Você está na página 1de 7

RESENHA

CRÍTICA SOBRE AS TEORIAS PSICOGENÉTICAS EM DISCUSSÃO


Publicado em 04 de April de 2012 por Nilda Tavares da Silva Santos

Prof. Dr. Robson Luiz de França

Disciplina: PPC

Autora: Nilda
Tavares da Silva Santos

UMA – Universidade da Madeira / Funchal -


Portugal

Obra: LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl de; DANTAS,


Heloysa. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em
discussão. São Paulo: Summus, 1992.

Esta obra foi escrita por professores especialistas da


Universidade de São Paulo que através de dois anos de Reuniões
Anuais da Sociedade Brasileira de Psicologia de Ribeirão Preto,
traz uma discussão entre os três principais teólogos da psicologia
que tentam entender a evolução do ser humano tanto nos fatores
biológicos e sócios, como também, nos aspectos afetivos e
cognitivos.

O livro está dividido em três partes que subdividi em


subcapítulos onde trata do tema em questão na visão dos três
teóricos: Piaget na visão de La Taille, Vygotsky na visão de
Oliveira e Wallon é comentado por Dantas. A primeira parte traz um
debate entre os fatores biológicos e sociais do desenvolvimento
humano sobre a linha de Piaget, o qual faz um diálogo sobre o
lugar de interação social, na concepção de Vygotsky o debate é
sobre o processo de formação de conceitos e na teoria de Wallon,
onde é discutido o ato motor ao ato mental do indivíduo.

Na segunda parte a questão em foco é a afetividade e


cognição com Piaget. O tema é o desenvolvimento do juízo moral e
afetividade. Na linha de Vygotsky o debate é sobre o problema da
afetividade e na visão de Wallon a afetividade e a construção do
sujeito na psicogenética. E finalmente, na terceira parte o leitor
pode tirar algumas dúvidas sobre os três teólogos, pois no
apêndice podem-se encontrar perguntas sobre a universalidade, à
autonomia do sujeito e a falsidade das respectivas teorias na
visão Vygotskyanos (p. 104), Wallonianos (p. 107) e Piagetianos
(p. 109).

Inicialmente faz-se uma introdução sobre o lugar das


interações sócias na obra de Jean Piaget, evidenciando que o mesmo
não desprezou a importância dos fatores sociais no desenvolvimento
da inteligência do indivíduo, pois, o homem é impossível de ser
pensado fora da sociedade em que vive. No entanto, o homem normal
não é social da mesma maneira aos seis meses que aos vinte anos de
idade devido aos fatores biológicos e sociais que o sujeito avança
qualitativamente e passa a interagir dentro da sociedade a qual
está inserido transformando o meio em que vive ou ajustando para
favorecer o seu bem estar social.

Ressaltando a existência de dois aspectos nos estudos


do epistemológico, ou seja, o entendimento o qual se deve ter por
ser social e os fatores sociais que explicam o desenvolvimento
intelectual, La Taille (1992) afirma que, a lógica final para
Piaget é o equilíbrio das ações apresentados no período sensório
motor, onde a criança vai esquematizando a lógica das ações e das
percepções, a qual será interiorizada pela mesma no processo de
socialização.

Nesse contexto, o sujeito evolui a partir das


experiências pessoais transmitidas através das interações vividas
no meio, e um bebê não tem o grau de maturação que tem um adulto.
Para tanto, a socialização passa pela qualidade nas trocas
intelectuais e vai evoluindo através das fases de desenvolvimento
da criança. O autor demonstra esse raciocínio na aplicabilidade de
uma equação em que para as trocas intelectuais Piaget pressupõe um
perfeito equilíbrio e uma interação de pensamentos. Tal equilíbrio
das reações sociais só é possível entre indivíduos que tenham
atingido o estágio operatório de pensamento fazendo uma panorâmica
sobre as etapas do desenvolvimento cognitivo relacionando o
desenvolvimento das operações lógicas aos estágios de
desenvolvimento social.

Sobre concepção de Vygotsky, Oliveira (1992) traz uma


discussão sobre o processo de formação de conceitos a respeito dos
fatores biológicos e sociais no desenvolvimento do psicológico. No
entanto, as funções psicológicas do indivíduo são formadas ao
longo de sua trajetória no contexto social em que vive. Nesse
processo de formação de conceitos, a linguagem humana exerce um
papel mediador entre o sujeito e o objeto de conhecimento.

Segundo Oliveira (1992), isto é, além de servir ao


propósito de comunicação entre indivíduos, a linguagem simplifica
e generaliza a experiência, ordenando as estâncias do mundo real
em categorias conceituais cujo significado é partilhado pelos
usuários dessa linguagem. O estudo sobre Vygotsky na formação de
conceitos aponta para duas linhas de investigação que são: o
conhecimento do cérebro que opera sem a influência do meio, e do
outro lado, a cultura contribuindo para o processo de formação do
fator biológico do sujeito.

Em relação à Wallon, Dantas faz uma síntese sobre a


vida, ressaltando que sua principal obra surgiu a partir de sua
tese de doutorado que foi transformada no livro L’enfaut Turbulent
(Infância e Turbulência) concluído após observações e experiências
minuciosas com 214 crianças de 2 a 15 anos de idade, com profundas
perturbações de comportamento. Nesta obra o autor descreve etapas
do desenvolvimento psicomotor como estágio impulsivo, emocional,
sensório-motor e projetivo, e também analisa as características e
sintomas das morbidades psicomotoras, com um intuito não só de
pesquisa, também para que seja viabilizada a cura para estes
pacientes.

Dessa forma, Wallon, ao estudar a psicopatologia,


dedicou-se ao desenvolvimento da criança que tinha como questão
fundamental o estudo da consciência, considerando o melhor caminho
para compreendê-la e com isto, tendo como foco principal a sua
gênese que através de sua pesquisa de campo explorou as origens
biológicas da consciência do indivíduo.

A partir dos apontamentos enfatizados na obra entende-


se que para La Taille (1992), Piaget faz uma clara distinção entre
dois tipos de relação social: a coação e a cooperação. Na coação o
individuo recebe a afirmativa do adulto como verdadeira sem
refletir sobre o que foi dito, ou seja, corresponde a um nível
baixo de socialização, enquanto que nas relações de cooperação são
as que permitem esse desenvolvimento efetivamente. Portanto, o
autor evidencia que se tem em Piaget uma teoria que resgata a
dimensão ética e política dentro do desenvolvimento da
inteligência do homem permitindo transparecer na sua análise uma
perspectiva interacionista como referencial e fundamento básico do
seu raciocínio.

Somando a isso, Ferreiro e Teberosky (1999) pontuam


elementos que fazem associações condizentes e amplia a discussão
sobre desenvolvimento intelectual e socialização do indivíduo.
Assim:

O sujeito que conhecemos na teoria de Piaget é aquele que procura


ativamente compreender o mundo que o rodeia e trata de resolver as
interrogações que este mundo provoca. Neste contexto, o indivíduo
é um ser cognoscente que está o tempo todo buscando aprimorar seus
conhecimentos (FERREIRO E TEBEROSKY, 1999 p 29).

No entanto, a sua psicogenética descreve as primeiras


etapas do desenvolvimento psicomotor como estágios impulsivo
emocional que vai de 0 a 1 ano, quando a criança vivência
atividade global ainda não estruturada, com movimentos bruscos,
desordenados de enrijecimento e relaxamento muscular que irá
indicar mal-estar ou bem-estar, e a partir do terceiro mês de vida
já é conhecido padrões emocionais diferenciados como medo,
alegria, raiva, entre outros.

O sensório motor e projetivo inicia de 1 aos 3 anos de


idade, nesse período a criança começa a explorar o espaço físico
agarrando, segurando, sentando, engatinhado, etc. Esta fase
instrumenta efetivamente e cognitivamente o indivíduo para o
próximo estágio, o personalismo vai dos 3 a 6 anos de idade, nesta
etapa inicia o processo de discriminação entre o EU e o OUTRO, no
categorial que vai de 6 a 11 anos acontece a melhor organização do
mundo físico, e de 11 anos em diante acontece à puberdade e
adolescência determinada pela busca de explorar a si mesmo que tem
como ponto de partida o patológico. Ao fazer essas análise
apresenta em seguida as síndromes psicomotoras.

Para Wallon, a afetividade é o eixo central na


construção do conhecimento durante todo o processo de sua vida,
ora com ações exteriores e em outros momentos refletindo consigo
mesmo. Nesse sentido, Dantas (1992) afirma que na concepção de
Wallon, o ato mental - que se desenvolve a partir do ato motor -
passa em seguida a inibi-la, sem deixar de ser atividade corpórea.
Para tanto, o grande eixo da questão é a motricidade que trabalha
no organismo como uma orquestra harmoniosa movimentando órgãos,
músculos e as estruturas cerebrais em busca de conhecer e
interagir com dos os componentes da sociedade a qual pertence, ou
seja, essa busca constante do indivíduo irá favorecer o seu
desenvolvimento mental.

Vale salientar que, haverá uma descontinuidade entre o


ato motor e o ato mental na medida em que for se fortalecendo com
o domínio de signos culturais, enquanto que, o ato motor vai
reduzindo os seus movimentos a partir do segundo ano de vida que
irá dá mais espaços de tempos cada vez mais longos de
imobilização.

Sobre o desenvolvimento do juízo moral e afetividade


na teoria de Piaget, que fala em sua obra “Le jugement moral chez
I’ enfant”. O desenvolvimento do juízo moral da criança está
enraizado entre a afetividade e cognição, ou seja, impossível de
ser pensado separadamente, pois o indivíduo descobre a afetividade
no meio em que vive, e através do contato com os outros o
desenvolvimento da sua personalidade é formado através de
percepções, assimilação, experiências e informações vivenciadas
pelo sujeito. Nesse sentido, Munari (2010 p.102) expressa que, “a
questão da influência do meio sobre o desenvolvimento e o fato de
que as reações características dos diferentes estágios sejam
sempre relativas a certo ambiente”.

Nesse sentido, para Piaget, as vivências impõem


regras, as quais só poderão ser confirmadas a partir do respeito
que o sujeito tem por estas regras baseado em sua moralidade.
Pois, toda moral consiste num conjunto de normas a ser seguida, e
toda sua essência está no respeito a estas normas. Para facilita a
compreensão, Piaget apud La Taille (1992) classifica em três
etapas de evolução da prática e da consciência da regra que são:
anomia: de 5 a 6 anos quando a criança não seguir as regras
coletivas criando suas próprias normas à medida que se sentirem
ameaçadas no transcorrer do processo em que está participando;
heteronomia: de 6 a 9 anos quando não compreende, mas seguir; e
autonomia: de 9 a 10 anos quando seguem as regras e compreende o
acordo firmado coletivamente visando favorecer o bem comum.

No entanto, o dever moral acontece a partir das normas


estabelecidas pelos pais e os adultos que vivem no seu dia a dia,
e também pelo respeito que elas tem sobre tais regras que podem
ser traduzido como realismo moral caracterizado por três etapas
distintas como: é bom todo ato de obediência, culpem ao pé da
letra e o julgamento é feito pelo ato e não pela intencionalidade.

Todavia, a noção de justiça reúne todas as noções


morais que regulam e determinam as normas dentro da sociedade,
incluído as ideias matemáticas e outras. Fato bastante curioso e
equivocado é o símbolo da justiça ser determinado pela imagem da
balança como forma de estabelecer o direito e igualdade para
todos, mas não poderão esquecer-se dos seus deveres e o respeito
ao próximo. No entanto, cada cidadão que se sentir ameaçado ou
prejudicado poderá recorrer às leis para que a justiça seja
conquistada e o seu direito prevalecido.

Sendo assim, a partir da investigação constante a


criança desenvolve seus conhecimentos interagindo com o meio em
que vive superando obstáculos conforme o grau de maturidade do
mesmo. Nesse livro, Oliveira (1992) relata que Vygotsky aborda o
problema da afetividade no campo de pesquisa da atividade
cognitiva. Segundo Oliveira, Vygotsky é contrário o estudo da
afetividade e cognição separadamente como faz a psicologia
tradicional. Ele pesquisou os processos internos do
desenvolvimento humano mostrando a importância de diferenciar as
funções mentais elementares (involuntárias) e superiores que são
as ações conscientes (voluntária) e também compreende que uma está
ligada a outra não podendo ser dissociada uma da outra.

Entende-se que, para Vygotsky a consciência é formada


através de sua participação no meio em que vive, no qual o sujeito
se relaciona e aprimora seus conhecimentos com base nas praticas
sociais dos mais experientes tendo a linguagem Intersubjetividade
que é a questão simbólica como meio facilitador dessa integração
social que vai favorecer um processo de internalização deste
contexto cultural para a formação da sua própria consciência
(subjetividade). Segundo Vygotsky (1984) é a ideia de que os
processos mentais superiores são processos mediados por sistemas
simbólicos, sendo a linguagem o sistema simbólico básico de todos
os grupos humanos.

Neste contexto, o referencial para se compreender essa


linguagem é verificando o sentido e o significado das palavras
como forma de mediação para o individuo compreender o mundo,
sabendo que, o significado é exclusivo do domínio da consciência
humano numa conexão entre o cognitivo e afetivo. Em primeira
estância a linguagem tem a função de socialização pelo sujeito, e
ao longo de sua trajetória ela é internalizada, passando a servir
o próprio sujeito, o que Vygotsky considera de discurso interior.

Segundo Dantas (1992), a afetividade e a construção do


sujeito na psicogenética de Wallon é um tema central em sua teoria
que é genética (estuda o desenvolvimento funcional) e dialética
(indica direções e possibilidades), impossível de se pensar como
processo direto que só vai adiante ao contrário tem idas e vindas
. Relatando assim, que a plateia desempenha o papel do oxigênio
que alimenta a chama emocional. O ser humano não conseguiria vive
sem o contrato com os outros, ou seja, toda atividade que envolva
a emoção trabalha lado a lado com o social e o biológico.

Para tanto, a emoção tem sua origem na vida orgânica


do sujeito que ao nascer é mediado pelo afeto que simultaneamente
envolve o social e o biológico criando no indivíduo uma ligação
forte com o ambiente. A emoção pode ser classificada de natureza
Hipotética (susto e depressão) e hiprotética (ansiedade). O
sujeito é puramente afeto. Enquanto, segundo Wallon apud Dantas
(1992) quando a inteligência e afetividade estão misturadas e ao
longo da vida será marcado por momentos afetivos ou cognitivos.

De forma que, para o sujeito se desenvolva é


necessário que afetividade e inteligência simultaneamente estejam
juntas. A partir do momento que a inteligência evolui a emoção
também. Para tanto, o ser está continuamente em construção não
podendo ser considerado um sujeito acabado.

Afirma-se então que, o livro retrata uma discussão


sobre a psicologia genética tão indispensável para compreender
como ocorre o desenvolvimento humano necessário para o estudo das
diversas áreas afins.

Identificação dos autores: Yves La Taille, professor doutor do


Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, na cadeira
de Psicologia do Desenvolvimento. Marta Kohl de Oliveira,
Professora doutorada Faculdade de educação da Universidade de São
Paulo, na cadeira de Psicologia da Educação. Heloysa Dantas,
professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São
Paulo, na área de Psicologia da Educação.

Nilda Tavares da Silva Santos: aluna do Curso de Mestrado em


Ciências da Educação – Inovação Pedagógica da Universidade da
Madeira. (nildatavaressantos@gmail.com).

REFERÊNCIAS

FERREIRO, E; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Tradução


Diana Myriam, et.al. Porto Alegre: Artmed, 1999.

LA TAILLE, Y; OLIVEIRA, M. K; DANTAS, H. Piaget, Vygotsky, Wallon:


teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Sammus,1992.
MUNARI, Alberto. Jean Piaget. Tradução e org. Daniele
Sabeb.Coleção Educadores. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.
Massangana,2010.

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins


Fontes, 1984.

https://www.youtube.com/watch?v=euUHn4ySfx8&feature=youtu.be