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Pe.

José Antonio Fortea

História do mundo dos

ANJOS
Copyright desta edição © Palavra & Prece Editora, 2012.
Edição brasileira autorizada por intermédio do Autor.
Título original em espanhol: História del Mundo Angélico.
Todos os direitos desta edição reservados.

Fundação Biblioteca Nacional


Depósito Legal na Biblioteca Nacional,
conforme Decreto no 1.825, de dezembro de 1907.

Coordenação editorial
Júlio César Porfírio

Revisão e diagramação
Equipe Palavra & Prece

Tradução
Laura de Andrade

Capa
Equipe Palavra & Prece
Execução: Sérgio Fernandes Comunicação
Imagens: Shutterstock

Impressão
Escolas Profissionais Salesianas

ISBN: 978-85-7763-203-9

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fortea, José Antonio


História do mundo dos anjos / José Antonio Fortea ; [tradução Laura de Andrade]. – São Paulo :
Palavra & Prece, 2012.

Título original: Historia del mundo angélico.


ISBN 978-85-7763-203-9

1. Anjos 2. Vida cristã I. Título.

12-13426CDD-235.3

Índices para catálogo sistemático:


1. Medos, síndromes e traumas : Superação : Experiências de vida : Cristianismo 248.86

PALAVRA & PRECE EDITORA LTDA.


Parque Domingos Luiz, 505, Jardim São Paulo, Cep 02043-081, São Paulo, SP, Brasil
Tel./Fax: +55 (11) 2978.7253
E-mail: editora@palavraeprece.com.br / Site: www.palavraeprece.com.br
Sumário

Prólogo..................................................................................................................................... 7

PRIMEIRA PARTE
História do Mundo Angélico
Introdução............................................................................................................................. 11
I – Como tudo começou...................................................................................................... 13
II – Fazer a vontade de Deus............................................................................................... 21
III – Adoração coletiva........................................................................................................ 25
IV – O tempo sem tempo.................................................................................................... 27
V – A misteriosa presença de Deus................................................................................... 29
VI – Deus criou seres livres................................................................................................. 33
VII – Nem tudo era perfeito............................................................................................... 35

SEGUNDA PARTE
Lúcifer
VIII – A obra-prima de Deus............................................................................................. 41
IX – O maior entre os maiores........................................................................................... 43
X – Lúcifer não orava........................................................................................................... 45
XI – As mudanças começaram após a Revelação do plano de Deus............................. 49
XII – A batalha no Céu........................................................................................................ 53
XIII – O belo tornou-se aterrorizante................................................................................ 57
XIV – Rainha dos Anjos...................................................................................................... 59
XV – Quem como Deus!..................................................................................................... 61
XVI – Trocaram o certo pelo errado................................................................................. 63
XVII – O Inimigo dispensa as graças................................................................................ 67
XVIII – Nascia uma nova ordem no Céu ......................................................................... 71
XIX – A queda da terceira parte das estrelas.................................................................... 73
XX – Satanás destilou seu veneno...................................................................................... 77
XXI – Onde estava Deus?.................................................................................................... 79
XXII – O exército do Bem................................................................................................... 83
XXIII – Os anjos caídos tiveram outra oportunidade de regeneração.......................... 85
XXIV – A expulsão dos anjos caídos................................................................................. 89

TERCEIRA PARTE
O Mal à espreita de almas
XXV – O abismo.................................................................................................................. 95
XXVI – A força do Mal........................................................................................................ 99

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Pe. José Antonio Fortea

XXVII – Anjos mortos em espírito..................................................................................103


XXVIII – Um destino sem Deus......................................................................................107

QUARTA PARTE
O Céu após a queda dos anjos
XXIX – Tempo de purificação..........................................................................................113
XXX – Quão sábios são os planos de Deus.....................................................................119

QUINTA PARTE
A história dos anjos continua... até os nossos dias!
XXXI – Há anjos em todos os lugares.............................................................................125
XXXII – A criação do homem..........................................................................................131
XXXIII – Satanás infiltrou-se no Paraíso........................................................................135
XXXIV – A vida é uma constante luta contra o exército do Mal.................................139
XXXV – Desfrute seu tempo na Terra............................................................................141

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Prólogo

Depois de dezesseis anos dedicados ao campo teológico dos demônios,


finalmente, chegou o momento de falar dos anjos. Após tanto tempo medi-
tando como empreender esta tarefa, eu decidi fazê-lo não como um ensaio,
mas derramando a teologia num leito narrativo. A narração me permite in-
fundir vida àquilo que, de outra forma, teriam sido apenas frios conceitos
e diversificadas hipóteses. Posso assegurar que há teologias por trás desse
relato da criação do mundo angélico. Alguém que não tenha lido outros
textos meus a respeito do tema poderá cair na tentação de pensar que neste
texto me dedico apenas a inventar, mas posso assegurar que toda essa ficção
não é mais do que a angiologia expressada de um modo literário. Tudo tem
uma razão de ser na ficção que proponho cujas linhas, sem dúvida, são mais
transcendentes do que a Sagrada Escritura.
A Bíblia é muito breve ao falar da criação dos anjos. A metafísica ilumi-
nada pela Escritura pode desenvolver-se, expandir-se, dando luz ao modo
razoável em que tudo pode acontecer. Esta obra nada mais é do que isto:
um esforço por expor, de um modo razoável, como pode ser a proto-histó-
ria dos anjos.
Eu não estou afirmando como aconteceram as coisas, mesmo porque não
tive uma revelação particular a respeito do tema. Apenas exponho como as
coisas podem ter acontecido. Uma forma razoável, entre as muitas possíveis,
de preencher os vazios sobre o tema nas Escrituras.
Reafirmo que esta obra não está baseada em revelações minhas nem
de outros, mas na metafísica; apenas tomo o objeto da prova dos anjos
de uma venerável tradição. Seja qual for a prova que os anjos tiveram ao
serem criados, a única certeza é a de que eles passaram por uma prova; e
aqui oferecemos uma sugestão de qual possa ter sido. Nesta história reflito

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Pe. José Antonio Fortea

inúmeras vezes como tudo pode ter sido, mas só Deus conhece o modo em
que tudo realmente aconteceu.
É claro que se alguém não estiver de acordo com algum ponto da minha
história, tem todo o direito de fazê-lo. Aliás, os anjos e eu lhes damos toda
a permissão para discernir. Talvez alguém se sinta incomodado porque uti-
lizo termos tão visuais ao falar de um mundo tão sublime, mas este texto é
como uma grande tela, um extenso ‘tímpano catedralesco’.
Ou redigia um tratado, ou edificava este autossacramental. Definir este
escrito como um autossacramental do século XXI me compraz.
No presente prólogo explico o nascimento desta obra: como um exercí-
cio narrativo-teológico que trata de explicar como puderam ser as coisas,
expressando-as com estética visual e utilizando modos antropomórficos.
Pronto para criar, imaginei o quão atraente se resultava literariamente a
criação, não só de uma história dos anjos, mas também a criação de uma
fictícia origem redacional dessa mesma história. Ao final, não ofereço so-
mente a história dos anjos, mas também a ‘falsa história’ de como surgiu
essa história.
Que me seja me perdoado este ato literário na obra estética.

Padre Fortea

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PRIMEIRA PARTE

História do
Mundo Angélico
Introdução

A nossa história aconteceu antes dos faraós, antes dos construtores dos
zigurates, antes que no deserto repousasse a areia, antes que a primeira gota
de água caísse no primeiro mar. Foi antes que o Sol brilhasse pela primeira
vez, antes mesmo que Deus dissesse: “Seja feita a luz”.
Antes da história de qualquer criatura, veio a nossa história que é a mais
antiga. De fato, esta história teve lugar antes do tempo. Antes de nossa
história, não há nenhuma história, uma vez que o Único que estava antes
de nós não tem história alguma. Deus não tem história.
Eu, um anjo, contarei a vocês, seres humanos – embora não possam
entender muitas coisas –, mesmo que tenha que recorrer a comparações
humanas para que possam compreender o incompreensível.
Inicio agora a minha história...

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I

Como tudo começou

No princípio estava o Ser, o Ser Infinito, a Trindade Sublime. Imagi-


nem Deus como sendo uma imensa Esfera de luz branquíssima. Nova-
mente, lembro-lhes de que tenho que recorrer a termos limitados, a com-
parações que comparam o incomparável. Deus não é uma Esfera, Deus
não tem forma geométrica alguma. No entanto, peço-lhes que imaginem
a minha história de uma forma visual. Imaginem o Grande Deus como
sendo uma Esfera de luz de proporções infinitas.
Essa Esfera de luz estava no meio do nada. Uma Esfera resplandecen-
te em meio à escuridão mais absoluta, a escuridão perfeita. No princípio
existia apenas essa Esfera. Ninguém a contemplava, ninguém podia vê-la,
porque não havia ninguém. Essa Esfera de Vida Trina era luz e era grande
como milhares de oceanos de luz. Era colossal como milhares de universos.
Enquanto vocês vivam, nunca poderão imaginar quão difícil é para
mim lhes expressar de uma forma simbólica o que nós percebía­mos da
parte de Deus. Permita-me utilizar a imagem de uma Esfera para falar de
Deus, a imagem de uma Esfera grandiosa, porque n’Ele reinava a perfeição,
como apenas pode se expressar na geometria. Mas, ao mesmo tempo era
limitado como o mar. O mar é estável, mas tem movimento em si. Mesmo
cheio de vida, Deus se mostrava a nós. O que nós víamos era como uma
Esfera infinita cheia de mares de vida. Por essa razão o percebíamos através
dos raios que atravessavam os véus d’Ele. Para que possam compreender

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Pe. José Antonio Fortea

o que nós víamos, a cena mais próxima é a imagem do Sol cuja luz surge
arrasadora e límpida atrás das nuvens de uma tormenta que se abre. Reu-
nindo todos estes conceitos tão pobres e vocês farão uma ideia aproximada
do que descrevo.
A Trindade da vida gritava alto em Seu interior, fluía no seio dessa Es-
fera. De repente aconteceu algo. Era a primeira vez que acontecia alguma
coisa fora da Esfera. Não podemos dizer que isso ocorreu há milhões e mi-
lhões de séculos atrás porque, de fato, não havia tempo. Mas entre aquele
antes e depois, houve mil eternidades e depois eternidade após eternidade.
Antes do primeiro AGORA, houve uma incontável série de séculos sem
tempo.
E foi assim, no momento previsto, no exato instante, antes do qual não
houve instante, que uma voz poderosa ressoou no interior da Esfera e disse:
“Faça-se!” E da Esfera surgiu uma luz. Aquele ato se assemelha de longe
a uma flor que estende suas pétalas brancas. Esse instante era semelhante
àquele quando de uma corola surgem para fora suas pétalas. Aquilo parecia
como uma explosão de luz em câmera lenta.
Se nos aproximássemos dessa luz, veríamos que cada feixe de luz estava
formado por milhões e milhões de seres angélicos. Cada natureza angélica
era como uma pequena estrela. Havia estrelas de todos os tamanhos. Cada
ser angélico resplandecia com seu próprio tom de luz; cada um emitia uma
música em particular. Se for possível usar esta expressão, cada um mostrava
um rosto espantado, felizmente perplexo, ante o espetáculo do ato criador.
Os anjos mais grandiosos se encontravam suspensos, como que tocan-
do a Esfera. Cada anjo superior tinha ao redor outros que eram menores
que ele, como planetas que rodeiam um astro. Por sua vez cada um desses
satélites tinha outros espíritos angélicos que eram como satélites dos pla-
netas. Dessa forma podíamos ver que havia centenas de hierarquias angé-
licas. Cada anjo dependia de outro anjo superior. Os anjos superiores, me-
nores e intermediários formavam incontáveis níveis, complexas rotações,

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História do mundo dos anjos

inumeráveis hierarquias, com­plicadas séries de níveis, escalões, como se


tratasse de um infinito estudo de animais.
A que compararemos a visão desse ato criador? Era como se a grande Es-
fera estivesse rodeada por cerrações. Essas névoas eram como vias lácteas.
Cada uma delas estava formada por milhões de milhares de seres angéli-
cos. Toda a Esfera estava coberta dessas nebulosidades. Algumas partes da
superfície da Esfera estavam mais densamente cobertas. Em outras, essas
nuvens pareciam como se desfiassem em direção para fora. Continuavam
surgindo mais e mais destas nebulosas desde o interior da Esfera. Era como
se do interior do ser infinito fluíssem grandiosos rios de luz. Universos e
mais universos de anjos saíam da Esfera incomparável.
Aqueles rios pareciam não se esgotar. Alguns deles surgiam com força
em direção para fora, se dobravam como atraídos pela força de atração da
Esfera da qual surgiam e retornavam a ela percorrendo a superfície inter-
minável dela. Outros rios saíam expelidos com força e se adentravam no
inferior, formando assim espirais que, por sua vez, se misturavam com
outras espirais angélicas, combinando-se em incríveis feixes de luz que se
redemoinhavam, girando ao redor de si próprios, formando centros e mais
centros angélicos.
Os rios de luz que surgiam da Esfera foram-se enfraquecendo numa
espécie de eco que se extingue cheio de majestade, assim como um órgão
catedralesco, o qual se faz pressão ao mesmo tempo, com as duas mãos, dez
notas com todos os seus registros numa magnífica harmonia, com todos os
seus tubos com total força e que logo depois de alcançar o clímax, o som
se esfuma nas abóbodas. Esse eco sinfônico foi se desvanecendo até que o
último braço de luz se descolou do oceano de luz da Esfera: a criação dos
anjos havia terminado. O último anjo tinha sido criado.
O número dos anjos era incalculável, mas houve um último anjo a apa-
recer. Dizer que eram trilhões de trilhões era pouco. Deus tinha sido ex-
traordinariamente generoso ao criar. Feliz que fossem muitos os que po-
deriam existir. Deus quis comunicar de uma forma esplêndida a alegria

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de ser. Ao serem criados aqueles anjos simplesmente recebiam o nome de


glórias, porque eles eram a glória do seu Criador.
Todos os espíritos estavam surpreendidos. Tinham sido lançados à
existência. Haviam passado do nada, a existir repentinamente. Aquilo era
como se milhões de seres tivessem acabado de despertar. Mas não estavam
sonolentos; ao contrário, mostravam-se cheios de vida. A fumaça efervescia
de vigor ao redor da Esfera de vida. A vida se agitava neles, pela felicidade
de existir.
Os espíritos se olhavam a si próprios, se conheciam e se olhavam en-
tre si surpreendidos. Como as glórias se encontravam girando ao redor
de glórias maiores, admiravam o grande anjo ao redor do qual cada es-
pírito se movimentava. Avistavam a magnitude dos gigantescos astros
angélicos. Embora as olhassem de longe, se achavam surpreendidos que
pudesse haver glórias tão descomunalmente grandes. No centro de tudo:
o divino oceano infinito de luz do qual tinham saído. Era como estar
junto às margens de um grande mar. Poderíamos dizer que estavam sus-
pensos, flutuando no ar, levitando sobre um oceano. Mas nesse caso, não
fazia sentido afirmar que se estava em cima ou num flanco daquele mar.
Não havia acima nem embaixo num universo sem referências especiais.
Unicamente aquele grande centro. Um grande centro que era essa Esfera
que parecia limitada.
As glórias contemplavam a Grande Esfera; sabiam que era uma forma
esférica. Era tão grande que eles a contemplavam como a um oceano, cujos
limites escapavam a visão deles. Esse oceano divino estava em silêncio,
todos admirados o contemplavam; constituía em si mesmo um espetáculo,
porque essa luz era amor, sabedoria, beleza, perfeição, equilíbrio, plenitu-
de. De repente, a Esfera falou. Era a primeira vez que ressoava a Sua voz
fora do Seu seio. A voz d’Ele resultou o fato mais impressionante que se
poderia imaginar. A voz de Deus se dirigindo a milhões e milhões de espí-
ritos angélicos.

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História do mundo dos anjos

Todos escutaram uma voz potente, grave, cheia de poder. Tratava-se de


uma voz que podia dobrar ferro, partir os cedros. Ainda não existia o ferro,
ainda não tinham crescido os cedros, mas se tivesse sido criado o mundo,
os pilares da Terra não haveriam resistido o poder da primeira sílaba da pri-
meira palavra. Diante da aparição da voz, todos os anjos recuaram como
aquele que é investido pelo vento.
Não se faz justiça ao dizer que era uma voz maravilhosa. Sua voz estava
dotada da maior intensidade que se poderia imaginar. Por sua vez, Suas
palavras transmitiam ternura e carinho. Eram as palavras de um Pai. Nelas
não havia nada de ameaçador. Mas sem ser amea­çadora, Sua voz era tal que
deixava claro que não admitia réplica.
Deus se dirigiu a nós. Explicou-nos quem Ele era. Expôs-nos quem éra-
mos nós; o objetivo de ter-nos criado, o que esperava de nós, aquilo que
devíamos e não devíamos fazer. Deus fez às vezes de professor, e nós Lhe
escutamos boquiabertos. A voz d’Ele nos manifestava quais eram os abis-
mos do ser, os caminhos do Bem e do Mal. A estrutura lógica do que tinha
criado e do que poderia criar. As Suas palavras eram ciência pura sem erros.
Mas não falava o tempo todo. Em Seu discurso, na Sua explicação do
Ser e do ser, na Sua explicação de tudo havia como que em uma sinfonia,
momentos de silêncio. E nos perguntava. Nós Lhe respondíamos, Lhe per-
guntávamos, individual e coletivamente. Conversávamos com Ele como os
filhos com o seu pai. Verdadeiramente era um Pai. Éramos como pintinhos
ao redor de uma galinha. Poderíamos nos sentir quentinhos sob as asas
d’Ele. Sentíamo-nos protegidos. Não tínhamos corpo, mas mesmo assim,
sentíamos o calor da Sua presença.
A imagem dos pintinhos aconchegados no seio da mãe descreve muito
bem aquele tempo feliz. Não era somente o fato de estar sob Suas asas, era
estar em Seu seio, como pintinhos completamente envolvidos no leito de
plumas.
De que poderíamos nos sentir protegidos? Como poderíamos conhe-
cer a sensação de temor? Sentíamo-nos seguros perante o vazio do nada,

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Pe. José Antonio Fortea

diante da insegurança de não saber. Ele nos dava certeza perante a dúvida.
Ele nos oferecia o firme fundamento de saber a nossa procedência, quem
nós éramos, a nossa direção e qual era o sentido de tudo. Sem Ele tería-
mos sido como náufragos no meio do vazio. Sem Ele teríamos nos sentido
abandonados no meio dessas solidões. Olhando para trás, ali estavam essas
solidões vazias e escuras. Quase dava medo olhar em direção do não-ser
de onde tínhamos saído, de onde perfeitamente poderíamos não ter saído
nunca. Teria bastado uma palavra Sua para tirar-nos do nada. Mas com Ele
não temíamos ao nada: Ele preenchia tudo.
O Mestre continuava a responder paciente e amorosamente aos Seus
filhos. Conseguia responder ao mesmo tempo a milhões de seres. Éramos
tantos e mesmo assim cada um escutava distintamente a Sua voz. Nós, as
glórias, conseguíamos escutar as palavras de muitos anjos se dirigindo a
Deus e, simultaneamente, podíamos Lhe fazer perguntas. Nós conseguía­
mos entender sem problemas no meio daquelas muitas vozes. Cada um
podia perceber mais ou menos desses diálogos, segundo o poder da sua
inteligência.
No meio daquela sinfonia, formulávamos em coro uma questão a Deus.
Mas no meio daquele coral um pequeno espírito conseguia Lhe fazer uma
pequena pergunta. Havia conversas coletivas, aconteciam conversas indi-
viduais. Outras conversas eram particulares e pessoais, devido a que era o
desejo de algumas glórias. E não fazía­mos apenas perguntas, também Lhe
dávamos graças; graças por tudo. Também conseguíamos nos comunicar
entre nós mesmos.
Os anjos mais inteligentes compreendiam melhor aquilo que a Esfera di-
zia, e o explicavam a nós, anjos intermédios. Por sua vez, nós explicávamos
detalhes aos anjos inferiores. Havia milhares de escalas naquela hierarquia
celeste. Todos entendiam o discurso de Deus, mas os anjos superiores nos
faziam ver que só tínhamos captado apenas uma parte da profundidade do
discurso d’Ele.

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História do mundo dos anjos

Nós mesmos nos instruíamos e, em conjunto, aprofundávamos o conhe-


cimento com os nossos intelectos neste oceano infinito de luz que tínhamos
na nossa frente. Cada vez mais percebíamos bem claro quem era o Criador,
a Fonte, o Sol de Santidade. Quase sem nos darmos conta, levantávamos
construções intelectuais. Éramos seres intelectuais e desfrutávamos mergu-
lhando nossas mentes nessa Esfera sem fim. Podíamos mergulhar n’Ele ape-
nas com a nossa inteligência, apenas com o nosso conhecimento. Podemos
dizer que Ele estava ali e nós aqui.
A incrível fronteira da transcendência era impenetrável. A impenetra-
bilidade de Deus que não era percebida como um muro, mas, como uma
montanha que para ascendê-la precisava-se de séculos. Nesse sentido, a
Esfera estava tão perto e tão longe. A Esfera parecia rodeada de um muro
alto como uma montanha. Possivelmente pelos séculos de ascender as suas
ladeiras, compreendêssemos que apenas havíamos começado a nossa via-
gem. Sim, a Esfera apenas era o véu da magnitude.
Ainda conscientes de nossa pequenez, quanto mais conhecíamos, mais
queríamos conhecer. Com a nossa inteligência conseguíamos percorrer esse
objeto de nosso conhecimento. Éramos como exploradores daquilo que
tínhamos frente a nós. As nossas construções lógicas, metafísicas, teológi-
cas a respeito da divindade nos deixava pasmos. Cada vez ficávamos mais
admirados do ser infinito.
Alguns de nós apreensivos diante de tanta beleza começamos a nos
organizar para Lhe dar culto de modo coletivo. Assim começou a li-
turgia celeste, como uma resposta a tamanho espetáculo da divindade.

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