Você está na página 1de 39

-

•REVISTA DE HISTORIA

IFCH
UNICAMP
INVERNO - i991

.1

DOSSIÊ

:z 1 1C%1

História Narrativa;_H.Whte D. Lacapra, C. Ginsburg, L.


-

Tema em Questão: Movimentos Sociais


Esta posição, apesar de reunir tradições diferentes, contrariamente anterior,
provém de uma mesma posição genérica, qual seja. a dos conceptualistas. Apesar
desta coincidência, no que diz respeito ao debate sobre a narrativa histórica, estas
posições divergem. No marxismo inglês, a narrativa não se afasta de sua tarefa
científica: enquanto na tradição dos annale, da qual se aproxima Veyne, a
narrativa é a condição do que escapa a ciência - movimento das posições.
É importante fazer notar o movimento expresso por este debate, o qual
procuramos sintetizar assinalando a imbricação. entre ‘posições genéricas’ e
‘posições específicas’. Existe, na verdade, um relacionamento não só sincrônico,
mas também diacrônico e que diz respeito à evolução própria ao debate. Com
efeito, o tema da narrativa só mais recentemente surge como o momento crucial
em um debate mais amplo, e mais antigo, sobre a cientificidade da história.
Anteriormente, o paradigma provinha das demais ciências físicas e as discussões
se pautavam, em geral, pela inventar ação das diferenças entre seus diversos
ramos.
Já quando a narrativa irrompe como foco privilegiado. Isto se dá positivamente,
isto é, o que passa a estar em pauta é o próprio paradigma de cientificidade e não
meramente seus desvios. Assim, a história, que possui uma face narrativa latente,
passa a dar lugar à presentificação de uma discussão que caminha das demais
ciências para o seu interior, sem deixar, no entanto, de transcrever, com este
deslocamento para dentro, a teriátic geral da crise do paradigma de cientificidade.

O RFSSURGIMENTO DA NARRATIVA REFLEXÕES SOBRE UMA NOVA VELHA


HISTÓRIA

Os historiadores sempre contaram estórias, desde Tucídides e Tácito a Gibbon e


Miraulay, a composição de uma narrativa em prosa viva e elegante sempre foi
considerada como sua maior ambição. A história era vista como um ramo da
retórica. Nos últimos cinquenta anos, porém. essa função de contar estórias
adquiriu uma reputação negativa entre os que se consideram a si mesmos na
vanguarda da profissão. os praticantes da chamada “nova história” do período
posterior à Segunda Guerra Mundial. Na França, o contar estórias foi
desqualificado como "histoire énementielle”. Agora. Porém, vejo sinais de uma
tendência subterrânea que vem atraindo muitos ‘novos historiadores importantes
de volta para alguma forma de narrativa. Antes de iniciar um exame das
indicações de tal mudança e de avançar algumas especulações sobre suas
possíveis causas, seria melhor esclarecer uma série de coisas. A primeira é a
acepção em que aqui se entende a “narrativa”.

A narrativa aqui designa a organização de materiais numa ordem de sequência


cronológica e a concentração do conteúdo numa única estória coerente, embora
possuindo sub-tramas. A história narrativa se distingue da história estrutural por
dois aspectos essenciais: sua disposição é mais descritiva do que analítica.
Utiliza-se nesta tradução o pouco consagrado estona, para manter a distinção com
a história, conforme o uso de ator/ e historia no original. Não se deve confundir
esses novos historiadores recentes com os novos historiadores americanos de
uma geração anterior, como Charles Beard e James Harvey Robinson.

‘Sobre a história da narrativa, ver L. Gosséia, Augustin Thierry and Liberal


Historio. raphy’ Hi.toq, a’id Theory. Beihefl XV. 1979. 14. White: MctaAi,or: TI,e
Hi,toncoj I,nagirration in lhe Nineteenth Cenury. Baltimore,1973. Agradeço ao
professor Randolph Starn por chamar minha atenção para este último

Lawrence Stone
I ) Ninguém está sendo instado a jogar fora sua calculadora e contar uma estória e
seu enfoque central diz respeito ao homem, e não às circunstâncias. Portanto, ela
trata do particuIar e do específico. de preferência ao coletivo e ao estatístico. A
narrativa é uma modalidade de escrita histórica modalidade esta. porém. que
também afeta e é afetada pelo conteúdo e pelo método.
O tipo de narrativa em que estou pensando não é o do simples cronista ou analista
de coisas passadas. E a narrativa orientada por algum “princípio fecundo”. e que
possui um tema e um argumento. O tema de Tucídides eram as guerras do
Peloponeso e seus efeitos catastróficos sobre a sociedade e a política gregas: o
de Gibbon e o declínio e queda o Império Romano: o de Macaubal. o surgimento
de uma disposição participativa liberal nas correntes da política revolucionária. Os
biógrafos contam a estória de uma vida, desde o nascimento até a morte. Nenhum
historiador narrativo, no sentido em que aqui os define, deixa a análise totalmente
de lado. mas ela não constitui o arcabouço de sustentação em torno do qual
constroem sua obra. E, por fim, eles estão profundamente preocupados com os
aspectos retóricos de sua apresentação. Quer suas tentativas dêem certo ou não,
eles certamente pretendem alcançar concisão, espírito e elegância estilística. Não
se contentam em lançar palavras numa página e ali deixá-las, pensando que, na
medida em que a história é uma ciência, dispensa o auxilio de qualquer arte.
Não se deve considerar que as correntes aqui identificadas se aplicam a grande
massa dos historiadores. O que se tenta é apenas assinalar uma mudança
perceptível de conteúdo, método e estilo entre uma parcela muito reduzida, mas
desproporcionalmente destacada, da profissão histórica como um todo. A história
sempre teve muitas sedes e assim deve continuar para prosperar no futuro. O
triunfo de um gênero ou escola sempre acaba levando a um sectarismo estreito,
ao narcisismo e autobajulação, ao desprezo ou tirania em relação aos de fora. e
outras características desagradáveis e contraproducentes. Todos nós
conhecemos exemplos disso. Em alguns países e instituições, foi pernicioso que,
nos últimos trinta anos, os novos historiadores” tenham conseguido se impor de tal
maneira, e será igualmente pernicioso se a nova corrente, se é que é uma
corrente, alcançar, aqui e ali, um mesmo tipo de dominação.
E também fundamental estabelecer de uma vez por todas que este ensaio tenta
mapear transformações observadas no estilo histórico, sem fazer juízos de valor
sobre as modalidades boas e, as não tão boas, de escrita histórica. Em qualquer
estudo historiográfico. é difícil evitar juízos de valor, mas este ensaio não pretende
erguer qualquer bandeira nem conflagrar uma revolução.

II) Antes de observar as correntes recentes, primeiramente é preciso explicar o


abandono, por parte de muitos historiadores, há cerca de cinquenta anos atrás, de
uma tradição que, durante dois séculos, encarou a narrativa como modalidade
ideal. Em primeiro lugar. apesar de acaloradas afirmativas em contrário.
reconheceu-se amplamente, com certa razão, que as respostas de tipo
cronológico a perguntas sobre o quê e como, mesmo que orientadas por um
argumento central, de fato não avançam muito para responder a perguntas sobre
o porquê. Além disso. naquela época. os historiadores se encontravam sob a forte
influência tanto da ideologia marxista, quanto da metodologia das ciências sociais.
Por decorrência estavam interessados em sociedades. e não em indivíduos, e
confiavam que se poderia chegar a uma “a história científica” que, com o tempo
criava leis generalizadas para explicar a transformação histórica.
Neste ponto, devemos parar mais uma vez e definir o que se entende por “a
história científica”:

A primeira a história científica” foi formulada por Ranke no século XIX.” e se


baseava no estudo de novas fontes. Acreditava-se que a detalhada crítica textual
de registros até então intocados, enterrados em arquivos oficiais, estabeleceria
definitivamente os fatos da história política Nos últimos trinta anos, apareceram
três tipos muito diferentes de “história científica”, correntes na profissão, todos
baseados não em novos dados, mas em novos modelos ou novos métodos: o
modelo econômico marxista, o modelo ecológico-demográfico francês e a
metodologia “cliométrica” americana. Segundo o velho modelo marxista, a história
avança num processo dialético de tese e antítese, através de um conflito de
classes, elas mesmas criadas por uma transformação no controle sobre os meios
de produção. Nos anos 1930, essa idéia resultou num determinismo econômico-
social bastante simplista, que afetou muitos jovens estudiosos da poca. E uma
noção de “história científica” que foi firmemente defendida por marxistas até o final
dos anos 1950. Deve-se notar, porém. que a atual geração de “neo-marxistas’
parece ter abandonado a maioria dos princípios básicos dos historiadores
marxistas tradicionais da década de 1930 Agora estão tão interessados pelo
estado, a política, a religião e a ideologia quanto seus colegas não-marxistas, e
nesse meio-tempo parecem ter renunciado à pretensão de estarem buscando uma
“Wl’ro’a1 CIP.’1i’Ficç’.

O segundo sentido da história científica” é o empregado pela escola Annales de


historiadores franceses, desde 1945, entre os quais Emmannuei Le Roy Ladurie pode
figurar como porta-voz, embora um tanto extremado. Segundo ele, a variável
fundamental na história são as mudanças no equilíbrio ecológico entre a oferta
alimentar e a população, equilíbrio este a ser necessariamente determinado por
estudos quantitativos da produtividade agrícola, das transformações demográficas
e preços dos alimentos na longa duração. Esse tipo de a história científica surgiu a
partir de uma combinação entre um prolongado interesse francês pela geografia e
demografia históricas e, de outro lado, a metodologia quantitativa. Le Roy Ladurie
nos disse claramente que “a história que não é quantificável não pode pretender
ser científica”.

O terceiro sentido da “história científica” é basicamente americana e se baseia na


pretensão, expressa em alto e bom tom pelos “cliometristas”, de que apenas sua
própria metodologia quantitativa muito especial pode ter qualquer ambição de ser
científica. Segundo eles, a comunidade histórica pode ser dividida em dois. Há “os
tradicionalistas entre os quais incluem-se os historiadores narrativos do velho
estilo, tratando principalmente da política do estado e da história constitucional, e
os “novos” historiadores econômicos e demográficos das escolas Annalea e Paat
anr! Presente - embora estes últimos utilizem a quantificação e os dois grupos
tenham sido inimigos ferrenhos por várias décadas, principalmente na França.
Totalmente à parte estão os “historiadores científicos”, os cliometristas, que se
definem mais por uma metodologia do que por algum assunto ou interpretação
específica sobre a natureza da transformação histórica. São historiadores que
constroem modelos paradigmáticos, às vezes contra-fatuais sobre mundos que
nunca existiram na vida real, e testam a validade dos modelos com as mais
sofisticadas fórmulas matemáticas e algébricas, aplicadas a grandes quantidades
de dados eletronicamente processados. Seu campo específico é a história
econômica, que praticamente conquistaram nos Estados Unidos, e têm feito
grandes incursões na história da política democrática recente, aplicando seus
métodos ao comportamento nas votações, tanto por parte dos eleitores quanto
dos eleitos. Essas grandes empreitas são, necessariamente, resultado de um
trabalho de equipe, bastante parecido com a construção das pirâmides: equipes
de auxiliares diligentes regem dados, codificam-nos, programam-nos e passam-
nos pela trituração do computador, todos sob a direção autocrática de um chefe de
equipe. Os resultados não podem ser verificados por nenhum dos métodos
tradicionais visto que as provas documentais estão fechadas em gravações
computadorizadas particulares, não sendo expostas em notas de rodapé nas
publicações. De qualquer maneira, os dados são muitas vezes expressos de uma
forma tão matematicamente obscura que são ininteligíveis para a maioria dos
historiadores profissionais. O único consolo para os leigos perplexos é que os
membros dessa ordem sacerdotal discordam ferozmente em público sobre a
validade das descobertas de cada um deles.
Esses três tipos de “história científica’ em certa medida se sobrepõem, mas
apresentam diferenças suficientes, e com certeza aos olhos de seus próprios
praticantes, para justificar a elaboração dessa tríplice tipologia. Outras explicações
“científicas” da transformação histórica granjearam prestígio durante algum tempo,
e depois saíram de moda. O estruturalismo francas produziu algumas teorizações
brilhantes, mas não criou uma única obra histórica importante - a menos que se
considerem os textos de Michel Foucault como obras primariamente históricas, e
não de filosofia moral com exemplos extraídos da história. O funcionalismo
parkinsoniano, precedido pela Teoria Científica da Cultura de Malinowski, teve uma
longa vida, apesar de não conseguir apresentar uma explicação sobre a transformação
ao longo do tempo, e a despeito do fato óbvio de que o encaixe entre as
necessidades materiais e biológicas de uma sociedade e as instituições e valores
com que ela vive nunca foi perfeito e, na verdade, é freqüentemente muito
precário. Tanto o estruturalismo como o funcionalismo deram idéias valiosas, mas
nenhum deles chegou sequer perto de oferecer aos historiadores uma explicação
científica abrangente da transformação histórica. Esses três grupos principais de
“historiadores científicos”, que floresceram respectivamente dos anos 1930 aos
anos 1950, dos anos 1950 aos meados dos anos 1970, e dos anos 1960 ao
começo dos anos 1970, tinham uma extrema confiança de que os grandes
problemas da explicação histórica eram solúveis, e que eles os resolveriam com o
tempo. Supunham que finalmente se apresentariam soluções inflexíveis para
questões até o momento tão desconcertantes, como as causas das “grandes
revoluções” ou da passagem do feudalismo para o capitalismo e das sociedades
tradicionais para a modernas. Esse otimismo impetuoso, tão patente dos anos
1930 aos anos 1960, escorava-se, nos dois primeiros grupos de “historiadores
científicos”, na crença de que condições materiais como as transformações na
relação entre a população e a oferta alimentar, as transformações dos meios de
produção e conflitos de classes, eram as forças motoras da história. Muitos, mas
nem todos, consideravam os ecodesenvolvimentos intelectuais, culturais,
religiosos, psicológicos, jurídicos e mesmo políticos, como meros epifenômenos.
Como o determinismo econômico e/ou demográfico ditava em larga medida o
conteúdo do novo gênero de pesquisa histórica, a modalidade mais adequada
para organizar e apresentar os dados era a analítica, mais do que a narrativa, e os
próprios dados deviam ter uma natureza quantitativa ao máximo possível.
Os historiadores franceses, que na década de 1950 e 1960 encontravam-se, e à
frente deste ousado empreendimento desenvolveram uma disposição hierárquica
padronizada: em primeiro lugar tanto em ordem de sequência como em ordem de
importância, vinham os fatos econômicos e demográficos: a seguir, a estrutura
social, e em último lugar, os desenvolvimentos intelectuais, religiosos, culturais e
políticos. Esses três terços eram vistos como se fossem os andares de uma casa:
cada um se apóia sobre as fundações do nível inferior, mas os que estão por cima
exercem pouco ou nenhum efeito sobre os de baixo. Em algumas mãos, a nova
metodologia e as novas questões já eram resultados quase espetaculares. Os
primeiros livros de Fernand BrudeI, Pierre Goubert e Emmanuel e Roy Ladurie
figuram entre os maiores textos históricos de todos os tempos e lugares. Por si
sós, justificam plenamente a adoção da abordagem analítica e estrutural por toda
uma geração.
O resultado, porém, foi um violento revisionismo histórico. Como apenas o
primeiro terço é que importava realmente, e como o tema eram as condições
materiais das massas, e não a cultura da elite, tornou-se possível falar na história
da Europa Continental do século XIV ao século XVIII como “l’historie immobile”. Le
Roy Ladurie argumentou que nada, absolutamente nada, mudou ao longo desses
cinco séculos, visto que a sociedade se manteve obstinadamente presa em sua
“eco-demografia” tradicional inalterada. Neste novo modelo da história,
movimentos como o Renascimento, a Reforma,
o Iluminismo e o surgimento com o estado moderno simplesmente
desapareceram. Foram ignoradas as transformações maciças da cultura, arte,
arquitetura, literatura, religião, educação, ciência, direito, constituição, construção
civil, burocracia, organização militar, sistemas tributários e assim por diante, as
quais ocorreram nos escalões superiores da sociedade durante esses cinco
séculos.
E a curiosa cegueira foi decorrência de uma sólida crença de que tais questões
pertenciam a terceira parte, uma mera superestrutura superficial. Quando alguns
estudiosos desta escola começaram, recentemente, a utilizar seis métodos
estatísticos comprovados em problemas como a alfabetização, o conteúdo das
bibliotecas, a ascensão e queda da devoção cristã, eles definiram suas atividades
como uma aplicação da quantificação e a “te troisiéme niveau”,

III) A primeira causa do atual ressurgimento da narrativa é uma desilusão


generalizada com o modelo determinista econômico de explicação histórica e
‘essa tríplice disposição hierárquica dele originada. A cisão entre a história social e
a história intelectual teve as mais infelizes consequências. Ambas se tornaram
isoladas, estreitas, voltadas para si mesmas. Nos Estados Unidos, a história
intelectual, que antes havia sido o estandarte da profissão, enfrentou tempos
difíceis e, por um certo período, perdeu a confiança em si: a história social
prosperou como nunca, mas seu orgulho por suas realizações isoladas não
passava com o prenúncio de uma subsequente perda da vitalidade, quando
começou a declinar a fé em explicações puramente econômicas e sociais. Os
registros históricos agora obrigaram muitos de nós a reconhecer que existe um
fluxo bidirecional extraordinariamente complexo de interações entre fatos relativos,
de um lado, a população, oferta alimentar, clima, oferta monetária, preços e, de
outro lado os valores, idéias e costumes. Formam, com as relações sociais de
posição ou classe, uma única rede de significados.
Muitos historiadores agora acreditam que a cultura do grupo, e mesmo a vontade
do indivíduo, são, pelo menos potencialmente, agentes causais de
transformação tão importantes quanto as forças impessoais da produção material
do crescimento demográfico. Não existe nenhuma razão teórica pela qual estas
últimas devam sempre determinar as primeiras, e não vice-versa, na verdade.
acumulam-se as indicações de exemplos em contrário. A
contracepção, por exemplo, é nitidamente tanto um produto de um estado mental
quanto de circunstâncias econômicas. Pode-se encontrar a prova disso na ampla
difusão da prática anticoncepcional por toda a França, muito antes da
industrialização, sem grandes pressões populacionais a não em pequenas
propriedade rurais, e quase um século antes do que qualquer outro país ocidental.
Hoje em dia, também sabemos que a família nuclear é anterior à sociedade
industrial, e que os conceitos de privacidade, amor e individualismo surgiram,
analogamente, entre alguns dos setores mais tradicionais como uma sociedade
tradicional, a Inglaterra no final do século XVII e começo do século XVIII, e não em
decorrência de processos econômicos e sociais modernizadores de data posterior.
A ética protestante foi um produto colateral de um movimento religioso espiritual,
que se enraizou nas sociedades anglo-saxãs da Inglaterra e Nova Inglaterra,
séculos antes que fossem necessários ritmos constantes de trabalho ou que fosse
construída a primeira fábrica. Por outro lado, existe uma correlação inversa, pelo
menos na França oitocentista, entre a alfabetização, a urbanização e a
industrialização. Os níveis de alfabetização se revelam como guias precários para
atitudes mentais “modernas” ou profissões “modernas”. Assim, os elos entre a
cultura e a sociedade são de fato muito complexos e parecem variar no tempo e
no espaço.
É difícil não suspeitar que o declínio do engajamento ideológico entre os
intelectuais ocidentais também desempenhou seu papel. Se observamos três das
batalhas históricas mais renhidas e apaixonadas dos anos 1950 e 1960
- a ascensão ou declínio da nobreza na Inglaterra seiscentista, a ascensão ou
queda do rendimento real do operariado, nas primeiras fases da industrialização e
as causas, natureza e consequências da escravidão americana -. todas
constituíam, na base, discussões ateadas por preocupações ideológicas do
momento. Na época, parecia desesperadamente importante saber se a
interpretação marxista estava certa ou não e por isso essas questões históricas
eram relevantes e instigantes. O emudecimento da controvérsia ideológica,
provocado pelo declínio intelectual do marxismo e pela adoção de economias
mistas no Ocidente. Coincidiu com um declínio no ímpeto da pesquisa histórica
em levantar as grandes questões sobre os porquês, é plausível sugerir que existe
alguma relação entre as duas tendências.
O determinismo econômico e demográfico sofreu um enfraquecimento
devido ao reconhecimento das idéias, da cultura e mesmo da vontade individual
como variáveis independentes. Mas não só. Foi minado também pelo
reconhecimento, recuperação uma vez mais, de que o poder político e militar, o
uso da força bruta, têm determinado com freqüência a estrutura da sociedade, a
distribuição da riqueza, o sistema agrário e mesmo a cultura da elite. Exemplos
clássicos são a conquista normanda da Inglaterra em 1066, e provavelmente as
vias econômicas e sociais divergentes tomadas pela Europa Oriental, pela Europa
Norte-Ocidental e pela Inglaterra nos séculos XVI e XVII. Os historiadores futuros
com certeza irão criticar severamente os “novos historiadores’ dos anos 1950 e
1960 por não terem dedicado atenção suficiente ao poder, à organização e ao
processo decisório políticos, aos caprichos da batalha e do cerco militar, da
destruição e da conquista. As civilizações surgiram e desapareceram devido a
flutuações na autoridade política e mudanças nos destinos da guerra, e é
extraordinário que tais assuntos tenham sido descurados por tanto tempo por
aqueles que se consideravam à frente da profissão histórica. Na prática, a grande
massa dos historiadores continuou a se dedicar à história política, como sempre
haviam feito, mas não é ai que, de modo geral, pensava-se residir a ponta-de-
lança da profissão. Um reconhecimento tardio da importância do poder, das
decisões políticas pessoais dos indivíduos, dos acasos das batalhas, obrigou os
historiadores a voltarem à modalidade narrativa, apreciem-na ou não. Para usar os
termos de Maquiavel. só se pode rir da vida ou da fortuna através de uma
narrativa, ou mesmo de uma anedota, na medida em que a primeira é um atributo
individual e a segunda consiste num acidente feliz ou infeliz.
O terceiro desenvolvimento que infligiu um sério golpe à história estrutural e
analítica é o registro misto usado até o momento em sua metodologia mais
característica, a saber, a quantificação. A quantificação certamente amadureceu, e
agora se firmou como uma metodologia essencial em muitas áreas da pesquisa
histórica, principalmente a história demográfica, a história da estrutura e
modalidade social, a história econômica e a história dos padrões e
comportamentos eleitorais em sistemas políticos democráticos. Seu emprego
levou a uma grande melhoria na qualidade geral do discurso histórico, ao exigir a
citação de números precisos, ao invés do uso indefinido anterior das palavras. Os
historiadores já não podem mais se desobrigar dizendo “mais” ou “menos”
‘“crescente em baixa” - termos que logicamente implicam comparações
numéricas , sem nunca exporem explicitamente a base estatística para suas
afirmações. A quantificação também fez com que o surgimento baseado
exclusivamente no exemplo pareça um tanto desacreditado. Os críticos agora
exigem provas estatísticas de apoio, que mostrem que os exemplos são típicos e
não exceções à regra. Tais procedimentos melhoraram inqüestionavelmente a
força lógica e a capacidade de persuasão do argumento histórico. E não há
qualquer discordância que, sempre que for adequado, fecundo e possível a partir
dos registros disponíveis, o historiador deve levá-los em conta.
Existe, porém. uma diferença de gênero entre a quantificação artesanal feita por
um único pesquisador, amontoando números numa calculadora de mão e
montando tabelas e porcentagens simples, e o trabalho dos cliometristas. Estes se
especializam na reunião de enormes quantidades de dados por meio de equipes
de auxiliares, do uso do computador eletrônico para processá-los e da aplicação
de procedimentos matemáticos extremamente sofisticados aos resultados obtidos.
Têm-se levantado dúvidas sobre todos os estágios desse processo. Muitos
questionam se os dados históricos são suficientemente confiáveis para garantir
tais procedimentos e se pode confiar que as equipes de auxiliares aplicam
procedimentos uniformes de codificação a grandes quantidades de documentos
freqüentemente muito heterogêneos e mesmo ambíguos, se é de algum modo
possível confiar que todos os erros de codificação e programação foram
eliminados, e se o refinamento das fórmulas matemáticas e algébricas não acaba
sendo contraproducente, na medida em que confundem a maioria dos
historiadores. Finalmente, muitos se sentem perturbados pelo fato de ser
praticamente impossível verificar a confiabilidade dos resultados finais, visto que
têm de depender não de nota publicadas, mas de gravações computadorizadas de
propriedade particular, abstraídas, por uma vez, dos dados brutos.
Essas questões são reais e não desaparecerão. Todos nós sabemos de teses de
doutorado, de monografias ou comunicações publicadas que empregavam as
técnicas mais sofisticadas para provar o óbvio ou pretender provar o implausível.
Utilizando fórmulas e linguagens que tornam a metodologia inverificável para o
historiador comum. Os resultados às vezes combinam os defeitos da ilegibilidade
e da trivialidade. Todos nós sabemos de teses de doutorado que definham
inacabadas, pois o pesquisador não conseguiu manter sob seu controle intelectual
o mero volume de coisas apresentadas pelo computador, ou que gastou tanto
esforço para preparar os dados para a máquina que seu tempo, paciência e
dinheiro acabaram terminando. Uma conclusão clara é seguramente que, sempre
que possível, a amostragem manual é preferível e mais rápida do que passar o
universo inteiro por uma máquina, além de ser igualmente confiável. Todos nós
sabemos de projetos em que uma falha lógica no argumento ou a incapacidade de
usar o simples bom senso viciou ou tornou duvidosas muitas das conclusões.
Todos nós sabemos de outros projetos em que a falta de registro de parte de uma
informação no estágio de codificação levou à perda de um resultado importante.
Todos nós sabemos de outros em que as próprias fontes de informação são tão
inconfiáveis que podemos ter certeza de que pouco confiáveis serão as
conclusões baseadas em sua manipulação quantitativa. Os registros paroquiais
são um exemplo clássico, aos quais vem se dedicando um volume de trabalho
gigantesco em muitos países, e apenas parte dele é capaz de vir a produzir
resultados que valham a pena.
Apesar de suas realizações inqüestionáveis, não se pode negar que a
quantificação não respondeu às grandes esperanças de vinte anos atrás. A
maioria dos grandes problemas da história continuam tão insolúveis como sempre,
se não mais. O senso comum sobre as causas das revoluções inglesa, francesa
ou americana continua tão distante como sempre, apesar do enorme esforço
dedicado à elucidação de suas origens sociais e econômicas. Trinta anos de
pesquisa intensiva na história demográfica mais aumentaram do que diminuíram
nossa perplexidade. Não sabemos por que a população deixou de crescer em
inúmeras áreas da Europa entre 1640 e 1740: não sabemos por que ela voltou a
crescer em 1740. e nem mesmo se a causa foi o aumento da fecundidade ou o
declínio da mortalidade. A quantificação nos informou muito dobre as questões
sobre o quê da demografia histórica, mas, até agora. relativamente pouco sobre
os porquês. As grandes questões sobre a escravidão americana continuam tão
esquivas como sempre, apesar de ter-lhes sido dedicado um caos estudos mais
volumosos e sofisticados jamais elaborados, A publicação de suas descobertas,
longe de solucionar muitos problemas, apenas aumentou a temperatura do
debate. Ela teve o efeito benéfico de concentrar a atenção sobre problemas
importantes, tais como a dieta, a higiene. a saúde e a estrutura familiar dos negros
americanos sob a escravidão, mas também desviou a atenção dos efeitos
psicológicos tão ou mais importantes da escravidão sobre os senhores e os
escravos, simplesmente porque tais questões não podiam ser medidas por um
computador. As histórias urbanas estão cheias de estatísticas, mas as tendências
de mobilidade continuam obscuras. Hoje em dia, ninguém tem plena certeza se a
sociedade inglesa era mais aberta ou mais móvel do que a sociedade francesa
nos séculos XVII XVIII. ou nem mesmo se a nobreza ou a aristocracia estava
ascendendo ou decaindo na Inglaterra antes da Guerra Civil. Atualmente, a esse
respeito, nossa posição não é melhor do que a de James Harringtonita no século
XVII ou a de Vaudeville no século XIX.
Foram justamente aqueles projetos com as dotações de verbas mais pródigas, os
mais ambiciosos na coleta de grandes quantidades de dados por legiões de
pesquisadores remunerados. os mais cientificamente processados pela última
palavra na tecnologia eletrônica, os mais matematicamente sofisticados na
apresentação que até agora se revelaram como os mais decepcionantes. Hoje.
depois de vinte anos e milhões de dólares, libras e francos, o que há para
mostrar, pelo gasto de tanto tempo, trabalho e dinheiro, são apenas resultados
bastante modestos. Há pilhas enormes de folhas impressas esverdeadas juntando
pó nos gabinetes dos estudiosos: há muitos volumes gordos e
desesperadoramente maçantes, cheios de tabelas de números, equações
algébricas abstrusas e porcentagens levadas até duas casas decimais. Também
existem muitas novas descobertas valiosas e algumas grandes contribuições para
o conjunto relativamente pequeno de obras históricas de valor permanente. Mas,
de modo geral, a sofisticação dos métodos tem mostrado a tendência a superar a
confiabilidade dos dados ao passo que a utilidade dos resultados parece até certo
ponto estar numa proporção inversa à complexidade matemática da metodologia e
à escala grandiosa da coleta de dados.
Em qualquer análise em termos dos custos e benefícios, o retorno da história
computadorizada em grande escala tem, até agora, justificado apenas
ocasionalmente o investimento de tempo e dinheiro, e isso tem levado os
historiadores a buscarem outros métodos da investigar o passado, que lancem
mais luz com menos problemas. Em 1968, le Roy Ladurie profetizou que, nos
anos 1980, “o historiador que não for um programador não será nada”. A profecia
não se cumpriu, e muito menos pelo próprio profeta.
Os historiadores, portanto, foram obrigados a voltar ao princípio da
indeterminação, ao reconhecimento de que as variáveis são tão numerosas que,
na melhor das hipóteses, apenas generalizações de médio alcance são possíveis
na história, como sugeriu Robert Mentor há muito tempo atrás. O modelo macro-
econômico é um castelo no ar. e a “a história científica” é um
mito. Explicações monocausais simplesmente não funcionam. O emprego de
modelos de explicação em fede-baque, construídos em torno de afinidades
eletivas weberianas, parece oferecer instrumentos de melhor qualidade para
revelar algo da verdade fugidia sobre a causação histórica, especialmente se
abandonamos qualquer pretensão de que essa metodologia seja, em qualquer
sentido, científica.
A desilusão com o determinismo monocausal econômico ou demográfico com a
quantificação levou os historiadores a começarem a colocar um leque de questões
totalmente novas, muitas delas antes impedidas de se mostrarem devido à
preocupação com uma metodologia estrutural, coletiva e estatística específica. Um
número cada vez maior dos “novos historiadores” vem tentando agora descobrir o
que se passava na cabeça das pessoas no passado, e como era viver naqueles
tempos, questões estas que reconduzem inevitavelmente ao uso da narrativa.
Um sub-grupo significativo da grande escola francesa de historiadores, liderado
por Lucien Febvre, sempre considerou as transformações intelectuais,
psicológicas e culturais como variáveis independentes de importância central.
Mas, por muito tempo, eles constituíram uma minoria, que ficou para trás, num
distante refluxo, enquanto a maré da a história científica”, de conteúdo econômico
social, de organização estrutural e metodologia quantitativa, avançava
impetuosamente à frente deles. Agora. porém, os tópicos pelos quais se
interessavam de repente entraram na moda. No entanto, as perguntas levantadas
não são inteiramente as mesmas, visto que agora derivam freqüentemente da
antropologia. Na prática, se não também na teoria, a antropologia tende a ser uma
das disciplinas mais a-históricas, com sua falta de interesse pela transformação ao
longo do tempo. Não obstante, ela nos ensinou como é possível elucidar de
maneira brilhante um sistema social e um conjunto de valores em sua totalidade,
com o uso de um método intensivo de registrar em detalhes minuciosos um único
acontecimento. desde que seja situado com todo o cuidado em seu contexto
global, e com todo o cuidado analisado pelo seu significado cultural. O modelo
arquetípico dessa “descrição densa” é a exposição clássica de ClifTord Geertz
sobre uma briga de galos bilinesa. Infelizmente, nós historiadores não podemos
estar efetivamente presentes, com cadernos de anotações, gravadores e câmeras,
aos acontecimentos que descrevemos, mas podemos constantemente encontrar
uma multidão de testemunhas que nos digam como seriam eles. Assim, a primeira
causa para o ressurgimento da narrativa entre alguns dos “novos historiadores foi
a substituição da sociologia da economia pela antropologia. como a ciência social
de maior influência.
Uma das mudanças recentes mais impressionantes no conteúdo da história foi um
aumento bastante súbito do interesse gelos sentimentos, emoções.
padrões de comportamento, valores e estados de espírito. A este respeito. a
influência de antropólogos como Evans-Pritchard. Clifford Geertz. Marly Douglas
e Vitor Turner foi realmente muito grande. Embora a psico-história seja. até
o momento, uma área em larga medida catastrófica - um deserto juncado com
os destroços de refinados veículos de aço cromado que quebraram logo depois
de dar a partida, a própria psicologia também influiu sobre uma geração que
agora está voltando suas atenções para o desejo sexual, as relações familiares
e os elos emocionais. conforme afetam os indivíduos, e para as idéias. crenças
e costumes. conforme afetam o grupo.
Essa alteração na natureza das questões colocadas provavelmente também está
relacionada com c cenário contemporâneo dos anos 1970. Fui uma década em
que os ideais e interesses mais personalizados ganharam prioridade sobre os
assuntos públicos. em virtude da desilusão generalizada com as perspectivas de
mudança por meio da ação política. Portanto, é plausível estabelecer uma
conexão entre o súbito aumento do interesse por esses temas no passado e
preocupações semelhantes no presente.
Esse novo interesse pelas estruturas mentais foi estimulado pelo colapso da
história intelectual tradicional, tratada como uma espécie de caça livresca de
idéias remontando nas eras (que geralmente termina em Aristóteles ou Platão). Os
“grandes livros” eram estudados num vazio histórico, com pouco ou nenhum
esforço de situar os próprios autores ou seu vocabulário lingüístico em seus
verdadeiros quadros históricos. A história do pensamento político no ocidente está
agora sendo reescrita, basicamente por J.G.A.Pocock. Quentin Skinner e Bernard
Bailyn. com uma reconstrução laboriosa do contexto e significado preciso das
palavras e idéias no passado. e mostrando como mudaram de formas e cores no
decorrer do tempo. como camaleões, para se adaptarem a novas circunstâncias e
novas necessidades.
Simultaneamente. a tradicional história das idéias está se dirigindo para um estudo
sobre as transformações nos meios de comunicação e no público receptor. Surgiu
uma nova e próspera disciplina da história da imprensa. do livro e da
alfabetização. e de seus efeitos sobre a difusão de idéias e a

Uma outra razão adicional para que vários “novos historiadores” estejam voltando
à narrativa parece consistir na vontade de tornarem suas descobertas novamente
acessíveis a um público leitor inteligente, mas não especialista, muito disposto a
aprender o que revelam essas questões, métodos e dados inovadores, mas sem
estômago para tabelas estatísticas indigestas, argumentos analíticos áridos e
cheio de jargões. Os historiadores estruturais, analíticos e quantitativos estão
cada vez mais falando apenas entre eles, e com mais ninguém. Suas descobertas
aparecem em revistas profissionais ou em monografias tão caras, e com edições
tão reduzidas (menos de mil exemplares), que na prática são quase que
inteiramente compradas apenas por bibliotecas. E no entanto o sucesso de
periódicos históricos populares, como !liatorp Today e L'histoire, demonstra que
existe um grande público disposto a ouvir, e os “novos historiadores”
agora estão ansiosos em falar para essa audiência, em vez de deixar
que ela se alimente de manuais e biografias populares. As questões que
estão sendo colocadas pelos “novos historiadores são, afinal, as que nos
preocupam a todos atualmente, a natureza do poder, da autoridade e da liderança
carismática. a relação entre as instituições políticas e s padrões sociais e sistemas
de valores subjacentes, as atitudes frente à juventude, à velhice, à doença e à
morte; o sexo, o casamento e o concubinato; o nascimento, a contracepção e o
aborto; o trabalho , o lazer e o consumo desenfreado; a relação entre a religião, a
ciência e a magia como modelos explicativos da realidade; a força e a direção das
emoções do amor, medo, luxúria e ódio; o impacto de alfabetização e da
educação sobre a vida das pessoas e o modo de encarar o mundo; a importância
relativa atribuídas á diferentes grupos sociais, como a família, o parentesco, a
comunidade, a nação, a classe e a raça; a força e o significado do ritual, do
símbolo e do costume como formas de dar coesão a uma comunidade; as
abordagens morais e filosóficas do crime e do castigo; padrões de submissão e
surtos de igualitarismo; os conflitos estruturais entre classes ou grupos sociais; os
meios, possibilidades e limitações da mobilidade social; a natureza e o significado
do protesto popular e das esperanças milenaristas; as alterações no equilíbrio
ecológico entre o homem e a natureza, as causas e efeitos da doença. São todas
questões candentes na atualidade, e dizem respeito às massas, mais do que às
elites. Têm maior relação com nossas próprias vidas do que os efeitos de reis,
presidentes e generais mortos.

Como resultado da convergência dessas correntes, um número significativo dos


mais conhecidos expoentes da nova história” está atora voltando à modalidade
narrativa, antes desprezada. E no entanto os historiadores - e mesmo os editores -
ainda parecem um pouco constrangidos com isso. Em 1979. o Psb1uIsers Weekly -
um órgão da categoria - elogiou os méritos de um novo livro, uma estória sobre o
julgamento de Luís XVI, com essas curiosas palavras: A opção de Jordan pelo
tratamento narrativo, ao invés do tratamento erudito (grifo meu) … é um modelo de
clareza e síntese. O critico apreciou manifestamente o livro, mas achando que a
narrativa é, por definição, não-erudita. Quando um membro ilustre da escola da
‘nova história” escreve uma narrativa, seus amigos tendem a justificá-lo, dizendo:
“É claro, ele fez só pelo dinheiro”. Apesar dessas desculpas um tanto
envergonhadas, as tendências na historiografia, em conteúdo, método e
modalidade, são evidentes onde quer que se olhe.
Depois de definhar sem leitores durante quarenta anos, o livro pioneiro de Norbert
Elias sobre os costumes: The Civiliziiig Proceas foi de súbito traduzido para o
inglês e o francês. Theodore Zeldin escreveu uma história brilhante da França
moderna, em dois volumes, dentro de urna série de manuais, que ignora quase
todos os aspectos da história tradicional e concentra-se basicamente em emoções
e estudos de espírito. Philippe Ariés estudou reações ao trauma universal da
morte ao longo de um imenso período de tempo. A história da feitiçaria
subitamente converteu-se num setor em valorização em todos os países, o que
ocorreu igualmente com a história da família, incluindo a história da infância, da
juventude, da velhice, das mulheres e da sexualidade (estes dois últimos
constituindo tópicos em sério perigo de padecer por um excesso de esforço
intelectual). Um ótimo exemplo da trajetória que os estudos históricos vêm
tendendo a descrever nesses últimos vinte anos é o caso dos interesses de
pesquisa de Jean Delumeau. Ele iniciou em 1957 com um estudo de uma
sociedade (Roma); prosseguiu, em 1962, com um estudo de um produto
ecostônico (o alúmen’1: em 1971 sobre uma religião (o catolicismo); em 1976,
sobre um comportamento coletivo (te. Pay de Cocagne): finalmente. Em 1979,
sobre uma emoção (o medo).
A língua francesa tem uma palavra para descrever o novo tópico - mentalité -, mas
infelizmente não é muito definida, nem de fácil tradução para o inglês. Em toco
caso, o contar estórias, a narração circunstanciada em grande detalhe com um ou
mais “acontecimentos” baseados no depoimento de participantes e testemunhas
oculares, constitui nitidamente uma maneira de recapturar algo das manifestações
exteriores da mentalité do passado. A análise certamente continua a ser a parte
principal do empreendimento, baseado numa interpretação antropológica da
cultura que pretende ser sistemática e científica. Mas isso não pode ocultar o
papel do estudo da mentalité no ressurgimento de nodalidades não-analíticas na
escrita histórica, sendo uma delas o contar estórias.
Evidentemente, a narrativa não é a única maneira de escrever a história da
mentalité que veio a se tornar possível com a desilusão frente à análise estrutural.
Torne-se, por exemplo, a brilhantíssima reconstrução de um quadro mental
desaparecido. a evocação do mundo da Antigüidade tardia, por Peter Brown. Ele
deixa de lado as claras categorias analíticas costumeiras: a população, a
economia, a estrutura social, o sistema político, a cultura, e assim por diante. Ao
invés disso, Brown constrói um retrato de um época mais à maneira de um artista
pós-impressionista, lançando aqui e ali rudes manchas de cor que, se nos
afastamos o suficiente, criam uma assombrosa visão da realidade, mas,
examinadas de perto, dissolvem-se num borrão sem sentido. A deliberada
imprecisão, a abordagem pictórica, a íntima justaposição da história, literatura,
religião e arte, a preocupação pelo que se passava na cabeça das pessoas, são
todas características de uma nova forma de encarar a história. O método não é
narrativo, mas antes uma maneira pontilhista de escrever a história. Mas esta
também recebeu um estimulo a partir do novo e interesse peb menteJité, e se
tornou possível com o declínio da abordagem
analítica e estrutural, que foi tão dominante nos últimos trinta anos.
Houve até mesmo um ressurgimento da narração de um único acontecimento.
Georges Duby ousou fazer o que, há poucos anos atrás, seria inconcebível. Ele
dedicou um livro ao relato de uma única batalha Bouvines e por meio dela
esclareceu as principais características da sociedade feudal francesa na primeira
metade do século Xll. Cano Ginzburg nos deu um minucioso relato da cosmologia
de um obscuro e humilde moleiro do norte da Itália, do início do século XVII e
através dela procurou mostrar a perturbação intelectual e psicológica a nível
popular, provocada pela filtragem das idéias ‘la Reforma”. Emmanuel Le Roy
Ladurie pintou um quadro único e inesquecível da vida e morte, trabalho e sexo,
religião e costumes, numa aldeia dos Pireneus, no início do século XV. Montalilou
é significativo sob dois aspectos:
em primeiro lugar porque se tornou um dos maiores best-sellers de história do
século XX na trança: em segundo lugar, porque não conta uma estória direta
- não há estória -, mas vagueia pela cabeça das pessoas. Não é por acaso que é
esta, justamente, uma das maneiras pelas quais o romance moderno se distingue
dos romances de épocas anteriores. Mais recentemente, Le Roy Ladurie contou a
estónia de um único episódio cruento, em 1580, numa pequena vila no sul da
França, utilizando-o para revelar as contracorrentes de ódio que vinham
dilacerando o tecido social da vila. Carlo M. Cipcolla. que até então fora um dos
mais férreos entre os obstinados estruturalistas econômicos e demográficos,
acabou de publicar um livro mais interessado numa reconstrução evocativa das
reações pessoais à terrível crise de uma epidemia, do que restabelecimento de
estatísticas sobre a incidência do mal e a mortalidade. Pela primeira vez, ele conta
uma estória.

Eric Holsbawm descreveu a vida curta, desagradável e brutal dos rebeldes e


bandidos pelo mundo, de modo a definir a natureza e os objetivos de seus
“rebeldes primitivos” e “bandidos sociais”. Edward Thompson contou a estória na
Inglaterra, no começo do século XVIII, entre os caçadores clandestinos e as
autoridades na floresta de Windsoe, a fim de respaldar seu argumento sobre o
conflito entre plebeus e nobres naquela época. O último livro de Robert Darnton
conta como a grande Encyciopédie francesa veio a ser publicada, e com isso
lançou inúmeras luzes novas sobre o processo de difusão do pensamento
iluminista durante século XVIII. IncIusive os aspectos práticos da produção do livro
e os problemas de agradar a um mercado nacional - e internacional - de idéias.
Natahe Davis apresentou uma narrativa sobre quatro charivaris, isto é, práticas
ritualizadas de escarmento público, em Lyon e Genebra durante o século XVII, a
fim de mostrar o empenho da comunidade em impor padrões públicos de honra e
decoro.
O novo interesse pela mentalité foi, em si mesmo, um estímulo à volta a velhas
maneiras de escrever história. O relato de Keith Thomas sobre o conflito entre a
magia e a religião está montado em torno de um “princípio fecundo’, ao longo do
qual se alinham inúmeros exemplos e estórias. Meu recente livro sobre as
transformações na vida emocional da família inglesa é muito semelhante, se não
em uma realização, pelo menos em seus propósitos e método.
Todos os historiadores até aqui mencionados são estudiosos maduros. que por
muito tempo estiveram associados à “nova história”, levantando novas questões.
experimentando novos métodos e buscando novas fontes. Agora, estão voltando a
contar estórias. Há, porém, muita diferença entre suas estórias e as estórias dos
historiadores narrativos tradicionais. Em primeiro lugar, estão todos, quase sem
exceção, interessados nas vidas, sentimentos e comportamentos dos pobres e
obscuros, ao invés dos grandes e poderosos, segundo a análise continua a ser tão
essencial em seus métodos quanto a descrição, de modo que seus livros tendem
a passar, um pouco canhestramente. de uma modalidade para a outra. Em
terceiro, estão abrindo novas fontes, muitas vezes registros de tribunais penais
que utilizavam procedimentos do direito romano. visto que estes trazem
transcrições por escrito de depoimentos completos das testemunhas interrogadas
e examinadas. (O outro uso em voga dos registros criminais, para mapear o
aumento e o declínio quantitativos de vários tipos de transgressão, parece-me um
trabalho quase que
inteiramente inútil, pois o que está sendo contado não é o número de crimes
cometidos, mas o de criminosos que foram presos e processados, o que é uma
questão totalmente diferente. Não há por que supor que um mantenha com o outro
qualquer resquício constante ao longo do tempo.)
Em quarto lugar. frequentemente. contam suas estórias de maneira diferente da
de Homero, Dickens ou Balzac. Sob a influência do romance moderno e das ideias
freudianas, eles exploram escrupulosamente o subconsciente. ao invés de se
aferrarem aos fatos em si. E sob a influência dos antropólogos, tentam utilizar o
comportamento para rever sentidos simbólicos, eles contam a estória de uma
pessoa, um julgamento ou um episódio dramático, não por ele mesmo, mas para
lançar luz ao funcionamento interno de uma cultura e uma sociedade do passado.

Se estou certo em meu diagnóstico, o movimento em direção à narrativa por parte


dos “novos historiadores” marca o fim de uma era; o fim da tentativa de criar uma
explicação científica coerente sobre a transformação no passado. O determinismo
econômico e demográfico faliu frente às evidências, mas não surgiu nenhum
modelo determinista completo, baseado na política, na psicologia ou na cultura,
para ocupar seu lugar. 0 estruturalismo e o funcionalismo não se mostraram muito
melhores. A metodologia qualitativa se revelou um caniço bastante frágil, capaz de
responder apenas a um leque restrito de problemas. Levados a escolher entre
modelos estatísticos a priori do comportamento humano e uma compreensão
baseada na observação, na experiência, no julgamento e na intuição, alguns dos
“novos historiadores” agora tendem a recuar em direção à segunda modalidade de
interpretação do passado.
Embora o ressurgimento da modalidade narrativa por obra dos novos historiadores
seja um fenômeno muito recente, ele é apenas um pequeno filete em comparação
à vazão larga, constante e igualmente ilustrado de narrativas políticas descritivas
de historiadores mais tradicionais. Um exemplo recente que teve uma
considerável aclamação entre os eruditos é o livro de Simon Schama sobre a
política holandesa no século XVIII. Obras como esta foram tratadas, durante
décadas, com indiferença ou desdém quase indisfarçado pelos novos
historiadores sociais. Essa atitude não era muito justificável, mas em anos
recentes levou alguns dos historiadores tradicionais a adaptarem sua modalidade
descritiva a novas questões. Alguns deles já não tão preocupados com questões
do poder – e, portanto, com reis e primeiros-ministros, guerras e diplomacia mas,
como os “novos historiadores”, estão voltando a atenção para a vida privada de
pessoas totalmente obscuras. A causa dessa corrente, se é que é uma corrente,
não é clara, mas a inspiração parece ser a vontade de contar uma estória e, com
isso, revelar as peculiaridades da personalidade e a interioridade das coisas numa
época e numa cultura diferentes. Alguns historiadores tradicionais já fazem isso há
algum tempo. Em 1958, G. R. Elton publicou um livro composto de estórias de
tumultos e agressões físicas na Inglaterra quinhentista, extraídas dos registros da
Câmara Estrelada. Em 1946, Hug Trevor-Roper reconstruiu de maneira brilhante
os últimos dias de Hitler. Recentemente, ele investigou a carreira extraordinária de
um inglês relativamente obscuro, colecionador de manuscritos, vigarista e
pornógrafo secreto, que morou na China nos primeiros anos deste século. O
propósito de escrever essa divertida invencionice era, pelo visto, o puro prazer em
contar estórias por elas mesmas, seguindo e capturando um espécime histórico
bizarro. A técnica é quase igual à que foi utilizada, anos atrás, por A.J.A. Symons,
em seu clássico The Quest for Corvo, ao passo que a motivação parece muito
semelhante à que inspira Richart Cobb, ao registrar em horríveis detalhes a vida e
morte miserável de criminosos, prostitutas e outros desajustados sociais no
submundo da França revolucionária.
Muito diferentes em conteúdo, método e objetivo são os textos da nova escola
britânica de jovens empiristas antiquaristas. Eles escrevem narrativas políticas
pormenorizadas, que implicitamente negam que exista qualquer sentido profundo
na história, além das excentricidades fortuitas do destino e da personalidade,
liderados por Conrad Russell e John Kenyon, impelidos por Geoffrey Elton, agora
estão ocupados em tentar remover qualquer sentido ideológico ou idealista das
duas revoluções seiscentistas inglesas. Não há dúvida que esses ou outros como
eles, logo voltarão suas atenções para outra parte. Embora suas premissas nunca
sejam apresentadas explicitamente, suas abordagens são puramente neo-
Namieristas, numa época em que o namierismo, enquanto forma de encarar a
política setecentista inglesa está morrendo. Fica-se a imaginar se a atitude deles
em relação à história política não pode brotar subconscientemente de um
sentimento de desilusão quanto à capacidade do sistema parlamentar
contemporâneo em lutar contra o inexorável declínio econômico político da Grã-
Bretanha. Seja como for, são cronistas muito eruditos e inteligentes dos fatos
miúdos da “histoire événementieli”, e assim formam uma das várias correntes que
alimentam o ressurgimento da narrativa.
A razão fundamental para a passagem da notabilidade analítica para a
modalidade descritiva, entre os novos historiadores”, é uma grande mudança na
postura quanto ao que constitui o tema central da história. E isso, por sua vez,
depende de pressupostos filosóficos anteriores sobre o papel do livre- arbítrio
humano em sua interação com as forças da natureza. Os dois polos opostos de
pensamento ficam mais claros com citações respectivas. Em 1973, Emmanuel Le
Roy Ladurie deu a uma seção de um volume de seus ensaios o título de “História
sem Gente” . Em contraposição, há meio século atrás, Lucien Febvre anunciava:
“minha presa é o homem”, e há 25 anos atrás Hugh Trevor-Roper, em sua
palestra inaugural, insistiu junto aos historiadores sobre “o estudo não das
circunstâncias, mas do homem nas circunstâncias”. Hoje, o ideal de história de
Febre está se difundindo em muitos círculos, ao mesmo tempo em que continuam
a sair do prelo estudos estruturais analíticos sobre forças impessoais. Portanto,
agora os historiadores estão se dividindo em quatro grupos: os velhos
historiadores narrativos, basicamente biógrafos e historiadores políticos; os
criometristas, que continuam a agir como dopados em estatísticas; os obstinados
historiadores sociais, ainda ocupados em analisar estruturas impessoais; e os
historiadores da mentalité, agora perseguindo ideais, valores, quadros mentais e
padrões de comportamento pessoal íntimo - quanto mais íntimo, melhor.
No entanto, a adoção da minuciosa narrativa descritiva ou da detalhada biografia
individual, por parte dos historiadores da mentalité, não deixa de ter seus
problemas. É a velha questão de que o argumento por exemplos selecionados é
filosoficamente ,inconvincente, um recurso retórico e não uma prova científica.
Recentemente, Carlo Ginzburg formulou bem a armadilha historiográfica
fundamental em que nos debatemos: “A orientação quantitativa e anti-
antropocêntrica das ciências da natureza a partir de Galileu colocou as ciências
humanas num desagradável dilema: ou assumir um estatuto científico frágil para
chegar a resultados relevantes, ou assumir um estatuto científico forte para chegar
a resultados de pouca relevância” . A decepção com a segunda postura está
provocando um retorno à primeira. Em decorrência disso, o que agora está
ocorrendo é uma ampliação do exemplo selecionado - agora, muitas vezes é um
único exemplo pormenorizado - convertendo-o numa das modalidades correntes
de se escrever história. Num certo sentido, é apenas um prolongamento lógico do
imenso sucesso dos estudos de história local, que tomam como tema não uma
sociedade inteira, mas apenas um segmento - uma província, uma cidade, e
mesmo uma aldeia. A história total só parece possível se se toma um microcosmo,
e os resultados têm com frequência contribuído mais para esclarecer e explicar o
passado do que todos os estudos anteriores ou contemporâneos, baseados nos
arquivos do governo central. Num outro sentido, porém, a nova corrente é a
antítese dos estudos de história local, visto abandonar a história total de uma
sociedade, por menor que seja, como algo impossível, e defender a estória de
uma única célula.
O segundo problema que deriva do uso do exemplo pormenorizado pata ilustrar a
mentalité é como distinguir entre o normal e o excêntrico. Como agora nossa
presa é o homem, a narração de uma estória muito detalhada de um único
incidente ou personalidade pode ser elucidativa e, ao mesmo tempo, constituir
uma boa leitura. Mas apenas se as estórias não se limitam a contar um caso
impressionante, porém essencialmente avulso, de algum episódio dramático de
amotinamento ou saque, ou a vida de algum plebeu, místico ou mendigo
excêntrico, e sim são escolhidas pela luz que podem lançar sobre certos aspectos
de uma cultura passada. Isso significa que devem ser típicas, mas, por outro lado,
a ampla utilização de registros judiciais dificulta muita a solução dessa questão da
tipicidade. As pessoas levadas ao tribunal são quase que por definição, atípicas,
mas o mundo exposto tão desnudadamente no depoimento das testemunhas não
o é necessariamente O seguro, portanto é examinar os documentos, não tanto
pelas provas que oferecem sobre o comportamento excêntrico do acusado, e sim
pela luz que lançam sobre a vida e as opiniões de quem veio a se envolver no
incidente em questão.

O terceiro problema diz respeito à interpretação, e é de solução ainda mais difícil.


Desde que o historiador permaneça ciente dos riscos envolvidos. contar estórias é
talvez um maneira tão boa quanto qualquer outra para obter um vislumbre íntimo
do homem no passado. para tentar entrar em soa cabeça. O problema é que. se
consegue entrar, o natrador vai precisar de toda a habilidade, experiência e
conhecimento adquiridos na prática da história analítica da sociedade, economia e
cultura. s quiser oferecer uma explicação plausível sobre algumas das coisas
etranh(ssimas que é capaz de encontrar. Talvez também precise de um pouco de
psicologia amadorística para ajudá-lo. mas a psicologia amadorística é um
material extremamente complicado para se conseguir manejá-la com êxito- alguns
diriam que impossível.

Um outro perigo evidente é que o ressurgimento da narrativa pode levar a uma


volta ao puro antiquarismo, ao contar estórias por elas mesmas. Outro ainda é que
ela concentrará a atenção sobre o sensacional, assim obscurecendo a insipidez e
monotonia da vida da imensa maioria das pessoais. Tanto Trevor-Roper quanto
Richard Cobb oferecem uma leitura extremamente divertida. mas estão
largamente expostos a críticas sob esses dois aspectos. Muitos praticantes da
nova modalidade, inclusive Cobb, Hobsbawm, Thompson, Le Roy Ladurie e
Trevor-Roper (e eu mesmo) sentem-se claramente fascinados por estórias de
violência e sexo, que tocam nos instintos voyeuristas de tolos nós. Por outro lado,
pode-se argumentar que o sexo e a violência são partes integrantes de toda
experiência humana, e portanto é tão sensato e defensável explorar seu impacto
sobre os indivíduos no passado, quanto querer ver tal material nos filmes e
programas de televisão contemporâneos.

A tendência para a narrativa levanta problemas irresolvidos sobre a maneira


que formaremos nossos graduandos no futuro - supondo que haja algum para
formar. Nas antigas artes da retórica? Na crítica dos textos? Em semiótica? Em
antropologia simbólica? Em Psicologia? Ou nas técnicas de análise das estruturas
sociais e econômicas que viemos praticando durante uma geração? Portanto,
continua em aberto se essa inesperada ressurreição da modalidade narrativa, por
obra de tantos praticantes de proa da nova história, se mostrará boa ou ruim para
o futuro da profissão.

Em 1972, Le Roy Ladurie escreveu confiante: “A historiografla atual, com sua


preferência pelo quantificável, pelo estatístico e estrutural, foi obrigada a eliminar
para sobreviver. Nas últimas décadas, ela praticamente condenou à morte a
história narrativa dos acontecimentos e a biografia individual”. É cedo demais para
rezar uma oração fúnebre sobre o cadáver decadente da história analítica,
estrutural e quantitativa, que continua a vicejar, e mesmo a crescer, caso a
tendência nas teses de doutorado americanas seja algum guia para isso. Não
obstante, nesta terceira década, a história narrativa e a biografia individual estão
dando mostras visíveis de estarem voltando dentre os mortos. Nenhuma delas
parece se manter igual ao que eram antes de seu pretenso falecimento, mas é
fácil identificá-las como variantes do mesmo gênero.

É claro que uma única palavra como ”narrativa”, principalmente tendo uma história
tão complicada por detrás, é inadequada para descrever o que, na verdade,
constitui um amplo leque de transformações na natureza do discurso histórico.
Existem sinais de mudança quanto à questão central na história, desde
circunstâncias que cercam o homem até o homem nas circunstâncias: nos
problemas estudados, desde os econômicos e demográficos aos culturais e
emocionais; nas fontes básicas de influência, desde a sociologia, economia e
demografla à antropologia e psicologia; no tema, do grupo ao individuo; nos
modelos explicativos da transformação histórica, desde os estratificados e
monocausais aos interligados e multicausais; na metodologia, desde a
quantificação em série ao exemplo individual; na organização, da analítica à
descritiva: na conceitualização da função do historiador, da científica à literária.
Essas mudanças multifacetadas em conteúdo, objetivo, método e estilo de
escrever história, que estão ocorrendo todas ao mesmo tempo, têm claras
afinidades eletivas entre si: todas se encaixam perfeitamente. Nenhuma palavra é
capaz, sozinha, de resumi-las todas, e assim, por enquanto, a “narrativa” terá de
servir como uma senha taquigráfica para tudo o que está se passando.

Tradução de Denise Bottmann Este texto foi originalmente publicado em


Past and Present, no 85, Nov. 1979, pp. 3-24
O RESSURGIMENTO DA NARRATIVA: ALGUNS COMENTÁRIOS

Eric J. Hobsbawn

Lawrence Stone acredita que há um ressurgimento da “história narrativa, porque


houve um declínio na história empenhada em responder “as grandes questões
sobre o porque” na “história científica” generalizante. Isso, por sua vez, parece-lhe
devido à desilusão com os modelos deterministas fundamentalmente econômicos
de explicação histórica, marxistas ou outros, que tenderam a dominar nos anos
pós-guerra: ao menor engajamento ideológico dos intelectuais ocidentais: à
experiência contemporânea que nos fez lembrar que a decisão e a ação políticas
podem moldar a história, e à incapacidade da “história quantitativa” (outra
pretendente ao estatuto “científico”) em cumprir suas promessas. Neste
argumento estão envolvidas duas questões que vou grosseiramente simplicar ao
extremo: o que vem acontecendo na historiografia e como explicar esses
desenvolvimentos? Como é comumente aceito que na história, “os fatos” são
sempre selecionados, moldados e talvez distorcidos pelo historiador que os
observa, há um elemento de parti pris. para não dizer de autobiografia intelectual
no tratamento de Stone sobre essas questões, bem como em meus comentários
sobre ele.
Penso que podemos concordar que os vinte anos que se seguiram à
Segunda Guerra Mundial presenciaram uma agudo declínio na história política e
religiosa, no emprego das “idéias” como explicação histórica, e um recurso notável
à história sócio-econômica e a explicação histórica em termos de “forças sociais”,
como Momigliano observou já em 1954. Quer as qualifiquem os ou não de
“econômico-deterministas”, essas correntes historiográficas se tornaram influentes
em alguns casos dominantes nos principais centros ocidentais de historiografia,
para não mencionar, por outras razões, os centros orientais. Também podemos
concordar que, em anos recentes, tem ocorrido uma diversificação considerável e
um acentuado redespertar do interesse por temas que eram bem mais marginais
às principais preocupações aos que estavam de fora e que, naqueles anos,
passariam a integrar a profissão histórica, embora esses temas nunca tenham
sido negligenciados. Afinal, Braudel escreveu não só sobre o Mediterrâneo, mas
também sobre Filipe II e a monografia de Le Roy Ladurie sobre Le Carnaval de
Romans de 1580 é antecedida por um relato muito mais curto, mas extremamente
arguto, do mesmo episódio em seu Les Paysans du Languedoc. Se historiadores
marxistas dos anos 1970 escrevem livros inteiros sobre o papel de mitos radical-
nacionais, como a lenda do Madoc galês, pelo menos Christopher HilI, por outro
lado, escreveu um artigo fundamental sobre o mito do Jugo Normando no começo
dos anos 1950. Mesmo assim, houve provavelmente uma mudança.
É difícil determinar se essa mudança chega a constituir um ressurgimento
da história narrativa tal como é definida por Stone (sendo basicamente um
ordenamento cronológico do material em “uma única estória coerente, embora
possuindo sub-tramas” e uma concentração “sobre o homem, e não as
circunstâncias”). visto que Stone evita deliberadamente um exame quantitativo e
se concentra em “uma parcela muito reduzida, mas desproporcionalmente
destacada da profissão histórica como um todo”. No entanto, existem indicações
de que a velha vanguarda histórica já não rejeita, despreza e combate a
antiquada “história dos fatos” ou mesmo a história biográfica, como costumavam
fazer alguns. O próprio Fernand Braudel fez um elogio irrestrito a uma iniciativa
marcadamente tradicional na história narrativa popular, qual seja, a tentativa de
Claude Manceron de apresentar as origens da Revolução Francesa através de
uma série de biografias sobrepostas de contemporâneos, grandes ou humildes.
Por outro lado a minoria de 0historiadores cujos interesses supostamente
transformados são examinados por Stone, não se transformou com uma
passagem para a história narrativa. Se deixamos de lado os conservadores ou
neo-conservadores historiográficos deliberados, como os “empiristas antiquaristas”
ingleses, há muito pouco de história narrativa simples entre as obras citadas ou
referidas por Stone. Para quase todos eles o acontecimento, o indivíduo, e mesmo
a reconstrução de algum estado de espírito, o modo de pensar do passado, não
são fins em si mesmos, mas constituem o meio de esclarecer alguma questão
mais abrangente, que vai muito além da estória particular e seus personagens.
Em suma, os historiadores que continuam a acreditar na possibilidade de
generalizações acerca das sociedades humanas e seu desenvolvimento,
continuam também a se interessar pelas “grandes perguntas sobre os porquês”,
embora por vezes possam enfocar questões diferentes das que recebiam sua
atenção há vinte ou trinta anos atrás. Na verdade, não existe nenhuma prova de
que tais historiadores - os que constituem a principal preocupação de Stone -
tenham abandonado “a tentativa de criar uma explicação....coerente da
transformação no passado”. Se eles (ou nós) também consideram sua tentativa
como “científica” é uma questão que certamente dependerá do que entendemos
por “ciência”, mas não precisamos entrar nessa discussão sobre rótulos. Além
disso, duvido muito que esses historiadores achem que estejam sendo “obrigados
a voltar ao princípio da indeterminação”, assim como Marx não achava que seus
textos sobre Luís Napoleão fossem incompatíveis com a concepção materialistas
da história.
Sem dúvida existem historiadores que desistiram de tais tentativas, e
certamente há quem os critique, talvez com um ardor acentuado por um
engajamento ideológico. (Quer o marxismo tenha sofrido ou não um declínio
intelectual, é difícil notar um grande amudecimento na controvérsia ideológica
entre os historiadores ocidentais, embora os participantes e as questões
específicas possam ter mudado nesses vinte anos). A história neo-conservadora
provavelmente ganhou terreno, pelo menos na Grã-Bretanha, tanto sob a forma
dos “jovens empiristas antiquaristas’ que “escrevem narrativas políticas
pormenorizadas, que implicitamente nega que exista qualquer sentido profundo na
história, além das excentricidades fortuitas do destino e da personalidade” .
quanto sob a forma de obras como o admirável mergulho de Theodore Zeldin (e
Richard Cobhr) naquelas camadas do passado para as quais “quase todos os
aspectos da história tradicionalista” são despropositedos,’ inclusive a resposta a
questões1° Provavelmente também ganhou terren( o que e poderia chamar de
história esquerdista anti-intelectual. Mas não é com isso que Stone está
interessado, a não ser muito tangencialmente.
Como, então, podemos explicar os deslocamentos nos temas e interesses
históricos, na medida em que tenham ocorrido ou estejam ocorrendo?
Uma das possibilidades é que um elemento neles reflete a considerável ampliação
do campo da história nos últimos vinte anos, exemplificada pelo surgimento da
“história social”, esse repositório amorfo para tudo, desde alterações no físico
humano até os símbolos e rituais, e principalmente para a vida de todas as
pessoas, de mendigos a imperadores. Como observou BraudeI, essa histoíre
obscure de tout le monde” é “a história para a qual, de diferentes maneiras, tende
toda historiografia no presente”. Aqui não é o lugar para especular sobre as razões
dessa grande ampliação do campo, que certamente não se choca com a tentativa’
de criar uma explicação coerente do passado. Mas ela realmente aumenta a
dificuldade técnica de se escrever história. Como apresentar essas
complexidades? Não admira que os historiadores experimentem diferentes formas
de tal apresentação, incluindo notadamente os que tomam de empréstimo as
antigas técnicas da literatura (que faz suas próprias tentativas ao expor Lo
Comédie Humainc) e também dos meios áudio-visuais modernos, dos quais todos,
à exceção dos mais velhos entre nós, estão imbuídos. O que Stone chama de
técnicas pontilhistas são, pelo menos em parte, tentativas de resolver esses
problemas técnicos de apresentação.
Tais experiências são particularmente necessárias para aquela parte da história
que não pode ser subsumida à “análise” (ou à rejeição da análise), e bastante
negligenciada por Stone, qual seja, a síntese. O problema de reunir as várias
manifestações do pensamento e ação humana num período específico não é novo
nem desconhecido. Nenhuma história da Inglaterra sob Jaime que omita Bacon,
ou trate-o exclusivamente como advogado, político ou figura da história da ciência
cii da literatura, há de ser satisfatória. Ademais, isso é reconhecido mesmo pelos
hstoriadores mais convencionais, mesmo quando suas soluções (um capítulo ou
dois sobre ciência, literatura, educação ou alguma outra coisa, em apêndice a
:orpo principal do texto polítiro-institucional) são
insatisfatórias. Mas, quanto maior o leque de atividades humanas aceito como
legítima preocupação do historiador, com tanta maior clareza entende-se a
necessidade de estabelecer conexões sistemáticas entre elas, e tanto maior a
dificuldade de alcançar uma síntese. Naturalmente, isso é muito mais do que um
problema técnico de apresentação, mas também consiste nisso, mesmo os que
continuam a se guiar em suas análises por algo semelhante ao modelo
“hierárquico em três terços” da base e das superestruturas, rejeitado por Stone,
podem considerá-lo um guia impróprio para a apresentação, embora
provavelmente seja menos impróprio do que uma pura narrativa cronológica.
Deixando de lado os problemas da apresentação e da síntese, também pode se
sugerir duas razões mais substanciais para uma mudança. A primeira é o próprio
sucesso dos “novos historiadores nas décadas pós-guerra. Ele foi alcançado por
uma deliberada simplificação metodológica, a concentração sobre o que era tido
como a base e os determinantes sócio-econômicos da história, às expensas da
história narrativa tradicional - por vezes, como na luta francesa contra a “história
fatual”, em confronto direto com ela. Embora existissem alguns reducionistas
economistas extremados, e outros que descartavam as pessoas e os
acontecimentos como pequenas ondulações negligenciávis na longue durée da
structure e da conjoncture. tal extremismo não era compartilhado por todos nem
nos Annales. nem entre os marxistas que principalmente na Grã-Bretanha nunca
perderam o interesse pelos acontecimentos ou pela cultura, e nunca consideraram
a “superestrutura” em dependência total e constante em relação à “base”. Mas o
próprio êxito de obras como as de Braudel, Goubert e Le Roy Ladurie. destacadas
por Stone. não só deram aos “novos” historiadores a liberdade para se concentrar
em aspectos da história até então deliberadamente abandonados, como também
promovem seu lugar na agenda dos “novos” historiadores. Como o eminente
Annalité Le Goff assinalou há vários anos atrás, ‘a história política iria
gradualmente retornar com vigor tomando de empréstimo os métodos, o espírito e
a abordagem teórica das mesmas ciências sociais que a haviam impelido para o
pano de fundo’. Pode-se considerar a nova história dos homens e mentalidades,
ideias e acontecimentos, mais como uma complementação do que como uma
suplantação da análise das tendências e estruturas sócio-econômicas.

Mas, uma vez voltando a tais itens de suas agendas, os historiadores podem
preferir orientar sua explicação coerente da transformação no passado de uma
maneira, por assim dizer, ecológica, ao invés de geológica. Podem preferir
começar pelo estudo de uma “situação” que encarna e exemplifica a estrutura
estratificada de uma sociedade, mas concentrando o pensamento nas
complexidades e interconexões da história efetiva, e não tanto no estudo da
estrutura em si, principalmente se, para tanto, podem se apoiar em parte sobre
obras anteriores. É o que, como reconhece Stone, encontra-se na origem da
admiração de alguns historiadores por trabalhos como a “leitura atenta” de Clifford
Geertz sobre uma rinha balinesa de galos. Isso não supõe necessariamente uma
escolha entre a monocausalidade e a multicausalidade, e certamente não significa
nenhum conflito entre um modelo onde alguns determinantes históricos são tidos
como mais poderosos do que outros, e o reconhecimento de interconexões, tanto
verticais quanto horizontais. Uma situação ”pode ser um ponto de partida
conveniente, como no estudo de Ginzburg sobre a ideologia popular, através do
caso de um único aldeão ateu do século XVI ou de um único grupo de
camponeses do Friuli, acusados de feitiçaria”. Esses tópicos também poderiam ser
abordados de outras maneiras. Pode ser um ponto de partida necessário em
outros casos, como no belo estudo de Agulhon sobre o modo como aldeões
franceses, num determinado tempo espaço, converteram-se do tradicionalismo
católico ao republicanismo militante. De qualquer forma, é provável que os
historiadores, para certas finalidades, escolham-na como ponto de partida.

Assim, não há nenhuma contradição necessária entre Les Paysans du Languedoc


e Montaillou de Le Roy Ladurie, como tampouco entre as obras gerais de Duby
sobre a sociedade feudal e sua monografia sobre a batalha de Bouvines, ou entre
The Making of the English Working Class ‘e Whigs and Hunters de E.P.
Thompson”. Não há nada de novo em escolher olhar o mundo por um
microscópio, ao invés de um telescópio. Na medida em que concordamos que
estamos estudando o mesmo cosmo, a opção entre o microcosmo e o
macrocosmo é uma questão de escolha da técnica adequada. É significativo que
um maior número de historiadores atualmente considere o microscópio muito útil,
mas isso não significa necessariamente que rejeitem os telescópios como coisa
ultrapassada. Mesmo os historiadores de mentalité, esse termo vago, que abrange
tudo e que Stone, talvez sabiamente, não tenta elucidar, não abandonam total ou
majoritariamente a visão abrangente. Esta é, pelo menos, uma lição que
aprenderam com os antropólogos.

Essas observações explicam o “amplo leque de transformações na


natureza do discurso histórico”, conforme diz Stone? Talvez não. No entanto, elas
mostram que é possível explicar boa parte de seu levantamento como a
continuação dos empreendimentos históricos do passado por outros meios, e não
como provas de sua falência. Não se pretende negar que alguns historiadores
consideram-nos falidos ou indesejáveis, e consequentemente querem modificar
seus discursos, por várias razões, algumas intelectualmente duvidosas, outras
dignas de serem levadas a sério. É visível que alguns historiadores passaram das
“circunstâncias” para os “homens” (inclusive as mulheres), ou descobriram que um
simples modelo base/superestrutura e a história econômica não são suficientes,
ou ainda - visto que os resultados de tais abordagens foram muito consideráveis -
já não o são mais. Alguns podem ter se convencido de que existe uma
incompatibilidade entre suas funções “científicas” e “literárias”. Mas não é
necessário analisar os atuais estilos na história exclusivamente como uma rejeição
do passado, e na medida em que não podem ser analisadas inteiramente nestes
termos, não será o caso.

Todos estamos ansiosos em descobrir para onde estão indo os


historiadores. O ensaio de Stone deve ser saudado como uma tentativa nesse
sentido. No entanto, ele não é satisfatório. Apesar de suas negativas, o ensaio
realmente mescla o mapeamento de “transformações observadas no estilo
histórico” com “juízos de valor sobre as modalidades boas e as não tão boas de
escrita histórica”, principalmente sobre as não tão boas. Penso que é uma pena,
não porque eu discorde dele sobre “o princípio da indeterminação” e a
generalização histórica, mas sim porque se o argumento é equivocado, o
diagnóstico das “transformações no discurso histórico” feito segundo os termos
desse argumento também há de ser impróprio. A tentação é imitar o “Stone”
irlandês lendário que, quando o viajante lhe perguntou sobre o caminho para
Ballynahinch, parou, ponderou e respondeu:

“Se eu fosse você, de jeito nenhum começaria por aqui”