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HIBI.

I OTECA DE FI LOSOFIA E HISTÓRIA DAS ClfNCIAS


VoL N ~' 14

Coordenadores:
J. A . Guilhon de Albuquerque
e Roberto Machado
LOUIS ALTHUSSER

FREUD E LACAN
MARX E FREUD
lntrÓcfuçào crítico-hist6rica,
tradução e notas:
Walter José E~angelista

Revisão:
Alaíde lnab González

2~ Edição
"FREUD e LACAN" foi traduzido do original francês.
" POSITIONS" , - Paris, Editions Sociales, 1976
" MARX e FREUD" foi traduzido do original espanhol.
"NUEVOS ESCRITOS", Barcelona, J.,.aia 8 , l978

Direitos adquiridos para a Ungua portuguesa


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Produçllo Gráfica: Orlando Fernandes

Impresso no Brasil I -PTinted in Brazil

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Althusser, Louis, 1918-


Freud e Lacan. Marx e Freud : introdução critica-histórica
I Louis Altbusser ; traduçlo e notas Walter José Evangelista ;
revisão Alaide lnah Goo.zalez: - Rio de Janeiro: Edições Graal,
2~ ediçlo- 1985.
(Biblioteca de Filosofia e história das ciênçias ; v. n? 14)
Bibliografia .
1. Althusser, Louis, 1918 - Bibliografia 2. Althusser,
Louis, 1918 . - Fílosofia 3. Freud, Sigmund, 1856-1939 -
Critica e interpretação 4. Lacan, Iacques M., 1901-1983 -
Bibliografia S. Marx, Karl, 1818· 1883 - Filosofia- Critica e
interpretação I. Evangelista, Walter José II. Título III. Ttítulo:
Marx e Freud IV. Série
CDD -194
335.411
84-0500 CDU- 330.85:1 .
INDICE
INTRODUÇÃO
por: Walter José EVANGELISTA
- Althusser e a Psicanálise. .................... ... ..... ................................ 9
~ibliografia quase completa de Althusser................................. 39
Bibliografia de Lacan .................... ........................................... 42
- Outras obras consultadas.......................................................... 42

FREUD E LACAN
por: Loujs ALTHUSSER
- nota preliminar ...................... . ..... ..... . .. . .... 47
- Introdução ....................................... ...... 51
· I -(voltar a Freud) ....... . . ; ................. . ...... 55
11 - (Qual é o objeto da Psicanálise?) .................. . 61
111 - {A passagem da ex.ist~ncia biológica a existência
humana opera-se sob a Lei da Ordem e essa Lei
da Or<iem. se conrunde em sua essência formal, com
ordem da linguagem) ............ : . ....... . ........ 63

MARX E FREVO

por Louis AL'fHUSSER. ••••.•.....................•..••.•• 75

5
INTRODUÇÃO

. ALTHUSSER E A PSICANÁLISE

. Walter José EVANGELISTA*

Para Ana, Matheus e Kim

• Professor de fi losofia da U!!ivcrsidade Foderal de Minas (ierais.

7
INTRODUÇÃO

ALTHUSSER E A PSICANÁLISE

Walter J . EVANGEliSTA

No início dos anos 60, o marxismo achava-se ameaçado. Torna-


ra-se uma doutrina de Estado. Ora, sobretudo depois de 1956, data do
XX Congresso do PCURSS, começava-se a ver que as graves limi-
tações do Estado soviético estavam longe de ser apenas calúnias inven-
tadas pelas forças da reação. O marxismo estava obstruído. Obstruido
não somente pelo dogmatismo stalinist.a, mas também pelas tentativas
de superação, feitas a custo de alianças com certas antropologias exis-
tencialistas e com certas filosofias do homem, que, ao invés de fazê-lo
avanç-.u, arriscavam-se a arrastá-lo em seu próprio declínio. Além dis-
so, o " humanismo teórico" resultante dessas alianças mostrava-se in-
capaz de ir além daj ustificada e necessária denúncia e de prestar con-
tas, analiticamente, dos impasses vividos. Por outro lado, com o apa-
recimento do estruturalismo, um novo ataque se es boçava: incapaz de
uma concepção estrutural atenta aos isomorfismos, a tese central do
marxismo de uma determinação pelo econômico, não seria, apenas,
uma grosseira e mecânica relação de causa-efeito entre base e superes-
trutura? ·
Nessa conjuntura, surge e intervém Althusser.
Representante legitimo da mais pura tradição marxista, homem-
de-partido, ele, embora fiel ao PCF, vai abandonar, tão ousada
quanto habilmente, a defesa da dialética dogmática e oficial, deixan-
do-a entreguo aos ataques das filosofias existenciais e do estruturalis-
mo. Para espanto geral e pânico de alguns, vai muito mais longe: pare-
ce passar para o lado dos estruturalistas. Na realidade, aproveita-se,
momentaneamente, dessa moda para desvençilhar o marxismo deve--
lhas filosofias e promover um rejuvenescimento de alcance mundial,
que se tornou conhecido como um (re )começo do Materialismo Dialiri-
co.
Essa estratégia de (re)começo abrange dois grandes momentos.
No primeiro, que culmina em 1965, mostrou-se 4e modo vigoroso
a cientificidade do Materialismo Histórico, que se achava encoberta
por. ideologias. Nessa primeira fase, o recurso à categoria bachelardia-
na de ruptura, assumida por Althusser sob a forma do conceito de cor-
te epistemológico, foi decisivo. No entanto, a Filosofia, assimilando-se
à Epistemologia e definindo-se ccimo Teoria das práticas teóricas, con-
centrou-se exageradamente na oposição Ci~ncia X Ideologia, dei~an­
do, assim, a luta de classes em segundo plano.
No segundo, que se inicia em 1967 e tem como auge o ano de
I 974, a Filosofia é redefinida como sendo, em última instância, políti-
ca na teoria. Com isso, a luta de classes retoma seus direitos e, conse·
qüentomente, a · antiga oposição Ciência X -Ideologia perde o caráter
absoluto que se arriscava a assumir, para ser reafirmada de"modo mais
sutil e articulado. ·
De qualquer modo, o que mais nos importa aqui observar é que,
em ambos os momen.tos dessa estratégia que provocou o (re)começo
do Materialismo Dialético, o confronto com a Psicanálise ocupou um
lugar decisivo. ·
Nessa estratégia e nesse confronto, " Freud e Lacan" (1964) bem
como "Marx e Freud" ( 1976), textos que ora apresen~o ao leitor brasi-
.leiro, são duas táticas essenciais, adotadas, cada uma delas, em cada
um dos referidos momentos. A leitura de ambos permite, portanto, na
medida em que abrange esses dois momentos; uma forma de acesao
completa, embora unilateral, à dimarcht althusseriana. ·
Oferecer algumas informações e reflexões. para facilitar tal ac;;es.
sp, é o objetivo desta introdução.

•••
Consideremos, então, o primeiro.desses textos: "Freud e Lacan".
É preciso ver, antes de mais nada, que; muito embora Louis
Althusser seja um dos mais claros e pedagógicos filósofos da atualida-
de, esse texto não ~onstitui uma "introdução ao pensamento de La-
can", que iria, fin almente,.revelar-nos os tenebrosos mistérios escondi-
dos sob !J.S fórmulas mágicas que afirmam ser o inconsciente estrutura-
do como uma linguagem ou falam dele como tendo o discurso do Ou-
tro. Não se trata, tampouco, de um ensaio, puramente especulativo,
sobre Psicanálise. "Freud - e Lacan" e outra coisa. deriva de um .duplo
lO
estatuto que se articula rigorosamente: a Política e a Filosofia; de uma
política que se faz filosofia e de uma filosofia·que se faz politica, e que
constituem a paixão de Althusser.
"Freud e Lacan" é, antes de mais nada, um texto de Juta teórica.
N~sa luta, Altbusser se define, inicial e essencialmente, em relação a
um texto de 1949- " Auto-critique: la psycha~alyse. une idéologie reac-
tionnaire", e só em referência a este texto aquele pode ser inteiramente ··
compreendido.' Este último é um artigo que aparece em · Lo Nouvrlle
Critique, que é a revista teórica· oficial do P-artido Comunista Franc!s.
O itn pro fi ssionais. familiarizados com o .domrnio da Psiquiatria, Psi-
cologia e Psi"canálise, e que se assumem como marxistas o assinam.
Um deles, S. Lebovici, será, alguns anos mais tarde, entre 197Je t9n.
nada menos que o único Presidente francês da lnternt:Ítiona/ Psy cho":..
A nalytical Association. Nele, há uma condenação sem apelo à Psicaná-
lise:
.. . .. wgamos ao fun da nossa autocrltica, à .con~icção de qUI! o coojWt-
to. dizem os autores, sublinhando, eles mesmos. essa últimas palaVTa, das
teorias psicanalíticas está·cotUamiNJdo pelo que n6s poderíamos deMminar
IÍm ·princípio mistificador'..., · ·
•.
Neste texto, poucos autores são citados, mas~ dentre eles, aparece
o nome de Lacan, que é criticado.
Tendo como pano de fundo certas teses. de Politzer, conduzidos
pe~a linha djanovista, procurando desesperad~mente fazer face à ofen-
siva do imperialismo norte-americano que provocava efeitos ideológi-
ços no campo psicanalítico pela "ego psyclto/ogy ", nossos autores irão
lançar o equivocado dilema: ou Marx. ou Frnlli. . ·
· Em 49 o stalinismo estava em plena vigênciâ. Assim, entre o
..Auto-critique ... " e o "Freud e Lacan" irá existir um marco históri-
co, cuja importância nunca é demais sublinhar: o XX Congresso do
PCURSS, dito da desestaJin·izaçâo. Logo, o texto exprime, acima
de tudo, a tensão entre dois ·momentos diferentes. do movimento cO-
munista internacional: o· stalinista e o pós-stalinista. Trata-se, pois, de

I: Althusser tciia escrito, em 21 de fevereiro de 1969, ao seu tradutor para a edição do


" Freud c Laca.n" da N~w Left Re~iew, o seguinte; "Há um perigo de que este artigo seja
mal compreendido, a menos que seja tom ado pelo que entio objc:tivamcnte era: uma in·
tervcnçào filo:>úfic:o . inslamlo o:. mcm bros d o PC r- a rc<;onhcccn:m a c:icntificidude du
Psicanálise, da obr,uk.frw6e da importância da i{lt~rmJ;tç_àQ.~cariiana desta. Con5e--
qücnt.ementc. d e er<1 polemico, porque a Psicanálise fora oficialmente condenada, nos
anos cinqDcnta, como uma "idcoloaia reacionária"; a despeito de algumas modifica-
ções. essa condco~o ainda dom inava a situação quando cacrcvi este artigo. Esu situa-
ção excépcional deve ser levada em conta quando o sentido de minha interpretação é
avaliado hoje". ALTHUSSBR, Louis. P()Sirõ~$·]. p. 103. ·
2. BO"NNAFE et alíi. " Auto-crit..uc; la psycanalysc:. une idéologie reaction naire."
um protocolo do movimento revolucionário do proletariado, embora
se exprimindo em uma esfera aparentemente bem distanciada deste,
que é o mun.do da teori-a.
Uma teoria cientlfica não surge e persiste por milagre. Ela sempre
paga um alto preço pata existir, tanto histórica quanto politicamente:
o preço de uma luta implacável. Essa luta poderá ser vista no combate
tanto de Lacan, no seio do movimento psicualftico, quanto de
Altbusser, no do comunista. ••freud e Lacan.. é a confluência dessas
lutas. Ele não contém uma única palavra sobre Stalin ou o stalinismo,
no entanto.joi um dos primeiros textos, na décado de 60. a promover um
·anti~stalinismo, não apenas puramente verbal, que repisaria publica-
mente o remono, através da repetição obsessiva da denúncia moral,
mas que fundaria essa critica sobre um corpo conceitual rigoroso e de-
monstrável.
Definindo-se em relação a esse texto de 49, ..Freud e Lacan" pro-
voca, no interior do movimento comunista, uma significativa modifi-
cação em sua posição face às ciências em geral e à Psicanálise em parti-
cular, modificação esta que exprime u~a transformação de suas posi-
ções filosóficas.
Indo diretamente ao esseneial: o texto procura mostrar, passan~o
por Lacan, que a Psicanálise é "uma ciência nova, que é a ciência de um
objeto novo: o inconsciente'~: "Ora, o objeto de uma ciência, enquanto
. objeto-de-conhecimento, ou seja, um objeto produzido teoricamente~
não pode ser simplesmente apontado como a primeira realidade empí-
rica vinda. Assinalar um objeto de uma cibcia implica poder distin-
gui-lo das ideologias (teóricas) que o assediam .e sufocam. Implica.
poi.v. a exi.ftência de princípios teóricos claros e rigorosos, capazes. seja
dt• ler. seja de produzir tais distinções.
E o que faz Althusser, respondendo ao texto de 49.
Uma a uma, ele vai mostrando, demonstrando c desmontando as
várias figuras da ideologia que ocultavam ou enterravam .o objeto de
Freud, tanto aos olhos dos próprios profissionais da Psicanálise em
geral, quanto, de forma ainda mais grave, dos próprios marxistas. que,
pordireito, deveriam ser capazes de conhecer a ideologia como ideolo-
gia. Essas figuras vão desfilando, uma a uma: biologismo, psicologis-
mo, sociologismo, empirismo, positivismo, etc. Elas aio, cada uma a
seu modo, efetivações de uma mesma tend!ncia, que é o id~alism<J da
ideologia dominante burguesa, e que contamina tanto a Psicanálise
quanto o Marxismo. ·
Esse combate ao idealismo, naturalmente, só é posaivel porque·
Althusser ocupa posições materialistas. E é essa a virada profunda que
ele provoca: enquanto os ..marxistas de 48", como diz Althusser, pro-
curavam fundar ou, como no caso da PsicanAlisc, afundar, pela erltica,
as ciências; enquanto eles, em nome de um saber superior, o Materia-

12
lismo Histórico e Dialético, legiferavam sobre a prática científica; en-
quanto eles estavam prisioneiros, para se ir ao fundo da questio, da
.problemática idealista das filosofias ·do fiUIIkz~nto, a posição de
Al~husser é diametralmente oposta. Ela é mt}terlalúta, ou seja, ela re-
cusa a questão do fundamento. .
Assim, o texto de Althusser nio objetiva fundar o discurso da Psi-
canáliSe em geral, e o de Lacan em particular. Num certo sentido, o
que ocorre é exatam~nte o contrário: Althusser parte do caráter cienti-
fico da Psicanálise, J Parte do fato de que Laean reconbeeeu e soube ti-.
rar proveito do caráter cientifico da Psicanálise. Nesse sentido, o tra-
.balho de Althusser parece fazer-se na direção antes apontada por En-
gels, em seu projeto original da busca de uma dialética da Natureza:
cada nova ciência, segundo este, revoluciona o Materialismo. Tratar-
se-ia, , poi.s, aqui, de explicitar a revolução feita pela Psicanálise, en-
quanto ciência nova, no Máterialismo. Ou ainda, não se trata de im-
por; uma dialética p~via às ciencias, mas, sim, de explicitar, partindo
da existência de fato das ciênci&$, as ftguras da Dialética. Encontrar ou
reconhecer, portanto, a dialética da Psicanálise.
Não dispondo aqui do espaço que seria ~ecessário para uma deta-
lhada explicação desse ponto, que é, no entanto, fundamental, limito-
me a indicar, esquematicamente; o esscncia1. 4 Como disse, Althusser
provoca um (re)começo do Materialismo Dialético. Como fez isso?
Ele o fez. voltando a Marx e à tradição marxista (Lênin, Mao, etc.).
Ele o fez voltando a eles e explicitando, de modo rigoroso e analftico, a
_especificidlltle da dilllética materialista ~m relação à hege/iQIIQ. Ele o fez
mostrándo qual é o pressuposto radical que torna a dialética hegeliana
·pensáve/, e como um tal pressuposto é inteiramente diferente daquele
que torna a dialética marxista .possível e pensávcl. ·
Coni efeito, ele nos mostra que a dialética ·hegeJiana é posslvel
~~à · .
" ... pressupOJiçio rodical dt uma unldtMlt orlfln4rúJ &impl~s, dtstnrol-
~tU/o-s~ no s~io d~ si m~smq pela ~tnutk da MgtJtMtlade, e jtlmtlis restau-

3. Num ceno sentido. porq~~e não se trata de mudar de rundamento. Anta, no tc:JLto
de 49, teríamos o fundamento lilosólico dado pelo Materialism:O Dial~ico, que ncpria
o caráter de cientirlcidade à Psicanálise. a qual seria· uma simples ideologia reacionária;
aaora. com o ~to de Althusser, terlamos o novo fundamento, que seria a Psicanálile
enquanto Ciâlcia, redes(:obcrta por Lacan, o qual fundaria uma nova filosofll. que ~e­
ria o novo Materialismo Dialético de Althuseer. Nio. O _que o autor de " Freud e La·
can" p~ende é que a Filosofia se desvencilhe. de uma vez por todas, da ques.tão idealis-
ta das teorias do fundamento.
4. Uma exposição cletalhadá aparecerá, nesta mesma oolcçio, do autor da pruente In·
trodução, tratando das rclaç&s entre Man~ismo e hicanA&i~e.

13
rol!do, em todo o seu desenvolvimento, cada vez numa rota/idade mais ·con- ·
crtta', a não ser es.fa unida~e e essa simplicidade originárias."'
Vale, pois, dizer que tÓdos os conceitos ou estruturas dessa dialéti·
ca (simplicidade, essência, identidade, unidade. negação, cisão. ali~na·
ção, contrários, abstração, negação da negação, Aujhebung, totaJ~da­
de contradição, etc.) estão suspensos a esse pressuposto. Vale dtzer
qu~ a contradição hegeliana, estrutura fun~amental da dialética, é, c
tem de ser, uma contradição simples. Vale dizer que Hegel é impensável
e impossível se excluinnos essa "unidade originária simples'' e, por·
tanto. espiritual. .
O mesmo não ocorre com a dialética materialista. Voltando a
Marx e à trooição marxista, Althusser faz um pacie~te levanta~e~t~
tanto de questões de fato (a análise feita por Mao acerca da multtphct-
dade e complexidade das contradições, ou a feita por Lênin da Revo-
lução Russa) quanto de elaborações teór~cas rigorosas, e. portantQ, de.
direito (o que é dito por Marx, na Introdução de 57, quanto ao método
da Economia Política). e conclui que a dialética marxista não P'•de Jer a
mesma que a hegeliana.
Isso porque, segundo ele,
". . . no lugar do mito ideológico de uma filosofia da origem e dos s~f
conceitos orgânicos, o marxismo estabelece o princípio do recOithtcimento
do dado da estrutura complexa de todo 'objeto' concreto, estrwura que de-
termiM tanto .o desenvolvúnento do objeto quanto o desenvolvimento da prá-
tica teórica que produz o seu conhecúnento. ( . .. ) Por con.reguinte, não te-.
mos mais, continua ele (sob qualquer que seja a fonna ). unidade simples ori-
ginal, mas o sempre-já-dado de uma unidade complexa estruturada":•

. logo, a dialética materialista não pode ser a mesina que a hegelia-


na, uma vez que seus pressupostos são diferentes. Importa observar'
que, por detrás dessas questões, aparentemente tão distantes e abstra- .·
tas, o que está em jogo é uma realidade dramaticamente concret&: o
stalinismo, seus horrores e crimes.
Com efeito, Althusser procurará demonstrar que o Materialismo
Dialético em sua dogmática versão stalinista, implicando, por seu
economidísmo, um panteísmo das forças produtivas (nova unidade
original simples) e tendo como conseqüência especul~r o humanismo
teórico, estava ainda prisioneiro da problemática hegehana. Para ele, a
ruptura com a dialética hegeliana será, na realidade, uma ruptura com
o stalínismo.

5. ALTHUSSER. L. Análi.te critica da teoria mar:cista. p. 173.


6. ALTHUSSER •. L. Análise crítica da teoria marxista. p. 174.

14
'
No entanto, para o que agora nos interessa, ou ~ja·, para situar os
tedos de Althusser acerca da P&icanálise importa observar mais de
,perto um outro aspecto do mesmo problema. Althusser estabelece a
diferença entre a dialética marxista e a begeliana, sobretudo pela mi-
nuciosa análise de uma das suas estruturas essenciais, que é a contradi-
ção. Mostra que, coerente com seu pressuposto, a dialética hegeliana
é, necessariamente, de uma contradição simples. A marxista, poi:' seu
lado, igualmente coerente com o seu pressuposto, não poderá .ser uma
contradição simples, mas, sim, uma contradição ". . . complexamente
'- estruturalmente- desigualmente- determ;nada . .. "' SendQ a s:ontra-.
diÇão o motor de toda dialética, essa última caracterização que dela se
faz. é de extrema importância. Ela exprime o t ipo de causalidade dialé-
tica que é pensada por Mar~..e peJa tradição marxista. Ele indica,
como dirá o próprio Althusser, grifando ele. mesmo a~xpressão, .....
o traço mais profundo da dialética marxista. " 3 Ora, para pensar urna
realidade de tal importância, é preciso um conceito.
Mas corno é que se produz um conceito?
Um conceito não é uma simples palavra que podemos encontrar,
com a leitura do primeiro dicionário consultado. Como sabemos, ~le
não indica simplesmente uma realidade empírica. não é um nome que
damos a uma coisa imediatlfmente observállel. Um conceito é.in.tcJ:de-
pendente de todo um campo c<tOceitual, do qual recebe uma significa-
ção. sendo esse campo, por sua vez, solidário com as condições de sua
produção. Ele não pode, pois, ser tomado de empréstimo, facilmente,
. como algo isolável. Assim, produzir o conceito que nos dará " ... o
traço mais profundo da dialética marxista. . . ", que tornará possível.
pensar o motor da dialética, que exprimirá a própria causalidade pro- .
posta por Marx, é, inegavelmente, tarefa delica4a. .
Althusser irá propor o conceito de superdeterminação (surdétermi-
nation ou Oberdeterminierung), que diz ter tomado de empréstimo de
outras disciplinás, no caso, da Lingüística e da Psicanálise.~
Tudo parece muito simples e inocente. A dialética marxista é dife-
rente da hegeliana, por ser uma dialética de uma contradição superde-
terminada. Este último conceito, diz-nos Althusser, dá-nos ". . . O lTa-
. ço mais profundo da dialética marxista'". 10
Olhemos, no entanto, tudo isso um pouco mais de perto. Que sig-
nifica exatamente essa "Lingüística e Psicanálise" que nos orereceram
um conceito tão importante?

7. ALTHUSSER. L. Análise crítica da teoria marxista. p. 185.


8. ALTHUSSER. L. Análise crítica da teoria marxista. p. 18 1·2.
9. ALTHUSSER. L. Análise crítica da teoria marxista. p. 182. nota 48.
10. AlTHUSSER. L. Análise crítica da lt>oria marxista, p. 182.

15
Ora, se lermos com atenção os textos de Althusser publicados
nessa primeira metade do decênio de 60, se considerarmos, sobretudo,
o peque"o artigo intitulado ''Philosophie et Sciences Humaines". bem
como alguns argumentos que aparecem no ''Marxismo e humanis-
mo", ou, finalmente, a introdução escrita por ele para o Lin Le Capi-
ud, veremos ·que Althusser está, nesse momento, verdadeiramente fas-
cinado por Lacan. Poder-se-ia mesmo indagar se nio se passaria com
ele algo da ordem do que Frapçois Roustang chamaria UJPIS/enncia
PJlfl~.a teoria. 11 De qualquer modo, parece-me inegável que "Psicanáli-
se e Lingüística" nada niais são que a própria teoria lacaniana e que,
portanto, o conceito dt superdetemúnação vem, na realidade, de La-
can.
E isso AlthUsser não pode declarar abertamente.
Estamos, então, diante da seguinte situação: o conceito que per-
mite pensar "o traço mais profundo da dialética marxista", que permite
distinguir essa dialética da hegeliana e, pois, finalmente, empreender,
no nível teórico, um corte com o dogmatismo stalinista vem desse dou-
tor explicitai:Tlente condenado pelos "marxistas de 48", que enfrentara
uma significativa cisão com a ortodoxia psicanalitica em 1953, e que,
finalmente, nessa mesma época (1963), está sendo excomungadC) pela
Sociedade Francesa de Psicanálise.
''Freud e Lacan" foi escrito fundamentalmente para os marxistas, ·
e Lacan não era desconhecido dos "marxistas de 48". Ele era, como vj-
mos, diretamente atacado. Logo, era .preciso, a todo custo, resgatar,
mostrar e defender o caráter científico da Psicanálise em. geral e do tra-
balho de Lacan em particular. Não se tratava de fu11dar urna ciência,
como quereria o idealismo. Tratava-se de lutar Pltraque ela fosse reco-
nhecida oomo tal e, em primeiro lugar, pelos· próprios marxistas, que
haviam cometido, no texto de 49, o terdvel engano, de jogar fora, jun-
to com a água do banho, o bebê que era essa jovem ciência.
Visto nesse quadro geral, .. Freud e Lacan" ~a meu ver, um dos
textos mais inteligentes, belos e vigorosos de Althuss~. Ele está,
sobretudo no interior dc;J movimento comunista, jogando uma cartada
:decisiva: ou o "mérito teórico· de Lacan" é reconhecido, e então o seu
também terá chances de sê-lo e, assim, uma dos primeiras crilictU fun-
dadas do ,ftalinismo (a questão da dialética stalinista como um h•lia-
nismo de pobre, enquanto ignora a superdeterminação) será possfvel,
ou Lacari será massacrado, como a excomunhão de 63 parecia indicar,
e então ... e então, nem é bom pensar: o sufocamento stalinista conti-
nuaria.

li. ROUSTANG. F. Un fkstin si /UIItStt, fGMim.

16
Althusser começa, então, pelo começo, ou seja. pelo ataque stali-
nista- via Jdanov- çontido no texto de49. .a preciso saber convencer.
.Althusser .faz uso da mesma arma tão esplendidamente manejada por
Lacan: a Retórica. Ela servirá de instrumento para abrir caminho para
a Ciência. Com ela, Althusser irá ajudar a abrir o caminho para La-
can; · ·
E. essa abertura de caminhos se faz não apenas na ordem abstrata
ou. teórica, mas, também, na materialidade concreta das instituições;
Com efeito, no fim de 1963, Lacan é excomungado da Sociedade Fran·
ccsa de Psicanálise, uma vez que esta desejava filiar-se à lntematiOtUJI
Psycho-Analytic Associatíon, a qual, por sua vez, exigia, comó condi-
ção, a cabeça de Lacan. 12 Imediatamente após, o professor Delay, que
acolhia seus seminários em Sainte-Anne, aproveita-se das circunstân:..
.cias para desembaraçar-se de tão tumultuosa personagem. Lacan está,
. [~partirA de. então, sem a S.FP e sem O apoio logfstico de um·CC!ltro da
1mportanc1a que tem o Samte-Anne, no poderoso mundo da anstocra-
. cia m~ica fr~ncesa. Nessa conjuntura, a intervençio de Altbusser é
. dupla: ao mesmo tempo em que: redige "Freud e Lacan" (janeiro de
1964), na qualidade de Secretário da prestigiosa Eco/e Normal~ Supr~
rieun> da. rue d'Uim, convida Lacan para·ali continuar seus seminá-
rios, que são retomados a partir de IS de janeiro de 1964.11
. Se, convidando-o para a Eco/e Nomuzle, um espaço se abria no
nível institucional, o texto que Althusser guardou na gaveta, entre ja-
neiro e dezembro de 1964 (ou seja, durante esse primeiro ano de Lacan
na Eco/e Norma/e) fez seu trabalho, abrindo caminho, no seio dtl ideo-
logia, para que Lacan fosse ouvido. Certamente, durante esse ano de
1964, esse texto foi discutidO entre os "amigos" de Althusser, çeiu.
mente ele circulou tanto na Eco/e Norma/e Supérieure, quanto entre os
comunistas, criando condições para o trabalho de Lacan. Certamente,
ele contribuiu para que o doutor Jacques Marie Emile Lacan se trans-
formasse em Lacan. ·
"Freud e Lacan" é, antes de qualquer outra coisa, um ~to polfti-
co, e como tal deve ser avaliado.
É bem verdade que o -texto pode ser diseulfvel, nesse ou naquele
deta_lhe. O próprio Althusser o faz, em 1969, quando, por exemplo, ad-
mite, perante os leitores ingleses, que certas teses deveriam ser.

12. hcqucs-Aihtin MILLER reuniu uma completa documentaçio sobre iudo isso. a
qual foi publicada no suplemento nt 8 da Omícar?, denominado .. L'excommunication....
13. Jacqucs-AIIain MIL LER, em um seminário 110bre Psicanálise, realizado na Escola
de Psicologia da Universidade Central da Venezuela, fala -desse convite a Lacan, feito
por Althusser. nas página~ 11-9 do texto. ·divulpdo. em âmbito restrito, pelo Editorial.
Ateneo de Ca~racas.

17
corritidas ou ampliados. ( . .. ) Em pariiniar a t~oria iir lANn I
" . • • 011
aptr~rntadcr rm t~mtos qw. a fkspeito dr todas as p~~s. tim os a~,_
tos cu/turalisttU,.ao passo qw a traria -M Úlctlll llllltlndtul'flli.sta".'•
E. de fato, fascinàdo como estava, nessa éj,óca, pela teoria laca~
nbna, Althusser a assume talvez um pouco apressadamente. A tese do
primado do simbólico, CO !li a qual Lacan unifica o campo da Psicaná-
lise, vai aparecer. no "Freud e Lacan" , através da noção de ·~homini- .
zação", que, se é estrar,ha tanto a La~n quanto a Freud, é inusitada . .
_no próprio Althusser_.. · · · · .
Essa noção de "~ominizaçio" traz consigo um certo culturalis-
mo. pois o incónscientc,."a despeito de todas as precauÇÕeS.. , arri5ea-
~ a se dissolver em uma série de fatores e.x.terioret e sociais. E é sob
um tal risco que se monta um. programa. .
Com efeito. se a hominização, ou seja, ·o tornar-se humano da·
"cria de homem" só se dá sob o primado do simbólico, então se.r ia
possível passar deste para as estruturas de parentesco, pela mediação
das formas ideológicas na~ quais são vividas as funções de, por exem-
plo, paternidade, materni.dade·e tiliaçio 7 Ora, como seria possível dar-
se conta rigorosamente destas últim~, sem considerar as condições
~,--conômicas, jurídicas. éticas, religiosas da família, que estruturam o
papel do pai, da mãe e da prole? E como considerá-las sem reco_rrer ao
corpo conceitual do Materialismo Histórico?
De tudo isso, surge um programa capaz de. ~nir Marxismo J:. l!si-
~análise. Mas esse programa é montado mediante certos·riscos. O mais
importan.IJLdelcs. a meu ver, foi o perigo de confundir o objeto de .
F.reud.~cum o.de Marx. O oferecimento, pelo Materialismo Histórico, .
de conceitos capazes de promover o estudo das ré feridas condições po-
deria acabar conduzindo a uma anexação da Psicanálise ~lo Marxis-
mo. sob o pretexto de não poss.uir o que ela poderia of«ecer-lhe, ou
seja, uma teoria da idcologia. 15 Esse risco é claro· e definitivamen~e
afastado pelo segu ndo artigo que apresento- "Marx .e Freud" - e que
distingue, com rigor, o objeto -de Freud do de Marx. ·
Dominique Lecourt c.hama a atenc;ão para um outro perigo desse
programa. •~ Ele acaba tornando dificil uma análise critica da "maqui-
naria lacaniana". Qúanto a isso, a me.u ver, será. novamente o texto
"Marx e F reud"' ·q uc irá. abrir caminhos.

14. Ck a nota do editor brasil.:;:o do "Freud e lacan". In: ALTHUSSER. L ,oJi-


.(M.t·Z. p. 103.
15. Não teria sido eal» tendência de um Michel TORT. no seu "IA !sydttu!DIJ'-"! dan.r
I~ MDtirialiJm~ DíQ{tctiqw".~ . .
16. LECOURT, O. La ,kllosophit SQIIS Jrifrtr. p. 113·20.

18
Mas, por mais importantes que sejam esse5 _impasses c cdtícas
(que podem sempre ser retomados e corrigidos), não se pode perder de
vista o fato de que são apenas pequenos det{llhes em relação à estraté-
gia global de crítica do stalinismo e de relançamento do Materialismo
Dialético. Se, para tanto, o objetivo tático de Althusser fora. segundo
suas próprias palavras, o de intervir filosoficamente, ..... instando os
memhro.f do PCF a recotJhecuem a cie_ntiflcidode da Psicanálisr, da
obra de Freud e da impÓrtáncia da interpretação laconiana desto", 11 o
sucesso parece ter sido bastante grande.
Para citar apenas um exemplo, b~sta considerar que, pouco tem-
po após a publicação do texto- em 1967~8 - o Crntrê ã Etudes et Rt-
l'hercheJ Mar:dstes (CERM) organiza um grupo de estudos pluri-
disciplinares sobre Psycanâlise e Marxismo·, do qual resulta uma signi-
ficativa produção teórica (ccréa de 12 artigos do publicados), 11 nitida-
mente dominada por um debate em torno de Lacan. A pro~a disso é
que o próprio Lacân e&tará presente pa~a uma confrontação com o
grupo, fechando o ciclo de exposições.
Uma pequena nota da edição original do ''Freud e Lacan" nos
diz: "L.A. propõe, aqui, algumas rejláões sob~ o estatuto teórico da
PJiconálise. Ele desejo que essas I'J!.flexõe-s suscitem outras. É tambim o
voto da revista". •• Se foi esse o objetivo e o desejo, cQtão ambos se rea-
lizaram, pois o des~ino teórico, mas sobretudo pólftico da Psicanálise,
· na França, está marcado, até hoje, por esse pequeno artigo.

....
Consideremos agora o segundo teito, .. Marx. e Freud".
_ · Entre 1965, data da publicação de "Freud c Lacan", e 1976, data·
em que redigiu "Marx e Freud'' ,_muita_água rolou sob a ponte. No it~­
nerário teórico de Althusser, essas duas datas e, portanto, esses dots
artigos são testemunhos de momentos bem _distintos, correlativos a
duas definições <liferentcs de Filosofia. ·
O primeiro momento vai at~ 1965, data da publicação de "Freud
e Lacan". Nele, Althusser, recusando o dogmatismo.stalinista que se
consubstanciava no tradicional Materialismo Dialético, propõe uma
nova definição para a filosófia marxista. Ela seria Teoria e é ~im de--
finida, :em 1963: ·
·.
.· ..
17. ALTHUSSER, L. Posi~j-)_' p. 103.
t'8. Psychanalyse et Marxisme: ús CQhirrs tlu Crntrt d'Etlllirs tt Rrchrrch~s Morxis·
u .t. Paris, 1970. 4 v. b
19. ALTHUSSER. L. "Freud et Lacan". IA Nouvrllr Crltiqur, n9 .161-2. dezem ro-
janeiro 1964/65._· ·

19
" Chamanmos T~orla (com maiúscula) à teoria geral, isto é, à t~orifl da
prática ~m gmzl (~labort~da, ~~~~ própriiJ, a Pflnlr dll t~oria das pníticos tró-
rlctU ~xlst~nt~s dtU dlncia&) qw transformam~"' 'conh~cimentos' (wrtla-
d~., C'i~nt{jltm) o produto ld~ógico das práticos 'emplrirtU' (a ativitlod~ do.f
/rQfNf'ns J ~xlstmttJ".l" · '
O que nos propõe, concretamente, essa definição, um tanto pc:&a-
dona c repetitiva'! Ela ~e· do princípio, rigorosamente marxjsta, se-
gundo o qual há uma prior:idadc da prática. No entanto, quem~ capaz
de m nhecer a prática? Quem é capaz de conbecer esse concreto que é
" . . . a atividade dos hom~ns ~xistentes"? São . as ci!ncias. Althusser
chamá-las-á, no entanto, "práticas teóricas". Essas cimciu ou práti-
. cas teóricas conhecem a prática dos homens. mas não possuem. n~
sariamente, uma .teoria da sua própriá prática teórica. Marx, com O
Capital. apropriou-se da prática real dos homens cxistcn~ transfor-
mando, por exemplo, a Economia PoUtica clássica, ainda muito pró~i­
ma da prática empírica, em uma ciência dotada .de um objeto próprio,
a luta de classes. . ;
Marx não tinha, porém, uma teoria da sua própria prática teóri-
ca. Freud, com a Interpretação dos Sonho~. apropriou-se da prática .
real dos homens existentes, transformando a antip Psicola,ia, ain4a
muito próxima da prática empírica, em uma ciênciá dotada de um ob-
jeto próprio, o inconscien,e. Mas também ele não tin.ha uma teoria
bem elaborada da sua prática teórica. Elaborar essa teoria seria, en-
tão, em 1963, o objeto da · Filosofia. · .
Essa definição da Filosofia retoma alguns pressupostos filosófi-
cos bem conbcci<tos. Retoma. por exemplo, Kant,.quando este pensa a
cimslituidu da ciência pór um progressivo afastamento do empirico.~·
Retoma. sobretudo, Gaston Bachelard, quando este· nos diz que as
ciências do ~ulo XX estão em completa e radical ruptura com o co-
nhecimento comúm; e que essas ciências vivas têm necessidade.de uma .
filosofia nov~. apaz.de ajudá-las a se desvencilharem desse "tecido de
erros tenazes" que é o conhecimento comum. Mas retoma, antes de tu-
do, o velho projeto de Engels da constituição de uma Teoria ou Dia/1-
tica . que stria elaborada a partir das ciinciaJ. Infelizmente, po~m.
a
essa definição de Filosofia retoma, também, epistemologia stalinista
posterior a 1950 da oposição Ci~nçia X Ideologia c que, apesar de tu-
do, nàó deixa de ·infl~enciar o trabalho de Althusscr.
Essa definição da Filosofia·coloca, contudo, inúmeros problemas.
Por exemplo, o de saber se: cs8a Teoria geral não acabaria sendo uma
teoria única, uma superteoria, uma novà matesis universalis, que aca-

20. ALTHUSSER, L. ANill.st u(tlca da ttorl4 marxista. p. 14S.


21. crr. KANT. Crltlq~ dt la raúon pun : Ver o prefácio da 24 cdiçio.

20
baria por impor-se, como um nov'\ \aber absoluto, a todas as ciancias.
E~ risco foi nwito .~ndo a SJI,f~rlr. depois d~ ".F.-eud c
lacan". por exemplo, que seria posslvcluma..fusia entre a .tóptca mar-
xisla e a freudiana, qu!' Gria possfvcl um supcrdiscurso - eventu&:l-
mente chamado discurso da supcrdctcrminaç~o - que, enquanto tcona
. geral .dos discursos. seria uma Teoria Geral da Ciência. Restaria, natu-
. ralmente. saber quem ~ria o .. dono" dessa Teoria Geral. se o Marx de
Althusser. ou o Frcud d.c ·Laean. Isso, porque. se foi Lacan quem te-
descobriu o objeto de Freud, fazcndQ, portanto, uma teoria da prática
teórica de t:reud, então o autor dos Elàitos seria, tam~m. o constru-
tor dessa nova filosofia. .
Mas há um ugumlo Altlnuser, que se apresenta. desde 1~7, no
prefácio à edição italiana de l,.irt L~ Capilftl - quando um movtmcn~
,geral de autoerltica é anunciado - e q~c .e torna claramente defin~
'dO e pensável quando surgem, em 1~74, os p~mentos.d~ Aut~ritica.
· Com ele a filosoria não~ mats T~na da prAttca tcórtca. mas.
sim. · ·. : , em 'attltna instância. luta de clalses na teoria··. o.que. signiflca
isso'! A melhor resposta para uma tal questão t a próprta lettura dos
dois textos que ora apresento. "Freud c Lacan" foi escrito pelo "pri-
meil!J Althus.vd' e ·•Marx e Fteud", pelo ··s~do". Mas ..F~eud .e
Lacan··, conforme mostrei, ~ um exemplo llmp1do de uma prát1ca .da
Filosofia como. em última ln11tAncia, uma luta de cla1ses na t~na.
· Em outras palavra11, e"istc, com·o quer Althusser. um~ radic~l
prioridade da prática (mosmo quando •e trata de ~ma prâuc:a te~~~:
Cll .•. ) sobre a teoria. A prátl:ça teórica quo nos deu frcud c. Lacan e
incompatível com ll conscllncia~do-$Í ' dCIIl. prática, OU SCJ8, c;om a
COI'I$tituição de uma Teoria da prâtic:a teórica que tenderia a clabor,r
supercO"nceitos (como o de supcrdetcrminação) para um (upcnaber,
uma ciência da cl6ncia ou um saber absoluto . .. Freud e ~az
. uma Juta de classes na teoria pará ajudar a ~csobstruir o çamtnbo para
o discurso cientifico da Psicanálise, Mais tarde, "Mar~ 111 f"'ud" vçm
pa1'a corriair oa evcntuai11 desvios da ~ntiga ~oncepçlo de Teoria c
mosu•~tr que.não mate a T~otfa. mas, stm, teonas distintas: 11 de Mar" _
e a de Freud. ·
No en~anto, antos de entrarmos di~tamcntc na çon,lderaçlo des-
te segundo texto. vejarnos, rocsmo que seja ~ linhas cxtremam~tc
gerais, como se deu essa passag~~ d~ um momento ~o outro do .ittnc-
rário de Althusaer, tentando pr1vdcgJar o ponto de vtsta que ma11 nos
interessa aqui, ou seja, o da· relação CQm. a Psican61isc.
1965: Frunçois MASPEitO, um editor de esquerda C independtn•

22. ALTHUUiiR. L. Posiçdts-1. p. 75 e sep,

ll
te face ao Partido Comunista Fran~. inicia uma nova coleção ..,. cha-
mada Thé~ri~ -, d!rig~da por LC?uí~ Althusser. Abrindo-a, nosso autor
la~ç~ um hvro, CUJO tatulo, curto, claro ~ provoçativ.o, ressoa como um ·
mamfesto:_ Pour Marx. Ou seja, el~ dizia, com duas palavras, que se to-
mava part1do a fa~or de Marx, qu~ se voltava a ele, que se fundava
sobre ele para empreender - ou para continuar? - a longa marcha em
busca da._ filo.s~fia mar1tista. Lacail, que fazia algo semelhante com
Freud, n~o dazta que a verdade é aquilo que corre atrás da verdade?
O prefácio desse livro inaugural- a meu ver um dos textos-mais
bonitos, sinceros e vigorosos que foram escritos por um comunista
contemporâneQ- vai, já por seu titulo, direto ao essencial: elci se cha-
ma "Hoje". H~jc é preci8o v~ltar ~Marx, para se _analisar o· q'\e está
ocorrendo. Hoje, com Marx, e precaso parar de ficar contando estórias
da caJ:ochinha. Hoje é prçciso ver que o marxisma_oão é uma filbsofia
.~Q_sentido da .Hi.stór~. mas, sim, a possibilidade aberta para uma aná-
hse concreta. de.umLUtua~o C?ncrcta ~porta.ilt~, atual. Hoje é preci-
so o~ar aceitar a dura evtdêr:-ct'a que se tmpõe: Mo existe umaft/ruofta
I!U!'~t~ta ... em esta~o ~~co elab~rado. Ou seja, o Materialismo.
Oialc:taco dos.manu~ts stalin!Stas !lio é~ filomfia marxista. Aqui está
unt Althusse! grandtoso,.radical, mtranstgente,louco talvez, tentando
a dura ex~nê!'cia de pontuar o diseurso da filosofia marxista, ptl'miJit~­
cendo no tntenor do Partido Comunista; vamos começar tudo de novo
vamos (re)começar o Materialiamo Dial~tico! '
E o .conteúdo desse Jivro-manifeato? Artigos. Artigos diJttMÍos. Ele
retoma os p~incipais _textos escritos desde 1960. aqueles que falam da
super~etenrun~çao, com a exccçio- sintomática?- do "Philosopbie et .
Scaences H u~ames" e do "Freud e Lacan", ou seja, dos textos em que
se fala, exphcJtamcntc, da PsiCtiiUÍiist em geral e·de Lac-on em pilnU:U-
Iar. . . . ·
l_lu_almcnte em 65, a mesma coleçio_publica Lin ú Capht1J.2l
Este ultz~o recolhe o resultado ~ ~minários de estudos consagrados
a O Capttal, em 1965, com a parttctpaçio de Etienne Balibar Jacques
Ran.cicr~, Roger Establet e Pierre tdacherey. Enquanto La~. faz seus
semtnános, agora na Eco/e Norma/e, sobre Freud, Althuuer faz os
seus, .em grupo e com outro estilo, sobre Marx. São cucs dQis livros
que, na segunda metade da década de sessenta, irio tomar AJthusscr ·
-conhecido e mundialmente famotó. .
Antes deles. na primeira metade dessa década, eie era muito pou-
~ conhecido. No int~rior do Partido, por exemplo, seu nome quase
nao chega a aparecer durante os.debates. Embora já tenha sido notado

21. .Hii uma tradução braalleira do amboa, _lançada ~ .Zaba:r. ·

22
por Merlea11-Ponty/• seu nome nio é recõnhecido. Jean Lacroix, seu
antigo profeisor, (;onfeuou-me, em certa ocasiio, que essa
posiçio de
nlo realmente acc~ito pelo Partido deveria explicar muito das diflCul-
dad_cs pc:ssóais de Àlthusser: seu riJor c intransicmr;iu teóricos, a.lia-
dos à sua fiddida~lc, colocavam-no
respondido. . · ·. . .
. nio cor~
. em UÓla situaçio de. amGr

A filosofia marxista francesa, até 1965, nio pUlava por Altbus-


.
ser: O Partido Comunista penteia Politzer, fuzilado pelos nazistas,
Sartre iniistia naquela posição ambfaua de ..compagnon de route".
· ·Henri Léfcbvre o abandonara, deixando um certo vazio. dada sua irrc-
cushel importância. Restava Roger Garaudy, que, tornando-se mun-
dialmente conhecido, foi reconhecido como porta-voz da filosofia
marxista francesa.. ·
Antes de 196.5, ou seja, antes da publicaçio de Pour Marx ~_de
Lire Le Capiuú, a.S reações aos textos ~ Althuaser ..o esparJU e pou-
co significativas·. Mas, segundo Jean_Pierc.Cotten, de ·qualquer modo,
ai poucas· réaçõei; já se concentram em tomo desse conceito funda-
mental de_supel'fk·terminaçQo e da queatio do humtllfi3mo.u Logo, do
ponto de vista· que: aqui nos i.nteresaa, .ou·seja, diJ posição de. Althusser
em relação·à Psic,lJiá/iSe, u discussões se farão, muito embora ind~ ·
tamente, referindc'"se a ela. Cotten analisa, com uma certa minúcia, as
primeiras reações que vieram de G. Mury e G. Bcssc, c parece-lhe que .·
ambos se mostram ~ticos _em relaçlo à questão da descontinuidade
Marx - Hegel, à n.ova apresentação da al)tonomia relativa e à neccSsi-
.d,ade do conceito de .superdeterminação.26 · ·· ·.
. Ora, -nio 6 difiéil aoéiiar o fatO de que,DO fUndo, éues tres aspec-
tos estejam imbricados no conceito de superthtuminaçQo: como vi-
. mos, a dcscoritinutidadc Marx - Hegel foi pensat/4 com o conceito de
~rdetermi~·. e é ele que coloca uma nova maneira de pensar a
autonomia relativa, ulrla vez que· é ele quem indica um novo tipo d~
· causalidade, que implica, evidentemente, a questio do tipo de autono-
·mia entre as instâlncias. Logo, podemos dizer que tudo se concentra
em tórno do concc:i.t o ~e su~rdet~rmilfação, e, portanto, da questão do
· estatuto da .Psicanálise, pois, como vimos, foi ela, em sua verslo laca~ .
· ··n!ana (Psican~lise e Lingnlstica), que ofereceu um tal conceito.

.24. MERLEAÜPONTY, M . La~vruÍMlt~diM«rii/W:v: l6e.,._ópratili•do


· ·profC5501" do Co/lige ~~ Frrur« ~ae de forma curiosa a dois pequenos artiaot publka- .
dos pelo jo•em.Akhw;ser, em ~9Sl, c:ritiça"ndo-o duramente, mas, ao mamo tempo, re- ·
conhecendo-o como um Jqltirpo Rpreaentante lb tradiçio marxista, ao lado de En,e\5
c de PlekJiânov.
2s: COTIEN, Jean·Pime. LII -P•Nth dr Louis Althv:r•tr. p:· ls? e !ICp.
26. ~o dois arti,ot 'que aparecem na RYilta IA h/Uk, em fevereiro e abril de 1963.

-23
Segundo Cotten, o que apresenta dificuldade, para G . Desse- um
dos primeiros intelectuais do PC a reagir- é o fato de que, se se aceita
o ,c onceito Je superdeterminação, entio se subestima ·a ..contradição
fundamental'', que ·é a alma .da concepçio clássica do marxismo:
•• ... fKI"•~-Ih~. dil Cotten, referindo-se a Bcsse. ( ... ) qué o nti(Õf' de
.fupt>rdelc-rminocão arri.{ca-u a .rub.t tituir a concepeão d ás#ca de uma ~flcá­
d u prúpria da .fUJWr~.uruturo, eficácia que ; o mOdo de l'Xi.uência da dl'ter·
milla(ào em última in.rtánd a, ui11a conl"~prõo que tscoril'garia para o p/ura-
li.mw: elllendamo.f: na quo/ não mais~ pod~ria encontrar, na complrxidotk .
( ht•m "al i da açà(l de rewmo, o modo de pn .tl'n(Q da cau.ra/idade em última
ÍI1JtÓ11CÍQ· ·.:·

Aqui, o termo-chave é "pluralismo", que se opõe a "monismo".


Defende-se o stgundo contra o primeiro. E a questão fundaméntal que
AlthUSier irá a vários momentof colocar, assim como. diga-se de pas~
sa;sem, também Lacan, é a de saber o que é que essa opQsiçio pluralis~
mo- monismo quer di~er. 211 Parece-me que o que G . Besse teme, no
fundo. ao condenar aquilo a que chama pluralismo, é á perda desse
panteísmo das forças produtivas, desse monismo constitufdo pelo
crescimento das forças produtivas, novo sujeito simples da História.
que.se exprime em tudo e que é a única maneira de ver a contradição
dita fundamental. ._
Algo de extremamente curioso e que mereceria toda uma reflexão
ocorre: a ideola&ia que recusa a ruptura com Hegel~ a mesma que~
siste à Psicanálise. Por quê? Poder-se-ia especular sobre o fato de que o
saber absoluto begeliano recusa a diferença entre os sexos?
O mesmo ocorre com O . Mury, que é, segundo Cotten, apenas
mais radical:
" Oro, escreve ele, a própria tWçiio d~ suprnktennlllaçio i incompatível,
niío someni~ com o ldeo./isnro, nuu simplesmente com o 'monismo ( . .. ) &ta-
mM aqui, no COf'tlçàO do dehtlte_". ~ .
E se C$tá. de fato, no coração do debate. Esse coração parece con-
sistir, para se ir rapidamente ao fundo das coilas, em se saber se os co-
munistas estão dispostos a renunciar ao sonho de uma revolução sim~
·pies. e a suas conotações escatológicas. Por que, afinal de _contas, o
que· é que esse estranho conceito de s uperdeterminação traz, c.omo,
conseqüência mais imediata, a não ser a ·evidência da necessidade de:
uma tal renúncia? Sem de, a complexidade das contradições e dos

27. COTTEN. Jcan-Picrrc. IA TMMt~ dt Louis .AIIhwstr. p. 160.


21!. <.:rr .• entre outr11s, a nota n' I da tradutor, à p. 611 de ·· Marx c Freud".
29. MU RY, G . " Matêrialismc ct bipcrempirisme" . Lo ~M11Sit. Abril 1963. p. 4 1.
problemas reais era sempre ·reduzida de qualquer jeitQ - ~o preço,~por
vezes das mais escandalosas simplificações - a nada ma.ts ser senao a
expre'ssão passageira e facilment~ superável de ll:m movimento cuja lô·
· gica necessári!l se conhecia: mov1me~to do cresc~~ento das forças pro-
dutivas, que explodiria as antigas relações socuus de pTodução, etc.
Não era isso que ensinava a dialética stalinista? Nio era esse o funda-
mento último des.s a espécie de fé inabalável que o militante comunista
dt;yeria ter no então .chamado sentido .da Hist<ID:a'? Garaudy ~~·~ .c~~
ben o de razão ao ~ti?er ,que Al tll u ~se_t.fuc_os sentimentos do m•htante
~umunist a.
. A publicação de Pour Marx e Lire Le Capital, em 1965, torna
.Aithusscr conhecido. Explode na França, a partir de então, a moda es-
truturalista, e o termo Epistemologia passa a ser de uso obrigatório
para qualquer intelectual que pretenda catar "dmu k ~ní " da inteli~
gemsia francesa. Os ''conceitos fundamentais" do althusscrianismo-
problemática, corte epistemológico, leitura sintomal. Ideologia X
·Ciência - começam a ganhar as ruas. MiUor Fernandes. sempre sc:nsi·
vel às peripécias da inleligenlsía brasileira. expr~lo-á, um pouco·
m:ais tarde, com um cartoon inteligente e picante: um C$hldante da
PUC do Rio é assaltado, na rua, por um marginal da favela próxima,
que lhe aponta o revólver. O estudante, perplexo, pergunta ao margi~
'nal se se tratava ou não de um corte episte~oJógico. Millor parecia
sentir, no ar, alguns dos impaSSC6 do "teoric~mo". ·
. Althusser faz falar de si no mundo inteiro.
Fama e reações confluem em Argenteuil.
Entre 11 e 13 de março de J966, realiza,:-se um.a sessão do _C omité
C eotral do PCF, erri Argenteuif, na qual se' i'econhece o dir~to à pes-
quis~ e à expressão filosófica para os aderentes do Partido. Nela•.a
..questão Althusser" ocupa um lugar de destaque,~ .nun~. será dema1s·
sublinhar a importância dessa sessão para o &ell 1tioerano. Isso por~
que, como vimos, ele pretende realizar um modelo bastante especffi~
de Filosofia. Ele é um dos raros filósofos franceses que pode ser cons1~
derado um "grande intelectual" ·- poder-se--ia mesm~ a~riscar.se a d_i~
zer ser ele o único- c que consegue permanecer, do tnfeto ao fim, SCJ8
durante as circunstâncias dramáticaS de 19-56, seja durante os perfodos
mais calmos, submetido.à.disciplina dessa organização poUtica de ~po
leninista. Pode--se, evidentemente, aceitar ou recusar uma tal expen!n·
cia como .válida. t inegável, no entanto, que ela, com tudo o que tem,
tanto de grandioso e generoso, quanto de trágico. e d~ ••alienante" , é
uma experiência rara e, portanto, exemplar. Isso JU~tifi~ eoti.o. que.
olhemos com mais vagar o que significou Argenteud para o homem·
de-partido que é Althusser.
A reunião em questão, inteiramente consagrada a .problemas.

25 .
ideológicos e culturais, marca data. Scsundo RoJer Oaraudy, "nenJtu.
.m a ~ssõo do Comit; Central fora tentrada mlwiwJmente nesus
problemas desde 19J7". Vale dizer que, nesse Pc:rlodo de 37 a 66, quax
inteiramente dominado, como · o foi, pelo dogmatismo stalinista, as
questões ideolóJicas não eram verdadeiramente debaticfas. Deixemos
de lado outros aspectos e consideremos apenas, nessa seslio, a ques-
tão Althusser. A tentação de considerá-la como o grande duelo en.tre
o
um Garaudy, campeão da velha ortodoxia, e jovem Althusscr é mui-
to grande. Não há dúvida de que posições tcóriCo-jdcoló~cas se cho-
cavam de modo irredutfvel. .E era, provavelmente, a primêira vez em ·
.que se via, com toda clareza, que nio se poderia decidir, entre uma pO-
sição ou outra, pela via simples e expeditiv.a. da autoridade. Afinal de .
contas, dez anos já se haviam pas.sa~o desde o X~ Congresso do
PCURSS. Por outro lado, um eterno debate, para um partido que
se quer eficaz, pode enfraquecer e postergar, por um tempo pcriJosa- ·
mente longo, a ação. É o ..eterno'' problema·colocado por um Partido.
Assim, o confronto entre as posições de Althusser e as de seus oposit~ ·
res colocava, para o Pa~do, problemas bem reais, diante dos·quais se-
ria preciso Jrande maturidade c habilidade poUticas: mr nome de que ~
decitlir quem e$1~ certo e qwm estflVO errado?
Aragon dá mostras, a meu ver, de uma tal maturidade, ao dizer,
referindo-se às conclusões dos debates, que:
". . . i .., nstlltllllo. "'" compmmluo "''" IJÓI, 110 ~11tldtJ JMTfeittlltWifk
lwnráwl desm ptllavra, patrl o Mm do·Panldo, ~o wteltM i llisim qutt eu ·
pm&o, patrl I'Nlizor tu to"ftu qW Ullo liiOI'rl ditmte tk IIÕI" .!"
Toda a questlo é saber se tais acordos de cavalheiros são possf-
veis sem deixar seqOelas, se se pode conviver politicamente com teses
por vezes radicalmente inconciliáveis. E tudo o que. ocorreu após Ar- .
senteuil parece indicat que nio. Althusser, embora nló tenha sido~
jeitado oficialmente pelo Partido, .como ocorreu. mail tarde; com Oa-
rau~y, vem, inegàvelmente, pqan1fo~m alto preço por sua oposição
tcóraca. · . .
A posição do Partido - se é que se pode dizer assim, como se hou-
a
vesse uma posição una e única - face Altbusser foi curiosa. Ninguém
o ataca no plano poUtico. Ele é um militante disciplinado. O que ata~
cam é o modo como ele usa a teoria. Ora, surge, aqui, uma JTande am-
bigüidade, ou um diilogo de surdos, porque, para Althuaaer, a polftica
é muito exatamente a maneira pela qual ele usa a teoria. . . E ele prc-

lO. ÁRAGON, citado p·o r COTTEN, Jcan·Pierre. IA ptnsh tk Louis Altlnu.Jer. p~


1.73.
lende usar a teoria para fazer face, de modo conscqQentc, ao stalinis-
m~ . . . .
Vejamos isso mais de perto. Uma palavra busca sintetizar a criti-
ca que lhe é feita: doutrinarismo. O caro ·professor da Eco/r Norma/e
n_ã~ militll bastante. Ninguém, ~videntemente, ousará dizer. com prc-
~asa~. o qu~ vem a ser essa história de militar bastante. O certo é que
1sso o levana a encarar, de modo problemático, a relaçio entre a teoria
c a prática social. Para ir ao fundo da questlo: Althussc:r desconhece-
ria 'O lugar real que ocupava. Desconhecendo esse real, ele i[á transfor-
mar em descontinuidades o que só pod~a ser captado .no interior de
uma dialética que nio se satisfaça com puras rupturu. · · ·
Que rupturas?
. ·_ ·fundamental~ente, a. insistência no. corte'epistemoÍógico,·a Õpo-
su;ao entre a funçao práuca do humamsmo no marxismo e o anti-
hum~nismô teórico e, finalmente, a descontinuidade entre a dialetica
hcgeliana e a materialista.
· . Se essas ~ticas fossem radicalizadas, o .querestaria de pé da la-
bortosa pcsqutsa de Althusscr c da critica do stalinismo qúe dela de--
corre'! Se se editaSS;C, novamente, a divisão entre dois grupos, um que
.fala do ponto de vtsta do real e outro que desconhece seu lugar real
então não poderia haver solução. '
G~raudy propõe uma sfÔtcsc. Mas o preÇo a ser pago por ela é o
de abnr mão do alcance t~órico dos novos conceitos e de suas come-.
qüindas, como, por exemplo, a Critica do sujdto. Càstraçio teórica:
"Se nós soltamw.s UmG das potlttu da cadeia, dizia ele em Arpnteilil,
a~bam~ caintio em dfiiU concepções lllllititlctU, igWilmeltte flll.u. J10"/W
umlatt!rau: a de 11m MOCientifldsmo dDtltrilf4rlo que /tU abstroção do mo-
mento sôbjetivo e a .de um 'socillllsmo lnmtaiwto' q~ prete,. o~se 00
socilllismo dentlftco ".J l · ·

É claro que o "ncocientificismo doutrinário., significa Altbusser.


Este, segundo Oaraudy, fere os sentimentos dos militantes comunis-
tas, ~ corre o riscc:- de arrancar-lhes iuas r~ de agir e de vivér. o
qu~ me parece maas terrível é que, em certo sentido, Oaraudy catá cer-
to. Isso na medida em que, de fato, Althusaer~ . tomando possivel uma
critica da ideologia, faz uma crítica de um certo modo de vida, uma
vez que, afinal, a ideologia pertence· à ordem do vivido. Restaria saber
se a crítica a um çerto ·modelo de existancia militante abriria espaço ·
para formas ideológicas mais interessantes dessa mesma exist!ncia· em
outras.palavras, saber se a~ antigas ."r~ de Yiver" Cederiam Jupr a

~~J. <fARAUDY. citado por COTTEN, ~ean-Pierre. IA ~núe th .IAW Altltus.str. p.

. 27
..... ..
outtas ·"razões'', igualmente imaginárias; mais adequadas, porém, a
um desejo revolucionário. .
.Sob certos·aspeçtos, é de se temer que isso nio tenha acontecido.
A intervenção de Althusscr deu margem a alguns exa,cros, como o de
reforçar uma certa ideologia da distinção entre a Ideologia e a Citncia,
que, como vimos, é de fundo stalinista, e essa ideologia teve efeitos
dramáticos. Permito-me construir um exemplo que é quase uma çari·
catura. Em um livro tão intereSsante quanto discutível, Le marlage et
la crise du coup/e, Róger Géraud nos reproduz algumas de suu "ob-
servações clinicas". Uma jovem de 22 anos lhe conta suas "misérias"
(anorgasmia, embora casada, desejando sua irmi, tentativa de suicfdio·
do marido, compensação através de uma ibundan~ prátiça polítiça,
etc.). Em um certo momento, a paciente "acusa" seu médico de ser um
burguês, porque era um médico . Este lhe pede para continuar. e a
m_oça diz: "-Pois bem, eu quero ser uma militante científica, nlo uma
burguesa que tem estados de alma. Eu quero que minha açio seja ilu··
minada pela ciência marxista . .. " 31 Parece-me importante observar,
aqui, a separação que se estabelece entre a militante cient(fica, de um
lado, e, de outro, a mulher ·que teria, como uma burguesa, "estados de
alma". A militante científica não poderia ter "estados dt alma". A mi-
litante cientHica seria esse ser monsfruoso que viveria na frieza do çon·
ceito.
Não posso afirmar que essa J;~Ossa "militante científica" seja uma
..althusseriana" dos anos 60. Pode tratar-se, pura e simplesmente•. de
uma vitima· do stalinismo. Ela realiza, no entanto, a meu ver, de modo
exemplar, um certo modelo caricotural da oposi.ção entre Ciencia c
Ideologia. O fundo da questão parece residir em uma imensa confusão
que se faz entre a prática cient(jica enq~~Qnto tal e a alivldode militante.
~Não me parece correto identificar uma e outra. O lucar da militância e
o da·prática científica, embora articulados; são diferentes. A militância
. é algo que implica ardor·, paixão. A prâtica cientifica, embora possa
ser sustentada, no fundo, por uma paido como é ocaso de Althusser,
exige-, ao se exercer, uma certa distância, para que ic tenha a "cabeça
fria" para pensar conceitualmente, e, portanto, apropriar-se do real de
forma mais justa. Ora, nào me parece que Althusser tenha proposto a
existência na prática científica como a única total c possfvel, como o
modelo de vida.
Nurica será demais insistir quanto a isso, pois estamo1, aqui; em
um dos pontos nevráJgicos para a compreensão do trabalho de Althus-
ser. principalmente se se leva em conta que é sobretudo ... e por vezu,

32. GERAUD. Roge r. L~ Marlagt ti lt1 rri.st áu 'oup/t . p. 101-S.

2X
exclusivamente- graças à tese da distinção entre Ideolosia e Ciência
que ele se fez conhecido no Brasil e que a evolução de seu pensamento
passou, na maioria das vezes, desapercebida pela opinião comum. Sem
sombra de dúvida, a ideologia cientificista e dogmática do stalinismo
( ... eu estou na verdade e a ideologia é o outro ... ), que dominou por
vários anos o movimento comunista, pesa muito fone e ela também
opõe Ciência e Ideologia. .e a inércia dessa ideologia que, a meu ver,
leva a uma oposição absoluta e sem exterior entre uma e outra. Assim,
a Ciência passa a ser o outro da ldeologitJ t vice-versa. Ora, uma vez que
.a ideologia é da ordem da vida, da exist!ncia, do "vivido';, pensar-se-á
que, dada essa radical oposição, trata-se de instaurar o seu outro, ou ·
seja, a Ciência, e, ponanto, uma ..vida cientffica", um "vivido cientffi.
co", uma ·•existência cientffica", o que é um manifesto absurdo, ou,
pelo menos, uma espécie de pervenão. Seria falso e injusto imputar
uma tal concepção a Althusser, muito embora, a meu ver, seja iJual-
. mente inegável ter ele sofrido, como qualquer outro comunista de sua
.seração, o peso dessa ideologia. Um certo exagero, uma certa superva-·
lorização da Ciência por Althusser obedece a outras razões que não o
dogmatismo cientificiista.
Com efeito, e isso é o mais importante a ser notado, a insistência
de Althusser quanto a valores exigidos pela prática cientifica, tais
como o rigor, o trabalho com conceitos teóriCos, no sentido exigen-
.te do tenno, a demonstratividade, a sistematicidade, etc. tiveram um
papel político tão preciso quanto importante: durante o stalinismo, a
'teoria era, pura e simplesmente, uma serva do poder, e Althusser vem
'reivindicar, para ela, uma autonomia relativa. Ora, de nada adiantaria
essa autonomia sem a existência efetiva da teoria, o que·prcssupõc,
evidentemente, que tais virtudes se exerçam na paciência do' conceito.
Assim, o "doutrinarismo" de A.lthu.sser preci.sa, tJMftl ver, seronali.sado,
desse ponto de vi.sta, como umo rtQíâo ao pragmatismo vigtnlt no dog·
matismo stalinista. Era preciso insistir sobre o valor da teoria .
Creio que a o.bservação mais pertinente quanto ao trabalho de .
Althusser veio de Waldeck Rochet:

" Eu considero, diizia ele em Araentcuil, qw. a~sar de dúÍinpir a teoria


dtJ ideologia, convém acenhlar,lflio o qwtU dúllllp, ma.r oqru tU Ulle reoJ.
mente, porque qut:ÚftWr 01111'0 métotlo só tkMmbocGrd 1111 el(lbortlçdo th um.
teoria. septUada dtJ vida. ( . .. ) t pt~ra subliMar a necessidatk>da uniiio fnti·
ma tntre a teoria ta prática sociJII qw Lên;ne emprqaVG/rtqikirttmtntt os
sinônimos 'ideologio prolettíi'Úl' e 'teoria do soclolúmo cientlfico'!
Ainda uma vez. se todo ideologia tem um cardlerdecltwe, nio~podedl­
zer, por isso •. qw toda Jdeologill se}tl um conl~txlmento f(l/so.

29
O ~~~~nc/Q/1 sa~r qu~ papel a classe 3ocilzl em ~stão d~s~mpenha no
d~senvolllimento social'·." ·
Essa observação de W aldeck me parece muito importante, por·
que, de fato, a grande questão que se colcx:ou ao Althusser de 1965-66
foi a questão da relação entre a teoria científica e o movimento concre-
to c real. ~ Ep!stemologia•. que diatinguia, de modo simplista e abrup·
to, entre ~~ê~cta e_Ideologta, era.um ranço stalinista dos arios 50/ 52.)4
Ora, se a msJStêncta no aspecto aenUfico do marxismo, instrumentali-
.zado _pela cpistcmo~ogia bacl)elardiana (que superava ·as teorias cspe-
~ulattvas do conhectmento por uma epistemologia histórica c matcria·
hsta), era capaz de promover uma critica teórica rigorosa do staUnis--
mo e, assim. começar a serrar o galho sobre o qual se assentava essa
epistemotogia de origem stalinista, nem tudo, . porém,. estava feito.
~lgo precisava acontecer para que esse momento da pesquisa althussc-
n~~a fosse levado às_ suas últimas conseqüências e se completasse. As
crttt~ em Argcnteutl foram um desses fatores: agora o próprio Parti-
do Vla, graças ao trab,alho de Althusser, os impasses da epistemologia
~ue opun~a qênc.ia e Ideologia. E é para mostrar esse aspecto que a
mtervcnçao de Waldeck me parece impof1ante;
Para tentar captar o movimento em sua generalidade, poder-se-ia
dizer que Argentcuil viu, pelo trabalho de Althusser, de modo bastan-
te ..concreto"· - porque consignado em textos -, que, se .a epistemolo-
gia da oposição Ciência X Ideologia fosse tomada em todo o seu radi- ·
~lismo e rigor, ela conduziria à produção de uma concepção da teo-
na. ou melhor, ~e uma ideologia da teoria como algo separado da vi-
da, portanto, separado do real c, conseqüentemente, falso. Ein outras
palavras, que a concepção que se tinha da FiJosofia .como teoria das
proticas. t~óriras _e ra solidária para não dizer idêntica, a essa ideologia
da teona, e devul, portanto, ser ultrapassada, pela. reintrodução da
l~ta de classes na fórmula que dizia ser-a Filosofia uma polftica na teo-'
na. .
Em 1967, ~a advertência à edição italiana de Lin L~ Capital,
A lthusser anuncta essa ultrapassagem por meio de um movimento dê
a.ut~~r_ítica, ao recusar a definição de Filosofia sob a qual foram eP .:ri-
tos fr~ud e Laca~"· Pour Marx e Lire Le Capital. .
Mato de 68 veto em seguida. .
Certamente o_ que ali se passou contribuiu para reforçar o movi-
mento de autocrittca em relação à oposição absoluta entre Ci~ncia e

33. Citado por COTTEN. Jcan-Picrrc. IA ~n.rit dt Lotti.v Althu.urr. p. JSS-6.


34. Quanto a cllliC ponto. cncontrar-se·á um excelente estudo de J. M. OA YMAN. em
l.t'.< müítrt'.<dtt la laiiK/J<t. p. 149 e segs. ·

.\0
ldeoiQgia, pois, entre outras coisas, colocou em qucstio, de modo can-
dente, um certo prestigio da ci&ncia. oficial e universitária.
Surge, então, um segundo Althusscr tem'atizando a presença da
política e disposto a superar os equfvocos da ideologia sccretada por
.sua prática. O fio condutor para se compreender uma tal supcraçio
pode ·ser essa questão da teoria separada da vida.
Mesmo antes de maio já surgem novos e importantes conuitos;
que tentarão recolocar em termos mais precisos a questão; Em 1967,
no Curso dt Fi/o$()fi(l para ci~ntutas, AlthusKr avança a importante
·distinção entre ideologias teóricas e· ideologilu proticos; tU id~ologias
práticas, são, então. segundo ele:
". . . fomtaÇões conrplexaJ ú montag~M de noçõrs·npnsentações- ·
imag"u em comportamentos-conJutas-lltirlldts-gestos. O conjunto funciono
como n(mnas práticas qw go'"mum a alitlllk ~a tomada dt posicão co1tcr~
ta dos homeM em nlaçào a obj~tos reais e a probl~mas rHis de sua existi,..
cia social e individuo/, e tk SIUl História. " n
São, portanto, algo inteiramente existencial, real e concreto. A partir
delas, ele definirá as ideologias teóricas, dizendo que se trata de uma
definição provisória: ·
" ... são, em última lnstãncio. na uoria, fomtJJS transformados das ideo-
logias práticas, mesmo quando se trota de formas irnconhecí'"l$. "»
. .
Esses dois conceitos fazem avançar a pesquisa, que se faz, às. ve-
zes, como toda pesquisa, de modo tateante e precário. Eles abrem o
·cam~o . para que o problema da arti~ulação entre teOria e vida possa
contmuar a ser trabalhado. As ideologias rt6ricas serão "formas trans-
formadas", finalmente, do vivido. Toda a questão seri. portanto~ de
. poder ~mar, de modo rigorosq, tais transfor!Tiações cspecifiças. A
meu ver, Althusser nio foi muito lange nesse trabalho, e a articulação
entre ideologias teóricas e práticas ~anece como um programa. No
entanto, dadas essas definições (que datam de 1967 .... ). a tese sim-
plista que opõe Ciência e ldeologi~ - e que acaba opondo Ciência e
Vida- voa pelos ares, perdendo completamente seu sentido. Isso por-
que o corte epistemológico é, então, pensado não mais como uma rup-
tura entre a Ciência e a Ideologia. mas, sim, entre uma ciência e a ideo·
logía teórica que constitui a sua pró-história. Além do mais, a ci~ncia
nova que surge, sendo uma prática, como toda e qualquer prática -
precisará Althusser em 1970, no famoso artigo "Ideologia e Aparelhos
I dcológicos de t.~tado" - fàz·.fe .mb uma ideologia. Assim, toda e qual-

35. ALTHUSSI::.R.• L. Phi/o~ophir ri philo.•ophír .vpontllflh dr.< .ÇQmnu. p. 26.


l6. ALTHUSSf.R. L Philo.<ophír rt pltilo.•op/lir .<pontanlr de.< .ÇQI'Qnl.f. p. 62 .

.H
quer ciência se faz sob uma ideologia. Logo, não há separação entre
Ideologia e Ciência. A oposição ldeol'o gia X Ciancia é uma ideologia
como qualquer outra. Toma-se, pois, mais claramente ainda, distância
do stalinismo.
A Filosofia, desde 67/ 68. no Curso d~ Filosofia paro cü•ntista.s e no
U11ine e a Fi/o.wfia, não é mais definida como Epistemologia, como
Teoria das práticas teóricas, mas, sim, como prática. Ela é, em última
instância, uma prática política na teoria, é uma "presentarão da luta
de classes na teoria. A luta de classes que fora ocultada pelo stalinismo
pode ser, agora, além de vivida, pensada.
Assim, afastada a oposição ideológica entre a ciência e a ideolo-
gia. ll:ita a distinção entre ideologia teórica e ideologia prática, defini-
da a filosofia como política na teoria, reintroduzida, portanto, a luta
de classes. não pode mais haver lugar para uma s~pqração entre a teoria
e u 1·ida.
Marx e Freud serão exemplos extremos de como a teoria não é se-
parada da vida. A crítica de irracionalismo feita, por vezes, a Marx e a
heud é si ntoma dessa verdade.
.. "Marx e Freud", o segundo texto q~e aqui apresento, irá mos-
trar. stth t> po.uw de fundo dos conceitos a que acabo de me referir.
como ·a teoria é inseparável da vida. ~o que veremos a seguir. ·
Vejamos, inicialmente, como "Marx e Freud" nos '!'ostra q~e a
teoria é inseparável da vida, através da questão do confl1to e da Jrra-
'cionalidade.
O artigo ··Auto-critique: la psychana~se•. un~ idéologie .~éac~i~n­
naire" liqüidava toda e qualquer pretensao ctentlfica da Pstcanuhse,
ao considerá·la como algo essencialmente irracional·. Mas esse t~~ to de
1949 ti nha um modelo bastante preciso de racionalidade: todo. racio-
n<il é compatível com a doutrina do Materialis~o ~istóri9o-pialético,
c este acaba sendo a própria Razão. E o Matenalrsmo DtaletlfO e~a a
.ontol\)giu rundante de uma nova ciência, o ~aterialismo H1st~m~o,
que acabava sendo uma ciência total. Marx nao escrevera que so exJs-
, tirá urna· ciência, que será a Ciência da História? Ontologicamente
:'fundada" , essa epistemologia se~ia o discurso último .da Razão.
1\lthusser irá liqüidar esse esquema com tanta coragem quanto
simf)licidade. O ponto de partida para uma tal liqüidação foi colocar o
próhlcma - estritamente marxista - das condi('Ões de producào do
conhecimento científico. Assim como, segundo Marx, a ProduçàfJ t>m
gl!ru/ não existe. também a Ciência t>m gua/ ou a Raião em gt'ral não
existem. O que existem são modos de produção, diHC:-nos Marx . Pois
bem. perguntará Althusser, por que não pensarmos em modos de pro·
duçào de conhecimentos? Em 1965 - Ur~ L~ Capital - essa questão
ainda <·orria o ri.fco de ser tratada especulativamente. A Rlosofia, Teo~

32
ria das prálicils teóricas~ ou Epistemologia-, poderia ser construlda
como um .sistema que especularia sobre o modo de produção científico
e sua distinção do modo de produção ideolócico.
M ~· feita rap!damente a correção no conceito de Filosofia- ago-
ra polit1ca na teona -, esse risco desapareceu. Não se trata de cons-
truir, por uma combinatória formal, os modos de produção de conhe-
ci_mc:ntos~ Trata·se de partir da produção de conhecimentos, concreta-
mente existente na pJálica cientUica efetiva dos cientistas. Com outras
palavras, não se trata do discurso da Rilzão, mas, sim, da análise das
condições concretas, Ttist6ricas, matefi.ais, segundo as quais várias for-
mas de racionalidade se desenvolvem. Ou ainda, não se trata de elabo-
rar uma teoria para fundar a Ci~ncia, mas, si,rn, de examinar o modo
como cada ciencia exi.rt~nte é produzida. Desaparece, portanto, a ra·
c~onalidade exterior e soberana. Para Althusser, isso se chama. pura e
Simplesmente, mJiten'alismo.
· Ora, aq~i, o _que mais i!l'porta observar é que o que dcsaparoc:c·
com essa ractonahdade ex tenor e sobera~a é, muito exatamente, o dis-
curso dogmático, ontologizante, do antigo Materialismo Dialético e
Histórico.
A argumentação de Althu~ser é irnplácavcl. Se a Psicanálise é in-
compatível com um certo modelo de razão, então o marxismo também .
o será. Por quê'!
_ . Porque a.s ~ndiçõ~s de· produção tanto de ~ quanto de outro
sao mcompatJve!s com o modelo roclonali.rta.·se a Psicanüisc: ~"irra­
cional", porque supõe o "inconsci~n.t~" como condição de sua produ-
çã ~. ~-esse_ inco!;rdent~ não é a Razão, então o marxismo, iJualmente,
sem 1rra'-1onal • porque ~te supõe a luta de clat.Jt'.'> , e c:stB não é a Ril-
·zào, mas, sim, o conflito das razões. Para Altflusser, de um modo geral,
não se tem acesso à teoria psicanalítica sem passar pela ..irracionalida-
de" da transferência, pois é com ela que "vivemos" nosso inconsciente.
Mas, do mesmo modo. para ele não se tem acesso à teoria marxista
sem passar pela ..irracionalidade" da luta dt> classes.
Ora, tanto um quanto outro, tanto o inconsciente real quanto a
luta de classes real são do domínio da vida. E "Marx e Freud" nos
mostrará que é essa vida, concretamente experimentada, que é condi-
ç.ão de possibilidade dessas novas ciências. Logo, a ant.iga critica de ·
que o "althuss~rianismo" é apenas um formalismo separado da vida
não é mais pensável. .
A audácia de Althusser é total: não são o marxismo e a psicanáli-
se que devem d~brar~se às exigências de um modelo externo de racío-
.n al id~de ou cienti~cídade (no qual, por exemplo, devem desaparecer
con01to e contrad1ção), mas, sim, a antiga idéia de razão e d~ ciincia ;
qu~ deVt.' cedn lugar às evidências oriundas dessas novas prálicas cientíjl-

.U
cas. Ele se pretenàe fiel ao principio marxista de prioridade da prática:
. a prática científica tem uma prioridade face a qualquer especulação
sobrê; a prática científica. Se a prática marxista se faz, inexoravelmen-
te, no conflito, se a prática psicanalitica é impensável sem o conflito, se
uma certa idéia de razão exclui o conflito, então essa idéia de razão i .
falsa.
Mas, com essa intródução do conceito de conflito nas condições
de produÇão das n·ovas ciências, ." ' . . . renovam( -se), totalmente. aJ.con-
dições anteriormente reconhecidas como normais para qualquer des-
cobrimento. " 17 E, com ·uma tal renovação, todos os conflitos e cisões
(no marxismo: a teoria das duas ciências, a ·epistemologia dogmática e
cientificista da separação entre Ciência e Ideologia,.a superação dessa
epistemologia, o stalinismo, o conflito sino-soviitico, as tensões de Ar-
genteuil, o movimento de autacritica, etc.; na psicanálise: todos os
apaixonados conflitos vividos por Lacan; as cisões de·SJ e de 6)., etc.)
agora não são mais fortuitos, puramente empfricos ou acidentais. Não
. ,se trata mais daquilo que poderia aparecer como sendo, simplesmente,
uma "petite bistoire", um pouco sensacionalista c cmpkica, que deve--
ria envergonhar-se de aparecer diante da austera seriedade do con~i­
to. O drama passa a ser uma das 'condições da teoria. Os conflitos pas-
sam a 8er os proprios fios com os quais se tece a téia da nova figura de
racionalidade.
Temos, ~gora, um segundo Althusscr "existenciaiista", que irá
" fundar" as ciências na vida c não no puro conceito. Se nosaa " mili-
tante científica" ouvisse o que ele diz agora, ela seria obrigada a admi-
tir, mais que nunca, que para se ter acesso à .ciência da qual ela preten-
de sei: militante, ela tem de ter certos ••estados de alman, ,tão imaginá-
rios quanto quaisquer outros.31
. Com o " segundo" Althusser, a vida e.a luta de classes irronipem
na teoria e é isso que " Marx e Freud" nos mostra, aprofundando a
crítica indireta do stalinismo . . · ·
Vejamos, agora, para terminar: como Althusser resolve a questão
do tndivídualí~mo, distinguindo ·o objeto de Freud do de Marx.
Conforme vimos, os "marxistas franceses", em 1949, condena-
a
vam ina~la velmente Psicanálise. "No seu conjunto, diziam eles, ~la i
uma ideologia reacionária". Reacionária pó r ser uma forma de iTTacio~
nalismo. Um inconsciente em si resulta de um misticismo obscurantis-
ta. Reacionária, também, . por ser individualista. O homem é, para
Marx, algo essencialmente social: sua es~ncia " . .. é o conjunto das re-

37. ALTHUSSER, L. "Mar)( e Freud", p. 68.


3!!. Cfr. f'. 2l! do preS<lnte estudo.

34
·t~ç'&s sociais". logo; Lllbà teôtia qUe se certtfil ho individuo uma téc- ·
,fttcl tt~e ~rttbalba ~:orn o lttdii,idúó ~ podt ~f Wna formaçã~ particu-
.lllt d~ adeo~ógia · getál d"mirUahte; ::que é .,urguesa e individualista. .
.. ~~ "Matx c Froud;~, Althu~ser ataéa es8e problema dé frente,
d.esr~t~ndo equfvõcos. tottlo acabamos de observar, o chamàtltJ hirta-
·cJofiahsrno•• dà Pil~ná1ist faz parte integrante c fundamental das con-
,diçõü dt p~u"o da nova ~encia. Vejamos, agora, como o seu clrti•
.~ad~ " lndlllidt1áll3mo" ~. iaU&Jifiente, uma estrutura •tí$ilicial da ~ua
.clenttncldadt, Pttôibitctmosj ~ssim, ootttô o que páretia, aos ólhtl~
dos "mlltldsta~ fral1~s dé! 48" , cal'à<:tensticas da ídeol9gi'a constitui~"
·Pata A lthuster, ha vttdade, estruturàs essenciais d~ cierttifiéidade ou
Cól1dlções ptli'a sua prodU~Ilo. '
. Para.cb~atrnos a isso, consideremos, de novo, inicialmente1 ô tà-
íilc~l anh~mpmsmo de Althusser. Esse antiempirismo é compiitfvei
Cófi'l a posiÇiu de Laean 111 íemtlhattte a éla. Ambos, ta.:an e Althus-
ser, t6nsldetll.m que ~ vttdàdéitd Frêud ê ó verdadeiro Marx sÃo e~
stn~a}rrtentltntletnpttlstts. Páta artibos. a Ciêncià tom~â ali oride 0
emplhsmu llttbá.
Mü o qLili cxata~toté CJ empiris~~7 é abfindd.ó Lité Lt Capi-
tã/ que Altbuuet ttâtà o tintll do empmsfi1o 1 ê no8 d uma da~ sUilí
dtMonítrli~t&!li mais tltgarttlâ 1 riJo rosas. Jlllseia~se. tiatutalffithte, tnt ·
o
Marlt. Uh'ià vet que~ trltll dlltt c_apit~l; Mas conttssa; ftelapti•
melta vu ê ootn toda ela~, qut s~ tniptta na ~llnei.fi sttundo ll
qual Ucab ~ê F~ud. LdJo, sua dêftn,çio dt effipltlsmu ~ córttpãtfvel
cdnt u,ma certa ltituta, tartto de Mlltit q,uáHtd dt t:rcúd. M:ts t1 qu• i
emplns~o? E~tJlrflmõ f ldéntl/ltttt o tJbjtl~relil cdm õ b~j~t~titt~
cõnlflttm,ento. Edlltt que ô objtttJ-de-conltetimtHtrJ. ttUt a essêfiC!à lá•
ti no obJeto-l"diJ, ~· umt maneira oü dt outra, ltm.plri!itHô ê cüncebtr
ô PNCésso do. éOnhêtltHfrtt~ côtnO .uma ~odâtldüde d- exttaçitl dl
il"
~etdadf a P,artit do *1. A.sim tomo Matx. não ehàiõU ~6ftceftd d•
. #WI.f.'olalta .abstmfHJtJ eüê eonéelto dl tealidada dà tJtl)llltãtÀB ~pt·
tallsta, Fteüd nld éhiiiJOU ao é"nl!tit6 de ''inconJtleHtr 11 ab.WdiliJ,;
~ eõttc!dto dà rtalidàde dó ffiódõ de aet humllfió rt•urbtíco ou psltó•
taeo.
. ~vidéh.tertt~Htt, a v•tdade 1~ á w; éom o ttll. tMdffttementl dJ
c:õrt~t!ôi cl.ettú~~ IIIH 11 'WI QOJH os õbjeto!i r~iã, em tclltçÁ6 ~IJii
qu~ts el~t etn dlttmil lldlluj txillt~ttt. l!videnten\trUe, 3 eõn~lt6 d• .
num-valia té#h a ver wm ll Dl'lor~W~u ~pitaHitê e 6 dt Ht~l1ttãeltntt
·I:OM o rêll ·~modo de het hütrtatto ntur6tiG:o o" r;JIQÓtJooH, Evldtntt~ ··
mtn~, O ~onheclmtftló ~ ~.nb*ltHinto do, re&), .~bâ bsl utft à Vet
eom é dtfinldo. put AltbtW~t. 11e,utndo ntsso Mlflt flJdtoitmente.
CõthO st,rtdd _uma /orfttll. J~ ãplopi'/Dtdo de úm t'tiO óUtró. o
t!ólfÃir:l•
thtitlo ctenJ{jlco. ê JUHttfomta dt fJp1opHavâo do tJbj;ttJ ffltl pt/9 oh)fttJ.
.
de-conhecimento, dirá Altbusser. Isso nada mais faz. senio exprimir,
em uma outra linguagem, as famosas fórmulas de .Marx da Introduçao
geral de 57, considerada, como _se sabe, como sendo o seu Discurso do
Método:
·-
... . . A toialüiatle, nos diz ele, tal como ela·aporece IW espfrlto como""'
todo ~nstldo. i 11m p~to do clreiHo pensame, qw !e aproprút do mwulo
da útalca m411el,. pos.r(vel, trr~~Mll'tl que difere tia apropri~ lle~te mJIIItlo
pela Ane, Religião or~ pelo espírito pTático""~~,
·ou, ainda:
·•. . . o concreto é concreto, po~ é a ·síntese de múltiplas determino-
ções, lógo, o wrklade da diver.riiJilde_" 40 ·

· Logo, o que faz com que uma ciência exista não é apenas a exis-
tência de um real, de um objeto real. Uma ciência existe quando ela
produi um objeto-de-<:onbecimento capaz de se apropriar do real. ,O
que caracteriza uma ciência é o fato de ela ter sido capaz_ de constrwr, .
com seus conceitos rigorosamente definidos, o seu objeto-d~
conhecimento. .
Ora, se o Marxi!mo, enquanto Materialismo Histórico, é uma
ciência, e se à Psicanálise, enquanto teoria "do inconsciente, é uma ciên-
cia, então, tanto um quanto a outra devem ter seus objetos-d~.
conhecimento respectivos." E é a partir desse principio rigorosamente
colocado que se irá desfazer o "qüiproquó" em torno do caráter indivi-
dualista da Psicanálise. . . ·
Com efeito, o Materialismo Histórico é. uma ciência: ciencia da .
luta de classes em uma formação sooat dada. Logo, o Materialismo
Histórico não é o ciência, mas apenas''uma ciertcia finita. Em -'9. o·
Marxismo (Materialismo Histórico e Dialético) era a Ciência. Pouco
importa se isso não era confeásado diretamente. Pouco importa se esse·
caráter totalizante e totalitário se escondi• por trás de expressões ino;.
centes tais como a que nos dizia que a "critica social" iluminava ot fa-
tos com uma luz nova,.dei.xando ver se eram fatos cientfficoa ou nio.
O fato é que; finalmente, era eaae supeQaber, essa ci&ncia \lnica da
História que nos dizia, na verdade, o que é o real. ,
· Se o Materialismo Histórico fosse a ciência e se ele noll dissesse
que o Homem é isso ou aquilo - no presente caso, que ele 6 o conjunto
das relações sociais - entlo. qualquer afirmação diferente seria, evi•
dentemente, úma ilusão. Mas o Materialismo Histórico nlo 6 nem t
Ciência c nem tampouco a ciência do Reà1. Face ao R.eal inexó~4vel, o

39, MARX, Karl. lntrodtlctl011 fbtiMI•. 51. p. 256.-


*
40. MARX, Karl. lllt~tltHt tilliral• j7, p. 2,,

J6
Materialismo Histórico é apenas uma ciência finita qw se apropria des-
se real nos limites do seu campo específtco, isto é, nos limites dO seu ohje.
to-de.coniJecimento. Dentro desses limites, o Materialismo Histórico
nos dirá que o homem ... "é i! cm~junto dos reloç&!s sociois". Vale di-
zer, nos limites do seu objeto-c»conhecimento (a luta de classes em
uma form.ação social dada), o homem será o conjunto das relações so-·
ciais: Ou seja, o homem será o suporte da luta de classes ou das rela.-
c;ões sociais. Nesse caso, entlo, o Materialismo Histórico não estará
mais falando do R~l, mas apenas de algumas de suas detenninações. ·
Antes, quando o Materialismo Histórico era Pensado como a·
Ciência, ele se opunha, necessariamente, à Psicanálise. Era, como vi-
mo.s. ou Mau- dizendo que o homem é o conjunto das relações so-
ciais.,... ou Freud - dizendo que o, homem:é dotado de um inconsciente
e, portanto, de algo que ocorre ·no indivfd~o:
. A Psicanálise, aos olhos de Altliusscr, como ficou estabelecido em
..Freud e Lacan", é também uma ciência. Ou seja, a Psicanálise está.
conseguindo definir um objeto-~conhecimento que é seu. Estrita- •
. mente seu. Esse objeto é o inconsciente e seu funcionamento. Logo~ o·
que é preciso ser visto, com todo rigor e radicalidade, é que, se Marxis-
mo e Psicanálise, enquanto ciências efetivas que são, referem-se, cOmo
~ qualquer ciência, ao real, elas nio têm, no entanto, e nein podem ter o
mesmo objeto-de-conhecimento. Enquanto o Materialismo Histórico
elaborou uma teoria das formas histórico-sociais da individualidade
humana, ou _seja, enquanto, para ele, o individuo só pode ser sujeito
suport~ d• relações de classe e o individualismo, uma figura especlfica
da- ideologia dominante- burguesa, a Psicaná.li.se· elaborou uma teoria
da subjetividade, subjetividade esta que só pode ocorrer no individuo ..
humano. ·
Em outras palavras, tanto o Marxismo quanto a PsicanAlise sio
ciências. Ciências sui generis, como vimos, maa ciências. Eaquanto
tais, elas não se referem, diretamente, ·ao individuo humano real; exis-.
tente. Elas são formas distintas de apropriação desse ~1. O Marxis-
. mo se" apropriará dele, por exemplo, transformando a nOção ideológi-
ca de individuo-humano-sujeito-consciente-do-si no conceito de sujci-
to-suporte-de-relações-sociais-.~produçio. A Psicanálise o fará, por
sua vez, transformando essa mesma noçio pela nova teoria do sujeito
que lhe é correlata.
. . Vemos, então, que o Marxism~. enquanto ciincia da luta de clas-
ses em formações sociais dadas, nio pode falar da subjetividade indivl-
dutll, pois não é esta a suo ceM, a sua "realidade", o seu objeto-de-
cdnheciment"o. Enquanto eienciaparticulor, ele só poderá falar das for-
mas sociais do individ~idade. E, sempre enquanto ciertcia panicular,
'ele deverá ~vitar a tentação .ideológica, o desejo de totalização que f a-

37
ria, do seu discurso particular, um saber abaoluto, o qual diria que
todo homem é isto ou aquilo. .
Do mesmo ·modo, e pelas mesmas razões, a Psicanüilo, enqJ~~~~~to
ciência do inco_n.r~i~nt~. não poderá falar das formas históriço.IOCiaia
da indiyidualidadc., mas ape~as da subjetivi~ade individual ou das po-
sições subjetivas face ao social. Aquela nlo é a sua cena, a 1ua "rcali~ ·
dade", o se~.,t objeto-de-con~ccimento. Ela deve. pois. como qualquer ...
çiência, fugir à tent~çio de totali.Zaçio. Vemos. pois. q·ue o chainado .
"individualismo" da PsicanaUise, do ponto~ vista·estrito, nadunais é
senão respeito à espccifiçidadc do ~u objcto-d~conbccimcnto.- ou se-
ja, o inconsc.ientc, que só ocorre no individuo ~ e que, portanto, u·m tal.
"individualismo'.' é, na realidade, uma estrutura essencial à 1ua cienti-' ·.
fiCidadc . ·
Caso não fosse "individu~dista", a Psicanâlise seria, então, uma
ideologia. : . · . .
Em 1949, estávamos na mais total oposiçlo. qa ou Marx ou:
Freud. Em 1965, apro~imamo-nos do perigo oposto; ou seja, da ten-'·:
dhrcia a fundir Marx e Freud no discurso da superdeterminação, su-
petciência, saber absoluto que rceditaria, se a tendência dominante .
fôsse a da Psicânálise, ·uma epistemologia geral, a qual proporia, como
fimd_am~nto, o desejo, tal çomo ele se exprime-esconde na linguagem,
ou se apropriaria da PsicanaUise, se a dominb.cia. fosse do Marxismo,
colocando-a no. Materiàlismo Histórico comó a nova teoria da Ideolo-
gia, da qual ele teria nC:ccssidade; .teoria essa·que~ novamente, tomaria
possivel uma epistemologia geral c fundante. Tanto Marx quanto
Freud se pei-deriam, ·de novo, na ideologia totalitária e totalíza~. Em
1976, com ··M·arx c Freud", Althusser restabelece a distãncia adequa:.
da.: Marx e Freud, o mesmo combate.contra a noÇlo ideológica de sú-
. jeito, mas em ~ois campos radicalmente distintos; porque duas cian-
cias distintas. ·• · .
Evidentemente, surge um novo problénta. Çomo articular essas
duas. ciências? Essa ·novidade, no· entaJJto, é·a peitas pma pr.ecisão de
um· pJ:'oblema velho como o mundo, tal como o da articulaçio do sa-
ber. . . , ..
· Com ''Marx e Freud", portanto, assim como o faeta com "F~ud .
e Lacan",. Althusser nos (noStrou· como a Filosofia é, eQl última in.-
. tãnçía, política na· teoria.. . ·

. Abril de 1984
Walter J. EVANGELISTA
..
BIBÚOGJUFIÂ

. - . .. .. .
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. i
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. . .. . .
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de Dirceu Lindoso da versão original. Rio de Janeiro, Zahar Ed., . .
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gie ct lutte idéologiquc. Casa de las Amlricas, n• 34, enero-fcbrero de
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- -- · Ou Capital à la philosophie de Marx. In: . Lire Le
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uma tradução brasileira: . Ler O Capital; tradução de Natha-
nael C . Caixeiro. Rio de Janeiró, Zahar Ed., 1979/ 1980. ·2 v. )
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Maspero, 1975,401 p., 2 v. 2t v., (Théorie, dir, L. Althusscr). (cfr. cit.
anterior: há tradução brasileira).
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( al11er.f Marx1stt>s Lemnmes. Pans, J I, : ~122, avr. 1966. ·
- -- · Cremonini, peintre de l'abstractioti. Démocratie Nouve/le.
Paris, aollt. 1966. ·
- - - · Sur le contrat sÓcia.!. Cahiers ·pour l'ant~lyse. Société du
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- - -· Sur lc travail théorique: difficultés et rcssourccs. Lo Pensée.
Paris, (132): 3-22, avr. 1967.
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Paris, Armand Colin, oct~dk . 1968, n' 4, 62' ano, p. 161-168.
- -- · La philosophie comme arme de la révolution. La /'ensée.
Paris, mars-avr. 1968 {138) : 26-34. (Obs.: retomado ein tradução bra-
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40
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gicos de Estado, ambas da Graal. Na segunda, aparece também uma
importante "Nota sobre os aparelhos ideolóaicos de Est,ado" que data
de 1976 e na qual o autor responde a criticas que lhe foram feitas.)
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- ------· Uncerreur politiquc. Franc~ Nouve/1~. 31 de julho de 1972.
-------: lntervention dans la discussion sur "les communistes,les ín-
tellectuels et la culture~·. FTtJ!fU Nouvrlle. Paris, n' 1453 18 a 24 sept.
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- - -· Réponse a John Lewis. Paris, Maspero, 1973, 99 p. (Cot


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41
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- - - · Le Siminaire; Li'lre. /: úllcritlteclmiqwl de Frrud. Paria,.
Seuil, 1975.· · ·
...;...._ _ , ú Simlnalre, Liw•t XX, Encon. Paris, Seuü, 1975. .'

- - - · úSirni~rt. Ll'lre 1/, ú moi dani l~J ·tltlorie tk FMMI !1


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_Revu' d' Psy chanalyse. Paria; nt1, 1970. . ·

..43
. .
FREUD E LACAN --

Por LOUIS ALTHUSSER


Tradução de: WALTER JOSf: EVANGELISTA

45
:FREUD E LACAN 1

. · . . · . Por .LOUIS ALTHUSSER


Tradução de: WALTER JOs! .EVANG'ELISTA

NOTA PRELIMINAR

Digamo-lo Hm rodeios: fwm quiser hoje, P14TtJ e sirltplesmtnte,


compreender a descoberta revolucionária de Freud, não optn41 rec~
'cera ma existência, mos também conhecer seu sentúlo, dne atrawssar,
a·CUJI(I de grQ'U/es esforços Ciftlci)s e le6rlc~s, () 1/ntiJ$() t$PQÇO de pre-
. conceí(os ideológicos que nos separf!. tk Freud. Yisto que não somente a
descoberta de Freud foi, como irem~ ver, reduzida a discipliNJS que /Jre .
são, em sua.essincia, estrtinhas ( Bio/ogiD, Psicologia, Sociologia, Filos0a
fia); tuio apenas numerosos psicanalistas (sobretudo na escola america-
na) se torrrQram cúmplices desse revislonlsmo: mos, pior alntlo, esse revi-
sionismo serviu, ele próprio, objetivamente, d pr.odigioSil explf?roç4o
itkológíca de que a Psicanálise foi objeto e vltbna. Não foi sem l'tizio
que. não há muito tempo (em 1948) marxistas franceses tknunciaram,
. nessa explorQftlo, llmll "ideologill naclc:HUfrl~". f1W servkl de arrun,lft().
na luta ideológica contra o marxismo, ·e tk meio prático de Intimidação e.
mi,,tiflcação dos consciências. · ·· ··
' Mas hoje se pode ~rfeltamente dizer que esses mesmos manlst4t
foram, à .rUa maneira, direta ou indireta~Mnte, as prlmeJros vitimas diJ.
ídeo/ogiD que eles únunciawlm: já que a confwullr~~m com a ducokrttl.
rewJ/ucionária ú Fr~. aceltand.o assim, ú fato, as poslçks do OJIHr-·

I. i4 NOintlk Crltlqw, 16/, 161 (dftmrltro -}tuwl~ 1964/lfJ.IJ)•


.•
sário, sujeitando-se às suas próprios condições e reconhecendo, na ima-
gem que ele lhes impunha, a preterua realidade da Psicanó/ise. Toda a
história passado das relações entre o Marxismo e a Psicanálise repousa,
ess,ncialmente, sobl't essa confusão e essa impostura.
Que fosse particu.larmente dificil escapar disso, nós compl'tende-
mos, primeiro pela função dessa ideologia: lendo as idéias "dominantes",
no caso, desempenlrado perfeitamente, .reu papn de "dominação", im-
pondo-u. mesmo contra a vontade delu. aos pr6prios upfrilos que dese-
jawun combat~las. Mas nós o compreendemos, tambim, pela existência
do revisionismo psicaniJiítico que tomou possÍ'vel essa exploração: a que-
da na ideologia comtfOU, com efeito, pela queda da Psicanálise no biolo-
Kismo, no psicologismo e no sociologismo.
·Que esse revisionismo tenlra podido autorizar-se do equívoco de cer-
tos conceitos de Freud, que foi obrigado, como. tOdo inventor, o peruar
sua descobuta nos conceitos teóricos existentes, constituídos, portanto,
para outros fins, também podemos compreendê-lo (o próprio Marx não ·
foi igualmente obrigado a pe.nsar a sua desco~rta em certos conceitos
hegel/anos?).· Não há tfÚJ.(J .lllldtl que poua surp~mder um espír:ito um
pouco informado acerca diz hiSi6ria das ciências novas - e preocupado em
definir o irredut{ve/ de uma desco~rta e de seu objeto nos conceitos que a
.exprimiram qU4ndo de seu nascimento, e que, desatiUllitados pelo pro-
gresso dos conhecimentos, podem ulteriornrente ocultá-la.
Portanto, retomar a Freud impõe hoje: .
1' não somente recwtu, como uma grosseira mistificação, a camada
ideológica d~ 6UQ exploração reacionáritz; ·
2• mas, além disso, evittu cair nos equívocos, mais sutis, e. sustenta-
dos pelos prestfgios de algumas discipliiULY mais ou menos cient(ficas, do
r~isiolfismo psicanalítico; · ·
3' e, fiM/mente, consagrar-se a um trabalho sério de crítica históri-
co-teórica, fNJra identificar e tkfinir, nos conceitos que Frtud tem de em-
pregar, a verdadeira rel~o eplstemolópca existent~ ~mre esses concei-
tos e o. conteúdo que eles pensavam.
Se,m esse trfplice trabalh.o de crítica ideológica ( 1'. 2') e de elucida-
ção epistemológica (3P), praticamente inauprado na França por Lacan,
a deScoberto de Freud permanecerá, em sua especificida<k,Jo;.a do nosso
alcance. E, o que é especialmente grave, tomaremos por Freud justamen-
te aquilo que colocaram ao nosso alcance, quer o pretendamos recustu (a
exploração ideológica reacionária), quer, mais ou menos duavisadamen- ·
te, nós o subscrevamos (as diferentes formas do revisitJnismo blopslcosso- ·
ciológico). Nos dois casos ~rmaneéerúlmns prisioneiros, em diftrtntu
níveis, das categorias explicitas ou lmpl/citas da exploração ideológica é
do revisionismo teórico. Os marxistas, que sabem, por experlincla pr6-
pria, que deformações foram impostas por seus adversários ao pensamen-
to "de Marx. podem compreenlkr que Fnud tenha podido sofrer. à sua
48
. ·maneira, 0 mesmo destino, e qU41 é a importdncia teórica de um autlnti-
co "retomo a Freud". • · _
Dignar-se-ào admitir que um artigtJ!ão ~me. ~ se proptJt abor-
dar um problema de tal importânci~. se !'?o q1ltser tiW-Io, deve llmJ_rar-_se
ao essencial: sitiUlr o ~eto do Pstcanalue, para dele dar uma f!n~t~a .
definição, nos conceitos que permitam a loCIJI~açio, P_~fHlraçao !nd~­
pensávél à elucidação dase objeto. DigMr·se-ao admitir, consequent~ .
mente, ·que se faça intervir esses concei~o~, '?nto ~IIIJI!Io poss(vel em, sua
forma rigorosa, como o jaz qualquer disc!plma ctentíftca•. sem. to~-los .
insípidos num comentário de vulgarizaçao demasiad_o apf't?X'f1!0.''.vo, e
sem tentar desenvolvi-los verdadeiramente numa análtse que ex1gma um
.espaço inteiramente diverso. . .
Apenas o estudo slrio de Freud e de Lacan, que cada um pode em-
preender dará a medido exata desses conceitos, e permitirá definir os
problem:.U em suspenso numa reflexão teórica já rica de resultados e de
promessas.
L. A.

49
INTRODU.CÂO

Alguns amigos critiearam-me, com toda razão,-por ter falàdo de··


Lacan em três linhas: 2 ter falado demasiado dele para o assunto do
qual CP tratàva, e ter falado bem pPUCO dele face ao que eu COR<:IUÍa.
Pedem-me algumas palavras para justificar tanto minha alusão quanto
o seu objeto. Aqui estão elas - algumas palavras, onde seria nec::essárià
um livro.
Na histôria da Razão Ocidental~ os nascimentos sio otitto de to-
dos os cuidados, previsão, precauções, prevenções, ~te. O pré-nata) é
institucional. Quando uma jovem ciertcia natc:e. o clrculo (amiliar jA
está sempre pronto para o espanto, o júbilo e o batismo. Dcade hé
muito· tempo que qualquer criança, mesmo tend<J sido simpleamente
encontrada. é reputada filha de um pai. Quando se tratJ de uma crian-
ça prodígio, os pais brigariam entre eleS, no cartório, pe'Ja paternidade;
se não fosse a mãe, ·e o respeito que lhe é devido. No nosso mundo pre-
nhe, prev~se um luga·r para o nascimento, chega-se até a prever um lu-
gar para a previsão do nascimento: "prospectiva". ·
.Q ue eu saiba, oo transcorrer do século XIX, duas ou tris crianças
nasceram, sem ser esperadas: Marx, Nietz.sche, Freud: Filhos ''natu-

2. Cfr. Rnw tkl'~meJfl ,.W~'fw,jullll~julho 1963, "Pbil'*'Phil: r;t Sáee-


ces Humaina" p. 7 c p. 11, nota 14: Man rv.ndou aua teorilaobre a rcjáçio do mito do
..H()Iff() rconomiCJU ". Frcud rundou 1ua teorilaobre a rcjc:içio do mito do "HO#ffO py-
chologlnu". Lacan viu c wmJmencleu a ruptura liberadora de Freud. Comprendev-a no
lelltido pleno·do.tenno, tomando a letra DO .leU fiaor, C forçaride» a procluzir,llm tr6-
gua nem coocxuio, suu próprias ~ciu.·Eic pode, çomo qualquer um, errar ao
detalc, mesmo ~ escolh<l de suas rcf~nciu filotóficu: dew-te·lhc o ~"cio/.
·rais", no sentido em que a natureza ofende os costumes, o honrado di-
reito, a moral c a arte de viver: natureza ~ a regra violada, a mãe-
.solteira, logo, a aus~ncia de pai lepl. A Razão O~idental faz pagar
caro a um filho sem pai. Marx, Nietzsche, Freud tiveram de pagar a
COJlta, algumas vezes atroz, da sobrevivência: preço contabilizado em
exclusões, condenações, injúrias, misérias, fome e mortes, ou loucura.
.Falo apenas deles (poder-se-ia falar de outros malditos, que viveram
sua condenação à morte na cor, nos sons ou no poema). Falo apenas
deles porque forllm nascim.ento de ciências ou de critica.
· Que Freud tenha contíecido a pobreza, a calúnia e a perseguição,
_que ele tenha tido a aJma suficientemente anco,_da para, suportar, in-
t erpretando-as, todas as injúrias do século -lio coisas que talvez não ·
estejam isoladas de alguns dos limites c dos impa515e5 do seu gênio .
Deixemos esse ponto, cujo exame é, sem dúvida, prematuro. Conside-
remos apenas a solidão de Freud no seu tempo. Nio.f'alo da solidão
humana (ele teve mestres e amigos; embora tenha eonhecido a pobre-.
za), falo da sua solidão t~órlca. Pois, quando ele quis ·pensar, ou seja,
uprimir, sob a forma ~e um sistema rigoroso~c conceitos abstratos, á
descoberta extraordinária com a qual deparava, a cada dia, nos encon-
tros com sua prática, foi um _trabalho vio procurar preccdent~ tcóri-
. cos: ele quase não achou pais na teoria. Teve de sofrer e, ao mesmo
tempo, arrumar a sesuinte situação teórica: ser, ele mesmo, o seu pró-
prio pai; construir, com suas mãos de artesio, o espaço teórico em que
pudesse situar sua descoberta; tecer, com fios emprestados aqui e ali,
por adivinhàção, uma grande rede com a qual capturaria, nas profun-
dezas da experiência cega, o peixe abundante do inconsciente, que os
homens di~~ m_u~o. porque ele Jala mesmo quando dermem.
Isso quer dizer, para se exprimir com os termos de Kant: Freud
teve de pensar sua descoberta e sua prática com conceitos importados,
emprestados à Ffsiu encrg~ica. então dominante, à &:onomia Políti-
a e _à Biologia de seu tempo. Nenhuma herança legal atrás de si: salvo
um lote de conceitos filosóficos (corisciência, pfé.conscientc, incons-
ciente, etc.), talvez mais atravaneadores do que fecundOs, porque ma.r-
_cados por uma problemática da con~eibcia, . presente até mesmo em
suas rcst.rições*; nenhum legado, fossc·dé que antcpa~do fosse: como
.únicos guias, escritores: Sófocles, Shakespcare, Moliere, Gocthe- má-
ximas, etc. Teorica mente, Freud montou sozinho o seu negócio: pro-
duzindo seus próprios conceítos,- se~s conceitos ..domésticoS'.. wb a
proteção de conceitos importados, tomados de emprátimo ao estado

c•) NOTA DO TRAD UTOR: Cs!C ponto será melhor uplicitado, pelo autor, em seu
""Marli C: r rcud .. cfr. página 9] C squintcs.
lcx lo !iobrl:

52
atual das ciên~ias existentes c, é preciso dizê. lo, no horizonte do mun-
do ideológico em que se banhavam tais conceitos .
. Foi assim que recebemos Freud. Longa cadeia de textos, profun-
dos, por v~es claros, por vezes obscuros, freqOcntemente cniJmáticos
c: contraditórios, problemáticos, arrn~os por conceitos muitos dos·
quais nós parecem, à primeira vista, caducos, inadequados a seu con-
·le~do, ~ltrapassados. Pois não duvidamos, hoje; de modo algum, da
ex1stênc1a deste conteúdo: a própria prática analftica, teu efeito. •
Resumamos, pois, esse objeto que é para nós Frcud:
L .Uma prática (a cura analftica). 2. Uma técnica (o m~odo da
cura) que_dá lugar a uma exposição abstrata, de aspecto teóri1:9. 3.
Uma tcona que está em relação com a prática e com ·a técnica. Este
conjunto orpnico prático.( I), técnico (2), teórico (3) lembra-nos a es-
trutura de toda disciplina científica. Fonnalme11te; o que Freud nos dá
possui, na verdade, a estrutura de u"'a éiên~ia . Formalmente: pois as
·dificuldades da t!=rminologia conpeitual de Frcud, a desproporção às
vezes sensível entre seus conceitos e o conteúdo deles le~am-nos a co-
locar a questão: nesse conjunto orsânico prático-técnico-teórico, de-
paramo-nos com um conjunto verdadciràmente estável, verdadeira-
mente fi_xo ao nivel cientifico? Em outras palavras, a teoria seria, nele,
verdadeiramente teoria, no sentido cientifico? Não seria ela, aí, pelo
contrá~io ~ uma ~imples transposição metodológica da prática (a cura)?
~ai a ~d~1a, mutt~ correntemente admitida, de que, sob suas aparên-
Cias teon~as {devJdas a uma pretensio respeitável, embora vã, mesmo
no próprio Freud), a Psicanálise per_mancccria uma simples prática,
que dá resultados, às vezes, mu nem sempre; simples prática prolon-
gada em técnica (regras do método anaUtico), mas sem teo,ía, ou, pelo
menos, sem verdadeira teoria: o que ela declara teoria nada mais~ se-
nà? _o s ~nceito.s téc~cos cegos. nos quais ela reflete as regras da sua
prat1ca; SJmp'es prátJca sem teoria. . . talvez. então, simplesmente, ma-
g!d? que conseguiria: ~mo qualquer magia, pelo efeito de seu presti-
g•o. e dos seus prcstigJOS, colocados a serviço de uma necessidade ou
demanda sociais, que seria, então, sua única razão, sua verdadeira ra-
lào. lévi-5trauss teria feito a teoria dessa magia, dessa prática SOC"iai
que seria a Psicanálise., designando no xomã o antepassado de Freud. ·
· Prática grávida de uma teoria em parte silenciosa? Prática orgu-
lhosa ou envergonhada de ser apenas a magi!l social dos tempos mo-.
dcrnos? Que vem finalmente a ser a Psicanálise?
I

A primeira palavra de Lacan é para dízer: em principio, Freud


fundou uma ciência . Uma ciência nova, que é a· ciência de um objeto
novo: o inconsciente. ·
Declaração rigorosa. Se a ·Psicanálise é verdadeiramente uma
ciência, pois ela é a ciência de um objeto próprio, ela é tam.bém uma
ciência Segundo a estrutura de toda ciência: possuindo uma teoria e
uma técnica (método) que permitem o conhecimento e a transforma-
ção de seu objeto em uma p~:dtica especifica~ Como em qualq:uer ci~n­
cia autêntica constituida, a prática não é o absoluto da <:i!ncia, mas
um momento teoricamente subordinado; o momento em que a teoria,
tornada método (téenica) entra em contato teórico (conhecimento) ou.
prático (a cura) com seu objeto próprio (o inconsciente). ·
Se essa tese é exata, aprática analítica (a cura) que absorve toda a
atenção dos intérpretes e dos filósofos ávidos da intimidade do par
confidencial, na qual a confissão enferma e o segredo profissional mé- .·
díco troçam as promessas sagradas da intersubjetividade, não encerra
os segredos da Psicanátise: ela detém somente uma parte da sua reali-
dade, aquela que existe na prática. Ela não encerra em si os stus segre-
. dos teóricos. Se essa tese é exata, a técnica, o método~ também não en-
cerra, a não ser como qualquer método, ou seja, por delegação, não da
prática mas da teoria, os segredos da Psicanáli~. Apenas a teoria os
.encerra em si, como em qualquer outra. disdplina científica. · ·
Em numerosíssimos lugares de sua obra, Freud se considerou a si
próprio como teórico; comparou a Psicanálíse, em relação à cientifici-
dade, como a ciência fisica nascida ~om GaliJeu; repetiu que a prática
(a· cura) e a técnica analítica (o método analítico) só eram autênticas
porque fundadas sobre uma teoria cientifica. Freud disse e voltou a di•
ter que Jn1a prática e uma t~nica, mesmo fecundas. s6 poderiam me-
recer .o nome de científicas, quando uma teoria lhes desse, não por
simples declaração, mas através de fundação rigorosa, o direito.
· A primeira palavra de Lacan. é para considerar literalmente esse
dito: E dele tirar a conseqüência: voltar a Freud.para buscar. discernir
e apreender nele a teoria da qual todo o resto. tanto a técnica quanto a
prática, saiu, de direito. _,

55
Voltar a Freud. Por que esse novo retorno às fontes? Lacan não
volta a Freud como Husserl a Galileu ou a Tales. para captar um nas-
cimento em seu nascimento, ou seja, para realizar esse preconceito li-
losólico religioso da pureza, que, como toda água que brota à tuz do
dia só é pura no momento preciso, no puro instante de seu nascimen-
to. na pura passagem da não-ciência à ciência. Para ele. essa passagem
não é pura. ela é ainda impura: a pureza vem depois dessa passa'gem.
ela não se encontra na passagem ainda "vasenta" (a vasa invisível de
seu passado, suspensa na água nascente que simula a transparência, ou
seja. a inocência). Retorno a Freud quer dizer: retorno à teoria bem es-
tabelecida. bem fi"ada, bem assente no próprio Freud, à teoria madu-
ra, reOetida, consolidada, verificada, à teoria suficientemente avança-
da e instalada na vida (inclusive na vida prática) para haver construído
aí a sua morada, produlido o seu método, e engendrado a sua prática.
O retorno a Freud não é um retorno ao nascimento de Freud: mas um
retorno à sua maturidade. A juventude de Freud, essa comovente pas-
sagem da ainda-não-ciência à ciência (o período das relações com
Charcot, Bernheim, Bre'!Jer, até os Estudos sobre a histeria - I 895) po-
de. é claro. interessar-nos, mas de uma maneira totalmente diferente: a
título de um exemplo de arqueologia de uma ciência, ou como índice
negativo de não-maturidade, servindo então par~ datar com maior
precisão a própria maturidade e sua chegada. A juventude de uma
ciência é a sua idade madura: antes dessa idade, ela é velha. tendo a
idade dos preconceitos em que vive, como uma criança vive os precon-
ceitos e, portanto, a idade de seus pais. · .
Que uma teoria jovem, portanto madura, possa recair na infân-
cia. ou seja, nos preconceitos de seus antepassados e de sua descendên-
cia: toda a história da Psicanâlise o prova..É ai que reside o sentido
profundo do retorno a Freud, proclamado por Lacan. Temos de retor-
nar a freud para retornar à maturidade da teoria freudiana, não à sua
inrãncia, mas à sua idade madura. que é sua verdadeira juventude -
nós tçmos de retornar a Freud para além do infantHismo teórico, da
reca~da na infância, na qual uma boa parte da Psicanálise contemporâ-
nea, sobretudo americana, saboreia a~ vantagens de suas concessões.
Essa recaída na infância tem um nome, que os fenomenólogos
compreenderão logo: psicologismo, ou um outro nome, que os marxis·
tas perceberão de imediato: pragmatismo. A história moderna da Psi-
canálise ilustra o julgamento de Lacan. A Razão Ocidental (razão juri~
dica, religiosa, moral e poUtica tanto quanto cientlfica) não consentiu.
com efeito, após anos de desconhecimento, desprezo e injúrias -
meios, aliás, sempre disponfveis em caso de insucesso -, em concluir
um pacto de coexistência pacifica com a Psicanálise, senão sob a con-
dição de anexá-la às suas próprias ciências ou aos seus próprios mitos:

56
à Psicologia, quer ela seja behaviorista (Dalbiez) ou fenomenológica
(Merleau-Ponty) ou existencialista (Sartre); à Bioneurologia, niais ou
menos jaksoniana (Ey); à ..sociologia" de tipo "culturalista" ou "an-
tropológica" (dominante nos EEUU: Kardiner, M. Mead, etc.) e à Fi-
los,,lia {\:fr. :~ "psicanálise existencial" de Sartre. a "análise do itálico
IJ11wín" de Biswanger, etc.). Essas confusões. essa mitificação da Psi-
~:an;ilisc. disciplina reconhecida oficialmente, ao preço de alím\ç~•s·
compromissos sdados com linhagens imaginários de adoçà(). mas ~:om
pod..:rcs hem reais. foram subscritas por alguns psicanalistas. mui to fe-
liles. por saírem final mente de seu gueto teórico, por serem ..reconheci-·
dos.. como membros, com pleno direito, da grande família da Psicolo-
gia. da Neurologia, da Psiquiatria, da Medicina, da Sociologia. da An-
·tropologia, da Filosofia, transbordantes de felicidade por ostentarem,
sobre seu sucesso prático, a etiqueta de garantia desse reconhecimento
"teórico" que lhes conferia, finalmente, a pós décadas de injúrias e exf-
lio. o direito de cidadania no mundo: o da ciência. da Medicina, e da
Filosofia. Não se precaveram contra o aspecto suspeito desse acordo,
acreditando que o mundo se rendia às suas razões- quando eles pró-
prios st: rendiam, à sombra das honrarias, às razões desse mundo-,
preferindo suas honrarias às suas injúrias.
· Com isso, esqueciam que uma ciência só existe, como ciência, Se
pode. de pleno direito. pretender à propriedade de um'objeto próprio-
que seja o seu e não seja senão o seu- e não apenas à côngrua de um
objeto emprestado. concedido, abandonado por uma outra ciência, a
um de seus "aspectos", de suas sobras, que sempre se podem aprovei-
. tar. a seu modo. nas cozinhas, contanto que o dono já esteja saciado.
Com efeito, se toda · a Psicanálise se reduz ao "condicionamento"
behaviorista ou pavloviano da primeira infância; se ela se reduz a uina
dialética dos estágios descritos por Freud sob a terminologia do oral,
do anal e do genital, da latência e da puberdade; se, finalmente, ela se
redut à experiência originária da luta hegeliana, do "para-outrem" fe-
nomenológico, ou do "abrir-se-em-profundidade" do ser heideggeria-
. no: se toda a Psicanálise nada mais é senão essa arte de aproveitar as
sobras da Neurologia, da Biologia, da Psicologia, da Antropologia e
da Filosofia, o que é que lhe cabe, então, como objeto próprio, que a
distinga verdadeiramente dessas disciplinas e faça dela uma ciência de
pleno direito'!·'

3, As tentações mais ameaçadoras s.io representadas pela Flfosoj16 (que reduz de bom
grado toda a Psicanálise à experiencia dual da cura e ai encontra material para ''verifi·
car" os temas da intersubjetividade renomenolósica, da exist~cia-projeto ou, mais Je-
ralmente. do personalismo): pela Pslco/Ofill, que anexa, como outros tantos atributos de
uin "sujeito" que. manirestamentc, não constitui pa.r a ela um problema, a maior parte

57
É nesse ponto que Lacan intervém: para defender, contra essas
.. reduções" e desvios que dominam, hoje, uma grande parte das inter-
pretações teóricas da análise, a s ua irredutibilidade, que não é mais do
que a irredutibi~idade de seu objeto. Que sejam oeéessárias. para essa
defesa, uma luc1dez e firmeta fora do comum, apt3s a repelir todos os
assaltos da hospitalidade devora<iora das disciplinas enumeradas, não
resta a mínima dúvida para querni.~:~mavez na vida, já mediu a necessi-
dade de segurança (teórica, moral, social, econômica}, isto é. a inquie~
tude das corporações (cujo estatuto é indissoluvelmente científico-
~rofissional-jurídico-econômico). ameaçadas, em seu equilíbrio e con-
~orto. pela aparição de uma discip_ l ina singular, que. força cada um a se
mterrogar, não somente sobre sua disciplina, mas sobre suas razões
para acreditar nela. ou seja, para dela duvidar; pelo aparecimento de
uma ciência que, por pouco que nela se creia; arrisca-se a demolir uma
parte das fmnlciras existentes, portanto, a remanejar o stotw;; quo de ·
várias disciplin as. Daí a paixão contida, a contenção apaixonada da
linguagem de· Lacan, que só pode viver e sobreviver em estado de aler-
ta ·e de prevenção: linguagem de um homem previamente assediado, e
condenado, pela força esmagadora das estruturas e das c9rporações
ameaçadas, a antecipar seus golpes, a fingir ao menos devolvê-los an-
tes de havê-los recebido, desencorajando, assim, o adversário a esma-
gá-lo sob os seus. Daí também este recurso, freqüentemente parado-
~ul, à caução d~ filosofia~ inteiramente estranhas à sua empresa cientí-
h.ca ~~egel, He1degger), 1gualmente testemunhas de intimidação, lan-
çadas a cara de alguns para manter-lhes o respeito; como caução a a
outras tantas testemunhas de uma objetividade possível, aliada natural
do seu pensamento. para tranqüilizar ou ensinar os ·outros.' Que esse
recurso tenha sido quase indispensável para sustentar um discurso en-
dereçado de dentro apenas aos m~icos - seria preciso ignorar tanto a
fraque_za, conceitual dos estudos m~icos em geral, quanto a profunda
necess1dade de teoria dos melhores médicos para rondcná-lo sem ape- .
lo. E já que estou tratan_d o de sua linguagem, que constitui para alguns

da~ catc~orias da Psicanálise: e, final~cntc, pela Sociologia, que, vindo em socorro da


_Pstcolo~ta .. ofcr~ com q~~ dar, ao "prind~i~ de realidade", seu oonteúdo objetivo (os
Imperativos soaatS c famlluues), q uc o "sUJe! lo'! tem apenas_de " interiorizar" , para se
ver armado com um " superego" , e com as categorias conupondeotes. Submetida as-.
sim. ;i l'si.:nlogia \lU à Socioklgia. a t'sicanàlisc reduz-se h.lbitualmcntc a ~ma técni~ de
~adap.tação "emocional" o_ u. ~afetiva", a uma n:educaçio da "funçio rdacional", que
nada tem a 'l(cr com seu objeto real - mas que reapondcm, infelizmente, ~ uma grande
d~.manda , ba_ stantc_orientada, além· do mais, no ·mundo contemporinco. Foi por cuc
vJcs que a Pstcanãhse se tornou.um objeto de consumo corrcntc na cultura, ou seja, na
ideologia moderna.

5X
todo o prestígio de Lacan ("Gôngora da Psicanálise", "Grande Dra-
gão", grande oficiante de um culto esotérico em que o gesto, o mutis-
mo e a compunção podem compor o ritual tanto de um a comunicação
real - como o de uma fascinação berri "parisiense'')-, enquanto, para
o utros {cientistas ou filósofos, em primeiro lugar}, é claro que seu " ar-
tifício", sua estranheza e seu "esoterismo", tudo isso, enfim, não deixa
de ter relaç.ão com .as condições de seu exercício pedagógico: tendo de
ensinar a teoria do inconsciente a médicos, analistas ou analisados
Lacan lhes dá, na retórica de sua palavra, o equivalente em mímica d~
linguagem do inconsciente, que é, como todos sabem, em sua essência
última ...Wítt.", trocadil ho, metáfora;fracassada ou bem sucedida: o
C'JUÍva lcntc da experiência vivida em sua prática. seja ela de analista
.nu Jc :~ nali sado. ·
. Basta compreender as condições ideológicas e pedagógicas dessa
h~guage~ :o~ seja, toma~. e.m relação a sua ..interioridade" pedagó-
gica, a- d1stanc1a da "extenondade" .histórica e teórica, para· discernir
seu sentido e seu alcance objetivos- e reconhecer seu propósito funda"
mental: dar a descoberta de Freud conceitos teóricos à sua altura. defi-
nindo tão rigorosamente quanto possível, hoje, o inconsciente e suas
· leis... que constituem todo o seu objeto.

59 .
li

e
QuaJ ~ o obj~to da Psicanálise? - aquilo de qu~ a técnica analfti..,
ca se deve ocupar na prática ~alftica da cura, ou seja: não a própria
cura, não essa situação pretensamente dual em que a primeira fenome-.
nologia ou moral vinda encontra satisfação de sua necessidade - mas
os ..efeitos". prolongados no adulto sobTé\livente, da extraordinária
~•ventura que, desde o na~mento at~ a liqüida~;ão do ~di po , transfor-,
ma um animalzinho engendrado por um homem e uma mulher numa
criancinha humana. ·
Um dos ''efeitos" do devir-humano do serzinho biológico saldo
do .parto humano: eis, em seu devido lugar, o objeto da Psicanálise,
qué tem o simples nome de in(onscinrte.
Que esse scrzínho biológico sobreviva, e, ao inv~ de sobreviver
como criança das florestas que se tornou cria de lobos ou de ursoa
(crianças assim eram exibidas nas cortes reais do século XVIII), sobre-
viva como criança humana (tendo escapado de todas as mortes da in-
fãncia. tantas·das quais são mortes humanas, mortes que sancionam o
fracasso do devir-humano), tal é a prova que todos os homens, adul-
·tos, superaram: eles são a8 testemunhas, para sempre amnbicas, e mui-
to.freqüentemente as vitimas dessa vitória, trazendo no mais surdo, ou
Sc:ja, no mais gritante de si mesmas, as feridas, enfermidades e o cansa-
ço desse combate pela vida ou morte humanas. Alguns, a maioria, sai·
ram dele quase indenes -ou pelo menos insistem em dá-lo a conhecer
a todos, em alta voz-; muitos desses eJ~-combatentes ficam marcados
por esse combate para o resto da vida: alguns morrerão, um pouco
mais tarde, vitimas de seu combate, com as velhas feridas reabertas de
repente numa CJtplosão psicótica, na loucura, a última compulsão de
uma "reação terapêutica negativa"; outros, mais numerosos, morre-
rão, o mais "normalmente" possível, sob o disfarce de uma falha ..or-
gânica". A Humanidade só inscreve nos memoriais de suas guerras
seus mortos oficiais, aqueles que souberam morrer a tempo, ou seja,
tarde, homens, em guerras humanas, nas quais só se dilaceram e se sa-
crificam lobos e deuses hunuuros. A Psicanálise se ocupa, apenas nos
seus sobreviventes, com uma outra luta, a única guerra sem memórias
nem memoriais que a Humanidade finge nunca haver travado, aquela

61
que ela pensa ter sempre ganho de antemão, pura e simplesmente por-
que ela só existe pelo fato de lhe haver sobrevivido, de viver e de gerar-
se como cultura na cultura humana: guerra que se trava, a.cada instan-
te, ~m cada um de seus rebentos que devem percorrer, cada um por si,
proJetados, expulsos, rejeitados, na solidão e contra a morte, a longa
marcha forçada que, de larvas mamiferas, faz crianças humanas, suj~i-
_tos.
Que o biólogo não possa tirar partido desse objeto, certamente,
esta história não é biológica! já que toda ela está dominada, desde o
ponto de partida, pelo constrangimento forçado da ordem humana,
que cada mãe grava, ~b a f~rma de "amor" ou ódio materno, desde
seu ritmo alimentar e adestramento, no animalzinho humano sexuado.
Que a História, a "Sociologia" ou a Antropologia, não tirem partido
dele, nada de espantoso! já que elas tratam da sociedade; logo, da cul~
. tura, ou seja, do que já não é mais o animalzinho - que só se torna hu-
mano por haver ultrapassado esse espaço infinito que separa a vida do
hu.mano ~ o biológi~o do histórico, a "natureza" da "cultura". Que a
Ps1colog1a se perca nele, nada há para se estranhar! já que ela julga tra-
tar, no seu "objeto", de alguma ~·natureza", ou "não-natureza" huma-
na, da gênese desse existente identificado e regis~ra.do sob os próprios
controles-da cultura (do humano)- quando o objeto da Psicanálise é
a questão prévia absoluta, o nascer ou não-ser, o abismo aleatório do
próprio humano em cada rebento d!o homem. Que a "Filosofia" nele
~rca suas referências e seus antros, evidentemente! pois essllS origens
smgulares lhe escondero as únicas origens às quais da, na sua essência,
presta homenagens: Deus, a Razão, a Consciência, a História c a Cul-
tura. Suspeit:ar-se-á que o objeto da Psicanálise possa ser especifico, e
que a modahclade de sua matéria, como a especificidade de seus "me-
canismos" (para retomar uma palavra de Freud), sejam de uma ordem
completamente distinta da-matéria ou dos "mecanismos" que o biólo-
go, o neurólogo, o antropólogo, o sociólogo, o psicólogo e o filósofo
têm para conhecer. Basta reconhecer essa especifJCidad~ portanto a
distinção de objeto que lhe serve de fundamento, para reconhece; à
Psicanálise um direito radical à especificidade de seus conceitos, ajus:
tados à espeéificidade. de seu objeto: o inconsciente .e seus efeitos.
I

62
111

Lacan não negaria o fato de que, sem o surgimento de uma nova


ciência: a Lingüística, sua tentativa de teorização teria sido impossivel.
.~ssi~ se faz a história das ci~ncias, na qual, freqaentemente, uma
.ctêncta só se torna tal pelo recurso a outras ciencias e pelo desvio por
outras ciências, não·somente ciências existentes quando de seu batis-
mo, mas também tal ciência nova, vinda mais tarde, que tem necessi-
dade de tempo para nascer. O opaco provisório da sombra projetada
sobre a teoria freudiana pelo modelo da Física energética de
Helmholtz e Maxwell encontra-se hoje de:sfeito pela luz que a LingOis-
tica estrutural projeta sobre o seu objeto, permitindo um acesso inte-
ligível a esse objeto. Freud já dissera que tudo dependia da linsuagcm;
Lacan precisa: "o discurso do inconsciente é estniturado como uma
linguagem". Na sua primeira grande obra, a Ciincia dos sonhos, que
não é anedótica ou superficial como se acredita frcqaentcmente, mas .
fundamentál, Freud estudara os "mecanismos'\ ou "leis" do sonho,
reduzindo suas variantes a duas: o d~slocamento e a condensação. La-
can nelas reconheceu duas figuras essenciais designadas pela LingQisti·
ca: a metonímia c a metáfora. Daf resulta ·que o lapso, o ato falho, a .
'piada c o sintoma se tomavam, como os elementos do próprio sonho:
Significantes, inscritos na cadeia de um discurso inconsciente, dublan_.
do em silêncio, ou seja, em voz ensurdecedora, no desçonhCcimentó do
" rccalcamento", a cadeia do discuno verbal ·do sujeito humano. Com-·
isso, éramos introduzidos ao paradoxo, formalmente familiar à. Lin-
gtüstica, de um discurso duplo e uno, inconsciente e verbal, só tendo
como campo duplo um campo único sem nenhum al~m a não ier em si
mesmo: o campo da "cadeia signifiCante". Com isso, as mais impor-
tantes das aquisições de Sa.ussure e da LinaWstica oriunda dele entra-
vam, com pleno direito, na inteligência do processo tanto do discurso
do inconsciente, quanto do discurso verbal do sujeito, c de sua relação,
ou seja, de sua não-relação id&ltica à sua relação, em síntese, de seu
redobramento e de sua defasagem. Com isso, as interpretações filosó-
fico-idealistas do inconsciente cômo segunda consciência, do incons-
ciente como má fé (Sartre), do inconsciente como sobrevivência cance-
rosa de uma estrutura inatual ou non-seh.S (Mcrleau-Ponty), todas as

63
interpretações do inconsciente como "id" biológico-arquetípico
(Jung) tornavam-se o que elas eram: não Ulll começo de teoria, mas
..teorias" nulas, mal-entendidos ideológicos.
Falta definir (sinto-me forçado ao mais terrível d~s esquematis-
mos, mas como escapar dele em algumas linhas?) o sentido desse pri-
mado da estrutura formal da linguagem, e de seus "mecanismos", en-
contrados na prática da interpretação analftica, em função mesmo do
fundamelho dessa prática: seu objeto, isto é, os "efeitos" atuais, nos
sobreviventes. da ••hominízaçio" forçada do animalzinho humano em
homem ou mulher. Não basta, para responder a essa questão, invocar
simplesmente o primado de fato da linguagem, que é o único objeto e
meio da prática analítica. Tudo o que aconteu na cura se dá de fato na .
linguagem e pela linguagem (inclusive o silêncio, seus ritmos, suas es-
ça nsões). Mas é preciso mostrar agora, de direito, porque e como opa-·
pel de fato da linguagem na cura, que é, simultaneamente, matéria-
prima da prática analltica, e meio de produção de seus efeitos (a passa-
gem, como diz Lacan, de uma "palavra vazia" para uma "palavra ple-
na"), só é fundado, de fato, na prática analftica, porque ele está funda-
do, de direito, em seu objeto, que funda, em última instância, tanto
essa prática como a sua técnica: logo, uma vez que se trata de urna
ciência, na teoria de seu objeto.
Está aí, sem dúvida, a parte mais original da obra de Lacan: a sua
descoberta. Essa passagem da existencia (no puro limite) biológica à
existência humana (filho de homem), Lacan mostrou que ela se opera-
va sob a Lei da Ordem que eu chamarei Lei de Cultura, e que es$8 Lei
da Ordem se confundia, em sua ess!ncia jrmnal, com a ordem da lin-
gu~gem: Que ~eve!'Dos entender por essa fórmula enigmática, à pri-
metra v1sta? Pnmcuamentc, que a totalidade dessa passagem só pode
ser _a preendida ~ob a forma de uma lini\l'ágem recorrente, só pode ser
des!8nada pela hnguagem do adulto ou da criança em situação de cura,
dcs1gnada, determinada, localizada, sob a lei da linguagem, em que se
filta e se dá toda ordem humana, portanto, todo papel humano. Em se>
guida, que, nessa determinação, pela linguagem, da cura, transparecc
a presença atual, perpetuada, da eficácia absoluta da ordem na pró-
pria passagem, da Lei de Cultura no .devir-humano.
Para indicá-lo, em aJgumas breves palavras. marquemos, para
esse efeito, os dois grandes momentos dessa passagem. 1) O momento
da relação dual, pr~cdipiana, em que a criança, deparando-se apenas
com um a/ter ego, a mãe, que escande sua vida.com sua presença (do!)
e com sua ausencia ifort/)4 vive essa relação dual no modo do fasclnio

4. Siio duas eltpreu&ll alemãa que Freud tornou c.lélebre- com as quais uma crianci·
nha que ele obtel'11ava nncionava o aparecimento e o desaparecimento de sua mie, pela

64
imaginário do ego, sendo ela própria este outró, tal outro, qw:úquer
outro, todos os outros da identificação narcisica primária, 5em jamais
poder tomar•. face ao outro ou a si mesmo, a distAncia objctivante do
terceiro; 2) o momento do &lipo, no qual surge uma estrutura ternária
no fundo da estrutura dual, quando o terceiro (o pai) se imiscui, como
um Intruso, na satisfação imaginária do fascfnio dual, perturba a sua
economia, quebra os seus fascínios, e introduz a criança nisso a que
l acan chama a Ordem Sim bólica, a da linguagem objetivante. que lhe
permitirá dizer tinalmente: eu, tu, ele ou ela, que permitirá, pois, ao
ser.t inho situar-se como crianra humana num mundo de terceiros adul-
toL ·
· Dóis grandes momentos, portanto: I) o do imaginário {pré-
edipiano); 2) o do simbólico (o ~dipo resolvido), ou, para falar aqui
uma liflguagem diferente, o da objetividade reconhecida em seu iuo
(simbólico). ' mas ainda não conhecida (surgindo o conhecimento da
objetividade numa ..idade" e numa prática completamente diferentes).
E aqui está o ponto capital que .Lacan esclareceu: esses dois mo-
mentos são dÓminados, governados é ~ar~ados por uma única Lei. o
do Simbólico. O próprio momento do imaginário, que se acaba de
apresentar, linhas acima, para maior clareza~ co.mo pr.ecedendo o sim-
bólico, corno distinto dele -logo como o primeiro momento em que a
criança vive a sua relação imediata com um ser hu.mano (mãe) sem a
reconhecer praticamente como a relação simból.ica que ela é (ou seja . a
relação de uma criancinha humana com uma mãe humana) -, .está
marcado e estruturado. em sua dialética, pela própria dialitic.a da Ordem
.Simhâ/it·u, ou seja. da Ordem humana. da no rma humana (as normas
dos ritmos temporais da alimentação, da· higiene, dos comportamen-
tos. das atitudes concretas do reconhecimento - sendo a aceitação, a
recusa, o sim ou o não ditos à·criança apenas os détalhes, as modalida-
des empíricas dessa Ordem constituinte, Ordem da Lei e do Direito de
assinaç,âo atr_ibutiva ou excludente) sob a própria forma da Ordem do
signifi cante, ou sej a, sob a forma de uma Ordem formalmente idêntica
à ordem da linguagem.'

manipuliiÇào de um objeto qualquer que a ··n,urava" : "~á af!", "'foi embora!'". No e&$0,
um bobina.
5. Formalm~nt~. Porque a Lei de Cultura, da qual a lil1JU1Jem ~a forma e o acaso prt-
meiros. não Se esgota na linguagem: ela tem, por conteúdo, as estruturas rcáJS do parcn•
ICSCO, e as formações id~lógicu determinadas, nas quais u penonqcns inscritas tics-
su estruturas vivem a sua funçio. Nio baata aaber que a famQia ocidental i patriarcal c
exogâmiea (esttiUUra do paRntaco), é préciso tam~m elucidar as formações ideológi-
cas que governam a conjugalidade, a paternalidade, a matemalidaCie e a infância: que
significa. no nosso mundo atual. ··ser esposo" , "ser pai", "ser mie", "aer filho'"? Sobre
essas formações ideológicas r:apcçífu:u, todo um trabalho de pesquisa r:atá ainda por
rcaliur-se. ·

65
Onde uma leitura superficial ou orientada de Freud só via a infân-
cia feliz e sem leis, o paralso da "perversidade polimórfica", uma espé-
cie de estado de natureza escandida somente por estágios de aspecto
biológico, ligados à primazia funcional de determinada parte do cor-
po, lugares de necessidades "vitais" (oral, anal, genital)." Lacan mos-
tra a eficácia da Ordem, da Lei, que espreita, desde antes de seu nasci-
mento, qualquer homenzinho que vai nascer, e se assenh9ra dele desde
seu primeiro vagido. para lhe des~gnar seu lugar e seu papel, logo, sua
destinação forçada . To das as etãpàs vencidas pelo ftJh<> de homém o
são sob o reino da Lei, do código de ass-inação, de comunicação e de
não-comunicação humanas; suas "satisfações" trazem em si a marca
indelével e constituinte da Lei, da pretensão da ·Lei humana. que.
como toda lei, não é "ignorada" por ninguém, sobretudo por quem a
ignora. mas pode ser desvirtuada ou violada por qualquer um. sob~e­
tudo por seus mais puros fiéis . É por isso que. qualquer redução dos
traumatismos infantis, que os deduza unicamente das "frustrações..
hiológicas. está- falseada em seu princípio, pois a Lei que a eles concer-.
ne l'az, enquanto Lei, abstração de todos os conteúdos, só existe e só
age como Lei por e nessa abstração, e só o filho de homem sofre e rece-
he essa regra com seu primeiro alento.' Por ai começa. já começou.

'6. Uma certa neurobiología e uma certa psicologia ficaram contentfssimas em des-
cobrir em Freud uma teoria dos "estágios", que elas traduziram, sem hesitar, direta e
uaustivamente, numa teoria da "maturação por estágios", seja neurobio16gica. seja
bioneuropsicológica - atribuindo mecanicamente i maturaçio neurobiológica o papel
de: uma "c:s~ncia"'·; cujos "estágios" freudianos seriam apenas o puro~ simples ..fenô-
meno··. Perspectiva que não é mais do que uma reedição do velho paralelismo mecani-
cista.
7. Correr-se-ia o risco de dc:sccnhecer o alcance teórico desta condi4;ão formal. se lhe
of'us~scmos a ólf'arên~:ia biológic;~ dos C(J ncc:itos (libido. afetos. pulsões. desejo) nos
qu ais F'reud pensa o "conteúdo .. do inconsciente. Por exemplo, quando ele diz que o so·
t
nhn c u ··plcnu-u~J·c..lcscju·· 1ll"uu.rrllrrfii/llmg). no mesmo :-cntido que Laciln quer
condu;dr o bomem à "li11guagem do seu desejo" inconsciente:. E. contudo, a partir dc:sSll
condição formal que esses conceitos (aparentemente biológicos) adquirem o seu sentido
autêntico, que esse: sentido pode .ser assinalado e ~; e que uma técnica da cura
pode ser definida e aplicada. O desejo, categoria fundameritltal do inconsciente:, s6 ~in·
teliglvc:l em sua especificidade como o sentido singular dO discurso do inconsciente: do
Slljeito humano: o sentido que: surae no " joao" e pelo ..jogo" da cadeia signifiêante de
que se compõe: o discurso do inconsciente. Como tal, o "desejo" e&tá marcado pela c:s-
trutura que comanda o tornar-se humano. Como tal, o desejo se distingue radicalmente:
da ".necessidade" orglnic:a. de ess!ncia biolósica. Entre a necessidade orgànica e o dc:sc:-
jo inconsciente. nio e?tiste continuidade de etsencia, bem como nio eJtiste continuidade
de essência entre a c:xis~ncla biológica do homem e sua existencia histórica. O dc:sc:jo e
determinado no seu ser equívoco (seu "manquc-à-êtrc:", diz Lacan) pela estrutura da
Ordem que lhe impõe sua marca, e o destina a uma existtncia sem lugar, a existência do
recalcamento tanto de seus recursos quanto de suas decepções. Não se tem acesso à rea-
lidade: especifica do desejo partindo da necessidade orginica, assim como não acedemos

66
desde sempre, mesmo sem nenhum paii vivo, isso que é a presença ein·
a~o (fo Pai (_q ue é Lei), togo, da Ordém do sjgntficante humano, quer .
d~r, d~ Le1 de_Cultura: este discurso, condiçio absoluta de qualquer· ·
d1scurso, este discurso presente~e cima, ou seja, ausçnte em seu abis-
mo, em qualquer discurso verbal, o discurso dessa Ordem, esse discur-
so do Outro; do grande Terceiro, que é essa Ordem mesma: o discurso
do. inconsciente. Por ai nos
.
é.dada uma captação, conceitual' do incons-
c1ente, que é, em cada ser hum·ano, o lugar absoluto no qual seu dis.: ·
cu~so singular busca seu próprio. lugar, busca, fracassa nessa busca, ·e.·
assrm fracassando, encontra o seu próprio lugar, a Ancora própria dô.
seu lugar, na imposiçãe, na impostura, na cumpliÇidade e na denega-
·ç_ão de seus J:!rê_prios fascínios imaginários.
Que no Ed.ipo a criança sexuada ~ torne criança humana sexu~l
(homem, mulher), submetendo à prova do Simbólico seu5 fantumas
imaginários, e acabe, se tudo "caininha" bem, por se tornar o queée.
se aceitar como é: rapazinho ou mocinha entre adultos, .tendo seus di-
re!t<>s dé criança nesse mundo de adultos, e possuindo, como qualquer
cnança, o pleno· dir~i~o .de vir a ser um ma
"como papai", ou seja, um
ser humano mascuhno, tendo uma mulher (e não mais apenas uma.
mãe), ou "como mamãe"-, ou seja, um ser humano feminino, tendo um .
esposo (e não somente um pai) - isto é apenas o termo da longa mar-
cha forçada em diRção à infância humana.
Que, neste. último driuna, tu<lo se desenrole na matéria de uma
linguagem previamente formada, que, no complexo de ~dipo, centra-
se i(!teiramente .e se ordena em torno d!o significante falo: insignia do
Pai, insígnia -do .d ireito, insígnia da Lei, imagem fantasmática de todo
Direito - eis o que pode parecer espantoso ou arbitrário -, mas todos
os psicanalistas o atestani ·como· um fat.o de experiancia. .
A última etapa do Êdipo, a ..castração", pode dar uma id~a dis-.
so. Quando o menino vive e CC$o)ve a situação trágica e benéfica da-
~stração, ele aceita não t~r o mesmo Direito (falo) que seu pai, par· e,
~cuJarmente, nio ter o _Direito do pai sobr.e.su~ mãe, que se revda en-
tão dota9a do es~tuto mtolerável do duplo papel, mãe para o menino•.
mulher_para o pcu; mas, assumindo o fato de não ter d mCSII1o direito·

à realidade especffica da exútência histórica· partindo da cxist!ncia biolóJica do ~'ho­


mem"' Pelo contrário: assim como são as categorias da H iatÓfia que permitem defanir a
cspccifici~de da existência histórica do homeni, inclusive determinaQõc:a que aparente- ·
mente_ICnam puramente biológicu, tais eomo suu "neceuidada" ou os feuômenos
d~mogr~ficos, distinguindo sua exist~ncia biJtórica de uma exist.eoci~ puramente bioló-
gJca. IJSlm tambtm são as categori.u easenciais do inconsciente que permitem aprceuder
.e definir o próprio sentido do delejo, distinguindo-o du realidada biológir.:.s q11~: o f\1·
portam (exatamente como a exist!ncia biolóJica su.,Orta a ex.íst!ncia histórica), mu sem
o co:.nstlhl'lr-, nem o d~t~mrinar.
que se~ ~ai, ele ganha, com isso.- a seguràl'lç(üe vir a ter um dia, mais
tarde, quando se tiver tornado adulto, o direito que lhe é agora recusa-
. do, por fàlta de "meios". Ele tem apcoas um direitozinho, que setor-
nará grande se ele próprio souber creseer, ..tomando sua sopa todi-
nha". Q~ando, por seu lado, a menina vive e assume a situação trágica
e benéfica da· castração, ela aceita não ter o mesmo. direito que sua
·mãe. ela aceita, então, duplamente, não ter o mesmo. direito (falo) que·
seu pai, uma vez que sua mãe não o tem (nada de falo), embota mu-
lher, porque mulher, e el~ aceita, ao mesmo tempo, não ter o mesmo
direito que sua mãe, ou seja, não ser ainda uma mulher, como o é sua
mãe. Mas ela ganha, em compensação, seu direitozinho: o de moci-
nha. e as promessas de um grande direito, direitp inteiro de mulher,
quando ela se tiver tornado adulta, se souber crescer; aceitando a Lei
da Ordem humana, ou seja·, submetendo-se a ela, se for necessário
para a violar - , não tomando sua sopa "todinha".
Em qualquer caso, quer seja no momento do fascínio dual do
Imaginário (I), quer seja no· moment~(&iipo) do reconhecimento vi·
vido da inserção na Ordem simbólica (2), toda a dialética da passagem
é marcada, em sua· essência última, pelo selo da Ordem h'umana, do
Simbólico, cujas leis formais , ou seja, o conceito formal, são-nos forne-
cidas pela LingOistica: . · .
A teoria psicanalítica pode dar-nos, assim, aquilo que faz de toda
ciência não uma pura especulação; mas uma çiência: a definição da es-
sência formal de seu objeto, condição de possibilidade de toda aplica-
ção prática, técnica, aos seus próprio~ objetos concrttos. Gra~ a isso,
a teoria psicanalítica.escapa às antinomias idealistas clássicas formula-
das, por exemplo, .por Politzer, quando esse autor, exigindo da Psica-
nálise (cujo alcance teórico revolucionário ele foi o primeiro a captar.
na França) que ela fosse uma ciência do ..concreto", verdàdeira ··' Psi-
cologia ooncr~ta", censurava nela suas abstraç&s: o inconsciente. o
c~~1plex~ .de Ed.i po, o complexo de castração, etc. Como pode a Psica-
nahse. dllla Pohtzer; pretender ser uma ciência 'do concreto, como ela
quer e pode ser, se ela persiste nas abstrações, que nada mais são senão
o "cuncret9.. alienado em uma Psicologia abstrata e metaOsica? Como
reencontrar _ o "concreto .. a partir de tais abstrações, do abStràto? Na
V('fdade, nenhuma Ciência pode abster-Se de abstraçãO, mesm6 quan-
do ela, na sua ."pr~tica.. (que não é, tenhamos cuidado, a prática teóri-
ca dessa ciência :·mas a prática da sua aplicação ooncreta), trata ·apenas
de~sas variações 'Singular~ e únicas que são os ..dramas" individ~is.
Ta1s com~ Lacan as pensa em Freud- c Lacan nã.o pens:a nada afém
dos conce1tos de Freud, dando-lhes a forma de nossa cientificidad~ a
única ..cientilicidade que ~xi.ste - . as ~·ahstraç&s:· da Psicanãlise:ião
t:JJ;alamente os autênticos conceitos cientfficos de seu objeto, na médi-
·tht em que, enquanto conceitos cie~tificos de seu objeto, elas conltêm

68
.e~ si o ín~ice, a· me~ ida.e o fundamento da necessidade de ·sua abstra-
ção, ou se~ a, a própna medida de sua relaçlo com o·"concreto"iogo, a
·sua próprta relação com o concreto de sua aplicação comumente cha-
mada prática anaJftica (a cura). ' .
. o &tipo nio é, pois, um "'Mntido'; oculto, a que faltaria apenas a ·
.consciatlcia ou a palavra- o &tipo nio 6 uma eatrutura enterrada no
.passado, ~ue} sem~re poufvel reestruturar ou superar, ••reativando-
. !h e o sentido ; ? &tipo é a estrutura dramática, a ..méquina teatral"'
- 1mposta peJa Lc! da Cultura a qualquer candidato, involuntário e for-
.çado, à Hum~~ade, uma estrutura que conttm em si própria nlo
apenas a posstbdtd~de, mas a ncceuidade das variações concretas em
que ela existe, para ~odo individuo que pode chegar ao seu limiar vi-
vê-lo e sobreviver a ele. A Psican~ise, na sua aplicaçio, dita sua pt,~­
ca (a cura), trabalha sobre os "efettos"' concretos dessas variações ou
seja, sobre a modalidade do nó eapec;ffico e abiolutameote sinsular' em
que a·passagem do edjpo foi, é abordada, ultrapasuda, ·parcialmente
.malograda ou eludida por este ou aquele indivíduo. Eaau variações
podem ser pensadas c conhecidas em sua própria esa&Icia a· partir da·
estrutura do in)JQrillnte :e.dipo, precisamente pela razio que faz com
Q4e to.da essa passagem tenha sido maroada, desde seu pre&mbufo, pelo
fasclmo, tanto nu suas formas mais ..aberrantes" quanto nas mais
. ••normais", pela Lei dessa estrutura, .última forma do aceuo ao Sim-
bólico sob a própria Lei do Simbólico. ·
~i que estas bre~es indicaç&s nio apenas pareceria, como o sio;
sumánas e esquemât•cu, e que nwneroaae·noçõeà, aqui invocadas ou
avançadu~ exigiriam lonaos 'desenvolvimentos para serem justificadas
.e fundadas. Mesmo esclarecidas em seu ·rundamento, e nas relaQÕcl
que ~las man~m com o conjunw das noções que u sustentam, mesmo
relactonadas literalmente com as an'lises de Freud, elas colocam, por
sua vez, problemas: não somente probl~as deformação, de definiçio
~ de esclar~mento con~ituais, mas novos problemas reais, produzi-
dos necessariamente pelo desenvolvimento do esforço de tcprizaoão
que se ~caba de considerar. Por exemplo: como. pensar risorosamente
a relaçao entre a estrutura formal da linguagem, condição de possibili-
. dade absoluta da. exiJt!ncia e da compreenaio do inconaciente, de um.
lado, as estruturu concretas do parentesco, de outro lado, e, enrun, as

8. ExprcuC!a de Lacan ("miquioa"), retomando Freud ('•ein ·lfi~ ·Shauspiel...


Schauplatz"). Oe Politzer, que falll de "dr11.ma", a F~ud e Lac:an, que fabim de teatro,
cena. encenaçio. maquinaria, Jénero teatral, entenador, etc., b! toda a diitJnc:ia do~
pectador, que se tom~ pelo teatro, ao p~rio teatro. · ·
9. Se ac wmpreende eate termo "ef~to'' ao contexto de uma teoria dUaic:a da caúaali·
dade, conc:cbcr-»6. atravá dele, a pn:eençaatual da cauu ao leU efeito (cfr. Spin~).

69
forniações concretas ideológicas em que são vividas as funções especf.
. ficas (paternidade, maternidade, inflncia) implicadas nas estruturas ·
do parentesco? Pod~se conceber que a variação histórica dessas últi-
mas estruturas (parentesco, ideologia) possa afetar sensivelmente um
·ou .outro.aspecto das instincias isoladas por Freud? Outra qucstio: -em
.que medt~a ~ dcscobc:rt~ de Freud, pensada na sua ~acionalidade, po- :
de, pela stmples defimçao de seu obJetO.. e de seu lugar, repercutir nas .
disciplinas de que ela se distingue (tais como a Psicologia, a Psicosso- ,
·ciologia, a Sociologia) e provooar nelas questões sobre o estatuto (por:
-
·vezes problemático) do objeto das mesmas? Finalmente uma última
.
.questão, '
entre tantas outras: quais são as relações existentes entre a .
teoria analítica e: 191 Sl:UlS .condições de aparecimento histórico, por
um la~~ ; 29, suas condições sociais de aplicação, por outro lado?
19 {l~m era, ~ntão, Freud, pala ter podido, ao mesmo tempo, fun-
dar a teona analitaca e inaugurar, como Analista nt I, auto-analisado
_Pai originário, a longa filiação daqueles praticantes que se afirma~
seus seguidores? ·
. 2• Quem são, então, 0$ psictinalistas, para aceitarem, ao mesmo ~
·tempo (e com a maior naturalidade), a teoria freudiana, a tradição di-
_dátaeá sustentada por Freud, e as condições econômicas e sociais (o es-
tatuto social de suas "sociedades" estando estreitamente ligado ao es~
~atuto da corporação médica) nas quais eles atuam? Em que medida as
··origens . históricas, e as condições econômico-sociais do exercfcio da
. .Psicanálise repercutem na teoria e na técnica analítica? Em que medi~
:da, sobretudo, pois esse é efetivamente o estado .dos fatos, o silêncio
teórico dos psicanalistas sobre esses problemas, o recalcamenÚJ teórico
dé que são vítimas esses problemas no mundo analítico afetam tanto a
teoria quanto a técnica analftica em seu próprio conteúdo? A eterna ·
questão do "fim da análise" não se relacionaria. entre outras a esse r~
calcamento, ou seja, ao não-pensamento desses prob/mtaf, q~ dej,en- .
·dCID de uma história epistemológica da Psicanálise e de .uma história
· social (e ideológica) do mundo analitico?
. .Esses. são outros .tantos problemas reais verdadeiramente abertos
.9ue co~stJtuem ,. desde agora, outros tantos campos de pesquisa. Não é
.
ImpoSSJVe( que, num ruturo próximo, certas nOÇÕes SaÍam transforma- ·
das dessa experimentação. ·
. Essa experimentação, se vamos ao fundo das coisas, é aquela a
9u~ ~reud submeteu, no seu domínio, uma certa imagem tradicional,
JUfldtca, moral e filo~ófica, ou seja, definitivamente ideológica do "ho-·
mem", d<? "sujeito" hu~ano. Não foi em vão que Freud, por vezes,
comparou a repercussão crítica de sua descoberta com a subversão da
revolução coperniciana. Desde Copérnico, sa~mos que a Terra não é
o "centro" do Universo. Desde Marx, sa~emos que o sujeito' humano
o ego econômico, politico ou filosófico, não é o "centro" da História ~

70
sabe.m os at6 mesmo, contra o que penaava~ os
filósofos íluministas e
contr11 Hegel, que a História não tem "centro", mas possui uma estru-
tura que tem umt "centro" necessário apenas no desconhecimento
ideológico. Freud nos reveJa, por sua vez, que .o sujeito real, o indlvf-
duo em sua essênc:ia singular, nAo tem a figura de um ego, centrado no
··eu" ("'moi" ), n~ " conscie.ncia" ou na "existência" - quer esta seja a
existênci~ ~o para-si, do corpo~próprio, ou do "comportamento" -,
que o suJeito hun11ano é descentrado, constitufdo por uma estrutura
que também tem um ..<:entro" apenaS no desconhecimento imaginário·
do "eu·•, ou seja, nas formações ideológicas em que ele se "reconhc-.
ce·n_
Desse modo~ ter-se-á notádo, estâ aberta para nós, sem dúvida,
uma das vias pelar. quais chegaremos talvez um dia a uma melhor com-·
prcensão dessa estrutura do de5COflheçlmento, que intercua, em primei-
ro lugar, a qualquer pesquisa sobre a ideologia.18

Janeiro d~ 1964

\0. NOTA BIBLIOGRÁFICA PA" UM ESTUDO: a obra de Lacan (...)pode Ri


abordada, para facilitar o accao a ela, na quinto ordem; ·
I. Les cornplell:cll _familiaux en PatboloJio. (E11cyclopN~ FfQ~~Çt~lu, de Monzie,
Tomo& . ..La ·vte montale" , 1938): .
2. La cauulitf pi)'Cbfquc (EPD/utll111 p.rydtl4triqw, 1947, faiCitule I).
3. L.o stadc du mirolr com me formateur de la fontion du je. (Re-~W françaisedl l'sy-
clrtvtalyu, 1949, XIU, 4).
4. La chose freudien~. (EPOiwtflJII p.ryclt14trlqw, 1956, fudwle 1).
S. 1.4 fonnatioot de l'im:Qnldel'lt (~minairo 57-58), (8111/e'lll de Psyclwlorie.)
6. Lca rdlitiona c;·objot et los structllfCII freudieranea. (smllnairc S~57). (Nieti11th·
Psydlo/Ofle, O' 10) · ·
7- Le ~ ot son intcrprttation (S6miftain: 'l-j9). (BtJlfllll de Psydfolop,juviet
60.) .
&. Os sete púmcros pu_blí~dos <la revista: IA P1yc~IH (P.U.F.) c, oin partitu•
·lar. o n:ll.tóriO' e !I' mterven~ de Lacan no ConlfCIIO de Roma (n• I) (relató-
rio de Lacan: '"La parolc ct lo laqqe cn paycts.naly,o"). Oa dois tcnoa contidos
n.o nl)moro 6 (IROJnarques .M ' lc rapport 4c D. L1Jack.La direçtion de la cure).
o texto do nwmcro 3 (l.'inttancc de la lottn: dana l'loc:ontdtnt). o tato do nú-
moro 6 (Svr ll:a paychoiCI), crtc...
9. Entre os tcxtQII Pllblí~t!o~ P'lotl alunQt de t..ctn ou infl~doJ por ~ tnfi-
no, aoonaclhllr·!IC-lo el!l primeiro hlJar, 01 artlao• de S. LeçtaU., aiA Pl)'clt4-
. ffalysr. ~ ~rtlao do S. Loclairt o J. lAplancba tobro o in<:oniCieoto (Tmtp M~
. de,el, Judlet 1961}; Of anJaos de J. 8 . ur.vre-Pontalia aob,. "Frl\ld ••
- jourcl'hui" (Tt•mp Modlt'MI n,. 124. 125, 126 • 19$6); a obra do J.- Lapludle.
&obre "H6ldotlin ct la qu-.tlon du .,.,.,, (P.U.F.); o Uvro de Maud Maaaoni
. " L 'onfant arrii~ré ot aa m~r11" (Seul().
0bJtf11QcdO do lltlt/ulo•r: veja uma bÍblioJrafia mala atualizada na p@JÍDI . 42.

71 ·
MARX E FREUD

Texto de Louis AlTHUSSER


Tradução e notas de Walter José EVANGELISTA

73
MARX·E FREUD

Texto de Louis ALTHUSSER


Tradução e notas de Walter José EVANGELISTA

Muita gente concorda ein reconhecer hoje em· dia, apesar da e1(is.
tência de sintomáticas resistências, cujas razões deverão ser e1(amina-.
d as, que, no campo das Ciências Sociais ou Humanas, dois descobri- .
mentos inesperados, totalmente imprevisiveis, provocaram um abalo ·
no universo dos valores culturais da época clássica, o universo da bur-
guesia ascendente e instalada no poder (do século XVI ·ao XIX). Esses
descobrimentos são o Materialismo Histórico, ou teoria das condi-
ções, das formas e dos efeitos da Juta de classes, obra de Marx, e o in-
consciente, obra de Freud. Antes de Marx e Freud, a culiura se basea-
va na diversidade das Ciências da Natureza, completadas por ideolo-·
gias ou filosofias da história, da sociedade e do·sujeito lruinano. Com
Marx e Freud, teorias científicas ocupam, repentinamente, regiões até
então reservadas às formações teóricas da ideologia burguesa (Econo-
~ mia, Política, Sociologia, Psicologia) ou, melhor dizendo, ocupam, no
· interior dessas regiões, posições surpreendentes e desconcertantes.
No entanto, muita gente também ·concorda em reconhecer que os
fenômenos que Marx e Freud estudaram, os efeitos da luta de classes e
os efeitos do inconsciente, não eram desconhecidos antes deles. Toda
uma tradição de filósofos polfticos e, em especial, a dos praticistas, de
que fala Spinoia a propósito de Maquiavel- que se referiu, diretamen- ·
te, à luta de classes e a quem se deve a tese da anterioridade da contra-
dição sobre os contrários -, os mais conhecidos dos quais são os filó~
sofos do Direito N atura.l, que aludiram, indiretaf!1ente,. a ela sob o dis_.
farce da teoria jurídica, toda essa tradição , repito, constatara, muito
antes de Mar", a existência das classes e dos efeitos da luta de classes.
O próprio Marx reconhecia como seus antepassados diretos, de quem
se separara através da critica à teoria burguesa da luta de classes, os
historiadores burgueses da Restauração e os economistas da escola de

15
~icardo, como Hodgskin: esses autores haviam reconhecido a exist(n-
cta d~s classes e da luta de classes. Do mesmo modo, os efeitos do m-
consctente, estudados por Freud, tinham sido, em parte, reconhecidos
desde a mais remota Antigtlidade, nos sonhos. nas profecias, nos fenô-
men·os de possessão e de exorcismo, etc., consagrados por práticas de-
finidas de tratamento.
. N~e sentido, nem Marx nem Freud inventaram nada: o objeto,
CUJU teona cada um deles produziu, existiu antes de seu descobrimen~
to. O _q~ foi então que acrescentaram? A definição de seu -objeto , de
seus hmttes e de sua extensão, a Caracterização de suas condições, de
suas formas de e xistência e de seus efeitos, a formulação das exigências
que se devem c umprir para compreendê-lo e atuar sobre ele: ou seja,
sua teoria. ou as primeiras formas de sua teoria.
. Nada mais banaJ do que tais afirmações, se é certo que, para o
materialismo, todo descobrimento nada mais faz senão produzir a for-
qta de conbec_imento de um objeto já existente fora do pensamtnto.
As coisas se tornam mais interessantes, no entanto, no momento
em que as condições desses desconcertantes descobrimentos renovam.
··totalmente, as condições anteriormente reconhecidas como normais para
qualquer descobrimento. E, sem dúvida, não é por acaso que os dois .
descobrimentos que modificaram o mundo cultural, num espaço de
cinqüer'lta anos, _pertencem ao que se convencionou chamar Ciinc(as
Humanas ou Sociais, e que rompem com os processos tradicionais de
descobrimento nas Ciências da Natureza e nas formações teóricas da
ideologia. Não é, tampouco, por acaso que·essa ruptura comum tenha.
sido sentida, por numerosos contemporâ.ncos, a partir do momento .
~ITI que: Marx c Freud se tornaram suficientemente conhecidos, como a
manifestação de uma certa afinidade entre as duas teorias. A partir
disso, prisioneiros como eram do preconceito ideológico do monismo,
não fo i por acaso que alguns deles começaram a buscar as razões dessa
afinidade numa identidade de objeto, como, por exemplo, Reich, que-
rendo identificar os efeitos do inconsciente isolados por Freud com os
efeitos da luta de classes apontados _por Marx.' ·
. Continuamos vivendo, ou pelo incnos somos muitos os que vive-

I . Nota do tradwtor: A chave para a compreensio dessa critica que faz Althuuer só po- ·
deli ser percebida com clarcu ac 11e leva em conta. a necessária distioçio entre objeto
real e objeto-de-conhecimento . Tanto o objeto de Freud quanto o de Mau. enquanto
objetos teóricos. sio objetos-de-conhecimento c, como tais. irredutíveis ao objeto real.
Neue sentido, nlo h4 homopneidade entre Freud e Mari. E&sa homoseneidade f!Cll ,
no ontanto, suacrida pelo " prcçonc:cito ideolóaico do monismo". Quanto à ti(lfio ld«>-
I6Jica d1 '"011ismo, o próprio Althuaser nos pode e.claRcer. Sea11ndo ele; trata-te de um
''conçeito-chavc da co~çepçio peNO&! de Haeckcl; arande bióloao alemio, intrtpido
combatente materialiata·mccanicista da luta anti-reliJiosa e anticlerical no. anoe de

76
mos com este mesmo pressentimento: se muitas coisas os aproximam,
. deve Juz~r algo em comum ttrl~ MllrX e FMJJJ._Por que? E ainda que:_ a
fracassada experiência de Reich nos tenha ensmado oade e como nao
se deve buscar seu ponto de encontro (numa identidade de objeto),
continuamos convencidos de que algo em comum ocorre neua dupla
experiência, sem precedentea na história· da cultura. . . ·
Pode--se afrrmar, em primeiro lugar, que, num mundo.tgualmente
dominado Pelo idealismo c pelo mecanicismo, Freud_n?s ofe~ ?
:exemplo, assun como Marx, de um pensamento ma(enllltslll e dialetl·
co. . .
· Se a tese mfnima que define o materialismo é a existência dá reali-.
dadc fora do pensamento ou da consci!ncia, Freud é, desde o ini~,
materialista, já que nega a primazia da consciência, não só n_o co~
mc:nlo, mas também na próprill C()mciência, e nega, além dlsso, !' P!l-
mazia da oonsci!ncia na Psicologia. para pensar o llpa~lho pnqwco
·como um todo. em que o cso, ou o comciénte, nada mais é senão uma
instância, parte ou efeito. Em um nlvel mais geral, . a oposiçio de
Freud a todo idealismo, ao espiritualismo .e l reláliio, mesmo se esta
se disfarça. de moral, é bem conhecida. . .
Quanto à dialética, Jõ'reud nos deu surpr~~dentes figur~ dtal~­
cas que nunca considerou como leb (casa cnuc!vel ~odabdade de
uma certa tradição marxista): por exemplo, •• categonas de transfe--
rência, condensaçào,.superdeterminaçio, etc./e tám~m essa tese ~iffi:Í·
te de que·o inconsciente não conhece ll contftlll.ição, e que essa auscncta
de contradição é a condição de toda contradiçio. Meditar sobre essa ·
tese nos lcvãria muito long~ Isso 6 cap~ de fazer explodir o modelo
clássico da contradição, modelo tirado demasiadamente ao ~ da letra
• de Hegel para poder Krvir de método para Ulll4 análise marxista.1.

1886-1910. Publicista muito ativo,a~ttor de obras ' populares' que tiJeram umappnta-
ca dirusio. criador da ' Liga dos Mon.istas Alemlcs'. Considerava, como monista, que
nio havia d uas. substàncias (Dew e o mundo, o Esplrito ou a alma e a matma), mas
uma só. Por sua conta, Haeckel pensava que e~~a ÚJIÍc:a Substtnc:ia po'Ssuía ( u.m pouco
como a subslincia spinozista pouui, tambán. dois at.ributo.eucaci&il) dois atributo~: a
malt.ria c a energia. Todas as determinaçôea, tanto materiais como espirituais, de as
. considerava modos dessa Subsdncia, a qual diziaiiCf 'Toda-poderca'. Plekbtnov reto-
maria esse tema do 'monismo', que nio deiuva de ter. ICIJI d6vicla. afmidade com as
tendénclas mecanicistas que Lêfli_n, tio viJoroaamente, iria ÇCJ~&urar-lhe em squida.
Plckllinov era mais 'consoqlknte' que Haeckcl: rcc:onhecia que o idealismo moderno
era também 'monista' tudo explicando por uma ünica substlncia, o Espfrito". (Althua-
,i
"r: Loui5. FatiO, de Ma,x. p . I 77, nota.U). Cnmo se v! . o monismo vive numa proble-
mática que não distingue o objeto real do objeto-de-conhecimento. .
2. Nota do tf'tHbllor. ver mm informações sobre ase ponto na pillina 13 e squintcs da
introduçio. Al~m disso, quem se intereaar pelo problema da dia~tica em aeral c da

77
~ a~x e Fr.eud SC: ap~oximariamf' portanto, um do outro através do
matenahsmo e da d1aJétrca, com a surp~ndente vantagem, da R[lrte'
de Freud, de haver explorado figuras dialéticas muito parecidas com·
as de Marx, mas, às yezes~ !nclusive, mais ricas que estas e como que
esperadas P,Cia própna teona de Marx. Se posso citar-me, num outro
momento Ja dea ~m exemplo dessa surpreendente afinidade, ao fazer.
ver q~e a categ~r~a de superdeterminação (tirada ·de Freud) era algu-
ma ~o•.sa n~essar1,a e esperada pelas análises de Marx e de Lênin, aos
quats convmha exatamente, tendo, além disso, a vantagem de destacar
o qu.e ~epa~ava ~arx e Lênin de Hegel, no qual, precisamente, a con-
. trad1çao nao esta superdetenninada. 3 ·

~ Seriam suficientes essas afinidades filosóficits para dar conta da


comu·nidade ~eórica que existe entre Ma.rx e Freud? Sim e não. Po-·
~criamos, co~ efeito, P!lrar aqui, uma vez que esse aspecto filosófico·
Já é bastante nco, e deixar que tada ciancia funcione por sua conta ou
· ~ja, 9ue se.enfrente com seu objeto próprio, irredutivel, enquanto'ob-
Jeto, as afimdades filosóficas que acabamos de citar, e retirar-no·s, ca-
lando-nos. N~ enta!lto, um outro fenômeno deve reter riossa atenção,
fenômeno ma1s surpreendente ainda: é o qu~ denominei o caráter con-
flituoso tanto da teoria marxista quanto da .freudiana.
. Que a teoria freudiana seja uma teoria conflituosa é um fato que
provém da experiência. Desde o seu nascimento e esse fenômeno nun-
ca deixou de-se repetir, provocou contra si não ·~mente uma forte re-
sistência, não somente .ataques e criticas, mas também e isso é o mais
interessante, tentativas de anexação e de reviJão. 'Digo que tais tentati-
vas.de anexação ~ d~ revisão são mai~ interessantes que os ataques e
crft1cas, porque ~1gmficam que a teorta contém - seus adversários ·o
confessam - algo de W!rdQ!feiro e de p~rlgoJo. Onde não existe nada de·
ver~adeiro, ~ão existe, tampouco, nenhuma razã·o para anexá-lo ou .
r~v1sá-lo. E~1ste, portanto, em Freud, algo de verdadeiro, de qúe é pre-
CISO apropr1ar~se, para rever seu sentido, uma -..ez que isso que é 'l'f!rda-
deiro é perigoso: é preciso revê-lo para neutralizá-lo. Cria-se, assim .
um circulo, cuja dialética.é implacável. O mais importante nessa dia.Ji

co!ltrildiç:lo em particular, tal como ela aparece em Freud, poderá ler com grande pro-
vetto entre outros, os s~gu~ntes. textos: " A dcnegac;io" ( VtriJt'ilfllllg) Fre~d; (J. W . XIV
p. 11·5. lacan; L~ Semtrral"; hvre.l; us écrits ltdtniq~,t de Fm~d; lntroduction ct re-
~o.nse u un e~ pose de Jean Hypp«;>htc .~ur la Verncinuna de Freud; p. 63 e. finalmente. 0
. Comme~ta~re plll'lé sur la Vem~mung de Freud par Jean Hyppolite", que aparece na p.·
ll79 dos Eau.• de J. lacan. Ex!Siem traduções brasileiras. . . · ·
1o
3. Nm_~ tradu_u'!'- Além da págin.a 13 e seguintes da introdução vej a-se, por exemplo.
o leii(~O Contntd~çaoe sobrcdetermmação", que aparece em ALTHURSSER. L. AnáJi.·
. sc-·alllca da teor1u marxi.•to p. 75 e seguintes.

78
'tica resistência·crítica-revisio·é que esse fenômeno, que começa sem-
.prefora da teoria freudiana (em seus adversário$) acaba sempre dentro
a
' da teoria freudiana. então, a partir de seu próprio interior que a teo-
ria freudiana se vê obrigada a defender-se contra as tentativas de ane-
xação c de revisão: o adversário acaba sempre por "infiltrar-se" - o re_-
·visionismo - provocando. contra-ataques· internos que acabam em ci-
.sões. Ci~ncia conflituosa, a teoria freudiana é uma ciência cisionistu,
cuja história vem in arcada por cisões incessantemente renovadas..
Pois bem, a idéia de que uma ciência possa ser, por natureza, con-
·flituosa e cisionista. e estar submetida a essa dialétiea resistência-
ataques-revisão-cisões, é um verdadeiro escândalo para o racionalis-
mo, embora este se proclame materialista. O racionalismo pode perfei-
tamente aceitar que uma ciência nova (Copérnico, Galileu) se choque
com o poder estabelecido da Igreja e com os preconceitos d~ ~ma épo-
.ca de ignorância, mas isso ocor~ como por acidente e só num primeiro
.momento, até que a ignorância desapareça: por direito próprio, a cian-
cia, que é a razão, acaba sempre por vencer, já que a vtrdJJ.de é onipo·
'tente (o próprio Lênin dizi~: a teor{a de Marx é onipotente porque é
vt?rdàdeira) e mais poderosa que todas as trevas do mundo. Para Q ra-
.cionalismo, a idéia de que possam existir ci~nci!ls· conflituosas por O!l·
tu reza, assediadas ou inclusive constituídas pela contestação e pela lu·
'ta, é um puro contra-senJo: nesse caso, nio se trata de ciatlcias, mas de
·simples opiniões, contraditórias· em si mesmas como todos ·c,>s pontos
de vista subjetivos, e, em consc:qOancia, inaceitáveis._. . ·. ·. .·
· Pois bem, anteriormente à teoria f~udiana, a ciancia mar~tista
de
nos mostra o exemplo uma ci~ncia n~sariamente conRituosa ci· e
sionista. E aqui não se trata de ·um açidente, nctn da ignorância sur-
preendida ou dos preoonctitos dominantes, atacados·em sua comodi-
dade e em seu poder: trata-se de uma necessidade organicamente liga-
da ao próprio objeto da ciência fundada por Marx. Toda a história da
. teoria marxista e do marxismo .o provam, a começar, para se dar um
exemplo, pela história do próprio ~arx. Partindo de Hegel e de Feuer-
bach, em quem acreditou encontrár a-crítica de Hegel,-Marx só chegou
a alcançar posições filosóficas, a partir das quais lhe foi possfvel des-
cobrir o seu objeto, através de uma longa luta polftica e filosófica, in-
terna e externa. E só chegou a ocupar essas posições quando rompeu
com a ideologia burguesa dominante, depois de haver experimentado,
política e intelectualmente, o caráter antagônico que tma o mundo da
ideologia burguesa dominante e as posições políticas e filosóficas que
lhe permitiram descobrir o que o imenso edificio da ideologia burguesa
e suas formações teqricas (Filosofia, Economia Politica, etc.) tinham
como missõo dissimular, a fim de perpetuar a exploraçio e o domfnio
da classe burguesa. Marx se convenceu, assim, de que a -..erdade que
desc~bria não tinha por adverslirio acíd~ntal o "erro", ou a "ignorAo·

19
cia'\ mas o sistema org8nico da ideologia burguesa, peça essencial da
Juta de classe burguesa. Esse erro não tinha nenhum motivo para reço-
nhecer algum dia a verdade (a exploração de classe), já que, pelo con-
tTário, tinha, como função orgânica.de classe, mascará-la e submeter.
·em sua luta de classe, os explorados ao sistema de ilusões indispensável
à sua submissão. No próprio centro da verdade, Marx encontrava a .·
luta de classes, uma luta inconciliável e impiedosa. Ao mesmo tempo,
descobria que a ciência que estava fundando era uma ciência de pa;tido
( lêniil), uu seja. UIT!a ciência que a burguesia jamais poderia reconhe-
cer, mas que combateria por todos os meios, até a morte. · .
Toda a história do marxismo verificou, e diariamente verifica, o
caráter nec·e.uariamente conflituoso da ciência fundada por Marx. A
, teoria marxista, verdadeira e perigosa, oonverteu-se rapidamente num .
dos objetivos vitais da luta de classe burguesa. E assim veio a funcio-
nar a dialética que eu antes assinalava: ataque-anexação-revisão-cisão,
o ataque vindo de fora passou a ser ataque vindo de dentro da teoria, a .
qual se viu invadida pelo revisionismo. A ele respondeu o contra."
ataque .da cisão em determinadas situações-limite (Lênin contra a li'
Internacional). Foi através dcss~ dialética implacável e inevitável, de
uma luta irreconciliável'; que o marxismo cresceu e se fortaleceu, antes·
de atravessar graves crises, sempre conflituosas. .
. ·Tudo 'isso é bem conhecido, mas nem sempre se avalia adequada-
mente o seu significado. Facilmente se admitirá que a teoria marxista
está necessariamente imersa na luta de classes e que o conflito que a
faz afrontar-se com a ideologia burguesa é irremediável•.mas não ·se
admitirá tão facilmente que a conflituosidade da teoria marxista seja
t·on.\'litutiva de sua cienti.ficidade, de sua objetividade. Haverá um retro-
cesso até posições positivistas e ecooomicistas, e as condições confli-
tuosas da existência da ciência serão consideradas contingentes. em re-
lação a seus resultados científicos. Isso significa não ver que a ciência
marxista e o pesquisador marxista devem tomar posição no conflito
cujo objeto é a teoria marxista. devem ocupar posições tcóricas{prol~
tárias) de classe, antagônicas a toda posição teórica de classe burguesa,
para poder constituir e desenvolver sua ciência. Quais são essas posi-
ções .teóricas de classe proletárias indispensáveis à constituição e ao
desenvolvimento da teoria marxista? São posições filosóficos materia-
listas e dialéticas, que permitem ver o que a ideologia burguesa oculta
necessariamenté: a estrutura de classe e a exploração de classe de uma
.formação.social. E tais posições de cl~ são sempre e necessariamen-
te antagônicas às posições burguesas. . .
Esses principios. senão com essa formulação (posições teóricas de
classe), mas ao menos em seu sentido geral, são amplamente reconb~
cidos pelos téóricos marxistas. No entanto, não se pode deixar de pen-
sar que, com demasiada freqilência, ..só são reconhecidos verbalmente,
sem que seu sentido último tenha sido verdadeiramente assumido e
seja valorizado com todas as s~as conseqOências. Seria preciso tentar
utilizar uma expressão menos corrente, mas, talvez. mais esclareçcdo-
ra? No fundo dessa idéia- ou seja, a de que simplesmente para ver e
compreender o que ocorre em uma sociedade de classes é indispensável
ocupar posições teóricas de clàssc proletárias- existe a simples consta-
tação de que, numa realidade necessariamenre conflituosa, como é uma.
sociedade desse tipo, não se pode ver tudo :J partir de todas as partes,
não se pode descobrir a essência dessa realidade çonflituosa, a não ser
sob a condição de se ocuparem determinadlzs posições no conflito e não.
outras, uma vez que ocupar passivamente outras posições é deixar-se
arrastar pela lógica da ilusão de classe que se chama ideologia domi-
nante. Evidentemente, uma tal condição se choca contra toda a tradi-
ção positivista, a partir da qual a ideologia burguesa interpretou a prá-
tica das Ciências da Natureza, já que a condição positivista de objeti-
vidade é precisamente ocupar uma posição nula,fora de conflito, qual-
quer que seja este (uma vez passadas as épocas teológicas e metafisica).
se
No entanto. essa mesma condição entrelaça com uma tradição
diferente, cujos traços podem encontrar-se em Maquiavel, por exem-
plo, quando este escreveu ..para conhecer os principes, é preciso ser
povo". Marx disse a mesma coisa, no fundo, em toda a sua obra.
Quando escreve, no Prefácio de O Capital, que essa obra "repre.fenta o
proletariado", afirma, em definitivo, que é preciso estar situado nas
posições do proletariado para conhecer O Capital. E se tomamos as
palavras de Maquiavel em sentido forte e as aplicamos à história de
Marx e de sua obra, podere111os dizer com justiça: é preciso ser proleta-
riado para conhecer O Capital. Isso significa concretamente: não so-
mente é preciso haver reconhecido a existência do proletariado, mas
também ter compartilhado suas lutas, tal como fez Marx durante qua-
tro anos antes do Manifesto, ter militado nas primeiras organizações
do proletariado, para poder estar em condições de conhecer O Capital.
Para deslocar-se até as posições teóricas de classe do proletariado não
existe, com efeito, nenhum outro meio senão a prática, ou seja, a parti-
cipação pessoal nas lutas politicas das primeiras formas organizadas·
do proletariado. ~ mediante essa prática que o intelectual "se cr,mwme
em proletariado" e somente se ..se converteu em proletariado". ou seja,
se conseguiu deslocar-se de. posições teóricas de classe burguesa e p~
queno-burguesas para posições teóricas revolucionárias, pode conhe-
cer O Capital- no sentido em que Maquiavel dizia que "para conhecer
os príncipes. é preciso ser povo". Pois bem, para um intelectual, não
existe nenhuma outra maneira de ser povo a não ser converter-se em po- ·
VQ, por meio da experiência prática da luta desse povo. .
Permito-me dizer algumas palavras sobre uma expressão demasia·
do "'élebre: procede de Kautsky. e Lênin retomou em seu Que Fo=er?

lH
Refere-se à fusão do movimento operário e da teoria marxista, e diz: á
teoria marxista foi elaborada por intelcctuais·c introduzida no movi-
mento operário· a partir d~ fora. Sempre acreditei que essa expressão
era infeliz. Que Marx e Engels se tivessem fortnadb como int~l~ctuai.r
burgúese~ fora do·moviménto operário,~ unrfato tvidente:.formaram-
.se cumo todos os intel~tutüs da qk>ca, nas univenidades burguesas.
M.as é teotia márxista nada tem a ver com ú teorias burguésas de que
. ~~~\l~nt iltlpregnados os intelectuais; peló contdrio, o que ela diz é
algo de totalmente estranho ao mundo da teori• I! da .Ideologia bur-
gum. Como se explica, pois, que intelectuais IJurpeses extremamente
prepatados tenham podido forjar e conceber ~ma ·teoria revolucionária .
que sc:1rve ào proletariado, diZendo a verdade sobte O Capital? Creio .
que a respasta é simples e que já a indiquei antc8: Marx e Engels não
forjaram s-ua teoria de fora do movimento operário, n,as dentro do
movimento operário; não a partir de fotâ do proletariado e de suas po-
sições, mas a pa.rlir de dentro da1 posiç6es e da prática revolucionária .
do pr()l•tariado. Porque se h•viam ·con\'lrtido em intelectuais oft~nl­
cos do proletariado - c se haviam convertido niuo por sua prática no
movimento .operário, lem dtililr de 1tt intelectuais - ~ que pudttam
ooncebct sua teoria. Essa teoria nlo foi ..importada do exterior" para
d tftóvimcntg t>per_Atló, mas foi concebldi, gtàças a um enorme Nfor-
ço têdtiêo, Hé> lflltritJr do movimento oper,tio. A pmuJo-imponardó de
qUI fala Ka&atlky nada mais ~ que à t >tPtiMtlo, no interior do movi·
metUO operl\th:>, dê uma teoria produzida iltnlro do movi!Mntô operA·
tio por itttelêctuais orgânicos do prolétariad<J. . -
· Esllla não são questões secund•ri•• ou de' pormcnorn. mas
probl~mlls que comprometem o sentido dé toda a obra de Marx, uma
vez que~ des/ocam~nto (de qu~ Pre1,1d gosti tanto dt falar, ao refé·
rir-&e ao •u objeto) para posiçãés teóricas de classe tcvoludonitlas
não tem, como se poderia. cret. conseqttêntias utticah\itlte pollti~as:
tem; lll~m disso, Çdnseqilências toótiéal. _ .
C<)norcblfninté, abandonar a.s posi~õti teôtlc:às burgueses t J»
queng...burguesas pata alcal1çar póiiç6és teóricas dt c:lã~IIC prolct4rias
é um pwu poUtico·t~ri"o ou tilosófiCC) plêno de eo~seqOêttdat teóri-
cas- c c=letttíflw. Nâu foi por casualidade que Marl escr~veu, c:omo
subtftulo ~ O Copltal, cita áimpleí frase: .. Critica da Ecotlontia Putftf.•
ca". "nltHol látnpouco J'ôr á~aso que se rnenospretou, colt'l freqUtn-
ciaj o ttentldo daaa crWca, tomando-a pdt um jufZC) dt Matx sobre
umâ t.al~dà_d• irrecusada e írrecu~vel, tttduzindd-íl a di1C\lll3ei p11ra
saber " Smlth c Ricardo comP.rnndetam Cótrttarnlnte i110 ou aquilo~
~se viram à rHaJs-valia sob a rendi ou ttlo, de. A ruUdade ni lnfinha·
fttetttt mllla iottgc. No d,s/ocamtiilo qut o leva ã'.oc:uptr po,tçatt de
o•
elaase prolct.íiria•; Marx descobtt qu•, apttár de todot acertos dctl-
ses autotci, li B~onomia Polida tJtiattnte n:lo t rundarntntalmente

H2 L .
' uma ciincia, mas uma fonnação t~6rica da itkoloila bu~sa. que de-
. sempenh~ o papel que lhe corresponde na luta de clusea ideológica.
Descobre que não são somente os pormenores da Economia PoUtica
·existente o que deve ser criticado,·mu que o que se deve recolocar e o
que deve ser posto em questão é a própria idéia do prQjeto, ou seja, da ·
existência da Economia Política, a qual só pode ser concebida como
disciplina autônoma, independente; enquanto, dissimular as relações
entre as classes e a luta de classes que tem como missio ideolóaie.a
ocultar. A rev.oJução teórica de Marx conduz, assim, l conclusio de·
que não existe (salvo para a burguêsia, cujos interesses sio demuiado·
evidentes) Economia Po/(tica e, de que, com maior motivo ainda,114o..
existe ec~nomia poUtica marxista.· Isso nio quer dizer que nio ~ta
nada, mas que Marx suprime esse súposto objeto que er" a EConomia·
Política e. o.substitui por uma re.alldtlde totalment~ dlftrtni~. que ra~-·
ta inteligível a partir de certos princfpios tota/mem~· diftrttft~s. os do
Materialismo Histórico, em que a luta de cltu.Su i dtttritiiiWite para ·
compreender os prohltmas clra~os e~pnômicos. . . ·.
· . · Poderíamos encontrar inúmeros exemplos em M~ . para mot-·
.trar que sua teoria da luta de classes é co_mpletamcnte difcreitte·da tco··
.ria burguesa, que sua teoria da ideologia e do Eatado, 6. do m~o..
modo, dqconcertaote. Bm todos esses casos, pode-se relacipnar o •
locamento para posições teóricas de çJasse com a rcvoluçl·o no objétci ·
{o qual se transforma em outro muito diferente, ou seja, nlo IOIIlOilte-
seus limites, mas, inclusive, sua própria natureza t 'sua ilktitillf?IM mu-.
dam) e com as conseqQ~nciu prático-revolucionáriu que derivam clii- ·.
.so. ~ bem verdade que essa radical transformação dos pr~imen~·.
de reconhecimento tradicionais não facilitou a tarefa do• leitoros de·.
Marx. No entanto, o que mais os chocou f~i a fecundidade teóriea e.·
cientlfica de uma ciência conflituosa. . ·.
. Está bem, dir-sc-â, no entanto, o que teni a ver Freud Com tudo.
isso? O caso é que, guardadas as devidas proporções e em um nfvel di-·
ferente, a t~ria freudiana se encontra numa situação parecida, sob O·
domínio da conflitutnidade- . .
Com efeito, quando Freud edificou sua teoria do in~nscientc, to-.
cou em um ponto.extremamente scnsfvel da ideologia filosófica, psi~·
lógica. e moral. P.Ondo em questão; atrav6e do descobrimento do i~­
conscicnte e dé seus efeitos, uma certa idéia ·natwal, Upolttlilea do /to-.
mem como sujeito, cuja-unidade está cusqurada OU coroado ~la CINU.:.
ciiltcla. . ·
Mu também nesse caso ocorre que essa ideologia dificilmento
pQde repunciar a essa concepção-cllave sc.m renunciar a seu p~pel pró-. ·
prio. Essa ideologia (seusfuncionâriQ!, diria Marx) rcaiste,·critica, ata-
ca e trata de se apoderar da teoria freudiana,: de reva-.Ja a partir de den-·
tro; Jpós ta-Ja- . atacado de
. fora. Podemos reconhecer aqui. aqueladial6-.
~ "' .

83
tica que Já ~nalisamos:_ es~ nela o que justifica o caráter nc:cessariá-
men~e confltt\!-OSO da teona freudiana. .
. .~o entant~, qual é esse aspecto comum "que permite reJacionár"al
hbsttl!dade da tdeolog!~ burguesa do homem, frente à teoria do in-
~onsct_e.nte, com a hostilidade dessa mesma ideologia burguesa, frente
a teona ~a luta de classe? O que em Marx é necessário· não é relativa-
mente ac1dental_em Freud? Como relacionar o que é "útil para a luta de
classes de uma sociedade com o reflexo de defesa de uma ideologia do
homem?.
Na r~alidad~, essa relação não é tão arbitrária quanto possa pare-
cer. Essa tdeolog1a do homem como sujeito, cuja unidade está assegu•
rada ou c~ro~da pela consciência, não é uma ideologia fragmentária
_q ualquer, e Simplesmente a forma filosófica da ideologia burguesa a
q~al ~ominou a História durante cinco séculos e que, embora hoje ~m
dta na o tenha a. mesr_na força q~e ~ntts, reina, ainda, em amplos seto-
res da filoso~a tdc:ahsta e constttut a filosofia impHcita na Psicologia
na Moral e, mclustve, na Economia Política. Não vale a pena recorda;
agora que a gr:ande tradição idealista da filosofia burguesa foi uma fi-
~osofia d~ cons~iência, ·empírica ou tran_scendcntal, uma vez que tudo
tsso é cotsa sabtda e, além do mais, ·porque essa tradição estã cedendo
lugar ao neoposit_ivismo.. Ao contrário, pode ser mais importante re-
~ord~~ que essa. Ideologia do sujeito-coiiScient~ constitui a filosofia
tmphetta na teopa da Economia Política Clássica, c que foi sua versão
econômica o que Marx criticou, ao recusar a noção de homo economi-
cus, segun~o a qual o h om_e~ se define como o sujeito·consciente de
suas neccss!da~es, e esse SUJetto-dé:-nccessidade, como o elemento últi·
mo e constitutivo de toda a sociedade. Assim, Marlt rechaçava a idéia
de que se pudesse encontrar no hom~m. como sujeito de suas necessi-
dades, não só a explicação última da sOciedade. mas, também e isso é
fun~a_m~nlal. a_ e-xplicafão do homem coma sujeito, ou seja; com~ unida-
de tde~hca a .s1 e tden~tfic~vcl p~r si, ·em cspecíal por esse por si por cx-
c:_Jê~cta que e a consetêncJa de SI. Regra fundamental do materialismo:
."'!o julgar o ser por s~~ c~nsciên~ia de si!, uma vez que todo ser é algo
dtshnto ~c sua conscteneta de SI. Mas, talvez, ainda seja mais impor-
~ante assmalar que essa categoria filosófica do sujeito consciente de si
. s~ enca~n~ naturalmente na concepção burguesa da Morá/ e da Psicolo-
gia. É_ fac1l compreende_r que a Mor:al tenha necessidade de um sujeito
con~c1c:nte de SI, ou -~CJ~, responsável por seus 11tos, pkra qu~~;. possa
obngá-los, em consctencta, a obedecer a normas cuja imposição pela
força res~lt_!l meno~ ~conômica. E s~· compreende ta~bém~: pela sim-
ples definu;~o de su_r:1to mo~al (ou SUJeito-de-seus-atos), que esse.~ujei­
to nada mats é senao o complemento nect!Ssárlo do sujeito-de·dinito 0
qual de~e estar bem sujeito e consciente, para ter uma identidade, e ~o­
der, ass•m. prestar contas do que deve em função de leis que está obri-
84
gado a não ig11orar. sujeito qúe deve ter consciência .das l~is qu~ o for-
çam (Kant), mas sem obrigá-lo em consriinâa. Cabe pensar. ·então.
que es~ célebre Jujeito pJicológico que foi e continua sendo .o objeto de
uma dé11âa, a Psicologia, não seja um dado natural e bruto, mas tenha
uma naturela estranha. mista c problemática, comprometida com o
destino lilosólico de todos os.sujtitos que nele 5e entrecruzam: ·sujeito
de direil.<?. sujeito de necessidade, sujeito moral (e religioso), sujeito
político. etc.
Se dispuséssemos do tempo suficiente, seria (ácil demonstrat a
conspiração ideológica que paira, sob o domínio da ideologia burgue-
sa, em. torno da noção de sujeito consciente de si, realidade ~.'Ct"ma·
mf'tUe problemática para uma ciência possível ou impossível do ho·
mem. mas ·realidade, pelo contrário, terrivelmente t'xigida pela ~tru­
tura de uma sociedade de çlasses. Na categoria de sujeito consciente de ·
si. a ideologia burguesa reprneffta os individuos como o que estes dt·
l't'm ser, para aceitar sua própria submissão à ideologia burguesa, re-
presenta-os como dotados da unidade é da. consciincia (essa mesma
unidade) que devem ter pa·ra unifiar suas difercntft.prátw e seus dife-
rentes atos sob a unidade de classe dominante.
Insistirei um pouc~ mais nessa categoria de 'unldade inseparável
de toda con.sciência. Não é por acaso que toda a tradição filosófica
burguesa apresenta especificamente a consciência como a faculdade de
uniftc•u;ào, a faculdade de síntese, seja no marco empirista de um Lo-
cke ou de um Hume. seja no marco de uma filosofia transcendental.
.que, após haver seguido, dt.a.rante muito t_e mpo, os passos de scus.pr~·
cursores, encontrou sua expressão em Kant. Que a consciência seja
~,·ínr~se significa .que realiza, no sujeit'?, . a 'midade da.diversidade de
·suas impressões sensíveis (da percepção ao conheci~ento), a unidade
de seus atos morais. a unidade de suas aspirações religiosas e também ·
a unidade de suas práticas políticas. A consciência aparece, assim. ·
como a. funçio, delegada ao indivíduo pela na.tureza humana; de uni}i·
ca(ào da diversidade de suas práticas, sejam estas de conhecimento,
morais o~ pJ?liticas. Traduzindo essa linguagem ·abstrata:·a éonsâência
é obrigatória, para que o individuo dela dotado realize, em si~ a unida·
de eXigida pcl!l ideologia burgueSa, a fim de que os sujeitos se adcquem
à sua própria exigência ideológica e polftica de unidade, ou seja, para
que a ,·onflítiva cisão da luta d~ da.u~s st'ja vivida por úu.s agt.n(e.f" como
uma jimna .\·upuior e e.Jpiritual .de unidade. Insisto propositadamente
nessa unidade, ou ~a identidade da conscilnda t dafunrõo dt unidodr.
porque contra ela se dirigiu fortemente á critka de Marx; quando este
desmantelou a unidade jfusória da ideotogia burguesa e o fantasma de;
uni,dade que .ela provoca na con.fciinda •. como efeito que lhe é indi!i·
pensávcl.para funcionar. Insisto propositadamente n~a unid(ldr, por.-.

X5
. I .
que, por uma coincidênda plena de sentido, é sobre ela que se concen-
trou a critica freudiana da consciência.
Na realidade, se se compreende bem Marx., não há nenhum misté-
rio nesse ponto sensível, que Frcud atacou, de toda tradição filosófica
clássica e das formações teóricar da ideologia burguesa, como são a
Psicologia, a Sociologia e a Economia Polftica, ou de suas· formações _
práticas, como a Moral c a Religião. Basta compreender que os dife-
rentes "sujeitos-conscientes-de" são unificadóres da .identidade social
do invidívuo. enquanto eles mesmos estão unificados como outros tanto.f ·
exemplares de uma ideologia do "Jwmem", ser naturalmente dotado de
consciência, para captar a unidade profunda dessa ideologia e de suas
formações teóricas e práticas. Basta captar essa . profunda unidade
para dar-se conta de como são poderosas as resi!{têndas a F"reud. Pos-
to que, ao descobrir o inconsciente, Freud:não apenas tocou um "pon-
to sensível" da ideologia filosófia, moral e psicológica existente, não se
chocou apenas com idéias que estavam .ali por casualidade, fruto do
desenvolvimento do saber ou da ilusão humana, nio tocou apenas um
ponto sensível, porém secundário, de uma ideologia crucial e localiza-
da. Não; talvez sem o saber nQ iníci~. embora, em seguida, ele o tenha
sabido muito. bem, Frcud tocou o ponto teoricamente mais unsívrl de
todo o sistema da ideologia burguesa. E com isso Freud não contava,
dado o que podemos ~hamar sua inocência politica, dissimulada por
uma grande sensibilidade ideológica. q mais paradoxal é que Freud;
salvo em alguns ensaios aventurosos e criticáveis (Totem e tabu, O mal-
e.star np civilizacão, etc.), nunca tentou verdadeiramente compreender
e pensar, como um .todo, essa ideologia burguesa que atacava no seu.
ponto mais sensível. Sigamos avançan-d o por esse caminho: niQ estava ~
em condições de fazê-lo, uma vez que, para isso, teria de ser Marx. E'
não era Marx: ·:st>uobjeto rra muito difrrrntt. Mas bastou-lhe revelar ao;
m~nd~ estupefato que esse outro objeto existia, para que suas éonsc-· -
qü.:nc1as apare'-"eSsem por si mesmas e -para que se desfechassem.con-
tra ele os ataques ininterruptos dos que, por uma rázão ou 'por outra.
. mas sobretudo porque estavam unidos pelas convicções da classe do-
minante, tinham interesse em que se cala.ue. São Bem conhecidas as
palavra·s de Freud ao aproximar-se dessa América q,ue iu visitar: "tra-
zemos-lhes a peste... Pensemos nas palavras de Marx. ao falar de O Ca- - .
-. pito! c1~mo.."d!' mai.s giganfe.tco míssillancado na cabeça .da bufÍue.sia
CtJptta/t.tta . E.'ISUS Sào palavras de homens que sabiam não somente O
•q.~ s.ignificava lutar mas que sabiam t~mbtm que traziahl ·ao mundo-
CJe~Jas que não podiam existir a não ser na e pela luta, pela simples
. razao. de que o adversário não ·POdia tolerar sua exil'tência: ciêncills
connítu?sas, sem nenhum compromisso possível.· · · · ,
Sena preciso, no entanto, não nos limitarmos a essas generalida-
des. por mais corretas que sej~m; pela seguinte razão:.o ob/rto de Fl'ftld

86
~o ohjeto de Marx. Com ~feito, havia em Freud algo de muito especial
que fa:t com qú~ a comparação entre ambos cesse e, ao mesmo tempo.
. começe de novo. .. . _ .
U uhjcto d~: ~reud não é o objeto d_e .Marx. Marx se ~rgunta o
que é uma. formação social,· reco~hece nela o pape_l determm_ante da
Juta de classes, a partir da qual ed1fica tod~ sua teona da.relaçao entre
as relações de produção e as forças produ uvas.~ ~ ·c.o~la da ~u.peres­
trutura (Direito e Estado, ideologias). A condu;ao tconca prevta .q~~
rege essa teoria, na qual as relaçõef (de .Pr~duçào, de classe:. ·etc.) sao
determinantes, essa teoria que encerra a tdéJa de uma causalidad~ ~las
re/Óciks e não pelos elementos, é a r~u~ do .pressupos.to t~rtco. da
Economia Polhica clássica ou das teonas tdeahstas-da H1stóna, ~use­
ju. que são os indivúluos••os .sujeitos ~orig.inários, ~orno causas últamas}
de todo o processo econom1co ou h1st6nco. _Por ~~~o:_ Marx se preoçu-
pa numerosas vezes. em O Capital, em prec1~r a 1deu~ de !'ue se d~ve
~:onsidcrar os indivíduos como .vuportr.v (Trager) de juncoes. funç~s
que estão, por sua vez, determinadas e fixadas pelas rtlaçiks de luta de
· classes (econômicas, políticas e ideológicas) qu~ movem toda a ~tru­
tura social, inclusive quando esta. nada mais faz senio reproduz~r-se.
Na /ntrodurào. à Contribuift}ó . . .- , Marx diz: não_se deve part1_r do_.
"concreto. mas do abstrato". Essa teoria da primazia . da~ reJa~ .
·sobre os termos, essa teoria dos individuas (capitalistas 0\1 proletátJOS)
como ..suportes de funções" verifica a tese da Introdução. Nio é que
Marx nunca perca de vista os individúos concretos, mas, como·estes
o
são também "concreto", são ..a sintcse de múltiplas determin~ç~"
e O Capirfl/·se limita ao estudo das mais in,portantes d~m~IUplu
determinações, ~m se propor a tarc:ra de ~onstrutr, mcdsante ·a
·'síntese de múltiplas determinações", _os individuos concretos, a _q uem
só considera provisoriamen_te, enquanto suportes, com;o ~m de ~er
deseobrir as leis da sociedade capitalista. em que esses •t:ad•v(duos.con-
cretos existe~. vivem e lutam! Mas, ainda assim, O Capit~ nos fal_a
· bastante deles, e os textos histórieos de Marx. do sufiaentemente
explícitos para que saibamos que.Marx não ~ia .ir.mais al~ f.~ umt1 ·
t~tJria da individulllidadr social. ou das formas hutonctiJ da rndrvtdutl/1-
dad~. Nada há em Marx que aptecipe o descobrimento de Frcud: Mda
há em Marx q~ prusa fundtlwntar 11nt0 korúl do P_slquismo. ·
Pois bem, em se11s desarortunados ensaios de d1'<Lulgaçio, F~d
nada mais fazia a não ser repdir. em condições criticáveis, o que bav1a
deséobcrto em outra parte. No entanto, o que hav~ descoberto nio se

-1. • .\ ·ma ,j,, ITÍidllft" : par.a que !iC J'05Sõ& perceber .; llkai'IQ: de tai5 observaçaés de
)\ltbusscr, é im!lrÚdndlvcl"'!UC SC: leia Q ~'l>mcntirio (eito por ele i ./ttll'r~J fh J7... de
Marx i:m /.C'r () (·apitai.

lH
referia, de modo algum, à sociedade ou às relaç&s sociais, mas a fenô-
menos muito partitulares que afetavam os indMduos. Embora tenha
sido possível escrever..sc qúe no inconsciente· há um elemento tramin-
dividuol, é sempre no indivíduo que se manifestam os efeitos do incons-
ciente, e ~ sobre o individuo que opera o tratamento, inclusive se este
requer a. presença de óutro individuo (o analista) para transformar os
efeitos do inconsciente existentes. Basta essa diferença para distinguir'
Freud de Marx. . ·
É ela os distingue, inclusive, se se podem encontrar, nas condições
de suas respectivas descobertas, semelhanças estranhas. Em páginas
anteriores, insisti no fato· de que o intelectual deviafazer-se povo, para
compreender os príncipes. -Dei a entender, até mesmo, que a transfor-
'!lação que o faz passar de·posiç~ teóricas de classe burguesas ou pe--
Queno-burguesas a posições proletárias, a partir das quais, e unica-
mente a partir das quais, é possfvei vu a exploração e a luta de classes,
passava pela prática polftica. Pode-se, inclusive, ~um pouco mais lon-
ge· e diicr que um intelectual não pode converter-se num intelectual .o r-
gãnico do proletariado senão com ltêondição de ser educado pela luta
de ~!asse do proletariad9, a qual transforma suas posições anteriores e
lhe permite ver. Alguns .sustentaram, com ajuda de poderosos argu-
~entos, que algo assim deve ter-se passado com Frtud: se este mudou
de posição em relação aos problemas da consciência, se rompeu com a
Fisiologia e a Medicina, ; porque foi como que educado por seus pró-
prios pacienJes histéricos, os quais literalmente lhe ensinaram e lhe fize-
ram ver que existia uma linguagem do inconsciente inscrita em seu cor-
po, e foi Anna O. que não somente inventou. para ele, a expressão tal-
king cure (etapa decisiva da descoberta), mas lhe impôs, al~m disso, o
reconhecimento da existência da transferência e da contratrimsferên-
cia. Este é um apaixonante aspecto ·da história· da Psicanálise, sobre o
qual os materialistas fariam bem em meditar.
Só que, com·o primeira evidência, o que Freud descobriu ocorre
no indivíduo. E é aqui que encontramos uma primeira forma inespera-
da de conflituosidade, e com ·e la, uma nova diferença entre Freud e
. Marx, ao mesmo tempo em que (encontramos) um principio que, sent
dúvida, tem sua parte no efeito de submissão exercido pela ideologia .
sobre os siljtitos.} Parece, com·efeito, que a ·recusa generalizada da Psi:

S. Nota do l l'llllulor. Ponto extrem:.~mente deliGado na d~,c~r de Aithú~. .P.arecc-


mc importante observar que ele está chamando a atenção para ''uma nova·S ' fctença
' i en-
~re. F~ud e Marx~. E é essa diferença q ue afastará. de uma vez por todal, · -~se
ldcnt•fic:t~r. por e:c:cmplo, o imaginário segundo Lacan c o mesmo segundo Alt liseer.
Qua~to a C!ISliS questões do sujeito, do indivíduo c da ideologia, podcr·so-• -~ltar.
com •ntcrc:sse, tanto o ar tigo anterior - "Freud c Lacan" ~quanto "ldcoloaia c a("~ r~
~h~ id~ológ-icos de l;.onado ... sobretudo a parte referente à ideologia (A propósitCI dll
1drolog1a ).
canálise por parte dos filósofos (ou a revisão a que a s.u~metem , _c~m o·
fim de destruir sOas pretensões), inclusive pelos materialistas _?t•r~tst~s.
que se refugiam, com demasiada freqüência, numa con~o o~~olo­
gica da tese leninista da consciência-reflexo, pelos mMicos, pst~ólo­
gos, moralistas e outros, não :St deve unicamnrtt a um ant~gontsm.o
ideológico de: massa embora. a nível de massas, esse antago~tsm.? SCJB
inevitável. Parece ~r preciso acrescentar uma nova determt!'laçao e~­
pccffica a esse antagonismo, pa~a explicar seu aspecto_ p~ópno ou. ~Ja
uma determinação que tenha a ver com uma caractenstlca ~o objeto-
inconsciente como tal. Esse elemento supleme~tar se rc:.fere ~ n~tureza
do inconsciente, que é recalcat'!eli~o. (refoulement) , Se tsso. e .~erda~e.
não é arriscado afirmar que os mdtvtduos não suportam a t.de•a ~o. In-
consciente apenas por razões de caráter exclusivamente tdeolog•co,
· mas . . . porque eles mesmos tê~ um in.cotu_,citnlt, o q~a! recaic:a auto-
maticamente. por .meio de uma compulsao de repeJiça? ( ~~ednho­
/ungszwanl), a idéia da existência d~.inconscientc::T~o md•~!duo de-
senvolve, ússim, ..esponta ne<imente • um rtflexo dt defe.~a ante o
inconscient~ que é parte de seu pr6prio inconsciente, um r~l~mento
da possibilidade do inconsciente que coincide com o própno mcons-
ciente: Todo individuo? Isto não está tio claro: não está pr~vado que
o reflexo de defesa seja sempre tio ativo; a experi~ncia mostra, pelo
contrário, que existem individuas em quem essa _resi~encia · est~-. e·m
conseqnência da ordenação de seus conflitos fantasmáttcos, s~fic1ent~
mente superada para permitir-lhes ~ rcconhecimentó da reahdade do
l nco.nsciente, sem d~ncadéar. por isso, reflexos de defesa ou de fuga.
Por esse caminho, como também por outros, entramos- n·o d!'·
cobrimento de Freud. O que descobriu Freud? Não~ espc~e de m1m·
uma exposição completa da· teoria freudiana! mas somente algu~as_
observações que a situtm teoricamente. . · . . ·
Seria um contra-senso pensar que Freud propôs, segumdo os
behavioristas, em cujas tentativas achava graÇa, a idéia de uma psico- ·
fogia' sem consciênCia. Pelo contrário, reserva .um .l~~ar, ~o ~parelho
. ·psíquico, para o "fato fundament~l da .~onsct~n~a ,_atnbut-lhe um
.tisr~ma especial (''percepção consc1~nte ) no luntte do mundo ext~
rior, e um papel privilegiado.no tratamento. E a~rma, por outro ladQ,
que o inconsciente só é possiv~l num ser c~~nte. No ~ntanto.' n~
que se refere à primazia ideo~ó..~ da co~~~~naa. ~reud_ é •r:nplacav.el.
"devemos aprender a emancipar-nos da Importância atribwda ao ~m-.
toma 'ser consci~te'" (O .W. XIV, 192). Por qu~? ~~rq~c a ~ons~en­
cia é ineapaz, por si mesma, de estabcleec:r uma distinçao entre _sute-
tnas" (G.W ., x, 291). . · . . . A • ~
· Freud, com efeito, não somente descc:>bf!u a exJStencJa do tncons-
ciente. ·sustentou, além disso, que o pstqutsm? -~tava es\ruturado
sobrc. 0 modelo da unidade centraáJJ numa conscJ~ncta : mas estrutura-
. !!9
do como uni "aparelho''' que compona "sls.tcmas diferentes", irredutí-
veis a um principio único. Na primeira "tóplea" (figura no espaço),
.~se aparelho comp~ndo o inconsciente, o prkonsciente e o cons-
Ciente, além de uma Instância, ·correapondc a uma "censura·~ que re-
calca para o inconsciente, o que representa pulsõcs insuportáveis para
o pré-conscie~te e o consciente. Ná segunda tópica, esse ·aparelho
.compreende o td, o ego e o superego, e o que as&eJura o recalq\le é uma
parte do _ego e o superego.
. :es~ aparel,ho não l u~a unldtldt c~iltraila, ma5 um conjunto de
anstãn_c•_as constttufdas pelo JOIO do rocalque inconsciente. ·A aparição
do su~e1to, o d~t!._tra~cnto do aparelho psfquico com relação ao·
~nscaente e ao ego sãO&Jmult4neos a uma teoria ~o ego revolucioná-
na: o ego, que antes era unicamente o·reino da consciencia convene-
se, ele mesm?, em p~rte, em inconsciente, pane interessada ~o conflito
~o recalque m~~sc!ent~ pelo qual se constituem as instâncias. E jx>r
'55? ~ue &: consc1enC1a é tncapu de ver a "diferença dos sistemas" em
·cuJo 1nteno~ nada mais ê- ienio um sistcnfa entre outros. cujo conj~rito
está submcttd'? à ~inâmlca conflituosa do rccalcamento. ·
. Tor~a-se 1nevrtável pensar, com a devida distância,;na revolução
tnt;oduzrda por Marx quando este renunciou ao mito ideológico bur-
gues seg.u~do.o qual a natureza ~a soci_edade seria um todo único e ren-
l t~ado, para passar toda formaçao soc1al como um sistema de instân-
Cias sem c~ntro. Freud,_que apenas conhecia Marx, pénsava, como es-
te, seu objeto (~mbora nada tivesse em comum com o dele) por meio
d~ figura espac1al de uma''tópica" (recorde-se o Prefãao à Contribui-
f~o de I !:!59), e de uma tópica sem centto,.em que as diversas instâncias
. n~o possuem ou~ra unidade senão a unidade de seu funcioru~mento con- ·
.fl~tuo.w no que rre~d denomina "o apa~lho psíquico", terrrio este (a-
parelho) _que lambem nos f'!z pensar drscretamente em Marx.
Subhnho a semelhança dessas afinidades teóricas entre Marx e
. Fre~~ par~ faze~ \ler até !ue ponto·essa alteração dasfomuu de pénsar
tradtCJonaJs e a mtroduçao de formas de pensar revolucionárias (tópi-
~•.apar~lho, ~nstâncias conflituosas sem nenhum centro, ilusão neces-
sana d.a ldentJdade do ego, ele.) poderiam tanto indicar a presença de
um_obJe~o d~ncertante, o inconsciente, como chocar-sec-.om a ideo-
logta CUJ? camr~ho fechavam e com o recalcamento que prov~vam.
. Partm~o d1sso, podemos tentar definir negativamente ·a posição
do mconscaente freudiano.
. O ín_consciente freudiano fu pane do pfquito, o que o impede de·
ser 1dent1ficado, como uma corrente materialista mecanicista tende ·a
f~ê-1~, com o não-psíquico, ou 'com um efeito. derivado do .nio-.
psJqul.co. Por isso•. o inconsciente freudiaao qAo é nem uma realidade
~ate11al (~rpo, cerebro, o biológico, o psicdjlsiológico), nem uma rea-
lidade soc:1al (as relações sociais defmidas por Marx eomo detenninan-
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tes dos indivfduos, independenlemen(~ de sua conJciéncia) distinta da
"consciência" e, portanto, do psiquismo, mas que produza ou deter-
mine a conselência a.pesar de si. Não~ que Freud negasse a exis~ncia
de uma rebção entre o inconsciente, de um lado, e o biológico e o so-
cial, de outro. Toda a vida psfquica está montada sobre o biológico,
graças às pul.rõe.ç (Tríebe), a que Freud considera como tepresentantes
enviados pelo somático ao interior do psíquico. Mediante esse concei-
to de representação, Freud ll1anifesta seu reconhecimento biológico da
pulsão (que, no fundo, sempre é sexual), mas, mediante esse mesmo
conceito, libera a pu.lsão do desejo inconsciente de todii forma de de-
terminação essencial pelo biológico: a pulsão é "um conceito limite en-
tre o somático e o psíquico".(G.W., V, 67), conceito limite que é, ao
. mesmo tempo, o con~ito desse limite, ou seja, da di/etetWa entre o so-
mático e o psíquico. Não é, tampouco, que Freud negasse a exis~ncia
de uma relação entre o sistema das instâncias do ego e a realidade ob-
jetiva ou social, cujo rasto pode ser visto não. somente no princípio de.
realidade, mas também no sistema per~pção-conscimcia e no supere-
go. Mas também nesse caso, por sua insistencia em f.,.Iar da superflcie
exterru~ do aparelho· psfquico, Freud marca. de. novo, um limite: o.
apoio no .mundo exterior e social designa uma diferença de realiclatle e,.
ao mesmo tempo, seu reconhecimento e sua identificação. · ·
· Não resta a menor dúvida de que, para Freud~ os fenômenos ori-
ginados pelo aparelho psiquico, e; em especial, os efeitos do incons--
ciente não constit1,1em uma verdadeira realidade, mas uma realidade.
sui gene ris: "Deve-se reconhecer uma realidade nos desejos inconscien-
tes? Não saberia responder a isso., .. Quando alguém se encontra fren- ·
te a desejos inconscie~tes que chegaram à sua última~ mais verdadeira
expressão. vê-se forçado a dizer que a realidade psfquica é uma fonna
particul4r de existência fUI! não devemos confundir com a realidade ma-
teria(". (G. W., II~IU, 625). Ou, ainda: ..P.ara os processos inconscien-
tes, a prova da realiá:aile (objetiva, materiál) não tem nenhuma valida-·
de, a realidade do pensamento equivale à realidade exterior, o desejo.
equivale à sua consecução ... portanto, que ninguém se deixe enganar..
nunca, transferindo o valor de· realidade para as formações psiquicas
recalcadas ..,. Devemos usar a moeda vigente no pais que explora-
ni9S" (Sobre os dois princípios da atividade 'psíquica) •
· Pesignando essa.realidade sui generis. única em seu aa.tero. o in-.
consciente freudiano não tem, evidentemente, nada tm comum com o
inconsciente da tradição filosófica: o esquecimento platônico, o indis-
cernível de Leibniz ou o avesso da co'nscienciade si he,eliana, uma vez
que esse inconsciente é sempre um acidente ou uma modalidade da
consciência; é a consciência da.verda~ reco/H'rta pelo esquecimento do
corpo, mas que permanece como tal neue esquecimento (Platlo), o in~
finitesimal da consciência demasiadame~te pequena para aer com~.
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preendida (Leibniz) ou a ~.:ou.":iência presente em si no em-sif para-si
da consciência de si, antes de descobrir-se no novo para-si da consciên-
cia de si (Hegel). foda essa tradição filosófica considera a consciência
como a vérdade de suas formas incons(ientes, ·ou seja, considera o in-
consciente com()· consciincia desconhecida. O destino da filosofia é, en-
tão, "pôr dç lado" esse desconhecimento, a fim de que a verdade seja
descoberta~ Desse ponto de vista sintomátiCo e limitado, podemos di-
~er que, em Freud, a consciência não é nunca a verdade de suas formas
inconscientes, a começar porque a relação da consciênçia com.as for-
mas inconscientes não é uma relação de propriedade (suas formas), o
que equivale a dizer: a consciência não é o sujeito do inconsciente -
tese que pode verificar-se no tratamento, durante o qual, apesar do
que já se disse sobre isso, a consciência não se apossa de novo de sua
1Wclode através de seu inconsciente. mas o que faz é contribuir parà
reordenar o dispositivo fantasmátíco num inconsciente submetido ao
trabalho (Durcharbeit) da análise.
Para terminar, gostaria de.insistir em um último aspecto. O in-
consciente freLtdiano não é tampouco uma estrutura (psiquica) não-
consâenrt que a Psicologia reconstruiria a partir dos estereótipos o u
do caráter genérico das condutas de um individuo, como se: estas fos-
sem algo como sua pré-montagem inconsciente. Na ·França, houve
uma interpretação desse tipo com Merlcau-Ponty, o quaJ/ia Freud sob
a dupla influência da psicologia do comportamento (behaviorismo) e
da filosofia do transcendental concreto de Husserl. Merleau-Ponty
tendia a pensar essa estrutura do comporta~Mnto como um a prwri t?-n-
ltpredicativo, que determinaria o sentido e a figura das condutas no
aquém de sua consciência.tética. Buscava, através dessa slntese, ou es-
truturá antepredicativa, um meio para chegar até o inconsciente freu-
diano. Semelha~tes teori~ poderiam tomar ·corpo sem recorrer expli-
citamente a Husserl, mas não poderiam pl'C8cindir da psicologia do
comportamento, ou. mais sutilmente, da psicologia de P. Janet; embo-
ra aquela estivesse .baseada numa gênese materialista dos estereótipos
da estrutura das oondutas.
. Acredito que, do ponto de vista freudiano, cabe fazer duas criti-
cas diferentes a essa tentativa. A primeira é que essa teoria do incons-
Ciente como montagem das condutas não questiona o que, como jã vi-
mos, é o·n úclco da ideologia p&icológicá: a ideologia da unidade do su-.
jeito. considerado como ·sujeito de suas condutas e de seus atos (o rato
de que se possa fazer, eventualmente, abstração da coosci~cia não
afeta esse prinéfpio de 1111idade). A segurida é que essa tentátiva não
muda de túreno ~m relaçio ao da Psioologia: ncohu, sob a forma de
unia reafidade ·a que chama tncotUci~nte, a eatrutura .das con~utas
conscientes ou nio. Pouco importa que esse recobrimento seja trans-
cendental, empfrico ou genético; o que encontra se parece mais com o

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não-consciente de que ralávamos do que com o inconsciente freudiano.
E não deve equivocar-se quanto ao inconsc:iente. Recordemos as pala~·
vras de Freud: .. Devemos usar" a moed;l vtgente no pais que e~~lQra-
.mos.., e não outra.
Dezembro de 1976. .

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