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346 Outros materiais · Textos informativos complementares Sequência  1.

Poesia Trovadoresca

  Manual · p. 56

A arte de amar dos trovadores


Ao contrário da cantiga de amigo, o cantar de amor não sugere ambientes, sejam físicos,

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determinados por referências ao mundo exterior, ou sociais, resultantes da presença de perso-
nagens interessadas no enredo amoroso; não se refere à mãe, ao santo da romaria, às ondas do
mar ou às árvores em flor. […]
5 Não há espaço à volta nos cantares de amor […], mas só a voz que canta na solidão: uma sú-
plica do apaixonado para que a “senhor” reconheça e premeie o seu “serviço”; ou um elogio abs-
trato da beleza dela; ou uma descrição dos tormentos do poeta dirigida à piedade ou “mesura” da
“senhor”.
O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um “serviço”. O cavaleiro “servia” a
10 dama pelo tempo que fosse necessário para merecer o seu galardão. Consistia esse serviço em
dedicar-lhe os pensamentos, os versos e os atos; em estar presente em certas ocasiões; em não
se ausentar sem licença, etc. O servidor está para com a “senhor” como o vassalo para com o
suserano […].
A regra principal deste “serviço” era, além da fidelidade, o segredo. O cavaleiro devia fazer os
15 possíveis para que ninguém sequer suspeitasse do nome da sua senhora, indo até ao sacrifício
de se privar do seu convívio, ou de se fingir apaixonado por outra. […]
Na grande maioria das cantigas de amor, os requerimentos assíduos do “servidor” visam
conseguir da “senhor” uma coisa que se designa pela expressão “fazer bem”. É fácil compreen-
der o que significa este eufemismo […].
20 Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a distância a que o
amante se coloca em relação à sua amada, a que chama senhor, tornando-a um objeto quase
inacessível; a atitude é a de uma espécie de ascese1 abstinente, seja qual for a realidade a que as
palavras servem de cortina. A regra do segredo não é só, porventura, uma precaução exigida por
amores clandestinos, numa sociedade em que o adultério era punido por lei constantemente
25 transgredida, mas uma regra ascética que tornava o amor mais intenso quanto mais solitário e à
margem da sociedade. O amor trovadoresco e cavaleiresco é, por ideal, secreto, clandestino e
impossível. […] Nisto, os cantares de amor distinguem-se como o preto e o branco dos cantares
de amigo. […]
Fortalecido pelos obstáculos, o amor apura-se ao calor de um longo sofrimento, que os poe-
30 tas comparam com a agonia da morte. O amor e a morte aparecem constantemente associados
nos cancioneiros. Essa morte é a própria vida, porque o sofrimento amoroso dá à vida a intensi-
dade máxima.
SARAIVA, António José, 1998. O Crepúsculo da Idade Média em Portugal.
5.ª ed. Lisboa: Gradiva (pp. 21-23 e 26) (1.ª ed.: 1990)

1. devoção religiosa.
fotocopiável

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