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SISTEMAS DE PROTEÇÃO CONTRA QUEDAS NA MONTAGEM DE TELHAS

AUTOPORTANTES - ESTUDO DE CASO

Ismael José Basso*

RESUMO
O objetivo deste estudo é investigar os procedimentos de instalação e utilização de
sistemas de proteção contra quedas na montagem de coberturas com telhas do tipo
autoportante, analisando os riscos envolvidos na atividade. De acordo com dados do
Observatório Digital de Saúde e Segurança no Trabalho, entre os anos de 2012 e
2017 foram registradas 1.319 mortes acidentárias em que o agente causador
apontado foi a queda de altura. Entre as principais causas dos acidentes está a
inobservância do uso de dispositivos de proteção coletiva e individual previstos nas
normas técnicas e normas regulamentadoras disponíveis. De forma a garantir a
segurança e a saúde dos trabalhadores envolvidos em atividades de trabalho em
altura superior a 2,00 m (dois metros) do nível inferior foi elaborada pelo Ministério do
Trabalho e Emprego a Norma Regulamentadora de Nº 35 (NR-35) que estabelece os
requisitos mínimos e as medidas de proteção para esta atividade. A metodologia
aplicada foi o estudo de caso envolvendo uma obra executada entre os anos de 2017
e 2018 no município de Cotia SP, onde buscou-se verificar as técnicas utilizadas nos
serviços e sua conformidade com o preconizado na NR-35. Como resultado foram
observadas particularidades na montagem deste tipo de cobertura que normalmente
elevam o fator de queda para o nível 2, requerendo maior atenção na elaboração de
procedimentos de segurança e execução das atividades.

Palavras-chave: Proteção contra quedas. Telhas autoportantes. Acidentes. Quedas.

FALL PROTECTION SYSTEMS IN THE MOUNTING OF SELF-SUPPORTING


ROOFS - CASE STUDY

ABSTRACT
The objective of this study is to investigate the procedures of installation and use of a
fall protection system in the assembly of a self-supporting roofs, analyzing the risks
involved in the activity. The Observatório Digital de Saúde e Segurança no Trabalho
(Digital Observatory of Health and Safety at Work) recorded 1,319 accidental deaths
between 2012 and 2017 in which the causative agent was the height of the fall. Among
the main causes of accidents is the non-observance of the use of collective and
individual protection devices provided for in the technical standards and regulatory
standards available. In order to guarantee the safety and health of workers involved in

*BASSO, Ismael José. Engenheiro Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Responsável técnico da empresa Multiporte Industrial Ltda desde 2005. E-mail: ismael@basso.eng.br.
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work activities at a height of more than 2.00 m (two meters) from the lower level, the
Ministério do Trabalho e Emprego (Labor and Employment Department) prepared the
regulatory norm No. 35 (NR-35), which establishes the minimum requirements and
protective measures for this activity. The methodology applied was the case study
involving a work executed between 2017 and 2018 in the city of Cotia SP, where it was
sought to verify the techniques used in the services and their compliance with the one
recommended in NR-35. As a result, particularities were observed in the assembly of
this type of cover, which normally raise the fall factor to level 2, requiring more attention
in the elaboration of safety procedures and execution of the activities.

Keywords: Fall protection. Self-supporting roofs. Accidents. Falling.

1 INTRODUÇÃO

De acordo com a procuradoria-geral do Ministério Público do Trabalho (2018),


desatenção, falta de equipamentos de segurança e inobservância das leis fazem do
Brasil o quarto colocado no ranking de países com mais acidentes de trabalho. As
áreas da construção civil e o setor de serviços lideram as estatísticas acidentárias,
não por coincidência, os setores que empregam os trabalhadores com menor
instrução e treinamento.
O serviço de montagem de telhas autoportantes está inserido no universo das
empresas do ramo de construção civil que executam atividades de trabalho em altura
com diferença de nível, exigindo atenção especial aos sistemas de proteção contra
quedas de trabalhadores.
Com o objetivo de resguardar a saúde e integridade dos funcionários
envolvidos na montagem de telhas autoportantes, empresas devem seguir
rigorosamente os critérios mínimos estabelecidos na NR-35. É preciso verificar se o
que está estabelecido em procedimentos e normas está sendo plenamente aplicado
no campo de trabalho.
O estudo busca investigar métodos e procedimentos de segurança aplicados
na montagem de telhas autoportantes, identificando pontos que possam representar
riscos aos trabalhadores durante a execução das atividades, em especial,
relacionadas aos sistemas de ancoragem e utilização de equipamento de segurança
individual no trabalho em altura.
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Os acidentes de trabalho geram prejuízos tanto financeiro como psicossociais


que podem representar o fim de empresas e de famílias. Nem os administradores,
tampouco os trabalhadores são agentes livres, sendo que o acidentado é quem
amarga com as consequências que muitas vezes são irreparáveis, como dores e
inabilitações decorrentes de lesões. Dá-se aí a preocupação de se estudar e investir
em ferramentas que garantam o trabalho seguro em altura.
A metodologia aplicada foi o estudo de caso de uma obra de substituição de
cobertura e contou com o apoio de empresa do ramo para coleta de informações e
esclarecimentos relevantes ao trabalho em altura na montagem de telhas
autoportantes. O trabalho teve em sua fase inicial uma pesquisa com levantamento
bibliográfico para aprofundamento do tema, norteada pela literatura específica da
Norma Regulamentadora de Nº 35 - Segurança e Saúde no Trabalho em Altura.

2 ACIDENTES DE TRABALHO

Por décadas profissionais da área de segurança do trabalho estudam e


debatem formas de reduzir os riscos das atividades laborais objetivando metas de
zero acidentes na execução destas atividades. Apesar do conceito de que todo
acidente pode e deve ser evitado as estatísticas demonstram que a prática e a teoria
ainda estão muito distantes.
O art. 19 da lei nº. 8.213 de 24 de julho de 1991 disciplina in verbis:
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a
serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do
trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei,
provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a
perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
(BRASIL, 1991).
Os acidentes de trabalho são classificados de duas formas, a doença
profissional e a doença do trabalho. A doença profissional é originada pelo exercício
próprio das atividades que o trabalhador exerce, enquanto que a doença do trabalho
é causada pelas condições especiais em que o trabalho é realizado, muitas vezes
ligadas ao ambiente onde são desenvolvidas as atividades. Não são considerados
como acidentes de trabalho as doenças degenerativas, inerentes a grupo etário, que
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não produzam perda da capacidade laborativa e de origem endêmica não proveniente


de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.
Falhas nos processos e etapas produtivas estão entre as principais causas dos
acidentes e doenças do trabalho. O uso de equipamento de proteção individual e a
observância das normas regulamentadoras poderiam reduzir ou evitar a maioria
destes acidentes.
As empresas são responsáveis e devem assumir o compromisso de promover
a prevenção para tornar o ambiente mais adequado aos trabalhadores. É importante
também salientar a postura dos profissionais, para Piza (2000, p.11) “a prevenção
deriva da atitude do homem, independente de sua cultura, classe social, credo ou raça
e seu objetivo deve ser executável”.
Entre os principais acidentes de trabalho com óbito no país está o acidente
relacionado à queda em altura. Leme (2016) alerta que “as quedas com diferença de
nível têm sido uma das principais causas de acidentes de trabalho graves e fatais do
mundo, sendo que no Brasil é a principal causa de mortes na indústria”.
A realidade social e os números confirmam que todos perdem com o acidente
do trabalho, as empresas e organizações, o poder público, a sociedade e
principalmente o empregado acidentado e sua família. Investir em prevenção
proporciona benefícios financeiros através do retorno em produtividade para os
empregadores, frutos da satisfação pela valorização que é dada aos trabalhadores.

3 NR-35 TRABALHO EM ALTURA

Segundo a NR-35 trabalhos que ocorrem em nível superior a 2,00 m (dois


metros) em relação ao nível inferior apresentam risco de queda e devem ser
considerados como trabalho em altura. De modo geral, toda atividade realizada em
coberturas, sejam elas autoportantes, espaciais ou convencionais, acabam sendo
superiores a esta cota.
Trabalhos em altura devem ter garantidos pelo empregador a implementação
das medidas de proteção, a elaboração e apresentação da análise de risco das
atividades, procedimentos operacionais para as atividades rotineiras, a realização de
avaliação prévia das condições no local, o acompanhamento do cumprimento das
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medidas de proteção estabelecidas na NR-35 pelas empresas contratadas, a garantia


aos trabalhadores de informações atualizadas sobre os riscos e as medidas de
controle, suspensão dos trabalhos em altura quando verificada situação ou condição
de risco não prevista, cuja eliminação ou neutralização imediata não seja possível, o
estabelecimento de sistemática de autorização dos trabalhadores para trabalho em
altura, a segurança que todo trabalho seja realizado sob supervisão e que esteja
assegurada a organização e o arquivamento da documentação.
Reciprocidade é esperada do lado dos trabalhadores sendo cabido o
cumprimento das disposições legais e regulamentares sobre trabalho em altura,
inclusive os procedimentos expedidos pelo empregador, colaboração com o
empregador na implementação das disposições da NR-35, interrupção de suas
atividades exercendo o direito de recusa, sempre que constatarem evidências de
riscos graves e iminentes para sua segurança e saúde ou a de outras pessoas e zelo
pela sua segurança e saúde e a de outras pessoas que possam ser afetadas por suas
ações ou omissões no trabalho.
Os trabalhadores devem receber treinamento e capacitação que incluem
questões relacionadas a saúde e segurança específicas do trabalho, o uso de
equipamentos de proteção individual e de suas ferramentas de trabalho. A norma
estabelece o mínimo de 8 (oito) horas de curso onde devem estar claramente definidas
as necessidades de treinamento e o nível exigido, incluindo conteúdo teórico e prático
que deve também abordar as condutas em situações de emergência, incluindo noções
de técnicas de resgate e de primeiros socorros. A periodicidade deve ser bienal ou
quando houverem mudanças ou eventos que apontem para necessidade de novos
procedimentos e/ou diferentes condições ou operações de trabalho.
Brown (1998) define a avaliação de riscos como sendo “o estudo que utiliza
técnicas experimentais e/ou modelos matemáticos com a finalidade de prever
quantitativamente as frequências de ocorrências e as respectivas consequências do
potencial de risco”. É imprescindível a elaboração e divulgação da análise de risco
para as equipes envolvidas nas atividades de trabalho em altura. Após avaliados os
riscos devem ser estudadas as medidas de controle a serem aplicadas para correta
execução de cada etapa do trabalho com segurança.
É importante que todo trabalho em altura seja planejado, organizado e
executado por trabalhadores treinados e capacitados. O empregador é responsável
pela avaliação do estado de saúde dos mesmos, garantindo que sejam realizados
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periodicamente os exames do Programa de Controle Médico da Saúde Ocupacional


– PCMSO e exames médicos voltado às patologias que poderão originar mal súbito e
queda de altura. Devem ser avaliados outros fatores que interferem na saúde do
trabalhador como a existência da acrofobia (medo de altura), má alimentação,
distúrbios relacionados ao sono, consumo de bebidas alcoólicas, problemas
particulares, estresse, uso de drogas psicoativas e medicamentos, dentre outros.
Locais onde se desenvolvem trabalhos em altura devem ser bem sinalizados e
para atividades não rotineiras é necessária a permissão de trabalho, emitida e
aprovada pelo responsável pela autorização da permissão, com validade limitada à
duração da atividade. A permissão de trabalho deve conter os requisitos mínimos a
serem atendidos para a execução das atividades, as disposições e medidas
estabelecidas na análise de risco e a relação de todos os envolvidos e suas
autorizações. A partir desta permissão a empresa declara formalmente sua anuência
e assume as responsabilidades. A Figura 01 apresenta uma forma correta de
utilização dos dispositivos de segurança.

Figura 01 – Trabalho em altura (foto ilustrativa).


Fonte: http://www.vulmax-vr.com.br/2014/05/trabalho-em-altura.html.
Acesso em: 10 de agosto de 2018.
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3.1 EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL

Equipamento de Proteção Individual, conhecido pela sigla EPI, é definido pela


Norma Regulamentadora Nº 06 (NR-6) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)
como sendo “todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador,
destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no
trabalho” (NR-6, 2017).
A entrega do Equipamento de Proteção Individual é de responsabilidade do
empregador sem nenhum ônus para o trabalhador. Deve estar de acordo com a
atividade a ser executada, em perfeitas condições de uso possuindo Certificação de
Aprovação (CA). Cabe ao empregado utilizá-lo apenas para a finalidade a que se
destina, se responsabilizar pela guarda e conservação, comunicar ao empregador
qualquer alteração que o torne impróprio para uso e cumprir com as determinações
do empregador sobre o uso adequado.
Para execução dos trabalhos em altura os EPI’s devem ser especificados e
selecionados considerando-se a sua eficiência, o conforto, a carga aplicada aos
mesmos e o respectivo fator de segurança. Antes da utilização é necessária uma
inspeção para assegurar que seja apropriado para a aplicação pretendida, encontra-
se em perfeito estado de funcionamento e que está em boas condições. Estas
inspeções devem fazer parte da rotina de toda a atividade realizada em altura e os
EPI’s, que apresentarem defeitos, degradação, deformações ou sofrerem impactos de
queda devem ser inutilizados.
O cinto de segurança deve ser do tipo paraquedista conforme apresentado na
Figura 02, dotado de talabarte que deve estar fixado acima do nível da cintura do
trabalhador, ajustado de modo a restringir a altura de queda e assegurar que, em caso
de ocorrência, minimize as chances do trabalhador colidir com estrutura inferior.
Quando não for possível trabalhar com a fixação do talabarte acima da linha da
cintura, o cinto de segurança deve ser dotado de absorvedor de energia. O sistema
de proteção contra quedas deve permitir que o trabalhador conecte o talabarte antes
de ingressar na zona de risco de queda e se desconecte somente após sair,
permanecendo conectado durante toda sua movimentação no interior da mesma e em
todos os pontos em que a tarefa demandar.
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Figura 02 – Elementos do cinturão de segurança tipo paraquedista.


Fonte: Caderno de Doutrina e Jurisprudência da Escola Judicial. 2015.

3.2 SISTEMAS DE ANCORAGEM

Sistemas de ancoragem são dispositivos utilizados como parte integrante de


um sistema contra quedas onde podem ser conectados equipamentos de proteção
individual contra quedas. Esses sistemas devem ser projetados para suportar as
forças aplicáveis decorrentes de uma queda de altura.
Na montagem e manutenção de coberturas a linha de vida é a alternativa de
dispositivo de ancoragem mais indicada, sejam elas temporárias ou permanentes.
Trata-se do sistema mais utilizado mundialmente e exige rigorosos critérios e
disciplina para sua concepção, fabricação, instalação e aplicação, a fim de que seja
assegurado que um trabalhador permaneça conectado ao sistema durante todo o
período de exposição ao risco de queda. Devem ser dimensionadas seguindo as
diretrizes da NBR 16325 - Proteção contra quedas de altura.
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O sistema de ancoragem deve ser estabelecido pela análise de risco,


selecionado por profissional legalmente habilitado, ter resistência para suportar a
carga máxima aplicável e ter sua integridade verificada antes da utilização.
Assim como com os EPI’s, os sistemas de ancoragem devem sofrer inspeção
rotineira antes do início dos trabalhos, mantendo registro na aquisição, nas inspeções
periódicas e nas inspeções rotineiras quando forem recusados. Equipamentos que
não sejam aprovados devem ser descartados.

4 TELHAS AUTOPORTANTES

Diferente de coberturas com telhas convencionais de fibrocimento, concreto e


metálicas trapezoidais, as telhas autoportantes possuem a característica singular de
vencerem grandes vãos sem a necessidade de estruturas de apoio intermediário,
podendo atingir vãos livres de até 45 m (quarenta e cinco metros).
O sistema consiste na perfilação contínua de bobinas de aço carbono, nas
espessuras que variam de 0,65 mm até 1,55 mm, com material dentro dos parâmetros
estabelecidos pela NBR 7008 - Chapas e bobinas de aço revestidas com zinco ou liga
zinco-ferro pelo processo contínuo de imersão a quente. Em atmosferas agressivas,
comuns em zonas marítimas e industriais, recebem tratamento superficial através de
pinturas com primer epóxi e acabamento em poliéster.
A fixação das telhas nas estruturas é realizada através de elementos metálicos
conhecidos como cavaletes. Parafusos estruturais são utilizados na ligação telha-
cavalete enquanto a ligação cavalete-estrutura pode ser parafusada, soldada ou
chumbada diretamente no concreto. Para configurar o conjunto como um monobloco,
as telhas são solidarizadas paralelamente através de parafusos galvanizados e
arruelas de vedações com espaçamento definido para cada projeto.
As telhas autoportantes são fabricadas no próprio canteiro de obras devido as
grandes dimensões que podem atingir. A máquina perfiladora de telhas é montada
sobre uma carreta e transportada por vias rodoviárias, o que torna a utilização do
material viável em todo território nacional.
Após o posicionamento da máquina perfiladora nas proximidades onde as
telhas serão montadas, são realizadas a regulagem e a configuração do equipamento
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para produção de telhas planas ou telhas em arco. As bobinas de aço são instaladas
em carretéis de desbobinamento e o material é guiado para os rolos que fazem a
conformação e calandra das telhas. Atingida a medida de projeto o operador do
equipamento realiza o corte das peças com guilhotina hidráulica instalada na própria
máquina. Neste processo de corte já é confeccionada a pingadeira das telhas através
da dobra do próprio material. A Figura 03 apresenta uma situação real em obra.
Assim que perfiladas as telhas autoportantes são içadas com auxílio de viga de
içamento treliçada e cintas de carga por equipamento guindaste. Os trabalhadores de
montagem fixam a telha nos cavaletes para garantir sua estabilidade e se deslocam
sobre ela para soltar a viga de içamento, retirando a cinta que a envolve. Completada
a instalação de uma telha o procedimento se repete até que todas as outras sejam
içadas. Após o içamento da última telha que é realizada a fixação definitiva.

Figura 03 – Perfilação de telhas metálicas autoportantes.


Fonte: https://www.multiporte.com.br/imagens/fotos/petrobras-refinaria-paulinia-
sp/874predios_sms_si_24_10_2008_15.jpg.
Acesso em: 13 de agosto de 2018.
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5 ESTUDO DE CASO

5.1 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA E ATIVIDADE

A empresa acompanhada no estudo de caso é fabricante de telhas metálicas


autoportantes e estruturas metálicas. Situada no município de Palhoça/SC, possuí
mão de obra e equipamentos próprios. Iniciou suas atividades no ano de 1993 e utiliza
a Classificação Nacional de Atividades Comerciais (CNAE) de número 41.20-4-00
(construção de edifícios).
A atividade objeto de estudo ocorreu no município de Cotia/SP para empresa
contratante e caracterizava-se pela substituição de 1.435,20 m² telhas de fibrocimento
por telhas metálicas autoportantes com 30 m (trinta metros) de comprimento unitário.
A proprietária da edificação é empresa siderúrgica brasileira com operações
industriais em 12 países, contando com capacidade instalada superior a 25 milhões
de toneladas de aço por ano entre suas unidades.
Não havia Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina
do Trabalho (SESMT) implantando na fabricante de telhas por estar desobrigada de
acordo com a Norma Regulamentadora de Nº 04 (classificação de grau de risco 3
(três), menos de 50 funcionários). Como a empresa contratante dispunha de SESMT,
a mesma prestava assistência aos funcionários da contratada.

5.2 IDENTIFICAÇÃO DE RISCOS

Para montagem de coberturas com telhas metálicas autoportantes é necessária


mão de obra especializada, devidamente treinada, esclarecida sobre riscos que a
atividade representa e consciente da importância de se garantir total segurança na
execução dos serviços. A Figura 04 demonstra um treinamento de equipe.
Apesar dos riscos apresentados na montagem de telhas autoportantes,
possuem grandes vantagens em relação às coberturas convencionais por terem
menor número de operações, maior velocidade na execução, necessitarem de mão
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de obra reduzida e pequeno esforço físico por parte dos trabalhadores considerando
que boa parte dos trabalhos é realizada com auxílio de equipamentos mecânicos e
ferramentas elétricas, pneumáticas ou hidráulicas. Outro ponto positivo é a redução
na geração de resíduos, sendo que todos são recicláveis.

Figura 04 – Treinamento da equipe de socorristas.


Fonte: Arquivo pessoal Ismael José Basso, 2017.

Uma das medidas de controle previstas na NR-35 é a elaboração da análise de


risco com a finalidade de se determinar os possíveis riscos que poderão ocorrer na
sua fase operacional e antecipar medidas para que os mesmos não aconteçam ou
sejam controlados.
O treinamento serve para preparar os trabalhadores para as possíveis
situações reais de campo e pode ser fundamental para salvar vidas. Deve ser
considerada um investimento, e não um custo para as organizações já que o exercício
da função baseado apenas nas experiências rotineiras, implica na prática da tentativa
e consequentemente ao erro até que se alcance o resultado esperado.
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6 RESULTADOS

No acompanhamento da obra verificou-se um satisfatório cumprimento aos


requisitos mínimos e as medidas de proteção para o trabalho em altura previstos na
NR-35. A obediência de procedimentos internos da contratante e a experiência dos
profissionais envolvidos nas atividades contribuíram para o sucesso dos trabalhos que
culminou em zero acidentes ao término dos serviços.
As tarefas podiam ser consideradas como trabalho em altura pois ocorriam
sobre cobertura, numa cota aproximada de 10 m (dez metros) do nível da circulação
inferior. Todos trabalhadores apresentavam Atestado de Saúde Ocupacional (ASO)
dentro da validade com os exames previstos na NR-7 – Programa de Controle Médico
de Saúde Ocupacional (PCMSO). Toda equipe recebeu treinamento na NR-35 para
trabalho em altura e dispunha de socorrista capacitado a executar o resgate, prestar
primeiros socorros e com aptidão física e mental compatível com a atividade.
O empregador implementou medidas de proteção para garantir a segurança
dos trabalhadores durante os serviços. A primeira ação em canteiro de obra foi a
integração das equipes para apresentação de políticas internas da contratante e os
riscos das atividades periféricas. A integração foi ministrada por técnico de segurança
da proprietária da indústria e teve duração e 8 (oito) horas.
Após o reconhecimento dos riscos presentes no local de trabalho, uma
comissão foi formada para criação da Análise de Risco (AR) referente aos serviços de
troca de cobertura. De um lado contava com engenheiro, encarregado e socorrista da
empresa executora dos serviços e de outro era representada por técnico de segurança
do trabalho e gerente de área da indústria.
A Análise de Risco foi separada por etapas da atividade e para cada etapa
eram discriminados os perigos, o grau de risco / significância e plano das ações de
controle dos riscos. Entre os perigos de maior relevância estava o de queda de local
com diferença de nível com as seguintes medidas de controle:
 Utilizar cinto de segurança com duplo talabarte fixado em estrutura estável.
 Manter a área limpa, organizada, isolada e sinalizada.
 Antes de realizar a tarefa, percorrer todo o trajeto certificando não haver
nenhuma interferência.
 Comunicação verbal entre a equipe antes da execução da tarefa.
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 Utilizar somente andaimes devidamente liberados e sinalizados.


 Durante a utilização das ferramentas manuais não elétricas, as mesmas
deverão estar amarradas no pulso, cintura e/ou estrutura independente,
para se evitar quedas.
 Acondicionar as ferramentas em bolsas e/ou caixas de ferramentas
apropriadas.
 Armazenar os materiais de maneira segura evitando queda dos mesmos.
Antes do início das atividades, durante o diálogo diário de segurança, foi
realizada a leitura da AR com a participação dos responsáveis pelos serviços e dos
trabalhadores, com posterior assinatura dos presentes. Salientou-se a importância de
seguir a ordem de serviço, revisar os procedimentos de trabalho e realizar a inspeção
de máquinas e equipamentos identificando problemas reais que possam ter sido
ignorados durante a seleção dos mesmos.

Figura 05 – Utilização de plataforma elevatória para acesso à cobertura.


Fonte: Arquivo pessoal Ismael José Basso, 2017.
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O acesso à cobertura e a fixação das linhas de vida do sistema de proteção


contra quedas era realizado com auxílio da plataforma elevatória da Figura 05, sendo
da marca Genie, modelo Z-45/25J Diesel, operada por trabalhador com treinamento
na NR-11 - Transporte, Movimentação, Armazenagem e Manuseio de Materiais.
Uma das particularidades das telhas autoportantes é o grande comprimento
unitário das peças que no caso do estudo era de 30 m (trinta metros), onde não
existiam apoios intermediários o que acabava criando dificuldades para ancoragem
das linhas de vida como pode ser observado na Figura 06. Para atender a resistência
calculada para linha de vida e a carga solicitante suportada pela telha são utilizados
pequenos pontaletes metálicos fixados no ponto mais alto da seção das peças, abaixo
da linha da cintura do trabalhador.
A configuração necessária para montagem dos pontos de ancoragem das
linhas de vida devido à grande distância entre as estruturas de apoio acaba elevando
o fator de queda para o nível 2, exigindo assim que os trabalhadores utilizem cintos
de segurança do tipo paraquedista com talabartes duplos e absorvedor de queda.

Figura 06 – Linhas de vida fixadas sobre as telhas autoportantes.


Fonte: Arquivo pessoal Ismael José Basso, 2018.
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7 CONCLUSÕES

Diante da problemática e das particularidades das operações envolvendo a


montagem de telhas autoportantes, provou-se possível a implantação de sistemas de
proteção contra quedas seguindo as premissas da NR-35.
A partir do estudo realizado observou-se o comprometimento de empregadores
e trabalhadores com a segurança na execução do trabalho em altura. Diariamente
eram discutidos temas sobre saúde e segurança do trabalho e a cultura do trabalho
seguro já fazia parte da rotina dos funcionários.
É imprescindível a elaboração da análise de risco para as atividades com risco
de queda de nível com a participação ativa de profissionais responsáveis e dos
próprios trabalhadores envolvidos no serviço. Sistemas de ancoragem devem ser
dimensionados por profissionais habilitados e terem sua anotação de
responsabilidade técnica (ART) registrada junto ao Conselho Regional de Engenharia
e Agronomia (CREA).
A montagem das telhas autoportantes é de fato perigosa e requer atenção por
parte de seus executores e responsáveis. No estudo não foi possível vislumbrar outra
solução senão a escolhida para fixação do sistema de proteção contra quedas.
Recomenda-se que procedimentos de trabalho e treinamentos sejam
constantemente revisados e aperfeiçoados, abrindo o debate entre técnicos da área
de segurança, profissionais habilitados e os próprios trabalhadores envolvidos nas
atividades para contribuir com a redução dos alarmantes números de acidentes e
afastamentos causados pela não aplicação dos conhecimentos sobre o assunto.

8 REFERÊNCIAS

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17

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<http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/NR/NR4.pdf>. Acesso em: 10 ago.
2018.

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Brasília, 2017. Disponível em:
<http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/NR/NR6.pdf>. Acesso em: 14 ago.
2018.

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