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Mais investimento em tecnologia

aumentaria produtividade no Brasil


Salário dos brasileiros também poderia ser maior se houvesse mais investimento em
qualificação; confira a relação entre produtividade e emprego no Brasil e nos
Estados Unidos.

A produtividade e o salário do trabalhador brasileiro poderiam ser muito maiores se houvesse mais
investimento em qualificação e em novas tecnologias.
Na segunda reportagem da série que o Jornal Nacional exibe esta semana, os repórteres, Alan
Severiano, nos Estados Unidos, e Fabio Turci, no Brasil, mostram que não é só o emprego que garante
o crescimento econômico.
Uma hora, o comércio é um formigueiro. Outra hora, fica às moscas.
Jornal Nacional: E cadê os clientes?
Cibele Feitosa, vendedora: Os clientes? Está difícil.
E quando tem cliente, nem sempre o vendedor vende muito. O vendedor pegou do estoque 12 caixas
de tênis, para vender um par. Nos Estados Unidos, a gente até sente falta de um atendimento mais
caloroso. Tudo é planejado para o cliente se virar sozinho.
Como o salário é pago por hora, as lojas têm mais vendedores nos horários de movimento, e menos nos
dias mais fracos. Assim, o custo diminui e o preço também.
Mas quer dizer que mais produtividade significa menos emprego? “Aumentar a eficiência
eventualmente pode significar menos emprego, mas significa melhores empregos, porque eu vou ter
menos pessoas executando tarefas de baixa qualificação e aumentando a necessidade de pessoas que
tenham melhor qualificação, não para executar, mas para planejar lojas melhores para os
consumidores”, explica o consultor de bens de consumo e varejo Eugênio Foganholo.
Brasil e Estados Unidos vivem situações opostas. No Brasil, o emprego vai bem, a produtividade vai
mal e a economia está crescendo menos. Os Estados Unidos, um dos países mais produtivos do
mundo, aceleraram o crescimento. Já o emprego não se recuperou da crise.
Na capital da indústria automobilística, as fábricas perderam terreno para a Ásia. Detroit, que já foi a
quinta maior cidade americana, hoje é apenas uma sombra do passado: uma cidade falida, com
milhares de prédios abandonados.
Foi em uma montadora nos arredores da cidade que a indústria viveu uma de suas maiores revoluções.
No início do século passado, os carros começaram a ser fabricados em linhas de montagem. A
produção aumentou, o preço caiu e a classe média passou a ter acesso a um dos produtos mais
desejados produtos da modernidade.
Mas seis anos atrás a empresa balançou. Com custos altos e carros que já não atraiam o consumidor,
fechou 16 fábricas.
A saída foi aumentar a produtividade. A montadora investiu em equipamentos modernos, contratou 14
mil funcionários, bem mais do que os quase 40 mil que foram demitidos na crise.
"O nível de emprego não deve voltar ao que era antes”, admite Joe Hinrichs, presidente da montadora
para as américas: "Somos mais eficientes hoje e isso tem ajudado a termos lucros recordes. O que
fizemos foi doloroso, mas necessário".
Já o Brasil vem disputando mão de obra. Na indústria, os salários subiram muito desde 2001.
Mas a produtividade não acompanhou.
“Eu quero que aumente o meu salário, todo mundo quer que aumente seu salário. O crescimento tem
que ser equilibrado: ganho de produtividade e aí sim ter ganho de salário, ganho de lucro e redução de
preço, ou seja, a sociedade inteira ganha”, afirma Renato da Fonseca, gerente de competitividade da
CNI.
Em uma fábrica em São Paulo, um lote de peças saiu com erro.
Jornal Nacional: Estava tudo montado aqui direitinho, vai ter que desmontar tudo de novo?
Graziela dos Santos, auxiliar de qualidade: Tudo de novo.
“Então o prejuízo é que eu deixo de faturar, pago duas vezes a mesma mão de obra e o meu cliente, eu
não consigo atender meu cliente a contento no prazo e na qualidade”, declara Antonio José Gaspar,
presidente da indústria.
Mas além da falta de mão-de-obra qualificada, também atrapalharam o desempenho das indústrias:
falhas de energia, problemas com telefonia e internet, e transportes ruins. Resultado de tudo isso: o
produto brasileiro fica mais caro.
Um exemplo: um modelo de carro que nos Estados Unidos custa R$ 23 mil na porta da fábrica, sai por
R$ 35 mil no Brasil, isso sem contar os impostos, que aqui são mais altos.
“É um pouco essa sensação de que o Brasil é um país caro, é caro, todos os preços são caros, os bens
de consumo são caros, isso se traduz em uma menor renda para as famílias”, ressalta Marcos Lisboa,
vice-presidente do Insper.
A todo momento, novas tecnologias provocam traumas no mercado de trabalho. Cento e trinta anos
atrás, trabalhadores acendiam diariamente os lampiões a gás de Nova York.
Quando a energia elétrica chegou, eles perderam o emprego. Muitos foram trabalhar em fábricas.
O diretor da Organização Internacional do Trabalho diz que não dá para ir contra a tecnologia.
Para ser mais produtivo sem penalizar o emprego, o desafio é preparar as pessoas para trabalhos que
exigem mais e pagam salários melhores.
“O importante é que esse aumento da produtividade, em um médio a longo prazo, ele significa mais
empregos, né, em outras áreas. Então é uma forma de você dar dinamismo a sua economia”, comenta
Vinicius Pinheiro, diretor da Organização Internacional do Trabalho.
Nos últimos anos, para produzir mais, o Brasil precisou de mais gente fazendo a mesma coisa. As
empresas contrataram e, aí, fabricaram mais, venderam mais. Agora, só funcionou porque tinha mão-
de-obra disponível.
Já não tem trabalhador sobrando como antes. E a nossa população está envelhecendo. Como é que a
gente vai crescer daqui para frente?
“No futuro, para você continuar crescendo, você vai ter que ter ganhos de produtividade, aumentar a
qualificação, aumentar a eficiência, aumentar o conhecimento dentro das empresas, aumentar a
qualidade das máquinas que a gente usa para que o trabalhador possa, com o mesmo número de horas
trabalhadas, produzir mais”, explica Fernanda de Negri, diretora de estudos setoriais do IPEA.