lados do Norte e te trarei aos montes de
Israel. Tirarei o teu arco da tua mão esquerda
e farei cair as tuas flechas da tua mão
direita”.

Enquanto escrevo (N.Ed.: ano de 2008) esta


seção de nossa análise sobre a futura campanha
militar de Gogue contra Israel, acabamos de
constatar o ataque da Rússia à Geórgia com o intuito
de assumir o controle do sul da Ossétia, uma
província situada no território da Geórgia. A Rússia
também bombardeou várias cidades importantes em
toda a Geórgia e enviou sua infantaria mecanizada
para invadir e ocupar determinados territórios
localizados dentro dos limites geográficos da
Geórgia. Essa é a primeira vez que a Rússia invade
outro país, desde a invasão do Afeganistão na
década de 1970 pela antiga União Soviética. Por que
os russos empreenderam essa invasão agora? A
Stratfor Intelligence Report apresenta a seguinte
análise: Portanto, a guerra na Geórgia é o retorno
público e notório da Rússia à posição de grande
potência. Isso não é algo que aconteceu de repente,
pelo contrário, é um processo que se desdobra desde
que Putin assumiu o poder e que, nos últimos cinco
anos, tem se intensificado cada vez mais. Em parte
isso tem a ver com o aumento do poderio russo, mas
tem muito mais a ver com o fato de que as guerras
no Oriente Médio deixaram os Estados Unidos em
desequilíbrio e com menos recursos. Como já
escrevemos anteriormente, esse conflito criou uma
janela de oportunidade. O objetivo da Rússia é usar
tal janela de oportunidade para exigir o
reconhecimento de uma nova realidade em toda
aquela região, enquanto os Estados Unidos se vêem
amarrados em outra região e dependem da Rússia.
Essa guerra está muito longe de ser uma surpresa.
Ela já tinha sido arquitetada há meses. Porém, os
alicerces geopolíticos dessa guerra vêm sendo
construídos desde 1992. A Rússia durante muitos
séculos tem se mostrado como um império. Estes
últimos 15 anos, ou um pouco mais, não
correspondem a uma nova realidade, mas
representam uma anomalia que devia ser corrigida.
Agora essa anomalia realmente está sendo corrigida.
[1]
Com isso não quero dizer que esse
acontecimento da guerra na Geórgia se enquadre
diretamente no contexto da invasão de Gogue à terra
de Israel; todavia, parece ser um acontecimento
relevante na sinalização de que o “urso Russo”
voltou a ficar à espreita. Quando se junta essa
invasão do território da Geórgia ao fato de que a
Rússia retomou os vôos de seus aviões
bombardeiros Bear Tu-95 ao longo da fronteira
americana, perto do Alasca,[2] acrescentando-se,
ainda, o fato de que Putin ameaçou instalar mísseis
novamente em Cuba,[3] percebe-se que a Rússia é
muito mais agressiva e anti-ocidental do que tem
aparentado nos últimos quinze anos. Tudo isso pode
ser indício de que a Rússia, após um período de
dormência, esteja agora interessada em agressão
militar.
Os críticos da posição, que defende o
cumprimento futuro da profecia referente a Gogue e
Magogue, ridicularizam, muitas vezes, a
possibilidade de que isso ocorra por causa do
colapso da antiga União Soviética (eu nunca vi
nenhuma exigência textual de que a Rússia tenha de
liderar a União Soviética como condição para que
essa profecia se cumpra. O fato de que a Rússia
continua a existir como nação é a única condição
requerida nessa profecia).
Gary North declarou o seguinte: “A Rússia foi
o principal candidato. Contudo, depois de 1991,
ficou difícil defender esse ponto de vista por razões
óbvias. O colapso da União Soviética criou um
grande problema para os teólogos do
Dispensacionalismo e seus autores populares”.[4] É
evidente que a atual tentativa da Rússia, de ter a
hegemonia sobre a Geórgia, não implica que Putin
está tentando recriar o antigo Império Soviético. Isso
realmente é sinal de que a Rússia, detentora de
muita riqueza gerada pela produção de petróleo nos
últimos anos, procura se rearmar para que possa ser
a maior potência daquela região. Friedman
esclarece: Putin não queria restaurar a União
Soviética; o que ele realmente queria era
restabelecer a esfera de influência dos russos na
região da antiga União Soviética. Para conseguir
isso, ele tinha que fazer duas coisas. Em primeiro
lugar, tinha que devolver ao exército russo a
credibilidade como força de combate, pelo menos
no contexto daquela região. Em segundo lugar,
Putin tinha que provar que as garantias ocidentais,
inclusive a adesão como membro da OTAN, não
significavam nada diante do poderio russo. Ele não
queria um confronto direto com as tropas da OTAN,
mas queria enfrentar e derrotar uma força militar
que, de fato, estivesse estreitamente alinhada com os
Estados Unidos da América e que contasse com o
apoio bélico, auxílio e orientação dos americanos,
bem como fosse abertamente vista como uma nação
sob a proteção dos Estados Unidos. A Geórgia era a
escolha perfeita.
EZEQUIEL 39
Ao completarmos nossa análise e comentário
do capítulo 38 do livro de Ezequiel, viramos, agora,
a página para estudarmos o capítulo 39 dessa
extraordinária profecia. Arnold Fruchtenbaum
comenta que o princípio de interpretação, por ele
denominado de Lei de Recorrência, se aplica no
capítulo 39.[5] Ele descreve esse princípio nos
seguintes termos: Essa lei considera o fato de que,
em algumas passagens das Escrituras, ocorre o relato
de um acontecimento seguido de um segundo relato
do mesmo acontecimento, este último mais
detalhado do que o primeiro. Nesse caso, a situação
quase sempre envolve dois blocos de texto bíblico.
O primeiro bloco de texto apresenta a descrição de
um acontecimento conforme ele ocorre em
seqüência cronológica. Em seguida, vem um
segundo bloco de texto que trata do mesmo
acontecimento e do mesmo período de tempo,
apresentando, contudo, mais detalhes do que se
passa no transcurso daquele acontecimento.[6]
Fruchtenbaum afirma que Ezequiel 39 “repete
uma parte do relato apresentado no primeiro bloco
de texto e acrescenta outros detalhes referentes à
destruição do exército invasor”.[7] Talvez o Senhor
repita algumas profecias com o fim de deixar
realmente bem entendida a importância daquilo que
Ele está dizendo. Nesse caso, a profecia referente a
Gogue ganharia dupla importância por causa dessa
ênfase. O segundo pronunciamento da profecia
sobre a invasão liderada por Gogue se conclui em
Ezequiel 39.16. O trecho de Ezequiel 39.1-6 é a
primeira seção desse capítulo que reitera a
informação acerca do local dessa destruição.

O SEGUNDO VERSÍCULO,
IGUAL AO PRIMEIRO
EZEQUIEL, QUE É
CHAMADO DE “FILHO DO
HOMEM” NO VERSÍCULO
UM, RECEBE ESTA
ORDEM: “...PROFETIZA
AINDA CONTRA GOGUE E
DIZE: ASSIM DIZ O
SENHOR DEUS: EIS QUE
EU SOU CONTRA TI, Ó
GOGUE, PRÍNCIPE DE RÔS,
DE MESEQUE E TUBAL”.
ESSE TEXTO É UMA
REPETIÇÃO IDÊNTICA
DAQUILO QUE ESTÁ
REGISTRADO EM
EZEQUIEL 38.3, SOBRE
O QUE JÁ FIZ
COMENTÁRIOS NAQUELA
RESPECTIVA SEÇÃO DE
NOSSA ANÁLISE. POR
QUE FOI REPETIDO?
CREIO QUE O CONTEÚDO
DO VERSÍCULO 1 É
EXATAMENTE O MESMO
QUE SE ENCONTRA NO
CAPÍTULO 38, PARA
MOSTRAR QUE É UMA
PROFECIA REFERENTE
ÀS MESMAS ENTIDADES
E ACONTECIMENTOS JÁ
PREDITOS NA SEÇÃO
ANTERIOR. É POR ESSA
RAZÃO QUE O SENHOR,
APÓS ESTABELECER A
LIGAÇÃO DISSO COM O
CAPÍTULO ANTERIOR EM
EZEQUIEL 39.1, PASSA
A ACRESCENTAR MAIS
INFORMAÇÕES SOBRE
ESSE ACONTECIMENTO
NO TEXTO DE EZEQUIEL
39.3-6.
O versículo 2 declara: “Far-te-ei que te volvas
e te conduzirei, far-te-ei subir dos lados do Norte e
te trarei aos montes de Israel”. Esse versículo
parece ser a síntese do que está escrito em Ezequiel
38.4,6,8 e 15, sobre o que já fiz comentários em
seção anterior de nossa análise. C. F. Keil faz esta
observação: “Então, os elementos essenciais do
capítulo 38.4-15 são resumidos brevemente no
versículo 2”.[8] Charles Feinberg afirma: “A
declaração sobre fazer com que Gogue se “volva”
(v.2) traz consigo a idéia de compulsão”.[9]
Entretanto, a frase “...e te conduzirei...” não ocorre
no capítulo anterior. Na realidade, o texto de
Ezequiel 39.2 é a única referência na qual esse
verbo é usado em todo o Antigo Testamento
Hebraico.[10] O termo transmite a idéia básica de
“caminhar ao lado de”,[11] como alguém que
caminha ao lado de um animal, a exemplo de um
cão, conduzindo-o pela coleira. Esse verbo está
conjugado no tempo hebraico Piel que determina
uma ação intensiva na voz ativa. Assim, a imagem
que esse texto retrata é a do Senhor conduzindo
Gogue e seus aliados até os montes de Israel, como
se conduz um animal pela coleira. A passagem não
deixa a menor dúvida de que a suprema causa
motivadora dessa invasão, a despeito da ação
humana, é a vontade soberana de Deus.

O DESARMAMENTO DE
GOGUE O VERSÍCULO
TRÊS ASSEVERA:
“TIRAREI O TEU ARCO DA
TUA MÃO ESQUERDA E
FAREI CAIR AS TUAS
FLECHAS DA TUA MÃO
DIREITA”. AMBAS AS
FRASES SÃO
EXPRESSÕES
IDIOMÁTICAS
HEBRAICAS QUE
RETRATAM A AÇÃO DO
SENHOR, NÃO DE
ISRAEL, AO DESARMAR
GOGUE, ARRANCANDO
DAS MÃOS DELE O
ARCO, QUE É UMA
ALUSÃO ÀS ARMAS OU
AOS SISTEMAS DE
ARMAMENTO DE GOGUE
(SEJAM ELES QUAIS
FOREM). O SENHOR
TAMBÉM VAI TIRAR A
MUNIÇÃO USADA POR
GOGUE DURANTE ESSA
FUTURA INVASÃO, TAL
COMO AFIRMA: “...E
FAREI CAIR AS TUAS
FLECHAS DA TUA MÃO
DIREITA”. EM TERMOS
SIMPLES E CLAROS, O
SENHOR DESARMARÁ
GOGUE PARA DEFENDER
A NAÇÃO DE ISRAEL.
KEIL EXPLICA: “NA
TERRA DE ISRAEL, O
SENHOR VAI GOLPEAR
AS ARMAS DE GOGUE
PARA ARRANCÁ-LAS DE
SUAS MÃOS, I.E.,
TORNANDO-O INCAPAZ
DE COMBATER [...]
ENTREGANDO GOGUE E
TODO O SEU EXÉRCITO
POR PRESA DESTINADA
À MORTE”.[12]
Assim, o capítulo 39 começa com uma breve
visão panorâmica e um resumo de muitas coisas que
já tinham sido reveladas no capítulo anterior. O
Senhor assegura Sua intensa vigilância sobre essa
futura batalha na qual Ele protegerá Seu povo. Além
disso, podemos testemunhar a postura atual de
alguns dos atores que vão desempenhar seu papel
nessa terrível invasão, tais como a Rússia e o Irã que
já têm manifestado a sua beligerância.
Maranata!
NOTAS 1 GEORGE FRIEDMAN, “THE RUSSO-GEORGIAN
WAR AND THE BALANCE OF POWER”, PUBLICADO NO
STRATFOR GEOPOLITICAL INTELLIGENCE REPORT,
EDIÇÃO DE 12 DE AGOSTO DE 2008, ATRAVÉS DO
SITE: WWW.STRATFOR.COM.
2
“Russia’s Bear bomber returns”, edição eletrônica da BBC
News, veiculada no dia 10 de setembro de 2007, através
do site: www.news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6984320.stm.
3
“Putin eyes renewed Russian ties with Cuba”, edição
eletrônica da CNN, veiculada no dia 4 de agosto de 2008,
através do site:
http://www.cnn.com/2008/WORLD/europe/08/04/russia.cuba.ap/
4
Gary NORTH, “The Unannounced Reason Behind American
Fundamentalism’s [& Virtually All Evangelicalism] Support for
the State of Israel”, publicado em 19 de Julho de 2000,
através do site: www.tks.org/GaryNorth.htm.
5
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982), 2003, p. 6.
6
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 6. Fruchtenbaum classifica as
seguintes passagens bíblicas como exemplos da Lei de
Recorrência: Gênesis 1 e 2; Isaías 30 e 31; Ezequiel 38 e
39; Apocalipse 17 e 18.
7
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 6.
8
C. F. KEIL, “Ezekiel, Daniel”, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin,
reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 171.
9
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 228.
10
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
11
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
12
KEIL, Ezekiel, p. 171.
20. EZEQUIEL
39.4-6

“Nos montes de Israel, cairás, tu, e todas as


tuas tropas, e os povos que estão contigo; a
toda espécie de aves de rapina e aos animais
do campo eu te darei, para que te devorem.
Cairás em campo aberto, porque eu falei, diz
o Senhor Deus. Meterei fogo em Magogue e
nos que habitam seguros nas terras do mar; e
saberão que eu sou o Senhor”.

O texto de Ezequiel 38.8 faz a seguinte


declaração a Gogue, como líder dos invasores:
“...virás à terra que se recuperou da espada, ao
povo que se congregou dentre muitos povos sobre
os montes de Israel, que sempre estavam
desolados...”. Em contrapartida, como está escrito
em Ez 39.4, Deus fará a Gogue o seguinte: “Nos
montes de Israel, cairás...”. Gogue pretende fazer
uma coisa, mas Deus, ao defender Israel, Seu povo,
faz com que o desenlace seja totalmente diferente do
que Gogue pretendia.

PRESA FÁCIL O VERBO


HEBRAICO TRADUZIDO
POR “CAIR” É UM
TERMO COMUM QUE
NESSE CONTEXTO
SIGNIFICA TOMBAR EM
COMBATE. POR SER
USADO DE FORMA
CORPORATIVA PARA SE
REFERIR A TODAS AS
FORÇAS ARMADAS
INVASORAS, I.E.,
“...TU, E TODAS AS TUAS
TROPAS, E OS POVOS QUE
ESTÃO CONTIGO...”,
ESSE TERMO DESIGNA A
DERROTA DOS
EXÉRCITOS INVASORES.
[1] OS VOCÁBULOS
“TROPAS” E “POVOS”
JÁ FORAM USADOS
ANTERIORMENTE EM EZ
38.6. PELO CONTEXTO
ANTERIOR, FICA
EVIDENTE QUE ESSA
“QUEDA” DOS INIMIGOS
RESULTA DA
INTERVENÇÃO
MIRACULOSA DE DEUS
EM FAVOR DE ISRAEL.
ARNOLD FRUCHTENBAUM
DESCREVE OS MONTES
DE ISRAEL DA
SEGUINTE FORMA: ELES
SE ESTENDEM AO LONGO
DA REGIÃO CENTRAL DO
PAÍS, COMEÇANDO NO
EXTREMO SUL DO VALE
DE JEZREEL, NA
ALTURA DA CIDADE DE
JENIN (DENOMINADA NA
BÍBLIA DE EN-GANIM),
E SE PROLONGAM NA
DIREÇÃO SUL ATÉ
DESAPARECEREM AO
NORTE DE BERSEBA NO
NEGUEBE. É NESSES
MONTES QUE SE
SITUAVAM AS FAMOSAS
CIDADES BÍBLICAS DE
DOTÃ, SIQUÉM,
SAMARIA, SILÓ,
BETEL, AI, RAMÁ,
BELÉM, HEBROM, DEBIR
E, SOBRETUDO, A
CIDADE DE JERUSALÉM,
QUE PARECE SER
OBJETIVO DO EXÉRCITO
INVASOR.
Aqui temos outro exemplo da maneira pela qual a
“Guerra dos Seis Dias” definiu o cenário para o
cumprimento da profecia. Até à “Guerra dos Seis Dias”,
todos os montes de Israel, com exceção de uma
pequena cadeia montanhosa da Jerusalém Ocidental,
estavam completamente nas mãos dos árabes
jordanianos. Somente a partir de 1967 é que os
montes de Israel passaram a se localizar em Israel,
montando, assim, o palco para o cumprimento dessa
profecia.[2]

Visto que Deus é quem trará esse exército


invasor, Ele também aproveitará a ocasião para
alimentar as Suas criaturas com a carne desses
invasores. “...a toda espécie de aves de rapina e aos
animais do campo eu te darei, para que te
devorem...”. O verbo “dar” é usado aqui no sentido
de “preparar, oferecer, colocar” perante alguém.[3]
Nessa frase, o verbo hebraico é conjugado no tempo
“perfeito profético”,[4] implicando que, apesar de o
texto se referir a um acontecimento futuro, é mais
bem traduzido como se já tivesse ocorrido, a saber,
“eu te dei”. O motivo pelo qual Deus usou o perfeito
profético está no fato de que, quando o Senhor
prediz algum acontecimento, a ocorrência deste é
tão certa que pode ser declarado como se já tivesse
acontecido, ainda que esteja previsto para o futuro.
Dessa forma, o Senhor oferecerá os inimigos de
Israel como uma refeição para as aves e animais, à
semelhança de um garçom que prepara a mesa e
serve um banquete aos convidados. A menção feita
às “aves” e “animais do campo” diz respeito às
criaturas que comerão os cadáveres. A expressão
“toda espécie” modifica especificamente a
referência feita às aves.[5] Charles Feinberg faz a
seguinte observação: Devido à enorme carnificina,
os sepultamentos não serão uma prioridade, nem
estarão na ordem do dia. O Senhor já decidiu que os
restos mortais fiquem à disposição das aves de
rapina e dos animais selvagens. Essa ausência de
sepultamento era repugnante, especialmente no
Oriente Médio. A imagem retratada no versículo 4
antecipa o que é declarado com mais detalhes nos
versículos 17-20.[6]
O versículo 5 expande o conteúdo do versículo
4 e emprega um jogo de palavras ao usar a palavra
“campo”. No mesmo campo em que os animais
selvagens vagueiam o Senhor destruirá os exércitos
de Gogue, a saber, “em campo aberto”. Os
invasores nunca chegarão aos centros populacionais
de Israel para atacá-los; em vez disso, eles morrerão
literalmente “...sobre a face do campo...” (ARC).
Trata-se de uma expressão idiomática que designa
campo “aberto”. Eles tombarão em campo aberto
simplesmente porque o Senhor Deus de Israel
declarou que é assim que eles cairão. Tudo o que
Deus comanda na natureza acontece como Ele
ordena; de igual modo, todas as sentenças de juízo
do Senhor Deus se cumprirão.

“FOGO... NAS TERRAS


DO MAR”
O versículo 6 assevera: “Meterei fogo em
Magogue e nos que habitam seguros nas terras do
mar; e saberão que eu sou o Senhor”. A palavra
hebraica traduzida por “fogo” é o substantivo mais
comum para designar “fogo”, usado por 376 vezes
em todo o Antigo Testamento.[7] O verbo hebraico
traduzido por “meter” se encontra no tempo Piel
que denota uma ação intensiva da parte de Deus. O
termo “fogo” também foi usado num contexto
anteriormente próximo, junto com “...chuva
torrencial, grandes pedras de saraiva,... e
enxofre...” (Ez 38.22). Se “fogo e enxofre” são
usados numa descrição semelhante, pode-se concluir
que o Senhor empregará fogo e enxofre da mesma
forma que usou no caso de Sodoma e Gomorra (Gn
19.24).
Alguns intérpretes da Bíblia entendem que o
cumprimento dessa profecia se dará por meio de um
ataque nuclear. Por exemplo, o catedrático em
Bíblia, Chuck Missler, declara o seguinte em seu
comentário sobre esse versículo: “Alguns analistas
acham que o texto sugere a possibilidade de um
ataque nuclear com mísseis intercontinentais. Em
face da atual proliferação de armas nucleares no
mundo todo, tal perspectiva é assustadoramente
plausível”.[8] O problema que vejo na relação de
um ataque nuclear com esse versículo é que o texto
bíblico enfatiza claramente que o próprio Deus
enviará fogo do céu. A passagem afirma: “E enviarei
um fogo sobre Magogue e entre os que habitam
seguros nas ilhas...” (Ez 39.6 – ARC). O texto que
está diante de nós demonstra nitidamente que o
próprio Deus enviará fogo sobre os invasores num
ato de juízo. Em nenhum lugar o texto menciona
que o Senhor usará agentes desvinculados da
coalizão invasora para executarem Seus juízos. Ao
invés disso, Deus já demonstrou, ao longo de toda a
história, que é absolutamente capaz de cumprir
sozinho aquilo que predisse nessa profecia.
Eu creio que nas ocasiões em que a Bíblia
assevera que Deus ou um anjo executa um juízo, tal
afirmação deve ser interpretada como indício de que
Deus, na verdade, é Quem realiza diretamente
aquele feito. Minha convicção é a de que essas
declarações bíblicas não nos permitem interpretá-las
como possíveis referências à atividade humana, a
exemplo de uma guerra nuclear que caracteriza a
ação do homem contra o próprio homem. Os
primeiros cinco selos de juízo, descritos em
Apocalipse 6, seriam um exemplo da maneira pela
qual Deus utiliza agentes humanos para executarem
uma sentença de juízo. Entretanto, o texto bíblico
mostra que todo o restante dos selos, as trombetas e
as taças de juízo são efetuados diretamente por
Deus, usando, muitas vezes, Seus anjos para
executarem esses feitos sobrenaturais. Aqui temos
um importante aspecto bíblico, a saber: Deus é
Aquele que realiza essas coisas, visto que Deus é
Quem declaradamente utiliza meios sobrenaturais
para alcançar esses fins, tal como Ele agiu no caso
de Sodoma e Gomorra, na ocasião do Êxodo de
Israel do Egito, e ainda agirá muitas vezes durante o
período da Tribulação (Apocalipse 4-19). O texto
bíblico diz: “[Eu, o Senhor] Meterei fogo em
Magogue e nos que habitam seguros nas terras do
mar”. Portanto o texto afirma com clareza que Deus
executará isso diretamente, já que não há nenhuma
menção de agentes humanos. Observe que a ênfase
geral de toda essa passagem bíblica é a que o
próprio Senhor age contra Gogue em favor de Israel
(Ez 39.1-7). No versículo 1 está escrito: “Eis que eu
sou contra ti, ó Gogue...”. No versículo 2: “Far-te-
ei que te volvas...”. No versículo 3: “Tirarei o teu
arco da tua mão esquerda...”. No versículo 4: “...eu
te darei, para que te devorem”. No versículo 5:
“...porque eu falei, diz o Senhor Deus”. No
versículo 6: “Meterei fogo em Magogue [...] e
saberão que eu sou o Senhor”. No versículo 7:
“Farei conhecido o meu santo nome no meio do
meu povo de Israel e nunca mais deixarei profanar
o meu santo nome; e as nações saberão que eu sou
o Senhor, o Santo em Israel”. Em outras palavras,
Deus realiza tudo isso de modo que Ele mesmo
receba a notoriedade e a glória.
O fogo de juízo que o Senhor enviará sobre
“as terras do mar” é provavelmente uma referência
à destruição da terra natal de Gogue, i.e. Magogue,
e das longínquas terras natais de seus aliados (“as
terras do mar”; cfe., Ez 26.15,18; 27.3,6-7,15,35),
que habitam seguros nesses lugares. A suprema lição
será a de ensiná-los que Ele é Deus. Alguns
acreditam que isso se refira à destruição de todas as
terras litorâneas ou de todas as nações do mundo
que habitam em segurança. Tal concepção é
improvável pelo fato de que o foco de todo esse
texto se concentra em Gogue e sua coalizão de
invasores. A lógica do Senhor nesse caso é a
seguinte: Gogue e seus aliados atacam os moradores
de Israel “...que vivem seguros...” (Ez 38.8,11);
então, Deus responde em retaliação contra a terra
natal dos invasores, onde o texto diz: “...que
habitam seguros...” (Ez 39.6) ou onde supunham,
na sua arrogância, que estavam seguros.
Fruchtenbaum assinala que a derrota de Gogue “fará
com que a Rússia deixe de ser uma força política
influente nas questões internacionais”.[9] Assim, aos
olhos do mundo, Israel parecia destinado à
aniquilação em conseqüência do ataque de uma
poderosa coalizão, mas o Senhor interveio em
defesa de Israel e virou a mesa sobre os inimigos,
destruindo as terras de origem dos invasores, as
quais estes supunham estar em segurança. Maranata!
NOTAS 1 LUDWIG KOEHLER E WALTER BAUMGARTNER, THE
HEBREW AND ARAMAIC LEXICON OF THE OLD
TESTAMENT, VERSÃO ELETRÔNICA, LEIDEN,
HOLANDA: KONINKLIJKE BRILL, 2000.
2
(Grifo do autor original em itálico) Arnold FRUCHTENBAUM,
Footsteps of the Messiah: A Study of the Sequence of
Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press, (1982), 2003, p.
114.
3
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
4
Rabino Dr. S. FISCH, Ezekiel: Hebrew Text & English
Translation With An Introduction and Commentary,
Londres: The Soncino Press, 1950, p. 259.
5
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin;
reimpressão; Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 171.
6
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 229.
7
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
8
Chuck MISSLER, The Magog Invasion, Palos Verdes, CA:
Western Front, 1995, p. 179.
9
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 115.
21. EZEQUIEL
39.7-10

“Farei conhecido o meu santo nome no meio


do meu povo de Israel e nunca mais deixarei
profanar o meu santo nome; e as nações
saberão que eu sou o Senhor, o Santo em
Israel. Eis que vem e se cumprirá, diz o
Senhor Deus; este é o dia de que tenho
falado. Os habitantes das cidades de Israel
sairão e queimarão, de todo, as armas, os
escudos, os paveses, os arcos, as flechas, os
bastões de mão e as lanças; farão fogo com
tudo isto por sete anos. Não trarão lenha do
campo, nem a cortarão dos bosques, mas com
as armas acenderão fogo; saquearão aos que
os saquearam e despojarão aos que os
despojaram, diz o Senhor Deus”.
Por que o Senhor Deus de Israel trará Gogue e
seu exército esmagador para atacar Israel naquele
momento da história? A principal declaração de
propósito, que abrange toda essa passagem bíblica, é
apresentada nos versículos 7 e 8, onde está escrito:
“Farei conhecido o meu santo nome no meio do
meu povo de Israel...”; em conseqüência disso,
Deus assegura: “...nunca mais deixarei profanar o
meu santo nome...” (Ez 39.7). O fato de Deus ser
santo é algo muito importante para Ele próprio,
ainda que isso seja tremendamente desvalorizado em
nossos dias, até mesmo nos círculos cristãos que se
denominam evangélicos. O mais provável é que
exista uma relação entre a mudança de
comportamento nacional de Israel e a restauração
dessa nação marcada por sua conversão, conforme
foi descrito anteriormente no capítulo 37. Esses
versículos reafirmam a iniciativa divina acerca dessa
invasão e elaboram sobre a queda de Gogue e sobre
os propósitos de Deus.[1]

SANTO, SANTO, SANTO


POR TRÊS VEZES O
TERMO HEBRAICO
QADOSH, TRADUZIDO
POR “SANTO”, É USADO
NO VERSÍCULO 7; POR
DUAS VEZES OCORRE NA
EXPRESSÃO “...O MEU
SANTO NOME...” E AINDA
OCORRE UMA VEZ NA
EXPRESSÃO “...O SANTO
DE ISRAEL”. ESSA
PALAVRA HEBRAICA
SIGNIFICA “SEPARADO
PARA USO ESPECIAL;
TRATADO COM
RESPEITO; RETIRADO
DO USO COMUM”.[2]
PARECE QUE A
OCORRÊNCIA
ENVOLVENDO GOGUE E
MAGOGUE ACONTECERÁ
NAQUELE MOMENTO DA
HISTÓRIA EM QUE O
SENHOR ESTIVER PARA
INTERVIR NA ORDEM
HISTÓRICA COM A
FINALIDADE DE
SANTIFICAR SUA
REPUTAÇÃO, BEM COMO
A REPUTAÇÃO DE
ISRAEL, ENTRE AS
NAÇÕES DESTE MUNDO.
E. W. HENGSTENBURG
ASSINALA O SEGUINTE:
O SANTO NOME DE DEUS
(V. 7) É SEU
CARÁTER, DECORRENTE
DE SUAS ANTIGAS
MANIFESTAÇÕES AO
LONGO DA HISTÓRIA,
COMO DEUS, NO PLENO
SENTIDO DO TERMO, O
ABSOLUTO, O
TRANSCENDENTEMENTE
GLORIOSO, SEPARADO
INCONDICIONALMENTE
DE TODA FALSIDADE E
IMPOTÊNCIA. DEUS
TORNA SEU NOME
CONHECIDO NO MEIO DE
SEU POVO QUANDO ESTE
COMPROVA DE NOVO O
CARÁTER HISTÓRICO DE
DEUS; QUANDO ELE
CONCEDE A SEU POVO A
VITÓRIA SOBRE O
MUNDO IDÓLATRA, QUE
SE ENFURECE CONTRA
ELES. DEUS
PROFANARIA SEU NOME
SE ABANDONASSE
CONTINUAMENTE SEU
POVO NAS MÃOS DO
MUNDO IDÓLATRA, TAL
COMO FIZERA NA ÉPOCA
DO PROFETA POR CAUSA
DA APOSTASIA DELES.
[3]
É através da evidente intervenção miraculosa
em favor do Seu povo que Deus restaura o
relacionamento tenso com Israel. O Senhor declara:
“...nunca mais deixarei profanar o meu santo
nome...” (Ez 39.7). O verbo hebraico halal, que
nesse texto foi traduzido por “profanar”, significa
basicamente “poluir, corromper, macular ou
profanar”.[4] Nesse contexto, o verbo ocorre no
tempo hebraico do Hifil, que denota ação causativa.
Assim, o termo significa “permitir que seja
profanado ou maculado”.[5] Deus não mais
permitirá que Seu santo nome ou Sua reputação seja
profanada, nem pelo Seu próprio povo, nem pelas
nações do mundo todo. Charles Feinberg explica: O
verdadeiro caráter de Deus ficará visível em seu
devido esplendor, tanto por ser justo quanto por ser
poderoso. Tal ênfase brota desse conceito que
permeia todo o livro de Ezequiel porque esse é o
plano de Deus em toda a história e não existe
concepção mais importante do que essa em todo o
universo. O que traz estabilidade e valor para a vida
sobre a terra é a verdade determinante de que um
Deus de santidade, sabedoria, amor e verdade
executa continuamente Sua bendita vontade em todo
o universo e entre as inteligências por Ele criadas.[6]
Se na mente de alguém pairava alguma dúvida
sobre a certeza do cumprimento desses
acontecimentos preditos, o versículo 8 reitera sua
inevitabilidade, já que o próprio Deus cuidará para
que tudo isso se cumpra, como está escrito: “Eis que
vem e se cumprirá, diz o Senhor Deus; este é o dia
de que tenho falado”. Na verdade, é provável que
em toda a Bíblia não exista outra passagem que dê
tanta ênfase à certeza do cumprimento de um fato
predito, como esse texto de Ezequiel 38–39. Charles
Feinberg declara o seguinte: “Talvez haja alguns
que, de fato, pensem que as coisas podem ser
alteradas ou manipuladas do jeito que eles querem.
Para esses, chega a mensagem de que não há como
escapar do que foi predito, pois é tão certo como se
já tivesse acontecido. Quando Deus prediz algo, Ele
também deixa patente que pode concretizar aquilo
que predisse”.[7] Os seres humanos podem até
pensar que são os atores principais, mas quando a
verdade é revelada, constata-se que Deus é a força
motriz de todos os acontecimentos.
Qual será o impacto sobre a nação de Israel
quando contemplar a glorificação de Deus em todos
esses acontecimentos? É evidente que “ocorre um
reavivamento em Israel, fazendo com que muitos
judeus se convertam ao Senhor”.[8]

QUEIMANDO POR SETE


ANOS O QUE SE QUER
DESTACAR NESSA
PASSAGEM, QUANDO SE
REFERE À QUEIMA DOS
DESPOJOS DE GUERRA,
NOS VERSÍCULOS 9 E
10? “AO INVÉS DE
SIMPLESMENTE
DESTRUIR AS ARMAS DE
GUERRA, ESTAS SERÃO
USADAS COMO
COMBUSTÍVEL EM
BENEFÍCIO DOS
ISRAELENSES”.[9] POR
QUE ELES QUEIMARIAM
AS ARMAS AO INVÉS DE
APENAS ELIMINÁ-LAS?
RANDALL PRICE SUGERE
O SEGUINTE: “ESSA
IRÔNICA DEPOSIÇÃO DE
ARMAS PROJETADAS
PARA MATAR AS
PESSOAS SERÁ
CONSIDERADA UM
DESPOJO “...AOS QUE OS
DESPOJARAM... [I.E.,
PRETENDIAM DESPOJÁ-
LOS]” (V.10B).[10] O
VERSÍCULO 10 INDICA
QUE, DURANTE ESSE
PERÍODO DE SETE
ANOS, OS ISRAELENSES
NÃO PRECISARÃO USAR
OS RECURSOS NATURAIS
DE SEU TERRITÓRIO
COMO COMBUSTÍVEL,
POIS “NÃO TRARÃO
LENHA DO CAMPO, NEM A
CORTARÃO DOS BOSQUES,
MAS COM AS ARMAS
ACENDERÃO FOGO;
SAQUEARÃO AOS QUE OS
SAQUEARAM E
DESPOJARÃO AOS QUE OS
DESPOJARAM, DIZ O
SENHOR DEUS” (EZ
39.10).
O fato de que essas armas serão queimadas por
sete anos fornece um indicador de tempo que
poderia nos ajudar a discernir o momento, dentro do
cronograma profético de Deus, em que essa batalha
ocorrerá. Fruchtenbaum diz o seguinte: “Esses sete
meses de sepultamento dos corpos e sete anos de
queima das armas são cruciais para que se possa
definir com precisão o momento em que essa
invasão acontecerá. Para que uma concepção
interpretativa esteja correta, deve obrigatoriamente
satisfazer às exigências impostas por esses sete
meses e sete anos”.[11]
Creio que essa invasão liderada por Gogue se
dará provavelmente depois do Arrebatamento da
Igreja, mas antes do início da Tribulação. Um dos
principais fatores que fundamentam minha
convicção é o período de sete anos mencionado
neste trecho dessa passagem bíblica. Parece pouco
provável que essa queima das armas por sete anos
passe para o período de mil anos do Reino, após a
Segunda Vinda do Senhor Jesus. O Dr. Price
explana sobre essas questões nos seguintes termos:
Se essa batalha acontecesse depois do
Arrebatamento, mas antes do início da septuagésima
semana profética de Daniel, haveria bastante tempo
e liberdade de movimento, ainda durante a primeira
metade da Tribulação (i.e. o período de tempo
caracterizado por aquela falsa paz oferecida a Israel
na aliança firmada pelo Anticristo), para o
cumprimento dessa tarefa. Além disso, a alusão de
que não haverá necessidade de cortar e recolher
lenha dos bosques (versículo 10) faria mais sentido
se esse episódio ocorresse antes da primeira
trombeta apocalíptica de juízo, quando a terça parte
de todas as árvores será queimada (Apocalipse 8.7).
Se essa batalha estivesse prevista para acontecer em
algum momento do período da Tribulação, as
pessoas não teriam tempo de concluir essa tarefa
antes da ferrenha perseguição que ocorrerá nos
últimos 42 meses daquele período (cf. Mateus
24.16-22), quando o Remanescente Judeu se verá
forçado a fugir para o deserto a fim escapar do
sanguinário ataque satânico (Apocalipse 12.6).
Embora não haja nenhuma razão que impeça a
queima das armas durante o Reino Milenar, já que
outras armas serão convertidas em utensílios
produtivos e pacíficos no Milênio (Isaías 2.4), a
renovação da natureza e o aumento da
produtividade, característicos desse período (Isaías
27.6; Zacarias 8.12; Miquéias 4.4), poderiam
argumentar contra tal necessidade.[12]
Quando se considera o momento da ocorrência
dessa batalha, é preciso levar em conta quatro
observações fundamentais.[13] Em primeiro lugar, o
povo de Israel deveria estar de volta à sua terra e se
constituir novamente como nação, situação essa que
já é realidade hoje em dia. Em segundo lugar, os
locais que ficaram desolados dentro do próprio
território de Israel deveriam ser habitados,
exatamente como tem acontecido nos dias atuais.
Em terceiro lugar, “Israel deveria habitar em
‘aldeias sem muros’, uma boa descrição dos
kibutzim da atualidade”.[14] Em quarto lugar, Israel
deveria “habitar seguro”. Fruchtenbaum afirma:
“Em todo esse texto, não existe nenhuma alusão a
que Israel estaria vivendo em paz. Em vez disso, o
texto menciona que Israel estaria vivendo ‘em
segurança’, termo esse que originalmente significa
‘com confiança’, a despeito de ocorrer durante um
estado de guerra ou de paz”.[15]
Ao que parece, apesar de eu acreditar que essa
batalha vai ocorrer após o Arrebatamento e antes do
início da Tribulação, o palco, no entanto, já está
montado em nossos dias para que os acontecimentos
preditos se cumpram. A Rússia já está novamente à
espreita e a Pérsia (i.e., o Irã) é um dos seus aliados
mais chegados. O mundo se aproxima a cada dia
desse iminente confronto. Maranata!
NOTAS 1
LAMAR EUGENE COOPER, SR., THE NEW
AMERICAN COMMENTARY, EZEKIEL, NASHVILLE, TN:
BROADMAN & HOLMAN PUBS., 1994, P. 341.
2
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
3
E. W. HENGSTENBURG, The Prophecies of The Prophet Ezekiel
Elucidated , Minneapolis: James Publications, (1869),
1976, p. 341.
4
Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
5
KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon, versão eletrônica.
6
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 229.
7
FEINBERG, Ezekiel, p. 229.
8
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982), 2003, p. 115.
9
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra organizada por
Tim LAHAYE e Ed HINDSON, The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p. 194.
10
Randall PRICE, “Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel”, 2007, p. 43.
11
(Grifo do autor original em itálico) FRUCHTENBAUM, Footsteps,
p. 117.
12
PRICE, “Comentários Não Publicados”, p. 43.
13
Essas observações são feitas por FRUCHTENBAUM, em
Footsteps, p. 117.
14
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 117.
15
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 117.
22. EZEQUIEL
39.11-13

“Naquele dia, darei ali a Gogue um lugar de


sepultura em Israel, o vale dos Viajantes, ao
oriente do mar; espantar-se-ão os que por ele
passarem. Nele, sepultarão a Gogue e a todas
as suas forças e lhe chamarão o vale das
Forças de Gogue. Durante sete meses, estará
a casa de Israel a sepultá-los, para limpar a
terra. Sim, todo o povo da terra os sepultará;
ser-lhes-á memorável o dia em que eu for
glorificado, diz o Senhor Deus”.

A matança que o Senhor executará quando


defender Israel do ataque de Gogue e suas tropas
será tão grande e expressiva que o texto bíblico
emprega dez versículos para descrever o processo de
limpeza e de sepultamento dos cadáveres após a
batalha (Ez 39.11-20). O plano de Gogue,
arquitetado para culminar na morte física da nação
de Israel, será invertido por Deus de tal maneira que
proporcione uma oportunidade de vida espiritual
para Israel (Ez 39.25-39).

O TÚMULO DE GOGUE
NOSSA FAMÍLIA MOROU
POR CINCO ANOS NA
CIDADE DE
FREDERICKSBURG,
VIRGÍNIA, EUA, EM
MEADOS DA DÉCADA DE
1990. À MEDIDA QUE A
PESSOA SE
FAMILIARIZA COM ESSA
CIDADE, UMA DAS
PRIMEIRAS COISAS QUE
SE NOTA É UM MORRO,
ONDE CERCA DE 10 MIL
SOLDADOS DA UNIÃO
FORAM ENTERRADOS,
QUE LÁ SE ENCONTRA
COMO UM MEMORIAL EM
HONRA AOS ESFORÇOS
DESSES SOLDADOS NA
BATALHA DE
FREDERICKSBURG,
DURANTE A GUERRA
CIVIL NORTE-
AMERICANA. NO COMEÇO
EU ME PERGUNTAVA POR
QUE OS SOLDADOS
CONFEDERADOS DO
NORTE FORAM
ENTERRADOS NO SUL.
POR FIM, ENTENDI A
RAZÃO PELA QUAL
AQUELES SOLDADOS
FORAM SEPULTADOS
NUMA LOCALIDADE DO
SUL DOS ESTADOS
UNIDOS. A
CARNIFICINA NA
REFERIDA BATALHA FOI
TÃO DESMEDIDA QUE,
EM SÃ CONSCIÊNCIA,
NÃO HAVIA MEIOS DE
TRASLADAR OS RESTOS
MORTAIS PARA SEUS
RESPECTIVOS LARES
NOS ESTADOS DO
NORTE. UM DESTINO
SEMELHANTE AGUARDA
OS SOLDADOS QUE
INVADIREM ISRAEL
DURANTE A FUTURA
INVASÃO LIDERADA POR
GOGUE.
Assim como aqueles soldados invasores,
oriundos dos estados do norte dos EUA foram
sepultados exatamente onde tombaram, na Batalha
de Fredericksburg, assim também acontecerá a
Gogue e suas hordas, conforme está escrito:
“Naquele dia, darei ali a Gogue um lugar de
sepultura em Israel...“ (Ezequiel 39.11a). Lembre-
se do contexto de todo esse episódio que envolve
Gogue e Magogue. Em primeiro lugar, é o Senhor
que põe anzol no queixo de Gogue e de seus aliados
a fim de trazê-los à terra de Israel (Ez 38.12). Da
perspectiva humana, Gogue é motivado pela
ambição de tomar o despojo de Israel (Ez 38.12),
mas o propósito divino nessa invasão é o de
glorificar a Deus e santificar o Nome do Senhor (Ez
38.23). Portanto, o propósito de Deus se cumprirá,
ao passo que a intenção de Gogue será frustrada e
os invasores serão despojados para a glória de Deus.
Assim como o local de sepultamento em
Fredericksburg é um memorial em honra aos
soldados da União mortos naquela batalha, assim
também o túmulo de Gogue, dentro do território de
Israel, será um testemunho daquilo que Deus
poderosamente efetuou.
O texto menciona que a localização desse
memorial será “...o vale dos Viajantes, ao oriente do
mar...”. “A quantidade de cadáveres será tão grande
que somente um vale profundo comportaria os
restos mortais deles”.[1] Em que lugar de Israel se
situa esse vale? Segundo Fruchtenbaum, “o lugar
desse sepultamento será num dos vales situados a
leste do mar Mediterrâneo, o que indicaria um local
no vale do Jordão, ao norte do Mar Morto, lugar
esse que será devidamente renomeado no futuro”.
[2] Charles Dyer acrescenta o seguinte: O vale no
qual o exército de Gogue será sepultado fica na
parte leste (i.e., “ao oriente do”) do Mar Morto,
dentro do território da atual Jordânia. A frase “...o
vale dos Viajantes, ao oriente do mar...”, poderia
ser traduzida como um nome próprio. É possível
que seja uma referência aos “montes de Abarim”,
situados a leste do mar Morto, os quais Israel
atravessou na sua jornada para a Terra Prometida
(cf. Nm 33.48). Se for esse o caso, o enterro de
Gogue será no vale de Abarim, do outro lado da
parte israelense do Mar Morto, na terra de Moabe.
Contudo, o sepultamento será em Israel pelo fato
de que Israel teve o domínio desse território durante
alguns períodos de sua história (cf. 2Sm 8.2; Sl
60.8).[3]
Depois dessa batalha e do sepultamento, o
texto afirma: “Ele bloqueará o caminho dos
viajantes...” (NVI). Isso significa que o acesso será
obstruído por uma enorme quantidade de corpos
dos soldados mortos, a ponto de impedir o caminho,
dificultando a passagem dos viajantes por aquele
local espantoso.[4] Randall Price comenta: “A
matança será tão grande que os cadáveres do
exército de Gogue entulharão um vale inteiro,
bloqueando a passagem dos viajantes por aquela
localidade”.[5] A localização desse lugar de
sepultamento indica que o provável trajeto dos
invasores começa a partir do norte; segue em
direção ao sul até o vale do Jordão; eles chegam à
margem norte do mar Morto com o intuito de se
deslocarem na direção oeste até Jerusalém. O
Senhor vai destroçar os invasores quando
começarem a se mover para o oeste em direção da
Sua cidade, Jerusalém.
Em Ez 39.11b está escrito: “...e ali sepultarão
a Gogue e a toda a sua multidão, e lhe chamarão o
vale da multidão de Gogue [do heb. Hamon-
Gogue]” (ARC). Essa multidão de invasores
chegará a seu fim num vale, onde provavelmente as
equipes de sepultamento apenas cobrirão os corpos
com terra, formando um cemitério pelo enterro em
massa. O termo hebraico hamon significa
“multidão” ou “aglomeração”.[6] Assim, “uma nova
cidade será edificada com vista para o cemitério”,[7]
que se chamará pelo nome “multidão de Gogue”
para celebrar esse tremendo acontecimento na
história.

SETE MESES DE
SEPULTAMENTO
“DURANTE SETE MESES,
ESTARÁ A CASA DE ISRAEL
A SEPULTÁ-LOS, PARA
LIMPAR A TERRA” (EZ
39.12). A EXPRESSÃO
“CASA DE ISRAEL” SE
REFERE AO POVO JUDEU
QUE JÁ VOLTOU À SUA
TERRA NATAL (EZ
38.8) E ATUALMENTE
VIVE NA TERRA
PROMETIDA. O POVO
JUDEU TERÁ DE
ENTERRAR OS
CADÁVERES “...PARA
LIMPAR A TERRA”. QUAIS
SÃO OS REQUISITOS
JUDAICOS PARA QUE
TAL LIMPEZA SEJA
REALIZADA? PRICE
APONTA OS SEGUINTES
PROCEDIMENTOS
ADOTADOS ATUALMENTE
EM ISRAEL QUE TÊM
RELAÇÃO COM ESSE
TEXTO: COM BASE
NESSE VERSÍCULO, OS
RABINOS
ESTABELECERAM, POR
INFERÊNCIA, A
DECISÃO JUDICIAL (NO
HEB. HALACHÁ) DE QUE
TODAS AS SEPULTURAS
DEVEM SER MARCADAS.
NO ESTADO DE ISRAEL
DOS TEMPOS MODERNOS,
UM GRUPO NÃO-
GOVERNAMENTAL DE
JUDEUS ORTODOXOS,
CONHECIDO PELO
ACRÔNIMO HEBRAICO
ZACA (QUE SIGNIFICA:
“IDENTIFICAÇÃO DAS
VÍTIMAS DE
DESASTRES”), É
DESIGNADO PARA
REMOVER
CUIDADOSAMENTE TODOS
OS RESTOS MORTAIS
HUMANOS APÓS UM
ATENTADO SUICIDA À
BOMBA, A FIM DE
RESTAURAR A ORDEM E
EVITAR A IMPUREZA
CERIMONIAL NA TERRA
DE ISRAEL. SEGUNDO A
LEI JUDAICA (I.E.
HALACHÁ), OS MORTOS
DEVEM SER ENTERRADOS
IMEDIATAMENTE PORQUE
OS CADÁVERES (OU
MESMO ALGUNS POUCOS
OSSOS) SÃO FONTE DE
CONTAMINAÇÃO RITUAL
PARA A TERRA (CF. NM
19.11-22; DT 21.1-
9). A PASSAGEM DE
EZEQUIEL 36.17-21 JÁ
ESTABELECERA A
RELAÇÃO ENTRE PUREZA
CERIMONIAL E
SANTIDADE DIVINA, DE
MODO QUE O TEXTO
AQUI NESTE TRECHO
MENCIONA POR TRÊS
VEZES A NECESSIDADE
DE “LIMPAR A TERRA”
(VERSÍCULOS 12, 14 E
16).[8]
O texto afirma que esse processo de
sepultamento durará sete meses. Por que vai
demorar tanto tempo para que essa tarefa seja
concluída? Em primeiro lugar, porque o número
imenso de invasores mortos simplesmente fará com
que a própria tarefa de sepultamento seja
assustadoramente morosa. Em segundo lugar, sem
dúvida nenhuma Fruchtenbaum está correto quando
declara: “Uma vez que os exércitos serão destruídos
nos montes de Israel, muitos corpos cairão nas
fendas escarpadas, o que dificultará sua localização.
Isso exigirá que o governo autorize o uso de
equipamentos especiais durante sete meses, a fim de
que esses corpos sejam localizados e sepultados
naquele específico vale”.[9]

COMEMORAÇÃO DO
SEPULTAMENTO “SIM,
TODO O POVO DA TERRA
OS SEPULTARÁ...” (EZ
39.13A). ESSA
DECLARAÇÃO DÁ
SUSTENTAÇÃO AO FATO
DE QUE O MASSACRE
SOFRIDO PELAS TROPAS
INVASORAS SERÁ TÃO
DEVASTADOR QUE TODO
O POVO DA TERRA DE
ISRAEL VAI TER DE SE
MOBILIZAR PARA
ENTERRAR OS CORPOS.
AO QUE PARECE, A
POPULAÇÃO GERAL DE
ISRAEL PRECISARÁ
DEIXAR SEUS EMPREGOS
NORMAIS PARA
REALIZAR ESSA TAREFA
(VEJA: EZ 39.14-16).
TALVEZ A POPULAÇÃO
EM GERAL TENHA DE SE
ENVOLVER NA LIMPEZA
INICIAL ATÉ QUE
ESPECIALISTAS
ASSUMAM A TAREFA E
CONCLUAM TODO O
TRABALHO.[10] O FATO
DE QUE ESSA LIMPEZA
SERÁ TRABALHOSA E
DEMORADA PODE
EXPLICAR A RAZÃO
PELA QUAL UMA CIDADE
SURGIRÁ NAQUELA
LOCALIDADE, COM
VISTA PARA O VALE.
NOS ESTADOS UNIDOS,
QUANDO SE DESCOBRE
PETRÓLEO EM
DETERMINADO LUGAR OU
QUANDO ACONTECE UMA
“CORRIDA DO OURO”,
CIDADES SURGEM
SUBITAMENTE NAS
PROXIMIDADES DO
LOCAL DE INTERESSE.
POR SEMELHANTE MODO,
PODE SER QUE O
SURGIMENTO SÚBITO DA
CIDADE QUE SE
CHAMARÁ HAMONÁ
(I.E., “FORÇAS” OU
“MULTIDÕES”) SEJA
MOTIVADO PELA
NECESSIDADE DE SE
CONSTRUIR UM
ACAMPAMENTO DE BASE
PARA AS PESSOAS QUE
TRABALHAREM NESSE
SEPULTAMENTO.
Esse projeto de sepultamento envolvendo todo
o povo de Israel, segundo diz o texto, “...ser-lhes-á
memorável o dia em que eu for glorificado, diz o
Senhor Deus” (Ez 39.13). A expressão hebraica
traduzida por “ser-lhes-á memorável” se encontra
no caso construto relacionando “para eles” com
“memorável”. O vocábulo traduzido por
“memorável” é um termo hebraico comum[11] que,
em geral, se traduz pela palavra “nome”. Todavia,
nesse contexto, o sentido desse termo traz
nitidamente a noção de “tornar célebre um nome”
ou “tornar-se famoso”.[12] Essa é a razão pela qual
o termo “memorável” é uma excelente tradução da
palavra hebraica Shem (i.e., “nome”) nesse contexto.
Assim, depois desse processo de enterro, a
comemoração do sepultamento, feita pelo povo de
Israel, se tornará célebre naquele dia. Mais do que
isso, o texto diz que é por causa da fama e do
renome de Seu povo que o Senhor Deus será
glorificado através desses acontecimentos. Por que,
do ponto de vista de Deus, isso será visto como um
episódio glorioso e honroso para o Senhor? Será
visto como algo glorioso porque, através desse
acontecimento, Deus provará para Israel e para
todas as nações do mundo que Ele, o Senhor Deus
de Israel, é capaz de manter as promessas que fez ao
povo de Sua Aliança, Israel. Maranata!

NOTAS 1 ROBERT JAMIESON, A. R. FAUSSET, ET AL..,


A COMMENTARY, CRITICAL AND EXPLANATORY, ON THE
OLD AND NEW TESTAMENTS, OAK HARBOR, WA:
LOGOS RESEARCH SYSTEMS, INC., 1997, EZEQUIEL
39.11.
2
Arnold G. FRUCHTENBAUM, The Footsteps of the Messiah: A
Study of the Sequence of Prophetic Events, edição
revisada, Tustin, CA: Ariel Ministries, 2003, p. 116.
3
(Grifo do autor original) Charles H. DYER, “Ezekiel”, publicado
na obra organizada por John F. W ALVOORD e Roy B. ZUCK,
The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the
Scriptures, Old Testament, Wheaton, IL: Victor Books,
1983-1985, p. 1302.
4
DYER, “Ezekiel”, p. 1302.
5
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra organizada por
Tim LAHAYE e Ed HINDSON, The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p. 194.
6
Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, The Hebrew and
Aramaic Lexicon of the Old Testament, versão eletrônica,
Leiden, Holanda: Koninklijke Brill, 2000.
7
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 117.
8
Randall PRICE, “Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel”, 2007, p. 44.
9
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 116.
10
DYER, Ezekiel, p. 1302.
11
Ocorre 864 vezes, segundo pesquisa realizada através do
programa de computador Accordance, versão 7.4.2.
12
KOEHLER e BAUMGARTNER, The Hebrew and Aramaic Lexicon,
versão eletrônica.
23. EZEQUIEL
39.17-20

“Tu, pois, ó filho do homem, assim diz o


Senhor Deus: Dize às aves de toda espécie e a
todos os animais do campo: Ajuntai-vos e
vinde, ajuntai-vos de toda parte para o meu
sacrifício, que eu oferecerei por vós, sacrifício
grande nos montes de Israel; e comereis
carne e bebereis sangue. Comereis a carne
dos poderosos e bebereis o sangue dos
príncipes da terra, dos carneiros, dos
cordeiros, dos bodes e dos novilhos, todos
engordados em Basã. Do meu sacrifício, que
oferecerei por vós, comereis a gordura até vos
fartardes e bebereis o sangue até vos
embriagardes. À minha mesa, vós vos
fartareis de cavalos e de cavaleiros, de
valentes e de todos os homens de guerra, diz
o Senhor Deus”.

Esse texto emprega uma quantidade enorme de


terminologia referente aos aspectos da limpeza que
acontecerá logo depois da batalha na qual Deus
aniquilará Gogue (Ez 39.9-20). “As primeiras
instruções tratam da deposição das armas (v. 9-10),
as quais devem ser queimadas como combustível
[...] As instruções seguintes (Ez 39.11-20) tratam da
devida destinação dada aos corpos dos soldados do
exército de Gogue que forem mortos”.[1]

MEU SACRIFICIO O DR.


RANDALL PRICE
ASSINALA O SEGUINTE:
“PODE SER QUE DUAS
FASES DE ELIMINAÇÃO
SEJAM CONSIDERADAS
NESSA PASSAGEM. A
PRIMEIRA FASE DE
ELIMINAÇÃO SERIA
AQUELA REALIZADA
PELOS ANIMAIS
SELVAGENS QUE SE
JUNTARÃO PARA
REDUZIR OS CADÁVERES
A ESQUELETOS (V.18-
20)”. ESSA SERIA A
FASE QUE ESTÁ SOB
NOSSA ANÁLISE NESTE
MOMENTO. PRICE
ACRESCENTA: “ENTÃO
OS OSSOS DO INIMIGO
SERÃO DEVIDAMENTE
ENTERRADOS POR
‘...TODO O POVO DA
TERRA...’”. (V.13).[2]
No versículo 17, o Senhor Deus manda que o
profeta Ezequiel convoque toda espécie de aves e de
feras do campo, de modo que venham de toda parte
e se ajuntem para, nas próprias palavras do Senhor:
“...o meu sacrifício, que eu oferecerei por vós,
sacrifício grande nos montes de Israel...”. Nesse
caso, é o Senhor, por intermédio da palavra do Seu
profeta, que arrebanha essa quantidade enorme de
animais para se banquetearem com o que Ele lhes
oferece. Parece que o Senhor revela um propósito
irônico nessa passagem. A ironia está no fato de que
anteriormente Gogue e seus exércitos atacaram
Israel com o objetivo declarado: “...a fim de tomares
o despojo, arrebatares a presa...” (Ez 38.12). No
entanto, pela intervenção do Senhor, Gogue e seus
aliados se tornam a presa sobre a qual os animais
selvagens e aves se banqueteiam. Keil faz o seguinte
comentário: “Junto com o recolhimento das armas
que posteriormente serão queimadas, ocorrerá o
espólio do inimigo que tombou na batalha (v.10b);
nessa ocasião, os israelitas farão com o inimigo
aquilo que este queria fazer com eles (Ez 38.12), de
modo que o povo de Deus se apossará da riqueza de
seus inimigos (cf. Jr 30.16)”.[3]
O Senhor denomina o massacre sofrido pelos
invasores de “meu sacrifício” oferecido às aves e
animais do campo. O Senhor afirma que oferecerá
em sacrifício essa refeição, para, então, chamá-la de
um “...sacrifício grande nos montes de Israel”.
Assim, a palavra hebraica traduzida por “sacrifício”
é usada por três vezes no versículo 17. Fisch, um
rabino judeu, menciona que judeus traduzem esse
termo por “festa ou banquete”, mas seu significado
literal é “sacrifício”. “As duas idéias estão
interligadas, pois geralmente uma se tornava ocasião
para a outra. Para um israelita, o sacrifício, aqui
descrito, é uma paródia sombria do verdadeiro
sacrifício, já que os ‘convidados’ beberão o sangue,
um ritual absolutamente proibido em Israel”.[4]

O CARDÁPIO O SENHOR
ESPECIFICA O
CARDÁPIO QUE SERÁ
OFERECIDO AOS
ANIMAIS CARNICEIROS
E AVES QUE
PARTICIPARÃO DESSE
BANQUETE. ENTRE AS
OPÇÕES DESCRITAS
PELO SENHOR ESTÃO “A
CARNE DOS PODEROSOS”
E O “SANGUE DOS
PRÍNCIPES DA TERRA”
(EZ 39.18). O TERMO
HEBRAICO TRADUZIDO
POR “PODEROSOS” É A
FORMA PLURAL DA
PALAVRA HEBRAICA QUE
SE TRADUZ POR
“FORTE” E SIGNIFICA:
“HOMEM PODEROSO,
HOMEM FORTE OU HOMEM
VALENTE; I.E.,
AQUELE QUE, ALÉM DE
FORTE, TEM PODER
POLÍTICO OU PODERIO
MILITAR”.[5]
PORTANTO, O TEXTO
FAZ REFERÊNCIA A
TROPAS MILITARES DE
ELITE, COMO OS
SOLDADOS DE NOSSAS
FORÇAS ESPECIAIS DE
COMBATE. O OUTRO
TERMO HEBRAICO QUE
DENOTA UM LÍDER
HUMANO SIGNIFICA
LITERALMENTE “LÍDER,
GOVERNANTE, CHEFE,
PRÍNCIPE, I.E.,
AQUELE QUE GOVERNA
OU REGE UM GRUPO,
SEJA ELE ESCOLHIDO
POR SUA CAPACIDADE,
SEJA POR LINHAGEM
SANGUÍNEA”.[6] EM
OUTRAS PALAVRAS, NÃO
APENAS OS MILITARES
DE ELITE SERÃO
ANIQUILADOS, MAS
TAMBÉM SEUS
GOVERNANTES. O TEXTO
HEBRAICO PODERIA
APENAS TER
MENCIONADO OS
PRÍNCIPES, O QUE
BASTARIA PARA QUE
ENTENDÊSSEMOS QUE É
UMA REFERÊNCIA AOS
PRÍNCIPES DA TERRA.
ENTRETANTO, A
EXPRESSÃO “DA TERRA”
FOI REGISTRADA
PROVAVELMENTE PARA
INDICAR QUE OS
MELHORES DA TERRA
FORAM DESTRUÍDOS
PELO GOVERNANTE DO
CÉU E DA TERRA, A
SABER, O PRÓPRIO
SENHOR.
Ao descrever a matança de Seus inimigos, o
Senhor faz uso da terminologia de um banquete
sacrificial e equipara a carnificina humana com os
animais que freqüentemente eram oferecidos em
sacrifício durante os cultos de Israel no Templo. Só
que dessa vez, a verdadeira oferta sacrificada são os
inimigos de Israel, os quais serão servidos aos
animais do campo e aos pássaros. “Era normal que
as pessoas matassem e comessem os animais
sacrificados. Aqui, todavia, os homens dos exércitos
de Gogue serão mortos e oferecidos em sacrifício;
eles é que serão comidos pelos animais”.[7] “Os
animais mencionados estão numa relação figurada
com as diferentes categorias de homens mortos”.[8]
“Para dar o devido destaque a essa concepção, as
aves de rapina e animais predadores são convocados
por Deus a se reunirem para a refeição que lhes foi
preparada”. A cena aqui retratada de uma refeição
sacrificial se baseia em Isaías 34.6 e Jeremias 46.10.
Em harmonia com essa imagem, os inimigos
abatidos são descritos como animais engordados
para o sacrifício, carneiros, cordeiros, bodes e
novilhos; sobre isso, Grotius salientou corretamente
que “essas espécies de animais, geralmente utilizadas
nos sacrifícios, devem ser interpretadas como
diferentes estirpes de homens, a saber, governantes,
generais e soldados, como o Dicionário Caldeu
também menciona”.[9]
Esta frase: “...todos engordados em Basã” se
refere primeiramente a um “animal cevado”, ou seja,
um mamífero relativamente jovem (em geral, da
espécie bovina), selecionado para consumo dentre
os animais desmamados.[10] Em segundo lugar,
Basã diz respeito ao “território fértil limitado pelo rio
Jaboque ao sul, pelo mar da Galiléia a oeste, e por
uma linha imaginária que se dirige para o leste desde
o monte Hermom ao norte até a cordilheira do
Haurã, a leste”.[11] Como ressalta Charles Feinberg:
“Basã era um território famoso pela excelência de
suas pastagens e pelo gado bem nutrido”.[12] Hoje
em dia, se você viaja até as colinas de Golã, em
Israel, vai constatar que é a principal região onde o
gado pasta nos campos e onde a pecuária mais se
desenvolve.
O versículo 19 também revela aspectos
irônicos. Gogue e seus comparsas atacam Israel com
o propósito de saquear e levar o despojo da terra,
mas, ao invés disso, eles é que são derrotados e
despojados. Nesse caso, Gogue e seus exércitos
proporcionarão a gordura e o sangue com os quais
os animais e as aves ficarão enfastiados e
embriagados. Para tanto, é preciso haver um excesso
de comida e de bebida. Pois é exatamente isso que
vai acontecer nessa ocasião da derrota de Gogue nos
montes de Israel.
O versículo 20 afirma: “À minha mesa, vós vos
fartareis...”. Feinberg comenta o seguinte: “O
banquete sacrificial, mencionado no versículo 19, é
referido no versículo 20 como ‘minha mesa’ porque
é o Senhor que oferece o banquete. É uma imagem
que comunica muito bem a idéia de grande
carnificina, de juízo merecido e de condenação
irrevogável”.[13] Dessa maneira, aquilo que foi dito
simbolicamente no versículo 18, a saber: “Comereis
a carne dos poderosos e bebereis o sangue dos
príncipes da terra, dos carneiros, dos cordeiros,
dos bodes e dos novilhos...”, o versículo 20
reafirma literalmente: “À minha mesa, vós vos
fartareis de cavalos e de cavaleiros, de valentes e
de todos os homens de guerra...”. Mais uma vez
fica evidente que o foco dessa passagem se
concentra no fato de que nosso Soberano Senhor é
Aquele que tem o controle da história, bem como é
Aquele que superintende todo esse acontecimento,
ainda que Gogue e seus aliados tenham seus motivos
para tal invasão. O texto afirma que essa mensagem
na íntegra é uma declaração do “...Senhor Deus”, o
Rei que governa tanto o céu como a terra.

CONCLUSÃO APESAR DO
CAPÍTULO 39 DE
EZEQUIEL AINDA TER
NOVE VERSÍCULOS ATÉ
O SEU FIM, A
PROFECIA DA BATALHA
DE GOGUE E MAGOGUE
TERMINA NO VERSÍCULO
20. O DR. PRICE
EXPLICA O SEGUINTE:
AS ALUSÕES À GUERRA
DE GOGUE ENCERRAM-SE
NO VERSÍCULO 22, DE
MODO QUE O FOCO DA
PASSAGEM SE VOLTA
EXCLUSIVAMENTE PARA
O LIVRAMENTO QUE
DEUS EFETUOU EM
FAVOR DE SEU POVO NO
PASSADO E PARA A
DEVOÇÃO DOS
ISRAELITAS AO SENHOR
QUANDO ELES
FUTURAMENTE FOREM
RESTAURADOS. OS
VERSÍCULOS 21 E 22
SÃO VERSOS DE
TRANSIÇÃO QUE
REITERAM O PROPÓSITO
DIVINO PARA A
DERROTA DE GOGUE, A
SABER, FORNECER
INFORMAÇÃO
REVELADORA SOBRE
DEUS PARA AS NAÇÕES
(V.21) E PARA ISRAEL
(V.22).[14]
Durante as próximas etapas de nossa análise,
este autor usará as informações reunidas nas etapas
anteriores para aplicá-las ao mundo contemporâneo
ou ao mundo futuro, nas diversas possibilidades que
fluem indutivamente do texto. Algumas questões
que precisam ser levantadas são as seguintes:
Quando, onde, por que e o que deve acontecer
para que essa profecia se cumpra futuramente na
história. Maranata!
NOTAS 1 RANDALL PRICE, “EZEKIEL”, PUBLICADO NA
OBRA ORGANIZADA POR TIM LAHAYE E ED HINDSON,
THE POPULAR BIBLE PROPHECY COMMENTARY,
EUGENE, OR: HARVEST HOUSE PUBLISHERS, 2007,
P. 194.
2
PRICE, “Ezekiel”, p. 194.
3
Carl Friedrich KEIL e Franz DELITZSCH, Commentary on the
Old Testament, Peabody, MA: Hendrickson, 2002, vol. 9, p.
338.
4
Rabbi Dr. S. FISCH, Ezekiel: Hebrew Text & English
Translation With An Introduction and Commentary,
Londres: The Soncino Press, 1950, p. 262.
5
James SWANSON, Dictionary of Biblical Languages With
Semantic Domains: Hebrew (Old Testament), edição
eletrônica, Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc.,
1997, DBLH 1475, #1.
6
SWANSON, Dictionary of Biblical Languages, DBLH 5954, #1.
7
John F. W ALVOORD, Roy B. ZUCK e DALLAS THEOLOGICAL
SEMINARY, The Bible Knowledge Commentary: An
Exposition of the Scriptures, Wheaton, IL: Victor Books,
1983–1985, vol. 1, p. 1302.
8
Charles Lee FEINBERG, The Prophecy of Ezekiel, Chicago:
Moody Press, 1969, p. 231.
9
KEIL e DELITZSCH, Commentary, vol. 9, p. 339.
10
Swanson, Dictionary of Biblical Languages, DBLH 5309.
11
Robert Laird HARRIS, Gleason Leonard ARCHER e Bruce K.
W ALTKE, Theological Wordbook of the Old Testament,
edição eletrônica, Chicago: Moody Press, 1980–1999, p.
137.
12
FEINBERG, Ezekiel, p. 231.
13
FEINBERG, Ezekiel, p. 231.
14
PRICE, “Ezekiel”, p. 194.
24. VÁRIOS PONTOS
DE VISTA

Depois de completar essa análise e visão geral


do texto de Ezequiel 38–39.20, volto-me para a
questão referente ao momento em que esse episódio
acontecerá ou aconteceu na história. Quais seriam os
diversos pontos de vista referentes ao momento
exato da ocorrência dessa campanha militar? Há, no
mínimo, sete diferentes pontos de vista acerca da
ocasião do cumprimento da batalha de Gogue e
Magogue.
Os sete pontos de vista nem sequer levam em
conta as outras possibilidades que surgem dentro de
uma abordagem interpretativa historicista e idealista.
Não vou considerar essas duas perspectivas de
interpretação pelo fato de que o sistema
interpretativo historicista em grande parte já está
morto, exceto por alguns grupos sectários que o
advogam, ao passo que o método interpretativo
idealista, por sua própria definição, se recusa a
analisar a cronologia dos acontecimentos proféticos.
Isso deixa o estudante da Bíblia com duas opções
muito claras, a saber: a concepção de um
cumprimento no passado ou a concepção de um
cumprimento no futuro.
Aqueles que acreditam que essa profecia se
cumpriu no passado são chamados de preteristas,
os quais defendem dois pontos de vista. O primeiro
ponto de vista, sustentado por Gary DeMar e alguns
poucos preteristas, defende a concepção de que essa
batalha já se cumpriu nos acontecimentos descritos
no capítulo 9 do livro de Ester.[1] Assim, ele
acredita que essa profecia se cumpriu no quinto
século a.C., durante o reinado do rei persa Xerxes I
(486–465 a.C.). Embora existam outros sub-pontos
de vista dentro do preterismo, o segundo ponto de
vista é o de que “a maioria dos preteristas entende
que essa profecia se cumpriu no segundo século
a.C., na ocasião em que os sírios invadiram a
Palestina e foram derrotados por Judas Macabeu”.
[2]
O outro grupo representativo é formado por
aqueles que acreditam que essas profecias ainda se
cumprirão no futuro, apesar dos diferentes pontos
de vista. O primeiro ponto de vista defende a
concepção de que a profecia referente a Gogue se
cumprirá antes do período da Tribulação (embora
seja pouco provável, poderia ocorrer antes do
Arrebatamento da Igreja).[3] Um segundo ponto de
vista entende que esses acontecimentos preditos
ocorrerão durante a primeira metade da Tribulação,
quase no momento central desse período.[4] O
terceiro ponto de vista sustenta que o Armagedom e
a invasão liderada por Gogue são o mesmo
acontecimento, o qual ocorrerá na ocasião da
Segunda Vinda.[5] O quarto ponto de vista defende
a concepção de que esses acontecimentos se darão
no começo do Milênio.[6] O último ponto de vista
propõe que essa invasão liderada por Gogue
acontecerá no fim do Milênio.[7]

CUMPRIU-SE NO
PASSADO?
Após analisar os dois pontos de vista que
defendem um cumprimento no passado, tenho de
confessar que, dentre as sete concepções
apresentadas, a concepção menos provável é a que
DeMar defende, quando alega que a invasão
liderada por Gogue se cumpriu nos dias da rainha
Ester. DeMar afirma que as predições de Ezequiel
38–39 se cumpriram “literalmente” naqueles
acontecimentos descritos no capítulo 9 do livro de
Ester, durante os dias da rainha Ester da Pérsia, em
cerca de 470 a.C. DeMar declara que as
semelhanças entre a batalha descrita em Ezequiel
38–39 e os fatos relatados no livro de Ester são
“inconfundíveis”.[8] Porém DeMar, na sua
interpretação literal, não leva em conta uma série de
diferenças claras entre os textos de Ezequiel 38–39 e
Ester 9. Uma simples leitura dessas duas passagens
bíblicas comprova que esses textos não podem estar
descrevendo o mesmo acontecimento.
Abaixo relaciono algumas das incoerências
mais evidentes e problemáticas do ponto de vista de
DeMar, numa análise comparativa que demonstra
sua impossibilidade:
Ezequiel 38–39 Ester 9
A terra de Israel é invadida (38.16) por Os judeus são atacados nas cidades
uma coalizão de vários exércitos. Os de todo o império Persa (127
inimigos tombam nos montes de Israel províncias; Et 9.30) por supostas
(39.4). Gogue, o líder dessa invasão, é gangues de pessoas inimigas, não
enterrado em Israel (39.11). exércitos, e se defendem (9.2). Os
inimigos são mortos em todo o império
Persa.
Durante um período de sete meses, os Não há necessidade de limpar a
judeus sepultarão os corpos dos inimigos terra, porque os cadáveres não se
invasores para limpar a terra de Israel encontram em Israel.
(39.12).
Os invasores são destruídos por um Os agressores são mortos pelo
terremoto arrasador na terra de Israel, por próprio povo Judeu, auxiliados por
lutas internas (aliados que lutam entre si), governantes locais das províncias (9.3-
por pragas, bem como por fogo e enxofre 5).
que caem do céu (38.19-22). Deus destrói
os inimigos de Israel sobrenaturalmente.
Os invasores vêm do extremo oeste, O território do império Persa não
como a antiga Pute (atual Líbia; Ez 38.5) e incluía essas regiões. Sua extensão
do extremo norte, como Magogue, a terra territorial no extremo oeste chegava
dos Citas. até Cuxe (atual Sudão; Et 8.9) e no
extremo norte chegava até a região
situada abaixo do mar Negro e do mar
Cáspio.
Deus mete fogo em Magogue e nos que Não há nada que se assemelhe a isso
habitam nas ilhas (39.6). em Ester 9.

O texto de Ezequiel claramente descreve uma


invasão-surpresa que envolve exclusivamente a terra
de Israel, ao passo que o texto de Ester 9 se refere
aos judeus dispersos por todas as 127 províncias do
Império Persa (Ester 9.30), os quais sabiam o dia
exato (o “... dia treze do duodécimo mês que é o
mês de Adar...”, conforme Ester 9.1) em que o edito
do rei seria executado. Na profecia de Ezequiel não
há nenhuma menção de que alguém seja morto por
enforcamento, como Hamã e seus dez filhos foram
sentenciados e mortos numa forca (Ester 9.13). Por
que a terra de Israel nem sequer é mencionada no
texto de Ester 9, mas a capital persa, Susã, e os
nomes de muitas outras localidades do Império
Persa são referidos? Na profecia de Ezequiel, a
Pérsia é um dos invasores de Israel que serão
aniquilados pelo Senhor, ao passo que no relato de
Ester, o rei da Pérsia e muitos outros persas
auxiliaram os judeus a se defenderem e derrotarem
os antissemitas, num acontecimento histórico que
ocorreu na Pérsia.
Além disso, se tomarmos por base o capítulo 9
de Ester, não se pode dizer que os judeus que
viviam na Pérsia tinham sido reagrupados dentre as
nações e viviam tranquilos na terra de Israel, como
Ezequiel claramente descreve. Ao invés disso, os
judeus, mencionados no livro de Ester, estavam
comprometidos com a luta que requeria a coragem
da rainha Ester. Essas diferenças são tão distintas
como o dia e a noite.
Uma importante pergunta que poderíamos
levantar a essa altura é a seguinte: Se a profecia de
Ezequiel 38–39 se cumpriu literalmente durante
aqueles acontecimentos registrados em Ester 9, por
que ninguém percebeu isso nos dias de Ester? Por
que não houve nenhuma menção no livro de Ester a
esse grande cumprimento da profecia de Ezequiel?
E mais, por que não houve sequer um erudito judeu
naquela época (ou posteriormente) que reconhecesse
tal cumprimento profético?
A resposta é mais do que óbvia. Os
acontecimentos relatados em Ester 9 não são o
cumprimento histórico da profecia de Ezequiel 38 –
39. Para falar a verdade, um importante feriado
judaico, chamado Purim foi instituído a partir
daquele episódio ocorrido nos dias de Ester (Et
9.20-32). Trata-se de um feriado anual muito festivo
que comemora o livramento efetuado por Deus ao
tirar Israel das mãos de seus inimigos. A celebração
do Purim inclui a leitura pública do livro de Ester,
porém não existe nenhuma tradição que tenha se
desenvolvido, ou de que se tenha notícia, na qual os
judeus façam a leitura de Ezequiel 38–39, como se
houvesse alguma relação com a observância dessa
festa. Se o texto de Ezequiel 38–39 tivesse se
cumprido nos acontecimentos narrados em Ester, o
povo judeu, sem dúvida, teria desenvolvido uma
tradição ritual de ler também a passagem de
Ezequiel durante essa celebração.
Felizmente, o texto de Ezequiel efetivamente
nos informa o momento em que essa invasão há de
acontecer. Em Ezequiel 38.8, o profeta declara que
essa invasão ocorrerá especificamente “no fim dos
anos” [ou “nos últimos anos”]. É a única ocorrência
dessa expressão hebraica em todo o Antigo
Testamento.
Outra expressão semelhante a essa ocorre mais
adiante, no versículo 16 desse mesmo capítulo: “[...]
Nos últimos dias, hei de trazer-te contra a minha
terra...” (grifo do autor). Essa expressão é usada no
Antigo Testamento para se referir ao último
momento da angústia de Israel ou à restauração
definitiva de Israel para participar do Reino
Messiânico (veja: Is 2.2; Jr 23.20; 30.24; Oséias
3.5; Miquéias 4.1). Semelhantemente, a expressão
“nos últimos dias” que ocorre no texto de Ezequiel
38.16 é um termo técnico que se refere ao fim dos
tempos, segundo esclarece o catedrático em língua
hebraica Horst Seebass. Seebass afirma que essa
expressão diz respeito ao “modo pelo qual a história
chegará ao seu ponto culminante, nesse caso, ao seu
resultado final”.[9] Portanto, Ezequiel nos informa
que essa invasão ocorrerá no momento final da
história, em preparação para o estabelecimento do
reino messiânico de Cristo.
Outra razão muito simples, pela qual podemos
entender que essa invasão ainda ocorrerá no futuro,
se encontra no fato de que nenhum acontecimento
parecido (nem de longe) com aqueles que estão
descritos em Ezequiel 38–39 já se deu no passado.
Pare para pensar um pouco. Quando a terra de
Israel foi invadida por todas aquelas nações
relacionadas em Ezequiel 38.1-6? Ou, ainda,
quando foi que Deus destruiu um exército invasor
como esse, utilizando-se de fogo e enxofre vindos
do céu, pragas, terremotos e lutas internas entre os
próprios invasores (Ez 38.19-22)?
A resposta é: Nunca! Aí está a razão pela qual
o profeta Ezequiel descreve essa invasão como um
episódio que, até mesmo para nós, ainda é futuro. O
único possível motivo para que DeMar e outros
preteristas relacionem os fatos registrados em Ester
9 com os acontecimentos profetizados em Ezequiel
38–39 é a sua busca desesperada de evitar a
possibilidade de que se considere um cumprimento
ainda futuro para essa profecia, pois isso
prejudicaria as concepções que eles já propuseram e
publicaram de um cumprimento no passado.

CONCLUSÃO
A cena de uma invasão maciça da terra de
Israel no fim dos tempos, pelos povos mencionados
no texto de Ezequiel, nunca foi vista na história,
apesar das alegações em contrário. Desde a época da
profecia de Ezequiel, nenhum episódio da história
remota de Israel até os dias atuais sequer chega perto
de uma correlação ou encaixe com aqueles detalhes
registrados em Ezequiel 38 – 39 (muito menos o que
consta em Ester 9). Por isso, partindo-se do
pressuposto óbvio de que uma profecia deve se
cumprir literalmente, essa profecia referente à
invasão liderada por Gogue deve aguardar um
cumprimento que, mesmo da perspectiva de nossos
dias, ainda se dará no futuro. Assim, o texto
profético de Ezequiel 38–39 retrata uma futura
invasão de Israel no fim dos tempos, imposta pela
Rússia e seus aliados, como o Irã e outros povos
citados (todos esses, na atualidade, são nações
islâmicas que menosprezam e odeiam Israel).
Maranata!
NOTAS
1
Veja: Gary DEMAR, End Times Fiction: A Biblical
Consideration of the Left Behind Theology, Nashville:
Thomas Nelson, 2001, p. 12-15; veja também: DEMAR, Last
Days Madness: Obsession of the Modern Church, Powder
Springs, GA: American Vision, 1999, p. 368-69. DeMar
segue a mesma linha de pensamento do seu colega
preterista James Jordan, na obra que este escreveu
intitulada: Esther: In the Midst of Covenant History,
Niceville, FL: Biblical Horizons, 1995.
2
Jay ROGERS, “Does the Bible predict a Russian invasion of
Israel?”, artigo publicado em abril de 1997 no site da
Internet:
http://www.forerunner.com/predvestnik/X0058_Russia_Israel.html
acessado em 12 de março de 2009.
3
Veja: Arnold G. FRUCHTENBAUM, The Footsteps of the
Messiah: A Study of the Sequence of Prophetic Events,
edição revisada; Tustin, CA: Ariel Ministries, 2003, p. 117-
125. Veja, também, como Tim LAHAYE e Jerry JENKINS
retrataram esses acontecimentos em sua obra Left Behind:
A Novel of the Earth’s Last Days, Wheaton, IL: Tyndale,
1995.
4
Veja: Mark HITCHCOCK, Iran – The Coming Crisis: Radical
Islam, Oil, and The Nuclear Threat, Sisters, OR:
Multnomah, 2006, p. 177-89.
5
Veja: Louis S. BAUMAN, Russian Events in the Light of Bible
Prophecy, Nova York: Fleming H. Revell, Company, 1942,
p. 174-75.
6
Veja: Arno C. GAEBELEIN, The Prophet Ezekiel, Nova York:
Our Hope, 1918, p. 252-55.
7
Veja: Ralph ALEXANDER, Ezekiel, Chicago: Moody Press,
1976, p. 127-29.
8
DEMAR, End Times Fiction, p. 13.
9
Horst SEEBASS, Theological Dictionary of the Old Testament,
organizado por G. Johannes BOTTERWECK e Helmer
RINGGREN, traduzido para o inglês por John T. Willis; Grand
Rapids: William B. Eerdmans, 1977, vol. 1, p. 211-12.
25. VÁRIOS PONTOS
DE VISTA –
(CONTINUAÇÃO 1) O
SEGUNDO PONTO DE
VISTA PRETERISTA,
OU SEJA, A
CONCEPÇÃO DE QUE
AS PREDIÇÕES
REGISTRADAS NO
TEXTO DE EZEQUIEL
38–39 SE
CUMPRIRAM NO
PASSADO, DEFENDE
A PERSPECTIVA DE
QUE ESSA PROFECIA
“SE CUMPRIU NO
SÉCULO II A.C.,
QUANDO OS SÍRIOS
INVADIRAM A
PALESTINA E FORAM
DERROTADOS POR
JUDAS MACABEU”.
[1] UM INTÉRPRETE
PRETERISTA
AFIRMOU QUE ESSA
É A CONCEPÇÃO
MAIS AMPLAMENTE
DIFUNDIDA E
DEFENDIDA PELA
MAIORIA DOS
PRETERISTAS,
PORÉM, AO
PESQUISAR EM
MINHA BIBLIOTECA
PESSOAL E NOS
SITES PRETERISTAS
DE MAIOR
EXPRESSÃO, NÃO
ENCONTREI
PRATICAMENTE
NENHUM PRETERISTA
QUE TENHA ESCRITO
ALGO SOBRE O
SIGNIFICADO DESSA
PROFECIA. COMO
SEMPRE, MUITOS
PRETERISTAS
ARGUMENTAVAM QUE
TAL PROFECIA NÃO
SIGNIFICA AQUILO
QUE OS
INTÉRPRETES
FUTURISTAS DIZEM
QUE ELA
SIGNIFICA, MAS
ESSES PRETERISTAS
RARAMENTE TÊM
TEMPO PARA NOS
EXPLICAR COM
DETALHES O QUE
ELES CRÊEM QUE
ESSA PASSAGEM
BÍBLICA
SIGNIFICA. É
MUITO DIFÍCIL
ACHAR UM
COMENTÁRIO
BÍBLICO
SEQÜENCIAL,
ESCRITO POR UM
INTÉRPRETE
PRETERISTA, QUE
COMENTE PALAVRA
POR PALAVRA DAS
ESCRITURAS
SEGUNDO A
PERSPECTIVA
PRETERISTA. NESSE
CASO, COMENTAREI
EM LINHAS GERAIS
OS PONTOS DE
VISTA QUE ELES
ADVOGAM.
UM CUMPRIMENTO
PROFÉTICO NO SÉCULO
II A.C.
Max King, um preterista convicto, fez o
seguinte comentário sobre a identidade de Gogue e
Magogue: “Ezequiel faz uso desses nomes para se
referir ao poder dos Selêucidas, especialmente
quando atingiu o seu apogeu nos dias de Antíoco
Epifânio”.[2] Em seguida, Max King acrescentou
uma nota de rodapé citando o amilenista que não é
preterista, William Hendrikson,[3] para apoiar sua
afirmação. Dessa forma, sem fornecer muitos
detalhes, os que advogam essa concepção acreditam
que “a opressão imposta ao povo de Deus por
‘Gogue e Magogue’ é uma referência, feita no livro
de Ezequiel, à terrível perseguição imposta por
Antíoco Epifânio, governante da Síria”.[4] Diferente
daquela concepção de Gary DeMar que analisamos
na seção anterior, esse último ponto de vista admite,
pelo menos, que os invasores realmente sobrevirão à
terra de Israel, como se observa na profecia de
Ezequiel. O intérprete preterista Vic Reasoner
declara o seguinte: “O contexto de Ezequiel estava
descrevendo a insurreição dos Macabeus no Século
II antes de Cristo”.[5]
Embora seja verdade que Antíoco Epifânio,
governante da Síria, invadiu Israel no Século II a.C.,
pouquíssimas semelhanças existem entre essa
invasão e aquela que foi predita nessa passagem de
Ezequiel. Para começar, a invasão inicial de Israel
empreendida por Antíoco foi bem sucedida de modo
que ele conseguiu oprimir o povo judeu. Só depois
de um período de vida sob o domínio opressor da
Síria que a revolta dos Macabeus teve início e, por
fim, foi vitoriosa. Na descrição da invasão de Gogue
à terra de Israel, o texto de Ezequiel não indica em
nenhum momento que os invasores obteriam algum
êxito na sua tentativa, muito menos que
conseguiriam estabelecer um período de ocupação
da terra de Israel. Na profecia de Ezequiel, o Senhor
destroça os exércitos invasores no momento em que
eles invadem Israel. A principal característica da
Revolta dos Macabeus foi a nítida participação do
elemento humano como instrumento para derrotar
os Selêucidas que ocupavam a terra de Israel, ao
passo que, na profecia de Ezequiel, Deus não utiliza
seres humanos para derrotar Gogue e seus exércitos;
em vez disso, Ele próprio os derrota através de atos
miraculosos (Ez 38.21-22).
A revolta dos Macabeus não ocorreu depois de
um reagrupamento internacional dos judeus na sua
terra, vindos de todas as partes do mundo, como é o
que vai acontecer no episódio da invasão de Israel
liderada por Gogue. Além disso, se orgulho
nacionalista judaico estava em alta durante a revolta
dos Macabeus, tal orgulho nacionalista não fará
parte do avivamento espiritual que sucederá ao povo
Judeu, em consequência do livramento que o
Senhor lhes concederá na ocasião do ataque de
Gogue (Ez 38.23). Quando foi que Deus meteu
fogo “...em Magogue e nos que habitam seguros
nas terras do mar...”, de modo que Magogue e as
nações chegassem a reconhecer o que Deus afirma
de Si mesmo: “...eu sou o Senhor” (Ez 39.6)? Em
que ocasião os Judeus da época dos Macabeus
queimaram, por sete anos, as armas de guerra ou
enterraram, por sete meses, os cadáveres dos
invasores (Ez 39.9-16)? Essas coisas todas não
aconteceram, de fato, no Século II a.C., nem em
época alguma, o que nos leva a concluir que ainda
estão por se cumprir no futuro. O exército invasor,
predito em Ezequiel, virá “...dos últimos confins do
norte...” (Ez 38.15; TB – Tradução Brasileira), não
do norte próximo, onde a Síria se localiza. Ezequiel
afirma que essa invasão acontecerá “...no fim dos
anos...” (Ez 38.8) e “...nos últimos dias...” (Ez
38.16). Se o ponto de vista que defende um
cumprimento profético no período dos Macabeus
estivesse correto, isso teria ocorrido a cerca de 2.200
anos atrás, na metade da história humana, não no
fim desta, muito menos nos últimos dias.
É curioso que a ampla maioria dos Judeus
Ortodoxos da atualidade está convencida de que a
campanha militar de Gogue e Magogue é um
acontecimento que ainda ocorrerá no futuro. Se essa
profecia realmente tivesse se cumprido no Século II
a.C., os rabinos judeus, desde aquela época até os
dias de hoje, teriam reconhecido tal cumprimento
profético. Em vez disso, os detalhes dessa famosa
batalha não se cumpriram em momento nenhum do
passado, mas aguardam seu cumprimento literal no
futuro.

A CONCEPÇÃO PRÉ-
TRIBULACIONISTA À
MEDIDA QUE MUDO A
DIREÇÃO DE NOSSA
ANÁLISE, DEIXANDO OS
PONTOS DE VISTA QUE
PROPÕEM UM
CUMPRIMENTO DESSE
TEXTO DE EZEQUIEL NO
PASSADO PARA AQUELES
PONTOS DE VISTA QUE
DEFENDEM A IDÉIA DE
QUE ESSA INVASÃO
LIDERADA POR GOGUE
SE CUMPRIRÁ NO
FUTURO, A PRIMEIRA
CONCEPÇÃO COM A QUAL
NOS DEPARAMOS PROPÕE
QUE ESSE
ACONTECIMENTO
OCORRERÁ ANTES DO
PERÍODO DA
TRIBULAÇÃO. A
MAIORIA DOS QUE
ADVOGAM ESSE PONTO
DE VISTA ACREDITA
QUE A REFERIDA
INVASÃO SE CUMPRIRÁ
DEPOIS DO
ARREBATAMENTO DA
IGREJA, MAS ANTES DO
INÍCIO DA
TRIBULAÇÃO, DURANTE
O INTERVALO DE TEMPO
QUE PODE SER DE
DIAS, SEMANAS,
MESES, OU ATÉ MESMO,
DE ALGUNS ANOS. NO
ENTANTO, ALGUNS QUE
TAMBÉM ADVOGAM O
PONTO DE VISTA DE UM
CUMPRIMENTO AINDA
FUTURO, ADMITEM A
POSSIBILIDADE DE QUE
ESSE ACONTECIMENTO
PROFÉTICO SE CUMPRA
ANTES MESMO DO
ARREBATAMENTO.
Creio que este último ponto de vista é o que faz
mais sentido, apesar de admitir a existência de
alguns problemas nessa concepção para os quais
ainda não encontro respostas satisfatórias. Na
realidade, um dos aspectos que geram mais dúvida
nessa concepção é o que se refere ao momento
exato desse acontecimento no cronograma profético
de Deus. Não estou totalmente satisfeito com
nenhum dos possíveis pontos de vista acerca do
momento em que essa batalha se cumprirá na
história. Contudo, até esta etapa de minhas
pesquisas, encontro-me firmemente posicionado no
campo do cumprimento pré-tribulacionista dessa
profecia referente a Gogue, embora eu ainda não
tenha a resposta para algumas perguntas que se
levantam.
Se fizéssemos um levantamento dos pontos de
vista que 25 anos atrás eram defendidos pelos
intérpretes futuristas sobre o momento em que se
cumprirá a profecia de Ezequiel 38 e 39, a
concepção nitidamente predominante seria a de que
esse episódio profético se cumprirá
aproximadamente na metade do período da
Tribulação. Naquela época, proeminentes
especialistas em profecia bíblica, tais como, Hal
Lindsey, John Walvoord, J. Dwight Pentecost e
Charles Ryrie, defendiam claramente esse ponto de
vista. Porém, na atualidade, eu diria que o ponto de
vista mais amplamente aceito pelos especialistas em
profecia bíblica é aquele que defende um
cumprimento pré-tribulacionista dessa profecia
referente a Gogue e Magogue. Entre os que
advogam essa concepção se incluem: Chuck Smith,
Chuck Missler, Arnold Fruchtenbaum, Randall
Price, Tim LaHaye e Joel Rosenberg. A seguir,
menciono alguns dos argumentos que alicerçam essa
concepção.
Em primeiro lugar, Fruchtenbaum descreve a
concepção pré-tribulacionista de interpretação desse
texto de Ezequiel nos seguintes termos: [...] a
invasão russa ocorrerá antes que a Tribulação de
fato comece. A partir do texto de Ezequiel 38.1–
39.16, tal ponto de vista chega a certas conclusões.
Em primeiro lugar, que Israel seria estabelecido
antes da Tribulação e estaria habitando em
segurança. Em segundo lugar, que a aliança
liderada pela Rússia invadiria Israel durante esse
momento de segurança que antecede à Tribulação.
Em terceiro lugar, que essa aliança seria destruída
dentro do território de Israel, antes da Tribulação.[6]
Essa concepção dá ênfase ao fato de que, na
ocasião dessa invasão, o povo de Israel já terá sido
trazido de volta e reagrupado na sua terra,
retornando das nações para onde foi espalhado pelo
poder da espada (Ez 38.8,12). Isso significa que, na
época da invasão liderada por Gogue, os Judeus
terão acabado de retornar à terra de Israel, após
terem sido enviados para o exílio entre as nações
pela força da espada, que seriam as invasões
romanas ocorridas nos anos 70 d.C. e 135 d.C.
respectivamente. Essa é a atual situação do Estado
de Israel da modernidade. Fruchtenbaum declara:
Depois de 1.900 anos, 46 invasões e da Guerra da
Independência, aquela terra voltou a ser judaica e
está livre da dominação estrangeira. Os Judeus que
hoje vivem em Israel vieram de aproximadamente
80 a 90 países diferentes. Os lugares que estavam
continuamente abandonados e desertos, agora são
habitados (Ez 38.8,12). Hoje em dia, os israelenses
estão reconstruindo seus lugares antigos,
transformando-os em modernas cidades e
metrópoles.[7]
Talvez o argumento mais forte em favor desse
ponto de vista refira-se ao fato de que, se esse
acontecimento for pré-tribulacionista (isto é, se
ocorrer antes do período da Tribulação vindoura),
haverá tempo suficiente para enterrar os mortos
durante sete meses (Ez 39.12) e para queimar os
armamentos de guerra durante sete anos (Ez 39.9).
Fruchtenbaum, mais uma vez, explica: Situar essa
invasão no começo do período da Tribulação não
causa nenhum problema na relação com os sete
meses preditos na profecia, mas gera problemas na
relação com os sete anos também preditos. Isso
implicaria um momento no qual Israel estará em
fuga e não terá tempo de concluir a queima das
armas [...] o ponto de vista que defende um
cumprimento antes do período da Tribulação é a
única concepção que não entra em conflito nem
com os sete meses, nem com os sete anos preditos.
Segundo esse ponto de vista, os Judeus
continuariam a habitar na sua Terra após essa
invasão e permaneceriam lá até a metade do período
da Tribulação. Assim, os sete meses de
sepultamento não se constituem num conflito. Os
sete anos também não entram em conflito com essa
interpretação, pois eles começariam antes da
Tribulação e, se necessário, poderiam se estender até
a metade desse período. Segundo esse ponto de
vista, tal invasão deve ocorrer, no mínimo, três anos
e meio (ou mais tempo) antes do início da
Tribulação.[8]
Randall Price, um dos defensores da concepção
pré-tribulacionista de interpretação desse texto,
mostra uma nuance um pouco diferente sobre
aquele período de sete anos da queima das armas de
guerra, quando afirma: Se os “sete anos” durante os
quais Israel queimará as armas das nações
derrotadas forem os “sete anos” do período da
Tribulação (Daniel 9.27; Apocalipse 11.2), esse fato,
junto com a realidade do cemitério de Gogue e da
multidão de mortos (Ezequiel 39.11-16), servirá de
testemunho, durante toda a Tribulação, da promessa
do juízo universal das nações, bem como da
completa restauração de Israel pela evidência da
intervenção divina na ocasião do Segundo Advento
de Cristo.[9]
NOTAS 1 JAY ROGERS, “DOES THE BIBLE PREDICT A
RUSSIAN INVASION OF ISRAEL?”, ARTIGO
PUBLICADO EM ABRIL DE 1997 NO SITE DA
INTERNET:
HTTP://WWW.FORERUNNER.COM/PREDVESTNIK/X0058_RUSSIA_
ACESSADO EM 12 DE MARÇO DE 2009.
2
Max R. KING, The Cross and The Parousia of Christ: The
Two Dimensions Of One Age-Changing Eschaton,
Warren, OH: The Parkman Road Church of Christ, 1987, p.
235.
3
William HENDRIKSON, More than Conquerors: An
Interpretation of the Book of Revelation, Grand Rapids:
Baker Book House, 1982, p. 193-95. Por sua vez,
Hendrikson declara que sua interpretação é a mesma que
consta na obra de E. W. HENGSTENBERG, The Revelation of
St. John, 2 vols., 1851.
4
HENDRIKSON, More than Conquerors, p. 193.
5
Vic REASONER, A Fundamental Wesleyan Commentary on
Revelation, Evansville, IN: Fundamental Wesleyan
Publishers, 2005, p. 482.
6
Arnold G. FRUCHTENBAUM, The Footsteps of the Messiah: A
Study of the Sequence of Prophetic Events, edição
revisada, Tustin, CA: Ariel Ministries, 2003, p. 121.
7
FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 121.
8
(Grifo do autor original), FRUCHTENBAUM, Footsteps, p. 122-23.
9
Randall PRICE, “Ezekiel”, publicado na obra organizada por
Tim LaHaye e Ed Hindson, The Popular Bible Prophecy
Commentary, Eugene, OR: Harvest House Publishers,
2007, p. 192.
26. VÁRIOS PONTOS
DE VISTA –
(CONTINUAÇÃO 2) O
ARGUMENTO EM
FAVOR DA
INTERPRETAÇÃO DE
QUE A INVASÃO
LIDERADA POR
GOGUE E MAGOGUE
OCORRERÁ DEPOIS
DO ARREBATAMENTO,
MAS ANTES DO
PERÍODO DA
TRIBULAÇÃO,
BASEIA-SE NA
INFORMAÇÃO
FORNECIDA PELO
PRÓPRIO TEXTO DE
QUE ESSA INVASÃO
ACONTECERÁ
“DEPOIS DE MUITOS
DIAS” E “NO FIM
DOS ANOS” (EZ
38.8), BEM COMO
“NOS ÚLTIMOS DIAS”
(EZ 38.16). TAIS
EXPRESSÕES SÃO
INDICADORES
CRONOLÓGICOS QUE
SITUAM ESSES
ACONTECIMENTOS
QUASE NO FIM DA
HISTÓRIA, POR
SEREM FRASES QUE
SE REFEREM
EXCLUSIVAMENTE AO
PERÍODO DA
HISTÓRIA MUNDIAL.
EM TODO O ANTIGO
TESTAMENTO, A
EXPRESSÃO “NO FIM
DOS ANOS” (OU,
“NOS ÚLTIMOS
ANOS”) OCORRE
SOMENTE NESSA
PASSAGEM, PORÉM,
SE A EXPRESSÃO
“NOS ÚLTIMOS DIAS”
É USADA NO
VERSÍCULO 16 PARA
DESCREVER O MESMO
ACONTECIMENTO,
CONCLUI-SE COM
SEGURANÇA QUE A
FRASE “NOS
ÚLTIMOS DIAS”,
USADA COM MAIS
FREQUÊNCIA, É
SINÔNIMA DA
EXPRESSÃO “NO FIM
DOS ANOS”. TAL
CONCLUSÃO SE
BASEIA NO FATO DE
QUE AS EXPRESSÕES
“DEPOIS DE MUITOS
DIAS” E “NO FIM
DOS ANOS” SÃO
USADAS
SEQUENCIALMENTE
JUNTAS NO
VERSÍCULO 8.
CHARLES FEINBERG
AFIRMA: “O
REFERENCIAL DE
TEMPO FOI
NITIDAMENTE
DECLARADO NA
EXPRESSÃO ‘NO FIM
DOS ANOS’ QUE É
EQUIVALENTE À
EXPRESSÃO ‘NOS
ÚLTIMOS DIAS’ DO
VERSÍCULO 16”.[1]

Ao fazermos uma pesquisa em todo o Antigo


Testamento, à procura da ocorrência de terminologia
semelhante a essa expressão “no fim dos anos” de
Ezequiel 38.8, encontramos três outras frases
correlatas.[2] Eu selecionei apenas aquelas
referências bíblicas nas quais essas expressões
ocorrem num sentido profético, cujo cumprimento
ainda acontecerá no futuro. A primeira expressão é
traduzida por “no fim dos dias” ou “nos últimos
dias” (cf. Dt 4.30; 31.29; Is 2.2; Jr 23.20; 30.24;
48.47; 49.39; Ez 38.16; Dn 2.28; 10.14; Os 3.5;
Mq 4.1); a última expressão é traduzida por “tempo
do fim” (Dn 8.17,19; 11.27,35,40; 12.4,9,13). O
fato de Ezequiel fazer uso de três expressões
(“depois de muitos dias”, “no fim dos anos” e “nos
últimos dias”) proporciona uma base ainda mais
forte para a concepção de que essa batalha
acontecerá numa ocasião ainda futura.
Randall Price explica o seguinte: “Embora a
expressão ‘no fim dos dias’ possa se referir ao
período da Tribulação, não se trata de uma
terminologia específica para designar esse período,
pois a estrutura contextual e as variedades de uso
permitem que tal expressão seja empregada de
diferentes maneiras”.[3] Portanto, as referências que
essas frases fazem aos últimos dias ou ao fim dos
dias podem designar a septuagésima semana da
profecia de Daniel, ou seja, o período da Tribulação,
bem como podem ser alusões ao reino milenar de
Cristo (i.e., o Milênio) ou mesmo a certos
acontecimentos que podem se cumprir
imediatamente antes da Tribulação, tais como a
invasão liderada por Gogue e Magogue. Mark
Hitchcock assinala: “Essas expressões são usadas ao
todo por quinze vezes no Antigo Testamento. Elas
são sempre empregadas para se referir ora ao
período da Tribulação (Dt 4.30) ora ao Milênio (Is
2.2; Mq 4.1). Ainda que essas frases não
especifiquem o momento exato da invasão, elas são
indicadores claros de um período de tempo que,
pelo referencial de nossos dias, ainda se cumprirá no
futuro”.[4]
Por esse motivo, a predição de que esse
acontecimento ocorrerá no fim dos dias ou no fim
dos anos da história, possibilita a concepção de um
cumprimento pré-tribulacionista, pois considera que
essa invasão pode acontecer depois do
Arrebatamento, mas imediatamente antes do início
daquele período de sete anos da Tribulação. Na
verdade, o texto assevera que essa invasão resultará
numa ocasião para que se cumpra o que Deus
afirma: “Farei conhecido o meu santo nome no
meio do meu povo de Israel...” (Ezequiel 39.7).
Esse pode ser o estímulo inicial para que milhares de
Judeus se convertam a Cristo durante a primeira
metade do período da Tribulação que logo se
seguirá.

ALGUMAS OBJEÇÕES
ALGUNS TÊM LEVANTADO
OBJEÇÕES QUANTO À
CRONOLOGIA
APRESENTADA NESSE
PONTO DE VISTA, POR
SE BASEAREM EM
CERTAS AFIRMAÇÕES
ENCONTRADAS EM
EZEQUIEL 38.11. ESSE
TEXTO DESCREVE A
TERRA DE ISRAEL, NA
OCASIÃO DESSA
INVASÃO, DE QUATRO
MANEIRAS, A SABER:
1) “...A TERRA DAS
ALDEIAS SEM MUROS...”;
2) “...OS QUE ESTÃO EM
REPOUSO...”; 3) “...QUE
VIVEM SEGUROS...”;
“...QUE HABITAM, TODOS,
SEM MUROS E NÃO TÊM
FERROLHOS NEM
PORTAS...”.
A primeira caracterização de Israel como uma
terra de aldeias sem muros implica que eles não
construirão muralhas de proteção ao redor de suas
aldeias, como se fazia nos tempos antigos.
Entretanto, alguns alegam que Israel construiu
recentemente o muro de separação para se manter
afastado da população árabe. Nesse caso, isso
implicaria que a situação de Israel na atualidade não
condiz com esse aspecto requerido no texto. Price
faz a seguinte observação: “Só a área da cidade
denominada de Jerusalém Antiga possui um muro e
a cidade moderna está situada fora dos limites desse
muro desde o final dos idos de 1800”.[5] Talvez isso
signifique que a nação de Israel estará desprotegida
quanto a uma invasão, já que esse era o propósito de
se construir muralhas nos tempos antigos. O rabino
Fisch declara: “Israel não terá tomado nenhuma
medida preventiva contra ataques, mediante a
construção de muros ao redor de suas cidades”.[6]
Nos dias atuais, é evidente que nenhuma muralha da
antiguidade teria a mínima condição de proteger
qualquer cidade contra a invasão de um exército
moderno. Em vez disso, o texto quer dizer que Israel
não estará preocupado com sua defesa e será
surpreendido por esse ataque. Isso, porém, não
descarta o que ocorre em Israel nos dias atuais. A
maior parte desse muro de separação que
recentemente foi construído é, na realidade, uma
cerca projetada para separar judeus de árabes. Tal
muro não ofereceria real proteção, caso um exército
moderno resolvesse invadir.
A segunda frase caracteriza a população de
Israel como pessoas que estão em repouso. O
particípio hebraico saqat descreve um povo que está
“tranquilo, em descanso e sereno”.[7] Esse verbo foi
usado com frequência nos livros de Josué e de
Juízes para destacar a tranquilidade ou o descanso
resultante das vitórias militares de Israel sobre os
Cananeus, à medida que os israelitas conquistavam
aquela terra sob o comando de Josué.[8] O termo
significa estar tranquilo ou descansado no que diz
respeito a conflitos militares. Tenho de admitir que,
dentre as quatro descrições que parecem
corresponder com a atual situação de Israel, essa
segunda caracterização é a menos provável em
nossos dias. Talvez ela se torne realidade num futuro
próximo ou imediatamente antes do Arrebatamento
da Igreja. Não precisaria muito para que essa
situação viesse a se concretizar no Estado de Israel
dos tempos modernos.
A terceira expressão descritiva é a tradução do
termo hebraico betah que foi usado em Ezequiel
38.8. Os dicionários léxicos da língua hebraica
informam que esse vocábulo, em geral, significa
“segurança” ou “convicção”, e explicam que seu
campo semântico se assemelha ao da palavra
“confiança”.[9] No texto hebraico, esse termo
frequentemente é usado no caso construto com o
verbo “habitar”, a exemplo deste texto de Ezequiel,
e ocorre 160 vezes em toda a Bíblia Hebraica.[10] É
usado nos livros de Levítico e Deuteronômio como
uma promessa feita pelo Senhor de que, se o povo
judeu obedecer à Lei de Deus, Ele fará com que a
nação de Israel habite em segurança na sua terra (Lv
25.18,19; 26.5; Dt 12.10). Esse termo é usado em
todos os livros históricos e proféticos do Antigo
Testamento como um referencial que serve para
aferir se Israel está ou não habitando em segurança
na terra. Na realidade, essa frase é usada em
Jeremias 49.31, num contexto de invasão
semelhante ao de Ezequiel 38, onde se lê o seguinte:
“Levantai-vos, ó babilônios, subi contra uma nação
que habita em paz e confiada, diz o Senhor; que
não tem portas, nem ferrolhos; eles habitam a sós”.
É o mesmo sentido no qual o termo foi usado em
Ezequiel 38.8. “Entretanto, esse sentido geral muitas
vezes apresenta uma amplitude semântica negativa
[...] para indicar uma falsa segurança”.[11] O
contexto apóia a conotação de falsa segurança nesta
ocorrência do termo, em face da iminente invasão.
Por outro lado, é possível que o termo não seja
usado no sentido ilusório de falsa segurança, porque
Deus vai livrar miraculosamente a nação de Israel.
Alguns intérpretes tentaram igualar a noção de
habitar “seguramente” com habitar “pacificamente”.
Eles dizem que essa passagem descreve uma
situação na qual Israel se encontra em paz com
todos os seus vizinhos e nenhum destes representa
uma ameaça para os Judeus. Não se pode confirmar
essa noção pelo significado da palavra hebraica
betah, nem pelo contexto dessa passagem. Arnold
Fruchtenbaum comenta o seguinte: “Em nenhum
lugar desse texto há qualquer alusão de que Israel
estaria vivendo em paz. Pelo contrário, a descrição é
de que Israel estaria simplesmente habitando em
segurança, o que significa ‘confiança’, a despeito de
quanto dure um estado de guerra ou de paz. Nas
várias descrições que essa passagem apresenta sobre
Israel, pode-se comprovar que todas são verídicas na
realidade do Estado de Israel atual”.[12]
A quarta caracterização retrata todos eles
vivendo sem muros, sem ferrolhos e sem portas. Já
vimos antes que viver literalmente sem muros
implica que nenhuma de suas cidades ou vilas terá
aquilo que os antigos construíam para conter um
exército invasor. Essa imagem é reforçada pela
informação de que eles não terão ferrolhos [i.e.,
trancas], nem portas, obviamente porque suas
cidades não terão muros. Ferrolhos e portas eram
dispositivos de defesa muito importantes localizados
nas muralhas das cidades da antiguidade.
O que isso significa em relação à invasão? Em
primeiro lugar, essa passagem apresenta a situação
da perspectiva de Gogue, o qual pensa que Israel
não se encontra devidamente protegido e, por isso,
está vulnerável a um ataque-surpresa. Em segundo
lugar, Price salienta que “a segurança de Israel se
baseia no poderio de suas forças armadas, as quais
são consideradas dentre as melhores do mundo e já
têm defendido o país contra adversidades
avassaladoras em várias invasões ocorridas no
passado”.[13] Em terceiro lugar, tais condições
nunca se concretizaram na história de Israel em
momento algum do passado, de modo que só pode
se referir a um tempo ainda futuro, como já
verificamos pela análise das expressões “depois de
muitos dias” e “no fim dos anos” (Ez 38.8). Keil
assevera: “Esta descrição do modo de vida de Israel
também aponta para tempos posteriores que vão
muito além da época do exílio na Babilônia”.[14]
NOTAS 1 CHARLES LEE FEINBERG, THE PROPHECY OF
EZEKIEL, CHICAGO: MOODY PRESS, 1969, P. 221.
2
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.3.
3
Randall PRICE, Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel, 2007, p. 40.
4
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 126.
5
PRICE, Comentários Não Publicados de Ezequiel, p. 40.
6
S. FISCH, Ezekiel: Hebrew Text & English translation with an
Introduction and Commentary, Londres: The Soncino
Press, 1950, p. 255.
7
Francis BROWN, S. R. DRIVER, e C. A. BRIGGS, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament, Londres: Oxford,
1907, edição eletrônica.
8
Confira os seguintes textos: Josué 11.23; 14.15; Juízes
3.11,30; 5.31; 8.28.
9
BROWN, DRIVER, e BRIGGS, Hebrew Lexicon, edição eletrônica;
bem como, KOEHLER e BAUMGARTNER, Hebrew Lexicon,
versão eletrônica.
10
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 7.4.2.
11
G. Johannes BOTTERWECK, e Helmer RINGGREN, orgs.,
Theological Dictionary of the Old Testament, vol. II, Grand
Rapids: Eerdmans, 1977, p. 89.
12
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982) 2003, p. 117.
13
PRICE, Comentários Não Publicados de Ezequiel, p. 40-41.
14
C. F. KEIL, Ezekiel, Daniel, Commentary on the Old
Testament, traduzido para o inglês por James Martin,
reimpressão; Grand Rapids: Eerdmans Publishing
Company, 1982, p. 165.
27. VÁRIOS PONTOS
DE VISTA –
(CONTINUAÇÃO 3)
AO CONTINUAR
MINHA DEFESA DA
CONCEPÇÃO PRÉ-
TRIBULACIONISTA/PÓS-
ARREBATAMENTO
ACERCA DA OCASIÃO
EM QUE SE
CUMPRIRÁ A
BATALHA DE GOGUE
E MAGOGUE,
EXPRESSO MINHA
CRENÇA DE QUE A
SITUAÇÃO DE
ISRAEL NO
PRESENTE MOMENTO,
MEADOS DO ANO DE
2009, É MUITO
SEMELHANTE AO QUE
ESTÁ DESCRITO NA
PASSAGEM DE
EZEQUIEL, COM
EXCEÇÃO DA
REFERÊNCIA FEITA
EM EZEQUIEL
38.11, DE QUE
ISRAEL ESTARÁ
“...EM REPOUSO...”
NO INSTANTE EM
QUE ESSA INVASÃO
OCORRER. O
PARTICÍPIO
HEBRAICO SHAQAT
DESCREVE UM POVO
QUE ESTÁ
“TRANQÜILO, EM
DESCANSO E
SERENO”.[1] ESSE
TERMO SIGNIFICA
“ESTAR TRANQÜILO”
OU “DESCANSADO”
NO QUE DIZ
RESPEITO A
CONFLITOS
MILITARES, O QUE
NÃO PARECE SER A
SITUAÇÃO DE
ISRAEL NOS DIAS
ATUAIS. EM VEZ
DISSO, OCORRE
EXATAMENTE O
CONTRÁRIO, JÁ QUE
A NAÇÃO VIVE EM
CONSTANTE
CONFLITO COM SEUS
INIMIGOS. RON
RHODES, UM DOS
QUE CONCORDAM
COMIGO QUANTO AO
MOMENTO EXATO EM
QUE SE DARÁ ESSA
INVASÃO, DECLARA
O SEGUINTE: “A
PALAVRA HEBRAICA
USADA NESSE TEXTO
TRANSMITE A IDÉIA
DE ESTAR
TRANQÜILO OU
SERENO. NOS DIAS
ATUAIS, PODE ATÉ
SER QUE ISRAEL
DESFRUTE DE CERTO
SENSO DE
SEGURANÇA EM
VIRTUDE DE SEU
GRANDE PODERIO
MILITAR, MAS A
NAÇÃO NÃO SE
ENCONTRA ‘EM
REPOUSO’ NAQUELE
SENTIDO DESCRITO
POR EZEQUIEL”.[2]
JÁ QUE TODOS OS
PONTOS DE VISTA
TÊM PROBLEMAS,
EU, ATÉ AGORA,
NÃO ENCONTREI UMA
RESPOSTA QUE
EQUACIONE ESTA
ÚLTIMA
INCONGRUÊNCIA NA
CONCEPÇÃO QUE
ADVOGO. SÓ POSSO
DIZER QUE É
PROVÁVEL QUE
ALGUM
ACONTECIMENTO
OCORRA DEPOIS DO
ARREBATAMENTO,
MAS ANTES AINDA
DA TRIBULAÇÃO,
DURANTE O QUAL
ISRAEL VENHA A SE
ENCONTRAR NA
CONDIÇÃO ACIMA
DESCRITA.

Outro argumento que se desdobra logicamente


desse ponto de vista é o de que se essa invasão
ocorresse antes da Tribulação e resultasse na
destruição da Rússia, do Irã e de seus comparsas
muçulmanos não-árabes, teria de se percorrer um
longo caminho para erradicar o Islã, eliminando a
ameaça que este representa no cenário atual. Isso
criaria no mundo uma lacuna de poder da qual o
Anticristo, líder do ressurgido Império Romano, se
aproveitaria.
Além disso, a Tribulação começa com uma
tentativa de invadir Israel na qual Deus intervirá em
favor de Seu povo. Dessa forma, Deus preparará o
palco para os acontecimentos subseqüentes. A
tentativa feita por Gogue de acabar com Israel no
início da Tribulação será frustrada e essa é uma lição
que o Anticristo terá aprendido no final da
Tribulação. Em virtude da intervenção e proteção de
Deus, o Anticristo chegará à conclusão de que é
preciso reunir todos os exércitos do mundo para
acabar com a nação de Israel. Entretanto, na Sua
Segunda Vinda gloriosa, o próprio Jesus intervirá
novamente, dessa vez, na ocasião de Sua volta
pessoal e visível para proteger a todo remanescente
Judeu que a essa altura terá se convertido a Cristo.

A CONCEPÇÃO MIDI-
TRIBULACIONISTA A
SEGUNDA CONCEPÇÃO
FUTURISTA ACERCA DO
MOMENTO EXATO EM QUE
SE CUMPRIRÁ A
INVASÃO DE GOGUE E
MAGOGUE SUSTENTA QUE
TAL INVASÃO SE DARÁ
EM ALGUM INSTANTE DA
METADE DA
SEPTUAGÉSIMA SEMANA
DA PROFECIA DE
DANIEL, GERALMENTE
CONHECIDA COMO
TRIBULAÇÃO. ESSA É A
CONCEPÇÃO MAIS
AMPLAMENTE ACEITA
POR AQUELES QUE
ACREDITAM QUE ESSE
ACONTECIMENTO
OCORRERÁ NUM TEMPO
QUE, PARA NÓS, AINDA
É FUTURO. ENTRE OS
QUE ADVOGAM ESSA
MESMA CRONOLOGIA DA
INVASÃO LIDERADA POR
GOGUE E MAGOGUE
ESTÃO OS SEGUINTES:
JOHN F. WALVOORD,[3]
PAUL BENWARE,[4] J.
DWIGHT PENTECOST,[5]
MARK HITCHCOCK,[6] E
HAL LINDSEY.[7] SE
EU NÃO CRESSE QUE A
CAMPANHA MILITAR DE
GOGUE OCORRERÁ EM
ALGUM MOMENTO ENTRE
O ARREBATAMENTO E O
INÍCIO DA
TRIBULAÇÃO, APOIARIA
ESSE ÚLTIMO PONTO DE
VISTA.
Alguns que defendem essa concepção
acreditam que a invasão encabeçada por Gogue
acontecerá imediatamente antes do ponto médio
daquele período da Tribulação, enquanto outros
crêem que essa invasão ocorrerá imediatamente
depois do ponto médio da septuagésima semana da
profecia de Daniel. Outros, ainda, advogam que não
se deve assumir uma posição quanto ao momento
exato dessa invasão, mas apenas ter uma
compreensão de que, em termos gerais, ela vai
ocorrer na metade do período da Tribulação.
Mesmo assim, esses pontos de vista são geralmente
agrupados como uma única perspectiva.
“O REI DO NORTE”
Essa concepção pode se tornar muito
complicada quando seus defensores tentam
estabelecer uma ligação entre a profecia de Ezequiel
38–39 e outras passagens bíblicas, como, por
exemplo, Daniel 11.40-45. Uma vez que os
acontecimentos mencionados no capítulo 11 de
Daniel são claramente previstos para ocorrer dentro
do período da Tribulação e que “o rei do Norte”
(Dn 11.40) é considerado uma referência ao Gogue
da profecia de Ezequiel, isso situa o momento da
invasão no ponto mediano da Tribulação de sete
anos.[8] O grande problema dessa concepção é que
o “rei do Norte”, referido em Daniel, não é o Gogue
da profecia de Ezequiel.
A expressão “rei do Norte” é usada por sete
vezes no Antigo Testamento e todas as suas
ocorrências se encontram em Daniel 11 (versículos
6, 7, 11, 13, 15, 40).[9] Quase todos os intérpretes
futuristas acreditam que a profecia registrada em
Daniel 11.1-35 se cumpriu no passado,
especificamente no segundo século a.C. Os reis do
Norte e do Sul, mencionados nos versículos 1-35 se
referem claramente ao “conflito entre os Ptolomeus
e Selêucidas (Dn 11.5-20). Os Ptolomeus, que
governaram o Egito, eram chamados de reis ‘do
Sul’. Os Selêucidas, que governaram a Síria ao
norte de Israel, eram chamados de reis ‘do Norte’”.
[10] O último uso da expressão “rei do Norte”
ocorre no versículo 40, dentro de um contexto
alusivo ao futuro. John MacArthur declara: “Aqui o
texto menciona a grande batalha final na qual o
último exército que vem do Norte contra-ataca a
última potência africana que vem do Sul. O
Anticristo não permitirá tal retaliação e aproveitará a
oportunidade para revidar e vencer, derrotando
ambos os exércitos referidos, como está registrado
nos versículos 41s.”.[11] Portanto, não é provável
que a expressão “o rei do Norte” seja uma
referência à invasão liderada por Gogue, predita em
Ezequiel 38 e 39. A expressão “o rei do Norte” não
é sinônima da expressão “...do extremo norte...” (Ez
38.6; conforme a Nova Versão Internacional –
NVI), principalmente porque as outras seis
ocorrências da expressão “o rei do Norte” se
referem claramente ao rei da Síria.
Outras objeções à prática de estabelecer uma
relação de correspondência entre essas duas
passagens bíblicas se baseiam nas diferenças
gritantes entre a invasão descrita em Ezequiel e a
batalha descrita em Daniel. Embora ambas estejam
prevista para acontecer “no tempo do fim...” (Dn
11.40), o texto bíblico afirma que “...o rei do Sul
lutará com ele, e o rei do Norte arremeterá contra
ele...” (Dn 11.40). Trata-se de uma batalha que
envolve o rei do Sul e o rei do Norte, o qual
“...entrará nas terras, e as inundará, e passará” (v.
40b). Isso não tem o mesmo sentido do texto de
Ezequiel 39.4, onde se verifica que Gogue invadirá
Israel, bem como será totalmente destruído nos
montes de Israel. A passagem de Daniel relata que
eles entrariam em combate na terra de Israel,
atravessariam o território israelense e avançariam
para outros países. Na realidade, o texto alista Israel
como um dos países invadidos nessa ocasião (Dn
11.41).

OUTRAS OBJEÇÕES
ARNOLD FRUCHTENBAUM
RELACIONA OUTROS
ARGUMENTOS
CONTRÁRIOS A ESSE
PONTO DE VISTA: EM
SEGUNDO LUGAR, É
DIFÍCIL COMPREENDER
O MOTIVO PELO QUAL
DEUS INTERVIRIA EM
FAVOR DE ISRAEL
NESSE MOMENTO DA
HISTÓRIA E, LOGO
DEPOIS, PERMITIRIA O
DESENCADEAMENTO DOS
ACONTECIMENTOS QUE
SE DARÃO DURANTE A
SEGUNDA METADE DO
PERÍODO DA
TRIBULAÇÃO ,
CAUSANDO UM GRANDE
DANO A ISRAEL. EM
TERCEIRO LUGAR
[...] É UM EQUÍVOCO
IDENTIFICAR “O REI DO
NORTE”, MENCIONADO
EM DANIEL 11.40, COM
O GOGUE REFERIDO EM
EZEQUIEL 38.1–39.16.
AO LONGO DE TODO O
LIVRO DE DANIEL SÃO
FEITAS REFERÊNCIAS
AO REI DO SUL E AO REI
DO NORTE. A PRIMEIRA
EXPRESSÃO, “REI DO
SUL”, SE APLICA
COERENTEMENTE AO
EGITO, INCLUSIVE A
REFERÊNCIA FEITA NO
VERSÍCULO 40. A
OUTRA EXPRESSÃO SE
APLICA COERENTEMENTE
À SÍRIA, EXCETO
QUANDO OS
PROPOSITORES DESSE
PONTO DE VISTA
PASSAM A ANALISAR O
VERSÍCULO 40; ELES,
ENTÃO, ATRIBUEM A
REFERÊNCIA FEITA
NESSE VERSÍCULO À
RÚSSIA E, ASSIM,
IDENTIFICAM ESSA
PASSAGEM COM O TEXTO
DE EZEQUIEL 38 E 39.
PORÉM, TANTO O
CONTEXTO QUANTO A
COERÊNCIA EXIGIRIAM
QUE A REFERÊNCIA
FEITA NO VERSÍCULO
40 SE APLIQUE À
SÍRIA. A INVASÃO
MENCIONADA EM DANIEL
11.40 É DIFERENTE DA
INVASÃO DESCRITA EM
EZEQUIEL 38 E 39.
TRATAR TODAS AS
OCORRÊNCIAS DA
EXPRESSÃO “O REI DO
NORTE” NO LIVRO DE
DANIEL COMO UMA
REFERÊNCIA À SÍRIA
E, ENTÃO, CONSIDERAR
DN 11.40 COMO A
ÚNICA EXCEÇÃO QUE SE
REFERE À INVASÃO
LIDERADA PELA RÚSSIA
SÓ PARA ENCAIXÁ-LO
CRONOLOGICAMENTE NA
METADE DO PERÍODO DA
TRIBULAÇÃO, É UMA
EXEGESE INCOERENTE E
EQUIVOCADA. EM
QUARTO LUGAR, ESSE
PONTO DE VISTA FALHA
NO EQUACIONAMENTO DO
PROBLEMA DOS SETE
MESES E DOS SETE
ANOS. ESSA CONCEPÇÃO
MIDI-TRIBULACIONISTA
DE INTERPRETAÇÃO DO
TEXTO OBRIGARIA QUE
OS SETE MESES DE
SEPULTAMENTO DOS
INIMIGOS MORTOS
OCORRESSE NA SEGUNDA
METADE DA
TRIBULAÇÃO, UMA
OCASIÃO EM QUE OS
JUDEUS ESTARÃO EM
FUGA E NÃO TERÃO
CONDIÇÕES DE
ENTERRAR SEUS
PRÓPRIOS MORTOS,
QUANTO MAIS OS
CORPOS DOS INVASORES
RUSSOS [...] A
SITUAÇÃO DOS JUDEUS
NA METADE DO PERÍODO
DA TRIBULAÇÃO NÃO
PERMITIRÁ UM TEMPO
DE SETE MESES DE
SEPULTAMENTO, MUITO
MENOS A CONSTRUÇÃO
DE UMA CIDADE. NO
QUE SE REFERE AOS
SETE ANOS DE QUEIMA
DOS ARMAMENTOS, ESSA
CONCEPÇÃO
INTERPRETATIVA
TAMBÉM EXIGIRIA QUE
OS JUDEUS QUEIMASSEM
AS ARMAS DOS
INIMIGOS DURANTE A
SEGUNDA METADE DA
TRIBULAÇÃO, QUANDO,
NA REALIDADE,
ESTARÃO FUGINDO DA
SUA TERRA. ALÉM DO
MAIS, TAL PONTO DE
VISTA OBRIGARIA QUE
ELES CONTINUASSEM
ESSA QUEIMA DURANTE
O MILÊNIO, POR MAIS
3 ANOS E MEIO, O QUE
É INCOERENTE COM A
PURIFICAÇÃO QUE O
MESSIAS EFETUARÁ
NAQUELA TERRA E COM
A RENOVAÇÃO
RESULTANTE. DURANTE
A SEGUNDA METADE DA
TRIBULAÇÃO, AS
AFLIÇÕES QUE OS
JUDEUS ENFRENTARÃO
CERTAMENTE OS
LEVARIAM À TENTATIVA
DE PRESERVAR ESSAS
ARMAS E MANTÊ-LAS EM
SEU PODER, EM VEZ DE
QUEIMÁ-LAS.[12]
Em outras palavras, a fundamentação principal
dos proponentes de tal concepção para situarem o
momento dessa batalha na metade do período da
Tribulação baseia-se na suposta relação do texto de
Daniel com a passagem de Ezequiel. No entanto, se
a referida relação se prova incongruente e ilógica,
não há motivo relevante para se apoiar a
interpretação de um cumprimento midi-
tribulacionista do acontecimento predito no texto de
Ezequiel.
NOTAS 1 FRANCIS BROWN, S. R. DRIVER, E C. A.
BRIGGS, HEBREW AND ENGLISH LEXICON OF THE OLD
TESTAMENT, LONDRES: OXFORD, 1907, EDIÇÃO
ELETRÔNICA.
2
Ron RHODES, Northern Storm Rising: Russia, Iran, and the
Emerging End-Times Military Coalition Against Israel,
Eugene, OR: Harvest House Publishers, 2008, p. 173.
3
John F. W ALVOORD, The Nations in Prophecy, Grand Rapids:
Zondervan, 1967, p. 113-15.
4
Paul N. BENWARE, Understanding End Times Prophecy,
edição revisada e expandida, Chicago: Moody Press, 2006,
p. 310-12.
5
J. Dwight PENTECOST, Things To Come: A Study in Biblical
Eschatology, Grand Rapids: Zondervan, 1958, p. 344-55.
6
Mark HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis: Radical Islam, Oil,
And The Nuclear Threat, Sisters, OR: Multnomah, 2006,
pp. 184-86, 202.
7
Hal LINDSEY e C. C. CARLSON, The Late Great Planet Earth,
Grand Rapids: Zondervan, 1970, p. 153-pp. 153-63.
8
Veja a obra de HITCHCOCK, Iran The Coming Crisis, p. 202;
bem como a obra de LINDSEY, Late Great, p. 157-60.
9
Baseado em pesquisa realizada através do programa de
computador Accordance, versão 8.1.3.
10
John F. W ALVOORD, Roy B. ZUCK e Dallas Theological
Seminary, The Bible Knowledge Commentary: An
Exposition of the Scriptures, Wheaton, IL: Victor Books,
1983–1985, vol. 1, p. 1368.
11
John MACARTHUR, Jr., The MacArthur Study Bible, edição
eletrônica, Nashville: Word Publishers, 1997, Dn 11.40.
12
(Ênfase do autor original em itálico) Arnold G. FRUCHTENBAUM,
The Footsteps of the Messiah: A Study of the Sequence of
Prophetic Events, edição revisada; Tustin, CA: Ariel
Ministries, 2003, p. 118-19.
28. ARMAGEDOM?

O ponto de vista que defende a concepção de


que a batalha descrita em Ezequiel 38 e 39
acontecerá no fim do período da Tribulação e que
ela corresponde à campanha militar do Armagedom,
não é amplamente aceito hoje em dia. Na realidade,
dentre os que eu conheço pessoalmente, a única
pessoa que advogava esse ponto de vista era Dave
Hunt.[1] Louis Bauman e Harry Ironside, mestres
especializados na Bíblia que viveram naquela
geração anterior à nossa, são alguns dos que
adotaram essa concepção interpretativa.[2]
Não há dúvida de que o Armagedom se
constituirá numa grande invasão do território de
Israel (mais especificamente, de Jerusalém) por
tropas internacionais, ao fim do período da
Tribulação, episódio esse que envolverá a
intervenção pessoal de Jesus Cristo em defesa e
proteção de Israel. Há semelhanças gerais entre a
batalha descrita na passagem de Ezequiel 38 e 39 e a
batalha do Armagedom, porém, são as diferenças
entre elas que se tornam decisivas na comprovação
de serem ou não a mesma batalha.
A primeira diferença marcante é a de que os
invasores mencionados em Ezequiel procedem de
determinados países, não de todas as nações do
mundo. Já no caso do Armagedom, o Senhor
declara: “...eu ajuntarei todas as nações para a
peleja contra Jerusalém...” (Zc 14.2). Portanto, o
acontecimento relacionado com Gogue se configura
numa invasão de âmbito regional, ao passo que o
Armagedom envolve todos os países do mundo que
se aliam para uma investida contra Jerusalém. Trata-
se de uma gritante diferença.
A segunda diferença marcante é observada por
Fruchtenbaum, ao comentar que “a invasão, descrita
em Ezequiel, vem do norte, mas no Armagedom, a
invasão procede de todo o planeta Terra”.[3]
A terceira diferença marcante é a de que a
invasão liderada por Gogue foi claramente predita
para ocorrer num momento em que Israel estiver
“...em repouso...” (Ez 38.8,11,14) e habitar
“seguro” (Ez 38.11) na sua terra. Em toda a história
de Israel, é provável que não haja um período de
tempo mais ameaçador e perigoso do que aquele
momento do final da Tribulação e dos
acontecimentos relativos ao Armagedom. Isso
dificilmente se encaixa na descrição feita no texto de
Ezequiel.
A quarta diferença marcante é salientada por
Mark Hitchcock, quando declara que “o texto de
Ezequiel não menciona a ocorrência de nenhuma
batalha militar além do fato de que os próprios
invasores matarão uns aos outros. A destruição se
dará fundamentalmente por intervenção divina,
através de uma convulsão cataclísmica da natureza
(Ez 38.20-23). Na conflagração do Armagedom,
haverá uma intensa batalha entre o Senhor,
acompanhado de Seus exércitos, e as nações
reunidas para lutarem contra Ele, durante a qual o
Rei dos reis matará Seus inimigos com a espada que
sai da Sua boca e triunfará como o grande vencedor
(Ap 19.11-15)”.[4] Em outras palavras, cada uma
dessas duas passagens bíblicas em estudo descreve
situações contrastantes que comprovam o fato de
que se tratam de duas campanhas militares
totalmente diferentes.
A quinta diferença marcante se verifica neste
comentário de Fruchtenbaum: “O propósito da
invasão Russa é o de tomar o despojo; o propósito
da Campanha do Armagedom é o de destruir todos
os Judeus”.
A sexta diferença marcante, na continuação do
comentário de Fruchtenbaum, é a de que “no
contexto da invasão mencionada em Ezequiel há um
protesto contra tal invasão; na Campanha do
Armagedom não há nenhum protesto, porque todas
as nações do mundo estão envolvidas”.[5]
A sétima diferença marcante é a seguinte: Se
essas duas campanhas militares fossem uma única e
mesma batalha, não haveria tempo suficiente para
que Israel enterrasse seus inimigos mortos (i.e. 7
meses), nem para queimar os armamentos de guerra
(i.e. 7 anos; cf. Ez 39.9,12). O texto bíblico implica
que o reino de mil anos [i.e. o Milênio] terá seu
início setenta e cinco dias depois da volta de Cristo e
seu começo ocorrerá após uma limpeza do que
resultou do julgamento da Tribulação (Is 2.1-4;
65.17-25; Dn 12.11-12).
A oitava diferença marcante entre essas duas
batalhas é observada por Ron Rhodes, ao afirmar
que “no Armagedom, a Besta é quem comanda a
campanha da invasão (Apocalipse 19.19), ao passo
que Gogue é o líder do exército invasor referido na
profecia de Ezequiel” (Ezequiel 38.7).
A nona diferença, na sequência da observação
de Ron Rhodes, é a seguinte: “Os exércitos reunidos
para o Armagedom entram em formação de
combate contra Jesus Cristo (Apocalipse 19.19), o
que não se verifica na coalizão militar que vem do
norte, conforme registra o livro de Ezequiel”.[6]
Quanto mais se percebe as diferenças entre
esses dois acontecimentos, mais se constata que eles
não podem ser o mesmo episódio. Os detalhes de
cada uma dessas ocorrências simplesmente não se
encaixam. Talvez essa seja a razão pela qual
praticamente nenhum intérprete evangélico da
atualidade advoga esse ponto de vista. A maioria dos
que defendem essa concepção de igualar
cronologicamente a profecia de Ezequiel 38 e 39
com o Armagedom, como se fossem o mesmo
acontecimento, é formada por intérpretes da Bíblia
que viveram no passado.

NO COMEÇO DO
MILÊNIO?
A quarta concepção de interpretação futurista
situa cronologicamente os acontecimentos descritos
em Ezequiel 38 e 39 no começo do Milênio. Esse
também não é um ponto de vista amplamente aceito.
O Dr. Elliott Johnson, professor do Dallas
Theological Seminary (i.e. Seminário Teológico de
Dallas) apresentou um ensaio teológico em defesa
dessa concepção perante o Pre-Trib Study Group
(i.e. Grupo de Estudos Pré-Tribulacionistas) no ano
de 1993, intitulada “The Time Placement of Ezekiel
37–39” (i.e. “A Localização Cronológica da
Profecia de Ezequiel 37–39”). Arno Gaebelein
também advogou esse ponto de vista, há cerca de
100 anos atrás, no seu comentário do livro de
Ezequiel.[7] De todas as concepções de
interpretação futurista, esta última me parece a
menos provável pelas razões a seguir.
Em primeiro lugar, pelo que está escrito nos
capítulos 13 e 25 de Mateus (veja, também: Jr
25.32-33; Ap 19.15-18), sabe-se que nenhum
descrente terá permissão de entrar no Milênio [i.e. o
reino milenar de Cristo]. “Assim será na
consumação do século: sairão os anjos, e
separarão os maus dentre os justos, e os lançarão
na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de
dentes” (Mt 13.49-50). “Então, dirá o Rei aos que
estiverem à sua direita [i.e. os crentes]: Vinde,
benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que
vos está preparado desde a fundação do mundo”
(Mt 25.34). “Então, o Rei dirá também aos que
estiverem à sua esquerda [i.e. os descrentes]:
Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41).
Assim, fica absolutamente claro que os Judeus e
Gentios vivos, que entrarem no Milênio com seus
corpos mortais, constituirão a população inicial do
Reino, composta de 100 por cento de crentes em
Cristo. Ninguém, em sã consciência, sugeriria que
Gogue pode ser um crente em Cristo que
comandará um poderoso exército de crentes num
ataque a Israel durante o Milênio. Portanto, os
invasores só podem ser descrentes, o que, se a
invasão ocorresse no Milênio, exigiria centenas de
anos para que essas pessoas nascessem e chegassem
à quantidade numérica descrita em Ezequiel. Isso
não parece factível.
Em segundo lugar, porque “o texto de Isaías
2.4 elimina a possibilidade de que haja uma guerra
durante o reino milenar de Cristo. Só no fim do
Milênio é que irromperá uma guerra, quando
Satanás for solto de sua prisão de mil anos
(Apocalipse 20.7-9)”.[8]
Em terceiro lugar, porque não faz o menor
sentido, diante das condições em vigor durante o
Milênio, conceber a noção de que a terra de Israel
estaria contaminada por sete meses, após ser
invadida por Gogue (Ez 39.12), quando, na
realidade, a terra estará limpa e purificada.
Em quarto lugar, Rhodes assinala que “o texto
de Isaías 9.4-5 prediz que todas as armas de guerra
serão destruídas logo depois da inauguração do
Reino Milenar de Cristo, de modo que a coalizão
militar que vem do norte não teria nenhum
armamento”.[9]
Essa concepção de que a invasão comandada
por Gogue ocorrerá no começo do Milênio tem
pouquíssimo embasamento, exceto pelo aspecto
isolado de que Israel estará vivendo em paz naquele
momento em que for invadido pela coalizão militar
que vem do norte. De fato, essa situação de paz será
a condição de Israel no início e durante todo o
Milênio, porém, além dessa semelhança, não existe
nenhuma similaridade entre o começo do Milênio e
essa profecia de Ezequiel prevista para se cumprir
nos “...últimos dias...”.

NO FIM DO MILÊNIO?
A última concepção de interpretação futurista
propõe que a invasão liderada por Gogue e
Magogue se cumprirá no final do Milênio, na
ocasião daquela breve rebelião mencionada em
Apocalipse 20.7-10. O ponto forte dessa concepção
é o fato de que os nomes de Gogue e Magogue são
especificamente citados nesse texto, como está
escrito: “Quando, porém, se completarem os mil
anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá a
seduzir as nações que há nos quatro cantos da
terra, Gogue e Magogue, a fim de reuni-las para a
peleja. O número dessas é como a areia do mar.
Marcharam, então, pela superfície da terra e
sitiaram o acampamento dos santos e a cidade
querida; desceu, porém, fogo do céu e os
consumiu” (Ap 20.7-19).
Um expressivo número de intérpretes da Bíblia
acredita que a situação descrita nesse texto indica o
momento exato em que se cumprirá a profecia de
Ezequiel.[10] O erudito evangélico, Ralph
Alexander, um dos defensores desse ponto de vista,
declara o seguinte: A maioria dos comentaristas da
Bíblia entende que esses acontecimentos preditos em
Ezequiel 38–39 se cumprirão depois do Milênio,
conforme é descrito em Apocalipse 20.7-10. A força
do argumento em favor dessa posição está na
explícita referência a Gogue e Magogue no texto de
Apocalipse 20.8. O uso desses termos precisa ser
explicado. O contexto do Milênio certamente se
enquadraria no requisito textual da habitação
pacífica, próspera e segura de Israel na sua terra. A
restauração já teria acontecido. As nações estariam
presentes para testemunhar a rebelião de “Gogue”.
Por certo haveria tempo suficiente para o
sepultamento dos corpos e para a queima das armas.
[11]
Paul Tanner também defende esse ponto de
vista nos seguintes termos: Já que existe uma
importante batalha prevista para o final do Milênio,
confronto esse que o apóstolo João relaciona com
Gogue e Magogue, por que não entender que se
trata da mesma batalha mencionada em Ezequiel
38–39? Um aspecto em comum entre essas duas
batalhas é que ambas dirigem seu ataque a Israel.
Isso proporciona o desfecho perfeito que dá sentido
à história bíblica. No texto de Gn 15.18-21, Deus se
compromete, por meio de uma aliança, a fazer de
Israel uma nação e a dar aos Judeus essa terra
especial. No fim do Milênio quando for solto,
Satanás empreenderá um último e desesperado
esforço para aniquilar Israel, a menina dos olhos de
Deus. Se conseguisse fazer com que Deus deixasse
de cumprir a promessa que fez para Israel, Satanás
derrotaria os propósitos de Deus e, assim,
conquistaria a vitória final.[12]
NOTAS 1 DAVE HUNT, HOW CLOSE ARE WE? COMPELLING
EVIDENCE FOR THE SOON RETURN OF CHRIST, EUGENE,
OR: HARVEST HOUSE PUBLISHERS, 1993, P. 267-70.
2
Louis S. BAUMAN, Russian Events in the Light of Bible
Prophecy, Nova York: Fleming H. Revell Company, 1942, p.
180-89; Harry A. IRONSIDE, Ezekiel the Prophet, Neptune,
NJ: Loizeaux Brothers, 1949, p. 265.
3
Arnold G. FRUCHTENBAUM, The Footsteps of the Messiah: A
Study of the Sequence of Prophetic Events, edição
revisada; Tustin, CA: Ariel Ministries, 2003, p. 119.
4
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 130.
5
FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah, p. 119.
6
Ron RHODES, Northern Storm Rising: Russia, Iran, and the
Emerging End-Times Military Coalition Against Israel,
Eugene, OR: Harvest House Publishers, 2008, p. 187.
7
Arno C. GAEBELEIN, The Prophet Ezekiel, Nova York: Our
Hope, 1918, p. 252-55.
8
RHODES, Northern Storm Rising, p. 189.
9
RHODES, Northern Storm Rising, p. 189.
10
Por exemplo, A. B. DAVIDSON, The Book of Ezekiel,
Cambridge: Cambridge University Press, 1892, p. 301;
Henry L. ELLISON, Ezekiel: The Man and His Message,
Grand Rapids: Eerdmans, 1959, p. 133; J. Paul TANNER,
“Rethinking Ezekiel’s Invasion By Gog”, publicado no
periódico Journal of the Evangelical Theological Society,
março de 1996, vol. 39, p. 29-45.
11
Ralph H. ALEXANDER, “Ezekiel”, publicado na obra de Frank E.
Gaebelein, org. geral, The Expositor’s Bible Commentary,
12 vol., Grand Rapids: Zondervan, 1986, vol. 6, p. 940.
12
TANNER, “Rethinking”, p. 45.
29. NO FIM DO
MILÊNIO?

O último ponto de vista sobre o momento em


que ocorrerá a invasão de Gogue à terra de Israel
defende a concepção de que, segundo o cronograma
profético de Deus para o fim dos tempos, tal invasão
acontecerá no fim do Milênio. Após ter apresentado
essa concepção no capítulo anterior, passarei, agora,
a expor uma série de motivos que demonstram a
falha desse ponto de vista na interpretação do texto
de Ezequiel 38–39, sobretudo porque o final do
Milênio redunda no fim da história e no começo da
eternidade.

DIFERENÇAS NO
PROCESSO DE ESTUDO
BÍBLICO, QUANDO SE
NOTA UMA OU MAIS
SEMELHANÇAS EM DOIS
TEXTOS DISTINTOS, É
MUITO COMUM CHEGAR-
SE À CONCLUSÃO DE
QUE ESSES DOIS
TEXTOS SE REFEREM AO
MESMO ACONTECIMENTO.
É POSSÍVEL QUE SE
REFIRAM AO MESMO
ACONTECIMENTO COMO
TAMBÉM É POSSÍVEL
QUE NÃO SE REFIRAM.
QUANDO SE PENSA QUE
EXISTEM SEMELHANÇAS
ENTRE PASSAGENS
BÍBLICAS, É AÍ QUE
AS DIFERENÇAS ENTRE
OS RESPECTIVOS
TEXTOS SE TORNAM
AINDA MAIS
IMPORTANTES. EM
GERAL, QUANDO
EXISTEM MUITAS
DIFERENÇAS ENTRE
DOIS OU MAIS TEXTOS
BÍBLICOS, O MELHOR
QUE SE TEM A FAZER É
ASSUMIR
CONCLUSIVAMENTE QUE
ESSES VÁRIOS TEXTOS
SE REFEREM A
ACONTECIMENTOS
DISTINTOS. CREIO QUE
ESSE SEJA O CASO DA
ANÁLISE COMPARATIVA
ENTRE OS TEXTOS DE
APOCALIPSE 20 E
EZEQUIEL 38–39. PARA
QUE SE CHEGUE À
CONCLUSÃO DE QUE
ESSAS DUAS PASSAGENS
BÍBLICAS FAZEM
REFERÊNCIA AO MESMO
ACONTECIMENTO, É
PRECISO QUE AS
DIFERENÇAS ENTRE
ESSES TEXTOS SEJAM
PRIMEIRAMENTE
HARMONIZADAS.
Arnold Fruchtenbaum identifica estas duas
objeções a esse ponto de vista, as quais considera
irreconciliáveis: Contudo, há duas objeções muito
importantes a essa concepção. A primeira diz
respeito ao fato de que a invasão predita em
Ezequiel vem do norte; a invasão predita em
Apocalipse vem de todas as partes do mundo. A
segunda alega que esse ponto de vista também falha
em solucionar o problema dos sete meses e sete
anos. Esta Terra atual será aniquilada logo depois da
invasão mencionada em Apocalipse, de modo que
não haveria tempo (nem lugar!) para os sete meses
de sepultamento, muito menos para os sete anos de
queima das armas. Isso exigiria que o referido
sepultamento e a referida queima continuassem
dentro da nova ordem, a do Estado Eterno.[1]
A primeira objeção levantada por
Fruchtenbaum implica que a invasão sob o comando
de Gogue é claramente predita no livro de Ezequiel
como um punhado de nações (i.e., uma invasão
regional) que vêm do norte, ao passo que o ataque a
Jerusalém é predito como uma invasão de muitos
indivíduos que procedem de todas as nações do
mundo, significando, portanto, que a invasão
registrada em Apocalipse vem de todas as direções.
O texto de Ezequiel menciona que Gogue, um ser
humano, será o líder da invasão predita pelo profeta,
ao passo que o próprio Satanás (i.e., um ser de
natureza angelical) será o líder do episódio predito
em Apocalipse 20. John Walvoord concorda com
isso e declara que “não existe nada no contexto de
Ezequiel 38–39 que se assemelhe à batalha
mencionada em Apocalipse”.[2] Walvoord levanta a
seguinte pergunta: “Então, por que o apóstolo João
utiliza a expressão ‘Gogue e Magogue’?”. Afinal,
isso seria um ponto forte dessa concepção. O
próprio Walvoord responde a sua pergunta nos
seguintes termos: As Escrituras não explicam essa
expressão. Para falar a verdade, tal expressão pode
ser tirada da frase sem causar qualquer alteração no
sentido da mesma. No texto de Ezequiel 38, Gogue
era o governante e Magogue era o povo governado,
de modo que ambos estavam em rebelião contra
Deus e eram inimigos de Israel. Talvez esses termos
possam ser usados em sentido simbólico, assim
como alguém pode se referir à vida de uma pessoa
dizendo que ela passou por um “Waterloo”. Em
termos históricos, esse nome diz respeito à derrota
de Napoleão em Waterloo, na Bélgica, mas pode
representar simbolicamente qualquer desastre de
grandes proporções. Aqui nesse texto de Apocalipse,
os exércitos vêm motivados pelo mesmo espírito de
oposição a Deus que se encontra na passagem de
Ezequiel 38.[3]
Ao que me parece, a segunda objeção
levantada por Fruchtenbaum se constitui num
problema insuperável para o referido ponto de vista.
Embora Paul Tanner, um dos defensores desse
ponto de vista, afirme, em termos gerais, que
“certamente haveria tempo hábil para o
sepultamento dos corpos e para a queima das
armas”,[4] ele não fornece nenhum detalhe mais
específico sobre esse assunto. Ralph Alexander faz
uso de uma generalização semelhante quando
declara que “haveria, sem dúvida, tempo suficiente
para o sepultamento dos corpos e para a queima das
armas”.[5] Dessa forma, acho que Alexander teria
de pressupor um período de sete anos cuja ocasião
se estenderia para além dos mil anos preditos em
Apocalipse 20. Entretanto, o texto de Ezequiel
39.12 afirma que o propósito do sepultamento dos
inimigos mortos é “...para limpar a terra”. Por que
a terra precisaria ser limpa ou purificada, se no final
do Milênio já haverá uma estrondosa destruição dos
céus e da terra por fogo? O fluxo do texto de
Apocalipse deixa claro que Satanás e todos aqueles
que participarem da rebelião mundial contra Deus
sofrerão um juízo instantâneo que lhes sobrevirá de
imediato. Então, há uma mudança de cenário nos
próximos versículos de Apocalipse 20, v. 11-15,
para focalizar a cena do Julgamento do Grande
Trono Branco, seguida pela cena do “...novo céu e
nova terra...” nos capítulos 21 e 22. O texto de
Apocalipse 21.1 acrescenta a seguinte frase: “...pois
o primeiro céu e a primeira terra passaram...”.

A DESTRUIÇÃO POR
FOGO NO TEXTO
ORIGINAL DE
APOCALIPSE, HÁ DUAS
PALAVRAS GREGAS QUE
REQUEREM UMA ATENÇÃO
ESPECIAL. A PRIMEIRA
SE ENCONTRA NO TEXTO
DE APOCALIPSE 20.9,
QUANDO DIZ QUE
“...DESCEU, PORÉM, FOGO
DO CÉU E OS
CONSUMIU”, OU SEJA,
CONSUMIU AQUELAS
PESSOAS QUE VIERAM
DE TODAS AS NAÇÕES
DA TERRA E QUE
SITIARAM A CIDADE DE
JERUSALÉM. A PALAVRA
GREGA TRADUZIDA POR
“CONSUMIU” É O VERBO
KATAPHAGO, CUJO
SIGNIFICADO GERAL É
O DE “CONSUMIR PELO
ATO DE COMER;
DEVORAR”. UM
DICIONÁRIO LÉXICO DA
LÍNGUA GREGA
ENQUADRA O USO QUE O
TEXTO DE APOCALIPSE
20.9 FAZ DESSA
PALAVRA DENTRO DO
CAMPO SEMÂNTICO DE
“DESTRUIR
COMPLETAMENTE” E,
“NO QUE SE REFERE AO
FOGO: CONSUMIR OU
QUEIMAR ALGUÉM”.[6]
A CLARA IMPLICAÇÃO
DESSA PALAVRA É A DE
QUE NÃO RESTARÃO
CADÁVERES PARA SEREM
SEPULTADOS, PORQUE
AQUELAS PESSOAS
MENCIONADAS NO TEXTO
SERÃO QUEIMADAS E,
PORTANTO, CONSUMIDAS
PELO FOGO QUE DEUS
ENVIARÁ DO CÉU. POR
ISSO, A OCORRÊNCIA
DESSA PALAVRA NÃO
PERMITE NENHUMA
RELAÇÃO COM AQUELE
PERÍODO DOS SETE
ANOS DE PURIFICAÇÃO
DA TERRA DE ISRAEL
PREVISTO NA PROFECIA
DE EZEQUIEL.
A outra palavra grega se encontra em
Apocalipse 21.1 que diz: “Vi novo céu e nova terra,
pois o primeiro céu e a primeira terra
passaram...”. O termo “passaram” é a tradução do
verbo grego parerhomai que significa basicamente
“ir embora; partir; perecer”. O dicionário léxico da
língua grega afirma que no contexto dessa passagem
a palavra tem o sentido de “descontinuar um estado
ou condição; desaparecer”.[7] Esse texto bíblico,
juntamente com Apocalipse 20.9, alicerça o conceito
de que os céus e a Terra, que agora existem, serão
destruídos quando o período de mil anos chegar ao
fim, fato esse que impede o cumprimento dos
detalhes preditos em Ezequiel 39.9-16 no mesmo
momento histórico de Apocalipse 20 e que,
portanto, inviabiliza a concepção proposta por esse
último ponto de vista.
Além do mais, a passagem bíblica de 2Pedro
3.10-13 se refere à futura destruição dos céus e terra
atuais, numa linguagem sincronizada com o que está
escrito em Apocalipse 20 e 21. “Virá, entretanto,
como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus
passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos
se desfarão abrasados; também a terra e as obras
que nela existem serão atingidas. Visto que todas
essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser
tais como os que vivem em santo procedimento e
piedade, esperando e apressando a vinda do Dia
de Deus, por causa do qual os céus, incendiados,
serão desfeitos, e os elementos abrasados se
derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa,
esperamos novos céus e nova terra, nos quais
habita justiça”. Grande parte do vocabulário usado
no texto de Apocalipse também se encontra em
2Pedro. Nesse caso, chega-se à conclusão de que
essa passagem de 2Pedro 3 é uma expansão do que
o apóstolo João viu e registrou em Apocalipse. Isso
significa que, depois dos mil anos do reinado de
Cristo, este planeta Terra em que vivemos será
queimado e totalmente destruído. Talvez isso
explique a razão pela qual Deus enviará fogo do Céu
sobre os rebeldes que sitiarem Jerusalém, já que tal
ato divino seria a primeira etapa da destruição total
do planeta Terra. Portanto, não há como forçar uma
interpretação de que os detalhes da invasão
mencionada em Ezequiel se refiram ao mesmo
acontecimento predito em Apocalipse.

MAIS ALGUMAS
DIFERENÇAS QUANTO
MAIS EU ANALISO
COMPARATIVAMENTE OS
DETALHES DO TEXTO DE
EZEQUIEL COM O TEXTO
DE APOCALIPSE 20.7-
10, MAIS EU PERCEBO
QUE OS
ACONTECIMENTOS
PREDITOS NESSAS
PASSAGENS BÍBLICAS
SÃO NITIDAMENTE
DIFERENTES. OUTRO
DETALHE VERIFICADO
NO TEXTO DE
EZEQUIEL, QUE NÃO
FAZ O MENOR SENTIDO
À LUZ DE APOCALIPSE
20, É O FATO DE QUE
GOGUE E SEUS ALIADOS
NA INVASÃO SERÃO
SEPULTADOS PELOS
ISRAELENSES NUM VALE
QUE, SEGUNDO O
TEXTO, SE LOCALIZA A
LESTE DO MAR
MEDITERRÂNEO.
CHARLES DYER
ACRESCENTA O
SEGUINTE: O VALE
ONDE O EXÉRCITO DE
GOGUE SERÁ SEPULTADO
SE LOCALIZA “AO
ORIENTE” DO MAR
MORTO, NUM
TERRITÓRIO QUE
ATUALMENTE PERTENCE
À JORDÂNIA. NA FRASE
“O VALE DOS
VIAJANTES”, A
EXPRESSÃO “DOS
VIAJANTES” PODE SER
INTERPRETADA COMO UM
NOME PRÓPRIO
HEBRAICO. É POSSÍVEL
QUE SE REFIRA AOS
“MONTES DE ABARIM”,
SITUADOS A LESTE DO
MAR MORTO, OS QUAIS
ISRAEL ATRAVESSOU NO
SEU PERCURSO PARA A
TERRA PROMETIDA (CF.
NM 33.48). SE FOR
ESSE O CASO, O
SEPULTAMENTO DE
GOGUE OCORRERÁ NO
VALE DE ABARIM, DO
OUTRO LADO DA PARTE
DO MAR MORTO QUE
PERTENCE A ISRAEL, A
SABER, NA TERRA DE
MOABE. CONTUDO, O
TEXTO DE EZEQUIEL
DIZ QUE O
SEPULTAMENTO SERÁ
“EM ISRAEL”, PELO
FATO DE QUE ISRAEL
DETEVE O CONTROLE
DAQUELA REGIÃO
DURANTE ALGUNS
PERÍODOS DE SUA
HISTÓRIA (CF. 2SM
8.2; SL 60.8).[8]
Essa falta de sincronia entre os detalhes das
duas passagens bíblicas examinadas demonstra que
elas não tratam do mesmo acontecimento.
Por que o Senhor determinaria que Israel
fizesse do local de sepultamento de Gogue um
memorial para as futuras gerações, se Ele já sabia
que estava prestes a queimar e destruir todo o
planeta? Isso não faz sentido! Mark Hitchcock
salienta que “esses capítulos estão inseridos num
contexto que prediz a restauração de Israel (Ez 33–
39), vindo, em seguida, uma descrição do Templo
que existirá no Milênio e dos sacrifícios que nele
serão oferecidos (Ez 40–48). A invasão, registrada
nos capítulos 38 e 39, faz parte da restauração de
Israel, a qual, em termos cronológicos, se cumprirá
antes que o Reino Milenar de Cristo seja
oficialmente estabelecido.[9]
NOTAS 1 ARNOLD G. FRUCHTENBAUM, THE FOOTSTEPS OF
THE MESSIAH: A STUDY OF THE SEQUENCE OF
PROPHETIC EVENTS, EDIÇÃO REVISADA; TUSTIN,
CA: ARIEL MINISTRIES, 2003, P. 121.
2
John F. W ALVOORD, Roy B. ZUCK e DALLAS THEOLOGICAL
SEMINARY., The Bible Knowledge Commentary: An
Exposition of the Scriptures, Wheaton, IL: Victor Books,
1983 – 1985), vol. 2, p. 981.
3
W ALVOORD, The Bible Knowledge Commentary, vol. 2, p.
981.
4
J. Paul TANNER, “Rethinking Ezekiel’s Invasion By Gog”,
publicado no Journal of the Evangelical Theological
Society, March 1996, vol. 39, p. 45.
5
Ralph H. ALEXANDER, “Ezekiel”, publicado na obra organizada
por Frank E. GAEBELEIN, The Expositor’s Bible Commentary,
12 vol., Grand Rapids: Zondervan, 1986, vol. 6, p. 940.
6
William ARNDT, Frederick W. DANKER e Walter BAUER, A
Greek-English Lexicon of the New Testament and Other
Early Christian Literature, 3ª edição, Chicago: University of
Chicago Press, 2000, p. 532.
7
ARNDT, DANKER e BAUER, A Greek-English Lexicon, p. 103.
8
(Grifo do Autor Original), Charles H. DYER, “Ezekiel”,
publicado na obra organizada por John F. W ALVOORD e Roy
B. ZUCK, The Bible Knowledge Commentary: An Exposition
of the Scriptures, Old Testament, Wheaton, IL: Victor
Books, 1983–1985, p. 1302.
9
Mark HITCHCOCK, After The Empire: Bible Prophecy in Light
of the Fall of the Soviet Union, Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1994, p. 134.
30. EZEQUIEL 38 E
39 - RESUMINDO

Nesta última etapa de nossa análise da invasão


de Gogue e seus aliados à terra de Israel, conforme
foi predita nos capítulos 38 e 39 do livro de
Ezequiel, quero resumir minhas conclusões, as quais
já foram apresentadas e defendidas ao longo desse
tratamento interpretativo detalhado que dedicamos a
essa passagem bíblica. Não reapresentarei os pontos
de vista e aspectos dos quais discordo; ao invés
disso, mostrarei uma sinopse de minhas conclusões
sobre esse texto.
OS ATORES
Os invasores parecem ser uma coligação de
muçulmanos, não oriundos de povos árabes,
liderada por um russo. O texto declara que Gogue, o
líder dessa coalizão, é oriundo “da terra de
Magogue”, além de se referir a ele como “príncipe
de Rôs” (Ez 38.2). Essas expressões descritivas se
referem claramente a um líder russo que comandará
a invasão.
Na seqüência de nossa análise, examinei a lista
de invasores que se juntarão a Gogue como aliados.
Meseque e Tubal sempre são citados juntos na
Bíblia (Ez 38.3). Eles viviam naquele território que
hoje se conhece como Turquia. A Pérsia é
facilmente identificável porque foi mencionada por
várias vezes na Bíblia e corresponde atualmente ao
país denominado Irã (Ez 38.5). A Etiópia é
identificada pelo nome Cuxe, transliterado da
palavra hebraica Kush, um povo que habitava no
território imediatamente ao sul do Egito, onde o país
do Sudão se localiza na atualidade (Ez 38.5). Pute
se situa nas proximidades do Sudão e corresponde
ao país que hoje se conhece como Líbia (Ez 38.5).
Os atuais descendentes de Gômer e de Bete-
Togarma são identificados como etnias que também
habitam hoje em dia nas regiões central e oeste do
território da Turquia. O exército invasor virá do
norte, numa investida para atacar Israel.
É possível que outras nações, não identificadas
especificamente como “atores nesse palco” da
tentativa de invadir Israel, também venham a se
envolver. Também é possível que certos povos
identificados em Ezequiel se esparramem para
dentro do território de países adjacentes. Temos um
exemplo disso nos Curdos, um grupo étnico que se
encontra espalhado em regiões do Irã, da Turquia e
do Iraque.

A SITUAÇÃO DE ISRAEL
O texto bíblico nos informa que, no momento
dessa invasão, Israel já terá se recuperado da espada
(Ez 38.8), o que só pode se referir à sua situação
atual ou a alguma ocasião depois de nossos dias.
Essa recuperação da espada deve ter relação com as
derrotas judaicas nos anos 70 d.C. e 135-136 d.C.,
quando a longa Diáspora dos Judeus teve início e
também deve estar relacionada com o
reagrupamento de Israel “...que se congregou dentre
muitos povos...” (v. 8). Em conjunto com as
expressões “...depois de muitos dias...” e “...no fim
dos anos...” (Ez 38.8), parece claro que o texto faz
alusão a um episódio que ainda vai acontecer no
futuro, provavelmente associado com o período da
Tribulação.
Esse texto prediz que toda a nação de Israel
estaria “...habitando seguramente...” na sua terra
quando a invasão ocorrer (Ez 38.8). Creio que esse
fato seja o maior desafio à concepção, por mim
defendida, de que essa invasão acontecerá depois do
Arrebatamento da Igreja, mas antes do começo da
70ª semana profetizada por Daniel, a saber, antes da
Tribulação vindoura. Alguns intérpretes têm tentado
igualar o conceito de viver “seguramente” com o de
viver “pacificamente”. Tais intérpretes afirmam que
essa passagem descreve uma situação em que Israel
estaria vivendo em paz com todos os países vizinhos
e que nenhum destes seria uma ameaça para os
judeus. Essa interpretação não tem nenhuma
sustentação no significado da palavra hebraica
betah, nem é apoiada pelo contexto da passagem.
Arnold Fruchtenbaum comenta o seguinte:
Em nenhum lugar desse texto há qualquer alusão de
que Israel estaria vivendo em paz. Pelo contrário, a
descrição é de que Israel estaria simplesmente
habitando em segurança, o que significa “confiança”, a
despeito de quanto dure um estado de guerra ou de
paz. Nas várias descrições que essa passagem
apresenta sobre Israel, pode-se comprovar que todas
são verídicas na realidade do Estado de Israel atual.[1]

Ao que parece, o texto indica que Israel já


estaria de volta à sua terra e que certo período de
tempo já teria decorrido, pois os judeus são descritos
na passagem como um povo que habita seguro na
sua terra e que produziu grande riqueza, riqueza
essa que será o motivo dos povos aliados para
invadir (Ez 38.10-12). Não há dúvida de que essa é
a situação de Israel hoje em dia. Na realidade, diante
da atual crise econômica mundial, Israel tem se
saído melhor do que qualquer outra nação.
O MOMENTO EXATO
Como salientei anteriormente, creio que a
invasão terá relação com o período da Tribulação,
razão pela qual acredito que o ataque dessa coalizão
invasora se dará após o Arrebatamento, mas antes
da Tribulação. O Arrebatamento encerra a Era da
Igreja, porém não marca o início da Tribulação
propriamente dita. O período de sete anos da
Tribulação começará no exato momento em que o
Anticristo, oriundo do Império Romano revitalizado,
fizer uma aliança para proteger Israel (Dn 9.24-27).
Portanto, o intervalo de tempo pode ter a duração de
alguns dias, semanas, meses ou anos, a fim de que o
palco esteja totalmente pronto para os
acontecimentos que se sucederão nesse período de
sete anos.
O texto de Ezequiel 39.9 prediz o seguinte:
“Os habitantes das cidades de Israel sairão e
queimarão, de todo, as armas, os escudos, os
paveses, os arcos, as flechas, os bastões de mão e
as lanças; farão fogo com tudo isto por sete anos”.
O fato de que essas armas serão queimadas por sete
anos fornece um indicador de tempo que poderia
nos ajudar a discernir o momento, dentro do
cronograma profético de Deus, em que essa batalha
ocorrerá. Fruchtenbaum diz o seguinte: “Esses sete
meses de sepultamento dos corpos e sete anos de
queima das armas são cruciais para que se possa
definir com precisão o momento em que essa
invasão acontecerá. Para que uma concepção
interpretativa esteja correta, deve obrigatoriamente
satisfazer às exigências impostas por esses sete
meses e sete anos”.[2] Parece pouco provável que
essa queima das armas por sete anos passe para o
período de mil anos do reino, após a Segunda Vinda
do Senhor Jesus. O Dr. Price explana sobre essas
questões nos seguintes termos:
Se essa batalha acontecesse depois do
Arrebatamento, mas antes do início da septuagésima
semana profética de Daniel, haveria bastante tempo e
liberdade de movimento, ainda durante a primeira
metade da Tribulação (i.e. o período de tempo
caracterizado por aquela falsa paz oferecida a Israel na
aliança firmada pelo Anticristo), para o cumprimento
dessa tarefa. Além disso, a alusão de que não haverá
necessidade de cortar e recolher lenha dos bosques (v.
10) faria mais sentido se esse episódio ocorresse antes
da primeira trombeta apocalíptica de juízo, quando a
terça parte de todas as árvores será queimada
(Apocalipse 8.7). Se essa batalha estivesse prevista
para acontecer em algum momento do período da
Tribulação, as pessoas não teriam tempo de concluir
essa tarefa antes da ferrenha perseguição que
ocorrerá nos últimos 42 meses daquele período (cf.
Mateus 24.16-22), quando o Remanescente Judeu se
verá forçado a fugir para o deserto a fim escapar do
sanguinário ataque satânico (Apocalipse 12.6).
Embora não haja nenhuma razão que impeça a
queima das armas durante o Reino Milenar, já que
outras armas serão convertidas em utensílios
produtivos e pacíficos no Milênio (Isaías 2.4), a
renovação da natureza e o aumento da produtividade,
característicos desse período (Isaías 27.6; Zacarias
8.12; Miquéias 4.4), poderiam argumentar contra tal
necessidade.[3]

O Dr. Ron Rhodes escreveu há pouco tempo


um livro excelente sobre o texto de Ezequiel 38 e
39, intitulado Northern Storm Rising [i.e.
“Tempestade que Vem do Norte”][4]. O Dr. Rhodes
compara a atual preparação para os acontecimentos
preditos na profecia de Ezequiel ao ajuntamento de
nuvens negras antes de uma tempestade. É isso
mesmo! Hoje em dia, temos testemunhado os
preparativos e o posicionamento político-ideológico
das nações que foram preditas na profecia para
invadir Israel.
Os últimos anos testemunharam a aproximação
entre o Irã e a Rússia, os quais têm se empenhado
juntos para ajudar o Irã a se tornar uma potência
nuclear. Não há a menor dúvida de que a Rússia
capacitou o Irã a construir seu reator nuclear e de
que os russos têm ajudado os iranianos tanto a
desenvolverem quanto a montarem bombas
atômicas. Pela primeira vez na história foi noticiado
que a Rússia e o Irã planejam realizar exercícios
militares em conjunto.[5] Não há como se equivocar
quanto ao objetivo do programa nuclear iraniano,
pois, o ex-presidente do Irã, Mahmoud
Ahmadinejad, fez declarações, por inúmeras vezes,
sobre sua intenção de varrer Israel do mapa.
Em face da atual situação entre Israel e Irã, se
conjecturarmos que o momento dessa invasão
poderia estar próximo, talvez um dos “...anzóis no...
queixo...” de Gogue pudesse ser um ataque
israelense às instalações nucleares do Irã. Somente
um ataque bem sucedido de Israel poderia
proporcionar uma sensação de segurança, ainda que
temporária, já que afastaria a ameaça nuclear
iraniana. No entanto, o Irã poderia apelar para a
Rússia e seus aliados, alegando que já chegara a
hora de se envolverem no conflito, a fim de
aniquilarem os judeus “...que vivem seguros...” na
sua terra e tomarem os despojos durante essa
investida. Afinal, o Irã poderia se queixar para a
Rússia, a outra superpotência do mundo, que os
Estados Unidos já intervieram naquela região, pelo
menos duas vezes nos últimos 20 anos e ainda se
encontram em operação militar no Oriente Médio.
Por que a Rússia não poderia fazer o mesmo em
favor de seus aliados?
Hoje em dia a Turquia não se encontra
alinhada com a Rússia e com o Irã por ter se tornado
tecnicamente um Estado secular com uma herança
muçulmana após o colapso do Império Turco-
Otomano no final da Primeira Guerra Mundial. Já
faz tempo que a Turquia se tornou membro da
OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]
e tem expressado o desejo de se identificar, não com
a Ásia, mas com a Europa, muito provavelmente por
razões econômicas. A Turquia é um país cuja menor
parte do território se encontra na Europa e a maior
parte está situada na Ásia. Além disso, a Turquia já
solicitou oficialmente o ingresso como país-membro
da União Européia, onde qualquer pessoa que esteja
num dos seus países-membros pode se deslocar
livremente para outra localidade que se encontre
dentro dos limites geográficos da União Européia.
Os demais países-membros estão preocupados
porque temem que, se for admitida como membro
da União Européia, a Turquia possa se tornar um
canal através do qual os muçulmanos se deslocariam
para inundar o restante da Europa com a sua
presença. Embora a Turquia continue no processo
de cumprir requisitos para ingressar na União
Européia, é praticamente certo que no fim tal
ingresso seja rejeitado. A partir do momento que
forem rejeitados pela União Européia, os turcos vão
buscar alinhamento com a Rússia, bem como com
seus países-irmãos islâmicos.
Nos últimos anos contemplou-se a emergência
de uma maioria islâmica no Parlamento da Turquia e
o seu atual primeiro-ministro é muçulmano. A
dissolução da antiga União Soviética envolveu a
independência destas cinco repúblicas islâmicas:
Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão,
Turcomenistão e Tajiquistão. A Turquia se considera
o desenvolvedor econômico dos vastos recursos
naturais que se encontram nesses cinco novos
países, tais como: ouro, prata, urânio, petróleo,
carvão e gás natural. Depois de ser desprezada pela
Europa, a Turquia terá motivos de sobra para entrar
numa aliança com a Rússia e com suas nações-irmãs
muçulmanas, o que deixará o palco preparado para
o cumprimento dessa profecia. Maranata!
NOTAS
1
Arnold FRUCHTENBAUM, Footsteps of the Messiah: A Study of
the Sequence of Prophetic Events, Tustin, CA: Ariel Press,
(1982) 2003, p. 117.
2
(Grifo do autor original em itálico) FRUCHTENBAUM, Footsteps,
p. 117.
3
Randall PRICE, “Comentários Não Publicados Sobre as
Profecias de Ezequiel”, 2007, p. 43.
4
Ron RHODES, Northern Storm Rising: Russia, Iran, and the
Emerging End-Times Military Coalition Against Israel,
Eugene, OR: Harvest House Publishers, 2008.
5
DEBKAfile, “Russia’s first Persian Gulf naval presence
coordinated with Tehran”, publicado em 2 de junho de 2009
no site da Internet: www2.debka.com/headline.php?
hid=6095.

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