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Contexto

Curso de Aconselhamento em Dependência Química

Daniel Gomes Pinto

A utilização da Musicoterapia no tratamento de Dependentes Químicos

Jan/2019
A utilização da Musicoterapia no tratamento de Dependentes Químicos

Por

Daniel Gomes Pinto

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como requisito parcial para obtenção do título de
terapeuta em dependência química do curso
Contexto de formação em Aconselhamento em
Dependência Química.

Jan/2019

2
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito necessário para
obtenção de título de Terapeuta em Dependência Química do curso Contexto.

Daniel Gomes Pinto

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado em: / /

Orientador

Examinador

Examinador

3
Para minha mãe.

4
“ A arte é o único modo de processar a dor,
tornando-a um fortificante para a vida, um
impulso.” (MOSÉ, 2018:34)

5
Sumário

1- INTRODUÇÃO – Eu, a música, a droga e a musicoterapia


2- DEPENDENCIA QUÍMICA – O abuso de substâncias psicoativas

2.1 – Uso, abuso ou uso nocivo, e dependência


2.2 - A síndrome de dependência
2.3 - Critérios DSM e CID
3- A MUSICOTERAPIA
4- O QUE É MÚSICA?
5- MÚSICA E SAÚDE
6- A MÚSICA NO TRATAMENTO DE DEPENDENTES DE ALCOOL E
OUTRAS DROGAS (AOD)
7- SEXO, DROGAS E ROCK AND ROLL

7.1 - A Música como alterador do estado de consciência


7.2 - Histórias trágicas na música marcadas pelo uso abusivo de
Álcool e outras drogas.
8- As experiências da musicoterapia no sistema público de saúde CAPES
9- Conclusão
a. ANEXO I – Algumas das minhas experiências da musicoterapia
nas clínicas Patter Aldeia e Espaço Clif.
10- BIBLIOGRAFIA

6
Resumo: Este trabalho vem trazendo algumas relações do tratamento de
dependência química com o auxílio da musicoterapia. O objetivo principal da
musicoterapia no tratamento do dependente químico está relacionado as
questões do ego e da Identidade, assim como do restabelecimento das
deficiências, sentimentos e socialização. O uso, o abuso e a dependência são
difíceis de se diferenciar, através de uma linha tênue, são melhores definidas
nos manuais de medicina DSM e CID. Com o apoio da musicoterapia, foi
possível perceber neste trabalho, o desenvolvimento e avanço da percepção
do participante de sua própria identidade e de seu fortalecimento pessoal na
relação com o grupo. A música, sendo uma das principais artes, aposta, como
demonstrado, como sendo um fator fundamental para a manutenção da
humanidade no que se refere as suas relações com seus sentimentos e seu
inconsciente.

Palavras-chave: Musicoterapia, Dependência Química, Artes, Música.

1. Introdução – Eu, a música, a droga e a musicoterapia...

A música vem sendo utilizada pelo ser humano como valoroso instrumento de
contato com o místico, com o sobrenatural, com o indizível. Música por certo
pode fazer bem a saúde e este estudo vem buscar a relação da música, no
trabalho exercido pela musicoterapia, no auxilio ao tratamento e a recuperação
de pessoas com dependência em álcool e outras drogas.

Tudo começou, no que se refere ao meu percurso, com minha relação com a
música, desde tenra idade, aproximadamente aos 9 anos quando comecei
aprender as primeiras nota musicais, ao piano, no Conservatório de Música em
Niterói. Segui meu aprendizado tendo contato com outros instrumentos, a
guitarra, o violão, até encontrar aquele que me alçaria ao patamar de músico,
tendo escolhido durante alguns anos ser esta a minha atividade profissional
principal. A bateria e a percussão foram durante anos minha principal atividade
de estudo, prazer e trabalho... Passei pelas principais escolas de música do
Rio de Janeiro e tive aulas particulares com inúmero profissionais do mais alto
nível, comecei a tocar, na noite, acompanhar artistas, formar bandas até que...

7
A maconha entrou na minha vida, aparentemente como socializador, relaxante,
tornar-me parte da turma... os anos foram se passando e ela não me largou
mais, ou melhor, eu não conseguia mais larga-la; busquei ajuda, entrei na
Irmandade de mútua ajuda, comecei a estudar sobre o assunto. Fiquei limpo.
Só Por Hoje.

Após profunda crise na minha vida com o meu pai tendo falecido e meu filho ter
sido levado ilegalmente para morar em outro país, resolvi renascer, digamos,
das cinzas... comecei a estudar... reiniciei meu caminho... fiz prova para o
Conservatório Brasileiro de Música, Pós Graduação em Musicoterapia, entrei
para o Curso de Aconselhamento em Dependência Química da Contexto,
reingressei para um novo curso Universitário, Psicologia...

Esforçava-me diariamente para dar continuidade a minha vida profundamente


abalada e as portas foram se abrindo novamente, não sem um grande esforço
da minha parte e uma grande ajuda de algumas valorosas pessoas das quais
sou muito grato.

Comecei a estagiar na Aldeia, renomada instituição de tratamento em


dependência química em Niterói; lá fui colocado de imediato a prova, pois não
havia aquele tipo de trabalho sendo desenvolvido por lá naquela época e eu
teria que desenvolver sozinho um trabalho que a pouco tempo eu tinha contato.
Pesquisei, corri atrás, inventei, usei a criatividade aliada ao conhecimento e fui
dando continuidade ao trabalho na Clínica Patter Aldeia. Até que surgiu uma
outra grande e incrível possibilidade, estagiar no Espaço Clif, uma das maiores
Instituições de tratamento de Dependencia Química e Psiquiatria do Brasil. Tive
medo, passei por uma primeira entrevista, expus meus medos e minha história
e inicie meu trabalho nas atividades de musicoterapia e terapia ocupacional.

Sou formado em Artes pela UERJ e tenho Mestrado em Arte Cognição e


Cultura pela mesma instituição, estes conhecimentos foram super importantes
para que eu pudesse levar adiante minha nova empreitada. Sigo neste
caminho e pretendo através destas experiências ajudar as pessoas que assim
como eu tiveram diferentes desafios na vida, envolvendo ou não o uso abusivo
de drogas, ou tendo algum impacto psicológico que lhe abalara profundamente,
levando a musicoterapia, ao alcance do público em geral, pois esta ferramenta

8
pode mudar profundamente o indivíduo, reestruturando sua vida, seu ego, sua
identidade, lhe dando um novo sentido, valor e posição diante da vida e do
mundo.

1. Depedência Química - O abuso de substâncias psicoativas.

A utilização de drogas para alterar o estado de percepção da realidade tem


sido usado pela humanidade a milênios, desde as antigas civilizações, diversas
plantas com propriedades alucinógenas têm sido utilizadas com finalidades
místicas, assumindo um papel importante em rituais religiosos, principalmente
em culturas primitivas.1 Contudo o abuso de tais substâncias também tem sido
um fatos problemático no que se refere a saúde pública. Quando a
dependência se instaura, o indivíduo passa ter a percepção de mundo alterada
passa a buscar incessantemente nas drogas, um alívio parcial para a sua
perda de controle diante do seu eu e de sua relação com o mundo.

“Com intuito de evitar depressão e magoa, a pessoa dependente geralmente


enfraquece sua percepção da realidade interna e externa (anestesia), mas
busca a confluência utilizando a droga como substituta das enfraquecidas

1
CAZENAVE, S. Banisteriopsis caapi: ação alucinógena e uso ritual. Rer. Psiq. Clin. 27(1):32-35, 2000.

9
funções do ego, que não estão em condições de estabelecer contato entre o
interno e o externo.” 2

1.1 Uso, abuso ou uso nocivo e dependência

A utilização de drogas de forma nociva para o corpo e para a mente tem sido
alvo de estudos e pesquisas por todo o mundo visto que tal problema é um
dado estatístico importante claramente exposto e tratado pelo mundo afora.
Este problema que afeta a pessoas independente de idade, nível social,
posição hierárquica, leva o indivíduo a um estado de total perda de sua
personalidade. Não existe, no entanto, uma fronteira clara entre o uso e abuso,
ou mesmo a dependência de substâncias químicas.

“Poderíamos definir “uso” como qualquer consumo de substâncias, seja para


experimentar, seja exporádico ou episódico; “abuso” ou “uso nocivo” como o
consumo de substâncias já associado a algum tipo de prejuízo
(biológico,psicológico e social); e, por fim, dependência como o consumo sem
controle, geralmente associado a problemas sérios para o usuário.” (FIGLIE,
2004, 5)

A dependência química pode ser entendida como uma alteração cerebral


provocada pela ação direta da droga nas diversas regiões do cérebro. 3 Tal
dependência levará o indivíduo a perder o controle de sua própria vida e entrar
em um estado de relação única e exclusivamente com a droga. Vivendo para
usar a droga e usando para viver como cita a literatura da Irmandade de
Narcóticos Anônimos. As principais características da dependência são: a
perda de controle sobre o consumo de álcool ou drogas; a negação; o uso
continuado a despeito de consequências negativas, e um padrão de recaída.4

“A dependência é uma expressão de esforço em compensar deficiências


estruturais. O eu do paciente dependente é deficiente, e seu ego tem poucas
chances de desenvolver funções maduras. O resultado é um paciente que não
possui uma identidade definida.”5 (FROHNE in RUUD, 1991, 47)

2
FROHNE. Isabelle, In RUUD Even. Música e Saúde. São Paulo: Summus, 1991.
3
VALENZUELA, C. F. Harris, A Alcohol: neurobiology. In LOWINSON, J. H et al. Substance Abuse: a
comprehensice textbook. 3. Ed. Philadenphia: Williams & Wilkins, 1997. Pag 119-120.
4
FIGLIE, Neliana Buzi; Aconselhamento em dependência / Neliana Buzi Flglie, Selma Bordin, Ronaldo
Laranjeiras. – São Paulo: Roca, 2004.
5
FROHNE, Isabelle In RUDD, Even 1991, 47

10
Como mencionou Frohne, este paciente deve buscar então fortalecer a sua
identidade e através da música tal objetivo pode ser alcançado. É necessário
um processo de diferenciação da identidade que se faz presente numa relação
dialética com o Outro e com o mundo, tornado-nos Sujeito e Objeto do
processo.6 Nesta relação estamos entrando em contato com o mundo interno e
o mundo externo. Por vezes indiferenciado no que se refere ao dependente de
drogas e outras substâncias quando se encontra em um estado avançado e já
desenvolvera outras comorbidades clínicas como a esquizofrenia por exemplo.

2.2 A síndrome de dependência

A síndrome de dependência é um conceito utilizado na medicina para designar


um agrupamento de sinais e sintomas, por ser um transtorno bastante comum
está presente nos manuais utilizados pela medicina para categorizar tais
patologias clínicas. O Manual Diagnóstico e Estatísticos de transtornos (DSM)
e a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID) apontam critérios
que serão expostos mais adiante. As classificações de uso nocivo e
dependência de tais manuais fornecem critérios amplos para diagnóstico
independente da substância utilizada e tendem a utilizar o uso nocivo como
categoria que absorve também indivíduos cujo quadro clínico não caracteriza
claramente a dependência de drogas.7

2.3 - Critérios DSM e CID

Critérios DSM

A seguir os critérios do DSM-IV para Dependência de substâncias8

Refere se a um padrão de uso disfuncional de uma substância, levando a um


comprometimento ou desconforto clinicamente significativo, manifestado por
três (ou mais) dos seguintes sintomas, ocorrendo durante qualquer tempo, num
período de 12 meses:

1. Tolerância, definida por um dos seguintes critérios:

6
BARCELLOS, Lia Rejane Mendes. Cadernos de Musicoterapia. – Rio de Janeiro: Enelivros, 1992. Pag 11.
7
(VALENZUELA, 1997, 119-120)
8
LARANJEIRA, R. NICASTRE, S. Abuso e dependência de álcool e drogas. In: ALMEIDA, O., DRACTU, L.,
LARANJEIRA, R. Manual de Pasiquiatria. 1. Ed. Rio de Janeiro: Guanabara & Koogan, 1996. Cap 7, p. 83-
112.

11
a. Necessidade de quantidades nitidamente aumentadas de substância
para atingir intoxicação ou efeito desejado.

b. Efeito nitidamente diminuído com o uso contínuo da mesma quantidade


de substância.

2. Abstinência manifestada por um dos seguintes critérios:

a. síndrome de abstinência característica da substância

b. a mesma substância (ou outra bastante parecida) é usada para aliviar ou


evitar sintomas de abstinência

3. A substância geralmente é utilizada em grandes quantidades, ou por período


maior que o intencionado.

4. Um desejo persistente ou esforço sem sucesso em diminuir ou controlar a


ingestão da substância

5. Grandes períodos de tempo utilizados em atividades necessárias para obter


a substância, usá-la ou recuperar se de seus efeitos

6. Reduzir ou abandonar atividades sociais, recreacionais ou ocupacionais por


causa do uso da substância.

7. Uso continuado da substância, apesar do conhecimento de ter um problema


físico ou psicológico persistente ou recorrente que tenha sido causado ou exacerbado
pela substância.

Critérios CID

E complementando teremos também os critérios do CID-10 para Dependência


de Substâncias:

O diagnóstico de dependência deve ser feito se três ou mais dos seguintes


critérios são experienciados ou manifestados durante o ano anterior:

1. Um desejo forte ou senso de compulsão para consumir a substância

2. dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância em


termos de início, termino ou níveis de consumo

3. estado de abstinência fisiológica, quando o uso de abstinência cessou ou foi


reduzido, como evidenciado por: síndrome de abstinência característica para a
substância, ou o uso da mesma substância (ou de uma intimamente
relacionada) com a intenção de aliviar ou evitar os sintomas de abstinência.

4. Evidência de tolerância de tal forma que doses crescentes da substância


psicoativa são requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por
doses mais baixas.

12
5. Abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor do
uso da substância psicoativa: aumento da quantidade de tempo necessário
para obter ou tomar a substância ou recuperar- se de seus efeitos.

6. Persistência no uso da substância, a despeito da evidência clara de


consequências manifestamente nocivas, tais como dano ligado ao fígado por
consumo excessivo de bebidas alcoolicas, estados de humor depressivos
consequentes a períodos de consumo excessivo da substância, ou
comprometimento do funcionamento cognitivo relacionado com a droga: deve-
se procurar determinar se o usuário estava realmente consciente da natureza e
extensão do dano.

Além desses critérios o DSM e o CID estabelecem fatores para o Uso Nocivo
de Substâncias, expostos a seguir:

DSM-IV Critérios para uso nocivo de substâncias.

A. Padrão de uso disfuncional de uma substância, levando a um


comprometimento ou desconforto clinicamente significativo, manifestado por
um ou mais dos seguintes sintomas:

1. Uso constante da substância, resultando no fracasso em cumprir obrigações


na escola, no trabalho ou em casa

2. Uso constante de substâncias em situações fisicamente comprometedoras

3. Problemas legais constantes relacionados com o uso da substância

4. Uso contínuo da substância, apesar de ter um problema social ou


interpessoal persistente ou constante, ou que seria exacerbado pelos efeitos
da substância.

B. Nunca preencher os critério para dependência desta substância

CID-10 Critérios para uso nocivo de substâncias

 O diagnóstico requer que um dano real tenha sido causado á saúde física e
mental do usuário
 Padrões nocivos de uso são frenquentemente criticados por outras pessoas e
estão associados a consequências sociais adversas de vários tipos
 Uso nocivo não deve ser diagnosticado se a síndrome de dependência, um
distúrbio psicótico ou outra forma específica de distúrbio relacionado com o
álcool e outras drogas estiver presente.

“Com intuito de evitar depressão e mágoa, a pessoa dependente geralmente


enfraquece sua percepção da realidade interna e externa (anestesia), mas busca a
confluência utilizando a droga como substituta das enfraquecidas funções do ego, que
não estão em condições de estabelecer contato entre o interno e o externo.”

13
3. A musicoterapia

Em vez de negar o sofrimento constitutivo de tudo que existe, a cultura pode se


dedicar a fortalecer o homem, tornando-o capaz de enfrentá-lo. Podemos
vencer a dor sentindo-a plenamente, utilizando como estimulante a arte,
especialmente a música, o pensamento afirmativo, a contemplação da
natureza, o corpo, os jogos, as festas. O humano pode utilizar a dor como
impulso para a vida. (MOSÉ, 2018, 58)

A musicoterapia é uma disciplina que não tem paradigmas universais, portanto,


a utilização da música, mais precisamente da musicoterapia como processo de
tratamento ao dependente de drogas tem sido importante instrumento para
compor a auto regulação do indivíduo em busca de sua reintegração social.
Além de ser uma forma de obtenção de prazer e ainda uma possibilidade de
atividade futura após ter contato com a arte e utilizá-la quando nas situações
em que buscaria prazer através da drogadição, a musicoterapia, utilizada no

14
sentido estrito da palavra terapia, vem sendo utilizada como processo de
contato do indivíduo com camadas mais profundas do seu inconsciente,
trazendo para o subconsciente e possivelmente para o consciente, fatores que
levaram a desfragmentação de sua identidade e sua atuação narcisista e
egocentrada. “O objetivo mais importante da musicoterapia com pessoas
dependentes de drogas é: - fortalecer as funções do ego e construir a uma
identidade definida; - realimentar, preencher as deficiências, diferenciar
sentimentos e experiências e socializar o comportamento.” 9

A música pode deixar transparecer mensagens que a vontade do participante


não permite na conversa propriamente dita. Quando escolhemos uma música,
por exemplo, nunca estamos isentos do porque de tal escolha e mesmo que
seja uma música escolhida sem aparentemente nenhum propósito específico
ela pode deixar transparecer através de sua letra, ritmo ou melodia alguma
mensagem que pode ser decodificada pelo musicoterapeuta fazendo com que
o paciente tome consciência de uma informação ou de uma demanda ou
questão inconsciente.

Não é raro acontecer, nas escolhas das músicas pelo dependentes de álcool e
outras drogas, das letras em algum momento citarem alguma ação ou questão
relacionada a drogadição. Pode parecer forçar a barra dizer isso mas não, é
incrível como a música deixar transparecer, sem mesmo que o participante
tenha consciência disso, conteúdos relativos a drogas e atitudes e ou assuntos
relacionados ao seu período de uso de álcool e outras drogas. Até porque não
são poucas as música que tem como conteúdo temas relacionados a estes
assuntos, por exemplo: “Eu bebo sim, e estou vivendo, tem gente que não
bebe e está morrendo”10, ou “De dois mas mantenha o respeito”11... mas não é
só disso que estamos falando, não precisa ser tão obvia assim a mensagem, a
música, com sua história ou sua melodia, diz muito e pode participar da
realidade sonora das pessoas que participam do processo de musicoterapia,
assim, quando a música é trazida a tona, trás consigo uma série de outros
significados, símbolos e signos que podem ser percebidos e avaliados pelo

9
FROHNE, Isabelee in RUUD
10
Eu Bebo Sim – Elizeth Cardoso
11
Mantenha o Respeito – Planet Hemp

15
musicoterapeuta que aponta e intervem demonstrando o que aparentemente
está oculto.

Formas de intervenções e musicoterapia.

Dentre as formas de intervenções utilizadas o músicoterapeuta pode Interrogar,


Informar, Confirmar, Clarificar, Recapitular, Assinalar, Interpretar, Indicar,
Sugerir...12 Todas estas técnicas podem e são utilizadas no sentido de
estabelecer um vínculo entre o terapeuta e o participante na busca da
penetração em aspectos ricos e instigantes da percepção do participante na
sua própria experiência.

4. O que é música?

Muito se discute a respeito do que podemos ou não tratar como música.


Combinação harmoniosa e expressiva de sons? A arte de se exprimir por meio
de sons, seguindo regras variáveis conforme a época, a civilização, etc?
Interpretação de obra musical? Conjunto de sons vocais, instrumentais ou
mecânicos com ritmo, harmonia e melodia? Estas definições vindas do
dicionário nos abrem um leque de percepções a respeito do que poderia ser
definido como música. Em seu livro, o Ouvido Pensante, Shafer discute com
seus alunos durante longas horas para chegar a uma próxima definição de que
a “Música é uma organização de sons (Ritmos, Melodia, etc.) com a intenção

12
BARCELLOS, 1992, 13-14, Cadernos de Músicoterapia 2

16
de ser ouvida” 13. Durante as discussões, o mesmo, com seus alunos, levantam
questões sobre intencionalidade, gosto, forma, conteúdo e outros
problematizadores que poderiam ser levados em consideração nas questões e
definições desta forma milenar de manifestação do ser humano.

E em se tratando de manifestação do ser humano, através da música podemos


observar questões do inconsciente que não conseguem ser colocadas “para
fora” através da palavra pura e simplesmente, com a música, o despertar do
trauma adormecido pode dar vazão a uma catarse que faz com que o sintoma
se apresente e possa ser observado mais claramente e ser iluminado e
“tratado” da maneira mais apropriada. Em contato com seu próprio inconsciente
por vezes adormecido, o indivíduo pode observar se mais de perto e buscar a
formação da identidade que lhe falta para não mais buscar, através das drogas,
por exemplo, produtos que lhe alterem o estado de humor e de ânimo. O
tratamento de pessoas com dependência química utilizando a música é ainda
uma tendência inovadora, ainda que já a décadas se desenvolva em países
que mais precocemente utilizam tal técnica.

A música também é utilizada embora não descrita como “musicoterapia” em


inúmeras sociedades e tribos que buscam através da mesma um estado de
cura para os males do corpo e do espírito.

5. Música e saúde

“...ordenação estética, própria da


vida em seu processo contínuo de

13
SHAFER, Murray. O Ouvido pensante. – 2.ed.- São Paulo: Ed. Unespe, 2011. Pag. 13-24.

17
criação e destruição; esta ordem é a
música.”14

A música está presente em nossa vida desde antes do nascimento, ainda na


barriga de nossas mães estamos mergulhados em sons e movimentos, quando
viemos ao universo estamos diante involuntariamente do universo da música.
Como relata Benenzon, o mundo do feto é um mundo de vibrações (ritmo e
som, a vivência oceânica, citada por Freud e outros autores, torna o feto
sensível a rede de significantes desse rico universo, o fluxo sanguíneo, por
exemplo que o alimenta através do cordão umbilical; além deste, a voz interna
da mãe, movimentos intestinais, articulares, enzimáticos, respiratórios, sons de
gazes, paredes uterinas... tudo é som, fluxo, ritmo15

“A música pode ser definida como uma progressão sonora não linguística
organizada no tempo” assim inicia a definição de música de Borchgrevink, no
livro Música e Saúde organizado por Even Ruud. Segue atentando para o fato
da música ser um meio de comunicação, que transmite, como na maioria das
manifestações artísticas, a emoção. Tal expressão se dá geralmente de
maneira mais direta que através dos códigos verbais quando gera a
ressonância comunicacional no ouvinte, a partir da escuta da música e do
surgimento de impressões correspondentes através desta audição.16

O som, componente principal da música e que nos acompanha desde a vida


uterina até a morte, nos envolve e durante a nossa vida vai compondo a nossa
“paisagem sonora”. A sensação sonora pode impressionar e alterar o estado de
vida do ser humano, tanto de forma tátil como auditiva. Eles se compõem então
como elementos estruturantes como aponta Ligia Barcellos, se constituindo
como de extrema importância para o psiquismos fetal e desenvolvimento do ser
humano nas suas formas de perceber o meio ambiente.17

Segundo aponta Viviane Mosé em seu livro sobre as questões atuais e


problemáticas da atualidade, e porque não incluir as drogas nestas questões,
14
MOSÉ, Viviane. Nietasche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea – Petrópolis, RJ: Vozes,
2018, pag 97
15
BENENZON, R. O. Musicoterapia y Educación. Buenos Aires: Paidós, 1971, p 56.
16
BORCHGREVINK, H. M. at RUDD, Even Música e Saúde – São Paulo: Summus, 1991. Pag. 57.

17
BARCELLOS, 1992, 10-13

18
ainda que a mesma não trate deste assunto diretamente, Mosé cita Nietzche e
sua relação com a música como fator crucial no desenvolvimento da
humanidade.

“...Nietzsche não se dirige à arte musical propriamente dita, mas a uma


““melodia dos afetos””. Refere-se a uma língua originária, puramente sonora,
impossível de ser simbolizada, que seria o fundo de todas as coisas, o “querer
universal”.”18

Para Nietzsche o fluxo da vida é artístico, a vida é um fenômeno estético19

6. A música no tratamento de dependentes de Alcool e Outras Drogas


(AOD)

Segundo nos expõe Isabelle Frohne, o objetivo mais importante da


musicoterapia com pessoas dependentes de drogas é: - fortalecer as funções
do ego e construir uma identidade definida; - realimentar, preencher as
deficiências, diferenciar sentimentos e experiências e socializar o
comportamento.20 Com o ego desestruturado, o dependente busca nas drogas
uma tentativa de lhe dar prazer frente as angústias criadas por uma identidade
enfraquecida e um ego desestruturado.

Quanto mais as pessoas assumem sua identidade durante o processo


terapêutico, menos necessitam de drogas.

18
MOSÉ, 2018, 97
19
NIETZCHE, F O Nascimento da Tragédia. Op. Cit., af.5 “Pois só como fenômeno estético podem a
existência e o mundo justificar-se eternamente.”
20
FROHNE, Isabelle at RUDD, Even. Música e Saúde – São Paulo: Summus, 1991. Pag.46

19
Através da música o indivíduo expressa o que está acontecendo dentro de si e
nas relações do mesmo com o grupo de trabalho em casos onde as sessões
são em grupo. O término da terapia, segundo relata Frohne, pode ser
percebido quando o grupo tiver desenvolvido uma identidade dinâmica pessoal.
Os participantes, neste caso, devem estar aptos a interagir sem perder contato
com seus próprios sentimentos, conduzir o grupo e também ser conduzido,
sem cair em posições extremas como onipotência e inferioridade, devem estar
aptos a enfrentar a realidade.21

A música pode ser utilizada de diferentes formas dentre elas a improvisação, a


audição, a composição... A utilização de música gravada pode ser utilizada
com critérios de acordo com o objetivo que se pretende alcançar, no caso de
dependentes de Alcóol e outras Drogas, utilizei músicas que passam a
mensagem da recuperação e/ou da análise da vida de acordo com perdas e
motivações. Através da improvisação por outro lado podemos dar lugar a
qualquer coisa a partir da nossa criatividade. Segundo Barcellos, num sentido
muito amplo, improvisar é sinônimo de “brincar” musicalmente. Através da
utilização da improvisação pode se desinternalizar materiais e estruturas e
conhecer melhor aquele que improvisa.22

21
FROHNE, Isabelle in RUDD, 1991, 47
22
BARCELLOS, 1992, 26

20
7. Sexo, Drogas e Rock n´ Roll

“A música é feito a droga, cada um tem dela o efeito


que ele mesmo já porta. Dá um barato incrível e faz
o mesmo efeito – só faz o sujeito botar para agir o
que ele jé tem” (MDMagno, 1986, p106-7).

A música por si só já trás alterações do estado de consciência do indivíduo e


poderá ser utilizada de forma consciente como substituição ao consumo
desenfreado de drogas. Fantasia e realidade se encontram intimamente
ligados23, através de contato com tal dimensão, a dimensão do inconsciente
pode ser acessada, revelando o eu. “...a música é dotada de uma dimensão
onírica, inconsciente e sexual, o que possibilita acesso ao nosso eu.”(SEKEFF,
2007, 37)

“Se, no entanto, vivenciarmos a música na camada simbiótica de nossa


personalidade, ela terá uma função semelhantes a da droga, dando-nos a
ilusão de confluência e fusão entre o dentro e o fora.” (RUUD, 1991,47).

7.1 - A Música como alterador do estado de consciência.

A música pode ser usada, assim como as drogas, como um possante alterador
da consciência e do estado de percepção do mundo; portanto ela pode ser
usada no tratamento de dependentes de drogas como substituto para as
drogas e sua satisfação narcísica. Esse processo se da pois quanto mais os
pacientes assumem sua identidade durante o processo terapêutico, menos tem
a necessidade da droga. A música tem influência sobre a formação da
identidade do indivíduo e secundariamente sobre os problemas da droga.
Ainda que inicialmente segundo Isabelle Frohne a musicoterapia não influencie
o problema que originou o consumo de drogas, a partir da utilização da palavra,
estimulada pela música, pode se chegar a um estado de observação mais
apurado onde a música tenha partido como meio propulsor para se chegar a
palavra, no caso de uma análise verbal, e consequentemente localizar as
origens do problema que gerou o sintoma do uso abusivo de drogas. 24

23
SEKEF, 2007, 37
24
RUUD, Even. Música e Saúde. – São Paulo: Summus, 1991, pag 47.

21
A música tem potentes efeito no indivíduo e não deve ser dispensado o
conhecimento apurado das técnicas para utilização da música como benefício
para a saúde. Maria de Lourdes Sekeff nos aponta que hoje a música através
de seus sons, podem produzir efeitos alucinógenos, semelhantes a
determinadas drogas, obrigando nos a não dispensar o conhecimento e a
participação de especialistas na utilização da mesma com fins terapêuticos.25

A musicoterapia pode ser utilizada inicialmente apenas de forma funcional,


ouvindo música o que proporciona diversão e reduz a ansiedade.

“Ouvir música familiar, improvisar em conjunto de uma maneira agradável, que


garante apreciação, e todas as possibilidades da musicoterapia funcional
ajudam a desenvolver sentimentos de confiança e de compreensão entre os
componentes do grupo” (FROHNE, in RUDD,1991, 47)

7.2 Histórias trágicas na música marcadas pelo uso abusivo de Álcool e


outras drogas.

Não foram poucos os artistas que, fazendo-se valer das drogas como alterador
do estado de ânimo, percepção e abstração, para atuar em suas
apresentações ou compor suas obras, caíram nas garras da adicção ativa, ou
seja, a dependência ou uso nocivo de substâncias. No mundo da arte,
romanticamente falando, pressupõe-se que o artista tenha uma espécie de aval
para o consumo de tais substâncias. No entanto seria um erro pressupor que
seria necessário consumi-las para dar origem a criatividade que lhes possibilita
a criação de suas obras. A droga pode sim abrir determinadas portas de
percepção, mas ora abertas podem desencadear o consumo abusivo para que
tal sensação não sesse e cada vez mais serão utilizadas quantidades cada vez
maiores para alcançar os objetivos almejados.

Não gostaria de citar nomes, neste estudo, evito citar nomes tanto de pessoas
que tiveram seus trágicos finais de vida associados ao consumo de drogas
quanto dos pacientes, clientes, os quais atendi durante os estágios com a
musicoterapia. Penso que o anonimato é fundamental neste tipo de análise e
mesmo em se tratando de um objeto de análise e estudo, a figura do indivíduo
deve ser preservada e sua história pessoal mantida em sigilo.

25
SEKEFF, Maria de Lourde. Da música, seus usos e recursos – 2ªed. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

22
Casos de overdose, afogamentos, suicídios... não foram pouco ligados ao
consumo abusivo de drogas no meio artístico, tanto em nosso país como no
mundo afora.

A busca por ajuda, por exemplo nas Irmandades de mútua ajuda como
Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos tem sido a alternativa de
encontrar um caminho de recuperação para muitos adictos que tentam largar
as drogas. A partir de uma internação, por exemplo, é sugerido que o paciente
tenha contato com tais grupos quando tenha alta para tentar continuar o
vínculo da recuperação não se distanciando do seu passado e da sua história
que o levou ao consumo desenfreado de substâncias.

Segundo Ligia Barcelos, é importante ressaltar que os sons musicais


aproximam as pessoas, levando os homens a se agruparem, a sentir uma
empatia entre si.26 Tal empatia se dá entre uma relação das paisagens
sonoras.

Afastar-se da música e optar pela razão foi o caminho que o homem cada vez
mais trilhou em sua jornada civilizatória. E este parece ser para Nietzsche o
maior dos erros. A razão organiza, mas não manifesta a vida. Se o princípio da
vida é este jogo interpretativo, artístico, estético, é a arte e não a razão que
tornam a vida possível. E a música é a maior das artes. Sem a música, ele diz,
a vida seria um erro.27

26
BARCELLOS, 1992, 17.
27
NIETZSCHE. F, Crepúsculo dos ídolos. Op., “Máximas e flechas”, af. 33.
----------------- MOSÉ, Viviane. Nietzsche Hoje, sobre os desafios da vida contemporânea. – Petrópolis, RJ :
Vozes, 2018. Pag. 99.

23
8. As experiências da musicoterapia no sistema público de saúde
CAPES

Durante esta pesquisa tive contato com a oficina de musicoterapia que


acontece a praticamente uma década no Centro de Atenção Psicossocial Mané
Garrincha, no Rio de Janeiro, bairro do Maracanã; lá funciona a roda de samba
que se utiliza da musicoterapia como forma de resgatar o contato do indivíduo
consigo mesmo e com os demais membros da sociedade.

A roda de samba se desenvolveu e o grupo passou a fazer apresentações em


inaugurações de projetos da prefeitura; nesse momento segundo o
Musicoterapeuta Vinícius relatou, os participantes da oficina resgatam parte de
sua autoestima fragilizada e podem estar de volta em contato com o mundo,
por vezes em eventos que até mesmo são servidas bebidas, sem deixar que
sua doença se manifeste e que qualquer estado de descontrole pessoal se
apresente. Segundo o terapeuta relatou, através da musicoterapia pode se
alcançar estágios de evolução do tratamento que as práticas convencionais de
psicologia e psiquiatria não conseguem alcançar.

“A droga conduz a uma regressão a fase prática, em que sentimentos de


onipotência surgiram aliados a sentimentos de inferioridade, ansiedade de
separação e depressão. A medida que o efeito da droga diminui, a decepção
em relação ao mundo decepcionante aumenta, e o circulo vicioso se reinicia
com o uso da droga”

24
9 - ANEXO I – Algumas das minhas experiências da musicoterapia em clínicas
de recuperação Patter Aldeia e Espaço Clif.

Alguns relatórios de estágio nas Instituições Patter Aldeia e Espaço Clif

1- Utilização de Instrumentos de percussão e regência dos participantes.

Nesta atividade foram distribuídos instrumentos de percussão e cada


participante criou uma célula rítimica. Os instrumentos disponibilizados foram o
chocalho, uma conga portátil, um agogô, um par de maracas, ganzás de palha,
triângulo, apitos de pássaros, pandeiro, tamborim e um xilofone de uma oitava.

Estavam presentes cinco pessoas e os instrumentos escolhidos foram a conga,


o pandeiro, as maracas, o ganzá e o xilofone. Foi proposto que cada um
desenvolve se uma ideia e imaginasse para não esquecê-la. Cada um mostrou
para o grupo o seu padrão rítmico envolvido. A partir daí já estávamos
desenvolvendo o potencial de criação e o desenvolvimento da memória.

Alguns dependentes químicos tem sua memória afetada e o fato de


praticarmos a memorização de um padrão rítmico propiciou a conscientização
da necessidade de reabilitá-la. Além desse fator positivo do trabalho observei
também que o fato de utilizarem a criatividade para criar proporcionava ao
indivíduo uma sensação de empoderamento. Alguns mencionaram não ser
capazes de criar nada e a partir do estímulo da atividade e do incentivo dos
participantes perceberam poder dar forma, dar vida, a partir do som, de uma
nova existência, uma criação, uma música.

Uma participante chegou a se emocionar dizendo que não sabia que poderia
criar nada; tal fato me fez perceber também a possibilidade a partir da atividade
de fortalecer a auto estima dos que participaram da atividade.

Após cada um mostrar a sua música percussiva para o grupo e memoriza-la


passamos tocar em grupo, cada um entrando a partir do início de seu
precedente; iniciou-se um trabalho que me levou a observar uma outra

25
característica do trabalho, o desenvolvimento do trabalho em grupo e da
participação da criação coletiva; tal fase propiciou um fator de socialização que
também vem a ser uma dificuldade para o paciente de dependência química
que no estágio avançado da doença já se encontra muitas vezes
absolutamente isolado e a parte do convício social.

Passamos então a segunda etapa do trabalho, a regência. Combinamos que


cada um seria o regente e a tarefa seria conduzir a entrada e saída de cada
instrumento bem como a altura que cada um deveria ser tocado. Mais uma vez
alguns pacientes foram relutantes na possibilidade de fazer tal ato, no entanto
a partir da conquista da motivação todos fizeram parte e se sentiram
participantes de um grupo orquestral de percussão, como comentou um dos
participantes ao final da tarefa.

A partir da regência pode-se desenvolver o respeito e a consideração de cada


um no grupo, pois por vezes os pacientes de uma clínica de recuperação
podem não simpatizar com um ou outro, mas pelo fato de serem estimulados a
colocar cada um do grupo na estrutura do trabalho um clima de respeito mútuo
foi estabelecido e as possíveis antipatias eram dissolvidas pela demanda de
utilizar o instrumento que o participante estava disponibilizando ao grupo.

A partir daí percebemos em grupo a ideia de que cada um pode oferecer o que
de melhor tem ao grupo. Durante a regência, as dificuldades ficaram mais no
que se refere a controlar a dinâmica do grupo. O retirar e colocar cada
participante, silenciando o ou solicitando que o mesmo retornasse a tocar era
tarefa mais acessível do que controlar a altura dos instrumentos. No entanto a
partir daí pode-se perceber o estado de humor de cada participante bem como
o estado alterado de alguns. Tanto no que se refere a regência como no que se
refere a participação tocando, alguns não conseguiam seguir a proposta do
aumentar ou diminuir a altura do instrumento. Alguns tocavam sempre alto e
outros, sempre baixo.

Paramos para conversar sobre isso e numa nova tentativa obtivemos maior
sucesso. Um clima de felicidade se instaurou, como se estivéssemos evoluindo
na criação musical e na percepção auditiva. A atividade nessa etapa
proporcionou o respeito ao grupo pois percebemos que o conceito de alto e

26
baixo estava diretamente relacionado ao parâmetro que cada um estabelecia
junto ao grupo. Ou seja, qual a altura média que nos basearíamos para a partir
daí definir quando tocar mais alto ou quando tocar mais baixo. A partir dessa
definição optamos por definir três estágios, baixo, médio e alto. O tempo que
cada um ficou como regente foi variável de acordo com a empolgação e a
vontade de participação de cada um, no entanto observei um padrão médio em
que todos ficaram mais ou menos o mesmo tempo na função de regente do
grupo.

Uma participante que ficou pouco tempo na regência foi motivada pelos demais
companheiros a continuar e a mesma aceitou a proposta e seguiu por mais um
tempo. Houve também aquele que se alterava praticamente na função da
regência, principalmente simbolizando o som alto, que combinamos ser com os
braços para o alto. Alguns gesticularam com intensidade, pedindo mais, mais...
conversamos sobre isso e chegamos a conclusão de uma característica do
adicto de querer sempre mais e um dos praticantes disse ter percebido isso
nele, que quando ele começou foi se envolvendo e não queria mais parar...

Optamos então por parar, achamos que a atividade tinha sido concluída e que
a partir daquele comentário seria uma boa observarmos o momento de parar a
música. Conversamos sobre o silêncio, sobre as pausas e sobre os momentos
da vida em que é produtivo parar, nos mantermos quietos e atentos ao que
está se passando ao nosso redor. Um participante trouxe a percepção do
caminho do meio e disse que os momentos em que ele se sentia mais a
vontade eram quando estávamos tocando na altura média. Refletimos sobre
isso e percebemos como é positivo seguirmos a vida sem grandes alterações,
mas como também é necessário estarmos aptos a dar conta das demandas de
sermos mais incisivos, tocarmos mais alto, ou sermos mais cautelosos,
tocarmos mais baixo.

Fizemos uma última apresentação com um regente que foi escolhido pelo
grupo como aquele que tinha melhor exercido tal função. Tal atitude gerou uma
sensação de humildade no grupo.

27
Relatório de estagio Espaço Clif

2 - composição de letra de música a partir de primeiro trecho de música já


existente.

Nesta atividade utilizamos a primeira estrofe da música Eduardo e Monica do


Legião urbana e a partir dele cada participante desenvolveu a sua própria
história do casal eternizado pela música. O texto era o seguinte:

“Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar


Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram...”

A partir daí o participante teria um minuto para começar a redigir a sua história
e a partis daí seria interrompido e passaria a folha para o companheiro do lado
esquerdo; assim cada um continuaria a história criada até o momento da sua
folha voltar a sua mão. Foram um total de 6 participantes.

Observei a dificuldade em se trabalhar a criatividade a partir de uma


proposição de um terceiro e isso foi importante no que se refere ao
desprendimento do egocentrismo característico da doença da adicção; o tempo
não era exatamente um minuto, eu variava o tempo entre trinta segundos e
dois minutos para testar a criação sobre pressão e o lidar com o tempo.

Ao final conversamos sobre a experiência e foi incrível como todas as historias


citavam a questão da adicção, talvez influenciados pela frase que remetia a
mônica tomar um conhaque; no entanto a historia poderia seguir para qualquer
rumo e os caminhos traçados foram em geral os caminhos de trágicos
momentos ligados ao consumo abusivo de drogas, traições, busca de ajuda e
recuperação, Alcoólicos Anônimos... A partir daí escolhemos uma dentre as
seis músicas para musicar e cantar com a melodia da original; dentre as
escolhidas uma delas tinha um caráter métrico e poético bem propício para ser
cantada como a música Eduardo e Mônica original.

3 - Utilização de artista e palavras do final de semana para busca de música no


youtube

28
Nesta atividade utilizamos sensações e sentimentos ligados ao final de semana
dos pacientes. Em geral o final de semana é muito intenso, seja porque o
paciente foi para sua casa, deixando a internação, seja porque ficando na
internação passa por dias mais tediosos e com menos atividade que são
características do final de semana. Foi solicitado que cada um colocasse no
quadro 3 palavras ligadas ao seu final de semana.

Conversamos sobre as palavras e os sentimentos e sensações ligadas as


mesmas. Foram colocadas as seguintes palavras. Participante 1 – Saudade,
lar, felicidade; Participante 2 – Chamego, saudade, desilusão; Participante 3 –
Cárcere, Solidão, descontentamento; A partir daí cada participante escolheu
um artista para relacionar a uma palavra e colocar no youtube para ver que
música era apresentada nas relações desse artista com tal palavra; ouvimos
juntos as músicas, conversamos sobre as idéias das músicas e até que ponto
ela ainda estava relacionada ao sentimento que o participante propôs. Por
exemplo em uma das músicas escolhidas, do cantor rapper Shawlin, em dado
momento o mesmo citava fumar um “baseado” e o paciente se sentiu
constrangido, disse que não lembrava que tinha aquela parte da música e que
nesse caso ele não se identificava com essa parte da letra.

Relatório estágio Patter Aldeia

4 - Nesta atividade cantamos a música “Tente outra vez” de Raul Seixas.

Muitos adictos tem uma relação direta com o “maluco beleza” portanto utilizar
uma canção de Raul foi muito empolgante até porque a escolhida pelo grupo
foi uma canção de cunho motivacional e despertou muitas reflexões no grupo.

Distribuí os instrumentos de percussão, cada um escolheu o seu, e eu fiquei ao


violão, cantamos duas ou três vezes a música toda e paramos para conversar.
Primeiro perguntei a cada um o que gostaria de tentar outra vez? A maioria das
respostas se remeteram a uma vida nova, com dedicação e entusiasmo a algo
fora das drogas...

A segunda pergunta foi: o que você não gostaria de tentar outra vez? E as
respostas foram diversas cada um em sua história de vida, em geral trágica e
cheia de situações constrangedoras e prejudiciais a si próprio e aos outros.

29
Estávamos em quatro participantes e um senhor contou uma história de como
perdera sua família, se separando de seus filhos e esposa e disse ser a
primeira vez que contava aquela historia para alguém.

A música tem esse poder, liberar os constrangimentos e despertar os


sentimentos de renuncia e ressignificação. Cantamos novamente a música
duas ou três vezes, todos acompanhando em seus instrumentos de percussão
e cantando. Alguns se emocionaram, demos fim a atividade com a certeza de
que sempre é possível tentar outra vez...

5 - Nesta atividade cantamos a música “É preciso saber viver” de Roberto


Carlos.

Cantar é preciso saber viver foi intrigante com o grupo de dependentes


químicos. A priori, os mesmos tem uma visão de mundo e de si como aqueles
que não souberam viver ou souberam viver de uma forma que não
conseguiram adquirir sucesso em suas vidas. A dinâmica da atividade foi
similar a outra onde utilizamos o violão e os outros instrumentos de percussão.

Eu ao violão e os demais participantes tocando percussão, entoamos em auto


e bom tom a música já conhecida por todos, até porque fora regravada pela
conhecida banda Titãs, não bastasse já ser de autoria do famoso cantos e
compositor Roberto Carlos. Após cantarmos algumas vezes, paramos para
conversar sobre o tema da música. É preciso saber viver, sim isso é fato, mas
onde os dependentes químicos tropeçaram em suas vidas permeada pela
adicção ativa? Onde, quando e porque perderam o caminho de formação de
suas identidades?

Com a utilização da música podemos observar o que está acontecendo dentro


do grupo e dentro de cada indivíduo, como aponta Isabelle Frohne, “ a música
nada mais é que do que a expressão do que aconteceu e se desenvolveu
dentro do grupo e dentro dos indivíduos.” Seguindo no pensamento da autora,
os participantes devem estar aptos a se comunicar e a interagir sem perder
contato com seus próprios sentimentos; devem estar aptos a conduzir o grupo,
mas também a ser conduzidos por alguém sem cair em posições extremas,

30
como onipotência ou inferioridade.28 A partir dessa proposição descrita por
Frohne, a minha proposta junto a oficina fora que cada um cantasse sozinho
uma vez a música acompanhada dos demais companheiros tocando os
instrumentos. A princípio houve uma dificuldade de alguns, medo? Timidez?
Ou dificuldade de se colocar frente ao grupo? Expor sua identidade através da
música? Com isso o paciente é estimulado a colocar a sua voz em pauta, expor
o seu dizer através da sua própria manifestação sonora; dar valor a sua voz.

Meu medo nesse momento foi estar gerando ansiedade no grupo posto que
segundo a autora anteriormente citada, “a terapia de grupo deve proporcionar
diversão e ansiedade. Ouvir música familiar, improvisar em conjunto de
maneira agradável, que garanta apreciação, e todas as possibilidades de
musicoterapia funcional ajudam a desenvolver sentimentos de confiança e de
compreensão entre os componentes do grupo.29

6 - Conversar a partir de instrumentos musicais.

Nesta atividade cada um escolheu um instrumento, tínhamos instrumentos de


percussão diversos, um xilofone, um violão e uma flauta doce; a idéia era
passarmos o todo da atividade conversando através dos instrumentos, não
poderíamos falar utilizando a nossa voz a não ser que fossem gruídos ou
vocalizações não verbais...

A princípio houve uma dificuldade de entendimento, eu naturalmente sabia que


de início haveria este entrave, no entanto insisti na proposta, como? Não
respondendo mais a eles a perguntas de como assim? Mas como devo fazer?
Se isso estaria certo ou errado? Enfim, eu respondia, mas com o auxílio do
pandeiro que foi o instrumento que eu escolhera... frente a qualquer das
perguntas que me foram feitas eu respondia com toques no pandeiro,
sacudidelas, ritmos... gargalhadas, reclamações foram ouvidas e eu acentuava
o pandeiro como dizendo, - sem palavras, vamos aos sons, aos ritmos...
éramos quatro participantes, um escolhera a flauta, outro o xilofone e um
terceiro uma conga portátil... entraram no clima da dinâmica e não mais
falamos uma palavra sequer durante aproximadamente 40 minutos... houveram

28
FROHNE, Isabelle at RUDD, Even. Música e Saúde – São Paulo: Summus, 1991. Pag. 47.
29
Id. af. 47

31
momentos de silêncio de calmaria, até que alguém me perguntou, podemos
acabar? E eu não respondi, mas comecei a tocar um ritmo no pandeiro, ou
seja, a atividade continuava e a fala não era bem vinda... nesta dinâmica
trabalhamos a forma de se expressar através de comportamentos não verbais,
além de nos incluirmos em atitudes de submissão as regras, nos colocando
como participantes ativos dentro dos contextos estabelecidos pelo que fora
determinado anteriormente.

Como o dependente químico em geral tem dificuldade em obedecer as regras e


fazer algo que rompa com sua vontade própria, a atividade foi positiva,
segundo constatamos num encontro na semana posterior, pois nesta semana,
até o momento da despedida foi feita através do toque dos instrumentos e não
com as palavras verbais convencionais.

7 - músicas de fases da vida

Nessa atividade buscamos através de escolha pessoais de cada participante,


listar uma série de músicas que remetesse a história de vida do partipante.
Inicialmente começamos por uma versão mais simples da atividade que pode
se transformar em uma versão mais complexa. Inicialmente falamos sobre
apenas três assuntos, a infância, a adolescência e a fase adulta. Contudo em
outra atividade numa semana posterior, fomos aumentando as escolhas das
músicas, uma música que lembre o meu pai, uma música que eu não gosto,
uma música que lembre um amor que tive, uma música que eu gosto
atualmente e por assim vai...

Foi importante perceber como a música da infância remete a momentos


prazerosos e distantes das dificuldades que o indivíduo viria a passar e como a
música da adolescência por vezes já prenunciava uma relação de uso abusivo
de drogas, na fase adulta, algumas músicas remeteram a nostalgia e vontade
de retornos a momentos de paz e acolhimento.

8º O recarregar de baterias

Nas oficinas de musicoterapia da Espaço Clif, o principal objetivo segundo o


responsável pela atividade seria o “recarregar de baterias”; nesta atividade
cantamos música e tocamos instrumentos de persussão, piano e violão;

32
geralmente o responsável pela atividade, José Horácio é quem conduz as
músicas ao piano, mas já houve situação em que um paciente pediu para tocar
ao piano a música tema do filme Titanic... Em outra situação um outro conduziu
ao violão uma música composta por um grupo de pacientes.

Em geral são músicas de todo tipo, rock, samba, MPB e até mesmo
internacionais... Não há um feedback ou conversa com os pacientes sobre os
sentimentos, sobre a atividade, sobre a letra da música, o que a princípio me
estranhou um pouco pois eu esperava poder dar mais ao paciente podendo lhe
colocar em contato com o que a música desperta nele e a princípio ele pode
não perceber sozinho sem o auxílio terapêutico de um profissional. Mas falando
sobre isso com Horácio ele me explicou que naquele momento o objetivo seria
outro, deixar que a música por si só exercesse este papel, já que na internação
os paciente já teriam outras oportunidades de verbalizar suas histórias e
angústias em outras atividades com auxílios de outros profissionais, psicólogos
por exemplo.

Com o tempo Compreendi que através da escuta poderíamos dizer sem revelar
e calar pelo que mostra, como disse Sekeff, não existe música inocente,
através da escuta musical, o contato com o jogo poético da linguagem, permite
ao ouvinte que o mesmo se revele na escuta sem que ele mesmo se dê
conta.30

“(...) na aparente assignificação da música, marcada por repetições e


diferenças que aí se inscrevem, ouve-se um discurso de sentido, no qual o
receptor toma a palavra traindo sempre algo do inconsciente que sua escuta
revela e oculta.” (SEKEFF, 2007, 25).

Através desse processo o ouvinte remonta um contato consigo mesmo,


desenvolvendo plurais sentidos ali expostos no jogo de som/silêncio; através
desta ambiguidade de apreensão do real, também o ouvinte realiza um
encontro consigo mesmo, posto que a música não diz, mas apenas mostra.31

9 - O atendimento do paciente J.

30
SEKEFF, Maria de Lourdes. Da Música, seus usos e recursos. -2.ed. – São Paulo: Editora UNESP, 2007.
Pag.26
31
SEKEFF, 2007, 27

33
O referido paciente tinha problemas com o consumo de maconha, droga
aparentemente tida como “leve” e que tem trazido inúmeros casos de distúrbios
e comorbidades psiquiátricas. J. entrou calado e falando entre os dentes, sem
abrir a boca... enquanto explicávamos a atividade, J balbuciou alguma coisa,
perguntamos “o que foi J.”? ele respondeu: “-vou surtar!” Perguntamos se ele
queria tocar um violão para relaxar, instrumento que o mesmo já tinha trazido
para a clínica. Perguntou qual música queríamos que ele tocasse, e sugerimos
que ele tocasse as que ele soubesse, então o mesmo pegou um livro de cifras
da banda Red Hot Chilli Peppers e começou a tocar umas músicas e eu o
acompanhei ao Cajon e ao Bongo...

Em uma música ele parou e disse que não lembrava, eu sugeri que
buscássemos o vídeo no youtube, no celular e assim o fizemos... Ele ficou
compenetrado no vídeo um tanto estranho e eu fiquei um pouco preocupado,
comecei a tocar a Cajon no intuito de incentiva-lo a tocar também junto com o
vídeo, no entanto o mesmo continuo com olhos vidrados no vídeo mas
começou a cantar baixinho, o que achei positivo... ao final da música voltamos
ao livro de cifras e J. disse que sabia tocar varias das músicas e eu perguntei
porque ele dizia no passado, sabia, e não sabe mais... ele respondeu que tinha
parado a muito tempo e eu perguntei porque, ele disse que quando começou a
usar drogas ficou sem motivação e eu disse que sabia o que era isso, já havia
passado por isso e que tinha um nome se chamava síndrome amotivacional... o
mesmo se sentiu bem por eu entender a ele, e eu disse que isso era possível
de ser revertido, que ele poderia usar a criatividade que tinha para tocar para
buscar novos caminhos em sua vida e deixar a droga de lado... o mesmo se
emocionou, pediu para sair... perguntou se poderia levar a palheta que fizemos
juntos (pegamos um cartão de crédito velho e cortamos para fazer uma palheta
para o violão... ) senti que J. se sentiu acolhido, ele deve ter aproximadamente
20 anos (17 anos), ainda tem um longo caminho de vida pela frente e sem
dúvida a maconha fez um estrago no desenvolvimento da música que ele
carrega como talento mas que fora interrompido pelo uso abusivo da maconha
e possivelmente outras drogas... O mesmo demonstra ser um profundo
conhecedor das técnicas de plantio e cultivo o que leva a crer que seu
interesse ficou restrito a área relacionada a drogadição.

34
10 - segundo atendimento de J.

Passei pelo pátio da clínica e chamei J. para tocar um violão, ele estava
acompanhado do pai pois na clínica menores de idade devem ter um
acompanhante permanentemente. Começou a tocar Starway to Heaven no
violaõ e eu o acompanhei no Cajon, ele abriu um sorriso ao final, já parecei
melhor um pouco, mais animado, mais motivado, já tinha uma paleta nova, a
antiga feita de cartão de crédito não precisava mais ser utilizada... um sinal de
que alguém de fora da clínica trouxera para ele a paleta, possivelmente um
familiar, ou o terapeuta Antonio; ao final da música perguntei a ele se sabia
tocar outra do Led Zeppelin e ele puxou Imegrated Song, tocamos juntos... ao
final ele parou e eu sugeri que ele compusesse uma música ali na hora,
exercitando a parte de composição, através de uma improvisação livre, afinal,
como menciona Lia Rejane: “Quando, por fim, não encontramos nas músicas
existentes, aquilo que queremos expressar, temos ainda a nossa criatividade
para nos ajudar.”32 Então veio o grande acontecimento da atividade, J.
começou a compor uns acordes ao violão e o estimulei a cantar e ele não
demorou a começar a soltar as primeiras palavras... “ estou aqui cantando...
cantando e improvisando...” foi seguindo até que: “... eu lembro da sequela,
porque eu gosto dela...” e repetiu a frase sem sessar... quando paramos eu o
interroguei sobre o gostar da sequela, e o motivo pelo qual ele havia construído
tal frase... ele disse que não conseguia viver sem a droga, afinal, sequela é
uma expressão utilizada quando se está em estado semelhante a um estado
de sedação e dopagem... eu disse que seria possível sim ele viver sem a droga
e que a música o iria ajudar; que ele deveria investir na música ao invés de
investir na droga... ele pediu para parar de tocar, guardar o violão, senti que o
tema tocou ele... interessante perceber que J. está melhorando mas não
consegue perceber que se voltar a usar piorará novamente, não consegue
associar a sua melhora a abstinência que está passando... sugeri a ele uma
escola de Música, a Villa Lobos, saímos da sala e conversei com o pai dele,
falei do talento de seu filho e sugeri novamente agora ao pai uma uma escola
de música para o filho canalizar as energias e viver longe das drogas.

32
BARCELLOS, 1992, 26

35
11 - Cantando a capela...

Nesta atividade sugeri que cada participante escolhesse uma música que
soubesse a letra de cor. Primeiro conversamos sobre a escolha das músicas,
aparentemente sem sentido, a escolha das músicas pode ter por detrás muito
da história de cada um e pode inclusive apresentar aspectos da drogadição
que não estão a mostra conscientemente. E não poderia ser diferente, foi o que
aconteceu. Por exemplo a participante S. disse que não sabia nenhuma música
de cor e falou meio ironicamente e provocativamente que escolheria “atirei o
pau no gato”33; eu lhe disse que não teria problema, que se esta fosse a
música escolhida por ela estaria tudo bem... No momento de analisarmos o
porque da escolha da música S. disse que apesar de ser uma música infantil
ela tinha percebido uma outra leitura para a música. A gíria “tiro” pode ser
usada como consumir cocaína, “dar um tiro”, “dar um teco” são gírias utilizadas
para dizer cheirar cocaína... ela disse que atirar o pau no gato para ela era
utilizar a cocaína e o gato, a substância, nunca morre, está sempre presente na
vida dela... a mesma disse que no dia anterior tinha tido muita vontade de usar
e não tinha ido a primeira dose por conta da ajuda que o marido lhe dera em
evitar o uso da substância... uma outra música escolhida, por K. “Minha
história”, versão de Chico Buarque34, parecia uma música que como a
participante mencionou, lhe trazia aspectos de lembrança de seu pai, músico,
que a princípio não gostava daquela música... foi quando um outro participante
fez uma indagação, F. disse, mas a música diz “cheirava”, K. relutou e disse
que o mesmo estava surdo e não tinha entendido nada da música... no entanto
a letra realmente diz “Ele vinha sem muita conversa sem muito explicar / Eu só
sei que falava e cheirava e gostava de mar”, ao colocarmos a letra para ouvir
na versão gravada, fizemos isso com todas as músicas após cada um cantá-la
sozinho, K. ficou surpresa e continuou indagando que aquele cheirava não
tinha nada a ver com o cheirar da cocaína... enfim, não podemos afirmar se sim
ou se não, somente o autor da música poderia nos dizer, no entanto aparecer
esta frase na música escolhida pode dizer muito do que o inconsciente está
apresentando através da escolha da música... Uma outra música escolhida foi

33
Música do cancioneiro popular
34
Composição de Chico Buarque / Lucio Dalla / Pallottino

36
“Meu Erro”35 dos Paralamas do Sucesso, F., com sérios problemas de
cognição, não lembrou a música toda, não conseguindo dar conta da proposta,
mas isso não era um problema, cantamos juntos a música após coloca-la na
versão gravada e conversamos cobre qual seria o erro de F., o mesmo se
referiu a uma escolha mal feita em um relacionamento, já que a música tratava
desse assunto, no entanto, podemos perceber outras tantas escolhas erradas
que o adicto faz quando da necessidade insuportável que sente de se drogar...

35
Meu Erro composição Herbert Vianna

37
10 - Bibliografia

FIGLIE, Neliana Buzi. Aconselhamento em dependência química / Neliana Buzi


Figllie, Selma Bordin, Ronaldo Laranjeiras – São Paulo: Roca, 2004.

MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea /


Viviane Mosé.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

RUUD, Even. Música e Saúde; [tradução de Vera Bloch Wrobrl, Glória Pascoal
de Camargo, Mirian Goldfeder].- São Paulo: Summus, 1991.

SHAFERS, R Murray. O Ouvido Pensante; [tradução de Marisa Trench de O.


Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva, Maria Lúcia Pascoal; revisão técnica de
Aguinaldo José Gonçalves.- 2.ed. – São Paulo: Ed. Unesp, 2011.

LARANJEIRA, R. NICASTRE, S. Abuso e dependência de álcool e drogas. In:


ALMEIDA, O., DRACTU, L., LARANJEIRA, R. Manual de Pasiquiatria. 1. Ed.
Rio de Janeiro: Guanabara & Koogan, 1996. Cap 7, p. 83-112.

CAZENAVE, S. Banisteriopsis caapi: ação alucinógena e uso ritual. Rer. Psiq.


Clin. 27(1):32-35, 2000.

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----------------. Teoria da musicoterapia. São Paulo: Summus, 1988.

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