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PERDIDO NO MEIO:

A CRISE DA MEIA-IDADE E A GRAÇA DE DEUS

Traduzido do original em inglês: Lost in the Middle: Midlife and the grace of God, por Paul
David Tripp
Copyright © 2004 Por Paul David Tripp

Publicado originalmente por Shepherd Press


PO Box 24
Wapwallopen, PA 18660
www.shepherdpress.com
Copyright © 2014 Editora Fiel
Primeira edição em português: 2016

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica
Literária
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES,
COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Versão bíblica utilizada Almeida Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil

Diretor: James Richard Denham III


Editor: Tiago José dos Santos Filho
Tradutor: João Paulo Tomas de Aquino
Revisor: Márcia Gomes
Diagramação: Rubner Durais
Capa: Rubner Durais
Ebook: Yuri Freire

ISBN: 978-85-8132-386-2

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

T836p Tripp, Paul David, 1950-


Perdido no meio : a crise da meia-idade e a graça de Deus /
Paul David Tripp ; [tradução: João Paulo Tomas de Aquino].
– São José dos Campos, SP : Fiel, 2016.
2Mb ; ePUB
Tradução de: Lost in the middle: midlife and the grace of
God.
ISBN 978-85-8132-386-2
1. Pessoas de meia-idade – Direcionamentos para vida
cristã. 2. Crise de meia-idade – Aspectos religiosos. I. Título.
CDD: 248.84

Caixa Postal, 1601


CEP 12230-971
São José dos Campos-
SP
PABX.: (12) 3919-9999
www.editorafiel.com.br
Para Dave e Ed

Vocês tem sido meus amigos,


professores e parceiros de ministério por 20 anos.
Sou grato pelas diversas formas em que me ajudaram
a ver, pensar e ouvir. Sou grato principalmente
pela maneira que vocês me ajudaram a
crescer em amor e apreciação
pelo meu Senhor.
SUMÁRIO
Prefácio: Uma Nova Consciência
Introdução: A Bíblia e a Meia-idade
1 – Meia-idade: um retrato
2 – Dois salmos da meia-idade
3 – A morte da invencibilidade
4 – As folhas caem das árvores
5 – Torres até o céu
6 – Perdido no meio: a história de Don
7 – Fé dolorosa: a história de Deus e o sofrimento
8 – Posso falar com o gerente, por favor?
9 – Bezerros de ouro
10 – Encontrando o verdadeiro você
11 – Último capítulo, primeiros valores
12 – A graça é maior
PREFÁCIO

UMA NOVA CONSCIÊNCIA

Eu não acredito que as pessoas envelheçam.


Eu acho que o que acontece cedo na vida é que, em uma certa idade, as pessoas
param e ficam estagnadas. — T. S. ELIOT

Ainda não há cura para o aniversário. — JOHN GLENN

Eu gosto de estar ocupado. Não gosto de analisar tudo, pois isso


atrapalha o fazer. Para mim, um dia de atividade frenética empilha
sobre o outro, dia após dia, até que os dias tenham se tornado em
semanas, as semanas em meses e os meses em anos. Eu tento gastar a
maior parte da minha vida olhando para a frente, vivendo na
expectativa de algo. Recentemente, no entanto, em um momento
poderoso, a vida trovejou sobre mim com um poder para o qual eu
não estava preparado. Não foi um momento dramático. Ninguém na
sala nem percebeu.
Foi no Natal, uma época do ano que eu amo. Nós havíamos
decorado a casa, embrulhado muitos presentes, e preparado mais
comida do que qualquer família pudesse comer (embora tenhamos
tentado). Nós tínhamos acabado de terminar a nossa festa deliciosa do
dia de Natal e estávamos assentados em volta da mesa batendo papo,
entremeando conversas, quando, sem razão, eu fiquei quieto e olhei
ao redor da mesa. Para a minha surpresa eu vi dois homens sentados à
minha frente, discutindo suas carreiras, um no mercado de ações e o
outro em design. Meu pensamento imediato foi, de onde vieram esses
homens? Que direito eles pensam que têm de invadir a nossa
celebração familiar de Natal? Enquanto eu continuava ouvindo,
entendi que esses homens não eram intrusos; eles eram os meus
filhos! Homens, não meninos! Porque é que eles não estavam
discutindo sobre skate ou brigando para decidir quem lavaria seu
prato primeiro?
Não parecia possível que eles pudessem ser meus filhos. Eu não
sou tão velho! Não se passaram anos o suficiente. Há coisas que eu
gostaria de ter feito com eles. Essa coisa toda não é possível, disse a
mim mesmo. Eu estava sozinho em minha cabeça e ninguém à minha
volta fazia ideia que, de repente, meus olhos tinham sido abertos. As
coisas nunca mais seriam as mesmas.
Agora, eu tenho de olhar para cima para falar com meu filho
menor que está na faculdade. O antigo ninho proverbial está, de fato,
vazio. Eu não sou mais um jovem casado recentemente, não sou mais
um pastor jovem, não mais o pai de quatro crianças, nem mesmo de
um monte de adolescentes. Eu não estou prestes a celebrar meu
décimo aniversário de casamento nem de comprar a minha primeira
casa. Eu não estou diante da ansiedade e temor de um novo
ministério. Eu não estou embarcando nas primeiras grandes férias
familiares. Eu não estou no meio dos meus estudos para um grau
avançado.
A maioria das primeiras coisas da minha família já ficou para trás
de mim. Todos os nossos filhos já falaram as suas primeiras palavras,
deram os seus primeiros passos, tiveram o seu primeiro dia de escola,
tiveram a sua primeira aula de música e sobreviveram ao primeiro
romance.
Já houveram muitos boletins, incontáveis reuniões de pais e
mestres, eventos atléticos, acampamentos e formaturas. Houve mais
excursões, finais de semana fora de casa e férias do que eu consigo
me lembrar. Houve incontáveis momentos de disciplina, correção e
instrução. Compramos montanhas de roupas, caminhões de comida e
papel suficiente para reflorestar a Amazônia!
Luella e eu conversamos e oramos, discutimos e choramos.
Saímos para um número incontável de restaurantes só para ficarmos
juntos. Saímos para diversas viagens de final de semana para tomar
fôlego e renovar o nosso amor. Deixamos para trás um
estacionamento cheio de veículos usados, um depósito de roupas que
não servem mais, montes de cacos de copos, pratos e decorações
quebradas – artefatos de uma civilização familiar que passou.
Ainda assim, tudo isso passou diante de mim com uma velocidade
de cegar, e passou bastante despercebido – até aquele dia de Natal
divisor de águas. Foi um momento de profunda conscientização
pessoal. Eu finalmente vi: eu não sou mais um jovem! Eu tenho um
pedaço enorme da minha vida atrás de mim. Eu tenho mais vida atrás
de mim do que para frente, e, se você está lendo esse livro, há uma
grande possibilidade de que esse seja o seu caso também.
No dia seguinte, as coisas estavam diferentes. Quando eu saí da
cama estava mais consciente das dores do que antes. O rosto que eu
barbeei parecia mais velho e eu tinha mais cabelos grisalhos do que
havia percebido anteriormente. Eu me encontrei, nos momentos
quietos, pensando a respeito do passado mais do que nunca antes.
Meus olhos foram abertos e eu não podia mais fechá-los.
É difícil se conscientizar de sua própria história até que você
esteja vivendo o meio dela. Mas Deus não nos deixou para vagar
pelos corredores dos nossos próprios dramas. Ele nos deu uma
história maior, a história da redenção que preenche as páginas da
Escritura. Essa grande história nos habilita não somente a fazer
sentido das realidades interna e externa de nossas histórias pessoais,
mas, mais importante, a conhecê-lo de maneiras novas e gloriosas.
A Bíblia nunca discute a meia-idade, da mesma forma que nunca
discute a adolescência. Ainda assim, é capaz de desembrulhar
quaisquer experiências da vida, porque ela foi escrita por aquele que
fez todas as coisas. Você não precisa ficar perdido no meio de sua
própria história. Você não precisa ficar paralisado pelo remorso,
derrotado pela idade e desencorajado por ver seus sonhos ficarem
para trás. Você não precisa tornar em um problema ainda maior a
situação que já está experimentando. Esse momento da vida, que
pode parecer o final de muitas coisas, pode, na verdade, dar as boas-
vindas a você para uma forma nova de vida. Como frequentemente é
o caso em sua caminhada com o Senhor, esse momento de dor
também é um momento de graça. Por causa dele, há esperança para
você do lado de lá.
A vida do lado de cá da glória é difícil. Esse mundo é um lugar
quebrado. Você verá coisas que batem nos limites de sua fé. Por
causa disso, todos precisamos, ocasionalmente, dar um passo para
trás, diminuir a velocidade e parar, olhar e escutar. Minha esperança é
que Perdido no Meio ajude você a fazer isso.
Uma palavra final: embora este livro seja dirigido para todos
aqueles que estão lutando com as questões da meia-idade, ele tem
uma rede muito mais ampla do que isso. Perdido no Meio pode ajudar
todos que estão lutando com a vida nesse mundo quebrado e se
perderam. A Bíblia fala com poder e praticidade com respeito a tudo
que você está passando, pensando e sentindo. O Deus que parece tão
distante de você, na verdade, está próximo e ativo nesse momento.
Perdido no Meio foi escrito para dar a você olhos para vê-lo, para ver
a si mesmo mais claramente, e para encontrar a esperança funcional
que você precisa para continuar em frente.

Paul David Tripp


INTRODUÇÃO

A BÍBLIA E A MEIA-IDADE

Por que, pois, dizes, ó Jacó,


e falas, ó Israel:
O meu caminho está encoberto ao Senhor,
e o meu direito passa despercebido ao meu Deus?
Não sabes,
não ouviste que o eterno Deus,
o Senhor, o Criador dos fins da terra,
nem se cansa, nem se fatiga?
Não se pode esquadrinhar o seu entendimento.
Faz forte ao cansado
e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.
Os jovens se cansam e se fatigam,
e os moços de exaustos caem,
mas os que esperam no Senhor
renovam as suas forças,
sobem com asas como águias,
correm e não se cansam,
caminham e não se fatigam.
Isaías 40.27-31

Vou apresentar-lhe duas afirmações aparentemente contraditórias e


depois conectá-las para você:

A Bíblia não fala absolutamente nada a respeito da crise da


meia-idade.
A Bíblia lhe diz tudo o que você precisa saber sobre a crise da
meia-idade.

Vamos considerar a primeira afirmação. Se for à Escritura


procurando pela crise da meia-idade como um tópico, você não
encontrará nada. É evidente que isso é verdadeiro a respeito de
muitos tópicos. Como resultado, muitos cristãos adotam uma postura
do tipo “Bíblia-para-a-parte-religiosa-da-minha-vida” a respeito das
Escrituras. Eles tendem a procurar ajuda na Bíblia somente quando
ela fala claramente a respeito de certos tópicos. Assim, normalmente
procuram em outros lugares a sabedoria que necessitam para as
diversas áreas da vida que não são diretamente tratadas nas páginas
da Escritura.
Ou eles podem cair em outro erro sutil. Se são cristãos, sabem que
a Bíblia é um livro repleto de sabedoria impressionante, revelada por
Deus, aquele que é a fonte de toda a sabedoria. Eles estarão famintos
por conhecer a mente divina em cada área da vida. Dirigidos por esse
zelo, podem torcer, revirar e esticar as Escrituras para prover a
informação que estão procurando.
Assim, ambos grupos de pessoas cometeram o mesmo erro.
Ambos veem a Bíblia como a grande enciclopédia de Deus, um
índice tópico de problemas humanos e soluções divinas. Um grupo
fica um pouco triste por considerar que a Bíblia não fala mais a
respeito da vida. O outro está crescentemente convencido de que a
Bíblia fala a respeito de mais tópicos do que parece a princípio.
Ambos perderam a razão de ser da Bíblia, o cerne daquilo que a
Bíblia realmente trata.
Visto que a Bíblia não é uma enciclopédia, é correto dizer que ela
não tem realmente nada a dizer a respeito da crise da meia-idade.
Neste livro nós não vamos escavar através da história, poesia,
profecia e ensino das Escrituras, caçando material que diga respeito à
meia-idade. Nós não indagaremos se o pecado de Davi com Bateseba
foi uma crise da meia-idade, ou se Moisés estava tendo uma crise de
meia-idade quando erradamente feriu a rocha para conseguir água.
Não vamos olhar os evangelhos em busca de qualquer evidência de
como Jesus lidou com as tentações da meia-idade. Não é assim que a
Bíblia funciona nem a forma como foi organizada. Por outro lado,
também não vamos procurar em outro lugar pela verdade e sabedoria
que precisamos.
A Bíblia é uma narrativa e, porque é uma narrativa, nos conta
tudo o que precisamos saber sobre as preocupações da meia-idade. A
Bíblia é a grande história da redenção, que abrange a história de cada
vida humana. Ela é a história abrangente de “tudo”. Ela é
compreensiva em escopo sem ser exaustiva em conteúdo. Ela nos dá
sabedoria para tudo, sem diretamente discutir cada coisa em
particular.
A grande narrativa da Palavra de Deus me dá tudo o que eu
preciso saber sobre Deus, sobre mim mesmo, sobre o propósito e o
significado da vida e sobre aquilo que é verdadeiro, bom e belo. A
Bíblia é a lente por meio da qual eu olho o todo da vida. Nela eu
encontro as verdades, valores, objetivos e esperanças que visam dar
forma e direção à minha vida. Todas essas coisas são fios tecidos na
trama de uma história grandiosa e maravilhosa. Sem sua história, as
doutrinas, princípios, mandamentos e promessas não fazem nenhum
sentido.
À luz dessa história, cada passagem da Escritura revela coisas
sobre Deus, sobre as pessoas, sobre a vida nesse mundo caído, sobre a
redenção e a eternidade que me ajudam a entender qualquer coisa que
eu esteja considerando naquele momento. Por exemplo, a maioria do
que a Bíblia fala sobre casamento não é encontrado em passagens que
discutem o casamento. O Salmo 73 é uma passagem sobre casamento
porque apresenta um tipo de luta que cada pessoa nesse mundo
experimenta. 1Pedro 1 é uma passagem sobre casamento porque
esquematiza o que Deus está fazendo no período de tempo entre a
nossa salvação e a sua vinda – o período de tempo no qual todos os
casamentos acontecem. Apocalipse 5 é uma passagem sobre
casamento porque nos permite espiar a eternidade e, assim, clarear os
valores que devem estruturar cada casamento cristão.
Assim, mesmo que a Bíblia nunca fale nada sobre a experiência
da crise da meia-idade, ela é um recurso rico para compreendê-la e
aprender como respondê-la. Mas antes de examinarmos experiências
particulares da meia-idade, é importante examinar como quatro
perspectivas explicam ou interpretam as questões mais profundas de
cada experiência humana.
A BÍBLIA NOS APRESENTA O MUNDO REAL
Você não precisa ler por muito tempo para encontrar honestidade
chocante na Bíblia. Viver em um mundo caído não é minimizado ou
coberto por uma cobertura de açúcar. Tão cedo quanto no quarto
capítulo de Gênesis, você encontra um fratricídio – o tipo de relato
que te daria arrepios ao ler o jornal pela manhã. De violência
doméstica a guerras, pragas e doenças; de animais ferozes a
perversidade sexual e corrupção no governo. A Escritura descreve
firmemente o drama diário da vida real. É um mundo de promessas
quebradas, expectativas frustradas e sonhos riscados. É um mundo
onde pessoas más parecem prosperar e pessoas boas estão sofrendo. É
um mundo onde coisas boas se transformam em más, coisas novas se
deterioram, coisas jovens envelhecem e coisas fortes se tornam
fracas. É um mundo familiar porque é o mesmo mundo em que
vivemos.
A Bíblia também é honesta sobre o porquê o mundo é desse jeito.
Por que Caim matou Abel? Por que o dilúvio global foi necessário?
Por que cônjuges por vezes são infiéis? Por que Davi precisou fugir
de seu filho Absalão? Por que pessoas mentem? Por que Judas traiu o
Messias? Por que os filhos se rebelam contra os seus pais? Por que a
devassidão é atrativa? Por que existem filosofias que competem com
a verdade? A Bíblia apresenta uma resposta firme a todas essas
questões que capturam a experiência de todas as pessoas.
A explicação da Escritura a essas questões parece simples, ainda
assim é a única perspectiva ampla o suficiente para cobrir a gama
ampla daquilo que está errado, desde motivações pessoais internas
sombrias até os males culturais, históricos e ambientais. Vivemos em
um mundo que tem sido envergado e torcido por uma força tão
fundamental, tão poderosa que literalmente impacta cada pensamento
humano, cada intenção humana, cada situação, cada experiência da
sociedade e cada momento da história, essa força é uma patologia
inescapável do universo criado. É o pecado. Apenas uma palavra e
ainda assim um conceito sem o qual é impossível entender a sua vida
ou a minha.
Essa questão fundamental é poderosamente apresentada em
Romanos 8.20-22:
Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da
vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será
libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa
liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora,
como em dores de parto. (NVI)

Que descrição poderosa! Três expressões nessa curta passagem


capturam a vida real nesse mundo caído. Primeiro, a criação foi
submetida à inutilidade. As coisas simplesmente não funcionam da
maneira que foram ordenadas para funcionar. Depois, Paulo afirma
que o mundo está em uma escravidão da decadência. O fato
lamentável é que tudo está em processo de morte. Finalmente, ele diz
que a criação geme até agora, como em dores de parto. O mundo em
que vivemos se contorce com dores tão agudas que não podem ser
ignoradas.
Todas essas realidades encontram expressão concreta nas páginas
das Escrituras. Do drama da guerra entre as nações (Josué) ao túnel
escuro do desespero pessoal (Salmo 88), das alegrias do nascimento
de um bebê há muito esperado (Lucas 1), ao lamento diante do
túmulo de um homem morto (João 11), a Bíblia captura a verdade a
respeito da vida real com uma familiaridade e clareza profundas.
Então como é que a Bíblia nos ajuda com um tópico como a meia-
idade? Provendo-nos de um contexto – um retrato honesto e
expansivo do mundo real. Muitas pessoas estão perdidas
simplesmente porque não entendem o contexto em que vivem,
trabalham, se divertem e adoram. Eles ficam constantemente
surpresas e estão despreparadas porque não têm se beneficiado da
sabedoria funcional que a Bíblia concede.

A BÍBLIA NOS APRESENTA A PESSOAS REAIS


As personagens da Bíblia não são figuras de cera em um museu de
mobilidade humana. Nem são personagens de desenho animado com
sorrisos de sacarina e vozes melódicas. Reconhecemos as pessoas da
Bíblia porque elas são exatamente como nós. Adão e Eva são
transferidores de culpa competentes. O rei Saul é paranoico e
instável. Quando olhamos as páginas da Escritura, encontramos
pessoas em relacionamentos familiares: eles são filhos e filhas,
maridos e esposas, pregadores e poetas. Vemos multidões de
espectadores, mendigos carentes na rua, líderes políticos de diversas
etnias e classes sociais, professores e alunos, escultores e artesãos,
advogados e juízes, os mais velhos e os jovens. Uma demonstração
rica e de cores variadas da humanidade pinta quase cada página da
Escritura.
A palavra de Deus, de forma cuidadosa, também demonstra a
gama completa de paixões humanas. Vemos alegria e regozijo, luto e
lamento, temor e timidez, contentamento e deleite, ciúmes e inveja, fé
e dúvida, paciência e perseverança. Vemos ira, desencorajamento,
ódio, amor auto sacrificial, luxúria, obsessão e egoísmo. Podemos
testemunhar como os seres humanos respondem às situações e
pessoas em volta deles. E somos introduzidos nos corredores dos
corações humanos para examinar pensamentos, inspecionar desejos e
conhecer escolhas. No processo, nós mesmos somos expostos e
confrontados.
Até mesmo os mandamentos e princípios da Bíblia descrevem a
nossa real humanidade de carne e sangue, tratando das mesmas
questões que cada ser humano experimenta. Esses mandamentos
falam dos olhos, língua, mãos e da mente. Eles dizem como
responder quando for maltratado, como planejar para o futuro, como
ver o governo, como reconciliar um relacionamento, como educar e
corrigir uma criança, como dirigir uma igreja, como amar a seu
marido ou a sua esposa, como tratar os idosos e como viver com o seu
próximo.
Não há forma melhor de autoconhecimento e autoexposição do
que o espelho da Escritura. À medida que eu me examino à luz disso,
aprendo coisas fundamentais a respeito de mim mesmo, as quais tem
implicações práticas para tudo o que eu encontro neste mundo caído.
A Bíblia nos expõe como realmente somos.
A Escritura nunca nos permite crer em uma humanidade neutra,
não direcionada ou desmotivada. Ela requer que admitamos que, por
trás de tudo o que fazemos ou dizemos, estamos perseguindo alguma
coisa – alguma esperança ou sonho ou coisa sem a qual nos
recusamos a viver. Há coisas que valorizamos tanto, que estamos
dispostos a sacrificar outras coisas boas para consegui-las.
Diminuímos a nossa humanidade a fim de deificar a criação. As
coisas que procuramos possuir passam a nos possuir. Vivemos pelas
sombras da glória e esquecemos a única glória pela a qual vale a pena
de viver.
Em seu retrato magistral da humanidade, a Bíblia exige que
admitamos algo doloroso e humilhante – aquela confissão que
tentamos evitar a todo custo: que nosso problema mais profundo,
mais penetrante e mais enraizado somos nós mesmos! Se você puder
fazer essa admissão humildemente, sua vida nunca mais será a
mesma.
Novamente, veja como isso tem conexão com a meia-idade.
Porque tantas pessoas na cultura ocidental tendem a se perder durante
essa época da vida? Porque todas as trilhas do labirinto da existência
humana pelos quais a Escritura nos conduz levam ao mesmo lugar.
Eles nos levam a nós mesmos. Somente aqui conseguiremos entender
a verdadeira natureza de nossa necessidade e a verdadeira magnitude
da provisão de Deus.

A BÍBLIA NOS CONVOCA A ADORAR O DEUS REAL


O Deus da Escritura não é o herói de um mito. Ele não é a projeção
de mentes fracas, que simplesmente precisam de algo maior do que
elas mesmas para que possam depender. Ele, o criador, sustentador e
governante de todas as coisas é o único ser do universo digno de
adoração. A luz de sua glória brilha em cada página das Escrituras.
Sua voz é ouvida primeiro, ele escreve o final do drama e cada cena é
dominada pela sua presença.
Ele existe eternamente e não tem necessidade de sustento. Ele é
tem a sabedoria definitiva e ainda assim nunca teve um único
professor. Ele fez tudo o que existe, mas não tinha matéria-prima para
trabalhar. Ele nunca falhou e não tem nenhuma falha pessoal. Todas
as palavras que ele já falou são verdadeiras, e cada promessa que ele
fez se tornará realidade. Ele nunca fica confuso, desencorajado ou
sobrecarregado. Ele nunca sente ciúmes de forma errada, exigente
demais ou de forma enraivecida. Ele está presente em todos os
lugares ao mesmo tempo. Não há circunstância que não esteja sob o
seu controle. Todas as coisas continuam funcionando porque ele
mantém tudo junto pelo poder de sua vontade.
Ele tem poder para punir de forma destrutiva, mas se deleita em
perdoar. Ele pode mover montanhas, mas é carinhoso, gentil e
amável. Sua sabedoria e conhecimento ultrapassam a nossa
imaginação, ainda assim ele fala palavras que qualquer um pode
compreender. Ele é a fonte de toda justiça verdadeira, e, ainda assim é
abundante em misericórdia. Ele está distante em sua glória e ainda
assim sempre presente e sempre perto. Ele exige a nossa fidelidade,
mas nos dá o poder para obedecer. Ele nos chama a segui-lo, mas
pacientemente dá espaço para que aprendamos e cresçamos. A cada
dia ele nos dá aquilo que não conquistamos e não poderíamos obter.
Ainda assim, esse Deus grande e glorioso, por causa da redenção,
se tornou um homem. A linha intransponível entre o Criador e a
criatura foi transposta. O Verbo se tornou carne. O pé de Deus tocou
a terra! A voz de Deus se fez ouvir na terra! O SENHOR veio como o
segundo Adão, a Palavra da vida, o sacerdote final e o Cordeiro
sacrificial. Ele satisfez as exigências de Deus, fez expiação pela ira de
Deus e derrotou a morte.
Essa reunião de glória e humanidade revela que todos os outros
deuses são falsificações, ficções da imaginação humana e imagens
feitas pela mão dos homens. Somente o Deus de glória última e graça
que se encarna oferece aquilo que necessitamos frente à terrível
devastação pessoal e ambiental do pecado. Aquele que criou todas as
coisas passou por aquilo que passamos. Ele, que é puro e santo, pagou
o preço definitivo pelo pecado. Ele, que é o criador da vida, saiu
andando da morte. Ele pode ajudar!
Como tudo isso pode nos ajudar à medida que nos aproximamos
de experimentar a meia-idade? A revelação de Deus na Escritura é o
único lugar onde podemos encontrar esperança verdadeira. Ele é o
único que, de uma vez por todas, está completamente acima de todas
as coisas que enfrentamos e ainda assim tem uma intimidade familiar
com todas elas por experiência própria. Nós corremos a ele porque
ele é Senhor sobre todas as coisas e ele tem poder para ajudar.
A BÍBLIA DÁ BOAS-VINDAS À REDENÇÃO VERDADEIRA
O mundo está cheio de sistemas falsos de redenção. Governo,
educação, filosofia, sociologia e psicologia, todos esses prometem
redenção, mas nenhum deles pode cumprir a promessa, porque
sistemas humanos nunca conseguem redimir. Se eles pudessem ter
lidado com os resultados amplos e devastadores do pecado, Jesus
nunca teria vindo. Ele veio à terra para sofrer e morrer, porque era
exatamente isso o necessário. A Bíblia me convida à esperança que
somente pode ser encontrada em um Redentor. Eu preciso de mais do
que ajuda, eu preciso de resgate. Eu preciso que alguém faça por mim
aquilo que eu não consegui fazer por mim mesmo. A minha luta
maior não é com o mal que está fora de mim, mas com o mal que está
aqui dentro. Se não há esperança para aquilo que está dentro de mim,
de forma alguma há chance de que eu consiga lidar com o que está
fora de mim.
Duas passagens bíblicas ilustram a necessidade de redenção real.
A primeira, Gênesis 6.5, é devastadora em seu retrato da natureza
abrangente e interna de nossa luta contra o pecado. “Viu o SENHOR
que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era
continuamente mau todo desígnio do seu coração.” Uau! Permita que
essas palavras sejam absorvidas. O pecado diz respeito a uma coisa
mais fundamental do que fazer o que é errado ou falhar em fazer o
que é certo. O pecado mata cada célula do coração e converte tudo o
que fazemos para o mal. Nós gostamos de acreditar que somos
melhores do que isso. Queremos nos agarrar à fantasia da intenção
pura e sem mácula. Queremos pensar que a nossa fofoca era, na
verdade, um pedido de oração. Queremos pensar que não foi a
autoabsorção feia, mas o cansaço físico que nos fez irritadiços.
Queremos acreditar que foi zelo pela verdade e não impaciência que
nos fez falar alto e forte. Provérbios 16.2 diz: “Todos os caminhos do
homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito”.
Gênesis 6 abre o nosso coração e revela o pecado e a
profundidade de cada pensamento e intenção. Se isso é verdade, então
você não pode me educar para fora dele. Você não pode exercer
poder suficiente sobre mim a fim de esmagar os seus efeitos. Você
não pode prover técnicas práticas para me elevar acima do meu
pecado. Sem a ajuda divina, eu estou tomado do câncer do pecado e
meu prognóstico é a morte. Qualquer coisa incapaz de erradicar esse
câncer de dentro de mim é inútil para me ajudar.
Mas há uma segunda passagem que deve ser colocada junto a
Gênesis 6.
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas
as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados,
assentou-se à direita da Majestade, nas alturas. (Hebreus 1.3)

Com uma palavra, “assentou-se”, o escritor de Hebreus captura a


completude da obra de Cristo. Jesus fez tudo o que era necessário
para lidar com cada um dos efeitos do pecado. Ele conseguiu fazer o
que os sacerdotes do Antigo Testamento nunca conseguiram fazer:
parar.
Os sacerdotes do Antigo Testamento foram chamados para
sacrificar pelos pecados do povo de Deus. Exaustos e cheios de
sangue até os joelhos, eles ofereciam sacrifício após sacrifício, dia
após dia. Se víssemos a cena, ficaríamos com náuseas. Não eram
apenas as ofertas diárias, mas dúzias de sacrifícios diários, semanais e
sazonais oferecidos de acordo com o calendário religioso. Milhares
de animais eram sacrificados a cada ano. Ainda assim, nunca era o
suficiente. Antes que uma camada de sangue secasse, outra era
derramada. O odor de carne queimando nunca parava. Esse trabalho
sacrificial não podia parar, porque o poder do pecado nunca era
quebrado e a penalidade pelo pecado nunca era totalmente paga.
Assim, é maravilhoso ler que depois que Jesus realizou seu trabalho
ele se assentou! A única razão pela qual ele poderia se assentar é que
ele fez tudo o que era necessário para completar a redenção que tinha
sido provida.
Coloque essas duas expressões bíblicas juntas e você começará a
entender a magnitude e praticidade da redenção que somente poderia
ser suprida por Cristo Jesus: “era continuamente mau todo desígnio
do seu coração” e “depois de ter feito a purificação dos pecados,
assentou-se”. Na história da redenção da Escritura, a tristeza da
totalidade de nossa depravação beija a celebração da totalidade da
provisão de Cristo. Deus é satisfeito, Cristo se assentou e, então, há
esperança para nós – uma esperança prática que se estica de agora até
o final, na eternidade. Como resultado, abordamos cada tópico da
nossa vida como as pessoas mais tristes e mais celebrantes da terra.
Essa tensão funcional entre tristeza e celebração resulta no tipo de
sabedoria prática que a somente a Bíblia concede. A meia-idade deve
ser vista a partir dessas duas perspectivas da redenção.

RESUMINDO
Essas quatro perspectivas bíblicas (mundo real, pessoas reais, Deus
real e redenção real) nos dão a sabedoria essencial para qualquer
coisa que encaremos em nossa vida humana. Somente quando virmos
o mundo explicado como verdadeiramente é, nós mesmos como
realmente somos, Deus em toda a sua glória e a completude da obra
redentora de Cristo, poderemos ter uma perspectiva equilibrada,
funcional e digna sobre qualquer coisa.
Deixe-me detalhar o que essas quatro perspectivas nos proveem
ao abordarmos o tópico da meia-idade.
1. Uma cosmovisão abrangente que diz respeito a tudo o que
existe. A Escritura não é exaustiva no sentido de abordar diretamente
cada assunto, mas é abrangente no sentido de prover informação para
compreender todos os aspectos da realidade.
2. Perspectivas práticas sobre cada problema humano. A
Bíblia tem algo a dizer sobre tudo o que é mais importante para a vida
humana. Ela nos dá uma compreensão essencial dessas coisas e de
como devemos responder a elas.
3. Vida antes da morte. A Bíblia não simplesmente promete que
algum dia, em uma eternidade distante, conheceremos a vida. A
Bíblia nos chama a abraçar uma qualidade de vida agora, qualidade
essa que, de outra forma, seria impossível sem a pessoa e obra do
Senhor Jesus.
4. Esperança real e autoconhecimento. Você não precisa ficar
preso na prisão da cegueira pessoal. Você pode ver, conhecer e
compreender a si mesmo, até mesmo os pensamentos e motivos do
seu próprio coração. Isso é possível porque a Bíblia funciona como o
espelho perfeito. Quando olha para ele, você se vê como realmente é.
5. Ajuda prática para as questões mais profundas da
experiência humana. Na Bíblia eu encontro o Criador que me fez e
que, portanto, conhece tudo a meu respeito. Eu encontro o Salvador
que viveu na terra como eu e compreende tudo a respeito da minha
experiência. A Bíblia encara de frente as questões mais profundas da
experiência humana, com uma esperança brilhante e uma sabedoria
funcional.
6. Esperança real para mudança pessoal duradoura. Visto que
Cristo veio, a mudança realmente é possível. A Bíblia, com toda a sua
honestidade chocante, também é impressionantemente positiva e
esperançosa. Não há nenhuma página cínica nas Escrituras. Não há
traços de desistência. A promessa de mudança pessoal radical e
duradoura ilumina cada canto de pecado que é encontrado nas
Escrituras.
7. Conforto real. Quanto mais você lê a Bíblia, mais compreende
que nenhuma experiência humana está fora do escopo do evangelho.
Deus entende tudo e seu Filho providenciou tudo. A cada dia
podemos ser confortados pela realidade bíblica maravilhosa de que
existe provisão para qualquer coisa que enfrentarmos.
Ao começarmos uma jornada de descoberta bíblica e pessoal,
devemos reconhecer o desafio pessoal que esses sete benefícios de
uma perspectiva bíblica colocam diante de nós. Frequentemente,
mesmo em nossa celebração das Escrituras, a deixamos separada das
situações e relacionamentos de nosso dia a dia. Pergunte a si mesmo
agora: Onde você permitiu a si mesmo responder aos puxões e
empurrões da vida nesse mundo caído de forma não-bíblica? Onde
falhou em observar a descrição honesta que a Escritura faz da
humanidade e reservou a sua sabedoria para as áreas “religiosas” de
sua vida? Onde você procurou ideias para os desafios particulares da
vida em qualquer fonte, exceto na Bíblia? Onde você ignorou a fonte
interna de seus problemas e implacavelmente procurou colocar a
culpa fora de si mesmo? Onde você reduziu a obra de Cristo de
perdão de pecados e perdeu a esperança na total renovação do seu
coração, dos seus relacionamentos e do seu mundo?
É fácil seguir uma religião da mente; outra coisa é render o seu
coração e, portanto, cada aspecto da sua vida a Deus. A esperança
desse livro é nada menos do que corações transformados, que
radicalmente levem a vidas transformadas. Nós não podemos
descansar de expandir conhecimento e fomentar entendimento. Não
podemos porque Deus não faz isso. Deus demanda isso de todos nós.
Ele não vai sossegar, porque já conquistou uma parte de nós. Da
mesma forma, à medida que começamos o nosso exame da crise que
frequentemente aparece na meia-idade, urjo a você que faça os
seguintes compromissos:

1. Eu vou examinar cuidadosamente e entender esse período


importante da minha vida.
2. Vou procurar entender tudo o que eu encontrar a partir do ponto
de vista das Escrituras.
3. Vou olhar para mim mesmo por meio dos sempre preciso
espelho da Palavra de Deus.
4. Eu vou pessoalmente identificar e confessar as áreas em que a
mudança se faz necessária.
5. Eu resolverei agir com base na esperança e ajuda que são
encontradas no Senhor Jesus Cristo.

Você está disposto a fazer esses compromissos enquanto partimos


nessa jornada?
CAPÍTULO 1

MEIA-IDADE: UM RETRATO

Eu penso que idade é um preço muito alto que se paga em troca de maturidade. —
TOM STOPPARD

Eu suponho que a idade realmente avançada começa quando alguém começa a


olhar para trás em vez de para frente.
— MAY SARTON

Eles estavam na segunda metade dos quarenta, no entanto, naquela


primeira manhã, pareciam muito mais velhos. Ela se arrastou para o
meu escritório como se realmente tivesse todo o peso do mundo em
seus ombros. Ele parecia irritado desde o início. Eles vieram para
falar sobre o seu casamento, mas quaisquer que fossem os problemas
que estivessem enfrentando, eram o resultado de algo maior, algo
inesperado, para o qual nenhum dos dois havia sido preparado.
Eles se casaram logo depois da faculdade. Bill rapidamente
encontrou um emprego muito bom e Tammy ficou grávida nos
primeiros meses de casamento. Ambos eram muito felizes com o que
a vida lhes deu. A compra de sua primeira casa própria aconteceu
logo depois. Tammy pensava estar vivendo o sonho de todo mundo:
um marido maravilhoso com um ótimo emprego, a casa dos seus
sonhos e uma família a caminho. Eles conversaram muito sobre os
anos que seguiriam, ansiosos por construir sua família, acrescentando
à casa, e sobre o avanço na carreira, o que certamente estava no
futuro de Bill. Tudo parecia bom demais para ser verdade.
Encontraram uma boa igreja para frequentar e começaram a
conhecer casais de sua idade. Parecia que a peça final do quebra-
cabeças estava no lugar. A gravidez de Tammy progrediu
rapidamente até o último mês, quando ela começou a ter
complicações e foi enviada para o hospital para o término da
gestação. O parto foi violento e doloroso, seguido pela notícia terrível
de que ela não poderia ficar grávida de novo. Bill e Tammy ficaram
surpresos e tristes, mas isso foi em breve anuviado pela alegria que
sentiram quando seguraram a pequena Lori em seus braços. Ela era
perfeitamente saudável, com dez dedinhos gordinhos nas mãos e dez
dedinhos simétricos nos pés.
Tammy decidiu que se essa era toda a família que teria, ela faria
isso da forma correta. Colocou seu coração e alma naquela preciosa
menininha. Nenhum trabalho era árduo demais e nenhum gasto alto
demais. Desde cedo de manhã até tarde da noite, Lori era o centro da
atenção de Tammy. Ela não se esqueceu que o Bill existia, mas viu
Lori como o foco central de seus afazeres. Bill não se importava. Ele
estava muito agradecido pelo presente maravilhoso que era essa
pequena flor, e era completamente louco por ela.
Logo, Lori estava na escola. Tammy se envolvia da maneira que
podia na educação dela. Iniciou um programa de mães voluntárias e
trabalhava como auxiliar de classe. Bill e Tammy colocaram Lory em
aulas de ballet, piano e ginástica. Todas as noites eram dedicadas ao
dever de casa de Lory, sempre com mamãe ou papai do seu lado. Bill
e Tammy foram a miríades de performances, recitais, eventos
esportivos e banquetes de premiação. Levaram Lory para todo o tipo
de passeio que uma criança amaria e enviaram-na aos melhores
acampamentos. Se certificaram de que ela estivesse envolvida com o
programa infantil da igreja e, depois, com os adolescentes.
Eventualmente chegou o momento de Lori se formar no ensino
médio. Em meio a toda a celebração de suas conquistas, Tammy
estava temendo o momento quando Lori estaria fora de casa e não
mais no topo de sua lista de afazeres. Assim, quando a filha foi
contemplada com uma bolsa para uma universidade local, Tammy
ficou muitíssimo aliviada. Embora Lori vivesse nos dormitórios da
faculdade, estaria em casa todos os finais de semana e ao menos uma
noite por semana para o jantar. E por ainda estar na cidade, Bill e
Tammy puderam participar de muitas de suas atividades.
Então, em setembro do seu último ano de faculdade, Lori
conheceu o homem dos seus sonhos. Tammy pensava que ficaria feliz
por sua filha, mas não estava. O sentimento de medo passou a segui-
la todos os dias. Ela participou alegremente de todos os preparativos
para o casamento, determinada de que Lori tivesse a cerimônia mais
perfeita que ela conseguisse preparar. Ainda assim, estava
constantemente triste e chorosa durante o processo. Logo antes do
casamento, o noivo de Lori a surpreendeu com a notícia de que havia
recebido uma inesperada oferta de emprego em Seattle. Eles viajaram
no final de semana e logo concluíram que era uma oferta que não
poderiam recusar. Três dias antes do casamento, Lori contou a notícia
para sua mãe e seu pai; ela se mudaria para uma cidade a três mil
milhas de distância.
Tammy quis ficar feliz por sua filha, mas sentiu como se tivesse
recebido a notícia de que estava com câncer, como se alguma coisa
dentro dela tivesse morrido. Ela chorou até dormir naquela noite e
estava com lágrimas nos olhos até o dia do casamento. Lori e seu
marido visitaram Bill e Tammy por uma semana depois da lua de mel
e então começaram a longa viagem para Seattle.
Bill ficou preocupado com Tammy naquelas primeiras semanas
depois que Lori e seu marido se foram, mas pensava que a esposa
conseguiria superar. Ela estava constantemente emotiva e
estranhamente silenciosa. Já era ruim o suficiente que a casa vazia e a
falta de atividade fizesse com que Bill se sentisse velho, mas ele
estava frustrado com Tammy. Ele tentava passear no final de semana,
mas eles voltavam para casa mais cedo porque Tammy “não estava se
sentindo bem”. Ele tentava trazer visitas, mas Tammy dizia que era
mais peso do que alegria. Bill tentou envolver ambos em atividades
como um casal, mas ela mostrava pouco interesse.
As coisas não melhoraram. Havia dias que Tammy ficava horas
na cama. Ela quase não cozinhava e raramente fazia o tipo de faxina
que antes fazia a casa parecer imaculada. Bill ficava cada vez mais
irritado com tudo isso. Embora ainda trabalhasse, olhara com
ansiedade para a liberdade que teriam quando os dias de paternidade
estivessem para trás. Ele havia pesquisado locais para ir e coisas para
fazer, mas Tammy não estava interessada nem mesmo em sair para
comer. A irritação de Bill em breve se transformou em amargura.
“Foi para isso que trabalhei?” Ele pensava. “É isso que eu ganho por
ter feito tudo certo?”
Logo, Bill estava sentindo que havia perdido, como se a vida
tivesse passado por ele. Sentia inveja das famílias jovens com as
quais tinha contato. Não conseguia não se arrepender das decisões
que ele e Tammy haviam feito. Também começou a perder o
interesse em seu trabalho e, mais importante, começou a abrigar
dúvidas sutis a respeito de sua fé. Bill estava cada vez mais amargo,
iracundo e desencorajado. Ficava louco com o fato de que as únicas
vezes em que Tammy parecia sair do casulo era quando Lori ligava
ou visitava. Ele pensou que deveria arrumar um passatempo, como
restaurar um carro ou comprar uma moto. Afinal, ele e Tammy
faziam muito pouco juntos e raramente tinham um diálogo maior.
Passaram-se três anos da partida de Lori até que Bill entendesse
que algo estava errado e que era hora de procurar ajuda. Seus olhos
foram abertos pela médica da família, que chamou Bill de lado e lhe
disse que os problemas de Tammy não eram físicos e não exigiam
remédios. Ela sugeriu que eles conversassem com alguém que
poderia ajuda-los. Foi aí que me telefonaram.
Embora a história de Bill e Tammy seja única em seus detalhes
específicos, a luta deles é bem comum. Nós todos tendemos a crer
que aquilo que é de determinada maneira vai continuar sendo igual
para sempre. Tendemos a ignorar o fato de que, nesse mundo de
Deus, tudo está sempre mudando, e toda a criação está em estado de
degradação. Ficamos embalados pela nossa correria frenética, um dia
se sobrepondo ao outro, até que grandes porções de tempo tenham
passado. No meio-tempo, não notamos o quanto nós e as coisas ao
nosso redor mudaram.
Então, de repente, algo nos desperta para a surpreendente
consciência de que estamos muito mais velhos do que pensamos e de
que a vida mudou muito mais do que percebemos. Essa consciência e
a desorientação que segue a partir dela é aquilo que a nossa cultura
chama de crise da meia-idade. Assim, muitas pessoas dos 35 aos 55
passam por essa experiência que, em anos recentes, tem recebido
quase tanta atenção da mídia quanto a adolescência.
Todas as pessoas têm uma crise da meia-idade? Não
necessariamente. Assim como muitos adolescentes não tem uma
adolescência tumultuosa. No entanto, prestar atenção às dificuldades
potenciais e aos perigos dos anos da adolescência tem ajudado tanto
adolescentes quanto pais a estarem mais preparados. Minha esperança
é que esse livro faça o mesmo pelas hordas de pessoas que estão
agora nos anos da meia-idade ou que estão se aproximando deles.

PROBLEMA DE INTERPRETAÇÃO
Uma das perspectivas bíblicas mais importantes sobre as pessoas é
que os seres humanos pensam. Há um sentido em que nunca
deixamos nossa vida sozinha. Estamos sempre tomando a nossa
história nas mãos, virando e tentando extrair sentido de tudo. Quando
estamos fazendo atividades servis ou repetitivas, rapidamente
descemos às cavernas de nossa mente. Quando vamos dormir,
debatemos a nossa vida em nossa cabeça, e pegamos no sono sem
entender tudo. Duas coisas são verdadeiras em cada pessoa da meia-
idade. Primeiro, estamos cientes de que nossa vida não tem andado
de acordo com o nosso plano.
Você e eu não poderíamos ter escrito a nossa própria história. Não
poderíamos nem mesmo ter escrito a história da nossa última semana!
A nossa vida tem mudanças e viradas que nunca teríamos imaginado.
Algumas dessas mudanças nos deixam maravilhados e agradecidos,
enquanto outras nos causam perda e dor profunda. Em meio a todo o
nosso planejamento e cuidadosas tomadas de decisão, ainda somos
pegos desprevenidos, surpreendidos pelos detalhes de nossa própria
existência.
Duas experiências recentes demonstraram de forma poderosa que
a minha vida não está funcionando de acordo com o meu plano, A
primeira aconteceu em um dia normal no The Christian Counseling
and Educational Foundation. Eram 17h30m e eu já estava para sair
quando recebi uma ligação do meu irmão, Tedd. Tedd é uma pessoa
muito nivelada. Se o plano A não funciona, ele é sempre capaz de
conceber o plano B e C até o triplo Z. Dificilmente ele demonstra
estar estressado ou sem recursos, no entanto, essa ligação foi
diferente. No minuto em que ouvi a sua voz, eu sabia que alguma
coisa estava muito errada.
O que aconteceu naquele dia nos mudaria para sempre. Mudaria
também a nossa família e tudo a respeito dela. Uma conversa e a vida
mudou para sempre. Todos ficamos chocados. Foi uma mudança na
história que nós não esperávamos e estávamos mal preparados para
enfrentar. Emoções poderosas bateram de frente conosco.
Pensamentos rápidos e intensos, conversas ansiosas eram a ordem do
dia. Em um instante parecia não somente que eu tinha perdido a
história da minha família, mas também tinha perdido a minha
identidade. Eu estava ferido, irado e à deriva. Eu tinha ido para o
seminário, mas eu nunca fiz o curso que me preparou para isso. Eu
não podia fugir porque, por mais confusa e estressante, essa era a
minha história.
A minha segunda experiência inesperada aconteceu em Seul, na
Coreia do Sul. Eu estava sentado no palco da maior Igreja
Presbiteriana do mundo (35.000 membros), preparando-me para
pregar no culto do domingo à tarde. Eu olhei para aquele mar de
rostos coreanos, enquanto ouvia hinos familiares cantados em uma
língua estrangeira. Em um instante, eu fiquei completamente
dominado. Parecia impossível que Paul Tripp pudesse ser convidado
para se assentar nessa plataforma, quanto mais para falar! Naquele
momento eu fiquei tão maravilhado pela minha própria história que
comecei a chorar. Como podia ser que eu estava ali? Como podia ser
essa a vocação da minha vida? Como assim, eu recebo para expor o
Evangelho dia após dia? Como é que eu saí de 3437 North Detroit
Avenue, em Toledo, Ohio para essa igreja enorme, no meio de Seul,
na Coreia do Sul? Quanto mais eu pensava, maior era o meu senso de
gratidão e assombro, e mais eu chorava. Eu simplesmente não estava
conseguindo me controlar. Meu tradutor olhou para mim com um
olhar preocupado e disse: “Paul, eu estou bem preparado para a
função de intérprete, mas eu não preparei o meu próprio sermão.
Você precisa se controlar ou isso não vai funcionar!” Pela graça de
Deus, minhas lágrimas arrefeceram, eu levantei para pregar nos
espasmos de meu deslumbramento pela minha própria história.
A vida nunca funciona de acordo com o nosso plano porque
nossas histórias individuais são parte de uma história maior. O
personagem central da HISTÓRIA é soberano sobre cada detalhe de
nossas histórias. Assim, viveremos sempre com o reconhecimento de
que há mudanças e viradas que nunca foram parte do nosso próprio
plano para a nossa vida. Mas uma segunda coisa também é verdade
com relação à pessoa da meia-idade.
Estamos sempre tentando resolver a equação da nossa vida.
Desde as perguntas incessantes da criança pequena até as perguntas
do homem idoso frente à morte, todos nós somos os nossos
investigadores privados pessoais. Analisamos os detalhes de nossa
existência todos os dias. Algumas vezes somos arqueólogos,
peneirando os fragmentos de cerâmica de nossas civilizações pessoais
passadas. Algumas vezes somos detetives, procurando por uma única
pista que dê sentido a tudo. Algumas vezes somos filósofos e
teólogos, trazendo questões profundas da vida aos detalhes de nossas
histórias. Algumas vezes somos diagnosticadores, examinando os
sintomas pessoas para descobrir o que está errado. Algumas vezes
somos historiadores, examinando o passado em busca de sabedoria
para hoje. Atuamos em todos esses papéis em um ponto ou outro.
Ainda assim o nosso pensamento é tão constante e tão instintivo que
não vemos o quão incessante e influente ele é realmente.
Esses dois pontos – que a nossa vida nunca funciona de acordo
com os nossos próprios planos e que nós estamos sempre tentando
entender a nossa vida – definem de forma efetiva e explicam a “crise”
da meia-idade. A desorientação da meia-idade é o resultado da
colisão entre uma profunda consciência pessoal e uma interpretação
pessoal poderosa.
No entanto, isso não deveria nos surpreender, porque não vivemos
pelos fatos de nossas experiências, mas pelas formas que nossas
interpretações dão a esses fatos. A desorientação difícil da meia-idade
não é porque a passagem em si seja desorientadora. Qualquer que seja
o problema que a meia-vida nos traga, é essencialmente causado pelo
pensamento errado que trazemos a ele. De repente vemos coisas sobre
nós mesmos, as quais estavam se desenvolvendo por anos, mas
passaram desapercebidas. Nós não respondemos a esses novos
significados da conscientização, nós nos prendemos a eles. Esses
significados formarão e determinarão como responderemos à meia-
idade.
Os dois elementos de profunda consciência pessoal e
interpretação pessoal poderosa devem sempre ser incluídos naquilo
que fazemos para compreender e lidar com as realidades da meia-
idade. Pense a respeito de Bill e Tammy. A partida de Lori de repente
abriu os olhos de ambos para as mudanças em sua idade e para a
condição que tinham desenvolvido ao longo dos anos, mas que
passaram amplamente despercebidas. A dificuldade que eles
experimentaram não foi criada pela sua situação, mas por uma grade
interpretativa, que define a agenda para a nossa resposta.

CATEGORIAS DESLEIXADAS
Uma das formas que usamos para entender a vida é organizá-la em
categorias. Dizemos que Deus é um Espírito, Sally é uma menina e
Fido é um cachorro. Falamos de coisas como sendo pequenas,
importantes ou sem importância, lixo ou tesouro, saudável ou
insalubre, verdadeiro ou falso e valioso ou barato. Dividimos coisas
em categorias como biológico, mecânico, artístico, filosófico e
emocional. Pensamos nas coisas como sendo ocidentais ou orientais,
femininas ou masculinas, cultas ou bárbaras e legais ou ilegais.
Instintivamente, organizamos coisas em pequenas caixas que
carregamos em nosso cérebro. Algumas vezes somos suficientemente
sábios para ver que nossas caixas são muito pequenas ou muito
poucas, mas frequentemente somos hábeis o bastante em espremer a
nossa história em quaisquer caixas que estejamos carregando em
nossa mente. Ao fazê-lo, falhamos em reconhecer quão importante e
influente essa função interpretativa é. A vida sempre vai parecer
como as categorias que você traz a ela, e o que você faz sempre será
determinado pela forma como você organiza a compreensão de sua
própria história.
Um dos fatores interpretativos que nos gera problemas na meia-
idade é que as nossas categorias culturais típicas para organizar a vida
humana são lamentavelmente inadequadas. Tendemos a organizar a
gama completa de desenvolvimento humano em quatro categorias:
criança (0-12), adolescência (13-20), adulto (21-65), idoso (65+).
Quando você examina essas categorias não demora muito para
perceber como elas são inadequadas. As categorias de criança,
adolescente e idoso são relativamente breves porções de tempo,
enquanto a categoria de adulto abrange quarenta e cinco anos!
Considere por um momento as diferenças massivas entre um homem
de vinte e um e outro de sessenta e quatro. Ou, vamos diminuir o
escopo. Considere a diferença impressionante de maturidade entre a
pessoa de vinte e dois e a de trinta e cinco. Emocional, física,
espiritual, relacional, econômica e socialmente essas duas pessoas
estão em lugares bastante diferentes. Ao dizer que uma pessoa é
adulta fazemos uma observação tão generalizada que quase não
significa nada.
A categoria supergeneralizada de adulto tende a ignorar o fato de
que, como seres humanos, estamos sempre em algum tipo de
processo de mudança. Uma das diferenças fundamentais entre o
Criador e a criação é que tudo desse lado da linha está sempre em
algum estado de mudança, enquanto Deus é constante em sua
imutabilidade. A Bíblia apresenta tudo na vida como estando sempre
em mutação. Governantes surgem e caem. A grama se desvanece e as
flores murcham. Pessoas crescem e amadurecem. Adolescentes se
tornam homens. Pessoas passam espiritualmente da morte à vida.
Gerações dão espaço para outras gerações. Tolos se tornam sábios.
Tudo o que é criado será diferente de alguma forma amanhã.
Antecipar mudança e fazer mudanças é uma parte essencial da vida
cristã produtiva. Mas somos pegos de surpresa. Os pais são
constantemente surpreendidos com o fato de que o seu bebê de
repente virou um adolescente. Filhos e filhas parecem ficar chocados
com o fato de que a mamãe e o papai de repente ficaram velhos. A
mãe não acredita em como um dia acordou com um novo título: avó.
Parecemos indispostos a aceitar o fato de que não podemos fazer
aquilo que antes fazíamos – uma dinâmica que mantém as salas de
emergência cheias aos finais de semana!
Precisamos de formas mais robustas de pensar a respeito da vida
humana, crescimento e mudança do que as amplas categorias
orientadas pela idade. Embora a Bíblia não pense nas pessoas em
termos de idade, ela tem formas muito mais ricas de localizar e
compreender os seres humanos. Deixe-me sugerir somente uma.

TUDO TEM A VER COM RELACIONAMENTOS


A Escritura de uma forma muito natural entende as pessoas
localizando-as em quatro relacionamentos fundamentais. O primeiro
e mais fundamental é o meu relacionamento com Deus. Tudo o que
eu sou e tudo o que eu faço é moldado pela saúde e vitalidade desse
relacionamento. Não importa onde eu esteja (localização), o que
aconteça à sua volta (situação), e como você responda a isso
(comportamento), a forma mais importante de entender a si mesmo é
examinar o seu relacionamento com Deus. Por exemplo, Adão e Eva
estavam bastante unidos como marido e mulher quando comeram do
fruto proibido. Mas estavam em rebelião contra Deus. Da mesma
forma, como qualquer outro período da vida, a meia-idade expõe
poderosamente a verdadeira condição de nosso relacionamento com
Deus.
O segundo relacionamento é o meu relacionamento com os
outros. A Bíblia sempre vê as pessoas em algum tipo de comunidade
umas com as outras. Mesmo em sua graça salvífica, Deus não está
somente gerando uma massa de indivíduos salvos isoladamente, mas
como Paulo diz a Tito, “um povo exclusivamente seu” (ARA). Eu sou
um filho ou um pai. Eu sou um marido ou uma esposa. Eu sou um
vizinho ou um amigo. Eu sou um cidadão do reino de Deus. Sou um
filho da aliança, um membro do corpo de Cristo e uma pedra no
templo em que Deus habita. De Gênesis 2 em diante, a Bíblia sempre
olha para as pessoas do ponto de vista privilegiado de comunidades às
quais elas foram chamadas. A vida humana diz respeito a
relacionamentos e relacionamentos definem a vida humana. Eu nunca
estou bem, não importa o quanto pareça estar conquistando e quão
feliz e satisfeito eu esteja, se eu não estou vivendo propriamente nos
relacionamentos primários onde Deus me colocou.
Paulo comunica isso com uma clareza impressionante em Gálatas
5.14: “toda a lei se cumpre em um só preceito”. Você não espera que
ele vá dizer “Ame a Deus acima de todas as coisas”? Mas em vez
disso ele diz: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Visto que
fomos criados por Deus como seres sociais e somos investidos por ele
com uma responsabilidade pelo nosso próximo, nossa vocação para
viver em comunidade é uma forma primária de entender quem somos
e o que fomos chamados para ser. Aqui há ajuda para nós na medida
em que procuramos entender as questões da meia-idade. Aquelas
lutas não existem à parte dos relacionamentos principais da vida
humana; em vez disso, eles estão inter-relacionadas. As lutas da
meia-idade expõem a saúde verdadeira e o caráter dos
relacionamentos que Deus me chamou para fazer parte.
O terceiro relacionamento é o meu relacionamento comigo
mesmo. Isso pode ser estranho para você, mas há uma forma real em
que nos relacionamos com nós mesmos. O salmista registra uma
conversa consigo mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Sl
42.5). Pense sobre isto: não há voz mais influente em sua vida do que
a sua própria voz, porque ninguém fala mais com você do que você
mesmo. Você já teve conversas regulares com você hoje mesmo, na
maior parte do dia, na maior parte do tempo sem nem mesmo estar
consciente disso. Esse relacionamento tem a ver com a forma como
pensamos a respeito da nossa identidade e nossa responsabilidade.
Tudo o que fazemos é, éde. algum jeito, formado por quem pensamos
que somos e o que achamos que fomos chamados para fazer. Pedro,
por exemplo, diz que a vida das pessoas é ineficaz e infrutífera
porque elas se esquecem de quem são (2Pedro 1.8-9). Todos vivemos
com algum senso de responsabilidade moral, seja acurado ou mal
direcionado e, todos nós, ou nos agarramos às nossas
responsabilidades ou de alguma forma fugimos. Novamente, há ajuda
real aqui para entendermos a desorientação dos anos da meia-idade. A
crise da meia-idade é uma luta de identidade e responsabilidade, e ela
expõe a fraqueza nessas áreas, a qual tem existido por muito tempo,
mas é tornada explícita nesse momento da vida.
O quarto relacionamento é o meu relacionamento com o resto da
criação. Como um ser humano feito à imagem de Deus, também sou
chamado a uma interação responsável com o mundo físico. Esse
relacionamento diz respeito a duas dimensões muito importantes da
vida humana: minha vida de trabalho e a forma como eu vejo e me
relaciono com o mundo das coisas materiais. Vivemos em uma
cultura que tende a ver o trabalho como um preço doloroso que você
tem de pagar para conseguir o prazer para o qual você realmente está
vivendo. A nossa cultura tende a ver o corpo material e as posses
materiais como essencial à verdadeira alegria e satisfação. Assim, a
cultura ocidental tende a ser avessa ao trabalho e obcecada por coisas.
A Bíblia, por outro lado, não diz que o corpo e as posses não são
importantes, mas nos chama à responsabilidade moral em cada área.
Como eu vejo e uso o meu corpo é biblicamente muito importante.
(Veja 1Co 6.12-20, por exemplo.) Como eu me relaciono com o
mundo criado e a maneira como eu vejo e possuo as minhas coisas
também são apresentados na Bíblia como sendo algo de grande
importância. (Veja Lucas 12.13-21). A Bíblia apresenta o trabalho,
não como uma maldição, mas como a parte principal do plano
ordenado por Deus para toda a humanidade, visto que o trabalho já
existia antes da Queda. Viver como Deus manda não é uma questão
de trabalhar de cara feia a fim de experimentar o excitamento do
prazer, mas encontrar prazer nas várias esferas de labor às quais Deus
me chamou. Eu sou designado para ser um trabalhador, e meu
trabalho é parte de uma agenda muito maior do que a aquisição de
prazeres materiais momentâneos. Novamente, esse relacionamento
final interpreta as lutas da meia-idade. Aquelas lutas dizem respeito
ao corpo físico, elas têm a ver com o lugar onde procuramos prazer, e
dizem respeito ao modo como vemos o mundo das coisas materiais.
Assim, ter esses quatro relacionamentos sempre em foco provê
um preparo melhor para a vida do que as formas típicas com as quais
nossa cultura geralmente organiza e categoriza a vida.
(Examinaremos essas categorias em capítulos futuros.)

CRISE DA MEIA-IDADE: UM RETRATO


Temos dito que as lutas da meia-idade resultam de uma colisão entre
conscientização pessoal poderosa e interpretações pessoais poderosas,
mas o que realmente é, de fato, a crise da meia-idade? Aqui estão
algumas características de uma pessoa em meio aos espasmos da
confusão e das lutas da meia-idade.
1. Insatisfação com a vida. De repente você começa a olhar à sua
volta e não gosta de sua vida. Você pode ter problemas com seu
trabalho ou seu casamento como você nunca teve antes. Você pode
olhar para a sua vida em geral e ela parece sem propósito, uma rotina
sem sentido e entediante. Você pode experimentar um enfado
constante, uma inquietude, descontentamento e desilusão. O fato é
que você não está feliz com a sua história. A vida dos outros à sua
volta parece interessante e atrativa como nunca antes. Essa
insatisfação não é necessariamente sobre uma coisa em particular,
mas um sentimento geral de descontentamento.
2. Desorientação. Há momentos em que todos nós ficamos
perdidos por um tempo, quando ficamos absortos em nossa própria
história. A desorientação da meia-idade diz respeito a identidade e
função. Durante essa época da vida, muitas formas pelas quais uma
pessoa pensou a respeito de si mesma não se aplicam mais. Muitas
das principais tarefas que a ocupavam não são mais necessárias.
Quando isso acontece, frequentemente as pessoas experimentam uma
perda de identidade. Essa perda de identidade não é filosófica, no
sentido de que não é o resultado de não conseguir responder às
questões profundas da vida; em vez disso, é funcional: Eu pensava
saber que eu era e o que deveria estar fazendo, mas agora eu não
tenho muita certeza.
3. Desencorajamento. Em algum ponto você começa a perceber
que perdeu a expectativa, vibração, esperança e coragem da
juventude. Quando você é jovem, é fácil ver os seus potenciais como
possibilidades, mas quanto mais velho você se torna, mais difícil é
fazer isso. Existe um provérbio antigo que diz: “Se o jovem não for
liberal, não tem coração; se o velho não for conservador, não tem
cérebro”. Independente de você concordar completamente com o
provérbio ou não, ele certamente aponta as diferenças na forma em
que a pessoa jovem e a velha olham para a vida. A juventude é uma
fase da vida de possibilidades ilimitadas. Jovens são visionários e
sonhadores. É opressor acordar para o fato de que você, há muito
tempo atrás, colocou de lado a sua sacola de sonhos. É difícil encarar
o fato de que você agora é mais cínico do que cheio de esperanças.
4. Temor. Não são muitas pessoas na cultura ocidental que
anseiam por idade avançada. Com o altíssimo valor que colocamos
em beleza e juventude física, é difícil ser positivo a respeito da idade.
Quando jovem, você vive com sentimentos funcionais de
invencibilidade. Eu comecei a observar a dieta do meu filho de
dezessete anos recentemente. O que ele come ou me deixaria pesando
quinhentos quilos ou me deixaria morto. Ficou claro para mim que o
pensamento de cuidar do que come nunca passa por sua mente. Ele
não pensa a respeito de suas veias, coração e cintura. A morte é um
conceito remoto para ele. Não é assim para a pessoa na meia-idade.
Coisas como cansaço, ganho de peso, dores e colesterol alto
começam a me lembrar de que eu não sou mais um jovem, que o meu
relógio físico está progredindo a cada dia. Frequentemente isso
resulta em preocupação generalizada ou temor da morte.
5. Desapontamento. Duas realizações podem bater de frente com
você de forma muito poderosa na meia-idade. A primeira é o
remorso. Você analisa a sua vida e se conscientiza de que há coisas
que você quis alcançar, mas nunca conseguiu. Talvez você olhe para
trás e diga: “eu sempre quis ter um momento diário de adoração com
meus filhos, mas eu nunca consegui fazer isso de forma consistente”.
Ou, “eu queria ter uma noite fora com minha esposa regularmente,
mas as coisas não caminharam dessa forma”. Ou, “eu quis me
envolver mais nos ministérios da minha igreja, mas isso nunca
aconteceu”. Ou, “eu sempre achei que conseguiria lidar com o meu
peso, mas eu nunca consegui sucesso ao longo da vida”. Todos nós
temos os nossos remorsos pessoais.
A segunda conscientização tem a ver com sonhos frustrados.
Todos nós temos sonhos pessoais. Talvez fosse ir bem na carreira, de
forma que você pudesse se aposentar mais cedo e se dedicar mais a
um ministério. Talvez fosse comprar uma chácara ou ter mais filhos.
Talvez você sempre tenha sonhado em voltar para a escola e sair
dessa ocupação que nunca te estimulou de fato. Quando você é
jovem, ainda consegue dizer a si mesmo que ainda dá tempo de
realizar os seus sonhos, mas quanto mais velho fica, mas difícil as
coisas se tornam.
6. Desinteresse. Aqui eu começo a ver que eu já não tenho mais
interesse nas coisas que antes me motivavam. Na verdade, eu acho
difícil motivar a mim mesmo a fazer coisas que antes eu achava
estimulantes e atraentes. Eu antes gostava de alguns relacionamentos,
mas agora, se for honesto, eu não me importo muito se vou ou não
ver tais pessoas novamente. Ou talvez seja o meu trabalho. Eu acho
difícil ir para o meu trabalho e me entregar completamente quando
estou lá. Ou, quem sabe, meu marido ou esposa, a quem antes eu
achava muito atraente, já não me atraia da mesma forma. Ou talvez
seja o desinteresse espiritual. Minha busca de Deus se torna sem
alegria, as devocionais pessoais praticamente somem e participação
em algum ministério ativo se torna rara. Eu tenho perdido interesse
em minha própria vida.
7. Distância. Em toda essa desorientação, perdição e inabilidade
para encontrar motivação para coisas que antigamente me
motivavam, é difícil não desistir. Eu não quero que as pessoas me
persigam. Eu não quero que me perguntem como eu estou. Eu não
quero ter de explicar porque eu já não participo mais da forma que
participava antes, eu só quero ficar sozinho. Eu não me sinto
confortável com você sabendo o quão perdido eu realmente estou e
não quero tentar explicar coisas que nem mesmo eu entendo.
8. Distração. Com todo esse rebuliço acontecendo dentro de mim,
eu me encontro em um lugar de vulnerabilidade real à tentação. A
tendência de todo pecador é lidar com suas lutas internas alimentando
o homem exterior. Alguns de nós exageram na reação quando estão
bravos. Alguns de nós lidam com o desapontamento adquirindo
coisas que pensamos que trarão satisfação. Alguns de nós entorpecem
a si mesmos com uma busca excessiva por lazer ou prazer. Quando eu
estou desapontado comigo mesmo e desencorajado com a minha vida,
é tentador dar espaço à concupiscência da carne. É tentador lidar com
a ausência de contentamento verdadeiro, indo atrás de prazeres físicos
fugazes, mas potencialmente escravizantes que estão ao meu redor.
Eu estou sempre em perigo quando funcionalmente estou trocando a
glória de andar com Deus, confiar e servir a ele pelas sombras de
glória do mundo criado.
ENTÃO, O QUE É QUE ESTÁ REALMENTE ERRADO?
Vários dos temas que aparecem ao longo dessa lista devem ser
reconhecidos por aquilo que são. Eles atingem o coração daquilo que
a luta da meia-idade diz respeito, porque vão no coração da nossa luta
como pecadores vivendo em um mundo caído. Nós vamos
desenvolver esses temas no resto desse livro. Eles são simples e
profundos. São pessoais e, ao mesmo tempo, são a luta geral de todo
ser humano. Eles são profundamente teológicos, mas presentes nos
momentos mais mundanos de nosso dia a dia. Eles tendem a se
esconder por trás das máscaras de pessoas que, na superfície, parecem
estar indo muito bem. Eles são mais profundos do que nossas
escolhas ou comportamento e influenciam tudo o que fazemos.
Talvez a melhor maneira de desenvolver esses temas seja
examinando a vida de três pessoas. Procure por esses temas à medida
em que você lê. Phil parecia ter tudo. Ele tinha quarenta anos, uma
esposa bonita, três filhos saudáveis, um ótimo trabalho. Ele havia
iniciado por baixo em sua firma como um projetista, fazendo detalhes
para projetos de engenharia. Ao longo dos anos avançou posições
lentamente. Agora ele era o engenheiro responsável por um time de
250 projetistas em uma das empresas mais influentes do mundo. Ele
amava o poder e prestígio que vieram junto com sua posição. Amava
a dinâmica e ambiente criativo nos quais ele circulava todos os dias.
Amava o fato de que desenvolvia projetos importantes. Ele não
acreditava que realmente era pago para fazer aquilo que sempre quis
fazer, e amava os diversos benefícios que sua família gozava como
resultado de seu trabalho. Phil era um homem feliz e era
completamente engajado em sua família e em sua igreja.
Foi pelo jornal, em uma noite, que Phil ouviu pela primeira vez
que sua empresa estava envolvida em um processo jurídico enorme
por causa de acidentes que resultaram de um dos projetos. Ele estava
preocupado, mas pensava que certamente a empresa tinha seguro para
esse tipo de situação. Não demorou muito para que os clientes
começassem a desistir de seus contratos, tendo perdido a confiança na
habilidade da empresa de Phil de trabalhar bem. Phil ouviu que teria
que se desfazer de metade de seu departamento. Foi difícil para ele,
mas Phil era um bom trabalhador em grupo e sabia que a medida era
necessária. Quando tinha somente cinco pessoas trabalhando em sua
equipe, ele viu o seu nome escrito à mão no mural. Phil seria
mandado embora no mês seguinte.
No primeiro instante, parecia que Phil estava bem. Ele falava
sobre a soberania e a fidelidade de Deus. Parecia bastante confiante
de que, com seu currículo e experiência, em pouco tempo estaria no
mercado de trabalho de novo. Ele espalhou seu currículo e esperava
por respostas rápidas. Phil ficou chocado quando a primeira remessa
dos correios não trouxe nenhuma resposta. Depois de um mês da
mesma forma, a confiança de Phil começou a arrefecer.
Sarah, esposa de Phil foi quem reparou primeiro. Ele estava
gastando horas sozinho no escritório de casa. Estava cada vez mais
irritadiço e nervoso. Tinha explosões de ira que ela nunca vira antes.
Phil se tornou mais mal-humorado e deprimido à medida em que
meses se seguiram. Ainda assim, com ira, ele recusava olhar para
qualquer outro tipo de trabalho. Phil estava chegando no fim de seu
seguro desemprego e o fundo de ex-funcionários não cobriria as
necessidades de sua família.
Em muitas manhãs, Phil nem tentava sair da cama. Ele vagueava
para a cozinha em algum momento durante a tarde e ficava
violentamente irado se alguém perguntasse como as coisas estavam
indo. Phil renunciou aos seus cargos na igreja e mal ia ao culto no
domingo. Sarah começou a perceber que Phil estava gastando muitas
horas longe de casa. Ele nunca havia feito nada parecido antes e isso
a alarmou. Ele dava um monte de desculpas, mas nunca dava uma
resposta satisfatória para as suas muitas ausências. Não demorou
muito para que Sarah descobrisse que seu marido estava tendo um
caso com outra mulher que já durava alguns meses. Quando
confrontou Phil, no início, ele negou a sua infidelidade, mas
eventualmente admitiu o que havia feito. Infelizmente, Phil não
parecia estar arrependido. Em vez disso, ele começou a expressar
verbalmente suas dúvidas a respeito de Deus e a questionar as
verdades da Bíblia.
Ele não podia crer que um Deus bom faria isso com ele. Não
acreditava que depois de anos obedecendo a Deus essa era a paga que
estava recebendo. Sentia como se tudo pelo o que trabalhou tivesse
sido tirado dele. Como ele poderia competir com caras com metade
da idade dele e que queriam metade do salário? Ele via a vida como
sendo injusta e Deus distante e sem cuidado. Amargo e cínico, Phil
não se esqueceu somente de sua família, mas de sua fé também.
O que está acontecendo com Phil? Porque ele se perdeu tão
completamente? Não é incomum que as lutas da meia-idade sejam
despertadas por algo como a perda de um emprego ou a inabilidade
de encontrar um emprego à altura. Mas há mais coisas acontecendo
aqui. Sim, é muito difícil ter o seu tapete profissional puxado de
debaixo de você. É difícil ver o impacto que isso tem na sua vida e de
sua família. No entanto, está claro que o que ele experimentou em
sequência não foi o resultado da perda de seu emprego, mas o coração
que que ele trouxe à situação.
Dean sempre foi fisicamente atraente. Ele amava esportes e
aventuras. Amava o fato de que podia compartilhar esses interesses
com seus três filhos. Criado em uma família católica nominal, Dean e
sua esposa conheceram o Senhor logo depois que se casaram e
experimentaram uma mudança radical em suas vidas. O
relacionamento deles com Deus, as verdades de sua Palavra e a obra
do seu reino se tornaram o foco central deles. Fosse para o seu
casamento, sua atividade como pais ou o trabalho de Dean, ele e
Emma olhavam para cada área do cotidiano da perspectiva de sua
identidade como filhos de Deus.
Dean também era muito agradecido por seu trabalho. Foi
promovido a uma posição de diretoria e viu nisso uma oportunidade
de ouro para ser sal e luz em um ambiente onde havia muita
corrupção e trevas. Ele tinha oportunidades regulares de defender o
que é correto e de compartilhar o evangelho no trabalho. Era
frequente Dean estar discipulando alguém que ele mesmo havia
trazido à fé.
Quando estava com quarenta e seis, Dean reparou em três coisas
que o preocuparam, embora não tivesse dito a Emma no começo. Ele
começou a sentir um cansaço incomum, dores, dores incômodas e
algo que parecia ser uma perda de coordenação motora no lado direito
de seu corpo. Dean achou-se derrubando coisas e tropeçando. Quando
finalmente foi ao médico e fez uma bateria de exames, descobriu,
chocado, que havia tido uma série de derrames e estava correndo o
risco de ter outros. Isso é o tipo de coisa que você ouve e sua vida
inteira passa diante dos seus olhos. Ele começou a se preocupar em
como em pouco tempo estaria completamente incapacitado ou mesmo
morreria. Quando passou o choque inicial, Dean começou a fazer
algumas pesquisas e descobriu que não havia recebido uma sentença
de morte.
Dean descobriu que ficaria melhor com uma combinação de
terapia física e medicações fortes. Ele realmente melhorou e
conseguiu voltar para o trabalho, mas não sem dificuldades.
Infelizmente, mesmo com todos os remédios, ele teve outro derrame
pequeno e sua condição piorou, ficando claro para Dean que ele teria
de ficar nessa situação de permanente deficiência.
Dean era um homem muito ativo e não levantar cedo para
trabalhar e prover para a sua família era algo enorme para ele. Ele não
mais seria capaz de pescar ou brincar com os meninos. Os dias de
longos passeios de bicicleta com a família estavam no passado. Ele
pensava em como voltaria a servir ao Senhor se agora gastava a maior
parte de seu tempo trancado dentro de casa.
Dean ficou muito desencorajado por ficar inválido sendo tão
jovem. Ele perdera as suas capacidades físicas tão cedo em sua vida
que não podia imaginar o que os anos seguintes lhe trariam. No
começo era difícil para Dean ver a família dos seus amigos saudáveis.
Ele odiava ficar sentado nas calçadas em piqueniques e passeios da
família. Ele se sentia culpado por ter se aposentado cedo e ficou
tentado a concluir que havia se desviado da vontade do Senhor. Mas
Dean ficou firme em sua fé de que Deus é bom e foi humilde o
suficiente para reconhecer que não merecia nada que havia sido dado
a ele. Também entendeu que todos os dias ele ainda estava recebendo
das mãos do Senhor tudo que precisava para fazer o que Deus lhe
chamou a fazer.
Dean começou a ver a deficiência como uma oportunidade, e o
fato de que ele ainda tinha muitos anos à frente de si como um
verdadeiro benefício. Ele podia fazer coisas que muitas pessoas
desejaram, mas nunca conseguiram. Dean conseguiu deixar o seu
trabalho de lado bem cedo e voltar seu foco totalmente para o
ministério ativo do reino. Ele entendeu que havia muitos ministérios
locais que poderiam se beneficiar grandemente de sua experiência e
dons. Dean se recusou a se entregar ao desencorajamento que sentiu
de maneira tão poderosa e às dúvidas que tinha em seu coração com a
força de uma marreta. Ele começou a abraçar a verdade de que a
graça de Deus é mais poderosa em nossos momentos de maior
fraqueza. No meio da fraqueza e temor, ele experimentou a alegria do
trabalho no reino de Deus. Embora a vida com uma doença crônica
fosse muito difícil, Dean vivia cada dia com alegria e expectativa,
ocupado com o trabalho que Deus lhe deu.
O que aconteceu com Dean? Como ele conseguiu encarar essa
doença devastadora e ter sua vida totalmente virada de cabeça para
baixo sem se perder? Qual é a diferença entre Phil e Dean? Porque é
que Dean parecia mais bem preparado do que Phil para encarar aquilo
que é não desejado nem esperado? Consideremos a história de mais
uma pessoa.
Sally sempre foi muito esforçada. Ela foi muito bem na escola e
foi contemplada com bolsa completa em uma universidade de ponta.
Na faculdade ela fez um curso impecável, graduou com honras e teve
montes de ofertas de emprego das maiores multinacionais. Não muito
depois de conseguir uma ótima posição de trabalho, encontrou uma
igreja e comprou um apartamento em um centro que estava
expandindo muito. A igreja que ela encontrou tinha um ministério
maravilhoso para solteiros do qual Sally participava com frequência e
entusiasmo. Foi lá que ela encontrou um círculo de amigas que se
tornou a sua fonte primária de amizade e comunhão. O trabalho de
Sally era criativo, exigente e frenético – o que ela, como alguém de
alta performance, amava. Havia muito espaço para desenvolvimento e
Sally, rapidamente, avançava. Parecia que sempre estavam vindo em
sua direção mais responsabilidade, mais autoridade e mais dinheiro.
Os anos passaram voando sem que Sally percebesse.
Enquanto isso, Sally estava realmente ligada ao seu círculo de
amigas cristãs. Ela amava seus jantares chineses e o grupo de estudo
bíblico às terças. Elas compartilhavam essa poderosa comunhão de fé,
unida a uma capacidade de falar honestamente sobre quase qualquer
coisa. Elas até mesmo fizeram várias viagens juntas, sempre
assistindo vídeos antigos e rindo até tarde da noite
Quando começou em seu trabalho e se mudou para seu
apartamento, Sally secretamente esperava conhecer um homem com
quem ela pudesse compartilhar a vida, mas isso não era uma
necessidade premente. Ela tinha uma vida muito ocupada e cheia no
trabalho e com as atividades da igreja e amizades, sua agenda estava
bem cheia. Em certo momento, concluiu que seu relacionamento com
seu gato, Franco, era tudo o que ela podia dar conta. Ela até namorava
com certa frequência, mas nenhum de seus relacionamentos foi a
lugar algum, e era difícil conseguir uma amizade com um homem,
visto que as demandas de trabalho sempre pareciam atrapalhar de
alguma forma.
Ao longo dos anos ela foi a tantos casamentos que temia quando
receberia um novo convite. Fez chuva de arroz em muitas de suas
amigas e participou de muitos chás de panela. Ainda assim, a vida
dela estava cheia.
Uma quinta à noite, Sally chegou em casa depois de um dia muito
cansativo. Colocou sua pasta perto da porta, jogou seu casaco no sofá
e chamou o Franco. Ela achou estranho que ele não tivesse vindo
encontrá-la no hall de entrada e pulado no banco, como fizera por
anos. Sally o encontrou deitado na cama dela. Ela parou na porta,
olhou para ele e pensou, “Esse é o Angorá mais bonito que Deus já
fez”. Ele parecia um rei deitado ali. Sally entrou no quarto e estendeu
a mão para fazer carinho nele, ficando chocada quando tocou em seu
corpo frio. Ela rompeu em lágrimas e chorou frequentemente ao
longo dos dias seguintes.
Foi na segunda-feira da semana seguinte quando tudo veio
trovejando sobre ela. Sally abriu a porta depois de um dia longo e
desafiador, mas não havia felino no banco para recebê-la. Ela colocou
algumas coisas no quarto e foi para o banheiro. De frente para o
espelho, foi como um soco se lembrar que já tinha trinta e nove anos!
A pessoa que ela viu parecia velha demais para ser ela. Onde é que o
tempo se foi? Porque ela não prestou mais atenção? Será que a vida
passou diante dela e ela estava ocupada demais para ver?
Naquela noite o apartamento de Sally parecia incrivelmente vazio
e claustrofóbico, tanto assim que Sally saiu. Ela gastou grande parte
daquela noite andando pelas ruas do centro. Se sentia velha e sozinha.
Seu grupo de terças já havia acabado há algum tempo. A maioria dos
seus membros havia se mudado ou se casado. O seu trabalho estava
mais exigente do que nunca e frequentemente Sally sentia que
estavam exigindo demais dela. Ela ainda amava os cultos dominicais
de sua igreja, mas não aguentava mais o grupo de solteiros de sua
igreja. Sentia que não tinha mais nada em comum com aquelas
pessoas.
À medida em que os dias se passavam, Sally ficava cada vez mais
introspectiva. Sua vida consistia de trabalho e o culto do domingo de
manhã. Ela gastava horas em seu apartamento sozinha, enrolada em
cobertas no sofá e enfeitiçando o seu coração com o controle remoto.
Todas as noites a TV era simplesmente barulho ambiente, uma
companhia eletrônica que fazia o apartamento vazio um pouco mais
suportável. Todas as noites, Sally repassava o vídeo de sua vida, cena
após cena, decisão após decisão. Cada vez que fazia isso se enchia de
mais remorso e arrependimento. Porque deixou que se trabalho a
controlasse tanto? Porque não dedicou mais tempo a outras coisas?
Como é que viu tantas amigas se casarem e ela não “entrou nessa”?
Porque Deus dizia que a amava e ainda assim a deixara tão
completamente sozinha? Ela se sentia cansada, mas era o tipo de
exaustão que era mais do que física.
Às segundas, Sally achava crescentemente difícil encontrar
motivação interna para ir trabalhar. Houve muitos dias em que ela
ensaiou o seu pedido de demissão à medida em que caminhava para o
trabalho, nunca o fazendo quando chegava. Ela gostava cada vez
menos dos cultos de domingo que antes a deleitavam e fazia muito
tempo desde a última vez em que ela fez a sua devocional pessoal.
Achava crescentemente difícil se dedicar a qualquer coisa (igreja,
trabalho, sua aparência, seu apartamento) porque nada disso parecia
fazer diferença. Ela não tinha vida e parecia que nada podia mudar
essa situação.
O que dizer a Sally? Como você poderia ajudá-la a se desprender
dessa teia de cinismo e desencorajamento? O que há de errado com
ela? Como ela deveria lidar com as coisas que está enfrentando
agora?

RECONHECENDO OS TEMAS
Para compreender Phil, Dean e Sally de forma apropriada, você tem
de ver os temas que perpassam a experiência de cada um deles. Esses
temas poderosos, transformadores, podem criar uma luta tão
perturbadora que nossa sociedade cunhou o termo de “crise da meia-
idade” para expressá-la. Se formos trazer a impressionante sabedoria
das Escrituras para esse tema perturbador, é importante entender a
dinâmica do que está realmente acontecendo e identificar esses temas
universais.
1. Um evento inesperado. Há um sentido em que não somos nós
que vivemos a vida, mas é a vida que nos vive. Nós somente vamos
junto com os seus lugares, relacionamentos, situações,
responsabilidades, oportunidades e atividades, sem parar muito para
olhar, ouvir e considerar. Grandes pedaços de tempo passam
virtualmente sem ser percebidos. Claramente foi isso o que aconteceu
com Phil, Dean e Sally. Então, cada um deles foi atropelado pelo
mesmo evento. Todos eles experimentaram algum evento inesperado
que, de repente, abriu os seus olhos. Pessoas que estudam essas coisas
os chamam de eventos desencadeadores. Para Phil foi a perda do seu
emprego, para Dean foi a doença física e para Sally foi a morte do seu
gato, Franco. Para cada um deles, o evento proveu uma janela para a
vida pela qual eles não haviam olhado antes.
2. Uma nova consciência. Visto que o evento desencadeador lhes
abriu os olhos, Phil, Dean e Sally começaram a ver e sentir coisas que
provavelmente já estavam lá, mas que na correria da vida passaram
desapercebidas. Eles de repente entenderam quanto tempo havia se
passado e quanto deixaram de fazer. Se tornaram conscientes de sua
saúde física e das realidades do envelhecimento. Reconheceram
quantas decisões importantes ao longo do caminho mudaram o curso
de suas vidas. Eles perceberam as grandes diferenças entre suas vidas
e a vida de outros ao seu redor.
3. Interpretações pessoais poderosas. A crise da meia-idade diz
respeito a mais do que um evento inesperado seguido por uma nova
conscientização poderosa. A crise está realmente enraizada na
maneira como as pessoas interpretam as coisas que veem. Na
verdade, é mais poderoso do que isso. Suas interpretações realmente
determinam o que elas veem e como veem. Como pecadores, o
problema com as nossas interpretações é que elas tendem a ser
estreitas e seletivas. Lembre-se, o pecado não afeta somente o que
fazemos, ele também afeta o que pensamos e como vemos. Em
maneiras que normalmente não percebemos, o pecado reduz todos
nós ao papel de tolos. O caminho que nos parece correto pode levar à
morte e o caminho que não nos faz sentido é frequentemente o
caminho da sabedoria.
Esse é o motivo pelo qual todos nós precisamos das perspectivas
sábias da Palavra de Deus. A crise da meia-idade é poderosamente
teológica. Tudo diz respeito aos caminhos fundamentais pelos quais
interpretamos a vida. Tudo diz respeito a como nosso sistema
funcional de crenças dão forma à maneira de respondemos a qualquer
coisa que Deus coloque diante de nós. Isso explica o porquê Dean
responde ao seu diagnóstico de maneira tão diferente do que Phil à
sua perda de emprego e Sally à morte de Franco.
4. Desejos Governantes Expostos. As lutas da meia-idade
revelam o coração com precisão. As interpretações que uma pessoa
dá aos eventos e à nova conscientização da meia-idade não são o
resultado de uma teologia abstrata objetivamente sustentada. Não, a
teologia funcional que dá forma à maneira de uma pessoa responder
durante esse período é enraizada em valores, tesouros e desejos do
coração. A crise da meia-idade, em sua forma mais básica, não é uma
crise eventual, uma crise de conscientização ou uma crise da idade.
Ela é uma crise do coração. A meia-idade expõe o que uma pessoa
realmente estava vivendo e onde tentou encontrar significado e
propósito. Ela tem o poder de revelar o buraco significante entre a
teologia confessional e a teologia funcional da pessoa. Aquilo que
declaramos no domingo como a razão da nossa vida, pode não ser, de
fato, a coisa que realmente governa o nosso coração diariamente. E
quando essas coisas que nos governam são tiradas de nossas mãos,
tendemos a nos tornar iracundos, temerosos, amargos ou
desencorajados. Experimentaremos uma perda de identidade e uma
diminuição de significado e propósito. Olharemos para essa área de
forma bem mais detalhada nos próximos capítulos, mas é importante
entender que a crise da meia-idade é uma crise de desejo.
5. Respostas reflexivas. É aqui que a pessoa na meia-idade se põe
em apuros. Respostas de reflexo podem parecer lógicas, mas elas são
somente a lógica inversa do desejo. A pessoa está, na verdade, presa
do redemoinho de seus pensamentos e motivos do coração. Suas
respostas a essa nova consciência somente mudarão na medida em
que se resolverem as questões subjacentes do coração. As ações
lamentáveis de Phil são motivadas por pensamentos distorcidos e
desejos desordenados do seu coração. Sally termina como uma
reclusa depressiva não como resultado da morte de Franco, mas por
causa dos pensamentos e motivos que ela trouxe a isso. Dean encara
coisas devastadoras, mas ele não joga a sua vida fora porque ele
trouxe um coração diferente para esse momento amedrontador e
doloroso de sua vida. Como Phil e Sally, os verdadeiros tesouros do
coração de Dean são revelados nesse momento e, como eles, suas
ações não são forçadas pelas circunstâncias, mas formadas pelos
pensamentos e motivos do seu coração.
Esses cinco temas tendem a correr como fios no tecido da crise
típica da meia-idade. Eles precisam ser desenvolvidos e
compreendidos biblicamente. Ao fazê-lo, não somente conheceremos
melhor a nós mesmos, mas também conheceremos nosso Senhor mais
completamente. Somente em momentos de autoexame humilde e
honesto, somos capazes de entender quão amplo, profundo, cheio e
completo é o amor de Deus por nós. É aqui que vamos realmente
começar a entender que a Escritura não somente coloca diante de nós
uma promessa maravilhosa de eternidade, mas ela também entende as
questões mais profundas que experimentamos antes de chegarmos lá.
Na narrativa da Palavra de Deus, encontramos sabedoria eloquente e
prática, que fala diretamente às nossas questões mais prementes.
Dessa forma, precisamos ter dois compromissos constantes
conosco onde quer que formos. Primeiro, temos de nos comprometer
a sermos persistentes e ensináveis estudantes da Palavra de Deus.
Nunca nos foi ordenado que entendêssemos a vida sozinhos. Somente
à medida em que nos submetermos à sabedoria do Maravilhoso
Conselheiro, é que escaparemos de nossa própria tolice. Segundo,
precisamos nos comprometer com o hábito de autoexame constante.
Você e eu precisamos nos acostumar a nos colocarmos diante do
espelho da Palavra de Deus, de forma que possamos ver a nós
mesmos como realmente somos. Cristianismo saudável é encontrado
no cruzamento entre autoconhecimento acurado e verdadeiro
conhecimento de Deus.
E você? Talvez você esteja lendo esse livro porque se perdeu no
caminho. Ou talvez você o esteja lendo porque está em um
relacionamento, ou ministrando a alguém que está lidando com
alguma luta da meia-idade. Ou talvez você está simplesmente
interessado em como o evangelho é aplicado de forma prática a
questões diárias da vida humana. Qualquer que seja a sua razão para
pegar esse livro, eu o convido a examinar o seu próprio coração, de
forma que você também não se perca no caminho. O que te mantém
funcionando? O que torna a sua vida digna? Quais são os sonhos que
você tende a capturar em seu coração? Exatamente agora, como você
entende a sua vida? O que você se convenceu de que não consegue
viver sem? Onde você procura encontrar a sua identidade? Porque
você chama um dia de bom e outro de ruim? O que na vida você mais
deseja? Seja honesto – porque você realmente faz as coisas que faz?
À medida que você faz escolhas e decisões, o que você espera
conseguir com elas?
Que Deus exponha nosso coração de forma que, realmente vendo
a nós mesmos, tenhamos uma fome mais profunda por ele!
CAPÍTULO 2

DOIS SALMOS DA MEIA-IDADE

O Dia mais terrível, se você sobreviver, amanhã terá passado.


— WILLIAM COWPER

Nós devemos aceitar desapontamento finito, mas nunca perder esperança infinita.
— MARTIN LUTHER KING, JR.

O dia de Sam começou como qualquer outro. Ele tinha seguido sua
rotina matinal corriqueira: tomar banho, barbear, passar as roupas,
beber um café lendo o livro devocional Manhã e Noite de Spurgeon,
beijar a esposa na testa e sair para o trabalho. Ele estava ansioso pela
sua rotina diária, exceto pela consulta de rotina com o Dr. Blair.
Às 3h30m Sam encontrava-se segurando uma revista na qual ele
não estava realmente interessado e que não estava realmente lendo.
Reclamava consigo mesmo sobre como os médicos sempre marcam
mais consultas do que dá tempo e fazem os pacientes esperar. Logo
ele ouviu o seu nome e seguiu a enfermeira para a sala de exames.
Para a sua surpresa, o médico não disse que tudo estava ótimo e que o
veria no ano seguinte. Ele estava preocupado a respeito de algumas
coisas que apareceram nos exames físicos de Sam e marcou um teste
de esforço e outros exames.
Foi durante os dias seguintes que o mundo de Sam mudou
radicalmente, mais que ele havia percebido no primeiro choque. Sam
tinha um bloqueio sério e precisava de uma ponte de safena urgente.
O médico nem mesmo deixou Sam voltar para casa. Ele conseguiu
ligar para a sua esposa, mas então foi rapidamente levado para um
quarto e colocado em uma cama. A cirurgia foi marcada para dois
dias adiante. Não fazia nenhum sentido, pois ele era alto e magro,
sempre fora fisicamente ativo, não tinha nenhum mal hábito alimentar
e não havia se sentido mal nenhum dia de sua vida. Ainda assim ali
estava ele, na cama, esperando para fazer uma ponte de safena.
Sam dormiu um pouco naquela noite. Ele ficava se confortando
com o fato de que não tivera um ataque do coração e, assim, não
estava lidando com um dano maior, mas ainda estava confuso e com
medo. O próximo dia foi gasto consolando a sua esposa, Fran,
enquanto era preparado para a cirurgia. Quando a cirurgia terminou,
Sam voltou como uma pessoa fisicamente diferente. Pela primeira
vez em sua vida se sentiu um velho.
Ele esperava que o sentimento de se sentir velho aos quarenta e
nove passasse depois que se recuperasse da cirurgia, mas as semanas
se passaram e Sam começou a pensar se voltaria a ser o mesmo. A
ampliação da licença médica do trabalho logo se transformou em
conversas sobre a possibilidade de Sam conseguir fazer o seu antigo
trabalho novamente. Eventualmente, as discussões se transformaram
em se a empresa teria outra posição para ele e, então, sobre
negociações de seu pacote de demissão.
O choque daquele primeiro ano foi tão poderoso, que Sam teve
pouco tempo para processar o que aconteceu. Somente depois que foi
para casa, e gastou algum tempo pensando sobre o que faria com o
resto de sua vida é que o peso do que aconteceu realmente caiu sobre
ele.
Sam mal estava com cinquenta e já sentia que não tinha futuro.
Todas as pessoas que ficaram com ele voltaram às suas próprias
vidas. Até mesmo Fran aceitou um trabalho de tempo integral e
começou a fazer o seu mestrado três noites por semana. Sam odiava a
sua casa porque ela havia se tornado a sua prisão pessoal. Ele odiava
sair porque invejava todo mudo que via. Odiava pensar sobre como a
sua vida não acrescentava muito. Ele concluiu que havia falhado em
muito do que havia se proposto a fazer e a maioria dos seus sonhos se
desvaneceu sem se cumprir. Havia muitas coisas que Sam conseguia
fazer. De forma alguma ele estava inválido. Na verdade, havia muitas
possibilidades de trabalho com portas abertas para ele, mas Sam não
se interessava por nenhuma delas. Sam gastava cada vez mais tempo
sozinho e, quando estava com pessoas, ficava frequentemente calado
e então saia. Ele havia pintado em sua mente uma figura idílica de sua
vida pré-cirurgia, que a fazia muito mais atraente do que ela de fato
havia sido e uma pintura muito mais sombria de sua vida presente do
que realmente era.
Sam simplesmente odiava ser o Sam e isso não estava
melhorando. Ele me contou a sua história com tons de amargura e
desencorajamento. Foi tudo o que pôde fazer para viver dentro da
trama de sua própria história, não podia crer que haveria ainda algum
futuro para ele.
Embora existam sentidos em que a história de Sam é única e
extrema, ainda assim, existem nela muitos elementos típicos da luta
da meia-idade (conscientização repentina, interação de pensamento e
desejo com consciência, a desorientação que resulta disso etc.). Mas
uma coisa me impressionou a respeito de Sam que eu tenho
observado em muitas pessoas à medida em que elas me contam as
suas histórias. É uma dinâmica muito importante para nós enquanto
pensamos sobre a Bíblia e as lutas da meia-idade. Deixe-me explicar.

A VIA SECUNDÁRIA DA ESCRITURA


Meu filho mais novo é um bom jogador de basquete. Ele estuda o
jogo e tem uma ótima coordenação olho/mão. Ele protege bem a bola
e tem um ótimo arremesso à distância. Ele não é um grande saltador,
nem um jogador muito rápido. Durante o ano passado, quando queria
estar na quadra, gastou muito tempo no banco. O seu técnico dava
preferência para um tipo de jogo rápido “corre-e-arremessa”, que
simplesmente não funcionava com as características fortes do meu
filho. Ele estava no banco porque o seu estilo de jogo não se
encaixava no sistema.
De maneira semelhante, eu tenho ficado muito impressionado ao
longo dos anos em como a Bíblia é funcionalmente deixada de lado
na vida de pessoas que estão sofrendo. Todas essas pessoas são
crentes comprometidos com a Palavra de Deus e não negaram a sua
fé na veracidade das Escrituras. Mas em momentos de sofrimento
pessoal, dificuldade e crise, a Bíblia de repente se torna
funcionalmente irrelevante. A maneira que pensam sobre o que está
acontecendo em suas vidas não é dinamicamente formada nem
dirigida pela história abrangente das Escrituras. E quando a Escritura
é funcionalmente deixada de lado, eles começam a perder a sua
identidade, ética, missão e valores. A Bíblia simplesmente parece não
falar ao seu jogo atual. Sim, todos eles creem que ela fala sobre a vida
em geral e que o que diz é verdadeiro, mas há um buraco enorme
entre as palavras nas páginas da Escritura e os detalhes dolorosos da
vida.
Na maioria das vezes, esse buraco não é revelado com a pessoa
dizendo: “francamente, Paul, eu acho que a Bíblia não tem nada a
dizer sobre o que eu estou passando”. Essa atitude é mais
frequentemente revelada por uma falta de menção da Bíblia e de suas
perspectivas à medida em que a pessoa está lutando para entender a
sua vida. Deixe-me apresentar outra metáfora.
Quando você compra um carro, existe um manual do proprietário
no porta-luvas. Ele está ali porque diz a você tudo o que alguém
precisa saber como proprietário do veículo, a fim de usar e preservar
o carro de maneira apropriada. É o guia de referência automotivo
mais confiável no qual você pode colocar as mãos, visto que foi
escrito pela empresa que fez o veículo. Não seria estranho se a
primeira vez que uma luz acendesse, uma advertência viesse no
painel ou o rádio não funcionasse adequadamente eu ficasse confuso
e bravo, mas não consultasse o manual do proprietário? Isso é
exatamente o que acontece com muitos cristãos que ficam perdidos
no meio de sua própria história. Eles reconhecem que a Palavra de
Deus é verdadeira porque ela foi escrita elo Fabricante, mas em
momentos de dificuldade, nunca a retiram do porta-luvas da vida. A
Palavra de Deus é o nosso manual mais confiável sobre o uso e a
manutenção de uma vida humana. Ela fala com poder e sabedoria
prática sobre cada experiência humana. É impossível para ela não
tratar dos problemas da sua vida, porque vida é exatamente o assunto
sobre o qual ela fala. Escrita por aquele que conhece todas as coisas
desde antes da criação até depois do destino final, ela contém tudo o
que precisamos para viver a vida como ela foi planejada para ser
vivida aqui e agora.
À medida em que eu ouvia a história de Sam, me impressionou o
fato de que, se eu não soubesse quem ele era e em que cria, não
haveria nenhuma dica em sua narrativa de que a Palavra de Deus
tivesse de alguma maneira informado as suas perspectivas de vida. A
sua crença nas Escrituras e a forma como lidava com as questões
particulares dolorosas de sua doença física, de alguma forma,
existiam em duas câmaras separadas em seu coração. O que eu quero
fazer nesse capítulo, bem como no livro todo, é trazer a Bíblia à vida.
Eu quero transpor esse buraco que frequentemente existe entre a
Bíblia e a vida do dia a dia. Esse fosso é particularmente evidente em
tempos de problemas pessoais.
Eu quero fazer isso direcionando você a dois salmos. Um dos
benefícios dos salmos é que ele nos mantém honestos. Nos Salmos, a
fé bíblica não é apresentada como sendo arrumada e fácil. Em vez
disso, quanto mais perto você se aproxima de realmente entender a
honestidade chocante dos Salmos, mais você vê quão bagunçada,
caótica e cheia de perguntas a vida de fé realmente é. Em nosso
mundo acontecem coisas que não entendemos. Deus nos confunde
regularmente e o pecado nos cega. Os Salmos falam sobre esse
mundo com belo balanço de honestidade e esperança. Olhemos para
dois Salmos conjuntamente.

ENCONTRANDO ESPERANÇA ONDE ELA NÃO EXISTE


Eu quero levar você a um dos salmos mais sombrios, talvez a
passagem mais sombria em toda a Bíblia. Suas palavras são
desoladas, sombrias e sem esperança. Nã o há descanso em seus
versos, nem solução no final. Não há nenhum traço de alegria ou
esperança.
Parece não haver amigo em quem se apoiar e nenhuma âncora de
verdade. O lamento desse salmo é a lamúria final de alguém que está
no fim, prestes a desistir. Ele tem o poder de assustar e até ofender
você. Você se pergunta, porque Deus não está fazendo nada e até
questiona a utilidade dele no cânon. Porque esse salmo foi escrito
como uma canção para o mestre de coro? Como poderiam os filhos
de Corá, conhecidos pelos seus cânticos jubilosos, cantar algo tão
sombrio?
Diante da aparente falta de esperança do Salmo 88, você começa a
se apropriar da esperança maravilhosa que ele expressa. Entre na
escuridão do Salmo 88 comigo, mas procure esperança à medida em
que caminhamos.
Ó Senhor, Deus da minha salvação,
dia e noite clamo diante de ti.
Chegue à tua presença a minha oração,
inclina os ouvidos ao meu clamor.
Pois a minha alma está farta de males,
e a minha vida já se abeira da morte.
Sou contado com os que baixam à cova;
sou como um homem sem força,
atirado entre os mortos;
como os feridos de morte que jazem na sepultura,
dos quais já não te lembras;
são desamparados de tuas mãos.
Puseste-me na mais profunda cova,
nos lugares tenebrosos, nos abismos.
Sobre mim pesa a tua ira;
tu me abates com todas as tuas ondas.
Apartaste de mim os meus conhecidos
e me fizeste objeto de abominação para com eles;
estou preso e não vejo como sair.
Os meus olhos desfalecem de aflição;
dia após dia, venho clamando a ti, Senhor,
e te levanto as minhas mãos.

Mostrarás tu prodígios aos mortos


ou os finados se levantarão para te louvar?
Será referida a tua bondade na sepultura?
A tua fidelidade, nos abismos?
Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas?
E a tua justiça, na terra do esquecimento?
Mas eu, Senhor, clamo a ti por socorro,
e antemanhã já se antecipa diante de ti a minha oração.
Por que rejeitas, Senhor, a minha alma
e ocultas de mim o rosto?
Ando aflito e prestes a expirar desde moço;
sob o peso dos teus terrores, estou desorientado.
Por sobre mim passaram as tuas iras,
os teus terrores deram cabo de mim.
Eles me rodeiam como água, de contínuo;
a um tempo me circundam.
Para longe de mim afastaste amigo e companheiro;
os meus conhecidos são trevas.

As palavras do Salmo 88 são tão sombrias, tão desesperadas e tão


vazias de qualquer esperança perceptível que quase tiram o nosso
fôlego. Não dá para não ser tocado por sua tristeza; pela dor do
coração do escritor à medida em que luta para descrever
adequadamente a experiência pela qual está passando. Para ele, Deus
não está somente distante, mas virou o rosto para o outro lado (uma
metáfora de rejeição). No meio da escuridão profunda essa pessoa se
sente totalmente sozinha. As pessoas mais próximas foram embora.
Não há ninguém que realmente entenda, ninguém que realmente se
importe e que possa ajudar. Em uma tentativa desesperada de fazer
Deus responder, o salmista apela para o compromisso de Deus com a
sua própria glória. Essencialmente ele diz: “Deus, eu estou morrendo
aqui. Eu poderei louvar ao Senhor quando estiver morto? Conseguirei
testemunhar de sua fidelidade quando estiver na sepultura?
Finalmente, o salmo termina como nenhum outro. Sua última palavra
é “trevas”. O salmista basicamente diz: “Eu tenho olhado à minha
volta e entendi que tenho apenas uma amiga. Seu nome é Trevas.
Sim, ela se tornou a minha melhor amiga”.
Na cosmologia do cristianismo do tipo “eu-sou-tão-feliz-esta-é-a-
razão”, não faria sentido que o Salmo 88 estivesse na Bíblia e ainda
menos sentido que isso pudesse ser experimentado por um cristão
verdadeiro. Pode um cristão chegar a um ponto onde não tenha
alegria funcional nem esperança prática? Pode um verdadeiro cristão
se sentir esquecido e sem amigos? O Salmo 88 ofende o cristianismo
quentinho e felpudo da cultura ocidental. Ele nos confronta com
coisas para as quais não queremos olhar, muito menos gastar tempo
para pensar a respeito. Tendemos a querer um cristianismo cheio de
esperança e alegria pessoal, cujos raros problemas são facilmente
resolvidos por um dicionário teológico e um pouco de oração. O que
queremos é ser felizes e não parece ser pedir muito a um Deus que é
dono de todas as coisas e está em controle de todas as coisas.
Sim, o Salmo 88 está na Bíblia e está ali por um motivo. Ele é
parte vital da revelação de Deus a nós, e quando ouvimos e
entendemos a sua mensagem, se torna fácil entender porque ele é um
salmo perfeito para a meia-idade.

SALMO 88: CONFRONTAÇÃO


Não se encontra muitos cantores cristãos ávidos por transformar o
Salmo 88 em uma música. Ainda assim, precisamos olhar para aquilo
que esse salmo nos força a ver: a vida nesse mundo caído é difícil. O
mundo é um lugar quebrado. Todos vamos nos encontrar com o
inesperado. Ser um cristão não significa estar isento de momentos de
significativas trevas. Haverá momentos quando parecerá impossível
entender o que Deus está fazendo. Haverá tempos em que parecerá
que seus lamentos não são ouvidos e suas orações não são
respondidas. Haverá momentos em que parecerá que você está
completamente sozinho e que ninguém poderia entender aquilo pelo
que você está passando. Esse salmo nos confronta com uma poderosa
realidade; estar em relacionamento pactual com o Senhor não
significa que eu vou escapar das dificuldades da vida em um mundo
caído.
Pense sobre isso por um momento. Cristãos envelhecem. Cristãos
enfrentam deslealdade, desonra e rejeição. Cristãos lidam com
corrupção no governo e injustiça. Cristãos tem momentos de
desapontamento e tristeza. Cristãos são maltratados. Algumas vezes a
nossa família tem crises, nossos carros quebram e nossas casas
queimam. É importante que entendamos isso. O céu que todos nós
desejamos ainda está por vir. Vivemos em um momento
desconfortável entre as glórias de nossa justificação e de nossa união
final com Cristo, por toda a eternidade. E onde vivemos nesse
interregno? Vivemos em um mundo que foi e continua senso
devastado pelo pecado. Os sinais estão em todos os lugares à nossa
volta. O mundo geme, esperando por redenção!
É isso algum erro? Não seria melhor, mais fácil e mais eficiente
para nós sermos levados para a eternidade no momento em que
cremos? Você entrega a sua vida a Cristo e desaparece! Não há mais
a necessidade de enfrentar os aborrecimentos da vida no mundo
caído. Não há mais temor do que possa acontecer. Não há mais
necessidade de dispositivos de segurança e remédios para dor. Mas a
nossa presença continuada neste lugar de gemidos não é uma falha no
plano; esse é o plano. Por mais difícil que seja de aceitar, você está
aqui porque aqui é o lugar onde o seu Pai Celestial, totalmente sábio e
totalmente amoroso, quer que você esteja. Essas experiências não
ficam no caminho atrapalhando aquilo que ele está fazendo em você e
através de você, mas são os meios pelos quais ele age.
O Salmo 88 nos confronta com o fato de que Deus não está atrás
daquilo que nós estamos, doutra forma esse salmo não estaria na
Bíblia. Se Deus estivesse usando o seu poder maravilhoso para te dar
satisfação pessoal e prazer, então, o Salmo 88 seria um testamento
embaraçoso de falha completa. O Salmo 88 nos chama a confessar
humildemente que nós tendemos a viver vidas autoabsorvidas.
Pensamos que uma vida confortável é uma vida feliz. Queremos que
as situações, os relacionamentos e a criação à nossa volta nos
proporcione o prazer que procuramos, e ficamos desapontados,
desencorajados ou irados quando eles não nos dão isso. Deus está, de
fato, trabalhando em prol da nossa alegria e satisfação, mas de uma
ordem superior, e uma que somente é alcançável quando esquecemos
a nossa própria glória e aprendemos a viver em constante busca da
glória dele.
O Salmo 88 também nos chama a ser honestos. Nós clamamos a
Deus e ficamos pensando se ele nos ouviu. Sentimos que fomos
especialmente escolhidos para o sofrimento. Passamos por momentos
quando nos sentimos sem amigos. A luta não tem sido somente física,
relacional e circunstancial, mas também intensamente espiritual. Nós
também temos questionado a presença, fidelidade e amor de Deus.
Duvidamos dos seus planos. Certos momentos, fomos tentados a
duvidar se ele realmente estava no controle. Abaixo do verniz dos
cumprimentos dominicais, “Eu estou bem, e você?”, todos nós já
enfrentamos a dureza do já-e-ainda-não onde Deus nos chamou para
viver até que tudo esteja preparado para o nosso destino final.
Precisamos de um cristianismo que vá por baixo dos
cumprimentos açucarados e obviedades teológicas, e que
corajosamente tome as riquezas da redenção que estão no meio do
Salmo 88, sem titubear e sem medo. E precisamos confessar quão
longe estamos de um cristianismo que seja tão robusto.
Mas, o que isso tem a ver com a meia-idade? Tudo! Sejamos
honestos; achamos a meia-idade difícil porque ela é difícil! Lutamos
com o plano porque ele não é o nosso plano. Ficamos desapontamos
porque envelhecemos. Ficamos insatisfeitos porque os nossos sonhos
escorregam de nossas mãos. Ficamos desencorajados porque, em
nosso pecado, falhamos muitas e muitas vezes. Ficamos desapontados
porque coisas boas acabam e pessoas seguem com a suas vidas sem
nós. A meia-idade expõe o quanto lutamos com o fato de que Deus
completa a sua obra de redenção em nós, mantendo-nos do meio de
todo tipo de realidades difíceis da Queda. Vir a Cristo não é uma
saída fácil das dores de parto desse mundo caído. Em vez disso,
aquelas dores de parto são o ateliê em que a redenção rebuscada de
Cristo é completada. Mas há mais.

SALMO 88: ESPERANÇA


Ao ler o título dessa seção você pode ter pensado, “Espere um pouco.
Eu pensei que você tivesse dito que esse salmo é quase destituído de
qualquer esperança. O que pode existir de esperança em um salmo
que termina com as ‘trevas’ como a minha amiga mais próxima?” Se
a sua esperança está nas circunstâncias, então não há esperança para
ser encontrada no Salmo 88. Se a sua esperança está na habilidade de
entender a vida o suficiente para resolver todos os seus problemas,
então não há esperança no Salmo 88. No entanto, eu estou
convencido de que esse salmo sombrio transborda de esperança.
A esperança do Salmo 88 é encontrada precisamente no fato de
que não há esperança nele. Ele não é fechado com uma linda verdade
teológica no final. O Salmo 88 é esperançoso por causa de sua
honestidade resoluta e trevas profundas. Você já compartilhou uma
história dolorosa com alguém e percebeu que essa pessoa não entende
o motivo pelo qual aquilo foi tão difícil para você? Esse tipo de
experiência começa a nos abrir os olhos para a esperança maravilhosa
que encontramos no Salmo 88.
Primeiro, o Salmo 88 me lembra de que o Deus em quem eu
espero realmente entende as questões mais profundas do coração
humano. Ele nunca é pego de surpresa. Ele nunca fica confuso ou
sobrecarregado. Com precisão e sensibilidade para detalhes, ele pode
me contar a minha experiência de forma que tenha um poderoso anel
de verdade. As lutas do Salmo 88 tem um ar de familiaridade para
mim que deveria ser tremendamente reconfortante. Deus olha com
um amor compreensivo para as cavernas mais escuras da experiência
humana. Ele aguenta com paciência e misericórdia os lamentos mais
desesperados do coração humano. Ele nunca minimiza,
descaracteriza, entende mal ou ri da minha dificuldade. Com o pincel
competente daquele que realmente vê, ele pinta as minhas
experiências com a acuidade de quem realmente conhece.
Esse Deus entende! E porque ele entende, você pode ir a ele
quando estiver totalmente perdido e confuso, e chorar seu lamento
sem esperança, com confiança. Realmente existe alguém que sabe e
entende. Há realmente alguém que pacientemente passa comigo pelo
meio do problema. As trevas não cegam os seus olhos nem impedem
o seu cuidado. A luz de sua compreensão e amor ilumina os
corredores sem esperança desse salmo desesperado.
Mas, tem mais. Porque esse salmo está na Bíblia? Talvez uma
melhor maneira de perguntar seria, “Como o Salmo 88 se encaixa
com os outros salmos e com o resto da Bíblia?” O Salmo 88 nos diz
quão profundo, quão abrangente e quão longe os braços do redentor
se estendem. A graça de Deus não é fraquinha. Ela se estende, com
um poder que altera a vida, ao nível mais profundo de sofrimento, o
qual é resultado dos efeitos danosos do pecado em nosso mundo.
Ela alcança os detalhes mais específicos ou perturbadores da sua e
da minha vida. Ela recebe os clamores mais desesperados de nossos
corações, nunca apresentando um ouvido surdo. O nosso Senhor
redime o perdido e o solitário, o rebelde e o temeroso, o confuso e o
cheio de dúvidas, o pecador e o sofredor, o pobre e o esquecido,
aquele que rejeita e aquele que é rejeitado. Não existe nenhum
pensamento tão distorcido, nenhuma emoção tão poderosa, nenhuma
circunstância tão horrível, nenhuma atitude tão errada e nenhum
desejo tão desesperado que estejam fora do alcance do Redentor e de
sua graça. O Salmo 88 está na Bíblia para nos lembrar que o círculo
da graça de Deus é grande o suficiente para conter cada experiência
que esse mundo quebrado jogar sobre nós. Isso é uma razão para
esperança!
De que forma esse salmo se relaciona com as experiências de se
sentir perdido, só, desapontado e desorientado, que muitas pessoas
experimentam na meia-idade? Visto que o Salmo 88 está na Bíblia,
você pode dizer a si mesmo: “Isso pelo que eu estou passando agora
não está além do escopo da redenção. As mãos amorosas de um
redentor poderoso são cumpridas o suficiente para me alcançar nos
detalhes dessa experiência também. Isso também é o tipo de coisa
para a qual Deus me dá a sua graça!” Veja, é totalmente impossível
ficar tão perdido na meia-idade que a graça não consiga te encontrar.
É inconcebível que você possa experimentar uma confusão tão grande
que a graça não seja capaz de compreendê-la. Aqui está a
esperança: você nunca estará além do alcance da graça.
Talvez você esteja pensando, “Como você pode estar perdido e
esperançoso ao mesmo tempo?” Essa pergunta nos leva ao segundo
salmo. Esse salmo é um estudo de caso, uma história de esperança no
meio de uma situação aparentemente sem solução. É uma figura de
impressionante descanso no meio de profunda crise pessoal. É uma
história sobre ser rejeitado sem se sentir solitário. Não diz respeito a
um mito, mas à vida real, uma história de partir o coração entre um
homem e seu filho. E isso aconteceu exatamente onde eu e você
vivemos, nesse mundo caído. Consideremos o Salmo 4.

LEVANTANDO-SE CONTRA, MAS VIVENDO COM ESPERANÇA


Este próximo salmo precisa de um pouco de elaboração para ser
entendido. É um conjunto com o Salmo 3. O título do Salmo 3 diz a
você quando ambos foram escritos e sobre o que eles tratam. Os
Salmos 3 e 4 são salmos da manhã e da tarde, escritos pelo rei Davi,
quando estava fugindo do seu filho Absalão. Essa história da vida real
(registrada em 2Samuel 14—18) é cheia de mistério, drama, perigo e
intriga. É um drama político escandaloso, mas, mais do que isso, um
triste drama familiar.
Davi estava no palácio como o rei ungido de Israel. A palavra
veio a ele de que o seu filho estava agindo com sedição, fazendo tudo
o que podia para tornar os súditos de seu pai contra ele e tomar o
trono para si. O relatório vem dizendo que o coração do povo estava
crescentemente com Absalão. Imagine quão machucado e devastado
você se sentiria em ver que o seu próprio filho estava fazendo tais
coisas contra você! Mas, há mais. Visto que Israel era uma
monarquia, a única forma de Absalão assumir o trono era com a
morte de Davi. Davi foi atingido com a consciência opressora de que
seu menino não somente intentava tirar-lhe o trono, mas também a
vida. Não desejoso de convocar um exército contra o seu filho, Davi
decide fugir com alguns poucos dos seus seguidores mais fiéis e
confiáveis. No Salmo 4 encontramos Davi e sua corte real, expulsos
para exílio por seu filho desleal e assassino.
Responde-me quando clamo,
ó Deus da minha justiça;
na angústia, me tens aliviado;
tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.
Ó homens, até quando tornareis a minha glória em vexame,
e amareis a vaidade, e buscareis a mentira?
Sabei, porém, que o Senhor distingue para si o piedoso;
o Senhor me ouve quando eu clamo por ele.
Irai-vos e não pequeis;
consultai no travesseiro o coração e sossegai.
Oferecei sacrifícios de justiça
e confiai no Senhor.
Há muitos que dizem: Quem nos dará a conhecer o bem?
Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto.
Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles,
quando lhes há fartura de cereal e de vinho.
Em paz me deito e logo pego no sono,
porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro.

Coloque-se por um momento na posição desse pai. Tente sentir a


extensão de seu sofrimento e dor. Não surpreenderia você se Davi
estivesse amargo e irado contra Absalão e até mesmo em uma crise
de fé. Porque Deus deixou isso acontecer? Que coisa boa pode
resultar disso? Em momentos de profundo desapontamento pessoal
como esses, frequentemente permitimos que a nossa dor faça a nossa
agenda em nosso lugar. E quando o fazemos, inevitavelmente
vivemos para nos arrepender daquelas decisões e o legado que elas
deixaram para trás. Isso também é uma luta da crise da meia-idade.
Em momentos de desapontamento e desorientação, na dor do remorso
e tristeza da morte de nossos sonhos, estamos muito vulneráveis para
tomar decisões que vão acrescentar ainda mais problemas aos que já
estamos enfrentando.
Mas a coisa impressionante sobre o Salmo 4 é que ele não
somente nos dá uma janela para as decisões de Davi, mas podemos
espiar o seu coração. Vamos ver como Davi está respondendo a esse
momento de sofrimento pessoal.
1. Davi não foge de Deus, ele corre em direção a ele (v. 1-2).
Você não vê Davi questionando a fidelidade de Deus. Ele não está
questionando princípios da Palavra de Sabedoria da vontade de Deus.
Ele não está questionando se valeu a pena de obedecer a Deus por
todos esses anos. O que Davi faz é colocar a si mesmo novamente nas
mãos de seu Pai Celestial. Ele se volta para Deus, pedindo a ele que
ouça e faça aquilo que somente ele pode fazer.
2. Davi relembra a si mesmo de sua identidade como filho de
Deus (v. 3). Sempre estamos respondendo à vida a partir de algum
senso de identidade. Nosso senso de quem somos molda
poderosamente a forma como respondemos às bênçãos ou
dificuldades que enfrentamos. Davi relembra a si mesmo que ele é
um dos escolhidos de Deus. Visto que foi escolhido como uma
possessão do próprio Deus, ele pode descansar seguro de que Deus
vai sempre ouvir quando clamar. Mesmo estando perplexo e confuso
a respeito do problema que está passando, ele pode estar certo de que
Deus vai ouvir e responder.
3. Davi examina a si mesmo (v. 4). Isso é bastante diferente de
nosso instinto normal em momentos de lutas. É tão fácil para nós
perder a visão de nós mesmo quando estamos lidando com
circunstâncias difíceis ou com o maltrato de outros. É tão fácil tocar o
DVD em nossas cabeças repetidamente, questionando porque temos
que passar por isso. Quando o fazemos, após cada repetição,
tendemos a ficar ainda mais desencorajados, amargos, duvidosos,
cínicos e sem esperança. Mas Davi não faz isso. No meio dessa
situação horrível, ele examina o seu próprio coração. Em tempos de
provação, é o nosso coração que está sob ataque e é o nosso coração
que é revelado. É importante conhecer nosso coração para acessar
onde ele é fraco e vulnerável à tentação, e fazer o que pudermos para
guardá-lo. Lembre-se, as decisões que tomamos em momentos de
dificuldade não são forçadas sobre nós pelas situações que estamos
enfrentando, mas por aquilo que o nosso coração pensa e deseja no
meio delas.
4. Davi adora (v. 5). Adoração tende a ser a última coisa que
pensamos em situações como essa. Tendemos a falhar em nossas
devocionais pessoais. Permitimo-nos perder as reuniões de pequenos
grupos ou decidimos contra uma oportunidade para ministrar. Quando
fazemos isso, tiramos de Deus aquilo do que ele sempre é digno, os
sacrifícios de nosso louvor e adoração. Não há nada mais apropriado,
nada mais honroso a Deus e nada que proporcione mais benefício
pessoal e espiritual do que ser afeiçoado à adoração em tempos de
dificuldade. Deus está presente, ele é bom e é digno!
5. Davi ora pelas pessoas ao seu redor (v. 6). Davi não estava
sozinho. Ele foi seguido por um grupo de homens comprometidos
com ele. Davi não estava tão absorvido em seu próprio momento de
dor ao ponto de ignorar aqueles que estavam em volta dele. Ele não
os ignora, esperando que saiam de perto. Ele não lhes passa um
sermão impaciente e iracundo. Em vez disso, ministra a eles. Pede a
Deus para fazer a si mesmo conhecido, de forma que possam
experimentar o seu descanso.
6. Davi descansa (v. 7-8). Esperaríamos que Davi passasse pelo
sofrimento cheio de pesar, passando noites sem dormir, incapaz de
escapar à dor que enchia o seu dia. Mas, novamente, Davi nos
surpreende. Ele não é um insone e iracundo porque não perdeu a
fonte de sua segurança pessoal, estabilidade e alegria. A segurança de
Davi não dizia respeito à sua posição, posses, local ou situações, mas
ao seu relacionamento com Deus. Visto que Deus era a fonte de seu
descanso, ele podia dormir tão seguramente no deserto quanto dormia
no palácio! Mesmo nesse momento de aflição pessoal, ele consegue
deitar e dormir.
Você pode estar tentado a responder, “Esse Salmo não me ajuda
em nada! Esse cara simplesmente não existe!” Deixe-me lembrar a
você de quão real esse homem realmente foi. Ele era uma pessoa
exatamente como nós. Era extremamente capaz de fazer as escolhas
mais desastrosas e terríveis. As piores escolhas de Davi não vieram
no meio das dificuldades, mas bem no meio de bênçãos maravilhosas.
Nós podemos ser tão tentados em meio às bênçãos quanto em meio
ao sofrimento. Abençoado por Deus como o rei ungido de Israel,
Davi não estava satisfeito. Ele tomou a mulher de outro homem e
planejou o assassinato dele. Não, Davi não é um santo de plástico. Ele
era um pecador fraco e vulnerável, assim como nós. Esse é o motivo
pelo qual esse salmo é tão esperançoso. O herói desse salmo não é
Davi. O grande herói desse salmo é o Senhor! Ele é aquele que dá fé
impressionante ao seu povo. Ele é aquele que lhes dá poder para
resistir à tentação. Ele é aquele que está sempre com eles, mesmo em
meio às mais sombrias dificuldades. É a graça dele que dá sabedoria à
mente e coragem ao coração. O mesmo Deus que estava com Davi no
deserto está com você em sua dificuldade também. Ele consegue
ajudar quando parece não haver socorro. Não diga a si mesmo: “Isso
é impossível, eu nunca vou responder dessa maneira!” Diga: “O Deus
de Davi é o meu Deus, então o que Davi fez é possível para mim
também”.
É verdade que em sua sabedoria Deus escolheu não nos isentar
das durezas da vida nesse mundo caído. Não, ele fez algo melhor e
mais maravilhoso do que isso. Ele nos livra de nós mesmos, de forma
que possamos ficar de pé em meio às desilusões, fraquezas,
desorientação e tentações. E à medida em que nos habilita e ficar de
pé, nós fazemos mais do que apenas sobreviver; nós crescemos e
mudamos. Na situação onde nós estamos mais tendentes a desistir,
aprendemos a perseverar. Nós não somos derrotados, mas, em vez
disso, emergimos da dificuldade com uma nova maturidade e uma fé
mais resistente. Não é esse o tipo de esperança que uma pessoa no
meio das dificuldades da meia-idade realmente precisa?

ISSO É REAL E POSSÍVEL


Eu quero compartilhar um pedaço da minha própria história com
você. Fui para o seminário faminto por aprender e me preparar para
uma vida de ministério da Palavra de Deus para os eu povo. Sou
muito grato até hoje por aquilo que aprendi ali. Eu disse muitas vezes
que não aprendi somente uma cosmovisão bíblica no seminário, mas
foi ali também que aprendi a pensar. A maior deficiência do meu
treinamento no seminário é que ele quase inteiramente me preparou
somente para o ministério público da Palavra. Eu lembro somente de
uma palestra, em um curso de teologia prática, que abordava o tópico
distintivamente parecido com aconselhamento bíblico. Quanto ao
ministério privado da Palavra, eu entrei no ministério bem verde e
despreparado.
Com vinte e seis anos de idade, eu e minha esposa, com nosso
bebê, nos mudamos para a Pensilvânia. Fomos chamados por Deus
para ministrar em uma comunidade onde o sonho americano havia
morrido em 1950! Era um vilarejo de carvão e estrada de ferro. Havia
uma negatividade sombria que se punha como neblina sobre aquela
área do país. O sonho havia evaporado e as pessoas pareciam
derrotadas. O centro da cidade estava em crescente degradação e não
parecia haver nenhum sinal de mudança à vista. Em qualquer lugar
onde a vida tenha sido difícil e os sonhos tenham morrido, você
encontrará pessoas quebradas e machucadas. Sim, o ministério
público da Palavra era importante, mas havia uma necessidade
premente por alguém que pudesse ouvir as histórias individuais
dessas pessoas e, com a luz da Escritura, guiá-las para fora de seus
labirintos pessoais de dificuldades. Francamente, eu estava
despreparado, e fiquei morrendo de medo!
Eu nunca me esquecerei de meu primeiro chamado para ajudar.
Foi como pular no lado escuro da piscina antes de ter tido a primeira
aula de natação. Era uma família quebrada e machucada. O marido,
Greg, era profundamente viciado em drogas e álcool. Sua esposa,
Loretta, estava severamente deprimida, e seus quatro filhos sofriam
os resultados da situação acima. Eu nunca vou me esquecer de minha
caminhada para a casa daquele casal na primeira noite. Era somente
alguns quarteirões de distância de onde eu e Luella estávamos
morando, mas parecia que havia andado vários quilômetros. Eu
pensava: “Você não faz ideia do que está fazendo! O que você pensa
que você tem para oferecer a eles? Você deveria ter simplesmente
dito: ‘Desculpe-me, eu não posso ajudá-los!’ Porque você concordou
com isso? O que você vai dizer?” (Obviamente, uma conversa interna
muito positiva e baseada em fé!)
No momento em que cheguei naquela casa as minhas mãos
estavam pegajosas, meu coração estava acelerado e minha cabeça nas
nuvens. Loretta me cumprimentou na porta. Ela parecia estar muito
agradecida por eu estar ali, mas ao mesmo tempo muito
desencorajada. Greg estava no andar de cima, vomitando, o resultado
do vício que o escravizava. Eu sentei no sofá com sentimentos de
grande temor. Acho que minha maior motivação era que eu
sobrevivesse àquela noite e saísse de lá o mais rápido possível. Por
causa do meu medo absoluto, sugeri que orássemos, e eu clamei a
Deus por ajuda. Pedi a ele que fizesse aquilo que somente ele poderia
fazer. Mas havia um problema com minha oração.
À medida em que eu orava, senti que era o meu dever chamar
Deus à cena. Essa era a lógica da oração; estava claro ao olhar ao
redor que Deus não estava ali, então, o meu dever era clamar a ele
para entrar em cena e fazer aquilo que somente ele poderia fazer. Por
mais lógico que isso seja, o fato é que não é bíblico. Depois da
primeira hora, a lógica não bíblica da minha oração foi
completamente confrontada. O que eu vi naquela noite foi algo que
eu nunca pensei que veria, e eu tenho visto a mesma coisa de novo e
novamente.
Eu vi a mão de Deus! Em um lugar que parecia esquecido por
Deus, em um lugar onde parecia que o Diabo estava fazendo festa, e
em um lugar onde parecia que todos estavam dispostos a desistir – em
todo lugar que eu olhava, eu via a presença, o poder e o amor de
Deus. Eu estava maravilhado, e isso meu deu uma nova atitude.
Houve tantas coisas que eu vi naquela noite que somente
poderiam ser explicadas pela presença de um salvador poderoso na
vida daquele casal. Quando olhei para Loretta, vi muito mais do que a
esposa deprimida de um viciado. Eu vi uma mulher que, com mãos
fracas e coração quebrado, ainda se segurava ao seu Redentor. Sim,
ela estava profundamente desencorajada, mas não era cínica, e não
tinha virado as costas para o Senhor. À medida em que eu olhava para
ela, via o poder perseverante da sua graça. Em meio a todo o pecado e
falha, ele a sustentava.
Mais havia mais. À medida em que eu andava para aquela casa eu
esperava encontrar antipatia entre eles, o que é sempre o caso quando
um marido e uma esposa pisaram nos sonhos um do outro. Mas esse
não era o caso de Loretta e Greg. Havia um calor e afeição que, para
mim, foram completamente inesperados. Eles não haviam parado, em
seu desapontamento mútuo, de fazer as coisas que, quando ausentes,
tornam um casamento em dificuldades ainda pior. Eu fiquei
impressionado com o fato de que o casamento deles não foi
preservado porque eles leram os melhores livros sobre casamento e
aplicaram aquelas verdades com fidelidade e disciplina. Não, eles
estavam juntos por intervenção divina. O Senhor permaneceu no
meio deles, protegendo-os deles mesmos.
Mas havia mais indicações da mão de Deus. Havia uma ternura e
acessibilidade em Greg. A vida dele estava uma bagunça e ele estava
preso na armadilha da espiral descendente do vício, mas ele era
alguém sedento. Parecia haver uma fome genuína pelo Senhor.
Embora não me conhecesse bem, ele estava muito aberto, disposto a
se dar a conhecer e quase sempre sem ficar na defensiva. Eu conhecia
o que estava olhando. Isso era mais do que a força de caráter desse
homem. Isso era mais do que determinação resoluta. Eu estava vendo
a presença e o poder da habitação do Santo Espírito em ação. Logo
ali, diante dos meus olhos, o Espírito Santo estava ativamente
batalhando contra a natureza pecaminosa de Greg e dando-lhe poder
para fazer o que, deixado por si mesmo, ele nunca conseguiria fazer.
As crianças também me surpreenderam. Evidentemente, pareciam
e agiam como crianças que cresceram em uma casa muito
problemática, mas não estavam fora de controle. Havia uma força no
relacionamento entre Loretta e Greg e seus filhos que me pegou
desprevenido. Quanto mais eu os observava naquela noite e quanto
mais conheci aqueles pequenos nos dias e semanas seguintes, mais eu
ficava persuadido de que Deus, em sua grandeza e misericórdia, havia
construído em muro de proteção em volta deles.
Ali, havia uma disposição real para receber ajuda. Em meus anos
trabalhando com pessoas, tenho aprendido que nem todo mundo que
clama por ajuda realmente deseja tal coisa. Padrões antigos de
autojustiça, desculpas e transferência de culpa são frequentemente
difíceis de quebrar. Desencorajamento antigo frequentemente se
transforma em cinismo amargo, o qual é difícil de transpor. Pessoas
tendem a argumentar e rejeitar a própria ajuda que antes pareciam tão
desesperados por receber. Eles defendem a lógica das próprias ações
que os levaram à tal condição desesperadora. Mas, Loretta e Greg
estavam em uma situação muito diferente. Sim, eles lançaram
algumas culpas ao redor e havia lugares onde estavam bastante
dispostos a se defenderem, mas havia uma disposição de receber
ajuda em tudo isso. Eles realmente eram pessoas ávidas, e o que mais
me surpreendeu é que não estavam totalmente sem esperança. Ela era
fraca e apagada, mas estava ali. Eu pensei na profecia de Isaías 42.3,
sobre um Messias pastoral que viria. É dito sobre ele: “Não quebrará
o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante” (NVI). Existem
pessoas rachadas. A sua fé está em fracas brasas, mas ainda está ali!
O seu Messias também está ali. Ele não as quebrou e não apagou a
sua fé. Ele foi fiel às profecias a respeito de como ele e seu ministério
seriam.
Pela primeira vez naquela noite eu fiz algo que se tornaria o tema
do meu ministério: apontei sinais concretos da presença de um
Redentor vivo e ativo. Ele está aqui, e se ele está presente, então, há
sinais visíveis de sua obra. Sob os problemas de pessoas atribuladas
existe uma forma de problema grande e mais fundamental. O
problema maior é que eles não veem Deus. Repetidas vezes eu vi
cristãos contarem as suas histórias de tal forma que Deus não está
presente. Eles veem muito pecado, sofrimento, dano e destruição, mas
não o veem.
Assim, nova e novamente, tenho funcionado como Eliseu.
Cercado pelo exército sírio, o servo de Eliseu diz em grande temor:
“Ai! Meu senhor! Que faremos?” E repetidamente eu tenho ecoado a
resposta de Eliseu: “Não temas, porque mais são os que estão
conosco do que os que estão com eles”. Quando o servo olha de novo,
ele vê que os montes estão cobertos com carruagens de fogo do
Senhor! Sim, eles estão cercados, mas não somente pelo inimigo. Eles
estão cercados pelo Senhor e seu poderoso exército (Veja 2Reis 6.15
ss).
Em meio às realidades desalentadoras da vida em um mundo
quebrado, é isso que precisamos. Precisamos de olhos para vê-lo. Dia
após dia eu sou como um guia turístico, dirigindo pessoas através de
suas vidas e dizendo: “Veja ali. Olha lá. Pare e repare nisso. Você já
tinha visto isso antes?” A cada vez eu aponto para a evidência de um
Redentor que ainda está presente e ainda faz aquilo que prometeu
fazer. Eu tenho aprendido que uma parte importante do meu trabalho
é ficar no meio da vida das pessoas, com elas, e ser usado por Deus
para dar olhos a elas. Meu trabalho é ajudá-las a sair do esconderijo e
olhar através da neblina do medo e da destruição. Meu trabalho é
ajudá-las a ver a mão poderosa de um Redentor amoroso, que não é
confuso, descuidado nem inativo. Eu quero que elas vejam que, no
meio de todo o problema, há bênçãos que precisam ser reconhecidas.
Eu quero que vejam que essa é a única razão para a esperança; Greg e
Loretta não poderiam olhar um para o outro para encontrar razão de
esperança, mas à medida em que olhavam para o Senhor, havia
esperança para seguir adiante.
Eu vi as páginas da Escritura virem à vida na vida real de pessoas.
Eu entrei em muitas vidas como o Salmo 88 e encontrei muitas
respostas como no Salmo 4. Porquê? Porque o Deus que compreende
as profundezas do nosso problema (Salmo 88) está conosco no meio
deles, ajudando-nos a fazer aquilo que nunca conseguiríamos fazer
sozinhos (Salmo 4). A esperança desses dois salmos é real e possível
para mim, para você e para todos os filhos de Deus.
Talvez você esteja no meio de sua vida e tenha se perdido ao
longo do caminho. Você se questiona se sua vida valeu a pena. Você
pergunta se faria alguma diferente se vivesse ou morresse. Você se
pergunta porque Deus não esteve mais com você e não lhe deu mais.
Em meio à desorientação e preocupação, lembre-se e veja. Lembre-se
de que o seu Senhor realmente entende, com impressionante riqueza
de detalhes, ele entende tudo pelo o que você passa. Lembre-se de
que ele realmente está com você em todo os lugares da tua vida nos
quais você se encontra. E lembre-se, visto que essas coisas são
verdade, há evidências da presença e do poder dele em sua vida
exatamente agora. Procure por ele nos corredores de sua vida. Agarre
a esperança que sua presença pode dar. Lembre-se, isso é real é
possível! Olhe novamente, e fique olhando, até que veja a única coisa
que pode te dar razão para continuar: Ele.
CAPÍTULO 3

A MORTE DA INVENCIBILIDADE

Depois dos trinta o corpo adquire mente própria.


— BETTE MIDLER

Você sabe que está ficando velho quando todos os nomes em sua agenda têm um
Dr. antes deles.
— HARRISON FORD

Não há mais autoengano. Eu posso fazer toda a ginástica mental que


quiser, mas o fato é que, fisicamente, eu não sou a mesma pessoa. Eu
não possuo mais o mesmo nível de energia que antes eu tinha.
Embora eu não esteja muito acima do peso, o meu corpo se
transformou no perfil robusto do homem da meia-idade. Meus óculos
focais onipresentes sentam em minha face como um sinal,
anunciando que a minha juventude passou. A rigidez e o tônus dos
meus músculos deram lugar à flacidez, que é um testamento do
atletismo de uma era passada. Quando eu levanto pela manhã, meu
corpo fala comigo de formas que são novas e não prazerosas. O meu
estômago, antes insensível à culinária mais violenta, desenvolveu
uma nova e triste sensibilidade. É muito difícil encarar tudo isso.
Em minha juventude, nunca prestei atenção no tanto de conforto
que eu recebia da condição forte e robusta do meu corpo. Nunca
reparei no quanto a minha condição física contribuiu para o meu
sentimento de estar vivo e seguro. Esses novos sentimentos de
fraqueza física e vulnerabilidade são uma das realidades
perturbadoras da meia-idade. E não importa quão duramente você
trabalhe, simplesmente não há forma de negar essas realidades. Não é
simplesmente uma coisa do corpo. Essas mudanças revelam lutas que
são intensamente espirituais; e, portanto, dignas de nossa atenção.
Você andou pela rua esses dias, viu o seu reflexo no espelho da
loja e se perguntou: “o que foi que aconteceu?” Você já lamentou o
fato de que simplesmente já não consegue mais viver e trabalhar no
passo frenético que antes era a regra? Tem você estado muito
consciente ultimamente das linhas de expressão em seu rosto ou das
manchas recém-formadas em sua pele? Você tentou demonstrar suas
proezas atléticas antes dominantes para seus filhos crescidos, somente
para depois pagar o preço por dia? Você já sentiu o medo da velhice
se abrigando em seu coração? Então, esse capítulo é para você. Há
ajuda aqui para as questões que frequentemente são tão poderosas nas
lutas da meia-idade. O objetivo desse capítulo é examinar essas lutas
de maneira culturalmente relevante e rica de evangelho.

O FINAL DE UMA ERA


Um evento da minha adolescência captura a morte da invencibilidade
muito bem. Era verão. Meu pai e eu fomos jogar tênis. Ele era um
vendedor de artigos esportivos e tinha sido sempre muito atlético.
Chegamos à quadra naquela noite prontos para uma intensa
competição entre pai e filho. Nos aquecemos com alguns voleios e eu
saquei. Ele devolveu na rede. Então meu pai andou até a rede,
abaixou, soltou um gemido de dor e me disse que não conseguia se
endireitar. Fiquei tentado a perguntar se poderíamos continuar
jogando, pois seria a única chance que eu teria de ganhar dele!
Em um momento, o homem robusto e atlético se transformou em
um velho. Na verdade, fiquei bastante assustado à medida em que o
ajudava a andar para fora da quadra e cautelosamente facilitava a sua
entrada no carro. Felizmente eu podia dirigir, então logo meu pai
estava recebendo a atenção médica que precisava. À medida em que
se locomovia mancando pela casa, cheio de dores pelos dias
seguintes, todos ficamos desorientados, mas ele ainda mais. Suas
costas haviam emitido um aviso severo: “Você não é mais um
jovem!” Em um momento ele foi forçado a reavaliar sua saúde e
capacidades físicas. Enquanto íamos da quadra para casa naquela
noite, ele declarou o óbvio: “Acho que já não sou tão jovem quanto
eu estava acostumado a ser”.
Fraqueza e envelhecimento são parte importante das lutas da
meia-idade. É inevitável, o corpo de todos envelhece e muda. Há
coisas que fazíamos que não conseguiremos fazer mais. E quando
esquecemos quem somos, dando margem às ilusões de juventude,
pagamos fisicamente o preço. O jogo de basquete mano-a-mano com
o nosso filho no final da tarde nos deixa com os músculos sofrendo.
A faxina de primavera da casa toda nos deixa rígidos como uma
tábua. A subida de uma montanha nos deixa sem ar, como se Deus de
repente tivesse desoxigenado o mundo. Podemos ter muitos anos
bons do ponto de vista físico diante de nós, mas não temos a
vitalidade física de nossa juventude. Esse é um fato difícil de encarar.
Mas os pequenos sinais desagradáveis estão ali. O envelhecimento
é um processo e não um evento, então, os sinais aparecem de fininho
em você: rugas, erupções cutâneas, veias de aranha, cabelos grisalhos,
perda de cabelo, cabelo onde não deveria ter (em suas orelhas), perda
e flacidez dos músculos, ganho de peso, perda de flexibilidade, perda
de energia, dores crônicas, perda de visão, flacidez de pele,
descoloração da pele, cansaço, perda de audição, juntas duras e a lista
continua. Essas não são coisas sobre as quais você queira pensar.
Você não quer pensar no fato de que não penteia mais o seu cabelo,
você o reorganiza sobre a cabeça. Você não quer admitir que tem de
usar mais maquiagem para cobrir as manchas que de alguma forma
apareceram em seu rosto. Você quer tentar se convencer de que está
esquecido por causa de sua vida cheia e ativa. Você tem batalhas
terríveis para manter o peso, o que na sua juventude era normal, sem
nenhuma atenção à mudança de hábitos. Você tenta ignorar a rigidez
que te dá bom dia quando você sai da cama. Você evita óculos para
leitura até que seu braço já não consiga mais ir longe o suficiente a
ponto de tornar o jornal legível. Isso não é uma catástrofe.
Certamente há coisas mais importantes em sua vida. Lá no fundo,
você odeia o que está acontecendo com seu corpo e a evidência física
sem volta de que você não é mais o que era. Você está na meia-idade
e ficando mais velho a cada dia.
UM CRUZAMENTO PERIGOSO
Por que o processo de envelhecimento natural nos desencoraja,
então? Porque há tantos planos e produtos projetados e vendidos para
nos ajudar a lidar com ele? Porque tendemos a fazer tantas coisas
para recapturar ou reter a nossa juventude? Mais importante, porque
esse processo físico natural tão frequentemente leva a lutas mais
profundas, mais espirituais?
Quatro fatores se ajuntam à meia-idade, os quais têm o poder de
fazer dela uma época de grande luta. Muitas pessoas ficam
desorientadas e desgovernadas quando esses quatro fatores se
encontram na meia-idade. Eles são: uma conscientização universal,
os pressupostos da juventude, o foco de nossa cultura e a condição de
coração. Vamos primeiramente considerá-los em separado e, então,
examinar seu impacto coletivo na meia-idade.

Uma Conscientização Universal


Há uma conscientização universal bem profunda dentro de cada
ser humano, ainda que não consigamos expressá-la em palavras. É a
grande contradição, a peça incrustrada no quebra-cabeça de madeira
que não deveria estar ali. O próprio assunto nos deixa incomodados.
Não é natural e todos sabemos disso: Pessoas não deveriam morrer.
Como uma faca enfiada no coração da criação, o pecado trouxe a
morte ao mundo e todo o envelhecimento, doença e decadência que
vem com ela. Podemos filosofar sobre ela o quando quisermos, e
podemos impor sobre ela a nossa melhor interpretação existencialista,
mas não há forma de evitá-la: a morte é fundamentalmente não
natural. Ela não deveria fazer parte da história. Essa brusquidão
terrível e inevitável não deveria ser o capítulo final.
Desde a queda, todas as pessoas em todos os lugares lamentam a
realidade da morte. Essa repugnância pela morte é parte do desejo
universal pelas glórias daquilo que deveria ser. Na tranquilidade da
criação majestosa de Deus, a morte não era parte do quadro. A vida
daria lugar à vida e novamente à vida e esse padrão continuaria até a
eternidade. Mas em um momento horrível de destruição cósmica, a
morte colocou a sua face feia no meio da história. Todos nós sabemos
que ela não deveria estar ali. As coisas não deveriam terminar dessa
forma. Você não consegue olhar para um corpo morto sem ficar
sobrecarregado com quão estranho e antinatural ele é.
Assim, quando vemos rugas, quando o corpo começa a doer e
quando a fraqueza mora onde antes reinou a força, um temor visceral
toma conta de todos nós. Não é tanto que não gostemos de ter
quarenta ou cinquenta. Não é tanto que queiramos continuar jogando
futebol com todo o vigor ou trabalhar em um andamento frenético.
Não, é a consciência de que estamos mais próximos da única coisa na
vida que realmente não deveria existir – a morte. Embora poucos de
nós reconheçam, incorporado a esse temor está um desejo por
retornar às coisas como elas deveriam ser. É um desejo por um lugar
onde a vida e a morte não batalham mais, onde a morte foi de uma
vez por todas totalmente derrotada.
A cada vez que tememos a idade ou nos entristecemos com a
morte, estamos clamando por um Redentor que derrote a morte para
sempre. O envelhecimento, a doença, a deterioração e a morte pregam
o evangelho, porque apontam para a futilidade última de viver uma
vida que termina dessa forma. A redenção torna a história racional de
novo, porque ao derrotar a morte, ela dá a cada redimido uma história
que termina da forma que deveria terminar – com vida.
As lutas da meia-idade morrem com todo o drama de morte e vida
do evangelho. Essas lutas não são estranhas ou antinaturais. Elas
fazem sentido. Quando ouvir abaixo da superfície, você ouvirá
clamores terríveis da queda misturado com celebrações maravilhosas
de eternidade. No temor do envelhecimento e da morte, o drama da
redenção sobe à superfície.

Os Pressupostos da Juventude
Permita-me compartilhar uma memória vívida dos meus anos de
adolescência. Meu amigo Brad e eu havíamos planejado aquela noite
por semanas. Para nós, o Big Bob’s era o centro gourmet do universo,
sem paralelos em suas delícias culinárias. Nós ouvimos que eles
ofereceriam maravilhas comestíveis tão maravilhosas que não
pudemos resistir às suas sirenes. Eu saquei o meu mísero cheque de
repositor da JCPenney, cada um dólar e sessenta centavos por hora,
não me importando se gastasse todo o valor naquela noite. Nós fomos
atraídos ao Big Bob’s não somente pela cozinha gloriosa, mas por
causa do direito de contar vantagem que ganharíamos como resultado
de comer ali.
Como todos os clientes de restaurantes de primeira linha, tivemos
que esperar na fila, debaixo da luz usada para atrair insetos, por uns
vinte minutos, até que um menu de papel nos fosse entregue (com um
labirinto e um quebra-cabeças no verso) e fôssemos levados à nossa
mesa rosa com tampo de fórmica. Nós não precisávamos do menu
pois sabíamos o que fomos fazer ali. À medida em que esperávamos
ansiosos pela vinda da garçonete, tínhamos mais a mentalidade de
vencedores do que de pessoas que saíram para jantar. O que nos havia
levado ao Big Bob’s eram três delícias maravilhosas cujo renome
havia sido passado de pessoa em pessoa em nossa comunidade.
Primeiro, o Monster Burger, uma coisa impressionante, com sete
polegadas de diâmetro depois de feito e oferecido com qualquer coisa
que a mente humana poderia conceber em cima daquela peça de
carne. O pão parecia dois discos comestíveis, por si só, um feito da
culinária. Depois, tinha as Monster Fries. Elas vinham transbordando
naquilo que mais parecia uma cesta de piquenique para uma família
pequena. As batatas fritas eram oferecidas nas modalidades simples,
com molho, mergulhadas no queijo ou livremente temperadas com
qualquer tempero de cozinha que se pudesse imaginar.
Brad e eu nunca consideramos a possibilidade de dividir. Cada um
comprou um Monster Burger e uma Monster Fries. Era o tipo de
porção individual que sempre sonhamos, mas nunca tínhamos sido
sortudos o bastante para experimentar. Nossos olhos estavam no
prêmio, o imã culinário final que nos havia arrastado para esse lugar.
Ele era chamado “pia da cozinha”. Vinte e quadro bolas de sorvete,
com sete coberturas diferentes, luxuosamente apresentadas em uma
tigela de vidro. Naquela noite nós comemos tudo, incluindo a pia da
cozinha! Até usamos canudos no final para sorver cada restinho que
estava no final daquela tigela.
Eu nem mesmo me lembro de ter me sentido cheio. Saímos,
procurando lugares onde pudéssemos compartilhar a nossa aventura e
terminamos aquela noite em carrinhos de bate-bate, batendo um no
outro, sem nenhum incômodo estomacal ou intestinal. Nunca
pensamos no tipo de trabalho que estávamos infligindo a nossos
corpos com esse tipo de comida.
Há uma diferença enorme na maneira como eu penso agora sobre
comida, dieta, restaurantes e menus. Eu examino cuidadosamente os
ingredientes nas embalagens de comida. Conto calorias. Eu até
mesmo entendo o risco da gordura trans. Quando eu examino um
menu, me encontro considerando tanto a saúde quando o sabor. Penso
a respeito do que a comida fará comigo depois que eu terminar. Penso
sobre meu coração, minhas veias e meus intestinos. Estou consciente
a respeito do meu peso e estou regularmente analisando a condição
relativa da minha saúde. Eu não como muitas das coisas que
prontamente comeria e aprendi a comer muitas coisas que não
consideraria nos meus dias de Big Bob’s. Atualmente eu fico mais
atraído por comida considerando a sua qualidade do que a sua
quantidade e realmente acredito que na maioria das vezes menos é
mais. Eu simplesmente não sou mais o mesmo cara que se deleitava
no Big Bob’s. A meia-idade mudou a minha perspectiva.

Ilusões de Invencibilidade
Vivemos grande parte de nossa vida alegremente inconscientes a
respeito do nosso corpo. A saúde física é como oxigênio, você não
pensa sobre ele e nem é grato por ele até que comece a perdê-lo. Em
nossa juventude, tendemos a nos esquecer de quão dependentes,
fracos e fisicamente vulneráveis realmente somos. Não pensamos a
respeito dos magnificamente interdependentes e perfeitamente
balanceados sistemas do nosso corpo, os quais devem trabalhar em
uma unidade incessante a fim de que tenhamos saúde. Certamente,
em algum sentido distante, todos sabemos que estamos ficando mais
velhos, mas vivemos como se fôssemos praticamente invencíveis.
À medida em que chegamos aos vinte, continuamos a viver com
uma feliz invencibilidade. A nossa atenção está em relacionamentos
novos, um novo lugar para trabalhar, ou talvez na tarefa nova de ser
pai e mãe. As nossas agendas são incrivelmente cheias e os dias
voam. Na maioria das vezes o nosso corpo simplesmente não é o foco
de nossa atenção. Eventualmente, de forma sutil ou às vezes não tão
sutil, começamos a experimentar a morte de nossa própria
invencibilidade. Ainda assim, somos muito competentes em ignorar
os fatos. Dizemos a nós mesmos que aquela dor veio porque
exageramos no trabalho no jardim ou que a camisa não serve mais
porque encolheu quando lavada ou que o cabelo grisalho que estamos
vendo é prematuro.
Não importa o quanto tentemos manter a ilusão, não podemos
lutar contra a dura realidade de cada criatura nesse mundo caído.
Tudo o que vive está em processo de morte. Esse mundo e tudo o que
existe nele vai passar. A invencibilidade física é uma desilusão.
Independente de quão real possa parecer e de quão poderosa e
deliciosa possa ser, ela é uma mentira.

O Foco de Nossa Cultura


O terceiro maior fator converge poderosamente com os
pressupostos da juventude para formar a nossa experiência na meia-
idade. Não somente vivemos com sentimentos de invencibilidade,
mas também vivemos em uma cultura que é obcecada pelo corpo
humano. Na secularização compreensível de nossa cultura, tudo o que
sobra é o homem físico. A vida é reduzida à pessoa física vivendo no
mundo material. As coisas mais importantes na vida são coisas que
você pode tocar, provar ou segurar em suas mãos.
A cultura que assume a centralidade do mundo físico vai acabar
em obsessão corporal. Como um comercial popular de televisão certa
vez afirmou: “aparência é tudo!” Gastamos bilhões de dólares a cada
ano em produtos, processos, tecnologias e instituições que prometem
nos tornar mais musculosos, bonitos e jovens. Incontáveis websites
apresentam as últimas químicas para emagrecimento, equipamentos
que definem músculos e cremes redutores de rugas. Bilhões de
dólares são gastos em pesquisa em uma corrida para descobrir e
vender o próximo produto milagroso. Livros após livros são escritos
para dar o segredo de ser um você mais elegante e bonito.
Especialistas tem até mesmo começado a afirmar que o
“envelhecimento é uma opção”. Websites recebem nomes como
“jovem para sempre”, essência da juventude”, “fonte da juventude,
“sempre jovem” e o nome que eu mais gosto: “homem renovado”.
Cada site promete uma juventude permanente se apenas você comprar
o conjunto certo de produtos.
Há também toda a indústria de reesculturação do corpo. Ela já não
foca mais nos muito ricos. Não é mais um fascínio da elite de
Hollywood. Milhões de brasileiros da classe média estão reformando,
alterando e reesculpindo os seus corpos, olhos, queixo, lábios, testa,
orelhas, seios, abdômen, coxas, cabeças calvas, etc. E se alguma coisa
cair de novo, novamente pode ser reformada. A Sociedade Americana
de Cirurgiões Plásticos Estéticos diz que houve 8.470.363
procedimentos de cirurgias cosméticas nos EUA em 2001. Mais do
que sete milhões desses procedimentos foram feitos em mulheres e
um milhão em homens. Essas estatísticas não incluem milhões de
procedimentos não cirúrgicos como aplicações de Botox e injeções de
colágeno, peeling químicos e remoção de pêlos a laser. Há poucas
coisas nas quais gastamos mais tempo e dinheiro do que em nossa
aparência pessoal. É um vício cultural e todos nós vivemos debaixo
dessa influência.
Deixe-me detalhar alguns elementos de nossa obsessão física que
dominam a cultura ocidental.
1. A jovialização da cultura ocidental. É uma coisa
impressionante. Se você tem mais de quarenta e cinco, não vai ver a
si mesmo muito frequentemente na televisão no horário nobre. Sim,
há os personagens coadjuvantes de meia-idade ou idosos, mas a
cultura apresentada no horário nobre é impressionantemente jovem.
Seja nas novelas, filmes, reality-shows, parece que na cultura
ocidental poucas pessoas vivem mais do que até os trinta e cinco
anos!
Todos nós sabemos que o que domina a mídia popular é, de
alguma forma, o reflexo de ideais, valores e perspectivas da cultura
ao redor ou não seria apresentado de forma tão consistente. O
problema é que aquela cultura obcecada pela juventude tende a
desprezar o envelhecimento. Em seu livro, Envelhecendo na América,
Andrew W. Achenbaum afirma que uma visão positiva a respeito do
envelhecimento existiu na América por quase duzentos anos. Os mais
velhos eram tipicamente estimados em suas comunidades e
constantemente apresentados aos mais jovens como exemplos. A
velhice e o que ela representava eram tão estimadas que pessoas, na
verdade, encontravam formas artificiais de parecerem mais velhas,
(perucas com talco sendo o exemplo mais conhecido). Os
comentários de Achenbaum apontam uma diferença entre nossas
perspectivas culturais e a da Escritura.
A Bíblia olha para a juventude e para o envelhecimento de
maneira exatamente contrária à da nossa cultura. Conquanto a Bíblia
estime o vigor da juventude, ela vê a idade mais avançada como sinal
de bênção e repetidamente nos convoca a honrar os mais velhos (Is
46.4, Lv 19.32, Pv 23.22, 1Tm 5.1). A tendência da cultura ocidental
moderna de desprezar o envelhecimento e adorar a juventude é um
indicador sutil de quão longe estamos de uma perspectiva bíblica da
vida.
Na Escritura a idade avançada é um sinal da fidelidade pactual de
Deus. Ela também é conectada com sabedoria funcional. Nós, por
outro lado, desejamos intensamente a juventude, tememos ficar mais
velhos e rapidamente aposentamos todos aqueles que viveram o
suficiente para ter adquirido alguma sabedoria funcional na vida. Essa
compreensão quanto à idade é parte do oxigênio de nossa cultura.
Todos nós o respiramos diariamente, e ele afetou as nossas
concepções acerca de quem somos e onde estamos indo.
2. A afluência da cultura ocidental. Recentemente fui visitado
por um amigo da Índia. Eu pedi a ele que me falasse a sua impressão
a respeito dos americanos. Ele hesitou por um momento e então lhe
assegurei que ele poderia ser honesto. Nunca vou me esquecer o que
ele disse em seguida: “Como vocês tem muito, vocês reclamam
muito”. Fiquei surpreso com o poder de sua análise. Parece que
deveria ser o contrário, mas não é. Os pecadores não lutam somente
com aquilo que querem; eles têm dificuldades em lidar com as
bênçãos. O pecado torna a todos nós autoabsortos, infinitamente
vorazes. Quando temos tudo o que precisamos, reclamamos porque
não temos ainda mais daquilo que temos, porque o tudo que outros
tem é melhor do que aquilo que nós temos ou inventamos alguma
coisa para desejar. Nós nos preocupamos mais e ficamos deprimidos
mais facilmente. Temos tempo e dinheiro para reparar em coisas que
antes estávamos ocupados demais para atentar.
Meu amigo indiano me deu outro exemplo simples, mas
revelador. Seu hóspede o havia levado a um mercado para pegar pão.
Ele ficou impressionado por haver um corredor inteiro dedicado a
uma aparentemente infinda seleção de pães. Ele olhou pessoas
andarem para um lado e outro do corredor, procurando pelo tipo
específico de pão que tinham em mente. Ele viu consumidores
desapontados irem embora de mãos vazias porque aquele tipo único
de pão que tinham no coração não estava disponível. Essa cena foi
uma vinheta hermenêutica, explicando a nossa cultura.
Nossa afluência parece ter resolvido a maioria dos problemas
físicos que dominam o mundo. Nós não pilhamos por comida. Não
ficamos preocupados se teremos abrigo. Nãos temos de lidar com
muitas das doenças que são resultantes de um saneamento ruim,
comida contaminada e suprimento de água. Nossa afluência também
colocou uma boa quantidade de tempo livre em nossas mãos. Ainda
assim, o luxo do tempo não nos levou à felicidade e satisfação, e à
procura de formas de servir a outros. Em vez disso, estamos
insatisfeitos e descontentes. Ficamos obcecados a respeito da nossa
autoestima ou da porcentagem de gordura corporal que estamos
levando conosco. Como arqueólogos emotivos, examinamos
intensamente o nosso passado por qualquer artefato de nossa história
de família que possa explicar o porquê somos como somos e fazemos
o que fazemos. Cuidadosamente analisamos nossas palavras, para
evitar que qualquer coisa que digamos possa, de alguma forma, ser
entendida como sendo intolerante para qualquer um que é diferente
de nós. Investimos uma quantidade impressionante de tempo e
energia examinando como nos sentimos e como sentimos a respeito
de como sentimos em comparação com aquilo que nos dizem sobre
como deveríamos nos sentir. Temos tempo de sobra para encontrar
cada nova ruga e cada nova instância de dor da meia-idade. E temos
tempo e dinheiro para deixar tudo liso. Nossa afluência permite cada
vez mais que façamos investimento de mais tempo e dinheiro do que
antes, buscando e gastando qualquer coisa para parecer, cheirar e
sentir o melhor que podemos. A cada dia, gastamos uma quantidade
impressionante de dinheiro em luxúrias cosméticas. Fazemos um
esforço impressionante para sermos os melhores espécimes físicos
que possamos ser. Não é somente um foco. É uma obsessão.
Não é errado pensar sobre a nossa identidade e história passada.
Nossa condição emocional é importante. Não é errado querer ter uma
boa aparência. Ainda assim, há algo espiritualmente não saudável
sobre a maneira como, em nossa afluência, temos ido capturados por
essas coisas. As pessoas dos países pobres não acordam para questões
profundas a respeito da identidade, história passada e beleza presente.
Elas oram por comida e abrigo e ficam bastante felizes com coisas
que nós rejeitaríamos com as mãos. Nossa afluência não nos torna
egoístas, ela simplesmente nos habilita a nos permitir expressões mais
sofisticadas de egoísmo.
3. Uma cultura de lazer. Uma das mudanças mais sutis da
cultura ocidental tem sido a mudança sísmica de uma cultura baseada
no trabalho para uma cultura baseada no lazer. Lazer pode ser
definido como a liberdade provida pela cessação do trabalho ou do
dever. Em outras palavras, o tempo de trabalho pertence a alguma
outra pessoa, enquanto o tempo de lazer pertence a mim para gastar
como eu quiser (embora biblicamente nem mesmo o meu tempo livre
é meu tempo). A minha identidade não é mais definida pela minha
vocação para o trabalho, mas pelo meu direito de brincar. O trabalho
é visto como o preço a ser pago pelo lazer para o qual realmente
vivemos. O trabalho não nos engaja ou motiva de forma real; não é
visto como aquilo que fomos colocados na terra para fazer. Estamos
muito, muito distantes dos dias quando o trabalho era visto como uma
forma fundamental pela qual representamos e adoramos a Deus.
Agora, tendemos a identificar a nós mesmos pelos brinquedos que
nos entretêm nos momentos de lazer para os quais vivemos. Seja um
barco, uma BMW, uma TV tela plana de plasma, uma casa de
veraneio ou uma vara de pescar de R$ 2.000, nossos brinquedos estão
se tornando nossas marcas de identidade.
Muitas coisas poderiam ser ditas a respeito desse assunto, assim,
tentemos simplificá-lo e focar em como ele afeta o assunto sobre o
qual estamos tratando. Primeiro, parece que temos uma cultura
baseada no trabalho. Na verdade, muitos diriam que o nosso
problema é que muitos de nós trabalham demais. No entanto, o que
foi radicalmente mudado não foi o número de horas que trabalhamos
em si, mas nossa atitude básica com relação ao trabalho. Vemos o
trabalho mais como uma maldição do que uma vocação. Investimos o
nosso tempo no trabalho porque somos obrigados a isso, ou porque o
nosso trabalho nos habilita a perseguir as coisas para as quais
realmente vivemos. O que nos faz trabalhar mais do que deveríamos,
não é o nosso amor pelo trabalho, mas nosso desejo pelas coisas que
o trabalho a mais nos permitirá experimentar ou comprar.
Segundo, e relacionado, há uma mudança na maneira como vemos
o lazer. Todos nós precisamos de descanso do trabalho, que é o
princípio do sábado. Não somos ilimitados em habilidade ou energia.
O trabalho deveria ser sempre abordado com uma concepção que
levasse em consideração o descanso tanto para o corpo quanto para a
alma. Assim, a busca por lazer é correta e apropriada quando é um
meio para um fim. Entretenimento que distrai, relaxamento tranquilo
e atividades de rejuvenescimento nos servem bem em seu lugar
próprio, mas nunca foi a intenção de Deus que elas fossem a razão da
nossa vida. É aqui que a mudança significativa está acontecendo. O
lazer tem se tornado o fim em vez do meio para um fim. Tem se
tornado a coisa pela qual vivemos.
Quando uma cultura tem fome pelo lazer e coloca seu foco nela,
vai naturalmente focalizar mais em entretenimento. É por isso que a
indústria do entretenimento é tão dominante em nossa cultura. E
entretenimento tende a focar no prazer. Eu quero ser entretido de uma
forma que me traga prazer. Quando mais foco no prazer, mais a vida
passa a ser definida como sendo a respeito da busca pessoal por
aquilo que me faz feliz. Assim, uma cultura de prazer é terrivelmente
individualista e autoabsorvida. A vida se transforma em uma busca
incessante por conforto, facilidades e satisfação individual. Esse tipo
de cultura tende a amaldiçoar todas as experiências de vida que são
penosas, dolorosas e difíceis. “A vida boa” se torna uma vida fácil,
prazerosa e plena.
Uma cultura autoabsorvida, obcecada pelo prazer, será intolerante
com as mudanças físicas dolorosas, desconfortantes e embaraçosas da
meia-idade. Se comida é aquilo que me traz prazer, então, vou
amaldiçoar o fato de que agora eu tenha de prestar atenção naquilo
que eu como. Se exercício é aquilo que me faz sentir bem comigo
mesmo, eu vou odiar o fato de que eu já não consiga mais fazer o que
eu fazia antes. Se a beleza da juventude tem sido a fonte de minha
identidade, eu vou amaldiçoar as evidências da idade que são cada
vez mais difíceis de esconder. Uma cultura obcecada pelo prazer,
dirigida ao bem-estar, tende a amaldiçoar o envelhecimento e todas as
mudanças físicas que vem com ele.
4. A morte da eternidade. Talvez o fermento mais potente da
cosmovisão cristã seja o foco na eternidade. Somos pessoas focam
nas coisas “que se não veem” porque “as que se não veem são
eternas” (2Co 4.18). Sabemos que esse mundo está em estado de
degradação. Sabemos que vivemos em algum lugar entre o “já” e o
“ainda não”. Sabemos que o melhor da vida ainda está por vir. A
eternidade nos lembra de que ninguém é capaz de tomar as coisas
pelas quais realmente vale a pena viver; as coisas que você não pode
tocar, provar, pesar, quantificar ou segurar em suas mãos. Quando
você tem um olho na eternidade, este presente mundo fica com uma
aparência totalmente diferente. Ainda assim, em uma cultura que tem
presidido sobre a morte da eternidade, é muito difícil manter as coisas
físicas em seu próprio lugar. Considere o que Paulo diz: “mesmo que
o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem
interior se renova de dia em dia” (2Co 4.16)
Se não tem uma crença robusta na realidade da vida após a morte,
você é deixado com a primeira parte da afirmação de Paulo. Você
olha a si mesmo no espelho e não pode crer no que está acontecendo.
Você não quer nem pensar no que vai acontecer daqui há dez anos se
as coisas continuarem progredindo assim! Somente à luz da
eternidade é que a segunda parte da confissão de Paulo traz conforto.
Essa veste terrena do meu corpo está se desfazendo, mas não é o final
da linha para mim. Paulo não nega que o processo de deterioração
está ocorrendo, mas reconhece outro processo glorioso e
incomparável. Ele não pode ser visto com olhos físicos ou avaliado
com instrumentos médicos, mas é tão real quanto qualquer
experiência física. Meu homem interior está sendo diária e
progressivamente renovado. Ele está sendo estratégica e
progressivamente preparado para a vida na eternidade.
Ver a mim mesmo a partir desse ponto de vantagem da eternidade
me ajuda a ver ambos processos ao mesmo tempo. Sim, o eu físico
está em processo de envelhecimento e degradação, mas está tudo
bem, porque depois que o corpo servir a seu propósito terreno,
receberei um novo corpo para a eternidade. E ainda que o meu corpo
esteja definhando, meu coração está progressivamente sendo
transformado e renovado. Eu estou crescendo em força de caráter e,
portanto, sendo preparado para viver a eternidade com o meu Senhor.
É por isso que Paulo diz que ele não se desanima. Ele pode olhar para
a sua condição física com esperança e encorajamento porque vê
aquilo que não é visível. Ele vê redenção, renovação, crescimento,
mudança e restauração. Somente quando visto a partir da eternidade é
que o envelhecimento físico pode ser colocado em seu lugar
apropriado.
5. O surgimento da indústria cosmética. Um artigo recente do
The New York Times narra como garotas adolescentes americanas de
classe média se preparam para o primeiro dia do ano escolar por meio
de todo tipo de procedimento cosmético. Um procedimento no nariz,
peeling químico, uma pequena lipoaspiração, implante de colágeno
nos lábios, uma visita ao salão de bronzeamento, juntamente com o
corriqueiro cuidado com unhas e cabelo. Isso torna o primeiro dia
muito mais fácil.
Repare na ênfase aqui. Para essas meninas, se preparar para a
escola tem pouco a ver com examinar a sua atitude e preparar a sua
mente. Mas tem tudo a ver com usar a tecnologia cosmética mais
avançada para ter o melhor físico tecnologicamente possível.
Considere por um momento como isso afeta a todos nós. Quando se
vive em uma cultura onde uma beleza antes além dos sonhos se torna
possível cirurgicamente e acessível até mesmo à classe média, todos
naquela cultura serão afetados pelos novos padrões de beleza física
que a tecnologia produz.
É bastante difícil para a pessoa comum da classe média viver na
cultura ocidental sem reclamar constantemente da perda de sua
juventude, mas se torna ainda mais difícil quando a cultura ao seu
redor tem crescentemente elevado os padrões de aparência física.
Quando a sua cultura se torna obcecada a respeito do tamanho e
forma do nariz, de quão cheios são os lábios ou da firmeza relativa do
abdômen, todos os que vivem nessa cultura tenderão a amaldiçoar o
envelhecimento e todas as mudanças físicas que vem com ele.
6. O ideal da mídia. Eu tenho pensado frequentemente que
televisões deveriam ser vendidas com uma etiqueta de advertência:
“Cuidado: contém pessoas irrealisticamente bonitas”. A imagem
midiática dos seres humanos não se parece muito com o que eu vejo
quando ando pelas ruas do centro da cidade de Filadélfia. A norma
diária em minha comunidade inclui grandes quantidades de pessoas
com aparência comum, ocasionalmente pontuadas por espécimes de
rara beleza. Parece muito pouco com o que a televisão, filmes,
propagandas e revistas impõe sobre nós: massas de pessoas bonitas
pontuadas por raras ocasiões do Joe comum – que se destaca como
uma ferida no polegar!
Quando a mídia popular domina os pensamentos, desejos e
expectativas da cultura, seus ideais projetados se tornam a “norma”,
mesmo quando essas “normas” estão longe daquilo que é
normalmente visto nas ruas. Esses ideais tem a habilidade poderosa
de formar a maneira que vemos a nós mesmos e aos outros. Eles
estimulam desejo e insatisfação, excitamento e desapontamento. As
estrelas das novelas, séries e filmes permanecem jovens porque elas
são jovens, ou porque em breve serão substituídas por estrelas mais
jovens. Mas nós não permanecemos jovens! Nós ganhamos peso,
perdemos cabelo, ficamos com rugas, enfraquecemos, ficamos
doentes, quebramos o braço e sangramos o nariz. Nós envelhecemos,
sofremos e morremos; ainda que vivamos com um mundo de
irrealidade última à nossa volta. É desconfortável para nós o sermos
normais e ficamos desapontados com o fato de que o ideal nunca
esteve nem estará dentro de nosso alcance.
7. A morte do Homem Interior. Se eu fosse um estudante de
doutorado na Temple University aqui em Filadélfia, e eu propusesse
aos professores que gostaria de escrever a minha tese sobre o
relacionamento entre o coração e o comportamento humano,
provavelmente seria olhado com olhares confusos ou as pessoas iriam
rir de mim. Nós não falamos muito sobre o coração na cultura
ocidental moderna. A linguagem do coração aparece no dia dos
namorados e por vezes em discursos sobre determinação, mas o
homem interno, o coração como a Bíblia o descreve, não recebe
atenção séria. Em vez disso, ele tem sido substituído por um amplo
determinismo. Há tipicamente dois tipos de determinismo que a
maioria das pessoas aceita. Primeiro, é o determinismo ambiental ou
experimental que diz que você é um produto de seu ambiente ou que
você é o resultado das suas experiências. O segundo é o determinismo
biológico/fisiológico que afirma que o seu comportamento é causado
e controlado por processos bioquímicos dentro do corpo. A Bíblia
ensina que o nosso coração está constantemente interagindo com tudo
o que acontece à nossa volta, enquanto a nossa cultura assume uma
pessoa interna relativamente passiva. É verdade que o ambiente
influencia você, assim como as operações do seu corpo, mas nenhum
dos dois tem o poder de passar por cima do coração.
O que isso tem a ver com a meia-idade e o envelhecimento físico?
Tudo. Quando você está em uma cultura que subestima a riqueza do
mundo interior do coração, essa cultura tende a pensar que o você
físico é o você real. Você acha que isso não acrescenta poder à
experiência do envelhecimento físico. Se o eu real é o eu físico e meu
corpo está progressivamente ficando mais velho e mais fraco, isso
não reforçaria os meus sentimentos de desencorajamento e temor à
medida em que encaro as realidades do ficar mais velho?

Um Lugar Ruim para Envelhecer


Quando você ajunta todas essas influências culturais, não é difícil
de entender o foco desordenado da cultura sobre o corpo físico.
Apenas não seja rápido demais em pensar que isso não afetou você.
Considere se algum dos seguintes cenários relembra a sua vida:

Você está em sua terceira tentativa na dieta de baixo consumo de


carboidratos do Dr. Atkins.
Sendo uma esposa e mãe, você gasta bastante tempo e dinheiro
em sua cosmetologia pessoal.
Sua casa é um cemitério de aparelhos de exercícios físicos que
viraram cabides ou estão empoeirados.
Proporcionalmente, você gasta muito com roupas a fim de se
manter na moda ou com roupas adequadas ao seu novo tamanho.
Você comprou uma moto, não porque sempre quis dirigir em
duas rodas, mas como uma tentativa de se agarrar à sua
juventude.
Você ficou na frente do espelho e esticou a pele do seu rosto ou
pescoço, pensando como ficaria se pudesse pagar por aquela
cirurgia plástica.
Você se veste de maneira mais jovem do que é apropriado ou
procura companhia daqueles que tem metade de sua idade.
Você diz que o relacionamento com Deus é o mais importante
em sua vida, mas, na verdade, tem investido muito mais tempo,
energia e dinheiro em seu eu físico do que em sua alma.
Você de repente começou a lutar contra a inveja daqueles que
são mais jovens e atraentes.
Pare e olhe. A evidência de que você respirou o oxigênio da
cultura ao redor e de que isso afetou a maneira de ver a si
mesmo está provavelmente por aí.

Agora pense por um momento em como as coisas que discutimos


se ajuntam para produzir a grande luta da meia-idade. Quando os
sinais de que eu não sou mais o que era estão em todo lugar em meu
corpo físico, nesse mesmo tempo, também sou bombardeado com a
mensagem de que o envelhecimento é uma maldição que deve ser
evitada a todo custo. Não é de se surpreender que a nossa cultura não
tenha mais estima pela idade avançada e que exista uma indústria
enorme focada em vender qualquer coisa que tenha o poder aparente
de fazer o relógio andar para trás.

Uma Condição do Coração


Até aqui consideramos três fatores que tornam a meia-idade uma
grande luta: a conscientização universal da não naturalidade da
morte, a alegria das ilusões de juventude e o foco obsessivo da nossa
cultura no físico. Ainda assim, juntos, eles não são suficientes para
explicar porque o envelhecimento físico tão frequentemente se torna
uma crise espiritual na meia-idade. Nenhum desses três fatores teria o
poder de desorientação que eles têm se não fosse fortalecido por uma
condição fundamental do coração. Essa condição do coração é a
causa central no que diz respeito às lutas da meia-idade.
Há uma expressão pequena em 2Pedro 1.4 que é de grande ajuda
aqui. Pedro diz que Deus nos deu tudo o que precisamos para fugir
“da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça” (NVI, grifo
meu). Permita que essa expressão seja absorvida. Considere quão
radicalmente diferente é esse ponto de vista da maneira que nós
normalmente pensamos. Todos nós tendemos a culpar os arredores
por aquilo que pensamos ou fazemos (“É a pressão dos amigos!” “Se
você tivesse filhos assim também ficaria nervoso”. “É esse tipo de
música que ele ouve!”). E embora seja muito apropriado entender e
avaliar a influência da cultura ao nosso redor, é vitalmente importante
que entendamos a ordem corretamente.
O que Pedro propõe aqui é impressionante. Ele não diz que somos
corruptos por causa da cultura ao nosso redor. Na verdade, o oposto é
verdadeiro. A cultura é corrupta por que nós o somos! A cultura não
produz a condição do coração, mas a condição do coração produz a
cultura. Quando você pensa sobre isso, fica evidente que não dava
para ser de outro jeito. A cultura é simplesmente o resultado da
interação entre seres humanos feitos à imagem de Deus e o mundo de
Deus. A cultura não é como uma neblina para a qual você dirige e
sobre a qual você não tem influência ou controle. Quando a cultura é
de um certo tipo, é sempre por causa das pessoas que estão naquela
cultura. Isso significa que as mudanças culturais sempre significam
mudanças nas pessoas, porque a cultura é as pessoas e as pessoas
formam a cultura.
Pense no seguinte: Você olha para um casal e diz a si mesmo,
“Eles realmente têm um casamento ruim”. Você não está dizendo,
“não é uma pena que um casamento tão ruim caiu sobre eles?” Não, o
que você está reconhecendo é que as coisas que esse casal tem
pensado, desejado, dito e feito um para o outro produziu um
casamento atribulado. A cultura empedernida e cheia de conflitos
desse casamento foi formada pelas pessoas que o constituem.
Isso é humilhante, mas é verdadeiro: se quisermos entender a
enorme batalha do envelhecimento físico, não podemos olhar apenas
para a cultura na qual vivemos, mas precisamos também examinar o
nosso coração. Essa luta, como todas as demais dificuldades
humanas, tem a sua origem no coração e a única solução real é uma
mudança do coração. Você e eu precisamos reconhecer humildemente
que o problema começa conosco. Essa confissão é vital, mas deve ser
seguida por uma compreensão clara de qual é realmente o problema
do nosso coração. Somente ao fazer essas duas coisas é que as nossas
lutas tão típicas do envelhecimento serão substituídas por uma nova
liberdade e alegria.

A GRANDE SUBSTITUIÇÃO
Não demorou muito em minha vida adulta até que eu entendesse que
não seria um estoico muito bom. Tenho a tendência de ter muito
prazer nas coisas físicas à minha volta. Seja um quadro bonito, uma
refeição deliciosa ou uma peça musical bem executada, é muito fácil
para mim definir a vida boa como uma que contenha quantidades
liberais de cada uma dessas coisas. Esse é o motivo pelo qual eu acho
que os insights da Escritura sobre o coração humano são tanto
condenadores quando encorajadores.
Como a Escritura nos ajuda a entender tanto a natureza quanto o
poder das lutas da meia-idade? A resposta pode ser encontrada em
uma sentença bastante simples, ainda que profunda, em Romanos 1.
Essa sentença provê não somente um insight interessante sobre a
motivação humana, mas nos provê um paradigma para entender a
vida humana desse lado da eternidade. Romanos 1.25 diz: “eles
mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a
criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!”
Por causa da linguagem de adoração dessa passagem, é possível
perder quão amplamente aplicável é essa ideia. Há mais sendo dito
aqui do que o fato de que temos a tendência de servir a um catálogo
completo de substitutos de Deus. Sim, todos nós tendemos a ter essa
inércia para longe do Criador e em direção à criação, mas algo mais
está sendo dito aqui.
Romanos 1.25 nos alerta para o fato de que há uma propensão
inata em cada ser humano de substituir o espiritual pelo físico. Nós
todos fazemos isso de várias formas. A verdade é que a vida somente
pode ser achada no Criador. Ainda assim, nós tentamos encontrar
vida em coisas materiais, no amor de outras pessoas, na segurança, na
situação física ou localização ou no prazer experimentado fisicamente
ou no conforto. Idolatria, em sua forma mais simples, é quando
substituo a adoração de Deus por alguma imagem física ou objeto que
eu possa ver e tocar. A razão pela qual isso é uma tentação tão grande
é óbvia. O ídolo pode ser visto, tocado ou de alguma forma
experimentado fisicamente. Eu posso sentar em uma casa bem
grande, olhar ao redor e dizer, “Que vida boa eu tenho!” Eu posso
sentir os lábios de alguém que me ama tocarem a minha bochecha. Eu
posso ouvir aplausos humanos ou glória na beleza de um determinado
lugar, eu posso reviver o conforto físico de uma refeição maravilhosa
ou o prazer físico de uma relação sexual agradável. Uma certa pessoa
física, com uma voz real, pode elogiar a minha aparência ou o meu
trabalho. Não é difícil entender quão tentador é substituir o espiritual
pelo físico.
Se o pecado nos coloca em uma trajetória para longe do Criador e
em direção à criação, então, ele também nos empurra para longe do
espiritual e perto do físico. Assim a aparência vai triunfar sobre o
caráter. O prazer pessoal vai triunfar sobre a pureza de coração. O
amor de uma pessoa vai triunfar sobre o amor de Deus. Coisas
materiais vão triunfar sobre realidades espirituais. Segurança de
situação e localização vão triunfar sobre segurança no Senhor. O
prazer físico vai triunfar sobre a satisfação da alma. O presente vai
triunfar sobre a eternidade. Essa inversão do que era para ser está em
todos os lugares à nossa volta. Ë um dos principais perigos da vida
em um mundo caído.
A intenção nunca foi que vivêssemos para a glórias daquilo que é
visível. Na melhor das hipóteses, essas glórias devem nos apontar
para aquela glória única e singular para a qual realmente vivemos, a
glória do Senhor. Há sempre um preço terrível a se pagar por essa
substituição enorme. Ela destrói relacionamentos, distorce a cultura,
amedronta pessoas e, finalmente, leva à morte. O oxigênio da glória
de Deus, o qual deveríamos respirar, não pode ser achado em outro
lugar. Quando inspiramos os gases desoxigenados da criação, nosso
pulmão entra em colapso e nosso coração atrofia. O problema não é
que as coisas físicas são más em si mesmas. O problema é que, em
nosso coração, elas podem tomar o lugar de Deus. O desejo por uma
coisa boa se torna uma coisa má quando se torna em algo governante.
A criação não pode e não vai nos sustentar. Em nossa visão
distorcida, olhamos para a sombra (a criação) e vemos vida. Mas a
sombra não tem vida em si mesma e não pode dar vida. A sombra é
uma sombra porque reflete aquilo que está vivo. Da mesma forma, a
criação não é autônoma ou autossustentável. Ela sempre reflete a
glória do Criador porque ela é completamente dependente dele para a
sua própria existência. As coisas físicas, por sua própria natureza, não
têm poder para oferecer aquilo que somente o Criador pode dar.
Nenhuma passagem captura melhor o perigo de olhar para o ídolo
físico do que Jeremias 10.1-16:
Ouvi a palavra que o Senhor vos fala a vós outros, ó casa de Israel. Assim diz o
Senhor:
Não aprendais o caminho dos gentios,
nem vos espanteis com os sinais dos céus,
porque com eles os gentios se atemorizam.
Porque os costumes dos povos são vaidade;
pois cortam do bosque um madeiro,
obra das mãos do artífice, com machado;
com prata e ouro o enfeitam,
com pregos e martelos o fixam, para que não oscile.
Os ídolos são como um espantalho em pepinal
e não podem falar;
necessitam de quem os leve,
porquanto não podem andar.
Não tenhais receio deles,
pois não podem fazer mal,
e não está neles o fazer o bem.
Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor;
tu és grande, e grande é o poder do teu nome.
Quem te não temeria a ti, ó Rei das nações?
Pois isto é a ti devido;
porquanto, entre todos os sábios das nações
e em todo o seu reino, ninguém há semelhante a ti.
Mas eles todos se tornaram estúpidos e loucos;
seu ensino é vão e morto como um pedaço de madeira.
Traz-se prata batida de Társis e ouro de Ufaz;
os ídolos são obra de artífice e de mãos de ourives;
azuis e púrpuras são as suas vestes;
todos eles são obra de homens hábeis.
Mas o Senhor é verdadeiramente Deus;
ele é o Deus vivo e o Rei eterno;
do seu furor treme a terra,
e as nações não podem suportar a sua indignação.

Assim lhes direis: Os deuses que não fizeram os céus e a terra desaparecerão da
terra e de debaixo destes céus.

O Senhor fez a terra pelo seu poder;


estabeleceu o mundo por sua sabedoria
e com a sua inteligência estendeu os céus.
Fazendo ele ribombar o trovão,
logo há tumulto de águas no céu,
e sobem os vapores das extremidades da terra;
ele cria os relâmpagos para a chuva
e dos seus depósitos faz sair o vento.

Todo homem se tornou estúpido e não tem saber;


todo ourives é envergonhado pela imagem que ele mesmo esculpiu;
pois as suas imagens são mentira,
e nelas não há fôlego.
Vaidade são, obra ridícula;
no tempo do seu castigo, virão a perecer.
Não é semelhante a estas Aquele que é a Porção de Jacó;
porque ele é o Criador de todas as coisas,
e Israel é a tribo da sua herança;
Senhor dos Exércitos é o seu nome.

A linha Criador/criatura é um grande abismo. Nada deste lado da


linha é comparável com o Criador. Além disso, cada coisa deste lado
da linha do grande abismo depende do Deus maravilhoso para a sua
existência e continuidade, momento após momento. Pense sobre isto:
Por trás de cada coisa física poderosa está um Deus de poder glorioso.
Por trás de cada momento de beleza física está o Deus de beleza
infinita. Por trás de cada maravilha física está o Deus de maravilhas
extasiantes. Por trás de cada momento de amor, está o Deus que é a
fonte e definição de todo amor verdadeiro. Ainda assim, a nossa
tentação de substituir as glórias espirituais do Criador pelas glórias
físicas da criação nos cumprimentam e agarram todos os dias. É uma
luta constante e inescapável. Nós deificamos nosso corpo, prazeres
físicos, possessões materiais, a segurança de um lugar, o amor de uma
pessoa física etc. – enquanto, ao mesmo tempo, esquecemos das
glórias espirituais da comunhão íntima com o Senhor dos Senhores, o
Rei dos Reis, o grande Criador.

TENHA MEDO, TENHA MUITO MEDO


É importante para nós entendermos que as lutas da meia-idade são
uma janela para lutas mais profundas, muito mais fundamentais. Se
todos nós tendemos a substituir o espiritual pelo físico, então é bem
fácil entender como o envelhecimento físico se torna em tamanha
batalha emocional e espiritual. Nós não fomos feitos para extrair a
nossa identidade de nosso físico, mas o fazemos. A força e a saúde
física nunca foram objetivadas como a fonte de nossa esperança, mas
frequentemente são. A coisa da qual precisamos nos apropriar é a
compreensão de que a nossa luta com as mudanças físicas da meia-
idade, na verdade, revela os ídolos que têm estado conosco por muito
tempo. A idade os traz à tona. Muitos de nós precisam confessar que,
funcionalmente, realmente não tem confiado em Deus. E quando a
coisa na qual temos confiado (nosso físico) falha, tornamo-nos tristes,
iracundos, desencorajados, obcecados e deprimidos.
Ainda assim, as coisas físicas ainda têm um grande poder de
sedução sobre nós. Visto que o nosso coração é enganoso, pode
migrar da adoração e culto a Deus para adoração e culto da criação,
sem que nem mesmo percebamos. Por causa disso, é digno
prestarmos atenção aos perigos que residem nessa substituição.
1. As coisas físicas são não permanentes. Tudo o que é físico se
deteriora, envelhece, gasta ou quebra. As coisas físicas estão em um
estado constante de mudança. Nada que você está olhando hoje será
exatamente o mesmo amanhã. A despeito de sua aparência de
permanência, as coisas físicas são realmente transitórias e
imprevisíveis. Visto que isso é verdadeiro, elas não são um lugar
confiável para colocar a nossa esperança. Elas sempre vão falhar com
você, porque elas vão passar.
2. As coisas físicas são enganosas. Elas parecem entregar aquilo
que não entregam de fato. Essa é a razão porque as Escrituras nos
relembram em muitas passagens de que os ídolos têm olhos, mas não
veem, ouvidos, mas não ouvem e tem boca, mas não falam. Jeremias
até mesmo diz que você tem de pregá-los a uma plataforma senão
eles caem, e você tem de carregá-los, porque eles não conseguem
andar (Veja Jr 10.1-16; Sl 115.5; 135.16; Hc 2.18-19; Is 41.23, 46.7).
Todas as promessas de todos os ídolos são mentira. À despeito de
toda a sua atratividade, eles não podem me dar aquilo que estou
procurando. Isso nunca vai acontecer. Procurar vida nos ídolos é um
ato de insanidade pessoal e espiritual. Ela nunca será encontrada ali.
3. Coisas físicas são impessoais. Adoração, em sua forma mais
pura, é um relacionamento. Eu fui criado para um relacionamento
com Deus. Esse relacionamento pessoal de comunhão, amor,
compromisso, adoração, dependência e obediência deve ser o eixo ao
redor do qual meu mundo pessoal revolve. A minha adoração a Deus
é intensamente pessoal. O meu espírito se conecta com o Espírito em
uma comunhão tão profunda que é impossível expressar em palavras.
Os seres humanos foram feitos para essa conexão fundamental de
espírito com o Espírito. Ao tentar substituir isso por algo que eu possa
ver, tocar, provar e usar – mas com o qual nunca poderei ter um
relacionamento – me rouba de minha humanidade.
Preste atenção em mais algo: Você e eu temos algum controle
sobre as coisas físicas de nossa vida, até mesmo sobre o nosso corpo.
Você pode alterar a forma e condição física de seu corpo. Você pode
fazer dieta. Você pode colocar maquiagem ou investir em roupas
novas. Você pode até mesmo ir longe ao ponto de se submeter a uma
cirurgia plástica. Você pode controlar coisas, mas em seu
relacionamento com Deus, você não pode controlá-lo. A adoração
apropriada não é somente colocar Deus no lugar que é dele por direito
em sua vida, mas é também abrir mão do controle de sua vida para
ele. As coisas impessoais nos seduzem tão facilmente porque elas nos
colocam no controle, o lugar onde cada pecador quer estar. Aqui está
um dos grandes encantos da idolatria, mas também um de seus
maiores perigos. Você e eu nunca fomos feitos para estar no controle,
e quando estamos, sempre fazemos uma grande bagunça.
4. As coisas físicas são escravizadoras. Aqui se encontra um dos
truques mais maldosos da idolatria. Aquilo que pensamos estar
controlando está, naquele próprio momento, escravizando-nos.
Nossos desejos por coisas físicas se transformam em “necessidades”,
e quando isso acontece, nos tornamos totalmente convencidos de que
não podemos viver sem elas. Você vê essa dinâmica na maneira em
que as pessoas se relacionam com seus corpos físicos. O que antes era
um desejo por ser magra, se transforma em anorexia mortal ou em
uma busca incessante pela próxima dieta milagrosa. Uma decisão de
fazer uma cirurgia cosmética se transforma em uma obsessão triste
por alterar a aparência e forma do corpo. Um desejo de ter um visual
legal, se transforma em uma ansiedade constante a respeito da
aparência e uma inveja daqueles que tem a aparência que eu queria
ter. A qualidade escravizadora, viciante da idolatria não pode de
forma alguma ser minimizada ou ignorada. Como qualquer outro tipo
de idolatria, a adoração de coisas físicas nos escraviza, mesmo se a
coisa física for o nosso próprio corpo.
5. Substituir coisas espirituais por coisas físicas mata. Qual é o
perigo de adorar coisas físicas? Em uma palavra: morte. Deixe-me
oferecer outra metáfora. Quando os mineradores de carvão da
Pensilvânia desciam às minas profundas, levavam um canário em
uma gaiola junto com eles. Eles cuidavam muito bem do canário,
sabendo bem que, se o canário estivesse com dificuldades para
respirar ou morto, eles teriam pouco tempo. Esses mineradores de
antigamente sabiam que respirar qualquer outra coisa que não
oxigênio não era uma opção; tentar fazê-lo os levaria à morte. Da
mesma forma, é importante que nos lembremos de que a vida
somente pode ser encontrada no Criador. Qualquer coisa física que
pareça dar vida é um delírio.
Tentar encontrar vida fora do Criador me expõe àquilo que pode
trazer somente destruição e morte. Colocar coisas físicas no lugar do
Criador é sempre destrutivo à vida como Deus a ordenou. Quando eu
me alimento com aquilo que não dá vida, consequentemente, eu não
estou me alimentando dos nutrientes que dão vida e graça, os quais
somente podem ser encontrados aos pés do Criador. Jonas expressou
dessa forma: “Os que se entregam à idolatria vã abandonam aquele
que lhes é misericordioso”. Note, nós deveríamos ser muito mais
temerosos das formas sutis em que substituímos o espiritual pelo
físico do que das nossas experiências normais de envelhecimento.

AJUNTANDO TUDO
As dificuldades do envelhecimento físico que, de forma tão frequente,
caracterizam a meia-idade são o fruto de uma luta maior pelo
coração. Haverá um dia em que essas lutas serão finalmente
encerradas e Deus será o dono do nosso coração, sem rivais, por toda
a eternidade. Mas, por enquanto, essas lutas ainda continuam. Assim,
Deus, na grandeza do seu amor redentivo, fará o que for necessário
para clamar posse de nosso coração errante. Esses momentos
dolorosos não são o resultado de sua infidelidade e falta de atenção;
eles são, em vez disso, o produto de sua graça amorosa. Ele nos ama
com um amor eterno e ciumento. Ele não derramou o sangue de seu
Filho por nós somente para nos perder para as coisas físicas da
criação.
Deus luta por nós com toda a força de sua mão redentiva. Ele está
disposto a nos fazer desconfortáveis e tristes. Ele quer nos trazer para
si por meio de sofrimento e lamentos. Ele quer nos chacoalhar e
abalar. Ele está disposto a espremer os nossos sonhos e fazer sair o ar
de nossas esperanças. Ele está disposto a deixar que aquilo pelo que
ansiamos escape como areia por entre os nossos dedos. E ele faz tudo
isso porque somos preciosos para ele. Somos a menina dos seus
olhos. Ele não nos compartilhará com outros. Ele não nos permitirá
viver no delírio de que encontramos em outro lugar aquilo que
podemos encontrar somente nele.
Assim, nossas lutas com o envelhecimento físico são lutas entre a
idolatria e a graça. Aquele que ama nossas almas está usando a
ocasião da meia-idade e a realidade do envelhecimento para expor e
nos livrar de nossos ídolos, que moram secretamente em nós e nos
governam. Rejeite a autocomiseração, a inveja e o desencorajamento
que são tão tentadores nessa época. Olhe para o céu e seja grato. Você
está sendo resgatado. Celebre o único que nova e novamente te livra
daquilo que, deixado sozinho, você seria incapaz de escapar. Não
lamente a morte de sua esperança nas coisas físicas. Celebre essa
morte, pois ela dá as boas-vindas a uma nova vida renovada e
vigorosa de amor, serviço e comunhão com o nosso Redentor. Diga a
si mesmo junto com Paulo, “Sim, por fora eu estou me deteriorando,
mas eu tenho uma esperança real e uma alegria verdadeira, porque
interiormente eu estou sendo renovado a cada dia. O que a minha vida
realmente diz respeito não poderá nunca ser enfraquecido pela idade
nem destruído pelo passar dos anos!”
CAPÍTULO 4

AS FOLHAS CAEM DAS ÁRVORES

Remorsos são a propriedade natural dos cabelos brancos.


— CHARLES DICKENS

De todas as palavras tristes da língua ou da caneta,


as mais tristes são: eu poderia ter sido.
— JOHN GREENLEAF WHITTIER

Eu amo o outono, mas eu também odeio o outono. Eu amo o clima


delicioso moderado do outono, quando o calor sufocante do verão se
foi. O sol ainda brilha, os dias são razoavelmente longos e a
temperatura está quase tão perfeita quanto possível deste lado da
eternidade. É delicioso estar lá fora e não suar nem tremer de frio.
Mas o outono também é a época da colheita, um tempo em que você
entende que não pode voltar atrás e fazer de novo. Neste ano eu não
estava preparado para o outono, eu queria colar as folhas de volta nas
árvores. Eu queria voltar o relógio do jardim para trás e ajudar as
minhas flores a terem um início melhor. A meia-idade é um tempo de
colheita. As folhas estão fora das árvores e não há como colocá-las
novamente. O mundo não dá voltas para trás em seu eixo. Relógios
não voltam. Se a infância é a primavera da vida, e a juventude o
verão, então, a meia-idade é um tempo de colheita, a meia-idade é o
outono. É um tempo em que cada um de nós, em sentidos muito
importantes, colhemos aquilo que semeamos.
Por muito tempo da vida adulta você vive pensando em como
tudo vai se desenvolver. Você está planejando, regando e tirando as
ervas daninhas. Está olhando para frente. Você vislumbra a colheita,
mas está nublado e com névoa. Assim, você se mantém trabalhando e
recusa abrir mão da esperança. De repente, você se encontra olhando
para trás na maior parte do tempo. É desorientador e desconfortável a
priori. Quando você gasta a vida plantando, parece estranho e
antinatural colher, mas você não teve escolha. Você está em seu
próprio outono pessoal.
Olhar para trás é maravilhoso e perigoso, delicioso e triste. Pode
encher de alegria ou marejar os olhos de lágrimas. Você pode flutuar
de alegria ou afundar de remorso. A mistura desses extremos torna a
coisa difícil. É particularmente difícil que o fruto da gratidão não seja
coberto pelas folhas do remorso. Eu gostaria de poder olhar para trás
e ser somente grato, mas não consigo.
Permita-me dar um exemplo. Esse setembro, nosso último filho
deixou nossa casa. Foi um momento maravilhoso e triste. Luella e eu
relembramos uma miríade de formas em que experimentamos o
cuidado gracioso e glorioso do Redentor. Temos falado a respeito do
nosso amor e da gratidão por todos os nossos filhos. Nova e
novamente, temos compartilhado o quando temos sido protegidos e
guiados pela sabedoria maravilhosa da Palavra de Deus. Temos
falado sobre a nossa gratidão pelo corpo de Cristo, pela boa pregação,
pelas escolas cristãs e por muitos livros e fitas que nos ajudaram e
deram suporte ao longo do caminho. Deus nos colocou no caminho
de irmãs e irmãos sábios, que andaram a estrada antes de nós e nos
advertiram sobre o que encontraríamos adiante.
Tem sido um tempo de reminiscência grata, mas o fato é que
nenhum de nossos filhos, não importa o quão espiritualmente
inclinados, se tornou aquilo que nós havíamos imaginado ou sonhado.
Eles fazem escolhas que você e eu não faríamos. Eles passam pelos
solavancos e contusões da juventude, algumas vezes sangrando seus
narizes de forma desnecessária. Eles podem compartilhar a nossa fé,
mas não compartilham cada um dos nossos valores. E ao longo do
caminho podem ser bastante cândidos sobre as suas fraquezas e falhas
e como eles se determinaram a evitá-los. Assim, é difícil olhar para
trás, para a sua vida como pai ou mãe, e somente ser grato, porque um
olhar honesto para trás vai incluir relembrar muitos momentos de
fraqueza e de pecado.
Nós não fomos os pais que queríamos ter sido. Sim, fomos muito
dedicados a fazer as coisas conforme a caminho de Deus e sempre
estávamos dispostos a aprender. Procuramos tornar a presença de
Deus óbvia para os nossos filhos e falamos muito a respeito do
evangelho. Nos aventuramos com o objetivo de sermos fiéis na
correção, instrução e disciplina. Mas, em tudo isso houve apenas um
problema incandescente: tudo o que fizemos foi como pecadores que
somos. Houve tantas vezes em que os nossos pecados se colocaram
no meio do caminho. Na meia-idade, esses são os momentos que você
tende a lembrar. Deixe-me recontar um para você.
Meus filhos eram todos novos e eu era um jovem pastor. Eu não
recebia muito, mas queria fazer algo legal para a minha família,
então, eu comecei a tirar um pouquinho de dinheiro por mês até que
eu tivesse economizado o bastante para irmos todos ao Hershey Park,
o parque de diversões mais badalado de nossa área. Eu estava
sonhando com um dia abençoado de diversão familiar. Pensava a
respeito dos meus filhos indo em um brinquedo e dizendo para a
pessoa ao lado: “Esse brinquedo é legal, mas minha diversão maior é
ser filho daquele homem que trabalhou tão duro para que pudéssemos
ter esse dia gostoso”.
Nós preparamos uma caixa térmica cheia de comida e outra com
cinco latas de refrigerante. Eu tenho quatro filhos, então, comprei
quatro tipos diferentes de refrigerante (a fim de evitar uma guerra
nuclear global). Dois desses refrigerantes eram do mesmo tipo
especial que eu não consigo resistir. Havia somente duas latas de
sobra na prateleira e, em um momento de cólica cerebral paternal, eu
peguei as duas latas. Chegamos ao nosso destino, todos empolgados
com o dia que tínhamos diante de nós, quando um de nossos filhos
perguntou se poderia beber alguma coisa antes de entrarmos no
parque. Não parecia um pedido perigoso. Instantaneamente, meus
filhos perceberam que havia somente uma lata do refrigerante
mágico, pois um deles havia surrupiado uma lata no caminho e o caos
irrompeu. Eles estavam chutando e empurrando, jogando gelo um no
outro. Puxavam as roupas uns dos outros em todo o tempo,
reforçando a sua briga física com xingamentos e ameaças verbais. Eu
não podia acreditar! Nós nem estávamos no parque, e meu dia já tinha
sido arruinado. Era muito querer um dia abençoado e calmo de
diversão familiar no parque?
Eu gostaria de poder dizer que orei e dei graças a Deus por revelar
o coração dos meus filhos e me dar uma oportunidade de ouro para
ministrar a eles. Não, eu também fiquei irado e pulei na briga. “Então
vocês querem brigar?”, eu disse, “Nós não pagamos todo esse
dinheiro para que vocês pudessem brigar um com o outro. Vocês
podem brigar de graça! Vamos voltar para casa, colocar o cooler no
quintal com uma lata de refrigerante e vocês poderão brigar por ela, já
que é isso que vocês amam fazer!” À medida que eu estava gritando e
movimentando as minhas mãos, meus filhos pararam de brigar,
porque começaram a olhar as pessoas que olhavam o pai deles
perdendo o controle no meio de um estacionamento.
Quantos outros momentos de egoísmo e pecado houveram em
nossa história familiar? Quantas outras vezes o meu plano beijou a
lona por estar atrapalhando o caminho dos planos de Deus?
Provavelmente mais do que consigo lembrar. O que acontece na
meia-idade é que quando você começa a olhar no rosto do seu
adolescente mais velho ou jovens adultos e vê-los responder à vida
em um mundo caído, muitas de suas memórias se enchem de
remorso. Você simplesmente não conseguiu sempre ser o pai ou mãe
que queria ter sido ou fazer as coisas que se comprometeu a fazer.
Muitas vezes você esteve atrapalhando o que Deus estava fazendo em
vez de ser parte daquilo. Mas agora, não há nada que você possa fazer
a respeito. As folhas caíram das árvores.
A meia-idade é um tempo de reflexão. Em sua juventude, ainda
que você não tivesse atingido suas metas, você conseguia dizer a si
mesmo que ainda dá tempo. Mas, quanto mais a vida está para trás de
você, os sonhos dão lugar à reflexão, e sem que passe muito tempo,
você está gastando muito mais tempo olhando para trás do que para
frente. Você se torna um espectador regular da pessoa que você foi.
Nem sempre você gosta do que vê. A pessoa na tela de sua
memória luta muito mais do que você sequer imaginou que lutaria e é
difícil admitir que é você quem está assistindo. Você deseja fazer
direito dessa vez. Deseja que tivesse olhos mais sábios, ouvidos mais
atentos, uma mente mais clara e um coração mais terno. Mas não há
como voltar.

EM UM MUNDO ONDE VIVE O REMORSO


Houve um momento quando não havia razão no mundo para remorso.
Tudo o que as pessoas pensavam, queriam, diziam e faziam estava em
completo acordo com a vontade do Criador. Imagine ser um marido
em suas bodas de vinte e cinco anos de casamento e não ter uma
única coisa para lamentar. Imagine ser uma mãe sentada com seus
filhos adultos, lembrando todos os anos de maternidade e literalmente
não ter nada para se arrepender. Imagine ponderar sobre o seu
relacionamento com Deus ao longo das décadas e não encontrar nada
para lamentar. Imagine refletir em cada pensamento, palavra e ação
sem nenhuma pontada de remorso ou culpa. É dessa forma que as
coisas foram planejadas.
Deus fez um mundo com impressionante unidade, harmonia, paz e
amor, onde nenhuma coisa lamentável interromperia a tranquilidade
que ele criou. Havia trabalho, mas ele nunca era feito de mau humor
ou de maneira irresponsável. Havia relacionamentos, mas eles nunca
eram marcados por egoísmo, deslealdade ou ira. Havia adoração de
coração, culto e obediência a Deus, mas nunca um momento de
rebelião e idolatria. Imagine comigo só por um momento como seria
viver em um lugar como esse. Como seria nunca sentir remorso, e
nunca ter que carregar o fardo pesado da culpa? Não pense que o que
eu estou descrevendo aqui é totalmente utópico. Na verdade, o mundo
já foi assim.
Mas naquele dia terrível com a serpente no Jardim, a beleza de um
mundo sem remorso foi destruída. Essa beleza ainda aparece em
pedaços ao nosso redor. Acho que não existe experiência humana
mais comum do que o remorso. Ele está com você o tempo todo. É
como uma tinta preta nas folhas brancas de nossa existência. Você
pode fechar os seus olhos e desejar uma folha toda branca, mas ao
abri-los vê manchas pretas de remorso em todo lugar. Nunca houve
um dia do qual não fosse correto ter remorso de um pensamento, um
desejo, uma palavra ou uma resposta. Ele marca o melhor dos
momentos familiares. Ele mancha o encontro mais romântico. Deixa
manchas na melhor das amizades. Marca a melhor de nossas
intenções. A palavra inútil, a escolha impulsiva, o desejo teimoso,
todos, nos causam remorso. Você deseja poder voltar atrás nessas
escolhas. Você deseja que fosse possível pegar as palavras de volta
enquanto elas ainda estavam no ar. Deseja poder aliviar situações e
reescrever o script de relacionamentos, mas não pode. As folhas
caíram das árvores, e o remorso é a sua colheita.
Esse é o nosso mundo, um lugar onde o remorso vive. É a matéria
em que repetimos e não aprendemos nada. É o trabalho que eu nunca
levei muito a sério. É o entregar-se aos desejos que levaram ao ganho
de muito peso e saúde problemática. É a carreira que eu permiti que
comandasse muito de meu tempo e energia. É a oportunidade de
ministério que eu deixei escorrer pelos dedos. Foram as vezes em que
eu deixei que a opinião dos outros fosse muito forte sobre mim. É o
conflito que eu deixei crescer e se transformar em uma chaga. É a
dívida que eu deixei me consumir. É a coisa material que eu deixei
comandar meus olhos e controlar meu coração. É o dinheiro que eu
torrei, que resultou em dificuldades no momento da necessidade. É a
casa enorme que eu tive de comprar, mas que na verdade não
precisava. É o não ter tido muito tempo com os meus filhos e ter
dedicado muito tempo a mim mesmo. Foi o ter estado muito cansado
e ocupado para ser consistente em minha adoração pessoal ao Senhor
e estudo de sua Palavra. Foi o ser muito influenciado pela inveja e
muito motivado pela cobiça. O não ter aproveitado mais as vantagens
dos recursos do corpo de Cristo. O não dizer “muito obrigado” o
suficiente e não estar mais disposto a ajudar. Não ser paciente e
compreensivo o suficiente com os outros. O estar disposto a pagar o
mal com o mal é universalmente humano e ao mesmo tempo
intensamente pessoal. Todos nós vivemos em um lugar onde o
remorso vive.

PARA ONDE O REMORSO APONTA


Face a esse remorso massacrante, não estamos sem esperança. O
remorso é um desejo que nos aponta para a nossa necessidade. Por
baixo de cada momento de remorso está um lamento por um lugar
melhor. As canções mais tristes de remorso nos chamam a ouvir os
hinos do outro lado. Pois haverá um dia quando o último remorso será
sentido e o remorso final morrerá. Do outro lado não mais haverá
escolhas erradas, reações não sábias, pensamentos inapropriados ou
desejos ruins. Uma das realidades mais brilhantes e maravilhosas da
eternidade é que ela nos livrará de nossas fraquezas e pecado e,
portanto, do remorso. Preso em cada flash mundano de remorso e
cada carga enorme de remorso está um profundo e constante anseio
por um lugar melhor, um lugar onde a falha dá lugar à vitória e o
pecado dá lugar dá lugar a justiça. Até aquele dia, olhamos para trás e
sentimos a dor dilacerante do remorso. Essa e a cultura da Queda, e,
portanto, a experiência universal de todos nós.

DE ASTRONAUTA A ARQUEOLOGISTA
Não é uma coisa que você simplesmente decide fazer. Sem perceber,
você progressivamente se transforma de alguém que vive como um
astronauta em alguém que vive como um arqueologista. O estilo de
vida do jovem diz respeito a lançamento com coragem e expectativa a
mundos desconhecidos. Diz respeito a novas trajetórias, novas
localizações e novas descobertas. Você não fica desencorajado pela
distância que existe entre você e onde você quer chegar. Você vai
como um foguete de destino a destino, deixando o rastro da
descoberta. Você gosta do pseudoperigo de fincar o pé onde ninguém
pisou antes. Você quer que o próximo dia seja diferente e você não
fica nem um pouco amedrontado com mudanças.
Mas à medida que você fica mais velho, muda de ocupação. Você
começa a encarar o fato de que está vivendo com uma mentalidade
fundamentalmente diferente. Você não mais se lança àquilo que
poderia ser; agora você gasta o seu tempo descobrindo e criticando
aquilo que já foi. Você assumiu uma abordagem de arqueologista
com relação à vida.
A meia-idade é como uma escavação de longo período no monte
de sua existência. E frequentemente é difícil de encarar aquilo que
você descobriu. Essa mudança acontece porque em algum lugar você
deixou de ser capaz de convencer a si mesmo de que as coisas seriam
diferentes ou que você ainda teria tempo para fazê-las de uma
maneira diferente. O seu passado ganhou mais poder do que o seu
futuro. Trabalhar pode ser um trabalho desencorajador, mas nos anos
da meia-idade, todos nós parecemos ser levados a escavar.
É um trabalho perigoso, porque essa escavação não tem
objetividade científica. Você está desencavando momentos pessoais
profundos carregados de drama e consequências. Você escava e
descobre a si mesmo como nunca antes. Pode ser de tirar o fôlego.
Você pode até mesmo ficar paralisado. Muitos de nós ficamos presos
e nunca mais conseguimos sair dos nossos buracos arqueológicos. É
como se a terra tivesse caído sobre nós e tivesse coberto a luz.
Queremos muito conseguir voltar e andar pelas ruas do nosso
passado. Há pessoas que amaríamos rever. Há conversas que
amaríamos ter novamente. Isso coloca um nó em nosso estômago e
uma lágrima em nossos olhos. Você tenta, mas não consegue tirar a
casca de sua culpa, nem enterrar o seu remorso.

PORQUE O REMORSO É TÃO DOLOROSO E TÃO DIFÍCIL?


Sabe quando você consegue se lembrar de alguns momentos com
precisão de detalhes? Bem, aquele foi um desses momentos para
mim: Luella e eu saímos para comer (eu posso me lembrar
exatamente de onde estávamos sentados) e eu podia sentir que ela
estava estranhamente séria. Eu perguntei se algo estava errado. Ela
disse que nós realmente precisávamos conversar sobre o nosso
relacionamento. Então Luella, de forma gentil e cuidadosa, começou
a apresentar o “vídeo” de minhas respostas a ela e ao nosso
relacionamento. A priori, eu estava na defensiva. Eu realmente quis
acreditar que não era como aquele homem do vídeo, mas quando
mais eu “assistia”, mais perturbado eu ficava. Fiquei chocado com o
meu egoísmo e insensibilidade. Fiquei surpreso com quão
frequentemente eu ficava irritado e impaciente. Fiquei surpreso em
quão comprometido eu era com a minha agenda e quão rapidamente
eu ficava irado quando qualquer coisa ou pessoa a atrapalhava.
Eu fiquei impressionado com quão completamente eu havia
comprado o mito da minha justiça pessoal. É evidente que, em algum
sentido teológico, eu sabia que era um pecador, e, sim, eu reconhecia
a minha necessidade de receber graça, mas no dia a dia, eu pensava
ser um homem justo. Eu vivia com sentimentos de chegada que
impediam os hábitos de humilde autoavaliação. Na verdade, eu estava
tão convencido de minha justiça própria que, quando Luella vinha até
mim com reclamações apropriadas e amorosas, eu instintivamente
pensava que ela era quem estava com problemas. Eu era bastante
competente em virar a mesa para ela. Suas tentativas de
amorosamente me confrontar frequentemente terminavam com um
exame dos pecados dela!
Eu estou profundamente convencido de que é precisamente nesse
ponto que a Bíblia disseca e expõe o remorso da meia-idade. O
motivo pelo qual o remorso tem capacidade para nos deprimir,
descarrilar e paralisar é que o remorso nos chama não somente a
confessar que falhamos, mas também a abrir mão do mito da
autojustiça. A obra arqueológica da meia-idade expõe quem eu tenho
sido ao longo de tempo. O problema é que aquilo que foi exposto não
combina com quem eu pensei ser ao longo desses anos. A Escritura
diz nos diz que “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós
mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1João 1.8).
Ela diz isso porque facilmente ficamos cegos pela profundidade e
consistência de nosso pecado. Tendemos a subestimar quão suscetível
o nosso coração é para viver sob outros governos que não o do
Senhor.
Em nossa autojustificação, somos propensos a reformular a nossa
própria história. Quando tocamos o vídeo de nossas ações, reações e
respostas, não aparecemos tão iracundos e egoístas como realmente
somos. Assim, quando outros nos confrontam, sentimo-nos mal
compreendidos e falsamente acusados. É difícil ver quão seguro de
nós mesmos e autodependentes nós realmente somos. É difícil ouvir
você defendendo a si mesmo, argumentando em prol de sua própria
justiça para outro. No entanto, Deus sabe quão importante para nós é
vermos essas coisas. Assim, à medida que espanamos a sujeira de
artefatos do passado, Deus nos coloca em uma posição de ver que
qualquer coisa boa que descobrimos é resultado da graça dele. Dessa
forma, a meia-idade pode ser uma ocasião de mudança espiritual
profunda e duradoura. Pode ser um momento para uma compreensão
mais profunda e pessoal do evangelho e da verdadeira extensão da
minha necessidade da graça de Cristo.

ROMANOS 7 E O REMORSO DA MEIA-IDADE


A meia-idade provê uma janela para o nosso coração. Isso é uma
coisa muito boa. É bom que as ilusões morram. O grau em que
compramos a nossa justiça própria é o mesmo em que falhamos em
buscar a Cristo e sua graça. Muitos de nós somos propensos a faltar
em apreciação da graça de Cristo, porque no nível de nosso
funcionamento diário, simplesmente pensamos que não precisamos
dela. A meia-idade pode ajudar você a ver a si mesmo com clareza e
humildade, e ao fazê-lo, colocar você de joelhos. Isso em si mesmo é
uma doce graça. Deus pode usar a arqueologia da meia-idade para
trazer você para junto de Paulo em Romanos 7.14 em diante, e tornar
essa a sua própria confissão:
Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à
escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de
agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero,
consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o
pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não
habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo.
Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu
faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.
Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque,
no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus
membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro
da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem
me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De
maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas,
segundo a carne, da lei do pecado.

Todos nós precisamos fazer essa confissão, pois cada um de nós


subestima seriamente a presença e o poder do pecado que habita em
nós. Não importa quão saudável e bíblica a sua teologia seja, essa
habitação do pecado é uma doutrina que todos nós temos problemas
para crer. Sim, nós podemos crer nela a respeito de outras pessoas,
mas é difícil imaginar que ela realmente se aplica a nós.
A razão pela qual o remorso tende a nos bater tão forte na meia-
idade é que passamos anos nos convencendo de que o problema não
era realmente nós mesmos. Talvez a maior e mais tentadora mentira
que todos nós gostamos de abraçar é que os nossos maiores
problemas, de alguma forma, existem fora de nós. Essa é uma
distorção atraente porque nós estamos rodeados, nesse mundo caído,
de pessoas e coisas que não estão operando da forma que deveriam –
assim, há uma enorme variedade de coisas para culpar. Eu posso
sempre encontrar alguém em minha vida que não respondeu a mim de
maneira própria. Eu posso sempre identificar uma situação difícil pela
qual tive de passar. Todos nós estamos sujeitos a ter um patrão que
nos exige coisas impossíveis, um filho consistentemente rebelde, um
cônjuge muito impaciente, um vizinho rude ou um familiar
fofoqueiro para confirmar que as sementes dos frutos que estamos
colhendo, na verdade, pertencem a outra pessoa.
Há uma dinâmica espiritual importante em operação aqui. Porque
somos cristãos, o coração de pedra foi tirado de nós e foi substituído
por um coração de carne. Isso significa que quando pensamos,
desejamos, dizemos e fazemos o que está errado, experimentamos
uma dificuldade de coração dada por Deus – a consciência. Quando
isso acontece, procuramos alívio para o coração. Há somente duas
maneiras de encontrar esse alívio. Podemos nos colocar novamente
debaixo das misericórdias justificadoras de Cristo, ou podemos
construir algum sistema de autojustificação, o qual torna aquilo que é
errado em algo aceitável à nossa consciência. Um pai iracundo que
acabou de machucar o próprio filho vai dizer a si mesmo que isso é
vitalmente importante para que o filho aprenda a respeitar
autoridades. Essa justificação repinta seu pecado de ira contra o seu
filho. Ou uma esposa, que desenvolveu padrões regulares de fofoca
dos pecados de seu marido para as suas amigas, pode dizer a si
mesma que está procurando oração e conselho. Ela agora se sente
confortável fazendo algo que a Bíblia chama de pecado. Ou um
adolescente que mente para o seu pai sobre o que está fazendo diz a si
mesmo constantemente que tem de fazê-lo, pois seu pai é muito
“controlador”.
Há um antigo argumento que pode ser expressado mais ou menos
assim: “O seu pecado faz com que o meu pecado deixe de ser
pecado”. Todos nós já usamos esse argumento e ele nos faz mal.
Nosso crescimento em graça, nossos relacionamentos com outros e
nossa colheita como filhos de Deus, todos, têm sido sabotados pelas
nossas estratégias de pseudo expiação. A nós nos foi dado um
Salvador que é magnificente em amor e graça e, ainda assim, frente à
sua misericórdia, funcionamos como nossos próprios substitutos de
salvador repetidamente.
Note quão radicalmente diferente isso é da perspectiva de Paulo
em Romanos 7. Toda a lógica da passagem é baseada no fato de que
Paulo está localizando a luta dentro dele mesmo. Para Paulo, a guerra
fundamental não é um contra uma situação difícil (em muitos lugares
Paulo reconhece a existência delas) ou com pessoas pecadoras (Paulo
conta histórias em outros lugares sobre ter que lidar com elas), mas
uma guerra com atração gravitacional do pecado dentro de nós.
Romanos 7 pode ser desconfortável para nós porque nos leva ao lugar
de autoacusação que tentamos evitar a todo custo. Em nossa
habilidade de evitar esse lugar, configuramos a nós mesmos para o
choque de remorso que tende a nos bater tão forte na meia-idade.

A GRANDE SURPRESA
Deixe-me apresentar algumas razões porque os remorsos da meia-
idade nos abatem tanto, e como eles podem se tornar ocasiões para
uma renovação espiritual importante.
1. Nós tendemos a ser nosso principal vigarista. Kris
Lundgaard aponta isso de maneira poderosa em seu ótimo livro, O
Inimigo de Dentro. Um vigarista apela para algo que você deseja
muito. Talvez ele ofereça algo que normalmente você não conseguiria
comprar por um preço aparentemente razoável (um período de férias
em um paraíso na Flórida). Ou talvez uma saída para uma área de
obrigação pessoal (uma saída rápida e fácil de uma dívida). O “anzol”
de um vigarista é sempre oferecer algo que você deseja muito. Em
nossos pecados, oferecemos a nós mesmos um período de férias
espirituais em um paraíso que, na verdade, é o pântano fétido do
pecado. Ele nos dá aquilo que qualquer pessoa consciente do pecado
deseja, liberdade da culpa. No entanto, o aprofundamento do senso de
pecado é o que Deus usa para nos levar a uma maior dependência
dele e em uma celebração maior de sua graça. Quando bancamos o
vigarista e oferecemos a nós mesmos uma falsa expiação, colocamos
a nós mesmos em um anzol moral. Ao fazê-lo, não somente
atrapalhamos suas misericórdias santificadoras, mas também nos
deixamos à mercê de momentos de choque e desespero, quando se
tornar claro que nós não somos, de fato, tão justos como pensávamos.
Dói em mim ter de confessar que, ao longo do caminho, eu
pensava ser um pai muito melhor do que sei que fui agora. Eu era
muito mais convencido da minha nobreza como marido do que sou
agora. Na verdade, passei a conhecer os meus próprios jogos de
vigarista. Por exemplo, sou bastante doméstico e por anos sou eu
quem cozinho a maior parte das refeições da casa. Eu sempre me
esforcei para estar disponível para os meus filhos. Quando Luella
tentava me confrontar amorosamente com o meu pecado, eu virava a
mesa e a relembrava de minha dedicação, trabalho e disponibilidade
em casa. Meu argumento era de que os problemas dela não eram meu
pecado, mas o descontentamento dela! Agora eu entendo que eu
estava fazendo esse argumento tanto por mim quando por ela. O que
eu consegui com isso não foi apenas liberdade da culpa, mas uma
avaliação pessoal de justiça.
2. Nós assinamos um tratado de paz prematuro com a nossa
natureza pecaminosa. Na guerra com o Iraque, os Estados Unidos
aprenderam que uma das decisões mais importantes em tempo de
guerra é saber quando declarar vitória e assinar um tratado de paz. Se
isso é feito cedo demais, o inimigo tem a oportunidade de causar mais
dano com guerra encoberta do que na linha frontal do campo de
batalha. Isso leva à confusão e perda de tropas que foram levadas a
acreditar que a maior parte do combate já havia terminado e que, por
isso, havia baixado sua guarda. A cessação das maiores batalhas não
significa que a guerra acabou. Um bom general sabe a diferença entre
uma série de vitórias em batalhas e a vitória total de uma guerra
maior.
Isso é exatamente o que frequentemente falhamos em lembrar na
nossa guerra contra o pecado. Visto que Deus nos trouxe para si
mesmo e nos livrou de muitos pecados, passamos a viver com uma
mentalidade de tempos de paz. Sim, nós somos novas criaturas e o
controle do pecado sobre nós foi quebrado, mas a presença do pecado
ainda permanece. Isso significa que a grande guerra moral e espiritual
ainda acontece dentro de nós. Esse não é um tempo para se investir
em luxos e lazer de paz, porque tiros, bombardeios e pilhagens ainda
estão acontecendo. O pecado dentro de nós é o inimigo fundamental
de cada coisa boa e bela para a qual Deus nos chama. Ele não pode
ser reconciliado com a santidade que Deus ordenou para nós. Pecado
e santidade são inimigos eternos. A santidade só vai reinar em nosso
coração quando o pecado for totalmente erradicado.
Por causa da obra maravilhosa de expiação do Príncipe da Paz, a
guerra entre nós e Deus terminou. Mas a guerra de hostilidade dentro
de nós ainda está acontecendo. O problema é que tendemos a pensar
que o inimigo dentro de nós foi conquistado muito antes disso ser
realmente verdadeiro. E visto que pensamos estar em paz, passamos a
prestar atenção em outras coisas, tornando-nos ainda mais cegos para
a guerra que é travada em nosso coração, em cada situação e
relacionamento deste lado da eternidade.
Deixe-me dar um exemplo pessoal. Sou uma pessoa orientada
pela agenda, um tipo planejador. Eu sempre sei o que eu quero fazer a
cada dia, e, instintivamente, estimo o tempo que cada tarefa vai
tomar. Eu gosto de pensar antes e fazer um planejamento, tentando
resolver quaisquer problemas potenciais que possam aparecer. Eu
tendo a pensar que o meu jeito de viver é o jeito responsável de se
viver. Eu sou casado com alguém muito mais propensa a viver o
momento. Luella é impressionantemente sensível para aquilo que está
acontecendo ao redor dela e bastante disposta a ser flexível. Ela não
fica nem um pouco incomodada com mudanças em seus planos ou
agenda. Luella, na verdade, pensa que a vida é mais importante que
os planos que nós fazemos no meio dela.
No começo do nosso casamento expressei um monte de ira pela
aparente incapacidade dela de seguir o plano (o meu, é claro!). Disse
e fiz coisas grosseiras, e Luella se tornou bastante franca para
confrontar o meu comportamento. Eu comecei a confessar a minha ira
e o meu pecado começou a enfraquecer. Isso foi uma coisa boa, mas o
problema foi que eu vi aquela vitória como o final da guerra, quando
na verdade era apenas o começo. Eu havia confessado o meu
comportamento iracundo, mas não o meu coração, que realmente era
quem estava por trás de tudo. Por causa disso, continuei a perder a
batalha. Eu não explodia mais em ira, mas ficava constantemente
irritado e me tornei bastante competente em encontrar maneiras de
manipular Luella para que ela servisse à minha agenda e calendário.
Ao declarar paz muito cedo, eu estava cegando a mim mesmo para a
batalha contínua e a tentação, de forma que estava falhando quase que
diariamente.
Nós não podemos nos permitir confundir vitórias parciais nas
batalhas da santificação com a cessação final do conflito que
acontecerá quando Cristo voltar. O pecado e a justiça, a carne o
Espírito, estão em guerra. Não há paz, somente batalhas vencidas e
batalhas perdidas. A paz já foi comprada. Está garantida. Ela virá.
Mas até lá, a guerra das guerras nunca cessa. As ilusões de vitória
e o sentimento de paz que se segue, preparam o terreno para o choque
e o desapontamento do remorso da meia-idade. Tristemente, nós
ainda temos de admitir que estamos sendo bombardeados por um
inimigo – o pecado – que nós antes críamos que já estava há muito
tempo derrotado.
Esse é o motivo pelo qual Paulo encerra a sua carta aos Efésios
(6.10-24) da forma que faz. O sumário de todas as coisas que ele
disse sobre o corpo de Cristo: comunicação, perdão, casamento,
paternidade e o cristão no mercado de trabalho e no mundo é um
chamado para nos armarmos para a guerra. Paulo nos relembra de que
o que faz cada uma dessas dimensões da vida difícil é que cada uma é
um campo de batalha espiritual. Cada uma é uma localização onde a
grande guerra entre o Espírito e a natureza pecaminosa acontece. A
nossa luta não é contra carne e sangue. Pessoas e situações não são o
nosso problema. O nosso problema é que todos os nossos
relacionamentos e situações acontecem no meio da guerra. A vida
cristã é servir em uma divisão armada no meio de uma guerra em
curso. Quando esquecemos isso, declaramos vitória e paz cedo
demais e deixamos o terreno pronto para o despertar rude do remorso
na meia-idade.
3. Nós alimentamos a besta e ficamos surpresos de que
tenhamos sido mordidos. Uma vez eu vi uma notícia na televisão de
que a maioria dos trabalhadores de zoológico são mordidos enquanto
estão alimentando os animais selvagens sob seu cuidado. Isso faz
todo sentido. O momento de comer é aquele em que o animal está
mais voraz e o cuidador está mais próximo. Recentemente em Las
Vegas, um famoso artista que faz performance com animais foi c
ruelmente ferido. Aconteceu porque ele estava sozinho no palco com
um tigre de quase trezentos quilos, e relutante em obedecer. Em um
ato espontâneo de autoridade, o treinador bateu com seu microfone na
cabeça do felino. Em ira, o tigre se arremessou contra o treinador,
apertou suas mandíbulas contra o pescoço e o arrastou para fora do
palco, enquanto a plateia ficou paralisada de terror. O treinador estava
relaxado demais e em uma proximidade muito perigosa da besta. Se
não estivesse, não teria ficado no hospital, lutando por sua vida.
A Bíblia apresenta o mal como um leão rosnando, procurando
devorar (1Pedro 5.8). Talvez, como os cuidadores de zoológico, na
maioria das vezes, nós sejamos mordidos enquanto estamos
alimentando a besta. Colocamos a nós mesmos em problemas quando
a alimentamos com pequenos pedaços do nosso coração e vida. Não,
nós não desejamos ser engolidos completamente, mas tendemos a ser
inocentes a respeito dos perigos nos quais estamos nos colocando.
Deixe-me dar um exemplo. Brent era comprometido em ser um
marido puro e fiel, mas não percebeu que estava alimentando a besta
no trabalho. Os primeiros pedaços que ofereceu não pareciam
perigosos. Foi somente um almoço na cafeteria da empresa, e ele
disse a si mesmo que ela era a única pessoa sentada sozinha. Teria
sido rude não se assentar ali. A conversa foi boa e, assim, três dias
depois, Brent se sentou com ela novamente. Ele não estava
conscientemente atraído por ela, e pensava que a infidelidade ainda
era uma coisa repugnante para ele, mas ele estava se movendo para
perto do leão com pedaços deliciosos em suas mãos.
Brent e sua companheira de trabalho foram enviados para o outro
lado da cidade em um compromisso de trabalho não muitas semanas
depois. Eles decidiram jantar juntos porque ficaram ocupados demais
com o trabalho naquele dia. No caminho parra casa ele ficou
pensando em como havia gostado daquele bate papo durante o jantar.
Foi nesse momento que Brent entendeu o que estava acontecendo.
Não, tecnicamente ele não havia cometido adultério, mas ele estava
diariamente se movendo para mais perto da besta, e, se continuasse,
ele certamente seria atacado.
Todos nós somos propensos a ser muito inocentes quando estamos
na presença poderosa, atraente e perigosa do pecado. Todos nós, de
maneiras individuais, alimentamos a besta todos os dias. Nós
abrigamos amargor e inveja. Permitimos um breve pensamento ou
olhar cobiçoso. Permitimos momentos de ira contra os nossos filhos
ou esposa. Permitimos nos sentir confortáveis com nosso
materialismo e ganância. Não, nós não estamos cometendo pecados
“grandes”, mas estamos semeando sutis e aceitáveis sementes de
pecado, as quais um dia se transformarão em uma colheita de
remorso. Os remorsos que enfrentamos na meia-idade são o
resultado de termos sido muito casuais na batalha contra o pecado.
Se o mal é um leão ávido por comida, então, diariamente,
deveríamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para manter uma
distância segura.
4. Colocamos curativos na ferida sem curar a doença. Se
tivesse ferimentos em seu corpo que continuassem a aparecer, você
não ficaria satisfeito em colocar remédio e curativo nelas. Você
saberia que provavelmente há algum tipo de infecção ou doença em
seu sistema que está causando as feridas. As feridas não são o
problema real; se você tratar a doença as feridas vão embora.
Assim acontece com a nossa luta contra o pecado. É muito
tentador pensar que fazer um curativo nas feridas vai aliviar a doença.
Talvez você, como pai, tem lutado com o disciplinar os seus filhos
em ira. Você sabe que isso é errado e sempre sente remorso depois.
Você não somente confessou consistentemente a sua culpa a seus
filhos, mas até delegou situações de disciplina à sua esposa, de forma
que a sua ira não tenha oportunidades de se expressar. Todas essas
coisas são boas, mas elas não podem ser confundidas com o chegar à
causa da sua ira e, portanto, produzir a mudança definitiva. Você tem
involuntariamente enfaixado a ferida sem tratar a doença.
Ouça as palavras de Cristo aos fariseus em Mateus 23.25-26:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do
prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego,
limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!

Cristo está, basicamente, dizendo, “Vocês entenderam tudo


errado! O que vocês estão tentando fazer não vai funcionar nunca.
Vocês tentam substituir comportamento ruim por comportamento
bom (o lado de fora do copo), mas isso nunca vai funcionar, porque o
coração (o lado de dentro do copo) não foi alvo de cuidado. Somente
quando o coração mudar é que as mudanças duradouras no
comportamento também terão lugar”. O pai iracundo precisa entender
que as atitudes, desejos e pensamentos do seu coração são o sistema
causal por trás de sua luta regular com a ira. Talvez ele esteja amargo
com seus filhos pela maneira como eles complicaram a sua vida e
tomaram conta do seu tempo. Talvez ele esteja irado pela forma como
eles consistentemente interrompem o relaxamento noturno que ele
anseia. Talvez a sua ira esteja enraizada em problemas com sua
esposa, e ele se irrite porque ela deixa o peso da disciplina sobre ele.
As possibilidades são uma miríade. O ponto é que, se ele espera
derrotar a ira ao substituí-la por uma disciplina paciente e gentil, ele
deve ver e se arrepender das questões do coração que são a verdadeira
causa da luta.
Todos nós tendemos a ficar satisfeitos com a abordagem dos
fariseus. Nós seguramos a nossa língua. Andamos para longe da
situação. Evitamos uma situação complicada. Fazemos mudanças nos
relacionamentos, situações, agenda e locais. Tudo isso nos engana ao
fazer-nos acreditar que lidamos com a “doença” quando, na verdade,
o que fizemos foi aliviar os sintomas. Pensamos que uma mudança
duradoura aconteceu, mas o sistema causal do coração não foi alvo de
cuidado. Se a nossa batalha contra o pecado pudesse ser resolvida
com técnicas ou estratégias comportamentais, mudanças na situação,
no local, nos relacionamentos ou agenda, Jesus não precisaria ter
vindo à terra para sofrer e morrer. A promessa de ouro da obra da
nova aliança de Jesus Cristo é um novo coração! Não há outra forma.
Não existe outra esperança para uma humanidade caída e cheia de
pecados. Cristo não veio para colocar um curativo nos sintomas, mas
para curar as nossas doenças.
Novamente, o que isso tem a ver com o remorso da meia-idade?
Nosso externalismo (lidar com os sintomas do pecado) nos engana,
fazendo-nos pensar que temos lidado com muito mais do que nós
realmente lidamos. Por causa disso, quando entramos no período de
avaliação chamado meia-idade, somos pegos despreparados.
Começamos a ver que os padrões que pensávamos ter resolvido, na
verdade, continuaram presentes. Entendemos que aquilo que
pensávamos ter conquistado continuou a nos atrapalhar e derrotar ao
longo dos anos. Realmente se torna um tempo quando clamamos
junto com Paulo, “Desventurado homem que sou”!
Considere quatro coisas que nós vimos aqui e seu impacto no
remorso da meia-idade. Se é verdade que tendemos a bancar o
vigarista conosco, afastando o nosso pecado por meio de explicações,
se declaramos vitória cedo demais em nossa guerra contra o pecado,
se temos alimentado a própria besta da qual tentamos escapar e se
lidamos com os sintomas do pecado enquanto deixamos as suas
causas sem mexer, não é de se espantar que fiquemos surpresos,
chocados e entristecidos pelo nosso próprio legado. Quando a nossa
colheita vem, dói ter de admitir que ela é realmente nossa. É um
momento muito importante. Pois agora você vê, provavelmente com
uma clareza muito maior do que quando estava andando ao longo do
caminho. Por causa disso, esse é um momento repleto tanto de
perigos quanto de potencial. Esse Pmomento de honestidade e
verdade pessoal pode ser massacrante e paralisante, ou pode ser o
começo de uma memorável nova fase de insight redentivo, mudança e
celebração pessoal.

Estratégias Bíblicas Para Lidar com o Remorso


Jason se derramou na cadeira do meu escritório com sua cabeça nas
mãos. Ele parecia um homem completamente derrotado. Sem levantar
a cabeça, Jason começou a falar, a princípio calmamente. “Não é
dessa forma que eu pensava que as coisas seriam. Eu pensava que o
meu trabalho era fazer o melhor que eu podia para suprir a minha
família. Eu sei que eu estava sempre ocupado, e sei que fiquei muito
tempo fora de casa, mas eu pensava que todos eles entendiam que o
que eu estava fazendo era por eles. Eu pensava que Jeanie sabia que
eu a amava e faria qualquer coisa para lhe dar conforto. Agora, meus
filhos cresceram e se foram e estamos somente Jeanie e eu. Eu não
tenho muito relacionamento com os meus filhos. Eles não me odeiam,
mas existe uma distância no relacionamento que é bastante dolorosa.
Não houve muitas noites que eu estivesse ali para ler para eles e
colocá-los na cama. Somente ocasionalmente eu estava presente para
o culto doméstico. Eu estive presente em alguns dos seus recitais e
jogos, mas houve muitos que eu perdi. Em grande parte do tempo em
que eu estava presente eu estava exausto, irritado ou preocupado.
Certamente, tínhamos uma casa muito grande e tivemos as férias
mais maravilhosas, mas houve tantas coisas nas quais eu falhei. Eu
deixei o meu trabalho ficar entre nós. Eu deixei que ele definisse a
minha agenda. Jeanie e eu realmente amamos um ao outro. Mas há
uma distância entre nós para a qual simplesmente parece não haver
uma ponte. Parece como se nós nem mesmos conhecêssemos um ao
outro. Quando saímos, conversamos sobre o que fizemos naquele dia
e depois sentamos em silêncio. Eu poderia me esconder disso
trabalhando mais, mais isso também já não me empolga como
antigamente.
E há também o meu relacionamento com o Senhor. Eu fui sempre
fiel em frequência na igreja e nos dízimos e ofertas, mas por anos
meu relacionamento pessoal com Deus tem realmente estado em fogo
brando. Eu tive uma vida devocional desorganizada e não fiz quase
nada do que se poderia chamar de ministério. Eu sento na igreja e
sigo todos os rituais. Eu canto palavras que sei serem verdadeiras,
mas elas não me tocam, eu ouço aquilo que sei serem bons sermões,
mas eles não parecem me engajar ou motivar. Eu oro, mas são
orações frias, superficiais, de um homem que sabe que tem de orar
mais do que de alguém que ama orar.
Então, aqui estou. Esse é o meu legado de trinta anos. Eu tenho
pouco a mostrar depois de todo o meu trabalho duro, casa grande e
carros legais. Há tanto que eu gostaria de refazer, mas eu não posso.
Paul, eu não tenho certeza do porque eu estou dizendo essas coisas
para você. Jeanie tem estado preocupada comigo e sugeriu que eu
viesse conversar com você. Eu acho que eu só quero tirar essas coisas
do meu peito”.
A sua história pode ser diferente da de Jason, mas se você está
vivo e bem e em sua meia-idade, você está experimentando algum
grau de remorso. Você pode lamentar algumas escolhas profissionais.
Pode estar carregando um peso de culpa paternal. Pode relutar sobre
coisas que você fez, ou falhou em fazer, no seu casamento. Talvez
você tenha remorso de não ter sido mais sério em teu relacionamento
com Deus. Talvez você veja e reveja oportunidades de ministério
perdidas. Se você é um pecador vivendo em um mundo caído, é
impossível olhar para trás e encontrar um legado de escolhas
perfeitas.
Você e eu teremos razões para nos arrepender até o dia em que
estivermos finalmente em casa, com o Senhor. Pense nisto: nenhuma
razão mais para querer dispensar um pensamento, desdizer uma
palavra ou desfazer uma escolha. Nós estaremos não somente
gozando de uma paz impressionante com o Senhor, mas nós também
estaremos em completa paz com todas as nossas escolhas e
comportamento. Teremos passado para uma eternidade sem remorsos.
Não mais haverá fraquezas, imaturidade e falhas. Portanto, no meio
de seu remorso, viva com um olho na eternidade sem remorso que
está para vir.
É vital que nos armemos com as estratégias bíblicas para lidar
com o remorso. Lembre-se, você não está próximo da morte. Você
está no meio da sua vida. Ainda há muito diante de você. Você pode
participar de uma verdadeira mudança em sua história. Como filho de
Deus, você tem motivos para dar um salto adiante em fé, esperança e
coragem, abraçando a nova vida que esteve sempre disponível para
você por causa da pessoa e obra de nosso Senhor Jesus Cristo.
As seguintes estratégias proverão uma forma de transformar o
remorso em uma nova colheita de coisas boas em sua vida e na vida
de outros.
1. Aproveite a liberdade da confissão. O que é confissão? É a
liberdade de falar sobre você mesmo aquilo que você e Deus sabem
que é verdade, sem medo de rejeição, condenação ou punição. A
confissão é mais do que uma obrigação; é uma das liberdades
maravilhosas de nossa nova vida em Cristo. Pense sobre isso
enquanto está fazendo o trabalho arqueológico da meia-idade e
descobrindo os cacos de falhas passadas. Visto que Cristo viveu de
forma perfeita, morreu de forma suficiente e ressuscitou
vitoriosamente, você e eu podemos sair do esconderijo. Somos livres
para assumir, sem medo, os pensamentos e motivações mais escuros,
as palavras mais feias, nossas escolhas mais egoístas, e nossas
rebeliões e atitudes sem amor. Somos libertos do cativeiro da culpa e
da vergonha. Somos libertos de ficar nos escondendo por trás de
acusação, transferência de culpa, recriminação e racionalização.
A confissão é poderosa e eficaz. Ela transforma a culpa em
liberdade. Ela torna escravidão em liberdade. Ela transforma remorso
em esperança. Tira você de seu lamento por causa da colheita para te
levar a plantar novas sementes de fé, arrependimento e esperança.
Note, você não está preso em uma armadilha! Não está tudo perdido!
O teu Senhor, o grande criador e salvador é o Deus que nunca muda,
mas ao mesmo tempo, ele é o Deus que promete e promove uma
profunda mudança pessoal. As mudanças que ele faz em nós são tão
estruturais que a melhor expressão bíblica para as descrever é “nova
criação”. O plano de Deus é nos transformar tão fundamentalmente
que é como se não fôssemos mais nós mesmos; algo totalmente novo
foi criado!
Confissão não é somente assumir responsabilidade diante de Deus
e das pessoas apropriadas (aqueles a quem o meu pecado e falha
afetou), mas é recusar ficar estagnado em remorsos, e recusar desistir
da esperança. É crer que não somente Deus me perdoa, mas ele
prometeu me transformar. E, à medida que ele me transforma, vou
plantar sementes de plantas diferentes em minhas circunstâncias e
relacionamentos, que vão crescer e produzir uma nova plantação de
bons frutos.
Há alguns anos nós tínhamos um jardim feio e inútil na parte de
trás de nossa casa. Ele tinha um muro de tijolos de quatro metros e
meio, de forma que era bastante privativo – mas era todo ervas
daninhas e barro. Cada vez que eu olhava no jardim ficava
desencorajado e sobrecarregado. Nós nunca levávamos as visitas no
quintal, na verdade, ficávamos envergonhados quando alguém
olhava. Um dia eu estava vendo uma revista e vi um pequeno jardim
como o nosso que havia sido reapossado. Ele havia sido transformado
em um pequeno jardim maravilhoso, um espaço de descanso. Na
próxima vez em que olhei para o nosso quintal de trás, olhei para o
nosso pequeno jardim com esperança. Eu o vi com novos olhos.
Confessando a minha falta de esperança e preguiça para a minha
esposa, comecei a trabalhar. A mudança demorou muitas estações,
mas quando mudamos daquela casa, deixamos para trás um jardim
diferente. As ervas daninhas deram lugar a um lindo gramado, o muro
feio de trás agora era o pano de fundo de arbustos ornamentais. A
lama deu lugar a um pátio de paralelepípedos ingleses. Esse lugar de
vergonha se tornou o nosso canto favorito.
À medida que você olha a lama e ervas daninhas do seu passado,
pense na promessa doce de esperança que é encontrada em 1 João
1.8-9.
Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a
verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.

Perceba que quando você vem a Deus com uma confissão


humilde e honesta, ele não somente promete perdoar você, mas,
transformá-lo também. É isso que ele quer dizer quando diz: “nos
purificar de toda injustiça”. Quando você confessa, você muda, e as
pessoas e situações à sua volta são afetadas, porque você está fazendo
e dizendo coisas diferentes.
Agora, com essa promessa em seu coração, vá para o quintal de
sua vida atual e olhe com esperança para o jardim de seu passado.
Force a si mesmo a ver um novo gramado, com arbustos e flores
lindas e um belo pátio de pedras especiais. As mudanças que você
deseja para o seu jardim são possíveis, então comece abraçando a
liberdade da confissão. Você não é livre somente para tomar posse de
suas próprias falhas de forma honesta e sem temor, mas você é livre
para abraçar a esperança da mudança. Tudo isso é seu porque Deus
sabia que você seria um pecador, e assim, ele enviou o Filho dele para
viver como você não viveria, pagar a dívida que você não poderia
pagar e dar a esperança que, de outra forma, você não teria.
2. Abrace o perdão de Deus. Em um mundo caído, nós não
esperamos realmente muito perdão. Uma rebelião política da
juventude é detalhada em cada grande jornal mesmo décadas depois
do ocorrido. A mulher casada ainda fala sobre a frieza e
insensibilidade do seu pai anos e anos depois que saiu de casa. A
escolha estúpida feita no começo da carreira de alguém é ressuscitada
em um novo processo de seleção. As escolhas financeiras infelizes
complicam o nosso crédito por anos. Sua sogra continua a te tratar
como a pessoa arrogante e impulsiva que você era na sua juventude.
Em um mundo caído, o seu histórico tende a acompanhar você e é
esfregado na sua cara repetidas vezes. Em um mundo caído parece
muito difícil superar o nosso passado.
Esse é o motivo pelo qual a promessa de Deus cheia e repleta de
perdão é tão incomum e maravilhosa. Deus, que vê e conhece tudo a
meu respeito, até mesmo os pensamentos e desejos mais secretos,
prometeu e comprou para mim um cobertor de perdão tão completo
que é impossível entender. A Bíblia diz que o compromisso de Deus
em nos perdoar e aceitar é tão profundo que ele propositadamente
esquece aquilo que fizemos. Isso não significa que ele seja fraco e
esquecido, mas que ele escolhe não pensar em nós à luz dos erros de
coração e comportamento que cometemos. O perdão significa que
Deus escolhe não se lembrar das partes mais escuras, vergonhosas e
lamentáveis da minha e da sua biografia. E se Deus não olha para
essas coisas, eu sou livre para não olhar para elas e seguir adiante
também.
Ouça a Davi, que experimentou esse perdão frente a um grande
lamento: “Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a
sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do
Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” (Salmo
103.11-12). Ou, ouça o Senhor falar sobre a sua nova aliança pela
boca de Jeremias 31.33-34:
Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel,
depois daqueles dias, diz o Senhor:
Na mente, lhes imprimirei as minhas leis,
também no coração lhas inscreverei;
eu serei o seu Deus,
e eles serão o meu povo.
Não ensinará jamais cada um ao seu próximo,
nem cada um ao seu irmão, dizendo:
Conhece ao Senhor,
porque todos me conhecerão,
desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor.
Pois perdoarei as suas iniquidades
e dos seus pecados jamais me lembrarei.

Pense sobre isso. Deus, cuja memória é exaustiva e completa,


escolhe remover os nossos pecados de sua memória. Ainda que sejam
uma afronta à sua autoridade, um desvalorizar de sua sabedoria e uma
rejeição do seu amor, ele é tão grande em misericórdia e graça que
está disposto a apagá-los de sua memória! E porque Deus faz isso, ele
nos livra das cadeias do remorso. Não precisamos viver paralisados
pelo remorso. Não precisamos viver olhando para trás. Somos livres
para ir adiante.
Note, a promessa de Deus de perdão é as boas-vindas à nova vida.
É um convite para deixar os remorsos para trás, começar a levantar e
viver novamente. É uma oportunidade dada por Deus para fazer
coisas novas e melhores. A graça de Deus nos dá novos momentos
para plantar novas sementes que vão levar a uma colheita de coisas
boas. Por causa da promessa de perdão de Deus, você pode olhar a
sua falha na cara e não ficar sobrecarregado ou paralisado. Ele
levanta o seu fardo de culpa e remorso e dá boas-vindas a você para
plantar e colher novamente.
3. Abrace a soberania de Deus. Uma das coisas mais doces que
a Bíblia nos relembra a todo instante é que, ao contrário das
aparências, a nossa vida não estão fora de controle. Não, elas estão
debaixo do cuidado atencioso, sábio, amoroso e poderoso do Senhor.
Ele é realmente soberano. É praticamente impossível para nós olhar
ao redor e vê-lo em ação, mas não há situação, relacionamento ou
circunstância que não seja controlada pelo Pai nosso que está nos
céus. A história de nossa vida tem sido cuidadosamente administrada
por ele. Ele está sempre no comando. Ele sempre sabe o que está
fazendo e porque está fazendo.
Note, no entanto, que o controle absoluto dele é exercido de forma
a não nos transformar nunca em robôs. Ele concretiza a soberania
dele por meio das escolhas que eu e você fazemos e das ações que
tomamos. Sua soberania não invade as nossas escolhas e nossas
escolhas não removem a sua soberania. Na operação do universo, a
questão da soberania de Deus e de nossa responsabilidade nunca é
uma questão de ou isso ou aquilo, mas de isso e também aquilo.
Assim, eu sou chamado para crer, escolher, seguir, adorar, amar e
obedecer, enquanto ao mesmo tempo, confio eu e minha vida aos
cuidados soberanos de Deus. Eu vivo sabendo que sou responsável
pelas escolhas que faço, enquanto ao mesmo tempo sei que Deus
controla os detalhes de minha vida para o meu bem e para a glória
dele.
Esse balanço é importante durante os momentos difíceis da meia-
idade. É correto que você olhe para trás e examine as suas escolhas. É
correto confessar as coisas que deram errado e que eram sua
responsabilidade. Mas você nunca deve fazer isso de forma a
esquecer o governo sempre sábio e bom do Senhor. Deixe-me
apresentar alguns exemplos.
Jim fica muito bravo com o fato de que, sendo o pai de quatro
filhos, nunca tenha recebido boa instrução sobre como ser pai até que
seus filhos fossem adolescentes. Mary conheceu a Cristo com trinta e
cinco anos e luta com o legado de sua vida adulta. Jamal se casou
muito cedo e agora olha para trás e conclui que ainda não estava
pronto. George afirma que conseguiu muito dinheiro antes de ser
maduro o suficiente para conseguir administrá-lo. Maria deseja que
Deus tivesse ensinado mais a ela antes que tivesse tomado uma série
de decisões em sua juventude. Frank e Doris queriam saber nos
primeiros vinte anos de seu casamento aquilo que sabem agora.
Cada uma dessas pessoas luta com um aspecto particularmente
importante da soberania de Deus: o seu tempo. Visto que Deus é a
definição da verdadeira sabedoria e o autor da ordem, seu tempo é
sempre certo. Ele nunca deixa que as coisas saiam do controle. Ele é
sempre capaz de decidir “o que é melhor” e “quando é melhor”. Ele
sempre sabe quando agir, quando falar, quando esperar e quando sair.
Ele sempre responde os nossos pedidos por ajuda no momento certo.
Ainda assim, nos anos da meia-idade, é quase impossível olhar
para trás e não revisitar a questão do tempo de Deus. Você encontra
um bom livro sobre paternidade e pensa: “Eu queria ter isso quinze
atrás”. Ou ouve uma boa série de mensagens sobre casamento e
pensa: “Onde estava o meu pastor no começo do meu casamento?” À
medida que você olha para trás, é importante abraçar a liberdade e
conforto que a soberania de Deus te dá. Você pode assumir
responsabilidade pelo que fez, enquanto, ao mesmo tempo, pode
descansar no tempo de Deus. Ele deu olhos para que você visse
somente naquele momento correto. Ele ensinou a você verdades
importantes na hora certa. Ele te deu aquele amigo cristão maduro no
momento certo. Ele trouxe você a uma nova igreja na hora correta.
Ele deu a você sabedoria por meio de seu momento pessoal de
adoração precisamente na hora exata. Ele conhece você. Ele sabe o
que você pode aguentar e o que está acontecendo à sua volta, e seu
governo em nossa vida é sempre exercido na hora certa. Assim, olhe
para trás, com honestidade e humildade, mas não esqueça de que tudo
aconteceu debaixo do controle de Deus. Ele é sempre sábio, amoroso,
bom, justo e pontual!
4. Esclareça a sua identidade. Os seres humanos estão sempre
medindo o seu potencial. A criança em torno de um ano para em pé,
balançando no meio da sala, pensando se vai conseguir dar os passos
necessários para alcançar o joelho da mãe. Aquele que está na pré-
escola analisa nervosamente as demais crianças da sala e pensa se vai
conseguir dar conta. O adolescente, em direção ao primeiro emprego,
mede seu potencial para o sucesso em sua mente. O calouro varia de
ansiedade ao terror, imaginando se vai ter sucesso ou se vai falhar. À
medida que você analisa os pecados, vitórias e falhas do passado,
você imagina se seria capaz de fazer tudo de forma diferente. Você
está na armadilha do seu passado? As coisas agora são aquilo que
sempre serão?
Eu estou persuadido de que a sua avaliação do seu próprio
potencial é sempre baseada em seu senso de identidade. Questões
ligadas a “você consegue” estão sempre atreladas a respostas para
“quem você pensa que é”. Quanto mais vivemos, mais tendemos a
nos prender a identidades baseadas em pecado e problemas. Aquelas
coisas que nos cegavam já não têm mais esse poder e nós não estamos
mais iludidos. Nós vimos a nossa colheita. É tentador deixar essas
coisas definirem quem somos. Talvez más escolhas que levaram a um
divórcio. O divórcio é uma experiência humana muito difícil, mas
não é uma identidade. Ou, talvez, você se tornou uma mãe solteira.
Novamente, isso é uma experiência humana muito importante, mas
não é uma identidade. Se eu tomar essas experiências sobre mim
como se fossem identidades, elas definirão como eu avalio o meu
potencial.
O apóstolo Paulo, que era muito consciente de suas próprias lutas
contra o pecado (lembre-se de Romanos 7), oferece-nos palavras
muitos úteis aqui:
Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em
mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me
amou e a si mesmo se entregou por mim. (Gálatas 2.20)

A identidade de Paulo não é baseada em pecados ou problemas,


mas na graça. Essencialmente, ele está dizendo: “Esse é quem eu sou:
um Filho de Deus. Isso significa que quando Cristo morreu, eu morri;
e quando Cristo ressuscitou, eu ressuscitei para uma nova vida. Não
somente isso, mas o Cristo vivo habita dentro de mim. E porque isso
é verdadeiro, continuo falando a mim mesmo que não sou eu vivendo
sozinho por mim mesmo, mas Cristo vive em mim. Assim, meu
potencial é tão grande quanto a sua graça e poder”.
Enquanto faz o trabalho arqueológico da meia-idade, lembre-se de
quem você realmente é em Cristo. Não permita que um senso não
bíblico de identidade roube você da esperança de seu potencial.
Lembre-se de que não somente você foi perdoado, mas também de
que o Cristo ressurreto realmente vive dentro de você! As coisas
podem ser diferentes! Ao olhar para frente, para os anos porvir,
lembre-se de que Cristo é a sua identidade e apresente-se com fé e
coragem.
5. Plante visando uma nova colheita. O grande conforto para
fazendeiros e jardineiros em todos os lugares é que a colheita de hoje
será seguida por outra estação de semeadura e colheita. Até
morrermos, nenhuma colheita é a colheita final. Nosso Deus é o autor
das novas estações. E ele quem dá novas sementes, novas raízes e
novos frutos. Ele faz com que frutos e flores cresçam onde ervas
daninhas e espinhos ocupavam o espaço. Ele é o Deus na nova
colheita.
Na meia-idade, Deus chama você para sair do lamento pela
colheita anterior para plantar novas sementes. Talvez você lamente a
respeito da colheita de sua paternidade. Plante novas sementes.
Talvez isso signifique trabalhar para restaurar relacionamentos
distantes ou quebrados com seus filhos adultos. Ou pode significar ser
um avô sábio e bondoso, lançar sementes espirituais nas almas das
próximas gerações. Talvez você lamente que sua vida tenha sido
controlada por sua carreira. Usufrua a vantagem do tempo e liberdade
econômica que a meia-idade dá e plante sementes novas. Trabalhe
menos e invista mais na família e em ministérios. Talvez você
lamente o fato de que não tenha estudado as Escrituras de forma mais
diligente em sua juventude. Há muitas oportunidades para aumentar o
seu conhecimento da Palavra de Deus e seu potencial para o serviço
cristão (estudos na internet, estudos bíblicos de meio de semana,
escola dominical, etc.). Talvez você lamente o fato de que tenha
vivido uma vida egoísta, na qual tudo o que você ganhou foi gasto
construindo uma vida mais confortável para você mesmo.
Comprometa-se em encontrar formas específicas por meio das quais
dar e servir. Pergunte-se: qual dos meus dons, experiências, recursos
e sabedoria eu posso usar para servir outros?
À medida que você examina a sua colheita, viva com uma
mentalidade de “novas estações”. O capítulo final ainda não foi
escrito. Você tem muitos anos produtivos atrás de você, mas você
agora tem a sabedoria da idade e da experiência. Você agora pode
ficar menos ocupado com responsabilidades econômicas e familiares.
Use a vantagem da nova estação que Deus lhe deu, levante-se e plante
novas sementes.
6. Celebre a eternidade. Paulo faz uma observação fundamental
em 1Coríntios 15.19. Ele diz: “Se a nossa esperança em Cristo se
limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os
homens”. Note, essa vida para a qual Deus nos chamou não faz
nenhum sentido sem a eternidade anexa a ela. É somente a esperança
e promessa de uma ressurreição e de uma eternidade que nos habilita
a continuar a viver nesse mundo caído. Nada em nós ou ao nosso
redor funciona da maneira que foi projetado para funcionar. As coisas
normalmente tomam um lugar que nunca foi o plano original da
criação de Deus. O pecado ainda bagunça os nossos desejos e distorce
nossos pensamentos. Ele ainda pinga, como uma tinta preta horrível e
mancha cada situação e relacionamento de nossa vida diária. Você
certamente é mais sábio do que já foi, mas não consegue escapar do
seu pecado. O fato de você ser um soldado melhor treinado e
equipado não significa que a batalha maior com o pecado já esteja
ganha.
Então, é isso que você deve fazer. Aceite o fato de que é um
pecador vivendo em um mundo caído, lembre-se de que Cristo
realmente vive dentro de você e mantenha os seus olhos na
eternidade. Comece a celebração mais cedo. Deixe que a ânsia pela
eternidade tome conta de você, como uma criança que está a três
minutos do Disney World. Fique tocando para frente e para trás o
vídeo da eternidade em sua cabeça. O dia realmente está chegando
quando nós não somente seremos resgatados desse terrível mundo
quebrado, mas seremos finalmente e para sempre resgatados de nós
mesmos. Nós vamos realmente escapar do pecado que habita dentro
de nós. Seremos seres perfeitos, santos e completamente sem nenhum
pecado.
No lugar final, não haverá remorso da meia-idade. Não haverá
coisas que foram malfeitas ou deixadas por fazer que sejam motivos
de atritos. Não haverá palavras para serem desditas. Não haverá
momentos difíceis de confissão, arrependimento e reconciliação. Não
haverá investimentos mal feitos e decisões impulsivas para se
arrepender. O mundo finalmente vai operar da forma que foi
projetado para funcionar. E nós vamos pensar, agir e falar da forma
correta o tempo todo.
Esteja você consciente disso ou não, cada momento de remorso é
um anseio pela eternidade. Cada instância de remorso é um clamor
por um lugar melhor. Cada vez que você se sente culpado e
envergonhado, seu coração almeja um dia quando a culpa e a
vergonha serão tiradas de cena. Que nosso anseio pela eternidade
cresça. Que nossa celebração comece. Viva com seus olhos na
eternidade. É a única forma de entender o que está acontecendo
agora. Seu lugar está sendo preparado exatamente agora. Tenha
esperança!

FICANDO DE PÉ SOBRE A PILHA DE SUAS PRÓPRIAS FOLHAS.


Agora você está no outono da vida. E você está totalmente consciente
de que as folhas estão fora das árvores. Você está na pilha de folhas
do seu casamento, paternidade, família, amizades, trabalho e
ministério cristão. Essas folhas do seu passado ficaram enrugadas e
secas e você sabe que não pode colocá-las novamente na árvore. É
tentador sentar sobre a pilha e examinar cada folha para ver se está
segurando um broto novo, uma muda, mas você não está. A colheita
chegou e é o que é. Ainda assim, em tudo isso há esperança, porque o
nosso Senhor é Senhor das novas estações. Com a nova estação vem a
liberdade de plantar sementes novas e melhores. Com a nova estação
vem a expectativa de uma nova colheita com novos frutos.
Levante-se e afaste-se de sua pilha de folhas de ontem. Tome
novas sementes de um novo caminho em suas mãos, pressione-as no
solo de sua vida e agradeça a Deus pois você pode viver para ver uma
nova colheita.
CAPÍTULO 5

TORRES ATÉ O CÉU

As pessoas não se apaixonam por aquilo que está bem na frente delas. As pessoas
querem o sonho – aquilo que não podem ter. Quanto mais inatingível, mais
atraente. —XANDER

Sim, todo mundo morre para viver a vida de outra pessoa, mas eu vou viver a
minha vida se isso me matar.
—E.E. CUMMINGS

Nós todos somos sonhadores. Isso não acabou em Gênesis 11 com a


construção do Torre de Babel. Todos nós evocamos visões de nossa
própria conexão céu-terra pessoal, e todos nós estamos
comprometidos em fazer aquilo que sonhamos. Assim, levantamos
todos os dias, olhamos para a pilha tijolos que nos foi dada e com o
cimento e a colher de pedreiro de nosso tempo e energia, tentamos
construir a torre de nossos sonhos. Alguns de nossos sonhos são
irrealistas e irracionais. Alguns de nós sonham com coisas que estão
ao nosso alcance. Alguns de nós têm medo de sonhar, mas sonhamos
ainda assim. É inescapável. Há sempre alguma visão grandiosa que
possui o nosso coração. Há sempre algo que te motiva, que magnetiza
a tua energia e que dá a você razão para continuar. Admitamos,
somos um monte de pedreiros, trabalhando duro para construir a
nossa torre pessoal para o céu.
O sonho capturou Greg mais cedo na vida do que normalmente.
Ele sabia desde cedo o que queria fazer da vida. Greg amava
construções. Mesmo na pré-escola, estava sempre desenhando casas
ou construindo algum tipo de edifício a partir do material disponível
ao redor de sua casa. Ele era interessado em portas, janelas, varandas
e telhados. Ainda jovem, ele percebeu as diferenças entre a sua casa e
as outras do quarteirão. Ele amava livros de figura de prédios e a
seção de venda de casas do jornal. Na época em que estava no
colegial, Greg sabia que queria ser um arquiteto. Ele era o único
aluno em sua escola que assinava a revista Architectural Digest. Ele
fez a única matéria de desenho de projetos oferecida em sua escola.
Greg não via a hora de se graduar, de forma que pudesse ir para a
faculdade e perseguir aquela única coisa que o interessava. Viagens
para a cidade grande eram sempre seguidas de meses de sonhos. Greg
sonhava em conseguir o contrato para projetar um grande arranha-
céus ou ser entrevistado em uma revista nacional como um dos
arquitetos influentes de sua geração. A arquitetura era o esporte de
Greg, seu passatempo e sua música. Se eles fizessem pôsteres de
arquitetos, Greg teria um de Frank Lloyd Wright na cabeceira de sua
cama.
Os pais de Greg apoiavam bastante os seus interesses, ajudando-a
a encontrar aulas de verão em uma faculdade comunitária e um
emprego de office-boy em uma firma local de projetos. Ainda que
suas notas de matemática não fossem as melhores, Greg foi aceito em
uma universidade com uma escola de arquitetura bastante forte. Ele
não conseguia acreditar que podia de fato se concentrar naquela única
coisa que o interessava! Ele gemia durante os cursos preparatórios,
amava todos os cursos em sua área de especialização. Amava cada
aspecto daquilo que estava estudando: a arte, a engenharia, a física e
o desenho. Ele estava seguro de que estava no caminho certo de
concretizar o seu sonho.
Greg não se graduou com honras, mas foi razoavelmente bem.
Não vieram ofertas de grandes empresas nacionais ou internacionais.
No entanto, Greg não ficou desapontado. Ele disse a si mesmo que
teria de “cumprir seus deveres”, pois “a vez dele chegaria” e que mais
cedo ou mais tarde ele seria “descoberto”. Depois de 8 meses
enviando currículos por todo o país, Greg aceitou um trabalho em
uma empresa de arquitetura local. Ele ficou desapontado por estar em
uma empresa pequena, com trabalhos tão insignificantes, mas estava
convencido de que era somente uma questão de tempo até conseguir
algo melhor.
Greg se assentou em seu emprego e se tornou um empregado
muito respeitado e confiável. Ele conseguiu subir na empresa e depois
de alguns anos estava liderando o time de projetos. Greg ainda
vislumbrava o momento em que ganharia atenção nacional e faria
com que os “grandes” ligassem para ele. Contrato após contrato, ano
após ano e Greg tinha uma carreira de bastante sucesso. Ele e Megan
tiveram três meninos maravilhosos, uma igreja que amavam e uma
casa linda. Ainda assim, não estava tudo bem com Greg. Ele agora
estava com quarenta e dois anos e era sócio na firma em que começou
a trabalhar assim que saiu da faculdade. Todas as outras pessoas
pensavam que Greg tinha a vida dos sonhos, mas era cada vez mais
difícil paras ele acreditar no seu sonho. Já não parecia mais provável
que conseguiria fazer o projeto dos seus sonhos. Ele estava preso,
sem saída, projetando conjuntos de lojas e parques industriais.
Foi ficando cada vez mais claro para Megan que Greg não estava
bem. Ele estava frequentemente mal-humorado em casa, gastando
horas sozinho em seu escritório, olhando para a tela do computador,
perdendo momentos preciosos em família. Ele ficava facilmente
irritado e estava bastante impaciente. Ele ficava pensando no que teria
acontecido com o homem otimista com quem ela se casou. Quando
Greg não estava trabalhando ou resmungando em volta da casa,
parecia estar gastando dinheiro. Megan tentou não reagir de forma
forte demais ao Porsche, mas foi difícil para ela justificar isso,
considerando que em breve estaria na época das crianças irem para a
faculdade. O carro foi seguido por um sistema de som de $ 3.000 e
uma televisão de plasma de 50 polegadas.
Não é que Greg estivesse enfiando os pés pelas mãos, mas havia
sinais claros de lutas internas dentro dele. Ele parecia muito
preocupado com sua idade. Falava como se fosse um homem velho e
parecia estar obcecado com todas as coisas jovens. Ele se tornou mais
comprometido com fazer exercício do que nunca e, embora Megan a
princípio visse isso como uma coisa boa, logo ficou claro que Greg
estava tentando recuperar alguma coisa. As preocupações de Megan
se tornaram mais focadas em uma noite, quando Greg veio para casa
com mais ou menos quinhentos dólares de roupas novas. Isso era
incomum para ele. Ele foi sempre tão econômico. Naquela noite,
quando Megan estava se preparando para deitar, ele a chamou no
banheiro e perguntou se ela achava que ficaria estranho se ele
pintasse o cabelo. Ela quis perguntar para ele o que estava
acontecendo, mas decidiu que era melhor esperar uma hora mais
adequada.
Mais ou menos uma semana depois, Greg e Megan saíram para
jantar. Ele ficou quieto na maior parte da noite, então, Megan
mencionou o quão distante ele estava nos últimos tempos e perguntou
o que estava errado. “É o meu trabalho, Megan. Ele já não me
interessa nem motiva mais. Eu sei que deveria estar grato pelo fato de
ter um emprego, e que Deus usou esse emprego para nos dar uma
vida confortável. Mas as coisas estão de tal forma que eu quase odeio
o meu trabalho. Eu sento em reunião chata após reunião chata,
falando sobre projetar o próximo conjunto de lojas. Megan, eu estou
quase ficando louco. Não consigo me lembrar da última vez em que
eu tive prazer com o fato de ser um arquiteto. Eu não aguento mais,
eu vou sair. Eu estou preso bem no meio de minha própria carreira”.
Naquela noite, Greg introduziu a possibilidade de que ele poderia
simplesmente largar tudo. Ele havia lido sobre um advogado famoso
que havia vendido todo os seus bens e comprado um vinhedo. Greg
disse que esse ex-advogado estava mais feliz agora do que em anos
de profissão. Ele disse a Megan que havia encontrado uma pequena
fazenda de vegetais fora da cidade e disse: “Talvez, se eu comprasse
aquela fazenda, eu poderia conseguir a minha vida de volta”. Megan
foi amorosamente capaz de levar Greg a considerar que talvez o que
ele estivesse vivendo fosse a respeito de algo maior do que o seu
trabalho.

EM BOA COMPANHIA
Há milhares de Gregs e Megans que estão passando pela mesma
coisa. A situação é difícil de encarar e é fácil se meter em problemas
maiores. Nós não entendemos como é fácil para nós medirmos o que
temos no presente com aquilo que sonhamos. Não entendemos como
os nossos sonhos são influentes até chegarmos à meia-idade. De
repente, sentimo-nos enganados, decepcionados e presos. Aquilo que
nos satisfazia antes já não nos satisfaz mais. É como viver em uma
casa temporária. Você aceita as inadequações porque sabe que é
temporária, mas você responderia de maneira bem diferente se aquela
fosse a sua habitação por longo tempo.
Nós ficamos ok com aquilo que é temporário desde que seja
temporário, mas quando começamos a avaliar a nossa idade e a
distância entre nós e o nosso sonho, resta pouco à nossa volta que não
cause insatisfação. Começamos a sentir como se a vida tivesse
passado por nós, como se fôssemos mais velhos do que realmente
somos. Começamos a sentir que o nosso mundo é confinante e
claustrofóbico. Ao mesmo tempo, sentimo-nos incapazes de mudar
tudo e nos arrependemos de cada decisão de tomamos, a qual nos fez
chegar onde estamos. O mortuário dos nossos próprios sonhos não é
um lugar alegre de se estar.
Na meia-idade é fácil pensar que as coisas à sua volta estão te
deixando louco. Você se convence de que sua esposa ou marido
mudaram e, assim, você passa a se sentir diferente a respeito deles.
Ou você diz a si mesmo que qualquer um que vivesse com os seus
filhos seria tão irritado quando você é. Ou, você se convence de que o
seu pastor simplesmente já não é mais o comunicador que era. Seus
amigos parecem emperrados, e você não gosta mais de seu bairro, seu
carro, suas roupas ou seu jardim. Parece que as paredes estão se
fechando em você e às vezes parece que você não vai conseguir
respirar.
A verdade é que nada à sua volta mudou de forma tão dramática.
Você mudou, tenha você percebido ou não. A torre apara o céu que
você vem construindo há anos tombou aos seus pés. É difícil ver
através do pó grosso de seus sonhos despedaçados. Você está mais
longe do que nunca do seu céu autoconstruído e não há muita coisa na
terra que atraia ou motive você. Talvez fosse a torre da família
perfeita, a torre da carreira dos sonhos, a torre de um certo estilo de
vida ou a torre do sucesso ministerial. O ponto é que você tinha um
sonho que pensou que conseguiria realizar e ele escorreu por entre os
seus dedos.
Uma das razões pela qual a meia-idade é dura é que todos nós
somos sonhadores e construtores de torres. A meia-idade é uma
guerra entre os seus sonhos e a realidade e, frequentemente, pessoas,
famílias e igrejas são as vítimas. Ao lutar para manter os nossos
sonhos vivos, tendemos a fazer tudo errado.

A BELEZA DA IMAGINAÇÃO
Uma das coisas que nos separa do resto da criação é a nossa
capacidade de imaginar. Os seres humanos não operam por instinto
ou causalidade biológica. Nós temos a habilidade impressionante de
“ver” mundos em nossas mentes que podem nem mesmo existir. É
uma habilidade poderosa, que vai bem ao coração daquilo que somos
e de como funcionamos, e há uma razão fundamental pela qual fomos
feitos assim.
Fomos feitos para nos relacionar com Deus. Mas há um abismo
enorme entre nós e o Divino. Nosso mundo é o mundo da visão, som
e toque, mas Deus vive em um mundo de realidades invisíveis.
Assim, Deus nos deu espírito, a fim de comunicarmos com ele e para
fazer aquilo que fomos criados para fazer. Uma das funções primárias
do espírito, o homem interior, é a habilidade de imaginar, de “ver” a
Deus. A imaginação, nesse sentido, não é invocar o que não é real,
mas aquilo que é real, ainda que invisível. Deus nos deu a habilidade
de “ver” o que não podemos ver, de nos comunicar com alguém com
quem não podemos conversar pessoalmente e de amar aquele a quem
não podemos tocar. Somos criaturas de imaginação. Assim, os seres
humanos são ligados ao sonho. É isso o que nos dá posição e
dignidade entre o resto da criação. Nós não damos glória a Deus por
meio da nossa existência, como as pedras, a flor ou os peixes. Nós
podemos “ver” e nos comunicar com o próprio Deus.
Nós fomos feitos com a habilidade de cruzar o grande abismo
entre o físico e o espiritual. Isso acontece quando somos bem
crianças. Aquela brincadeira de crianças em que se diz “vamos fingir
que...” é a imaginação começando a flexionar, crescer e desenvolver
os seus músculos. Como um pai jovem, eu olhei uma tarde pela janela
da cozinha e vi meu filho, Ethan, sentado na calçada sozinho. Eu
andei até ele e disse: “Ethan, porque você está aqui sozinho?” Ele
disse, “Eu não estou sozinho, pai, o Joe está aqui comigo”. Eu não via
ninguém além dele, então perguntei: “Que Joe?” Ethan disse: “Meu
melhor amigo, o Joe Fakeny (nome interessante, você não acha?). A
medida em que eu entrevistava Ethan, vi que em sua imaginação ele
fez toda uma família e uma comunidade onde eles viviam. Como ele
disse naquele jardim, ele “via” Joe e “ouvia” o que ele dizia. Esse era
somente o começo para esse pequeno menino; ao longo da sua vida
ele tem “visto” aquilo que não é visível.
Todos nós fazemos isso; nossos sonhos simplesmente
transformam quem somos. A criança, na escola dominical, vê o Mar
Vermelho se abrindo, as muralhas de Jericó caindo, as chamas de
fogo da fornalha da Babilônia e a rude cruz do Gólgota. O menino
adolescente sonha a respeito da faculdade e sobre como será o seu
dormitório. O de vinte e pouco sonha sobre uma carreira bem-
sucedida. O cristão novo vê seu coração sendo purificado pelo sangue
do Cordeiro. O casal com quatro crianças vê a si mesmo sozinho
novamente, aproveitando os anos pós-paternidade. A pessoa
convencida de seu pecado vê as trevas de seu coração e a gravidade
do seu pecado. O santo idoso e querido, sentado sozinho em sua casa
de repouso, vê o outro lado e imagina como as coisas serão quando o
seu trabalho finalmente acabar.
Essa habilidade de imaginar é maravilhosa, misteriosa, prática,
santa, mundana e impressionante. Seja ao ouvir alguém descrever um
lugar aonde você não foi ou ouvir uma novela e imaginar como são os
personagens ou ouvir um sermão e ver a Deus, é uma habilidade
impressionante. Ela é particularmente importante para os cristãos,
porque nós aceitamos o fato de que existe um Deus que realmente
existe, a quem não podemos ver, tocar ou ouvir. Como Eugene
Peterson diz em seu livro Espiritualidade Subversiva, para um cristão,
cujo maior investimento está no invisível, a imaginação é uma coisa
muito importante.

O PERIGO DA IMAGINAÇÃO
Ainda assim, como a maioria das coisas boas que Deus fez, a Queda
tornou a imaginação em algo perigoso também. É maravilhoso que a
imaginação tenha a profunda capacidade de dirigir o curso de nossa
vida. É perigoso que haja tantas coisas indignas que capturem a nossa
imaginação e assim, dirijam a nossa vida erradamente. Cada um de
nós está perseguindo um sonho. Você pode não perceber, mas você
gasta grande parte do seu tempo acordado em um mundo de
realidades invisíveis. Você sonha em sua mesa, em uma reunião, na
mesa da cozinha, dirigindo o carro, andando com o cachorro, no meio
de uma chuva longa e centenas de outras vezes durante o dia. Parte de
sua humanidade e de sua sanidade é uma imaginação que é saudável e
flexível.
Mas, o que exatamente é um sonho? Um sonho é uma imaginação
unida a um desejo e projetada para o futuro. Por exemplo, eu quero
estar confortável, então, eu sonho que algum dia eu terei bastante
sucesso nos negócios e comprarei uma casa luxuosa em um lugar
elitizado. Eu passo e repasso o vídeo de uma sucessão de promoções
e exatamente de como aquela casa naquela vizinhança será. Quanto
mais um revejo o meu filme, mais detalhado ele se torna e mais ganha
controle de mim. A cada dia que eu trabalho, eu sou uma pessoa em
busca do meu sonho.
Depois de um bom tempo, o sonho não é mais uma esperança
fraca e distante para o futuro. Ele se torna o meu prêmio. Eu sou
convencido de que a vida sem o sonho seria impensável e não vivível.
Meu senso de identidade, propósito, bem-estar, contentamento e
satisfação se tornam diretamente conectados à realização do sonho.
Algo aconteceu aqui e é muito perigoso. A minha imaginação foi
capturada e agora é controlada por algum aspecto da criação.
O projeto não era esse. Todos os outros sonhos deveriam ser
subservientes do sonho de Deus. Ainda assim, na perseguição do meu
sonho “essencial”, eu tenho construído vagarosamente a minha
própria torre pessoal para o céu. O sonho me possui. Ele me define.
Ele me motiva. Ele me guia e dirige. Ele me dá razão para levantar de
manhã e seguir firme. A cada dia eu pego meu cimento e colher de
pedreiro e coloco mais alguns blocos em minha torre pessoal para o
céu. Eu ainda estou indo à igreja, eu não esqueci a fé, mas de uma
forma muito profunda e prática, Deus está fora de cena. Eu não estou
em uma posição de profunda rebeldia contra ele, no entanto eu
também não o estou servindo. Eu não tenho tempo para o Senhor
porque todo o meu tempo e a minha energia diária são investidos no
meu sonho. Foi-me dada a capacidade de imaginar, de forma que
todos os dias os meus olhos fossem enchidos por Deus, ainda assim,
agora, outro sonho obstrui a minha visão de sua glória.
Os desapontamentos opressores da meia-idade estão diretamente
ligados à nossa imaginação e aos sonhos que capturaram o nosso
coração. Ao longo dos anos, uma mudança crucial aconteceu. A nossa
visão da única glória digna de se viver foi progressivamente
substituída por outra visão gloriosa. Ela tornou-se mais do que uma
esperança para o futuro. De alguma forma ela se tornou a coisa pela
qual vivemos. Consumiu a nossa imaginação, formou nosso
comportamento, condicionou nossas emoções e estruturou os nossos
planos. Nós simplesmente nem percebemos. Colocamos a nossa
esperança de vida na coisa errada e nos desapontamos a longo prazo.
Não é como se aquilo que sonhamos fosse necessariamente feio e
pecaminoso. Podemos ter sonhado coisas maravilhosas e santas. O
problema é que os nossos sonhos tendem a se tornar um substituto
para a glória da única Glória que pode formar cada aspecto de nossa
existência. Ter a nossa imaginação enchida com a glória de Deus de
uma forma que nos faz levantar pela manhã e nos dá uma razão para
continuar firmes é o único lugar seguro para o seu coração. Todos os
outros sonhos vão falhar conosco, não importa quão claramente
consigamos imaginá-los ou com quanto sucesso estejamos
conseguindo alcança-los.
Aquele sonho que dá segurança, do casamento perfeito com
cercas brancas, que acaba virando uma vida em uma casa apertada
com um homem ocupado demais. Aquele sonho do sucesso
profissional impressionante acaba virando em trabalho que não leva a
lugar algum e que você não aguenta mais depois dos primeiros meses.
Aquela esperança de uma família perfeita dá lugar à triste constatação
de que vocês todos são um bando de pecadores. Aquela coisa especial
que você sempre quis fazer e que nunca foi feita à medida em que
viveu a cada dia sob a tirania do urgente. Você conseguiu fazer o
tanto de dinheiro que sonhou, mas quando você fez, a realidade do
dinheiro não foi do tamanho do seu sonho. Todos nós enfrentamos
esses momentos em que nossas emoções tomam um banho de água
gelada, quando nossos sonhos morrem ou quando finalmente
conseguimos aquilo que queríamos, mas simplesmente não era o que
pensávamos. Nós nos deixamos à mercê do desastre quando
permitimos que os nossos sonhos capturarem o nosso coração. Pense
sobre isso. Nenhum de nós está no controle de coisas suficientes ao
ponto de garantir que os nossos sonhos se tornem realidades. À
medida em que exercitamos a nossa imaginação, todos tendemos a
fingir que somos soberanos e que o mundo vai operar de acordo com
as regras de nossa imaginação, mas isso nunca acontece. Mesmo que
pudéssemos garantir a realização dos nossos sonhos, ainda assim
ficaríamos desapontados, porque as coisas que nós damos ao nosso
coração para que esse as deseje, nunca vão nos dar o que esperamos
que elas nos deem. Elas não nos darão identidade verdadeira. Elas
não podem nos dar significado e propósito verdadeiros. Elas não
conseguem nos dar a estabilidade, segurança e propósito que
procuramos. Todas essas coisas são encontradas somente em Deus.
Procurar por elas em outros lugares nos coloca à mercê de
desapontamento enorme e duradouro, mas todos fazemos isso o
tempo todo. E quando os nossos sonhos falham, em vez de ficarmos
desapontados conosco, tendemos a ficar desapontados com Deus e a
questionar a razão pela qual ele não nos ama mais.

SONHOS MORREM E DESAPONTAM


Há diversos princípios da imaginação que podem nos ajudar a nos
proteger à medida que consideramos ou até mesmo lidamos com esse
aspecto da crise da meia-idade.
1. Você vai sonhar. Como dissemos antes, é impossível ser um
ser humanos racional, vivo e não sonhar. A imaginação e a habilidade
de sonhar são dons vitais de Deus, de forma que, embora não
possamos ver, ouvir ou tocá-lo, ainda podemos ter um relacionamento
com ele. A habilidade de projetar o futuro e pensar a respeito de onde
você gostaria de estar também é uma coisa boa. Viver de forma
responsável requer que planejemos, assim, temos que ser hábeis para
“ver” os nossos objetivos a fim de determinar como alcançá-los. Os
sonhos nascem no encontro entre imaginação, desejo e o futuro. Estar
vivo é viver a serviço de algum tipo de sonho.
2. Os teus sonhos vão competir com o Senhor por sua
imaginação. Os sonhos são quase irresistíveis porque, quando você
está sonhando, o mundo e tudo o que nele existe são totalmente
condescendentes. (Quando você sonha sobre um mundo imperfeito,
você normalmente chama isso de pesadelo.) No mundo da
imaginação pessoal, você alcança todos os seus objetivos, consegue
tudo o que quer e não tem de lidar e com nenhum fator de distração.
Você é soberano sobre todas as coisas. Sonhar torna difícil ter de lidar
com a resistência que enfrentamos no mundo real. Visto que o mundo
dos sonhos é muito mais fácil de se viver do que o mundo real, sonhar
tem um poder magnético.
A grande ironia é que quanto mais próximos ficamos de cumprir
os nossos sonhos, mais fácil somos capturados por eles. Quando isso
acontece, você é uma pessoa em perigo. Você pode não ver, mas cada
vez mais se torna convencido de que a vida real tem de incluir o seu
sonho. O que antes foi uma esperança distante se torna algo sem o
qual você não consegue viver. A sua perseguição do sonho dá a você
significado e propósito. A realização dos seus sonhos dá a você
identidade. Você até mesmo vai julgar o amor e a fidelidade de Deus
com base no fato dele concretizar ou não o seu sonho. O seu sonho
começou a competir com Deus pelo governo do seu coração e se as
coisas continuarem assim, ele vai substituir Deus como fonte de
segurança e esperança.
Uma transição sutil acontece e você nem mesmo a reconhece
quando acontece. Você saiu do país “grande céu” de Deus, onde a
vida é movida e motivada pelos propósitos grandes e expansivos do
reino de Deus e entrou no confinamento estreito dos seus próprios
sonhos estreitos e claustrofóbicos. O problema não é que você esteja
exigindo muito de Deus; o problema é que, tragicamente, você está
disposto a se contentar com tão pouco. Nossos sonhos são
insignificantes em comparação com as coisas maravilhosas que Deus
quer para nós. O “sonho” de Deus vai desde a eternidade anterior aos
fundamentos da terra, ao longo da história humana e em direção à
eternidade. Ele inclui a guerra final e a maior vitória de todas. Ele
resolve o nosso maior problema e nos dá razão para levantar de
manhã com esperança. Ele garante o seu lugar na celebração mais
maravilhosa do universo. Ele oferece sabedoria impressionante e um
amor maravilhoso. O sonho de Deus concerta o que está quebrado e
reconcilia aquilo que está dividido. Ele une você ao Senhor criador, o
soberano salvador, o Grande Eu Sou. É mais do que você ou eu
poderíamos pedir, é maior do que nossos maiores sonhos e muito
além do alcance de nossa imaginação. Ele nos assegura que seremos
libertos da escravidão pessoal e da inalterável destruição pessoal.
Ainda assim, em nossa cegueira, somos ainda mais atraídos pelos
nossos sonhos autodesignados e experimentamos grande angústia
pessoal quando eles escorregam entre nossas mãos.
3. Os seus sonhos vão morrer ou te desapontar. O fato é que a
maioria dos sonhos simplesmente morre. Eles se desfazem antes que
tenhamos chance de experimentar ou aproveitá-los. Isso acontece
porque o mundo real não se comporta da mesma maneira que nossa
imaginação. Naquele mundo de fantasia não há obstáculos ou
competidores no caminho dos meus sonhos, mas no mundo real há
muitos vales profundos e montanhas altas entre o sonho e a sua
realização. Eu não estou no controle e as pessoas nem sempre aceitam
minhas condições. O mundo real é um lugar de sonhos não realizados
e planos frustrados.
Por que os sonhos morrem? Primeiro de tudo, porque o mundo em
que vivemos é um lugar quebrado e, portanto, não opera como
deveria. Pessoas fazem coisas ruins umas para as outras. Elas são
enganadas, ignoradas e passadas para trás. Instituições são
desfiguradas por motivações ruins ou competição desleal. Pessoas
pisam umas nas outras para conseguir aquilo que querem. Pessoas
recusam trabalhar umas com as outras enquanto, com ciúmes, retém
aquilo que o outro precisa. Os diálogos humanos são infectados pelo
vírus do engano. Pessoas fazem plágio e caluniam. Pessoas ficam
viciadas naquilo que é prejudicial a elas, enquanto rejeitam o que é
bom. Pessoas sofrem e ficam doentes. Pessoas se machucam e
morrem. Os sonhos morrem porque o mundo no qual você sonha é
um lugar terrivelmente quebrado.
Os sonhos também morrem porque existe um Deus. Nada existe
fora do escopo do plano dele. Tudo vive debaixo de sua orquestração
cuidadosa. É impossível chegar a qualquer situação antes dele, porque
ele está em todos os lugares, controlando todas as coisas de acordo
com o seu próprio conselho sábio e para o propósito de sua própria
glória. Ainda que ele nos tenha abençoado com a capacidade de
sonhar, decidir e planejar, a nossa vontade não é definitiva. É difícil
aceitar que nós não temos a palavra final, que somos criaturas de um
Deus soberano. É difícil abrir mão de nossos delírios de controle,
suficiência e autonomia, mas, para sermos seres humanos autênticos
com integridade autêntica, precisamos fazê-lo. Não é errado sonhar,
se incorporado em seu sonho há uma lembrança de quem você é e de
quem Deus é. Você é uma criatura e ele é o Criador. Muitos dos seus
sonhos vão morrer, mas todos os propósitos dele prevalecerão.
Mesmo se o seu sonho se cumprir, ele não completará você. Ele
não fornecerá uma identidade fundamental a você. Não te dará
segurança emocional. Não dará a você o senso profundo de
significado e propósito que você realmente está procurando. Quantas
pessoas realizaram os seus sonhos somente para se sentir vazias,
famintas e novamente perdidas?
Eu tive a oportunidade de trabalhar por dois anos para um homem
muito rico. Era evidente que seus sonhos movidos pelo dinheiro não
podiam entregar aquilo que ele realmente estava procurando. Ele
tinha tantos carros que não tinha mais espaço em sua propriedade
para estacioná-los. Ele tinha mais do que imaginara, mas ainda assim
estava vazio. Ainda procurando, ele realizava o próximo sonho,
achando que o satisfaria. Em última análise, os sonhos quase sempre
nos desapontam porque eles não podem nos dar vida. Quando
colocamos a nossa identidade, propósito, senso de bem-estar,
segurança e esperança em nossos sonhos, eles sempre ficarão aquém
de entregar tais coisas.

ENTÃO, O SEU SONHO MORREU.


Fred sempre quis se dedicar ao ministério em tempo integral, mas sua
situação não era aquela que ele havia previsto. Ele foi muito bem na
faculdade, se tornou líder do principal ministério do campus e, depois
da graduação, foi contratado em tempo integral como parte de uma
equipe ministerial. Ele amava ensinar, discipular e mentorear seus
estudantes, mas sabia que precisava de mais treinamento. Depois de
alguns meses de pesquisa, Fred se matriculou em um seminário. Ele
amava cada minuto do seu tempo ali. As coisas foram bem e ele se
tornou o presidente do grêmio estudantil. Os verões eram gastos em
diferentes partes do mundo em viagens missionárias. Antes de se
graduar ele foi contratado por uma mega igreja para desenvolver seu
ministério com estudantes. Fred não podia acreditar; a sua vida era
como um sonho!
Depois de cinco anos naquela grande igreja, Fred estava desejoso
de ser o pastor principal em alguma igreja. Não demorou muito até
que ele recebesse uma ligação de uma igreja pequena no centro-oeste.
Com grandes expectativas, Fred e sua esposa, Darla, se mudaram com
seus dois filhos pequenos. A igreja lutou nos primeiros anos, mas os
dons de Fred e seu trabalho duro começaram a dar resultados e a
igreja começou a crescer. O sonho de Fred ainda estava no lugar, mas
de repente começou a evaporar. Ele começou a ter problemas cada
vez maiores no sentido de conduzir seus presbíteros. Eles pareciam
críticos de tudo o que ele fazia, até mesmo de sua pregação.
Eventualmente, a situação ficou de tal maneira que ele teve de ficar
enfurnado em seu escritório e em um ano escreveu sua carta de
renúncia. Fred estava devastado. Ele disse a Darla que eles se
mudariam e começariam tudo de novo, em uma nova igreja, a
centenas de quilômetros de distância, mas isso nunca aconteceu. Sem
saber, Fred estava carregando a sua ferida, ira e amargor consigo. Ele
ficava com medo de se machucar, distante e na defensiva e não
conseguia mais ter um bom início com seus líderes. Logo, ele e Darla
já estavam discutindo a sua saída.
Uma noite, sentado sozinho em sua sala, Fred encarou o fato de
que não conseguiria suportar um novo pastorado. Ao mesmo tempo,
ele não tinha muitas outras habilidades para o mercado de trabalho.
Almoçando com um amigo, descobriu que havia um ministério local
que estava precisando de um diretor de desenvolvimento. O trabalho
interessou a Fred. Ele lembrou que havia aumentado o seu suporte
com bastante facilidade quando estava no ministério estudantil, então,
encarou essa nova possibilidade.
Sete anos depois, com uma lista de doadores em mãos, Fred
sentou em sua mesa examinando a morte do seu sonho. Não era esse
o lugar onde deveria ter aterrissado. Esse não era o “ministério” com
o qual sempre sonhara. Ele conhecia muitos colegas de seminário que
não tinham metade de seus dons, mas estavam gozando de sucesso no
ministério pastoral. Odiava pensar a respeito da próxima ligação para
levantar fundos. Detestava o pensamento de outro almoço
desconfortável, onde tentaria convencer uma pessoa que ele nem
conhecia a doar para o ministério. Invejava seus colegas de seminário
e temia as suas ligações para ver como estava. Fred se sentia como
uma falha completa e esquecido por Deus. Vivia em uma nuvem de
desânimo, forçando a simpatia que seu trabalho exigia. Fred disse a si
mesmo (e a Deus): “Eu não quero muito. Eu nunca pedi uma mansão
ou uma Mercedes. Eu não quero ser um Billy Graham. Tudo o que eu
queria é ser um pastor. Será que isso é pedir muito? Eu estudei tudo
aquilo, tive todo aquele treino para isso? Eu não entendo!”
À medida que Fred sentava em sua mesa de carvalho gasta, em
seu pequeno escritório sem janelas, não conseguia se imaginar
sentado ali dia após dia até a aposentadoria. O pensamento quase o
deixou sem ar. Ele sabia que deveria ser grato por esse lugar no reino
de Deus, mas não conseguia nem ajuntar um pouco de
contentamento.
Tristemente, Fred se sentia enredado por diversas armadilhas que
facilmente nos prendem no funeral dos nossos sonhos.
1. A armadilha da inveja. Por que quando estamos sofrendo
focamos naqueles que não estão? Por que quando estamos
desapontados parecemos notar aqueles que estão felizes? Por que
quando nossos sonhos escorregam por entre nossos dedos, ficamos de
repente totalmente conscientes da pessoa que conseguiu realizar o seu
sonho? É tão fácil ser capturado pela inveja. É tão fácil pensar que, de
alguma forma, Deus pegou o endereço errado, que o sucesso que os
nossos vizinhos têm gozado deveria ter vindo sobre nós. ‘É tão fácil,
quando nosso sonho morreu, pensar que as pessoas erradas estão
ganhando, enquanto as pessoas boas têm apanhado (veja o Salmo 73).
A inveja é mais do que a tristeza frente aos sonhos não realizados.
Não é somente o estar irado porque não tenho alguma coisa, mas estar
irado porque outra pessoa tem. É um desejo de que Deus tire aquilo
que ele deu a outro e devolva a quem pertence de direito. Quando a
inveja governar seu coração, ela controlará os seus olhos. A inveja vai
fazer você notar o sucesso, sorte, prosperidade, posses,
relacionamentos e alegria dos outros. A inveja fará você ficar muito
vigilante e prestar atenção exagerada em como Deus tem abençoado
outros. A inveja fará você triste quando deveria estar feliz, irado
quando deveria estar grato e desapontado quando deveria estar
experimentando o descanso do contentamento.
A inveja torna impossível cumprir os dois principais
mandamentos. Primeiro, ela destrói a adoração amorosa a Deus. A
inveja debate a sabedoria dele, duvida de sua soberania e questiona o
seu amor. Ela acusa Deus de falhar em ser o pai bom e sábio que
prometeu ser. A inveja traz Deus ao tribunal de nossos julgamentos e
drena a vida de nossa intimidade com ele. Nós simplesmente
tendemos a não perseguir comunhão alegre com alguém que
pensamos ter falhado conosco. A inveja também rouba a minha
habilidade de amar o meu próximo, tornando-o um competidor, na
melhor das hipóteses, e um ladrão, na pior, porque ele possui coisas
que eu estou convencido que, por direito, deveriam ser minhas. Eu
não posso celebrar com ele. Eu não compartilho da alegria dele. A
minha inveja não deseja o bem do meu próximo, mas, em vez disso,
deseja que ele se dê mal. A inveja é um câncer moral que devora o
nosso coração.
2. A armadilha da amargura. A amargura não é somente a
respeito de não gostar daquilo que sobrou para você, mas sentir no
íntimo do coração que você merece mais. Novamente, o Salmo 73
nos ajuda aqui. Asafe reclama, “Com efeito, inutilmente conservei
puro o coração e lavei as mãos na inocência” (v. 13). Ele compara
aquilo que tem com a posse dos outros e basicamente diz: “Foi para
isso que eu obedeci? Eu faço tudo certo, obedeço a Deus e é isso que
eu levo em troca: Nada! Esses caras não estão nem aí e ainda assim
estão cheios de coisas boas. Isso não é justo. Não faz nenhum
sentido!”
Muitos de nós são tentados a olhar para trás na meia-idade e fazer
as contas. Colocamos de um lado todas as escolhas difíceis, decisões
boas e trabalho disciplinado e comparamos com as coisas “boas” da
vida sobre as quais pensamos ter obtido o direito. Se os resultados
não são compatíveis com o labor que investimos, então, tendemos a
sentir que fomos vítimas de um inimigo cósmico. Sentimos como se a
vida toda tivesse sido uma armadilha e agora tivesse se transformado.
Há, provavelmente, mais pessoas silenciosamente iradas do que
eu e você conseguimos saber. Elas vivem com o sentimento de que,
de alguma forma, foram passados para trás. Olham para trás e não
conseguem entender porque não têm mais para mostrar em troca de
tudo o que fizeram. Elas trabalharam duro. Tentaram ser honestas.
Não levaram vantagem sobre outros. Tentaram contribuir com a
comunidade e com a obra da igreja. Elas se aventuraram a ser bons
pais, amigos leais e cônjuges fiéis. Ainda assim, quando fazem a
contabilidade pessoal da vida toda, não têm muito para mostrar.
Quanto mais pensam sobre a injustiça de tudo isso, mais amargas
ficam. E para deixar as coisas ainda piores, há muitas pessoas, às
quais veem todos os dias, que parecem ter tudo e não apreciam, e que
nem merecem o que tem.
A amargura foca em um chefe que nunca reconheceu aquilo que
você era capaz, um cônjuge que nunca o apoiou, um filho rebelde que
destruiu o sonho familiar ou uma igreja que falhou em reconhecer o
seu potencial ministerial. Na verdade, no entanto, a sua amargura é
mais vertical do que horizontal. Como cristãos, negamos que a vida
seja organizada por destino, sorte, chance, causa e efeito ou algum
sistema de leis naturais. Afirmamos que o mundo e tudo o que existe
nele são controlados por uma pessoa, que ordena e governa tudo por
sua sabedoria, poder e bondade. É difícil admitir, mas quando
estamos irados, estamos, na realidade, irados contra Deus. Em nossa
amargura, intimamos Deus à corte de nosso julgamento e o acusamos
de ser sem amor, cruel, injusto ou infiel. Seguramos diante dele a
evidência dos outros que foram abençoados enquanto nós não fomos.
Ressuscitamos incidente após incidente, os quais “provam” que nós
não recebemos o que merecíamos por direito. Apontamos um dedo
para o Todo-Poderoso e dizemos: “Se você tivesse mantido a sua
parte da barganha, eu teria conseguido o realizar o meu sonho!”
Essa amargura profunda contra Deus produz uma colheita cruel.
Ela vai sugar a vida de sua paixão pelo evangelho, seu deleite em
adoração, seu zelo pelo ministério e sua confiança no único lugar
onde sabedoria, vida, esperança e paz podem ser encontrados. A
amargura suga o oxigênio de nosso universo espiritual e o substitui
por gases tóxicos, que você não pode ver nem cheirar. Cada respirar
está matando as células do coração e você pode estar totalmente
inconsciente disso.
3. A armadilha da dúvida. As duas armadilhas que discutimos
levam a uma terceira. Eu já citei, mas vale a pena repetir e enfatizar: a
montanha russa emocional e espiritual da meia-idade é realmente
movida por dúvidas acerca de Deus. Toda a sua dificuldade com
pessoas e circunstâncias são o fruto da teologia funcional do cinismo.
Não estamos negando a existência de Deus ou ostensivamente
deixando a fé, mas estamos cada vez menos dispostos a colocar a
nossa vida nas mãos de Deus e descansar. Quando eu converso com
pessoas que professam ser cristãs, mas estão lidando com um grande
desapontamento na ida, as encorajo a colocar a vida nas poderosas e
amorosas mãos de Deus, e descansar. Nova e novamente elas olham
para mim com uma expressão surpresa, como se eu fosse muito
inocente ou estivesse mal informado e não entendesse que isso, na
verdade, não funciona. Alguns podem até mesmo abrigar
desapontamento com o fato de que a Escritura nos chame a correr
com nosso temor, dor e sofrimento para aquele que, segundo pensam,
é a principal parte do problema. Um homem capturou isso muito
bem: “Quantas vezes eu tenho de ser derrubado até que seja correto
dizer, eu não vou subir mais?”
4. A armadilha da barganha. É sempre tentador tentar fazer
barganhas com Deus, mas a vida não é uma série de negociações
estratégicas com Deus; ela é um drama moral de sabedoria e tolice,
certo e errado, verdadeiro e falso e bem e mal. Essas coisas estão
presentes mesmo nas situações mais comuns de nossas vidas. No
centro desse drama moral está aquilo que definimos como alegria.
Talvez não haja pensamento humano mais importante do que “Se eu
tivesse ___________, então eu seria feliz”, porque aquilo que define
a sua alegria controla o seu coração, e aquilo que controla o seu
coração, condiciona a suas emoções, governa as suas escolhas e
molda o seu comportamento. Por causa disso, Deus não faz barganha
conosco. Ele sabe que, a menos que encontremos a nossa alegria
última nele, nos tornaremos totalmente escravizados a coisas que
nunca entregarão a vida que estamos procurando. Esses falsos
messias sempre nos desapontam, deixando-nos mais abatidos,
amargos e totalmente falidos moralmente. No mais puro dos zelos,
Deus luta pelas nossas almas, recusando participar de qualquer
barganha que nos tentaria a encontrar vida fora dele.
Sim, muitas pessoas têm argumentado comido que há barganhas
nas Escrituras das quais Deus parece voluntariamente participar. Um
dos exemplos principais é Ana, cuja história é encontrada em
1Samuel 1 e 2. Ana era casada com um homem que tinha duas
esposas. Penina, a outra esposa, dera à luz muitas crianças, mas Ana
era estéril. Na cultura do Antigo Testamento, onde a família dependia
de muitas crianças para sua riqueza e continuidade, a esterilidade era
uma maldição. Em seu lamento, Ana foi ao templo e orou dizendo:
Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de
mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao
Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará
navalha. (1Samuel 1.11)

A princípio essa oração se parece com uma barganha com Deus e,


de fato, Deus deu um filho a Ana. No entanto, a passagem merece
uma leitura mais cuidadosa.
Se você está fazendo uma barganha com Deus, você só vai se
alegrar e experimentar paz depois que tiver recebido aquilo que quer.
Mas não é dessa forma que Ana respondeu. Uma vez que orou, ela
fez duas coisas, as quais demonstraram que seu pedido não era uma
questão de barganha com Deus. Primeiro, ela saiu e procurou algo
para comer. Que observação fundamentalmente humana a Bíblia faz
aqui. Você sabe que a perturbação emocional profunda rouba o
apetite da pessoa. Muitas pessoas que estão passando por períodos
maiores de desapontamento e sofrimento perdem quantidades
significativas de peso. O fato de Ana comer mostra uma mulher em
paz. Ela não está esperando pelo nascimento de seu bebê para que a
sua paz retorne a ela; ela tem paz agora. Em segundo lugar, “o seu
semblante já não era triste” (v. 18). Os ombros caídos, cabeça baixa e
rosto triste por causa de dor foram embora. Ana saiu de seu momento
de oração com sua cabeça erguida e um sorriso no rosto. Note
novamente que ela não estava esperando por algo para que sua alegria
voltasse. Ela já estava alegre!
A oração de Ana não foi uma negociação com Deus a fim de obter
o seu sonho, mas um abandono de seu sonho por um sonho melhor.
Em vez de ser consumida pelo seu próprio propósito, ela escolheu ser
consumida pelo propósito de Deus. Em vez de acrescentar uma vida
feliz de sucesso ao seu próprio reino, ela encontrou vida no sucesso
do reino de Deus. Em essência, Ana estava orando: “Senhor, eu não
quero um filho para mim; eu quero essa criança para o senhor. Eu
quero essa criança a fim de que, de alguma forma, ela e eu sejamos
parte das boas coisas que o Senhor está fazendo pelo seu povo na
terra”. Ana não está negociando com Deus por seu sonho. Ela está
abrindo mão de seu sonho por um filho em troca de algo
infinitamente melhor: Deus! É por isso que vai embora feliz e em paz.
5. A armadilha da negação. Alguns de nós não encararam o fato
de que nunca realizaremos os nossos sonhos. Investimos uma quantia
enorme de tempo e energia fazendo todo o possível para manter o
nosso sonho vivo. Em um compromisso trágico com nosso sonho,
podemos até mesmo contradizer nossos próprios valores e quebrar as
nossas próprias regras. O Joe sempre disse a si mesmo que nunca
seria como aqueles pais que sacrificam sua família no altar do sucesso
profissional. Ainda assim, em algum ponto no meio de sua vida, Joe,
também, se tornou obcecado com um sonho profissional que não
estava acontecendo. Ele pensou que se tivesse sido mais dedicado,
mais conhecido, mais competente e mais disponível no trabalho o
sonho estaria logo depois da curva. Assim, aceitou tarefas que
significavam mudanças complicadas para a sua família, matriculou-se
em cursos que devoraram o seu tempo e trabalhava mais horas do que
qualquer marido ou pai deveriam trabalhar. Havia até muitos
domingos que não conseguia levantar para ir à igreja, pois ficava
trabalhando até quase o amanhecer. Ele continuou a negar a morte do
seu sonho mesmo em uma situação em que a sua família e seu
relacionamento com Deus estavam pagando um preço altíssimo.
O sonho de Tess parecia tão bíblico. Tudo o que ela queria era um
casamento maravilhoso com um homem piedoso e uma vida para
servir ao Senhor juntos. Mas à medida que os anos se passaram, o
sonho que uma vez era apresentado com mãos abertas se tornou uma
obsessão. Benny não era o marido “dos sonhos”. Ele achava
conversas pessoais difíceis e desconfortáveis e lutava com questões
pessoais que roubavam a sua vitalidade e alegria. Ainda assim, Tess
achou que se ela fosse uma dona de casa melhor, então Benny
responderia de maneira diferente. Assim, Tess gastava muito tempo e
dinheiro decorando a sua casa. A casa se tornou mais um museu do
que um lar e um lugar confortável para relaxar e criar os filhos. Ela
pensou que se fosse mais sedutora e atraente, então, Benny
responderia de forma mais apaixonada. Mas mesmo com todas as
dietas, exercícios e uma quantia desordenada de dinheiro gastos em
maquiagem, roupas e lingerie, Benny ainda não participava de seu
sonho. Ela concluiu que ela e Benny precisam de um tempo só para
os dois, então planejou viagens exóticas e caras somente para os dois.
O único resultado duradouro foi a dívida. Mas Tess não desistia. Ela
forçava Benny a ler um livro de casamento após o outro e o carregava
para um congresso após o outro e diversos conselheiros. Ela estava
certa de que a bênção marital estava logo depois da curva; ela
simplesmente precisava entender como chegar lá. Com tudo isso, fez
mais para afastar Benny do que para ganhar o seu amor.
Alguns de nós são muito competentes em negar a morte de nossos
sonhos e, em nosso compromisso penoso com eles, sacrificamos
muitas das coisas sobre as quais dissemos serem tão importantes para
nós.

ENTÃO, O QUE DEVEMOS FAZER COM OS NOSSOS SONHOS?


1. Sonhe verticalmente. Lembre-se do porquê você recebeu a
habilidade de sonhar: para que os olhos do seu coração pudessem
ficar encantados pela visão dele e do seu reino. Seguir ao Senhor não
amaldiçoa você a uma existência sem sonhos, mas te dá as boas-
vindas ao maior e mais glorioso dos sonhos. Esse sonho é grande o
suficiente para abranger os maiores pensamentos, indo bem além do
alcance de sua imaginação. É o único sonho pelo qual é digno viver, o
único sonho que pode entregar o que promete e o único sonho que,
quando firmemente mantido, não vai naufragar e afundar você e
aqueles que estão à sua volta.
Sendo assim, sonhe grande, sonhe alto e sonhe bem. Mas foque os
seus sonhos verticalmente e não horizontalmente. Os sonhos
horizontais podem ou não se realizar, mas nunca vão entregar aquilo
que o seu coração deseja. Os sonhos vão morrer ou desapontar e
nunca conseguirão dar vida. Antes que os fundamentos do mundo
fossem formados, nossa vida estava inextrincavelmente ligada a
Deus. É isso o que significa ser humano. Não há outro caminho.
Nosso coração foi feito para pertencer a ele desde sempre, e quando
ele for tomado por alguma outra coisa, coisas ruins resultarão em nós
e à nossa volta.
2. Reconheça o poder dos seus sonhos. Não é errado sonhar a
respeito de um ótimo casamento, uma carreira de sucesso ou anos de
trabalho ministerial relevante. Esses são sonhos bons, mas precisamos
reconhecer o seu poder. Nossos sonhos tem o poder de nos tentar e
seduzir. Eles competem pela fidelidade do nosso coração. Nossos
sonhos são somo exércitos do desejo, envolvidos em uma guerra
contínua a cada momento de nossa vida. Não é uma guerra somente
pelo nosso coração, mas uma batalha pela própria humanidade. Pois
quando seu coração se tornar funcionalmente governado por qualquer
outra coisa que não o Senhor, você estará fora do propósito para o
qual foi criado.
Eis o que acontece. O sonho de ontem se torna a demanda de hoje.
A demanda de hoje se transforma na necessidade de amanhã. Aquilo
que eventualmente me chamou a atenção, agora se torna a coisa sem a
qual eu não consigo viver. Lembre-se desse princípio do sonho: o
sonho com uma coisa boa se torna em algo ruim quando esse sonho
se torna naquilo que me governa. Esse é o perigo dos nossos sonhos.
3. Saúde o seu desapontamento e dor como uma advertência
amorosa. Deus não está brincando nem jogando com você. As ações
dele para com você são sempre amorosas e sábias. A sua habilidade
de experimentar dor é o sistema de advertência de Deus. Ela existe
para dizer a você que alguma coisa está errada e precisa ser
consertada. Considere a nossa habilidade de experimentar dor física.
Deus criou esse sistema fisiológico de advertência como uma forma
de você saber quando algum órgão do seu corpo está quebrado ou não
está funcionando da maneira que deveria. Semelhantemente, nossos
momentos de mais profundo desapontamento são os alarmes de Deus
soando, alertando-nos para os perigos espirituais que existem ao
longo do caminho, sobre os quais, doutra forma, não ficaríamos
conscientes. Ao vermos dolorosamente a morte de nosso sonho,
devemos ouvir os amorosos alarmes do nosso senhor e redentor. Eles
não são sons de infidelidade e falta de atenção. São sons de graça.
Estão alertando você para o perigo vital de um coração errante, antes
que seja tarde demais. A sua dor é um instrumento do amor de Deus.
O barulho dos blocos despedaçados caindo da torre dos seus sonhos é
o som da advertência graciosa, enviada com amor pelo seu Pai do
céu.
Entenda também que esse momento de dor é um momento de
resgate. Pode parecer impossível imaginar a vida sem o seu sonho,
mas o sonho que morreu nunca faria por você o que você queria que
ele fizesse. Os cantos fúnebres tristes de seus sonhos quebrados são,
na verdade, hinos que celebram o resgate. Em sua dor, cante com
alegria, pois você está sendo resgatado de sua escravidão a um senhor
cruel, um messias falso. A sua cela está sendo destrancada e você está
sendo transportado para um reino novo e melhor. Seu reino veio com
graça e glória, bem no mundo real no qual você vive todos os dias.
Abra seus olhos e veja o que você nunca poderia ter planejado,
alcançado ou imaginado. Você é eternamente amado por Deus; é
eternamente seu filho ou filha; o que ele quer para você é sempre
correto e melhor; e o que ele planejou para você é imensuravelmente
melhor do que qualquer coisa que você mesmo possa ter sonhado
sozinho. Veja e sorria, mesmo em seu desapontamento, pois você está
sendo resgatado.
4. Fixe os seus olhos em um sonho melhor. Em vez de olhar
para trás com amargura e remorso, olhe para frente. Você tem anos
adiante de você para perseguir um sonho melhor. Pergunte a si
mesmo qual é o sonho melhor que Deus tem para você em seu
trabalho, sua família e no corpo de Cristo. Procure pelo lugar para o
qual ele te chama, restaure as coisas que foram quebradas durante os
anos em que você ficou cativo do seu sonho. Deus tem um sonho
melhor, assim determine-se a não se contentar com menos.
5. Celebre o fato de que Deus é o Deus de novos começos.
Lembre-se de Moisés, Davi, Pedro e Paulo, pessoas que no meio de
suas vidas foram resgatadas por Deus e colocadas em um caminho
novo e melhor. Você não tem de ficar chafurdado no remorso. Você
foi agraciado por Deus com a oportunidade de começar de novo uma
vez mais. Celebre! A sua vida não está acabada; você está somente no
meio e, por causa de sua graça, os seus melhores e mais maravilhosos
anos ainda estão por vir. Jogue a si mesmo na vida com entusiasmo,
uma vida governada por sonhos verticais em vez de horizontais. Saiba
que somente quando os seus sonhos pertencerem ao Senhor é que
você poderá experimentar uma vida melhor e mais gostosa.
CAPÍTULO 6

PERDIDO NO MEIO:
A HISTÓRIA DE DON

Felicidade é interna, não externa, e assim, não depende do que temos, mas de quem
somos. — HENRY VAN DYKE

A vitalidade nos mostra não somente a habilidade de persistir, mas a habilidade de


começar de novo.
— F. SCOTT FITZGERALD

Preparando-me para escrever este livro, tive o privilégio de


entrevistar um amigo de longa data, que é um dos meus heróis da fé.
É uma coisa impressionante e santa quando uma pessoa está disposta
a abrir a porta da frente e convidá-la para o interior de sua vida. Eu
nunca andei pela casa interna de alguém sem, vez ou outra, ter
vontade de chorar, questionar, gritar ou me alegrar. A medida em que
ouvi a história de Don, tive todas essas reações. Fiquei maravilhado
com o fato de que Don não somente estivesse disposto a revelar essas
coisas para mim, seu amigo, mas para você também. Por meio da
história dele, você verá a poderosa mão do seu amoroso Redentor,
sem o qual Don não teria sobrevivido e eu e você nunca o teríamos
ouvido. A história de Don ilustra de forma dinâmica o fato de que
Deus está no centro do palco nos momentos mais profundos de
desnorteamento da meia-idade.
Escolhi colocar a história de Don neste ponto do livro para que
possa servir de sumário daquilo que vimos até aqui, bem como ponte
para o que vem depois. A vida dele coloca carne e sangue na crise da
meia-idade, movendo-a de uma série de características abstratas para
realidades pessoais concretas. A história dele é uma de remorso,
fraqueza física e morte esmagadora de um sonho. Crivada nela estão
todos os temas bíblicos que consideraremos no resto deste livro.
Esses temas dão sentido às lutas da meia-idade e nos empurram em
direção aos novos recomeços da graça. Leia a história de Don como
se fosse a sua. Certamente os detalhes são muito diferentes, mas Don
é um ser humano, que vive no mesmo mundo caído em que cada um
de nós vive, e é filho do mesmo Deus que é Pai de todos nós. Nessa
história ele está lutando as mesmas guerras morais que cada um de
nós luta nos momentos pequenos e grandes de cada dia.

NINGUÉM CORRE PARA OUVIR NOTÍCIAS RUINS


“Já estava acontecendo há um tempo e todos os dias eu fazia o meu
melhor para tentar negar. Acho que todos nós temos essa capacidade,
sabe, de convencer a nós mesmos de que aquilo que estamos sentindo
e experimentando não está realmente acontecendo, ou no mínimo,
não é tão ruim quanto pensamos ser. Você diz a si mesmo repetidas
vezes, às vezes muitas vezes no dia, que aquilo que você está
sentindo não é exatamente o que é. Você adota a velha estratégia
“ignore e isso vai embora”. Se isso não funcionar você tenta lutar
contra aquilo que estava tentando negar. Assim, eu comia melhor,
dormia melhor e tentava ser mais disciplinado com meus exercícios.
Mas algo se tornava cada vez mais difícil de negar porque
simplesmente não ia embora. A fraqueza da minha perna estava ali,
inegavelmente.
Eu acho que ela tinha de estar ali por tempo grande o bastante e
ser bem constante ao ponto de quebrar a minha negação e me fazer ir
ao médico, o primeiro daquilo que pareceu ser uma sucessão infinda
de médicos naquele ano. Às vezes parecia ser esse o meu trabalho de
tempo integral – eu estava em uma viagem turística de um ano para
os médicos. Naquela primeira tarde de quinta-feira eu sentei na sala
de espera, com mais ou menos outras 12 outras almas eu-preferia-
estar-em-qualquer-outro-lugar, antecipando ansiosamente o momento
quando a enfermeira apareceria e me chamaria pelo nome para
adentrar aquele corredor no qual você nunca entra a não ser que algo
esteja fisicamente errado com você. Sentei e esperei a minha vez,
segurando uma revista que eu não estava de fato lendo, dizendo a
mim mesmo que aquilo que eu estava experimentando fisicamente
não era, na realidade, nada. O médico iria rir, dizer-me que eu estava
em grande forma e me daria um atestado de saúde. Eu ficava meio
preocupado se a senhora ao meu lado podia ouvir meu batimento
cardíaco acelerado.
O meu nome foi chamado e eu fui levado para o corredor e foi-me
dito para sentar na mesa de exame. Você se sente tão vulnerável e
sozinho enquanto espera o médico chegar. Ele havia tratado todo
mundo na família, mas aquela familiaridade não era muito
reconfortante. Não veio muito daquela visita. Nenhum diagnóstico
que alterasse a vida. Eu recebi atenção profissional e reafirmação,
mas não muito além disso”.

NÃO PODE SER REALMENTE VERDADE


“Eu estava no meio da minha vida, algo estava errado comigo e eu
não consegui entender nem escapar. Gastei um ano sendo
entrevistado, testado, furado e avaliado por médico após médico.
Cada um me disse que definitivamente havia algo errado, mas
nenhum deles parecia saber o que era. Finalmente eu me encontrei no
consultório de um neurologista. Ele me disse aquilo que eu estava
tentando saber, mas que realmente não queria ouvir. Eu tinha
esclerose múltipla. EM! Eu tinha EM! Não era problema nas juntas,
nem dificuldades relacionadas ao envelhecimento, nem artrite, mas
uma doença neurológica que alterava totalmente a vida e para a qual
não havia cura. Isso não podia estar acontecendo! Eu era um pai e
marido dedicado. Eu era o principal provedor de minha casa, no meio
de uma carreira muito boa! Eu tinha três filhos pequenos que
precisavam de mim! Eu era presbítero em minha igreja! Não isso, não
agora! Isso não podia estar acontecendo comigo!
Enquanto dirigia para casa naquela tarde, parecia uma coisa
impossível de dizer à minha esposa e a meus meninos. Como eu
poderia ajudá-los a compreender aquilo que eu não compreendia?
Como poderia ajudá-los a não ficar com medo se eu estava com
medo? E a minha carreira? Tudo isso estava acontecendo em meio a
um momento espetacular no trabalho. Era como se eu estivesse no
foguete da carreira. Treze meses antes de ser diagnosticado eu havia
recebido a minha primeira posição de gerenciamento com benefícios,
incluindo deficiência prolongada.
Muita coisa acontecendo. O dono da empresa onde eu trabalhava
havia falecido e o homem que havia me colocado na posição de
gerente estava tomando conta do negócio. Ele havia me dito que
algum dia eu iria ser responsável por toda a empresa”.

COM LICENÇA, O TEMPO ESTÁ ERRADO AQUI


“Parecia estranho que essas duas coisas estivessem acontecendo ao
mesmo tempo. A melhor coisa possível em minha carreira estava
colidindo com a pior possível em meu corpo. Logo, no entanto, com
as maravilhas da medicina, as coisas voltaram ao normal. Meus
tratamentos com esteroides duas vezes ao ano pareciam manter a EM
confinada. Eu ainda não estava enfrentando uma crise de fé real.
Exceto por limitações físicas como não poder praticar esportes com
os meus filhos, a vida era praticamente a mesma de antes do meu
diagnóstico. Todos os meus sonhos ainda eram alcançáveis, incluindo
o de pagar pela educação universitária dos meus filhos e o de uma
casa de veraneio na beira do lago, onde todos nós poderíamos nos
ajuntar nos próximos anos.
Eu estava recebendo cargas de suporte e encorajamento no
trabalho e tudo isso era muito motivador. Eu não tinha um curso
superior na área de negócios, mas cheguei ao topo porque tentei
empregar princípios bíblicos em minha liderança das pessoas do meu
trabalho. Deus parecia estar honrando os princípios de sua Palavra e
abençoando os meus esforços.
Quatro anos se passaram. Havia tratamentos regulares com
esteroides e pressões crescentes em minha empresa, mas a vida estava
boa. Eu tinha um formulário de recaída e remissão da EM, de forma
que havia altos e baixos do ponto de vista físico, embora eles nunca
parecessem me impedir de fazer o meu trabalho. Mas, durante esses
quatro anos desde que havia sido diagnosticado, eu desenvolvi
anticorpos às medicações. Esse foi meu primeiro revés real, mas
mesmo ele acabou sendo bom. Uma nova droga foi dada a mim que
me ajudou mais do que as anteriores estavam ajudando. No trabalho
as promessas continuavam vindo. Foi-me dito que um dia eu seria
dono de uma parte da empresa. Eu fui chamado para ser o mentor
primário dos filhos do chefe. Aqui estava eu, um homem doente, sem
educação formal, mas com mais poder e potencial do que nunca havia
imaginado ter! Havia episódios ruins ocasionais, mas havia sempre a
esperança de deixá-los para trás, eu sempre conseguia fazer isso.
Um ano ou mais depois, a situação realmente piorou. Uma crise
na economia colocou a minha empresa de joelhos. Havia mais
estresse no trabalho do que eu jamais havia experimentado. Eu estava
sendo testado para ver se conseguiria lidar com tudo aquilo com
sucesso, mesmo com EM. Eu não estava nem considerando a
possibilidade de minha esposa trabalhar. Nosso objetivo sempre foi
que ela ficasse em casa enquanto nossos filhos estivessem na escola.
Eu estava trabalhando com um alto nível de estresse, 14 horas por
dia, e ainda mantinha a minha posição como presbítero da igreja.
Tudo isso estava cobrando suas faturas quanto à minha EM. Eu
estava precisando aumentar constantemente de minha dose de
esteroides, mudando rapidamente de uma dose a cada seis meses para
uma dose a cada seis semanas.
Então uma coisa maravilhosa aconteceu no trabalho: a minha
secretária se converteu a Cristo. Me ver trabalhar em meio à EM foi
uma peça importante de tudo que a trouxe a Cristo. Eu pensei comigo
mesmo: ‘Tanto o meu estresse no trabalho quanto a EM são válidos
por esse resultado’. Certamente, eu estava doente, mas a vida estava
boa e todos os meus sonhos estavam totalmente no devido lugar.
As coisas se mantinham bastante empolgantes para mim. Mesmo
que eu estivesse lidando com uma doença séria; ela não dominava os
meus pensamentos. A companhia que eu trabalhava continuou a
crescer e eu agora era o vice-presidente corporativo. Eu tinha um
salário de seis dígitos, um carro da empresa e era responsável por
duzentos e cinquenta funcionários. Eu tinha mais do que jamais havia
sonhado que teria. Eu estava supervisionando os responsáveis pelas
filiais, mentoreando os filhos do dono, negociando com a união,
lidando com relações com os clientes e usando princípios bíblicos em
cada área. Eu pensava estar muito bem. Os próximos três ou quatro
anos pareciam ser os melhores anos. Eu tinha tudo: uma família
maravilhosa, uma carreira fantástica e um relacionamento com Deus.
Eu amava a Deus e ele parecia me abençoar ricamente. As coisas
estavam boas.
Então os ataques começaram novamente, enquanto, ao mesmo
tempo, as coisas no trabalho estavam ficando mais agitadas. Havia
uma coisa acontecendo no meu corpo que eu simplesmente não
queria encarar. Eu amava a minha vida. Eu amava o meu trabalho. Eu
amava o estilo de vida que estava conseguindo prover para a minha
família. Eu não queria que nada atrapalhasse aquilo que Deus me
ajudou a conquistar e que estávamos experimentando como família.
O meu pastor mencionou a possibilidade de me aposentar por
invalidez porque ele estava genuinamente preocupado comigo, mas
isso era impensável. Eu não podia sair. Eu não podia desistir. Eu não
me deixava pensar que pudesse não ser mais capaz de fazer aquilo
que estava fazendo. Todos os meus ovos estavam em um só cesto, e
este não poderia ser tomado de mim”.

E ENTÃO, A NOTÍCIA FICOU PIOR


“Em janeiro do ano seguinte, fui fazer um exame de ressonância
magnética de rotina. A notícia foi devastadora: eu tinha um buraco na
base de minha espinha. Era sério e era permanente. Parecia que eu
estava olhando para o fim do meu mundo maravilhoso.
Imediatamente pensei se seria capaz de manter as expectativas do
meu chefe e se isso significaria o final da minha carreira. Essa notícia
me derrubou de forma muito mais forte do que o meu diagnóstico
inicial. Parecia ser o fator decisivo. Por causa dos meus medos quanto
à minha carreira, escondi a verdade das pessoas ao meu redor que
podiam encerra-la, e ainda assim eu estava chorando por dentro.
Dúvidas me assaltavam. O que estava acontecendo?
Por que agora? Por doze a treze anos lutei para que tudo
funcionasse. Eu não quis cavar um buraco no chão e me esconder,
mesmo quando aqueles à minha volta diziam que estava tudo bem se
eu fizesse isso. Parecia que Deus estava me dando habilidade de
seguir adiante, de andar quando fisicamente eu não podia mais andar
e de lidar com medicamentos brutais. Eu não acredito que estivesse
mais irado do que desencorajado e confuso. Será que havia passado
por todo aquele sofrimento para isso? Será que Deus tinha feito todos
aqueles milagres diários somente para tirar tudo quando eu ainda
estava no meio de colher o que eu havia plantado durante anos? Eu
continuei a procurar conselhos, e todos os meus conselheiros
voltavam aos mesmos temas: buscar o Senhor e diminuir o ritmo. Eu
penso que nessa época eu sofri mais do estresse do que diretamente
da doença. Eu precisava manter o sonho funcionando, afinal, nem
todos os meus filhos haviam terminado a faculdade, nós não
havíamos comprado a casa de veraneio e eu não podia nem pensar em
ver minha esposa voltar a trabalhar.
Enquanto isso, as coisas estavam piores do que nunca no trabalho.
Nós simplesmente não estávamos pagando os nossos vendedores,
então eu estava lidando com clientes nervosos, enquanto tentava
manter a minha integridade. Encontrei a mim mesmo pedindo perdão
a Deus pelas formas que usei para tentar manter a empresa
funcionando. Em mais de uma ocasião, eu estiquei a verdade
seriamente. Encontrei a mim mesmo lutando com questões práticas
da fé – tentando manter Deus e seu caminho primeiro. Eu finalmente
entendi que tinha de ser honesto com o meu chefe. Quando disse a
ele, ele pensou alto se a empresa conseguiria sair dessa. Ele havia me
prometido há anos que nunca deixaria de cumprir os pagamentos do
meu seguro de invalidez, mas agora parecia que ele não conseguiria
essa promessa cumprir. Ele me disse para entrar em invalidez naquele
momento, pois não sabia por quanto tempo mais conseguiria pagar o
seguro”.

SE EU DISSER, ESTÁ ACABADO.


Eu sabia que no dia em que conversasse com o meu chefe a minha
carreira teria chegado ao fim. Estava chegando em casa totalmente
esgotado. Minha esposa me dizia sempre que se era esse o custo ela
não queria que eu continuasse trabalhando mais. Como isso poderia
estar acontecendo? Tudo o que eu estava esperando nunca
aconteceria, bem quando as coisas estavam tocando os meus dedos.
Houve momentos em que eu quis sair, mas eu queria provar para as
pessoas do meu trabalho que esse Deus sobre quem eu falava poderia
me fazer superar. O que eles pensariam sobre Deus agora? Isso
arruinou a minha fé mais do que eu pensei ser possível. O meu sonho
havia se tornado em meu ídolo, o meu trabalho era uma forma de
alcançá-lo e tudo estava baseado na suposição de que a minha saúde
continuaria bem. Eu estava no meio da minha vida e, embora não
estivesse percebendo, eu estava perdido.
Foi um ano de luta espiritual e crise pessoal. Eu tinha crido em
minha invencibilidade física e estava certo de que Deus faria o meu
sonho acontecer se eu continuasse tentando servi-lo. Mas, de
maneiras que eu não conseguia ver naquele momento, meu
relacionamento com Deus havia minguado. O meu sonho é que ele
me mantivesse funcionando e de maneiras sutis o sonho o havia
empurrado para o lado. Toda a minha vida tinha se tornado o meu
trabalho e o que ele poderia fazer por mim. Quando a minha idolatria
foi revelada, pareceu que Deus não estiva ali. Eu procurei por ele,
mas não conseguia encontrá-lo. Não conseguia experimentar a doce
comunhão que antes eu conheci. Estava ficando cada vez mais
deprimido e era quase impossível dormir à noite. Parecia que eu
estava dando as costas para tudo o que eu disse e defendia. Eu havia
dito às pessoas que não importa qual a situação, Deus as faria superar,
mas ele não me havia feito superar. Mais do que um baque em minha
fé, sair do meu trabalho foi um baque em meu orgulho, porque havia
sido tudo a meu próprio respeito. Fui tentado a acreditar que Deus
não estava nisso tudo, mas no centro do meu coração eu sabia que ele
estava.
Deus estava comigo e estava trabalhando em mim. Somente
porque tinha dificuldade de vê-lo não significa que ele não estivesse
ali. Deus trouxe seu povo e sua Palavra para mim. Eu lia Hebreus 11
repetidamente. Estudei a vida de Abraão e Moisés. Era difícil aceitar
a morte definitiva do meu sonho e foi devastador encarar a realidade
de que provavelmente eu não conseguiria nunca mais trabalhar
novamente, mas comecei a dar pequenos passos de fé novamente”.

O INIMIGO DE DENTRO
“Eu não sei outra forma de dizer, mas eu não era mais o mesmo
homem de quinze anos atrás. O meu coração não estava no mesmo
lugar em que estivera. O meu relacionamento com Deus não ficou no
mesmo lugar. Mas tudo isso havia sido mascarado pela minha
contínua participação nas coisas que cristãos sinceros fazem. Eu não
parei de ir à igreja. Eu não renunciei a meu presbiterato. Continuei
envolvido em ministério, mas meu coração era cada vez mais
governando por um desejo ardente de ter sucesso profissional, pois o
meu trabalho era a chave para alcançar todos os sonhos que eu havia
abrigado em meu coração.
Sem nenhuma decisão formal de esquecê-lo, na verdade, eu estava
longe de Deus. Ele não estava mais em minha vida. Quando a minha
carreira foi tomada de mim, foi como se Deus não estivesse ali. Eu
pensava que tudo o que eu estava fazendo era para o Senhor. Pensava
estar demonstrando todos os dias que Deus podia me fazer superar
qualquer situação, mas era tudo por causa de mim mesmo. Eu fui
confrontado com o orgulho de minha própria vida.
É tentador pensar que quando você vira as costas para Deus ele
fica bem ali, parado, esperando por você, e que tudo em seu
relacionamento será prontamente restaurado, mas não foi dessa forma
que aconteceu comigo. É evidente que Deus esteve sempre ali, pois
ele prometeu que nunca me abandonaria. O problema é que eu havia
me apartado dele! Os hábitos do meu coração, que antes foram uma
parte diária da minha vida, haviam sido substituídos por outros
hábitos. Eu não era a mesma pessoa, então, voltar se tornou mais um
processo do que um evento. Eu não parecia querer abrir mãos do meu
trabalho, da minha equipe e das coisas que eu construí. Continuei
indo ao trabalho, ainda que estivesse em invalidez. Eu queria muito
estar ali porque aquilo havia se tornado a coisa que me definia e me
dava significado de vida.
Aqueles primeiros meses em invalidez foram uma luta enorme. Eu
havia sido a principal força de trabalho na empresa. Eu ajudei a
construir esse negócio. Eu havia definido os padrões de
relacionamento com empregados e clientes. E havia sido alçado aos
graus mais elevados de planejamento e poder. O dono havia escolhido
a mim como mentor dos seus filhos. Eu tinha ido de quase nada a um
salário de seis dígitos. Eu não deveria ser colocado de lado. Eu não
deveria estar em invalidez. Isso não deveria estar acontecendo. O que
fazer de todas as coisas com as quais eu estava contando e as que
estava planejando adiante? Eu estava começando a ver o que estava
acontecendo no meu coração, mas era difícil. Era como estar em uma
guerra. Eu queria experimentar paz interna, mas não havia nenhuma.
Perguntas e confusões inundavam o meu coração. Eu queria estar
bem com Deus, mas eu não poderia imaginar como seria a vida sem o
meu trabalho.
Entrar em invalidez me fez sentir como um perdedor, como meio-
homem. Eu deveria ser forte, disciplinado e perseverante. Eu deveria
estar disposto a levantar todos os dias e contribuir para o meu
trabalho e minha família. Mas fui relegado a um recebedor. Deus
começou a usar esse fato para revelar a idolatria do meu coração. Eu
havia tentando encontrar ‘vida’ longe dele.”

VENDO A DEUS
“Ao mesmo tempo Deus estava fazendo mais do que revelar a
profundidade da minha idolatria; ele estava relevando a si mesmo
para mim. Ele usou Êxodo 33 (onde mostrou sua glória a Moisés)
para me mostrar o seu propósito, sua presença e sua glória. Eu
comecei a ver Deus e sua mão amorosa e poderosa. Eu tinha muitas
razões para ser grato. Deus tinha me dado muitos bons anos do ponto
de vista físico, cheios de atividades mais maravilhosas do que eu
merecia. Eu tinha uma esposa maravilhosa, que era a minha melhor e
mais querida amiga. Eu tinha participado de ministérios importantes e
gratificantes em minha igreja. Tinha amigos cristãos queridos e fiéis.
Havia sido ensinado na Palavra de Deus. A minha vida era muito rica
e o Deus que tinha me dado todos esses dons estava comigo naquele
momento.
Em meu orgulho, eu estava a caminho do desastre. Deus havia me
dado mais anos de força e sucesso do que você jamais poderia
imaginar que uma pessoa com EM teria. O que na verdade era um
dom havia se tornado uma demanda e assim, eu estava determinado a
esticá-lo mais e mais. Se Deus não tivesse intervindo em minha vida
eu teria forçado até que estivesse em uma cadeira de rodas. Ainda
assim, com todos os insights que Deus estava me dando, e com a
capacidade de ver a sua presença em minha vida, não era fácil. Eu
tive de encarar uma das decisões mais difíceis da minha vida, que
alterava não somente a minha própria vida, mas a vida de minha
esposa e de meus três garotos. Eu podia ver a mão de Deus em tudo,
mas eu não sabia o que estava do outro lado.
Eu estava encarando perdas enormes e mudanças nas finanças. O
seguro para invalidez foi acionado e, de maneira maravilhosa, a
minha empresa estava cobrindo o meu seguro de saúde, mas a minha
vida financeira nunca mais seria a mesma. Nunca haveria uma casa
de veraneio. Eu não conseguiria pagar a faculdade dos meus filhos.
Teria de fazer um refinanciamento imobiliário e ser cuidadoso com
aquilo que gastava. Deus foi fiel em suprir as nossas necessidades,
mas eu não tinha mais a condição financeira dos meus sonhos e não
era mais a pessoa produtiva e de sucesso que amava ser.
Uma vez que você encara as suas perdas, a próxima pergunta é: ‘E
agora?’ As coisas que comumente ocupavam meus pensamentos
foram tiradas. Havia um buraco enorme em minha vida e eu não sabia
como conseguiria preenchê-lo. O que faria com todo o meu tempo? O
que poderia ser, pelo menos em parte, tão gratificante quanto o meu
trabalho? Como eu usaria os meus dons e experiências? Como seria
levantar de manhã e não ir para o trabalho? Como seria não ser mais a
pessoa que outros procuram para resolver os problemas? Meus
primeiros olhares para o futuro pareciam bastante sombrios e vazios.
Mas por meio do ministério de irmãos no corpo de Cristo, Deus
estava começando a construir uma nova visão em meu coração. Eu
sempre havia sido bom no trato com pessoas. Sabia como mentorear e
encorajá-las, e Deus queria me usar em seu reino. Ele estava no
processo de me converter do meu reino para o reino dele, e estava
pronto para me fazer mais ocupado no trabalho do seu reino do que
eu jamais pensara ser. Havia oportunidades de continuar a ser sal e
luz em meu emprego anterior à medida que prestava algum trabalho
de consultoria ou resolvia questões pessoais. Os meus dias e semanas
em breve passaram e ficar cheios de oportunidades de ministério. Eu
tinha muitas oportunidades de aconselhar e discipular homens que
estavam enfrentando problemas. Fui convidado para ser membro
fundador do conselho diretivo de uma fundação missionária muito
legal. Como tinha tempo, ajudei com a organização legal da
fundação. Eu vi a mim mesmo em diversas situações de
aconselhamento de casais. Eu não estava sentado em casa me
sentindo como um perdedor, pensando no que fazer com o meu
tempo. O Senhor graciosamente preencheu a minha agenda com
pessoas e coisas importantes para fazer. Eu comecei a ver que
realmente havia vida após a minha carreira.
Agora eu sei que a minha crise da meia-idade não era o fim. Eu
havia ficado perdido no meio do caminho, mas, pela graça de Deus,
não fiquei perdido por muito tempo. A crise foi, na verdade, um
resgate da escravidão de algo que nem mesmo eu sabia que estava me
prendendo. E não foi somente um resgate; foram as boas-vindas para
um novo começo. Ainda que a minha doença tenha tornado
impossível para mim trabalhar do jeito tradicional, eu me levanto e
trabalho todos os dias, e ainda estou ansioso, olhando adiante para
muitos outros anos de labor útil no reino de Deus. Eu não sei o que o
meu futuro físico guarda para mim, mas sei que sou um filho de
Deus, que ele está comigo a cada momento e que a sua graça é maior
do que qualquer fraqueza ou desapontamento que eu possa enfrentar.”

ENTENDENDO TUDO
Embora pareça não fazer sentido que Deus permita que tal coisa
aconteça com um homem tão bom, bem no meio da vida, você pode
contemplar a história de Don e ver que o resultado foi bom. Sim,
perguntas ainda nos incomodam. Será que essas coisas boas precisam
custar tanto assim? Será que todo mundo tem de chegar na meia-
idade primeiro antes de realmente começar a experimentar a plenitude
de sua identidade em Cristo e a grandeza do trabalho no reino de
Deus? Como é que as coisas se tornam mais importantes do que
deveriam? Como é possível para nós mudar de maneira tão profunda
e nem perceber? Será que tenho de ficar olhando para trás, pensando
quando é que Deus vai me derrubar assim como fez com Don? Como
eu reconheço quando o meu trabalho (ou condição física, ou
aparência ou relacionamentos) se tornou mais do que um trabalho
para mim? Porque é que tantas pessoas se perdem bem no meio da
vida?
Você não pode jogar teologia abstrata na história de Don e
entendê-la dessa forma. A única forma de entende-la é vendo-a pelas
lentes de outra história. O drama de Don é, na verdade, um
minicapítulo de um drama muito maior. Embora Don estivesse
lidando com questões importantes e pessoais, ele não estava no palco
central de sua própria história. Somente quando Don viu a sua
história como parte da história maior é que ele começou a conhecer a
vida verdadeira e esperar novamente.
Dessa forma, a história de Don é a nossa história. Nós também
vivemos no meio de nosso próprio minidrama. Talvez o seu não
pareça ser um minidrama, mas um gigantesco e impossível. Você
sente o calor do holofote como se fosse tudo a teu respeito. Você fica
com medo de fazer uma bagunça enorme. Mas você também é
somente um capítulo da história mais importante do mundo. Você
fica mais perdido quando não consegue ver além da história do seu
próprio drama pessoal, porque os detalhes de sua pequena história
não fornecem informação suficiente, razão e sabedoria para ajudá-lo a
entender o que realmente está acontecendo.
No resto deste livro, vamos examinar a história maior e como ela
nos ajuda a compreender e saber o que fazer com as lutas poderosas
da meia-idade.

O MELHOR LIVRO DE HISTÓRIAS DO MUNDO


Quando nossos filhos eram pequenos, gastamos um monte de tempo
lendo histórias para eles. Lemos grande fábulas, levando-os para
mundos imaginários de mistérios e coisas maravilhosas. Eu fazia
séries de histórias para contar para os meus filhos. Uma das séries que
eles amavam era sobre um menino (Flyppy) e seu sapo (Hoppy).
Noite após noite nós seguíamos Hoppy e Flippy em uma aventura
após a outra. Eu também lhes contei histórias sobre Billy, uma
criança comum da vizinhança que tinha descoberto uma lata de tinta
antigravidade. Noite após noite eles seguiam Billy e sua turma de
amigos em outra história que desafiava a gravidade. Essas histórias
visavam ensinar, entreter e maravilhar, mas todas as histórias que já
foram contadas são incapazes de conter a sabedoria e as maravilhas
que são encontradas no melhor livro de histórias do mundo, a Bíblia.
Como escrevi antes, é vital que não nos aproximemos da Bíblia
como um esboço teológico expandido, uma enciclopédia teológica ou
um compêndio dos problemas humanos e soluções divinas. Nem a
Bíblia é somente uma coleção de histórias e suas interpretações. Em
vez disso, a Bíblia é uma história que vai de capa a capa. Cada
minidrama na Escritura é um fio da corda do maxidrama que abrange
todo o livro. Os fios individuais somente fazem sentido se entendidos
à luz da corda toda. Se você tentar entender histórias individuais
sozinhas, você extrairá conclusões que parecem fazer sentido, mas
que se provarão sem sentido quando comparadas com a perspectiva
da história como um todo.
Como um filho de Deus, a sua história é um capítulo da história
dele. A Bíblia é Deus constando a história dele de forma que
possamos conhecê-lo, conhecer a nós mesmos e viver de uma forma
que seja consistente com enredo dele. O problema é que não somente
queremos ocupar o centro do palco (que é reservado somente para
Deus), mas também queremos ser romancistas. Gastamos um monte
de tempo tentando escrever a nossa própria história, e ficamos
frequentemente ansiosos e nervosos porque o enredo que escrevemos
não está se desenvolvendo da maneira esperada. Funcionalmente,
poucos de nós de fato vivem com a história de Deus em mente. Nós
ficamos presos em nossa autobiografia. Mas nossa história não nos
pertence.

VIVENDO COM OUTRA HISTÓRIA EM VISTA


O propósito da Bíblia é nos ajudar a conhecer aquele que está sempre
no centro do palco, de forma que possamos viver com uma
mentalidade da história de Deus, decidindo e agindo de maneira que
se adéque dentro do enredo da história dele. A Bíblia não foi dada
para resolver todos os nossos problemas, somente a eternidade fará
isso. A Bíblia foi dada de forma que o Deus da história seja o Deus
do teu coração e você viva com um compromisso profundo e pessoal
com o sucesso da história dele.
A meia-idade é a colisão ordenada por Deus entre duas histórias.
Mesmo enquanto Don não entendia isso, havia duas histórias
antagônicas se desenvolvendo na vida dele. Ambas não podiam
coexistir, pois estavam em direta competição pelo coração de Don.
Elas definem vida, identidade, significado e propósito de maneiras
totalmente diferentes. Ambas competiam pelo tempo, energia, dons e
compromisso de Don. Ambas motivaram Don com um conjunto de
promessas e recompensas. Ambas advertiram Don sobre o que
aconteceria se ele saísse daquela história. Essas histórias coexistiram
por muito tempo, assim, Deus, por meio da doença física de Don,
permitiu que elas colidissem. Essa colisão dramática e dolorosa não
foi Deus virando as costas para Don, mas Deus virando a sua face em
direção a ele. Não era uma final, mas um novo começo dado por
Deus.
Para experimentar o novo começo dado por Deus, Don abriu mão
de sua pena de escritor e viu a honra e descanso encontrados em ser
uma personagem da história do Senhor. Don teve de mudar o lamento
por aquilo que havia perdido em celebração pelo que havia ganhado.
Mas era difícil. Houve muitos momentos em que foi tentado a voltar
para o Egito, quando se sentiu mais destruído do que abençoado.
Houve momentos em que Deus não pareceu tão bondoso assim. Mas
Don não voltou atrás, porque começou a viver com a mentalidade da
história de Deus de maneiras que nunca fizera antes.

OS TEMAS DA HISTÓRIA
Sete temas proeminentes perpassam a trama da história de Deus.
Esses temas definem o Deus que está no centro, de forma que são
essenciais para entender qualquer coisa que passe em seu próprio
minidrama. Quando a história de Deus começar a te impressionar e
maravilhar, você nunca mais será seduzido pela pseudoglória de
qualquer história que você poderia escrever para si mesmo. Os temas
da história de Deus se tornam sinais luminosos de sabedoria, coragem
e esperança, explicando as lutas da meia-idade e apontando o
caminho para fora delas.
1. A história de Deus é sobre o sofrimento. É difícil de aceitar,
mas um dos temas mais dominantes da história de Deus na Escritura é
o sofrimento. É um drama de sofredores, e, se você está dentro da
história de Deus, não há como evitar isso. A questão não é se você vai
sofrer, a questão é o que você vai fazer quando estiver sofrendo.
Assim, compreender o sofrimento é uma parte crítica do que significa
viver com a mentalidade da história de Deus. O sofrimento da meia-
idade não é um obstáculo na história, mas parte integrante dela.
2. A história de Deus é sobre controle. Nenhum de nós gosta
quando nossa vida está saindo do controle. A maioria de nós tende a
perder o controle mesmo nos pequenos momentos, quando as coisas
não acontecem do jeito que planejamos (uma conta que não
estávamos esperando, um pneu furado em uma manhã corrida, a gripe
durante a viagem de férias, etc.). Nós gostamos que nossos mundos
sejam organizados e previsíveis. Gostamos de olhar para a frente e
ver os nossos planos se cumprindo, sem obstruções. Achamos difícil
descansar sob o controle de outra pessoa. Mas é exatamente isso que
a história de Deus nos convida a fazer: nos rendermos ao controle de
outro.
3. A história de Deus é sobre a adoração. Adoração é o tema
mais importante da história de Deus. Adoração é o drama por dentro
de cada drama na história de Deus, ainda assim, você pode facilmente
perde-lo. Quando pensamos em adoração, frequentemente pensamos
em um grupo de pessoas com roupas legais, sentados em fileiras, com
hinários nas mãos, cantando ao Senhor. Aquele é um ato formal e
corporativo de adoração, mas é somente uma parte pequena daquilo
que a Bíblia quer dizer quando fala sobre adoração. A crise da meia-
idade é uma crise de adoração. Se você consegue entender isso, está
bem perto de entender a sua luta e o que fazer com ela.
4. A história de Deus é um drama de identidade. Há algumas
outras questões importantes que você pode perguntar: “Quem sou
eu?” Poucos de nós perguntam regularmente essa questão de uma
forma filosófica ou abstrata, ainda assim, estamos sempre definindo a
nossa identidade e fazendo escolhas consistentes com aquilo que
pensamos ser.
5. A história de Deus é a respeito de valores. A crise da meia-
idade é a respeito daquilo que é realmente importante na vida. A
medida que vivemos cada dia, as coisas que não deveriam ser tão
importantes se tornam grandes para nós e coisas que foram feitas para
ser muito importantes dificilmente recebem a nossa atenção. A cada
dia procuramos obter as coisas que são importantes para nós e nos
desfazer de coisas que pensamos não ter valor. As histórias também
são construídas ao redor daquilo que é valioso, e somente quando tem
toda a história nas mãos é que você pode avaliar acuradamente o que
é valioso e o que não é. Deus revela o começo e o final da história
dele de forma que, no meio, não fiquemos perdidos sobre aquilo que
realmente é importante.
6. A história de Deus é a respeito da graça. Muitos pensam na
Bíblia como um livro de regras, mas ela é realmente um drama de
graça. Essa graça que está em cada página da história de Deus é
muito mal compreendida, ainda que defina quem somos, o que
precisamos e o que devemos procurar. Quando você realmente vê e
entende isso, você tem uma forma completamente nova de responder
à dor e ao desapontamento desse período da vida.
7. A história de Deus é sobre a eternidade. Você não precisa
ficar perdido e confuso por que Deus, em sua misericórdia, nos conta
o final da história. Cada momento presente está conectado ao futuro,
assim, o hoje somente pode ser compreendido propriamente quando
visto da perspectiva da eternidade. Sem essa perspectiva eterna a vida
explode no caos de confundir os minidramas que não levam a lugar
algum. A história de Deus tem uma direção e um final. Visto que o
final define o meio, as perspectivas da eternidade são essenciais para
explicar as lutas da meia-idade.

UM OUTRO REINO, O REI MELHOR


Todos os dias milhares de Dons se levantam pela manhã e ficam
pensando o que aconteceu com a vida deles. Talvez os seus
pensamentos logo pela manhã sejam cheios de ira. Você trabalhou
duro e fiz o que era correto, ainda assim tem pouco a mostrar por
todos os seus anos de perseverança de dedicação. Ou talvez a sua
mente esteja inundada de inveja amargurada. Você pode resistir a
ficar analisando a vida de outros e fica se perguntando por que os
maus estão vencendo. Talvez acorde para um corpo que não lhe
responde direito. Você simplesmente se sente velho, como se a vida
estivesse passando e não houvesse nada que pudesse fazer para evitar.
Também pode estar consumido por profundo remorso. Falhou em
manter tantas promessas e deixou tanto potencial sem uso. Mesmo
sendo o caso de sempre tentar fazer o melhor, ainda se sente como
tendo falhado. Talvez acorde para um casamento que há muito perdeu
seu calor e vitalidade, um trabalho que tem sido desprovido de brilho
durante anos ou filhos que não se tornaram o que tinham potencial
para ser. Não era para ser assim! Talvez você pense que algumas
roupas mais joviais e um carro mais rápido o ajudará a negar onde
realmente está na vida. Pastores estão deixando as suas igrejas por
terem se perdido. Casamentos acabam por causa de um marido ou
esposa que se perdeu. Há pessoas deixando os seus trabalhos,
relacionamentos, comunidades e igrejas porque se perderam. Ainda
assim, muitos deles estão convencidos de que o maior problema está
fora deles mesmos.
As lutas da meia-idade não caem foram do círculo da luz das
Escrituras, nem fora dos limites da graça do evangelho. A presente,
poderosa, prática e gloriosa graça de Deus em Jesus Cristo é mais
evidente e efetiva quando nos damos de cara com o muro da nossa
própria fraqueza, inabilidade e pecado. A vida nesse mundo caído é
realmente muito difícil. As coisas ao nosso redor e dentro de nós
simplesmente não funcionam da maneira que deveriam. Acrescente a
isso o fato de que é praticamente impossível ter motivações
perfeitamente puras a respeito de algo por causa do pecado que
guerreia pelo controle do seu coração. E, então, há o fato de que há
tão poucas coisas na vida que você consegue realmente controlar. É
assustador encarar quão fracos, necessitados, dependentes e
impotentes somos. Talvez seja nisso que a meia-idade nos abata com
maior força. A meia-idade não introduz você a um novo você; ela
força você a admitir quem você tem sido o tempo todo. Ao fazê-lo,
você está mais disposto a compreender e receber o que Deus fez por
você em Cristo do que jamais esteve. A meia-idade provê uma
oportunidade de ouro para extirparmos as nossas tendências de
autodependência, autojustiça e egoísmo, a fim de experimentarmos a
plenitude daquilo que somente pode ser encontrado quando vivemos e
dependemos de outro.
Os próximos poucos capítulos vão introduzir você a outro reino.
Ele é amplamente mais bonito e recompensador do que todos os
reinos que enchem a nossa visão e consomem as nossas energias. Mas
nós não vamos simplesmente passear pelo reino; teremos uma
audiência com o Rei. Estaremos ali presentes por seu próprio convite,
escrito de próprio punho, antes da terra ser formada. Se você é um
filho de Deus, esse reino e essa justiça pertencem a você. A suas
despesas já foram pagas e o custo foi a morte. Venha comigo. Traga
desencorajamento, remorso, amargura, ira e desilusão. Apresente-os
ao Rei e veja o que ele fará com eles.
CAPÍTULO 7

FÉ DOLOROSA:
A HISTÓRIA DE DEUS E O SOFRIMENTO

A dor da mente é pior do que a dor do corpo.


— PUBLILIUS SYRUS

Um escravo miserável é a pessoa que faz de si mesma uma roupa para a sua dor.
— GABRIELE D’ ANNUNZIO

Não era nenhum feito heroico. Eu estava só saindo da cadeira para


deixar a sala da família e torci o meu joelho. O breve pico de dor não
continuou por muito mais... até a manhã seguinte. Meu joelho
palpitante foi o meu despertador e, mesmo mudando de posição, não
conseguia fazê-lo parar. Eu acordei dizendo: “Odeio quando isso
acontece”, enquanto mancava até o banheiro, pensando em como
seria passar o dia com essa dor. Logo percebi como seria difícil ter de
passar o dia com um joelho duro e cheio de dor. Entrar no carro
recebeu um novo significado e na hora em que cheguei ao meu
destino, fiquei pensando se realmente queria levantar e andar! Eu
estava frustrado e irado porque aquela dor de junta seria minha
companhia constante pelos próximos dias.
Quanto eu a vi pela primeira vez naquele dia, Luella
imediatamente perguntou o que estava errado. “Eu torci essa porcaria
de joelho”, foi a minha resposta alegre à medida que mancava para
sair da sala. Sentei na sala de estar pensando em como eu odeio ter de
lidar com obstáculos como esse e como tudo seria mais difícil nos
próximos dias até que meu joelho voltasse ao normal. Foi um
momento de meia-idade completo. A minha juventude ágil e cheia de
músculos passou. Eu ainda não estou na fase de um andador, mas
sofrerei dor e inconveniência que estarão comigo até que eu morra.
Foi uma circunstância de sofrimento bem pequena, mas eu não
gostava do que ela parecia predizer.
Às vezes os pequenos momentos são os melhores lugares para
aprendermos coisas importantes. Nos grandes momentos,
cataclísmicos, lutamos tão duro para sobrevier que é difícil aprender
alguma coisa no meio deles. Visto que os nossos pequenos momentos
nos chamam a atenção sem nos confundir tanto, eles podem ser os
melhores professores, o que imediatamente me lembrou de duas
coisas.
Primeiro, tendemos a odiar a dor. Eu sei que essa não é uma
revelação que causará uma mudança de vida para você, mas, permita-
me desenvolver. Ainda que todos saibamos que estamos vivendo em
um mundo seriamente quebrado, onde as coisas simplesmente não
funcionam como deveriam, todos tendemos a viver com uma
expectativa de que conseguiremos evitar certos obstáculos da vida.
Quando planeja o seu dia, você não separa um tempo para a dor
física, dificuldades de relacionamento e situações de sofrimento. E
quando essas coisas aparecem no seu caminho, você, como eu,
provavelmente tende a responder com muito mais surpresa e
desânimo do que deveria, dado ao fato daquilo que você já sabe ser
verdadeiro sobre a condição do mundo no qual você vive. Uma
expectativa sutil de facilidade ininterrupta, unida ao pensamento de
que a vida “boa” é uma vida sem dor nos deixam frequentemente
frustrados, confusos e irados quando o sofrimento cruza o nosso
caminho. É difícil para nós “considerarmos uma alegria” quando a
dor que estamos experimentando não somente não parece ser boa em
si mesmo, mas parece ser um obstáculo desnecessário para alcançar
coisas realmente boas.
Tudo isso no confronta com o fato de que Deus não avalia a vida
da maneira que nós avaliamos. O “bom” dele é radicalmente diferente
da definição que nós carregamos em nossa mente. Como pode ser
bom termos um acidente que consuma o nosso tempo e dinheiro,
atrapalhando o trabalho, o qual é um meio ordenado por Deus para
investir o nosso tempo e fazer dinheiro? Como pode ser bom que um
pai jovem morra, deixando esposa e filhos para se virarem sozinhos?
Como é que guerras e doenças podem ser coisas boas? Por que Deus,
que está completamente no controle e que é a fonte de todas as coisas
boas, sabedoria e amor permitiria que qualquer uma dessas coisas
tenha entrado no mundo? Por que o sofrimento é parte do quadro?
Essas questões são importantes no meio de um livro sobre a meia-
idade porque ela é um momento de sofrimento. Seja a dor interna da
desilusão e remorso ou as dores externas da fraqueza, envelhecimento
ou doença, você não passará pela meia-idade sem algum tipo de
sofrimento. Nos espasmos da dor inesperada da meia-idade, muitas
pessoas tentam todo o tipo de coisas para aliviar a dor, o que só
aumenta o problema.
Essas questões também são importantes porque a grande história
de Deus, da qual a sua história é uma parte, é uma história de
sofrimento. Desde a dor de Adão e Eva, ao serem expulsos do jardim,
às histórias violentas do Antigo Testamento, a tortura e execução de
Cristo, o relato dos santos lamentando em seu caminho para a glória
no Apocalipse, um dos temas dominantes na grande história da
redenção é o sofrimento. É uma história de pecadores sofredores que
vivem em um mundo sofredor e recebem um salvador sofredor, o
qual os guiará ao lugar onde o sofrimento não mais existirá. Uma
teologia robusta e prática do sofrimento é uma das ferramentas mais
essenciais para compreender e enfrentar as lutas da meia-idade.
Ian veio à vida de Serena na faculdade. No começo ela não ficou
nem um pouco interessada nele. Ele simplesmente não era tipo dela.
Não era particularmente bonito ou atlético e certamente não era tão
determinado quanto ela. No entanto, a afeição por ele começou a
crescer. Ian era firme e confiável, um homem de caráter e convicção.
Amava a Deus e parecia ser muito bom no trato com as pessoas. Ele
era um dos poucos homens em quem Serena podia confiar. Ela se
acostumou a tê-lo por perto, gostava da sua companhia e procurava os
conselhos dele. Durante o tempo de faculdade gastaram a maior parte
do tempo livre juntos e iam na casa um do outro nos feriados. Os
domingos eram sempre especiais porque iam juntos à igreja e então
passavam uma tarde calma juntos.
Entre o terceiro e o último ano de faculdade, Ian viajou até a
cidade natal de Serena e pediu a mão dela em casamento. Não foi um
daqueles pedidos impressionantes e memoráveis, esse não era o estilo
dele. Foi somente um pedido amoroso para que compartilhassem uma
vida juntos, feito em um banco de parque em uma tarde de verão.
Serena imediatamente disse “sim” e começou a sonhar em como seria
a vida com Ian. O problema é que havia um outro sonho dentro de
Serena que colidiria com o de Ian.
O último ano de faculdade foi muito legal. Ambos moravam a
uma distância que dava para ir a pé para a universidade. Estavam
muito ocupados com aulas e trabalhos de meio período, mas davam
um jeito de gastar bastante tempo um com o outro e conversar sobre o
futuro. Serena era uma artista muito competente e tinha sempre
sonhado em trabalhar para uma empresa famosa de propaganda ou
projetos. Ela amava design gráfico, estando entre as melhores de sua
classe na faculdade, com seus professores constantemente dizendo-
lhe que chegaria longe.
Na semana da feira de empregos, Ian estava ocupado e Serena
decidiu ir sozinha. “Que mal faria ver o que estava acontecendo por
lá?”, ela disse a si mesma. Estava somente entrando no centro de
convenção quando viu que no maior estande estava a empresa dos
sonhos dela. Ela foi direto para a mesa e se apresentou. Quarenta e
cinco minutos depois, Serena estava indo para casa com um nó na
cabeça. Ela havia recebido a oferta de um trabalho melhor com um
pagamento melhor do que ela jamais imaginou ter. Foi-lhe garantido
avanço, pois fora colocada imediatamente no lado executivo.
Prometeram a ela cobrir os custos de sua mudança em junho e ajudá-
la a encontrar uma casa nova. Era tudo o que ela sempre quis, a coisa
que ela sempre sonhou para si mesma.
Ela saudou Ian com a boa notícia, mas não pareceu ser uma boa
notícia para ele. Ela falava como se fosse algo decidido. Ele sentiu
como se ela tivesse tomado uma decisão sem ele. Ela sentiu que ele
não estivesse lhe dando suporte, ameaçado pelo sucesso dela e com
inveja do seu sonho ter virado realidade. Ian disse a ela: “Mas Serena,
é do outro lado do país. E o meu futuro trabalho, nossa vida juntos e
ter uma família?” Serena estava irada e na defensiva; Ian tentou lhe
dizer que queria que ela fosse feliz e tivesse sucesso, mas, se estavam
planejando uma vida juntos, então teriam de tomar as grandes
decisões juntos, buscando pela ajuda e sabedoria de Deus.
Aquela noite terminou com Ian frustrado e Serena em lágrimas. O
relacionamento deles nunca mais foi o mesmo. Não importa o quando
tentasse comunicar que não estava com inveja nem tentando roubar
Serena dos seus sonhos, ela não podia ser convencida. Em junho, em
vez de se casarem, terminaram o seu noivado e Serena se foi para a
cidade grande.
Serena agora está com quarenta e cinco anos e é um sucesso em
sua carreira como qualquer um podia imaginar, mas está consumida
por remorso. Ela conseguiu tudo o que sonhou, mas ainda assim se
sente vazia. Reviver aquele dia fatídico se tornou uma obsessão. Por
que ela foi àquela feira? Por que tomou a decisão tão rápido? Por que
esteve tão na defensiva? Por que se permitiu ficar tão amarga e acabar
com seu relacionamento? Por que deixou que o seu sonho se
colocasse no caminho de algo tão maravilhoso que Deus havia
colocado em seu caminho? Como ela pode ser tão cega, tão burra?
Ela não ouviu mais falar de Ian até uma reunião recente dos colegas
de faculdade. Ele agora era um advogado de sucesso de uma pequena
cidade, com três filhos e uma linda esposa.
Serena vivia dia após dia com o peso do pensamento de que havia
acabado com a sua própria vida. Crescentemente ficava pensando por
qual razão, se Deus realmente gostava dela, não a parou. Ela vivia
todos os dias com uma dor que parecia não ir embora. Se sentia
enjaulada. Ela havia conseguido aquilo pelo que sonhou, mas estava
crescentemente paralisada com as visões em seu cérebro daquilo que
tinha abandonado para sempre.

PARA COMPREENDER O SOFRIMENTO, VOCÊ PRECISA DISCORDAR DE


SI MESMO.
Para ter uma concepção bíblica, balanceada, de sofrimento, você
precisa em primeiro lugar dizer que o sofrimento é uma coisa ruim. A
existência dele aponta para todas as coisas que estão erradas conosco
e em nosso mundo. Vivemos em um mundo quebrado, que geme sob
o peso de todo o dano que a queda causou. Nunca devemos olhar para
toda a carnificina e dizer que é normal que as pessoas sofram. As
Escrituras nos chamam a ser uma comunidade de compaixão,
motivada pelo amor e cuidadosa em aliviar e remover o sofrimento
onde e quando pudermos. E a Bíblia promete que haverá um dia
quando toda carnificina acabará para sempre, e nós seremos bem-
vindos em um lugar totalmente livre de qualquer dor ou sofrimento.
Tendo dito tudo isso a si mesmo, você agora precisa dizer que o
sofrimento é uma coisa boa. O sofrimento é um mal que um Deus
todo-sábio, todo-justo e todo-poderoso usa para o bem eterno. A
Bíblia nova e novamente fala sobre as boas coisas que o sofrimento
pode produzir (veja Romanos 5.1-5, Tiago 1 e 1Pedro 1.3-9). Em
cada uma dessas passagens nós encaramos o fato de que Deus é
soberano e bom, não somente nos momentos de bênçãos, mas
também nos momentos de sofrimento. Quando você procura entender
o sofrimento biblicamente, não pode optar por um “isso ou isso” fácil.
Não, você precisa sustentar as duas perspectivas aparentemente
opostas. Para estar certo a respeito do sofrimento, você precisa
discordar de si mesmo. O sofrimento que todos nós experimentamos
nesse mundo caído é muito, muito ruim, no entanto, mas mãos de
Deus, ele se torna algo que é muito, muito bom. Nesse sentido, não é
que você somente pode ter as duas perspectivas, mas você precisa
fazer isso.
Tanto a dor física do corpo quando a dor dilacerante do coração
que vem do remorso nos relembram de que as coisas não são do jeito
que deveriam ser. Coisas ruins acontecem com pessoas boas o tempo
todo. Envelhecimento e remorso são sinais visíveis da morte física e
espiritual que o pecado trouxe ao mundo. Isso não é uma coisa boa.
Mas os sofrimentos da meia-idade também não são uma coisa
inteiramente ruim. Você está perdido se pensar que o sofrimento na
meia-idade é um sinal da distância, infidelidade ou desatenção de
Deus ou que ele é uma evidência de que Deus, de alguma forma, é
mau. A Bíblia é tão forte no seu chamado para vermos aquilo que o
Deus bom faz nos maus momentos, que ela nos chama a saudar as
nossas tribulações com alegria! (Tiago 1.2). Quando foi a última vez
que você realmente se alegrou em meio ao sofrimento? Esse balanço
é difícil, tanto para compreendermos quanto para vivermos e, assim,
tendemos a oscilar entre dois extremos. Se alguma outra pessoa está
sofrendo, tendemos a ver o “bem” que pode resultar, mas se é o nosso
próprio sofrimento, somos tentados a desconfiar do amor e da
fidelidade de Deus.

A CRUZ, LUGAR ONDE O MAL DEFINITIVO E O BEM DEFINITIVO SE


BEIJAM
Não há lugar melhor para entender e lidar com o sofrimento do que
naquele monte do Calvário. É aqui que as duas perspectivas
antagônicas sobre o sofrimento se unem como peças essenciais de um
momento definitivo de esperança. Pedro, em seu grande sermão de
Atos 2, entende esse balanço essencial de forma completamente
correta. Primeiro, Pedro diz que Jesus de Nazaré foi “entregue pelo
determinado desígnio e presciência de Deus” (v. 23). Deus estava no
controle em cada momento do sofrimento de Cristo. Ele sofreu e
morreu porque Deus ordenou que isso acontecesse, de forma que o
pecado pudesse ser derrotado e a redenção fosse concluída. A
crucificação não foi um momento onde o mal ficou fora de controle.
Na cruz, o amor e a justiça não estavam sendo derrotados; estavam
vencendo. A cruz foi o momento da maior vitória de Satanás, mas
também a sua maior derrota. Assim, Pedro essencialmente está
dizendo: “Você não vê, Deus estava no controle de tudo isso, fazendo
algo que resultaria na salvação do seu povo”. A cruz foi uma coisa
muito boa. Então Pedro se vira e diz algo igualmente importante. Ele
diz, “vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (v. 23).
Pode existir algo mais terrivelmente mau do que matar o Messias?
Não é uma coisa muito ruim fazer chacota de um sistema de justiça e
da evidente inocência de um homem a fim de matá-lo? Não é isso
tornado ainda mais odiável quando você entende que esse homem era
o filho de Deus? Poderia haver um ato mais insensível do que enfiar
uma cruz de espinhos na cabeça e pregar pregos nas santas mãos do
Filho do Homem? Você consegue pensar em algo mais
arrogantemente mau do que dar um tapa, cuspir nele e arrancar
pedaços de sua barba? Poderia algo ser uma traição maior do que
vender o Messias para os seus executores por umas poucas moedas de
prata?
Pedro relembra a você e a mim de que não podemos olhar para a
cruz e simplesmente dizer que foi uma coisa boa. Foi a coisa mais
horrivelmente má já feita na história da humanidade. Nós matamos o
único digno de nossa adoração que andou na terra. Condenamos a
única pessoa que viveu sem jamais ter culpa. Impetramos a punição
capital contra o único “criminoso” totalmente inocente em tudo que já
viveu. A crucificação de Cristo foi uma coisa terrivelmente má.
Ainda assim, Pedro sustenta uma concepção sem abrir mão da outra.
Elas são inseparáveis para ele, como deveriam ser para nós.
Considere o porquê desse balanço ser tão importante para a nossa
compreensão da cruz. Primeiro, é absolutamente necessário que Deus
esteja no controle de todas as coisas, boas e más, de forma que seja
capaz de cumprir cada promessa redentiva que fez aos seus filhos. A
soberania completa é essencial para o cumprimento da redenção.
Deus precisa ter poder e autoridade impossíveis de desafiar a fim de
fazer qualquer coisa necessária para redimir seus filhos, ou suas
promessas não significam nada e não há esperança para nós. Isso
significa que ele governa sobre todas as coisas, mesmo aquelas coisas
que nós chamamos de más, e as usa para o seu propósito redentivo
bendito. Sabemos, a partir da especificidade das profecias do Antigo
Testamento, que Deus ordenou e controla cada ato mau que é feito
contra Cristo. Deus não foi pego de surpresa naquela semana da
paixão, nem ficou lutando para conseguir encontrar uma forma de
vitória nas presas da derrota. Pedro disse que Deus sabia exatamente
o que iria acontecer porque havia ordenado tudo. Todo o mal feito
contra Cristo era parte de uma coisa muito boa que Deus estava
fazendo, redimindo o mundo do pecado e da morte. Você tem de
chamar a cruz de uma coisa boa.
Ao mesmo tempo, em nenhum lugar a Bíblia afirma que a
soberania de Deus absolve as pessoas más de sua responsabilidade
pelo mal que fizeram. Naquela semana da Paixão, homens maus
fizeram escolhas más de condenar, torturar e executar o Messias.
Cada participante é culpado por cada uma de suas escolhas e por cada
ação tomada. Ninguém é capaz de dizer: “eu não tive escolha”. E
ninguém pode olhar para aquelas escolhas e chamá-las de boas.
Reconhecer que a crucificação foi uma coisa muito má, feita por
pessoas moralmente más, ilumina a necessidade daquilo que a própria
cruz foi planejada para realizar. O mundo é realmente assim tão mau.
O pecado é realmente assim tão mau. O coração do homem realmente
é tão escuro ao ponto de odiar o que é bom e amar o que é mau. As
pessoas realmente sofrem por erros que não cometeram. A cada dia
pessoas passam por rejeição que despedaça o coração e por maus-
tratos físicos. Cada ato de injustiça e maus-tratos físicos ou
emocionais é uma violação da lei de Deus e, portanto, maus. A cada
dia pessoas sofrem de fraquezas e doenças em um mundo que já não
mais é um jardim sem riscos e lindo. A Bíblia nunca chama você para
olhar para esse mundo quebrado e caído e dizer que, visto que Deus
está no controle, está tudo bem. A Bíblia nos convoca a chorar, lutar e
orar, clamando por libertação para um lugar onde o mal não mais
viverá. As circunstâncias que circundam a morte de Jesus provam
exatamente a razão pela qual ele teve de morrer: esse mundo é um
lugar muito mal e carece desesperadamente de redenção.
Assim, naquele monte, naquele dia fatídico, para a glória de Deus
e o bem do seu povo, o mau definitivo e o bem definitivo se beijaram.
Quando você vê e entende a cruz biblicamente, pode começar a ter
uma perspectiva balanceada do sofrimento, o qual é uma parte tão
importante da meia-idade.
Enquanto vive nesse mundo caído, você será puxado para cada
um dos lados dessa contradição. Haverá momentos quando encontrará
dificuldades que parecem incapazes de produzir qualquer bem.
Haverá outros momentos em que será capaz de ver o bem específico
que resultou daquele momento de sofrimento. À medida que enfrenta
as lutas da meia-idade, você deve se tornar confortável com o fato de
ter de discordar de si mesmo, evitando escolher um lado da
contradição para viver. Você tem de exigir de si mesmo experimentar
tanto a tristeza quanto a celebração que podem ser encontradas nos
momentos de dificuldade e dor.
Talvez essa seja a razão pela qual todos nós somos propensos a
odiar a dor. Ela nos força a lidar com coisas que preferíamos ignorar
ou evitar. O sofrimento é como um dentista espiritual. Você sabe que
coisas boas podem vir a partir do seu trabalho, mas também sabe que
o processo é doloroso e preferiria evitá-lo, se possível. Assim, você
faz tudo o que pode para convencer a si mesmo de que o seu dente
está bem. Da mesma forma, eu e você gostamos de pensar que seria
possível adquirir as coisas que o sofrimento produz sem ter de passar
pelo processo doloroso.

A ÚNICA COISA QUE CHAMA A ATENÇÃO DE TODOS


A dor tende a ser a única coisa na vida que sempre chama a nossa
atenção. Não é impressionante como um pequeno corte latejante em
seu dedo tem o poder de quebrar a sua concentração? Quão difícil é
não permitir que algo que te deixou nervoso inunde a sua mente e
domine seus pensamentos ao longo do dia? Não é incrível como a dor
tem o poder de alterar as suas emoções, formar as suas decisões e até
mesmo definir a sua identidade?
Todos nós sabemos que a dor física foi designada como um
sistema de advertência de que as coisas em nossa fisiologia não estão
do jeito que deveriam. A dor anuncia que algo está errado e, portanto,
é perigoso ignora-la. A dor existe porque o mundo está em um estado
degradado, caído. O mundo em que vivemos é uma casa de dor e não
podemos viver sem que ela nos toque. Você nunca será esperto o
suficiente para escapar do alcance dela. Da violência do nascimento
até cortes no dedo e joelhos esfolados, sarro dos irmãos, rejeição dos
colegas e lutas familiares, o sofrimento está em toda a parte da
existência humana. Entramos na vida por meio de sofrimento e
saímos dela pela porta do sofrimento.
O que isso significa para a lutas da meia-idade? Significa que elas
não são únicas. Nenhuma pessoa passa de um estágio para outro sem
ser tocada. Os sofrimentos da meia-idade somente são únicos no
sentido de que estão ligados à situações e relacionamentos daquele
momento da vida. Mas, o que você deve fazer em meio ao
sofrimento? Ouça a sua dor. Ela está dizendo algo que precisa ser
ouvido. Aqui estão algumas coisas que a sua dor está anunciando a
você:
1. Você vive em um mundo caído. Dos temas deste livro, esse é
um dos mais tristes, e inevitáveis. Eu gostaria desesperadamente que
não fosse, mas tem de ser. Desde o momento trágico de pecado e
rebelião no Jardim do Éden, o mundo em que vivemos tem mancado
ao longo da história em sua condição aleijada, cambaleando de um
século para o outro. Somente quando você é biblicamente ignorante
ou espiritualmente infantil é que ficará surpreso com o sofrimento
que inflige você e aqueles ao seu redor. Por causa da universalidade
do sofrimento, a nossa vida é mais poderosamente formada por como
sofremos do que pelo fato de que nós sofremos.
Ao longo do curso da sua vida, você é formado e dirigido por
como responde à dor em seu caminho. Todos sabemos que o
sofrimento pode ser o solo no qual santos e heróis crescem, mas
também pode ser um solo fértil para criminosos e covardes. Como a
sua vida está sendo formada, não somente pelo fato de que você
sofre, mas pela maneira que você escolheu lidar com o sofrimento?
De forma mais específica, como a sua vida está sendo formada agora
pela maneira como está lidando com a dor de seu envelhecimento
físico, desapontamento e remorso, os quais tem saudado você nesses
nos da meia-idade?
2. Tem alguma cosa errada com você. É sempre importante
perguntar em tempos de sofrimento, “O que está errado aqui?” O
desapontamento da meia-idade e as desilusões com a vida podem ser
o alarme de Deus, apontando para o fato de que seus sonhos têm
governado o seu coração mais do que você jamais imaginou. Talvez,
sem perceber, eles tenham se tornado substitutos funcionais de Deus.
Ou talvez, as dores físicas e as mudanças da meia-idade sejam uma
lanterna dada por Deus, revelando quanto de sua identidade e
segurança foi colocada em sua saúde e beleza. Ou talvez, durante
esses anos de meia-idade, você esteja lutando intensamente com o
remorso. Você batalhou para ser feliz, satisfeito e grato, mas não
consegue resistir repassar o vídeo de decisões e ações passadas nova e
novamente. Talvez o remorso inescapável e paralisador seja um
indicador poderoso de uma autojustiça que, ao longo dos anos,
funcionalmente deu a você mais conforto espiritual do que o perdão
de Deus. Talvez você se sentisse bem porque imaginasse ser uma
pessoa boa e a arqueologia da meia-idade esteja descobrindo pecados
do coração, mãos e lábios que tem dizimado a confiança em sua
própria performance.
Pense no que você faz quando um alarme de incêndio dispara.
Você não fica ali sentado ouvindo nem fica nervoso porque o alarme
disparou. Não, você fica grato porque o dispositivo fez o trabalho
dele, chamou a sua atenção e disparou a sua ação. A dor do remorso
visa a adverti-lo e levá-lo a agir. A dor do envelhecimento deve avisar
e chamar a sua atenção.
Você está ouvindo as sirenes dos alarmes da meia-idade? Elas
estão chamando a sua atenção? Elas estão te levando a agir? Você
está grato por estar sendo advertido e resgatado?
3. O seu sofrimento não está normal. É muito importante que
você nunca esteja bem com o seu sofrimento. Todos nós deveríamos
odiar todo tipo de sofrimento. Cada vez que alguém sofre em algum
lugar, somos relembrados de que algo terrível aconteceu, mudando
radicalmente a maneira como o mundo funciona. Esse é o balanço do
lado bom do sofrimento. Algo está muito errado se você não se
importa ou até mesmo fica alegre com o sofrimento de outra pessoa.
O mesmo deveria ser verdadeiro a seu próprio respeito. Você deveria
odiar o fato de que o pecado tenha entrado em seu mundo e estragado
você e tudo à sua volta. Você deveria odiar o fato de que cada
pensamento, motivo, palavra e ação são manchados. Você deveria
odiar o fato de que o meio em que você vive é tão cheio de tentações
e perigos. Você deveria odiar o fato de que não existe uma porta de
escape imediata.
As lutas da metade deveriam deixar você irado. Não somente
porque as coisas não aconteceram do seu jeito ou porque você já não
é mais jovem ou porque você não é independentemente justo, mas
irado por causa daquilo que o pecado fez com a criação original. A
existência do mal, dores e doenças deveria nos lembrar de que somos
pessoas muito quebradas. Esse ódio bem fundamentado do pecado e
dos seus efeitos vai levar cada um de nós a procurar e celebrar a
redenção. Você não vai ao seu médico quando pensa que as coisas
estão bem. Da mesma forma, se conseguir olhar para si mesmo e para
o mundo e não ficar visceralmente impactado pelos efeitos do pecado,
você não vai procurar diariamente o socorro do seu salvador para
lidar com o seu pecado e os perigos da vida neste mundo errado.
4. Você não está sozinho. Um dos maiores erros que todos nós
domos propensos a cometer quando estamos sofrendo é deixar-nos
pensar que fomos deixados de lado. Parte da dor do sofrimento é nos
sentirmos como se tivéssemos sido erradamente transformados em
alvo. Pensando dessa forma, somos sempre capazes de identificar
pessoas ao nosso redor que merecem o sofrimento mais do que nós
(veja o Salmo 73). Assim, pensamos que Deus pegou o endereço
errado. Na verdade, o contrário é verdadeiro. O sofrimento é uma
experiência compartilhada por todos aqueles que já viveram. As
coisas pelas quais sofremos variam imensamente, mas ninguém vive
fora dos limites do sofrimento.
Há duas outras razões pelas quais nunca sofremos sozinhos.
Primeiro, porque todos nós vivemos neste mesmo mundo. Ele é como
a calçada na frente de nossa casa, que já não é mais tão lisa e plana
como deveria ser. Está quebrada e desnivelada por causa das raízes
das árvores crescendo debaixo dela. Assim, você tropeça e cai quando
está andando com o cachorro. Da mesma forma, a vida neste mundo
não é um caminho tranquilo. Na meia-idade você passa a entender
que o pecado deixou a vida quebrada e desnivelada, e você tem
arranhões e cicatrizes por causa disso.
Em segundo lugar, e é humilhante assumir, nós causamos muito
do nosso sofrimento pessoal. E mesmo quando não somos o
responsável pelo nosso sofrimento, geralmente pioramos nossa dor
por causa das coisas erradas que pensamos e fazemos no meio dela.
Visto que somos pecadores, fazemos coisas que atraem o sofrimento.
Pense em quantas vezes o sofrimento em nosso mundo não é
resultado da queda da natureza, mas de decisão ou ação humana
errada. Uma comunidade de pecadores será uma comunidade de
sofredores. Essas duas coisas estão tecidas juntas, inextrincavelmente.
Em meio ao sofrimento da meia-idade, você deve se lembrar de
que não está sozinho. Você tem mais amigos em meio ao sofrimento
do que jamais percebeu. Mais importante, você tem um amigo no
sofrimento, o qual você não deve nunca ser tentado a esquecer. Ele é
aquele amigo que não está somente com você, mas que pode ajudá-lo.
O seu salvador é seu irmão no sofrimento (veja Hebreus 2.10-11). Ele
sabe exatamente pelo que você está passando. Não, ele nunca pecou,
mas visto que viveu trinta e três anos em um mundo caído e morreu
uma morte injusta e cruel, ele sabe por experiência própria a
amplitude total dos efeitos do pecado. Uma vez que sofreu, ele é
capaz de se aproximar e ajudar você nos momentos de sofrimento.
Quando sofre, você está na melhor das companhias. Em seu
sofrimento você é contado junto com o Rei salvador sofredor, seu
irmão e amigo, que é habilitado para te ajudar de maneira única
(Hebreus 4.14-16).
5. O melhor está por vir. A dor e o desapontamento da meia-
idade não deveriam somente fazer você faminto por uma vida melhor,
mas também por um mundo melhor. Deus ainda não terminou; há
mais adiante. Em cada momento de sofrimento há uma promessa de
um mundo novo e melhor, um mundo onde o pecado, a tristeza e
sofrimento não mais terão lugar. Deus não descansará até que cada
um de seus filhos tenha sido resgatado e o mundo tenha sido
totalmente restaurado. Você pode não alcançar uma vida melhor hoje
ou amanhã, mas pode descansar seguro de que um mundo melhor está
vindo. As coisas que sofreu serão como pontinhos de um mapa,
quando comparadas com as grandiosas glórias que experimentaremos
por toda a eternidade (veja Romanos 8.18 ss).

SOFREDORES E A HISTÓRIA DE SOFRIMENTO


Quando leio outros autores, pego a mim mesmo prestando atenção
nas coisas que fizeram para escrever os seus livros. Há algo que
descobri a respeito dos bons romancistas. Eles nunca assumem que
você vai se lembrar do enredo enquanto lê os detalhes da história,
assim, encontram formas de resumi-lo para você. Talvez em uma
conversa que relembre o passado ou em uma sequência de sonho ou
investigação legal. Cada um desses trechos dá ao autor uma
oportunidade de sumariar o enredo para você. A Bíblia, sendo a
melhor história do mundo, é dotada de sumários do enredo. Esses
sumários dão uma visão panorâmica de nossa vida, uma visão que
sempre devemos manter no lugar se quisermos viver nossa vida do
jeito de Deus. Eles normalmente vêm logo antes de Deus nos dar um
conjunto de instruções práticas. Os mandamentos que seguem aos
sumários não são exatamente um roteiro, como se Deus estivesse nos
dizendo exatamente o que fazer ou dizer às 22:30, na quinta-feira, 3
de junho. Eles são direções sobre como viver dentro do enredo da
história de Deus.
É assim que funciona: o sumário te dá as informações que você
precisa para compreender biblicamente o que está acontecendo em
sua vida e as direções que seguem te dizem como responder a isso.
Eu quero mostrar a você um desses sumários da história que tem a
ver com o nosso tópico. Ele é escrito para pessoas que estão sofrendo
e é seguido por um conjunto muito prático de instruções que se
encaixam perfeitamente com as questões da meia-idade. A Primeira
Epístola de Pedro é, provavelmente, o tratado sobre sofrimento mais
claro e concentrado da Bíblia, assim, faz sentido que ele comece com
um sumário da história de redenção de Deus. Quando você está no
meio do doloroso calor da dificuldade, é muito difícil manter a figura
maior em mente. É muito fácil que a sua cosmovisão fique tão
pequena quanto a dificuldade que está vivendo naquele momento.
Quando isso acontece você começa a viver mais para sobreviver do
que por um propósito. Isso, frequentemente, leva a decisões e ações
das quais depois você se arrepende. Assim, depois de uma breve
saudação, Pedro começa a figura maior.

ENTÃO-ENTÃO-AGORA
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita
misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de
Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula,
imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de
Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.
Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais
contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa
fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde
em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; a quem, não havendo visto,
amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia
de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma. (1Pedro 1.3-9)

Você não vai entender o que Pedro tem a dizer sobre sofrimento
no resto da carta a não ser que entenda esse maravilhoso resumo da
história. Ele nos dá a visão panorâmica, a qual dá sentido a tudo o
mais que Pedro fala.
A estrutura do resumo de Pedro é bastante típica dos resumos ao
longo da Bíblia. É um resumo do tipo “então-então-agora”. Pedro
começa com o então do passado. O versículo três resume tudo o que
Deus fez na história redentiva até aquele ponto. Pedro está dizendo:
“Você não vê que desde antes da fundação da terra Deus está
trabalhando em seu novo nascimento? Desde o dia número um ele
tem um único foco: redenção”. Pense sobre essa perspectiva
maravilhosa do Antigo Testamento. Quando nós, como filhos recém-
nascidos de Deus, lemos a história bíblica, não estamos lendo relatos
empoeirados de santos que morreram há muito tempo. Não, mas
estamos lendo a nossa própria biografia, por causa de tudo o que foi
feito tendo em mente o nosso novo nascimento. Pedro quer que
olhemos para trás com as lentes da redenção. O que isso significa?
Significa que cada situação, cada juiz e rei, cada momento de
provação e de vitória, cada batalha, cada profeta, cada promessa e
cada provisão foram feitas para nós! Cada uma foi uma peça crítica
do plano cuidadosamente engendrado e orquestrado por Deus. Cada
momento foi um passo em direção ao tempo quando o Messias viria
e, por sua vida, morte e ressurreição, compraria novo nascimento para
os seus filhos. Nós estamos redentivamente conectados a cada
momento disso. Estamos espiritualmente ligados a cada santo do
Antigo Testamento. Somos irmãos e irmãs na mesma história, aquela
grande história da redenção. Que passado!
Depois, Pedro olha para o então do futuro. Nos versículos quatro
e cinco, ele nos aponta para algo que é igualmente maravilhoso, tanto
quando o que acabamos de considerar. Pedro está dizendo: “Você não
sabe que, por causa do que Cristo fez por você, o seu futuro está
garantido?” Ele diz que nós temos uma “herança incorruptível, sem
mácula, imarcescível”. Pense sobre o que isso significa do ponto de
vista prático. Você tem um fundo de investimento espiritual que
ninguém pode tocar. Ninguém pode tomar de você todas as coisas
pelas quais realmente vale a pena de viver. Elas estão trancadas
seguramente no cofre celestial de Deus. Ninguém pode tirar o amor
de Deus de você. Ninguém pode roubar o seu perdão. Ninguém pode
arrancar o Espírito Santo de dentro de você. Ninguém pode roubar de
vocêm o seu poder ou sabedoria. Ninguém pode levar embora a sua
justificação ou adoção. Ninguém pode espoliar o seu lugar ao lado
dele por toda a eternidade. Ninguém pode extinguir a sua libertação
da presença e poder do pecado. As riquezas reais da vida, que você e
eu nunca poderíamos conquistar, que são somente obtidas como um
dom, nunca estão em risco.
Podem tirar o seu emprego. Podem tomar a sua casa. Podem
deteriorar a sua saúde. Podem rejeitar, oprimir e abusar de você.
Podem roubar as suas poses e esvaziar a sua conta bancária. Podem
roubar amigos e família de você. Mas as coisas mais essenciais e
maravilhosas da vida não estão à venda. Ninguém pode tocá-las. Elas
estão garantidas. Quando essas são as coisas que você preza, quando
essas são as coisas que realmente dão forma e direção à sua vida,
você pode viver com coragem e esperança. O que você achou desse
investimento maravilhoso?
Mas ainda há mais! Preste atenção no que Pedro diz depois,
porque é simplesmente de tirar o ar. Ele diz não somente que a nossa
herança está segura e garantida, mas que nós somos diariamente
“guardados pelo poder de Deus”, de forma que, quando for o
momento de recebermos a nossa herança, estaremos lá para recebê-la.
Deixe-me ilustrar o que isso significa. Imagine que você coloque as
economias de sua vida em um banco local e o gerente te ofereça um
contrato dizendo que nada vai tocar o seu investimento, nunca. Mas
imagine comigo que ele também diga, “além disso, para ter certeza de
que você aproveitará o seu investimento quando realmente valer a
pena, eu contratei o melhor médico do mundo, o melhor cozinheiro, o
melhor personal trainer e o melhor serviço de segurança do país para
proteger você”. É isso que Pedro está dizendo. Nós temos um futuro
absolutamente garantido e absolutamente previsível. Estamos sendo
protegidos pelo poder de Deus a cada dia de forma que estaremos lá
para usufruir o que Deus tão fielmente guardou para nós. Que futuro!
Considere como esses dois “entãos” podem alterar a forma que
você vê as dificuldades da meia-idade no momento. Nós não
podemos permitir que a dificuldade presente fique tão grande aos
nossos olhos que bloqueie a nossa visão do passado e do futuro.
Mesmo o momento mais significante em sua vida não passa de uma
peça em sua história pessoal. A sua história vai desde antes dos
fundamentos do mundo serem lançados até as regiões distantes da
eternidade. Não importa o que você está passando agora, é vital
relembrar que Deus subordinou as forças da natureza, controlou os
eventos da história humana e enviou e sacrificou o seu único filho, a
fim de dar a você novo nascimento. Não importa quão difíceis as
dificuldades do presente pareçam, você precisa dizer a si mesmo,
“Isso não é o ponto final para mim, porque eu tenho um futuro rico e
eterno que foi assegurado e garantido. Não importa o que esteja em
jogo no momento, isso não pode me roubar da nova vida e da
esperança eterna que Deus me tem dado, e aquelas são as únicas
coisas pelas quais se é digno viver.

E AGORA, O AGORA
Embora as perspectivas “então-então” do sumário de Pedro sejam
empolgantes, seu foco primário é o agora. Pedro está respondendo à
pergunta que nós tão frequentemente fazemos, “O que está
acontecendo?” Uma forma mais bíblica de construir a pergunta é: “O
que Deus está fazendo?” A forma de responder a essas duas perguntas
vai afetar profundamente a maneira como você lida com as bênçãos e
tribulações que vem na meia-idade.
Ao definir e explicar o que Deus está fazendo agora, Pedro diz
que “no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados
por várias provações”. Que descrição do que está acontecendo agora!
Neste tempo entre o “então do passado” e o “então do futuro”,
provações de dores são realidades inevitáveis. Você e eu gostaríamos
de ser espertos o suficiente para evitar dificuldades e todo o
sofrimento que vem com elas, mas não somos, e Pedro nos diz o
porquê. Ele diz que essas provações vêm para que (cláusula de
propósito) a sua fé seja refinada. É aqui que encontramos uma
metáfora poderosa, que explica a razão pela qual o período “agora” é
um tempo de provação e dor “inescapáveis”.
Pedro está usando uma metáfora poderosa do mundo da
metalurgia. Quando um metalúrgico mina o metal, ele está em um
estado de minério, com uma mistura de impurezas. Isso significa que
há corrupções inerentes ao metal que o roubam de sua força e beleza.
A fim de trazer o metal ao seu estado mais puro, o metalúrgico aplica
um calor fortíssimo e branco, até que o minério seja liquefeito e entre
em ebulição. Nesse processo, as impurezas são expulsas por meio do
fervor e o minério de torna fundamentalmente mais forte e mais belo
do que antes.
O que são as provações? Elas são a panela de fervura de Deus.
Quando conhecemos a Cristo, chegamos a ele como cristãos
corrompidos por impurezas. Estamos levando corrupções inerentes
dentro de nós, que nos roubam de nossa força e beleza. Assim, Deus,
na grandeza e fidelidade de seu amor redentivo, coloca-nos para
ferver. As dificuldades que aparecem em nosso caminho não são um
sinal de sua infidelidade e desatenção. Não, elas são uma indicação
do seu amor. Ele sabe que ainda não somos aquilo que deveríamos
ser. Ele nos escavou para fora da mina, mas nós precisamos ser
refinados.
Agora, porque é tão difícil lidar com isso? Eu acredito que é
porque somos propensos a viver com uma mentalidade de chegada.
Queremos que a vida seja fácil, alegre e tão boa quanto possível,
imediatamente no aqui e agora. Mas, esse não é o tempo da chegada.
Pedro diz que a chegada ao nosso destino final está garantida, mas,
por hora, não teremos isso ainda. Agora em é um tempo de preparo.
É um tempo de crescimento pessoal e mudança, assim, Deus aplica o
fortíssimo calor branco para nos preparar para o destino que está por
vir.
Pense a respeito das lutas da meia-idade a partir dessa perspectiva.
Por que esse estágio da vida tem de ser marcado por provação
dolorosa? Porque isso é exatamente o que Deus designou, a fim de
completar a coisa maravilhosa que começou em nós. A sua luta não
está acontecendo porque o cristianismo não funciona ou porque as
promessas de Deus não são confiáveis ou porque Deus não é fiel. A
sua luta é, na verdade, uma prova da presença, da fidelidade e do
amor de Deus. Ele está perto de você e ama muito a você para te
deixar em seu estado bruto. Ele está fervendo você até que chegue no
estado mais perfeito de força e beleza, a semelhança de Cristo.
Estou profundamente convencido de que precisamos pregar a
teologia da graça desconfortável uns para os outros. Pedro diz que as
provações que no entristecem são provações da graça. Deus está
paciente e perseverantemente fazendo exatamente aquilo que
prometeu. Ele está nos livrando do pecado e nos formando à imagem
do seu Filho. Estou persuadido de que muitas vezes, enquanto
pensávamos sobre a presença ou não da graça de Deus e clamávamos
por ela, nós na verdade a estávamos recebendo.
O problema é que estamos buscando a graça da libertação,
quando Deus sabe que precisamos da graça do refinamento. Durante
esse período “agora” de preparação, a graça de Deus virá
repetidamente a nós em formas desconfortáveis.
É esse o ponto onde geralmente temos uma agenda de conflito
com nosso Senhor. Nós não ficamos muito empolgados com o sermos
como Cristo e santos. Em vez disso, ficamos empolgados com o estar
ao lado de pessoas que nos amam e nos afirmam. Ficamos
empolgados com filhos que crescem e fazem o que é certo. Ficamos
empolgados sobre fazer planos que se tornem realidade. Ficamos
empolgados com saúde física. Ficamos empolgados com
investimentos que deem um bom retorno. Ficamos empolgados em
ter uma vida segura, com sucesso, sem estresse e previsível. O
problema com todas essas coisas não é que elas sejam erradas de se
desejar. O problema é que nós nos contentamos com muito, muito
pouco. E ficamos surpresos, chocados e desapontados quando Deus
bagunça os nossos planos a fim de nos refinar. Veja, Deus tem
planejado coisas maiores e melhores do que aquilo que queremos
para nós mesmos. Ele não fica feliz quando estamos satisfeitos com
facilidade situacional e relacional. Ele não vai descansar por nada
menos do que nos tornar participantes de sua natureza divina (2Pedro
1.4).
Como você avalia um dia bom? Você tende a celebrar dias fáceis
e sem obstáculos e a amaldiçoar os dias em que as dificuldades
aparecem no seu caminho? Quão pequena é a tribulação que
consegue fazer você irado? Quão rapidamente você questiona a Deus
e a sua bondade? Quão capaz você é de insultar outros que parecem
ter entrado no caminho dos seus planos? Quanto você inveja a
aparente facilidade de vida dos outros? Quanto é que a sua alegria e
contentamento estão diretamente conectados a conforto e facilidades?
Você está em uma colisão de agendas com Deus? Você vive com
uma mentalidade de chegada, amaldiçoando o calor da preparação,
quando ele aparece em seu caminho?

A HISTÓRIA DE DEUS E AS LUTAS DA MEIA-IDADE


Você não pode ler 1Pedro 1, Romanos 5 ou Tiago sem concluir que
há um propósito redentivo na dor das lutas da meia-idade. Pedro é
bastante claro no versículo 9, “obtendo o fim da vossa fé: a salvação
da vossa alma”. Naqueles momentos quando você se sente tentado a
ver a si mesmo como um perdedor, na verdade você está ganhando.
Naqueles momentos em que você é tentado a ser capturado por aquilo
que não recebeu, está recebendo algo que é de dignidade eterna.
Naqueles momentos quando parece que a vida passou você para trás e
Deus se esqueceu de você, na verdade, você é o objeto do seu amor
redentivo focado e produtivo. Naqueles momentos quando você sente
que perdeu a vontade de lutar, Deus está lutando pela tua alma. O
remorso doloroso, o desapontamento de sonhos desfeitos e o espectro
desalentador da idade avançada são, nas mãos do Senhor, as panelas
ferventes da redenção. Ele está libertando a sua alma da escravidão de
seus próprios sonhos e do falso refúgio em coisas físicas que estão
progressivamente se deteriorando.
Pedro te convoca a olhar para além do remorso e do
desapontamento, para abraçar a glória do refinamento. Deus ama
tanto a você que é impossível para ele ficar satisfeito em mantê-lo no
estado bruto. Sim, você vai experimentar perda e desapontamento.
Sim, você vai olhar para trás e ser inundado pela dor do remorso.
Sim, você não vai mais voltar à sua juventude. Mas cada uma dessas
experiências é planejada por Deus para produzir uma colheita de
frutos bons em você. Não é correto somente lamentar aquilo que
perdeu, mas você também deve celebrar a redenção que será
encontrada no meio disso.
SE ISSO É O QUE ESTÁ ACONTECENDO, COMO VOCÊ DEVE
RESPONDER?
Sam sentia que grande parte de sua vida foi uma perda de tempo.
Amava a sua esposa, mas ela estava bastante distante. Sabia que era
um cristão, mas também sabia que não havia muita vida em seu
relacionamento com Deus. Pela primeira vez em sua vida, Sam se
sentiu perdido. Ele não fazia ideia onde estava indo e como fazer para
chegar lá.
Mas Sam ainda tinha mais problemas. Pela primeira vez em sua
vida, estava endividado. Sua garagem para três carros era um
cemitério de brinquedos de homens. Um carro esporte, uma moto e
um jet ski eram o testamento de tentativas frustradas de acabar com
sua depressão e reclamar a sua juventude. E havia ainda um problema
familiar. Sam não conseguia admitir para si mesmo que nem sempre
havia sido o pai perfeito. Seus filhos se tornaram adultos e
começaram a apontar a suas fraquezas e falhas. Ele ficava cada vez
mais irado e na defensiva. À medida que seus filhos se afastavam,
machucados, Sam se tornava ainda mais cheio de autojustiça e
autoprotetivo. Sam também estava com problemas no trabalho. Ele
havia sempre sido um funcionário modelo, mas perdera a vontade. O
seu trabalho era tão esporádico e desleixado que foi rebaixado de
posição. Sam pensou que esse era o começo do ser dispensado. Frente
a tudo isso, ele começou a questionar a Deus. Por que ele deixou isso
acontecer? Por que Deus permitiu que trabalhasse por tanto tempo
para ver as coisas se desfazerem no final? Deus não havia prometido
abençoar os filhos dele? Deus já não mais parecia muito amoroso ou
gracioso.
Comida e televisão se tornaram as drogas escolhidas por Sam.
Comida é um caminho imediato para o prazer, e Sam pegou essa
estrada com gosto. Não demorou muito até que o seu peso não apenas
fosse impossível de esconder, mas demandasse roupas maiores. As
noites de Sam consistiam de um jantar enorme e um suprimento
constante de pequenos lanches e refrigerante em frente à televisão, até
dormir ou até que fosse para a cama. A comida dava conforto a Sam e
a televisão o levava para longe da realidade com a qual passava por
um momento difícil de se lidar.
Agora, profundamente endividado, com o trabalho em risco, sua
família machucada e dividida, sem vida em seu relacionamento com o
Senhor, e ganhando peso todos os dias, Sam era um homem perdido
no meio de sua própria vida. Ele não somente não sabia o que fazer,
mas cada coisa que decidiu fazer tornou a situação pior.
Há muitos Sams entre nós. Os detalhes são diferentes, mas muitos
homens e mulheres tentam lidar com o que está acontecendo dentro
deles e acabam tornando as coisas muito piores. Talvez você seja uma
dessas pessoas. Você não somente precisa entender aquilo que Deus
está fazendo em sua vida, mas também como responder a isso.
Lembre-se, o nosso sofrimento é formado não somente pelas
dificuldades que aparecem em nosso caminho, mas também pela
maneira como respondemos a elas. É aqui onde recebemos muita
ajuda daquilo que Pedro escreveu depois.
Pedro segue o seu sumário então-então-agora com um conjunto
de diretivas. Ao fazê-lo, essencialmente está dizendo, “Se é isso que
Deus está fazendo, então, o que se segue é a única forma apropriada
de responder a ele”. Em outras palavras, essas diretivas dizem a você
como é viver dentro do enredo da história de Deus, no contexto das
situações e relacionamentos do dia a dia. Escritas para pessoas
sofredoras, essas diretivas falam com poder e praticidade à dor,
dificuldade, desapontamento e sofrimento da meia-idade:
Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na
graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. Como filhos da
obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa
ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos
santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está:
Sede santos, porque eu sou santo.
Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as
obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação,
sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes
resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo
precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,
conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos
tempos, por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o
ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança
estejam em Deus.
A santidade no amor
Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o
amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente, pois
fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a
palavra de Deus, a qual vive e é permanente. (1Pedro 1.13–23)

E AGORA, UM PLANO PRÁTICO


Talvez você esteja dizendo: “Certo, eu entendi a história, mas eu não
sei como é viver como parte do enredo”. Nos versículos que se
seguem, Pedro nos dá um plano do tipo “se-isso-estiver-acontecendo-
então-faça-isto”.
Antes de pregarmos essas diretivas específicas, deixe-me
examinar a natureza dos mandamentos de Deus nesse tipo de
passagem. A melhor forma de fazer isso é usar uma ilustração
musical. A maioria dos nós gostaria que Deus nos desse uma
partitura, onde cada nota na página nos desse o conselho preciso
sobre como viver em harmonia.
Quando você está em um grupo musical, tudo o que precisa fazer
é obedecer cada nota e você estará bem. Da mesma forma, acredito
que frequentemente desejamos que Deus tivesse nos dado uma
partitura, com todas as palavras apropriadas e ações preditas na
página. Não é isso, entretanto, que Deus nos deu em sua Palavra. Não
nos foi dada uma folha de música. Em vez de serem como notas em
uma folha, as diretivas bíblicas são mais como uma sinalização da
chave e do tempo. Se quiser fazer música harmoniosa com o seu
redentor, é melhor que esteja na chave correta e mantendo o ritmo.
Então, não lhe disseram qual casa e carro comprar. Não te
disseram as palavras exatas que devem ser ditas aos seus vizinhos,
pais, filhos, marido, esposa ou amigos. Não te disseram exatamente
onde viver, nem exatamente o que fazer com os seus reais. Não te
disseram como investir a terça à noite ou o sábado de manhã. Não te
disseram qual igreja frequentar ou que trabalho procurar. Não te
disseram exatamente com quem se casar ou quem você deveria
procurar como amigo. A Bíblia não dá a você a partitura, mas
proporciona tudo o que precisa para viver em harmonia com o Deus
que escreveu a melodia.
Talvez desejemos a partitura ou o roteiro porque, na verdade, não
queiramos realmente viver em comunhão pessoal de fé com o
Messias. Não queremos depender de sua sabedoria, de sua provisão,
de sua graça e de sua força. Não queremos questões, dilemas,
obstáculos e mistérios em nossa vida. Queremos que nossa vida seja
confortável e previsível. Mas Deus quer a nós. Ele nos quer em uma
devoção livre e dependente dele. Deus não está trabalhando para
construir a melhor vida para nós; ele está trabalhando em nos
reconstruir, assim ele fala conosco de maneiras que nos chamam a
humildemente depender de sua presença ativa e amor gracioso.
As diretivas de Deus falam a cada questão da experiência humana.
Eu acabei de estudar os Dez Mandamentos, e fiquei impressionado de
novo, não somente com sua sabedoria, mas também com sua
capacidade de expansão. Eles realmente alcançam cada área da vida
humana, mas de uma forma que nos mantém sempre dependentes do
Senhor que os deu a nós.
As sete diretivas que Pedro coloca diante de nós são a sinalização
da chave e do tempo para uma vida harmônica com Deus. Ensinam
como fazer música harmoniosa com o Deus que está atribulando a sua
vida por causa da graça dele. Eu resumi essas diretivas em minhas
próprias palavras.
1. Seja cuidadoso com aquilo que você pensa (v. 13). Muito do
problema que trazemos para nós durante os anos da meia-idade está
enraizado em pensamento pobres e antibíblicos. Nós somos todos
intérpretes, a cada dia lutando para compreender a nossa vida, e o que
fazemos está baseado nessas interpretações. Visto que os nossos
pensamentos precedem e determinam as nossas ações, as escolhas
infelizes que fazemos e as atitudes infelizes que temos estão
enraizadas em pensamentos infelizes. A Bíblia analisa e interpreta a
vida para nós. Quando nos colocamos nos padrões mais altos do
pensamento bíblico, nos colocamos na melhor posição para responder
a vida da maneira correta. Onde é que você se permitiu pensar de
maneiras que simplesmente não estão de acordo com aquilo que Deus
afirma ser verdadeiro?
2. Seja autocontrolado (v. 13). Durante os momentos de
desencorajamento e desapontamento da meia-idade, você será
assaltado emoções e desejos poderosos. As pessoas frequentemente
caem no erro de ir aonde as suas emoções e os seus desejos os estão
levando e terminam fazendo coisas que, apesar de qualquer conforto
temporário que tragam, somente produzem uma colheita de frutos
amargos. Em nossa união com Cristo, o poder do pecado sobre nós
foi quebrado, e o Espírito Santo que habita em nós batalha com a
nossa natureza pecaminosa em nosso lugar. Com esses grandes dons,
podemos ficar de pé em meio às emoções e desejos furiosos e nos
voltarmos para outra direção. Aonde você está falhando em exercer o
autocontrole, que é uma capacidade sua como filho de Deus?
3. Preste atenção aonde você coloca a sua esperança (v. 13).
Você está sempre perseguindo algum tipo de esperança. Há sempre
algum sonho que lhe motiva e organiza as suas ações. A meia-idade é
frequentemente um tempo de esperanças frustradas. Faz sentido.
Como pecadores, tendemos a colocar a nossa esperança mais na
criação do que no Criador. E visto que temos colocado a nossa
esperança em coisas que não podemos controlar e que estão
desvanecendo, nossas esperanças nos desapontam nova e novamente.
Qual esperança capturou você? Facilidade financeira? Saúde
contínua? Amor familiar? Sucesso Profissional? Afirmação e respeito
daqueles à sua volta? A lista poderia continuar, mas o ponto é que a
meia-idade é um tempo maravilhoso para avaliação de nossas
esperanças. É um tempo quando podemos aprender como nunca antes
a colocar a nossa esperança no único lugar onde ela nunca vai nos
desapontar: no Senhor.
4. Não dê espaço para desejos maus (v. 14). A meia-idade está
repleta de tentações. Há a tentação do egoísmo. Você viveu a sua vida
para servir, proteger e prover para outras pessoas e você só quer fazer
algumas coisas para si mesmo. Há a tentação sexual. A pessoa com
quem você se casou simplesmente não é mais tão jovem e atraente. O
relacionamento sexual de vocês não é tão empolgante. Seu
relacionamento com seu cônjuge pode ser bastante casual e mundano.
De repente, seus olhos veem coisas que você não havia reparado
antes. Há desejos que você não tinha antes dessa forma. Ou há a
tentação do materialismo. Você acha que pode lutar contra
desassossego interno usando prazeres externas. Você pode ter um
pouco mais de dinheiro agora e há muitas coisas sem as quais você é
tentado a sentir que não pode viver. E há a tentação de duvidar de
Deus. Você olha para trás pensando se segui-lo tão fielmente
realmente valeu a pena. A meia-idade é um momento em que é vital
lutar a guerra do desejo, porque àquilo que você entrega o seu
coração, mais cedo do que você pensa, você entregará também o seu
corpo. Onde a guerra do desejo está sendo travada em sua vida neste
momento? Quão bem você está lutando?
5. Seja comprometido com fazer o que é correto, não importa
a situação (v. 15). Quando criança estudei em uma escola luterana
alemã e na classe de catecismo aprendíamos essa questão: “Como
Deus demonstra a sua santidade?” Agora, talvez, seria lógico
responder, “Por meio da cruz de Jesus Cristo”, ou, “Pela sua santa
lei”. Mas a resposta que aprendemos era mais profunda do que essas
duas. Fomo ensinados a responder: “Em tudo o que ele faz”. Pense
sobre isso. Não há nada que Deus jamais tenha pensado, desejado,
falado ou feito que não seja essencial e absolutamente santo! Esse
padrão é o nosso padrão para a vida diária. Quando está fazendo o
balanço de sua vida e não parece que ela valeu a pena, e você se
encontra abatido e desencorajado, é muito tentador baixar a guarda. É
muito tentador parar de fazer as coisas boas e corretas que Deus nos
chamou para fazer todos os dias. Frequentemente, o próprio momento
em que estamos sendo tentados a baixar a nossa guarda moral e
espiritual é exatamente o momento quando precisamos dela mais do
que antes. Onde é que você baixou a sua guarda e permitiu que coisas
erradas se arrastassem sutilmente de volta para a sua vida?
6. Viva como um estrangeiro (v. 17). Talvez você esteja
pensando, “Eu entendo como todas as outras diretivas se encaixam,
mas essa não faz sentido”. Deixe-me explicar. Se aquilo que estamos
vivendo não é um tempo de chegada, mas de preparo, então
deveríamos viver aqui como peregrinos. As Escrituras dizem que
deveríamos ser como aqueles que habitam em tendas, olhar a nossa
vida como um acampamento. Estou convencido de que uma coisa boa
sobre um acampamento que dura muito tempo é que ele nos faz ter
saudades e apreciar a nossa casa. Nos primeiros dias no local do
acampamento você ama a sua barraca e a forma como uma comida
feita sobre as brasas tem um gosto diferente (Isso são cinzas na
comida!). No quinto ou sexto dia, você está cansado de dormir no
chão desconfortável e comer comida com areia, e começa a sentir
saudades de casa. Você pensa a respeito da sua geladeira e do fogão
maravilhosos que você tem. Você se apaixona por seu colchão
novamente. Você tem uma apreciação mais profunda pelo seu
chuveiro que não tinha há muito tempo. Acampar faz em seu coração
exatamente aquilo que deveria fazer.
Agora, você perde completamente o ponto do “acampamento” em
um chalé de altíssimo luxo com comida preparada um chefe famoso,
uma televisão de 50 polegadas com todos canais da TV por
assinatura. Dessa forma o seu acampamento fica melhor do que a sua
casa. Assim, Pedro diz, não gaste todo o seu tempo e esforço
procurando fazer a vida tão confortável quanto possível. Lembre-se,
todas aquelas coisas físicas nunca poderiam comprar vida espiritual,
aquilo sobre o que a vida realmente diz respeito. Viva como um
estrangeiro. Entenda que você não está em casa e trate essa vida como
a jornada que ela é. Viva com um olho na eternidade e faça tudo o
que puder para participar da preparação que Deus está fazendo em
você. A meia-idade, pode ser um momento de desapontamento
enorme com relação ao conforto físico nunca alcançado ou perdido.
Pode ser um momento em que ficamos tentados a comprar todos os
mimos que nunca conseguimos pagar, e que agora não precisamos de
fato. Exatamente agora, você tem tentado viver mais para o conforto
presente do que como um peregrino se preparando para ir para casa?
7. Dedique-se a viver uma vida de amor (v. 22). A vida nesse
mundo caído é difícil para todos. Ela afugenta a nossa perseverança e
esperança e ataca as fronteiras de nossa fé. A Escritura é muito clara
que o objetivo nunca foi que vivêssemos isso sozinhos. A vida é um
projeto comunitário. A meia-idade, um momento em que
frequentemente as pessoas estão menos ocupadas do que antes e,
portanto, amais capazes de amar e servir a outros, frequentemente se
torna um momento marcado por egoísmo e amor próprio. Sentimos
como se tivéssemos completado o nosso tempo. Nós nos entregamos
a outros e trabalhamos duro, simplesmente queremos um pouco de
tempo para nós mesmos. No entanto, há diversas pessoas à nossa
volta que poderiam se beneficiar de nossa experiência, poderiam ser
ajudadas pelo nosso investimento de tempo e usar os recursos com os
quais fomos abençoados. Quem próximo de você está lutando com a
vida nesse mundo caído? Quem é que Deus está te chamando para
amar em palavra e ação? A sua vida é marcada por um amor dedicado
a outros ou por devoção ao si mesmo?
A história de Deus, de sofrimento e redenção, realmente dá
sentido às lutas e oportunidades dos anos da meia-idade. A questão é:
“Você está vivendo em meio aos seus desapontamentos e problemas
de maneira compatível com o enredo da história de Deus?” No meio
daquilo que parece ser terrivelmente ruim, Deus está fazendo coisas
boas. Você está tocando música em harmonia com ele? A meia-idade
é uma das panelas de fervura mais efetivas de Deus. A graça de Deus
não somente está fazendo com que você se sinta desconfortável, ela
está refinando você. Não duvide da bondade do Pai. Não questione o
amor dele. Não se permita fugir dele. Corra em direção a ele em fé e
amor e seja grato pelo fato de que ele ama tanto a você que se recusa
a se afastar até que aquilo que começou em você fique totalmente
completo.
CAPÍTULO 8

POSSO FALAR COM O GERENTE, POR


FAVOR?

Porque alguma coisa está acontecendo,


Mas você não sabe o que é
Sabe, Mister Jones?
—BOB DYLAN

Quando a guerra fica renhida a lealdade do soldado é provada e, ficar firme em


todos os campos de batalha além é mera fuga e desgraça se ele fugir nesse
momento.
—MARTINHO LUTERO

Era para ser uma simples refeição familiar em um restaurante


mexicano enorme, onde certamente haveria abundância de espaço
para a nossa família de seis. Quando chegamos, já saboreando a
comida em nossas mentes, abrimos a porta do restaurante e
encontramos o lobby lotado de pessoas e impossível de se negociar.
Eu disse à minha família para esperar lá fora enquanto eu me enfiaria
no meio do povo para ver o que estava acontecendo. A multidão na
sala de entrada não estava muito feliz (provavelmente nossa primeira
dica do que estava por vir), mas eu não liguei para isso. Finalmente
trombei, espremi e desculpei o meu caminho até o balcão da
recepcionista. A garota atrás do balcão gemeu: “Quantos?” Sem olhar
para cima. Eu disse: “Seis”, e ela disse: “Uma hora e meia”. Eu não
podia acreditar. Nós estávamos com fome. Eu sabia que não podia dar
a ela o meu nome sem consultar a minha voraz família, então, apertei
o meu caminho pelas massas impacientes mais uma vez. Depois de
uma conferência familiar mais longa do que o necessário, decidimos
ficar, na esperança de conseguir uma mesa antes que a noite
terminasse. Havia um shopping do outro lado da rua e poderíamos ir
até lá para fazer hora.
Depois de uma hora e meia andando pelas lojas, nós resistimos
matar a nossa fome na praça de alimentação e caminhamos de volta
ao restaurante para a nossa refeição.
Quando abrimos a porta, ficamos impressionados de que multidão
não parecesse menor. Na verdade, eu acho que a população havia
aumentado! Consegui chegar ao balcão, dei o meu nome e descobri
que havia diversos grupos à nossa frente, mas que estavam sentando
as pessoas rapidamente. Mais ou menos vinte minutos depois o nosso
nome foi chamado. Nunca estivemos tão ansiosos por sentar e comer!
À medida que olhávamos o cardápio, Hector, o nosso garçom, se
apresentou e anotou os pedidos de bebidas. Nós salivamos olhando o
menu e, sem grande demora, havíamos escolhido e todos estávamos
ansiosos por fazer o pedido. Hector parecia ter caído para fora da face
da terra. Não somente ele não trouxe as nossas bebidas, nem pegou os
nossos pedidos, mas não era possível vê-lo em nenhuma outra mesa.
Cada vez mais a praça de alimentação parecia ter sido uma ideia
melhor.
Finalmente conseguir chamar a atenção de outro garçom, que não
somente parecia esgotado, mas também irritado com o fato de que eu
o havia tirado de suas mesas. Expliquei que, de alguma forma,
havíamos perdido o nosso garçom e ele disse que veria o que podia
fazer. Mais ou menos dez minutos depois o Hector apareceu
murmurando algum tipo de desculpas. Não querendo que ele nos
deixasse antes de fazermos o pedido, dissemos a ele que estávamos
prontos e ele pegou o nosso pedido. Esperávamos enganar a nossa
fome com a tradicional tortilla con salsa, mas elas nunca vieram. Na
verdade, o Hector nunca mais apareceu! A próxima pessoa que se
aproximou foi o gerente, porque nós pedimos para falar com ele.
Hector havia desaparecido, sem comida, por quarenta e cinco
minutos. Contamos a nossa história para um gerente esgotado e
apropriadamente cheio de pedidos de desculpa. Ele nos assegurou de
que a comida chegaria rapidamente e de fato chegou, mas não era a
nossa.
O gerente pegou os nossos pedidos novamente e em menos de dez
minutos estávamos comendo. Nada nos foi cobrado naquela noite e o
gerente implorou que comêssemos sobremesa por conta da casa. Nós
recusamos, mas somente porque estávamos com medo de ficar tarde
demais para ir trabalhar no dia seguinte!
Você já esteve no meio de uma situação e ficou se questionando
quem estava no controle? Talvez a sua vida se pareça bastante como a
nossa noite no restaurante. Talvez você esteja cansado de ter de
esperar somente para ser desapontado no final. Talvez você esteja
cansado de sentir como se fosse somente um outro nome na fila, outra
face faminta no meio do povo. Talvez olhe para os lados e veja
pessoas se empanturrando enquanto você fica se perguntando porque
ainda está de pé, esperando, faminto. Talvez “tenha ido até o
shopping” para tentar distrair a si mesmo, mas isso só funciona a
curto prazo. No final do dia, você ainda está desencorajado e faminto.
Talvez você tenha chegado bastante perto do seu sonho, ao ponto de
ler o menu e sentir o cheiro do prato, mas nunca tenha conseguido
comer a comida e está irado porque parece que foi alvo de uma
brincadeira de mau gosto. Talvez você tenha desistido da esperança e
foi para a “praça de alimentação”, triste por ter de se conformar com
a segunda opção. Ou talvez tenha esperado a sua vida toda para ouvir
o seu nome sendo chamado. Você assistiu toda a multidão do lobby
ser chamada, enquanto ficou para sozinho e, nessa fase da vida, você
tem certeza de que não será mais chamado. Você já quis parar no
meio de sua vida e dizer: “Posso falar com o gerente, por favor?” As
coisas sempre acontecem para você da maneira que você projetou ou
você sente que a sua vida está mais fora do que dentro do controle? A
meia-idade é um momento da vida quando a ilusão de que tudo vai
acontecer da maneira que você planejou evapora muito rapidamente.
Esse senso de falta de controle é uma das experiências mais
poderosas e difíceis da meia-idade. Não somente a sua vida não
funcionou do que jeito que você planejou, mas você também está
lidando com as inescapáveis coisas com potencial para alterar a vida,
sobre as quais você não tem controle. Esse capítulo é escrito para
tratar a respeito desses momentos.

PROCURANDO AQUELE QUE ESTÁ NO CONTROLE


Pense em quão poucas coisas em sua vida estão realmente debaixo do
seu controle. Você não escolheu onde nasceria e ainda assim o local
do seu nascimento moldou toda a história da sua vida. Isso me
impressiona todas as vezes em que viajo para o exterior. Como teria
sido a minha vida se eu tivesse nascido nas ruas violentas de Belfast
ou no meio de um gueto em Nova Déli ou em um pequeno
apartamento em Moscou ou em um apartamento em Seul? Você não
escolheu a família na qual nasceria, mas como alguma decisão
poderia ser mais importante do que essa? Você não escolheu em que
período da história nasceria, ainda assim, de forma, isso molda tudo o
que você experimenta. Imagine como teria sido a sua vida se tivesse
nascido em uma família de agricultores na Europa medieval ou em
uma família de antigos artesãos chineses. Imagine nascer em um
vagão de trem, em direção a um pedaço de terra pioneiro na
colonização americana ou se você tivesse sido um escravo de Faraó,
no Egito.
Você não escolheu os eventos mundiais que aconteceram à sua
volta, mas eles, ainda assim, formaram a sua vida. Quase toda vez
que entro em um avião penso a respeito de como um grupo do
Oriente Médio planejou por meses sequestrar aviões para levá-los a
colidir em prédios. Eu não conheço esses homens e eu não fui o alvo
do seu ataque, ainda assim, meu senso de mundo, minha segurança
pessoal e os meus hábitos de viagem têm sido formados pelo que eles
fizeram.
Você não controla o progresso da ciência e do conhecimento, mas
a sua vida tem sido formatada por uma miríade de descobertas com as
quais você não teve nada a ver. Você vai viver mais tempo por causa
da penicilina, aspirina, esterilização, termômetro, raio-X e a
Ressonância Magnética. Você vai viver seguro e em liberdade por
causa do surgimento da democracia, eleições livres e governo
democrático. Você pode conseguir fazer mais coisas por causa da
eletricidade, do motor de combustão interna, da tecnologia da
informação, do microchip e do sistema moderno de encanamento.
Nós todos precisamos ser humilhados pelo vasto número de coisas
que impactaram a nossa vida, sobre as quais não exercemos nenhum
poder de decisão ou controle. A minha vida é um exemplo perfeito.
Eu não planejei nascer em Toledo, Ohio, como filho de um homem e
uma mulher que recentemente tinham conhecido a Cristo. Eu não
planejei que as Escrituras fossem lidas para mim todos os dias, nem ir
na igreja fielmente, domingo após domingo. Eu não planejei quantos
irmãos eu teria nem que eu teria somente uma irmã. Eu não planejei
qual seria a ordem dos meus irmãos. Eu não planejei quais seriam os
meus talentos pessoais. Eu não planejei como seria a cultura de minha
casa ou as bênçãos e dificuldades que eu encontraria ali.
Eu não planejei em que escola estudaria e as impressionantes
mudanças culturais que aconteceriam durante aqueles anos. Eu nunca
quis estudar em uma faculdade cristã, mas meus pais exigiram isso de
mim. Eu não planejei ficar ali e me formar. Eu não planejei estar na
fila do almoço, no meu ano de calouro, atrás de uma mulher que
depois de tornaria a minha esposa. Eu não planejava casar antes de
me formar ou me sentir chamado para o ministério enquanto eu
estava estudando. Eu não planejei que a Guerra do Vietnã me levasse
ao seminário.
Eu não planejei parar em Scranton, Pensilvânia depois do
seminário. Eu não planejei ser um pastor jovem, com quatro filhos,
em um lugar onde o sonho americano havia se desfeito muitos anos
antes. Eu não planejei ter pessoas com a vida quebrada vindo a mim
para procurar conselho e sabedoria. Eu não planejei, a partir de um
senso de necessidade ministerial, voltar ao seminário para estudar
aconselhamento bíblico. Eu não planejei me mudar para Filadélfia
depois dos meus estudos em aconselhamento para iniciar uma nova
fase de ministério que continua até hoje.
É uma coisa maravilhosa e humilhante admitir, mas nada disso
havia sido o meu plano. Não haveria como ter antecipado todos os
eventos necessários, locais, pessoas, conversas, problemas e eventos
mundiais que se ajuntaram a ponto desse plano funcionar. Quando
paramos e consideramos todas as coisas que se ajuntaram com
relação a cada peça de nossa história, a fim de que ela se
desenvolvesse da maneira que se desenvolveu, isso quase derrete o
cérebro.
Eu agora estou na casa dos cinquenta. Eu vivo em Filadélfia, uma
cidade que amo e chamo de minha, que nunca esteve no meu mapa de
destinos em potencial. Eu me casei com Luella. Ela é uma senhora
amorosa, cheia de vida, transbordante de dons e amante do Senhor.
Se eu tivesse procurado e planejado por décadas, não teria sido
esperto o suficiente para dizer: “Tem uma filha de missionários de
Cuba que vive na Carolina do Sul e eu preciso encontrá-la pois ela é a
minha parceira de vida definitiva”. Ainda assim, nos últimos trinta e
seis anos, ninguém foi uma amiga mais querida ou teve um efeito
mais profundo em minha vida do que ela. Sou parte de um ministério
que amo, do qual me sinto um privilegiado por ser parte a cada dia e
que faz uso dos meus dons. Mas, se eu estivesse procurando por
lugares para investir os meus principais anos de ministério, duvido
que teria achado que esse seria um lugar reino do maravilhoso para se
trabalhar. Depois de quase três décadas como pai, olho para a vida
dos nossos filhos, cada um único, e fico impressionado pela maneira
em que se desenvolveram. Independente de quanto eu os tenha
tentado guiar, nunca poderia ter planejado a vida deles para eles.
Uma das ilusões mais perigosas para cada um de nós é a ilusão da
nossa própria soberania. E um dos ídolos mais perigosos é o ídolo do
controle. Se gastamos os nossos dias tentando estabelecer a nossa
soberania e controle, então ainda não aprendemos a descansar no
controle do Senhor. É dessa forma que a meia-idade é incrivelmente
importante do ponto de vista espiritual, porque tende a explodir os
mitos de soberania e controle pessoal. A moléstia do
desencorajamento que se segue não é uma introdução a um mundo
que está fora de controle, mas uma reorganização de controle enviada
por Deus, que pode colocar você em uma posição espiritualmente
melhor do que você jamais esteve. No momento preciso em que
encarar o fato de que você não está no controle e nunca esteve,
finalmente você estará pronto para conhecer e experimentar o que
significa descansar no controle de outro. Sim, alguém está no
controle. Cada detalhe de cada minuto de sua vida foi organizado por
ele. O problema e que, na meia-idade, os nossos planos e os planos
dele tendem a colidir. Na carnificina do cruzamento da meia-idade,
muitas pessoas se perdem.

DEUS E AS SURPRESAS
Quando você lê a história bíblica, não pode fazer outra coisa senão
concluir que seguir a Deus traz a você uma vida de surpresas.
Independentemente de quais fossem os planos que o povo de Deus
tivesse feito e de quanto e como eles tentassem entender os planos de
Deus, eles eram inevitavelmente encontrados por surpresas.
Aconteceram mudanças na história que ninguém poderia ter previsto.
O plano de Deus consistentemente incluiu coisas que teriam ficado de
fora da história se o povo estivesse fazendo o planejamento. Uma das
razões para isso é que os seres humanos, geralmente, focam nos
resultados. Queremos que as coisas deem certo. Embora Deus
certamente se importe com o resultado, ele também age no processo.
Frequentemente Deus requer que esperemos (Lembra de Abraão e
Sara?). Pensamos sobre esperar como uma perda de tempo porque o
nosso foco está na coisa pela qual estamos esperando. Pensamos que
a parte boa só começará quando a recebermos. Mas Deus não está
presente somente na entrega final, ele também está presente no
processo. A Bíblia ensina que, quando Deus ordena que passemos por
provações de espera, ele nos muda enquanto esperamos. A
perspectiva bíblica sobre a espera não diz respeito somente ao ser
paciente até recebermos, mas também sobre em que estamos nos
tornando à medida que esperamos. Por exemplo, Romanos 4.20 nos
diz que enquanto esperou pelo herdeiro prometido Abraão “pela fé, se
fortaleceu, dando glória a Deus”. O pai dos fiéis foi transformado
pela espera.
A Bíblia também é muito clara a respeito de Deus usar provações
para nos amadurecer. As provações ordenadas por Deus não são
obstáculos à vida, mas são um dos meios primários de Deus para
produzir e amadurecer vida espiritual em nós. O nosso problema é
que quando estamos experimentando dificuldade, focamos somente
em quando tal momento vai terminar, em vez de examinar as coisas
boas que Deus está fazendo em nós no meio dela. Mas Deus está em
ação durante o processo. Ele nos surpreende repetidamente com
mudanças na história que nunca poderíamos ter previsto e nunca
escolheríamos para nós mesmos.
Ficamos surpresos por outra razão. Tendemos a viver com aquilo
que é bom para nós como a nossa maior preocupação. Queremos que
as nossas amizades sejam felizes, nossos investimentos deem um bom
retorno, nossa saúde esteja constantemente boa, nossas famílias sejam
unidas e nosso futuro esteja seguro. Não há nada de errado em querer
essas coisas, mas se elas são tudo o que você quer, o seu mundo está
mais estreito do que deveria. Note, Deus não está entrando em seu
pequenino reino minúsculo para fazer todo o possível a fim de torná-
lo um sucesso. Em vez disso, ele te recebe trazendo-o para fora do
compromisso com o seu reino pessoal para o reino dele, que se
expande ao longo da história. Ele te dá a oportunidade de ser parte
daquilo que ele planejou não somente antes do seu primeiro suspiro,
mas também antes que os fundamentos do mundo fossem lançados.
Você absolutamente não foi criado para viver com os seus objetivos e
necessidades como sendo as suas principais preocupações. Você e eu
fomos criados para conhecer, servir, amar e adorá-lo. Isso significa
desejar que o reino dele floresça e que a glória dele seja manifestada.
De forma prática, isso significa ser motivado mais pela glória de
Deus do que por aquilo que você pensa que te deixaria confortável e
feliz.
Então, Deus vai fazer coisas que nos roubarão do nosso conforto,
que interromperão os nossos planos e que até mesmo colocarão dor e
sofrimento em nosso caminho. Ele fará isso para completar aquilo
que começou em nós e no mundo. Deus vai tirar aquilo que nos
trouxe alegria temporária, a fim de nos dirigir a um maior deleite pelo
reino e justiça dele. E por mais que saibamos que isso é verdade,
continuaremos a ficar surpresos pelas mudanças e viradas que ele
ordenará que aconteçam em nossa vida.
Quando você lê as promessas da aliança em Gênesis, não imagina
que um cativeiro de 400 anos como escravos no Egito seria parte do
plano de Deus para o seu povo, mas era. Quando você lê a promessa
de uma terra reservada para o povo de Deus, nunca pensaria que ela
estaria repleta de nações piratas em guerra, que lutariam com toda a
sua força para expulsar o povo de Deus. Você nunca imaginaria que
Jerusalém seria algum dia destruída e que o povo de Deus seria
levado cativo. Com todo o seu conhecimento do Antigo Testamento,
também ficaria surpreso ao descobrir que o Messias viria de uma
família de operários de Nazaré, se desenvolveria como um
controverso pregador itinerante e morreria em uma cruz como um
criminoso. Você nunca teria predito que o pequeno grupo de
seguidores de Jesus, sob a mais brutal perseguição, iria espalhar as
boas novas da graça salvífica ao redor do mundo. A história da
Escritura está repleta de mistérios e surpresas porque Deus está no
controle e não as pessoas.
O que isso tem a ver com a meia-idade? Considere por um
momento a razão pela qual a meia-idade é difícil? Não é porque
aquilo que planejamos não aconteceu? Por trás das lutas com a idade,
remorso e desapontamento estão as perguntas assombrosas sobre a
sabedoria soberana, bondade e amor de Deus. Naquele momento,
quando nossa mente vagueia para a fantasia e você cria os seus
próprios mundos, fazendo com que eles ajam de acordo com a sua
vontade, você está, na verdade, expressando uma profunda
insatisfação com o governo de Deus e desejando que você tivesse o
joystick do cosmos.
Como pseudosoberanos, odiamos espera, desapontamentos,
obstáculos e falhas. Lutamos para aceitar o fato de que essas coisas
existem em um mundo que está debaixo do governo mais sábio e
benevolente possível. C. S. Lewis comenta que uma crença firme nas
verdades do Cristianismo, na realidade, torna a sua experiência de dor
ainda mais dolorosa. Já é suficientemente ruim ter de suportar a dor,
mas, como um cristão, você tem de dizer que ela não é somente um
acidente, antes foi enviada por um Deus que se declara bom! Para
nós, a ordem de Deus parece desordem e sua sabedoria parece
loucura.
A bondade amorosa de Deus frequentemente parece ser qualquer
coisa menos amorosa e bondosa. Tudo isso diz respeito a uma coisa
que nós todos temos de admitir: como pecadores, queremos que as
coisas saiam do nosso jeito. É difícil descansar no governo do rei
quando o nosso coração e mente estão preocupados com o sucesso de
nossos próprios reinos pequeninos.
A meia-idade nos surpreende com a realidade de quem é o rei e
como a vontade dele é diferente da nossa. Nós vivemos por décadas
no mundo de nossas necessidades, nossos desejos e nossos sonhos.
Por décadas nutrimos a ilusão de que, se Deus realmente nos ama, ele
daria coisas boas para nós. Nós convencemos a nós mesmos de que,
se obedecêssemos, Deus manteria a sua parte da barganha e colocaria
coisas boas em nosso caminho. Pensamos que se fôssemos bons pais,
então todos os nossos filhos trilhariam o caminho que planejamos.
Pensamos que se trabalhássemos fielmente, então colheríamos os
frutos de nossos investimentos em anos seguintes. Pensamos que se
mantivéssemos os nossos corpos em sujeição ao Senhor, então ele nos
abençoaria com saúde boa. Pensamos que se seguíssemos o Senhor
em devoções pessoais e adoração pública, então as nossas vidas
seriam espiritualmente ricas.
Lembre-se: o povo de Deus sempre lutou com o choque de
governo dele. O reino das trevas está sendo destruído pelo reino da
luz, e nenhum de nós pode escapar de ser afetado pela carnificina.
Subjacente à luta da meia-idade, existe uma colisão de reinos.
Exija de você mesmo ser brutalmente honesto agora. O que você
realmente quer da vida? Qual é o verdadeiro sonho pelo qual tem
trabalhado? Quais são as alegrias que cativam os seus olhos e
controlam o seu coração? Qual é o seu “Se pelo menos eu tivesse
__________, então eu seria feliz”? Quanto os seus sonhos têm sido
pessoais, presos à terra, físicos e para o aqui e agora? Você tem sido
motivado pelo seu próprio reino mais do que pelo reino de Deus?
Como o seu presente desencorajamento, desânimo e tristeza
funcionam como uma janela para aquilo que realmente capturou o seu
coração? Você realmente tem desejado que Deus seja pai sábio e
amoroso, que traz à sua vida aquilo que considera melhor ou você
tem desejado que ele seja o garçom divino, o todo-poderoso
entregador dos seus sonhos?
Considere Todd. Todd era um planejador nato, um pequeno
soberano de seu próprio mundo. Ele não era agressivamente
controlador ou insensível às necessidades de outros. A questão é
somente que ele tinha um plano, um plano de vida pessoal muito
claro e priorizado. Ele tinha a sua vida organizada para as próximas
décadas. Havia pensado que as duas primeiras décadas seriam para
educação, as suas próximas para carreira e desenvolvimento familiar,
as duas próximas para aproveitar os retornos de seu investimento e a
quarta sessão de duas décadas seria para descanso e lazer. Se alguém
perguntasse sobre casamento, ele tinha um plano. Sobre paternidade,
e ele tinha um plano. Férias, dieta, lazer, investimentos ou qualquer
outro tópico prático da vida, e Todd tinha um plano.
Na superfície, Todd era um cristão comprometido com uma fé
forte no Senhor. Ele era um evangelista direto e corajoso. Deu seu
tempo e dinheiro para ajudar às mais diversas causas cristãs. Sabia se
encontrar na Bíblia e tinha os seus pensamentos teológicos em ordem,
mas havia indicações de problemas subjacentes. Todd ficava muito
bravo quando pessoas à sua volta faziam coisas erradas e sua
impaciência se degenerava em ira muito rapidamente. Ele era um
severo disciplinador em casa e seus filhos, ao que parece, mais o
temiam do que respeitavam. Quanto à sua esposa, que ele dizia ser a
sua melhor amiga, ele parecia mais preocupado a respeito dela manter
a ordem de sua casa e agenda do que em construir um relacionamento
de apreciação, intimidade e amor. Ele era definitivamente um bem-
sucedido homem de negócios e era admirado por suas conquistas,
mas não era amado por sua pessoa.
Se Todd fosse um conhecido de sua igreja, você certamente o
admiraria. Parecia que o sucesso havia agarrado nele como uma cola.
Sua vida pessoal, família e carreira, tudo, parecia estar em ordem. O
problema é que Todd era dedicado ao seu próprio plano. Sem
perceber, ele estava caminhando em direção a uma colisão que
mudaria para sempre o seu mundo.
Era um sábado à noite, já bastante tarde, e Todd estava chegando
de um de seus fins de semana de negócios de grande desempenho.
Enquanto dirigiu pelo longo caminho que levava à sua garagem para
seis carros, estranhou que estivesse tudo escuro. Ele entrou, se
atrapalhou para encontrar as luzes e chamou por sua esposa, mas não
houve resposta. Ele tentou o comunicador interno, mas não houve
resposta. Foi aí que viu o envelope com seu nome, esperando por ele
no balcão da cozinha. Era de Helen. Na carta, ela contou a Todd a
respeito de todos os anos de insatisfação com seu egoísmo,
exigências, críticas e ira. Ela lhe disse que ele havia tornado toda a
família em reféns de sua agenda. Ela disse que ele precisava procurar
ajuda e que voltaria quando ele tivesse feito isso.
Todd estava cheio com uma combinação de temor e fúria. Era
como estar no meio de um pesadelo, mas ele sabia que estava
acordado. Tudo o que eu quis fazer foi prover uma vida legal para a
minha família, ele disse a si mesmo. Tudo o que eu fiz foi trabalhar
duro e ensinar os meus filhos a fazer o mesmo. “Helen não tinha nada
antes de me conhecer”, murmurou consigo mesmo à medida que se
jogava na cadeira de couro no canto da sala de café da manhã. Ele
não iria implorar por perdão quando não havia feito nada errado. Não
havia tido nenhum caso extraconjugal. Não tinha ignorado a sua fé.
Havia treinado bem a seus filhos e vira que cada um deles deu bons
primeiros passos. Ele havia entregue muito do que recebera. “Onde
todos eles estariam se não fosse eu?”, ele pensava, à medida que se
arrastava para o quarto que havia compartilhado com Helen por mais
de um quarto de século.
Todd acordou irado na manhã seguinte. Não irado com Helen,
mas irado com Deus. Não era esse o acordo, ele pensava. Eu sou um
dos caras bons da história! O que eu fiz para merecer isso? O plano
de Todd nunca havia incluído isso. Nas próximas semanas, sua ira e
amargura transbordou para o seu trabalho. Logo o CEO de sua
empresa estava sugerindo que ele tirasse licença. Aquele primeiro dia
sem trabalhar foi uma tortura para Todd. Ele não sabia o que fazer
consigo mesmo. No final do dia contatou o seu pastor, que, por sua
vez, entrou em contato comigo.
Todd era um homem difícil de se aconselhar, mas eu nunca
esquecerei do dia em que ele me disse: “Paul, eu sei o que você está
tentando me dizer. Você está me dizendo que eu estava tão ocupado
tentando ser Deus que, na verdade, eu tenho pouco tempo para servir
a Deus”. Todd estava chocado e surpreso pela sua colheita da meia-
idade, porque ele havia estado em uma guerra por um período muito
grande de tempo. Era uma guerra que ele nunca poderia vencer – uma
guerra contra Deus, por soberania.
TUDO DIZ RESPEITO A CONTROLE
Esse é uma daqueles lugares onde a Bíblia é muito útil. A história
bíblica é toda pintada com o tema da soberania e seu personagem
central é o Senhor todo-poderoso. Ele é bom, poderoso, sábio,
amoroso e soberano; o projetista, criador e controlador de tudo o que
existe. Ele criou um mundo com uma beleza maravilhosa e
multiforme e colocou nele o homem e a mulher. Eles gozavam de
comunhão íntima com Deus e tinham todas as suas necessidades
supridas. Mas, infelizmente, caíram por causa de uma oferta para
serem livres de sua submissão a Deus, crendo na promessa da
serpente de que se tornariam como o Criador. Foi um momento
horrível!
Eles deixaram o melhor lugar do universo, onde podiam descansar
no governo seguro de Deus, a fim de optar pela coisa mais perigosa
que um ser humano pode escolher: confiar a sua vida em suas
próprias mãos. Esse momento foi o começo da batalha que é narrada
em cada período da história bíblica. Tudo se resume a dois estilos de
vida e todas as pessoas que já viveram se encaixam em um ou outro.
Ou estamos descansando na glória do governo soberano do Senhor ou
estamos tentando, de alguma forma, estabelecer o nosso próprio
governo. Essa batalha pode mostrar a si mesma de forma óbvia, em
um estilo de vida arrogante de poder e controle ou pode viver como
uma independência subterrânea que colore cada ação, reação,
esperança ou sonho. Adão e Eva foram chamados para confiar e
obedecer, mas quiseram o seu próprio caminho. Os Filhos de Israel
foram chamados para confiar e lutar, mas quiseram o seu próprio
jeito. A Palestina do Novo Testamento foi chamada para ver, ouvir e
crer, mas mataram o Messias. A luta para confiar no Senhor,
descansar em seu governo e fazer fielmente a sua vontade tem tudo a
ver com o que é o pecado. Note, cada ato de desobediência, seja sutil
e secreto ou público e arrogante, é um desafio direto ao governo
soberano do Senhor. Cada vez que me desvio dos limites do crer e
observar, questiono o poder, sabedoria e governo de Deus.
Ser um pecador é querer dominar o nosso mundo. É por isso que
Paulo diz em 2Coríntios 5.15 que Jesus “morreu por todos, para que
os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que
por eles morreu e ressuscitou”. Se a soberania está realmente no
centro de nossa luta contra o pecado e se é verdade que o mais
poderoso e penetrante de todos os ídolos é o “eu”, então, não deveria
nos impressionar que essa batalha fique muito violenta na meia-idade.
A meia-idade é um tempo quando você avalia os resultados e
pesquisa qual futuro resta para você, assim, existe uma tentação
muito forte de questionar o exercício que Deus faz de seu governo.
No meio de sua vida, é muito tentador concluir que o plano que você
fez para a sua vida era qualitativamente superior ao plano de Deus
para você.
Também é muito difícil olhar para o impacto desalentador do
pecado em sua família ou para a morte de sonhos antigos, para o
envelhecimento físico ou milhares de outras colheitas pessoais e
descansar naquele que cuidadosamente administrou cada detalhe
disso tudo. No meio de uma grande perda, tristeza inescapável ou
desapontamento opressor é difícil olhar para o céu e dizer: “Tu, meu
Senhor, és amoroso, cuidadoso e bondoso. Em tua grande sabedoria e
graça gloriosa tens uma autoridade que não pode ser desafiada e um
poder além da imaginação. O que acontece na minha vida acontece
por causa do seu sábio conselho e de sua vontade perfeita. Todos os
seus caminhos são retos e verdadeiros. Assim, eu descanso em seu
governo. Eu me refugio em seu poder. Eu me escondo em sua
sabedoria e faço da sua graça o meu lugar de descanso”. É difícil, mas
essa morte de nossa reivindicação pela nossa vida é o que transforma
a meia-idade em um momento de reorganização maravilhosa de
controle, que no final, resultará em um aprofundamento de nosso
descanso, adoração e amor pelo nosso Senhor.
Isso é uma guerra espiritual. Pense comigo por um momento
sobre as características da batalha de uma pessoa na meia-idade que
examinamos no capítulo dois. A insatisfação, desorientação, medo,
desapontamento, desinteresse, distância e distração são, todas elas,
reações que fluem de nossa luta profunda contra aceitar o que Deus
permitiu entrar em nossa vida. Talvez não exista guerra mais
importante do que essa. Deus está no controle e não nós. A intenção
de Deus é ver o reino dele ter sucesso e não endossar o nosso. As
pessoas à nossa volta não estão debaixo do nosso governo, assim elas
nem sempre farão aquilo que queríamos que fizessem. Vivemos em
um mundo que não pertence a nós, com pessoas que pertencem a um
outro. Na verdade, nós não somos donos nem mesmo de nossa vida.
“Acaso, não sabeis... que não sois de vós mesmos? Porque fostes
comprados por preço” (1Co 6.19-20). É ao descansar em seu governo
e nos comprometer com a sua glória que encontramos a maior das
alegrias e o maior prazer pessoal. Essas são coisas para as quais nós
fomos feitos.

CARACTERÍSTICAS DA LUTA
Se o profundo desapontamento da meia-idade é, na verdade, um
desapontamento com Deus, então, será útil identificar as
características de nossa luta na meia-idade contra o governo de Deus.
A lista seguinte inclui os tipos de coisas que vão caracterizar a vida
de uma pessoa que está lutando contra a soberania de Deus.
Provavelmente, ninguém terá todas essas questões em sua vida, mas
se há um conjunto delas em você, então isso é provavelmente uma
indicação de que abaixo de sua luta contra a meia-idade existe uma
luta mais profunda e debilitadora contra Deus.
1. Cinismo com relação à vida. Crer que Deus está no controle
completo da vida é a concepção mais positiva de vida que qualquer
um pode ter. Eu nunca entenderei porque Deus ordena muitas das
coisas como faz e eu sei que essa crença não vai remover mistérios da
minha vida, mas eu acordo a cada dia para a realidade maravilhosa de
que a minha vida e o meu mundo estão debaixo do controle sábio do
meu Pai celestial. Quando um cristão tem uma concepção de vida do
tipo que-diferença-isso-faz, eu-tentei-isso-e-não-deu-certo, está
lutando contra aquele que detém todas as circunstâncias nas mãos.
2. Reter nossa adoração e serviço cristão. Nos relacionamentos
humanos, quando você aprova e aprecia alguém, deseja louvá-lo e
demonstrar sua gratidão com atos de serviço. O desapontamento com
Deus é frequentemente revelado pela falta de entusiasmo da pessoa
na adoração e falta de zelo pelo ministério. Um homem de meia-idade
amargo certa feita me disse: “Eu mal consigo ir à igreja e cantar
aqueles hinos. Cada vez que ouço as pessoas cantando sobre a
fidelidade de Deus, fico irado e imaginando, ‘Onde estava a sua
fidelidade em minha vida?’” É muito difícil correr para aquele que
você acha que falhou, adorar alegremente a pessoa que você está
questionando e entregar a si mesmo em atitudes de serviço sacrificial
àquele que você acha que lhe foi prejudicial. Muitas pessoas na meia-
idade estão lutando com o plano de Deus para as suas vidas, então,
perderam o seu coração com relação a Deus. Elas não abandonam a fé
completamente, mas é a ausência de vida que caracteriza a sua
participação na comunidade da fé.
Houve um tempo em que Serena estava sempre presente todas as
vezes que a porta da igreja estava aberta. Ela parecia simplesmente
não conseguir adorar o suficiente, nem cansar de boa pregação.
Serena amava sua classe de escola dominical, seu estudo bíblico pra
mulheres e seu pequeno grupo. Ela amava ouvir e cantar belos hinos
de fé. Serena também ficava muito feliz envolvida com ministérios.
Ela era uma veterana de viagens missionárias curtas e de longe a
participante mais fiel no ministério no centro de detenção local de
mulheres. Mas tudo isso parecia ter acontecido há muito tempo atrás.
Serena sempre pensou que os seus dons seriam reconhecidos e
finalmente teria a chance dela para o ministério de tempo integral. A
rejeição que recebeu da junta de missões ficou presa em seu coração
como um calo na garganta. Ela mal conseguia ir à igreja e logo
encontrou outras coisas para fazer com os seus verões, antes
dedicados às viagens missionárias. Agora, com cinquenta anos,
Serena ainda estava quase todos os domingos na igreja, mas era mais
uma frequentadora do que uma adoradora. Agora era tudo uma
questão de dever em vez de uma questão do coração.
3. Ira com pessoas à sua volta. A ira que expresso com relação a
pessoas e coisas em minha vida é, frequentemente, uma ira mal
direcionada contra Deus. Pense nisso. Quando eu fico irado com o
meu carro porque ele não pega e eu digo: “Carro estúpido”, não estou
realmente pensando que o meu carro conspirou contra mim para
tornar a minha vida mais difícil. Não, as palavras iradas que eu digo
ao meu carro são na verdade dirigidas contra Deus, por permitir tais
obstáculos em minha vida. Ou quando estou irado contra alguém em
minha família porque eles me fizeram chegar atrasado, não estou
simplesmente irado com eles. Eu estou irado porque a minha vida não
está funcionando de acordo com o meu plano e, portanto, eu estou
irado contra aquele que controla o plano. Em meu trabalho com
pessoas iradas, tenho aprendido que ira contra outros e com
circunstâncias é, frequentemente, um sinal de um sistema muito mais
profundo de ira que suga a vida de nossa fé e faz com que fujamos do
único lugar em que poderíamos encontrar socorro – o Senhor.
Jack era conhecido como um cara “durão”, mas, na verdade, era
um homem iracundo. Aos 48, o homem que antigamente foi a alma
da festa, agora era um sujeito que não hesitaria em falar o que desse
na cabeça se cruzasse com você. Sua esposa, Sue, quase tinha medo
de sair com ele em público, porque Jack frequentemente ficava
insatisfeito com alguma coisa e dava show. Os filhos do Jack haviam
sido picados por sua ira mais de uma vez, e a aprenderam a manter
distância. O mantra de Jack era: “Eu fui derrubado uma vez e não vai
acontecer novamente”. Sim, Jack teve a sua cota de desapontamento
neste mundo caído, mas não mais do que qualquer outra pessoa. Se
você ficasse por perto de Jack por muito tempo, a ira dele se viraria
contra você.
4. Sede por poder e controle. Frequentemente, quando penso que
a minha vida está fora de controle, tento agarrar o volante mais forte
do que antes. A minha luta contra a soberania de Deus resulta em
uma busca por minha própria soberania. É como assistir a alguém
pintando uma parede, e, porque não gosta de como o trabalho está
sendo feito, você arranca o pincel das mãos dele e diz: “esqueça, eu
mesmo vou fazer”.
5. Dúvidas Teológicas. Questões teológicas na meia-idade são,
frequentemente, mais o produto do desapontamento do que questões
sobre o que a Bíblia realmente ensina. Quando as pessoas estão em
dificuldades para conciliar a sua experiência com aquilo que as
Escrituras ensinam, são tentadas a aliviar a pressão da aparente
contradição dando as costas às coisas que acreditaram por anos.
Durante as dificuldades poderosas da meia-idade, uma das coisas
mais importantes que você precisa decidir é se vai deixar que a
teologia da Escritura interprete e explique a sua vida ou se a sua vida
vai reinterpretar a sua teologia. Se permitir a si mesmo duvidar de
uma doutrina tão central quanto a soberania de Deus, o que vai
segura-lo de fazer o mesmo com um monte de outras doutrinas que,
em sua visão limitada, nem sempre parecem estar de acordo com a
sua vida?
Maria sentou em meu escritório com lágrimas: “Paulo, eu nunca
disse isso a nenhuma outra pessoa, mas acho que não acredito mais
nessas coisas. Eu quero dizer, olhe para minha vida. Há anos eu entrei
de cabeça em todas essas coisas de fé, esperança e coragem. Eu não
tinha medo de nada por causa de Deus. Mas veja o que aconteceu.
Onde Deus estava no meio de tudo isso? Estou aqui porque sei que
não estou bem, eu sei que preciso de ajuda, mas para ser honesta, a fé
ingênua que eu tive anteriormente na Bíblia já não está lá mais, e eu
não sei como consegui-la de volta”.
6. Impaciência com as circunstâncias. Essa é a pessoa com
pavio curto. Sabe a pessoa que fica facilmente irritada, reagindo com
ira às menores situações. O café está muito quente, a refeição muito
fria, a lanchonete não tem o refrigerante que querem, o trânsito está
muito lento. Aqui está um princípio que vai ajudar você a
compreender o que está acontecendo: Quando o tamanho dos
sentimentos de uma pessoa é maior que o tamanho da circunstância,
isso é uma indicação de que a emoção está vindo de algum outro
lugar. As pessoas que facilmente ficam iradas por coisas pequenas, na
verdade, já se aproximaram dessas coisas pequenas irritadas com a
vida, e é esse o motivo pelo qual não demora muito para que
explodam. Lembre-se, a ira com a vida é sempre uma ira com aquele
que governa a vida.
7. Deixar bons hábitos para trás. Frequentemente, quando
estamos desencorajados, deixamos de perseguir as disciplinas de
piedade que antes eram hábitos regulares. Por baixo dessa negligência
há um profundo desapontamento com Deus. É uma forma de viver do
tipo: Se-é-isso-o-que-acontece-de-qualquer-forma-que-diferença-faz?
Assim, você para de ter um tempo pessoal com o Senhor ou de
frequentar o pequeno grupo. Você para de procurar amigos piedosos
ou de contribuir regularmente com a igreja. Você se esquece de fazer
boas leituras e pequenos atos de autocontrole. Nada que você faça
parece importar. Pense sobre como isso revela o que realmente
motivou você por todos esses anos. Você tinha razão para fazer coisas
boas porque estava empolgado com a maneira como a sua vida estava
se desenvolvendo. Você estava empolgado com o Senhor e motivado
para fazer a sua vontade porque ele estava fazendo o seu sonho se
cumprir, mas, quando o sonho naufragou, você não tinha razão para
continuar firme.
Randy e Elaine eram uma figura de disciplina cristã. Tinham bons
hábitos de adoração pessoal e familiar. Eram líderes de seu pequeno
grupo e viviam com a casa aberta. Eles nutriam amizades cristãs e
pareciam gostar muito da comunhão. Randy tinha um grupo de
pessoas com as quais orava regularmente e Elaine estava sempre
lendo um livro cristão. Por muitos anos a vida conjunta deles foi
organizada por atos de fé, mas esse já não era mais o caso. Na medida
em que as crianças começaram a crescer e enfrentar problemas, eles
progressivamente foram deixando os bons hábitos. Ninguém pensou
que fosse estranho eles deixarem de liderar o pequeno grupo, visto
que já faziam isso há anos e provavelmente precisavam de um tempo.
Randy disse ao seu grupo de oração que o seu trabalho havia alterado
a agenda e não seria mais possível encontrar-se com eles. Para
amainar a sua consciência, Randy e Elaine anexaram uma explicação
plausível para cada hábito que abandonaram. Por baixo da superfície,
estavam lutando com o plano de Deus para a vida deles. Quando
vieram conversar comigo, eles não entendiam como o que estava
acontecendo no coração deles estava moldando as escolhas que
estavam fazendo.
8. Disposição para questionar o amor de Deus. O que leva uma
pessoa a questionar aquilo que creu e defendeu por anos? O que nos
leva a dúvidas sobre a cosmovisão que organizou a nossa vida? O que
leva uma pessoa a uma posição de realmente questionar o amor de
Deus? A resposta está enraizada na inabilidade de reconciliar as
contradições entre aquilo que aconteceu e aquilo que a Escritura diz a
respeito de quem é Deus. Deus declara a si mesmo como a definição
última do amor e do que o amor faz. Ainda assim, o que Deus traz às
nossas vidas nem sempre parece bom e amoroso. Em nossa
concepção de vida finita e cheia de preconceitos, não podemos deixar
que nossas experiências funcionem como lentes hermenêuticas
primárias da Bíblia. Quando isso acontecer, nós, inevitavelmente,
questionaremos a bondade e o amor de Deus.
9. Uma disposição de questionar a sabedoria de Deus. A Bíblia
afirma muitas coisas que, na superfície, não parecem sábias, do tipo:
“qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra”,
“fazei o bem aos que vos odeiam”, “A resposta branda desvia o
furor”, “Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter
contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe”. A disposição de
uma pessoa para viver dentro dos limites não depende tipicamente a
aceitação de alguma lógica abstrata da Escritura. Em vez disso, ela é
baseada na confiança no Senhor, que é a fonte de toda a sabedoria em
sua Palavra. Quando uma pessoa começa a duvidar da sabedoria do
governo do Senhor, então, é muito difícil para ela continuar a aceitar
e viver dentro da sabedoria da Palavra. É como pegar direções para a
reunião mais importante da vida com uma pessoa em quem você não
confia. Isso acontece frequentemente conosco. Quando começamos a
questionar a sabedoria do Senhor, achamos muito mais fácil sair dos
limites da sabedoria que ele estabeleceu.
Allen dizia constantemente, “Eu sei o que a Bíblia diz a esse
respeito, mas me parece que...” Ele tinha acabado de fazer quarenta e
invejava os caras mais novos ao seu redor que tinham tantos anos de
potencial diante de si. Allen se sentia como um homem velho no
trabalho. Ele se sentia em um beco sem saída, em uma vida que não
gostava, mas não podia abrir mão. Ele havia trabalhado tão duro,
tomado suas decisões de forma séria e orado com fé e, ainda assim,
tudo isso parecia não ter dado em nada. A vida dele era horrível;
parecia que tinha deixado passar aquilo que deveria ser dele. E como
abrigou questões fundamentais sobre a sabedoria do caminho que
Deus ordenou, tornava-se cada vez mais difícil para ele agarrar-se
com uma fé infantil à sabedoria da Palavra.
10. Enfraquecer seu testemunho. É comum compartilhar com
outros as coisas a respeito das quais você é empolgado. Desde o
menino pequeno que acabou de ganhar uma bicicleta nova até a
mulher que encontrou aquela loja com vestidos maravilhosos e o
homem que fisgou peixes enormes, todos nós, naturalmente, falamos
com outros sobre as coisas que são especiais para nós. O testemunho
cristão para o mundo é uma extensão natural do amor genuíno,
adoração e gratidão por Deus. Quando essa gratidão começa a
degenerar em perguntas sobre a sabedoria, fidelidade e amor de Deus,
esse testemunho começa a desaparecer. Muitas pessoas na meia-
idade, porque estão desapontadas com aquilo que aconteceu na vida
delas, também não estão motivadas a compartilhar com outras a
conforto e glória de descansar no cuidado do Senhor. Não estão
celebrando a sabedoria, perdão, presença, poder, fidelidade e amor de
Deus, mas somente lutando para se agarrar à crença de que Deus é
bom. Essa luta não é um solo fértil para uma vida de testemunho
consistente para aqueles que estão ao redor.
11. Atenção crescente ao mundo. A Bíblia é muito clara sobre
como realmente somos propensos a trocar a adoração e serviço ao
Criador por uma adoração e serviço funcionais da criação (Veja
Romanos 1.25). Existe uma guerra pelo nosso coração, que está
acontecendo em cada circunstância, relacionamento e local de nossa
vida diária. É uma guerra sobre qual tipo de glória vai atrair a minha
atenção, comandar a minha afeição e controlar o meu
comportamento. Será que a minha vida será moldada pela glória
insuperável de conhecer, amar e servir a Deus? Ou será moldada pela
perseguição das glórias do mundo ao meu redor? Quando começo a
lutar contra o governo de Deus na meia-idade, o que é glorioso já não
mais parece glorioso, o que é sábio não parece sábio e o que é amável
não parece mais amável. Visto que não estou impressionado com a
glória de Deus, ficarei muito tentado a encontrar vida, paz, alegria,
segurança, prazer, identidade etc. nas sombras de glória do mundo ao
meu redor. Isso pode significar comer demais ou gastar demais ou
uma luta com a imoralidade sexual maior do que antes. Isso pode
significar comprar um carro esportivo ou fazer uma viagem
caríssima. Ou pode significar uma migração sutil para longe de uma
vida centrada em Deus para uma vida em meio a mundanismo
funcional. Tipicamente, essa pessoa ainda vai manter hábitos externos
de fé, mas o amor pelo mundo substituiu o amor por Deus como
aquilo que dá forma e direção à vida.
Tina realmente amava o Senhor. Era evidente que isso mais do
que qualquer coisa era o que organizava a sua vida. Ela queria que
sua vida fosse agradável a ele em cada aspecto. Tina não era legalista
ou cheia de autojustiça, mas levava o seu relacionamento com Deus
muito a sério, de forma que ele estivesse presente em tudo o que
fazia. A doença que começou a afligi-la quando tinha 39 não somente
introduziu uma luta física enorme, mas também uma luta espiritual.
Ela havia seguido o Senhor fielmente, então não conseguia entender
porque ele havia permitido que isso acontecesse. Independente de
quanto tentasse evitar a luta contra Deus, é exatamente isso que a
situação de tornou. Sem nunca tomar uma decisão consciente, Tina
começou a tentar confortar o seu coração com coisas. Ainda que
estivesse doente, ela exigiu do seu marido que se mudassem para uma
casa bastante luxuosa. Arrastou seu marido para viagens para lugares
exóticos ao redor do mundo, mesmo quando a sua fraqueza estava
roubando dela a capacidade de aproveitar aquilo que as viagens
tinham para oferecer. Havia sempre uma coisa material a mais que
Tina tinha que ter. Ainda que silenciosamente, ela ficava pensando se
ter um marido mais sensível tornaria a vida mais fácil. Aos 46, essa
mulher que antes não conseguia ter o suficiente de Deus, agora não
conseguia ter o suficiente do mundo. Ela estava insatisfeita, infeliz e
inconsciente da mudança enorme que havia acontecido em seu
coração.
É assim que a guerra se torna mais violenta: Vou descansar ou
reclamar? Crer ou duvidar? Ele será a minha maior alegria ou o meu
coração será governando por alegrias que a terra tem a oferecer? Vou
deixar a dor e a decepção colocarem um obstáculo entre mim e o meu
Senhor? Continuarei agarrado aos meus sonhos, com punhos
cerrados, mesmo muito tempo depois deles terem escapado por entre
os meus dedos? Vou comparar a minha vida à dos outros ao meu
redor com o coração cheio de inveja? Vou permitir a mim mesmo
ensaiar repetidamente como a minha vida poderia ter sido diferente?
Vou tentar enterrar meu coração decepcionado com as alegrias
temporárias do mundo ao meu redor? Vou deixar que a devoção a
Deus dê lugar a questionamentos que nunca poderão ser respondidos?
Começarei a me afastar do único lugar de esperança para o qual eu
corria constantemente? Vou deixar que a minha alegria vá pelo ralo,
ou vou, em meio ao meu desânimo, lutar pelo meu coração com toda
a força que eu conseguir reunir? Vou adorar a um Deus a quem eu
não consigo compreender completamente? Vou achar alegria nele e
em seu amor, mesmo que eu lute com a dificuldade que ele trouxe ao
meu caminho?
Há muitas pessoas na meia-idade que param de lutar a batalha da
fé. Elas deixam que dúvidas e amargor se infiltrem na vida e
comecem a devorar o amor e a adoração. Elas se entregam ao câncer
da inveja e ficam paralisadas por aquilo que poderia ter sido.
Sucumbem a todo o catálogo de idolatrias que, somente
temporariamente, enchem um vazio antes preenchido pela alegria no
Senhor.
Talvez você esteja lendo e se perguntando se você está em uma
batalha de soberania contra o Senhor. Examine a lista acima. Alguma
dessas coisas está presente em sua vida e coração? Vá agora em sua
mente à coisa em sua vida que é mais difícil de aceitar. Você é capaz
de encarar essa coisa nos olhos e ao mesmo tempo celebrar o Senhor
e sua sabedoria, poder, bondade e amor? Você tem dificuldades de
encarar honestamente a sua dor e ainda assim segurar-se firme à uma
fé infantil em Deus? Se você não pode segurar a vida real em uma
mão e um descanso firme no governo de Deus na outra, então, talvez,
a guerra por controle esteja acontecendo no seu coração. Torne esse
um momento de conversão fundamental. Essa luta não é o fim, mas,
em vez disso, pode ser um novo começo de uma adoração mais
profunda e uma fé mais resistente do que você jamais experimentou
antes.

VIRANDO A ESQUINA
Há uma passagem em Atos que nos dá uma perspectiva da soberania
de Deus muito diferente da que eu e você somos tentados a ter.
Frequentemente, quando ouço pessoas debatendo essa doutrina
importante, parece que elas estão descrevendo Deus como um
enxadrista cósmico no céu. Ele fica assentado nos céus distantes,
movendo estoica e impessoalmente as peças de xadrez, de uma casa
para a outra, ao seu bel prazer. Nessa concepção, você sabe que os
dedos dele virão em sua direção para mover você para algum lugar
para o qual você não planejou ir, e não há nada que você possa fazer a
respeito. Mas a Bíblia nunca ensina uma soberania distante e
impessoal. Na verdade, ela ensina exatamente o oposto e Atos 17 é o
exemplo por excelência. Essa passagem define o que significa dizer
que a história de Deus é uma história de controle e como isso pode
ser um conforto tremendo nas estradas esburacadas da meia-idade:
Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da
idolatria dominante na cidade. Por isso, dissertava na sinagoga entre os judeus e os
gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali.
E alguns dos filósofos epicureus e estoicos contendiam com ele, havendo quem
perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos
deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição. Então, tomando-o consigo, o levaram
ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?
Posto que nos trazes aos ouvidos coisas estranhas, queremos saber o que vem a ser
isso. Pois todos os de Atenas e os estrangeiros residentes de outra coisa não
cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades. Então, Paulo, levantando-se
no meio do Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo
acentuadamente religiosos; porque, passando e observando os objetos de vosso
culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO.
Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio. O
Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra,
não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos
humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá
vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre
toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os
limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam
achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos
movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele
também somos geração. (Atos 17.16-28)

Não somente a descrição paulina do controle de Deus sobre a


nossa vida corrige a forma como pensamos sobre ele, mas também
fornece a base para conforto e descanso pessoal. Frequentemente,
quando pensamos na soberania de Deus, pensamos nela como uma
das qualidades transcendentes de Deus, ou seja, aquelas que não
compartilhamos. E é assim mesmo. Mas Paulo apresenta aos
atenienses e a nós uma teologia da soberania imanente de Deus. Em
vez de nossa vida ser controladas por alguém distante, incognoscível
e impossível de se encontrar, Paulo diz que é o seu controle sobre
cada detalhe da vida que, de fato, torna Deus próximo. Ele não está
alheio nos céus longínquos. Ele está ativamente com você a cada
momento de sua vida. Não importa o que digamos sobre a
“localização” do governo absoluto de Deus sobre todas as coisas, isso
deve ser balanceado com a “presença” que Paulo está enfatizando
nessa passagem.
O que é impressionante e encorajador nessa passagem é o que
Paulo apresenta como sendo o propósito de Deus por traz de sua
soberana proximidade. O versículo 27 é uma afirmação de propósito:
Deus fez isso “para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o
possam achar, bem que não está longe de cada um de nós”. Uau! O
propósito de Deus em controlar todos os detalhes de sua vida (o
cumprimento exato dela e os locais onde você vai viver) é para que,
em qualquer momento no meio de sua história em desenvolvimento,
você possa esticar e tocar nele, porque o governo dele o torna
próximo de cada um de nós. O que precisamos em nossa humanidade
finita e errante não é tanto o sucesso dos nossos planos, mas o próprio
Deus. Ele administra a nossa vida de forma tal que esteja
constantemente disponível a nós. O que realmente precisamos é de
sabedoria, força, graça, perdão, paz e amor; coisas que somente
podem ser encontradas, de maneira pura e sem nódoa, no Senhor. Ele
governa a fim de estar próximo, de forma que aquilo que realmente
precisamos seja nosso, mesmo nos momentos mais problemáticos,
confusos, dolorosos e desanimadores da vida.
A mentira a que tentamos nos agarrar é que se as coisas
funcionassem do nosso jeito, então, teríamos aquilo que precisamos e
seríamos felizes. Eu já sentei com muitas pessoas olhando para o
passado e já as ouvi dizer de várias formas: “Se eu tivesse somente
__________, então eu seria ___________”. A nossa necessidade mais
profunda é encontrar e descansar na coisa para a qual fomos criados –
um relacionamento correto com Deus. Ao rendermos a nossa
soberania, confessarmos que a sabedoria dele é muito mais sabia do
que o nosso pensamento mais brilhante e admitirmos que nenhum
plano pode ser mais perfeito do que o plano que vêm à mente do
Altíssimo, podemos começar a procurar aquele que está perto e a
encontrar exatamente aquilo que precisamos para os momentos
difíceis que enfrentamos.
Você e eu nunca entenderemos completamente o que Deus está
fazendo. Frequentemente ficaremos confusos por aquilo que estamos
experimentando e perguntaremos a nós mesmos como é que aquilo
pode ser “bom”. Saber que Deus está soberanamente próximo não
fará você entender a sua vida, mas é vitalmente importante
precisamente porque você não a entende. O descanso nunca será
encontrado no fato das coisas acontecerem do seu jeito ou em
entender tudo. O descanso será encontrado somente à medida que
estivermos desejosos de crer que existe alguém controlando os
detalhes da vida, não somente para a glória dele, mas também para o
nosso bem.
Talvez você esteja em um daqueles episódios em que é tentado a
gritar: “Posso falar com o gerente, por favor?” Talvez você se
pergunte porque Deus não lhe dá mais força física ou porque seria tão
mau dar a você só um pouquinho do seu sonho. Talvez você lute com
o fato de que cometeu tantos erros e se questione porque Deus não te
ensinou antes. Independente de qual for a sua luta, você tem de
entender que é uma luta por controle. Receba conforto na
proximidade soberana de Deus. Ele é, realmente, o único lugar onde é
possível encontrar descanso.
Haverá um dia quando a história de Deus estará completa e todo
nós a veremos olhando para trás. Naquele dia entenderemos.
Finalmente entenderemos que não precisamos nos preocupar nem
temer. Saberemos que foi inútil batalhar por controle. Finalmente
entenderemos que nossas histórias pessoais eram não mais do que um
capítulo na única história com sucesso garantido. A sua história não é,
de fato, sua história, mas parte da trama impressionante da história
maravilhosa e gloriosa da história de Deus. O sucesso de sua história
não depende do sucesso dos seus planos, mas do sucesso dos planos
dele. Descanse em seu governo e celebre a sua presença. Quando
estiver desanimado e confuso, não corra dele; corra até ele. Embora
as suas dificuldades lhe impeçam de ver claramente, ele está bem aí
com você, exatamente como lhe disse que estaria.
CAPÍTULO 9

BEZERROS DE OURO

Eu só preciso do suficiente para dar suporte


até que eu precise de mais. — BILL HOEST

Ama mui pouco aquele que ama qualquer coisa junto com o Senhor, e que não ame
por causa dele.
— S. AGOSTINHO

Essa é uma daquelas histórias do tipo a-verdade-é-mais-estranha-


do-que-histórias-de-ficção que pontuam a narrativa bíblica. À medida
que você lê, ela quase tira o seu fôlego. Deus, dramaticamente, liberta
o seu povo de 42 décadas de escravidão e, no processo, despoja o
Egito, dizima seu exército e demonstra o esplendor divino. Pela
primeira vez em muito tempo os israelitas estavam livres. Deus era o
seu governante, protetor e provedor. Logo estariam na terra que ele
lhes havia prometido há muito tempo. Parece o final de um grande
romance. Você quase consegue ouvir o hino da vitória em crescendo.
O povo de Deus sobreviveu. As promessas da aliança se tornarão
realidade. A semente prometida foi preservada. Deus em sua glória
realmente habita com seu povo!
Assim, Deus leva o seu povo para o pé do Monte Sinai. Aqui ele
vai reforçar sua aliança e revelar as obrigações pactuais que seu povo
deve guardar. De todas as nações da terra, a lei é dada somente para
Israel, porque somente Israel é possessão preciosa de Deus. Essa lei
expressa não somente a autoridade dele, mas também o seu amor e
misericórdia.
Então, o impensável acontece. Moisés sobe na montanha para
receber a lei da própria mão de Deus e o povo fica impaciente. Eles se
ajuntam em volta de Arão e dizem: “Levanta-te, faze-nos deuses que
vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos
tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido” (Êxodo 32.1).
Absorva isso por um momento. Essas pessoas acabaram de
experimentar a demonstração de poder divino mais incrível que
poderia ser vista. Deus enviou pragas sobre o Egito que, não somente
provaram o seu poder, mas também fizeram pouco do poder dos
deuses de Faraó e colocaram o Egito de joelhos. A mensagem clara
das pragas era não somente que esse era o povo de Deus e que ele o
guiaria para onde quisesse, mas também, mais fundamentalmente,
que não há Deus além dele e seu nome é EU SOU. Deus havia, de
uma vez por todas, demonstrado que os deuses do Egito não eram
deuses em absoluto.
Como os Israelitas podiam considerar, ainda que por um
momento, adorar qualquer outra coisa além do Senhor majestoso? Em
sua impaciência, eles pressionaram Arão para que provesse algo
concreto e visível para que adorassem. O que eles dizem a respeito
desses deuses feitos por mãos humanas é difícil de caber em nosso
cérebro. Eles querem deuses “que vão adiante” deles. Essa expressão
não diz respeito à localização dos deuses em relação aos filhos de
Israel, mas é uma expressão denotando governo. “Ir adiante” é guiar,
liderar, dirigir e proteger. Essencialmente, os Israelitas estão pedindo
a Arão que faça ídolos que os governem da forma que Deus havia
prometido pactualmente fazer e de fato havia feito quando os
resgatou do Egito.
É importante entender que os Israelitas estavam pedindo por mais
do que um ídolo cerimonial. Estavam pedindo por algo que
substituísse o Altíssimo como aquele que lhes proveria identidade,
segurança, bem-estar e propósito. Entender isso torna o pedido ainda
mais hediondo. Eles estavam pedindo a Arão que provesse algo para
tomar o lugar que somente Deus deveria ocupar na vida deles. É tão
ultrajante que é quase impossível de se compreender. Mas havia ainda
mais absurdos no caminho.
Arão, que havia sido escolhido à dedo por Deus e que havia sido
uma testemunha de primeira mão da glória de Deus, que acompanhou
o desafio de Moisés a Faraó, faz aquilo que os israelitas pediram sem
hesitação, protesto ou advertência. Imediatamente ele começa a
colecionar o ouro necessário para a construção do deus-substituto que
o povo estava demandando. Você já pensou por quantas maquinações
mentais e teológicas Arão teve de passar a fim de ficar confortável e
disposto a participar daquilo? A questão não era somente a disposição
dele em ser um cúmplice de uma idolatria tão odiável, mas também o
fato daquilo ser uma profanação direta de seu ofício de liderança
apontado por Deus. Arão não teve problema recolhendo material
suficiente para fazer um bezerro de ouro. Israel tinha muito ouro
porque Deus os havia dito para pilhar os egípcios enquanto
escapavam. Pense sobre isso, a própria provisão que Deus lhes havia
dado para a jornada foi usada para construir algo que funcionaria
como o substituto de Deus! Mas a situação ainda fica pior.
Arão coleta o ouro, derrete-o e usa suas ferramentas para
transformá-lo em algo semelhante a um bezerro. Em que ele estava
pensando à medida que esculpia e formava o metal com uma forma
própria para adorar? Quando você pensa que já ficou tão chocado
quando possível, acontece algo ainda mais chocante. Depois que Arão
terminou seu artesanato idólatra, as pessoas começaram a cantar. É o
conteúdo desse cântico que nos deixa boquiaberto. Enquanto dançam
em volta do bezerro, eles dizem: “São estes, ó Israel, os teus deuses,
que te tiraram da terra do Egito”. Eles não somente estão colocando a
sua identidade futura e segurança nas mãos de um ídolo, também
estão criando uma história revisada, que atribui a essa besta sem vida
as glórias da recente redenção. Considere o que está acontecendo
aqui. A ausência de Moisés é mais longa do que o povo esperava,
assim, eles substituem Deus por uma coisa e chamam essa coisa tanto
senhor de seu futuro quanto redentor de seu passado. Em vez de
celebrar o que somente Deus, por seu amor, misericórdia e poder
poderia ter feito, dão crédito à criação de suas próprias mãos.
Você pensaria que quando Arão ouvisse o cântico ficaria chocado
ao entender a coisa horrível que fizera, mas ele não ficou. Em vez
disso, ele declara que o dia seguinte será um dia santo, uma festa de
sacrifício e celebração ao “Senhor”. Cedo na manhã seguinte, o povo
faz sacrifícios ao seu novo “Senhor” feito por mãos e, então, se
entrega à orgia selvagem!
Quando Moisés ouve e vê o que está acontecendo, naturalmente,
pensa que Arão deve ter tido a vida ameaçada a fim de participar de
um ato tão terrível. Parafraseando a cena, Moisés diz: “Arão, o que é
que esse povo te fez a fim de que você os guiasse em um pecado tão
terrível?” Arão tenta desviar a culpa dizendo: “Você sabe como esse
povo é mau. Eles pensaram que você tinha ido embora e quiseram
deuses que fossem diante deles. Assim, eu coletei o ouro de suas
joias. Ai, Moisés, a coisa mais maravilhosa aconteceu. Eu só joguei o
ouro no fogo e eis que de repente apareceu esse bezerro!” É difícil
imaginar que isso é realmente o que Arão disse, mas é. Não somente
ele tomou um papel de liderança na idolatria traidora de Israel, mas
também negou totalmente a sua cumplicidade nela.

INDO AO PONTO
O que isso tem a ver com a sua luta para transpor os remorsos que
você parece não conseguir mover ou com as mudanças físicas em seu
corpo ou com o funeral de esperanças e sonhos antigos? Como essa
história pode me ajudar de uma maneira prática? Deixe-me sugerir
algumas formas em que essa passagem pode diagnosticar o coração
de sua luta e o que realmente está acontecendo com você.
1. Lembre-se, tudo na Escritura é a respeito da meia-idade.
Cada história é parte de uma história maior de redenção, que foi
escrita e preservada para o nosso socorro e instrução. Visto que toda a
Bíblia é a respeito de quem somos, quem Deus é e sobre o que a vida
diz respeito, há um sentido em que todas as passagens da Escritura
são a respeito das lutas da meia-idade, pois cada passagem revela
algo sobre como a natureza humana pecaminosa funciona. Cada
passagem revela como Deus nos resgata de nossas dificuldades mais
profundas e permanentes. Cada passagem revela como podemos
funcionalmente ser parte do que Deus está fazendo em nós e no
mundo.
A passagem anterior, embora tão culturalmente diferente daquilo
que você e eu já experimentamos, também foca no cerne das lutas das
pessoas de meia-idade que vivem no século vinte e um. Ainda que as
culturas mudem constantemente, a vida nesse mundo caído é bastante
semelhante ao que sempre tem sido. Mesmo quando o estilo de vida
das pessoas da Escritura parece tão radicalmente diferente do nosso,
ainda assim existem semelhanças que podem ser apontadas. Lembre-
se, a Bíblia apresenta pessoas reais em um mundo real, relacionando-
se com um Deus real. Essa é exatamente a perspectiva da história
bíblica que Paulo apresenta em 1Coríntios 10.6-14, onde ensina que
os eventos do Antigo Testamento foram escritos como advertências
para que nós fujamos da idolatria.
Toda a Bíblia é um espelho, o qual ajuda você a “ver” coisas
incrivelmente importantes a respeito de si mesmo. Se estiver
procurando por um insight tópico sobre a meia-idade, pode
rapidamente deixar Êxodo 32 para trás. Na superfície, passagens
como essa não dizem nada sobre a meia-idade. Ainda assim, Paulo
opera sobre o pressuposto de que toda a Bíblia fala para toda a vida.
Assim, essa passagem explica a meia-idade tanto quando explica a
infância, a paternidade e o casamento.
2. Os Israelitas eram pessoas exatamente como nós. Quanto
mais de perto você olha para as pessoas de Êxodo 32, mas familiar
elas se tornam. Isso porque eram pessoas assim como nós. Quando
permite a si mesmo olhar além das enormes diferenças culturais, será
capaz de se identificar com os pensamentos, desejos, palavras e ações
das pessoas que encontramos ali. Pessoas são pessoas. No nível do
coração, nós todos somos iguais. Podemos nos identificar com os
ciúmes de Caim, com a ira de Moisés, com a cobiça de Acã, a luxúria
de Davi, a deslealdade de Absalão o orgulho de Nabucodonosor, a
autojustificação dos fariseus e a depressão de Elias. Eles não são
alienígenas de um planeta diferente. São pessoas cujos pés andaram
no mesmo solo que os nossos e tropeçaram nas mesmas coisas que
nós tropeçamos.
Se abrir a sua Bíblia com mãos humildes, você vai se encontrar
em cada página. Você e eu teríamos reclamado do maná quase sem
gosto do deserto. Você e eu teríamos questionado a liderança de
Moisés no Mar Vermelho. Você e eu teríamos sido atraídos pela
cultura de idolatria das nações da Palestina. Nós provavelmente
teríamos falhado em reconhecer que Jesus era realmente o Messias.
Nós compartilhamos identidade com as pessoas da Escritura e, por
causa disso, não existe uma dificuldade em nossas vidas que a Bíblia
falhe em tratar de alguma forma.
3. Nós estamos constantemente adorando alguma coisa. Esse é
o epicentro da antropologia das Escrituras. Quando entender esse
fato, você não vai mais viver em um mundo bifurcado entre espiritual
e secular. A Bíblia diz que você é um adorador. Você está sempre
perseguindo algo e servindo algo que forneça significado, propósito e
alegria. Agora, como eu já escrevi, há somente duas opções na vida.
Essas opções são gritantes em Êxodo 32. Se Deus não é a razão
central para fazermos tudo o que fazemos, então, algo na criação será.
Esse é um insight inescapável e profundo. Cada momento da vida é
espiritual. Tudo o que eu faço é teológico. Nunca há um momento –
nunca uma palavra, ação ou reação – que não seja, de algum modo,
formada por qualquer que seja a coisa que conquistou a fidelidade do
meu coração. Não existe nem mesmo metade de um segundo em que
meu coração não seja reivindicado por alguma coisa. Há sempre
algum desejo que me governa.
Analise de perto e você verá que todas as histórias da Bíblia são a
respeito de adoração. A Queda é um drama de adoração e é seguida
por uma série de dramas de adoração; isso é, pessoas permitindo que
o coração fosse sequestrado pela criação e fazendo escolhas
desastrosas como resultado. Debaixo da superfície das lutas da meia-
idade também se encontra um drama de adoração. A crise da meia-
idade não é somente a respeito das questões superficiais de idade,
remorso e sonhos perdidos. Essas coisas sozinhas seriam
razoavelmente fáceis de resolver. Não, o verdadeiro drama da meia-
idade acontece no coração. O que você adora vai fazer uma diferença
enorme em como você lida com as coisas que quase todo mundo
enfrenta durante os anos da meia-idade. No mesmo grau em que o seu
coração for capturado por alguma coisa na criação, mesmo que você
não tenha percebido, a meia-idade será extremamente difícil para
você. Note, são essas mesmas coisas na criação que tendem a escorrer
por entre os nossos dedos nos anos da meia-idade. Se você procurou
essas coisas para te darem vida, elas o jogarão nas realidades
rochosas das lutas da meia-idade.
4. Todos tendemos a substituir o espiritual pelo físico. Eu já
falei bastante sobre isso no capítulo 4, mas um lembrete não vai
machucar. Como Êxodo 32 ilustra tão poderosamente, é muito difícil
seguir a um Deus que você não vê, não ouve nem toca. Repare que,
quando Moisés, que funcionou como um representante visível de
Deus, ficou ausente por mais tempo do que o povo de Israel achou
que ele deveria, imediatamente passaram a fazer um deus visível, o
qual pudessem adorar. Talvez essa migração aconteça mais
frequentemente e de muito mais formas do que imaginamos. De
maneiras sutis, a meia-idade revela que substituímos a esperança
espiritual pela esperança física. Nós apostamos o nosso bem-estar em
coisas que podemos ver, tocar e quantificar. Quando essas coisas dão
errado ou desvanecem, sentimos como se a vida também estivesse
nos deixando.
Se prestar atenção, você verá essa mudança do espiritual para o
físico em todos os lugares à sua volta. Compromisso com a saúde
espiritual dá lugar a foco na saúde física. Desejo por riquezas físicas
toma o lugar de gratidão por riquezas espirituais. Gratidão por
aceitação da parte de Deus dá lugar a uma ansiosa busca por
aprovação das pessoas. Comida física chama mais a sua atenção do
que sustento espiritual. O caráter espiritual tem dificuldades para
competir com a aparência física. Os dons espirituais diários dados por
Deus passam desapercebidos enquanto contamos nossos bens
materiais. A presença de Deus é assumida e ignorada, e lutamos por
amor humano. A identidade de Cristo não recebe a atenção que o
local e a posição física recebem. A mudança está em todos os lugares
à nossa volta e é um problema sério na meia-idade. Na meia-idade
você tende a avaliar o retorno dos investimentos que fez. É nesse
momento que você é atropelado pelo fato de que investiu seu bem-
estar em coisas que estragam, podem ser roubadas ou desvanecem
com o tempo. Jesus não disse algo sobre isso?
Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem
corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no
céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam.
(Mateus 6.19-20)
5. Tendemos a atribuir à criação coisas que somente podem
vir do Criador. Quando você lê Êxodo 32, é difícil acreditar que os
Israelitas, que tinham acabado de ver uma demonstração maravilhosa
do poder de Deus, atribuíssem aquele poder a uma imagem que
haviam acabado de fazer, mas foi exatamente isso que fizeram.
Talvez seja a rapidez e ousadia deles que nos choquem, mas não
deveríamos ficar chocados. Nós fazemos isso o tempo todo.
Atribuímos o nosso bem-estar financeiro à economia, nossa alegria ao
casamento, nossa saúde à boa alimentação, nossa espiritualidade à
boa igreja e nossa segurança ao bom sistema de segurança. Como
cristãos, deveríamos questionar essa lógica aparente. Sabemos que
existem muitas pessoas, que são investidores muito melhores do que
nós, que perderam até suas roupas. Conhecemos muitas pessoas que
cuidavam dos seus corpos somente para ver a sua vitalidade ser
sugada por alguma doença. Conhecemos muitas pessoas que
buscaram fazer as escolhas mais sábias para prover segurança e ainda
assim se encontraram em perigo.
Qual é o problema aqui? Será que a ausência física de Deus nos
tenta a creditar às coisas tangíveis o dar-nos aquilo que somente Deus
pode dar? Ele é Senhor sobre nossas finanças, nossa saúde, nossa
alegria, nossa segurança e nossa espiritualidade. Sim, somos
chamados a fazer boas escolhas, assim como os israelitas foram
chamados a fazer certas coisas enquanto eram libertados da
escravidão do Egito. Mas eles não podiam, por meio dessas coisas,
libertar a si mesmos. Isso também é verdade a nosso respeito. Deus
nos chama para tomar decisões responsáveis e boas, mas a menos que
ele derrame sobre nós o seu favor gracioso e proteção soberana, não
nós ficaremos bem.
Novamente, isso é algo muito comum na meia-idade. Visto que a
meia-idade tende a ser um momento para avaliar o nosso passado,
praticamos muito o dar crédito ou atribuir culpa. É aqui que nos
colocamos em problemas, pois frequentemente fazemos avaliações
que nos preservem (culpa) enquanto nos esquecemos do cuidado
constante de Deus (crédito). Uma das coisas mais importantes que
você pode exigir de si mesmo na meia-idade é procurar pela mão de
Deus em sua vida. Você e eu temos de reconhecer a presença,
proteção, provisão, sabedoria, orientação e graça dele.
Há algo terrivelmente errado quando podemos olhar em nossa
vida e não encontrar Deus. Há algo profundamente idólatra sobre
atribuir à criação aquilo que somente o nosso Senhor amoroso, sábio
e soberano é capaz de fazer. Em todos as terríveis decepções da meia-
idade, é maravilhoso olhar para trás e ver sua vida como uma história
de graça e misericórdia, amor e fidelidade, orientação e proteção.
Sim, você viveu em um mundo caído. Sim, houveram dificuldades e
decepções ao longo do caminho. Não, as coisas não aconteceram
exatamente da maneira que você havia planejado, mas quando olha
para trás, você vê a mão de Deus repetidamente, e fica agradecido.
6. Falta de paciência e idolatria andam de mãos dadas. É
sábado de manhã e você está na fila para pegar pão. Há uma demora
em sua frente e você fica crescentemente impaciente. Você pensa:
“Eles estão fazendo pães, não arranha-céus. Porque está demorando
tanto?” Você fica ali um pouco mais, cada vez mais irritado com o
passar do tempo, quando, de repente, se lembra que há uma grande
padaria ali por perto. Assim, você entra em seu carro e dirige como
um louco até ela. Foi a sua impaciência que te fez ir até outro
estabelecimento. A mesma dinâmica está em ação em Êxodo 32. Os
detalhes do relato são cuidadosamente registrados para nós, porque
detalhes são importantes. As pessoas estavam cansadas de esperar
pelo embaixador visível de Deus, Moisés. Eles concluem que ele
estava fora por muito tempo. Na verdade, eles disseram a si mesmos
que algo deveria ter acontecido a ele. Assim, se Deus não está no
lugar, dando-nos aquilo que queremos que nos dê, a nossa confiança
nele sucumbe e tendemos a entregar o nosso coração a alguma outra
coisa.
Uma das coisas mais difíceis para pecadores é esperar. Temos
pouca tolerância pela gratificação demorada, assim, quando pedimos
coisas a Deus, incluímos o nosso prazo de entrega no pedido. Mas o
senso de tempo de Deus é infinitamente diferente de nosso. Quem
imaginaria que se passariam milhares de anos entre a Queda e a cruz?
Quem imaginaria que o mundo teria de esperar tanto tempo pela
semente prometida de Abraão? Quem imaginaria que Deus permitiria
que o seu povo fosse subjugado à escravidão, em uma terra
estrangeira, por quatrocentos e vinte anos? Quem imaginaria que os
“últimos dias” dos quais Paulo falou ainda continuariam atualmente?
Deus tem um senso perfeito de tempo. Seu momento é sempre o
momento certo. Ele nunca fica com a agenda em conflito ou
bagunçada. Ainda assim, a espera nos confunde, pois pensamos que,
se a coisa é boa, então, um Deus amoroso a entregará para nós com
urgência.
Aqui está a conexão com a meia-idade: em nosso desânimo com
a espera, como Israel aos pés do monte Sinai, começamos a dar a nós
mesmos outras coisas. Talvez não seja de forma tão descarada quanto
a idolatria na base do monte enquanto Deus, em seu amor, estava
dando a sua lei. Em vez disso, há uma migração sutil de afeição. Em
formas que não entendemos, abrimos mão de Deus e entregamos
nosso coração a coisas que podemos ver, ouvir, tocar, provar, medir e
quantificar. Essas coisas se tornam os nossos Messias “plano B”.
Pedimos a elas que nos deem as coisas que somente Deus é capaz de
dar. Olhamos para as coisas criadas, talvez até mesmo as que
tenhamos feito para que recebêssemos significado e propósito, um
senso de identidade, esperança e segurança, contentamento e paz.
Esperamos que casas, carros, carreiras, experiências e pessoas
satisfaçam nosso coração. Procuramos essas coisas para encontrar
vida. Ficamos cansados de esperar em Deus e assim, nos dirigimos à
loja da esquina, esperando que ela seja capaz de nos libertar. A dor da
meia-idade não é simplesmente que todos nós colecionamos coisas
das quais nos arrependemos, que tenhamos temor da velhice ou que
lamentemos o falecimento dos nossos sonhos. Nós lamentamos o fato
de que a meia-idade expõe a incapacidade fundamental dos nossos
ídolos de nos salvar. Pense sobre isto: o ídolo sobre o qual Israel
afirmou que os havia governado e guiado foi feito de metal e formado
por mãos humanas. Não tinha mente, emoção, poder, nem vida. Era,
no sentido mais pleno do termo, um objeto inanimado. Não tinha a
capacidade de fazer nada a não ser distrair a adoração das pessoas que
o fizeram. Ele somente poderia desapontar. Sempre acontece assim
com coisas criadas. Elas nunca podem preencher o vazio de nosso
coração; somente Deus pode fazer isso.
7. Todos somos propensos a colocar a culpa de nossa idolatria
sobre outros. Veja a “lógica” por trás da idolatria de Israel. Moisés e
Deus desapareceram e nós não sabíamos se eles voltariam, assim
fizemos esse bezerro para nos guiar e nos dar segurança. Se Moisés
não tivesse sumido por tanto tempo, isso não teria acontecido”. Ou
pense sobre o que Arão disse a respeito da cumplicidade dele, e
mesmo da liderança nessa idolatria horrenda. Você pode ouvi-lo
dizendo: “Moisés, vou te dizer, esse é um povo muito mal e não
demorou muito até que eles esquecessem de você. Eu era uma
minoria, então, o que eu podia fazer quando me pediram para fazer
algo que eles pudessem adorar? Arão até coloca a culpa dele mesmo
sobre o fogo. Ele essencialmente diz “Moisés, foi a coisa mais
estranha. Eu nunca vi nada como isso. Coloquei o fogo no ouro e ele
não somente derreteu, mas formou a si mesmo na mais perfeita forma
de um bezerro. Que coisa impressionante!”
Há uma grande tentação na meia-idade de colocar a culpa dos
ídolos que Deus está expondo sobre pessoas e coisas à nossa volta. O
homem cujo ídolo foi sucesso em sua carreira e que,
consequentemente, gastou seu tempo longe de sua família é tentado a
olhar para trás e dizer: você não sabe quando custa criar quatro filhos
e sustentar uma esposa nessa economia. Parece que o dinheiro nunca
era suficiente e, assim, eu me comprometi com o avanço de minha
carreira de forma que pudesse prover melhor. Afinal, Deus me
chamou para ser um bom provedor de minha família, não é verdade?”
Ou a esposa, que foi excessivamente controlada pela beleza de sua
casa, diz: eu sei que parece que tomou muito do meu tempo e energia
e parece que eu estava ligada demais às coisas, mas tudo o que eu
queria era criar um ambiente que nossos filhos ficassem orgulhosos
em chamar de lar”. Ou o homem que gastou vários anos de sua
paternidade irado por ter o coração controlado pelo desejo por
respeito que diz: “É, eu sei que parece que fui um pai bastante durão,
mas você não sabe como eram os meus filhos. As coisas não são
como eram na época em que eu estava crescendo. As crianças eram
muito mais respeitosas naquela época. Eu só não queria que os meus
filhos saíssem de casa sem aprender a respeitar a autoridade”. O que
cada uma dessas pessoas tem em comum? Cada uma delas está
fazendo uma avaliação de sua vida. Cada uma delas tem de enfrentar
deficiências no legado deixado para trás, mas nenhuma delas
realmente admitiu que esse legado está diretamente ligado aos desejos
que governaram o coração. Na verdade, cada uma delas transferiu a
culpa de sua idolatria para alguma outra coisa ou pessoa.
8. Todos nós usamos as coisas que Deus proveu para construir
nossos próprios bezerros de ouro. Você se lembra de como esses
escravos recentemente libertos conseguiram o seu ouro? Viera do
Egito. À medida que Deus estava matando os filhos primogênitos dos
egípcios, ele disse aos israelitas para pedirem prata e ouro para os
seus captores. “Se eu fosse um egípcio e esses escravos tivessem
causado todo esse problema, a última coisa que eu faria seria dar a
eles as minhas coisas de valor para que levassem!” Mas Êxodo 11.3
explica que Deus tornou os egípcios favoravelmente dispostos aos
seus, em breve libertos, escravos. O ouro que levaram consigo para o
deserto fora diretamente provido pela mão de Deus. Considere o que
isso significa. Os próprios bens que objetivavam testificar de forma
visível o compromisso pactual de Deus foram usados para construir
um ídolo que substituísse aquele que havia provido tais bens em
primeiro lugar!
Isso é espiritualmente importante. Na meia-idade você encara o
fato de que usou as coisas que Deus proveu para o seu bem-estar
como substituto funcional. Aquelas coisas que deveriam ser um
lembrete visível da glória de Deus em nossa vida se tornam glórias
substitutas, que nos levam para longe dele. Por exemplo, ele nos
proveu com o ouro da amizade e nós passamos a desejar mais a
aceitação das pessoas do que a de Deus. Ele nos proveu o ouro do
casamento e da família, mas a família se torna mais importante do
que agradá-lo. Ele nos proveu com o ouro do trabalho e nós deixamos
esse meio de provisão seja a coisa que nos controla. Ele nos deu o
dom de conforto material, mas nós passamos a viver mais para as
coisas do que para ele. Muito da colheita que é tão difícil de aceitar
na meia-idade está diretamente ligada ao fato de que falhamos em
manter as coisas no seu devido lugar.
9. Deus é ciumento por nossa adoração e fará o que for
necessário para obtê-la. É difícil de aceitar, mas três mil pessoas
morreram por causa da construção do bezerro de ouro. Há duas
formas de pensar sobre isso. A primeira é ver esse fato como a prova
cabal de que Deus não é amoroso, misericordioso nem gracioso. A
outra forma é mais bíblica. Se Deus realmente amava Israel, não faria
sentido aceitar que dessem o amor que pertencia a ele a um objeto
inanimado! Você não concorda que o amor verdadeiro é sempre
apropriadamente ciumento? Se eu reclinasse na poltrona e dissesse à
minha esposa que ela foi uma das muitas mulheres que eu amei
muito, como você acha que ela responderia? Se ela tem qualquer
amor por mim, ficará ciumenta e ultrajada. A única forma de aceitar
isso é se ela realmente não tiver amor real por mim em seu coração.
Da mesma forma, Deus vê a idolatria de Israel como inaceitável. Ela
não cabe em seu plano. Ela não tem lugar no tipo de relacionamento
amoroso que ele pactuou com seu povo.
Há outra coisa aqui. Deus está disposto a sacrificar aquilo que é
importante para nós a fim de reclamar nosso coração. Deus ama tanto
Israel, que está disposto a perder três mil israelitas a fim de fazer com
que o coração de toda a nação se volte a ele. A única coisa que Deus
não está disposto a compartilhar é o nosso coração. Assim, ele usa
tudo o que está à sua disposição para reclamar a nossa afeição, culto e
adoração. As ações de tomada de posse da parte de Deus são
frequentemente devastadoras, mas, ao mesmo tempo, são um sinal
seguro da profundidade e fidelidade do amor dele. Ele não parará de
lutar pelo nosso coração. Ele não nos compartilhará com outro. Ele
vai batalhar para ser o centro de nosso universo pessoal até que
estejamos com ele na eternidade.
Muito da perda que tende a tirar o nosso fôlego tem a ver com os
ciúmes de Deus. Deus está disposto a deixar os nossos sonhos se
esfacelarem, nossos planos darem errado, nossas esperanças erodirem
a fim de conquistar novamente o nosso amor. Ele não poderia nos
amar e deixar que nosso trabalho, casa, amigos, cônjuge, filhos ou
posição o substituísse. O amor dele é belamente intolerante, ele está
disposto a ser severo a fim de não nos perder. Ele está disposto a
fazer coisas drásticas a fim de nos livrar da escravidão de coisas que
nunca deveriam nos governar. Não permita que as perdas da meia-
idade façam você questionar a presença e amor dele. Elas, na
verdade, provam o oposto. Deus está batalhando pelo seu coração,
mesmo que isso signifique tirar coisas que se tornaram preciosas para
você.
10. Todos nós precisamos questionar: “quais são os meus
bezerros de ouro”? Sendo pecadores que tendem a substituir o
Criador pela criação (Romanos 1.25), todos nós, em alguma medida,
tomamos o “ouro” que Deus nos proveu e o transformamos em nosso
próprio bezerro. Servimos a isso mais do que servimos a Deus.
Talvez fossem os seus filhos. Quando saíram de casa você sentiu
como se a sua vida tivesse acabado e não sabia o que fazer com você
mesmo. Talvez fosse o seu trabalho. Ele fazia com que se levantasse
de manhã e mantinha você motivado dia após dia, mas o controle que
exerceu sobre o seu coração deixou um legado doloroso em sua vida
pessoal, em sua família e em seu relacionamento com Deus. Talvez
fosse a sua saúde ou aparência física. Você extraia mais identidade de
ser bonita e magra do que jamais imaginou e as mudanças que vem
com idade tem sido um comprimido difícil de engolir. Talvez tenha
sido o sucesso financeiro e o conforto material que fisgaram você. A
sua vida se tornou mais a respeito de adquirir coisas como um fim do
que como um meio para ajudá-lo a viver a sua vida. Agora que você
está ficando mais velho, a casa grande te deixa vazio, a mobília rica
não significa muita coisa e os carros luxuosos não são mais tão
empolgantes quanto foram.
Talvez os seus bezerros de ouro ainda estejam no lugar e você não
os vê. Se eu assistisse a um vídeo de sua semana, o que eu veria como
sendo a razão pela qual você vive? Uma das coisas mais tristes é
ouvir pessoas que estão passando pela crise da meia-idade analisando
a vida e ainda assim falhando e aprender as suas lições. É triste
quando Deus está batalhado pelo seu coração durante anos e você
ainda está lidando para se agarrar aos seus ídolos. Você tem uma
noção de quais são as suas tendências de construção de bezerros?
Você aprendeu as suas lições? Por acaso está lutando pelo seu bezerro
de ouro ao mesmo tempo em que Deus está lutando pelo seu coração?
O que em sua vida neste exato momento tende a tomar o lugar que
pertence a Deus por direito? Por acaso você ainda está derretendo o
seu ouro e prata porque não sabe o que Deus está fazendo e você não
quer mais esperar?
CONSTRUINDO UM BEZERRO DE OURO
A vida começou difícil para a pequena Kristi. Filha de uma mãe
solteira com muitos problemas, ela passou de orfanato a orfanato.
Pela graça de Deus, quando tinha sete anos, chegou em um lar muito
sólido e, eventualmente, foi adotada. Os pais de Kristi não eram
cristãos, mas seu pai era um trabalhador sério e sua mãe uma dona de
casa comprometida, e ambos eram país dedicados. Embora todos a
considerassem parte da família, Kristi estava sempre consciente de
que aquela não era e nunca seria a sua família. Ela estava muito presa
a questões de identidade e aceitação. Sob o olhar zeloso de seus pais,
Kristi foi muito bem na escola e foi aceita em uma ótima faculdade.
Os anos de faculdade foram transformadores para Kristi. Em seu
primeiro ano ela dividiu quarto com uma moça cristã. A priori, Kristi
a achou estranha e era cética quanto às suas crenças. Ao mesmo
tempo, Kristi estava atraída pela alegria e certeza com que sua colega
de quarto vivia. Com um pouco de medo, Kristi foi à sua primeira
reunião social cristã no campus com sua colega. Para a sua surpresa,
Kristi teve bons momentos e gostou das pessoas que conheceu ali.
Duas semanas depois ela relutantemente aceitou um convite para um
estudo bíblico. Kristi não fazia ideia do que a esperava naquela tarde,
mas viu a si mesma estranhamente interessada naquilo que estava
ouvindo. Depois de três ou quatro estudos bíblicos, Kristi decidiu que
deveria ler a Bíblia por si mesma. Depois de três meses aquilo que
começou como um exercício de investigação cética se tornou em uma
jornada pessoal de fé. Deus se deu a conhecer a Kristi e ceticismo
dela se transformou em amor e adoração. Com a ajuda de seu líder do
ministério estudantil ela entregou o coração a Jesus.
Pela primeira vez em sua vida, Kristi sentiu que realmente
pertencia a alguém. Ela ficou profundamente tocada pelo fato de que
tinha um pai celestial. Ela amou o fato de que o corpo de Cristo
também era chamado de a família de Deus. Estava empolgada com o
fato de que rapidamente havia adquirido uma rede de contato de
irmãos e irmãs. Kristi estava cheia de alegria e esperança como nunca
havia experimentado antes. Ela havia experimentado o seu próprio
êxodo pessoal. Seu ano seguinte foi gasto aos pés do seu próprio
Monte Sinai, aprendendo a fé à qual ela havia entregue o seu coração.
Ela ouvia cuidadosamente, leia vorazmente e outras coisas também
estavam acontecendo.
A primeira vez que Kristi falou com Freddy foi quando o estudo
bíblico se dividiu em grupos menores para oração. Depois do estudo
eles conversaram rapidamente e andaram pelo campus juntos até os
dormitórios. Uma semana depois, Freddy ligou para Kristi e a
convidou para assistir a um filme. A ideia, por algum motivo, deixou
Kristi desconfortável, então, ela inventou uma desculpa e não foi.
Mas Freddy não estava disposto a desistir facilmente. Depois de
quase um mês da persistência, Kristi aceitou ir ao cinema. Ela não
conseguia entender como a conversa deles fluía tão fácil, quão
tranquila ela se sentia com ele e como aquela noite tinha sido
divertida. Freddy sentia o mesmo e os dois começaram a gastar
bastante tempos juntos. Kristi achava impossível que a vida ficasse
ainda melhor. Ela tinha seu recém-encontrado relacionamento com o
Senhor é agora tinha um namorado de verdade.
Em toda a sua gratidão e alegria, no entanto, mais uma coisa
estava acontecendo. Quanto mais ela entregava o seu coração a
Freddy, mas insegura ela se tornava. Ela era bastante ciente de como
ele se relacionava com outras meninas e era bastante exigente quando
ao tempo e atenção dele. Inundava-o de perguntas sobre como ele
gastou o tempo que passou longe dela. Repetidamente Freddy
assegurava Kristi de seu amor e fazia coisas para demostrar o seu
afeto. Com tudo isso acontecendo, Kristi e Freddy começaram a
discutir o futuro. Eles procuraram o seu líder espiritual no campus
para conselhos antes do noivado e depois de algumas semanas
conversando com ele, eles ficaram noivos.
Kristi só tinha mais um ano de faculdade e tinha um anel em seu
dedo. Ela não podia acreditar. Ela tinha uma vaga ideia de que
terminaria solteira em uma grande cidade e com uma boa carreira,
mas a sua vida havia mudado radicalmente. Ela mal podia esperar
para casar e ter a sua própria família. Kristi e Freddy se formaram
juntos, casaram e se estabeleceram. Freddy conseguiu um ótimo
emprego. Eles encontraram uma boa igreja para frequentar. Kristi não
estava interessada em trabalhar porque realmente queria começar uma
família.
Kristi era uma esposa muito exigente. Tinha de saber onde Freddy
esteve o tempo todo. Kristi se derretia em silêncio quando pensava
que Freddy não estava dando atenção suficiente a ela ou quando
achava que ele tinha dado muita atenção a outra pessoa. Cada uma
dessas vezes, Freddy tinha de conversar com Kristi até que ela se
recompusesse, mas ele estava ficando crescentemente irritado por
sempre ter de provar o seu amor. Freddy pensava que dar início a
uma família ajudaria Kristi e certamente tornaria as coisas mais fáceis
para ele. No final do primeiro ano de casamento, Kristi ficou grávida.
Eles estavam muito empolgados, mas Kristi estava temerosa e
determinada, ela não permitiria que seu filho experimentasse nada do
que ela sofrera nos seus primeiros anos. Assim, ela estava
determinada a fazer da sua casa o lar mais maravilhoso que uma
criança poderia ter.
Kristi e Freddy tiveram três filhos, o que foi tanto maravilhoso
quanto difícil. Ambos eram muito gratos pelo seu relacionamento e
por seus filhos, mas Kristi nunca estava satisfeita. Não importava
quão agradável a casa estivesse, ela podia sempre ficar mais bonita.
Não importava quão bem ela cozinhasse, sempre pensava que poderia
fazer melhor. Não importava quão bem Freddy provesse, Kristi
pensava que sempre precisava de mais. Não importava quão bem as
crianças se comportassem e conquistassem, Kristi estava convencida
de que podiam fazer melhor. Ela era uma mãe tanto carinhosa quanto
exigente. Muitas vezes por dia Kristi assegurava aos filhos do quanto
os amava e, então, perguntava: “Vocês amam a mamãe? Quanto?”
Ela também era motivada pelo sucesso deles. Kristi ficava em cima
de seus filhos enquanto faziam o dever de casa e era obcecada com as
notas deles. Aulas de natação, música, clube de leitura, balé e
ginástica preenchiam cada momento livre do dia deles.
Freddy estava cada vez mais frustrado com o seu relacionamento
com Kristi. Parecia que nunca conseguiria amá-la o suficiente e fazer
as coisas direito. Ele tinha constantemente de se explicar, e não
entendia porque ainda tinha de provar o seu amor depois de todos
esses anos. Estava cansado do “tratamento do silêncio” e irritado por
mal ter uma conversa com outra mulher sem que Kristi ficasse irada.
Os filhos agora estavam no ensino médio e também consideravam o
relacionamento com a sua mãe difícil. Satisfazer a mãe era como um
alvo sempre em movimento, que eles nunca eram capazes de acertar.
Também parecia que a lealdade e amor deles estavam sempre sendo
testados. Se não verbalizassem o seu amor por Kristi todos os dias,
ela agia como uma pessoa ferida e deprimida. E, à medida que
ficaram mais velhos, sentiam que Kristi queria fazer mais parte de
suas vidas do que era devido.
Todos os três filhos foram para a faculdade, casaram e se
mudaram para bem longe de casa. Kristi ficou ferida com o fato de
que nenhum de seus filhos quisesse ficar perto dela depois de tudo o
que fez por eles, e ela se sentia muito sozinha. Ao mesmo tempo, o
seu relacionamento com o Freddy não era bom. Ao longo dos anos
Freddy finalmente desistiu de ficar tentando provar o seu amor por
Kristi e havia se isolado em seu próprio mundo. Kristi estava irada
por estar presa a um homem frio e distante e ficava se perguntando
porque havia se casado com ele. Ela se ocupava escrevendo cartas
semanais para cada um dos filhos, preparando lembranças para eles e
ligando semanalmente. Mas os filhos não eram recíprocos. Ela e
Freddy faziam coisas juntos, mas seu relacionamento não era o que
tinha sido antes.
Kristi ficou cada vez mais deprimida e iracunda. Ela ainda não
tinha cinquenta, mas sentia que tinha mais. Olhava para os anos que
ficaram para trás e se sentia esgotada. Não era para ter sido assim. Ela
sempre sonhara em ter uma casa convidativa e grande, onde os filhos
amariam vir. Ela sonhava em ter um relacionamento mais próximo
com cada um dos seus filhos. Havia sonhado com almoços e compras
juntos e em ser uma avó-babá sempre disponível. Ela não podia
acreditar que seus filhos estivessem espalhados pelo país e fazendo
contato com ela de forma tão esporádica. Logo agora que ela e
Freddy poderiam se divertir juntos, parece que havia sobrado tão
pouco em seu relacionamento.
Por baixo de tudo isso, Kristi estava desiludida com Deus. Ela não
conseguia entender porque ele deixou que tudo isso acontecesse.
Afinal, ela havia feito todas as coisas boas que uma boa mãe cristã
deveria fazer. Havia trabalhado duro, dado o seu amor aos seus filhos
e se assegurado de que cada um deles estivesse preparado para
enfrentar a vida como adultos. E o que ela ganhou com tudo isso? Um
marido que parecia não a amar e filhos que se esqueceram do que ela
havia feito por eles no mesmo minuto em que saíram de casa.
A cada dia Kristi ficava mais distante, não somente de seu marido
e de suas atividades, mas do Senhor também. A Bíblia parecia não
significar mais nada para ela. Os hinos que antigamente amava já não
serviam mais de esperança e encorajamento. Kristi estava perdida no
meio de sua própria história, e não entendia como havia chegado ali.
Muitos dias, quando estava sozinha em casa, pensava em deixar
Freddy e se mudar para perto de um de seus filhos. Muitas vezes,
quando saía com Freddy, se encontrava desejando encontrar um outro
homem, que realmente a amasse o suficiente ao ponto de querer
gastar o resto da vida com ela. Kristi havia desistido de viver, porque
a coisa pela qual havia vivido todos esses anos fora tirada dela. Essa
única coisa havia governado o seu coração, dado forma a cada
decisão tomada, determinado as suas palavras e condicionado as suas
reações àquilo que acontecia à sua volta.
Sem saber, Kristi pegara o ouro que Deus havia lhe dado para a
sua liberação e usado para construir o seu próprio bezerro de ouro.
Deus se deu a conhecer a ela e a redimiu de sua escravidão ao pecado.
Ele havia dado a ela a melhor e maior família do mundo, a família de
Deus. Ele havia dado a Kristi muitas coisas que ela nunca conhecera.
Ainda assim, Kristi colocou essas coisas que Deus lhe havia dado no
centro da vida, no lugar onde somente Deus deveria residir. O
casamento e a família de Kristi se tornaram em seu bezerro de ouro,
mas era uma idolatria tão plausível que ela nunca percebeu. Deus
criou o casamento e a família, e ele havia chamado Kristi para ser
comprometida com seu papel em ambos. Parecia que ela estava
fazendo o que era correto, mas havia um problema. O item de
provisão se tornou um objeto de adoração. Lembre-se do princípio
bíblico da idolatria, o desejo por uma coisa boa se torna em uma
coisa ruim quando tal desejo se torna a coisa governante. De formas
que falhou em ver, Kristi tomou o ouro do casamento e família dados
por Deus, o derreteu e transformou em um bezerro, o qual ela adorava
todos os dias.
Ao quarenta e nove, Kristi estava colhendo os frutos de sua
própria semeadura. Era difícil de encarar. Ela havia asfixiado seus
filhos por anos. Ela não recebeu alegremente o seu amor natural; ela o
demandava. Não havia se alegrado e ficado encorajada com as
conquistas deles, mas as esperava e sempre exigia mais. Ela também
não havia ficado tranquila e aceitado o amor de Freddy. Havia
demandado a sua atenção e afeto, testado o seu amor e lealdade
diariamente e o punido de várias formas todas as vezes que ele a
desapontara. O coração de Kristi era um campo de batalha da
redenção. Ela havia se entregado a um Senhor ciumento, que a amava
com um amor eterno, e que não estava disposto a dividir seu coração.
Toda a carnificina não era porque Deus tinha esquecido e ignorado,
mas porque, novamente, ele estava conquistando o coração dela. Ao
reduzir o bezerro de ouro dela a pó e fazê-la beber as consequências
amargas, Deus não estava acabando com a vida de Kristi, mas dando-
lhe as boas-vindas a um novo começo, com ele mesmo no centro e
tudo o que ele havia provido em seu lugar apropriado.
Foi no meio de um sermão de domingo que os olhos de Kristi
foram abertos. Seu pastor fez a pergunta: “se alguém escrevesse a
história de sua vida, o que ele afirmaria ter sido a coisa mais
importante pela qual você viveu?” A pergunta caçou Kristi como um
fantasma até que ela finalmente entendeu. A coisa mais importante
pela qual ela vivera foi a sua família. A sua família havia sido o seu
deus! Deus havia dado a si mesmo a Kristi, mas ela o havia
substituído por outras coisas que ele havia provido. Esse era o motivo
pelo qual ela era tão insegura e exigente. É por isso que ela fora tão
espinhosa com Freddy. Foi esse o motivo pelo qual seus filhos foram
afugentados para longe. Em um momento de graça sublime, tudo
ficou claro.
Kristi não podia acreditar naquilo que o Senhor estava mostrando
para ela. Ela começou a pensar e agir de maneira totalmente diferente
a respeito de sua vida. À medida que fez a sua escavação da meia-
idade, encontrou os cacos de sua idolatria em todos os lugares para os
quais olhava. Embora isso a enchesse de remorso e tristeza, ela tinha
um senso tão grande do amor de Deus, que estava mais convencida
do que nunca de que a vida não havia acabado. Nem Freddy nem
Kristi vão se esquecer da noite em que ela pediu que ele reservasse
um tempo para que conversassem. Com humildade, remorso, amor e
sabedoria, Kristi expôs a Freddy todos os seus anos de bezerro de
ouro. Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. Ele não somente
estava disposto a perdoar Kristi, mas, naquela noite, percebeu que a
amava mais do que antes. Eles não experimentaram bem-aventurança
marital imediatamente, porque a obra de Deus de mudar o coração e a
vida é mais um processo do que um evento. Ainda assim, estavam no
caminho certo pela primeira vez em anos. Eles experimentaram não
somente um profundo afeto um pelo outro, mas também uma gratidão
sincera por Deus e sua graça restauradora. O processo de cura do
relacionamento com os filhos foi mais difícil porque eles estavam
feridos, céticos e com medo. Mas Kristi estava aprendendo a confiar
no Senhor, estava disposta a esperar e estar comprometida com as
boas coisas para as quais ele a havia chamado a fazer. Cada um dos
filhos aprendeu por experiência pessoal que a confissão de Kristi era
genuína. Não somente ela era uma mulher mudada, mas também
estava comprometida em construir relacionamentos muito diferentes
com eles. Vagarosamente os filhos começaram a corresponder,
enquanto Freddy ajudava Kristi a manter o ouro que Deus lhe havia
provido em seu lugar propício.
No meio de tudo isso, a Palavra de Deus abriu um novo caminho
para Kristi. Ela começou a entender que a história bíblica era a sua
história e, em cada passagem, revelava o coração, a Deus e a sua
graça. Ela começou a ver o tema da idolatria e adoração externa em
todos os lugares. Começou a entender o quanto Cristo havia lhe dado,
não somente para eternidade, mas para as lutas de viver como um
pecador em um mundo terrivelmente quebrado. Ela começou a
entender que as suas experiências dos primeiros anos de infância não
causaram que ela transformasse sua família em seu próprio bezerro de
ouro. Ela havia nascido com uma propensão para adorar e servir à
criação mais do que ao Criador. As suas experiências na infância
simplesmente estabeleceram as rotas pelas quais a sua idolatria
percorreria. Era muito humilhante, mas também muito libertador
saber que o seu principal problema estava dentro e não fora dela. E
foi tremendamente encorajador entender o fato de que Jesus veio para
que ela não mais vivesse para si mesma, mas para que estivesse livre
para viver para ele (2Coríntios 2.14-15).
O amor de Kristi pela Palavra, pela adoração pública e pregação e
pela comunhão como povo de Deus começaram a voltar. Ela amava a
correção e encorajamento que recebia pelas grandes canções de fé.
Enquanto ouvia o seu pastor pregar, frequentemente parecia que ele
havia estado em sua casa na semana anterior. Ela também gostava
muito do quanto aprendia da honestidade de compartilhar suas lutas
pessoais e insights bíblicos em seu pequeno grupo. Ela era encorajada
pela perseverança graciosa que recebia de Freddy ao longo dos anos.
Em tudo isso, havia uma passagem para a qual Kristi se voltava
frequentemente. Era para ela mais do que uma porção das Escrituras.
Havia se tornado como uma amiga dada por Deus. Significava muito
porque, não somente descrevia a sua luta, mas também lhe dava a
esperança diária que ela precisava para o lugar-comum da tentação de
novamente transformar o ouro dado por Deus em outro bezerro de
ouro. Aquela passagem era 1Coríntios 10.6-14:
Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as
coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns
deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se
para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e
caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns
deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis,
como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas
lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós
outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. Aquele, pois, que pensa estar
em pé veja que não caia. Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas
Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo
contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a
possais suportar. Portanto, meus amados, fugi da idolatria.

DERRETENDO OS SEUS BEZERROS DE OURO


Consideremos porque essa passagem foi tão útil para Kristi à medida
que ela estava se perdendo na meia-idade e lutando para se encontrar.
1. Ela começou a entender como a história do Antigo
Testamento é útil. Kristi agora conseguia ver que aquelas pessoas
eram parte da mesma história da qual ela mesma pertencia, e que eles
eram pessoas que pensavam, desejavam, agiam e falavam exatamente
como ela. Quando examinou porque eles fizeram o que fizeram em
resposta aos atos de Deus, ela aprendeu muito sobre si mesma. Kristi
estava maravilhada com quão preciso espelho a Palavra de Deus era.
Relato após relato, ela não somente encontrou Deus ativamente
redimindo o seu povo, mas também estava ganhando ricos insights a
respeito dos corredores labirínticos dos pensamentos e motivos do seu
próprio coração. Ela começou a entender que essas coisas foram
escritas para ela como exemplo, instrução e resgate. Ela agora
entendia o que a Bíblia queria dizer quando afirmava que o coração é
enganoso (veja Jeremias 17.9). Era difícil entender como ela havia
sido tão cega e por quanto tempo permanecera dessa forma. Ela
estava grata pelo espelho da Palavra de Deus e pelo resgate de sua
graça.
2. Essa passagem a ajudou a encarar a sua preguiça e orgulho.
Nenhum de nós tende a pensar de nós mesmos como preguiçosos e
poucos de nós reconhecem o grau total de seu orgulho. Esse é o
motivo pelo qual tendemos a ser tão críticos de personagens bíblicos
como Davi, Pedro e os fariseus. Sentimo-nos livres para ser duros
com eles porque não achamos que somos como eles. Nós achamos
que, se estivéssemos na mesma situação, teríamos respondido de
maneira bem diferente. Mas essa perspectiva se deve mais à nossa
concepção inflada a respeito de nós mesmos do que uma avaliação
acurada desses homens. Tal auto justificação sutil nos impede de nos
beneficiarmos com a história de Deus.
Esse é o motivo pelo qual o versículo 12 diz: “Aquele, pois, que
pensa estar em pé veja que não caia”. Essa advertência é um chamado
para reconhecer humildemente que somos exatamente como as
pessoas da Escritura. Não somos somente tendentes a cair em
tentação, mas também somos capazes de ser cegos para as instâncias
na quais já caímos. Quando examinamos a nossa própria história,
tendemos a ver muito mais as dificuldades da vida e as falhas dos
outros do que nossas próprias fraquezas de coração e de mãos.
Quando você se esquece da guerra que está acontecendo pelo controle
do seu coração não há como se beneficiar das recomendações e
resgate que a Bíblia provê. Kristi aprendeu que não havia nenhum
momento no dia em que ela não fosse uma pessoa carente de ajuda. A
admissão de sua constante necessidade espiritual mudou radicalmente
o estudo das Escrituras, e ela começou a produzir frutos em seu
coração e vida.
3. Ela entendeu que todos nós lutamos essencialmente contra
as mesmas tentações. Existe uma semelhança em nossas provações e
certa igualdade em nossas tentações. Se você olhar para os versículos
7 e 14, torna-se muito claro qual é essa tentação comum. É a guerra
das guerras que acontece em nosso coração. A Bíblia chama de
idolatria. Nós fomos feitos para a adoração e é ela mesma que nos
coloca nos maiores problemas. Ela subjaz todas as nossas
dificuldades com pessoas, lugares e circunstâncias. Todos nós somos
atraídos para um bufê interminável de substitutos de Deus e, embora
o que atraia você ao bufê possa ser diferente do que me atrai, nós
compartilhamos a tendência de substituir a Deus.
Essa maneira de ver as coisas ajudou Kristi, porque ela sentia que
sua infância tinha sido o seu desastre espiritual. Ela se sentia separada
e em desvantagem. Ela lutava com o sentimento de que a vida era
injusta e, se era assim, como é que o Deus que a controla poderia ser
diferente disso? Ela desejava ter a história de outras pessoas e quanto
mais se permitia invejar a história dos outros, mais achava que
precisava de mais do que o evangelho podia suprir. Agora ela sabia
que era exatamente como todos os demais. Certamente, a sua história
era única e contribuía para a singularidade de suas lutas relacionais,
mas o coração que trouxe para a sua história era exatamente aquele
que Jesus havia capacitado para lidar com tal história.
4. Ela entendeu que a provação dela revelava a fidelidade de
Deus. No meio da guerra pelo nosso coração, quando estamos
experimentando a dor da dificuldade e da perda, somos tentados a
questionar a fidelidade de Deus. Essa passagem nos relembra
exatamente do oposto: Deus está trabalhando ativamente para nos
libertar daquilo que nos escravizou. Considere Êxodo 32 novamente.
Se Deus realmente amava os Israelitas, ficaria contente em liberá-los
de sua escravidão física somente para vê-los espiritualmente
escravizados? Para o cristão, a dor, a dificuldade e a perda nunca são
desconectadas da obra de redenção de Deus. Elas são fios
entremeados do zelo total de Deus por nós, de forma que ele nos
possua completa e exclusivamente.
5. Ela se conformou de que Deus não a empurrou para além
do que ela podia suportar. Ele “não permitirá que sejais tentados
além das vossas forças” (v. 13) é uma afirmação lindamente
reconfortante. Deus conhece você melhor do que você mesmo. Ele
conhece o seu QI espiritual e o tamanho dos seus músculos
espirituais. Ele sabe o quanto você aprendeu das experiências e o
quanto você não aprendeu. Ele sabe exatamente quão funcionalmente
cego você é. Ele sabe quão grande é o buraco entre a sua teologia
confessional e a sua teologia funcional. Sendo assim, ele sabe
exatamente quanto calor aplicar. Ele sabe quando enviar provações
em seu caminho e quando prover liberação. Ele sabe as diferenças
entre refinar é incinerar. Ele sabe exatamente como queimar o seu
orgulho, enquanto constrói a sua coragem. Ele sabe perfeitamente
quais suprimentos enviar em seu caminho e exatamente quando eles
são necessários. Kristi encontrou conforto no fato de que o Deus que
a conhece assim tão bem, estava ao mesmo tempo no controle das
dificuldades que vinham até ela.
6. Ela entendeu que não importa quão forte a tentação é e
quão doloroso o processo, Deus daria a ela capacidade de
suportar. Há uma honestidade teológica nessa promessa. Veja,
enquanto ainda tivermos o pecado dentro de nós, a nossa maior
tentação será substituir a Deus como o centro daquilo que pensamos,
desejamos e fazemos. Não existe um escape completo situacional ou
relacional deste lado da glória. Deus promete prover exatamente
aquilo que nós precisamos. Precisamos da habilidade para ficar de pé
em um mundo de ídolos e manter Deus no centro. Precisamos da
habilidade para confiar em Deus nos momentos quando não
entendemos o que ele está fazendo. Precisamos capacidade para
sermos pacientes quando Deus requer que esperemos. Precisamos da
habilidade para nos segurar em Deus quando somos tentados a adorar
as boas coisas que ele nos concede. Precisamos de capacidade para
estarmos contentes quando somos tentados a termos inveja de outros.
Até que cheguemos do outro lado, Deus nos dará o poder necessário
para resistirmos à poderosa tentação de substituí-lo com alguma outra
glória que tente tomar posse de nosso coração.
Kristi se sentiu fortalecida e encorajada por essa promessa. Ela
sabia que estava diante de uma batalha longa, mas entendeu que, em
Cristo, ela tinha tudo o que era necessário para aguentar firme,
mesmo naqueles momentos quando parecia impossível fazê-lo.

LOCALIZANDO O PROBLEMA DA MEIA-IDADE


Se tudo o que você tivesse de fazer na meia-idade fosse admitir que
falhou ao longo do caminho ou abrir mão de alguns de seus sonhos ou
aceitar que está ficando mais velho, esse período da vida não seria tão
difícil. Mas os maiores problemas da meia-idade são problemas do
coração. Todos somos propensos a derreter o ouro dado por Deus em
bezerros para a nossa adoração. Constantemente atribuímos aos
nossos ídolos aquilo que somente Deus pode fazer. Essa luta, que é
evidente em cada período da vida, fica mais violenta nos anos da
meia-idade.
Conquanto a meia-idade seja certamente cheia de desapontamento
e remorso, é vital vê-la como um período de resgate e reconciliação.
Um Deus zeloso está lutando pelo seu coração. Ele não está disposto
a compartilhar o seu afeto e adoração. Ele fará o que for necessário
para exigir a sua adoração. Naqueles momentos da meia-idade
quando você se sentir perdido e sozinho, você deve se lembrar de que
não está sozinho. Muito da dor que você sente é a dor da graça. Você
está sendo liberto de coisas que te impediram de progredir. Você está
sendo amado e levado para um lugar onde a alegria mais profunda
pode ser encontrada. Seria absolutamente errado e sem cuidado da
parte dele, se nos deixasse tomar as coisas que ele nos proveu e
transformá-las em objetos de adoração. Seu amor por nós é
apropriadamente intolerante. Não deixa espaço para outros amores. O
seu Senhor vai lutar por você até que não haja senhores que desafiem
o governo amoroso dele.
Assim, o que você deve fazer? Cante com o escritor do hino
antigo: “Oh, Amor que não me deixa fugir, eu descanso a minha alma
cansada em ti”. Nesse tempo de dificuldade, não corra do Senhor;
corra para ele. Corra a ele em confissão, colocando seus bezerros de
ouro aos pés dele. Corra em gratidão, celebrando o amor ciumento e a
salvação dele. Corra a ele em adoração, fazendo dele a sua razão, seu
propósito, seu objetivo e sua esperança. Finalmente, corra a ela para a
força que você precisa para continuar. Sim, você está enfrentando
coisas que não estavam no seu plano, mas você não as está
enfrentando sozinho. Deus está com você. Ele está presente. Ele ama
a você. Esse momento de graça dolorosa é evidência segura da
presença dele.
CAPÍTULO 10

ENCONTRANDO O VERDADEIRO VOCÊ

Repare na conclusão esmagadora: nós nos tornamos como aquilo que adoramos.
— VINOTH RAMACHANDRA

Fale com um homem a respeito dele mesmo


e ele te ouvirá por horas. — BENJAMIN DISRAELI

Foi a coisa mais difícil que tive de enfrentar na minha


adolescência, mas eu não fazia ideia do porquê aquilo era tão penoso.
A luta era profundamente emocional e ainda mais profundamente
espiritual do que eu tinha capacidade de entender. Eu estava cercado
por pessoas que tentavam me fornecer conforto e descanso, mas não
encontrava nenhum. Disseram-me o que fazer e o que não fazer, mas
nada parecia ajudar. Me deram promessas de mudança no futuro, mas
elas não melhoraram a minha perspectiva. Eu carregava aquele
sentimento tenebroso comigo para onde quer que ia. Finalmente, tive
uma úlcera estomacal e o médico me disse que era melhor cuidar do
que estava acontecendo dentro de mim ou, então, eu seria um jovem
muito doente.
O problema era que eu não sabia “com o que eu estava lidando”.
Eu sentia como se tivesse morrido e o problema ainda estava vivo.
Não somente eu tive de viver ao longo da minha própria morte, mas
também tive de encontrar vida nova do outro lado dela. Tudo parecia
injusto, opressor e impossível. Eu havia sido roubado de minha
identidade e não sabia como consegui-la de volta.
Eu fui criado em uma família onde esportes eram importantes.
Meu pai era um jogador de beisebol realizado, trabalhava para uma
grande loja de esportes. Ele nos empurrou para a vida atlética e nos
provocava por “lançarmos a bola como meninas”. Ao longo do
caminho, comecei a colocar meu coração no jogo de futebol
americano. Eu jogava alguns campeonatos de beisebol de verão e
disputava algumas corridas, mas o futebol americano era o meu
primeiro amor. Eu nunca me esquecerei de quando peguei a minha
armadura de futebol americano no meu primeiro ano no ensino
médio. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Ansiava
por cada treino. Eu não me importava com aqueles exercícios
insanamente repetitivos. Nós subíamos e descíamos as escadas da
arquibancada do estádio usando toda a armadura, mas eu não me
importava. Eu estava no time de futebol americano! Eu amava as
reuniões de time, os treinos duplos durante o verão, a cartilha e
assistir a filmes cheios de chuviscos de jogos anteriores. Eu adorava
as brincadeiras de macho no vestiário. Havia muitas noites em que
levava a minha armadura para casa, me vestia e ficava em frente ao
espelho, usufruindo a glória de tudo aquilo.
Eu não joguei muito em meu primeiro ano, mas melhorava a cada
jogo. Dizia a mim mesmo que eu estava roendo o osso agora, mas que
a minha hora iria chegar. Eu corri durante o verão para me manter em
forma e comecei a trabalhar minha habilidade de chutar para
assegurar meu lugar no time. O meu segundo ano foi normal. Eu
joguei um pouco mais, mas não tanto quanto eu queria. Eu estava
convencido de que meu terceiro ano seria o ano da virada, ainda que
não estivesse ganhando todo o peso que eu esperava.
Fui para o meu terceiro ano cheio de esperança. Eu mal podia
esperar para que os treinos de verão começassem novamente. Eu era
um veterano e um jogador de futebol americano. Não poderia ficar
melhor. Então, no final do verão, em um dos treinos, sofri uma lesão
muito séria no joelho. Eu cheguei a ouvir os meus músculos se
resgando e imediatamente senti uma dor terrível. Fui levado às
pressas para o hospital e passei por uma cirurgia de reconstrução no
dia seguinte. Acordei com a perna dormente, enfaixada da coxa até os
dedos do pé. Eu sabia exatamente o que aquilo significava: a minha
breve carreira de jogador de futebol americano estava acabada. O
médico me disse que esportes não podiam nem mesmo ser cogitados;
ele esperava somente que eu conseguisse andar novamente. Fiquei no
hospital, sentindo como se eu estivesse vivendo a vida de alguma
outra pessoa. Não parecia ser real. Eu pensava que em breve
acordaria desse sonho torto e iria para o meu próximo treino, mas isso
não aconteceu. Todas os treinos com os quais eu estaria envolvido
dali por diante ficaram para trás.
Não importa quão bom estivesse sendo o meu restabelecimento e
fisioterapia, eu não estava ficando curado por dentro. Quanto mais
tempo passava desde o dia da minha lesão, pior eu ficava. O que eu
havia perdido fora mais do que um período de envolvimento
esportivo, uma atividade extracurricular empolgante. Eu não sabia
isso na época, mas, no momento da lesão, eu perdi a minha
identidade. O futebol americano havia se transformado de algo que eu
fazia em algo que eu era. Não é simplesmente que eu jogava futebol
americano, eu era um jogador de futebol americano. Quando a minha
lesão tirou tudo isso de mim, senti como se tivesse morrido com ela.
Eu sabia que nunca poderia ter o futebol americano de volta, mas não
sabia como conseguir ter eu mesmo de volta. Eu poderia ter perdido
muitas coisas na minha vida naquela época e não teria sido uma luta
tão grande. O futebol americano definia quem eu era, me dava
posição, orgulho, uma comunidade, uma razão para levantar de
manhã, significado e objetivos. Parecia não haver vida possível sem
ele. Eu estava irado e não sabia como me livrar desse sentimento.

QUEM VOCÊ PENSA QUE VOCÊ É?


Você e eu sempre vivemos a partir de algum senso de identidade. A
forma como respondemos à pergunta “quem é você?”, terá uma
influência enorme sobre tudo o que você diz e faz. Não deveria nos
surpreender que atividade atléticas na escola se transformassem em
questões de identidade. Nem deveria nos surpreender que as lutas da
meia-idade também sejam lutas de identidade. Quando você começa a
entender isso, isso se torna algo de grande ajuda para encontrarmos o
nosso caminho para fora da neblina densa da meia-idade. Pense sobre
como o drama da história bíblica está ligado à identidade. Há um
sentido muito real em que a queda de Adão e Eva foi a respeito de
terem se esquecido de quem eram. Eles eram criaturas de Deus, que
tentaram assumir uma identidade totalmente nova. Muito do drama
do Antigo Testamento é focado em se os Israelitas viveriam dentro de
sua identidade como filhos de Deus ou não. Ficariam eles
impressionados com outras identidades e terminariam adorando os
ídolos das nações do entorno? Da mesma forma, o drama do Novo
Testamento, a partir de Atos, é se a Igreja de Jesus Cristo vai entender
e viver o que significa estar “em Cristo” no meio de um mundo que
anuncia muitas outras identidades.
A história bíblica é sobre identidade dada, identidade perdida e
identidade restaurada. Deus quer que você saiba quem você é e que
viva as implicações práticas da identidade que ele deu a você nele.
Essa é a pela qual a Escritura está constantemente nos dizendo quem
somos. Como pecadores, tendemos de alguma forma a sofrer de
amnésia de identidade. Isso é o que Pedro descreve em 2Pedro 1.8-9.
Ele diz que há pessoas que conhecem ao Senhor, mas são ineficazes e
improdutivas em seu conhecimento do Senhor.
Tal homem está “esquecido da purificação dos seus pecados de
outrora”. Pedro está unindo essa falta de fruto cega com a questão da
identidade, dizendo essencialmente: “Sua vida não é improdutiva
porque você se esqueceu de quem é”. Eu estou persuadido de que
essa amnésia de identidade no corpo de Cristo está fazendo muito
mais dano do que podemos assumir.
O problema com a amnésia de identidade é que ela dá lugar a algo
ainda mais perigoso: substituição de identidade. Se eu me esqueci de
quem realmente sou, aquela identidade não vai conseguir formar a
minha resposta às pessoas e situações que encontro, e então eu vou
preencher o meu vazio de identidade com alguma outra coisa. A
minha identidade “feito para adorar e servir o Criador” do Jardim do
Éden dá lugar à identidade “eu posso ser como Deus” que a serpente
oferece. Ninguém jamais vive sem identidade. O problema é que você
provavelmente não é consciente de que uma migração de identidade
aconteceu no seu coração. Não é que você se levante de manhã e diga
a si mesmo: “Sabe, eu estou cansado da identidade que tenho
carregado ao longo dos anos. Acho que hoje encontrar uma
identidade nova e melhor para mim”. É, de fato, uma dinâmica do
tipo amnésia-substituição que opera em todos nós. Vamos olhar na
história bíblica para alguns estudos de caso.

PESSOAS REAIS, IDENTIDADES FALSAS


Vamos voltar para Adão e Eva. Pense sobre o que teria acontecido se
eles repetissem para si mesmos: “Somos criaturas de Deus. Fomos
criados para adorá-lo e obedecê-lo. Nele encontramos tudo que
precisamos. Visto que somos suas criaturas não devemos ouvir
nenhum conselho que coloque as palavras dele em questão. Se nos
colocarmos fora de nosso relacionamento com ele, seremos relegados
à uma condição sub-humana”. Infelizmente, eles não fizeram isso. Na
verdade, eles sucumbiram à oferta de uma outra identidade, uma
promessa vã de liberdade da dependência e subserviência ao Criador.
Se estivessem pensando do ponto de vantagem de sua identidade de
criaturas, entenderiam de primeira que aquilo que a serpente estava
oferecendo era uma fantasia, totalmente desprovida de qualquer raiz
de realidade.
Pense nos filhos de Israel no deserto enquanto realmente
consideravam voltar para o Egito. Como poderiam sequer considerar
essa resposta se vissem a si mesmos como filhos da aliança, que
foram milagrosamente redimidos, sustentados e guiados por Deus?
Será que poderiam considerar seriamente, ainda que por um
momento, um retorno ao mesmo lugar de escravidão do qual Deus
tinha acabado de graciosamente libertá-los? Imagine que diferença
faria dizer em meios às dificuldades do deserto: “Sim, essa
circunstância é difícil e não, nem sempre sabemos o que Deus está
fazendo. Mas há uma coisa que sabemos. Nós somos filhos de Deus.
Ele nos deu as suas promessas pactuais, nos redimiu da escravidão,
nos revelou a sua lei e tem nos guiado e provido. Visto que somos
seus filhos, nós nunca estamos sozinhos. O Deus que nos libertou do
Egito estará conosco mesmo nesse momento difícil. A nossa única
esperança é permanecer com ele, e qualquer outra opção significaria
negar a nossa própria identidade como filhos do Deus altíssimo”.
Ou pense no exército israelita em linha de batalha no vale de Elá.
Você acha que teriam respondido como responderam se estivessem
olhando para aquela situação a partir de sua identidade como filhos
do Senhor dos Exércitos. Por quarenta dias o exército israelita se
colocara em linha de batalha para se encontrar com os filisteus e por
quarenta dias Golias veio desafiá-los. Cada vez que Golias aparecia e
fazia suas provocações, os soldados de Israel corriam de medo para as
suas tendas. Que figura da amnésia de identidade! Se você entrasse
naquela batalha com um senso claro de que estava pactualmente
conectado ao General dos generais, o Deus todo-poderoso, o Senhor
dos Exércitos, será que você correria de medo somente porque estava
diante de um soldado mensuravelmente maior? Se você tivesse a sua
verdadeira identidade no lugar, não faria nenhuma diferença o seu
tamanho quando comparado ao do campeão de Gate. Você saberia
que Deus, o qual prometeu entregar as nações que estavam ocupando
a Palestina em suas mãos era o campeão de Israel que Golias teria que
enfrentar naquele vale. E se começar a comparar tamanho, habilidade
e poder de Golias com Deus, não haverá dúvida em sua mente sobre
quem vai ganhar.
Davi chega à cena para lutar com Golias não é por ser um
oponente digno ou por ter uma concepção exageradamente inflada a
respeito de si mesmo. Ele sabe que é um filho de Deus e, assim, ele
não está com medo do tamanho ou chacotas daquele homem. A
pergunta de Davi revela a compreensão de sua posição como um filho
de Deus. Ele pergunta: “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para
afrontar os exércitos do Deus vivo?” Então, ele segue dizendo: “O
Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das
mãos deste filisteu”. Davi sabia o que Deus tinha prometido fazer e,
assim, respondeu de maneira muito diferente dos soldados
profissionais ao grande homem de Gate.
No Novo Testamento, há um confronto interessante entre Paulo e
Pedro, que também ilustra essa questão. Pedro havia se sentido
bastante livre para comer com os gentios até que certos judeus,
enviados por Tiago, chegaram na Galácia. Assim que eles chegaram,
Pedro separou a si mesmo dos cristãos gentios e o registro em Gálatas
nos diz o porquê: Ele estava com medo do que os judeus pensariam
sobre a sua comunhão aberta com aqueles cristãos incircuncisos.
Novamente, Pedro não poderia ter respondido a essa situação fora de
sua identidade como um filho de Deus. A notícia maravilhosa da cruz
é que ela destruiu o muro de separação entre judeus e gentios. A cruz
deixou bastante claro que ninguém é justificado diante de Deus por
causa de sua herança étnica ou observância da lei.
Todas as distinções normais de identidade que definem e dividem
as pessoas foram demolidas pela cruz. A única esperança para judeus
e gentios é a graça de Deus, que se torna nossa através da pessoa e
obra do Senhor Jesus Cristo. Na cruz nós somos todos iguais:
Pecadores que necessitam desesperadamente da graça perdoadora de
Deus.
Quando você está vivendo na maravilhosa glória e liberdade de
estar “em Cristo” e, portanto, como um herdeiro das promessas de
Deus, não procura por sua identidade nas pessoas, cedendo às suas
demandas e temendo as suas respostas. Esse foi um momento de ouro
para Pedro, não somente para dar testemunho de sua identidade em
Cristo, mas também para encorajar os judeus cristãos que estavam ao
seu redor a fazer o mesmo. Mas, como nós, Pedro sofria de amnésia
de identidade, assim, o seu comportamento contradisse diretamente o
próprio evangelho que ele foi chamado a comunicar.
Nós poderíamos multiplicar história após história a partir das
páginas da Escritura, onde as respostas erradas do povo de Deus estão
diretamente ligadas à amnésia de identidade e à substituição de
identidade. A história de Deus é sobre chamar um povo para ser sua
possessão, fazer uma aliança com ele e convida-los para que o
sucesso do reino se torne o seu significado e propósito. Também é o
relato honesto de quão facilmente os pecadores se esquecem de quem
são, quão facilmente são seduzidos por outras identidades e quantos
problemas acontecem quando esquecem a identidade enraizada no
Senhor.
Quanto mais aconselho pessoas que se perderam em meio à meia-
idade, mais fico convencido que essa questão da identidade não é
somente um dos temas mais importantes na história bíblica, mas é
também um ingrediente importante na luta da meia-idade. A luta da
meia-idade está inextrincavelmente conectada à perda e substituição
de identidade. Nós fomos seduzidos por identidades falsas, que
sempre falharão conosco e, quando elas falham, nos sentimos como
se tivéssemos perdido a nós mesmos. Pensamos que sabíamos quem
éramos, mas de repente, isso já não é mais tão claro. Nesses
momentos, fomos bem parecidos com Adão e Eva, os judeus errantes
no deserto, o exército de Israel e Pedro na Galácia.

O DIÁRIO DE ALGUÉM COM AMNÉSIA


Joana nunca imaginou que estaria em um momento tão empolgante
em sua vida. Ela havia sido criada em uma casa sem fé de nenhum
tipo. Embora amasse muito a seu pai e sua mãe, eles eram pessoas
espiritualmente inconscientes, que haviam transmitido a mesma
atitude para seus filhos. Joana não fazia ideia em que ela estava se
metendo quando permitiu que uma amiga de trabalho a levasse a um
concerto gratuito em sua igreja. Algo a respeito daquela experiência
intrigou Joana e em duas semanas ela pediu à sua amiga se podia ir a
um culto para “investigar a cena”. Joana foi cativada pelo aglomerado
de pessoas jovens e velhas, que obviamente levavam a sua fé muito a
sério e gostavam muito de participar da adoração. Ficou intrigada o
suficiente a ponto de continuar indo e em seis semanas entregou sua
vida a Cristo. Ela não podia acreditar naquilo, agora ela era parte da
família de Deus. Há um ano atrás não acreditava nem mesmo que
Deus existisse! Ela não se cansava de encontrar novidades em sua
nova fé e foi inundada de gratidão pela sua nova identidade em
Cristo. Joana realmente sentia como se fosse uma nova criatura.
Essa nova identidade mudou a forma de Joana abordar cada
aspecto da vida. No trabalho ela via a si mesma como uma
representante de seu Pai. Estava muito mais tranquila com seus
amigos porque a aceitação que antes buscava tanto empalideceu em
comparação com a aceitação que agora ela tinha em Deus. A sua nova
identidade deu a ela uma forma totalmente nova de pensar sobre seu
passado e seu futuro. Realmente era como se as coisas velhas
tivessem passado e tudo se tornasse novinho em folha. Joana
começava e terminava cada dia com uma oração de gratidão por ter
sido aceita na família de Deus.
Foi em um retiro para a igreja toda que Joana conheceu Darrell.
Eles se assentaram na doca do lago e conversaram na maior parte da
primeira tarde, decidindo jogar tênis no dia seguinte. Na hora de ir
embora para casa, eles decidiram se encontrar novamente. O amor
entre Joana e Darrell logo se abriu em flor e em dezoito meses eles
estavam casados. Novamente, Joana estava muito empolgada.
Primeiro, ela havia sido aceita na família de Deus e, agora, Deus
havia dado um jeito para que ela tivesse a sua própria família. Joana
não podia esperar para ter filhos, porque ela finalmente estava pronta
para criá-los da maneira correta.
Embora tivessem tentado por algum tempo, Joana e Darrell não
conseguiam conceber. Dois anos se passaram e Joana ficava cada vez
mais deprimida por não ter filhos. Depois de se consultarem com três
ou quatro médicos diferentes, um lhe disse que ela provavelmente
nunca conseguiria engravidar. Aquela notícia teria devastado Joana,
não fosse pelo seu senso de identidade em Cristo e sua crença de que
Deus tinha um plano perfeito para ela. Rapidamente depois da visita
ao último médico, Joana e Darrell começaram a investigar e procurar
adoção. Eles eram o perfil ideal, e dentro de três anos Joana e Darrell
tinham dois bebês, um menino e uma menina. Joana estava
determinada a ser a melhor mãe do mundo e a fazer todo o possível
para apagar o início de vida difícil que seus filhos tiveram. Ela era
uma mãe zelosa e perseverante, dando a seus bebês cada vantagem
que podia. Então, quando seus filhos adotivos estavam com três e
quatro anos, Joana foi contemplada com uma surpresa enorme. Ela
estava grávida.
Havia alguma coisa mágica sobre essa pequena menina desde o
momento em que saiu do ventre. Ela era o bebê impossível tornado
possível. Novamente, Joana olhou para o rosto da sua preciosa
pequenina com um compromisso sólido de fazer todo o possível para
prepará-la para o seu sucesso como adulta. Mas havia problemas se
formando no horizonte. Jimmy, seu filho adotivo, havia se tornado
um pequeno mal-humorado e desafiador. Ele só tinha quatro anos,
mas já havia ganhado a habilidade de controlar completamente a
cena. Quando tinha um ataque completo, deixava Joana e Darrell
tristes e com medo. Eles tentaram tudo, mas a situação com Jimmy
somente piorava. Joana tentou todo o possível para que as meninas
não fossem afetadas, mas era impossível. Era impossível viver
naquela casa e não ser afetado pelos ataques dramáticos de Jimmy.
Joana via a si mesma como a mãe das mães e vivia vicariamente
através de cada um dos altos e baixos dos seus filhos. Em sua
adolescência, Jimmy se tornou incontrolável e finalmente terminou na
cadeia. As meninas viveram na sombra de Jimmy e certamente não
estavam nada preparadas para a vida. À medida que as meninas
caminharam por caminhos pedregosos para a vida adulta, Joana se
sentia ansiosa e culpada. Ela não conseguia deixar de se sentir
dilacerada. Enquanto via as meninas tropeçando, tinha problemas
para se sentir bem a respeito de si mesma e da vida. A sua casa agora
estava vazia, seus anos de maternidade pareciam ter sido sem sucesso
e o futuro parecia cheio somente de solidão e tristeza. Havia dias em
que se sentia somente triste, dias em que se sentia irada e dias em que
não conseguia sair da cama. Ela ficava querendo morrer quando
pessoas perguntavam a ela sobre seus filhos, e estava convencida de
que as pessoas a olhavam com desdém quando falava sobre eles.
Joana continuou a sua derrocada. Ela nunca queria sair de casa e
mal conseguia levantar para ir à igreja. Embora tivesse sido sempre
cuidadosa com a sua aparência, deixou isso de lado também. Ela
odiava ver o dia porque não sabia o que iria fazer consigo mesma. E
odiava responder ao telefone porque temia que pudesse ser algum
desastre em que seus filhos haviam se metido. Ela odiava conversar
com essas mães de filhos bem-sucedidos, que estavam no começo de
uma carreira brilhante. Abandonou a maior parte dos afazeres
domésticos e recusava a maioria dos convites para sair com amigos.
Joana me disse em mais de uma ocasião que não era somente as
crianças que não estavam indo bem; ela sentia como se tivesse
morrido em algum momento em sua trajetória. Ela se sentia vazia,
isolada e sem esperança e não sabia o que fazer a respeito disso.
Porque Joana se desligou completamente de tudo? É claro, seria
difícil para qualquer um de nós passar pelo que ela passou, mas havia
mais coisas acontecendo dentro dela. Porque esse desapontamento
maternal resultou em seu desmoronamento total? Porque ela não
conseguiu encarar a realidade e seguir adiante? Quanto mais eu falava
com Joana, mas ficava convencido de que a derrocada tinha mais a
ver com Joana do que com seus filhos. Note, houve uma mudança
invisível que aconteceu em Joana, a qual alterou a sua perspectiva
sobre tudo no mundo. Ninguém ao redor dela sabia que isso tinha
acontecido, nem mesmo Darrell. Essa mudança aconteceu nos
corredores sombrios do coração e, ainda assim, seus resultados
apareceram em cada detalhe, em cada momento corriqueiro de sua
vida.
Em algum lugar ao longo do caminho essa mulher, que de forma
tão vibrante celebrou a sua identidade em Cristo nos primeiros anos
de sua fé, teve amnésia de identidade. Ela nunca percebeu que se
afastara do Senhor. Na verdade, Joana pensava que havia crescido em
sua fé. O problema é que ela tinha se esquecido de quem era e isso
aconteceu não muito antes de sua identidade em Cristo ter sido
substituída por uma outra identidade. Os filhos de Joana se tornaram
a sua nova identidade. Eles lhe deram significado e propósito e
realmente lhe deram esperança e alegria. O problema é que eles não
foram enviados por Deus para nada disso. Joana viveu vicariamente
por meio deles e quanto mais ela fazia isso, mais se tornava obcecada
com seu sucesso. Embora Joana tivesse continuado sendo fiel em suas
devocionais e adoração pública, Deus já não era mais o centro de
quem ela era.
Tudo o que precisou foi a bagunça de Jimmy. Com todo o seu
conflito interno, Jimmy não se tornou um troféu muito bom. Estar
com ele frequentemente significou confrontos inesperados e vergonha
em público. As meninas foram forçadas a viver nas asas desse drama
e também não se tornaram bons troféus.
Agora que eram adultos, Joana estava perdida no meio de sua
própria história. Ela estava paralisada por aquilo que tinha acontecido
com eles, não somente porque ela os amava tanto, mas, mais
importante, por causa do que a luta deles tirou dela. Em seu
lançamento tumultuoso para a vida adulta, as crianças não somente
quebraram o coração de Joana, mas também roubaram a identidade
dela. Ela sentia como se tudo tivesse sido inútil. Quando olhava no
espelho, sentia como se não conhecesse a pessoa para quem estava
olhando.
Enquanto tudo isso estava acontecendo, no entanto, a verdadeira
identidade de Joana sobreviveu. Ela ainda era o que havia sido. O
problema é que ela havia se esquecido fundamentalmente de qual era
essa identidade e consegui-la de volta não seria muito fácil.

UMA COMUNIDADE DE PESSOAS COM AMNÉSIA


Há muitas pessoas no meio daquilo que nossa cultura chama de crise
da meia-idade, que não fazem ideia de que o seu desapontamento é o
resultado da identidade que carregaram para essas experiências
dinâmicas da meia-idade. Muito antes de entrar nos anos da meia-
idade, uma mudança sísmica aconteceu em sua identidade e era
somente uma questão de tempo até que isso causasse problemas.
Agora elas reclamam, mas não é somente porque estão ficando mais
velhas ou porque nunca realizarão os seus sonhos ou porque tenham
razões para se arrepender, mas porque assumiram experiências,
relacionamentos ou realizações como sua identidade. Os pecadores
tendem a se afastar de definir a si mesmos com base em sua relação
com o Criador, e definem a si mesmos em relação à criação. Mas a
criação não pode sustentar o peso de nos definir. Ela sempre será
insuficiente. É inevitável. E quando acontece um momento de
desilusão, ele pode facilmente virar em uma perda fundamental de si
mesmo.

PEÇAS DE REPOSIÇÃO
Quando eu estava no ensino médio, me tornei obcecado por carros.
Era uma coisa boba. Eu era muito novo para dirigir e provavelmente
muito novo para entender o que torna um carro bom, mas ainda assim
eu lia revistas de carros e histórias de corridas. Eu me lembro da
primeira vez em que peguei um catálogo de autopeças da Whitney nas
mãos. Era um catálogo em preto e branco, com figuras granuladas de
peças de automóveis. O que me impressionou sobre o catálogo foi o
seu tamanho. Pagina após página estava cheia de peças de reposição
para qualquer carro que ainda estivesse nas ruas. O catálogo me
empolgava porque era o testamento certeiro de quão grande o mundo
dos carros realmente era. Eu passava as folhas do catálogo bem
devagar, fingindo que tinha um carro e cuidadosamente escolhia
peças para deixá-lo melhor.
Assim como aquele catálogo de autopeças, o nosso mundo caído
oferece um catálogo de identidade sem fim. Nenhum de nós está livre
de sua sedução. Cada um de nós vira uma página da vida e encontra
algum ídolo que nos atrai. Como um catálogo que é organizado em
categorias, os substitutos de identidade tendem a se organizar em
quatro grupos principais. Vamos olhar para eles juntos.
1. Eu sou o meu sucesso: identidade como uma conquista.
Deus nos chama para sermos frutíferos e produtivos. Deveríamos
ficar preocupados com a nossa colheita e o retorno de nossos
investimentos. Mas no minuto em que colocamos nossas conquistas
como uma identidade, tornamo-nos escravos de uma corrente
interminável de potencial de sucesso. Esse é o perfil do workaholic,
pessoa viciada em trabalho. Ele extrai seu significado e propósito da
próxima casa de seu cinto e, assim, é incapaz de dizer não e diminuir
o ritmo. Tire a sua habilidade de construir o próximo sucesso e ele
ficará irritado e desencorajado. Esse substituto de identidade também
distorce as suas decisões. Você tenderá a ir atrás daquelas coisas que
você pensa que darão certo, em vez de ir atrás delas por vê-las em
harmonia com as prioridades bíblicas. Você também ficará mais
empolgado com aquelas oportunidades que significam sucesso para
você do que com aquelas que têm a ver com o enredo da história de
Deus.
O que isso tem a ver com a meia-idade? Durante esse período de
tempo, uma de três coisas pode estar acontecendo. Primeiro, talvez
você esteja começando a ser colocado de lado. Talvez os seus filhos
tenham crescido e você não possa mais reivindicar aquela área de
sucesso. Talvez as maiores responsabilidades profissionais estejam
sendo transferidas para as pessoas mais jovens com quem você
trabalha. Talvez não haja mais reformas para fazer na casa onde você
mora. Ou, segundo, exatamente o oposto pode estar acontecendo com
você. Talvez você esteja recebendo mais oportunidades para ter
sucesso do que jamais teve na vida. Você está finalmente se tornando
alguém que toma as decisões no trabalho ou finalmente alcançou uma
posição no ministério onde é respeitado e as pessoas ouvem cada
palavra que você diz. Você se sente realmente vivo e acha muito
difícil dizer não.
Aqui está o ponto: se a conquista se tornou a sua identidade, tanto
a pessoa que está perdendo a sua capacidade de conquistar e a pessoa
que tem mais oportunidades para conquistar estão em uma situação
de risco. O primeiro se sentirá deprimido e desencorajado porque a
coisa que o define foi tirada de suas mãos. A segunda pessoa se
tornará escrava do sucesso, tomando decisões ruins e ficando ocupada
demais, porque é no sucesso que ela encontra significado e propósito.
Há muitas pessoas na meia-idade nessas duas categorias. Algumas
estão sentindo que o melhor da vida ficou para trás, enquanto
algumas estão tão escravizadas ao sucesso que falham em ver o risco
que sua impulsividade está causando a elas mesmas, ao casamento,
família e ao relacionamento com Deus. O sucesso nunca foi
concebido para nos dar identidade e, quando ele substitui a nossa
verdadeira identidade bíblica, deixa para trás uma colheita de frutos
ruins.
Mas há uma terceira pessoa da meia-idade para considerar aqui.
Essa é a pessoa que está olhando para trás com grande remorso ao
considerar aonde o sucesso o levou. Ele entende que seu
relacionamento com o cônjuge é distante e frio, e amaria ter de volta
todos aqueles anos de paternidade nos quais esteve muito ocupado
para ser o tipo de pai que Deus o chamou a ser. Além disso, ele sente
a mesma distância de Deus que sente de outras pessoas, porque por
vários anos o sucesso viveu no centro da vida, o lugar onde Deus
deveria estar.
O sucesso pessoal significa mais para você do que deveria? Será
que você procurou nele identidade, significado e propósito? Agora
que se encontra na meia-idade e está fazendo um balanço, é possível
reconhecer os frutos dessa falsa identidade em sua vida? À medida
que passarmos por esses grupos de substitutos de identidade, perceba
como cada um deles está enraizado em alguma coisa boa.
2. Eu sou os meus relacionamentos: Identidade como
aceitação. Deus nos criou para sermos seres sociais. O plano dele
desde o primeiro dia era que vivêssemos como uma comunidade
significativa uns com os outros. Essa é uma das formas primárias pela
qual nós o refletimos. Você já pensou a respeito do próprio Deus
como uma comunidade? Ele é o único ser no universo sobre quem
você pode dizer isso. Os nossos relacionamentos são tão
importantes para Deus, que ele colocou o mandamento de amarmos
uns aos outros em segundo lugar, somente atrás do dever de amarmos
a ele (veja Mateus 23.37-39). Somos chamados a viver em
comunidade produtiva com os outros, e esses relacionamentos devem
ser de alta importância ao tomarmos nossas decisões diárias.
Ainda assim, em nosso pecado, muitos olham para outras pessoas
procurando nelas aquilo que elas nunca foram designadas para fazer:
dar-nos identidade. Se nós somos pais, tendemos a tentar pegar a
nossa identidade de nossos filhos. O amor deles, apreciação e sucesso
se tornam as coisas que nos dão razão para levantar de manhã.
Começamos a viver vicariamente através deles, como se o sucesso
deles fossem o nosso sucesso. E quando precisamos do sucesso de
nossos filhos para nos sentirmos bem a respeito de nós mesmos,
faremos qualquer coisa possível para fazê-los bem-sucedidos.
Dizemos a nós mesmos que fazemos isso por eles, mas na verdade,
fazemos por nós mesmos. Nos tornamos pais sufocadores,
dominadores e obcecados pelo sucesso, mas ficamos cegos para isso,
porque sempre somos capazes de dizer que é para o bem deles.
Então chega um dia quando os nossos filhos começam a deixar a
nossa casa, e não sabemos o que fazer com nós mesmos. A perda que
sentimos é muito maior do que a realidade de que eles não vivem
mais conosco, é uma perda de identidade. Sentimos como se
tivéssemos perdido a nossa razão para viver. Fizemos todo o possível
para nos prendermos a eles porque precisávamos deles a fim de nos
sentirmos bem acerca de nós mesmos. Os nossos filhos nunca nos
foram dados como troféus para manter a nossa identidade. O sucesso
deles é um hino de louvor ao outro Pai, que proveu tudo o que era
necessário para que estivessem onde estão e fazendo o que estão
fazendo. Como pais, nunca fomos mais do que instrumentos em suas
mãos redentoras.
Talvez o seu casamento seja o lugar onde você procura
identidade. Você vive para a próxima dose de aceitação e apreciação
E o amor do seu cônjuge seja a coisa que mais te faz sentir vivo.
Quando você procura extrair a sua identidade de seu casamento, você
tenderá a fazer de seu marido ou de sua esposa o seu próprio messias
pessoal. Você se sentirá vivo e bem quando o cônjuge perceber os
seus esforços e procurar a sua companhia, mas estará em frangalhos
quando se sentir ignorado ou tratado de maneira normal.
Isso é muito perigoso, nenhum pecador pode ser a sua rocha e
fortaleza. Nenhum pecador pode dar a você razão consistente para
esperança. Mais cedo ou mais tarde, todos ao seu redor vão falhar
com você. Há, no entanto, um perigo ainda maior aqui. À medida que
procura essa pessoa para a sua identidade, você não está realmente
amando tal pessoa, mas está amando a si mesmo. Você inverteu o
segundo mandamento mais importante. Em vez de servir as pessoas
porque você as ama, você quer servi-las para que elas amem a você.
Esse tipo de relação parasitária nunca é saudável. Somente enquanto
você guarda o primeiro mandamento é que terá alguma esperança de
conseguir guardar o segundo.
Há muitas pessoas na meia-idade que estão agora colhendo os
frutos amargos desse tipo de relacionamento. O que se parecia com
um relacionamento de entrega de serviço era, na verdade, um
relacionamento muito egoísta e exigente. E quando chega na meia-
idade, você é atropelado pelo fato de que o seu casamento padece de
falta de carinho, calor e afeto. Quando o seu casamento não se tornou
aquilo que você sonhou, é muito importante entender o porquê.
Frequentemente uma substituição de identidade está na raiz disso
tudo. Nós procuramos as pessoas para conseguir delas aquilo que
somente Deus pode dar. Queremos que o nosso casamento nos dê
vida, satisfação, felicidade e alegria. Pedimos que eles nos deem
identidade e, como qualquer outra coisa que não o Criador, ele falha
conosco.
3. Eu sou a minha justiça: identidade no desempenho. Em seus
primeiros tempos de fé cristã, Joe estava impressionado pelo
desespero de sua necessidade da graça de Deus. Ele estava vendo o
seu pecado em todos os lugares e era constantemente grato pela
misericórdia e paciência diária do Redentor. Joe também era paciente
com as pessoas à sua volta, que estavam enfrentando lutas. Ele sabia
que, essencialmente, elas não eram diferentes dele e que ele era
sustentado somente pela graça de Deus. Joe vivia com a saudável
combinação de um profundo senso de sua própria necessidade e uma
gratidão ativa pelo inacabável suprimento da graça de Deus.
Conforme continuou a crescer, entretanto, algo começou a mudar
em seu coração. Ele começou a sentir como se merecesse pertencer à
comunidade dos filhos de Deus. Ele era orgulhoso do seu
conhecimento teológico e tinha pouca paciência com cristãos que
eram “muito preguiçosos” para conhecer a sua fé. Ele desprezava
seus irmãos e irmãs que lutavam fielmente para participar do culto
público e dos pequenos grupos. Quando colocava o seu cheque no
gazofilácio, olhava para o templo para ver quem é que estava levando
uma “carona de graça”. Amava mostrar para as pessoas o álbum das
muitas viagens missionárias curtas nas quais havia ido, e não entendia
por que algumas pessoas nunca estavam dispostas a abrir mão de uma
semana para servir ao Senhor. O Joe gentil e grato dera lugar a um
homem duro e seguro de si mesmo.
Joe abordava cada atividade cristã como uma oportunidade para
colocar uma nova marca em seu cinturão de justiça. Ele era ativo e
envolvido, mas havia pouco senso de gratidão porque tinha pouco
senso de necessidade, mostrando pouca graça ou paciência para com
aqueles à sua volta. Joe havia sido antes um homem que encontrava a
sua identidade em Cristo, e agora ele era o homem que extraia a sua
identidade de seu próprio desempenho. Joe estava constantemente
debatendo pontos de doutrina e sendo crescentemente conhecido
como alguém crítico e julgador. Embora não conseguisse ver, era
bem parecido com os fariseus que Jesus descreve em Lucas 18. O
fariseu estava supostamente orando, mas na realidade estava
comparando a si mesmo com aqueles à sua volta (incluindo o coletor
de impostos ao lado dele) e concluindo que ele era muito mais justo
do que todos eles. A sua “oração” era, em essência, uma declaração
de que não precisava de Deus.
Embora estivesse presente na igreja sempre que as portas
estivessem abertas, havia pouco amor e adoração naquilo que Joe
fazia. O ponto básico é que ele estava fazendo tudo aquilo pelo
próprio Joe. O louvor sempre ia para o Joe, enquanto o julgamento ia
para qualquer pessoa que não conseguisse viver segundo o seu padrão
de justiça. Joe estava no meio de sua vida, mas tinha perdido a alegria
da salvação. Ele era um cristão rabugento e crítico, com pouca
empolgação sincera por sua fé.
Frequentemente, é na meia-idade que a colheita da autojustiça de
alguém aparece. Você dá de cara com a frieza do seu relacionamento
com Deus e acorda para o fato de que tem sido assim por anos. Nos
momentos do arrependimento da meia-idade você começa a ver que,
enquanto pensava estar servindo a Deus, na verdade estava servindo a
si mesmo. Esse é um comprimido difícil de engolir, pois tudo o que
você deixou é um legado farisaico. Mas há uma outra dinâmica muito
importante que atrapalha os anos da meia-idade. Alguns de nós
viveram por tanto tempo cegados pela autojustiça que é difícil olhar
para trás e fazer uma balando acurado. A colheita de nossos anos
adultos pode ser desalentadora, ainda assim, em nossa autojustiça,
negamos que ela pertença a nós. Em nossa negação, colocamos a
culpa nos pés daquele à nossa volta ou até mesmo aos pés de Deus.
Quanto de seu problema de meia-idade está ligado à autojustiça?
Será que essa enorme mudança de identidade que aconteceu em Joe
também aconteceu em você? Existe alguma chance de você ter
substituído a alegria da identidade em Cristo pelo orgulho da
identidade em sua justiça própria? É possível que você seja mais
crítico e juiz das pessoas à sua volta do que jamais foi a respeito de si
mesmo? Pergunte a si mesmo: “Eu sinto hoje que preciso da graça de
Deus na mesma medida em que eu sentia no primeiro dia em que
cri?”
4. Eu sou as minhas posses: a identidade nas coisas físicas.
Vamos assumir: as coisas físicas são sedutoras exatamente por serem
físicas. Podemos sentir a sua textura, ver a sua forma e beleza e sentir
o seu aroma. Biblicamente, sabemos que as coisas mais importantes
da vida não podem ser vistas, ainda assim as coisas físicas são um
oponente duro no que diz respeito àquilo que chama a nossa atenção e
molda o nosso viver. É muito tentador para todos nós definirmos
nossa identidade pela pilha de coisas que possuímos. Todos nós
sabemos que a cultura ocidental tende a definir sucesso pelo tamanho
da conta bancária, casa e carro, para não mencionar o tamanho de sua
piscina, televisão, sala de estar, cozinha e casa de veraneio. Alguém
certa vez disse que o valor mais importante da cultura ocidental não é
possuir, mas adquirir. A nossa cultura assume que algo está errado
com você se estiver contente com todas as suas coisas e não estiver
procurando meios de conseguir mais. Assim, a maioria de nós possui
mais roupas do que jamais vestirá e mais brinquedos do que jamais
aproveitará.
Podemos nem mesmo perceber a extensão na qual nos definimos
baseados nos prazeres do mundo físico. As coisas mais importantes
aqui são comida, sexo e lazer. Alguns de nós estão sempre em busca
do próximo melhor restaurante, continuamente sendo seduzidos pela
“maior e diferente” figura de tentação sexual ou desejosos de gastar
tempo e dinheiro demais planejando e comprando pacote de viagens.
A aparência física também pode controlar e definir quem somos.
Como notamos antes, vivemos em uma cultura que institucionalizou a
prática de sermos definidos pela nossa aparência. Não importa quão
indiferentes sejamos a respeito de nossa aparência, nenhum de nós
escapou dessa influência. Não é verdade que a maioria de nós gasta
muito mais tempo em uma semana cuidando e adornando o corpo do
que nutrindo a alma? Somos o tipo de pessoa que fica perturbada pela
roupa perfeita para irmos ao culto de adoração (pense sobre a
contradição embutida nisso) ou atrelamos o sucesso profissional não
somente à qualidade do nosso trabalho, mas também ao corte do
nosso terno.
O mundo material provê um substituto poderoso e sedutor para a
verdadeira identidade. Uma casa grande não é somente legal de ver
e de morar, se ela é sua, faz com que se sinta bem acerca de você
mesmo. Um carro luxuoso não é simplesmente um meio de transporte
confiável; ele funciona também como um marcador de identidade.
Porque tantos profissionais dirigem sedans luxuosos? Porque o carro
projeta a identidade que estão tentando nutrir. Roupas bonitas tem o
poder de fazer você se sentir diferente a respeito de si mesmo. Estar
no peso certo e bonito faz você se sentir mais autoconfiante e vivo.
Uma comida gourmet não somente enche o estômago, mas, por um
instante, também faz você se sentir bem acerca de si mesmo.
Você não precisa olhar muito longe para ver que essas coisas têm
definido quem somos. O americano comum tem uma casa muito
maior do que realmente precisa e, frequentemente, muito mais cara
do que ele pode realmente suportar. Muitos de nós estão sem saúde
por causa de comida. A maioria de nós está carregando muitas
dívidas. Os membros mais bem pagos de nossa sociedade não são
aqueles que nos ensinam, curam ou dirigem em adoração. Estamos
dispostos a recompensar com uma soma de dinheiro desordenada
aqueles que nos entretém. A evidência é persuasiva e a conclusão é
clara: deixamos que as coisas físicas do mundo nos definam.
Essa substituição de identidade causa uma destruição durante os
anos da meia-idade. Três palavras capturam o caos: desilusão,
desapontamento e vazio. A identidade nas coisas é uma ilusão. A
verdadeira identidade nunca é uma questão física, mas uma questão
de coração. Pense no que acontece com uma pessoa na meia-idade
que tentou definir a si mesma pela aparência. Em primeiro lugar,
visto que colocou o seu foco e investiu seus esforços no que é físico,
não investiu tanto quanto deveria nas coisas espirituais do coração. E
isso prepara o terreno para a esmagadora desilusão de compreender
que aquilo em que ela tem investido simplesmente não dura. Não
importa quais mentiras a indústria da reconstrução do corpo nos
conte, você só pode lutar a batalha do envelhecimento físico por um
tempo limitado. O seu corpo vai inevitavelmente mudar de forma,
enfraquecer, enrugar e falhar. O seu corpo vai morrer. A meia-idade é
um momento onde a aparência e a saúde física começam a falhar e, se
elas definiram quem você é, você é uma pessoa com problemas.
Outras pessoas na meia-idade lutam mais com o desapontamento.
Elas sentem que a vida não foi justa porque não tiveram oportunidade
de adquirir e aproveitar as coisas que tantas outras pessoas usufruem.
Ficaram dizendo a si mesmas que seu potencial estava ali e que o
sucesso material estava logo depois da curva. Mas ele nunca veio, e
agora, na meia-idade, parece improvável que vá acontecer. Embora
possuam poucas coisas físicas desse mundo, essas coisas ainda
definiram a sua identidade. Agora se sentam nos momentos
silenciosos de desapontamento e se sentem roubadas, porque foram
tão dedicados e perseverantes quanto os seus vizinhos materialmente
bem-sucedidos, no entanto, têm pouco para provar isso. Imaginam a
razão pela qual Deus os privou desse tipo de tratamento. Perceba o
sistema de valores por trás dessas conclusões. Elas definem vida
“boa” como aquela que é rica em coisas físicas, ao invés de em
glórias espirituais.
Ainda mais pessoas na meia-idade têm uma luta mais profunda
com Deus do que realmente reconhecem. Elas levaram Deus ao seu
tribunal pessoal e chegaram ao veredicto de que ele é infiel e injusto.
Elas foram ignoradas na distribuição que Deus fez de coisas e não
parece haver muito que possam fazer sobre isso nesse estágio de sua
vida.
O grupo final de pessoas na meia-idade experimentam o vazio que
a identidade em coisas físicas sempre acaba produzindo. Deveria nos
surpreender o fato de que as coisas físicas são destituídas de qualquer
poder para satisfazer espiritualmente? No sentido mais amplo, a
verdade bíblica de que “nem só de pão viverá o homem” significa que
nós nunca fomos construídos para subsistir somente pelas coisas
físicas. Somos seres espirituais, precisamos de sustento espiritual a
fim de sermos realmente saudáveis e felizes. Na verdade, fomos
configurados para nos “carregar” somente do próprio Senhor! Ele
deve ser a nossa carne e nossa bebida; ele é quem nos dá identidade e
significado. Somente ele é capaz de satisfazer a nossa fome e sede
mais profunda – a nossa necessidade de viver em um relacionamento
humilde de alegre submissão a ele. Muitas pessoas na meia-idade
estão experimentando uma atrofia do coração por procurarem
satisfação onde ela simplesmente não pode ser encontrada. Elas têm
se definido por uma desilusão e se alimentado com aquilo que não
pode satisfazer.
O que a sua colheita da meia-idade está lhe dizendo a respeito do
seu relacionamento com as coisas físicas? A sua colheita é uma pilha
de desilusão e desapontamento ou é vazia? Você tem condenado a
Deus como sendo injusto e infiel porque a sua pilha de coisas é muito
menor do que você pensa que deveria ser? Você ainda está iludido?
Ainda está na fila da aquisição, mesmo quando já ficou bastante claro
que coisas nunca foram suficientes para satisfazer a você? Ao longo
dos anos, quais coisas importantes sofreram com a sua falta de
atenção e investimento. Seus filhos sofreram por causa de sua
obsessão e falta de atenção? Seu casamento vacilou? Aqui está uma
oportunidade de fazer um balanço e uma confissão honesta, e
começar a andar em um caminho novo e melhor.

PEGANDO A IDENTIDADE CORRETA


Justin tinha em torno de quatro anos de idade quando veio até mim.
Era um menino muito esperto, com um mundo de perguntas.
Sentamos juntos na beira do sofá e ele compartilhou comigo o seu
sonho para o futuro, “Quando eu crescer, papai, quero ser um leão”,
ele disse. “Bem, quem não quer”, eu pensei, “com toda aquela coisa
de rei da selva que tanto ouvimos falar”. Naquela época a mãe dele
estava lendo para ele um livro sobre animais da África, e ele
estava encantado. Estava naquela fase da vida quando encontra um
livro que quer ler de novo e de novo. Depois de pelo menos
quinhentas leituras, ele estava completamente decidido quanto ao que
queria para o seu futuro. Ele queria ser um leão. Depois de
compartilhar a razão pela qual escolheu esse futuro no topo do mundo
felino, eu dei a ele uma pequena lição sobre antropologia bíblica. Ele
sentou com os olhos bem abertos e bastante atenção à medida que eu
fazia esforço para ajudá-lo a compreender a doutrina da criação e suas
implicações específicas para a identidade dos seres humanos. Ele
parecia interessado enquanto eu fazia todo o possível para distinguir
animais de pessoas. Conforme eu continuava, notei que ele estava
inquieto e não prestava mais tanta atenção, mas eu pensei que ele
ainda estivesse assimilando tudo. Concluí o meu monólogo sobre a
identidade dos seres humanos e perguntei se ele havia entendido o
que o papai estava tentando dizer. Ele olhou para mim bastante
confiante e disse: “Sim, papai, eu entendi. Quando eu crescer, eu serei
uma girafa!” Terminei a minha tentativa falha de educação teológica
na tenra infância, dei-lhe um grande abraço e ele se foi.
O pequeno Justin é como todos nós. Sabemos que a identidade
influencia o nosso pensamento, nossas escolhas e nosso
comportamento, mas temos uma dificuldade enorme de entender a
identidade da forma correta. Essa questão é uma parte importante dos
problemas da meia-idade. Amnésia de identidade, má compreensão e
substituição fazem com que as questões superficiais de desilusão,
envelhecimento e remorso sejam muito mais poderosas e
potencialmente destrutivas. Aqui está a questão crucial: Quando
você define a si mesmo horizontalmente (eu sou a minha família,
trabalho, casamento, filhos, posses, aparência, amizades, carreira,
sucesso ou posição), você cria um problema enorme para si mesmo.
Quando você entra no estágio da vida em que aquelas coisas, ou os
seus planos para adquiri-las, são levadas embora, você se perde em
confusão de identidade. Nós sempre estamos caminhando em direção
a problemas quando tentamos nos definir horizontalmente, e não
verticalmente.
O que precisamos na meia-idade não é um mundo que seja
totalmente livre de desilusões, envelhecimento ou remorso.
Precisamos assumir nossa identidade de maneira correta, a fim de
sobreviver a essas experiências poderosas. Quando definir a sua
identidade verticalmente, você será capaz de ficar de pé, mesmo
quando as coisas à sua volta desmoronarem. Talvez você esteja
pensando: “Certo, mas o que significa definir a minha identidade
verticalmente?” Significa que a verdadeira identidade está sempre
enraizada em adoração. Na verdade, a Bíblia afirma que um
entendimento verdadeiro de qualquer coisa começa com o
reconhecimento de Deus. Assim, como o grande pensador cristão
João Calvino ensinou, não há conhecimento que não comece com o
conhecimento de Deus. Somente quando tem Deus em seu lugar
apropriado e está celebrando quem é ele é que você pode conhecer a
si mesmo de maneira verdadeira. O princípio teológico é que o
conhecimento do Criador é fundamental para entender a criação. As
lutas de identidade que colocam as suas cabeças feias para fora
durante o tumulto da meia-idade são, na realidade, disputas de
adoração. No grau em que falhamos em adorar a Deus por quem ele é
e pelo que tem feito, estaremos colocando confusão de identidade
invisível dentro das questões da meia-idade, tornando aquilo que já
é difícil muito pior.
Há três pilares de adoração que suportam o verdadeiro sentido
bíblico de identidade.
1. A verdadeira identidade está enraizada em adoração a Deus
como Criador. Para ter um senso de identidade que não falhará
quando você for fustigado pelas tempestades da vida que certamente
virão, você deve começar do começo. Isso significa reconhecer total e
completamente que você foi feito por ele. Davi captura isso muito
bem no Salmo 139.
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou,
visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são
admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram
encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da
terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe. (Salmo 139.13-16a)

Que palavras poderosas e maravilhosas! Cada parte do seu tecido


foi cuidadosamente entretecido pelas mãos criativas de Deus. Não
houve parte que tenha ficado escondida dele. Ele examinou
cuidadosamente cada aspecto do seu corpo ainda sem forma, antes de
que você nascesse. Não houve acidentes, nem falhas, nem atitudes
impensadas. Assim como Davi, você também foi criado de modo
“assombrosamente maravilhoso”. A cor dos seus olhos, a forma
do seu corpo, seus talentos intelectuais e físicos, seu cabelo, sua
voz, sua personalidade, a cor de sua pele, o tamanho de seu pé etc.
Toda a sua fiação é o resultado da gloriosa habilidade criadora de
Deus. O “pacote” que criou você veio das mãos dele.
Agora, por mais familiar que tudo isso seja, ainda assim é
importante. Estou profundamente persuadido de que, enquanto muitos
adoram a Deus como criador no domingo, amaldiçoam a sua obra
durante a semana. A maioria de nós abriga insatisfação com o que
Deus nos fez ser. Os pequenos querem ser altos, os altos querem ser
mais baixos. Os intelectuais secretamente querem ser atléticos;
aqueles que são mecanicamente capazes, secretamente desejam ser
músicos. A pessoa séria deseja que só por uma vez pudesse ser a alma
da festa e o cara que recebeu o dom de pensar e ensinar deseja ser
mais capaz em administração. Há momentos na vida de todos nós em
que secretamente desejamos que pudéssemos nos elevar ao trono da
criação e nos refazer à imagem daquilo que gostaríamos de ser.
Frequentemente, essa recusa em aceitar o seu legado na meia-
idade é, na verdade, uma recusa em aceitar a sua identidade. Sam foi
feito para ser careca e grisalho cedo. Com quarenta e dois ele tinha
pouco cabelo, e o pouco que tinha estava quase branco. Ele se sentia
amaldiçoado, fazendo tudo o que podia para provar que ainda era
jovem. Estava amaldiçoando o Criador a quem havia entregue a sua
vida para adorar. Justina foi feita por Deus para ser uma educadora e
se tornou uma mãe maravilhosa. Agora que todos os seus filhos
saíram de casa, ela ficava se roendo por algo que a deixou vazia e
sozinha. Ela estava irada por não ter focado mais na vida profissional.
Estava irada com seu Criador, e nem mesmo sabia disso.
E você? As suas lutas da meia-idade estão conectadas com a sua
falha em celebrar quem o Criador te criou para ser? Adorar a Deus
como criador também significa reconhecer que fui feito para ele. Se
eu criar uma imagem e fizer um quadro ele pertence a mim, como um
testamento de minha habilidade artística. O mesmo é verdadeiro a
nosso respeito. Se Deus nos fez, então, pertencemos a ele, como um
testamento de sua glória criadora. O fato é que você e eu nunca fomos
feitos para viver para o nosso próprio sucesso e glória. Fomos feitos
para viver todos os dias como se a nossa vida pertencesse a outra
pessoa. Esse estilo de vida “eu pertenço a outro” foi criado para
moldar nosso casamento, paternidade, amizades e carreira. Foi
designado para moldar a forma de abordarmos a nossa posição e as
nossas posses. Como uma criatura, a sua vida pertence a outro e,
assim, a sua vida é parte do plano dele.
Muito da luta da meia-idade acontece porque não entendemos o
nosso caminho proposto. Vivemos como se pertencêssemos a nós
mesmos quando, na verdade, pertencemos a ele. Enquanto
deveríamos estar vivendo para a glória dele, colocamos o nosso
coração em outras glórias que falham conosco. Assim, o meu
casamento nunca foi criado para ser um meio para a minha glória,
mas um espaço para a glória dele. Os meus filhos nunca pertenceram
a mim, eles pertencem a ele. O meu trabalho nunca pertenceu a mim;
foi dele o tempo todo, para usar como ele deseja, para a realização de
seus propósitos gloriosos em e através de mim.
Você vive a sua vida como se ela te pertencesse? As desilusões
comuns da meia-idade o paralisaram, porque você entrou nelas
esquecendo-se de quem você é? Você não consegue dizer: “o SENHOR
o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó
1.21), porque pensou que a sua vida te pertencia.
Adorar a Deus como criador também significa que existimos por
meio dele. Como criador, somente ele é o doador da vida. A
verdadeira vida não pode ser encontrada fora dele. Paulo diz: “ele
mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (Atos 17.25,
28). Se ele é o nosso criador, então também é o nosso sustentador,
nossa fonte constante de vida e provedor incessante de tudo o de que
nós precisamos. Na meia-idade, somos tendentes, independente de
nosso conhecimento maior, a procurar por vida fora dele; quando faz
isso, você se tornará escravo da própria coisa que você pensou que
daria vida a você. Há muitas pessoas na meia-idade que têm tido
famílias e carreiras de sucesso, mas estão perdidas e vazias por
dentro, simplesmente porque procuraram vida onde ela não pode ser
encontrada.
Olhe para trás, para os seus anos adultos. O que escravizou você?
Você se esqueceu de que você existe pelo Senhor, para o Senhor e
por meio do Senhor?
2. A verdadeira identidade está enraizada em adorar a Deus
como soberano. Como nós já examinamos no capítulo 8, as
dificuldades da meia-idade são, frequentemente, o resultado de uma
colisão entre nossos planos e os de Deus. Embora você soubesse
exatamente o que queria alcançar, e aquelas coisas que você decidiu
evitar, a sua vida não aconteceu como você planejou. É vital entrar
nos anos da meia-idade com a sua identidade bíblica colocada na
forma correta. Você deve descansar no fato de que cada situação,
circunstância, localização, experiência e relacionamento de sua vida
tem estado debaixo da administração sábia e cuidadosa do Senhor
todo-poderoso. Ele conhecia desde o início exatamente aquilo que iria
fazer e exatamente porque iria fazer. Do ponto de vista privilegiado
dele não há escorregões, equívocos, acidentes, má compreensão nem
enganos. Nada escorrega e cai no buraco. Davi captura esse fato
confortante no Salmo 139.16b: “e no teu livro foram escritos todos os
meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um
deles havia ainda.
Uau! É uma vista da identidade humana de tirar o nosso fôlego.
Eu não escrevo a minha própria história; ela foi escrita para mim. O
meu trabalho é viver dentro do plano que Deus escreveu para mim, da
forma que eu fui chamado por ele para viver.
Há uma conexão direta entre as desilusões de soberania pessoal e
os desapontamentos esmagadores que nos agarram na meia-idade.
Esquecemos quem éramos e começamos a acreditar que nossas mãos
estavam controlando o joystick. Trabalhamos com dedicação e
perseverança, mas como pequenos soberanos, em vez de termos
descansado no único que é soberano.
Você questiona a administração de Deus na história da sua vida?
Você deseja que tivesse sido capaz de escrever o seu próprio enredo?
Você cai na tentação de acreditar que se estivesse no controle você
teria feito escolhas melhores e mais sábias? Você adora a Deus como
soberano no domingo e amaldiçoa a sua soberania na terça? À medida
que olha para trás, sua vida é mais uma pintura de descanso no
controle de Deus ou uma disputa por controle?
Deus é soberano. Você e eu não somos. Isso não é somente
teologia; é a nossa identidade. Deus está no controle absoluto e ele é
infinitamente bom.
3. A verdadeira identidade está enraizada em adorar a Deus
como salvador. Quando você reconhece que Deus não é somente o
seu criador soberano, mas também o seu salvador, você captou outro
elemento essencial da sua identidade. Ele é o salvador porque nós
somos pecadores. Adorar a Deus como salvador significa que o
drama mais importante em minha vida não é o que acontece em meu
casamento, com meus filhos, posses e carreira, mas o que acontecerá
com o meu pecado. Significa que a coisa mais maravilhosa que
poderia acontecer em minha vida é a minha salvação. Significa que a
coisa mais maravilhosa da qual eu posso ser chamado não é chefe,
marido ou pai ou amigo, mas “filho de Deus”.
Essa identidade define o nosso problema mais profundo e mais
penetrante. É onde você mais precisa de ajuda. Nós realmente não
precisamos da maioria das coisas sem as quais pensamos que não
poderíamos viver. A Bíblia diz isso de maneira muito clara: visto que
somos pecadores, Deus está focado em nos livrar “de tão grande
morte”, resgatando-nos “do império das trevas”, conformando-nos “à
imagem de seu Filho”, permitindo-nos ser “coparticipantes da
natureza divina”, purificando-nos “de toda injustiça”, a fim de
“purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de
boas obras” (2Co 1.10; Cl 1.13; Rm 8.29; 2Pe 1.4; 1Jo 1.9; Tt 2.14).
Cada uma dessas expressões nos relembra a nossa verdadeira
identidade e, portanto, aquilo que verdadeiramente precisamos.
Queremos que nossa vida seja confortável, bem-sucedida e
previsível. Deus está disposto a comprometer tudo isso a fim de lidar
com a nossa maior dificuldade, nosso próprio pecado. Quando falhar
em adorar a Deus como salvador, esquecendo a sua identidade como
pecador, você ficará completamente confuso durante os anos da meia-
idade. No grau em que você reconhecer a sua identidade como
pecador, a vida começará a fazer sentido para você. Deus não se
esqueceu de você. Ele não separou você de maneira especial para
sofrer maus-tratos. Ele está perto e está ativo. Com amor, ele está
trabalhando em seu problema maior, e ele não parará de trabalhar até
que o trabalho esteja completo.
CAPÍTULO 11

ÚLTIMO CAPÍTULO, PRIMEIROS


VALORES

Quem não fica com água na boca pelo banquete celestial


nunca participará dele. —JOHANN TAULER

Nossos planos são abortados porque não têm nenhum objetivo. Quando um homem
não sabe para qual porto está indo,
nenhum vento é o vento certo. —SENECA

Aquele era um jogo de solução de crime do tipo “Detetive” e


nossos filhos não cansavam dele. O segredo era mantido em um
envelope mágico no centro do tabuleiro. Nele havia três cartas que
diziam quem cometeu o crime, como cometeu e onde o fez. Você
tinha de descobrir o que estava no envelope por um processo de
eliminação. Isso implicava em paciência e em uma disposição para
manter anotação de um monte de detalhes, mas, se fizesse isso, você
poderia chegar em um ponto onde estaria absolutamente certo do que
estava naquele importante envelope. Era sempre um momento
emocionante quando alguém dizia estar pronto para resolver o crime.
O ponto do jogo era que os detalhes não faziam sentido até que
você tivesse toda a história nas mãos. Os jogadores estavam em uma
corrida para ver quem conseguiria o último capítulo primeiro. O jogo
era muito semelhante a ler um romance. No meio da história não era
possível entender direito o enredo, as personagens, as motivações e
como tudo seria resolvido. Somente no capítulo final é que todos os
detalhes confusos de repente faziam sentido perfeito. Havia
momentos em que os detalhes estavam tão complicados que te
deixavam louco, e você não conseguia resistir a pular as páginas e ler
o último capítulo. Uma vez que entendesse o segredo, você podia
descansar e aproveitar o drama.
A vida é bem parecida com estar no meio de um romance. Cada
dia você encara coisas que não eram parte de seu plano e, em alguns
momentos, você se pergunta o que está acontecendo. Pode ser que
acorde com uma dor chata em seu abdômen e se pergunte se dormiu
mal ou se há alguma coisa errada com você. Ou ouve dizer que
haverá mudanças massivas na empresa onde trabalha e se pergunta se
será um daqueles funcionários antigos que será demitido. Ou está
vendo um de seus filhos em um início caótico na vida adulta. Você
fez todo o possível para ajudá-los, mas se questiona todos os dias se
eles vão se dar bem. Ou você se senta com sua esposa e se pergunta o
que poderia ter feito para tornar o seu casamento mais amoroso,
íntimo e unido.
Você não precisa ler romances misteriosos; a nossa própria
história é um mistério para nós. Mesmo com todos os nossos planos,
cada um de nós fica impressionado pelos detalhes da história pessoal.
Nenhum de nós pode dizer que chegou onde está por planejamento e
administração cuidadosa do plano. Os detalhes de nossa história
normalmente nos confundem, de modo que desejamos que alguém
nos conte o segredo. Queremos ir para o último capítulo primeiro,
para que saibamos para onde a história está indo. Talvez você se sente
em sua meia-idade, olhe para trás e pense: “Se eu soubesse... o que
aconteceria com a economia... que tipo de igreja essa se tornaria...
que eu teria problemas com o meu chefe... ou que efeito essa decisão
teria obre a minha esposa... o impacto dessa mudança sobre a minha
família. Se eu apenas soubesse!”
Tendemos a pensar que, se somente soubéssemos o último
capítulo primeiro, teríamos lidado muito melhor com aquilo que
aconteceu. Todos nós temos perguntas sobre o que acontecerá e, em
vários momentos da vida, lutamos para aceitar o resultado que veio.
O que a maioria dos cristãos falha em entender é que Deus nos conta
o segredo. Na Bíblia o último capítulo nos é dado. O final de todas as
coisas é exposto para nós. Deus convida cada um de nós a expiar a
eternidade e, então, olhar de volta para a nossa vida a partir da
perspectiva única, que somente a eternidade nos dá. A história de
Deus somente faz sentido a partir do ponto de vista da eternidade, e a
sua vida somente fará sentido quando você olhar para ela a partir
dessa perspectiva.

O INGREDIENTE ESSENCIAL
O apóstolo Paulo escreveu duas de suas maiores cartas para os
coríntios. Era uma igreja bastante bagunçada. Dividida por cultos a
personalidades, estragada por pecado sexual escandaloso e
desencorajada por controvérsias doutrinárias, essa igreja, você
pensaria, era pouco promissora. Mas essa não era a forma que Paulo a
via. Depois de confrontar os problemas críticos com os quais os
coríntios tinham de lidar. No capítulo 15, Paulo apresenta um
paradigma para compreender a vida cristã. A sua lógica é assim:

1. O evangelho é o que dá sentido à nossa vida.


2. Você não pode entender o evangelho sem a ressurreição.
3. A coisa importante sobre a ressurreição é que ela nos garante a
eternidade.
4. Se não há eternidade, a nossa fé é inútil.

Agora eu sei que alguns de você estão pensando: “eu só quero


ajuda para esse problema que eu nunca pensei que experimentaria.
Por que eu preciso entender o paradigma de Paulo para a vida cristã?”
Precisamos discutir essa questão logo de início. Lembre-se de que as
pessoas da Escritura são como nós. As perguntas feitas pela igreja de
Corinto eram semelhantes às questões que levantamos quando
fazemos a obra arqueológica pessoal dos anos da meia-idade. Você
está no estágio em que está fazendo um balanço pessoal. Você olha
para trás, para uma miríade de decisões difíceis. Você lidou com
sucessos inesperados e desilusões esmagadoras. Teve razões tanto
para celebrar quando para lamentar. Você se pergunta porque não
conseguiu realizar mais dos seus sonhos e porque foi escolhido para
certas provações. Há muitas coisas que você gostaria de desfazer e
outras que gostaria de fazer novamente. Há palavras que você
gostaria de nunca ter dito, decisões que você gostaria de nunca ter
tomado e reações das quais você se arrepende amargamente. Você se
pergunta como teria sido se tivesse feito uma escolha diferente, se
mudado para outro lugar ou colocado a sua confiança em outra
pessoa.
Como os coríntios, você precisa de lentes confiáveis através das
quais olhar a sua vida. É difícil ser objetivo ou acurado no meio disso
tudo. O seu trabalho arqueológico tende a fluir a partir de duas
perguntas que ocorrem em uma hora ou outra. Primeiro, você vai
perguntar a si mesmo, “Por que as coisas aconteceram da forma que
aconteceram?” Segundo, você perguntará: “Valeu a pena?” É aqui
que o paradigma de Paulo se torna muito útil para nós, porque essas
são exatamente as perguntas que ele está respondendo.
Aqui está o que Paulo nos diz: “Você não pode entender
realmente a meia-idade a menos que dê uma espiada na eternidade”.
Você não pode ficar no meio de sua história e tentar entendê-la, assim
como não é possível entender todo o romance enquanto ainda está no
meio da leitura. O grande problema com as avaliações da meia-idade
é que você está tentando fazê-las no meio de sua história. Você e eu
não temos uma perspectiva ampla o suficiente. É exatamente por isso
que Deus nos convida a olhar a eternidade para, então, olhar para trás.
Paulo diz isso de maneira muito poderosa em 1Coríntios 15.13-
19.
E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não
ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas
testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a
Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo
não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda
mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se
limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

Paulo está argumentando que tem que haver mais nessa vida do
que esse momento. Se isso é tudo o que existe e se toda a fé que nós
colocamos em Cristo somente compra uma vida melhor para nós aqui
e agora, então, somos pessoas dignas de pena. O argumento de Paulo
é poderoso. A única forma pela qual você pode compreender a vida é
olhá-la a partir do ponto de vista vantajoso da eternidade. A
eternidade define, motiva e esclarece a vida que Deus nos chamou
para viver.
Aqueles de nós que estão perdidos no meio da própria história
precisam de mais do que uma aula sobre gratidão. Nós precisamos de
mais do que uma exortação para nos levantarmos novamente e
seguirmos ao Senhor pela fé. Precisamos de mais do que ideias
práticas sobre coisas típicas que acontecem com as pessoas que
passam pelos anos da meia-idade. Precisamos de mais do que
compaixão e encorajamento. O que precisamos é da grande figura.
Precisamos ser capazes de ver as questões da meia-idade no contexto
das realidades certas da eternidade porvir.
Ficamos cegos por nossos sucessos e fracassos. Ficamos
distraídos pelo drama do momento. A nossa habilidade de pensar
claramente fica anuviada pelas emoções e desejos poderosos. Nos
tornamos orgulhosos ou ficamos paralisados pelo nosso legado. E
mesmo que essas coisas não fossem verdade, a nossa visão não seria
confiável pelo simples fato de que somos seres humanos finitos e,
portanto, somente capazes de ver uma peça de cada vez. A
eternidade, no entanto, nos dá uma visão bastante ampla. Ela nos
permite espiar sobre as conversas e confissões daqueles que passaram
para o outro lado. A eternidade realmente tem poder para dissipar a
nossa confissão e esclarecer os nossos valores.

ESCLARECENDO VALORES
Rodney sentiu como se tivesse trabalhado duro em toda a sua vida,
mas não tinha muito a mostrar como resultado disso. Agora, no meio
de sua vida, estava cansado de ser pobre. Ele não tinha recebido uma
grande ajuda quando criança. Sendo o filho mais velho da família, foi
lançado no mercado de trabalho alguns meses depois de seu pai ter
morrido. Ele só tinha quatorze anos de idade, e cresceu rápido. Por
ser o arrimo da família, não podia prestar muita atenção na escola e
nunca se formou. Não muito tempo depois que Rodney se casou, as
oportunidades de voltar a estudar pareciam pertencer a um passado
distante.
Rodney conhecia o Senhor e o amava. Ele foi um pai dedicado
para os seus quatro filhos e um bom marido para a sua esposa. Mas
era pobre. Ele trabalhava muitas horas como um empregado para uma
grande empresa e fazia todas as horas extra que eram oferecidas, mas
parecia que nunca havia dinheiro suficiente. A casa de Rodney era
um lugar feliz, cheia de amor. A adoração familiar marcava cada
jantar, e o domingo era um dia reservado para adoração ao Senhor.
Mas Rodney era pobre. À medida que as crianças ficaram mais
velhas, ficava muito claro que a casa era pequena demais para
satisfazer às suas necessidades. A família nunca tirou férias de
verdade e nunca aproveitou um Natal generoso. Rodney não era um
líder em sua igreja e ele nunca recebeu o respeito que a sua vida de
obediência fiel parecia merecer.
Ainda assim, Rodney levantava todas as manhãs e fielmente ia
para o trabalho. Ele não reclamava durante o dia e ensinava os seus
filhos a serem gratos por tudo o que tinham. Embora Rodney não
ensinasse muito bem, determinou que iria servir ao Senhor da melhor
maneira que pudesse – com suas mãos. Estava sempre consertando
alguma coisa para uma pessoa mais velha ou para missionários de
férias. Mas Rodney era pobre. Ele nunca foi um homem que ia em
acampamentos, porque não podia abrir mão da hora extra do sábado e
nunca foi a uma viagem de missões, porque não tinha o tempo
necessário para ajuntar o dinheiro necessário. E ele certamente não
poderia pagar do seu próprio bolso.
Rodney era humilde, amoroso e sempre disposto a servir. Aos
quarenta e nove, no entanto, ele se sentiu como se fosse um fracasso.
Ele olhava ao redor para as demais pessoas de sua idade na igreja.
Reparou nas casas grandes e carros legais. Ouvia a história de casais
com o ninho vazio, que fizeram uma viagem de inverno para o Havaí.
Ele e sua esposa nem mesmo gastaram um final de semana juntos. Ele
via homens que trilharam o seu caminho para cima na escada
corporativa, e ficava envergonhado por ainda ser somente um
trabalhador braçal. Odiava o fato de que sempre havia graxa
marcando as linhas de suas mãos e debaixo de suas unhas, não
importando quão bem as lavasse. Rodney odiava os jantares da igreja
quando pessoas compartilhavam o que estava acontecendo em suas
vidas. Ele odiava quando lhe perguntavam a respeito de
investimentos e viagens, porque não tinha nenhum dos dois.
Quanto mais velho ficava, mais desencorajado Rodney se tornava.
Eles ainda viviam na sua pequena casa de vila. Ele ainda trabalhava
no mesmo emprego. Eles ainda não tinham dinheiro o suficiente para
pagar as suas contas. Ele odiava essa casa. Ele odiava o seu trabalho.
Ele odiava as suas roupas baratas. Ele odiava o fato de que sua
esposa, Shirley, parecesse mais velha do que era por causa de todo o
seu trabalho duro. Odiava ter de dirigir um carro que era feio e não
confiável. E, por baixo de toda essa ira, estava uma realidade ainda
mais depressiva: não havia nada que pudesse fazer a respeito disso.
Ele se sentia preso em uma história que não escolhera.
Se tornou cada vez mais difícil para Rodney levantar pela manhã.
Tornou-se difícil cantar com alegria sobre a bondade e o amor de
Deus. A sua casa não mais era um lugar de descanso, mas um
monumento físico de quão malsucedida foi a sua vida. Shirley
também sentiu o peso disso tudo. Ela sabia que Rodney não podia
prover muito bem a ela e tentou o melhor que pôde para fazer o
dinheiro dar. Mas ela sempre estava pedindo a Rodney alguma coisa
que ele não podia pagar e, a cada pedido, parecia estar ficando cada
vez mais deprimida.
Agora, no meio de sua vida, Rodney tinha se perdido quase
completamente. Ele não havia abandonado Shirley nem se esquecido
do Senhor, mas, se continuasse nessa espiral descendente, ficaria
tentado a fazer ambos.
Como você ajudaria Rodney a se encontrar? Se pudesse levá-lo à
Palavra de Deus, onde você começaria? O que lhe traria conforto e
daria um norte?

Robert olhou de sua janela para as árvores frutíferas ornamentais que


os jardineiros haviam plantado em seu jardim no ano anterior. Cada
uma delas era única e linda. Era o toque de beleza final nos 12,000 m2
onde ele e Rose haviam construído a casa dos sonhos. Ele pensou lá
atrás, sobre a primeira casa que tinha comprado na cidade. Era uma
casa geminada pequenina, que não tinha de fato quintal, mas Robert
não se importava, porque nunca estava em casa. O tempo todo na
estrada, Robert estava determinado a se dar bem de um jeito ou de
outro. Rose ficava quieta sobre as suas constantes viagens, mas
parecia dar suporte.
Os filhos cresceram com todas as coisas materiais que pudessem
querer. Viveram naquela casa pequena por apenas três anos, até que
fizeram a sua primeira mudança. A segunda casa foi seguida por duas
outras. Não demorou muito até que Robert fosse alçado à posição de
CEO de sua empresa. A sua família costumava brincar que ele não
morava mais em casa, o endereço de sua casa e de seu escritório eram
o mesmo.
À distância eles pareciam ser uma família cristã maravilhosa.
Eram muito envolvidos com uma boa igreja e Robert ia com eles
sempre que estava em casa. À medida que as crianças cresciam,
tantas marcas importantes da adolescência vieram e se foram. Rose
estava sempre presente e se tornou bastante competente em inventar
desculpas para Robert. Ele era um bom homem. Em muitos sentidos
ele tinha uma fé sólida. Ele parecia amar a sua família. Era um
provedor maravilhoso. Era um proponente inflamado da moralidade
corporativa e nunca hesitava em compartilhar a sua fé. Ele dava
liberalmente à sua igreja e para vários ministérios importantes.
Conhecia teologia e era versado na Bíblia, mas nunca estava em casa.
Todos que conheciam Robert o amavam e ele era constantemente
considerado um sofisticado um homem cristão de negócios.
À medida que Robert olhava pela janela, para as suas pequenas
árvores, pensava nos seus filhos. Já fazia um tempo desde que não
ouvia deles. Eles vieram para o Natal e ligavam de quando em
quando, mas as conversas com eles eram estranhamente distantes.
Desde que seus filhos saíram de casa, Rose parecia bastante distante
também. Robert olhava, examinando o fruto de seu sucesso, mas
havia uma ponta de dúvida dentro dele. Por um lado, ele estava
convencido de ter feito boas escolhas. Olhe para a vida que eu
proporcionei aos meus filhos, ele dizia a si mesmo. Veja o quanto
consegui ofertar a ministérios que, doutra forma, não conseguiriam
ter sobrevivido. Veja as universidades que os filhos frequentaram. Ele
havia feito a escolha correta, e, algum dia, todos eles reconheceriam
isso.
Mas quando Robert olhava no espelho e não via mais o jovem
bem-sucedido que costumava ver. Apesar de toda a sua
autocongratulação, ele era incomodado com perguntas que não o
deixavam em paz. Será que realmente tinha feito as melhores
escolhas em sua caminhada? Ele desejava que seus filhos ligassem e
visitassem mais. Desejava que ele e Rose tivessem a amizade
maravilhosa da qual desfrutaram antes.
O que você diria a Robert? Ele não está tão desencorajado quanto
Rodney, mas há dúvidas em seu coração. Aonde você iria na Palavra
de Deus para ajudar Robert a se encontrar? Como você ajudaria
Robert a avaliar o seu sucesso? O que você sugeriria que Robert
fizesse?

À medida que você analisa a história desses dois homens, é


atropelado pelo fato de que a vida é formada, fundamentalmente,
pelos valores que você carrega. Tudo o que você faz é uma expressão
desses valores. Somos seres orientados por propósito e dirigidos por
valores. Não importa se pensou ou não a respeito dos seus valores,
tudo o que você faz na vida, de alguma forma, é a sua tentativa de
conseguir aquilo que é importante para você. A palavra que a Bíblia
usa para capturar esse conceito é tesouro. Essa é uma palavra
maravilhosa.
Um tesouro é uma coisa que não tem, necessariamente, um valor
intrínseco. Frequentemente, o valor de um tesouro é o valor atribuído
a ele. Esse é o motivo pelo qual o lixo de um é o tesouro do outro. Se
algo é o seu tesouro, você vai tentar ganhá-lo, guardá-lo, preservá-lo
e desfrutar dele. O seu tesouro vai começar a capturar o seu coração,
e qualquer coisa que capture o seu coração controlará o seu
comportamento (veja Mateus 6.19 ss). Por causa desses princípios
bíblicos de tesouro, a arqueologia pessoal da meia-idade é uma
escavação em busca do tesouro enterrado. Você está olhando para
trás, para as coisas às quais atribuiu valor, e avaliando o tipo de
retorno que conseguiu com o seu investimento. Frequentemente,
aquilo que parecia ter valor em seus primeiros anos adultos já não é
mais um tesouro.
Quer tenha sido o sucesso profissional, o amor e o respeito dos
seus amigos, sua aparência, a escalada contínua de suas posses ou
algum sonho de um futuro idílico, a provação da meia-idade
eventualmente revela o valor real do seu tesouro. Os seus tesouros
eram ouro de tolo e, no final das contas, se mostraram sem nenhum
valor.
A meia-idade diz respeito aos valores que agarraram o seu
coração, organizaram a sua vida e controlaram o seu comportamento.
É aqui que a eternidade pode nos ajudar. Como Paulo nos diria, a
eternidade é a melhor ferramenta para esclarecimento de valores que
você pode ter, e as avaliações de valor que você faz na meia-idade
determinam tanto o que você vai fazer a respeito do passado como o
que você vai fazer no futuro.

UMA ESPIADA NA ETERNIDADE


O livro do Apocalipse abre as portas da eternidade e nos convida a
parar, olhar e ouvir, enquanto permite que você se sente no canto da
glória e assista às celebrações angélicas, aos pronunciamentos
provindos do trono de Deus e ao coro dos santos. As suas palavras
dão esperança, encorajamento e orientação para aqueles que se
encontram bem no meio da história. É quase como se houvesse um
sinal na porta da eternidade dizendo: “Você quer saber o que
realmente importa? Dê uma espiada na eternidade. Quer avaliar os
investimentos da vida que você tem feito? Dê uma espiada na
eternidade. Quer contrair uma vida que realmente se adequa ao que
Deus está fazendo? Espie a eternidade”. A eternidade é a bússola que
orienta cada aspecto do estilo de vida cristã, assim, é absolutamente
necessária para compreender as lutas da meia-idade.
Há uma cena magnificente em Apocalipse 5, que coloca a vida
toda na perspectiva apropriada. É uma das cenas mais maravilhosas
de adoração ininterrupta e sem restrições que há nas Escrituras.
Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um
Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que
são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. Veio, pois, e tomou o livro
da mão direita daquele que estava sentado no trono; e, quando tomou o livro, os
quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro,
tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as
orações dos santos, e entoavam novo cântico, dizendo:
Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos,
porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e
sacerdotes; e reinarão sobre a terra.
Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos
anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares,
proclamando em grande voz:
Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e
força, e honra, e glória, e louvor.
Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre
o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo:
Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória,
e o domínio pelos séculos dos séculos.
E os quatro seres viventes respondiam:
Amém!
Também os anciãos prostraram-se e adoraram (Apocalipse 5.614).

Nessa cena, alguém pergunta quem vai abrir o grande rolo. O rolo
é o plano de Deus para as eras. João chora porque parece não existir
ninguém digno de abrir o pergaminho. Então, um dos anciãos diz:
“Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu
para abrir o livro e os seus sete selos”. Nesse ponto, o Cordeiro ainda
aparenta como se tivesse sido sacrificado. Ele se levanta, anda até o
trono e pega o rolo da mão de Deus.
Agora, entenda a cena. Os três membros da Trindade estão no
trono, e o Cordeiro, o Leão de Judá, está segurando o plano de Deus
para as eras. Esse é o plano que pré-ordenou todas as coisas que já
aconteceram desde antes da fundação da terra até a eternidade. Ele
segura a grande história, que contém a história de cada um que já
viveu e, no centro daquela grande história, está a história dos
redimidos. É um momento de simbolismo intenso. Nós vemos o trino
Senhor das eras, o Senhor que conquistou a vitória. Vemos o Espírito
que deu nova vida a todos aqueles que creram, que iluminou a fé e
capacitou a obediência. Vemos o Cordeiro, ainda carregando as
cicatrizes de seu sacrifício voluntário pela salvação dos seus filhos. E
esse Cordeiro segura o enredo das eras em suas mãos. Deus venceu.
Seus propósitos prevaleceram! A Trindade, o autor e consumidor do
plano, agora segura esse plano diante de suas criaturas, em glória e
triunfo.
Ao sinal dessa cena magnificente, as quatro criaturas e os vinte e
quatro anciãos se prostram diante do trono, com harpas e vasilhas de
ouro nas mãos e começam a louvar o Senhor. A vasilha contém
guardadas as orações de todos os santos que já oraram. O conteúdo de
seu louvor deve chamar a nossa atenção e começar a esclarecer os
nossos valores. Eles não cantam: “Tu és digno de abrir o selo porque
sempre destes aos teus filhos tudo aquilo que eles pediram. Deste-lhes
casas maravilhosas e bons trabalhos; deste-lhes filhos bons e ótimas
férias; deste-lhes uma carreira de sucesso e tranquilidade material;
deste-lhes apreciação dos seus pares e uma agenda previsível; deste-
lhes força física e liberdade de doenças”. Assim, no grau em que
Deus lhes tem dado cada uma dessas coisas é justo lhe dar louvor.
Mas, nesse momento majestoso, quando os vinte e quatro seres
viventes em volta do trono estão segurando as orações dos santos e
olhando para trás, aquelas não são as coisas que enchem as suas
mentes.
O tema esmagador de sua canção de louvor ao Cordeiro é esse:
“Tu és digno de abrir o livro porque o senhor conseguiu. Derramaste
o teu sangue precioso de forma que pudeste comprar a redenção de
pessoas de toda tribo, língua e nação. E os tornaste um reino de
sacerdotes, para reinar com o senhor para sempre. Tu venceste!
Derrotaste o pecado! Deste-lhes liberdade da única coisa da qual eles
nunca poderiam escapar! Quebraste o poder e domínio das trevas!
Antes que os fundamentos da criação fossem lançados, tu fizeste um
plano e executaste cada detalhe dele. Tu dominaste a criação e
exercitaste autoridade sobre cada coisa na história humana com um
único objetivo em mente, a salvação do teu povo. Tu conseguiste!
Salvaste cada um dos teus filhos do pecado!”
A partir da perspectiva da história completa, esse fato
impressionante domina o seu louvor: o sucesso da redenção. Na
eternidade, muitas coisas que parecem ter uma importância tão
grande não importarão mais. O tamanho e luxo da nossa casa não
importarão mais. A sua força e a beleza física não importarão mais.
As viagens familiares, carros, roupas e contas bancárias não
importarão mais.
A redenção é o que importa. Deus entrou nesse mundo
horrivelmente quebrado pelo pecado, para redimir pessoas perdidas,
rebeldes e autoabsorvidas da escravidão a tudo o mais que não ele. E
ele as recebeu na cidadania do seu reino de glória para sempre e
sempre. É isso o que importa! Se você é um dos filhos de Deus, é
nisso que ele tem trabalhado o tempo todo. Esse é o projeto que Deus
deixou incompleto. É a única coisa pela qual esse mundo caído tem
gemido por séculos a fio.
Enquanto os vinte e oito seres começaram a cantar a sua nova
composição de redenção, os anjos se juntam a eles, em um crescendo
de louvor que se levanta, o qual o universo nunca tinha ouvido antes.
Os anjos se levantam e começam a circundar o trono com as quatro
criaturas e os vinte e quatro anciãos. João registrou o número como
sendo de dez mil vezes dez mil. Cem milhões e vinte e oito seres
estão agora circundando o trono e cantando novos cânticos de louvor
para o Cordeiro e a sua salvação. Mas o crescendo ainda está sendo
construído. À medida que os cem milhões de anjos começam a cantar,
acordam todas as criaturas da terra, sob a terra e no mar. E eles
também se ajuntam a esse trovão da celebração do Cordeiro. Agora
os céus estão chacoalhando com o hino mais alto de redenção que
jamais foi cantado.
Tudo agora fica claro. Os seres do céu compreendem em que
Deus estava trabalhando o tempo todo. Eles veem a glória milagrosa
do que foi feito. Ele derrotou cada coisa das trevas que já foi pensada,
dita ou feita. Ele tem conquistado cada inimigo daquilo que é bom,
certo é verdadeiro. Ele expôs todas as mentiras, fingimentos, enganos
e heresia. Ele batalhou contra as forças más das trevas e venceu. Ele
amaciou o coração rebelde. Ele extraiu louvor dos orgulhosos. Ele
causou o desobediente a servi-lo. Ele invadiu o cativeiro e deu
liberdade aos seus filhos. Ele é o Cordeiro vitorioso. Ele venceu!
A linguagem humana não é suficientemente elástica para
descrever a glória dessa cena. Essa é, entretanto, uma cena muito
prática. Deus decidiu nos convidar para as salas da eternidade porque
precisamos dessa perspectiva enquanto enfrentamos as dificuldades e
desilusões de viver aqui e agora. É muito difícil para nós manter as
coisas em perspectiva. Nós ficamos tão confusos sobre as coisas que
realmente importam. Colocamos nosso coração em coisas sem as
quais pensamos que não podemos viver e, quando elas são tomadas
de nossas mãos, nós surtamos. Tendemos a amar aquilo que é
temporário e esquecer do que é eterno. Com os punhos fechados, nos
agarramos às coisas físicas que, por sua própria natureza, estão se
deteriorando. Construímos aquilo que não vai durar para sempre e
investimos naquilo que em breve vai estragar, enquanto
lamentavelmente nos esquecemos das coisas que nunca vão acabar.
À medida que examina o retorno dos seus investimentos, é
tentador concluir que você tem sido uma falha absoluta e que Deus
tem sido tem sido assustadoramente infiel. Conforme você faz o seu
trabalho arqueológico, peneirando as areias de suas próprias decisões
e descobrindo os cacos que foram deixados, é tentador olhar e se
questionar se valeu a pena. É nesses momentos que você mais precisa
das perspectivas esclarecedoras de Apocalipse 5.
Ouça os anciãos e os anjos na eternidade. Ouça as criaturas da
terra. Eles diriam que tudo valeu a pena. Porque a única guerra que
era absolutamente vital que fosse ganha foi vencida em nosso lugar.
À medida que você estava trabalhando, orando, esperando, decidindo,
planejando e fazendo, Deus estava cuidadosamente realizando o seu
plano. Nenhum ato de fé jamais aconteceu em vão. Sim, muitos
sonhos evaporaram antes de virem a ser. Muitas pessoas em quem
você pensou que poderia confiar falharam com você no final. À
despeito de todo o seu esforço para lutar contra a idade, seu corpo e
sua beleza continuaram a envelhecer. Há muitos mistérios ainda
ocultos e muitas coisas para se lamentar. Mas, a partir da perspectiva
da eternidade, essa única coisa é verdadeira: Deus é maravilhoso em
sua sabedoria, poder e graça. Ele vai fazer cada última coisa de tudo o
que prometeu. Haverá um dia quando você não estará somente dando
uma espiada, mas cantando no coro juntamente com cada anjo, santo
e animal: “Ele venceu! Ele venceu! Ele venceu!”
Essa cena de esperança fala aos seus momentos de desorientação
da meia-idade. Por toda a sua glória de outro mundo, ela é
intensamente prática. Ela fala com poder e clareza a respeito das lutas
da meia-idade, sobre o que esperar. Pare por um momento e analise
as suas desilusões, remorsos e temores da meia-idade. Pergunte a si
mesmo em que você tem esperado. O que é realmente digno de
celebrar? O que é realmente digno de lamentar? Force a si mesmo a
usar os valores da eternidade como a sua ferramenta de medida para o
aqui e agora. Permita que eternidade argumente contra os valores da
cultura ao redor, a qual afirma que a vida diz respeito à juventude,
aparência, sucesso, facilidade material, poder e controle. Resista à
uma avaliação sem a eternidade, que faça os sucessos situacionais e
relacionais do presente momento mais importantes do que eles são na
realidade.
Se ouvir a eternidade, você pode ficar no meio do remorso da
meia-idade e celebrar. Sim, você fez muitas coisas que não deveria ter
feito. Mas no meio de tudo isso, Deus ainda estava trabalhando. Ele
estava te libertando, em todo o tempo, de uma coisa escura e terrível,
o qual sempre foi o seu principal problema: o seu pecado. Ele estava
entregando algo melhor do que qualquer coisa que você poderia
conceber para si mesmo: um lugar no reino eterno dele. Todos os
nossos desapontamentos mais esmagadores não são mais do que
pontinhos no mapa quando vistos da perspectiva da interminável
glória da eternidade. Com os sons altos da eternidade em seus
ouvidos, levante-se em meio à perda de sua juventude e seus medos
do envelhecimento, e celebre. Você ganhou um assento no lugar onde
vai viver para sempre, onde não haverá fraqueza nem rugas, e onde
você nunca mais sofrerá nas mãos de uma doença. Você não pode
avaliar acuradamente a meia-idade a menos que leia o último capítulo
primeiro.
Mas ainda não acabou.

DAS LÁGRIMAS À ETERNIDADE


Você não precisa somente dos valores de esclarecimento de
Apocalipse 5, mas também de Apocalipse 7. Embora a cena seja
semelhante ao capítulo 5, ela acrescenta valores que são cruciais para
responder às perguntas típicas que fazemos na desorientação da nossa
arqueologia da meia-idade. Vamos expiar essa cena também.
Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de
todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro,
vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz,
dizendo:
Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação.
Todos os anjos estavam de pé rodeando o trono, os anciãos e os quatro seres
viventes, e ante o trono se prostraram sobre o seu rosto, e adoraram a Deus,
dizendo:
Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o
poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!
Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo:
Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram?
Respondi-lhe:
meu Senhor, tu o sabes.
Ele, então, me disse:
São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram
no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem
de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre
eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre
eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os
apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos
olhos toda lágrima.
(Apocalipse 7.9-17)

A cena também acontece no trono, mas dessa vez ela foca nos
filhos de Deus que terminaram a sua jornada e finalmente chegaram
em casa. O Apocalipse nos coloca em uma cápsula do tempo e nos
arremessa para frente. Essa é uma cena que não pode ser perdida,
porque ela esclarece ainda mais os valores que precisamos ter em
mãos na meia-idade. O livro de Apocalipse foi dado por Deus a você,
não para que você descobrisse o momento exato de sua vinda, mas
para que você pudesse compreender claramente o aqui e agora.
Dessa vez a adoração diante do trono é liderada pela multidão dos
redimidos, a qual é tão numerosa que desafia uma contagem. Na
multidão, há pessoas de cada nação, tribo, povo e língua. Elas estão
vestidas em vestes brancas, que representam a sua purificação do
pecado, e cada uma está segurando uma palma nas mãos (você se
lembra da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém?). Em uníssono, a
multidão está cantando louvores. Novamente, é um cântico de
salvação. Essa é a única coisa na qual eles estão interessados em
celebrar. “A salvação pertence a Deus e ao Cordeiro!” Aqui está a
celebração final das pessoas que agora estão no final da jornada e que
estão olhando para trás. Deus cumpriu cada uma de suas promessas.
Ele derrotou o pecado. Destruiu o inimigo. Ele fez o sacrifício que
expiou o pecado. Ele continua a trabalhar no coração do seu povo até
que obra esteja completa. “Estamos redimidos!” É o grito de vitória
desse povo do outro lado.
Nesse ponto, um dos anciãos pergunta quem são essas pessoas em
vestes brancas. Elas são identificadas como aquelas que vieram da
“grande tribulação”. Como muitas pessoas têm visto essas passagens
como um mapa para o futuro mais do que uma lente para o presente, é
fácil compreender de forma errada o que está sendo dito. O que é essa
grande tribulação? É algum período de tempo conectado com a
segunda vinda de Cristo? O contexto deixa claro que não é isso que
João está descrevendo. O que é a grande tribulação experimentada
por cada pessoa que já viveu, não importa quando tenha vivido? A
resposta é exatamente aquilo que Paulo diz: “A ardente expectativa
da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). É aqui
que essa cena maravilhosa fala diretamente a respeito da nossa luta.
A questão é que, embora você tenha sido redimido pelo sangue de
Cristo, ainda que o Santo Espírito viva em você, e ainda que a graça
de Deus opere em sua vida todo dia, você ainda vive em um mundo
caído. Quando você e eu viemos a Cristo, não fomos imediatamente
transportados para eternidade. Não, Deus nos manteve exatamente
onde estávamos vivendo, a fim de lidar com os efeitos da Queda ao
viver em nós.
Esse mundo caído é um lugar de grande tribulação. Isso é
inescapável, mesmo para aqueles de nós que foram redimidos. Tudo
na vida é mais complicado, mais difícil e mais perigoso, porque o
mundo em que vivemos ainda está aguardando a redenção. Você não
pode viver nesse mundo quebrado e escapar da tribulação.
Assim, é isso que a tribulação é. É o período quando o povo
redimido de Deus marcha o seu caminho por meio das tribulações da
vida em um mundo caído, até que finalmente cheguem do outro lado.
Não importa quão difícil esteja a sua vida nesse momento, existe um
outro lado. Haverá um dia em que tudo aquilo que você acha tão
doloroso terá terminado completa e totalmente. Deus fará duas coisas,
que se tornarão em um final incrivelmente doce para a obra redentiva
em nosso favor.
Primeiro, ele vai estender a tenda dele sobre você. Em outras
palavras, ele vai finalmente receber você fora do calor da tentação,
doença, conflito, deslealdade, envelhecimento, fraqueza física e um
exército de outras experiências humanas que espancam a nossa alma.
Qual é o “calor” que queima você neste momento? É o calor dos
sonhos que têm evaporado como poças rasas no verão? É o medo do
futuro e as perspectivas do envelhecimento e da aposentadoria? É o
calor das tentações que seguem você como um cachorro onde quer
que você vá, e que parecem roubar você de qualquer esperança de
contentamento no presente? Conforte-se; você será bem recebido para
fora do calor, para a sombra deliciosa da tenda de Deus, para nunca
mais se expor ao calor fustigante do sol novamente!
Há uma segunda coisa doce que o seu Senhor fará. É tão difícil
ajuntar palavras ao redor dessa doçura, pois não há nada como isso
em nenhum outro lugar da Palavra de Deus. Relembre a cena. A
multidão inumerável de santos sofredores (todos nós) anda quebrada
e cansada até a eternidade. O sofrimento deles é seguido pela
recepção de uma coroa na porta da eternidade. Eles entram na glória
cansados, famintos e sedentos porque o calor os castigou a cada
passo.
Nesse momento, uma coisa maravilhosa acontece. Deus se levanta
do trono e começa a caminhar em direção à multidão, pessoalmente
secando cada uma de suas lágrimas! Deixe que a sua mente imagine
essa cena. Pessoa por pessoa, o Deus que finalmente venceu a última
batalha, leva as suas mãos aos olhos de seus filhos cansados e
chorosos e enxuga as suas lágrimas. Você quase o pode ouvir dizer:
“você não precisa chorar mais. Acabou. Eu venci. Você está
finalmente livre. Não haverá mais calor fustigante. Nunca mais você
passará fome e sede novamente”. O ato final de redenção é o ato final
de conforto e vitória. Visto que a batalha foi conquistada, essa
inumerável multidão vai viver em um paraíso inconcebível com o seu
Senhor. Lembre-se, você é parte dessa multidão. E quando você
estiver lá, as tribulações insuportáveis de agora parecerão, no
máximo, triviais.
Como em Apocalipse 5, essa cena é dada para esclarecer nossos
valores e fortalecer a nossa esperança. Permita que essa cena fale ao
seu coração. O que você realmente quer de Deus nesse exato
momento? Você está tão completamente perdido ou sofrendo uma dor
tão grande que abriria mão das maravilhas da eternidade por conforto
presente e facilidades pessoais? É tão tentador deixar que a dor do
momento domine totalmente os nossos pensamento e desejos. Diz-se
que você pode levar uma pessoa faminta a fazer qualquer coisa se lhe
oferecer comida. Será que você está tão focado em escapar das lutas
do momento que se deixou desnecessariamente susceptível à oferta de
escape feita pela tentação?
Há muitas fugas da meia-idade, a maioria das quais somente
agrava o problema do qual você está tentando fugir. Nós gastamos
muito tempo remodelando a casa ou compramos uma moto, barco,
carro esportivo. Compramos roupas que são muito caras e joviais
demais. Ou vamos a restaurantes caros e fazemos viagens que
esbanjam. Embora não saibamos disso, não somos atraídos de fato
por essas coisas. Não, elas nos fisgam porque pensamos que elas
podem prover fuga para as nossas dificuldades.
Outros tentam encontrar fuga em pessoas. Somos tentados a
pensar que as pessoas à nossa volta podem ser nossos Messias.
Podem nos salvar das tribulações que assolam o nosso coração. Mas
pessoas não são salvadores confiáveis e nós podemos facilmente
deixar o governo da aceitação de outros para nos entregarmos à
infidelidade e adultério. Ou talvez procuremos uma posição ou poder
como o nosso meio de escape. Nós nos tornamos viciados em
realizações, mais escravizados do que antes ao avanço de nossas
carreiras.
Aqui está o ponto: no final das contas, essas rotas de fuga tornam
a meia-idade mais difícil, e nós nos encontramos incrivelmente
perdidos. Apocalipse 7 lida com essa dinâmica de fuga da dor. Esse
capítulo convida cada um de nós a olhar para dentro e perguntar: Para
o que realmente nós estamos vivendo? Será que uma existência sem
dor é realmente a coisa que você quer de Deus? A multidão vestida
de branco estava indisposta a pegar um atalho e correr, pegando a
primeira rota possível que aparentemente oferecesse alívio. Visto que
viveram com um olho na eternidade, se mantiveram marchando
adiante, não importando o que acontecia dentro e fora deles.
Você vive com ambos os olhos no presente, totalmente consciente
de quão melhor esse momento poderia ser e frequentemente se
perguntando porque Deus não provê algum alívio? Ou você está
magnetizado pela eternidade? Você consegue ver a eternidade à
distância e, assim, continua marchando diante? Sim, você ainda sente
a dor que te deixa cansado e desencorajado, mas você realmente crê
que tudo pelo que está passando agora parecerá insignificante do
outro lado. O que dá forma à sua resposta às provações da meia-idade
– seus sonhos a respeito do que você poderia ser agora ou as
promessas de Deus do que você será então?
Essa passagem oferece tanto boas quanto más notícias. A notícia
ruim é que todos choraremos em nosso caminho até a eternidade. Por
hora, o seu Senhor te deixou nesse mundo caído e você sente o calor
terrível dele. A boa notícia é que um dia foi garantido a você, quando
tudo isso terá um fim. O que você experimentará na eternidade será
muitíssimo mais relevante do que a dor pela qual você está passando
no presente.
Pense em como isso é importante. Se você se deixou enganar e
colocou todos os seus ovos de alegria e esperança na cesta do hoje, o
sofrimento de hoje vai atingir você como uma cesta de tijolos. Se a
sua alegria é fundamentalmente dependente de uma falta de
dificuldades aqui e agora, você vai sofrer muito mais quando
dificuldades cruzarem o seu caminho. Nessa luta, você será ainda
mais tentado a correr para saídas falsas. Se você entende, no entanto,
que essa parte da jornada é dura, então, você não ficará chocado nem
surpreso quando o calor ardente vier até você, e não será tentado a
pegar rotas de fuga falsas. A sua única esperança será marchar
adiante.
Você ganhou um lugar na celebração mais maravilhosa do
universo, onde cada criatura da terra canta para a glória daquele que
proveu perdão e liberdade eterna. Mas, entre o convite e a entrada na
eternidade, o caminho será difícil. Quando o calor escaldante vier
sobre você, não se sinta esquecido ou abandonado; ele existe para
relembrar você de que a jornada não está terminada. Lembre-se de
que aquelas supostas rotas de fuga nunca serão suficientes. Elas
somente tornarão a jornada mais dolorosa. E lembre-se, o Deus que
vai enxugar a última lágrima dos seus olhos está com você em cada
passo da jornada, oferecendo conforto, sabedoria e força que somente
ele pode dar.
A história de Deus é a história da eternidade e, no Apocalipse, ele
te convidou para dar uma espiada no último capítulo. É tentador
esquecer que existe eternidade ou pensar que ela não faz diferença no
presente. Paulo diz exatamente o oposto aos coríntios; que se você
tem Cristo somente nesta vida, você é uma pessoa digna de pena. A
eternidade é a única coisa que te dá razão para continuar.
Não importa o que você tem nas mãos nesse exato momento, se
você é um filho de Deus, existe somente uma coisa certa da qual
depender: você tem um futuro maravilhoso. Ele é mais brilhante do
que qualquer coisa que você consiga conquistar agora. É mais
maravilhoso do que qualquer coisa que você consiga pensar. Deus vai
enxugar a sua última lágrima e você não mais terá de continuar a
peregrinação. A única razão real para continuar no caminho é que um
dia ele vai acabar e, na sombra fresca da tenda do Senhor, você vai
descansar para sempre. Se tudo o que você está enfrentando agora
não tivesse um então, nada que você faz, não importa quão bem-
sucedido ou confortável, teria valor em última instância. Deus
permite que você olhe o então, de forma que, à medida que enfrenta
as tribulações do seu agora, você tenha uma esperança que seja mais
forte do que a desilusão, encorajamento que se sobreponha ao seu
remorso e um sonho que te motive, o qual é melhor que qualquer
sonho que você possa ter arrumado para você mesmo.
CAPÍTULO 12

A GRAÇA É MAIOR

A vida é como uma dança: a graça desliza sobre pés cheios de calos. — ALICE
ABRAMS

Que o céu tenha misericórdia de todos nós – Presbiterianos


bem como pagãos – pois de alguma forma todos nós somos
terrivelmente quebrados da cabeça, e tristemente
necessitados de conserto.
— HERMAN MELVILLE

A meia-idade diz respeito a pessoas reais e é por isso que eu


apresentei pessoas como Bill, Don, Serena, Todd, Kristi, Joanna,
Rodney e os demais. Pessoas reais, apanhadas no meio de seu próprio
drama da meia-idade. Cada história pessoal é única e diferente. Cada
pessoa está lutando ao seu modo próprio. Cada um deles é
impressionado pelos detalhes de sua própria história. Todos são
oprimidos por suas lutas pessoais, mas cada um precisa de uma figura
maior a fim de conseguir compreender o todo. Nenhum deles sabe
com certeza o que fazer a seguir, e alguns deles já estão fazendo
coisas que acrescentam mais problemas àqueles que já achavam
difíceis. Nenhum deles esperava ter ficado perdido no meio. Nenhum
deles pensou que seria dessa forma. Eles têm tanto em comum, mas
nem tudo em comum.
A crise da meia-idade não é toda a respeito de experiências e
reações estereotipadas. Não, todas as pessoas que vimos encontraram
a si mesmas perdidas no meio dos detalhes de sua história única. Não
há duas histórias iguais e não há duas pessoas que respondam
exatamente da mesma maneira. Por isso é tão útil olhar a história de
pessoas na meia-idade a partir do ponto de vista da única história que
consegue explicar todas as demais, a grande história de redenção das
Escrituras. A história bíblica é ampla o suficiente em seu escopo
origem-até-o-destino para dar sentido literal à vida de cada pessoa
que já viveu. Você não pode espremer os problemas da meia-idade
em algumas poucas categorias funcionais, e quaisquer temas que
existam devem ser lidados de uma forma que não ignore a
singularidade da história de cada pessoa. A melhor maneira de
capturar o que precisamos fazer à medida que examinamos as
experiências humanas, como as lutas da meia-idade, é resumida pelos
passos abaixo.
1. Precisamos parar, olhar, ouvir e examinar os temas. A
palavra tema é muito importante aqui. Quando examinamos
experiências humanas, procurando por dificuldades e reações que
aparecem repetidamente, não estamos estabelecendo categorias, em
vez disso estamos nos esforçando para ser sábios. O propósito dos
temas não é aparecer com categorias nas quais, depois, tentamos
encaixar as pessoas, mas disponibilizar temas que nos ajudem a
entender mais adequadamente pelo que as pessoas estão passando.
Sim, a meia-idade tende a ser um momento quando as pessoas
experimentam insatisfação com a vida, mas as lutas de Freddy com
insatisfação são muito diferentes das lutas de Serena. A meia-idade é
frequentemente um momento quando as pessoas se sentem
desorientadas no meio de suas próprias histórias. Sally se sentiu dessa
forma, mas não da mesma maneira que o John. A meia-idade é um
momento quando as pessoas lutam com um desânimo poderoso e
inesperado. John certamente estava desencorajado, mas a sua
experiência não é a mesma de Benny. Muitas pessoas carregam uma
carga de medo ao longo dos anos da meia-idade, como uma âncora no
coração. Essa foi a experiência de Sally, mas não de uma forma que
se possa duplicar em outra pessoa. Peter era um homem desapontado,
mas era qualitativamente diferente de Tim. Uma falta de interesse
pela vida frequentemente se apresenta, como resultado das lutas da
meia-idade, mas a forma que ela atingiu Jim foi única. A maioria das
pessoas que está no auge da luta da meia-idade quer distanciar-se da
dor e desorientação, mas Todd e Mary procuraram distanciar a si
mesmos de formas muito diferentes. John estava procurando
distração, mas não da mesma forma que Alex.
Os temas que você vai examinar nesse período da vida não são
categorias absolutas, mas uma ferramenta para procurar entender a
sua própria experiência e a de outros. Neste livro, tentamos fazer isso
com a crise da meia-idade.
2. Devemos examinar os temas a partir do ponto de vista
privilegiado das Escrituras. Uma das muitas funções da Palavra de
Deus é interpretar a vida para nós. Somos criadores de significado.
Nunca vivemos sozinhos. Estamos sempre revirando a nossa história
repetidamente em nossas mãos, procurando entender aquilo que
estamos passando e porque estamos respondendo da maneira que
estamos. É impossível, no entanto, ficar no meio de sua história de
entender todos os detalhes, assim como não é possível ler a metade de
um romance e saber exatamente a solução da trama. Assim, na Bíblia,
Deus nos tem dado uma história enorme, abrangente, que pode
explicar a nossa história. Essa história não somente responde às
questões fundamentais da existência humana, mas também nos dá
uma agenda para encarar aquilo que está em nossas mãos. Quando a
narrativa bíblica se torna a lupa por meio do qual você examina a
vida, as coisas começam a fazer um sentido que nunca fizeram antes,
mesmo aquelas coisas sobre as quais a Bíblia parece não falar nada a
respeito.
Neste livro, temos observado que a história bíblica nos dá janelas
muito úteis a partir das quais podemos examinar a crise da meia-
idade. As janelas do sofrimento, controle, adoração, identidade,
valores e eternidade todas proveem ideias práticas relacionadas às
lutas da meia-idade, as quais não somente nos ajudam a entender
porque sofremos como sofremos, mas também o que fazer quando
essas provações cruzam o nosso caminho.
3. Nós precisamos nos apropriar das lutas do coração que o
Senhor, em seu amor, nos revela. É humilhante admitir, mas é
verdadeiro para cada um de nós: As lutas da meia-idade são lutas do
coração. As pessoas não se perdem somente porque seus sonhos
morrem ou estão começando a mostrar os sinais da idade ou porque
olham para traz e encontram coisas das quais se arrependem. Não,
ficamos perdidos no meio de nossas histórias por causa da forma que
os nossos corações interagem com os problemas típicos que todos nós
enfrentamos durante os anos da meia-idade. As nossas lutas não são
causadas por situações, locais ou relacionamentos. Não, essas coisas
são os locais onde as lutas da meia-idade existem, mas essa luta é,
fundamentalmente, do coração. O que isso significa? Bem, primeiro
significa que as lutas da meia-idade estão frequentemente enraizadas
em uma forma errada de pensar. Talvez você tenha pensado que se
obedecesse à lei de Deus cuidadosamente, Deus iria confirmar o seu
plano. Ou talvez você tenha pensado que, por ser um filho de Deus,
de alguma forma estaria ileso das tribulações da vida nesse mundo
caído. Ou talvez você tenha pensado que Deus havia prometido coisas
que ele nunca prometeu ou que tivesse um direito a certas coisas, mas
um direito que nunca foi realmente concedido.
Muito das lutas da meia-idade está enraizado em nossa
susceptibilidade a crer nas mentiras plausíveis e sedutoras do inimigo.
Adão e Eva fizeram exatamente isso, e todos nós estamos pagando o
preço desde então. Durante os anos da meia-idade, o seu coração não
muda radicalmente. Você carregou os pensamentos do coração para
as provações da meia-idade. Esses pensamentos formaram a resposta
às dinâmicas e experiências típicas desse período da sua vida. O que a
meia-idade frequentemente faz, que pode ser pessoalmente e
extremamente útil, é revelar os padrões de pensamento falsos e não
bíblicos que tem estado com você por anos. Os capítulos anteriores
podem te ajudar a corrigir e afiar sua maneira de pensar.
As lutas da meia-idade também estão enraizadas nos motivos,
desejos e propósitos do coração. Como a Bíblia deixa
escancaradamente claro, todos nós estamos vivendo por algo o tempo
todo. A luta da meia-idade não é sobre o fato de que eu tenha de lidar
com coisas difíceis e decepcionantes, mas que essas coisas difíceis
ficaram bem no caminho daquilo em que eu coloquei o meu coração.
Não é somente que você esteja ficando mais velho, mas que o
envelhecimento está roubando de você a identidade e segurança que
você está ganhando com a sua experiência. Não é somente que você
tenha sido colocado de lado em sua carreira, mas que essa experiência
tirou de suas mãos o poder para o qual você estava vivendo. Não é
somente que você tenha olhado para trás e se arrependido das coisas
que fez ou deixou de fazer, mas aquele remorso honestou roubou de
você as visões de sucesso pessoal, as quais davam a você razão para
se levantar pela manhã. Aqui está o ponto: Na meia-idade, não
lutamos por causa do envelhecimento, desilusão e arrependimento,
mas porque essas experiências nos roubam as coisas paras as quais
estávamos vivendo.
Estou cada vez mais persuadido de que, juntamente com todas as
realidades duras da vida nesse mundo terrivelmente quebrado, as
lutas da meia-idade estão fundamentalmente enraizadas nas idolatrias
do coração. Somos propensos a nos perder durante esse período da
vida porque as coisas que têm funcionado como substitutos de Deus,
isso é, nossos pseudomessias funcionais, os quais antes pareciam doar
vida, mas nunca fizeram isso, falham ou são tirados de nós. E, por
causa do que representam, sentimos como se tivéssemos sido
roubados da própria vida. Esses ídolos são tão poderosamente
sedutores que há um sentido em que enganam a todos nós. Todos nós
somos seduzidos por poder, aceitação, apreciação, posses, posição,
respeito performance, controle, conforto ou felicidade pessoal de
alguma forma. As nossas decisões e reações durante a meia-idade não
são controladas por lutas situacionais, relacionais ou físicas que se
colocam no nosso caminho, mas pelo coração que trazemos a essas
coisas. No mesmo grau em que o nosso coração for mais controlado
por adoração e serviço à criação do que ao Criador, os anos da meia-
idade serão tumultuosos e difíceis. Há uma coisa da qual você pode
ter certeza, a meia-idade vai roubar você dos seus ídolos, e, quando
ela fizer isso, você estará correndo um grande risco ou no limiar de
uma das maiores oportunidades da vida. Em que Deus está chamando
você para novos padrões de pensamento? Onde ele está chamando
você para longe do culto às coisas que funcionalmente o tem
substituído?
4. Precisamos tomar posse dos frutos ruins que existem em
nossa vida. Essa tendência é encontrada em todos nós e nos detém de
ganhar mais espaço. Com mais criatividade e perseverança do que
qualquer um gosta de admitir, todos tendemos a negar a nossa própria
colheita. Em momentos de sutil, embora chocante, autojustiça, todos
somos capazes de nos convencer de que a colheita amarga em nossa
vida pertence, na verdade, a alguma outra pessoa. Os pais apontam
para os filhos, convencidos de que a colheita da distância familiar
pertence a eles. O marido está convencido de que a frieza relacional
pertence à sua esposa, enquanto sua esposa está convencida de que a
falta de intimidade em seu casamento é falta do seu marido. O chefe
atribui a colheita de um ambiente negativo de trabalho às sementes
plantadas pelos funcionários, enquanto estes estão convencidos de
que as sementes pertencem àquele. É um ato universalmente humano.
É uma das formas que os pecadores lidam com a vida. Convencemos
a nós mesmos de que as ervas daninhas com as quais somos
persuadidos a viver todos os dias não vêm de nossas sementes de
palavras, pensamentos, motivos e ações plantadas diariamente.
Visto que a meia-idade é o tempo quando os frutos da vida
começam a aparecer, ela é também um tempo no qual viver com a
mentalidade de colheita é essencial. O que você pode aprender a
respeito das sementes que plantou ao longo dos anos, a partir dos
frutos que está colhendo agora? Um dos ingredientes essenciais de
uma mudança duradoura do coração e do comportamento é a
disposição de se apropriar de sua colheita pessoal. As pessoas que
fazem isso crescem e mudam, enquanto as que não o fazem tendem a
ficarem presas no beco sem saída de sua autonegação.
5. Precisamos perguntar ao Senhor onde ele está nos
chamando para colher novos frutos. A boa notícia é que você pode
mudar a sua colheita. A minha mãe era uma jardineira excelente.
Sempre que mudávamos, examinávamos aquilo que o quintal havia
produzido e, então, ela se entregava à produção de toda uma nova
colheita. O quintal simples e cheio de ervas daninhas se tornava rico
em cor, formas e texturas de novas flores. Sim, você está na meia-
idade, mas pode ter as cores bonitas das flores de uma vida nova
como a sua colheita diárias. Você não está preso pelo passado nem
pelo presente. A promessa bíblica de um novo coração traz consigo a
promessa de uma nova colheita em sua vida. Os relacionamentos que
antes estavam quebrados podem viver novamente com uma nova cor
e textura. Os sonhos que o desapontaram podem dar lugar a planos
novos e melhores da parte de Deus. O fruto do novo propósito pode
viver onde as ervas daninhas do remorso antes cobriram o solo. Os
espinhos de ter a sua identidade embrulhada em aparência ou
conquista podem dar lugar a um novo descanso no zelo do Senhor.
Em que Deus está te chamando para uma colheita totalmente nova de
bons frutos?
A meia-idade não é um tempo de entrar em pânico e enfiar a
cabeça na terra. É um tempo de olhar para cima, olhar para dentro
desse mover. É um tempo em que você pode conhecer a Deus de
forma mais profunda e a você mesmo de forma mais clara. Não é um
momento para ficar preso ao passado, mas, em vez disso, de dar boas-
vindas ao futuro, com mais sabedoria e insight pessoal do que jamais
antes. Mas também é um tempo quando é muito tentador dar lugar à
paralisia do desânimo e remorso e, ao fazê-lo, acrescentar problemas
àquilo que já este sendo um problema para você.

COLHEITA AMARGA, LINDOS FRUTOS NOVOS


Calvin sempre foi capaz de se convencer de que não era ele. Não
importa quão amarga a colheita nos campos de sua vida ou família,
Calvin era sempre capaz de argumentar que isso aconteceu pelas
sementes de alguma outra pessoa. Ano após ano a colheita continuava
vindo e a cada nova safra, ele conseguia dizer a si mesmo que a causa
era alguma coisa fora dele. Calvin era um aprendiz lento. Ele e sua
família comeram o fruto amargo de dificuldades financeiras e
familiares repetidamente. Parecia não haver fim para aquilo. Mesmo
com todo o tumulto e caos, Calvin era resistentemente cheio de
justiça própria. Ele estava sempre pronto a apontar o dedo e sempre
sabia para quem apontá-lo. Ainda que não gostasse dos problemas
que pareciam assaltar a sua vida constantemente, Calvin ia todas as
noites para a cama confortando a si mesmo de que a culpa não era
dele. E a cada nova colheita, Calvin se tornava mais e mais convicto
de que as sementes não lhe pertenciam.
No entanto, Deus amava demais a Calvin para deixa-lo continuar
a viver nessa negação de sua própria plantação. Ainda que não tivesse
ideia de que estava fazendo isso, Calvin sempre vivia como um
homem em busca de um sonho. Ele tinha aquela imagem bem clara
diante de si. Desde os vinte e cinco, Calvin carregava esse sonho
consigo. Ele tinha uma imagem clara de um grande escritório com
janelas que iam do chão ao teto e aquela mesa executiva enorme que
anuncia a quem entra que aquele é o escritório do presidente. Em sua
mente ele tinha planejado e revisitado a sua mansão no campo, com
um jardim de rosas e uma piscina natural de pedras. Ele sonhava com
três filhos lindos e uma esposa maravilhosa que também abraçariam
esse sonho. A casa de veraneio na beira de um lago e viagens
familiares para os melhores destinos no mudo eram partes do sonho.
Calvin queria levantar todos os dias. Ele tinha uma razão para
viver e para lidar com todos os problemas que sobrevêm quando
alguém está tentando se tornar alguma coisa. Ele não se deixaria
dissuadir. Ele sabia aonde estava indo e como chegar lá. Ele
começava todos os seus dias lendo a Bíblia e orando pela bênção de
Deus, o que, para Calvin, era um pedido para que Deus endossasse o
seu sonho. Ele de fato conheceu a mulher dos seus sonhos, eles
tiveram seus três filhos maravilhosos e Calvin conquistou tudo o que
havia sonhado. Mas a piscina não parecia tão maravilhosa e as rosas
não pareciam tão bonitas. Calvin não podia acreditar, o seu sonho
viera bastante vazio.
A fim de subir a escada da vida corporativa, Calvin tivera de fazer
algumas escolhas difíceis. Ele disse aos seus filhos que realmente os
amava e queria o melhor para eles, mas teria de trabalhar muitas
horas. Ele pedia desculpas cada vez que tinha de fazer uma viagem
que faria com que tivesse de perder um dos eventos dos seus filhos.
Ele deu a Georgia, sua esposa, tudo o que uma mulher poderia querer,
menos companheirismo. Georgia expôs isso muito bem: “O melhor
amigo de Calvin é o trabalho dele e eu aprendi a ficar bem com isso”.
Eles finalmente venderam a casa de veraneio porque tinham tão
pouco tempo para realmente aproveitá-la. Na ausência de Calvin,
Georgia forjou a sua própria vida. Tinha uma loja de produtos
naturais de muito sucesso e os filhos estavam espalhados pelo país,
construindo a vida adulta.
Sentado na enorme cadeira ao lado da lareira, posicionada da
maneira que havia previsto, Calvin estava sozinho, segurando o seu
sonho cheio de vácuo. Era impressionante para ele que tivesse feito
tudo e ainda assim isso não significasse nada. Na cadeira, ele estava
cheio de desilusão e remorso. Ele queria convencer a si mesmo de
que tudo era melhor do que parecia. Ele quis encontrar uma maneira
de se distrair. Quis fugir. Mas não deu vasão a nenhum desses
impulsos. Calvin ligou para o seu pastor.
Na primeira manhã, quando se encontraram para o café da manhã,
Calvin estava estranhamente nervoso. Ele nunca ficava nervoso
quando se encontrava com alguém para uma refeição; como o fidalgo
por excelência, Calvin normalmente se dava muito bem nesse tipo de
situação, mas não nessa manhã. Calvin estava ali para falar sobre si
mesmo. Em vez de falar sobre um produto ou uma oportunidade de
negócio, Calvin estava ali para falar sobre si mesmo. Ele não tinha
realmente olhado para si mesmo em anos. Ele se questionava se
alguma vez havia examinado o seu coração. Essa era uma experiência
totalmente nova e Calvin encontrou-se bastante intimidado. Mas ele
não ia desistir. Ele sabia que sua família estava ferida e que não podia
continuar vivendo dessa forma. Ele também sabia que por baixo dos
atavios de riqueza encontrava-se uma bagunça financeira que mais
cedo ou mais tarde viria à tona.
O pastor de Calvin era muito gracioso e bondoso, com
competência trazendo-o para fora da concha e dando a ele a
oportunidade de contar a sua história em detalhes, como ele nunca
havia feito antes. À medida que Calvin expôs as suas lutas, seu pastor
o ajudou a tomar posse do seu coração por trás de tudo aquilo. Foi
impressionante para Calvin notar que ficara cego por tanto tempo.
Quando encarou a sutileza de sua própria idolatria, Calvin até mesmo
começou a agradecer a Deus por ter permitido que tudo virasse pó.
“Eu não acho que jamais estaria de fato no lugar onde Deus queria
que eu estivesse se não tivesse ficado perdido no meio de tudo
aquilo”, disse Calvin. Ele encarou o fato de que os valores que
moldaram o seu investimento de tempo, dinheiro e energia eram
todos a respeito de sucesso pessoal e facilidade material. Sem
esquecer a fé, Calvin viveu para si mesmo e pagou o preço. Mas
Calvin não estava morto, nem ninguém de sua família. Assim, se
comprometeu com uma colheita de um novo fruto. Ele e Georgia
venderam a mansão e se mudaram para uma cada geminada perto de
uma de suas filhas. Ele vendeu ações que, combinadas com o valor da
casa, ajudaram aliviar a maior parte de sua dívida. E ele começou a
fazer tudo o que podia para restaurar o seu relacionamento com sua
esposa e com seus filhos.
Foi difícil. Calvin oscilava entre remorso poderoso e o medo de
que estivesse fazendo a coisa errada ao deixar para trás tudo o que ele
tinha trabalhado por tanto tempo para construir. Seus filhos foram
frios no começo; eles o tinham visto fazer muitas pequenas
transformações, para depois perceber que ele estava somente tentando
controlá-los em prol de sua própria agenda. Não demorou muito, no
entanto, até que começassem a entender que dessa vez era diferente,
que seu pai realmente havia mudado. Calvin fez muitas confissões
regadas a choro e fez novas promessas de uma forma totalmente nova
de abordar esses relacionamentos. Ao mesmo tempo, começou a
perceber que a sua igreja precisava de alguém com a sua competência
de homem de negócios. Ele começou a se voluntariar para ajudar com
diversos “assuntos de negócios”, que são uma parte muito grande do
ministério crescente de uma igreja nesses tempos modernos.
Uma quinta à noite, Calvin recebeu uma ligação de seu pastor.
Este lhe perguntou se ele poderia se encontrar para tomar café na
manhã seguinte. Calvin dirigiu para o restaurante com uma pequena
ponta de medo, que se provou desnecessário. Naquela manhã ele foi
convidado para considerar se tornar um oficial da igreja de tempo
integral para trabalhar com negócios e finanças. Calvin ficou um
pouco zonzo durante aquele dia, mas depois de muito pensamento e
oração com Georgia e seus filhos, aceitou uma oferta que, há poucos
anos, teria recusado imediatamente.
Georgia e Calvin tinham de cuidar de suas finanças de uma
maneira que não estavam acostumados por anos, mas não tinham
remorsos. Em seu coração, Calvin sabia que ele tinha sido um homem
com uma necessidade desesperada de resgate e fora isso que Deus
fizera por ele. Foi um resgate doloroso, mas Calvin agora estava livre
das coisas que o haviam prendido por anos e estava vivendo com uma
colheita de novos frutos em quase todas as áreas de sua vida.
RECONHECENDO A GRAÇA, RESPONDENDO AO RESGATE
Poderia ser, que no meio de sua luta, você esteja falhando em
reconhecer a coisa mais importante em sua vida? Não, não são as
condições de sua finança ou carreira. Não é o estado de suas
emoções. Não, não é a condição de seu relacionamento com a sua
esposa ou família. Não é a sua condição física ou as realidades do
envelhecimento. Não, não são os sonhos que se tornaram em pós nas
suas mãos. Poderia ser que você estivesse falhando em reconhecer
que tudo isso é graça? Será que aquilo que você está passando, que
você vê como algo tão doloroso, e que você deu o melhor de si para
negar e evitar, foi enviado em seu caminho por um Pai Celestial
amoroso como uma ação de resgate? Será que esse momento, em que
você está tentado a duvidar da fidelidade e amor do Senhor, é
exatamente o momento em que ele graciosamente está lhe
aproximando e amando ativamente? Será que as perdas à sua volta o
cegaram para a presença e graça do Redentor? Será que aquilo que
parece esquecimento, na verdade, é a graça resgatadora daquele que
prometeu nunca de deixar e jamais te abandonar?
A grande história da Escritura é uma história de graça. Nova e
novamente, à medida que o povo de Deus perde o seu caminho ou se
afasta, Deus provê a graça do resgate que é necessário.
Imediatamente depois da rebelião de Adão e Eva no jardim, Deus
anuncia que vai prover um regate definitivo para a humanidade caída.
Novamente, à medida em que Israel vagando no deserto responde a
Deus com rebeldia, Deus provê salvação. Davi comete adultério e
assassinato, mas Deus provê a graça do resgate. Ló quer fazer as
coisas do seu próprio jeito, mas Deus provê salvação. Pedro nega o
Senhor, mas Deus provê resgate. Esse é um dos temas mais
dominantes da história; onde o pecado abunda, a graça de Deus
abunda ainda mais.
Em nenhum outro lugar esse tema do resgate é mais óbvio do que
na bastante desconhecida passagem de Amós 4. Amós era um garoto
das fazendas de Judá, que foi enviado para as grandes cidades de
Israel para fazer uma coisa muito difícil – anunciar o julgamento de
Deus. Você pensaria que isso significa que Deus estava cansado de
lidar com a rebelião constante e idolatria de Israel, mas quando você
chega ao capítulo 4, percebe que Des está buscando, na verdade, algo
diferente:
Também vos deixei de dentes limpos em todas as vossas cidades e com falta de pão
em todos os vossos lugares; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR.
Além disso, retive de vós a chuva, três meses ainda antes da ceifa; e fiz chover
sobre uma cidade e sobre a outra, não; um campo teve chuva, mas o outro, que
ficou sem chuva, se secou. Andaram duas ou três cidades, indo a outra cidade para
beberem água, mas não se saciaram; contudo, não vos convertestes a mim, disse o
SENHOR. Feri-vos com o crestamento e a ferrugem; a multidão das vossas hortas, e
das vossas vinhas, e das vossas figueiras, e das vossas oliveiras, devorou-a o
gafanhoto; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR. Enviei a peste
contra vós outros à maneira do Egito; os vossos jovens, matei-os à espada, e os
vossos cavalos, deixei-os levar presos, e o mau cheiro dos vossos arraiais fiz subir
aos vossos narizes; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR. Subverti
alguns dentre vós, como Deus subverteu a Sodoma e Gomorra, e vós fostes como
um tição arrebatado da fogueira; contudo, não vos convertestes a mim, disse o
SENHOR. Portanto, assim te farei, ó Israel! E, porque isso te farei, prepara-te, ó
Israel, para te encontrares com o teu Deus. (Amós 4.6-12)

Essas são palavras duras de se ler, mas entende-las requer uma


inspeção atenta. O que nos impacta primeiro é a violência de Deus
contra o seu próprio povo. É algo preocupante de se ler. Ele enviou
fome, seca, colheitas fracassadas, sede terrível, jardins e vinhas
arruinados, insetos para destruir as árvores, doenças e morte pela
espada. À primeira vista, você teria de se perguntar como um Deus
bom e amoroso faria tal coisa com seu povo. Você quer crer que essas
coisas somente aconteceram com Israel como resultado de uma vida
em um mundo caído, mas não é isso o que a passagem diz. Deus diz
claramente aos israelitas: “Todas as coisas difíceis e dolorosas pelas
quais vocês têm passado, todas as coisas que vocês tendem a pensar
que nunca aconteceriam com filhos de Deus, e todas as coisas que
você esperava que eu fizesse com as nações descrentes à sua volta, eu
enviei sobre você. Elas vieram das minhas mãos”. Imagine estar em
Israel durante o ministério de Amós e ouvir essas palavras! Na
superfície não parece que essas coisas poderiam vir das mãos de um
Deus que declarou ser aquele que mantém fielmente o seu pacto de
amor. É por isso que essa passagem clama por um exame mais atento.
Veja, é muito tentador para você também ficar de pé no meio de
sua luta da meia-idade, com todo o seu fruto desencorajador, dizendo
para si mesmo: “Isso simplesmente não pode estar vindo das mãos de
Deus”. Visto que aquilo pelo que você está passando não se parece
com graça, é muito tentador concluir que você foi esquecido ou
abandonado por Deus. É muito tentador concluir que Deus não está
perto nem ativo em sua vida e, quando você faz isso, o seu problema
se torna ainda mais poderoso.
O que está acontecendo em Amós 4? Porque Deus faria tais coisas
com o seu povo? O que podemos aprender sobre as lutas em nossa
própria vida a partir dessa passagem surpreendente? É o refrão que
começa a mudar completamente a maneira que sentimos esse texto.
Cada seção da passagem é pontuada pela expressão, “contudo, não
vos convertestes a mim”. À medida que você lê o texto é possível
ignorar essa expressão por causa do poder do que Deus fez com
Israel. Ainda assim, tudo o que Deus está fazendo é a respeito disso.
Israel tem buscado o seu próprio caminho egoísta. Em sua
afluência e prosperidade material, se esqueceram daquele que era a
fonte de tudo isso. Eles não mais cuidaram da moralidade ou da
justiça social. Eles não mais ficavam comovidos pelo sofrimento dos
outros. Eles iam pecando até o templo, e então se vangloriavam pelas
ofertas que tinham feito. As bênçãos físicas que Deus havia provido,
Israel havia transformado nos próprios ídolos que o substituíram.
Deus não poderia ser amoroso e bondoso e deixar isso passar. Assim,
mandou coisas difíceis sobre Israel, não como um ato de punição,
mas como a graça do resgate. O propósito dele não era punitivo, mas
restaurador. Essas coisas devastadoras eram atos de amor, enviados
para prover o resgate necessário.
E do que Deus estava resgatando Israel? Novamente, em uma
inspeção acurada, a resposta é bastante clara. Deus estava
graciosamente salvando Israel de Israel! Mais do que das nações ao
entorno, mais do que das falsas religiões, mais do que das
dificuldades em geral do mundo caído, os filhos de Israel precisavam
ser resgatados de si mesmos. E aqui é exatamente onde você e eu
compartilhamos nossa identidade com eles. Nós também nos
tornamos facilmente autoabsorvidos. Nós queremos muito que as
coisas aconteçam à nossa maneira e nos afastamos. Muito facilmente
transformamos as bênçãos que Deus nos tem dado em ídolos que nos
escravizam. Muito facilmente absorvemos nossa forma egoísta e
pecaminosa em nosso cristianismo, sem nem mesmo estar conscientes
do quanto nos afastamos de onde Deus, por sua graça, nos chamou
para estar. Deixamos de lado um relacionamento onde Deus é a causa
central de tudo o que fazemos. E agora ele está na periferia de nosso
coração e vida. Sim, nós ainda somos chamamos de cristãos e ainda
participamos da vida na comunidade cristã, mas o que antes era uma
questão do coração, muitas vezes é reduzido a um externalismo que
não tem nada a ver, de fato, com o coração.
Será que nesse momento de dificuldade da meia-idade, a dor e a
perda que você está experimentando são, na verdade, uma obra de
Deus agindo para resgatá-lo da única coisa da qual você não consegue
escapar sozinho: Você mesmo? Será que as coisas que fizeram você
duvidar do Senhor estão em sua vida, na verdade, como um resultado
do amor dele? Será que as coisas difíceis que você está enfrentando,
em vez de demonstrações da infidelidade de Deus, são provas de que
você é objeto de sua graça resgatadora e amor restaurador? Não seja
muito rápido para duvidar do Senhor. Não seja muito rápido para
questionar o seu amor. Não seja rápido demais a ceder e desistir.
Deus está próximo e ativo, como ele sempre faz com seus filhos. Ele
está no meio das suas lutas da meia-idade com graça dolorosa, mas
também poderosa e resgatadora. Ainda que pareça o oposto, você está
sendo amado. Ainda que pareça que você está sendo rejeitado, você
está sendo resgatado. Deus planejou produzir o seu retorno, mesmo
antes que você tivesse qualquer ideia de que iria se extraviar.

A PROVISÃO DA GRAÇA
O que frequentemente nos previne de reconhecer a graça de Deus é
que ansiamos por um tipo diferente de graça. No meio da dificuldade
ansiamos pela graça do alívio, enquanto Deus está enviando a graça
do resgate. Queremos que a provação termine porque não gostamos
de dor, enquanto Deus quer que a provação permaneça até que ele
tenha completado a sua obra em nós. Não nos regozijamos no
sofrimento como Paulo fez em Romanos 5, porque preferimos ter
uma vida confortável ao caráter que a dificuldade enviada por Deus
pode produzir. Ainda assim, Deus nos ama muito para desistir. Ele
não derramou o sangue do seu único e unigênito filho para nos deixar
por nós mesmos. Ele não revelou a sua vontade a nós somente para
nos deixar perdidos e confusos no meio de nossa própria história. Ele
não nos deu o Espírito Santo para nos deixar paralisados e incapazes
de lidar com as lutas importantes que cruzam o nosso caminho. Não,
nós fomos e somos resgatados por um Redentor ativo. Ele não fica
desanimado, não fica cansado e nunca fica distraído. Ele está
intencionalmente focado em terminar aquilo que começou em nós.
Assim, se é o calor do resgate que precisamos, ele não proverá alívio
até que o calor redentivo da dificuldade tenha completado o seu
trabalho.
É muito importante, na escuridão dessas lutas da meia-idade,
reconhecer a graça de Deus. Se a nossa definição daquela graça for
muito estreita e se o que esperamos que a graça ofereça for muito
limitado, vamos clamar pela graça toda vez que ela estiver sendo
demonstrada para nós. É bem possível que você seja o foco do amor e
do resgate divinos e ao mesmo tempo esteja interpretando aquilo que
está acontecendo em sua vida de uma maneira diferente. Talvez a
cruz seja o exemplo por excelência disso. Se estivesse lá no dia em
que torturaram e mataram o Messias, você provavelmente teria
interpretado aquilo como a derrota final. Teria sido extremamente
difícil olhar para Cristo pendurado na cruz, entre dois ladrões, e ver
aquilo como um momento bom, que resultaria em coisas boas. Eles
mataram o Prometido, a Esperança de Israel. Você o veria pendurado,
aparentemente incapaz de fazer nada por si mesmo, e pensaria que
aquilo era uma falha terrível e não algo bom, verdadeiro e belo. Você
teria deixado o monte do Gólgota com náuseas e acordaria no dia
seguinte sem acreditar realmente que tinha visto Jesus morrer. E você
estaria confuso, sem saber o que pensar ou fazer em seguida.
Mas nós sabemos que a cruz não foi uma derrota. Ela foi, como
foi dito nos capítulos anteriores, a vitória das vitórias. Ninguém
explica esse fato melhor do que Paulo em Colossenses 2.13-15
E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão
da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos
delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de
ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na
cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao
desprezo, triunfando deles na cruz.

A cruz não foi um momento de derrota transformado em vitória.


Não foi uma falha transformada em ressurreição. Paulo afirma isso
muito claramente. Esse momento, que na superfície se parecia muito
com uma derrota, foi, na verdade, o maior momento de triunfo da
história. O Prometido, a Esperança de Israel não estava sofrendo os
golpes da parte do inimigo que o levaram à morte. Não, esse foi o
momento de maior poder do Messias. A cruz foi o lugar onde ele
mostrou exatamente aquilo que era capaz de fazer. Ninguém estava
tomando a sua vida dele. Ninguém estava arrancando a vitória de suas
mãos. Ninguém estava desfazendo todo o bem gracioso que ele havia
feito. Ninguém estava roubando os seus seguidores de sua vida e de
seu futuro. Ele estava na cruz porque ali era exatamente o lugar onde
queria estar. Ele se deixou pendurar em tortura porque sabia que era
exatamente isso o necessário, se fosse para haver qualquer esperança
para aqueles que cressem nele. Ele não ficou pendurado em derrota.
Ficou pendurado em triunfo. Naquela tarde, no Gólgota, não houve
uma demonstração de poder dos inimigos de Cristo. Paulo declara o
oposto. Cristo estava fazendo um espetáculo público da total falta de
poder e controle deles. Eles lançaram nele tudo o que conseguiram,
mas eram simplesmente incapazes de evitar que ele provesse
redenção para o seu povo. Com toda a sua justiça torcida e violência
irada, eles não conseguiram pará-lo.
A cruz publicamente escarneceu da falta de poder deles. Jesus
ficou pendurado ali porque quis. Ele mostrou amor divino e controle
à medida que se submeteu voluntariamente à ridicularização e tortura,
porque ele sabia o que veio fazer, e nada o impediria. O que parecia
uma derrota esmagadora foi um triunfo evidente. As coisas não são
sempre aquilo que parecem. É bem possível, no momento em que está
acontecendo, que os processos graciosos de Deus pareçam como uma
ação de triunfo do inimigo. A perda de um trabalho, a luta com uma
doença, a morte de um sonho, a presença de dificuldade financeira, o
fracasso de uma realização, tudo isso pode dar a impressão de que o
mal triunfou sobre o bem. E se você está procurando somente pela
graça do alívio e esperando que ela produza o fruto da libertação,
você tenderá a olhar para o inimigo com mais poder do que ele tem e
pensar que o Senhor está muito distante e é muito fraco. É por isso
que a perspectiva da graça do tipo “as coisas não são sempre aquilo
que parecem” é tão importante para nós.
O que temos de fazer é permitir que o objetivo da graça defina a
nossa expectativa da aparência que o processo da graça terá. Quando
fizermos isso, nos tornaremos muito melhores em reconhecer a graça
de Deus conforme ela operar em, à volta e por intermédio de nós. As
palavras de Paulo a Tito são úteis nesse sentido, visto que ele coloca
para Tito o objetivo de reconhecer a graça de Deus:
Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-
nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente
século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a
manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si
mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si
mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (Tito 2.11-14).

Quando você está no meio de uma tribulação, senso espancado


por desânimo ou sobrecarregado por remorso, é muito difícil manter o
foco no objetivo da graça de Deus, mas é vital que aprendamos a
fazê-lo. Se não formos fazer isso, a nossa definição funcional de vida
e, ainda mais importante, a bondade de Deus, serão formadas pela
natureza de nossas circunstâncias. Se estivermos experimentando
coisas boas, então tenderemos a pensar que Deus é bom e a sua graça
está próxima, mas se estivermos passando por coisas difíceis,
tenderemos a concluir que Deus está distante e a sua graça está
ausente.
Preste atenção no que Paulo diz a Tito ser o objetivo da graça de
Deus: “purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso
de boas obras”. Você nunca conseguirá reconhecer a graça de Deus
em sua vida, muito menos entender as lutas da meia-idade, sem esse
objetivo como a sua lente interpretativa. Tudo o que Deus está
fazendo em sua vida tem esse objetivo em mente. A graça dele foi
dada de forma que ele tivesse um povo ansioso por fazer aquilo que
ele considera bom. Esse é o propósito por trás de toda a graça que
opera diariamente na vida de cada um dos seus filhos. É uma graça
sutil e subversiva. Ela é designada de uma vez por todas para destruir
a cultura da autoabsorção que nos seduz e controla, e é feita sob
medida para produzir uma contracultura de zelo pelo bem divino. É a
graça que levará você aonde nunca desejou ir e produzirá em você
aquilo que nunca conseguiria alcançar sozinho. É a graça que
finalmente vai tirar os seus olhos da sua agenda pessoal e colocá-los
onde eles foram planejados para focar desde o início – no reino de
Deus e em sua glória. Quando me esqueço de todos os “bens” que
poderiam me controlar e vivo sob o controle do cuidado de ser bom
aos olhos dele, minha vida se torna totalmente feliz e cheia de
satisfação. Por quê? Por que eu finalmente estou vivendo como eu fui
originalmente projetado para viver.
O objetivo de graça é produzir um povo ansioso por fazer o bem,
mas qual é o processo? Paulo diz que o processo é a purificação.
Veja, meu coração está corrompido por outros objetivos. Eu não sou
puro de coração. Sou propenso a entregar o meu coração para
qualquer coisa que tenha aparência de produzir conforto, identidade,
prazer, significado, sucesso ou estabilidade (todas essas coisas que
deveríamos encontrar em Deus). Assim, o objetivo de Deus é
produzir em mim uma singularidade de coração. Como ele faz isso?
Demonstrando que nada fora dele jamais pode satisfazer. Assim, ele
vai permitir que os meus sonhos se azedem, o sucesso me dê náuseas,
os amigos se mostrem infiéis ou o meu corpo falhe ou que meus
esforços se mostrem não tão bons afinal. Tudo isso é muito doloroso
de se viver, mas essa não é uma dor qualquer. A graça dolorosa da
purificação, portanto, é uma coisa muito boa pela qual passamos.
Lembre-se de que as coisas “não são sempre aquilo que parecem” aos
olhos da graça.
Você está nos frequentemente dolorosos anos da meia-idade.
Você está tendo de começar a lidar com o envelhecimento. Você tem
de encarar os seus remorsos. Você tem de lidar com desânimo. Você
está vendo a graça de Deus? Ou você é muito competente em pensar
que Deus está distante naquele exato momento em que você está
sendo um recipiente de uma graça poderosa, transformadora de
coração e de vida? É hora de corrigir a sua visão de forma que possa
ver claramente que a sua história é uma história da graça.
Consideremos com que a graça de Deus realmente se parece à medida
que ela vem a nós no meio de nossa história. A graça dele é:
1. A graça da desilusão. Se Deus é o Deus da graça, então ele
deve ser o autor da desilusão também. Visto que a sua graça nos
chama para fora da nossa escravidão a nós mesmos e da escravidão
resultante a qualquer coisa que pensamos que pode nos fazer felizes,
é necessário que a graça de Deus nos guie nos momentos de intensa
desilusão pessoal. Ele tem de fazer com que as coisas que nós
colocaríamos no lugar dele falhem em produzir, escorram por entre
nossos dedos ou provem a si mesmas como insatisfatórias. Ele é um
Redentor ciumento. Ele não pode compartilhar a fidelidade de nosso
coração. Ele sabe que as coisas dessa terra não vão nos satisfazer. Ele
entende que fomos designados para relacionamento com ele e que
esse é o lugar onde as maiores alegrias humanas serão encontradas.
Assim, ele nos guia por meio da dor da perda, desilusão,
desencorajamento e falha, não porque não seja capaz de nos resgatar
dessas experiências ou porque não é comprometido ou sem cuidado
conosco, mas porque nos ama tanto e está provendo uma salvação
maior. O problema é que geralmente interpretamos de maneira errada
o que está acontecendo conosco e fazemos isso por duas razões.
Primeira, todos queremos uma agenda cheia de conforto e facilidades
para as nossas vidas diárias. Queremos que a vida seja segura,
previsível, bem-sucedida, livre de dores e prazerosa. Não há nada de
errado com o desejo por essas coisas, mas, como pecadores, é muito
difícil mantermos essas coisas no seu devido lugar. Deixe-me colocar
dessa forma: Talvez a coisa que esquecemos com maior facilidade é
que a vida aqui e agora é um processo. Ela não foi panejada para ser
uma sucessão de eventos confortáveis. Eu estou em um lugar
diferente de onde eu deveria estar e Deus está no processo diário de
me fazer ir para onde eu deveria. A vida com Cristo é literalmente
uma jornada da graça. A jornada é uma jornada de resgate,
restauração e reconciliação. Nosso problema é que na terça à noite ou
na quinta de manhã preferiríamos mais ter um dia previsível ou um
momento confortável do que um momento desconfortável de graça
salvadora. Pergunte a si mesmo, enquanto está no meio das realidades
da vida, o que você realmente espera de Deus? É graça o que você
quer ou você honestamente gostaria que as coisas fossem um pouco
mais fáceis e alegres?
Mas existe uma outra questão aqui. Frequentemente falhamos em
reconhecer o poder de zelo mal direcionado. Todos nós somos
zelosos por alguma coisa. Talvez você tenha um zelo por ser magro
ou por segurança financeira ou pela certeza de que você terá bons
relacionamentos com seus filhos que estão crescendo ou que casa seja
um lugar bonito e confortável ou por sonhos ainda não foram
realizados. O ponto é que há alguns zelos que comandam a sua
fidelidade, formam as suas respostas e controlam a maneira que você
pensa a respeito de sua vida diária.
Novamente, nenhum zelo é mau em e de si mesmo se não
competir com o zelo central único que Deus está trabalhando para
produzir em cada situação e relacionamento da vida. Ele está
trabalhando de forma que tudo o que desejamos, pensamos, dizemos
e fazemos seja formado por um zelo por ele e uma ânsia por sempre
fazer o que é bom aos olhos dele. Esse zelo sempre surge a partir de
um reconhecimento de que a nossa vida pertence a ele. Pergunte a si
mesmo, qual é o zelo que organiza a sua vida e comanda a sua
fidelidade nesse exato momento?
A graça de Deus é uma graça que decepciona. Isso deve ser assim
porque ela é uma graça que esclarece o zelo. É a graça que vai levar
as suas posses mais preciosas. É a graça que vai tirar os seus feitos
mais valorizados. É a graça que vai levar embora os seus
relacionamentos mais amados, não porque Deus seja indiferente e
ame nos ver sofrer, mas porque ele é incrivelmente amoroso e não vai
ficar sentado sem fazer nada enquanto assiste o nosso coração ser
seduzido por amantes.
E o que não percebemos é que no meio de uma vida controlada
pelo zelo por ele é que experimentamos os melhores feitos, os
relacionamentos mais belos e finalmente as nossas posses no lugar
correto. A “graça-tomadora” de Deus não é tomadora afinal, ela está
dando para nós aquilo que é muito, muito melhor. Na disposição de
Deus de que a sua graça nos conduza à desilusão, ele está
reconhecendo como todos nós tendemos a demandar tanto dele, mas
estamos dispostos a ficar satisfeitos com tão pouco. Ele não está
disposto a se contentar com pouco. Ele vai trabalhar incansavelmente
até que sejamos zelosos pela única coisa para a qual fomos criados:
Ele mesmo. Muito da desilusão da meia-idade é a desilusão da graça.
O problema é que, no meio de todo o massacre e dor, você não sente
como se estivesse sendo regado por amor e banhado de graça.
2. A graça do arrependimento. Você não quer viver perto de
uma pessoa incapaz de se arrepender. Ainda assim, tendemos a fazer
qualquer coisa ao nosso alcance para negar e evitar o arrependimento,
porque ele é uma coisa muito dolorosa de se experimentar. Nós todos
somos bastante competentes em fugir da culpa. Nós aparecemos com
desculpas criativas e racionalizações lógicas. Com habilidade,
colocamos a culpa em outra pessoa. Rapidamente apontamos a
dificuldade das circunstâncias. Mudamos o nome de nossas falhas
para mal-entendido, esquecimento ou doença. Somos competentes até
mesmo em colocar a culpa em Deus, dizendo: “Se somente isso,
então nós teríamos”. É tão difícil vermos como realmente somos e
admitirmos o quanto tudo o que fazemos é manchado pelo pecado. É
muito difícil confessar quanto queremos as coisas à nossa própria
maneira egoísta. É difícil encarar quão exigentes e vingativos
conseguimos ser. É difícil encarar a nossa preguiça ou inconsistência.
É difícil admitir que realmente gostamos mais de ser servidos do que
de servir. É difícil encarar o fato de que aquilo que fazemos não é
forçado sobre nós por pessoas ou circunstâncias, mas, em vez disso, é
a expressão dos pensamentos e desejos reais de nossos próprios
coração.
Podemos ser incrivelmente cegos para quem realmente somos e o
que nós realmente fizemos. Esse é o motivo pelo qual uma das coisas
mais importantes que a graça faz por nós é nos ajudar a ver e uma das
coisas mais importantes de vermos claramente é a nós mesmos. A
graça permite a você olhar claramente por dentro, por fora e por trás.
A graça é uma ressonância magnética que te permite ver claramente o
que está dentro de você mesmo e se apropriar do que está ali. A graça
é um livro de história que permite a você olhar acuradamente para
aquilo que você fez. Graça é uma janela por meio da qual você pode
olhar à sua volta e ver claramente o que você está fazendo agora.
Visto que a graça chama você para ver, ela vai levar você ao
arrependimento. O arrependimento é o começo de um caminho novo
e melhor. O arrependimento é a primeira porta para a mudança
pessoal verdadeira. O arrependimento é um ingrediente necessário no
processo contínuo de crescimento espiritual para o qual Deus chamou
você. Em um mundo caído, o arrependimento é uma coisa graciosa e
boa.
É difícil ficar de pé no meio da nossa vida e olhar para trás. É
difícil encarar o fato de que você não é aquilo que pensava ser. É
difícil sustentar o que você disse, assistir o que você fez e considerar
o que você decidiu. É tentador querer voltar o relógio e ser uma
pessoa melhor. O relógio está voltando, no entanto, e o propósito do
arrependimento não é prender você ao seu passado, mas dar as boas-
vindas a um futuro novo e melhor, caracterizado por uma nova
humildade, uma nova alegria e um zelo novo. É algo temeroso para
uma pessoa chegar no meio da vida sem habilidade de se arrepender e
é uma doce graça ver, se arrepender e voltar para aquele que faz
novas todas as coisas.
3. A graça da fraqueza. Todos nós somos seduzidos por
pensamentos de nossa própria invencibilidade e suficiência. Todos
gostamos de pensar de nós mesmos como sábios e capazes. Queremos
pensar que compreendemos os problemas e somos capazes de
desempenhar a tarefa. Gostamos de pensar que temos dentro de nós
mesmos as coisas que precisamos para fazer o que precisamos fazer.
Certamente, podemos reconhecer fraquezas em outras pessoas.
Podemos ver claramente as suas deficiências aonde não conseguem
ser suficientes, mas é muito mais difícil ver isso em nós mesmos. A
graça nos chama a nos apropriarmos da fraqueza e, ao fazê-lo,
estarmos prontos para a verdadeira força. Se você pensa que é forte e
capaz, você nunca vai pedir ajuda.
Talvez muito da luta da meia-idade tenha a ver com isso. Deus,
em sua graça, levantando o tapete de nossa ilusão pessoal e
mostrando para nós quem realmente somos. Ele quer que nos
apropriemos de nossa fraqueza do corpo, do coração e de
comportamento, não de forma que fiquemos paralisados pela nossa
incapacidade, mas de forma que procuremos pelo lugar onde a força
verdadeira pode ser encontrada. É difícil encarar a nossa própria falta
de sabedoria. É doloroso ver quão fraco você é face à dificuldade e
tentação. É difícil ver quão pronto você está para desistir ou fugir.
É difícil encarar como você cede à pressão ou quão rapidamente
você fica impaciente e com que facilidade você fica irritado e se torna
um crítico. É difícil entender quão difícil é para nós guardar a nossa
opinião para nós mesmos ou segurar a língua. É difícil encarar quão
rapidamente você é agarrado pela inveja e como pode ser motivado
por ganância. É doloroso reconhecer quantas oportunidades para amar
e servir você perde. É difícil aceitar o quanto leva para o lado pessoal
coisas que não eram pessoais e transforma momentos de ministrar em
momentos de irritação e ira. É difícil encarar a suas próprias
tendências para o materialismo e o orgulho e aceitar a sua própria
fraqueza, mas é espiritualmente vital que você faça isso.
A graça é para os necessitados. A graça é para os fracos. A graça é
para os tolos. A graça é para aqueles que dizem: “Eu não consigo, eu
não sou sábio”. A graça vai nos levar a lugares onde isso é
exatamente o que teremos de admitir. A graça vai colocar a nossa
falha em nossa cara, Não como uma repreensão sem amor, mas como
um convite para a habilidade e sabedoria em abundância e gratuita,
compradas para nós pelo único que é sempre capaz e nunca é
insensato. O reconhecimento humilde de fraqueza não é uma
maldição ou uma condenação. É um chamado a correr para o único
que pode tornar-nos capazes. A graça te chama para ser fraco porque
quer que você seja forte. A graça te chama a ser um tolo a fim de ser
sábio. Você nunca está mais perto da verdadeira força do que quando
a graça te chama para se apropriar de sua fraqueza.
Você ficou paralisado pela fraqueza que a meia-idade revelou?
Você recebeu a exposição de sua fraqueza como uma sentença ou
como um chamado? Você procurou lutar contra a fraqueza e
apresentar força ou admitiu a sua fraqueza e correu ao Senhor, que é a
fonte e o provedor de toda força verdadeira.
4. A graça da decadência. Todos nós odiamos a decadência.
Você não gosta do fato de que a comida na geladeira vai ficar ruim
em breve. Você não gosta de ver as linhas em seu rosto ou o cinza em
seu cabelo. Você odeia ver o gesso quebrado ou a tinta descascando.
Você fica irritado quando os seus eletrônicos param de funcionar e os
seus móveis se desgastam. Você odeia o fato de que o seu carro novo
não vai cheirar novo por muito tempo e vai funcionar bem somente
por alguns anos. É difícil lidar com o fato de que tudo à nossa volta
está em um processo de morte, mas ainda assim é importante que o
façamos.
A mentira de que as coisas físicas são permanentes é muito
perigosa. Todos nós tendemos a ser mais fisgados pelo físico do que
pelo espiritual, mas o físico se torna ainda mais sedutor quando tem a
aparência de ser permanente. Assim, a graça de Deus nos chama para
sermos testemunhas da decadência progressiva daquilo que é físico.
É uma coisa boa que você tenha de testemunhar a decadência de
suas coisas. É uma coisa boa que você tenha de testemunhar a
decadência do mundo à sua volta. É importante que você tenha de
testemunhar a decadência do seu próprio corpo. Visto que você
testemunha o fato de que o mundo ao seu redor vai mal, os seus
valores estão sendo divinamente esclarecidos. Em cada um desses
momentos de decadência, Deus está graciosamente relembrando a
você aquilo pelo o que é realmente digno se viver. O mundo físico é
não permanente por sua própria natureza. Ele está no processo de
morte. Somente Deus e sua Palavra durarão para sempre. Quando
você e eu nos apegamos a ele e colocamos nele a nossa esperança,
nos tornaremos parte da única coisa que nunca vai morrer.
Um dos insights mais assustadores e frequentemente
desencorajadores da meia-idade é o reconhecimento da decadência. O
que você está fazendo com a decadência que a meia-idade forçou
você a reconhecer? Você está em pânico? Você se sente
desencorajado e desesperado? Você está trabalhando freneticamente
para manter a si mesmo jovem e as coisas à sua volta novas? Ou você
entendeu o ponto que a graça de Deus foca os seus olhos não mais
naquilo que é visível, mas naquilo que não se vê, simplesmente
porque você agora entende claramente que o que se vê é temporário,
mas o que não se vê dura para sempre?
5. A graça da derrota. Em uma cultura orientada a sucesso e
conquista, é difícil perceber que o sucesso nem sempre é uma coisa
boa. A Bíblia, além disso, não apresenta um sumário recomendando o
sucesso, e visto que não faz isso, ela nos chama a olhar para o sucesso
de uma forma bastante diferente. Ouça as palavras de advertência que
Moisés fala aos Israelitas quando eles finalmente vão entrar na terra
que Deus lhes prometeu:
Comerás, e te fartarás, e louvarás o SENHOR, teu Deus, pela boa terra que te deu.
Guarda-te não te esqueças do SENHOR, teu Deus, não cumprindo os seus
mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos, que hoje te ordeno; para não
suceder que, depois de teres comido e estiveres farto, depois de haveres edificado
boas casas e morado nelas; depois de se multiplicarem os teus gados e os teus
rebanhos, e se aumentar a tua prata e o teu ouro, e ser abundante tudo quanto tens,
se eleve o teu coração, e te esqueças do SENHOR, teu Deus, que te tirou da terra do
Egito, da casa da servidão, ... Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o
poder do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te lembrarás do SENHOR,
teu Deus, porque é ele o que te dá força para adquirires riquezas; para confirmar a
sua aliança, que, sob juramento, prometeu a teus pais, como hoje se vê.
(Deuteronômio 8.10-14, 17-18)

Moisés dá a Israel uma daquelas advertências “que diz tudo”. O


sucesso pode ser uma coisa muito perigosa porque pode nos fazer
pensar que estamos muito melhores do que estamos de fato e nos
iludir a crer que aquilo que temos é o resultado de nossa conquista
pessoal e nada mais. Quando crê nessas coisas, você já não mais está
afirmando o desespero de sua necessidade de Deus, e isso certamente
resultará em não mais buscá-lo. A questão aqui não é somente que
tendemos a substituir a satisfação espiritual pela satisfação em coisas
físicas, mas que o sucesso material tende a distorcer a forma como
olhamos para nós mesmos. O sucesso tenta você a pensar que você é
mais forte e mais sábio do que realmente é. A riqueza tende a se
apresentar como um testemunho de que você fez boas decisões e
tomou os cursos de ação corretos. O poder faz você pensar que é
esperto e sábio. Em suma, o perigo do sucesso é que ele eleva a nossa
concepção de nós mesmos, enquanto ao mesmo tempo, nos tenta a
nos esquecermos de Deus, que é a fonte genuína de qualquer sucesso
que tenhamos.
Assim, Deus vai nos permitir provar o fracasso, não porque é mau
e vingativo, mas porque reconhece que caímos nas armadilhas do
sucesso e precisamos de resgate. Ele vai nos chocar com a derrota e,
assim, com a nova e mais clara noção de nós mesmos e uma gratidão
recém-encontrada pelo Senhor, começaremos a viver com a
humildade e obediência apropriadas.
O que você fez com as suas derrotas da meia-idade? Elas te
fizeram sentir que Deus te sabotou? Elas te fizeram ficar deprimido,
passando e repassando o que poderia ter sido? Você lutou ainda mais
para realizar os seus sonhos? Ou você começou a ser mais grato do
que antes, reconhecendo agora, de uma maneira nova, que todas os
dons em tua vida, todos os momentos de sucesso e cada instância de
abundância é um dom provindo da mão amorosa do Senhor? A
derrota te vez se lembrar novamente de quem você é e quem ele é,
fazendo-o adorá-lo ainda mais?
6. A graça da restauração e da reconciliação. Deus derrama sua
graça dolorosa e desconfortável sobre nós simplesmente porque é um
Deus de perdão. Usar as circunstâncias para apontar o nosso pecado e
falha não é um ato de condenação, mas o começo da obra de Deus de
perdão. Ele nos chama para confessar quanto nós queremos tudo do
nosso jeito, quão frequentemente o trocamos por alguma coisa, e
quanto tendemos a estabelecer as nossas próprias regras. Ele trabalha
de forma que reconheçamos quão desinteressados somos no seu reino
e quão totalmente comprometidos somos em construir o nosso
próprio. Ele quer que reconheçamos as sutilezas de nosso próprio
egoísmo e ganância. Ele faz tudo isso não para nos devastar e ir
embora, mas de forma que confessemos e reconsagremos nossa vida e
ele. E quando o fazemos, ele nos recebe de braços abertos. A cruz
tornou o perdão possível. Deus nos oferece mais do que perdão. Ele
nos oferece reconciliação e restauração. É impressionante, mas
verdadeiro, que, mesmo nesse mundo caído, relacionamentos que
foram horrivelmente dilacerados podem ser restaurados e coisas que
foram horrivelmente quebradas podem ser reparadas. Ao nos perdoar,
Deus dá as boas-vindas para sermos reconciliados com ele, e
podemos, então, nos reconciliar uns com os outros. Famílias,
amizades e casamentos podem ser restaurados. Pessoas podem ser
reconciliadas novamente e viver em um relacionamento amoroso
umas com as outras. Instituições que foram danificadas pelo nosso
pecado podem ser restauradas novamente. As realizações dolorosas e
confissões da meia-idade não foram intentadas por Deus para ser o
final da estrada para você, mas, em vez disso, as boas-vindas a uma
vida nova e melhor. Há esperança para você e para a sua família. Há
um novo dia possível para você e seus filhos. Você e seu cônjuge
podem usufruir de um amor novo e melhor.
Deus perdoa e, ao perdoar, reconcilia e restaura! Abrace a nova
vida que a graça dele te oferece. Veja o perdão dele. Reconcilie-se
com ele e, então, procure por lugares em que você possa ser uma
parte do trabalho dele de restauração em sua vida e no relacionamento
com aqueles à sua volta. O que Deus fez acabar, ele o fez como um
passo necessário em direção a um novo começo. Que a tristeza dê
lugar à empolgação. Que o seu desânimo dê lugar à expectativa. Que
o seu choque pela devastação dê lugar à alegria da restauração que
pode seguir.
7. A graça da visão. Uma coisa que todos os seres humanos
caídos compartilham é uma visão dramaticamente ruim. Todos nós
tendemos a ser cegos. O problema é que, porque a nossa cegueira é
espiritual e não física, somos cegos para a nossa cegueira. Pensamos
que enxergamos bem, quando, na realidade, somos cegos para as
coisas que realmente importam. Falhamos em ver Deus mesmo
quando ele está perto e ativo. Falhamos em ver a nós mesmos como
realmente somos, sendo cegos para as questões do coração. Falhamos
em reconhecer a guerra espiritual que está por baixo de nossas lutas
com situações e relacionamentos. Somos cegos para com a agenda de
Deus. Geralmente vemos melhor as dificuldades do que
reconhecemos a redenção. Tudo isso significa que ver claramente é
um dom da graça, porque isso não é algo que somos capazes de fazer
sozinhos.
A meia-idade diz respeito a Deus nos dar olhos para ver aquilo
que nunca havíamos visto antes. Ele remove as cataratas de nosso
orgulho, nossas conquistas, nossas posses, nossa força física, nossa
justiça e nosso poder – todas essas coisas que podem atrapalhar a
nossa visão. O que ele nos dá, então, são os olhos da graça. Com os
olhos bem abertos, começamos a ver quem realmente somos, quem
Deus realmente é e sobre o que a vida realmente diz respeito. É uma
coisa muito boa mover-se para a vida e ter os olhos do coração
realmente capazes de enxergar, porque você será capaz de viver bem
somente se, em primeiro lugar, for capaz de enxergar bem.
O CRESCENDO NO MEIO
Então a meia-idade é um vale de desânimo e desilusão? É uma noite
escura de remorso e arrependimento? É uma crise de confiança e fé?
É uma guerra por verdade e esperança? Há um sentido em que ela é
todas essas coisas, pois nesse momento da vida eu tenho de encarar o
fato de que muitos dos meus sonhos nunca se tornarão verdade e que
muitos dos meus esforços deram em nada. Nesse momento, à medida
que faço aminha arqueologia pessoal, eu encaro quão distante caí nos
padrões de Deus e nos meus próprios. Eu encaro aquilo que me
determinei a fazer e nunca fiz e muitas coisas que eu me determinei a
não fazer e repetidamente cometi. Durante esse período eu encaro a
perda da minha juventude, a crescente fraqueza do meu corpo e o
inegável tique-taque do relógio do meu envelhecimento. Ainda assim,
tudo isso sendo verdade, eu estou profundamente persuadido de que a
meia-idade não é somente um vale escuro. Não, ela é, em vez disso,
um crescendo no meio da peça musical mais linda do mundo.
Eu amo a experiência de sentar em um dos assentos da frente em
uma grande sala de concertos quando a orquestra começa o
crescendo. Eu amo o começo do rolamento dos tímpanos, o bater dos
pratos e o sempre mais alto clangor do bronze. É empolgante ouvir o
crescendo começar a ser construído até que ele esteja no ponto em
que você começa realmente a senti-lo em sua caixa torácica. Há um
momento em que você deixa de ser audiência e passa a ser carregado
pela música enquanto ela é construída. Há um momento em que você
se esquece de que está sentado passivamente, e entra na performance,
e naquele momento o crescendo se torna seu.
A meia-idade é um crescendo. A música da redenção tem sido
tocada em sua vida por um tempo longo, e, embora você não a
conheça, ela estava se movendo em direção a essa passagem. Talvez
você tenha sido levado a dormir um pouco por causa dos seus temas
familiares, inconsciente do que a música estava começando a
construir. Agora, você está no meio da sinfonia redentiva de Deus e
os tímpanos começaram a rolar, os pratos a bater e os instrumentos
estão soando alto. Esse crescendo de redenção precisa de tudo o que
aconteceu antes a fim de que esse momento fosse construído. Você
está no assento da frente da redenção e está experimentando essa
música em seu momento mais poderoso. Você está ouvindo o rolar do
tímpano do amor de Deus, o bater dos pratos de sua graça e o clangor
de trombetas da sua salvação. A música não é um cântico fúnebre,
mas uma música alegre de celebração. Você está no meio de um
crescendo de redenção, e tudo o que aconteceu antes era necessário
para trazer você a esse momento poderoso de graça divina.
Não feche os seus ouvidos para a música. Pare e ouça. A sua vida
não acabou. Você não está preso ao seu passado. Esse momento de
dor é, na verdade, um momento de um crescendo de redenção e visa
deixar você faminto pelo crescendo final que vai acontecer por toda a
eternidade. Deixe que a música da redenção chame mais a sua
atenção do que os sons do seu remorso. Deixe que a graça de Deus
comande os seus ouvidos mais do que as suas lamúrias de
insatisfação. Deixe que o crescendo do amor de Deus se sobreponha à
música triste do seu temor. Pare e ouça a sinfonia da redenção
conforme ela se desenvolve para um crescendo poderoso bem no
meio de sua própria história.
Ninguém captura esse crescendo da graça de Deus melhor do que
Paulo em sua carta aos Efésios:
Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda
família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória,
vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem
interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e
alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a
largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo,
que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de
Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto
pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória,
na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!
(Efésios 3.14-21)

O que é a meia-idade? Sim, ela diz respeito a remorsos dolorosos,


desilusões esmagadoras e envelhecimento físico. Ela diz respeito a
decisões, palavras e atitudes que você não pode pegar de volta. Além
disso ela diz respeito a sonhos que pareciam tão bons, mas que agora
parecem que nunca se tornarão em realidade. É a respeito da perda da
juventude e o medo da velhice. Ela é a respeito dessas coisas, mas de
muito mais. A meia-idade diz respeito às riquezas gloriosas de Deus
que me chamam em minha desorientação a encontrar algo melhor. É
a respeito de aprender em minha fraqueza a encontrar força interna
que é minha porque o Espírito de poder vive dentro de mim. A meia-
idade não é um tempo para enfraquecimento de fé, mas de provação,
que visa deixar a minha fé em Cristo mais forte do que jamais antes.
É um momento em que eu realmente começo a entender que nenhuma
outra glória (relacionamentos, carreira, saúde, beleza física e
prosperidade material) pode competir com a glória de ser amado por
Cristo. A meia-idade é mais do que um tempo de avaliação, é um
tempo de refinamento, onde o caráter da plenitude de Deus habita
mais e mais em mim. É um momento em que eu aprendo a celebrar as
realidades redentivas dentro de mim mais do que as realidades físicas,
situacionais e relacionais fora de mim. O Deus que é capaz de fazer
mais do que eu posso conceber ou imaginar em meu momento
criativo, mais brilhante, vive dentro de mim em poder e glória! Exija
de você mesmo ficar de pé no meio de sua luta com a meia-idade e
ouvir a música. As suas lutas são as lutas da graça. Ouça bem, pois
ainda que não pareça, você está na sala de concerto da redenção. Os
tímpanos do amor de Deus estão rolando cada vez mais altos. O bater
dos pratos da graça estão crescendo mais rapidamente. As cordas,
instrumentos de sopro e o clangor de seu resgate estão crescendo cada
vez mais fortes. Essa não é a música da derrota e da perda. É a música
da vitória e da celebração. Sim, há perdas para encarar, mas cada
perda vai dar as boas-vindas a algo melhor e cada derrota é um
convite à vitória real. Por toda a sua vida a música tem sido
construída para esse crescendo inevitável. A sinfonia redentiva não
ficaria completa sem ele.
A música vai aquietar novamente, mas outros crescendos virão,
cada um deles apontando para o movimento final da grande sinfonia
redentiva que vai acontecer durante a eternidade.
Enquanto se encontra no meio desse momento da meia-idade, o
que você enxerga? O que você ouve? Se tudo o que você vê é
desânimo e perdas, se tudo o que você ouve são canções tristes
daquilo que já foi ou do que poderia ter sido, então, você precisa
ouvir novamente. Dentro de sua perda há um Deus de graça
maravilhosa para ser visto, e entremeada às suas canções tristes você
pode ouvir a música de celebração da graça redentiva. As notas de
desilusão, remorso, fraqueza, decadência, derrota, restauração,
reconciliação e visão não são partes de outra música. Cada uma delas
é parte da sinfonia de graça e redenção.
Mesmo sabendo que você está perdido no meio, pare por um
momento e ouça a música, pois ela inevitavelmente transformará
você.
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