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Mateus 13.

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Notas
3 9 N as duas identificaçõ es fin ais dos versículos 3 7 -3 9 , o co m p lem en to subjetivo precede
o verbo de co n jun ção e fica sem artigo , em co n fo rm id ad e co m as regras desenvolvidas
p or E. C . C o lw ell e esten d id a por Lane C . M cG au g h y ( Toward a Descriptive Analysis ot
EINAI[Rumo a uma análise descritiva deEINAI\, M isso u la, M o n t.: SB L , 1 9 7 2 ). A ssim ,
a ausên cia de artigo s em oi)vt:éÀ.e ioc aloôvoç (synteleia aiônos, “no fim d esta era”) não é
evid ên cia d e construção feita em an alo gia à co ndição d a construção h eb raica (contra
H ill), até p orqu e a co nstrução é m u ito co m u m no N ovo T estam en to (7 0 6 ocorrências.1
e está am p lam en te d istrib u íd a.

4. As parábolas para os discípulos (13.44-52)

a. A parábola do tesouro escondido (13.44)


44 “O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado,
escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aqueie
campo.”

Para a forma como essa parábola se relaciona com a estrutura do capítulo veja
comentário sobre os versículos 10-17. As parábolas sobre o tesouro e a pérola
escondidos são um par; e a ação de emparelhar não é incomum em Mateus (e.g.,
5 .14b-16; 6.26-30; 7.6; 9.16,17; 10.24,25; 12.25; 13.31-33; 24.43-51), é um
excelente recurso para reforçar um ponto. Como as parábolas parelhas com as
quais essas duas estão coordenadas de forma quiasmática (grão de mostarda e
fermento, w . 31-33), essas duas apresentam o mesmo ponto geral, mas têm rele
vante ênfase individual.
Ao contrário das parábolas anteriores apresentadas nesse capítulo, essas duas
não lidam tanto com a forma secreta inaugurada do reino e o concomitante adia
mento da parúsia como com o valor superlativo do reino dos céus. Embora mesmo
aqui a estrutura escatológica antecedente as sustente; pois na tradição judaica apoca
líptica, dificilmente pode-se comparar o reino com um homem encontrar um
tesouro ou comprar uma pérola: o reino tinha de vir de forma apocalíptica no fim
da era só por um ato de Deus. Em contrapartida a isso, pressupõe-se aqui algum
tipo de escatologia realizada, ou inaugurada.
44 Sobre a linguagem “é como”, veja comentário sobre o versículo 24. O
reino não é apenas como um tesouro, mas a situação dele é como a de um tesouro
escondido em um campo. Os artigos gregos são genéricos (cf. Turner, Syntax [Sin
taxe], p. 179). Encontrar o tesouro parece acontecer por acaso. Em uma terra
tantas vezes saqueada como a Palestina, muitas pessoas, sem dúvida, enterravam
seus tesouros; mas, como Huffman (p. 213) observa, na verdade, encontrar um
tesouro seria algo que poderia acontecer uma vez em mil vidas. Assim, a extravagân
cia da parábola dramatiza a importância suprema do reino.
Derrett (Law [Lei], p. 1-16) observa que, sob a lei rabínica, se um trabalhador
encontra um tesouro no campo e o retira, o tesouro pertence ao seu senhor, ao
dono do campo; mas, aqui, o homem tem o cuidado de não tirar o tesouro até
comprar o campo. Portanto, a parábola não lida com a legalidade nem com a
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moralidade da situação (como acontece com a parábola do ladrão que vem à


noite), mas com o valor do tesouro, que vale todo sacrifício. Quando o homem
compra o campo com tal sacrifício, ele possui algo muito mais valioso que o
preço pago (cf. 10.39). O reino dos céus é infinitamente mais digno do custo do
discipulado, e os que sabem o local onde está o tesouro, abandonam alegremente
tudo o mais a fim de garanti-lo.
Duas interpretações alternativas devem ser descartadas.
1. A primeira, representada por Walvoord, entende que o tesouro representa
Israel, e Jesus é o homem que vende tudo para comprá-la. Ele rejeita a percepção
acima ao fazer que parábola tenha o sentido de que “um crente em Cristo não tem
nada a oferecer, e o tesouro não está à venda” e propõe sua própria interpretação,
observando que em Exodo 19.5, Israel é chamada tesouro de Deus. Contudo,
pode-se fazer com que qualquer percepção, incluindo a de Walvoord, pareça to
lice ao forçar uma parábola em uma alegoria detalhada: por exemplo, alguém
pode refutar a percepção dele mostrando que ela exige que Israel seja digna de
muito mais que o preço pago. Mas Walvoord sentir-se-ia confortável com essa
depreciação implícita do sacrifício de Cristo? Ele precisa lutar com a natureza das
parábolas (veja comentário sobre 13.3a). E “tesouro” tem uma vasta gama de
associações no Antigo Testamento e no Novo Testamento; com que base ele sele
cionou Êxodo 19.5? Acima de tudo, sua interpretação não lida adequadamente
com a oração inicial.
2. J. D. Crossan (F in d in g ls the First A ct [E ncontrar é a p rim eira ação\, Phila
delphia: Fortress, 1979, esp. p. 93ss.) argumenta que “vendeu tudo o que tinha”
deve ser considerado de modo tão absoluto que “tudo” inclui a própria parábola.
O indivíduo deve desistir da própria parábola e, ao abandonar tudo, abandonar
até mesmo o abandono. Portanto, a parábola é um paradoxo, como a placa que
diz: “Não leia essa placa”. A interpretação de Crossan é inaceitável pelos seguintes
motivos: exegético, literário, histórico e teológico — exegético no fato de que essa
parábola não fala de “abandonar” nem de “desistir” de coisas, mas de “vender”, e
ninguém pode imaginar desistir da parábola vendendo-a; literário no fato de que
Crossan, como Walvoord, concentra-se em uma palavra e a percorre com tanta
inflexibilidade que negligencia a natureza da parábola; histórico, no fato de que a
atribuição desses resultados existencialistas a Jesus ou a Mateus é tão anacrônico que
faz um historiador estremecer; teológico no fato de que sua interpretação de “para
doxo” é falha e é usada de modos indiferenciados. Crossan oscila entre paradoxo
construído como uma mera contradição formal e paradoxo construído como
antinomia ou até mesmo incoerência.
b. A parábola da pérola de grande valor (13.45,46)
45 “O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. 46 Encontrando
uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.”

45,46 A palavra p a lin (“de novo”) liga essa parábola bastante intimamente à
precedente (cf. 5-33). Walvoord reconhece que essa parábola equivale grosseira
mente à última. Mas, aqui, diz ele, a pérola não representa Israel, mas a igreja. A
Mateus 13.47-48 388

igreja, como a pérola, é formada organicamente; e “há um sentido em que a igreja


foi formada das feridas de Cristo”. Isso não nos leva muito além da alegorização
patrística. A verdadeira ligação com a última parábola é o valor supremo do reino.
Todavia, aqui lidamos com um comerciante cujo negócio é procurar pérolas e
que, por sorte, encontra uma de imenso valor. Derrett (Law [Lei], p. 15) enxerga
um paralelo rabínico: “Um ganha a vida eterna depois de uma luta de anos, o
outro a encontra em uma hora” (b A bodah Zarah 17a): contrasta as conversões de
Saulo e do eunuco etíope.
Ao contrário do homem da parábola precedente, o comerciante, embora venda
tudo que tem para comprar a pérola, parece que paga o preço completo. Não
obstante, ele ser um especialista em pérolas, parece que esse único achado supera
em muito qualquer outra pérola que o comerciante já tenha visto e que considera
justo a trocar por tudo o mais que possui. Portanto, Jesus não está interessado no
esforço religioso nem em afirmar que alguém pode “comprar” o reino, ao con
trário, ele diz que a pessoa cuja vida toda foi dedicada às “pérolas” — toda a
herança religiosa dos judeus? — ao compreender o verdadeiro valor do reino
quando Jesus o apresenta, trocará alegremente tudo o mais para o seguir.
Notas
4 5 ,4 6 N ão h á u m a explicação óbvia p ara a m u d an ça do tem po presente (v. 4 4) p ara o
aoristo (w . 4 5 ,4 6 ), m as os ú ltim o s não são gn ô m ico s, concisos, m as narrativos
(M o u le , Idiorn Book [Livro de expressões idiomáticas ] , p. 13). O tem p o perfeito
uÉiTpaKev (pepraken , “v en d id o ”) com eviden te força ao rista pro vavelm en te não é
u m a circu n stân cia an terio r do ú ltim o uso do perfeito n a n arrativa, m as u m tem po
escolhido p orqu e não h á fo rm a ao rista ativa p ara esse verbo. P ara discussão, cf.
Z erw ick, par. 2 8 9 ; M o u lto n , Prolegomena [Prolegômeno ], p. 1 4 2 -4 6 ; T urner, Syntax
[Sintaxe], p. 7 0 ; R H G , p. 8 9 7 ; BD F, pars. 3 4 3 -4 4 .

c.A parábola da rede (13.47,48)


Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes.
47 “ O

48 Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes
bons em cestos, mas jogam fora os ruins.”

47,48 Essa parábola, como as duas últimas, é peculiar de Mateus. Na estru


tura quiasmática do capítulo (veja comentário sobre v. 3b), ela faz paralelo com a
parábola do joio e tem um sentido um tanto similar. Não obstante, enquanto a
parábola do joio foca um longo período do reino de Deus durante o qual o joio
coexiste com o trigo, e o inimigo tem grandes poderes; a parábola da rede apenas
descreve a situação existente na época do julgamento final: o reino abraça peixe
“bom” e “ruim”, e só a rede varredoura os classifica. Por isso, a fórmula introdutória
usa o tempo presente (veja mais no comentário do v. 24; Carson, “Word-Group”
[“Grupo de palavra”]). A principal preocupação da parábola não é o reino consu
mado (o qual, em Mateus, poderia inspirar o tempo futuro — “O Reino dos céus
é ainda como”) nem o reino inaugurado (“O Reino dos céus também é como”),
mas a situação que existe no fim da era. E, mais uma vez, o reino e a igreja não
devem ser equiparados.