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CAPITULO 1 - A TEORIA DA HISTÓRIA DE HANS

ULRICHT GUMBRECHT

1.2 - As raízes na Estética da Recepção

Quando em 1967 o jovem Gumbrecht ingressa na Universidade de Munique para


graduar-se em literatura româanica, Hans Robert Jauss, futuro orientador de sua tese de
habilitação em 1974, realiza, a alguns quilôometros dalií, na Universidade de Konstanz,
a famosa preleção "A História da literatura como provocação à teoria literária"
considerada o surgimento da Estética da Recepção.

Naquele texto Jauss afirma que a ciência literária não levava em conta o papel
genuíno da leitura no estabelecimento do significado de uma obra literária. Essa falta
era grande responsável pela forma decadente com a qual a história da literatura
interpretava os textos literários. Jauss advertia que apenas na recepção da obra se
conclui seu processo de comunicação, quando só então chegaria propriamente a
significar algo. Por meio da leitura um texto adentra um mundo já preenchido de
sentido, seja pelas experiências, por pressupostos, por ideias e também preenchido de
outras leituras com as quais necessariamente aquelea texto terá que interagir. O
significado de uma obra literária se dá por uma relação dialógica entre o emitente, o
texto e o receptor, adverte ainda o professor Jauss em sua aula inaugural. A investigação
sobre o caráter, as categorias e o valor de uma obra deveria ser procurada antes nos
efeitos práticos que essa obra gera em contextos específicos.

Ao apontar para o lugar de criação da leitura Jauss abre um campo de pesquisa


para que os estudos literários investiguem a literatura do ponto de vista dos horizontes
de expectativas que ela abre nas diferentes comunidades de leitores. Seria absurdo, diz Commented [1]: Conceito, é preciso vir entre aspas e com
indicação bibliográfica... koselleck!
Jauss, imaginar que o significado da leitura de um Dom Quixote fosse o mesmo a para
um leitor do século XVI e para outro do século XX. Procura em seu programa de
pesquisa pelos elementos que permitam realizar “uma história da literatura do leitor”.

A proposta de Jauss gerou considerável impacto no meio intelectual alemão


transformando inclusive a Universidade de Konstanz um centro de inovação e difusão
de esforços de renovação no campo das ciências humanas.

Em 1967 era significativo que uma proposta teórica e metodológica no campo


das ciências humanas fizesse a defesa da multiplicidade de interpretações possíveis de
um texto, no caso, uma obra literária. Leve-se em conta ainda que as teses e Jauss sobre
a estética da recepção informava de que cada sujeito em seu mundo era também criador
do sentido da literatura, de que os significados se apreendiam pelas ações e pelos
horizontes de vida que eles abrem. Estas mudanças na ordem do saber estavam
diretamente ligadas às transformações sociais desta época. Sabe-se de que modo os anos
60 são anos de conturbadas transformações nos mais diversos sentidos da esfera social.
Nos países mais ricos vivia-se um acelerado processo de crescimento industrial, de
ampliação das malhas urbanas, de transporte e sobretudo de comunicação. Os costumes
ligados às relações da vida familiar e entre gerações se alteraravam visivelmente. Em
meio a uma sólida estabilidade e de crescimento material assiste-se ao aparecimento de
uma cultura juvenil autônoma, inserida e estimulada pelo mercado do consumo do rock,
do cinema, da modas roupas. Nesta geração foi marcante os conflitos entre as
proposições culturais que os jovens faziam de bandeira com os modelos e visões de Commented [2]: De bandeira? Não entendi o que isto
significa.
mundo oferecido per seus pais e avós. Não é sem razão que no campo das ciências este
período é também um momento de embaralhamento da linguagem e de seus modos de
significar. A percepção mais tradicional do século XIX, e que se pode notar que ainda
pesa sobre o pensamento científico, como se pode verificar no texto de Jauss, é de que o Commented [3]: Aqui parece que vc está criticando Jauss
por fazer parte desta espécie de metafísica... é isto? Acho
significado seria um ente metafísico, uma realidade extra- humana, uma realidade que não é isto que vc quer dizer, pois antes está propondo
um jauss disruptivo e depois também...
própria, que não se confunde com o que é mundano. O significado seria um ente De modo que precisa reescrever este pequeno trecho...
espiritual que não se confunde com o corpo material em que ele habita como são o traço
da escrita ou a superfície visível dos eventos. À essa visão dos significados Jauss
buscava voltar-se para uma concepção em que o significado é algo mundano, concreto,
palpável, visível na ação, inscrito e legível nos contextos circunstanciais do mundo.

Nota-se que a primeira fase do pensamento acadêmico de Gumbrecht se


processa em um ambiente de revisão epistemológica e social, tendência que ele próprio
assimilará seu trabalho, buscando dar seguimento a esses impulsos de transformação
Commented [4]: Veja, estamos indo para a terceira
das humanidades. Sua trajetória intelectual expressa os conflitos e as possibilidades que página e vc ainda não fez nenhuma citação. Aqui caberia
uma do próprio Gumbrecht por exemplo... ou de algum
se abrem em se perceber e relacionar teoricamente com o mundo. É importante notar autor comentando este momento da formação do
gumbrecht...
também que essa mudança propositiva no modo de relacionar-se com os sentidos do Pense assim, entre 1 e duas citações por página, ok?
citações do próprio autor ou da fortuna crítica...
mundo requeria desde sua formulação fundadora uma revisão quanto ao modo de
compreender a história.

Se, por um lado, Jauss anuncia sua proposta como superação do abismo entre a
literatura e a história, é certo também que o modo como ele quer servir-se da história é
bastante distinto do modo como essa disciplina lhe parece ser canonicamente
trabalhada. Ele volta-se contra a concepção de uma “história universal” presente tanto
no idealismo quanto na escola histórica como também no marxismo, em que uma obra,
ou um evento são apenas uma expressão de um sentido totalizador que abarca a ela e a
todas as outras (obras ou eventos) numa unidade de sentido unívoca. Jauss requer a
história como método, mas já num outro sentido. Não mais uma história que trate o
passado como coisa acabada e com um sentido definido, mas procura compreender a
história como um acontecer próprio de cada ente, que tem seu sentido em si próprio e
em suas relações que a constituem junto ao mundo. Para remeter a esse estender-se do Commented [5]: Bom... cabe uma citação do Jauss, por
exemplo... ou de alguém que fale sobre o pensamento de
significado e do sentido da obra litteráaria no tempo mais função dos seus efeitos nos Jauss...

horizontes efetivos de mundo do que sua ligação a uma imagem total que vigia desde Ver os seguintes textos:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S15
fora do tempo Jauss recorre ao conceito de historicidade para delimitar uma visão da 17-106X2008000100006
história objetivista:
no livro corpo e forma tem um ensaio do joão cezar de
castro rocha sobre o tema e um ou até mais do gumbrecht,
ok?
http://www.estantevirtual.com.br/b/hans-ulrich-
gumbrecht/corpo-e-forma/1788268080?q=corpo+e+forma
A concepção positivista da história como descrição 'objetiva' de uma sequência de
acontecimentos num passado já morto falha tanto no que se refere ao caráter artístico
da literatura quanto ao que respeita a sua historicidade específica. A obra literária não
é um objeto que exista por si só, oferecendo a cada observador em cada época um
mesmo aspecto. Não se trata de um monumento a revelar monologicamente seu Ser
atemporal. Ela é, antes, como uma partitura voltada ara a ressonância sempre
renovada da leitura, libertando o texto da matéria das palavras e conferindo-lhe
existência atual. (JAUSS, 1994, p. 3)

Se neste primeiro momento a Estética da Recepção priorizou quase que apenas o Commented [6]: usar também logo o primeiro texto da
página que estou encaminhando... se trata de uma
leitor em seu papel de ser o verdadeiro destinatário da literatura essa situação se dissertação ou tese da puc-rio que ainda não consegui
identificar o título e o autor, mas pode usar as referências,
transformará rapidamente ao longo da década de 1970, quando outros autores somaram- citações etc.
enfim, parece bem bacana...
se a este empreendimento acadêmico passando a investigar também as condições mais
gerais de produção do significado literário como os contextos de produção e os recursos
Commented [7]: não entendi bem o teor desta
retóricos e poéticos do texto propriamente dito junto ao horizonte de recepção. Dentre transformação... é uma transformação mesmo ou uma
intensificação? É preciso ter mais cuidado neste momento
os autores mais importantes desse campo disciplinar naquele momento estavam do texto...
Wolfgang Iser, com quem Gumbrecht virá afirmaria terque tinha posições mais
interessantes que o próprio Jauss, Karlheinz, Hans Blumenberg, e o próprio Gumbrecht.

Após sua tese de habilitação Gumbrecht busca se aproximar de outras vertentes


de estudos para a formação dos sentidos em busca de compor um quadro científico mais
preciso de pesquisa sobre as condições de formação do significado, já não apenas da Commented [8]: confuso... reescrever.

literatura, mas buscando gerneralizar sua pesquisa, ainda que de maneira cautelosa, para
todo o “conhecimento social dos sujeitos da ação comunicativa” (197). Lhe é
particularmente influente nesse momento a sociologia sistêemica de Niklas Luhmann. Commented [9]: Prestar atenção nos acentos...

Sua pesquisa busca desenvolver um ferramental analítico que conjugue uma


investigação da constituição do sentido por meio dos aspectos sociohistóricos com uma
epistemologia do sentido, mostrando intensa preocupação cemom definir de maneira
clara e adequada as condições de formação do sentido. Commented [10]: Não entendi, precisa explicar melhor...
o que é, qual a diferença entre: 1- constituição do sentido
por meio de aspectos sociohistóricos, e 2- uma
É com essa preocupação que ele aponta em 1975 que a Estética da Recepção epistemologia do sentido???
Uma epistemologia dos sentidos pode ter uma preocupação
representava uma “mudança paradigmática” na forma de conceber o sentido. O que sócio-histórica...
Acho que vc quer dizer alguma outra coisa que precisa ficar
havia sido a verdadeira contribuição da estética da recepção para como programa
clara aqui...
científico – e que os inspirava a todos - não era em apenas ocupar-se com o papel do
leitor no estabelecimento do significado, a isso já haviam tido escolas que quisessem
interpretar uma obra literária tornando-se ela própria o “leitor ideal”. Mas a real
contribuição deste novo campo de estudo estava no fato de abandonar a pressuposição
de que havia uma interpretação correta e em troca procurar pelo que está em jogo nas
diferentes formações de significado realmente existente .

Por essa razão a verdadeira inovação da estética da recepção consistiu em ter ela
abandonado a classificação da quantidade de exegeses possíveis e
historicamente realizados sobre um texto em muitas interpretações 'falsas' e uma
'correta'. Seu interesse cognitivo se desdobra da tentativa de constituir uma
significação adequada para o esforço de compreender a diferença das diversas
exegeses do texto. (GUMBRECHT In: LIMA, 2010 p. 191)

A necessidade de e compreender os fenômenos do mundo a partir da diferença


se apresentava para um leque considerável de autores na filosofia ou nas ciências (não
apenas humanas, como é o caso de Thomas Kunh) destes anos 1960 e 1970 tanto na
Alemanha quanto entre franceses. Na prática esse deslocamento no modelo instituído do
saber - saindo de um principio de identidade metafisica e uma verdade universalmente
válida para outro regido pela diversidade e uma ideia de verdade relacional, converte-
se também em programa científico que defende a procura pelas determinações do
significado de maneira mais minuciosa e mais concreta, tomando como postulado
fundamental a importância da particularidade, das superfícies aparentes dos objetos
estudados.

O trabalho do pensamento da diferença que aqui se apresenta assume como


tarefa encontrar maiores detalhes e precisão sobre seus objetos, como a literatura ou
outros fenomenos sociohistóricos, obtendo maior domínio, não mais pressupondo uma
unidade metafísica, um sentido totalizador, mas valorizando suas particularidades . Ao
tratarem-se de programas científicos que buscam se instalar renovando os modos de
abordagem dos objetos conforme se busca compreender melhor as condições de
formação dos sentidos na literatura ou na vida social não se exclui a tarefa de encontrar
mais precisamente as determinações dos seus significados. É o que Gumbrecht está a
procura quando diz, “trata—se agora de compreender as condições de formações
diferentes de sentido realizados por leitores que estão na posse de disposições
recepcionais mediadas por condições históricas distintas” (LIMA 2010 p13). Nota-se
também como esse desvelamento das tramas do significado pretendido pelo texto vai
ficando cada vez mais complexo, como quando afirma:

portanto a função de cada texto precisa ser determinado pelo menos duas vezes; a
primeira, como alteração do conhecimento de seus receptores, intencionada pelo
autor (função intencionada), a seguinte, como alterações buscadas e realizadas
pelos receptores quanto a seu próprio conhecimento (função realizada)
(GUMBRECH 1977 IN LIMA 2010 p. 195)

Exatamente por dirigir sua atenção com tamanha exigência para os processos de
produção imanente do significado que Gumbrecht poderá apontar também com clareza
e precisão para os limites e contradições deste empreendimento intelectual. Não será de
todo surpreendente que este procedimento de identificar os significados em meio à uma
crítica da diferença se processe ao mesmo tempo como um espanto pelo indefinido, pelo
incerto e lacunar dos significados como também torna-se compromisso pela pesquisa
sobre as particularidades e aclarar as determinações dos sentidos do mundo.

É deste novo panorama intelectual que vemos Wolfgang Iser, por exemplo,
afirmar que todo texto literário carregará sempre consigo algo de “indeterminado”, de
indecifrável e misteriosos, e que este é um fator necessário para que a literatura possa
gerar efeitos práticos em um livro cujo titulo sugestivo: O chamado do texto: a
indeterminação como efeito estético da prosa literária (L'appel du texte :
l'indétermination comme condition d'effet esthétique de la prose littéraire).

Por seus próprios caminhos Gumbrecht também se deparará com a


impossibilidade de se encarar de maneira inequívoca os efeitos práticos das obras
literárias. É pela pena de Peter Neuman que o assistimos resumir as ilimitações e
contradições deste empreendimento, apontando que “uma crítica exaustiva” já estava
sendo realizada a respeito dos objetivos teóricos e metodológicos da Estética da
Recepção, e que apresentavam as seguintes fragilidades:

(1) os textos literários não são lidos, via de regra, com o próposito
de orientar a ação social de seus leitores (embora não se possa negar a
influencia d aleitura sobre a ação dos leitores, o que deve ser levdo em
conta também na avaliação das proposições seguintes);
(2) é impossível determinar, com precisão metodológica, a função
(isto é, o grau de participação) da recepção de textos literários na ação
social dos leitores (...);
(3) é licito suspeitar no endosso desta tese, a presença de
interesses ideológicos,a saber da legitimação ideológica da profissão
academica. (Gumbrecht apud Nauman In: CAYMMI, Stella. O
Portador Inesperado A obra de Dorival Caymmi (1938-1958) cap. 2
“Estética da Recepção” p. 27)

No período de sua produção acadêmica que se segue, e que investigaremos sob


as perspectivas dos Cóloquios da cidade de Dubrovnik veremos que Gumbrecht
paulatinamente vai se distanciando do padrão intelectual moderno de interpretação e
explicação dos significados, buscando alternativas que renovassem as práticas das
ciências humanas por meio de um campo não hermenêutico.