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PERGUNTAS SOBRE A REDE

FERROVIÁRIA

1. No programa Dinheiro Vivo-TSF do dia 21-10-2018, o


Ministro do Planeamento confirmou que opta pela
Bitola Ibérica para evitar a concorrência.

2. Um comboio de bitola europeia de passageiros que


venha de Madrid, como vai entrar em Portugal?

3. Os portos de Sines e Setúbal vão ficar desligados do


Corredor do Atlântico.

Rui Rodrigues

Email: rrodrigues.5@netcabo.pt

Data: 12 de Dezembro de 2018

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CONCEITO CHAVE – INTEROPERABILIDADE FERROVIÁRIA

A U.E. prepara medidas que visam promover o transporte ferroviário de


mercadorias e passageiros em condições de total interoperabilidade, que é a
possibilidade de existir a conexão dos sistemas ferroviários dos diferentes países,
o que permitirá uma redução nos custos de exploração, um aumento do mercado e uma
forte redução no preço dos respectivos equipamentos. Com um sistema único de gestão,
os comboios podiam circular livremente pela U.E.

A Rede Transeuropeia de Transportes (RTE-T) que agora se designa por


Connecting Europe Facility (CEF Transport) tem por objetivo eliminar todo o tipo de
constrangimentos à livre circulação de mercadorias e pessoas, entre os diferentes países
da União Europeia (UE), de modo a potenciar o Mercado Único e a coesão territorial da UE.

No passado, a Comissão Europeia tinha definido 30 Projetos Prioritários (co-


financiados) no pacote financeiro 2007-2013 e, mais outros 9, para o pacote financeiro
2014-2020 da RTE-T. A maioria destes projetos são ferroviários, que terão
comparticipação comunitária direta e financiamento do BEI. Na Península Ibérica foram
definidos 2 Novos Corredores:
 Atlântico (Amarelo) – Este é o interessa a Portugal. França-Irun –Valladolid que
bifurca para Salamanca-Vilar Formoso e Madrid-Badajoz-Lisboa e Sines.
 Mediterrâneo – Liga Algeciras-Valência-Barcelona França.
Estes corredores têm que possuir as seguintes características Standard:
Bitola europeia, Electrificação europeia 25 mil volts CA e Sinalização Europeia ERTMS

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A forma mais eficiente para transportar contentores será por via férrea e por vias
electrificadas de bitola europeia. A tracção eléctrica é mais rentável que os
comboios a diesel, devido ao disparo dos preços dos combustíveis, nos últimos
anos.
As redes ferroviárias convencionais portuguesa e espanhola possuem a mesma
bitola, mas diferentes electrificações e sistemas de sinalização. A circulação de comboios
de carga em contentores, entre os dois países, é possível com comboios a diesel ou,
eventualmente, de bi-tensão, mas impossível para a Europa, devido à diferença de bitola.

REDE CONVENCIONAL DE NOVA REDE DE BITOLA


REDE PORTUGUESA
ESPANHA EUROPEIA

Bitola 1668 mm 1668 mm 1435 mm

Electrificação 25 mil volts CA 3 mil volts CC 25 mil volts CA

Sinalização Convel ASFA ERTMS

Siglas (CA) correnta alterna - ASFA (Anuncio de Señales y Frenado ERTMS (European Rail Traffic
(CC) corrente contínua Automático) Management System)

PROPOSTAS DO MINISTRO PEDRO MARQUES

No programa Dinheiro Vivo-TSF do dia 21-10-2018, o Ministro do Planeamento afirmou:

“Em vez de abordagens de concorrência desenfreadas que são sempre possíveis


no mercado liberalizado, mas num mercado Ibérico que tem sempre uma proteção
natural (bitola ibérica), precisamente a questão da bitola (a europeia) não nos faz
sentido.”

É a confirmação oficial de que o Ministro pretende optar por uma “ilha ferroviária”
para criar um monopólio no mercado interno. As declarações do Ministro Pedro Marques
não nos deixam qualquer dúvida.

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O Governo quer investir 530 milhões, em Vias Únicas de bitola Ibérica:

Novo troço Évora-Elvas para se ligar a Espanha.

Sines-Ermidas-Sado-Águas de Moura e Poceirão-Vendas Novas-Évora. São


troços que já existem também em via única de bitola Ibérica.

TROÇOS EM VIA ÚNICA

TROÇOS EM VIA ÚNICA

O Governo tem anunciado que só seria construído um novo troço Évora-Elvas e,


após a sua finalização, seria feita a ligação à via única que já existe Évora-Vendas Novas-
Poceirão-Sines, em bitola Ibérica. Foi dito também que se mudará a bitola da linha referida
para a europeia, quando for possível, pois as travessas estarão preparadas para tal
alteração.

Esta solução não é viável, pois a via de Sines-Poceirão-Vendas Novas é


quase toda em via única. Mudando a distância entre carris, os comboios que
circulam desde o Norte e Sul do País deixariam de poder circular. A resolução deste
problema só pode passar pela construção de uma nova rede de bitola europeia, em
que os portos, plataformas logísticas e estações vão ter que ter duas bitolas.
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Seguidamente, iremos ver as consequências das várias opções que são ainda mais
prejudiciais para a economia.

PASSAGEIROS

O comboio que actualmente faz a ligação para passageiros, Madrid-Lisboa através


da Linha da Beira Alta e a Linha do Norte, leva quase 10 horas de viagem. Este serviço vai
deixar de existir, pela simples razão de que vai ser muito mais rápido e eficaz ir de
automóvel ou de camioneta desde Lisboa até Badajoz e aí tomar o comboio de Alta
Velocidade (AV) que fará a viagem Badajoz-Madrid, em menos de 2 horas. Para ir para
outros destinos europeus ou outras cidades espanholas, também será mais rápido tomar o
comboio a Badajoz do que efectuar a viagem de automóvel. Ou seja, o parque de
estacionamento da nova estação de Badajoz será muito utilizado por passageiros vindos de
Portugal.

Neste momento, em Espanha, milhões de passageiros já migraram da rodovia e


avião para a nova rede de bitola europeia. Neste momento, a grande parte das ligações
aéreas entre Madrid e restantes cidades espanholas estão a desaparecer.

MERCADORIAS

Na nova rede de bitola europeia vão circular comboios de mercadorias de 750


metros de comprimento e de tração elétrica, o que vai baixar o custo do transporte, por
contentor, em cerca de 50% ou mais, relativamente à rede antiga de bitola ibérica. O
mercado, evidentemente, vai optar pela nova rede.

Quando a nova linha Badajoz-Madrid, de mercadorias e passageiros, em


bitola europeia, estiver terminada (2023 – fonte ADIF) os serviços dos comboios de
passageiros, na via antiga, em bitola ibérica acabam, pois não é rentável a
exploração de dois itinerários semelhantes (Badajoz-Cáceres-Madrid).

Obviamente que a Espanha não vai querer pagar a manutenção de duas


infraestruturas. O país vizinho só vai ter obrigação é de apostar nas vias que vão
fazer parte da futura RTE-T.

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Caso a nova via dupla de bitola europeia, Madrid-Badajoz, não seja prolongada até
ao Poceirão, os contentores não vão poder circular de Portugal para a Europa nem da
U.E. para o nosso país. O que vai acontecer é que os contentores, vindos da Europa,
além Pirenéus, vão ter que ficar “retidos” na plataforma logística de Badajoz.

Teoricamente, poder-se-ia efetuar o transbordo de contentores para a via de


bitola ibérica para ligar à antiga rede portuguesa, mas esta operação leva mais de
uma hora e tem custos. Esta opção não vai funcionar pois vai ser mais rápido e
barato que os camiões que transportem diretamente os contentores, desde Badajoz
até ao ponto de destino, na região de Lisboa, uma que a distância é cerca de 200
Km. Evidentemente, a melhor opção é o prolongamento da nova via dupla, de bitola
europeia, até ao Poceirão, por ser um nó de mercadorias.

Actualmente, o tráfego ferroviário internacional, em Badajoz, na rede antiga


de bitola Ibérica de mercadorias e passageiros, é muito reduzido. Por esta razão, a
via de bitola ibérica vai ser descontinuada e a aposta vai ser feita na nova rede de
bitola europeia. Significa isto que, em breve, a entrada e saída das mercadorias, em
bitola ibérica terá que ser feita, em Vilar Formoso, pela utilização da Linha do Norte
e da Beira Alta.

O que vai ocorrer será algo semelhante ao que já acontece com o


abastecimento de combustíveis junto à fronteira portuguesa onde, por ano, o nosso
país perde milhões de euros em receitas fiscais. Só que, na futura situação, será para
todo o tipo de produtos que necessitem de ser transportados de e para a Europa.

Portugal perderá assim toda a mais-valia da prestação de um serviço de


logística, que reverterá em favor da nossa vizinha Espanha, a qual entregará as
mercadorias nas plataformas logísticas junto à nossa fronteira. Os camiões farão o
transporte de contentores, diretamente para os diversos destinos do nosso território.

A alternativa que nos fica será continuar a utilizar os camiões TIR


portugueses, utilizando o modo rodoviário como até hoje, com custos cada vez
mais acrescidos, devido à subida imparável dos combustíveis e pagamento de
custos ambientais através da futura Euro-vinheta

A conclusão a que se chega é que Portugal, se não se integrar na futura RTE-


T, os nossos portos vão atrofiar e as plataformas logísticas espanholas, junto à
nossa fronteira, vão lucrar com um erro histórico, que resulta de opções erradas
dos nossos governantes.

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ARGUMENTAÇÃO DO GOVERNO

A justificação pela aposta errada da bitola ibérica consiste em duas falsas


premissas:

 Espanha não vai utilizar bitola europeia para mercadorias


 Transbordo é uma solução e por essa razão, a bitola é um falso problema.

A melhor resposta a estes argumentos é analisar a nova rede de bitola europeia


que já está em adiantada fase de construção e que segundo a ADIF, estará
terminada em 2023. Se a Espanha utilizasse as teorias do Ministro do Planeamento,
jamais iria construir uma nova Rede de vias duplas de bitola UIC para mercadorias e
passageiros. Barcelona-França já está em funcionamento.

O transbordo de contentores é uma operação que faz aumentar os custos e


onde se perde uma hora, por comboio, o que tornaria inviável para um elevado
número de comboios que pretendam atravessar a fronteira francesa. Evidentemente
que esta opção não resolve o grave problema da diferença da distância entre carris.

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Aliás, a situação existente é a prova de que o actual sistema não funciona porque o
transporte ferroviário de mercadorias entre a Península Ibérica e França é muito
baixo, quando comparado com a rodovia. Por esta razão, Portugal precisa de uma
nova rede de bitola europeia que permita o transporte das mercadorias desde Vilar-
Formoso até França.

PERGUNTAS A COLOCAR

1ª Pergunta - No programa Dinheiro Vivo-TSF do dia 21-10-2018, o Ministro do


Planeamento afirmou:

“Em vez de abordagens de concorrência desenfreadas que são sempre possíveis


no mercado liberalizado, mas num mercado Ibérico que tem sempre uma proteção
natural (bitola ibérica), precisamente a questão da bitola (a europeia) não nos faz
sentido.”

Portugal e Espanha, no dia 27 de Fevereiro de 2012, assinaram um acordo para


levar a cabo o Corredor Ferroviário do Atlântico, em bitola europeia.

Para não existir nenhum mal entendido, coloca-se o referido texto em espanhol:

“Ambos países apuestan por llevar a cabo los proyectos ferroviarios del Corredor
Atlántico hasta la frontera francesa, y en ancho internacional. Ambos gobiernos están de
acuerdo con la necesidad de invitar a Francia a participar en este Corredor Europeo.”

www.fomento.gob.es/NR/rdonlyres/B3D87E25-1CDD-4835-9740-
FFA1CDE84FF5/109801/12022702.pdf

As declarações do Ministro Pedro Marques demonstram que não pretende utilizar


os parâmetros standard que são exigidos nos Corredores Ferroviários Europeus.

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PASSAGEIROS

2ª Pergunta - Um comboio de passageiros que venha de Madrid como vai entrar


em Portugal?

A esmagadora maioria dos comboios da nova rede espanhola vão ser de


bitola fixa europeia. Como vão entrar estes comboios em Portugal?
A utilização de comboios de eixo-variável tornaria a nossa rede dependente de
duas marcas espanholas. França, Alemanha não fabricam esse material, pela simples
razão, que não têm o problema da diferença de bitola.
Quando a nova linha Badajoz-Madrid- Valladolid-Europa (Corredor do Atlântico)
estiver terminada, em 2023, a situação será idêntica à da figura.

MADRID
POCEIRÃO 167 KM BADAJOZ
EUROPA

A distância do Poceirão a Badajoz, são cerca de 167 Km. Ou seja, teria que
percorrer na ida e volta, quase 334 Km em via única e ainda por cima, para fazer a
ligação entre 2 capitais europeias?. Esta opção tornará inviável o parâmetro de
pontualidade da nova rede espanhola que são superiores a 98% de pontualidade.

NOTA

As vias únicas têm muito menor pontualidade e capacidade do que uma via dupla.

Esta opção seria um fracasso financeiro pois o comboio nem teria tempos de
viagem competitivos com o avião.
Construir uma rede só para duas marcas de comboios seria um erro estratégico
muito grave. Era o mesmo que construir uma rede de aeroportos só para serem utilizados
por 2 modelos de aviões.

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MERCADORIAS

Ao assumir que só vai optar pela Bitola Ibérica para evitar a concorrência, o
Ministro Pedro Marques está a ir contra toda a lógica dos Novos Corredores Europeus.
Estes vão ser a aposta na total interoperabilidade e nas soluções standard.

3ª Pergunta - Um comboio que venha da Europa, além Pirinéus, vai poder circular
livremente até Badajoz, em 2023. Aqui, terá que fazer um transbordo para vir para
Portugal. O tempo que esta operação leva a efectuar e o seu custo vão fazer que
seja mais rápido e barato transportar os contentores por Camião, directamente à
empresa de destino (porta à porta).
A migração da bitola é impossível nas vias únicas pois cortava o tráfego Norte-Sul.
O mesmo entre o Poceirão e Évora.

SETIL VIA ÚNICA EM BIT. IBÉRICA

VIA DUPLA EM BIT. EUROPEIA

EUROPA
POCEIRÃO ÉVORA BADAJOZ
MADRID

ÁGUAS DE MOURA A justificação que se mudará a bitola das vias existentes


para a europeia, não será possível e porquê?.

Esta solução não é viável, pois a via de Sines-Poceirão-Vendas


Novas é quase toda em via única. Mudando a distância entre
carris, os comboios que circulam desde o Norte e Sul do País
SINES ERMIDAS deixariam de poder circular. A resolução deste problema só
pode passar pela construção de uma nova rede de bitola
europeia, em que os portos, plataformas logísticas e estações
vão ter que ter duas bitolas.

ALGARVE

A conclusão que tiramos depois de conhecer as intenções do actual Ministro é que


o porto de Sines e Setúbal vão ficar desligados do Corredor do Atlântico e da U.E..

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