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Literatura e Personagem

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Conceito de Literatura

Geralmente, quando nos referimos à literatura, pensamos no que


tradicionalmente se costuma chamar “belas letras” ou “beletrística”.
Trata-se, evidentemente, só de uma parcela da literatura. Na acepção
lata, literatura é tudo o que aparece fixado por meio de letras — obras
científicas, reportagens, notícias, textos de ‘propaganda, livros
didáticos, receitas de cozinha etc. Dentro dêste vasto campo das letras,
as belas letras representam um setor restrito. Seu traço distintivo
parece ser menos a beleza das letras do que seu caráter fictício ou
imaginário1. A delimitação do campo da beletrística pelo caráter
ficcional ou imaginário tem a vantagem de basear-se em momentos de
“lógica literária” que, na maioria dos casos, podem ser verificados com
certo rigor, sem que seja necessário recorrer a valorizações estéticas.
Contudo o critério do caráter ficcional ou imaginário não satifaz
inteiramenente o propósito de delimitar o campo da literatura no
sentido restrito. A literatura de cordel tem caráter ficcional, mas não se
pode dizer o mesmo dos Sermões do Padre Vieira, nem dos escritos de
Pascal, nem provàvelmente dos diários de Gide ou Kafka. Será ficção o
poema didático De rerum natura, de Lucrécio? No entanto, nenhum
historiador da literatura hesitará em eliminar das suas obras os
romances triviais de baixo entretenimento e em nelas acolher os
escritos mencionados. Parece portanto impossível renunciar por inteiro

1
O significado dêste têrmo, no sentido usado neste trabalho, se esclarecerá mais adiante, sem que haja
qualquer pretensão de uma abordagem ampla e profunda dêste conceito tradicional, desde a antiguidade
objeto de muitas discussões. Contribuições recentes para a sua análise encontram-se nas obras de 3.-P.
Sartre, L’Imagination e L’Imaginaire, Roman Ingsrden, Das literarische Kunstwerk (A obra-de-arte
literária) e Untersuchungen zur Ontol,ogle der Kunst (Investigações acêrca da ontologia da arte) M.
Dufreune, Phénoménologje de l’expérlence esthétique — tôdas baseadas nos métodos de E. Husseri.
a critérios de valorização, principalmente estética, que como tais não
atingem objetividade científica embora se possa ao menos postular certo
consenso universal.

A Estrutura da Obra Literária

A estrutura de um texto qualquer, ficcional ou não, de valor


estético ou não, compõe-se de uma série de planos, dos quais o único
real, sensivelmente dado, é o dos sinais tipográficos impressos no papel.
Mas êste plano, embora essencial à fixação da obra literária, não tem
função específica na sua constituição, a não ser que se trate de um
texto concretista. No nexo dêste trabalho, êste plano deve ser pôsto de
lado, assim como tôdas as considerações sôbre tendências literárias
recentíssimas, cuja conceituação ainda se encontra em plena
elaboração.
Como camadas já irreais por não terem autonomia ôntica, necessitando
da atividade concretizadora e atualizadora do apreciador adequado —
encontramos as seguintes: a dos fonemas e das configurações sonoras
(orações), “percebidas” apenas pelo ouvinte interior, quando se lê o
texto, mas diretamente dadas quando o texto é recitado; a das unidades
significativas de vários graus, constituídas pelas orações; graças a estas
unidades, são (projetadas através de determinadas operações lógicas,
“contextos objectuais” (Sachverhalte), isto é, certas relações atribuídas
aos objetos e suas qualidades (“a rosa é vermelha”; “da flor emana um
perfume”; “a roda gira”). Êstes contextos objectuais determinam as
“objectualidades”, por exemplo, as teses de uma obra científica ou o
mundo imaginário de um poema ou romance.
Mercê dos contextos ôbjectuais, constitui-se um plano intermediário de
certos “aspectos esquematizados” que, quando especialmente
preparados, determinam concretizações especificas do leitor. Quando
vemos uma bola de bilhar deslizando sôbre o pano verde, “vivenciamos”