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Cartas Interraciais

Publicado: 14 de outubro de 2015 em Feminismo, pessoal, Sociologia

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Ocidente, 5 de janeiro de 1885
Querida Zu,
Desde que você saiu da nossa casa, eu me sinto numa solidão devastadora.
Quero que saiba que eu não concordo com a atitude da minha família, em
especial da minha mãe. Sua família trabalha para a nossa há tantas décadas,
prestando preciosos serviços de forma leal e abnegada. Eu disse para a minha
mãe o que seria do casamento dela sem você e anteriormente sua mãe. E até
mesmo dos estudos meu e do meu irmão pois era sua mãe que nos vigiava
fazendo lição e nos levava até a porta da escola. E nos buscava também.
Quantas vezes a odiei por isso, confesso, mas se não fosse por ela, eu passaria
a perna em mamãe e ficaria nadando no lago, ao invés de ir para a escola. E
agora ela te coloca na rua simplesmente porque já não é mais bonito criados
negros em casa? Achei isso tão cruel! Agora com a imigração latina colocar
vocês na rua…
Você e sua mãe contribuíram de uma forma que ninguém nunca fez na minha
família. Suas ideias geniais e os conselhos da sua mãe… Como eu sinto falta
dos passinhos de dança, das nossas coerografias. Da gente contando as
estrelas e você me dizendo que tudo aquilo no céu era literalmente o
passado. O primeiro e mais antigo filme do planeta, você dizia. Não sei se
sobreviverei sem vocês. Sorte a minha que agora tenho o Afonso, meu noivo.
Você se lembra dele? Acho que não. Ele vinha aqui poucas vezes visitar o
papai. Ele me trata muito bem, sinto-me amada. Não vejo a hora dele me tirar
desta casa e de toda a hipocrisia.
Você tem razão, Zu, há algo de muito errado nesse mundo.
Ocidente, 20 de janeiro de 1885
Querida Alvina,
Fiquei muito feliz de receber sua carta. Na verdade, ela está enrugada e
manchada pelas minhas lágrimas, como se fosse o espaço deformado pela
massa de uma partícula. Eu ri quando você me falou das estrelas. Como eu
sinto falta de ter tempo para olhá-las. Na maioria das noites eu só quero deitar
sobre o meu colchão e esquecer que terei que acordar cinco horas depois.
Graças ao bom Deus, estou trabalhando em dois empregos. Se não fosse isso,
eu não poderia pagar o aluguel do quarto do pensionato. Aqui há refeição, mas
é mais cara que o próprio quarto, então eu não tenho me alimentado bem pois
não temos cozinha. Eu e minha família moramos há… duzentos anos na casa
da sua família. Assim me contava a mamãe. E, bem ou mal, tínhamos o que
comer daí. Confesso que já provei até do caviar de seu avô. Algumas
bolinhas… Mas odiei e limpei a língua no avental. Sinto falta do Júpiter,
como ele está? Chorei muito, você viu, quando eu soube que podia nunca
mais vê-lo. Eu, tola, me achava a dona daquele doberman, afinal, sua mãe
deixou eu escolher o nome dele quando ele chegou tão filhote… E você sabe
que ele era apegado a mim. O que eu não daria para lhe dar um último
banho…
Mamãe passa o dia fora porque, como não temos casa, só um quarto sem
janela, ela precisa ficar vigiando as roupas escorando nas pedras contra o sol.
Com essa onda de bebês nesta vizinhança, há muita demanda, graças a Deus, e
ela recebe muitas fraldas. Isso permite que compremos bife, uma vez ao mês.
E até açúcar branquinho… como era na sua casa… Às vezes tomo o café
amargo só para poder ter o privilégio de sentir o cubinho derretendo na minha
língua.
Sobre a nossa demissão e a imigração de latinos, sinto muito em discordar, as
coisas não foram assim. Primeiro que nosso regime de trabalho não era
remunerado. Minha família foi comprada pela sua para servirmos em todo tipo
de serviço. Forçado. Escravo. Meu avô foi um dos que trabalhavam no
canavial do seu bisavô, sob açoite e ferro quente. Ele tinha doze anos quando
começou. E, junto com os outros crioulos, plantava a cana e produzia o
açúcar. Na época mascavo, da cor da minha pele. Hoje branco, como a sua.
Sua família, pelo que vi nos quadros pintados, triplicou a fortuna com o
negócio das canas. E agora as leis mudaram, por pressão dos ingleses, e sua
mãe tinha que nos pagar um salário… Bem, acontece que já que é para pagar
os criados que se pague por algo mais estético. Latinos são muito mais
parecidos com vocês do que a gente. Dizem que a gente é um tipo de macaco.
Mas eu tenho lido que nós somos idênticos a vocês por dentro. E eu só tenho
conhecido negros inteligentes e criativos. Não querendo ofender, mas eu não
via tanta criatividade e sabedoria no pessoal da sua família e nem nos
convidados das festas.
Sinto falta das festas… De bebericar os restos das taças de champagne. Eu
adoro champagne, você sabe. Se lembra quando tomamos um tequinho juntas
apanhando do seu avô?
Feliz por você ter encontrado um grande amor. O único Afonso que eu
conheço era o seu Afonso, mas ele tinha já trinta e tantos anos. E nós temos
14. Não pode ser esse.
Eu acho que nunca namorarei alguém, você sabe… Isso às vezes me faz
chorar. Penso em ceder às vezes minha virgindade para os homens que pedem,
mesmo sabendo que depois correrei o risco de nunca poder me casar. E se de
fato eu nunca me casar mesmo? Nenhum rapaz olha para mim, só os homens
mais velhos e já casados. E me dizem as coisas mais nojentas.
Ocidente, 15 de janeiro de 1910.
Querida Zu,
É este mesmo o meu Afonso. Nos casamos e a festa foi linda. Queria que você
visse o meu enxoval. Quando estou cozinhando aos domingos, me lembro das
nossas lições da escola. Sempre te admirei porque você nunca pode ter uma
escola e ainda assim estudava comigo. Aquilo sempre me soou como um mau
gosto seu, pois eu daria tudo para ser como você e não ter que ir para a escola.
Que irônico, não? E você sempre lia os livros antes das aulas terminarem.
Pode me chamar de exagerada, mas sinto que se fosse permitido, você poderia
frequentar a universidade onde meu irmão hoje está. Sua formatura será em
junho. Mais um advogado na família.
Vovô faleceu e papai decidiu sair do ramo do açúcar. Abrimos uma loja de
sapatos, no meio do centro da cidade. Você já foi lá? Você não vai acreditar,
mas eu andei num daqueles cavalos motorizados. Automóveis. Bem no dia do
meu casamento. Afonso comprará um em breve.
Pensei no que você disse sobre as latinas e não contratei uma. Nossa
empregada é mulata. Somos também grandes amigas. Lola o nome dela. Você
a conhece? Ela é mais clara que você e o cabelo dela é cacheado, mas tem
sido difícil encontrar crioulas. Parece que nossas raças estão se misturando.
Quem diria? Eu acho isso lindo. Afonso é branco mas eu também sou
cortejada por rapazes negros e alguns deles são lindos. Segredo nosso, mas às
vezes me pergunto se minha vida embaixo dos lençóis não seria mais feliz
com um marido negro. Minha família jamais aceitaria e eu perderia minha
herança.
Como sua mãe está? Você falou em bebês e eu tenho revisado meu plano de
ter sete filhos. Acho que três já estaria bom. Eu vi sua foto que você me
enviou e vi seu cabelo, ele está lindo! Acredito que agora já arrumou um
bocado de pretendentes. Espero que você se case logo, minha amiga, para que
um homem possa te dar o conforto que merece. Eu faço questão de comprar o
enxoval. E mandar meu pai fazer o sapato. Fazemos também sapatos de
noivado. O meu foi feito lá. Fazem tanto sucesso que estamos pensando em
abrir uma filial.
Ocidente, 30 de janeiro de 1910.
Querida Alvina,
sua carta me desconcertou apesar da minha ansiedade em abri-la. Você é a
única pessoa que me envia cartas. Mudei de endereço, ao final desta te passo.
O aluguel subiu, mamãe está doente, precisávamos de um lugar maior, só
nosso, para ela lavar roupa em casa. Tenho certeza de que se eu conseguisse
comprar uma daquelas máquinas que passa a linha sozinha na roupa, mamãe
teria muitas clientes. Nossa casa agora é de graça, mas é no morro.
Você andou de carro? Eu só vi um carro de perto uma vez. Duas na verdade.
Não ficou enjoada? Mamãe diz que aquilo causa enjoo e traz cegueira. Eu
disse a ela que deve ser como andar de trem ou bondinho. Nunca andamos de
bondinho. Nem cavalos temos, na verdade. No mundo somos só eu e ela.
Estou muito preocupada com ela. Mamãe é a minha maior preocupação. Ela
reclama de dores e a bebida é o que possibilita ela de dormir. Não podemos
pagar médico.
Sim, meu cabelo tá esticado, mas ele nunca passa do ombro porque quebra.
Todos os dias levo uma hora diante do espelho e mesmo assim meus cabelos
não ficam iguais aos seus. Os homens percebem que eles são ruins. Mas sinto
que por isso arrumei um emprego melhor, na lavanderia, aqui perto.
Fiquei toda boba quando você disse que eu poderia ir para a universidade.
Mas mulheres não podem. Talvez se eu fosse homem. Você sabe como faz
para fazer faculdade? Acho que precisa ter diploma… Bem, você sabe que
nunca fui para a escola. Nenhuma pessoa negra pode ir para a escola na
verdade, nem os homens. Falando nisso, você acha que um dia poderemos
votar? Meu tio foi votar, mas na fazenda onde ele trabalha e teve que escolher
o delegado daqui como prefeito. Isso não me parece liberdade.
Alvina, querida, sei que é minha amiga e não faz por mal, mas me trouxe uma
sensação ruim você dizendo “crioula”. Peço que não faça mais isso. Sério, a
sensação foi horrível. Mamãe vive dizendo isso, a gente fala o tempo todo,
mas nunca soou ruim como soou na sua carta.
E sobre o homem negro… Deu a entender que só te faz falta um homem que
saiba trepar direito. Que tenha a ginga de um crioulo, e o pau também. Não é
por isso que os homens também querem algumas mulheres, só para lhes servir
sob os lençóis? E no resto do casamento, você amaria seu marido negro? E,
sim, sua família jamais te daria sua herança para viver com um negro. Eu
nunca vi isso. Você falou em mulatas, e elas são pobres, por isso sua
empregada mulata te serve, porque ela é pobre. E ela é pobre ou porque uma
negra foi usada na cama por um branco e abandonada com uma filha bastarda,
ou porque uma branca se aventurou com um negro. Casar com homem negro é
migrar para a pobreza. E como eu sei que você ama sua vida de conforto, com
os seus enxovais caros, e quem sabe um automóvel, você só ficaria com um
negro na cama, para experimentar. Não sou moralista, mas se seu marido
descobrisse você pode até apanhar.
Eu não sou mais virgem. Já fiquei com muitos homens. Mamãe reclama que
eu uso roupa assanhada para isso mas é a pura verdade. Exibo minha carne
para eles se interessarem, pois quando estou com roupa de igreja, tal como as
que você usa, eles nunca me olham. Mas eu faço isso por carência profunda,
para fingir que sou querida. Na minha primeira vez, um homem colocou um
travesseiro no meu rosto. Meu apelido na antiga rua era Raimunda. Já ouviu
essa expressão? Eu transei com homens negros e homens brancos. A desilusão
é a mesma. Grandes ou pequenos, a sensação de ato desprovido de sentido e
finalidade é a mesma. E eu sinto a mesma vontade de que acabem rápido. Daí
finjo que acabou para mim para que eles gozem logo, em cima de mim. Morro
de medo de ficar grávida. Mamãe teria um desgosto. Ela se preservou para o
meu pai. Mas naquela época mulheres brancas jamais namoravam homens
negros. Eles eram escravos. Hoje está impossível competir com latinas e
brancas. Inclusive índias.
Mas eu também não sei o que estou buscando já que é cansativo fingir tudo
aquilo que finjo, principalmente ser burra.
P.s: Eu li que a palavra mulata foi cunhada pelos seus ancestrais fazendo
analogia às mulas. Você sabe o que é uma mula? Depois dê uma olhada na
biblioteca perto da sua casa. Eu tenho tido o prazer de ler livros que encontro
jogados nas lixeiras e por isso descubro coisas que eu jamais poderia ter
acesso.
Ocidente, 11 de março de 1940.
Zu, querida!
Que emoção em te escrever esta carta. Estou tão animada. O mundo está
melhorando para nós mulheres e agora podemos trabalhar fora. Eu revalidei
meu diploma, fiz um curso de datilografia, fiz um currículo e arrumei um
emprego num jornal.
Você tem me ajudado tanto. Eu quero te arrumar uma vaga aqui. Você já tem
o diploma? É só isso que exigem. Você me ajudou tanto nesse processo, você
não faz ideia. Eu entendi que eu simplesmente não valorizo as coisas que eu
tenho, enquanto você nem acesso a elas pode ter. Aquela história dos livros na
lixeira me trouxe lágrimas. Aliás, antes de tudo, mil perdões por usar aquela
palavra. Levei dias, confesso, para não julgar como exagero e implicância sua,
até que ouvi um homem falando naturalmente sobre as vadias dele. Eu não
mereço o ar que respiro por todas as vezes que usei a palavra… Enfim, me
envie seu currículo. Mesmo se for nível fundamental, a vaga de auxiliar é sua.
Tenho certeza que o salário vai te agradar e juro que você trabalhará pouco.
Aqui exige-se roupa um tanto distinta. Sabendo da sua labuta, cogitei que
você não tem muitas roupas assim. Mas eu posso te doar. Roupas são o de
menos, acredite.
Eu também morro de medo de engravidar, isso estragaria a minha carreira. E
raramente cedo às investidas do Afonso. Minha sorte é que o pau dele quase
não funciona. Não vou mentir, já o traí muitas vezes, com homens diferentes,
em busca da pica de ouro. Acho que ela não existe pois todas as mulheres do
meu clube de leitura confessam o mesmo. Aliás, você iria adorar elas. Eu falo
muito de você.
Estou com pressa, preciso levar esta carta até os correios antes que eles
fechem. Não quero adiar para amanhã até mesmo porque estarei presa no
trabalho.
Eu chorei com o que eu li sobre o travesseiro. Estou eufórica e aparentemente
em descaso com tudo que você disse mas não foi nada disso que aconteceu
quando eu li. Eu sou mulher, como você, Zu. Afonso nunca colocou um
travesseiro na minha cara, homem nenhum, na verdade. Mas às vezes ele quer
que eu fique de quatro, não tem olho no olho. A minha dor o excita. É terrível,
torna aquele processo, como você bem definiu, já desprovido de finalidade,
mais cruel ainda. Estou com vinte e dois anos, Zu. E o Afonso na casa dos 40.
Sinto que não resistirei a mais anos ao lado deste homem. Eu estou velha já,
mas penso muito em viver só do meu trabalho. Quando você começar a
trabalhar fora de casa também vai saber o que é ser chamada de vagabunda só
por ousar não ser a eterna dona de casa. A Lola me ajuda demais em casa.
Hoje ela é como se fosse da família. Mas nos fins de semana ela folga, e eu
tenho que fazer tudo sozinha, mesmo ele estando em casa. Isso me desgasta.
Você acredita que ele me bate, às vezes?
Desculpa jogar meus problemas assim, nas suas costas. Espero que esteja
bem. Saudades da sua mãe. Mande um beijo para ela. Me responda urgente,
com seu currículo!
Ocidente, 02 de abril de 1940.
Zu, querida.
Que pena você não ter nem o primário. Acho que isso é um círculo vicioso, já
pensou? Você não teve escola, hoje trabalha fazendo faxina… Estive
pensando na sua situação… Mas queria tanto você perto de mim. Temos uma
vaga de copeira aqui. Daria no mesmo que o seu emprego atual, eu sei, mas
sua mãe está desempregada. Mande ela até o jornal e a vaga é dela, garanto.
Desculpa ter inferido que você nunca trabalhou fora de casa. Eu que nunca
tinha trabalhado antes. Estupidez minha, mais uma.
Esqueci de dizer que estou concluíndo a faculdade de jornalismo.
Vai tudo dar certo para a gente. Girl Power! rsrs
Ocidente, 18 de agosto de 1965.
Zu, estou enviando a receita de rabanadas que você pediu. Espero que esteja
tudo bem. Te amo, minha amiga.
Ocidente, 11 de março de 1990.
Querida Alvina,
Eu li seu artigo sobre racismo, denunciando as condições das lavadeiras
negras do Pelourinho. Vejo também que você tem feito palestras sobre
racismo e tendo tido muita visibilidade. Você não acha isso simplesmente
sintomático? Sabe quantas mulheres negras escolarizadas e intelectuais temos
para falar sobre o racismo só em nossa cidade? Eu fui à sua última palestra e
me incomodou aquele cenário, só branco discutindo racismo. Eu sei que você
tem ganhado muito dinheiro com o seu livro contando a história da minha mãe
na sua família. Vi como você se retratou como heroína. Mas nunca pensou em
sequer dar aquela máquina de costurar para a minha mãe, pelo menos, sendo
que uma máquina daquela, naquela época, reduziria e muito todo risco social
que sofremos, pois tudo que tínhamos era gana e muito que nos faltava eram
recursos e oportunidade.
Você poderia também ter custeado meus estudos, para eu ter um diploma.
Bem, de qualquer forma, eu soube da sua palestra porque eu sou caloura
daquela universidade. Estou com vinte e nove anos mas animada com a
faculdade. Também jornalismo, igual a você.
Ocidente, 31 de março de 1990.
Zu, querida,
Amo conversar com você pois você sempre me faz ver as coisas com mais
clareza. Tens razão nas coisas em que me acusas. Nunca ajudei vocês, mesmo
podendo. Nunca restituí tudo que fizeram por mim e pela minha família.
Editarei o livro, prometo.
Estou com uma coluna sobre minorias e gostaria que você me concedesse um
texto seu para eu publicar lá sob o seu nome. Na correria ainda, por isso não
posso me estender. Vibrei quando soube da sua faculdade. Quando estiver
para fazer estágio, me avise pois aqui no jornal estamos sempre contratando
estagiários.
Ocidente, 03 de agosto de 1993.
Zu, querida,
Que vergonha sinto da atitude do RH daqui. É só uma vaga de estágio. Mas
esses desgraçados não largam o osso! Já ouvi falar pelos corredores que seria
um absurdo a filha da copeira estagiar aqui. E você é tão competente, mais do
que eu. A Torre poderia crescer tanto com a sua critividade. Eu estou
inconformada com tudo que aconteceu. Eu não esperava por essa. E sua roupa
estava ótima, você tem dois idiomas além, e aquela menina, branca, tem mal o
inglês. Deixe estar que você arruma logo logo algo melhor do que eu tenho
aqui, nesse jornal de quinta.
Hipócritas! A história da sua mãe não rendeu lucros só para mim, mas para a
editora deles. Absurdo isso!
Ocidente, 10 de outubro de 1999.
Querida Alvina,
sim, ainda estou dando aula no colégio. Não me sobra tempo para nada. Então
fazer pós-graduação…? Eu não tenho dinheiro para pagar uma pós. E nem
conseguiria uma bolsa. Eu já tentei. Fora que eu preciso me manter. Mamãe
está bem idosa e metade do meu salário como professora vai para o plano de
saúde dela.
Ocidente, 07 de março de 2001.
Querida Alvina,
sim, ainda estou naquele colégio. Eu não tenho diploma de licenciatura, não
posso tentar concurso como me sugeriu. Me formei em jornalismo, não passei
do estágio. Quem me dera poder abrir meu negócio, mas não tenho capital. Eu
li seus três últimos livros. Seu trabalho está maravilhoso. Vi também você no
programa de TV. Você agora é feminista… Eu também acho que a gente deve
ter tantos direitos quanto os homens, mas já pensou que hoje é melhor arriscar
nascer mulher branca do que homem negro? Não sei, isso me passava pela
cabeça.
Fiquei feliz com o seu convite para a festa de aniversário do seu casamento.
Você e o Antônio estão casados há tanto tempo e eu nunca o vi..
Ocidente, 31 de março de 2001.
Oh, Zu,
sinto muito a forma como o Antônio te tratou. Eu não conhecia essa face dele.
Sim, tem razão, ele não trata assim nenhuma das minhas amigas. Ele chegou a
dizer que você tem inveja de mim, do nosso casamento e outras coisas
horríveis que não merecem ser repetidas. Ele e a família dele é muito racista.
Estou muito decepcionada. Espero que ele melhore.
Ocidente, 07 de setembro de 2003.
Querida Alvina,
Desculpe ter saído cedo da reunião com as suas amigas feministas. Você disse
que a Débora era legal, mas ela mal me olhava e mantinha uma postura blasé
para tudo que eu dizia ou que você dizia sobre mim. Eu entendo que você ame
as suas amigas, mas eu noto um tratamento diferenciado comigo. Há três anos
você fala delas, e elas não foram nada do que você descreveu. Antes eu
acharia que o problema estava em mim, e eu faria de tudo para me mostrar
simpática e agradável. Aos trinta de seis anos não tem mais como eu ser
assim.
Seu novo namorado também pareceu fazer pouco caso de mim. E ele nunca
leu nenhum dos seus livros. Percebi isso ao falar da minha mãe, a heroína do
seu primeiro romance.
Ocidente, 07 de setembro de 2003.
Zu, querida,
não me cabe tamanha vergonha por essas coisas. Não vou te desmentir pois eu
também percebi o seu desconforto e a mudança delas. Acho que se deve ao
texto que você escreveu sobre mulheres brancas e o privilégio de empregadas
domésticas. Algumas te acusaram de ser agressiva. Elas não te conhecem
como eu conheço e sei que você é um doce. Mas marcaremos um segundo
encontro. Talvez seja um mero choque cultural, e a corda sempre rompe para
o lado mais fragilizado. Te peço uma segunda chance pois elas são mesmo
boas moças. Só se você quiser, claro.
Ocidente, 08 de setembro de 2003.
Alvina,
estou muito chateada. E não acho que eu preciso ser um doce, apesar de ter
sido educada e tolerante à toda a situação, para ser tratada com igualdade. Sei
que para você elas te mostram uma face que te faz se sentir segura, mas para
mim a face é outra, sem máscaras. Não vou te iludir, eu já esperava esse tipo
de recepção. Só me forcei a isso por você. Mas aceito um segundo encontro.
Ocidente, 15 de abril de 2004.
Zu,
Nem sei o que dizer. Todas desmarcaram e bem em cima da hora. E você
disse certo, elas nunca foram de faltar às reuniões, muito menos todas ao
mesmo tempo. Nem eu consigo me enganar mais, só dizer que sinto muita
vergonha por tudo isso. Minha intenção nunca foi te colocar numa situção tão
constrangedora.
Também estou uma pilha de nervos pois sinto que serei demitida por aquele
texto seu e a queda dos acessos à minha coluna…
Ocidente, 08 de setembro de 2010.
Alvina,
É com grande tristeza que admito que não dá para sermos amigas, Alvina.
Não por você, mas por saber que eu jamais poderei me integrar ao seu mundo.
Suspeito que você mesma criaria muitos inimigos me incluíndo no seu meio.
Vamos desfazer essa fantasia e seguirmos nossos caminhos de forma separada
pois um dia eu sei que você cansará de tentar andar ao meu lado e contabilizar
todas as pedradas que recebo todos os dias e vindo dos seus. Obrigada por ter
publicado mais um artigo meu na sua coluna, mesmo isto tendo causado tanta
revolta dentre seus leitores. Não quero que seja demitida por minha causa.
Adeus,
Zu
Ocidente, 14 de outubro de 2015.
Alvina,
É madrugada e eu não consigo dormir de tantos problemas. Mamãe está
doente e o plano de saúde quase dobrou o valor como presente de aniversário.
E os remédios são tão caros, se não fosse você nos ajudando, a realidade seria
que não teríamos nem comida na mesa. E não nos alimentamos bem.
Eu me permiti chorar após tantos anos. Eu estou cansada. Temos a mesma
idade mas eu me constranjo em parecer mais velha.
Eu chorava e senti falta de chorar para alguém, para Deus, pelo menos. Eu
teria que inventá-lo já que há anos perdi a fé. Não tem como eu acreditar em
nada, exceto o que vejo, que nasci com muito azar em ter nascido mulher e
negra.
Mamãe dorme no quarto, sedada. E desconfio que suas dores e seu endema
nos pés se deva aos anos trabalhando esfregando chão. Eu queria muito levá-
la para viajar, viver um pouco aquilo que vemos na televisão. Mas no nosso
bairro não tem nem um parque, ou pelo menos segurança para transitar pelo
asfalto sem medo. Quando não estou dando aula no colégio, eu vivo trancada
em casa.
Eu me sinto abençoada por pelo menos não ter um filho. Eu nunca te contei,
mas eu engravidei duas vezes, e abortei nas duas vezes. Nas duas quase morri.
E fiquei estéril. Se eu não tivesse ficado estéril acho que teria engravidado
novamente, sob a crença de que era obrigação minha ter um filho pois a idade
já tinha chegado e eu ousava não ter fardo. Os homens negros eram os que
mais me cobravam isso, acredita? Por eu ser negra retinta. Mas, eu não
cheguei a te contar sobre os abortos e nem sobre os anos que passei chorando
por me sentir culpada e assassina. Eu pedia perdão a Deus e tudo que
acontecia comigo de ruim eu culpava a essa ação. Eu passei dez anos me
culpando muito, Alvina. E por vezes você falava em aborto com naturalidade.
Você nunca precisou fazer um. Só pensando sobre o que era mesmo um
embrião, a vida, a consciência, que me redimi do açoite que eu me dava todas
as noites. Hoje me parece surreal o quanto eu me odiei sem motivo. E hoje eu
estava pensando nisso, enquanto chorava, que já não era pela culpa insólita de
dois abortos, mas pela minha solidão. E magoada contigo, pensei que amiga
ruim você foi em não me ajudar a desconstruir aquela culpa mais cedo. Mas
lembrei que você se casou com 14 anos. E só aos 20 anos que você parou de
ver aborto como um crime. Quando você falava, eu nem queria ouvir. A fé era
uma prisão muito mais forte em mim do que em você. E se você insistisse, a
gente brigaria, talvez não seríamos mais amigas.
E então pensei na gente, na última vez que nos vimos.
Sabe aquele abraço demorado? Aquele abraço legítimo, não meramente
formal, que se completa com um suspiro de satisfação? Você me abraça
assim. E, Alvina, eu sinto vergonha em admitir que você é a única pessoa do
mundo que me abraça assim. Nem mamãe faz essas coisas.
E sabe o volume de dores que sinto? Você é a única que se presta a ouvir e
que se comove. E relendo as nossas cartas, eu li que você é a única que tenta
mudar.
Não é porque eu lido com poucas pessoas, Alvina, eu lido com centenas de
pessoas, sou uma mulher vivida. Você é a única pessoa que me manda cartas.
Que pergunta coisas sobre a minha vida. Que pondera minhas visões. E que
tenta mudar. E eu vejo você mudando. Daí, conheci as suas amigas,
feministas, como você, e vi que nem todas são como você, nem as que andam
como você.
Está faltando em demasia pessoas com empatia genuína neste mundo, Alvina.
Fixe bem o que estou te dizendo.
Eu simplesmente não achei justo te colocar numa classe X e te condenar,
ignorando o quanto você é muito diferente dessas pessoas, o quanto você se
esforçou. E o quanto o mundo seria tão, mais tão melhor, se pelo menos vinte
por cento fossem errantes no seu nível. Dez pelo menos, e eu não me sentiria
tão intoxicada.
Quando eu e mamãe fomos chotadas da sua casa, foi injusto, tudo foi injusto e
cruel. Mas você foi a única a nos escrever cartas. Você só tinha 14 anos. E
suas cartas persistiram. Mesmo você ganhando nada com a minha amizade.
Eu não era rica, bonita e nem sequer dócil. E você foi se libertando dos seus
problemas, que também são os meus, e foi tentando acertar comigo. Sempre
me ouvindo, me escrevendo de volta, e recebendo minhas críticas com
acolhimento. Não importa quão duras eram.
E eles dirão “Ah, não fez mais do que a obrigação”. Mas quantas pessoas são
como você, Alvina? Nem eles são. Quando eu digo que ninguém nunca me
tratou como você me trata, eu me refiro ao número zero. Ou zero ponto zero.
Mas sendo mais precisa, a conta tá bem negativa.
Eu me pergunto, se eu fosse branca, como você, eu seria como você ou igual
às suas amigas? Ou seus maridos? Ou sua mãe? Eu não sei, Alvina, eu não
nasci como você. Não posso falar sobre aquilo que nunca tive oportunidade de
me provar. E muitos que sofreram o mesmo que eu, quando emergem, ou com
um mínimo de oportunidade, pisam.
Julgando um ser humano individualmente, eu julgo pelo quê? Afinal, a gente
só pode fazer o bem e tentar acertar quando somos abastados? Se eu espancar
uma criança estou perdoada por ser negra e pobre? E os que não fazem nada
disso mesmo diante da miséria e desespero? É justo colocar todo mundo no
mesmo saco de julgamento só porque dividem da mesma condição miserável?
É justificável traição em situação de penúrio? E os que mantém a empatia e
repartem aquilo que já lhe é pouco?
Se eu tratar os sem empatia como iguais aos com empatia, Alvina, como as
pessoas se sentirão motivadas a serem melhores, já que tanto faz ser bom ou
ruim, importante é ter desculpas?
E mais do que suas palavras, seu interesse por mim, e suas ações, seu abraço,
tão genuíno, e tão raro em minha vida, é o que mais ficou marcado em mim.
Porque, veja bem, é a coisa mais primordial que alguém pode ceder sem
desculpas. Não sabe escrever, não sabe falar direito… mas pode dar um
abraço… sincero. Genuíno.
Sinto muito pela sua demissão, você sabe que a culpa não foi minha. Espero
que canalize sua revolta para as verdadeiras responsáveis. Mas peço
desculpas, de coração, por ter ousado jogar você na mesma lata onde eu
coloco as pessoas mais desprezíveis e que nunca nada me deram em troca.
Me perdoe e me abrace apertado. Até o fim.
Sua amiga Zu.

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Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. :)